AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 14, 2016 10:00 am

NADA FICA SEM RESPOSTA
Chegando à França, o rei insistiu para que Loretta ficasse hospedada em seu palácio.
0 chanceler, por sua vez, convidou-a para ficar em sua mansão com seus parentes, argumentando que a mãe, viúva pela segunda vez, ficaria muito contente em tê-la como hóspede.
Loretta declinou gentilmente o convite, argumentando que, por medida de segurança para ambos, seria conveniente que ela se instalasse no palácio.
Impôs uma condição: que a mãe e os avós de Henrique a visitassem e que ela pudesse visitá-los também.
Após acomodar-se, ficou sabendo da doença da soberana da França e dispôs-se a fazer-lhe uma visita.
O rei, ainda jovem e cheio de vida, devia sofrer muito com a doença da esposa.
Lembrando-se do quanto tinha sofrido com a enfermidade do marido amado, ficou penalizada com a situação do rei.
Ele tinha apenas uma filha, uma mocinha de dezasseis anos, magra e tímida, sem a beleza que agrada aos prazeres masculinos.
Sentiu pena da garota, que vivia enclausurada no palácio.
"Vou transformar essa menina em uma verdadeira princesa", pensou consigo mesma.
Diante da delicadeza da moça, percebeu que era muito simples e não tinha malícia alguma como mulher, bem diferente de sua neta Diana.
Se a garota fosse ambiciosa, teria conquistado o chanceler Henrique, e ele ganharia o que perdeu ao nascer: uma coroa.
Logo pediu perdão a Deus pelo pensamento.
Loretta pediu a Henrique que não avisasse os familiares da chegada dela, pois gostaria de fazer-lhes uma surpresa e sentir o clima familiar.
Ele concordou e programou o encontro, num chá, em que reuniria vários nobres da corte francesa.
No dia marcado para o evento, um belíssimo sol iluminava a tarde, e o ar estava perfumado.
O clima na França era excelente naquela época do ano.
A cidade parecia um conto de fadas.
Viam-se belas mulheres enfeitadas e cheirosas por toda parte.
Flores cobriam os parapeitos das casas, e jardins bem cuidados ornamentavam as ruas.
Em frente ao salão nobre, as damas desceram, e, em seguida, Henrique, dando a mão para a distinta senhora que o acompanhava.
Entraram no recinto, e todos os presentes voltaram a atenção para o jovem chanceler e sua elegante acompanhante, a qual ele guiava para uma mesa adornada com flores, onde já estavam sentadas a mãe e a avó dele.
Quando Loretta se aproximou da mesa, a mãe de Mary levou a mão ao peito devido ao susto, e sua filha ficou parada, olhando para o filho e a senhora, tentando lembrar quem era ela.
Voltando-se para a mãe, viu-a pálida.
Loretta agradeceu a Henrique e sentou-se ao lado da antiga governanta.
Henrique apresentou Loretta aos parentes e logo depois, pedindo licença um instante, retirou-se.
Loretta colocou a mão no braço de Helen, que usava agora o nome de Mariene, e disse-lhe:
—Estou aqui, minha amiga, em uma grande missão.
Preciso de você e de Mary para que juntas possamos ajudar Henrique.
Não tema, pois o que me trouxe à França foi o destino de nosso neto.
Precisamos conversar, afim de que entendam o que se passa.
Mary, não me odeie.
Sei que não posso esperar seu perdão, mas, por favor, não me odeie.
Mary nunca imaginara passar um dia por aquela situação.
Sua mãe começou a rir:
— Será que a senhora é mesmo a rainha Loretta?
Não posso acreditar que estou diante de minha senhora.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 14, 2016 10:00 am

— Mariene, aqui não estão nem a rainha nem a governanta; estão duas avós e uma mãe que precisam unir-se para ajudar alguém que amam.
Aprendi a amar meu neto e darei a vida por ele.
Combinaram um encontro para a tarde do dia seguinte.
Henrique voltou sorrindo, parecendo um adolescente apaixonado.
—Minhas queridas mãe e avó, perdoem-me se não lhes contei antes a grande novidade.
Prometi à rainha Loretta que só falaria para ambas em sua presença.
Segurando as mãos de Mary, disse:
— Seu filho, minha mãe, está completamente apaixonado pela mais linda mulher que já pisou neste mundo.
Chama-se Diana, é neta da ilustre convidada aqui presente e filha do rei Henrique.
Mariene oscilou na cadeira, mas Henrique acudiu-a para que não caísse.
Mary, sem uma gota de sangue no rosto, pegou um copo de vinho e tomou tudo de uma só vez.
Loretta ofereceu um pouco de bebida a Mariene, dizendo-lhe:
—Não precisa ficar assustada, minha amiga.
Minha neta é uma nobre princesa, e seu neto, um digno súbdito da França.
O motivo de minha estada aqui é exactamente este:
negociar as alianças de nossos netos.
Mary estava gelada.
Nunca lhe passara pela cabeça que isso pudesse acontecer com o filho.
Eles eram irmãos!
Henrique não poderia desposá-la em hipótese alguma.
Com toda sua experiência de comando, Loretta levou o assunto por um caminho suave, fazendo com que as duas mulheres entendessem o porquê de sua visita à França.
Tudo parecia correr normalmente aos olhos dos demais.
Loretta era o centro das atenções.
Os nobres franceses queriam apertar a mão da respeitável rainha.
Antes de despedir-se, Loretta confirmou o encontro para o dia seguinte e falou baixinho ao ouvido de Mary:
—Cuide de sua mãe, pois ela não me parece muito bem.
Procure ficar calma.
Se Deus quiser, tudo vai dar certo para todos nós.
No outro dia, mais tranquilas, as duas senhoras foram ao encontro da grande dama.
A sós, entreolharam-se, e Loretta então falou:
—Mariene, precisamos nos unir para ajudar Henrique.
Por nada neste mundo imaginei que ele fosse passar por isso.
Você não me contou que Mary estava grávida quando partiram da corte. Por quê?
—Não sabíamos.
Os primeiros sinais apareceram no navio.
- Mary, o rei já sabe que Henrique é seu filho.
Imagine quanto está aflito com a descoberta.
Contei-lhe toda a verdade e quero que saiba o quanto ele sofreu com sua partida.
Na época, acreditou que você não o amasse tanto quanto dizia.
Sua vivenda foi transformada em um grande cemitério, como já deve saber.
Com esse gesto, ele quis apagar as lembranças que você deixou em sua vida.
Ele nunca mais voltou àquele lugar.
Viveu ao lado da esposa até a morte, sem envolver-se em aventuras com as mulheres da corte.
Quando conheceu Lua de Prata, a rainha ainda vivia, embora já não se levantasse da cama.
Apaixonou-se por Lua de Prata e, quando enviuvou, casou-se com ela.
Viveram todos esses anos em plena paz, apesar das diferenças culturais.
Lua de Prata deu-lhe duas filhas:
Luana e Diana, que agora são duas belas moças.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 14, 2016 10:00 am

Vocês devem ter visto as meninas quando crianças, não é mesmo?
O destino foi nos aproximando cada vez mais e cobra-nos agora a verdade.
— E o que vamos fazer agora, senhora? — indagou Mary.
Como dizer a meu filho que ele não pode casar-se com a filha do rei, porque o rei também é seu pai?!
— E por isso que vim até aqui, Mary!
Juntas temos de encontrar uma solução, uma forma de não magoá-los tanto.
Seria um choque muito grande para os dois, uma revelação como esta.
Ao retornar da aldeia, Lua de Prata parecia estar mais confortada.
O esposo dava-lhe mais atenção.
As filhas só falavam no casamento de Diana, mas o rei mudava de assunto sempre.
Lua de Prata percebeu que algo na união desagradava ao rei, mas não entrou no assunto.
Extremamente discreta, respeitava os sentimentos alheios acima de tudo, pois, quando menina, aprendera na aldeia que isso é algo sagrado.
Na corte, havia muita agitação com a chegada de novos padres e a construção de igrejas, que se espalhavam por todos os lugares.
O Monsenhor peregrinava por todo o país juntando as ovelhas do Senhor, como dizia.
Desenvolvia um belo trabalho de ajuda ao próximo, recebendo e ouvindo todos os cristãos que o procuravam.
As pessoas já o tinham como um enviado do Céu para libertá-las da opressão e permitir-lhes amar a Deus em liberdade.
A família real recebeu um convite cheio de carinho e palavras de fé.
Seriam baptizados os primeiros cristãos da corte de Loretta, e o Monsenhor convidava o rei e sua família para assistir à grande comunhão com Cristo.
O rei examinou o convite e passou-o a Lua de Prata, que leu e releu o texto lembrando-se do sereno olhar do Monsenhor.
Não sabia explicar porquê, mas toda vez que o recordava pensava no pai.
Seus olhos enchiam-se de lágrimas.
— O rei vai comparecer? — perguntou ela.
— Não, não vai comparecer, mas pede à rainha e a suas filhas que representem a coroa neste importante evento para a corte — respondeu sério e pensativo.
Intimamente Lua de Prata sentiu muita alegria.
Queria ir à igreja, ver de novo o Monsenhor.
Precisava daquele olhar que tanto lhe transmitia paz e amor.
Confirmada a presença da família real no dia da celebração, as primeiras bancadas foram preparadas para acomodá-la.
A igreja estava repleta de flores que exalavam suave aroma.
Os hinos cantados pelos frades, acompanhados pelo som de uma harpa, levavam paz a todos os corações, sensibilizando-os.
Os religiosos cantavam em alguma parte da igreja sem ser vistos, o que fez Lua de Prata lembrar-se do grande espírito das matas.
Ele ajudava a tribo sem ser visto, transmitindo calma e segurança para a aldeia.
Também usava os filhos para preparar os fiéis para o espírito maior, Deus, e enviava mensagens e conselhos.
Certamente o Monsenhor fazia o mesmo papel do pajé da tribo:
era mensageiro do grande espírito, por isso ela sentira tanta saudade do pai, grande cacique que entendia todas as comunicações do espírito das matas.
Ela prestava atenção a tudo.
Alguns padres entraram cantando e ajoelharam-se em frente ao altar iluminado por velas.
Logo depois, entrou o Monsenhor; a música e o canto pararam; reinou um silêncio total dentro da igreja.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 14, 2016 10:01 am

