AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 09, 2016 11:13 am

A FORÇA DO PASSADO
Ainda a bordo, Loretta, como mãe e com grande experiência de mulher, percebeu que o filho disfarçava o constrangimento diante de Lua de Prata.
Faltavam dois dias para ancorarem, conforme previra Loretta, quando então a moça pediu:
—Já estou tempo suficiente com vocês para tirar esta máscara.
Vou aproveitar até nos aproximarmos da terra para ficar sem ela.
Quero sentir o cheiro do mar.
Retirou a máscara, e Loretta quase desmaiou, tamanha a emoção:
eram os olhos de Raul que a perseguiam.
Se tinha achado o rapaz parecido com Raul, a moça era o próprio, em um rosto feminino e perfeito.
Era o passado que a castigava.
Como Lua de Prata e Raio de Sol poderiam se parecer com Raul?
O rei arrumava desculpas para falar com a mãe constantemente.
Ao entrar no aposento da rainha, ficou como hipnotizado olhando para a índia.
Foi Loretta quem se aproximou e perguntou:
—O que deseja, meu filho?
Ele já nem sabia o que tinha ido fazer lá.
—Vejo que Lua de Prata tirou a máscara.
Imaginava que você fosse bonita, mas nem tanto — respondeu.
Loretta preocupou-se; o filho começava a amar verdadeiramente.
Lua de Prata, em sua dignidade, baixou os olhos, não querendo que ela percebesse que o rei lhe perturbava o pequeno coração.
"Será coisa do destino?", perguntou-se Loretta.
A neta apaixonara-se por um índio, e, agora, o filho disfarçava um sentimento que ia além do desejo.
Enquanto isso, Lucília II encantava-se com a vida na tribo.
Arrancara a máscara e começara a respirar livremente o ar da floresta.
Participava das festas e reuniões da aldeia.
A cada dia que passava amava mais e mais Raio de Sol.
Só podiam olhar-se e ficar juntos perto do cacique, mas era o suficiente para serem felizes.
Como era diferente a vida lá, pensava Lucília II.
Havia união, amor e respeito ao próximo.
O cacique era um verdadeiro rei, governava com sabedoria e amor.
Ele, sim, poderia ensinar ao mundo como fazer um bom governo.
A tribo era feliz; o povo, alegre e trabalhador.
Todos participavam com alegria das tarefas.
Lucília II aprendeu a tecer e fazer utensílios domésticos.
As mulheres ali eram todas suas mães e irmãs.
Todos os dias brincavam e falavam em Lua de Prata, fazendo planos para sua volta.
Lucília II ocupava o lugar da moça nas dependências usadas pelo cacique e sua filha.
Raio de Sol ficava com o grande pajé, que era seu avô. Lucília II ficou sabendo que a mãe de Raio de Sol morrera assim que nascera Lua de Prata.
O cacique não quis mais casar-se, tendo-se dedicado à tribo e a seus filhos, embora o pajé tivesse dito que ele iria saldar uma dívida com uma das filhas da mãe peixe.
No tempo certo, tudo seria esclarecido.
Na corte, Lua de Prata recolocou a máscara, o que deu ao rei certo alívio.
Assim, nenhum dos cavaleiros levantaria os olhos para ela.
Pediu à mãe que, com muito jeito, sem ofender a moça, fizesse com que ela só aparecesse em público vestida.
Nos aposentos reais, poderia ficar como na selva, mas em público precisava vestir-se.
Loretta apoiou totalmente a ideia do filho.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 09, 2016 11:14 am

Seria péssimo para a corte uma moça andar nua entre damas e cavaleiros.
Com toda sua táctica de soberana, convenceu a índia a vestir-se diante da civilização e conseguiu fazê-la usar as mesmas vestimentas das damas.
Dentre todas elas, a índia destacava-se; era a única com a pele morena e o cabelo negro, liso e brilhante.
A cada dia que passava Loretta gostava mais e mais da companhia de Lua de Prata.
Nenhuma de suas filhas era tão dedicada quanto ela.
Aprendia tudo com facilidade e estava sempre buscando algo para fazer.
Se não estava ao lado de Loretta, estava em seus aposentos, ocupada com alguma coisa.
A rainha adoecera e mal podia levantar-se.
