AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 10, 2016 9:34 am

O rei sempre suspirava aliviado quando a mãe tomava as decisões por ele.
Lua de Prata sorriu e falou para os filhos:
— Vamos ver nosso povo!
Lucília ficou feliz.
Iria ver a filha e os netos.
Passava do meio-dia quando um barco foi jogado nas águas e alguns marujos se dirigiram à praia.
Voltaram com várias canoas preparadas para ajudá-los e de máscara.
Levavam consigo outras, inclusive para as crianças.
Anoitecia quando terminaram o desembarque.
Os marinheiros e alguns homens ficaram no navio para iniciar logo cedo o trabalho de reparo.
Todos foram bem acomodados, e o cacique, pessoalmente, deu-lhes as boas-vindas.
Nada faltou a ninguém.
No dia seguinte, após o desjejum, algumas mulheres aproveitaram para conhecer o outro lado do rio com Lua de Prata, enquanto Lucília II, com a mãe e o irmão, foi até à praia.
As crianças brincavam com as outras da aldeia. O rei e Raio de Sol conversavam.
—Vou apreciar um pouco a paisagem.
Nunca vi tantas flores na primavera — Loretta falou ao filho.
Andava despreocupadamente.
Tudo era muito bem cuidado, parecia um paraíso.
O cheiro das flores penetrava em seus pulmões.
Nunca sentira um odor tão bom em toda a vida.
Pássaros sobrevoavam o caminho.
Parou em uma entrada que parecia um túnel feito por árvores floridas.
Sabia não estar longe da aldeia, pois ainda ouvia as crianças gritando, e resolveu entrar para ver o que seria.
Ficou deslumbrada.
Era um jardim que se abria em forma de estrelas; as flores ali plantadas eram belíssimas, beija-flores e borboletas misturavam-se com as cores das flores e folhas.
Alguns bancos de pedra e de madeira rodeados de plantas ornamentais enfeitavam o ambiente.
Nunca vira coisa igual.
Como poderia uma aldeia ter um jardim daqueles?
Aquilo era obra de um arquitecto maior.
Se o rei visse aquilo!
Por que Lua de Prata não comentava sobre as riquezas da aldeia?
O que mais teria ali que eles desconheciam?
Sentou-se em um dos bancos e ficou olhando ao redor, tudo cercado de árvores baixas.
Tirou a máscara.
Nunca havia sentido o cheiro de mel e flores juntos; era muito agradável.
Percebeu uma porta de saída formada por flores brancas.
Indo até lá, abaixou-se devagar e viu outro pequeno jardim.
No centro dele, havia uma enorme pedra branca e alguns degraus também feitos de pedra.
Olhou para o alto da pedra.
Sua altura era mais ou menos de uns sete metros.
O que teria lá em cima? Era um observatório.
Tirou os sapatos, decidindo:
"Vou subir, isso é algo fantástico".
Silenciosamente e com muito cuidado, subiu até o último degrau e deparou-se com uma área de cerca de dez metros quadrados.
O cacique estava sentado em uma das pontas da pedra.
Ser voltar-se para trás, perguntou:
—Deseja alguma coisa, rainha?
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 10, 2016 9:35 am

Embaraçada, ela respondeu:
—Perdoe-me, cacique, estou realmente encantada com que acabo de ver.
No alto da rocha havia vários bancos de pedra marcados com símbolos.
O cacique então convidou:
—Rainha Loretta, sente-se, por favor, em um dos bancos, de preferência no centro.
Você não me pegou de surpresa, mas estou sem máscara e percebo que também deixou a sua lá embaixo.
Loretta sentou-se, trémula.
Como ele via tudo isso se estava de costas?
"Ah, claro!", pensou.
"Naturalmente ele me observava enquanto eu chegava até aqui."
—Perdoe-me, cacique, não tive intenção de causar-lhe aborrecimentos.
Ele então se virou, e Loretta só teve tempo de abrir a boca e balbuciar "Raa...".
Tombou, amparada por ele.
Raul estendeu o corpo dela sobre o banco e esfregou-lhe algo nos pulsos.
Colocou algo em seu nariz, e ela recobrou os sentidos.
Aos poucos, abriu os olhos, ainda chocada.
Ele estava ao seu lado, segurando-lhe a mão.
Loretta abriu totalmente os olhos e não teve coragem de falar mais nada.
Ficou olhando para aquele homem ali à frente.
Sim, era Raul mesmo.
Então o grande espírito das matas sabia.
Seu sonho tinha sido real, Raul estava vivo, mas o que pretendia fazer?
Mil coisas corriam em seu pensamento.
Já consciente, Loretta continuou deitada no largo banco de pedra, o cheiro das flores e da mata perfumando o ar.
Não sabia o que fazer.
Gostaria de morrer ali mesmo onde estava, pois o destino começava a castigá-la de forma cruel e traiçoeira.
O cacique então aproximou-se dela, tomou-lhe as mãos e, fitando o horizonte, começou a falar:
— Loretta, nosso passado ressurgiu para nos cobrar o que deixamos de fazer.
Temos muitas coisas ainda para acertar.
Continuo amando Deus do mesmo jeito, ou melhor, mais ainda do que antes.
Neste mundo em que me encontro, eu O encontrei e fui recompensado de maneira maravilhosa.
Quando pensei que o Pai já me havia dado tudo de bom, Ele me mandou você e seus filhos.
Desde o momento em que pisei aqui pela primeira vez, Loretta, fiquei sabendo de que um dia nos veríamos de novo.
Quem sabe agora possa ajudá-la.
Nunca deixei de amá-la e jamais lhe farei mal algum.
Sei que desejou minha morte, ali mesmo quando estava perdendo a consciência.
Agarrado a uma tora de madeira, pedi a Deus que a perdoasse.
Aquela noite, Loretta, na varanda do castelo, fui apenas um instrumento.
Nós dois erramos muito.
Fui egoísta, covarde.
Poderia ter-me afastado de você ou a deixado ir embora, mas com o coração cheio de emoções a segurei.
Levei-a a cometer tantos pecados!
Tudo o que você fez, a culpa também foi minha.
Sinto-me melhor, porque sei que você fez e continua fazendo coisas fantásticas por seus semelhantes, mas não me perdoo pelo que fez com as igrejas e os padres de nossa terra.
Loretta, minha querida, o que foi feito está feito, mas vamos reconsiderar a presença de Deus em seu coração.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 10, 2016 9:35 am

Depois de tudo que você viu e passou, será que ainda tem alguma dúvida da existência de nosso Pai criador?
Sua mão nos guia para o caminho melhor.
Sua viagem foi interrompida pela vontade de Deus.
Você precisava estar aqui e foi guiada pela mão divina até o alto desta pedra.
Loretta, nenhuma mulher subiu aqui até agora.
Apenas alguns homens, preparados, sobem.
Neste ponto fica o santuário que chamamos de coração da aldeia.
Se está aqui, é pela vontade de Deus e dos grandes espíritos benfeitores da humanidade.
Aqui os chamamos de nomes simples e puros, mas pouco importa para Deus a forma como O chamamos, o importante é como o amamos.
Loretta pôs-se a chorar copiosamente.
Parecia que se abrira uma cratera em seu coração.
Raul ainda segurava suas mãos.
—Sabe, Loretta, o grande espírito das matas traz para todos nós a força e a sabedoria de Deus extraídas da natureza.
Ele é a forma mais singela da manifestação de Deus, é o contacto directo com Seus filhos.
Não há enganos ou interesses pessoais naqueles escolhidos por Deus para auxiliar o próximo.
Aqui, descobri o verdadeiro significado da minha existência.
Foi aqui também, Loretta, que descobri toda a bondade Daquele que amo, meu criador: Deus.
Aprendi com Seus filhos mais simples, estes que nasceram no meio da natureza, que o amor de Deus não requer nada além do amor por seus semelhantes.
Tirei a batina e troquei os crucifixos e o rosário feito à mão pela pele de um irmão animal que já cumpriu sua missão e pelas penas das aves que se renovam constantemente.
Hoje vejo o Cristo estampado no rosto de cada um dos meus irmãos, e meu rosário são as estrelas no céu.
Meu altar é no alto desta pedra, onde abro meu coração ao Pai e confesse todos os meus sentimentos.
Como homem de carne e osso, estou sujeito a erros e fracassos diariamente, mas nem por isso desisto de viver em busca de Sua luz.
Loretta criou coragem e sentou-se no banco.
Olhou para Raul.
Era o mesmo de sempre:
honesto, íntegro e generoso.
Sentiu vergonha de si mesma.
Parecia-lhe que estava despida de tudo, excepto de seus pecados.
—Raul, preciso falar.
Se Deus existe, Ele está me castigando pelas tantas coisas erradas que fiz.
Um dia pensei em morrer por achar que o amava, depois o traí e, por último, planeei sua morte.
Raul balançou a cabeça, e ela pediu:
—Deixe-me falar, quero jogar para fora toda a amargura da minha alma.
E se Deus, como diz você, está me concedendo esta chance, devo aproveitá-la.
Depois, não me importo.
Seja feito o que Ele quiser.
E começou a relatar toda sua vida desde aquela seus planos de vingança, o amor e a entrega de seu corpo a Hari, a morte de Hari e da rainha e até mesmo o remorso de expulsar Mary de sua terra natal.
Raul ouvia em silêncio, orando com o coração e a mente, como tinha aprendido na aldeia.
Olhava para Loretta.
Seu cabelo, que outrora era cor de ouro, parecia prateado pelos fios brancos.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 10, 2016 9:35 am