Vestido com uma pesada e comprida batina negra, usando uma sobrepeliz branca, com o cabelo e a barba parecendo flocos de algodão, ergueu a mão e abençoou todos os presentes em nome de Cristo.
Deu-se início aos trabalhos espirituais.
O Monsenhor pregou a paz, o amor e a união entre os homens, lembrando aos fiéis o quanto Cristo amou e continuava amando a humanidade.
Pediu aos irmãos igualdade e fraternidade.
Lua de Prata deixou-se levar pelas palavras de conforto dele.
Em dado momento, ele falou do enorme amor de Cristo por todos que estavam ou não ali, parecendo olhar dentro dos olhos de cada um dos presentes.
Hipnotizada, Lua de Prata nem piscava.
Tinha certeza de que conhecia seu olhar, só não sabia de onde.
O Monsenhor baptizou os fiéis e deu-lhes a hóstia consagrada em nome de Cristo.
Depois, dirigiu-se até a frente do altar, e um dos padres convidou todos que desejassem receber o corpo de Cristo a se aproximar.
Num impulso, Lua de Prata encaminhou-se até o altar, ajoelhou-se e, olhando para cima, abriu os lábios.
O Monsenhor colocou a hóstia em sua boca, dizendo-lhe:
— Aceite Cristo em seu coração, minha filha.
E tocou a cabeça dela com uma das mãos.
Terminada a cerimónia, abençoou todos e retirou-se, acompanhado dos outros padres.
Lua de Prata voltou ao palácio sentindo uma paz e uma alegria muito grande no coração.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 14, 2016 10:01 am

TRANSFORMAÇÕES
Na França, Loretta dedicava parte de seu tempo à princesa Ane, filha do rei francês.
Esta parecia outra pessoa: arrumava-se com requinte, combinando roupas e jóias, mudou o penteado e passou a maquilhar-se.
Por trás daquela menina sem graça apareceu uma nova e linda mulher.
Certa tarde, correu a notícia de que a rainha da França acabara de falecer.
Como o rei ficara abatido e contristado, o chanceler tomou a frente de tudo.
Loretta disse muitas palavras de conforto ao soberano.
Havia passado por aquilo e sabia o que significava.
Embora o rei não amasse a rainha como mulher, via-se que ele lhe tinha carinho.
Para surpresa geral, a princesa destacou-se diante da morte da mãe.
Henrique ficou impressionado com a mudança de Ane e tinha certeza de que havia o dedo da rainha Loretta na benéfica transformação da princesa.
Usando um traje negro e um véu por cima do cabelo loiro, Ane estava muito bonita.
Até então, ele nunca tinha percebido que era uma mulher elegante, dotada de diferente beleza.
Após decretar luto oficial por uma semana, o rei recolheu-se.
Ane pediu para vê-lo e qual não foi o susto dele quando a filha, forte e decidida, pediu para acompanhar o chanceler na preparação do funeral da mãe.
Queria representar a coroa da França, se assim o pai permitisse.
Ainda assustado diante da atitude da filha, ele perguntou:
— Você tem estado com a rainha Loretta?
— Sim, meu pai, todos os dias tenho estado na companhia dela.
O rei concordou com o pedido da filha, que se aproximou dele e abraçou-o com carinho.
—Se me permite, meu pai, pedirei à rainha Loretta que lhe faça companhia neste momento doloroso para todos nós.
A morte é um processo difícil.
O rei estava realmente abalado.
Casara-se por conveniência, para ter a coroa da França, mas, ao conviver com a esposa, uma mulher simples e bondosa, passou a gostar de sua companhia.
A única coisa que lamentava era ela não lhe ter dado um herdeiro.
Agora viúvo, havia nova esperança de gerar um filho para sentar-se no trono.
Por mais que tentasse, a imagem de Diana não lhe saía da mente.
Teria de esquecê-la, pois em breve ela estaria na França, sim, mas como esposa do chanceler.
Imaginava que Luana fosse parecida com ela — quem sabe transferisse o sentimento para a irmã.
Em breve começariam a chegar propostas de casamento, mas ele é que iria fazer uma: pediria a mão de Luana em casamento e dividiria o trono com o da rainha Loretta.
Talvez ela pudesse ajudá-lo com sua experiência de mulher sábia.
Estava cabisbaixo, pensando na vida, quando Loretta se aproximou silenciosamente dele, que ergueu a cabeça, mostrando os olhos cansados e entristecidos.
Loretta tocou-lhe no ombro, depois sentou-se à sua frente e falou-lhe:
—Meu amigo, um rei também vive momentos de dor e de solidão.
Ninguém melhor do que eu para entender o que se passa em seu coração.
Procure descansar.
Após a cerimónia fúnebre, vai sentir-se melhor.
Fique despreocupado, pois a princesa Ane está à frente da coroa transmitindo ao povo a sua dor e mostrando a nobreza de ser sua filha.
Nos últimos dias, empenhei-me em ajudá-la a desenvolver seu potencial.
Ela é nobre e inteligente, digna de receber a coroa de qualquer rei como verdadeira rainha.
Loretta aproveitou os dias de luto para confortar o monarca, que se apegara a ela como se fosse seu filho.
Quinze dias depois da morte da rainha da França o chanceler estava despachando, quando alguém anunciou a princesa Ane.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 14, 2016 10:01 am

Pedindo licença aos presentes, imediatamente ele se prontificou a recebê-la.
Vestia um gracioso vestido bege e um chapéu branco enfeitado com flores naturais.
Usava poucas jóias, como Loretta ensinara.
Cumprimentou o chanceler e foi directamente ao assunto:
—Henrique, o que me traz até aqui é o seguinte:
desejo que meu pai descanse pelo menos uma semana.
Durante esse período, você deve assumir comigo os negócios da coroa.
Quero acompanhá-lo, pois assim vou aprendendo o ministério de meu pai.
Henrique olhou para a moça que estava à sua frente:
não era a mesma garotinha feia e sem graça que conhecera, mas uma mulher altiva, bonita e decidida.
— A princesa pode contar comigo para o que for necessário.
Estarei às ordens — respondeu-lhe, com consideração.
— Vou convencer meu pai a ausentar-se por uns dias e amanhã mesmo assumirei o trabalho ao seu lado.
Despediu-se e saiu, andando com muita elegância.
Henrique observou-lhe os movimentos sem acreditar.
Nunca tinha percebido como Ane era bonita e charmosa.
Naquela tarde, a princesa procurou por Loretta e foi informada de que a rainha estava com os familiares do chanceler.
Sua dama segredou-lhe ter ouvido dos cavaleiros da corte que o rei aguardava o retorno de Loretta para oficializar o noivado de Diana com o chanceler.
Ane surpreendeu-se com a notícia.
Então o belo chanceler, para quem outrora tinha medo de levantar os olhos, estava comprometido com a neta da rainha?
"A princesa deve ser linda e inteligente para ter sido escolhida por ele", pensou, enciumada.
Procurou o pai e contou-lhe o que havia feito, pedindo-lhe que lhe desse a oportunidade de assumir temporariamente a coroa.
Era uma prova pela qual ela necessitava passar para acreditar em sua capacidade.
Conforme lhe ensinara Loretta, era uma princesa e poderia tornar-se rainha para qualquer rei.
O pai sensibilizou-se com a demonstração de amor da filha.
Pegou sua mão, acariciou-a e disse a ela, sabendo que o chanceler estaria à frente de tudo:
—Está bem, minha princesa.
Vou expedir hoje mesmo uma nota instituindo-a como minha representante até o meu retorno.
Ane abraçou o pai, cheia de contentamento.
—Gostaria que convidasse a rainha Loretta para acompanhá-lo, pois quero demonstrar minha capacidade sem o amparo dela.
Dois dias depois, Loretta acompanhava o monarca a um dos castelos de propriedade da coroa.
O lugar era belíssimo, ideal para o repouso da mente e da alma.
A noite, o rei sentou-se em uma confortável poltrona na varanda.
Loretta foi com ele e ficou olhando para as estrelas, lembrando-se dos tempos em que ela e Raul observavam o céu juntos.
A última vez que fizeram isso fora na aldeia, quando ele era o cacique da pedra branca.
Por onde andaria?
O que estaria fazendo?
Por que desaparecera daquela forma?
Eram perguntas que se fazia a todo instante.
O rei interrompeu-lhe os pensamentos:
—Rainha Loretta, preciso de sua ajuda.
Quero que me ouça e depois me oriente como uma grande amiga e mãe, pois é assim que a tenho hoje.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 14, 2016 10:01 am