O rei dedicava a ela todo seu tempo livre.
Loretta não descuidava da nora e dos netos.
O neto mais velho agora estava com oito anos, e os dois menores, com seis e quatro.
Lua de Prata pediu a Loretta para ver a esposa do rei, e ela consentiu, contanto que fosse de máscara.
Aliás, só a retirava em seus aposentos.
Chegando ao leito da doente, Lua de Prata pensou alto:
—Se meu avô e grande pajé estivesse aqui para vê-la, quem sabe ficaria curada.
Ouvindo suas palavras, a rainha deu um sorriso e falou baixinho:
—Minha querida, você é muito bondosa.
Minha hora se aproxima e vou mais tranquila, porque sei que meu amado ficará em boas mãos.
Dois meses depois da chegada de Lua de Prata a rainha faleceu, apesar de todo o esforço feito para salvá-la.
O rei ficou inconsolável.
Abraçado aos filhos e à mãe, lamentou com sinceridade a morte de sua rainha.
Decretou oito dias de luto e resolveu fazer uma viagem, acompanhado do irmão e de alguns cavaleiros, deixando a mãe como regente.
Levou os filhos junto.
Estava realmente abatido.
Lua de Prata ficou muito triste em vê-lo infeliz, pensando que o pai devia ter sentido o mesmo que o rei sentia quando ela nasceu e sua mãe morreu.
Ficou tão triste que nunca mais se casou.
Loretta encontrou Lua de Prata chorando e assustou-se.
Correu até ela e, abraçando-a, perguntou:
—O que houve, minha querida?
Por que chora?
—Vi o rei tão triste e agora sei o quanto meu pai sofreu quando nasci e minha mãe morreu.
Loretta sentia vontade de fazer perguntas a Lua de Prata, mas o bom senso falava mais alto.
Nunca indagara sobre seus pais.
Agora a jovem se abria, falando sobre sua tristeza.
Carinhosamente pediu:
—Fale, minha filha, abra seu coração.
Pode confiar em mim.
Ela então começou a contar sua história.
Havia muitos anos seu avô sabia que viria pelas águas um filho da mãe peixe para ajudar seu povo.
Seu pai foi encontrado boiando nas águas pelo pescadores da tribo.
Foi trazido para a terra e curado pelo pajé.
Tempos depois, começou o trabalho.
Aprendeu tudo com o cacique, que, antes de morrer, chamou a tribo e o elegeu par comandar o povo ao lado do pajé.
Contou para todos que ele era filho da mãe peixe que viera para salvar sua gente.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 09, 2016 11:14 am

Assim, foi aceito e respeitado como o grande cacique branco.
O pajé tinha uma filha, que fora preparada para o filho da mãe peixe, que então se casou com ele.
Nasceu seu irmão Raio de Sol e outro filho, que morreu.
Então sua mãe ficou grávida mais uma vez, dando à luz e vindo a falecer no parto.
Seu pai ficou muito triste, pois amava demais a esposa, Lua Branca.
Seu avô, o pajé, ofereceu todas as moças da aldeia para que ele escolhesse outra esposa, mas ele recusou.
Vivera todos aqueles anos sozinho, apenas trabalhando e amparando a tribo, ensinando ao povo tudo que sabia.
O avô contara para ela e o irmão que os grandes espíritos das matas lhe falaram que um dia a filha da mãe peixe voltaria para ele.
Teriam uma chance de mudar toda a história de suas vidas.
No tempo certo, a mãe mostraria o caminho.
Loretta sentiu um frio percorrer-lhe a espinha e então arriscou uma pergunta:
—E como se chama o filho da mãe peixe, seu pai?
—Meu pai tem nome indígena como todos nós.
Seu nome do outro lado do mar foi apagado para sempre.
Chama-se Cacique da Alvorada, que quer dizer aquele que venceu a morte.
Loretta olhava para Lua de Prata, inconformada com a grande semelhança entre ela e Raul.
Então lembrou-se daquele sonho: o jardineiro Manuel com uma rosa vermelha na mão, dizendo-lhe:
"Raul está vivo".
Loretta disse para si mesma:
"Estou ficando velha e cansada.
Começo a pensar e ver coisas que não existem.
Raul está morto, infelizmente.
