AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 07, 2016 10:21 am

Conheci Mary e apaixonei-me alucinadamente por ela, mas honro minha esposa, que não tem culpa de nada.
A rainha Loretta colocou as mãos no queixo, como sempre fazia quando estava preocupada.
O que fazer numa situação dessas?
Lembrou-se de que se unira ao rei antes do casamento.
Ele também era casado. Seria castigo?
Agora seu filho, casado, estava apaixonado por outra mulher!
O rei recostou-se na cadeira e pediu:
—Mãe, por favor, ajude-me.
Posso fazer a rainha feliz e ser feliz também.
Mary me ama e nada me pede em troca do nosso amor.
Loretta abateu-se com o que ouviu.
Acreditava que o rei estivesse se divertindo com as damas da corte.
Jamais imaginou que amasse outra mulher.
Pela primeira vez, não sabia como ajudá-lo.
Levantou-se, foi até onde ele estava sentado, esfregou-lhe os ombros e disse-lhe:
—Preciso pensar no que fazer para ajudá-lo a coordenar as coisas, meu filho.
Chamou uma de suas damas e a nora e foi passear nos jardins do palácio.
Passou a tarde conversando e discutindo com ela o enxoval do futuro bebé e animou-a, contando-lhe uma crença popular:
—Dizem que, quando o marido fica muito afastado da esposa, com certeza é homem. Comigo deu certo.
Meu marido, pai de seu esposo, fez a mesma coisa.
Dormia dias fora de casa, pensando nas decisões que tinha a tomar.
Meu filho está seguindo seus passos.
A nora ficou feliz e tranquila.
Então era isso, a gravidez mexia também com os homens!
—Você verá a alegria dele quando lhe nascer o herdeiro.
Tenha calma, minha querida, tudo isso vai passar.
Assim que você der à luz, deve começar a cuidar-se melhor; afinal de contas, você é a rainha e uma bela mulher.
No outro dia, logo cedo, Loretta chamou em particular sua governanta.
Ela entrou pálida, e Loretta a fez sentar-se.
Usando de estratégia, levantou-se de mão no queixo e, andando com a cabeça erguida, parou em frente à mulher:
— Helen, há quantos anos você me conhece?
— Desde que a senhora chegou ao palácio — respondeu a mulher.
— Você servia a rainha, não era?
— Sim, senhora.
— E por acaso minha mãe era governanta aqui?
— Absolutamente, senhora.
— Você foi prejudicada com a minha chegada ao palácio?
— Não, senhora.
— Prejudiquei o rei ou a rainha?
— Absolutamente não, senhora.
Mostrando irritação, Loretta aproximou-se mais ainda:
—E por que você me traiu usando sua filha para destruir o casamento do rei?
Quem você pensa que é?
Tem noção do que pode acontecer com toda a sua família?
A pobre mulher, chorando desesperada, ajoelhou-se aos pés de Loretta:
—Senhora, eu lhe peço, não tive culpa alguma.
Tenho sofrido em silêncio sem poder fazer nada.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 07, 2016 10:21 am

No início, proibi minha filha de encontrar-se com o rei, mas ele é insistente, e os dois começaram a encontrar-se às escondidas.
Nunca lhe desejei mal, minha rainha, devo minha vida à senhora e ao grande rei, seu marido.
Minha filha é quase uma menina, tem dezasseis anos de idade.
Tenha pena dela, senhora.
Sei que ela merece ser punida, mas não com a morte, por favor, senhora.
Loretta respondeu-lhe, séria:
—Helen, você bem sabe que a punição para a ofensa a uma soberana é pena de morte ou prisão perpétua, não é mesmo?
Sua filha ofendeu gravemente à soberana rainha e esposa do rei, que se prepara para dar-lhe um herdeiro.
Se coloco sua filha em julgamento perante o povo, com certeza será condenada à morte, e todos vocês da família serão condenados à prisão perpétua por cumplicidade.
E quem as coisas irá assinar a sentença será o próprio rei.
A voz do povo é a voz do rei, não se esqueça disso.
Não existe nenhum sentimento que o faça recuar diante da decisão do povo.
Não quero ver meu filho sofrer, por isso a chamei até aqui, Helen.
Levarei em consideração o tempo que me serviu e como mãe vou tentar entender sua posição.
Vou dar a quantia suficiente para vocês partirem.
Facilitarei para que todos os documentos necessários fiquem prontos o mais rápido possível.
Quero que vão em paz.
Dou o prazo de oito dias para que saiam.
Tomem um navio e vão embora para onde desejarem.
O mundo é grande, e eu lhes darei o suficiente para começarem vida nova em qualquer lugar.
Avise sua filha para não falar ou demonstrar nada para meu filho ou não poderei fazer mais nada por vocês.
Amanhã, venha falar comigo, traga todos os documentos da família e receberá o que lhe prometi.
As terras em que vivem são do rei, não é mesmo?
Faça uma lista de tudo que lhes pertence, dos animais aos móveis, e lhes pagarei.
Além dos bens, eu lhes darei a quantia prometida.
No dia seguinte, Loretta despachou todos os documentos, analisou a lista dos pertences da família, entregou em moedas de ouro o suficiente para que Helen e os seus viajassem tranquilos e abrissem um negócio em qualquer parte do mundo.
—De hoje a três dias vocês devem embarcar.
0 capitão de minha guarda particular os seguirá até o porto — recomendou Loretta.
A mulher, com lágrimas nos olhos, agradeceu e retirou-se.
No dia da partida, Loretta rumou para beira-mar acompanhada de suas damas, alegando sentir saudade do tempo em que viajava com o rei.
Na verdade, queria certificar-se de que a família da governanta estaria embarcando.
Ficou satisfeita quando a avistou de longe com os filhos ao lado.
Procurou entre eles aquela que virara a cabeça do rei.
Prendeu a respiração quando viu chegar uma moça alta, de cabelo loiro comprido e cacheado, as faces como duas maçãs maduras.
Sentiu um aperto no coração.
O filho amava aquela menina, e ela parecia uma rainha.
Se fosse sua filha, não seria tão parecida com ela.
Lembrou-se de que dera liberdade para o filho casar-se por amor.
Seria tão fácil trazê-la ao palácio como sua rainha, mas a ambição do filho iria fazê-lo sofrer muito...
Será que a conhecera depois de casado? Agora era tarde.
Ela também perdeu um grande amor, e pagou caro por isso.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 07, 2016 10:21 am

O navio partiu, e Loretta voltou ao palácio, aborrecida e triste.
Seu filho sofreria, mas acabaria aceitando a realidade.
Quando iniciou o romance com o rei, ele era casado, tinha filhos e, se na época a rainha exigisse isso do povo, seria julgada e poderia até ser condenada.
Mas a rainha silenciara, não tinha nenhuma ambição; quem governava era o rei, e ela se deu bem.
Agora via que a nora era idêntica à rainha, que lhe entregara de mão beijada o marido, a coroa, o trono e os filhos.
Loretta fizera uma promessa ao rei e a cumpria:
estava cuidando dos interesses dos filhos e do reino.
"Meu filho é jovem e bonito.
Vou incentivá-lo a fazer uma viagem para um de nossos castelos e distrair-se.
Logo ele acabará esquecendo aquela menina.
Eu também, quando me apaixonei por Raul, não enxergava nada na vida a não ser ele.
Depois, apaixonei-me por Hari e fiz muitas loucuras, até que finalmente encontrei no rei meu grande amor.
Sei que meu filho ainda vai encontrar o seu, mas por enquanto não é o momento.
Ele é imaturo, ainda não sabe o que é o verdadeiro amor, e sim as paixões.
Não posso me preocupar com isso agora.
Talvez esteja começando outro drama em minha vida", pensava ela.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 07, 2016 10:21 am

