AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 05, 2016 10:10 am

Desceu as escadas, correndo ao seu encontro, e para surpresa do jardineiro atirou-se em seus braços, chorando.
Logo se recompôs, enxugou as lágrimas e sorriu.
—Senhor Manuel, preciso de sua ajuda.
A única pessoa neste mundo que me veio à cabeça foi o senhor.
Existem muitas coisas que não posso dividir com ninguém e nesse momento não sei se foi bom ter ficado ou se teria sido melhor ter acompanhado Raul em sua reclusão.
Em sua simplicidade, o jardineiro não entendeu o que ela quis dizer com aquilo, mas tirou o chapéu da cabeça e disse-lhe:
—Minha ama e senhora, farei qualquer coisa para ajudá-la.
Conte comigo.
Juro pelo sangue que corre nestas veias que jamais a trairei por nada neste mundo.
Peça-me o que quiser.
Farei pela senhora o que faria por minha própria filha.
Loretta suspirou aliviada.
Tudo começava a dar certo.
Pretextando ver as flores que desabrochavam nos jardins, acompanhou o jardineiro e começou a expor-lhe o que pretendia.
Sem desconfiar de que se tratava de uma armadilha, o pobre homem propôs-se a atender seu pedido, prometeu fidelidade e jurou por sua vida que jamais falaria nem uma palavra sequer contra ela.
Dizia para si mesmo:
"Pobre menina, foi simplesmente uma vítima do destino".
Loretta deu-lhe uma boa quantia em dinheiro, que o jardineiro inicialmente se recusou a receber.
Ela então chorou e suplicou que aceitasse.
E prometeu-lhe:
—Vou recompensá-lo mais ainda por toda sua bondade para comigo.
A incumbência do Senhor Manuel seria pegar um barco equipado com tudo que fosse necessário para manter-se em viagem de ida e volta, ir ao encontro de Hari em pleno mar e desviá-lo da rota normal.
Teria de levá-lo até o velho castelo real, que ficava entre as montanhas, e imediatamente avisá-la.
Ela, então, iria correndo ao seu encontro.
Precisava falar com ele antes de qualquer pessoa ou mais uma desgraça iria acontecer envolvendo seu nome.
Loretta voltou ao palácio e trancou-se em seu quarto.
Chorou copiosamente; estava de facto triste.
Amou Hari, ele havia sido a melhor pessoa que conhecera na vida, mas não tinha escolha:
precisava matá-lo, pois sua relação com o rei corria riscos, como bem lhe lembrara o tio.
Estava abatida e com os olhos vermelhos quando o rei entrou no aposento.
— O que houve com você?
Maltrataram-na?
Mandarei enforcar todos os que lhe fizeram chorar!
— Não, meu amor, pelo contrário.
Meu tio me recebeu de braços abertos.
Fiquei triste em ver sua situação.
Minha tia perdeu a razão.
Os dois estão trancados naquele castelo como duas almas que já morreram e estão penando.
Meu senhor e meu rei, quero fazer-lhe um pedido:
a primavera está chegando, linda e maravilhosa.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 05, 2016 10:10 am

Deixe-me ficar uma semana com meus tios.
Gostaria de levá-los ao velho castelo real, com a vossa permissão, pois a rainha contou-me que ali a primavera não economiza beleza para enfeitar os arredores.
Seria como recompensá-los por todo o sofrimento causado pela falta de Raul.
Só de pensar em ficar uma semana sem vê-la, o rei ficou agitado.
—Você está me pedindo para ficar longe de mim, Lorre?
Lorre era como ele a chamava carinhosamente.
—Não, meu amado, estou pedindo para que venha também.
E por uma questão de aparência você deve levar a rainha connosco.
O monarca tinha muitos compromissos nessa época do ano, mas concordou em acompanhar a amada.
0 que sua Loretta pedia que ele não fazia?
— Lorre, você acha que devemos levar mesmo a rainha?
Não vai aborrecê-la?
— Aborrecer-me por que, amor meu, se é comigo que você vai dormir?!
— Se esse é o seu desejo, assim será feito.
Levaremos nossos convidados e a rainha.
Só me avise com antecedência para que possa deixar meus compromissos encaminhados.
Vinte dias se passaram.
Parecia uma eternidade a espera de Loretta por notícias de Hari, até que uma tarde chegou o que ela tanto aguardava:
a notícia de que Hari estava escondido no castelo, esperando-a.
Como tinha tudo planeado, adiantou a viagem, e o rei consentiu que partissem no dia seguinte.
Loretta implorou-lhe que a permitisse seguir com a comitiva do tio, enquanto ele seguiria com a comitiva real.
O jardineiro adiantou-se a preparar Hari para a chegada dos soberanos, do conde e de sua sobrinha.
Ele deveria esperá-la em segredo, conforme combinado.
Dois dias depois chegavam ao castelo a comitiva do conde seguida pela real.
Da torre em que se encontrava, Hari viu o conde descer da carruagem ajudando a esposa, que parecia alheia a tudo, e Loretta, linda e encantadora como sempre.
Seu coração batia acelerado.
Não via a hora de apertá-la nos braços.
Em seguida, viu aproximar-se a comitiva real.
O rei parecia mais jovem e bem-disposto, enquanto a irmã estava pálida, magra e envelhecida.
Estaria doente?
Depois de Loretta, ela era a pessoa que mais amava.
Saberia logo mais o que se passava com a irmã, Loretta iria contar-lhe.
Após a recepção, Loretta deu um jeito de falar com o monarca:
—Enquanto você conversa com meu tio e resolve os interesses do reino, vou levar minha tia a um pequeno passeio pelos arredores.
O rei piscou, consentindo que ali não haveria perigo algum, ainda mais acompanhada da pobre e doente senhora.
Uma vez longe dos olhos do rei, Loretta levou a tia até um compartimento vizinho ao que abrigava Hari, deu-lhe algo para beber e a fez deitar-se.
Saiu, fechando a porta por fora.
Ao se deparar com Hari, este a abraçou, suspendendo-a no ar, tamanha sua alegria.
Beijava-a e falava ao mesmo tempo.
Loretta, longe de sentir a mesma emoção, apenas fingia estar feliz em revê-lo.
Estava ansiosa para saber se tudo tinha corrido conforme planeado, mas controlou-se até que Hari acalmasse sua sede de amor.
—E então, Hari, conte-me.
O que houve com Raul?
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 05, 2016 10:10 am

—Bem, minha querida, diante dos olhos de toda a tripulação Raul admirava o mar quando foi arrebatado por ele.
Não conseguimos resgatá-lo em virtude da forte corrente que passa naquela região.
O escrivão documentou três mortes durante a viagem e, infelizmente, uma delas foi a de Raul.
Você, minha prenda, agora é uma viúva que poderá casar-se perante a corte e a Igreja.
Já tem aqui seu pretendente.
Ainda quer se casar comigo?
Ela o abraçou para disfarçar o que realmente sentia.
Então era livre e poderia casar-se...
Hari fez-lhe perguntas sobre o reino e comentou ter ficado preocupado ao ver de longe a irmã, que lhe parecera doente.
Loretta disse-lhe que a rainha estava passando por um momento difícil, mas não era nada sério.
Acrescentou que ficariam ali por muito tempo para ela poder descansar e que fora por isso que arrumara aquele esquema de trazê-lo em segredo.
Como poderia ficar tanto tempo sem vê-lo?
Ele, por sua vez, não podia vir ao encontro do rei, mesmo sendo seu cunhado, por isso ela pedira a ajuda do jardineiro.
Hari ficou convencido de que Loretta o amava, pois, do contrário, como poderia fazer tudo aquilo?
Realmente era um homem de sorte.
—Agora, meu amor, tenho de ir.
A rainha deve estar precisando de mim.
Não se preocupe, pedi permissão para sair com minha tia para dar um passeio.
Dei-lhe um suco com calmante e deitei-a para descansar.
Até amanhã, meu amado.
O Senhor Manuel lhe trará informações para nos encontrarmos com segurança.
Ele veio como jardineiro convidado do rei.
—Vá, minha amada.
Agora sei que me ama de verdade.
Esperarei por você sempre. Você é minha vida!
Ela saiu, deixando-o a lembrar-se do dia em que a conheceu, de como se amaram.
Ele foi o primeiro homem de sua vida e seria o único, tinha certeza disso.
Deitou-se, fechou os olhos e ficou sonhando casar-se com Loretta.
Após o jantar, todos conversavam animadamente.
A rainha observava Loretta.
Como pudera acolher uma serpente nos braços?
Sentira pena dela e, levando em consideração que era meio parente do rei, colocou-a como sua dama de companhia.
Agora, de rainha só tinha a coroa e nada mais.
Perdera o marido, e nenhum súbdito do rei obedecia às suas ordens, somente às de Loretta.
Sabia que só estava ali porque consentira.
Qual seria a intenção dela? Matá-la?
Um frio percorreu sua espinha.
Quando o rei demonstrou cansaço, todos se levantaram, cumprimentaram-no e à rainha e dirigiram-se para seus aposentos.
Loretta fez o mesmo.
Meia hora mais tarde, o rei entrou no quarto dela.
Puxou-a para junto de si, fechando a porta e levando-a nos braços até a cama.
Loretta amava aquele homem com todas as forças de seu coração.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 05, 2016 10:11 am