Se pudesse retroceder, jamais teria feito o que fiz com ele e comigo mesma".
A família real partiu e ficou combinado que o rei e o irmão
voltariam em tempo para acompanhar Loretta e Lua de Prata até a aldeia.
O rei não marcou exactamente a data da volta, mas avisou a mãe:
—Estarei aqui antes do tempo marcado para levarmos a índia.
Cuide bem dela, minha mãe, cuide de nosso povo.
Até à volta.
Um mês depois, Loretta estava reunida com os conselheiros do rei, despachando coisas importantes da corte.
Lua de Prata estava nos aposentos da rainha a pedido desta, dando brilho em suas jóias.
Parecia-se com uma das damas nos trajes e adereços que usava.
O rei chegara sem avisar, tendo ido directo aos aposentos da mãe.
Lá encontrou Lua de Prata e, num ímpeto, abraçou a índia.
—Senti sua falta, Lua de Prata.
Com as faces morenas coradas, a jovem olhou para ele, comentando:
—Não senti apenas sua falta, senti muita saudade de você, rei.
Ele se sentou em uma poltrona e ficou observando a moça, verdadeira pantera quando lutava.
Desde o primeiro momento em que a viu, ficou fascinado por ela.
Quando viu seu rosto, jamais deixou de pensar nele.
Levantou-se e foi até onde ela estava de pé e alisou seu cabelo e seu rosto.
— Lua de Prata, você deixou alguém a esperando?
— Meu pai e meu povo me esperam e sei que preciso voltar.
Mas vou deixar meu coração aqui.
Aprendi a gostar de sua mãe.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 09, 2016 11:14 am

A rainha é como se fosse a mãe que não conheci, e amo você como uma mulher ama um homem.
O rei levantou-lhe o rosto e beijou-a apaixonadamente.
Ficaram abraçados por muito tempo.
Então disse:
—Lua de Prata, acho que terei de negociar com o cacique sua própria filha.
Ou ele consente que você seja minha rainha o vou implorar para ficar em sua tribo e aprender a caçar.
Um dia Lua de Prata, pensei em deixar a coroa por uma mulher e não tive coragem suficiente para assumir meus sentimentos.
Hoje tenho certeza de que você é a coisa mais importante da minha vida.
Sou livre e nada me impede de desposá-la.
Quero-a como esposa. Você também me quer?
Ela não respondeu.
Apenas se agarrou a ele, tapando-lhe a boca com um beijo.
Após as boas-vindas ao rei, todos os cavaleiros da coroa perceberam que o monarca estava alegre e que devia ter tomado algum elixir da juventude, pois parecia dez anos mais jovem.
Loretta olhou para ele e Lua de Prata:
seu coração não se enganava.
Estiveram juntos e algo tinha acontecido entre os dois.
Levantou-se, pedindo licença para retirar-se, e Lua de Prata imediatamente a seguiu.
A índia estava sem máscara e era o centro das atenções.
Nenhum dos cavaleiros se atrevia a falar nada, pois todos sabiam que era protegida da rainha Loretta, mas os jovens livres sonharam naquela noite em desposá-la.
Loretta recolheu-se em seus aposentos, e Lua de Prata também, sem nada comentar sobre o ocorrido naquela tarde.
No dia seguinte, o filho pediu para falar-lhe em particular; não e assunto que envolvesse a corte, mas a si mesmo.
Sentada no trono com as duas mãos no queixo, Loretta estava ansiosa para ouvir o que o filho tinha a falar.
O rei chegou e sentou-se no grande tapete em que a rainha pousava os pés, colocando cabeça em seu colo.
Ela então perguntou:
— Posso saber o que meu filho tem a me dizer?
— Minha mãe e rainha, desde o dia em que lhe fiz aquele juramento fui fiel à minha esposa e rainha.
Não posso mentir para você, que sabe tudo sobre mim.
Quando vi Lua de Prata, apaixonei-me por ela.
Ao ver seu rosto pela primeira vez, nunca mais pude esquecê-lo.
Você é testemunha de que sempre a respeitei e tentei apagá-la dos meus pensamentos, quando minha esposa ficou doente.
Fiz até uma promessa:
se minha esposa sarasse, não olharia mais para Lua de Prata, mas foi impossível.