Seus olhos, antes verdes e brilhantes como duas esmeraldas, agora eram de um verde acinzentado.
Seu belo rosto, um dia liso e brilhante, enchia-se de rugas, e seu belo corpo curvava-se.
Suas mãos longas e bem feitas, com os dedos finos, onde anéis os adornavam com uma graça toda especial, já não eram as mesmas.
Enquanto Loretta falava, parecia que um peso imenso saía de seu coração.
Quando terminou, suspirou longamente.
Sentia-se aliviada, colocara para fora todos os seus pecados.
Alguém agora sabia de seus crimes. Estava em paz.
Raul alisou-lhe o rosto marcado pelo sofrimento e, encostando as mãos nos lábios dela, propôs-lhe ternamente:
—Loretta, minha querida, quero que você vá descansar.
Procure ficar tranquila.
Não pretendo jamais magoá-la.
De tudo o que você me contou sou responsável por uma parte.
Façamos o seguinte:
hoje à noite a lua estará iluminando a aldeia.
Logo após o jantar, viremos até aqui, e desta vez vou mostrar-lhe as novas estrelas que descobri na imensidão.
Vamos falar de nossas vidas desde o momento em que nos separamos.
Para limpar nossa alma, precisamos ter muita coragem, falar sobre todos os espinhos que colocamos na coroa de Jesus.
Vamos purificar o espírito, gritar para a imensidão o quanto somos gratos a Deus.
Antes de descerem, ele apontou em direcção ao mar, mostrando-lhe as brancas ondas que se elevavam ao longe.
—Ali é a casa da mãe peixe, Iemanjá.
Depois, virou-se para o outro lado, onde se via o rio se misturando ao mar, e apontou:
- Ali também é a casa da mãe peixe, Iemanjá.
Apontou para o alto da floresta.
— Ali é casa dos grandes espíritos, e aqui é o grande altar dos homens.
Aqui estamos eu e você.
E, apontando Para o céu, afirmou:
— Ali está o Senhor, criador e protector de todos nós.
Ajudou Loretta a descer.
Ela calçou os sapatos, e ambos entraram no jardim.
Indo até uma das pequenas árvores floridas, Raul pegou algo como um favo de mel e deu-lhe para beber, dizendo que iria acalmá-la.
—Coloque a máscara e vamos voltar.
Após o jantar, viremos aqui para tirar o peso de nossas almas.
Vamos nos comprometer com o Pai em reparar todo o mal que fizemos juntos.
Deixemos tudo a Seu critério.
Que seja feita a vontade Dele.
Ao saírem do jardim e entrarem na estrada que os levaria à aldeia, encontraram Lua de Prata e Lucília II, que procuravam por Loretta.
Lua de Prata logo percebeu que algo tinha acontecido com a sogra.
Embora estivesse de máscara, não precisou muito para ver e sentir que alguma coisa ocorrera.
As moças andaram mais rápido, deixando-os para trás.
0 cacique tocou no ombro de Loretta e disse-lhe:
—Loretta, sou o que você viu aqui, um cacique que honra sua tribo e sua gente.
Raul desapareceu para sempre na história da humanidade.
Em torno da mesa, o cacique, na posição de oração que todos já conheciam, braços cruzados sobre o peito, baixou a cabeça e ficou por alguns instantes daquela forma.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 10, 2016 9:35 am

Depois, levantou a cabeça e falou:
—Retiremos nossas máscaras.
Já não corremos risco de nos contaminar.
Retirou a sua, e todos lhe imitaram o gesto.
Loretta estava pálida e com olheiras.
O rei, preocupado com a aparência da mãe, perguntou:
— Minha mãe, está sentindo alguma coisa?
Está abatida!
— Não, meu filho, há muitos anos que não me sinto tão bem.
Foi um jantar cheio de brincadeiras e muita alegria.
Alguns dançaram, e todos se divertiram.
Lua de Prata, matando a saudade da aldeia, dançou e brincou com as irmãs da tribo.
O rei e seus cavaleiros beberam vinho de frutas feito na aldeia e divertiram-se com os indígenas.
Loretta levantou-se e saiu andando pela estrada já conhecida.
Não sentia medo.
O perfume das flores penetrava em suas narinas, chegando até os pulmões.
Num impulso, soltou o cabelo e seguiu em frente.
No alto do céu, a lua iluminava a estrada, e ela podia ver toda a beleza das árvores adormecidas.
Alguns pássaros chilreavam nos ninhos.
Loretta nunca pensara em andar sozinha durante a noite em plena floresta e numa aldeia indígena.
Entrou no jardim e observou a beleza que ali se estendia a seus olhos.
As sombras das árvores formavam figuras estranhas por toda parte.
Ela sabia que ele estava lá, seu coração lhe dizia isso.
Aproximou-se da abertura secreta e sem medo entrou ali.
Tudo estava tão calmo e sereno...
Tirou os sapatos e começou a subir os degraus.
A lua parecia concentrar toda a sua luz naquele lugar, pois estava tão claro que daria para encontrar uma agulha no chão.
Chegou ao topo da pedra e agora podia ver as brancas ondas do mar que balançavam distantes.
O verde-escuro da mata assemelhava-se a um tapete com uma serpente enrolada mexendo-se:
era o rio que atravessava a floresta para encontrar-se com o mar num vaivém incessante.
Era como dois corpos se abraçando e se fundindo numa só alma.
A brisa era agradável, o cheiro do mar misturava-se ao da mata, e a lua brilhava no céu, formando círculos luminosos à sua volta.
Apenas quem pára para apreciar esses momentos divinos pode descrever seus sentimentos.
O cacique estava parado, e só Deus e ele sabiam em que pensava.
Virou-se.
Seus olhos negros brilhavam, o cabelo grisalho caía-lhe nos ombros.
Foi até onde estava Loretta e a tomou pela mão, acomodando-a num dos bancos centrais.
Sentou-se em frente a ela e, apontando para o alto do céu, indicou:
— Vamos nos deitar sobre o banco e apreciar os pequenos tesouros de Deus.
Ela deitou-se, obedecendo à sua sugestão.
Ele então começou a falar:
— Olhe para a imensidão do Pai e procure colocar para fora todo o seu sofrimento.
Cada estrela que brilha é uma fagulha da imensa luz do Pai criador.
Somos com essas estrelas:
por menores que sejamos, temos algo de Deu que liberamos num gesto ou numa acção.
Nossos erros são tanto que dificilmente percebemos o que vem a ser o certo.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 11, 2016 9:56 am

Quando conseguimos perceber e aceitar um momento de paz como esta é porque ainda somos capazes de amar e iluminar alguém.
Seu erros foram tantos e menores não foram os meus.
Se nesta passagem estou me segurando, imagine o que a fiz passar e outras épocas.
Talvez, minha querida, você seja apenas instrumento de lapidação da minha alma.
As estrelas cruzavam o céu num espectáculo maravilhoso Loretta deixava as lágrimas correrem livremente em silêncio.
Abria o coração para Deus e, num gesto instintivo de amor, junto as mãos e disse as palavras que fazia muitos anos se negava dizer:
— Meu Deus, tenha piedade de mim.
O cacique a incentivou:
—Abra o coração, não tema, fale para Deus o que está oculto em sua alma.
Desprenda-se dos laços negros que lhe sufocam coração.
É necessário, minha querida, ouvir o que diz nossa própria consciência.
Ela começou a falar da infância, de como se sentia feliz a seu lado, das saudades do pai, da angústia que sentiu quando teve de separar-se da mãe para ir ao colégio.
Falou ainda do remorso ao descobrir que o amava.
Da revolta quando ele a rejeitou.
De todo o desejo que sentiu por ele.
De todos os sonhos que nasceram em seu coração.
Do amor por Hari e da felicidade que encontrou ao seu lado.
De todas as traições que planeou.
Do amor pelo rei, da vontade de ser feliz, da certeza de seus erros.
Da vingança contra a Igreja.
Do remorso pela rainha, do amor pelos filhos, da dor que passou quando o marido morreu.
Da luta e do trabalho que vinha desenvolvendo, das alegrias e dos sofrimentos que vinha enfrentando.
E, por fim, do medo daquela noite, quando fez tratados com espíritos inferiores.
Já passava das duas da manhã quando desceram da grande pedra branca.
Agora se olhavam nos olhos.
Pela primeira vez na vida Loretta sentia-se leve como uma pena.
Se morresse naquele momento, pensou, iria em paz.
Na saída do jardim, recuou assustada e escondeu-se atrás do cacique.
Parada na entrada estava a folhagem que tanto apavorara Loretta.
Era o grande espírito das matas.
Raul foi até ele, ajoelhou-se e encostou a cabeça no chão.
Vendo que Loretta estava apavorada, esclareceu:
—Não tema, Loretta, ele é nosso guia, nossa luz e nosso pai.
Aproxime-se dele, venha até aqui.
Ela aproximou-se.
O grande espírito a rodeou, passou algumas ervas em seu corpo e então falou numa língua que ela não entendia.
O cacique prestava atenção e assentia com a cabeça.
Ele rodeou os dois, apontando para os quatro cantos e depois para cima, em direcção ao céu.
O cacique manteve-se ajoelhado e de cabeça baixa até o outro entrar no mato e desaparecer.
Raul disse para Loretta:
—O grande espírito pede que você mande reerguer os templos para que o povo volte a reverenciar Deus da forma que mais lhe agradar.
Liberte todos os padres que ainda estão vivos e aprisionados sem poder exercer sua fé.
Onde foi sacrificado um pecador, que seja erguido um lugar de penitência.
Transforme, Loretta, o castelo em convento.
A torre deve ser destruída e em seu lugar deve-se erguer uma capela.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 11, 2016 9:56 am