Em seus braços, perguntava-se:
Teria coragem de matá-lo?
Não, ele não.
Aquele homem era sua própria vida.
Ao contrário de matá-lo, daria a vida por ele.
Começaram a conversar, fazendo a programação para o dia seguinte.
Loretta, como sempre, comandava o destino do rei.
Sugeriu-lhe:
—Você pode convidar os homens para uma caçada nas partes baixas do castelo, sem se afastarem muito.
Só lhe peço, meu amor, muito cuidado.
Sugira à rainha fazer com suas damas um passeio pelo bosque que cerca o lago.
Naturalmente, alguns dos cavaleiros devem acompanhar as damas.
O rei sorriu de satisfação.
Loretta, sim, era sua verdadeira rainha!
Como era inteligente, organizada e bondosa.
—E você, minha pequena, o que deseja fazer?
—Meu amado, aproveitarei o dia para tentar trazer de volta o sorriso de minha tia.
Vou passear entre as flores dos jardins.
Quando o rei desceu acompanhado da rainha, todos já se encontravam à sua espera.
Levantaram-se com sua chegada e, ao seu sinal, começaram a servir-se do desjejum, verdadeiro banquete real.
Os criados correram para organizar os passeios sugeridos pelo rei.
Como tudo sempre ficava à disposição dele, nada era difícil de arrumar.
Logo estavam saindo o rei, seus convidados e os cavaleiros da corte para a caçada.
A rainha animou-se também, pois estaria se divertindo em segurança e longe dos olhos de Loretta.
Dois cavaleiros iriam acompanhar as mulheres.
Todos saíram, e Loretta pôde, enfim, ir ao encontro de Hari.
Conhecia o castelo como a palma da mão, pois, quando criança, estivera lá várias vezes e em companhia de Raul descobrira diversos lugares secretos.
Na torre, por exemplo, havia um poço que ele lhe mostrara.
Empurrava-se uma trava e abria-se uma fenda de onde saía um cheiro insuportável.
Ele lhe dissera que era ali que eram jogados os corpos dos mortos no castelo.
Chegou ao esconderijo de Hari levando uma garrafa de vinho, pão fresco, queijo e algumas frutas.
Levava também um frasco contendo um veneno letal.
Após os saudosos beijos e abraços de Hari, este começou a fazer planos para os dois.
Para assegurar-se de que o jardineiro não tinha deixado pistas, ela perguntou sobre seu resgate entre os cavaleiros do rei em alto-mar.
—Contei para meus parceiros que mudaria a rota de minha viagem para encontrar-me com uma amante do outro lado da ilha e que voltaria assim que possível.
Ninguém viu o jardineiro.
Ela suspirou aliviada.
Com muita astúcia, sugeriu a Hari que poderiam sair pela torre e ir até o alto de uma pedra que ficava próxima, pois assim ele veria a irmã passeando com as damas sem correr o risco de ser visto.
Hari abraçou-a.
—Vamos sair, mesmo porque quero respirar um pouco de ar puro.
Saíram e ficaram no alto da pedra entre os arbustos, observando a paisagem.
Hari estava orgulhoso de Loretta; renunciara ao passeio para ficar com ele.
Ele iria recompensá-la por tudo.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 05, 2016 10:11 am

Acertaram que, assim que o rei voltasse à corte, ele chegaria trazendo as notícias sobre a morte de Raul.
Ela então estaria livre para desposá-lo, e logo se casariam e viveriam felizes para sempre.
0 sol esquentava, e Loretta chamou-o para voltar, dizendo estar faminta e com sede.
Ele a levou no colo.
Fingindo esquecimento, perguntou a ele:
— Como vamos abrir esta garrafa de vinho?
— E pra já, minha querida.
E, dando-lhe uma piscada, afastou-se com a garrafa.
Enquanto isso, trémula, Loretta pegou as duas taças, colocou as transparentes gotas mortíferas do veneno em uma delas e ficou esperando.
Ele chegou sorridente com a garrafa aberta e encheu as duas taças.
— Vamos brindar nosso amor!
Que ele seja eterno!
— Que ele seja eterno! — repetiu Loretta.
Hari levou a taça aos lábios olhando para a amada, bebeu quase tudo de uma só vez e brincou:
—Hoje vou me embriagar; quero morrer de amor em seus braços.
Encheu a taça novamente e levou-a aos lábios.
Alguns minutos depois, sentou-se pálido, levando a mão ao coração.
—Loretta, estou sem ar, falta-me a respiração.
Loretta, você me envenenou, conheço esse veneno...
Por que fez isso comigo?
Eu que te am...
Tombou de lado, sem terminar a frase.
Olhando-o, lágrimas desciam dos olhos de Loretta.
—Perdoe-me, Hari, não queria matá-lo, mas não tive escolha.
Amarrou um lenço no rosto, foi até o poço e puxou a trava.
Mesmo com o lenço, sentiu um cheiro horrível.
Começou a arrastar Hari pelos pés e com dificuldade chegou até o poço.
Empurrou o corpo para dentro da fenda, ouviu o barulho dele caindo e, em seguida, juntou todos os seus pertences e atirou-os também.
Olhou tudo para certificar-se de que nada ficara para trás.
Fechou a trava, pegou seus objectos pessoais, arrumou-se e saiu.
Foi até o quarto, limpou-se e trocou de roupa.
Após dar uma olhada na tia, que lhe parecia tranquila, desceu até o jardim e encontrou o jardineiro, suado e orgulhoso de estar sendo útil ao rei e especialmente ajudando Loretta.
—Senhor Manuel — começou a falar Loretta —, não se preocupe mais em levar proventos para nosso amigo Hari.
Ele partiu hoje de manhã após conversarmos.
Não tem dinheiro no mundo que pague sua ajuda para comigo.
Sentou-se na mureta, colocando as mãos no rosto, e chorou como uma criança.
Os olhos do jardineiro encheram-se de lágrimas, e ele tentou animá-la com palavras paternais.
Em seguida, o Senhor Manuel foi até a torre, que estava realmente vazia.
Saiu e fechou a pesada porta, passando o ferrolho.
Graças a Deus estava tudo bem.
Antes de sua partida, Loretta encontrou o jardineiro, que lhe sorria.
Abraçou-o e, pegando uma bolsa com muitas moedas de ouro, entregou-a ao velho, dizendo:
—Isso é o mínimo que posso fazer pelo senhor depois de receber tanta ajuda de sua parte.
Não fique nessas terras, onde é escravo.
Pegue um navio e vá viver sua vida em liberdade, longe daqui.
O velho jardineiro sorriu; realmente havia sonhado por toda a vida fazer uma viagem.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 06, 2016 10:41 am

Agora estava pronto para realizar seu sonho, sem medo de passar necessidade.
Uma semana depois estavam de volta à corte.
Loretta estava aliviada e refeita.
Nos braços do amado, esquecia-se de tudo.
A notícia da morte de Raul foi oficializada e comunicada ao conde, que ficou abalado.
O rei também ficou sabendo que um dos cavaleiros se desviara da rota para encontrar-se com uma amante.
Já era tempo de apresentar-se, mas não o fez.
Mesmo sendo seu cunhado e um dos melhores cavaleiros do reino, seria destituído do cargo assim que aparecesse, disse ele a Loretta.
Três meses se passaram. Hari não aparecera.
O rei deu ordens para procurá-lo.
A rainha implorou ao rei que procurasse o irmão, pois havia sonhado com ele caído e pedindo socorro.
Para acalmá-la, o monarca ordenou a busca.
Vinte dias depois, seus cavaleiros voltaram e comunicaram não terem obtido a menor pista de Hari.
Talvez tivesse arrebatado a amada e fugido para terras distantes, era o mais provável, visto que morto ele não tinha sido; não havia indícios de luta ou morte, Hari não tinha inimigos e era muito estimado na corte.
Ao saber da partida do jardineiro, Loretta sentiu-se feliz.
Estava enfim livre dos três homens que poderiam impedir sua felicidade.
Agora precisava arquitectar um plano para livrar-se da rainha sem causar desconfiança.
Na verdade, quem reinava no coração do rei era ela.
A corte inteira a temia; até mesmo a rainha sabia que seu bem-estar no palácio estava nas mãos dela, por isso refugiava-se em sua solidão, deixando o caminho livre.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 06, 2016 10:41 am