Assim que fiquei viúvo, viajei para tentar esquecê-la, o que também foi impossível.
Ontem, quando entrei em seus aposentos à sua procura e deparei com ela, aconteceu o que não tinha planeado.
Quero casar-me com Lua de Prata.
Anseio por chegar logo o dia de voltarmos à sua aldeia, pois quero entender-me com o cacique.
De antemão já lhe digo, minha mãe:
ou ela vem comigo ou fico eu por lá.
Pela primeira vez em minha vida estou amando e assumindo que amo.
Estou disposto a matar e a morrer.
Será que dá para entender?
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 09, 2016 11:14 am

Loretta levantou-se, abraçou o filho e respondeu-lhe, com os olhos cheios de lágrimas:
—Apenas quero sua felicidade, meu filho.
Ouça-me: um dia cometi alguns erros imperdoáveis pensando que amava, mas, quando descobri o verdadeiro amor, que foi com seu pai, arrependi-me profundamente deles, porém já era tarde.
O rei abraçou a mãe e beijou-lhe a fronte.
— Se você cometeu erros em nome do amor, aprendeu também o que é ele, e é isso que vem distribuindo a todos nós.
Nada do que tenha feito de errado é maior do que o que tem feito por tanta gente.
— Meu filho, eu e seu pai lutamos e sofremos muito, mas conseguimos estabelecer em nosso país a paz.
Apesar de sermos vistos pelo mundo como reis devassos, por causa de nossa religião, você bem sabe como dou importância à liberdade.
Não importa o que diga o mundo, procure preencher seu coração com a essência do verdadeiro amor.
Se estivéssemos nas mãos da Igreja, dificilmente você poderia casar-se com uma índia e torná-la rainha.
Mas nós podemos, pois lutamos por isso.
Se Deus existir e for realmente justo e honesto, terá de relevar muitas coisas da minha vida em consideração às muitas pessoas que ajudei a ser felizes.
—Ajude-me, por favor.
Veja a fila de mensageiros que trazem Pedidos de casamento para mim.
Muitos reis católicos enviaram Pedidos de casamento para suas filhas.
Despache, minha mãe, todos os mensageiros.
Informe a todos que o rei já tem sua Preferida e logo será oficializado o noivado.
Loretta sorriu; nunca tinha visto o filho tão feliz.
Pensativa, pediu:
— Posso tocar em um assunto que prometi a você que iria, esquecer?
— Até já imagino o que seja, minha mãe!
É sobre Mary, não é mesmo?
— Sim, é sobre ela.
Sei que o grande cemitério foi construído e muitos mortos estão lá.
Agora pergunto:
você enterrou Mary em seu coração?
— Com toda a certeza, minha mãe.
Ela nada mais significa para mim.
Lucília II já sofria só de pensar que logo expiraria o prazo estipulado pelo rei.
Sua vida agora era a aldeia, Raio de Sol e os irmãos indígenas.
Por outro lado, Lua de Prata arrumava seus pertences com tristeza; teria de regressar à aldeia.
Amava a tribo, seu povo, estava saudosa do pai, do avô e do irmão Raio de Sol.
Mas como poderia viver sem seu amado?
Pouco importava a coroa para ela.
O que queria mesmo era ele.
Dias depois, partiram o rei e sua comitiva.
Loretta pediu a Lua de Prata que entrasse na aldeia vestida como havia saído.
No percurso, Loretta deixou que os enamorados ficassem um pouco a sós, advertindo a ambos que não ultrapassassem os limites da paixão.
—Quero que Lua de Prata volte para o pai virgem como a flor que saiu da mata.
Chegaram à aldeia ao raiar do sol e antes do meio-dia já estavam desembarcando.
O cacique foi recebê-los, abraçou a filha e apertou a mão de todos os visitantes.
Lucília II correu para abraçar o pai e a avó.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 09, 2016 11:14 am

Raio de Sol abraçou a irmã e a suspendeu no ar, gargalhando de contentamento.
Todos os irmãos da tribo fizeram festa para a chegada de Lua de Prata.
Queriam abraçá-la.
Apesar de estarem usando as máscaras, seus olhos brilhavam de alegria.
As mulheres a examinavam e faziam perguntas para ela, que sorria também por estar em casa.