Só assim aquele espírito poderá alcançar a paz que perdeu.
Volte, Loretta, para a corte e faça algo para Deus.
Ainda temos tempo de reparar algumas coisas.
Outras, somente o Pai poderá nos julgar.
Certamente passaremos por Seu julgamento.
Temos consciência de nossos pecados.
Seja qual for a pena futura, vamos recebê-la como uma bênção.
E seguiram andando pela estrada iluminada pela lua, o canto dos pássaros nocturnos vindo de longe, as folhas balançando com a primeira brisa da manhã.
Loretta ainda estava em choque.
Parecia que de repente deixara de existir, dando lugar a outra pessoa.
O cacique da pedra branca pegou a mão daquela mulher que outrora vira brincando com o cabelo esvoaçante e um sorriso inocente de criança nos lábios, correndo pelos corredores ou subindo a escada do velho castelo, gritando seu nome.
Aquela menina loira de lábios rosados que mais parecia uma boneca de louça estava ali, sofrida e frágil como um pássaro que acaba de nascer.
Precisava fazer alguma coisa por ela.
Aliás, precisava fazer sua parte.
Lembrou-se de seu casamento com Lua Branca, que encheu seu coração de paz, alegria e tanta sabedoria.
Fora muito feliz ao seu lado, pois conheceu o verdadeiro amor de Cristo com ela.
Jamais poderia esquecê-la, ela fora a luz que clareou sua estrada.
Chegando à aldeia, que estava em total silêncio, o cacique levou Loretta até sua cabana e disse-lhe:
— Procure descansar.
Durma e não se preocupe com nada.
Agora está tudo bem.
Vou retornar à mata, pois o grande espírito está à minha espera.
Ouvirei seus conselhos.
Afastou-se sem olhar para trás.
Loretta observou-o até ele desaparecer no meio do mato.
Entrou silenciosamente na cabana, despiu-se e deitou-se, encolhida como uma criança.
Ficou pensando em tudo que lhe tinha acontecido.
Sim, Deus de facto existia, não tinha mais dúvida.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 11, 2016 9:57 am

INIMIGOS ESPIRITUAIS
Loretta adormeceu rapidamente, vencida pelo cansaço.
Logo seus perseguidores espirituais vingativos se aproximaram.
Estava em lugar fechado e abafado.
Foi cercada por vários espíritos, homens e mulheres com aparência suja e horrível.
Um deles chegou até ela e pegou-lhe brutalmente o braço.
Rindo, gritou:
—E então, minha rainha!
Pensa que vai escapar agora?
Lutei muito, minha querida, e cheguei até aqui.
Sou o chefe agora e de mim você não vai escapar!
Ela então reconheceu aquele rosto deformado: era Hari.
Os outros riam e gritavam:
— Nós queremos uma rainha sábia e querida para nos ajudar em nossos planos.
Chefe, por que não ficamos logo com ela?
— Ainda não!
Não posso cortar o maldito cordão da vida.
Mas, quando este se romper, minha rainha, seu destino é ao meu lado.
E empurrou-a com violência.
Ela acordou sobressaltada.
Sentou-se na cama, ainda tremendo.
Sentia dores por todo o corpo.
Os primeiros raios de sol entravam por uma fresta.
Voltou a deitar-se e, olhando ao redor, lembrou-se da noite anterior e do sonho que acabara de ter.
Iria contá-lo ao cacique, talvez ele pudesse ajudá-la.
Como derrubar a lei que ela mesma criara?
Seu país estava completamente estabilizado.
O ponto que marcara bem sua personalidade fora a retirada dos padres e dos católicos em geral.
Ela transformara as igrejas em escolas e hospitais.
Em seu país havia orfanatos sustentados pela corte, onde ficavam os filhos cujos pais haviam perdido a vida por alguma doença ou acidente.
Não havia filhos de prostituição nem que tivessem sido abandonados pelos pais.
A lei do casamento era rigorosa.
Fazer o que o espírito das matas aconselhara seria quebrar o país, que certamente perderia a autonomia para a Igreja.
Aquele era um país de jovens que falavam a mesma língua:
"Não aceitaremos padres e católicos em nossa terra."
No entanto, o grande espírito pedia-lhe liberdade para os católicos, a volta das igrejas e de suas imagens, dos padres e de suas batinas negras.
Colocou as duas mãos na cabeça, sem saber o que fazer ou pensar.
Lua de Prata entrou na cabana com uma bandeja de madeira repleta de frutas da terra, sucos, broas de milho e de mandioca fresca.
—Bom dia, minha sogra!
Fiz questão de vir tomar a primeira refeição com você.
Sentou-se na cama e comoveu-se com a nora, sempre tão gentil e carinhosa.
Lua de Prata colocou suco de maracujá num copo e ofereceu-lhe:
—Experimente essa delícia, minha sogra.
Tudo isso é da própria natureza.
Lua de Prata estava radiante, bonita e bem-disposta.
"Como é bom ser jovem, especialmente se temos felicidade", pensou Loretta.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 11, 2016 9:57 am

"Minha juventude foi tão diferente!
Ah, se pudesse voltar!"
Uma de suas damas entrou trazendo seu traje e comunicou que o banho estava pronto.
Levantou-se, despediu-se da nora e foi cuidar-se.
Loretta sentiu falta do cacique, mas evitou questionamentos.
Olhava ao redor, perguntando-se onde estaria.
Vendo que se aproximava o meio-dia, não suportou a inquietação e indagou:
—E o cacique?
Por que não está presente?
Foi Raio de Sol quem respondeu:
—Ele só voltará depois que o sol cruzar o meio do céu, ou seja, depois da metade deste dia.
O grande espírito o levou para o alto da serra.
Grandes decisões ele está tomando.
Devemos aguardar.
O sol já estava do outro lado da aldeia, no poente, quando o cacique voltou.
Estava sério e parecia abatido.
Raio de Sol aproximou-se do pai.
— Grande cacique da pedra branca, nunca o vi assim!
O que lhe disse o grande espírito?
Por favor, meu pai, conte-nos.
— Transmita a todos que logo mais, ao cair da tarde, quero toda a tribo reunida, todos vestidos nos trajes de reverenciar os antepassados e os espíritos amigos das matas.
Quero você, meu filho, preparado para o sacrifício.
Raio de Sol empalideceu.
O que iria acontecer?
Algo profundamente grave estava para ocorrer na tribo.
O cacique retirou-se sem olhar para trás, indo em direcção ao jardim da pedra branca.
O pajé já estava lá, sentado, virado para o lado do sol nascente.
O cacique, silenciosamente, sentou-se, virado para o lado do sol poente.
Ficaram de costas um para o outro.
O pajé falou:
—Meu filho, o céu confirma e a mãe peixe também.
Tudo que caminha, voa ou se arrasta sobre a terra também confirma.
Você deve partir.
Nunca mais o verei nesta carne, meu filho, mas estaremos sempre ligados pelo espírito.
O cacique olhou o rio em forma de serpente correndo lentamente no meio da verde mata.
Seu coração batia acelerado.
—Mais uma vez tenho de deixar minha casa para enfrentar o caminho espinhoso.
Meu pai, como vou suportar viver longe de tudo isso, dos meus filhos, da minha tribo?
Com os olhos rasos d'água, o pajé respondeu-lhe:
—Com o grande espírito no coração, meu filho.
Desde que chegou aqui trazido pela mãe peixe, já sabia que vinha trazer nova semente para meu povo e retornaria para ceifar o joio que se estendeu sobre a casa de Deus.
Prepare-se, meu filho.
Você deve partir daqui dois dias.
Despeça-se de tudo que lhe pertence, pois só voltará aqui quando puder correr livre como o vento.
Ai estaremos juntos com Lua Branca e todos os nossos antepassados.
À noite, quando a lua alcançar o céu, leve seu filho para receber do grande espírito das matas o unguento de cacique da pena dourada.
Ele subirá ao trono e velará por seu espírito enquanto estiver lutando nas tormentas a que será levado.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 11, 2016 9:57 am