A NOVA RAINHA
Como o calor castigava naquele ano, Loretta sugeriu ao monarca que poderiam passar uns tempos no castelo da Grande Ilha.
Era um lugar conhecido pelas correntes de vento que refrescavam toda a ilha.
Ali poderiam pescar e banhar-se nas águas claras da região, além de fazer excursões marítimas.
O rei concordou, achando excelente a ideia, pois a ilha não ficava longe, e ele poderia despachar as ordens na corte e voltar sem grandes problemas.
Assim, todos seguiram para lá.
O lugar era lindo, coberto por uma pequena e robusta vegetação, tinha muitos pássaros, e as águas eram límpidas e transparentes.
Nos primeiros dias, Loretta fez longos passeios acompanhada pelo rei e alguns cavaleiros de sua guarda pessoal.
Tudo parecia calmo e sereno.
A rainha também estava feliz; o lugar acalmava seu sofrido coração.
Convencida de que Loretta não tinha má intenção para com ela, no fundo já nem a culpava.
Talvez, estando em seu lugar, fizesse o mesmo.
O importante é que podia viver e criar os dois filhos em paz.
Analisava Loretta: ela era realmente bondosa, apesar de toda a influência que gozava perante o rei; se não fosse por isso, a rainha não estaria naquele paraíso; talvez estivesse morta.
Lembrava-se dos bons momentos que passara no castelo.
O cheiro do bosque e das montanhas ficara em sua lembrança.
Ela era a rainha, e Loretta, a mulher do rei.
Que culpa poderia ter Loretta se o rei a amava?
Iria aproximar-se dela.
Lembrava-se do pai, também rei, que sempre dizia:
"Se perceber que o inimigo é mais forte que você, una-se a ele e torne-se seu fiel amigo".
O rei comunicou a todos, durante o jantar, que precisava ir até a corte e ficaria por lá dois ou três dias no máximo.
Não levaria as senhoras por tratar-se de uma viagem rápida, mas ao mesmo tempo cansativa.
Nessa hora a rainha olhou para Loretta, que baixou os olhos diante de seu olhar.
Pensou consigo mesma:
"E uma oportunidade de aproximar-me dela".
Por sua vez, Loretta pensou:
"E uma oportunidade de livrar-me dela".
Ergueu os olhos e encontrou os da rainha.
No outro dia cedo, a caravana real partiu.
O rei jurou para Loretta que voltaria o mais rápido possível, pois não conseguia viver longe dela por muito tempo.
Ela o abraçou com os olhos cheios de lágrimas e pediu-lhe:
—Por favor, não me abandone nunca.
Prefiro morrer a ficar sem você.
Vou ficar esperando por você com o coração cheio de saudade!
Fique tranquilo, não vou me expor perante a rainha, conheço o meu lugar e o dela.
O rei ficou pensativo por um momento.
Passou por sua mente como seria bom se Loretta fosse a rainha...
Na hora do almoço, Loretta não apareceu.
Sentada no lugar do rei, a rainha pediu a um dos cavaleiros que fosse chamá-la para sentar-se à mesa.
Ela chegou, curvando-se perante a rainha e desculpando-se.
A rainha, sem se importar com as desculpas, disse-lhe:
—Loretta, por favor, sente-se ao meu lado.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 06, 2016 10:42 am

Faça-me companhia como nos velhos tempos de sua chegada à corte.
Ela parecia alegre e fez tudo para agradar Loretta, que ficou cismada com sua atitude.
Após terminado o almoço, a rainha a convidou para um passeio.
Intrigada, Loretta aceitou para não causar suspeitas.
Quem sabe não seria uma oportunidade para livrar-se dela de uma vez por todas...
Discretamente, solicitou ao mesmo cavaleiro que fora buscá-la para o almoço, e era de extrema confiança do rei, que a protegesse.
Suspeitava de que a rainha, aproveitando-se da ausência do soberano, planeasse matá-la, primeiro chamando-a para sentar-se ao seu lado e tratando-a como amiga e, agora, com aquele suspeito passeio.
O guardião também achou muito estranho a repentina amizade da rainha pela preferida do rei.
Prometeu defendê-la com a própria vida e pediu que ela se lembrasse de contar ao rei sua dedicação, o que foi prontamente prometido por Loretta; afinal de contas, o destino estava lhe dando uma mãozinha.
Quando o sol baixou um pouco, a rainha, pronta, mandou chamar Loretta, que se apresentou de imediato.
Três carruagens estavam paradas esperando as ordens da rainha para seguir viagem.
—Minhas damas, acomodem-se nas duas carruagens.
Eu e Loretta vamos a sós — recomendou ela.
O cavaleiro estava atento à carruagem em que seguiam a rainha e Loretta, temendo que a primeira puxasse um punhal e matasse a preferida do rei.
Se isso acontecesse, com certeza sua cabeça também seria cortada.
Ia colado à carruagem, do lado da rainha.
Um só movimento suspeito, e ele cairia em cima dela, tomando-lhe a arma.
A rainha começou a falar baixinho:
—Loretta, cheguei a uma conclusão:
na vida, não podemos ter tudo ao mesmo tempo.
Amei o rei como meu marido e sou sua rainha, mas não posso exigir que ele me ame.
Você é a mulher que preenche o coração dele, e, se souber conduzi-lo, todos nós teremos paz.
Contento-me em carregar apenas a coroa de rainha.
Você pode e deve levar a paz ao nosso reino por intermédio do seu poder junto ao rei.
Reconheço sua bondade e inteligência em reinar.
Estou aqui graças a você.
Após uma pausa, continuou:
Tenho uma proposta a fazer-lhe: dividiremos o reino.
Fico com o título da coroa e quero paz para meus filhos.
Você fica com o poder da coroa, faça sua fortuna, adquira castelos e propriedades.
Você não tem mais motivos para temer nenhuma represália da Igreja, pois agora é uma viúva livre e o amor do rei é seu, apenas seu.
Quero sinceramente ser sua amiga, apenas isso.
Loretta não acreditava no que ouvia.
A rainha parecia prever sua intenção de matá-la e vinha pedir-lhe socorro.
Ela precisava da coroa; infelizmente não podia desviar-se do que o destino já tinha planeado.
Reconhecia que a rainha era uma mulher maravilhosa, meiga e inteligente e, agora, olhando-a, percebia que era bonita.
Tinha certo charme quando falava.
Poderiam ser grandes amigas se o destino não tivesse criado um obstáculo entre elas.
Loretta fingiu entender-lhe a boa intenção e simulou lágrimas de emoção.
A rainha apertou sua mão.
Desceram da carruagem e passearam o resto da tarde.
A rainha estava satisfeita, pois agora viveria em paz e Loretta seria sua amiga.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 06, 2016 10:42 am

Não tinham nada a temer uma da outra; era um bom pacto o que fizeram.
Quando retornaram, ainda sob a discreta vigilância do guardião, Loretta propôs:
— Vamos fazer um passeio no outro lado da ilha amanhã?
Estive lá com o rei.
E o lugar mais lindo do mundo!
Desculpe-me falar assim de minha intimidade com o rei...
— Fique à vontade, Loretta.
Não me importo com isso, esqueceu?
A rainha aceitou a proposta de viajar de barco para a ilha e passar o dia explorando a beleza descrita por ela.
Levariam suas damas e cavaleiros e fariam um piquenique ao ar livre.
No outro dia, as embarcações puseram-se a caminho.
O guardião, sempre vigilante, foi no barco com as duas, ainda temendo que a rainha tentasse matar a prenda do rei.
Como ficaria, então, sua situação?
Levaram alimentos, bebidas e muitas frutas nativas para o piquenique.
Loretta conhecia um lugar que os nativos chamavam de Porta do Inferno ou Boca da Serpente.
A areia arrastava e engolia em poucos segundos tudo que caísse ali.
A beleza que se estendia aos olhos dos visitantes era deslumbrante.
Todos pareciam enfeitiçados pelo lugar.
A rainha respirou fundo, enchendo os pulmões de ar puro e fresco.
As damas riam e brincavam feito crianças.
Loretta aproximou-se da rainha e disse-lhe baixinho:
— Perdoe-me pelo sofrimento que lhe causei.
Quando tentei ser feliz, acabei me destruindo e destruindo outras pessoas.
— As vezes, Loretta, pergunto-me se a vida de uma princesa não é um castigo de Deus.
Temo por minha filha.
E uma inocente princesa que amanhã será levada pelas mãos de algum rei.
Qual será seu fim?
Pelo menos, tenho a felicidade de viver em paz.
Nosso rei é bondoso, deixou-me viver, e devo isso a você!
Nada tenho a lhe perdoar, mas sim a agradecer — respondeu com doçura e sinceridade.
Passearam à vontade e, depois, sentaram-se para comer.
Descansaram um pouco e retomaram a caminhada.
No meio do caminho, Loretta aproximou-se da rainha e confidenciou-lhe:
—Vou pedir às damas que façam uma roda e aos cavaleiros que se virem, pois estou necessitando de privacidade.
Enquanto isso, pode ir andando.
Espere-me nas amoreiras.
Está vendo como estão carregadas?
Inocente, a rainha concordou, encantada que estava com o lugar.
Avistando as amoras selvagens, sua boca encheu-se de água.
Iria colhê-las e, quando Loretta chegasse, iriam saboreá-las juntas.
Começava a gostar de sua companhia como a de uma verdadeira irmã.
Loretta cochichou algo a uma das damas da rainha, que foi até os cavaleiros.
Após a escutarem, afastaram-se, virando as costas para as moças.
Cinco delas fizeram uma roda com suas saias e uma outra ajudou a segurar a roupa de Loretta, enquanto esta se abaixava.
De repente, ouviram um grito desesperado de socorro.
Os cavaleiros nem pensaram no que faziam as damas; correram na direcção delas de espada em punho.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 06, 2016 10:42 am