O PESO DA CULPA
Dois dias haviam-se passado desde a partida da governanta.
Era domingo, a tarde estava ensolarada, as crianças brincavam no jardim, e toda a família real fazia um lanche no salão de refeições próximo ao jardim.
Só o rei não estava presente.
Ele saíra logo após o almoço, dizendo ter assuntos importantíssimos a tratar.
O príncipe Henrique II olhou para Loretta e perguntou:
— Está preocupada?
— Sim, meu filho.
Seu irmão e rei não está presente.
Tenho falado pouco com ele nesses últimos dias.
Inclusive estava pensando que vocês poderiam programar uma viagem em família.
Ele está precisando descansar.
Fico cuidando dos negócios, e vocês podem viajar tranquilos.
— Seria óptimo!
Gostaria de afastar-me um pouco do reino.
Também ando cansado e saudoso do campo.
Gostaria que também nos acompanhasse.
Todos pararam diante do barulho que vinha do pátio; as crianças correram, agarrando-se às mães.
Era o rei que entrava, seguido por alguns cavaleiros.
Estava completamente bêbado e esbracejava palavrões.
Loretta empalideceu.
Jamais presenciara em família uma cena como aquela.
O rei aproximou-se dela e, com ar sarcástico, gritou-lhe:
—E então, grande rainha?!
Está comemorando mais uma de suas vitórias?
Foi assim que conquistou sua coroa, não?
Expulsando de sua vida aqueles que ameaçavam sua carreira!
Está feliz agora, rainha Loretta?
Vou desaparecer deste lixo que preparou para mim!
Fique com seu reino, sua coroa, seus títulos!
A rainha grávida desmaiou e foi amparada por Lucília.
O príncipe Henrique II levantou-se, os lábios tremendo, agarrou o braço do rei e ameaçou:
—Se abrir a boca mais uma vez, vou esquecer que você é o rei e meu irmão caçula.
Vou arrebentá-lo aqui mesmo na frente de todos!
Respeite sua mãe e sua esposa!
Respeite a casa de nosso pai!
Respeite sua família!
Cambaleando, o rei encostou-se numa mureta e, apontando para Loretta, disse:
—Vocês sabiam que a rainha Loretta foi amante do rei antes de casar-se com ele?
Vocês não se importam de saber que a mãe de vocês sofreu por causa dela?
E agora ela quer impor regras de moral para mim.
O irmão e os cunhados do rei dispensaram os cavaleiros, dizendo tratar-se de assunto familiar, e afastaram as crianças e a gestante.
Fecharam as portas do salão.
O rei estava sentado.
Fizeram-no engolir uma beberagem contra embriaguez.
Suando frio, ele vomitou e depois continuou rindo e desabafando suas mágoas contra Loretta.
Quando se acalmou, foi o irmão quem começou a falar:
—Sei que não é o momento.
Vou falar mais para a família do que para o rei, que continua bêbado.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 07, 2016 10:22 am

A grande rainha Loretta todos devemos nossa tranquilidade e nosso sucesso!
Quanto ao facto de ter sido amante do rei enquanto estava casado com nossa mãe, é algo que não devemos julgar.
Meu pai era um bom homem, mas muito infeliz.
Todos nós teríamos terminado como ele, infeliz!
Foi Loretta quem deu vida a meu pai.
Minha mãe era uma mulher infeliz, pois não se casou por amor.
Infelizmente essa é a verdade.
Ela nada fez de bom por meu pai, nem por si mesma, nada pelos filhos nem pelo povo!
E não temos o direito de julgá-la.
Loretta veio e trouxe consigo a força e a coragem que meu pai precisava para vencer.
Minha mãe foi respeitada por Loretta; ela nunca lhe causou mal nenhum.
E talvez o rei não saiba que minha mãe desejou a morte de Loretta.
Nem por isso ela deixou de nos proteger, sabendo que nossa mãe tentava matá-la quando morreu.
0 que Loretta fez por mim, minha mãe, com todo o amor que me devotava, jamais teria feito.
Todos vocês aqui são testemunhas de que a rainha Loretta pediu ao rei que escolhesse uma esposa para casar-se e que fosse por amor.
Como todos nós, que quebramos a tradição e fizemos nossas escolhas, apoiados por ela.
Tenho certeza de que ela teria apoiado o rei se ele tivesse escolhido uma lavadeira do palácio.
Todos o ouviam com respeito; até mesmo o rei ficou em silêncio.
Ele continuou:
—Tudo isso prova a grandeza da alma dessa mulher, que respeita quem ama, porque sofreu por amor.
Ela passou todas as humilhações que um ser humano pode suportar simplesmente porque amou.
Renunciei à coroa em favor do meu irmão caçula, acreditando que seguiria os passos da mãe.
Renunciei à coroa não por incapacidade de governar, mas por amor e gratidão à grande rainha Loretta.
Mas, se for preciso, lutarei por meus direitos e pela honra de meu pai.
Não vou permitir que meu irmão desmoralize o reino de meu pai e da rainha Loretta.
Virando-se para o rei, acrescentou:
— Em seu lugar, eu me envergonharia de ter pensado mal de sua mãe.
Você deveria espelhar-se em sua forma de governar e assumir a coroa de meu pai como um homem, não como um moleque malcriado.
O rei fez menção de levantar-se, mas as pernas não o ajudaram.
O irmão continuou:
—Vejam em que estado está nosso rei!
Entrou aqui acusando a mãe, quando o irresponsável é ele mesmo!
Que culpa tem sua mãe de suas paixões?
Quem escolheu sua esposa foi sua mãe?
Ela está certa quando pensa em manter a paz em nosso reino.
Que importa sua dor, meu irmão, perto da alegria de todo o povo do reino?
Somente quem é nobre é capaz do que ela fez em nome do reino e dos filhos e netos de meu pai.
As lágrimas desciam dos olhos de Loretta, enquanto dizia para si mesma:
"Este é o verdadeiro rei.
Fiquei feliz quando ele renunciou em favor de meu filho e agora vejo que foi um erro.
Antes a coroa de meu marido tivesse sido colocada em sua cabeça".
O rei estava melhor; a beberagem tinha surtido efeito.
Ergueu a cabeça e então, olhando na direcção da mãe, disse:
—Minha senhora, mãe e rainha, diante de todos peço-lhe perdão.
Assim como peço perdão a todos vocês.
Meu irmão está certo, não mereço estar sentado no trono de meu pai.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 07, 2016 10:22 am

Renuncio à coroa em favor de seu legítimo herdeiro.
Lívido, o príncipe Henrique II respondeu-lhe:
— Ainda acredito em você.
Apenas o lembro: um rei necessita ter paz para governar.
Um rei não pode deixar o palácio em busca de paixões exteriores.
Um rei necessita renunciar a muito de si mesmo por seu povo e sua coroa.
Não quero a coroa, quero vê-lo reinando como meu pai reinou.
E ouça bem o que vou dizer:
você tem a mesma sorte que teve nosso pai, pois tem a seu lado uma verdadeira soberana.
O que seria de você sem ela a encaminhá-lo?
O que teria sido de nosso pai e de todos nós sem ela?
Estaríamos em decadência, como a maioria de nossos vizinhos.
Foi até o irmão e abraçou-o.
— Perdão se o magoei, mas era necessário chamá-lo à realidade.
Loretta foi até onde estava o filho e disse-lhe:
—Vá descansar, meu filho.
Amanhã, quando estiver mais calmo, conversaremos.
Não fique magoado comigo.
Seu irmão falou tudo que lhe falaria seu pai.
O rei foi levado para seus aposentos, e Loretta então aproveitou a família reunida.
Estavam todos, menos a esposa do filho.
Sentados ao redor da mesa, aguardavam com respeito e atenção a palavra da rainha.
Ela começou:
—Meu filho não mentiu quando lhes disse que fui amante do rei antes de casar-me com ele.
Mas não fui apenas sua amante e, sim, alguém que sentia a dor e a necessidade do povo.
Mostrei ao rei muitos caminhos a tomar, pois eu era o povo.
Sempre respeitei a coroa e o lugar da rainha e de seus filhos.
Meu romance com o rei era entre quatro paredes.
Em público, acompanhava o cortejo da rainha como dama da corte, sem demonstrar ciúme ou algo que comprometesse a moral do monarca.
Príncipe Henrique II, sua mãe não tentou me matar.
No dia em que seu pai veio à corte despachar, sua mãe tentou se aproximar de mim.
Ela estava feliz com vocês, que eram a razão de sua vida.
O rei não a amava, mas a respeitava, e nós duas poderíamos ter sido boas amigas.
Pena que eu não pensasse naquele dia como penso hoje.
As lágrimas desciam pelas faces de Loretta.
— Ela não tentou me matar; sua mãe foi uma mulher exemplar, e vocês herdaram a nobreza de carácter dela.
Eu é que a levei à morte por ambição e ciúme.
Aprendi a amar tudo que veio de seu pai, não me casei com ele porque era o rei, mas por amor.
Quando o procurei para pedir-lhe ajuda, estava apaixonada por um de seus cavaleiros.
O que aconteceu entre nós não foi programado por mim.
Jamais tive más intenções para com o rei.
Nosso amor foi real tanto quanto amo cada um de vocês.
Prometi a mim mesma que lutaria para que todos tivessem oportunidade de escolha para amar e ser felizes.
A Igreja me puniu porque amei um de seus filhos e casei-me com ele.
Logo após nosso casamento, ele foi excomungado, e eu, condenada à prisão perpétua.
Não precisei cumprir a sentença pela bondade do rei, que era primo de meu marido, o visconde Raul.
Incentivei o rei a cortar relações com a Igreja e expulsar todos os padres e católicos que não aceitavam nossa nova proposta de vida.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 07, 2016 10:22 am