Em breve, meu filho, outro pajé estará recebendo a coroa da visão, enquanto receberei nova coroa e liberdade para a visão total.
Neste dia, meu filho, vou confortá-lo em seu suplício e voltarei para abraçar o vento e correr o mundo sem parar.
Ficaram conversando por longo tempo.
O pajé deu-lhe muitos conselhos e força espiritual.
O sol já baixava no horizonte quando se levantaram.
Um de frente para o outro, num gesto de suprema nobreza, abraçaram-se em silêncio.
Já tinham conversado tudo.
A noite, vestido como o grande cacique que era e toda a aldeia trajada conforme o grau de cada um, reuniram-se em torno de uma fogueira.
Os guerreiros portavam armas.
O clima era de respeito e silêncio totais.
O cacique então anunciou:
— A partir deste momento, Raio de Sol subirá ao trono como o grande cacique da pena dourada.
Será ungido ainda hoje pelo espírito das matas.
Vai ser guiado e preparado pelo pajé e avô, o caboclo ventania.
Daqui dois dias, antes de o sol cruzar a aldeia, estarei cruzando a casa da mãe peixe para o outro lado, onde ficam seus filhos brancos.
Hoje, entrego meu penacho e minha lança à minha aldeia, ao grande espírito das matas.
Partirei e não quero que vocês chorem.
Lembrem-se de que o povo deve imitar sempre seu cacique, e eu não vou chorar.
Sorri quando aqui cheguei e partirei sorrindo para aqueles que me deram tanto amor.
Todos, homens, mulheres e crianças de todas as idades, num gesto de tristeza, sentaram-se no chão com a cabeça nos joelhos.
O pranto fez-se tão forte que possivelmente a mata inteira do outro lado do rio e do mar pôde ouvir.
Os jovens pajés estremeciam embaixo de suas folhagens.
Apenas uma delas permanecia imóvel.
A corte de Loretta chorava com a emoção dos indígenas.
0 rei, pela primeira vez, derramou lágrimas naquela terra, abraçando Lua de Prata, que também chorava.
O cacique pediu ao povo que respeitasse o novo cacique, explicando que a mãe peixe jamais iria abandoná-los.
O grande espírito estaria sempre presente, e seus antepassados estavam ali para guiá-los.
Encaminhou-se em direcção ao filho e levou-o até a fogueira que ardia, devorando a madeira seca, transformando-a em cinza branca e perfumada.
Retirou seu penacho e ficou na frente do filho.
0 espírito das matas chegou, sacudindo sua folhagem.
Fez-se um enorme círculo, todos de mãos dadas.
O grande espírito deu sete voltas em torno deles, que continuavam um de frente para o outro.
Entre os dois havia a fogueira, cujas labaredas subiam, elevando-se para o infinito.
Só as cinzas brancas ficavam na terra.
O pajé puxou de dentro da folhagem um penacho dourado e entregou-o para o grande cacique da pedra branca.
Este lhe devolveu o penacho colorido.
O grande espírito emitia sons que lembravam os pássaros nocturnos e atravessava a fogueira em forma de cruz.
O fogo obedecia a ele, pois nenhuma folha que cobria seu corpo caiu queimada.
Pegou a mão do cacique da pedra branca, que atravessou a fogueira com o penacho na mão.
Raio de Sol ajoelhou-se, e, então, ele colocou o penacho dourado em sua cabeça.
O grande espírito tomou-lhe a mão, e ele passou tranquilamente pela fogueira, como se fosse uma porta.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 11, 2016 9:57 am

O espírito das matas pediu aos guerreiros alguma coisa, e eles saíram correndo.
Retornaram com folhas perfumadas.
Esfregou-as por todo o corpo do cacique da pedra branca, retirou seu colar e seus apetrechos e carinhosamente abençoou o penacho e os demais pertences.
Colocou-os lentamente nas labaredas da fogueira, e em poucos minutos tudo virou cinza.
O cacique ajoelhou-se a seus pés.
Abençoou-o, apontando-Ihe o lado em que estava o povo de Loretta.
Sentou-se perto dela.
Dois vincos marcavam seu rosto, seus olhos negros pareciam cansados.
O filho recebeu do grande espírito alguns apetrechos de couro e pena e uma lança dourada.
Seu corpo foi marcado com o carvão e as cinzas da fogueira, formando muitos símbolos.
Os guerreiros entoavam à sua volta uma canção triste, e todos os pajés, cobertos de folhas, dançavam em volta deles.
Todos rodeavam o novo cacique, e cada espírito tocava-lhe de forma diferente.
Cada qual falava uma coisa, à qual todos prestavam bastante atenção.
No final da cerimónia, a tribo toda gritou:
—Cacique da pena dourada, cacique da pena dourada Ressuscitou entre nós.
O grande espírito falava, e Lua de Prata, chorando, explicava para Loretta:
—O cacique da pedra branca agora vai trabalhar sobre outra pedra e não voltará mais pelas águas, mas com o vento, quando então se sentará na grande pedra para ajudar nosso povo.
Terminada a cerimónia, os grandes espíritos levaram Raio de Sol, avisando que ele só retornaria à aldeia dali três dias para sentar-se no trono dos caciques, quando o filho da mãe peixe já deveria estar longe.
Que a mãe peixe lhe daria novo nome e nova casa, onde ele deveria cumprir diferente missão.
Antes de sair com os pajés, Raio de Sol disse ao grande espírito das matas que precisava dar um abraço no pai.
Este consentiu.
O cacique da pena dourada foi ao encontro do cacique da pedra branca.
Em silêncio, olharam-se e abraçaram-se.
Raio de Sol acompanhou os pajés sem olhar para trás.
Dois dias depois, o cacique da pedra branca olhou mais uma vez para a aldeia e seu povo.
Era como se estivesse querendo guardar as últimas imagens dentro de si.
Entrou na embarcação, elevou a mão para o alto e acenou para a aldeia.
Sentou-se erecto no banco da canoa, olhando para a frente, sem falar nada.
Não se virou para trás.
No coração levava cada um de seus filhos e boas lembranças da aldeia.
No pensamento só levava amor, o amor que haveria de ajudá-lo a carregar a nova cruz de sua caminhada.
A embarcação avançava, mas ele ainda ouvia o pranto do povo à beira-mar.
As águas claras e brilhantes agora faziam cintilar seus olhos; alguns golfinhos pulavam na frente do barco como se estivessem a guiá-lo.
Duas grossas lágrimas rolaram pelas faces do cacique da pedra branca, pois sabia que, como homem, jamais pisaria novamente na aldeia.
Pensava em Loretta.
Regressava ao lado dela para o mundo do pecado, da ilusão e da desventura.
Desta vez, estava preparado e não temeria a grande cruz.
Haveria de carregá-la até o fim da jornada.
Ajudaria aquele anjo de Deus a voltar-se para o Pai.
Amava aquela criatura como Jesus ama cada um de seus irmãos.
Faria qualquer sacrifício para vê-la livre das pesadas correntes que prendem o espírito na decadência da carne.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 11, 2016 9:58 am

Em silêncio, a família real respeitava a presença do nobre homem, que mesmo sem máscara ainda era índio.
Em seus olhos havia uma expressão de bondade que somente os espíritos elevados conseguem ter.
No navio, solicitou que lhe cortassem o cabelo e trajou-se como homem comum.
Ao lado de Loretta, começou a desenvolver seu trabalho.
Tinha de conquistar-lhe a alma não para a carne, mas para levá-la de volta ao rebanho do Mestre.
Loretta começava a compreender a bondade de Deus.
A família percebia algo estranho entre eles.
O rei chegou a desconfiar dos dois: estaria havendo um romance?
Ficava a observar o sogro, que já não parecia um cacique, mas um dos seus.
Um homem só abandona uma vida por outra — fora isso que ele lhe havia dito.
E ele estava abandonando a aldeia, que era sua própria vida, por quê?
Certamente a resposta seria Loretta, pensava o rei.
A mãe estava diferente, estranha, falava pouco.
Parecia esconder algo, mas esperaria que ela mesma contasse o que pretendia.
Cada membro da família real tinha uma opinião diferente quanto à presença do sogro do rei entre eles.
Logo chegariam em casa e então se esclareceria o mistério de tudo aquilo.
Na verdade, nem o cacique sabia exactamente o que aconteceria com ele naquele mundo ingrato que conhecia tão bem.
Sabia, sim, que Deus o enviava para uma nova jornada de trabalho.
Sua maior vitória nessa tarefa seria resgatar Loretta.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 11, 2016 9:58 am

DE VOLTA À TERRA NATAL
Em Ilhéus, o Senhor Arquimedes reinava no comércio local como maior exportador brasileiro de café e cacau.
Sua família, cujos membros eram conhecidos como os gringos amigos do rei, era respeitada e admirada.
Seu genro tratava dos negócios que envolviam relações comerciais com várias partes do mundo.
O filho de Mary estava um rapazinho.
Por sua própria vontade e pelas boas condições da família, foi estudar na França, onde se formaram seu padrasto e outras celebridades que ocupavam cargos importantes no país.
Sua mãe tinha muito orgulho quando falava dele para as amigas.
Naquele ano, foi inaugurada com muito sucesso uma das maiores embarcações da América do Sul, propriedade da família Arquimedes, fabricada com toda tecnologia, conforto, luxo e elegância que a ocasião permitia.
Após passar pelos testes de navegação, o potente navio estava pronto para zarpar, levando a bordo a família mais importante de Ilhéus: a Arquimedes.
Destino: sua terra natal.
Desta vez, levava a esposa, filhos, noras, netos, genro e alguns empregados de confiança.
Apenas uma pessoa da família não estava na tripulação:
Henrique, filho de Mary.
Não mais como uma passageira assustada com seu destino, mas como proprietária daquele belo e monstruoso navio que rasgava as águas claras do oceano inibindo as demais embarcações, Mary recordava sua chegada a Ilhéus.
Estava tão absorta em seus pensamentos que nem percebeu a aproximação do marido, que a abraçou sorrindo e disse, como se lhe adivinhasse os pensamentos:
— Aposto que se lembrava de sua chegada aqui em Ilhéus.
— Sim, estava relembrando quando cheguei a esta terra e como estávamos ansiosos e cansados da viagem, que parecia não ter fim, mas que valeu a pena — Mary respondeu-lhe, disfarçando o embaraço.
Continuou lembrando com tristeza sua chegada ao Brasil.
Parecia estar vivendo novamente o momento incerto que a trouxera até ali.
Falou para o marido, abraçado a ela:
— Jamais imaginei que um dia pudesse retornar ao meu país.
Para mim, é como um sonho voltar à minha terra depois de tanto tempo.
— Meu amor, desta vez não temos pressa em retornar, pois estamos todos juntos.
Faço questão de levá-la ao local em que nasceu.
Quem sabe reencontre algum familiar de seu falecido esposo.
Sem perceber o constrangimento da esposa, continuou falando:
— Nunca lhe fiz perguntas com referência ao pai de Henrique nem sobre seu passado porque sei que sofreu demais.
Para ter saído de sua terra e aventurar-se mar afora, é porque algo muito sério marcou a vida de todos vocês.
Seja o que tiver sido, minha querida, eu respeito.
Amo você e todos os dias agradeço a Deus pela felicidade que tive em casar-me contigo e fazer parte de sua família.
Nunca lhe falei, mas Henrique confessou-me que gostaria de conhecer algum parente do pai.
Ele não lhe pergunta nada a respeito por perceber que você sofre, mas pretende descobrir seus parentes e pediu-me ajuda.
Disse-lhe que conversaria com você, meu amor.
Quaisquer que sejam os parentes de Henrique, é um direito dele conhecê-los, e você deve permitir isso ao seu filho.
Não quero magoá-la nem mexer com seu passado, apenas reconheço que ele tem o direito de conhecer a família do pai e sua origem.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 11, 2016 9:58 am