Aprendi a gostar de você e a respeitar sua dignidade.
O que fez por minha filha somente uma grande rainha dotada de inteligência e nobreza poderia ter feito.
E abriu o coração para Loretta, que o ouviu em silêncio, sem interrompê-lo.
Quando terminou de falar, parecia mais calmo e tranquilo.
Então foi a vez de Loretta desabafar:
—Meu rei, meu amigo e meu filho, pois é assim que aprendi a considerá-lo:
minha situação em sua corte é muito mais séria do que imagina.
E relatou desde o nascimento de Henrique, enfatizando que estava sendo difícil encontrar uma saída para desfazer o compromisso de Henrique com Diana.
Eles não poderiam casar-se em hipótese alguma.
Pediu ao rei que, juntos, pensassem em como dizer aos dois que não poderiam tornar-se marido e mulher sem magoá-los ou causar-lhes danos.
O rei até esqueceu-se de seus problemas, paralisado que ficara com o que acabara de ouvir.
Confiava em seu chanceler e gostava dele como um filho.
Por nada no mundo queria vê-lo sofrer, mas não via outra alternativa a não ser prepará-lo para a grande revelação e confortá-lo em sua dor.
Até seus planos de casar-se com a neta de Loretta tornaram-se inviáveis:
não queria trazer lembranças de Diana ao Chanceler de Ferro.
Combinaram então que o rei prepararia Henrique para a verdade e logo depois Loretta embarcaria de volta a seu país, levando uma grande dor para Diana.
Ela diria que o chanceler desistira do noivado: estando longe e pensando melhor, descobriu não amar tanto a moça para comprometer-se.
Acertaram detalhadamente as providências a serem tomadas.
O rei via em Loretta uma fonte de sabedoria com ponderação.
"Que mulher espectacular é esta, capaz de qualquer sacrifício para ajudar os seus!", admirou-se.
Retornando à corte, encontraram a França em plena euforia.
A notícia que corria pelos bares, teatros e demais lugares públicos era a de que a princesa havia deixado o casulo para brilhar como uma linda borboleta.
No dia seguinte, antes mesmo de o monarca descer ao salão imperial, foi informado de que o chanceler o aguardava.
Estranhou a visita tão cedo; se bem o conhecia, só poderia ser coisa muito importante.
Arrumou-se rapidamente e desceu, encontrando Henrique sério e com olhar grave.
Após cumprimentá-lo, chamou-o ao gabinete real sem esperar que pedisse audiência.
Sentado, o rei observou-o.
"Vai ser muito difícil a minha missão, mas é necessária", pensou.
O rapaz, de pé, pois não quisera sentar-se, afirmou:
— Meu rei, não sou digno nem mesmo de estar em sua presença.
O monarca empalideceu diante da declaração e ordenou energicamente:
— Fale, Henrique!
— A dignidade de um homem está em sua coragem de ser sempre fiel, assumindo por completo suas acções.
Implorei ao rei que pedisse a mão de uma princesa em casamento, e isso lhe custou hospedar sua avó e outros compromissos que não estavam na programação.
Envolvi meus parentes e agora estou aqui para confessar-lhe que estou envolvido com outra princesa.
Peço-lhe, Majestade, que se faça justiça.
Nunca ousei levantar os olhos para sua filha, jamais me passou pela cabeça a possibilidade de amá-la e desposá-la, mas, nesses dez dias em que se ausentou, estive próximo da princesa e, sem que tivéssemos forçado nenhuma situação, descobrimos que nos amamos.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 14, 2016 10:02 am

Penso agora em Diana como uma irmã querida.
Descobri em Ane a outra parte da minha vida.
Venho pedir-lhe humildemente que desfaça com a rainha Loretta meu pedido de casamento, pois jamais poderia casar-me com Diana amando Ane.
Coloco à sua disposição o meu cargo.
Se Vossa Majestade achar conveniente exilar-me do país, partirei hoje mesmo para o Brasil e nunca mais voltarei a incomodá-lo.
Por fim, asseguro-lhe de que não encostei um dedo sequer em sua digna filha.
O rei nunca imaginou que aquilo pudesse acontecer.
Era um verdadeiro milagre!
"Ah, grande rainha Loretta..."
Tinha certeza deque ela preparara sua filha com a boa intenção de ajudar a França.
O rei suspirou, aliviado.
Deus era magnífico!
—Henrique, meu filho, acho que posso chamá-lo assim.
Você não cometeu nenhum crime contra a coroa da França ou o rei Henrique.
Como não foi anunciado nenhum compromisso diante da corte, não vejo a razão de sua preocupação.
Quanto ao amor repentino pela princesa Ane, preciso saber dela o que houve para ter condições de avaliar sua declaração.
Caso ela confirme o que me diz, considere-se meu futuro genro.
Aguarde, por favor, aqui em meu gabinete.
Pode sentar-se!
Nada prova sua infidelidade.
Saiu e pouco tempo depois entrava a princesa acompanhada por Loretta.
Ane estava rosada como um morango silvestre, e seus olhos azuis brilhavam como as tardes de verão no céu da França.
Virando-se para Loretta, o rei disse:
—Minha amiga e mãe Loretta, achei por bem chamá-la para esta reunião familiar.
Fui procurado por meu chanceler que pede para desfazer o pedido inicial de noivado e casamento com sua neta Diana.
Confessou-me ter-se apaixonado por minha filha Ane a ponto de fazer loucuras, como, por exemplo, largar a França ao deus-dará.
Só me resta confirmar o fato com minha filha.
Ane levantou a cabeça, olhou para Henrique, que sustentou o olhar, e declarou:
—Amo o chanceler de todo o coração.
Não procurei por isso, simplesmente aconteceu, meu pai e minha benfeitora rainha Loretta.
Não tive intenção de causar-lhe nenhum incómodo e muito menos trazer sofrimento para sua neta.
O rei olhou para Loretta e percebeu o sorriso de alegria em seu olhar.
Ela apenas ouvia, como sempre.
Era um de seus métodos:
ouvir o orador para depois manifestar-se.
—Meu filho, considero-o meu verdadeiro neto e tenho certeza de que Diana vai entender.
Levarei para minha corte a notícia de seu casamento com a princesa Ane, a quem aprendi a amar como neta.
Aproveito para parabenizá-los pelo brilhante trabalho que fizeram juntos.
Fiquei sabendo que a França os apoia e acho que não devem esperar mais para anunciar o amor que os une, oficializando o noivado e marcando a data do casamento.
O rei levantou-se.
Só me resta comemorar o grande acontecimento.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 14, 2016 10:02 am

Como ainda é muito cedo para tomar champanhe, que tal o café da manhã juntos?
Abraçou o chanceler e a filha e perguntou-lhes:
— Quando poderei anunciar o noivado e o casamento?
— O mais breve possível, Majestade — respondeu Henrique, nas nuvens.
A mesa, acertaram os detalhes.
A rainha Loretta pediu ao rei que a acompanhasse até a corte, a fim de desfazer pessoalmente o pedido de casamento junto ao rei Henrique.
Conhecia a neta, sabia que ela iria sofrer e aborrecer-se, mas logo estaria bem para encontrar um novo amor.
Diana parecia-se com ela em muitas coisas e fazia Loretta lembrar-se da própria vida:
primeiro apaixonou-se por Raul a ponto de fazer loucuras.
Depois, enlouqueceu de paixão por Hari e cometeu o maior pecado de sua vida.
Por fim, amou o rei e tudo que veio dele, seus filhos e seus netos.
Sim, amou o esposo verdadeiramente e continuava a amá-lo mesmo depois de morto.
Poderia ter-se casado novamente quando enviuvou.
Ainda era jovem e bonita e havia recebido vários pedidos de casamento, mas seu coração pertencia ao rei, que se fora tão jovem também, deixando-lhe muita saudade.
Quanta falta fazia em sua vida!
O rei concordou em acompanhá-la.
Viajariam dali uma semana.
Loretta deu as boas-novas a Mary e à sua mãe.
As três choraram de alegria.
Deus havia-se compadecido de Henrique, e elas não precisariam magoá-lo.
Loretta despediu-se de todos, prometendo a Ane e Henrique que voltaria para o casamento.
Se tudo saísse como planejava, o rei Henrique também viria para as bodas do Chanceler de Ferro, como prova de que aceitara o pedido de desculpa da França.
Henrique tinha certeza de que ela era capaz de fazer qualquer coisa.
Abraçando-a, perguntou:
—Posso chamá-la de minha avó?
Amo-a do fundo do meu coração.
Trémula e com os olhos cheios de lágrimas, a rainha retribuiu o abraço, respondendo:
—Meu querido neto, também o amo e, por favor, chame-me sempre de avó.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 14, 2016 10:02 am