E, confesso, não estou arrependida.
Até que me provem o contrário, não confio na Igreja nem em seus seguidores.
Formamos e somos uma família feliz.
Sofri muito com a morte de meu marido, mas aqui estou cumprindo a promessa que lhe fiz no leito de morte:
cuidando de vocês e do reino.
O rei é muito jovem, e, quando somos jovens, estamos propensos a cometer erros.
Ele está atravessando um momento difícil em sua vida, e todos vocês devem ajudá-lo a superá-lo.
Logo nascerá seu herdeiro, e a rainha necessita de apoio.
Convidem o rei a fazer uma excursão com a família.
Ficarei com minha nora, estarei a seu lado quando nascer o herdeiro do trono e enviarei um mensageiro anunciando o nascimento.
Discutam os roteiros e convidem o rei.
Estamos em uma época muita boa para ir ao campo e ao mar.
Ela levantou-se, pedindo licença para ir descansar.
Todos se levantaram também.
O príncipe Henrique II correu ao encontro dela, tomou-lhe as mãos e, beijando-as carinhosamente, disse-lhe:
—Meu pai foi realmente um grande rei porque tinha você a guiá-lo.
Perdoe meu irmão e rei, ele não sabe o que diz.
Quanto à minha mãe, não se sinta culpada.
Se em outra vida eu puder escolher uma mãe, certamente será você que desejarei.
Loretta retirou-se com os olhos cheios de lágrimas.
Trancou-se em seus aposentos e ficou meditando sobre sua vida até então.
Uma sensação de angústia oprimia-lhe o peito.
Ficou olhando para o vazio, sem encontrar razão nenhuma para continuar vivendo.
Quanta falta fazia seu marido!
Ao seu lado ela se sentia gigante, nada temia, pois tinha o amparo de um grande homem.
Seu filho reinava bem, mas ultimamente deixara-se levar pelo coração e abandonara o povo nas mãos dela.
Adormeceu e começou a sonhar que estava no castelo em que nascera, correndo e brincando com seu cão.
O pai chegava acenando-lhe, e a mãe vinha correndo para abraçar o marido e beijar seu rosto.
Abraçados, os três atravessavam o jardim e entravam no enorme salão do castelo.
O pai entregava-lhe uma boneca de louça pintada.
Ela dava pulos de alegria.
Acordou e ficou imóvel por instantes.
Nunca mais sonhara com os pais; até havia esquecido o rosto do pai, mas o vira ali no sonho, tão vivo e perfeito.
Sua mãe, quantas saudades...
"Ó, minha mãe, onde está você?
Naquele tempo eu era tão feliz, tão pura e inocente!
O que fiz de minha vida?
Hoje apenas o vazio e o remorso ocupam meu coração."
Virou-se para o outro lado e fechou os olhos.
Logo adormeceu e voltou a sonhar.
Agora estava no castelo D'armis, via Raul de longe.
Ele estava lindo, acenava-lhe sorrindo e desaparecia.
O tio estava sentado numa cadeira, e a mãe, em outra.
Os dois olhavam para ela sem nada dizer.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 07, 2016 10:22 am

O Senhor Manuel vinha com uma rosa vermelha na mão, que entregava para ela, dizendo a sorrir:
—Senhora, Raul está vivo, ele pode ajudá-la.
Acordou transpirando, sentou-se na cama e pensou:
"As emoções de hoje deixaram-me com os nervos à flor da pele.
Ficou uma sensação de saudade em meu coração".
Que bom ter sonhado com o rosto amado da mãe.
Tinha muita afeição pelo tio também.
Que pena que não os abraçara no sonho...
No dia seguinte, estava muito abatida.
Nunca sentira tanta tristeza em toda a vida; tinha um vazio enorme dentro de si.
Era como se o que vivera estivesse se resumindo a nada.
Esperaria as coisas acalmarem-se para tomar uma decisão.
Não permitiria que o filho acabasse com o que seu marido e ela juntos haviam conquistado.
Estava descendo as escadas, quando ouviu atrás de si alguém que a chamava:
—Mãe! Podemos conversar?
Fazia muito tempo que não ouvia o rei chamá-la de mãe; este a tratava por senhora ou grande rainha.
Parou por uns segundos antes de virar-se, altiva e elegante como sempre.
—Claro que podemos conversar, meu filho!
Ele a seguiu até a entrada da sala e ordenou aos cavaleiros que faziam a guarda pessoal:
—Estou em audiência com minha mãe e não quero ser interrompido por ninguém.
Entraram, e o rei fechou a porta.
—Sente-se em seu lugar, minha mãe — pediu.
Loretta assim o fez.
Ele ajoelhou-se diante dela, deitou a cabeça em seu colo e começou:
—Minha mãe, perdoe-me!
Não estou me sentindo digno de estar em sua presença.
Nem mesmo sei se teve alguma participação no desaparecimento da família de Mary, apenas sei que errei com você.
Errei muito, minha mãe.
Você me deu toda a liberdade de escolha, e eu escolhi minha esposa, que está esperando meu filho e herdeiro.
Ganhei com esse casamento uma coroa, uma boa esposa e o respeito de nosso povo.
E o que fiz?
Deixei-me levar pelas ardentes paixões de um homem comum.
Conheci Mary e enlouqueci de paixão.
Meu amor era tanto que até ontem trocaria o trono e até mesmo minha vida por ela, disposto que estava a fazer qualquer coisa para tê-la ao meu lado.
E ela, por sua vez, jurou-me enfrentar tudo por mim, mas agora sei que não eram verdadeiras suas palavras.
Nada enfrentou por mim, mas você, sim!
Enfrentou tudo e todos para ficar com meu pai.
Ela simplesmente desapareceu sem ao menos me deixar um adeus.
Vou dedicar-me à minha esposa e rainha, trabalharei com afinco e responsabilidade para desenvolver o reino, e meu filho será o maior rei do mundo, você verá!
Aqui, ajoelhado a seus pés, vai levantar-se um novo homem, um novo rei!
Só preciso ouvi-la dizer: você está perdoado!
Ela afagou os cabelos do filho e, olhando dentro dos olhos dele, respondeu-lhe:
— Você está perdoado, meu filho!
Estarei sempre ao seu lado para ajudá-lo em tudo.
— Mãe, a casa em que vivia a família de sua governanta é uma grande vivenda.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 07, 2016 10:23 am

Hoje mesmo expedirei uma ordem de demolição e mandarei construir no local um enorme cemitério popular.
Ali ficarão enterrados meus sentimentos por Mary.
Nunca mais quero ouvir falar dela.
Vou dedicar-me totalmente à minha esposa de hoje em diante.
Loretta abraçou o rei, orgulhosa.
Aquele, sim, era seu filho!
—Faça tudo como quiser, meu filho, e pela última vez falaremos o nome de Mary.
Falei com a mãe dela a respeito do romance de vocês.
Naturalmente que a pressionei, pois precisava saber até que ponto a moça o amava, mas não houve nenhuma resistência:
eles aceitaram partir sem ao menos protestar.
O amor, quando é verdadeiro, nos torna tolos, irresponsáveis e inconscientes, e você sabe disso porque amou.
Somos capazes de matar e morrer, de enfrentar tudo e todos.
Infelizmente Mary não o amava tanto assim a ponto de matar ou morrer, ganhar ou perder, como eu mesma fiz por amor.
Ele sorriu.
—Mãe, orgulho-me de você!
Matar ou morrer! Ganhar ou perder!
Bem, aqui colocamos um ponto final neste nome: Mary.
À noite a família real reuniu-se para tratar da excursão.
O rei, então, pronunciou-se:
—Fico no reino com minha esposa.
Quero ver meu filho e herdeiro nascendo.
Minha mãe vai com vocês.
Já me diverti demais enquanto ela trabalhava.
Agora é minha vez de assumir as responsabilidades e dela de descansar.
No dia seguinte, à tarde, a nora de Loretta, corada e radiante, chamou-a em seus aposentos.
— Minha sogra, nem acredito no que está acontecendo!
O rei está me tratando como nunca me tratou, sendo gentil e atencioso comigo.
Pediu-me perdão por ter-me deixado só.
Creio que ouviu seus conselhos.
Hoje terá um jantar de gala em homenagem a vocês, que estão partindo.
Ajude-me, por favor.
O que acha que devo vestir?
E meu cabelo, deixo-o solto ou o prendo?
Vou sentar-me ao lado de meu marido esta noite e pela primeira vez falarei em público.
Você pode me ajudar?
— Claro, minha filha.
Você deve usar esse vestido preto com decote; ele vai disfarçar bem a gravidez.
Solte o cabelo também.
Loretta sentou-se e puxou a nora para perto de si.
—Ouça o que vou lhe dizer:
o coração de meu filho está livre para você conquistá-lo.
Procure mostrar-se a ele como mulher.
Deixe todos os preconceitos de lado, atire-se em seus braços e faça dele um homem feliz.
Mesmo grávida, você está linda!
Antes de ser sua rainha, seja sua mulher.
Conquistei o pai dele porque fui mulher antes de ser rainha.
Loretta fantasiou muitas coisas para ajudar a moça a quebrar os preconceitos que lhe haviam colocado na cabeça.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 07, 2016 10:23 am