Por favor, meu amor, não fique triste nem se aborreça comigo.
Vamos aproveitar esta viagem.
Quero levá-la a todos os lugares que você conheceu e nos quais viveu e tenho certeza de que vai encontrar alguma pessoa amiga que a levará aos parentes de Henrique e também aos seus.
Mary, com as faces ruborizadas, parecendo queimar por dentro, num ímpeto gritou para o marido:
— Vim com você porque acreditei que seria bom para mim, mas agora começo a arrepender-me de tê-lo acompanhado.
Se insistir nesta conversa, não arredo o pé de dentro deste navio.
Quero ter o direito de ir aonde tiver vontade.
Não estou à procura do passado.
Todos os meus parentes estão aqui, a não ser meu filho, que está estudando fora.
Começo a perguntar-me se foi uma boa ideia quando concordei em vir contigo.
Não me obrigue a fazer coisas que não desejo fazer.
O pai de Henrique morreu!
Ele contou-nos não ter parentes próximos e ser sozinho no mundo.
Você não imagina o que sofri quando o perdi.
Não posso lhe dizer onde procurar parentes dele, pois era um soldado foragido, nem registo tinha na corte.
Por isso ficamos com medo quando foi morto:
se descobrissem nosso envolvimento com ele, poderíamos ser condenados à morte como traidores.
Quando descobri que estava grávida, meu pai tomou a resolução de aproveitar a oportunidade que o rei oferecia a quem desejasse sair do país.
A situação financeira de meu pai não era boa, mas meu marido deixou-me certa quantia, que deu para iniciarmos a vida em Ilhéus.
Vendemos nossa vivenda e todos os animais e partimos em busca de uma nova terra.
Meus pais também sofriam por causa da religião do país, imposta pela rainha.
Eles sempre foram católicos, mas não podiam mais venerar Deus abertamente.
Por favor, peço-lhe:
fale para meu filho que ele não tem nenhum parente além de nós e que nos trará muito sofrimento se continuar insistindo em uma coisa tão dolorosa para todos nós.
Vencemos o medo e estamos indo rever nossa terra.
Nada fizemos de errado para ninguém, nada devemos à corte.
Somos pessoas honradas e decentes.
Tudo Que quero é aproveitar a viagem para fazer compras e conhecer a corte, o que nunca tive oportunidade de conhecer quando morava No país.
Não estou indo lá em busca de lembranças; isso superei na muito tempo, quando o conheci e casei-me com você.
Amo-o e Peço-lhe: nunca mais toque neste assunto.
Arrependido, o marido apertou-a junto ao coração.
—Prometo-lhe, por tudo que é mais sagrado, que jamais voltarei a incomodá-la com este assunto.
Acredito em você e peço-lhe perdão.
Imaginava que todos vocês tivessem sofrido, mas não tanto assim.
Vou tirar da cabeça de Henrique a ideia de procurar parentes, mas não vou falar-lhe a verdade sobre o pai.
Direi que não deixou registo sobre nenhum parente, e ele acabará esquecendo quando se envolver com a própria história.
Chegando ao país, tiveram de aguardar, como de praxe, para desembarcar.
O tempo era de quatro dias para pessoas nobres e saudáveis como a família do Senhor Arquimedes.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 11, 2016 9:58 am

Mary e a mãe estavam tensas, quase aflitas.
Era uma grande emoção estarem ali, prestes a rever lugares e pessoas que pensavam ter esquecido.
Voltavam em uma situação bem diferente daquela em que saíram, mas nem por isso ficavam menos nervosas.
Acomodaram-se em um hotel de luxo, reservado com seis meses de antecedência.
Afinal de contas, era o grande mercador brasileiro que iria honrar aquele estabelecimento com sua distinta família.
Levavam criados de confiança, pois haviam programado a viagem com muito cuidado.
As babás cuidariam das crianças enquanto as senhoras estivessem ocupadas com compras e passeios.
Mary e Helen pediram discretamente ao Senhor Arquimedes para visitar a vivenda em que tinham passado parte de suas vidas.
Mary estava ansiosa por rever o lugar onde nasceu, cresceu e concebeu o filho.
O Senhor Arquimedes coçou a cabeça e disse-lhe:
—Minha filha, preciso confessar-lhe algo que me chocou tanto que não tive coragem de contar para você e sua mãe.
Nossa vivenda hoje é um cemitério.
Quando vim pela primeira vez com seu irmão, tive a mesma vontade, mas fiquei transtornado ao deparar com um campo-santo no lugar de nossa casa.
Mary empalideceu.
—Mesmo assim quero ir até lá.
Sei que tudo mudou por aqui.
Ver o cemitério talvez seja até bom para esquecermos de uma vez por todas nossa passagem por este lugar — disse, após alguns instantes de silêncio.
Três dias depois, quando o marido de Mary saiu para encontrar-se com comerciantes a fim de fechar novos contractos, o Senhor Arquimedes arranjou uma desculpa aos outros membros da família e saiu, levando apenas a filha e a esposa consigo.
Foram rumo à antiga morada, onde agora era o maior cemitério popular da corte.
No caminho, as duas olhavam a paisagem sem reconhecei quase nada do que tinham deixado quando saíram às pressas do país.
A vizinhança desaparecera, e as casas deram lugar a fábrica de têxteis e de couro.
Pararam em frente ao enorme portão principal do cemitério - Mary e a mãe desceram da carruagem acompanhadas pelo Senhor Arquimedes.
Nada falavam, apenas andavam olhando para um lado e outro.
Mary tentava localizar o local que fora sua casa, mas já não sabia onde ficava.
Percorreram o imenso corredor do campo-santo até o portão dos fundos.
Então Mary emocionou-se:
reconheceu sua árvore predilecta.
Ela estava florida e balançava com a brisa que soprava naquela época do ano.
Fazendo certo esforço, foi até lá.
Pareceu-lhe que a árvore também crescera.
Abraçou o tronco e chorou.
Ao olhar para cima, uma flor caiu-lhe no rosto, e ela apertou-a junto ao coração.
Quantas lembranças lhe vinham à mente...
Os pais a observavam, respeitando seus sentimentos.
Mary então prosseguiu em sua caminhada e ouviu o barulho da cachoeira.
—Quero ir até lá, vê-la, tocar mais uma vez suas águas — pediu ao pai.
Encontraram pelo caminho alguns garotos que se divertiam Pegando frutas silvestres.
Mary olhava com atenção o caminho, outrora seu cúmplice, que encobriu sua história de amor com o rei.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 11, 2016 9:58 am

Chegando à cachoeira, a jovem senhora sentou-se em sua pedra preferida com a impressão de que ali o tempo não havia tocado em nada; até os pássaros pareciam os mesmos.
Verificou que nela ainda estavam escritas as iniciais M e H dentro de um coração.
Alisou a pedra com carinho e lembrou-se do dia em que o rei lhe fizera um juramento de amor, cravando seu punhal de ouro e diamante na rocha para marcar as iniciais dos dois, dizendo-lhe ser tal gesto uma demonstração de amor eterno.
E realmente naquele dia ela tinha-se entregado a ele, recebendo como prova daquele amor eterno seu filho.
Sim, o filho era um amor eterno.
Tocou as águas, banhou o rosto.
Os raios do sol formavam um arco-íris no alto da montanha, iluminando e colorindo a cachoeira.
Voltou-se para o pai.
— Vamos embora, meu pai?
— Sim, minha filha, vamos embora.
Não quero que você fique triste.
Tudo mudou por aqui, mas nós também mudamos, graças a Deus, e para melhor.
Mary abraçou a mãe, que enxugava os olhos.
—Vamos, minha mãe, já vimos tudo que tínhamos para ver.
Percorreram o caminho de volta em silêncio, as mulheres observando cada detalhe da estrada.
Ao entrarem no cemitério, Helen pediu ao marido:
—Arquimedes, vamos dar uma volta e olhar os nomes escritos nas pedras?
Podemos saber se alguns de nossos amigos morreram e estão enterrados aqui.
Mary não se opôs.
Aquilo parecia um sonho:
sua antiga casa, seu quarto, onde brincava de boneca, agora abrigava corpos mortos.
Andaram muito e encontraram nomes de algumas pessoas conhecidas, falecidas bastante tempo antes ou recentemente.
Assim, o Senhor Arquimedes sugeriu:
—Vamos embora.
Não viajamos para procurar o passado, e sim para usufruir de nossos direitos nesta terra.
Deixemos a tristeza de lado.
O que passou, passou, acabou.
Saindo do cemitério, Mary olhou para trás e, fitando a solidão que todo campo-santo parece ter aos olhos carnais, pôs-se a pensar:
quem visse aquele lugar jamais poderia imaginar que um dia abrigara sua casa e que havia sido ali que ela recebera dentro de si o filho do rei.
Lá sonhara em ser feliz um dia, mas agora tudo era silêncio, como o segredo guardado em sua alma.
Tudo se perdeu no tempo e no esquecimento, e assim foram enterrados seus sonhos e seu grande segredo:
partira levando um príncipe no ventre, mas ele jamais poderia conhecer sua verdadeira origem.
Retornaram ao hotel, onde todos os esperavam, inclusive seu marido, ansioso e preocupado.
Correu até ela e, abraçando-a, perguntou-lhe:
— Vocês se perderam?
Estávamos preocupados com a demora!
— Não — respondeu Mary.
Empolgamo-nos com os muitos lugares bonitos a que meu pai nos levou para conhecer.
O Senhor Arquimedes comentou baixo com o filho:
— Levei Mary e sua mãe aos arredores da cidade.
Agora tenho condições de mostrar às duas sua terra natal, pois quando morávamos aqui não saíamos do mato.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 11, 2016 9:59 am