O guardião-chefe imaginou que fosse Loretta e saiu pulando por cima de tudo.
Pararam de olhos arregalados, avistando as pontas do cabelo da rainha acabando de serem sugadas pela força demoníaca das areias, sem acreditar no que viam.
Foi uma cena horrível.
Ali parecia realmente a porta do inferno ou a boca de uma serpente.
Num segundo, a rainha desaparecera areia abaixo!
O guardião ficou pálido e sem acção.
Loretta correu até ele, ainda desarrumada, perguntando-lhe:
—0 que aconteceu?
Onde está a rainha, capitão?
Fez menção de ir em frente, sabendo que, claro, seria impedida por ele.
—Infelizmente, ela desapareceu na areia.
Como vocês todas viram, a culpa não foi nossa.
Um dos cavaleiros jogou uma tora de madeira no lugar, que em um segundo desapareceu.
As damas gritavam por sua rainha.
Uma delas até desmaiou, precisando ser amparada por um cavaleiro.
Loretta tomou a frente, abriu os braços num gesto de desespero e falou:
—Ouçam-me: a desgraça aconteceu e todos nós somos inocentes!
Foi um acidente, ninguém teve culpa.
Ou alguém aqui foi culpado?
Os cavaleiros estavam chocados; realmente fora um terrível acidente.
0 guardião respirou aliviado.
Estava pasmo, mas sabia-se a salvo.
Loretta, a predilecta do rei e com certeza a futura rainha, iria inocentá-lo.
Ele esteve vigilante o tempo todo, fora um acidente.
No castelo, aguardando a chegada do rei, Loretta chorava, cobrindo o rosto com as mãos.
As damas da rainha estavam inconsoláveis.
Perderam sua senhora e benfeitora, pois a rainha era uma mulher extraordinária.
—Por que fui acompanhá-la no passeio?
Talvez, se tivesse me recusado a ir, ela teria desistido do passeio da morte — repetia seguidamente Loretta.
Algumas damas tentavam confortá-la:
—Deus é testemunha, e nós também, de que a senhora não teve culpa alguma.
O monarca enfim chegou com o séquito real acompanhado de alguns súbditos.
Os cavaleiros que haviam ficado de guarda foram todos chamados à presença do soberano para prestar depoimento.
O capitão-chefe da guarda pediu ao monarca para falar-lhe a sós.
Este dispensou os demais para ouvi-lo em primeiro lugar.
O guardião relatou o suspeito comportamento da rainha para com Loretta logo após a partida do rei.
Tinha certeza de que planeava alguma coisa contra Loretta.
— Você confirma suas suspeitas?
O rei empalidecera.
— Está certo do que me diz?
— Juro-lhe, Majestade, que foi exactamente isso que aconteceu.
O rei, aflito só de imaginar que poderia ter sido sua amada a desaparecer na areia, pediu mais detalhes.
Este contou que Loretta, temerosa, pedira-lhe ajuda, e que ele mesmo fora buscar Loretta em seu quarto a mando da rainha.
No dia anterior, ela ordenara que todas as damas fossem em carruagens diferentes, tendo seguido a sós com Loretta.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 06, 2016 10:42 am

Alguma coisa estranha ela planeava contra a predilecta do rei.
As damas poderiam confirmar o que estava dizendo.
E foi a rainha quem planeou e ordenou o passeio pela ilha, e o acidente aconteceu quando todas as damas ajudavam Loretta em sua necessidade, e eles, cavaleiros, viraram-se em respeito a ela.
O rei ouviu a todos e ficou convencido da maldade da rainha para com a amada.
Ainda bem que o destino se encarregara de puni-la; caso contrário, ele teria feito sua própria justiça.
Loretta, que a protegia tanto, nunca exigira dele nada contra ela.
Foi ao encontro da amada, que caiu em seus braços, soluçando:
—Ainda bem que você está aqui!
Foi horrível, foi horrível, eu sou a culpada, eu sou a culpada!
Não quis contrariar a rainha, que logo após sua partida resolveu mostrar-me o meu lugar.
Obedeci a seus caprichos de mulher enciumada e agora ela está morta...
O rei abraçou-a e apertou-a contra o peito.
—Você é minha rainha!
O castigo abateu-se sobre ela por desejar sua morte; você, sempre bondosa, respeitava-a como uma rainha, mas ela tramou sua morte.
Só não esperava que o castigo recaísse sobre ela mesma. Paciência.
Para nós foi uma porta que se abriu, mas tenho pena de meus filhos, que perderam a mãe.
O reino em breve terá uma nova rainha.
Abraçou Loretta, que fingiu não ter ouvido as últimas palavras e continuou chorando, abraçada a ele.
Assim que foi anunciado o falecimento da rainha a outras cortes, começaram a chegar dezenas de ofertas de casamento ao jovem rei viúvo.
Loretta temia que ele seguisse a tradição, casando-se com alguma princesa, e acabasse com seus sonhos.
Por isso, fazia mil artimanhas para prender o coração do amado.
Uma noite, tendo-se excedido na bebida, o rei pediu-a em casamento diante de toda a corte.
Ela aceitou sorridente e jurou lutar ao seu lado pelo bem-estar de todos como uma verdadeira rainha.
Foram muitos aplausos e vivas dentro do salão.
— Boa saúde à futura rainha Loretta! — Todos os cavaleiros levantaram as espadas.
Dois meses depois, reis e rainhas acomodavam-se nas dependências do palácio para assistir ao casamento.
Presentes chegavam de todos os cantos para a futura rainha.
Loretta fez questão de que padres e bispos de todo o reino viessem celebrar seu casamento.
Não via a hora de ver aqueles imbecis curvarem-se a seus pés.
Assim que recebesse a coroa, que lhe seria colocada pelas mãos do rei, começaria sua tarefa mais difícil:
destruir todos eles.
A beleza da rainha era o assunto principal entre damas e cavaleiros.
Altiva e elegante, Loretta ouviu todas as palavras do bispo, que se ajoelhou para fazer o juramento à coroa, ao rei e à sua nova rainha.
No íntimo, Loretta jurava destruí-los.
Fez o juramento quanto ao seu amor, fidelidade e compreensão para com o povo.
O rei também ajoelhou-se, jurando reconhecê-la como rainha suprema, e isso fez com todo o coração, pois amava-a mais que o trono e a própria vida.
Colocou o anel de soberana no dedo de Loretta, beijando-o com todo o carinho que lhe vinha da alma.
Levantou o veludo vermelho que cobria a coroa, cujos brilhantes todos faiscavam, e colocou-a na cabeça de sua rainha.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 06, 2016 10:43 am

Todos se ajoelharam, inclusive o bispo e os padres, permanecendo apenas o rei em pé.
Este tomou o ceptro e colocou-o em sua mão.
Ela o ergueu, e todos se levantaram, aplaudindo-a.
Sentada no trono, viu reis, rainhas e toda a nobreza passando diante de si, cumprimentando-a.
Depois, todos os cavaleiros do rei foram chamados aos pés da rainha.
Com lanças e espadas em punho, cada um fez seu juramento: honrar e defender com a própria vida a rainha.
As damas vieram em seguida, jurando servir, honrar e proteger a soberana.
Por fim, os padres, cantando hinos de glória, ajoelharam-se a seus pés, prometendo honrá-la e respeitá-la como rainha suprema em terra.
Por alguns instantes, no meio de toda a agitação, ela pensou em Raul e lembrou-se do tempo em que daria a vida por ele.
Os malditos padres destruíram a vida dele.
Não se sentia responsável por sua morte, apenas quis seu amor e foi rejeitada por ele, que se dedicava somente à sua fé.
Pensou em Hari. Amou-o, sim.
Ele foi o primeiro homem de sua vida.
Voltou-se para o rei.
Ela também o amava e agora era sua rainha.
Por um momento sentiu um arrepio.
Era como se a rainha estivesse ali, diante deles, gritando por socorro.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 06, 2016 10:43 am

DECLARADA A GUERRA
Loretta, sentada ao lado esquerdo do rei, participava de todos os eventos e decisões do reino.
Revolucionara o reinado.
Distribuía alimentos, gerava empregos e incentivava a educação na corte.
Aconselhou o marido a lotear algumas de suas propriedades e incentivar nelas a agricultura, doando uma parte da colheita às famílias trabalhadoras.
Criou também várias tecelagens.
Era aclamada como a rainha do século.
O povo a chamava de rainha santa, tamanha sua indulgência para com os pobres.
Incentivou a cultura e a arte. Os súbditos estavam felizes e orgulhosos dela, que era bondosa e amável com todos.
Loretta engravidou, e a notícia espalhou-se pelo reino.
Diariamente chegavam presentes e mais presentes das finas tecelagens que ela mesma criara tanto para a futura mãe quanto para o herdeiro do rei.
Este, por sua vez, tornara-se um homem dócil, realizado e humano.
Aquela mulher lhe preenchia totalmente a alma, era a luz de seus olhos.
Em seus apontamentos com o povo, acrescentava sempre que a rainha Loretta na vida dele representava o mesmo que a chuva sobre a terra seca.
Reinava bem porque era inspirado por ela.
Nasceu o filho de Loretta, um menino forte e saudável.
Escolheu seu nome:
seria o mesmo do pai e do irmão mais velho, filho da rainha que morrera acidentada.
Lembrou-se do filho do rei com a falecida rainha, que por direito herdaria o trono.
O seu seria príncipe, apenas isso.
Assim que bateu os olhos nele, disse para si mesma:
—Este é o futuro rei.
Viverei para ajudá-lo a governar.
No oitavo dia do nascimento do filho, Loretta arrumou-se, jogou a capa real nos ombros, ajeitou a coroa e olhou-se mais uma vez no espelho.
Estava óptima. Pegou o filho nos braços e apareceu na sacada da janela, mostrando-o ao povo.
—Este é o filho do rei. Hei de educá-lo baseada em meus princípios.
Ele será um soldado que lutará pelo povo e como filho do rei honrará a palavra do pai.
Houve gritos e aplausos de contentamento pelo nascimento do pequeno príncipe:
—Será o futuro rei!
Caiam os direitos do príncipe Henrique II.
Queremos o príncipe Henrique III como herdeiro do trono!
Queremos o filho da rainha Loretta!
Queremos o filho da rainha Loretta
Queremos o filho da rainha Loretta!
O pequeno príncipe Henrique II, herdeiro da coroa, que contava com apenas nove anos de idade, puxou o manto do pai, dizendo:
—Meu pai, fale ao povo que dou sua coroa para o meu irmãozinho.
Estou com medo!
Loretta afagou-lhe o cabelo e sorriu para ele.
—Não precisa ficar com medo, meu pequeno.
Loretta jamais permitirá que alguém lhe faça mal.
O rei estava emocionado e preocupado ao mesmo tempo.
Mal nascera seu filho e povo já o queria como herdeiro da coroa.
O que fazia uma mulher espectacular como Loretta na vida de um reino!
O povo queria seu filho porque sabia do carácter da mãe.
Aliás, o povo não queria seu filho, queria a mãe.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 06, 2016 10:43 am