A DOR DA SEPARAÇÃO
Mary e sua família estavam em alto-mar havia mais de trinta dias.
Logo nos primeiros dias de viagem ela caiu doente, vomitava até mesmo a água que engolia, não conseguia se levantar, estava pálida, fraca e totalmente desfigurada.
O médico de bordo avisou a seus pais:
— Talvez ela não resista até o fim da viagem.
A mãe lutava e insistia para que Mary tomasse uma canja rala, que ela às vezes engolia, mas logo jogava para fora.
Foi então que uma senhora, penalizada com a cena, lembrou-se de que uma vez vira a mãe misturar água com açúcar e sal e dar ao irmão que vomitava tudo o que engolia.
Ajudou a preparar a mistura e levou-a até Mary, colocando colheradas em sua boca.
No dia seguinte, a moça parecia melhor.
Continuou tomando a mistura por três dias e começou a engolir a canja sem vomitar.
Aos poucos foi melhorando, conseguindo sentar-se.
De vez em quando ainda sentia enjoos, que logo passavam.
Já fazia dois meses que viajavam, e o capitão anunciou que, não havendo nenhum contratempo, em três ou quatro dias estariam aportando em Ilhéus.
Mary estava no convés, olhando para o céu completamente azul-
O mar parecia-lhe um manto verde.
Ouviu o que dissera o capitão:
se não houvesse nenhuma tempestade repentina, em três ou quatro dias chegariam a Ilhéus.
Como seria o novo país?
Como seria sua vida dali em diante?
Seu coração estava dilacerado.
Amara o rei e, agora, sentia-se morta e vazia por dentro.
Dois dias após o capitão ter dado a boa notícia, pegaram uma tormenta que desviou a rota do navio.
Todos já estavam acostumados a ouvir estas palavras:
'Todos se recolham a bordo até segunda ordem!".
Correram para os respectivos aposentos, segurando-se para não cair, tanto que balançava o navio.
Tinham passado por mais de dez tormentas, algumas durando até dois dias.
Parecia um pesadelo que nunca terminaria.
Muita gente morreu e foi jogada ao mar.
Algumas pessoas viviam de cabeça baixa ou falavam sozinhas; outras pareciam loucas.
No sétimo dia, receberam a boa notícia:
—Atracaremos dentro de cinco ou seis horas.
Arrumem seus pertences.
Hoje ninguém desembarca, mas a partir de amanhã, assim que recebermos a autorização da capitania, começaremos o desembarque em grupos.
E o capitão continuou instruindo todos:
— Deixem seus documentos separados, todos vão assinar o desembarque.
Cuidado para não esquecerem nada ao deixarem as cabines.
Foi um alvoroço só, todas as pessoas pareciam ter enlouquecido.
Alguns gritavam, outros choravam, muitos se abraçavam.
A mãe de Mary disse-lhe:
—Filha, chegamos!
Se Deus quiser, vamos recomeçar nossa vida e seremos felizes.
Mary continuava imóvel.
Era como se nada mais tivesse importância.
Se aquela viagem nunca mais terminasse, pouco lhe importaria.
Estava morta na alma.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 08, 2016 9:49 am

Como iria viver sem aquele que era sua própria vida?
Como fora tola em sonhar que poderia viver por todo o sempre recebendo o amor de um rei?
Ela nada queria dele, a não ser seus beijos, seus abraços...
O navio ancorou em segurança, e os marinheiros desceram em pequenas embarcações para ir até a capitania do porto buscar a ordem de desembarque e os veículos apropriados para o transporte das pessoas e bagagens.
No outro dia cedo, começaram a desembarcar.
Logo chegou a vez da família de Mary.
Todos assinaram o desembarque, recebendo um documento que concedia um mês de pensão em uma hospedaria.
Chegando em terra, Mary olhou ao redor:
havia muita areia e plantas diferentes das que existiam em seu país.
Admirou-se com os coqueirais.
Nunca tinha visto coisa mais bela.
Uma vez acomodados na pensão, o pai logo providenciou um buraco no chão para enterrar sua pequena fortuna, deixando apenas o suficiente para trocar por dinheiro local e arcar com pequenas despesas.
Descansaram no primeiro dia.
O pai de Mary saiu com o filho mais velho para dar uma volta nos arredores e sentir a terra.
Voltaram encantados com o que viram: milhares de pés de café, frutas e peixes em abundância.
Trouxeram um coco em pedaços, que todos experimentaram.
Gostaram da novidade.
Quinze dias depois o pai de Mary comprou uma fazenda de café e cacau com algumas cabeças de gado, cavalos, jumentos, galinhas, porcos e carneiros.
A fazenda, já pronta e produzindo, tinha um grande pomar com frutas diversificadas e um rio que passava no meio dela.
Era um verdadeiro paraíso.
A única coisa que não existia ali era uma casa boa, observou ele.
A família mudou-se para a fazenda, levando móveis e utensílios domésticos.
Logo o pai de Mary começou a ser chamado de coronel.
Escravos também foram incluídos na venda da fazenda.
A dona da propriedade, uma viúva, desfez-se de tudo.
Não tinha vendido ainda a fazenda por falta de comprador, até que apareceu aquele coronel estrangeiro cheio de dinheiro.
Era o que comentava o povo da região.
A menstruação de Mary, desde que haviam embarcado, não tinha dado sinal.
Seus seios cresciam, e sua barriga ficava saliente.
Percebendo, a mãe chamou-a para uma conversa em que a moça confessou ter-se entregado ao rei.
A mãe colocou as mãos no rosto.
— Meu Deus, que desgraça!
O que vamos fazer?
Vou conversar com seu pai e pensar no que fazer.
Pelo que posso ver, você deve estar no quinto mês.
Ao saber da notícia, o coronel, como já era conhecido o pai de Mary, ficou sério e pensativo por momentos e depois disse para a esposa:
—Helen, seremos avós de um príncipe!
Naturalmente ele nunca vai saber que é filho de um rei, mas nós sabemos, não é mesmo?
Vamos contar para o povo da terra que Mary ficou viúva.
Ninguém nos conhece mesmo, não é verdade?
Chame-a até aqui.
Assim, logo se espalhou a história de que a linda filha do Coronel Arquimedes era viúva.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 08, 2016 9:49 am

Por isso haviam deixado o país de origem:
pela tristeza da filha que perdera o marido.
Aquela gente simples e rude, como observou o coronel, acreditava em tudo, e Mary conquistou a simpatia de todos.
Mary deu à luz um lindo rebento.
Não podia conter as lágrimas quando via naquele rostinho a imagem do rei, de seu grande e inesquecível amor.
Seus pais também se emocionaram.
No fundo tinham orgulho:
"Este menino é um príncipe!
É o filho do rei, é nosso neto".
Consultaram Mary:
como desejava chamá-lo?
Ela ficou pensativa, olhando o rostinho inocente do filho.
—Vou chamá-lo de Henrique — decidiu.
Os pais entreolharam-se.
—Que seja chamado de Henrique, se este é o seu desejo — consentiu o coronel.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 08, 2016 9:49 am

O NOVO HERDEIRO
A família real estava na Grande Ilha, divertindo-se.
Os filhos da rainha quiseram visitar o local em que a mãe desaparecera, mas Loretta não quis acompanhá-los.
A tarde estava fresca e tranquila; as águas da ilha, verdes, contrastavam com a mata que a cercava.
Foi a pequena Lucília II que avistou os cavaleiros que se aproximavam e avisou à avó:
—Acho, minha avó, que teremos visitas.
Olhe lá!
Loretta reconheceu serem os cavaleiros do rei e alegrou-se.
Abraçando a pequena princesa, disse-lhe:
—Acho que são notícias de seu tio e de seu primo, que nasceu.
— Ah, vovó, então teremos de voltar?
— Sim, teremos.
Os cavaleiros desmontaram e, após cumprimentar a rainha, deram-lhe a notícia:
nascera o príncipe, com quase quatro quilos, forte e saudável.
A rainha passava bem, e o rei os aguardava.
Dali quatro dias teria de apresentar o filho e futuro rei ao povo.
A caravana trazendo a família da rainha para conhecer o futuro monarca dos dois reinos já devia estar chegando.
Após dar ordens aos criados para acomodarem e servirem os cavaleiros, Loretta ordenou também que todos começassem a preparar a viagem da família para o dia seguinte.
Precisavam chegar a tempo de organizar seus trajes e estar descansados para a festa.
No fim da tarde, o restante da família retornava do passeio.
Comemoraram, brindando entre si, o nascimento do príncipe.
Todos concordaram em partir no outro dia, logo cedo, para que à noitinha estivessem chegando ao palácio.
Ao entrar no palácio, Loretta avistou o filho.
Parecia mais magro, mais alto e agora era a cara do pai.
O cabelo estava comprido, caído até os ombros, a barba comprida também.
Abriu os braços para o filho e abraçou-o sem palavras.
Seus olhos estavam marejados.
—Mãe, que saudade de você!
Aqui está tudo bem!
Gostou da minha nova aparência?
Acho que a barba me deixou mais amadurecido.
—Você está parecido com seu pai.
Deixou a barba e o cabelo crescerem de propósito para ficar parecido com ele?
—Para ser sincero, acho que sim.
—Terei de esperar mais três dias para conhecer meu neto e rever minha nora?
—Você sabe que não.
Ainda é a grande rainha.
Loretta mal podia esperar.
Após limpar-se da viagem, entrou no aposento real e tomou o neto nos braços.
As lágrimas, de alegria correram livremente por seu rosto.
Era o fruto de seu amor, o filho de seu filho, o futuro rei!
Como teria sido bom se seu marido estivesse ali...
Seu neto era lindo.
Foi até a nora e beijou-lhe a fronte.
— Minha sogra, sou a mulher mais feliz do mundo! — disse ela, sorrindo de alegria.
Meu marido e rei tornou-se o melhor dos maridos, mudou de um dia chuvoso para um de sol radiante!
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 08, 2016 9:49 am