OS MALES QUE VÊM PARA O BEM
Foi anunciada a chegada da rainha Loretta e do rei da França.
Diana não se continha de alegria.
Fizera mil planos para seu casamento e sonhava com Henrique todas as noites.
Arrumou-se com esmero e foi esperá-lo com o coração saltitando de ansiedade.
Assim que o rei e a avó desembarcaram, ficou pálida:
não o avistou entre ambos.
O que teria acontecido?
Estaria doente?
Levou a mão ao coração, sentindo um estranho pressentimento.
Loretta cumprimentou todos e abraçou Diana, que permanecia em silêncio.
Isso ela tinha herdado da avó:
manter a dignidade e o orgulho diante da corte.
Puxou-a para perto e disse-lhe:
—Diana, minha querida neta, temos muito que conversar.
Henrique está bem, muito bem, mas não pôde vir.
O rei veio especialmente para falar com seu pai.
Diana sentiu uma ponta de esperança.
Então o rei vinha em pessoa tratar de seu casamento, só podia ser isso.
Como o chanceler era importante!
Que sorte a sua!
Seguiram para o palácio, e Loretta recolheu-se para descansar.
O rei foi aconselhado também a repousar.
À noite jantariam em família, quando conversariam e o rei francês explicaria a todos o motivo de sua visita.
Antes de recolher-se, Loretta falou baixinho para o filho:
—Não haverá casamento, fique tranquilo.
Diana observava o rei da França, que a fitava com embaraço.
Pressentiu que algo estava errado com seu noivado.
Aguardara tanto tempo pela chegada da avó trazendo a felicidade, que era Henrique, mas ela apareceu acompanhada pelo rei, que não escondia haver um problema.
Tentou arrancar alguma informação das damas de Loretta, mas foi em vão.
—Alguma coisa não está bem!
O que pode ter acontecido com Henrique?
Morro se não me casar com ele — desabafou com a mãe.
Lua de Prata abraçou-a.
—Diana, você é uma princesa por parte de pai e herdeira natural do espírito das matas.
Ele saberá o que é melhor para você.
Procure não ser uma criança mimada e não entristeça seu pai com caprichos e pensamentos infantis.
Pelas damas, Diana soube apenas da morte da rainha e da quantidade de propostas de casamento que chegavam de vários países cobiçando a coroa francesa.
"O rei é um belo homem.
Se não estivesse tão apaixonada por Henrique, também iria concorrer à coroa francesa.
Quem sabe minha irmã não a deseja? Seria maravilhoso para nós", imaginou.
Sentados em volta da mesa estavam os membros da família real.
Loretta deu início à conversa:
—Como todos aguardam o que tenho a dizer, vou directo ao assunto, sem rodeios.
O rei da França deixou compromissos importantes em sua nação para honrar-nos com sua palavra de consideração para com a coroa de nosso país.
De volta à corte, Henrique descobriu que não ama a princesa Diana.
Foi uma paixão repentina, como um incêndio controlado.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 14, 2016 10:02 am

Muitas vezes, os factos acontecem independentemente de nosso querer, principalmente os do coração.
Quando a rainha da França faleceu, acompanhei o rei em um retiro fora da corte, ficando o chanceler e a princesa Ane, sua filha, no comando da coroa.
Aconteceu o inesperado:
Henrique e Ane apaixonaram-se.
Quando retornamos, ele procurou o rei e colocou a vida à disposição da França, disposto a aceitar qualquer castigo do monarca, mas assumindo a descoberta de seu verdadeiro amor por Ane.
Ela, por sua vez, confirmou que corresponde ao sentimento do chanceler.
Não vi nenhum descaso para com nossa família, pois o chanceler foi de uma honestidade fora do comum.
Aceitei seu pedido de desculpa.
Portanto, fica desfeito o pedido de casamento feito pelo rei da França em favor do seu chanceler.
Virou-se para a neta e pediu-lhe:
— Quero que você, Diana, entenda e desculpe o chanceler francês diante de seu pai e do rei da França.
Diana procurou sentir os pés, mas não achou o chão.
Um nó apertava-lhe a garganta, o coração batia acelerado.
Naquele momento sentiu ódio de todos, principalmente da avó.
Loretta falara com muita tranquilidade, como se sua vida não fosse nada.
Sentiu vergonha, muita vergonha, e baixou os olhos para que ninguém notasse a dor que tomava todo o seu ser.
—Diana, sente-se bem?
Diga para nós se aceita o pedido de desculpa do chanceler da França!
Sua avó aceitou, eu aceito, agora é sua vez de falar — pediu o rei Henrique.
Amargurada, Diana tinha a sensação de ter engolido uma taça de fel.
Levantou o olhar e encontrou os olhos azuis do soberano da França, que a observava atentamente.
Num impulso, decidiu:
"Henrique me pagará caro esta traição.
Se pensa que vou esquecê-lo, está enganado".
Olhando para o rei como uma serpente olha para um pássaro, respondeu:
—Desculpo o chanceler da França e agradeço ao monarca pela consideração que teve comigo e com meu pai.
Nada temos contra a França ou qualquer um de seus filhos.
Nossa amizade será sempre a mesma, ou melhor, será mais forte.
Com a presença de minha avó por lá, creio que nossos laços estreitaram-se mais ainda.
O rei da França corou.
"Que moça espectacular!
E realmente neta da grande Loretta", pensou, e uma esperança ressurgiu em sua mente:
"Quem sabe não tenho uma chance?
Levaria comigo o maior tesouro que a França já conheceu".
Lua de Prata ficou preocupada.
A filha não estava sendo sincera.
Ficara o tempo todo sonhando com a volta de Henrique e falara-lhe um pouco antes que morreria se não se casasse com o chanceler.
Agora fazia exactamente o contrário.
A mãe, esperando que chorasse e se revoltasse, ficou espantada com sua tranquilidade.
Após o jantar, assistiram a um concerto em que se entoaram belíssimas melodias românticas.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 14, 2016 10:03 am

Diana, sentada próxima ao rei, dirigiu-lhe sorrisos e olhares provocadores, o que deixou Lua de Prata contrariada.
Durante o recital, foram servidos vinho e champanhe trazidos pelo rei da França.
Diana levou uma taça de bebida aos lábios e disse ao monarca:
—Adoro os vinhos franceses.
Tudo que vem de lá é maravilhoso e talvez tenha sido por isso que fiquei encantada com o chanceler.
Na verdade, acredito que minha paixão maior não foi por ele, mas sim pela França.
Quero pedir-lhe desculpa pelo grande transtorno que lhe causei, fazendo com que deixasse a França justamente neste momento em que necessita refazer sua vida.
Reconheço que fui precipitada demais e de hoje em diante vou redobrar meus cuidados, ser mais responsável, para não causar aborrecimento para pessoas dignas como você.
O rei contemplou-a, entorpecido pela bebida e a paixão que o dominava.
—Sou rei, mas também sou homem.
O que vou confessar-lhe agora peço-lhe que fique entre nós.
Diana encorajou-o maliciosamente com os olhos.
—Sim, prometo guardar segredo e fico lisonjeada por confiar-me um.
Olhando dentro dos olhos negros de Diana, disse-lhe:
—Amo-a, como nunca amei ninguém em minha vida, desde o primeiro dia em que a vi!
Desde o primeiro instante você tornou-se a luz dos meus olhos.
A rainha ainda vivia e confesso que alimentei esperança de, assim que ela descansasse, casar-me com você.
Quando o chanceler me procurou pedindo sua mão, o dever obrigou-me a renunciar à minha própria vida.
Agora que estou viúvo continuo a amá-la e sua mão está livre.
Pergunto-lhe: posso ter uma esperança?
Responda-me, por favor.
Diana fingiu espanto e surpresa.
—Vossa Majestade me pegou de surpresa!
Tem certeza de que o vinho não lhe subiu à cabeça?
Poderia me pedir isso amanhã pela manhã com as mesmas palavras?
Sentindo-se magoado, o rei afirmou:
—Repito isso quando e onde você desejar, mas me responda agora:
tenho uma chance?
Se o rei fala sério, antes de deixar o reino de meu pai deve sair comprometido com sua filha.
Diana sentia-se vitoriosa.
— Amanhã deve repetir-me tudo isso à luz do sol!
Não quero — desculpá-lo mais uma vez.
O rei apertou-lhe a mão disfarçadamente.
—Amo-a, amo-a, amo-a!
Não partirei daqui sem levar seu coração.
Quero casar-me com você e conhecer o que chamam de felicidade, que nunca tive ao lado de mulher alguma.
Para você serei um homem comum, não apenas o rei.
Os cavaleiros presentes começaram a retirar-se.
Diana dirigiu um olhar de cumplicidade ao rei da França e afastou-se com os demais.
Lua de Prata seguiu-a, entrou com ela nos aposentos e perguntou-lhe:
— Minha filha, o que deu em você?
Enlouqueceu? Entendo que tenha ficado magoada, mas isso não lhe dá o direito de envergonhar seu pai.
— Minha querida mãe, você não entendeu nada!
Não envergonhei meu pai, apenas descobri que Deus existe e é muito amigo de todos.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 14, 2016 10:03 am

Ainda bem que Henrique caiu em si, pois até ontem eu estava cega, iludindo-me com um amor que nunca existiu.
Não o amei.
Foi apenas uma paixão repentina.
Como disse minha avó, um incêndio que controlei dentro de mim.
Preciso descansar e você também.
Lua de Prata abraçou a filha e disse-lhe:
—Minha pequena, o amor verdadeiro lhe virá quando menos esperar.
—Tenho certeza — disse Diana, beijando a mãe.
No dia seguinte, Loretta passeava pelo jardim quando avistou o rei olhando ansioso em direcção à escada que dava para o bosque.
"O que se passa com ele?", tentou imaginar.
Em seguida, viu Diana descendo a escada, sorrindo para ele.
Seu cabelo negro brilhava, voando ao vento, e ela, vestida de branco, parecia um anjo moreno.
Quando a viu, o rei correu ao seu encontro e tomou-lhe as mãos, beijando-as delicadamente.
Diana ainda olhou ao redor, certificando-se de que não eram vistos.
Desceram de mãos dadas.
Loretta ficou preocupada.
Não entendia, ou melhor, não queria acreditar no que estava acontecendo.
Não era de seu feitio observar a vida alheia, mas tratava-se de sua neta, que bem sabia estar magoada.
Desceu a escada também e avistou os dois conversando, sentados sob uma trepadeira florida.
Um beija-flor voava entre as flores.
Diana sorria para o rei, apontando o pássaro.
Minutos depois, Loretta levou a mão ao peito diante da cena que presenciou.
O rei levantou a neta delicadamente, abraçando-a, e ela correspondeu ao abraço.
Beijaram-se demoradamente.
Loretta virou as costas e saiu de lá, compreendendo o que se passava.
Diana realmente se parecia com ela.
Mal saíra de uma paixão, já se entregava a outra.
Quem sabe se não viria a amar o rei da França tanto quanto Loretta amara o marido?
Conversou com o filho, contando-lhe o encontro com Mary, como fora o nascimento de Henrique e tudo mais que ficara sabendo a respeito de ambos.
Quando terminou de falar, percebeu que o rei tinha os olhos cheios de lágrimas.
Afagou-lhe as mãos, dizendo:
—Seja feita a vontade de Deus.
Passei muito tempo afastada Dele, e Ele nunca deixou de amparar-me.
O rei suspirou aliviado.
Loretta achou melhor comentar o que tinha visto, pois assim o filho já iria pensando na decisão certa a tomar.
— Meu filho, o destino tem-me empurrado para situações que não programei.
Acabo de presenciar algo no jardim que vai deixá-lo confuso:
vi Diana e o rei da França abraçados.
Omitiu o beijo, evitando uma situação desagradável ao rei, pois Diana era atrevida e, quando desejava algo, atirava-se de cabeça.
— Ora, minha mãe, talvez Diana o tenha abraçado em agradecimento pela gentileza de ter vindo até aqui desfazer pessoalmente o pedido do chanceler.
— Não, meu filho, o abraço que presenciei foi de paixão entre um homem e uma mulher.
No fim da tarde, o rei da França pediu uma audiência com o filho de Loretta.
Assim que ficaram a sós, o monarca francês falou:
—Meu amigo, perdoe-me, pois agora estou aqui diante de você não como rei, mas sim como um homem comum para fazer-lhe um pedido.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 14, 2016 10:03 am