Sentia também que iria ter problemas na corte.
Temia pelo destino de seu filho, herdeiro da coroa.
Amava os filhos de todo o coração.
A pequena Lucília tinha cinco anos, era meiga e inteligente e ouviu tudo em silêncio.
Chegando aos seus aposentos, comentou com o irmão:
—Tenho pena de você, que está sendo odiado sem ter feito nada de mal para ninguém.
Depois, séria, virou-se para a madrasta, a rainha Loretta, e disse-lhe:
— Você é a rainha, a esposa de meu pai e a mãe de nosso pequeno irmão.
Por isso, digo-lhe: se meu pai, que é o rei, passar o lugar de meu irmão para seu filho, ficaremos felizes e o ajudaremos em tudo.
Não é mesmo, Henrique?
Este, ainda assustado com os gritos do povo, respondeu imediatamente:
—Claro que sim. Nunca tive vontade de ser rei.
Loretta ficou emocionada.
Olhou para aquela pequenina criatura, lembrou-se da infância e da rainha que morrera em plena flor da juventude, deixando os filhos.
Abraçou Lucília e o irmão e falou, com carinho e sinceridade:
—Eu lhe prometo, Lucília, que nunca vou permitir que sofram.
Seu pai tem razão em orgulhar-se tanto de vocês.
Agora que sou mãe posso compreender o que sua mãe tentou fazer por vocês.
Seus olhos encheram-se de lágrimas, e ela continuou abraçada às duas crianças.
Lembrou-se da proposta que lhe fizera a rainha:
queria apenas ficar ao lado dos filhos.
Quarenta e cinco dias após o nascimento do filho de Loretta, uma comissão da Igreja, comandada pelo bispo, chegava ao palácio para discutir e acertar o baptismo do pequeno príncipe.
Recomendaram aos soberanos um feriado, quando se faria a distribuição de pequenas ofertas para o povo em nome da alegria do rei.
Sugeriram que fossem ofertados rosários e panfletos com imagens de santos para toda a população.
Tinham como confeccionar todo o material com grande economia, e, assim, estariam os soberanos incentivando a fé.
Loretta ouviu tudo em silêncio.
Apenas olhava de um para outro.
O rei, já conhecendo aquela expressão, ficou confuso e desconcertado diante de seu silêncio.
Sentiu medo da resposta dela quando lhe perguntou:
—O que acha, minha rainha e senhora?
Altiva e demonstrando cautela e inteligência, dirigiu-se ao rei.
—Meu rei e senhor, creio que precisamos discutir entre nós alguns pequenos detalhes familiares e então poderemos solicitar de novo a nobre presença dos filhos da fé no palácio.
O bispo ficou ruborizado.
Sabia o que ela tinha feito com uma das ovelhas do Senhor.
Apenas a Cristo confessaria o que ouvira daquele filho de Deus.
Os religiosos aproveitaram a oportunidade para lembrar ao monarca que seu primeiro filho e herdeiro precisava afastar-se da família, a fim de preparar-se para o futuro; afinal de contas, estava com nove anos.
Já sabia ler e escrever, estudava música e literatura e praticava desportos.
Estava na hora da separação.
Só retornaria ao palácio feito cavaleiro consagrado por Cristo, a serviço do reino, e pronto para assumir o lugar do pai.
Loretta sentiu nojo da prepotência deles.
Levavam os filhos dos nobres e transformavam-nos naquilo que queriam.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 06, 2016 10:43 am

Lembrou-se de Raul.
Sim, foram eles que fizeram do primo um padre.
Foi por causa deles que Raul morrera, foi por causa deles que Hari e a rainha morreram.
"Agora", pensou, "querem o filho dela e amanhã vão querer o meu.
Não vou permitir isso.
Chegou a hora de cobrar do povo a fidelidade que jurou para com sua rainha.
Abrirei guerra contra a Igreja e expulsarei esses corvos da mesma forma que expulsaram Raul de minha vida."
O rei entendeu o olhar da amada e cautelosamente lhe pediu tempo para discutir alguns detalhes com ela.
Enviaria um mensageiro anunciando sua presença.
Iria em pessoa ao encontro dos nobres padres, visto não desejar incomodá-los, e já levaria a solução para os dois sérios assuntos.
Satisfeitos com o respeito do monarca para com eles, os religiosos agradeceram toda a gentileza com que foram atendidos e servidos.
Após a saída dos representantes da Igreja, Loretta suspirou profundamente e pousou o queixo nas mãos, demonstrando preocupação e contrariedade.
— Aborrecida, minha querida? — perguntou-lhe o rei, carinhosamente.
— Não diria que é só aborrecimento, mas também preocupação.
Se o rei não se importa, gostaria de reflectir um pouco.
Não estou em condições de discutir o assunto no momento.
— Minha rainha ouviu, quando dei minha palavra, prometendo-lhes agilizar a solução — disse-lhe o rei, delicadamente.
— Amanhã mesmo podemos enviar um emissário anunciando nossa presença.
—Você pensa em me acompanhar, Lorre?
—Claro, trata-se de nossos filhos, senhor rei!
E meu dever decidir o futuro deles.
Loretta foi ver o filho.
Ele dormia tranquilamente.
Passou a ponta dos dedos em seu rosto, tão pequeno e indefeso, e pensou que um dia também exigiriam a guarda dele.
Aproximou-se da janela que dava para o pátio e viu o príncipe, que se divertia, brincando com outros garotos.
Sorria feliz.
O cabelo loiro desmanchado pelo vento dava-lhe uma graça toda especial.
"Parece-se demais com a mãe", pensou Loretta, crispando os dedos das mãos.
Não entregaria o garoto para aqueles corvos.
Traria os melhores mestres para dentro do palácio, ou melhor, construiria dependências modernas para a educação dos filhos de todos os cavaleiros do rei.
Nenhuma criança, do sexo masculino ou feminino, seria entregue a eles.
Lembrava-se de como ela mesma vivera anos e anos no meio de beatas fanáticas.
Naquele momento, analisando cuidadosamente sua vida, percebia que todo seu comportamento em relação a Raul fora levado pela carência afectiva sofrida na infância.
Logo após o jantar, Loretta aproximou-se do rei e sussurrou-lhe ao ouvido:
—Recebi alta.
O médico da corte recomendou deitar-me com meu marido.
Vou retirar-me, e você arranje uma desculpa para dar a seus cavaleiros.
Estarei à sua espera.
Loretta levantou-se, e todos os cavaleiros e damas fizeram o mesmo.
—Boa noite a todos vocês.
Desculpem-me deixá-los, mas Preciso ver como está o filho caçula do rei.
Continuem com a reunião e divirtam-se.
Todos a olharam com respeito e simpatia.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 06, 2016 10:44 am

Comentavam entre si:
—Que mulher espectacular esta rainha!
Alguns nobres cavaleiros do rei imaginavam:
"Daria minha vida e outras tantas que tivesse por uma mulher assim".
Loretta tinha plena consciência do poder que exercia sobre o marido.
Ele estava saudoso da vida íntima que sempre tivera com ela, tendo pacientemente esperado por sua recuperação pós-parto.
Não desejava nenhuma outra mulher, ela era tudo em sua vida.
Preferia a morte só em imaginar perdê-la.
Assim pensava enquanto se arrumava para o reencontro no leito.
Perfumou-se e vestiu apenas o roupão de seda púrpura.
Foi ao encontro da amada, que estava linda como sempre, e atirou-se em seus braços, perdendo-se em suas próprias emoções.
Já era tarde quando os dois, cansados, mas satisfeitos um com o outro, resolveram dormir.
Loretta, sonolenta, disse ao rei:
—Meu querido, amanhã cedo, antes de descermos, vamos resolver o assunto dos padres.
O rei abraçou-a, beijou-a e respondeu-lhe:
—Deveras! Você é uma verdadeira rainha.
Já nem me lembrava de que existem padres!
Durma, meu amor, descanse e não se preocupe, pois amanhã farei exactamente como você desejar.
Loretta adormeceu tranquila, sabendo que realmente seria feito aquilo que determinasse, e ela já sabia o que fazer.
Na manhã seguinte, Loretta e o rei ficaram em seus aposentos e tomaram juntos o café da manhã.
Ela solicitou que fossem trazidos os três filhos do rei.
Logo, as babás entraram trazendo as crianças.
Loretta agradeceu e dispensou-as.
Tomou o filho nos braços, beijou-o delicadamente e colocou-o nos braços do irmão mais velho.
—Você gosta do seu irmãozinho? — perguntou-lhe, sorrindo.
—Claro que gosto dele!
É tão lindo!
A menina aproximou-se, alisando o bebé, e pediu:
—Rainha Loretta, posso pegá-lo também?
Ela o colocou nos braços de Lucília, que ficou radiante em segurar o irmãozinho.
—Ele é tão lindo! — disse a menina também.
0 rei emocionou-se diante da cena.
Loretta pôs o pequenino nos braços dele, que ficou com os olhos cheios de lágrimas.
Aquela criança era um pedaço dele e de Loretta.
As crianças contaram ao pai tudo o que haviam aprendido e como a rainha Loretta vinha sendo boa com eles.
Sentiam muito a falta da mãe, mas Loretta era boa com eles.
Em certo momento, Loretta chamou as babás de volta, beijou o bebé e Lucília e recomendou às amas:
—Levem os dois e cuidem deles.
Quanto ao príncipe Henrique, ele vai ficar mais um pouco connosco.
—Por que ele pode ficar e nós não? — protestou a menina.
Loretta alisou o cabelo loiro e bem cuidado da princesinha e respondeu-lhe carinhosamente:
—Você é uma boa menina e vai ajudar a babá a cuidar do seu irmãozinho!
— Posso ficar com ele?
— Claro que pode!
—Então eu vou.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 06, 2016 10:44 am