Lucília II correu até ela, puxou-a pela mão, e ambas saíram correndo em direcção ao rio.
Lá, sentaram-se e tiraram as máscaras.
A princesa começou a contar sua vida na aldeia e como se sentia feliz.
Amava Raio de Sol com todo o coração.
Lua de Prata ouviu Lucília II atentamente.
—Agora, fale-me de você, Lua de Prata.
Como se sentiu em meu mundo?
Lua de Prata então falou sobre sua estada na corte, o que viu, do que gostou e do que não gostou.
Contou-lhe que o rei estava viúvo, o que fez Lucília II chorar pela rainha.
Gostava dela.
Ficou triste pensando nos primos agora órfãos.
Lua de Prata confessou seu amor pelo rei e comentou as novas propostas entre a corte e a aldeia envolvendo sua vida.
Para ficar ao lado do rei, renunciaria até a sua aldeia, assim como entendia que Lucília II, para ficar ao lado de Raio de Sol, renunciaria à corte.
A princesa abraçou Lua de Prata.
—Minha querida irmã, acredito na mãe peixe e nos grandes espíritos das matas.
Sei que nosso destino ainda nos reserva muitas surpresas.
Mas seu avô, o grande pajé, contou para Raio de Sol que você voltaria com o crescente do amor no coração e que sua vida iria ser do outro lado do mar, enquanto a minha estaria aqui, como uma semente transportada e germinada em lugar seguro.
Após conversarem sobre vários outros assuntos, voltaram para a aldeia.
Aquela tarde foi de festa e comemoração.
Lua de Prata comeu e bebeu com a tribo e participou de todos os eventos.
Lucília II tinha aprendido com as irmãs guerreiras as artes da guerra.
Seu pai ficou orgulhoso e ao mesmo tempo espantado ao ver como ela aprendera rápido e estava bem.
Ela participou das apresentações femininas.
Loretta observava Raio de Sol.
Algo nele lembrava demais Raul.
Ficou pensativa enquanto observava os dois irmãos brincarem.
"O que a consciência faz com gente?!
Vejo Raul nesses jovens.
Raul está morto, e a culpa foi toda minha, eu o matei...
Ele me amava, eu é que nunca o amei de verdade.
Quem ama renuncia a tudo.
Fui apenas maldosa e despeitada."
Foi o cacique quem a tirou desses pensamentos:
—Senhores, percebo que a rainha está cansada.
E recomendável que a levem para descansar.
Graças aos grandes espíritos, está tudo bem.
Amanhã, senhores, se todos concordarem, discutiremos nosso acordo.
Lucília II e Lua de Prata correram ao mesmo tempo p ajudar Loretta.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 09, 2016 11:15 am

O cacique falou:
— Rainha Loretta, se concordar assumir a responsabilidade para com sua neta, pode levá-la consigo.
Acredito terem muito o que conversar.
Assim assumirei a responsabilidade para com minha filha Lua de Prata, pois temos também muito o que conversar.
Loretta agradeceu a gentileza do sábio cacique, e Lucília II sorriu de contentamento, pois estava ansiosa por saber notícias da mãe e dos irmãos.
Queria também ficar a sós com a avó para contar-lhe como se sentia feliz e o que tinha aprendido na aldeia.
Lua de Prata acompanhou o pai, sorridente.
Estava com saudade dele e de sua cama e queria ouvir as novidades da tribo e contar-lhe o que vira e aprendera na corte.
Nunca havia mentido para o pai e não iria mentir-lhe jamais.
Sabia que ele, apesar da máscara que ela usava, já tinha visto em seus olhos que algo acontecia em seu coração.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 09, 2016 11:15 am

DO OUTRO LADO DO CONTINENTE
Em Ilhéus, o marido de Mary recomendou aos sogros que cuidassem da mulher e de sua filhinha enquanto ele estivesse fora.
Iria tentar abrir um caminho para eles; afinal de contas, seria até uma ofensa recusar a proposta recebida daquele país em obter suas mercadorias, sem contar a enorme ajuda que iria trazer para o Brasil, que estava nascendo para o mundo.
Perguntou aos sogros:
— Vou ao seu país!
Querem que lhes traga o quê?
Os dois entreolharam-se.
— Qualquer lembrancinha.
Afinal, você está indo lá a negócios — Helen respondeu-lhe.