Vim pedir a mão de sua filha Diana em casamento, desta vez para o rei da França, que desde o dia em que a viu ficou enlouquecido de amor por ela.
Como bem sabe, muitas vezes renunciamos à própria vida em favor daqueles que nos servem fielmente.
Diana confessou-me que não estava apaixonada pelo chanceler e sim pela França, que não está magoada e concorda em casar-se comigo e assumir a coroa da França como minha rainha.
O rei Henrique suspirou.
Sabia que a filha estava mentindo, pois conhecia-lhe a ambição.
Nada o impedia de consentir o casamento de Diana, e por isso disse ao outro:
—Se Diana estiver de acordo, seu pedido será aceito.
O monarca francês respirou aliviado.
Aquela viagem fora presente dos deuses.
À noite, Henrique reuniu toda a família para anunciar o noivado de Diana com o rei da França.
O casamento foi marcado dali quatro meses, tendo em vista que o da princesa Ane com o chanceler seria em três meses.
Mesmo impaciente para levar Diana como sua rainha, o rei sabia ser necessário casar a filha em primeiro lugar para depois pensar na própria felicidade.
Apenas Lua de Prata não conseguiu segurar as lágrimas diante da família real, pois sabia que a filha não estava sendo sincera.
Não foi por amor que tomara aquela decisão, mas sim por orgulho ou talvez até mesmo por vingança.
Já no leito, Diana sorria.
Mostraria para Henrique que não se deve brincar de amor com o coração alheio.
Lembrou que ficara com ele em seu quarto, o que em sua terra obrigava qualquer cidadão ao casamento.
Se falasse com o pai, este o obrigaria a casar-se com ela.
Mas não valia a pena: seria rainha da França e ele pagaria caro pelo que fez.
Ela tinha-se oferecido a ele, mas ele recusou-a, claro!, porque buscava algo maior: a filha do rei francês.
Do jeito que era ambicioso, talvez tivesse a esperança de tornar-se rei, já que o monarca não tinha filhos.
Queria vingar-se dele, sim!
Como rainha iria humilhá-lo de todas as formas.
Tê-lo-ia a seus pés.
Odiava essa tal de Ane, mesmo sem conhecê-la, e já tinha um plano de guerra contra ela.
No outro dia cedo, procurou o pai:
—Meu pai, tenho um pedido a fazer-lhe.
— Se puder atendê-la, farei com todo o prazer — respondeu-lhe solícito.
— Gostaria que meu noivado permanecesse apenas entre nós e não fosse oficializado ao mundo.
Gostaria que só fosse anunciado um mês antes do casamento, já com o convite, evitando assim falatórios e aborrecimentos para todos nós.
O rei da França necessita de paz para tratar do casamento da filha, acertar seus negócios e preparar-se para nossas bodas.
Creio que a notícia de nosso noivado geraria muitos transtornos para ele.
O rei sensibilizou-se com a preocupação da filha em zelar pelo bem-estar do país e proteger o futuro marido.
Diana parecia-se com a avó: era ponderada e ao mesmo tempo determinada, bem diferente de Luana, que se parecia com a mãe.
Ficou acertado, então, com o monarca francês que o noivado ficaria em segredo.
Diana o fez jurar que nem mesmo para Ane ou o chanceler iria contar.
O rei deu sua palavra.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 14, 2016 10:03 am

Diana sorriu e brincou, satisfeita:
—A palavra de um rei vale mais que qualquer moeda de ouro.
Vou esperá-lo já vestida de noiva, tamanho é o meu desejo de unir-me a você!
A princesa aproveitou os momentos que o pai lhe concedera ao lado do rei e não escondeu a ansiedade em entregar-se a ele.
Este, porém, era um homem honrado e resistiu aos encantos da noiva, dizendo a si mesmo que quatro meses passavam voando.
Retornou à França, sentindo-se o homem mais afortunado de toda a história.
Em breve casar-se-ia com a mais linda mulher que seus olhos já tinham visto.
Suspirava de paixão, fechando os olhos, ao lembrar-se do rosto ousado da noiva.
Mandaria erguer estátuas, criaria moedas, selos e marcas com a face dela e a colocaria na corte de todas as formas possíveis.
Assim que ela chegasse à França, ordenaria aos ourives talhar as mais ricas jóias para a esposa.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 15, 2016 9:09 am

A VITÓRIA DO ESPÍRITO
Loretta despediu-se dos familiares, alegando ansiedade em retornar ao castelo D'armis.
Queria descansar.
Também sentia saudade das flores de seu jardim.
Antes, Lua de Prata chegou-se até ela.
—Rainha Loretta, vou fazer-lhe um pedido:
gostaria que me acompanhasse até a catedral em que o Monsenhor desenvolve seu trabalho.
Quero que veja como o olhar daquele homem faz bem.
Quando nossos olhos se encontram, não consigo segurar as lágrimas.
Vem-me um aperto ao coração e lembro-me de meus antepassados, especialmente de meu pai, que não esqueço um só dia.
Loretta estremeceu.
Ela ir à igreja?
Olhou para a nora e indagou:
—Você já pensou no que está me pedindo?
—Sim, por isso mesmo a convidei.
Vamos até lá, minha sogra!
Vai fazer-lhe bem conhecer um lugar como aquele.
Depois de tanto tempo e sofrimento, pode encontrar a paz que anseia dentro de si.
'Talvez seja uma oportunidade de reconciliar-me realmente com Deus", ponderou Loretta e, sem muito pensar no que poderia sentir ou provocar nos fiéis da corte, acabou concordando.
Apenas pediu sigilo; não queria causar tumulto e comentários. Iriam à missa das 18 horas.
Vestida de preto e usando um largo chapéu negro com véu que lhe cobria o rosto, Loretta entrou na igreja junto com a nora.
Começou a sentir-se mal.
Uma angústia muito grande oprimia-lhe o peito, e o ambiente a sufocava.
Comentou baixinho com Lua de Prata:
—Não estou me sentindo bem...
—Daqui a pouco, quando o Monsenhor chegar, vai sentir-se melhor.
O canto dos padres, acompanhado de uma música suave, enchia o ambiente de calma e paz.
Velas acesas iluminavam o recinto, tornando-o sereno e aconchegante ao mesmo tempo.
Minutos depois de sua chegada à igreja Loretta viu o Monsenhor entrando vestido em uma batina negra.
Ajoelhou-se em frente à imagem de Cristo pregado na cruz e depois, voltando-se aos fiéis que lotavam a igreja, abençoou a todos em nome de Deus, de Seu filho Jesus Cristo e de Sua mãe Maria Santíssima.
Olhando para o religioso, tentou lembrar-se de onde o conhecia.
De repente, por baixo do véu, arregalou os olhos num gesto de espanto e medo.
Abriu a boca, mas não conseguiu pronunciar o nome que se formou em seus lábios.
Sentiu uma pontada no coração e tombou de lado, amparada por Lua de Prata e uma dama.
O Monsenhor dirigiu-se com passos rápidos até o banco em que estava Loretta e pediu ajuda aos outros padres, que se aproximaram prontamente.
Tomaram-na nos braços e levaram-na para outro lugar.
Passando na frente do altar, reverenciaram a imagem de Cristo, tendo nos braços o corpo desfalecido de Loretta.
Lua de Prata e a dama seguiram com eles.
O Monsenhor deixou um auxiliar rezando a missa e foi pessoalmente acudir a filha de Deus.
Pediu para colocarem Loretta em uma cama alta, coberta com lençol branco, e suspendeu o véu que lhe cobria o rosto.
Massageando-lhe os pulsos, levantou a cabeça dela e soprou-lhe as narinas.
Lua de Prata estremeceu, ele usava técnicas da tribo.
O homem pediu gentilmente que todos se retirassem, deixando-o a sós com a paciente.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 15, 2016 9:09 am