E saiu correndo, cheia de felicidade.
Loretta sentou o garoto bem em frente ao rei.
O príncipe pôs-se a chorar, colocou as mãozinhas no rosto e começou a falar:
—Já sei, meu pai, você vai me mandar para o convento!
Não vou poder mais brincar no palácio, só voltarei quando for homem.
Loretta abraçou o menino e, olhando para o rei, falou:
—Meu senhor e rei, acho que percebeu o que estou tentando lhe mostrar.
Também não desejo tirar o príncipe, nem a princesa, nem meu filho do palácio!
O rei empalideceu, desapontado.
— Como vamos educar e preparar nossos filhos, Loretta?
Ela deu a volta e chegou mais perto dele.
— Trazendo os mestres e a escola para dentro do palácio!
O menino parou de chorar e ficou atento à conversa.
Naquele dia, Loretta conquistava para todo o sempre o coração do pequeno.
Sua mãe nunca faria por ele o que a rainha Loretta acabara de fazer:
não sairia de sua casa, não deixaria de ver sua querida irmã e seu irmãozinho.
A partir de então, morreria por Loretta.
Mesmo que um dia ele fosse o rei, Loretta seria sempre a grande rainha.
Saiu pulando de alegria e, pela primeira vez, num impulso, beijou o rosto do pai e agarrou-se ao pescoço de Loretta, dando-lhe um beijo.
Loretta contou todo seu plano ao rei:
construiriam uma escola modelo para preparar seus filhos e toda a prole dos cavaleiros.
Estava na hora de mudar as leis da educação, de quebrar as correntes com a Igreja, que se aproveitava da educação para ter domínio sobre tudo e todos.
Assim, poderia também acompanhar a vida dos filhos, tornando-os pessoas mais felizes.
O rei aprovou totalmente o plano de Loretta.
Realmente a esposa era uma revolucionária, trazia apenas o progresso ao reino!
Solicitou uma reunião de emergência com todo o Conselho.
Alguns membros protestaram, mas a maioria se rejubilou com a ideia da nova lei, que logo foi assinada e oficializada pelo monarca.
A lei seria divulgada, publicada e anunciada para todo o reino, assim que todos os integrantes do Conselho saíssem da sala.
O rei ordenou que fosse enviada uma mensagem ao convento.
Iria acompanhado da rainha e de alguns auxiliares para cumprir sua palavra, conforme prometera ao clero.
O sol já baixava no horizonte, quando os portões do convento se abriram, dando passagem à carruagem em que estavam o monarca e a rainha Loretta.
Logo atrás vinham outras carruagens, com escrivães e conselheiros e vários cavaleiros em suas armaduras, portando lanças e espadas e montados em belos cavalos.
O rei e a rainha sentaram-se um perante o outro.
Todo o Conselho colocou-se ao redor deles, acompanhado pelos padres.
O rei, então, pediu que fosse lido seu novo decreto.
Quando o conselheiro acabou a leitura, o bispo estava pálido e tremia, e todos os outros religiosos presentes estavam brancos.
Foi o reitor pastoral quem falou:
— Meu rei e minha rainha, estamos desapontados com suas decisões.
Seu antecessor, seu glorioso pai, jamais tomaria uma decisão dessas sem nos consultar.
O que será de seus filhos?
O que será do país sem a educação do futuro rei?
Você foi educado, meu filho, em nosso convento, e por isso temos tranquilidade no reino.
Loretta tinha as faces rubras e os olhos faiscando.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 06, 2016 10:44 am

Tinha vontade de esmurrar a boca daquele corvo velho, mas conteve-se, limitando-se a responder:
— Meu senhor reitor, com todo o respeito que lhe tenho, peço licença ao rei para falar-lhe.
O rei assentiu, e ela prosseguiu:
— O que será de nossos filhos e do mundo se nossas leis permanecerem eternamente as mesmas?
Quando implantei certas obras aqui no reino, auxiliando o povo, beneficiando e facilitando muitas coisas aos senhores, não recebemos nenhuma manifestação por parte da Igreja.
E digo para mim mesma:
se a Igreja tivesse feito isso antes, como teríamos avançado!
Infelizmente, meu rei foi educado pela Igreja e sempre dependeu dela para tomar decisões.
Estamos alcançando na corte o que todo rei espera: paz.
Loretta fez uma pausa.
— Sofri uma grande represália por parte da Igreja, fui proibida de frequentá-la e condenada por ela.
Desde então, comecei a perceber a enorme falha contida em seus ensinamentos atuais.
Não entregaremos mais nossos filhos em suas mãos.
Não estaremos mais em suas mãos.
Meu filho não será baptizado por vocês, porque não acredito mais em sua Igreja.
Perguntem ao povo o que é melhor para ele:
viver em paz com a família, ter o que vestir e o que comer, ter liberdade e ser respeitado, ou temer o poder da Igreja?
A voz do povo toca-me o coração porque também vim dele.
Nossa escola começará a funcionar o mais breve possível, buscaremos mestres de outros reinos mais avançados, pois eles são exactamente aqueles que não têm ligação com a Igreja.
Vossas "santidades" prestarão serviços ao rei como todo homem deve prestar.
O bispo tremia diante da arrogância da mulher.
Lembrou-se do dia em que foi procurado por Raul.
Ele era inocente, fora vítima de sua maldade.
Seria castigo de Deus para com ele?
Ela não era apenas a rainha, mas a mulher a quem o rei entregara a alma.
Baixou a cabeça e entendeu que somente o Pai poderia detê-la.
"Que seja feita a Vossa vontade, Senhor", orou em silêncio.
O rei estava espantado com Loretta; parecia outra pessoa falando.
Os padres ficaram em silêncio; nenhum deles abriu a boca para protestar.
No caminho de volta ao palácio, segurando a mão da esposa, o rei perguntou-lhe:
— Conheço-a muito bem, é minha própria alma.
Você não quer baptizar nosso filho, não é mesmo?
— Se me entende tão bem, é porque também é minha alma.
Realmente não desejo baptizar meu filho na Igreja.
Ainda não me esqueci de que fui expulsa dela.
Só aceitei casar-me com você na Igreja porque ainda não era a rainha e não poderia lhe causar transtorno com outros reis católicos.
Em nosso casamento, só acreditei em suas palavras e em seu amor.
Jurei para você, não para eles, e recebi de suas mãos a coroa.
E para você que vivo.
Os padres, para mim, não passam de um bando de corvos interesseiros.
Aposto que ficaram decepcionados porque já tinham calculado quanto iriam arrecadar com rosários e santinhos!
O povo precisa, meu rei, é de comida, roupa e trabalho.
Duas semanas depois, a rainha Loretta recebeu um mensageiro do convento:
pediam-lhe uma audiência.
Ela mesma subscreveu a resposta, concordando.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

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Após dois dias, fez questão de recebê-los sentada no trono.
Dispensou as damas, ficando apenas com os guardiões.
Assim que o clero entrou, Loretta levantou-se e reverenciou-o.
—Estou à disposição da Igreja. Fiquem à vontade.
Foi o bispo quem começou a falar:
—Soberana rainha, a Igreja reconhece sua bondade e dignidade para com seus filhos.
Estamos aqui para pedir-lhe desculpas por nossas falhas.
Realmente, o que fez em tão pouco tempo poderíamos ter feito antes, mas nunca pensamos nisso.
Enfim, senhora, estamos aqui à sua disposição para ajudar no que for preciso na nova escola.
E também aproveitando para perguntar à nossa rainha onde será construída a capela da nova escola.
Precisamos acompanhar as obras.
De cabeça erguida, Loretta respondeu:
—Não vamos construir nenhuma capela na nova escola, e a do palácio será demolida.
Se os senhores desejam levar seus santos e pertences, entrem em contacto com o responsável pela obra; caso contrário, serão destruídos tanto quanto as paredes.
O bispo sentiu a cabeça girar, a vista escurecer e tombou para a frente.
Um padre o socorreu, e por ordem da rainha foi aplicado bálsamo em sua fronte.
Ele voltou a si e tinha os olhos enuviados pelas lágrimas.
— Minha senhora e soberana, por Deus peço-lhe:
não destrua essa obra magnífica construída séculos atrás!
— Pois então, bispo, é por isso mesmo que neste século ela será destruída.
Vamos construir algo mais nobre em cima dela: uma escola!
Daqui por diante incentivarei o povo a trabalhar mais e a rezar menos, até esquecer-se por completo de todas as rezas.
Incentivarei as mulheres do reino a jogar fora o rosário e o véu e vou proibi-las de ajoelhar-se a seus pés.
O bispo está lembrado do dia em que levou minha sentença de morte?
Se não fosse pela bondade do rei, hoje eu estaria morta.
Quanto ao meu marido, que serviu a Igreja, o que ela fez com ele?
Levou-o à morte!
Tanta dedicação e tanta fé e vocês o humilharam, condenaram-no como um assassino!
Jamais vou perdoá-los e a seu Deus por isso!
Seus corvos agourentos, fiz coisas que não deveria ter feito, perdi pessoas que poderiam estar vivas, tudo por causa de vocês!
Viverei e triunfarei sobre vocês.
Não descansarei enquanto não colocar todos vocês para fora do reino e destruir todas as suas igrejas.
Nascia naquele momento uma guerra entre a Igreja e a rainha Loretta.
—O rei é o povo, o povo é o reino, e tenho o reino em minhas mãos.
Saiam do palácio e preparem-se para enfrentar o mesmo caminho que enfrentou Raul — gritou ela.
O reino de Loretta tornou-se um dos mais admirados por seu progresso e tecnologia.
Suas escolas eram as melhores do mundo.
No lugar em que funcionavam igrejas e conventos, agora funcionavam escolas.
Aquele reino era respeitado e servia de modelo para os outros.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 06, 2016 10:45 am