— Vocês têm certeza de que não querem mandar nenhuma carta para algum parente ou conhecido? — insistiu.
Posso procurá-los ou enviar algo para sua aldeia.
—Não! — responderam os dois ao mesmo tempo.
O genro teve a impressão de que escondiam alguma coisa.
Pela primeira vez passou-lhe pela cabeça:
"Será que vieram fugidos?".
Nunca fez muitas perguntas a Mary, nem iria fazer.
Pouco lhe importava o porquê de terem vindo para o Brasil.
A sorte foi dele em ganhar uma belíssima esposa e uma família decente e trabalhadora.
O fidalgo embarcou, já saudoso da esposa e da filha, que amava acima de tudo.
A família acompanhou o embarque.
O garoto Henrique perguntou-lhe:
—Quando eu for maior, você me leva com você?
Quero conhecer o país de minha mãe e quem sabe os parentes de meu pai!
O jovem riu e, com os braços sobre os ombros do garoto, respondeu-lhe:
—Eu lhe prometo!
Talvez na próxima viagem que fizer você possa ir com sua mãe, está bem?
—Oba! Ouviu, mãe?
Nós vamos — exclamou o menino.
Mary ficou trémula ante a alegria do filho.
Olhava para ele e via a figura do rei.
Seu corpo era idêntico, até o cabelo, os olhos e as covinhas, quando sorria.
Tinha a mesma energia e alegria do pai.
Ele jamais iria saber quem era seu pai!
Parecia que o destino os empurrava de volta à sua terra.
Ela nunca mais pisaria lá e iria fazer de tudo para desviar o destino do filho.
Sentada com os pais enquanto os filhos brincavam pelos imensos jardins da casa-grande, como era chamada pelos escravos, Mary então certificou-se de que ninguém os ouvia, comentando:
—Meu pai e minha mãe, estou tão apreensiva com a viagem de meu marido a nosso país...
Tenho um mau pressentimento!
Ele até prometeu ao Henrique levá-lo até lá.
O que faremos?
E se ele começar a informar-se sobre nós?
O pai de Mary tranquilizou-a:
—Mary, saímos e não deixamos pista, você se esqueceu?
E depois, numa corte daquele tamanho, quem iria conhecer o Senhor Arquimedes?
Esqueceu que mudei de nome, Mary?
E o nome de sua mãe?
Tinha alguma governanta na corte com esse nome?
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 09, 2016 11:15 am

Fique tranquila, minha filha! Está tudo bem.
Para ser franco, até eu estou pensando em ir até lá no próximo ano!
Quero dizer: o Senhor Arquimedes, o produtor de café e cacau!
Na mesa de nosso rei é servido meu chocolate e meu café!
Do mesmo jeito que meu neto se serve, os irmãos também são servidos!
E por isso que se diz que o mundo é pequeno.
Helen acalmou Mary.
—Seu pai tem razão, Mary!
Mesmo que seu marido fosse procurar por nós, jamais encontraria a família do Senhor Arquimedes, que partiu com a filha viúva e grávida.
Seu esposo nunca imaginaria que estivemos perto dos monarcas, que fui governanta da rainha, que vi o rei nascer e crescer!
Que sou avó de um príncipe.
O Senhor Arquimedes lembrou as duas:
—Parem de falar sobre isso.
Não toquem mais neste assunto, nem Mary, nem você!
Aí vêm as crianças!
Preparem-se que o barulho agora vai começar.
Os outros netos também chegaram com os pais.
Entraram e foi aquela alegria: crianças brincando e adultos conversando sobre assuntos variados.
Os irmãos de Mary, todos bem-sucedidos na vida, estavam casados e com filhos.
Na mesa, durante o almoço, o irmão mais velho de Mary falou:
—Pai, no ano que vem vamos exportar toda a nossa produção para a corte do rei Henrique III e precisaremos negociar pessoalmente com ele.
Eu e meu cunhado poderemos fechar os negócios com ele, e o senhor nos acompanhará, dando-nos o seu apoio.
O pai concordou e piscou para a mulher.
O velho Arquimedes abastecendo a mesa do rei!
—Iremos, sim, filho.
Precisamos vender nossos produtos, e hoje a corte do rei Henrique III é o único país que abre as portas para o mundo exterior.