Assim que ela voltasse a si, ele os chamaria.
Esfregou algo nos pulsos da rainha e pingou algumas gotas, preparadas por ele mesmo, na boca de Loretta.
Após alguns segundos, ela abriu os olhos, encontrando os de Raul, que lhe segurava as mãos.
— Está se sentindo melhor, Loretta? — perguntou, sorrindo.
Que bom recebê-la na casa de nosso Pai.
Deus seja louvado hoje e sempre!
Loretta, sua vinda até aqui foi uma vitória muito grande para o seu cansado espírito.
Você está na casa de Deus, e se Ele consentiu que reconhecesse em mim algo do passado foi no sentido de ajudá-la.
Faço meu trabalho conforme o Senhor permite.
Estou conseguindo juntar o povo de meu Pai, portanto não disperse o rebanho que tanto lutei para unir.
Não comente nada de mim com os filhos de minha alma.
Estou próximo deles e protejo-os com meu amor.
Se Deus permitiu que se lembrasse de mim, foi apenas para você abrir o coração e entrar para o rebanho.
Ainda lhe resta tempo.
Vou cuidar de você e de nossos entes queridos como Deus ama e protege a cada um de nós: em silêncio.
A caridade não pede propaganda.
Alie-se a mim, Loretta, eu lhe peço em nome de Deus.
Veja como Deus tem sido generoso com você: facilitou seu caminho, dando-lhe tempo e oportunidade de reparar seus pecados.
Abra aquele castelo em que Hari foi sacrificado, transforme-o em um convento; faça do calabouço que guarda os restos mortais dele e de tantas outras criaturas uma capela em que a oração possa dispersar as trevas que reinam por ali.
Transforme o castelo D'armis também em convento, onde as orações e a caridade nos sustentem a fim de desfazermos as mágoas e lágrimas lá derramadas.
Juntos poderemos reconstruir parte da ponte que nos leva de volta à casa do Pai.
Loretta estremeceu.
Tentou falar alguma coisa, mas a voz não saiu.
O Monsenhor chamou os parentes da enferma e recomendou repouso absoluto.
Pediu ajuda aos padres, que prepararam o meio mais confortável de transportar a mãe do rei até o palácio.
Nessa altura, já corriam histórias pelos quatro cantos da corte:
a rainha Loretta fora castigada por Deus ao entrar na igreja que havia profanado, tendo perdido os sentidos e sido amparada pelo Monsenhor.
0 médico da corte examinou Loretta e recomendou a Lua de Prata e ao rei:
—Ela sofreu um grande choque.
O coração dela está abalado e é possível que não volte mais a andar.
Em desespero, o rei perguntou a Lua de Prata:
—Por que levou minha mãe à igreja?
Não imaginou que ela poderia sentir-se mal ao lembrar-se de tudo que sofreu por causa dela?
Não vou perdoá-la se algo mais grave acontecer com ela.
Ainda hoje estava bem e muito disposta e agora está aniquilada por sua causa!
Por que insiste em tornar-se católica, Lua de Prata?
Seus costumes pareceram-me bem diferentes na tribo.
Pelo que me recordo, falava com o espírito da mata, mas agora se confessa com os padres.
Retirou-se apressadamente, passando pelas filhas sem dar-lhes atenção.
Lua de Prata chorou amargamente.
Não fizera por mal; insistiu, sim, em levar a sogra até a igreja, mas no sentido de despertar nela a paz.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 15, 2016 9:09 am

Caso Loretta não melhorasse nos próximos dias, pediria ao rei para levá-la à tribo, onde o grande espírito poderia curá-la, tinha certeza.
Iria dedicar-se noite e dia a ela, oraria a Deus, o grande espírito da mata, para ajudar a sogra a recuperar-se.
Passou a noite velando a doente, que fitava o vazio.
De vez em quando, duas lágrimas escorriam-lhe pelo canto dos olhos.
No dia seguinte, chegou uma mensagem, assinada pelo Monsenhor, pedindo autorização para visitar Loretta.
Lua de Prata disse para a sogra:
—Minha senhora, responda com um gesto ao que vou perguntar-lhe:
o Monsenhor quer vê-la.
Você deseja ou não sua visita?
Loretta, fazendo enorme esforço, balançou a cabeça num gesto afirmativo.
Quando Raul entrou, os olhos de Loretta adquiriram novo brilho.
Estendeu a mão para ele, que a tomou entre as suas e acariciou o cabelo dela.
Lua de Prata viu que lágrimas escorriam dos olhos da sogra.
O Monsenhor falou-lhe muito sobre Deus e em seguida perguntou-lhe:
—Gostaria de ir para o castelo D'armis, rainha Loretta?
Velarei por você todos os dias.
Jamais vou abandoná-la.
Lua de Prata estranhou a pergunta.
Como ele poderia saber que ela estava no castelo D'armis?
Alguém podia ter comentado com ele...
Caso a sogra desejasse, ela a acompanharia e ficaria o resto de sua vida ao seu lado.
Loretta gesticulou que gostaria, sim, de ir ao castelo D'armis.
O Monsenhor conseguiu fazer com que engolisse um caldo, e ela pareceu mais tranquila.
O rei entrou nos aposentos da mãe e viu o religioso ao lado dela.
Percebeu que Loretta estava mais corada e com melhor aparência.
Aproximou-se, beijou a fronte da mãe e quis saber:
—Está melhor, minha mãe?
A rainha esboçou um sorriso e apontou o Monsenhor com a mão.
O rei cumprimentou-o e sentiu um frio percorrer-lhe o corpo diante da estranha sensação de que ele lhe era familiar.
Era bobagem pensar assim, pois vira o padre quando chegou à corte.
—Majestade, sua mãe precisa descansar em um lugar mais tranquilo e arejado.
Tenho certeza de que o ar das montanhas do castelo D'armis vai fazer-lhe muito bem.
Se permitir, cuidarei dela pessoalmente para que nada lhe falte — recomendou o Monsenhor.
O rei ia perguntar-lhe como ele sabia do castelo e do desejo da mãe, quando esta falou baixinho:
—Meu filho, por favor, esse é o meu desejo.
Quero ir e o Monsenhor irá me ajudar.
Lua de Prata pôs-se a chorar baixinho ao lado da cama.
Graças a Deus a sogra falara!
Loretta pegou a mão da nora e disse-lhe:
—Você fica, minha filha.
Cuide de minhas netas e de meu filho.
Chegando ao castelo D'armis, Loretta pediu que parassem a carruagem para olhar as rosas que se abriam embelezando o vasto jardim.
Acomodou-se nos aposentos preparados para seu casamento com Raul.
O Monsenhor ficou no cómodo ao lado, ou seja, em seu antigo quarto como conde Raul.
Lua de Prata retornou ao palácio real entristecida e amargurada.
Sua vontade era ficar no castelo ao lado da sogra e, principalmente, do Monsenhor.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 15, 2016 9:10 am

Ele acalmava seu coração, transmitia-lhe enorme paz.
Diana iria casar-se e ela precisava estar presente, mas prometera a Loretta que uma vez por semana iria visitá-la.
As damas de confiança da sogra estavam atentas em servi-la dia e noite, e o Monsenhor pedira afastamento das tarefas da Igreja para dedicar-se à rainha.
O rei estava completamente aborrecido.
Por vezes bebia mais do que podia e passava por Lua de Prata sem olhá-la.
Não escondia de ninguém o quanto sofria com a doença da mãe.
Certa noite, gritou para a mulher:
—Se minha mãe morrer, jamais vou perdoá-la!
Nada que você me deu a supera!
Você mudou para pior depois que se uniu aos padres.
— E saiu transfigurado dos aposentos, deixando Lua de Prata aos prantos.
No castelo D'armis, o Monsenhor orava com todo o coração, pedindo ajuda a Deus para Loretta.
Ao seu lado, via nitidamente sombras escuras passando pela janela e espalhando-se no aposento.
Loretta começou a passar mal; faltava-lhe ar, debatia-se.
Em dado momento, arregalou os olhos, agarrando-se desesperadamente ao padre.
—Ele está aqui!
Hari está aqui!
Ele diz que está me esperando, que não vai sair daqui até que eu morra.
Veja só! O quarto está cheio de maus elementos que riem de mim.
Eles me chamam de "nossa rainha".
Por favor, Raul, ajude-me!
Hari ri de você, chama-o de nomes horríveis.
Raul continuou a orar, e, depois de muito custo, Loretta adormeceu.
Saiu, dirigindo-se ao topo da montanha, onde o silêncio era quebrado apenas pelo canto dos pássaros nocturnos.
A lua iluminava a noite.
Ajoelhou-se na relva, elevou o pensamento ao grande espírito da mata, pedindo que viesse ajudá-lo a salvar Hari e seus acompanhantes; que auxiliasse Loretta a desfazer o compromisso de dor.
Ainda estava de olhos fechados quando um vento passou por ele e, balançando uma árvore à sua frente, parou.
Tinha certeza: era o grande espírito que o ouvira e estava ali.
Chorando, aproximou-se da árvore, ajoelhou-se e pediu:
—Meu Pai, ajude-me.
Preciso salvar aqueles irmãos pequenos, salvar minha irmã pequena, salvar-me para merecer a liberdade de voar ao vento.
Começou a sentir uma paz tão grande dentro de si que, recostando-se à árvore, logo adormeceu.
Sonhou que era o grande cacique da pedra branca.
Sentado em uma pedra, observava as estrelas, enquanto o pajé aproximava-se dele.
Não estava sozinho.
Vinha com o grande espírito da mata.
Pôs-se de joelhos a seus pés, e este despejou sobre sua cabeça uma essência perfumada que lhe envolveu todo o ser.
O grande espírito suspendeu-o no ar, chamando-o de filho.
—Leve e coloque no local em que eles estão — disse, entregando-lhe as folhas que trazia consigo.
Acordou, abrindo devagar os olhos e ainda sentindo o perfume derramado pelo espírito no sonho.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 15, 2016 9:10 am