— Também, naquela época não tínhamos condições financeiras — acrescentou o filho.
Ao apresentarem-se para o jantar, enquanto atravessavam o salão de refeições, escutaram de alguns mercadores ilustres que também estavam por ali:
—O rei vai convocar todos.
Ele ditará as novas regras contratuais pessoalmente.
Assim que se sentaram à mesa, Mary perguntou ao marido:
— Você também será convocado para apresentar-se diante do rei?
— Pois é, ia mesmo comentar com vocês.
Parece que a coisa está ficando complicada por aqui — respondeu, um tanto Preocupado.
— O rei em pessoa está comandando e ditando as regras.
Ouvi dizer que a rainha Loretta está doente e, parece, afastada das decisões da corte.
É uma pena, porque essa mulher é uma potência.
Ouvi comentários de que é uma guerra familiar, o velho cacique fez a cabeça da rainha, mas o monarca não aceitou a interferência do indígena, afastando a mãe do cargo que ocupava na corte.
Falam muito, mas na verdade ninguém sabe o que está acontecendo realmente.
Vamos esperar para ver.
Fui convidado para participar, juntamente com outros exportadores, de um palestra proferida pelos conselheiros reais.
No final será oferecido um coquetel com a presença do monarca.
Nosso agente está preparando tudo que é necessário para eu responder ao que foi questionado e também fazer perguntas de nosso interesse.
Levarei um intérprete, e meu cunhado e meu sogro podem vir comigo, pois cada participante poderá levar, além do intérprete, mais duas pessoas.
Será conveniente que vocês estejam presentes, até mesmo por uma questão de hierarquia.
Sendo o Senhor Arquimedes um cidadão desta terra, nada mais justo que represente a família.
E finalizou em tom de brincadeira:
— Vamos beber do vinho do rei, uma honra que nem todos conquistaram, e devemos já cuidar de nossos trajes; afinal de contas, não somos índios, apena representamos o Brasil.
O Senhor Arquimedes respondeu à brincadeira:
— Cuidado, meu rapaz!
Você se esqueceu de que o rei casado com uma índia?
E, pelo que falam, os indígenas falam escrevem melhor a língua do rei do que eu que nasci aqui.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 11, 2016 9:59 am

ENCONTRANDO O REI
Enquanto os homens se preparavam para cuidar dos interesses comerciais da família, as mulheres aproveitaram para fazer compras e conhecer todos os lugares e lojas indicados pelo guia.
Andando pelos bairros da grande metrópole, Mary comentou com a mãe:
— A rainha ergueu uma escola em cada esquina.
Será que ela também educou a consciência?
— Mary, os nobres não têm esse tipo de sentimento.
Tudo que fazem é pelo povo e para o povo.
Isso é o que falam, mas tente contrariá-los e logo receberá a morte como prémio.
A cidade estava limpa e bem cuidada, e os jardins floridos exalavam um perfume suave e tranquilizador.
Disso a mãe de Mary tinha saudade:
o cheiro de sua cidade natal era bem diferente.
As construções modernas faziam inveja, eram um modelo para o resto do mundo.
As mulheres observavam tudo com admiração.
Ao passarem em frente ao palácio, pararam para contemplá-lo.
A mãe de Mary comentou baixinho:
—Quem pode acreditar que vivi grande parte da minha vida aí neste palácio?
Vi nascerem príncipes e princesas, convivi com reis e rainhas...
Quem pode acreditar?!
Somente nós e mais ninguém.
—Quem pode, minha mãe, acreditar que existe um príncipe que desconhece sua nobreza e origem?
Mas nem por isso ele deixará de ser feliz.
Se Deus quiser, será mais feliz que toda família real junta.
Uma semana depois chegou o dia da palestra.
O marido de Mary arrumou-se com o requinte que a ocasião exigia; o Senhor Arquimedes e o filho não fizeram por menos.
Despediram-se, recomendando que as mulheres se cuidassem.
Foi uma palestra altamente inteligente.
O rei pretendia ajudar os mercadores, diziam os palestrantes.
Iria diminuir os impostos, facilitando a entrada dos produtos no país, e incentivar os grandes plantadores de cacau, café, cana-de-açúcar e outros produtos de alto consumo, dando-lhes mais crédito, para assim melhorarem a qualidade do que ofertavam.
O Brasil foi representado pelo genro do Senhor Arquimedes, que ficou animadíssimo com as novas perspectivas oferecidas pelo rei.
Os boatos eram de arrocho contra os produtores, mas na verdade era mais uma porta que se abria para os que desejassem progredir e expandir os negócios.
Os comerciantes, então, sentiram-se mais à vontade, e não faltaram elogios enaltecendo o rei.
As 17 horas em ponto entrava no auditório o monarca, exibindo um manto bordado com fios de ouro e aplicações de pedras preciosas.
Cumprimentou todos com a nobreza e a educação que lhe eram peculiares.
Sentou-se elegantemente em sua cadeira e assinou os novos acordos, enquanto todos observavam a caneta de ouro incrustada de pedras preciosas que parecia ter vida em suas finas e bem cuidadas mãos.
Na mão esquerda usava uma aliança de ouro com brilhantes, e na direita, um anel com o símbolo da coroa.
Os presentes olhavam-no com admiração e respeito.
0 Senhor Arquimedes reparou que o cabelo loiro do rei agora tomava um tom prateado nas têmporas, e a barba bem aparada mostrava alguns fios brancos que se misturavam, dando-lhe um aspecto realmente bonito.
Alto e esguio, vestia-se com requinte e elegância.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 11, 2016 9:59 am

Assim que terminou de assinar os documentos, guardou a caneta, conversou alguns minutos com os presentes e em seguida propôs um brinde.
Foram abertas garrafas da mais fina bebida da corte, servida ao rei em um cálice de ouro com o símbolo real, e em taças de prata, também com a insígnia da coroa, a todos os convidados, que ganharam a taça como brinde do soberano.
O rei ergueu seu cálice, desejando negócios para todos e paz aos países, e levou-o aos lábios.
Todos o imitaram no gesto.
Despediu-se cordialmente, fazendo votos de que todos se divertissem e aproveitassem a ocasião para trocar ideias sobre transacções comerciais.
Enquanto ele se afastava do auditório, o Senhor Arquimedes pensou consigo mesmo:
"Ah! Se você soubesse que sou o avô do seu filho...
Aqui estou negociando com o pai do meu neto, um dos homens mais poderosos do planeta".
Depois, a sós com a mulher, o Senhor Arquimedes comentou com ela, que nem piscava os olhos de tão atenta que estava ao que falava o marido:
—O rei é muito educado e não podemos negar sua inteligência e coragem.
Entregou a taça de prata à esposa.
Observando a peça, ela lembrou-se do tempo em que serviu no palácio.
Dias depois, o marido de Mary chegou sorrindo ao hotel e chamou toda a família.
Exibiu convites para os jogos de sábado, em que toda a família real estaria presente.
Sorrindo para Mary, acrescentou:
—Você vai ver pessoalmente a semelhança entre seu filho e o príncipe.
Torço para que ele esteja presente, pois agora que é um rapaz pode arranjar uma desculpa e ficar fora do cortejo, mas espero que ele colabore connosco!
Você veio até aqui e não pode voltar sem vê-lo.
Mary, pálida, olhou para a mãe, que lhe correspondeu na preocupação.
O marido de Mary ainda comentou sobre a possibilidade de ficarem num camarote próximo ao do rei, o que deixou toda a família excitada, com excepção dos Arquimedes, que conheceram a rainha Loretta.
Ficando a sós, Mary perguntou a Helen:
—O que vamos fazer, minha mãe?
A rainha Loretta com toda a certeza vai reconhecê-la e o rei pode reconhecer-me também, pois mudamos, mas guardamos os mesmos traços.
Você pode desculpar-se dizendo estar com dor de cabeça, e eu ofereço-me para fazer-lhe companhia, sugerindo que eles sigam sem nós.
A mãe de Mary ficou pensativa por instantes.
— Eu gostaria de ir e você também quer ir, tenho certeza!
Vamos disfarçar nossa aparência.
Coloco um lenço na cabeça.
Por meu corpo jamais serei reconhecida, pode ter certeza, pois engordei mais de vinte quilos! — exclamou Helen, rindo, continuou:
— Você pode prender o cabelo e usar um chapéu.
Coloque roupas largas e bem discretas, que ninguém vai prestar atenção.
Mary, ainda temerosa, ficou de pensar.
Em seu quarto imaginou-se olhando para o rei.
O que aconteceria se ele a descobrisse?
De repente, veio-lhe a ideia:
usaria um vestido bordado por costureiras brasileiras, escolheria um bem discreto, que combinasse com um de seus chapéus, e cobriria o rosto com u véu negro.
Assim estaria segura dos olhares reais.
Combinou tudo com a mãe.
Helen inventou que lhe doía o ouvido, e por isso cobria a cabeça com um lenço colorido.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 11, 2016 9:59 am