O DESENCARNE DO REI
Loretta tivera mais dois partos, dando à luz duas meninas.
Seu filho agora completava quinze anos, e o príncipe, vinte e quatro.
Era parecido com o pai, mas recebera a força e a coragem dela e cresceu mantendo o juramento:
ela seria sempre a grande rainha.
Nobre cavaleiro, conhecia várias línguas e fora bem instruído nas armas, tendo-se tornado grande espadachim, motivo de orgulho para o rei.
Lucília havia-se casado com um dos generais do exército do pai.
Agradecia à boa madrasta, que intercedera em seu favor, pois casara-se apaixonada pelo marido.
Não fora um casamento de conveniência, como o da maioria das princesas, mas um por amor.
Tudo corria bem.
O povo amava a rainha, e, com o passar dos anos, ela, se tornava mais bonita aos olhos dos admiradores.
O filho puxara sua inteligência e astúcia.
Com apenas quinze anos, em todo o reino não havia nenhum cavaleiro que o vencesse na espada.
Era muito observador.
Fisicamente, parecia-se muito com o pai, mas na personalidade era realmente filho de Loretta.
O rei adoecera, pouco aparecia em público, e Loretta, como sempre reinava.
Ele apenas assinava o que ela decretava.
Um dia, convocou a família para uma reunião.
Colocou a situação para os filhos:
— Sei que não vou viver por muito tempo e quero deixar as coisas encaminhadas.
Meus filhos são meus herdeiros.
Pelas nossas leis, o príncipe Henrique II assumirá meu lugar e sua esposa receberá a coroa.
Minha preocupação é que, na verdade, quem elevou nosso reino foi a rainha Loretta, não eu.
Quero que cada um de vocês se conscientize da responsabilidade que exige o cargo de um rei e de uma rainha.
Loretta estava completamente desolada, temendo perder não a coroa, mas o amado esposo.
Tudo tinha feito para curá-lo, mas sem resultado.
Ele estava magro e pálido, não tinha mais forças para andar.
Os filhos olharam para o pai, penalizados com o estado dele.
O príncipe Henrique II aproximou-se dele:
—Meu pai e rei, um dia, neste mesmo quarto, chorei em sua presença por medo de sair do palácio e ir para o convento.
Naquele mesmo dia, saí rindo e pulando de alegria e felicidade e então fiz um juramento:
acontecesse o que acontecesse em minha vida, sua mulher Loretta seria sempre a grande rainha.
Apesar de ser muito jovem, reconheço que meu irmão será melhor do que eu como rei.
Abdico dos meus direitos em favor dele, o príncipe Henrique III.
E tenho certeza, meu pai, de que serei muito feliz com minha família, como venho sendo até então.
Cabe à minha esposa manifestar também sua vontade de tornar-se rainha ou não.
Logo a princesa se dirigiu até onde estava Loretta, tomou-lhe as mãos e disse:
—Abdico da coroa de todo o meu coração.
Que ela fique por muitos e muitos anos com nossa grande rainha Loretta.
O filho de Loretta abraçou o irmão e a cunhada, tomou as mãos do pai e disse-lhe:
—Meu amado pai, quero que fique curado, mas, se a morte vier ao seu encontro, fique tranquilo:
seguirei os conselhos de minha soberana mãe e me casarei com aquela que meu coração indicar, para dividir a coroa com ela, mas a grande rainha será sempre sua esposa, meu pai, a rainha Loretta.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 07, 2016 10:19 am

Dias depois, fixava-se em todas as dependências do reino o documento que legitimava o filho de Loretta como herdeiro da coroa.
Nas ruas, o povo aclamava a decisão do rei.
Com certeza o príncipe Henrique III seria tão grande quanto a mãe.
Loretta estava abatida e muito triste.
Amava o rei de todo o coração, mas agora ele estava morrendo, e nada ela podia fazer por ele, que era tudo em sua vida.
Lembrou-se de Raul e de Hari.
Lembrou-se da rainha e do dia em que nascera seu filho.
Ela aprendera a amar os filhos do rei como se fossem seus, e aquele menino que vira crescer abdicou do trono em favor de seu filho.
Tinha o estilo da mãe, era um verdadeiro nobre.
Não era hora de arrependimentos.
Se tivesse aceitado a proposta da rainha, talvez hoje tudo estivesse bem, mas era tarde para lamentar.
Passava todos os instantes livres ao lado do amado.
Por vezes ele lhe perguntava, os olhos cheios de lágrimas:
—Lorre, minha querida, você não se cansa de estar ao meu lado?
—Gostaria de estar sempre com você.
Se pudesse morreria antes de você — respondia ela, aos prantos.
Certo dia, o monarca pediu para ir até a sacada.
Queria despedir-se do povo.
Depois, fez com que Loretta lhe prometesse que cuidaria de seus filhos e súbditos.
Ele iria em paz, porque fora o homem mais feliz do mundo.
Sorrindo com dificuldade, afirmou:
—Nenhum rei teve a minha sorte.
Fui amado não apenas por uma rainha, mas por uma verdadeira mulher.
Na presença de toda a família real, Loretta prometeu em lágrimas que cuidaria de seus filhos e do povo.
O rei, apertando uma das mãos dela, deu o último suspiro, deixando o reino terreno para trás.
Loretta agarrou-se ao seu corpo, gritando:
—Não me deixe, por favor!
Não me deixe, meu amor!
Os filhos do rei a ampararam.
—Você prometeu cuidar de todos nós.
Por ele, eu lhe peço, beba esta água.
Nós a amamos como mãe e agora também queremos que seja um pouco nosso pai — ressaltou Lucília, abraçando-a.
O filho mais velho do rei chorava em silêncio.
Amava o pai e iria sentir muito a falta dele, mas também amava Loretta, a grande rainha, e confiava nela.
Olhava para o corpo desfigurado do pai e lembrava-se da mãe:
se houvesse uma outra vida, como lhe dissera a esposa, eles voltariam a se ver, embora o coração do pai pertencesse a Loretta.
Entendia esse amor perfeitamente.
Quem não amaria aquela criatura?
Sua mãe, por certo, teria de pedir perdão ao rei por ter tentado matar Loretta, conforme ficara sabendo por um dos cavaleiros de confiança do pai.
O corpo do monarca foi velado por oito dias.
O povo chorou sua morte; ele se tornara querido e respeitado.
Era justo, bondoso e morria tão jovem, lamentavam.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 07, 2016 10:20 am