Mary ficou de cabeça baixa.
Havia esquecido que um dia aquele país fora sua vida; agora voltava para atormentar suas lembranças.
Seu filho Henrique, que ouvia a conversa, falou eufórico:
—Tio, eu vou com vocês!
Quero conhecer a terra de minha mãe e procurar os parentes de meu pai que morreu.
Mamãe também vai.
Ela e o vovô e a vovó conhecem tudo!
Vou para a terra de minha mãe! — E saiu correndo.
O irmão olhou Mary e comentou:
—Não se preocupe, é coisa de criança.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 09, 2016 11:15 am

NADA FICA OCULTO
Na aldeia, ficou acordado que Lucília II voltaria à corte e Lua de Prata ficaria na aldeia, para cada uma preparar-se para o respectivo casamento.
O rei se casaria com Lua de Prata na aldeia dali três meses, e Lucília II, na corte, com Raio de Sol, um mês depois.
Tudo acertado entre rei e cacique, as duas moças abraçaram-se, chorando.
Iriam sentir saudade de seus amados, mas era um bom acordo.
Teriam tempo de preparar-se psicológica e emocionalmente para deixarem a vida actual e assumir uma nova ao lado dos maridos.
Loretta prometeu ao cacique cuidar da noiva de seu filho, que também era de alguma forma sua neta, pois era a neta de seu amado.
O cacique prometeu guardar e zelar pela noiva do filho, que era sua amada filha Lua de Prata.
A notícia do casamento do rei com uma índia fez toda a corte parar.
Inventavam mil histórias, fantasiavam outras tantas.
Alguns, apaixonados pela poesia, contavam em versos o casamento do príncipe com a deusa das matas.
Uns falavam que o rei tinha sido enfeitiçado pelo cacique; outros desenhavam a vida das matas como um reino superior (o que não deixava de ser verdade), dizendo ainda que o rei se apaixonara pela filha do cacique por sua beleza natural.
O casamento do rei triplicou as vendas e o comércio em seu país.
O casamento de Lucília II também fazia parte do roteiro da corte.
A curiosidade do povo era imensa, pois apenas a família real e os nobres conheciam Lua de Prata.
O povo mal podia esperar pela festa prometida pelo rei para conhecer a rainha das matas.
O exército ocupava as ruas, protegendo o povo que se aglomerava aguardando a chegada do monarca com a nova rainha.
A família real e alguns cavaleiros tinham acompanhado a comitiva do rei até a aldeia de sua noiva.
A chegada da família real à aldeia foi festejada pelo povo da tribo com muita alegria.
A irmã do rei, Lucília I, foi ao casamento do irmão e conheceu o futuro genro. Lucília II estava feliz em rever aqueles a quem já chamava minha família.
Raio de Sol ficou feliz ao revê-la.
O casamento foi celebrado de acordo com os costumes da tribo.
Em vez da coroa de ouro e pedras preciosas, o rei usou uma de flores naturais e tinha alguns símbolos da sorte pintados no rosto.
Loretta e toda a família apenas observaram o ritual, sem comentários.
Respeitavam as escolhas uns dos outros.
Lua de Prata estava toda enfeitada de penas coloridas.
Muitos símbolos marcavam seu corpo e tinha uma guirlanda de flores na cabeça.
A família real e os nobres ficaram encantados com sua graça e beleza.
Era como uma flor que acabava de desabrochar.
O cacique estava pintado e vestido com uma pele de tigre e um penacho comprido que ia até a cintura.
Após o ritual, homens e mulheres cantaram e pediram pelos noivos, e, então, foi anunciada a entrada do grande espírito das matas.
Todos ficaram em completo silêncio.
Levantou-se uma cortina de folhas, e ele apareceu.
"É apenas um homem coberto de folhas", pensou Loretta.
Era o pajé, completamente coberto de determinadas folhas preparadas pelo curandeiro da tribo.
Ninguém via seu corpo nem seu rosto.
O cacique aproximou-se e em um gesto de respeito e obediência, como se diante de um superior, ajoelhou-se.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 09, 2016 11:15 am

Este fez movimentos circulares em sua volta e toda a tribo também se ajoelhou diante daquela figura que causou em Loretta um arrepio.