Mesmo não se sentindo bem, não queria perder a oportunidade de estar perto da família real, disse a todos.
Mary arrumou-se como planeara.
O pai olhou-a e fico orgulhoso de sua inteligência.
A filha estava irreconhecível.
Mãe e filha trajavam roupas simples, mas elegantes, feitas por costureiras brasileiras.
O marido estranhou as vestes de Mary, mas pensou:
"Sã coisas de mulher, quer chamar atenção...
Ainda mais que somo estrangeiros, todos ficam nos olhando, mas discretamente, porque são educados demais para incomodar alguém".
Chegando ao teatro, foram conduzidos aos camarote reservados.
Mary preferiu ficar com o marido enquanto os irmão e os pais ficaram em outro.
De onde Mary se encontrava, dava para ver perfeitamente a família real, embora estivesse um tanto afastada da mira deles.
0 camarote do rei estava com as pesadas cortinas vermelhas fechadas.
Um mestre de cerimónias animava o ambiente, dando boas-vindas a todos.
Na entrada, era distribuído um pequeno broche de prata com a insígnia da rainha para as damas, enquanto os cavalheiros recebiam um lenço branco perfumado com o selo do rei.
O ambiente estava bem cuidado, e tudo ali tinha sido meticulosamente planejado.
Eram servidos sucos, doces, biscoitos, vinhos e licores à vontade, sem restrição, para as damas e cavalheiros.
Estava incluído no programa.
Em certo momento, o mestre de cerimónias pediu:
— Senhoras e senhores, daqui exactamente dois minutos as cortinas serão abertas para que possamos receber nosso rei e sua família.
Peço a atenção de todos e comunico que também vamos dar início às festividades de hoje.
Divirtam-se e gozem do prestígio da companhia da nobre família real.
Às 15h30 em ponto as cortinas lentamente se abriram.
O coração de Mary deu um salto.
Primeiro entraram o rei e sua esposa, aplaudidos de pé, e logo atrás apareceram a rainha Loretta e os filhos do rei.
Mary sentou-se para não desmaiar.
Sua mãe, no camarote vizinho, também teve de sentar-se diante do quadro que se apresentava à sua frente.
O rei vestia calça branca e uma túnica vermelha trabalhada com pedras e fios de ouro jogada por cima da camisa de seda fina.
O cabelo prateado caía-lhe nos ombros, a barba bem aparada dava-lhe um charme especial, e os olhos verdes brilhavam ao acenar para o povo.
Parecia mais alto e mais bonito, observou Mary.
O príncipe, filho do rei e herdeiro da coroa, sentou-se ao lado da rainha Loretta.
Ela estava pálida e parecia mais magra e mais velha, embora ainda fosse muito elegante.
Olhando para ela, via-se que era uma verdadeira nobre, observou o marido de Mary.
O filho do rei e primeiro neto de Loretta era um belíssimo rapaz.
Mary teve a impressão de estar diante do próprio filho.
Vestido de azul-claro, seus olhos brilhavam como duas esmeraldas.
Era muito simpático e também acenava para o público.
O cabelo loiro jogado para o lado dava-lhe uma beleza diferente da dos demais jovens.
Mary observou que alguns fios de barba lhe brotavam no rosto, juntamente com umas espinhas, como em seu filho Henrique.
Olhava para ele e para o rei e parecia não ver mais nada diante de si.
Ainda bem que tivera a ideia de cobrir o rosto, pois sentia as faces em brasa.
"Deus! É como um sonho... ou um pesadelo!
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 12, 2016 9:32 am

Depois de tanto tempo, estou aqui, frente a frente com aquele que me jurou amor eterno:
o pai do meu filho!", pensou.
O rei acenou para seu camarote, dirigindo o olhar para Mary, que ficou paralisada e sem acção.
Seu marido disse-lhe baixinho:
—Acene para o rei, meu amor.
Mecanicamente, ela abanou a mão, que tremia.
A rainha também acenou, rindo para ela.
O rei sentou-se, e todos fizeram o mesmo.
"Graças a Deus", Mary suspirou aliviada.
Transpirava por todos os poros do corpo.
O marido apertou-lhe mão, que estava gelada, e perguntou-lhe:
—O que houve, não se sente bem?
Tome um pouco de água.
—Estou bem, meu amor.
Foi a emoção de ver o príncipe, tão parecido com meu filho.
Parece que estou diante do meu Henrique...
Se fossem gémeos, não seriam tão parecidos.
O marido compreendeu sua aflição e falou-lhe em voz baixa:
—Fique orgulhosa, você tem um filho parecido com um príncipe!
Viu a semelhança que existe entre os dois?!
Quando o vi pela primeira vez, fiquei como você, atónito.
O mestre de cerimónias anunciou o início dos jogos.
No entanto, Mary só conseguia prestar atenção no camarote real.
0 rei conversava baixinho com a esposa, que ria e aplaudia os participantes das provas apresentadas ao público.
O rei estava sentado entre as duas rainhas, a esposa e mãe.
Os filhos estavam divididos:
o príncipe e a princesa loiros sentavam-se ao lado de Loretta, e as duas meninas morenas, de cabelo negro e brilhante, ao lado da mãe.
A rainha Loretta parecia ausente.
Mary viu que ela acenava para os dois camarotes em frente e logo viu que neles estavam os irmãos e cunhados do rei.
A rainha usava um vestido rosa todo bordado de pérolas e tinha um diadema de ouro e pedras preciosas que brilhava no alto da cabeça.
Seu cabelo negro e brilhante descia até a cintura.
"É uma morena lindíssima", observou Mary.
O rei sorria, as meninas morenas aplaudiam e cochichavam entre si, e o príncipe falava algo para a irmã, que balançava a cabeça, rindo.
Em dado momento, a rainha Loretta olhou em direcção ao camarote em que estava Mary, que disfarçou e fingiu não estar prestando atenção, embora não perdesse um só detalhe do que se passava lá.
Loretta olhou para Mary tentando descobrir de onde a conhecia.
Ela não lhe era estranha, tinha certeza de que já a tinha visto, só não lembrava quando.
As garotas olhavam para todas as direcções e continuavam cochichando entre si.
Tudo correu muito bem.
Mary não saberia dizer o que sentia.
Era como um sonho que voltava depois de bastante tempo.
Terminados os jogos, os vencedores receberam das mãos dos monarcas os troféus.
O rei agradeceu aos participantes e pessoas que prestigiaram o evento, comunicando que na saída todos receberiam uma recordação daquele dia.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 12, 2016 9:33 am

Toda a família estava de pé acenando para o público.
Logo as cortinas se fecharam.
Artistas iriam continuar se apresentando.
Quem desejasse poderia ficar até o final da exibição, que aconteceria às 19 horas.
Mary pediu ao marido:
— Vamos embora, estou preocupada com minha mãe, que não se sente bem.
Creio que já vimos as pessoas mais importantes desta terra: a família real.
Saíram, e cada um recebeu uma pequena garrafa, contendo licor para as mulheres e vinho para os homens.
As crianças ganharam doces.
A família do Senhor Arquimedes estava eufórica, cada um comentava alguma coisa que tinha observado na família real.
Os assuntos principais eram a semelhança do príncipe com Henrique e a beleza da rainha indígena.
A mãe de Mary cochichou-lhe:
—Tive a impressão de que a megera está bem doente.
Ela é bem mais jovem do que eu, mas está parecendo mais velha, você não achou?
E sem pensar continuou:
— Agora o maldito rei parece mais bonito do que quando era jovem.
Sua mulher é bonita, mas não chega aos seus pés.
Mary apenas ouvia o que a mãe falava.
- A única coisa que achei linda mesmo foi o príncipe, que é a cara do meu neto — disse Helen, por fim.
— Não posso lhe dizer exactamente o que senti e estou sentindo.
Foi uma sensação estranha.
Tive a impressão de que foi apenas um sonho.
Para falar a verdade, acho que foi muito bom ficar frente a frente com aquele a quem um dia confiei minha vida, a qual desejei perder depois — disse Mary.
Agradeço a Deus pelo marido que tenho, por meus filhos e toda a felicidade que alcancei na vida.
Desse rei não guardo a menor saudade.
Aliás, diante dele, perguntei-me:
Estive mesmo com esse homem? Pareceu-me um sonho.
Não, um pesadelo!
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 12, 2016 9:33 am