— Que bom, minha filha!
E você tem cooperado com ele, não é mesmo?
— Sim, minha sogra, tomei seus conselhos.
Interessei-me em saber de tudo que se passa no reino, e ele muitas vezes pede minha opinião para alguns assuntos da corte.
Estamos vivendo em plena harmonia.
A vida do rei agora se resume em aumentar nosso prestígio, incentivando o desenvolvimento do reino.
Você vai ter muitas surpresas com os projectos ousados e bem estruturados de seu filho.
Realmente ele herdou sua astúcia para reinar.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 08, 2016 9:50 am

A VIDA TOMA NOVOS RUMOS
Em Ilhéus, o império do café e do cacau estava em alta.
Todos os produtos eram exportados para a Europa, que agora tinha o comércio aberto.
O Brasil destacava-se com a chegada dos imigrantes estrangeiros.
O Coronel Arquimedes era um dos mais respeitados exportadores do país e imperava no comércio.
Tinha adquirido várias fazendas, e seu nome brilhava entre os comerciantes estrangeiros.
Seus produtos eram os melhores.
Havia trazido a cultura e a experiência de sua terra natal, aplicando-as com sucesso em Mus, como os nativos pronunciavam.
Sua esposa era uma dama fina que ensinava boas maneiras e etiqueta às damas da sociedade.
Nunca revelara para ninguém que tinha sido governanta de uma rainha.
As vezes, relembrava aquele tempo e até achava graça, pois, se contasse para alguém daquela terra, a pessoa iria rir dela, não acreditando que tivesse estado lado a lado com rainhas e reis.
Olhava o neto, que brincava com outros garotos.
Com oito anos de idade, era a cara do pai, tinha olhos verdes, as mesmas covinhas no rosto e o cabelo loiro.
Se contasse que ele era um príncipe, diriam que era louca.
Mary agora era uma moça comprometida.
Havia dois anos que se casara com um nobre fazendeiro e comerciante local.
Teve uma filha que em nada se parecia com ela ou o irmão, tendo puxado ao pai:
morena, com cabelos negros e encaracolados.
O filho não quis acompanhá-la quando se casou, e ela achou por bem não forçá-lo.
Afinal de contas, os avós tinham sido os pais que ele conheceu.
Seu marido iria viajar para a Europa, a fim de investir e expandir os negócios por lá, pois recebera uma proposta irrecusável.
Mary ficou apreensiva só de pensar que ele passaria praticamente oito meses por lá.
Quando ficou sabendo para onde se dirigia, seu coração pareceu parar.
Nunca contara a verdade ao marido, pois a família tinha feito um juramento: suas vidas haviam ficado para trás.
Falavam que tinham vindo das montanhas, onde eram fazendeiros.
Jamais pronunciavam o nome dos monarcas ou da corte, nem mesmo entre eles.
E, assim, todos esqueceram, ter um dia conhecido a corte daquele país.
O esposo, apaixonado por ela, jurou que faria tudo para retornar o mais breve possível.
—Vou sentir como está o comércio e, se tudo correr bem, como penso, na próxima viagem levarei você comigo.
Deixaremos a pequena Larisse aos cuidados de sua mãe.
Fique tranquila, vou me cuidar.
Sei de sua preocupação quanto à viagem, mas hoje as embarcações estão bem equipadas, e as rotas, menos curtas.
Continuou falando alegremente:
— A viagem que vocês levaram quase três meses para fazer, hoje, com a nova rota e as novas embarcações, se tira em até vinte e cinco dias.
Logo estarei de volta, você vai ver!
Vou observar tudo que achar de interessante e implantar por aqui.
Fale-me, o que quer de sua terra?
Quero dizer, de seu país...
Quem sabe se um dia não poderemos ir até lá, não é mesmo?
Mary, procurando disfarçar o abalo que sentia por dentro, respondeu-lhe:
—Nada, meu amor.
Aliás, quero sim!
Aprecie tudo na corte de meu país para me contar.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 08, 2016 9:50 am

Quem sabe você até chegue a ver a família real de perto.
Veja se todos são bonitos.
Não quero nada pessoal, apenas que volte logo.
Ele abraçou-a, apaixonadamente.
—Não sei como vou suportar ficar tanto tempo longe de você, meu amor!
Mas é necessário.
Juro que vou fazer o possível para encerrar os negócios por lá o quanto antes e voltar correndo para casa.
Enquanto isso, no reino de Loretta, o país passava por grandes mudanças.
O rei assinara um decreto libertando todos os presos julgados pela Igreja e por crimes passionais.
Cada caso fora analisado em separado.
Foi construído um novo presídio de segurança máxima, mais próximo do reino, e o antigo, transformado em escolar militar.
O povo aplaudia o rei e erguia estátuas e mais estátuas a Loretta.
Os poetas faziam nobres versos de amor e de coragem inspirados nela.
O rei também assinou um decreto dando liberdade de culto, ou seja, todas as pessoas poderiam adorar seus deuses livremente, cada uma a seu modo.
O único culto proibido era o católico; havia uma espécie de guerra santa entre Roma e o reino de Loretta.
Ela mantinha sua palavra contra os padres, continuava chamando-os de corvos negros.
A nação crescia tanto na cultura quanto no comércio, e ultrapassava os grandes países do baixo e alto continentes.
O rei herdara o trono vizinho por morte de seu sogro, juntara a riqueza dos dois reinos, e incentivara o progresso cultural e a educação.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 08, 2016 9:50 am

O PARAÍSO PERDIDO
Desactivado o presídio do outro lado do continente, foi então descoberta uma faixa habitada por índios.
Segundo o depoimento do príncipe e comandante da cavalaria real, eram civilizados.
O cacique da aldeia era um homem culto e falava correctamente o idioma do país.
Era uma aldeia natural em sua origem, mas altamente desenvolvida, rica e bem estruturada.
A vida daqueles indígenas era um grande exemplo, pois viviam dos próprios recursos.
Em matéria de higiene e saúde, eram bem instruídos e prevenidos.
O cacique ensinava ao povo a medicina e a agricultura.
Todos entendiam sua língua e viam nele um verdadeiro deus.
Foi o que relatou o príncipe para o rei e irmão.
O monarca ficou impressionado com a descoberta.
Como um cidadão tão nobre foi parar entre os selvagens?
Logo seria investigada e incorporada mais uma civilização ao reino do filho de Loretta.
Após vários estudos, como a última palavra era sempre de Loretta, em audiência secreta com o filho a rainha disse-lhe:
— Meu filho e rei, pensemos juntos no seguinte ponto:
essa aldeia é nosso santuário.
Devemos conhecê-la e protegê-la das invasões inimigas.
Vamos conservar nossos índios e tirar desse achado tudo o que necessitamos para manter a dignidade do reino.
O rei olhou para a mãe cheio de admiração e respeito.
Não ora a toa que o pai se apaixonara por ela; realmente ela era uma mulher muito inteligente e tinha uma visão política de causar inveja a muitos homens.
—Minha mãe e grande rainha, gostaria de ir na primeira expedição real para fincar nossa bandeira no território indígena?
Ela sorriu.
— Sim, meu filho e rei, eu gostaria! — respondeu, cheia de entusiasmo.
— Vamos traçar nossos planos e preparar a expedição. Você será a madrinha dessas terras.
Quatro meses depois, Loretta preparava-se com a comitiva.
Acompanharia o rei na primeira expedição, quando seriam definitivamente reconhecidas e baptizadas as terras habitadas pelos indígenas.
Eles seriam protegidos e isolados da civilização, continuariam livres do contacto com o mundo exterior.
Loretta estava de facto curiosa em conhecer o tal cacique.
Como ele havia ido parar naquela aldeia que até então era totalmente desconhecida para o mundo?
Seria algum marinheiro que se perdera durante alguma viagem e fora parar por lá?
"Bem", pensava ela, "só saberei quando falar com ele."
Com todo o luxo e conforto que atendem às grandes personalidades, formou-se a comitiva.
Muitas damas e cavaleiros acompanhariam os soberanos na expedição.
A comitiva era composta pelo rei, a rainha Loretta, o comandante das tropas de terra e mar, que era o próprio irmão do rei, todos os generais altamente qualificados para o posto que ocupavam e Lucília II — a princesa insistira tanto com a avó Loretta de que gostaria de ver os índios e conhecer a aldeia que conseguiu seu intento.
Loretta fazia tudo o que ela carinhosamente lhe pedia.
Depois de oito dias de viagem, a comitiva ancorou no paraíso perdido da civilização.
A faixa de terra que ocupava a aldeia formava um coração; vista do alto do navio, era algo fantástico.
Logo os marinheiros tomaram as embarcações que os deixariam em terra firme, a fim de preparar o cacique para a chegada do rei e de sua família.
Cinco horas mais tarde, os marujos retornaram com as boas-vindas do cacique da aldeia.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 08, 2016 9:50 am