Outros, sem pensar, diziam coisas, tais como:
—Já pensou se fosse a rainha que tivesse morrido?
Estaríamos arruinados.
Tudo foi preparado, e, no nono dia, após o funeral, o príncipe Henrique III recebeu e assumiu a coroa ao lado da mãe e de toda a família real.
Emocionada, Loretta colocou-lhe a coroa na cabeça, e ele, num gesto de humildade, ajoelhou-se a seus pés e disse em voz alta:
—Minha senhora, mãe e rainha, juro que vou honrar a coroa de meu pai!
E, voltando-se aos presentes, gritou:
— E a rainha Loretta será sempre respeitada!
Foram muitos os aplausos.
—Viva o novo rei!
Viva a rainha!
Loretta olhou para o local em que estava sentado o filho e, pela primeira vez, chorou diante do público.
Naquela noite, foi até o pátio do palácio.
O céu estava estrelado.
Há quanto tempo não olhava para o céu?
Suas estrelas estavam lá, no mesmo lugar, fazendo-a relembrar a infância e, com um aperto no coração, reviver os tempos felizes ao lado da mãe.
Recordava também os momentos ao lado de Raul.
Grossas lágrimas desceram por seu rosto.
Ficou muito tempo olhando as estrelas e rememorando toda a trajectória de sua vida.
Desde o dia em que fora pedir ajuda ao jardineiro Manuel para livrar-se de Hari, nunca mais voltara ao castelo dos tios.
Soube da morte deles e só agora lhe doía pensar em como os prejudicou.
O castelo D'armis e todas as outras propriedades que pertenceram ao tio eram dela agora.
De repente, sentiu uma vontade imensa de ir até lá.
Era a dor da consciência que a chamava.
Tomou uma decisão:
"Amanhã falarei com o rei, meu filho, e irei até lá.
Preciso fazer alguma coisa por mim mesma ou enlouquecerei".
No dia seguinte, partiu com algumas de suas damas e cavaleiros de confiança.
Chegando ao portão principal, Loretta observou como tudo permanecera intacto.
As rosas vermelhas que o Senhor Manuel havia trazido para o castelo pareciam ainda mais bonitas.
O jardim estava repleto de flores perfumadas, que pareciam lhe dar as boas-vindas.
Loretta desceu da carruagem e andou por ele.
Tudo estava bem cuidado.
Era como se o tempo não tivesse tocado em nada.
Entrou nos aposentos que haviam sido dela e de Raul e não pôde conter as lágrimas.
Estavam do mesmo jeito que deixara.
Os perfumes sobre o toucador, pentes, espelhos, luvas, um par de brincos, do qual já nem se lembrava, estavam ali...
Abriu uma gaveta e encontrou as abotoaduras de ouro de Raul.
Estremeceu. Ficou sentada, olhando tudo à sua volta; era tão estranho, parecia que fora outra pessoa, não ela, que vivera ali.
Naquela noite, foi até a varanda acompanhada por uma das damas.
Deitou-se em seu banco predilecto e ficou em silêncio por muito tempo olhando para o céu.
Via as estrelas faiscando e lembrava-se de Raul.
Se pudesse retroceder e recomeçar a vida, com certeza tudo seria diferente, mas agora era tarde para todos.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 07, 2016 10:20 am

Estava só, completamente só.
Demorou a pegar no sono, mas assim que adormeceu começou a sonhar.
Alguém a chamava, e ela descia as escadas correndo, deparando-se com Hari e sua irmã sentados e vários padres com eles, inclusive o bispo.
Os padres apontavam para ela, dizendo:
—Foi ela! Foi ela!
Hari levantou-se e veio em sua direcção, furioso.
A rainha segurou-lhe o braço, dizendo:
—Não toque nela!
Você também foi errado!
Então, ela acordou. Abriu os olhos.
Estava suando, o ar parecia abafado.
Chamou a criada e pediu-lhe água.
Vendo a rainha com o rosto vermelho e tremendo, a moça disse-lhe:
— A senhora não está bem.
Quer que chame por ajuda?
— Não, não é nada, foi apenas um sonho.
Loretta não conseguiu mais dormir, rolando na cama.
O sonho não lhe saía da mente.
Raul não estava no sonho.
Era tão bom, tão digno, que nem de seus pesadelos fazia parte.
Voltando ao palácio, recomeçou suas tarefas como monarca.
Dedicava todo seu tempo ao trabalho, pois assim não pensava, não lembrava, não sofria o que já estava sendo cobrado por leis bem maiores que as dela.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 07, 2016 10:20 am

FACTOS INESPERADOS
Loretta recebia várias propostas de casamento e a todas recusava, pois em seu coração não havia lugar para mais ninguém.
Continuou sustentando o que prometera ao rei: cuidar dos filhos e do povo.
Agora, seu filho era maior de idade e precisava se casar.
Ela convocou uma reunião familiar.
Os netos de seu marido a chamavam de vovó e disputavam seu colo.
Suas duas filhas estavam casadas, e bem, pois escolheram como maridos bons e dignos cavaleiros.
Sua preocupação, então, era o próprio rei, que precisava arrumar uma esposa para ajudá-lo.
Loretta fingia não saber de suas aventuras entre as damas do reino.
Na reunião, todos concordaram com ela de que o rei realmente precisava se casar.
Lucília piscou para o marido e gargalhou.
Percebendo que o irmão desconversava, em tom de brincadeira disse:
—A rainha Loretta está certíssima, meu rei, você precisa se casar!
Riram da forma como o rei olhava para eles.
Em família, esqueciam a etiqueta, brincavam e discutiam todos os assuntos. Loretta pediu:
—Meus filhos, noras, genros e netos, façam silêncio!
Todos pararam, e ela continuou:
— Eu, na condição de mãe, como sempre fui para todos vocês, gostaria de pedir não ao rei, mas a meu filho, que escolhesse uma esposa pelo coração, não pela coroa.
Tenha cautela e cuidado, use a responsabilidade de um rei na escolha e a sabedoria de seu coração no amor.
Os olhos de Lucília encheram-se de lágrimas.
Realmente a madrasta era maravilhosa; sua maior virtude era dar às pessoas o direito à escolha.
Desde que implantara essa liberdade na corte, todos eram mais felizes.
Casavam-se por amor.
Lucília pensava em como Loretta recebia propostas de casamento de todas as partes do mundo para casar o rei.
Poderia casá-lo com uma princesa de um reino desenvolvido, mas propunha a ele, ali, diante de todos, que procurasse alguém para amar.
Uma mulher assim merecia todo o respeito.
O rei era alto, tinha olhos verdes e uma boca perfeita, parecia mais um deus grego, pensava a cunhada.
0 cabelo dourado caía-lhe até os ombros, dando-lhe um ar de garoto.
O rei levantou-se e disse para a mãe:
—Enviarei resposta a todos os pedidos de casamento dos reinos vizinhos.
Não sou apaixonado por nenhuma mulher, minha mãe.
Com certeza vou apaixonar-me por alguma princesa que virá a ser sua nora e discípula.
Quero que minha rainha aprenda com a grande Loretta qual o papel dela ao lado do rei.
Brindaram à decisão do rei, e este virou-se novamente para Loretta, que agora tinha um neto em uma perna e uma neta na outra.
—Mamãe quer mais netos, não é verdade?
Estou decepcionado com meus dois cunhados.
Minhas irmãs caçulas, já era tempo de mostrarem suas barrigas!
Ainda bem que meus irmãos mais velhos já me deram sobrinhos — brincou.
Um ano depois, o palácio era preparado para receber a nova rainha.
A comitiva partira alguns dias antes.
Era o casamento do jovem rei com a filha de um monarca conhecido, temido e poderoso.
O rei tinha jurado à mãe que escolhera a noiva por sua beleza e simpatia, mas Loretta sabia que não era verdade.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 07, 2016 10:20 am

O filho era ambicioso; havia escolhido a moça pelo dote.
Seria senhor de dois reinos assim que o velho e doente monarca fechasse os olhos.
A princesa, quase uma menina, era bonita, sim, mas não mulher de enlouquecer um homem de paixão.
Loretta sentiu pena da garota pequena e frágil, que se intimidou diante dela.
A monarca prometeu ajudá-la a preparar-se para a grande tarefa que tinha a assumir ao lado do rei.
Maravilhada com a sabedoria de Loretta, a princesa estendeu-lhe as pequenas e trémulas mãos e pediu:
—Minha senhora, dentro em pouco serei sua nora.
Por favor, guie-me, aponte-me o caminho.
Seja minha mãe também.
Loretta abraçou-a, tranquilizando-a:
—Fique calma, minha querida, cuidarei de você.
Já a estimo como a uma filha.
O casamento do rei foi celebrado pelo povo assim que ele trouxe a esposa e apresentou-a à corte.
Decretou oito dias de festa.
O povo simpatizou com a nova rainha; sabia que a grande Loretta estaria comandando os dois jovens.
Ainda em fase de lua-de-mel, de vez em quando o rei desaparecia, ninguém sabia para onde.
Sua mãe começou a preocupar-se, pois alguma coisa estava errada.
A pequena rainha, de olhos vermelhos, enxugando as lágrimas, queixava-se de que o rei era apenas gentil com ela, mas nunca demonstrava amor ou paixão.
Comunicou à sogra que estava desconfiada, mas não tinha certeza ainda, de que iria ser mãe.
Daria um herdeiro ao rei e mais um neto a Loretta.
A mãe pensou consigo mesma:
"Agora, mais do que nunca, preciso saber o que se passa com meu filho".
Lembrou-se de sua primeira gravidez:
o marido não a deixava um minuto sozinha, beijava-lhe os pés, as mãos, o ventre; tinha certeza absoluta de que ele nunca procurara mulher em nenhuma de suas três gestações.
O filho era muito jovem, talvez fosse isso; teria uma conversa em particular com ele.
Acalmou a nora e lembrou-lhe de que ela era a rainha; nenhuma mulher ali poderia competir com ela.
Talvez o filho estivesse realmente muito ocupado e cansado.
No dia seguinte, pela manhã, Loretta foi até o salão em que o rei despachava, entrou sem cerimónia e sentou-se ao lado do filho.
Este, disfarçando que tudo estava bem, perguntou sorridente:
— Minha mãe me traz algum novo projecto?
— Não, meu filho, não vim falar com o rei.
Estou aqui para conversar com meu filho.
— 0 que há, minha mãe?
Algum problema?
— Meu filho, olhe dentro dos meus olhos!
Ele corou diante da autoridade da mãe.
— Quando sugeri seu casamento, também lhe disse: case-se por amor.
Todos os seus irmãos escolheram com quem casar-se e você também escolheu sua esposa, que por sinal está esperando seu herdeiro e passando as noites sozinha.
Quero saber o que está acontecendo.
Não minta para mim.
— Está bem, minha mãe, vou contar-lhe tudo:
estou amando loucamente a filha de sua governanta e jamais poderia escandalizar a corte de meu pai.
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