Uma brisa agitava o ar.
Por instantes, viu a aldeia, os jardins floridos, as crianças correndo, a lua iluminando os córregos, e escutou o barulho do mar e do rio, parecendo uma serpente saindo da mata e chegando ao oceano.
Viu o filho sentado na pedra conversando com o grande espírito da mata.
Estava tão diferente!
Forte e maduro, era um verdadeiro cacique.
Os netos que não conhecia estavam entre os guerreiros da tribo.
Sobrevoando a aldeia, viu Lua Branca, o cabelo negro balançando-se ao vento, o sorriso de criança e os olhos negros como duas jabuticabas brilhando, iluminando mais que a lua.
Ela aproximou-se dele, beijou-lhe a fronte e afastou-se, sempre sorrindo.
Raul despertou por completo.
Vestido com a batina, lembrou-se de que estava ali por outro motivo.
Levantou-se e notou que ao lado havia uma ramagem que exalava cheiro agradável.
Uma sensação de paz encheu seu coração.
Colheu algumas folhas daquele arbusto e saiu andando lentamente.
A lua já havia atravessado o céu.
Ele devia ter dormido algumas horas.
Caminhou calmamente, o sereno da noite umedecendo seu cabelo branco.
Lembranças da aldeia apertavam-lhe o coração.
Nunca se tinha desmembrado daquela forma desde o dia em que partira da tribo.
Reviu a aldeia, viu o filho, os netos e a pedra branca, que continuava protegida como sempre fora, pois era um templo sagrado, abençoado pelo grande espírito.
Depois de tanto tempo, ele veio ao seu encontro, benzeu-o e chamou-o de filho.
Colocaria as folhas que levava embaixo do travesseiro de Loretta.
Tinha certeza de que o grande espírito as havia preparado.
Entrou silenciosamente no jardim e dirigiu-se aos aposentos da rainha.
Na frente da porta do quarto de Loretta, percebeu um vulto.
Orou em pensamento, e a sombra desapareceu.
Tudo estava silencioso.
Passou o resto da noite acordado, relembrando cada detalhe de seu transporte espiritual.
Lua Branca...
Quanta saudade sentia dela!
Era pura como a flor que nasce entre os arbustos da floresta, era como uma fonte de água límpida que se escondia entre as pedras, era como aquelas folhas perfumadas, pois exalava amor para todos que dela se aproximavam.
Não amou apenas a matéria de Lua Branca, mas sua alma e grandeza.
Agradecia sempre a Deus pela felicidade que ela lhe havia proporcionado.
"Ah, minha mãe peixe, virgem da Conceição, tende piedade de nós.
Protegei minha amada aldeia e todos os seus filhos", rezou em pensamento para Nossa Senhora.
Não importava que nome lhe dessem, era a única em seu coração.
Antes de o dia clarear por completo, foi ver como estava Loretta.
Esta lhe pareceu mais corada, e suas mãos, antes sempre geladas, agora estavam quentes.
Ao vê-lo, abriu um sorriso e contou:
— Tive um sonho tão estranho...
Imagine, estava com você, ajoelhada diante de um altar com a imagem de Jesus, e rezávamos de mãos dadas.
Você flutuava e transformava-se em luz.
Eu não conseguia sair do chão, mas estava muito feliz porque você me amparava; sentia-me segura com sua presença ali perto de mim.
Acordei e estou me sentindo tão bem que sinto vontade de levantar-me.
Será que posso andar, Raul?
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 15, 2016 9:10 am

—Loretta, minha amada criança, esqueça o passado.
Você pode levantar-se e ainda fazer muitas coisas boas por si mesma.
Raul chamou duas criadas, que ajudaram Loretta a levantar-se, deram-lhe banho e vestiram a rainha com esmero.
Com alguma dificuldade, mas ajudada por elas e pelo Monsenhor, desceu até a varanda, de onde podia ver o jardim florido ainda molhado pelo orvalho da noite.
Comeu bem e estava animada.
Mais tarde chegou Lua de Prata acompanhada por quase todos os membros da família real.
Todos amavam Loretta.
O rei ficou entusiasmado quando viu a mãe tão bem-disposta.
Lua de Prata foi até o Monsenhor, beijou-lhe as mãos e, com os olhos cheios de lágrimas, agradeceu-lhe:
—Obrigada, meu pai espiritual, pelo que está fazendo por minha sogra e por todos nós.
Passaram-se três meses. Loretta recuperava-se dia a dia.
O Monsenhor voltou às suas actividades na Igreja, mas dia sim, dia não, ia ter com a rainha.
Ela dormia melhor e alimentava-se bem.
Aguardava sempre ansiosa pela chegada do padre.
Certa tarde, sentada na varanda, avistou de longe uma carruagem que se aproximava.
Como sua vista já não a ajudava a ver como outrora, perguntou para uma das acompanhantes:
—Quem se aproxima?
Você pode ver?
—Sim, senhora.
E uma carruagem da família real, mas não consigo ver quem é.
"Deve ser Lua da Prata.
Ela tem sido como uma filha para mim.
Meu filho teve muita sorte quando se casou com ela", imaginou Loretta.
Quando o carro chegou perto do portão principal, um criado correu para receber os visitantes.
Loretta foi informada:
—Senhora, é sua neta, a princesa Diana, e o rei da França.
Loretta ficou feliz com a notícia.
O casal aproximou-se.
A neta beijou-a e abraçou-a, seguida do rei da França, que estreitou Loretta entre os braços, dizendo-lhe:
— Mãe querida, quanta saudade senti de você e como me entristeceu sua doença!
Vejo que está melhor.
Gostaria de levá-la para a França, minha boa e querida mãe Loretta.
Ane e Henrique sentiram muito sua falta no casamento deles e mandaram-lhe muitos abraços e beijos, além de um baú de presentes, que já pedi para o criado trazer até aqui.
Vim cumprir minha palavra com o rei Henrique e dar-me o direito de ser feliz.
Levarei para a França a maior e mais bela rainha que a nação já teve.
Amo sua neta Diana tanto quanto minha querida França e darei a vida por ambas.
Loretta olhou para Diana, linda em sua juventude plena, e imaginou:
"Com certeza, a França terá a mais bela rainha de todos os tempos.
Só não sei dizer se fará o rei feliz como almeja, mas seja o que Deus quiser".
Continuaram conversando.
Agradeceu o convite do rei, mas disse-lhe não aguentar a viagem.
Estava feliz por ele e pela neta.
Desejou muita felicidade para ambos e, antes de despedir-se, afirmou ao rei que, se fosse possível, antes de partir do mundo queria ver Henrique e Ane mais uma vez.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 15, 2016 9:10 am

DIANA, A NOVA RAINHA
O palácio acomodou reis e rainhas de muitos países vizinhos para o casamento de Diana.
Estava sendo um dos mais concorridos, pois, além de a França ser uma nação das mais respeitáveis, era símbolo mundial da liberdade.
Aquele fora o acontecimento mais importante dos últimos tempos.
Os dois países agora dividiam a coroa.
O rei francês não tinha herdeiros, mas, casado com Diana, o povo via a possibilidade de mudar essa realidade.
Após o acordo entre os monarcas, uma comitiva partiu levando o rei e sua nova rainha.
Os franceses aguardavam-nos em clima festivo.
Corriam de boca em boca comentários sobre a juventude e beleza da nova rainha.
Henrique ficou feliz por Diana e disse para a mulher:
— Ane, vamos fazer o possível para ajudá-la.
Gostaria que procurasse gostar dela como se fosse sua verdadeira irmã.
A princesa prometeu que faria tudo para deixá-la completamente à vontade.
Só de pensar que Diana era neta da rainha Loretta, a quem tanto devia, despertava nela sentimentos de gratidão.
Henrique, que cuidava dos negócios da corte, organizou tudo para que a chegada do rei e da rainha fosse bem-sucedida, conforme requeria a ocasião.
Ane encarregou-se de preparar os aposentos de Diana com esmero e requinte.
Não economizou luxo nem beleza.
Nem a própria mãe tivera algo igual ao que preparou para a jovem madrasta.
Separou todas as jóias usadas pela mãe para entregá-las à nova rainha da França.
Elas pertenciam à coroa, e cada nova soberana as usava até o fim do reinado.
O bom gosto e o refinamento dos melhores profissionais da corte transformaram os aposentos da rainha Diana em um verdadeiro conto de fadas.
As damas que iriam servi-la falavam sua língua e foram treinadas para desempenhar adequada e elegantemente seu papel.
Assim que o casal chegou, a cidade ficou em alvoroço, o povo querendo ver de perto a tão comentada rainha.
O rei determinou três dias de festa, com a distribuição de uva, queijo e vinho para todos.
A apresentação de Diana seria no teatro principal, para onde o rei a levaria para receber a homenagem dos artistas e nobres em geral e apresentar-lhe os cavaleiros da corte francesa, que jurariam a vida por ela diante do monarca.
Ane encantou-se com a beleza da jovem madrasta.
Esta, porém, a tratou com certa frieza, não demonstrando interesse por sua amizade.
A esposa do chanceler preferiu acreditar que Diana estava se sentindo em terra estranha e logo iria procurá-la, até mesmo para agradecer-lhe.
No dia seguinte, Ane andou em vão para lá e para cá.
O pai informou-a de que a viagem tinha deixado a esposa cansada.
Como não tinha costume de viajar, sentia-se enjoada.
No terceiro dia seria sua apresentação à corte.
Preocupada, Ane procurou falar com as damas designadas para ajudar a rainha, que lhe contaram que esta dispensara a todas, ficando unicamente com duas acompanhantes que trouxera de seu país, e que elas só se comunicavam com as damas da rainha.
A princesa, através do pai, pediu para falar com a madrasta.
Ela devia estar precisando de ajuda; afinal, seria sua apresentação, e toda a família deveria estar unida.
Por isso, era importante que conversassem antes.
Pouco depois, uma das damas procurou Ane dizendo que a rainha queria vê-la.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 15, 2016 9:11 am