Ele indicou-lhes o local apropriado para montarem os acampamentos.
Só fazia uma exigência:
que todos usassem máscaras para entrar na aldeia, assim como os indígenas iriam usá-las para receber a comitiva do rei.
Isso era uma prevenção contra doenças trazidas de fora.
O rei ficou encantado com a preocupação do cacique em proteger a aldeia.
Receberam as máscaras feitas de couro e tecido de algodão, limpas e esterilizadas, o suficiente para toda a comitiva.
0 rei então ordenou:
—Quero todos os homens em terra montando as cabanas que nos servirão de abrigo.
Não se descuidem de nada e procurem instalar da melhor maneira possível as cabanas das mulheres e de suas damas.
Que nada lhes falte; providenciem o melhor.
Amanhã, quero estar pisando em terra, acompanhado por minha mãe.
Ainda recomendou:
— Todos de máscara!
E não saiam da área demarcada pelo cacique.
No outro dia, após o almoço, os soberanos estavam chegando em terra.
Do outro lado, viam-se vários índios pintados com tintas que imitavam aves da terra e enfeitados com penas.
A princesa Lucília II estava encantada com o que via:
entre os homens havia várias mulheres que usavam tangas de penas e couro de leopardo, tinham o rosto pintado, eram todas morenas e de cabelo liso e brilhante até a cintura.
Tinham os seios nus, mas pintados de um colorido que variava de uma para outra.
Os homens eram morenos e tinham cabelos negros que desciam até o pescoço, usavam tanga de couro de leopardo e alguns carregavam várias tiras de couro cruzadas pelo corpo.
Todos estavam pintados, e alguns usavam penachos coloridos que variavam entre curtos e compridos.
Tinham arco e flecha nas mãos.
Homens e mulheres usavam máscaras.
Na frente dos guerreiros e guerreiras, que eram mais de quinhentos, destacava-se um índio.
—Aquele é o cacique — alguém informou.
Era o mais alto de todos, usava também uma tanga de couro de leopardo, trazia várias tiras de couro cruzadas no tórax e um Penacho feito de penas de todas as cores, que se arrastava até os Pés.
Tinha o resto do corpo tatuado com desenhos de tigres, aves, Peixes e serpentes.
0 cacique também usava máscara, mas não trazia nenhuma arma na mão.
Acenou para a comitiva real, e logo todos se aproximaram.
O rei respeitosamente lhe estendeu a mão, e Loretta repetiu o gesto do filho.
Estava tensa e preocupada; nunca havia passado antes por uma situação daquelas.
O cacique falou alguma coisa para os guerreiros, e eles começaram a cantar e dançar algo típico.
Logo todos foram convidados para sentar-se à sombra, em pedras cobertas de couro.
Foi servido um vinho de frutas, conforme explicou o cacique, em taças feitas de tronco de árvores.
Tudo era muito bem-feito, e a higiene, a marca daquele povo.
Foram também oferecidos vários frutos naturais da selva e comidas típicas da aldeia à base de milho e mandioca.
Tudo era servido em bandejas, pratos e copos feitos de madeira e da casca dos próprios frutos.
Loretta e o rei estavam boquiabertos com o que viam.
O cacique comunicava-se em dialecto e gestos com seus guerreiros, que permaneciam cercando a comitiva, prontos para atender às ordens do chefe.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 08, 2016 9:51 am

Passaram a tarde conversando amistosamente.
O cacique convidou os soberanos e sua comitiva para uma refeição, após o que seriam homenageados com os rituais da tribo.
Designou uma das guerreiras, Lua de Prata, para acompanhar e ajudar as mulheres, e um dos guerreiros, Raio de Sol, para orientar os homens.
Raio de Sol e Lua de Prata mostraram-se gentis e guiaram as pessoas até os acampamentos.
Falavam a língua da corte.
Perguntaram se alguém precisava de alguma coisa e colocaram-se à disposição de todos.
Encantada, Lucília II perguntou à Lua de Prata:
— Quantos anos você tem?
— Dezasseis.
Sou filha do cacique.
Lucília II ficou espantada e com medo de dizer o que pensava, mas prosseguiu:
—E Raio de Sol, tem quantos anos?
— Ele tem vinte e três anos, é um grande guerreiro e meu irmão.
— Como você aprendeu a falar tão bem nossa língua se nunca foi à corte?
—Meu pai nos ensinou.
Todos aqui entendem o que ele fala.
A noite chegava.
A lua despontou no horizonte, brilhando entre as árvores.
Os acompanhantes retornaram aos acampamentos, conforme combinado.
Lucília II quase não reconheceu Lua de Prata, que trazia uma guirlanda de flores na cabeça, vestida com pele de leão, e calçava sandálias de couro amarradas no tornozelo.
Estava linda, apesar de não mostrar o rosto.
Saíram e encontraram os homens, que já estavam à espera das mulheres.
Raio de Sol vestia uma calça de couro de búfalo e um blusão de couro aberto, que deixava ver o tórax.
Usava sandálias de couro e tinha os cabelos negros jogados para trás, deixando Lucília II encantada, mesmo sem ter ideia de suas feições.
Foram levados até uma espécie de túnel iluminado por tochas, de onde saíram para um enorme salão coberto de folhas naturais.
As mesas, feitas de madeira e enfeitadas com folhas de bananeiras, estavam repletas de carnes assadas, peixes, camarões, frutos e vários outros pratos feitos com mandioca e milho.
Havia tonéis de vinho e cerveja feitos na aldeia.
A área perdia-se de vista.
O grande cacique e toda a tribo vestiam peles de animais e calçavam sandálias de couro.
Havia bancos de madeira e de pedra, redes feitas de couro e esteiras de palha à disposição de todos.
Agora havia milhares de índios.
Uma fogueira foi acesa no centro, e as festividades começaram.
O cacique, elegantemente vestido de couro, era o único que usava um penacho composto de penas das mais variadas cores que descia até as costas.
Continuava usando, assim como os outros, a máscara.
"E uma pena não poder ver seus rostos", pensava Lucília II.
Raio de Sol fez uma demonstração, montado num animal, Jogando flechas e laços.
Em dado momento, sua máscara caiu, e Lucília II pôde então ver seu rosto.
Era o homem mais bonito que já vira em toda a vida.
Desejou ficar ali para sempre ao lado dele.
Rapidamente ele recolocou a máscara e continuou demonstrando suas habilidades de guerreiro.
"Esse homem é um pássaro na agilidade; não tenho um só com sua capacidade", pensou o rei.
Várias foram as demonstrações dos homens.
Logo foi anunciada a apresentação das guerreiras e, para a surpresa dos monarcas, elas mostraram técnicas de defesa pessoal.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 08, 2016 9:51 am