TUDO TEM SEU TEMPO
Enquanto isso, no palácio, a neta mais velha de Loretta comentava com o pai:
—Você reconheceu a família do menino que se parece com meu irmão?
Notei que ele não estava presente.
O avô estava em um camarote com uma senhora, que achei ser sua esposa, e outras pessoas.
No camarote vizinho estava o homem que o garoto nos disse ser seu padrasto, tendo ao lado dele uma moça vestindo uma roupa estranha.
Bem, imagino que seja moda no país deles um chapéu com véu cobrindo o rosto.
Muito esquisita essa moda.
Loretta empalideceu.
De vez em quando, ela mesma se lembrava daquele garoto, que deveria estar um rapazinho tanto quanto o neto.
Ficara intrigada com a semelhança dele com o neto e por ele ter o mesmo nome do rei.
Recordou que, na época, ao lhe indagar o nome da mãe, exactamente naquele instante foi anunciado o reinício do espectáculo, e a pergunta ficou sem resposta.
Sua neta agora lhe despertava outra dúvida:
vendo aquela moça, teve a impressão de conhecê-la de algum lugar, embora não tivesse visto seu rosto.
Algo passou de repente por sua mente:
e se fosse Mary?
Não, não poderia ser, era uma loucura tal ideia!
Imaginação, coisas do pensamento.
Enquanto Loretta pensava na possibilidade de a moça ser Mary, ouviu o rei respondendo para a filha:
—Não prestei atenção.
Sei que vi aquele homem esta semana na reunião que fiz com os produtores estrangeiros.
Comerciante brasileiro, é nosso maior fornecedor de café e chocolate.
Parece-me que ouvi de um dos meus conselheiros que ele veio com a família.
Loretta ficou calada.
Não queria começar a encher a cabeça com tais pensamentos.
Seria totalmente impossível!
Mas eles vinham mesmo assim: e se Mary estivesse grávida quando foi embora, só Deus sabe para onde?
E se o garoto fosse seu neto?
Teria de investigar.
Na segunda-feira cedo, a família do Senhor Arquimedes estava acomodada na embarcação para fazer a viagem de volta.
Todos estavam ansiosos para retornar.
Um dia depois, Loretta conversava com um dos conselheiros da corte e, com toda a astúcia de que sempre fora dotada, entrou no assunto dos contractos recém-assinados pelo filho.
O conselheiro, respeitosamente, falou-lhe das grandes possibilidades que o rei abria para o comércio exterior.
Citando a qualidade do café e do chocolate brasileiros, então o maior e melhor país exportador desses produtos, mostrou-se interessada em conhecer o nome do mercador brasileiro, dizendo ao conselheiro:
—Ouvi meu filho comentar que ele trouxe a família para conhecer nossa terra, é verdade?
Orgulhoso por estar trocando ideias com a rainha sobre assuntos que fugiam da rotina de seu trabalho, respondeu-lhe, solícito:
—Oh, sim! Ele veio com a família.
Na verdade, é brasileiro, mas os pais são estrangeiros, e ele foi educado na França.
Os sogros nasceram aqui, em um dos povoados distantes da corte.
Foram embora tentar a vida em outro país e deu certo.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 12, 2016 9:33 am

Implantou no Brasil, numa cidade chamada Ilhéus, seu império.
Conversamos muito.
Ele é simpático e inteligente, como o sogro, o Senhor Arquimedes.
Loretta lembrou-se de que sua antiga governanta, Helen, às vezes lhe falava do marido e o chamava por um nome que não recordava no momento, mas não era Arquimedes.
Talvez estivesse ficando mesmo velha, pensando tantas bobagens.
Mas o senso de não deixar-se ficar na dúvida deu-lhe uma ideia:
—Ouça, conselheiro, creio que deveríamos dar uma atenção especial às mulheres da família do nosso grande produtor de café e chocolate.
Falarei com meu filho hoje mesmo e desde já lhe peço que procure a família do Senhor Arquimedes e marque um chá para sexta-feira, às 17 horas, no salão de eventos.
O conselheiro ficou satisfeitíssimo.
A rainha parecia estar recobrando a energia e a elegância de comandar com inteligência.
Por que a nova rainha não tinha feito aquilo?
"Ah!", pensou ele.
"Ninguém pode substituir a rainha Loretta na forma de governar."
Acertaram os detalhes.
A rainha assinou pessoalmente o convite, carimbando-o com o selo real.
Acrescentou convites para nobres cavaleiros da corte e as respectivas esposas.
Assim que o conselheiro se despediu, solicitou uma audiência para falar com o filho, em particular, e este imediatamente a recebeu com todo o respeito que lhe devotava.
— Minha mãe, deseja conversar comigo?
— Sim — respondeu Loretta, sorrindo.
Expôs as providências que tinha tomado, mesmo sem consultá-lo, por não envolver leis, mas apenas o lado social.
Maravilhado, o rei pensou:
"Esta é minha mãe, a rainha Loretta!
Que bom ela estar novamente se interessando em ajudar-me".
E apoiou totalmente a brilhante ideia de Loretta.
No dia seguinte, à tarde, o conselheiro pediu uma audiência urgente com Loretta.
Ela o recebeu, sabendo que ele trazia o retorno do expediente de que o tinha encarregado.
O conselheiro estava com ar preocupado quando entrou na sala, observou Loretta.
—Rainha, infelizmente a notícia que lhe trouxe não é bem aquela que desejava dar-lhe:
a família do ilustre mercador brasileiro despediu-se da corte e embarcou na segunda-feira.
Faremos o possível para a próxima vez não passar em branco.
Informarei Vossa Majestade quando o ilustre comerciante estiver em nosso País de novo, provavelmente nos próximos seis meses.
Loretta colocou as duas mãos no queixo e suspirou profundamente.
Perdera uma grande oportunidade de tirar suas dúvidas Pressentia que havia alguma coisa naquela família.
Logo após a saída do conselheiro, pôs-se a conjecturar:
Mary e sua família estavam ali por quê?
Teriam algum plano de vingança contra o filho?
E se aquele menino fosse filho de Mary e do rei?
"E um castigo absurdo", pensou ela.
"Preciso colocar as ideias em ordem."
Mas e se fosse verdade?
Não podia viver com aquela dúvida, precisava agir.
O que poderia fazer para descobrir se suas suspeitas eram verdadeiras?
Num estalo, encontrou a solução:
como o rei investia alto na produção brasileira, nada mais justo que enviar uma comissão para acompanhar o investimento.
Faria tudo para colocar pessoas de confiança no comité a ser formado.
Assim, estaria conquistando o respeito mundial em organização comercial e, ao mesmo tempo, buscando o que mais desejava no momento:
a verdade sobre o garoto brasileiro.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 12, 2016 9:33 am

A VERDADE VEM À TONA
De volta a Ilhéus, mais do que nunca Mary dizia ser aquela a sua terra natal.
Por tudo que vira e sentira, ali era o melhor lugar do mundo.
Comentou com a mãe:
—Nunca mais quero pisar naquele lugar.
Foi uma experiência dura para mim, senti-me humilhada diante daquele que um dia me fez sonhar com o impossível.
Olhando para a megera da rainha Loretta, lembrei-me de como agiu connosco.
Foi mesquinha, mas continua lá, de cabeça erguida, idolatrada como uma santa, quando, conforme você mesma me falou, era amante do rei enquanto ainda era casado com a falecida rainha e ela era a sua dama.
Moralmente ela agiu com desonestidade.
Eu não, minha mãe.
Apenas amei um homem sem nada cobrar.
Foi apenas amor, muito amor.
Veja, agora ele está casado com uma índia, e duvido que ela descenda de algum nobre.
—Vamos cuidar de nossa vida, filha.
Deus nos ajudou muito.
Encontramos nesta terra santa a paz que nos faltava e ainda grandeza e prosperidade.
—Estou pensando em convencer meu marido a não ir mais lá.
Podemos treinar uma pessoa de confiança e enviá-la como representante.
Vou interessar-me mais pelos negócios da família para poder opinar.
Nas próximas férias, convidarei meu marido para ir a França, pois assim conheço outro país e vejo meu filho.
Ele gosta muito da França.
Sempre me diz que lá é seu berço.
Se você e meu pai desejarem, vamos todos juntos.
O que acha?
— Vamos ver, minha filha, vamos ver.
A ideia é boa.
Acho que Henrique vai ficar muito contente com nossa visita.
— De agora em diante, farei de tudo para afastar meu marido daquele lugar.
Já temos o suficiente para viver em paz, não acha minha mãe?
Essas viagens dele me deixam abalada.
E assim fez Mary.
Começou a interessar-se pelos negócios do marido.
Ele ficou tão entusiasmado com a curiosidade da mulher que cedia a todos os seus pedidos.
Achou brilhante a ideia dela de escolher e preparar um dos gerentes de vendas para representar as empresas no exterior, pois assim teria mais tempo para a família e não se desgastaria tanto, podendo, inclusive, comandar melhor os negócios.
Assim, começou a preparar o jovem Lindolfo.
Mary aprovou a escolha:
o rapaz era inteligente, honesto e trabalhador, além de falar três idiomas.
Tinha certeza de que ele iria se dar bem e o marido ficaria livre do compromisso que tanto a incomodava.
Nas férias, em vez de Henrique ir para o Brasil, o resto da família foi ao seu encontro.
Mary adorou a nova Paris, onde realmente se sentiu bem.
Tudo era muito bonito e fino.
Aprendeu diversas coisas importantes e expressou ao marido o desejo de, no futuro, mudar-se para lá definitivamente.
O marido gostou da sugestão da esposa, pois amava Paris.
Tinha estudado e morado lá por muito tempo.
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