Solícita, saiu apressada e, ao entrar nos aposentos da madrasta, empalideceu:
Diana estava deitada completamente nua, enquanto as damas massageavam seu corpo com creme.
Seu cabelo negro estava preso.
Ante a aproximação de Ane, ela disse, sem se mexer:
—Perdoe-me a forma como a recebo, é que estou me preparando para esta noite.
Uso uma técnica diferente da sua, Ane.
Para sentir-me bem, passo por todo esse processo.
Agradeço a boa vontade em ter colocado suas damas à minha disposição, ou melhor, as damas da corte! — disse, com um sorriso irónico.
Prefiro, no entanto, as que trouxe da corte de meu pai, pois já estão acostumadas comigo.
Além disso, ainda não me considero rainha plena antes de ser coroada diante da França.
Por isso, faço uso dos recursos enviados por meu pai, o rei Henrique.
Agradeço mais uma vez sua gentileza em querer ajudar-me, mas pode ficar tranquila que não vou fazer feio diante de seu pai.
Está tudo planeado.
Nós nos veremos logo mais, à noite.
Ane saiu decepcionada com a frieza da madrasta.
Talvez fosse questão de cultura: ela era filha de uma índia e podia ser que o espírito de independência provocasse tudo aquilo.
Junto ao esposo, desabafou:
—Henrique, você conheceu Diana melhor do que eu.
Ela tratou-me quase com indiferença.
Em nada se parece com a rainha Loretta.
Henrique abraçou-a.
—Minha querida, Diana é diferente de você em tudo!
Não tem sua classe nem sua nobreza, mas aos poucos irá aprendendo.
A noite, Ane arrumou-se como uma verdadeira princesa.
Ao lado de Henrique, formavam um belo casal.
O Chanceler de Ferro vestiu-se também elegantemente, pois se apresentaria ao lado do rei e de sua rainha e, além do mais, era genro do monarca.
Todos aguardavam a chegada da rainha para seguir ao evento.
Faltando um minuto para a hora que o rei marcara de encontrá-la, apareceram suas damas.
Vinham na frente, abrindo caminho para Diana, que não parecia mulher de carne e osso, mas uma deusa das histórias encantadas.
Todos ficaram estáticos diante da beleza exótica da nova rainha.
Ela não usava nenhum dos vestidos desenhados e feitos à mão por anos a fio que encontrara no guarda-roupa.
Nunca tinham sido usados pela falecida rainha, pois foram terminados quando ela já estava acamada e ficaram para uso da nova esposa do rei.
O rei ficou deslumbrado com a beleza de Diana, mas, notando que ela não usava nada da coroa francesa, perguntou-lhe:
— Diana, você não está usando a coroa nem mesmo as jóias. Por quê?
— Meu marido, a coroa está aqui, e você deve coroar-me na frente do povo, pois ela pertence à França, não ao meu país.
Quanto às jóias e roupas, depois que for apresentada tomarei posse do que me pertence por direito.
O rei sorriu.
Ela era tão sábia quanto a avó.
Só então Diana olhou para Henrique, que enrubesceu diante da hostilidade de seu olhar.
Apenas acenou com a cabeça para ele, sem lhe estender a mão.
Sua pele morena contrastava com o vestido prateado, bordado com fios de prata e pérolas.
O cabelo negro e liso brilhava, chegando até a cintura.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 15, 2016 9:11 am

Usava um colar de pérolas, brincos e pulseiras que ganhara da avó Loretta.
Combinavam com o vestido que usava.
Tinha sido presente de seu avô, que amou Loretta e fez dela a grande e temida rainha.
'Tomara que este vestido me dê tanta sorte quanto deu para minha avó.
Pretendo fazer da França meu país e desenvolver aqui o que Loretta fez na corte de meu avô", pensou Diana, já saboreando a vingança.
Assim como a avó derrubara os padres em seu reinado, ela baniria o cargo de chanceler.
Se quisesse continuar no país, Henrique teria de servi-la como simples serviçal, enquanto faria de Ane uma princesa inútil.
O povo louvou a chegada do rei e, quando este levantou a cortina, mostrando a nova rainha, foi uma explosão de palmas.
Ela cumprimentou o povo, mostrando uma humildade e doçura que estava longe de sentir.
Depois, respeitosamente, pediu ao rei que a coroasse diante do povo.
Este colocou a coroa cravejada de brilhantes e pedras preciosas adornando-lhe o belo cabelo negro.
A França curvou-se aos pés de Diana.
O rei levou-a até o trono, e todos os nobres cavaleiros apresentaram-lhe armas, prestando juramento e lealdade.
Na vez de Henrique, quando ele se abaixou cumprimentando-a e desejando-lhe felicidade, ela o olhou nos olhos e disse:
—Certamente, Henrique, já me sinto a pessoa mais feliz do mundo.
Começou, então, uma vida de glória para Diana, responsável pelo aumento do comércio na França.
Fez no país o mesmo que Loretta fizera na corte do avô.
Apenas duas pessoas sofriam na corte francesa: Henrique e Ane.
Diana começou uma perseguição oculta.
Tudo que o chanceler pretendia fazer, quando trazia ao rei, este já tinha projectado.
Constantemente humilhado, aos poucos foi caindo em depressão.
A rainha Diana criou novo círculo de amizades para cercar o rei de gentilezas.
Henrique pouco conversava com o soberano e, quando participava de alguma cerimónia familiar, saía delas ultrajado.
Diana tratava Ane com um descaso tão grande que chegava a revoltar até suas próprias damas.
Quando nasceu a filha de Ane, Diana disse-lhe em tom de brincadeira:
—Se a França dependesse de você para ter um herdeiro, precisaria esperar talvez por um neto seu ou até um bisneto.
Diana estava grávida de três meses e, exibindo a barriga que ainda não aparecia, completou:
—Tenho certeza de que aqui está o futuro rei da França.
A nova rainha da França soube que a avó tinha convertido o castelo D'armis em um convento para meninas órfãs, e aquele que o avô apreciava muito, nas montanhas, fora transformado em um mosteiro para meninos.
Estranhou a mudança de Loretta.
Havia expulsado os padres e, de repente, construíra os maiores conventos da história, vivia rodeada por religiosos e aquele velho Monsenhor não a largara por um só minuto desde que ficara doente.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 15, 2016 9:11 am

O DESENCARNE DE LORETTA
Uma grande tristeza abalou o reino do rei Henrique: a mãe falecera.
Loretta morrera nos braços do Monsenhor, que, após sua morte, se enclausurou no mosteiro das montanhas.
Ninguém mais o viu.
Era muito estranho o apego dele por Loretta.
Dois meses depois da morte da rainha, os pais de Diana partiam para a França a fim de receber o neto que estava para nascer.
A moça ficou muito feliz.
Fazia dois anos que deixara a terra natal e nunca mais tinha visto os pais.
Ansiava por vê-los e saber da mãe notícias de todos, inclusive dos parentes indígenas.
Lembrou-se então do avô cacique.
Que fim teria tido?
O povo falava demais, dizia que ele era o conde Raul D'armis, mas ela nunca acreditara nessa história.
Sua avó deixou-o ficar no castelo por bondade até que um dia ele desapareceu sem deixar rastro.
Coitada de sua mãe! Sofria por isso, mas o que poderia fazer?
Suspirou profundamente e envolveu-se com os assuntos que mais a interessavam no momento:
a retirada definitiva de Henrique da corte francesa.
Ele parecia velho e cansado, o povo criticava seu trabalho, e ele já não era solicitado para representar a França.
No auge estava David, um jovem ambicioso e inteligente que Diana praticamente elegeu para substituir Henrique, colocando-o diante do rei como inteligência suprema.
Certo dia, o marido de Diana sentiu a hostilidade dela por Henrique e perguntou-lhe:
— Por acaso está insatisfeita com meu genro, minha rainha?
— Meu marido e rei, preocupo-me com o futuro da França.
Ou você esquece que também sou responsável por isso?
Afinal de contas, serei a mãe do próximo rei.
Temos de pensar que amanhã a França dependerá do que fizermos hoje.
Não quero investir em uma nação fracassada para meu filho governar, e sim em uma próspera.
Sinto muito, mas o que vou dizer-lhe vai magoá-lo.
Sei que ama Henrique como um filho e eu também o considero muito, mas ele já não faz um bom trabalho e o povo não confia nele como antes.
Por isso, creio que está na hora de mantê-lo no palácio como mantém seus cavaleiros de estimação.
Trate-o bem, valorize-o, mas não lhe dê nenhuma responsabilidade que envolva a coroa.
Temos tido grande retorno com o jovem David, além de economia para os cofres da França.
Podemos contratar três assessores para dar-nos cobertura e deixar Henrique fiscalizando-os.
Ele é bom em organização e muito honesto em tudo que faz, mas não vejo por que mantê-lo no cargo de chanceler.
Aliás, deveríamos acabar com esse título envolvendo funções que considero desnecessárias.
O rei ficou pensativo.
O que Diana falava infelizmente não era mentira:
o povo não acreditava mais em Henrique.
Jovens recém-formados destacavam-se na política e na economia do país, e ele teria de incentivá-los, dando chance aos que se sobressaíam.
—Você tem uma maneira rápida de expor seus pensamentos, mas devo reconhecer que está certa.
Preciso tomar uma decisão urgente.
Henrique parece-me cansado, não está afinado com o resto do mundo, pouco tem saído da França, e David tem feito realmente um excelente trabalho.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

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