Lua de Prata arrancou o traje de pele de leão, ficando de tanga, e lutou na arena com toda sua graça.
Era uma verdadeira pantera.
O rei estava espantado com a organização.
Reconheceu que o cacique era um verdadeiro rei; sabia comandar seu povo.
Ali, escondido no meio da selva, havia um verdadeiro exército composto por homens e mulheres.
Henrique III não tirava os olhos de Lua de Prata, parecia hipnotizado por ela.
Os guerreiros atiravam para o alto uma fruta, e ela acertava-a no ar com a flecha.
Foi um grande espectáculo a apresentação dos indígenas, que em seguida começaram a dançar.
Mais uma vez, Lua de Prata destacou-se por seus graciosos movimentos.
O rei desejou no íntimo ver o rosto daquela moça que tanto o impressionara, mas sabia ser impossível.
Afastou tal pensamento imediatamente.
Estava ali trabalhando e não devia deixar-se levar pelas emoções.
Mas seus olhos pareciam não querer obedecer e acompanhavam todos os movimentos de Lua de Prata.
Olhou para o alto, viu a lua brilhante que se estendia sobre eles e pensou:
"O nome que lhe deram é exactamente o que você parece, Lua de Prata...".
Todos beberam e comeram à vontade.
Foi uma grande festa. Lucília II não conseguia desprender os olhos de Raio de Sol.
Ele estava bebendo e brincando com algumas guerreiras, e ela sentiu inveja das moças que estavam com ele.
Eram todas tão bonitas e sensuais...
Apesar de não ter visto o rosto delas, sabia que eram lindas.
Lua de Prata divertia-se com os jovens guerreiros enquanto o rei conversava com o cacique, mas não deixava de reparar nela e de sentir ciúme dos jovens que a cercavam.
Acertaram, então, que passariam oito dias na aldeia e discutiriam os assuntos políticos nos próximos dias, para que o rei apreciasse e conhecesse o lugar.
Todos os dias o Conselho da tribo se reunia, formado pelos mais velhos da aldeia e os conselheiros do rei.
Entre eles havia uma única mulher: a rainha Loretta.
No quinto dia, o cacique reuniu seu povo e falou-lhe em sua língua.
Todos fizeram um movimento de consentimento com a cabeça.
Uma bandeira com o brasão real e outra com as cores do país foi hasteada, e todos olhavam com simpatia para elas.
O rei e o cacique assinaram um acordo diante dos dois Conselhos.
O cacique apertou a mão do rei e a de Loretta.
Ao tocar a mão do cacique, Loretta sentiu um arrepio.
Não soube por que, mas teve a leve impressão de conhecer aquele aperto de mão.
Todos continuavam usando as máscaras, que cobriam todo o rosto.
Apenas os olhos e a boca ficavam expostos.
Lucília II já tinha conquistado Lua de Prata.
Deu-lhe algumas jóias e ganhou em troca sandálias e um casaco de couro.
Cautelosamente, fez a pergunta que tanto queria:
— Raio de Sol é casado?
Lua de Prata respondeu-lhe:
— Meu irmão Raio de Sol não é casado.
Está prometido para a filha da mãe peixe, Iemanjá.
— E quem é a filha da mãe peixe? — perguntou Lucília II, angustiada.
— Não sabemos quem é.
Quando chegar a hora, ela nos mostrará.
A mãe peixe vai trazê-la nas águas do mar, como trouxe nosso pai.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 08, 2016 9:51 am

Lucília II não entendeu nada.
Só sabia que estava completamente apaixonada.
Seus olhos encheram-se de lágrimas, e Lua de Prata perguntou-lhe:
—Está amando Raio de Sol?
Talvez seja você a filha da mãe peixe; você foi trazida por ela.
Se for, logo saberemos.
O grande pajé saberá.
Em seguida, afastando o medo, pediu-lhe:
— Retire sua máscara, deixe-me ver seu rosto.
Lucília II retirou a máscara e soltou o cabelo.
Lua de Prata colocou a mão na boca, num gesto de espanto, e disse:
—Você é filha da mãe peixe!
Coloque depressa a máscara.
Não posso falar nada para Raio de Sol, mas posso fazer algo por ele.
Hoje, no fim da tarde, venho buscá-la.
Iremos até a beira do rio e você vai retirar de longe a máscara e mostrar-se para ele.
Se for você a enviada da mãe peixe, vou saber pelo olhar dele.
Lucília II ficou tão feliz que abraçou a índia, chorando de alegria e dizendo repetidas vezes:
—Eu amo Raio de Sol, eu amo Raio de Sol!
Mal podia esperar pela hora em que Lua de Prata viria buscá-la.
Assim que a índia chegou, saiu animada, e logo estavam na beira do rio, onde Raio de Sol tomava seu banho.
Assim que a viu, gritou para a irmã:
—Volte e leve a moça de volta, pois não posso sair daqui!
Estou sem roupa e sem máscara!
Olhando para ele, a vontade de Lucília II era atirar-se nas águas e ficar com ele, mas, em vez disso, retirou a máscara e soltou seus belos cabelos loiros e brilhantes.
Seus olhos verdes brilhavam.
Raio de Sol ficou sem se mover, olhando para ela, e não soube explicar o que sentia.
Logo Lua de Prata tocou no ombro de Lucília II e pediu-lhe:
—Coloque a máscara de volta e vamos embora.
Agora é a mãe peixe quem vai decidir.
Voltaram para a aldeia.
Lá, Loretta comunicou à neta que iriam partir dali dois dias.
Pediu que começasse a arrumar seus pertences, porque os homens, logo cedo, se colocariam a desmontar o acampamento para partirem tranquilos e em paz.
Lucília II saiu correndo.
Não poderia ir embora, sua vida estava ali na aldeia e chamava-se Raio de Sol.
Loretta não entendeu a reacção da neta e saiu à sua procura.
Encontrou-a chorando, encostada em uma árvore.
Abraçou a moça e perguntou:
—Você viu tanta coisa bonita por aqui que gostaria de ficar um pouco mais, não é verdade?
Mas não podemos, minha querida.
Veja bem, nós os incomodamos.
Temos de usar máscaras, obrigando-os a também usá-las.
Devemos partir, pois já resolvemos o que precisávamos.
O cacique convidou-nos a voltar.
Talvez no próximo ano voltemos, e aí, quem sabe, se desejar, você vem connosco.
Lucília II soluçou:
- Não posso, não quero voltar para a corte, vovó.
O que disse, Lucília II? — assustou-se Loretta.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 08, 2016 9:51 am

—Não quero mais voltar para a corte.
Eu amo Raio de Sol e dou minha vida por ele.
Enquanto isso, na beira do rio, Raio de Sol saiu da água e sentou-se, olhando para a correnteza.
Havia sonhado com aquele rosto, sim, quando o grande pajé lhe dera a porção sagrada para ver a moça que deveria pedir para si.
Ela não era de sua aldeia.
O pajé consultou a mãe peixe, e ela respondeu:
—Ele viu o rosto daquela que virá pelas águas para entrar em seu coração.
Agora ela estava ali diante dele!
Teria de consultar o grande pajé.
Loretta sacudiu a neta pelos ombros.
—Você enlouqueceu, Lucília II?
Não deixe que seu pai e seu tio, o rei, percebam essa loucura.
Vamos para dentro.
Vou dar-lhe um calmante, você descansa um pouco e depois arrumamos nossos pertences.
Lucília II pensou:
"Não posso criar um problema para minha avó.
Vou entrar e cuidar de arrumar todas as minhas coisas, mas não vou voltar com ela".
Entrou e começou a arrumação.
Não tocou mais no assunto.
À noitinha, saiu à procura de Lua de Prata; só ela poderia ajudá-la.
Quando a encontrou, abraçou-a e implorou:
— Ajude-me, por favor! Não posso partir!
Meu coração está aqui, com Raio de Sol.
Eu o amo, Lua de Prata.
O que farei de minha vida sem ele?
Não sei como vivi todo esse tempo sem ele.
— Lucília II, não posso fazer nada.
Temos de esperar a decisão do pajé.
Ainda hoje saberemos se você deve ficar ou não.
Meu irmão o consultará.
Se você for a filha da mãe peixe, ele vai procurar o ‘cacique, e este convocará o rei para fazer um acordo.
Entre nós, Lucília II, tudo é resolvido por amor, nunca por desejo ou paixão.
Procure confiar na mãe peixe:
se for da vontade dela, você fica.
A princesa agarrou-se à índia, desesperada:
— E como faço para falar com essa mãe peixe?
— Falando com ela no coração, deixando seu amor fluir.
Ela vai ouvi-la e ajudá-la.
Após o ritual, o pajé começou a entrar em transe.
De seus lábios saíram as seguintes palavras:
—A filha das águas brilha na aldeia.
A mãe trouxe sua filha de presente.
Logo o pai sol ajudará a desvendar os mistérios que se perderam no fundo do mar.
Raio de Sol sorriu.
Encontrara a futura esposa, e como era linda!
Era mais bonita do que vira em sonho.
O pajé e todo o Conselho tribal procuraram o cacique para uma reunião de emergência.
Raio de Sol e Lua de Prata foram chamados e relataram o que viram e sabiam.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 08, 2016 9:51 am

O pajé aproximou-se do cacique e falou-lhe ao ouvido:
—E chegada a hora, meu filho.
O cacique ficou em silêncio e pensativo por instantes, mas logo falou:
—Vamos pedir ao rei que fique por mais dois dias.
E tempo suficiente para que possamos resolver a situação.
O Conselho da tribo solicitou uma audiência com o rei, que estranhou o pedido, mas consentiu em ficar.
Além do mais, não estava em condições de recusar nada diante daquele exército de guerreiros treinados.
A noite, após as refeições, reuniram-se.
O cacique deu início à conversa:
—Uma pessoa de sua tripulação precisa ficar.
Não é uma escolha minha, mas da grande mãe peixe e do próprio destino.
A moça chamada Lucília II deve ficar na aldeia e tornar-se a esposa de meu filho Raio de Sol.
O rei levantou-se para segurar seu irmão, que explodiu:
— Minha filha não ficará com vocês!
Eu deveria ter desconfiado de sua hospitalidade; tinha de haver algo por trás de tudo isso.
Estamos aqui em missão de paz, não de guerra.
Partiremos amanhã cedo, e minha filha irá connosco.
— Grande cacique, sei que estamos em suas mãos, mas temos um exército que queimaria tudo isso aqui em meia hora caso nos prendam como reféns.
Você está diante do rei, não de um homem qualquer.
Calmo e lívido, o cacique pediu, sem alterar a voz:
—Amigo, sente-se, por favor.
Sei que estou diante do rei e que seu exército os tira daqui todos vivos e nos queima em segundos.
Não sou eu que quero prender sua filha, apenas estou querendo ajudá-la.
Ela está presa pelo coração ao meu filho e a este lugar.
Chame a moça, e ela lhe dirá se a estou obrigando a alguma coisa.
Indignado, o príncipe mandou chamar Lucília II, que, ao chegar, se atirou aos pés do pai, pedindo-lhe:
—Meu pai, por favor, deixe-me ficar!
Encontrei minha própria vida neste lugar e em Raio de Sol.
O príncipe sentou-se em silêncio, colocando as duas mãos na cabeça.
O rei então virou-se para a jovem e falou-lhe:
—Lucília II, quase destruí o reino de meu pai por causa de uma paixão.
Pense não apenas em você, mas em toda a sua família.
Você nos acompanhou nesta viagem a pedido de sua avó, a rainha Loretta, e agora pretende deixá-la em uma situação difícil perante toda a família?
Pense no que está fazendo.
A princesa começou a chorar.
—Minha querida avó, perdoe-me, por favor!
O rei tem razão, não tenho o direito de causar-lhe tamanho aborrecimento.
Partirei com vocês, embora aqui deixe meu coração.
O cacique apenas ouvia a conversa, sem nada dizer.
Nesse momento, Raio de Sol chegou, parou diante de todos e, erguendo de uma vez a máscara, aproximou-se da família real.
—Olhem para mim. Pareço algum animal?
Posso não ter sua educação, mas tenho minha própria cultura, sou filho de um grande e respeitável homem.
Loretta empalideceu e segurou-se na cadeira em que estava sentada.
Ninguém pôde perceber nada por causa da máscara que usava.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 08, 2016 9:52 am

No dia da festa ela não tinha visto bem o rosto do rapaz, pois sua vista já não lhe permitia ver tão longe.
Agora, de perto, via no rapaz algo de Raul.
Levou a mão ao coração.
O cacique Permanecia imóvel e sereno, como se nada estivesse acontecendo.
Lucília II olhava para o amado, as lágrimas rolando por baixo da máscara.
Subitamente, arrancou-a e ficou de pé diante de todos.
—Quero que todos também me vejam e que meu querido Raio de Sol fique com meu rosto guardado em seu coração, assim como levarei o seu por todo o sempre.
Então, Loretta, retomando as forças, destacou:
—Grande cacique e meus queridos filhos, tenho um proposta para apresentar e ser analisada por ambas as partes.
Conhecendo o bom senso da mãe, o rei suspirou aliviado respondeu:
— De minha parte, minha mãe, estou disposto a ouvi-la.
O cacique, inclinando a cabeça, disse:
— Estou à sua disposição, nobre rainha.
A palavra é sua.
Loretta então olhou para os dois jovens, sentindo como se fossem ela e Raul que estivessem ali.
Lembrou-se de todo o amor que um dia sentira por ele e de como fora rejeitada pelo preconceito e o medo.
A neta sentia a mesma coisa que um dia ela havia sentido e era correspondida, apesar da diferença que os separava.
El também a amava.
—Minha proposta é a seguinte:
assinamos um acordo d paz, em que o rei e o cacique comprometem-se a não ultrapassar suas delimitações em terra e no mar.
Nosso povo jamais atravessará o mar para molestá-los, e o cacique fará o mesmo.
Isso não quer dizer que não possamos trocar ajuda e ser bem recebidos, não é mesmo?
— Ela continuou falando:
— Assim sendo, podemos negociar a estada de Lucília II por quatro meses entre vocês, mas levaremos Lua de Prata connosco.
Entregaremos Lucília II aos cuidados do cacique e assumiremos a guarda de Lua de Prata.
Que nada aconteça com nenhuma delas, ou partiremos para a guerra.
O rei não esperava isso da mãe, mas concluiu consigo mesmo:
"E uma estratégia de minha mãe.
Politicamente, seremos elevados ao maior conceito já visto em forma de governar.
O rei deixa a sobrinha e traz a filha do cacique para tranquilizar o povo quanto à paz obtida entre os indígenas e a corte".
—Se o cacique assumir pessoalmente a guarda de minha neta, que nada lhe aconteça, que não seja tocada por seu filho, poderemos negociar, caso o pai de Lucília II e o rei também concordem.
Comprometo-me a cuidar de Lua de Prata.
Ela não será tocada por homem algum enquanto estiver valendo nosso acordo — finalizou a rainha Loretta.
O rei intimamente alegrou-se.
Teria Lua de Prata perto de si iria ficar olhando para ela como gostava de olhar para a lua, de longe, mas seria o maior presente de sua vida.
Todos se entreolharam.
Os conselheiros pediram alguns minutos para discutirem a sós com o príncipe e o rei.
O cacique e seus conselheiros também conversaram em sua língua.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 08, 2016 9:52 am

Lucília II e Raio de Sol recolocaram as máscaras, mas se fitavam nos olhos.
Vinte minutos depois, todos estavam reunidos, e foi o cacique quem falou primeiro:
— Estamos de acordo com sua proposta, senhora rainha.
Entregaremos Lua de Prata a seus cuidados.
Tememos por sua saúde, mas, mesmo assim, nos arriscamos a entregá-la, exigindo apenas que a alimentação e alguns de nossos costumes sejam respeitados.
— E nós concordamos em deixar Lucília II por quatro meses, como propôs minha mãe e rainha.
Também tememos por sua saúde e exigimos que a alimentação e nossos costumes sejam respeitados.
Deixaremos remédios, e os trajes devem continuar os nossos — falou o rei.
Lucília II olhou para a avó.
Realmente era a grande rainha Loretta.
Se para Raio de Sol havia a mãe peixe, para ela havia a rainha Loretta.
Mandaram chamar Lua de Prata, que logo apareceu em seu traje habitual:
apenas uma tanga de couro de tigre e o longo cabelo negro, que descia até a cintura.
Parou em frente ao pai e falou-lhe em sua língua; este também lhe disse algumas coisas.
Ela foi onde estava o irmão e, apertando-lhe a mão, falou algumas palavras.
O cacique então reafirmou:
—Lua de Prata concorda em partir com vocês.
Está disposta a colaborar com o irmão e a filha da mãe peixe.
Virou-se para Lucília II e disse-lhe:
— De hoje em diante você ficará sempre ao meu lado; as mulheres cuidarão de você.
Conhecerá melhor nossos costumes e então aguardaremos o rei e sua comitiva, acompanhados da rainha Loretta, que deverá pessoalmente devolver me minha filha Lua de Prata para eu devolver sua neta Lucília II.
Loretta ainda estava chocada com a semelhança do rap; com Raul e pensava consigo mesma:
"Se fosse filho de Raul não seria tão parecido; os olhos são os mesmos, a boca é a mesma.
Por um momento, pareceu-me vê-lo em minha frente".
Olhando para o vazio, lembrou-se de que Raul estava morto e que um dia ela também o amara.
Adiaram a viagem para dali dois dias.
Lua de Prata arrumou seus pertences; levaria flecha, vestes de couro, enfeites e creme feitos de frutos e flores, além de todos os remédios receitado pelo pajé.
Este a chamou em particular e, depois, na presença do pai, fez-lhe várias recomendações.
Lucília II também recebeu vários conselhos do pai e da avó.
Ficaram seus pertences pessoais que, somados aos levados por Loretta e suas damas, dariam para uns dois anos.
Deixaram ainda vários mantimentos secos e remédios receitados pelo médico da corte.
O pajé havia consultado os grandes espíritos, e estes haviam respondido que as moças estariam em segurança e nada deviam temer, pois no prazo certo retornariam.
Lua de Prata ficou feliz; sabia que voltaria para a tribo; os grandes espíritos nunca mentiam ou se enganavam.
O cacique acompanhou a partida do rei e de sua comitiva.
Despediu-se de todos, apertou a mão do monarca e, por fim, apertou levemente a de Loretta, desejando boa viagem.
Abraçou a filha e falou com ela em sua língua.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

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