Falava e os indígenas prestavam-lhe muita atenção.
Riscou sobre o chão certos símbolos, pronunciou algumas palavras, e alguns guerreiros saíram correndo, trazendo logo depois carvão em brasa e água.
O rei foi chamado, e o grande espírito das matas cruzou-o com fogo e esfregou-lhe folhas no corpo, para, em seguida, banhar-lhe a cabeça com água.
O cacique então anunciou:
—O grande espírito está baptizando o filho que ainda é pagão.
Loretta empalideceu.
Nunca comentara com ninguém que o filho era pagão.
Como aquela coisa, que não entendia ainda o que era, poderia ter descoberto?!
Assim que terminou, o espírito pediu que trouxessem a noiva.
Este foi um ritual muito estranho:
ele, o espírito, emitia um som como o canto de um pássaro, e o cacique e alguns membros da tribo o acompanhavam nos sons e nos passos.
Fez muitas marcas nos noivos e, após esperar alguns minutos, puxou um cipó, amarrou os dois pelo pulso e andou em volta deles.
Loretta estremeceu quando viu o cipó arrebentando sozinho.
Aí foram muitas palmas, pois o casamento tinha sido aceite pelos grandes espíritos.
Muitos cantavam e saltavam em volta deles. O cacique colocou um penacho na cabeça do rei e abraçou-o.
Tomou uma das peças de couro que usava amarrada no braço e colocou em volta do pescoço da filha.
A tribo cantava e dançava, e a família real aproximava-se para cumprimentar os noivos.
Foi então que o grande espírito se aproximou de Loretta, o que a fez estremecer e agarrar-se ao braço de Lua de Prata.
Ele começou a rodeá-la e a emitir sons como os de um pássaro.
Então, chegou bem perto dela e começou a falar.
Lua de Prata prestava atenção em suas palavras.
Logo ele se afastou e Lua de Prata explicou para Loretta:
—Senhora rainha, o grande espírito falou que apenas a máscara a separa da realidade.
Loretta ainda estava pálida e não tinha entendido a mensagem do grande espírito.
A índia acrescentou:
—Ele falou que o pequeno espírito que lhe ofertou uma rosa vermelha disse a verdade: ele vive.
Loretta desmaiou.
Os filhos correram para acudi-la; o espírito aproximou-se e colocou algumas folhas amassadas próximo à sua narina.
Recobrando os sentidos, Loretta olhou apavorada para a folhagem que se mexia perto dela.
O grande espírito não falou mais nada, despediu-se e foi embora.
Os filhos ficaram preocupados com a mãe.
O rei comentou que a ocorrência era devida às fortes emoções do dia e o cansaço da viagem, que ela precisava descansar e que, assim que retornassem à corte, iria poupá-la de muitas tarefas.
Disse aos familiares e a Lua de Prata, que estava presente:
—Envolvi-me demais com os preparativos de meu casamento e sacrifiquei minha mãe com tantas tarefas!
Ficou combinado que, logo após o casamento de Lucília II, a família real faria uma viagem e, dessa vez, ficariam o rei e sua rainha cuidando dos assuntos do Estado.
Lua de Prata olhou para a sogra.
Se bem conhecia o grande espírito, ele tinha revelado a Loretta um importante segredo.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 09, 2016 11:16 am

Deixaria que a sogra viesse falar-lhe, então talvez pudesse ajudá-la.
Mas ficou muito pensativa com o que dissera o grande espírito: apenas a máscara a separava da realidade.
E quem seria a pessoa que ele avisara que estava viva?
Tudo seria esclarecido no tempo certo.
Três dias depois, a corte embarcou com a nova rainha.
Loretta estava abatida, parecia ter envelhecido muitos anos.
O rei, apesar de toda a alegria, não podia deixar de observar a tristeza da mãe.
Lembrou-se de que o grande espírito lhe dissera alguma coisa traduzida por Lua de Prata e então procurou saber da esposa o que era.
—Meu amor, o que o grande espírito disse para sua mãe não foi nada em especial.
Na corte, o povo cercava o palácio.
As ruas estavam enfeitadas, o exército todo, de prontidão, o povo queria conhecer a nova rainha, vinda das matas.
A família real descansou por três dias e foi então anunciada a apresentação de Lua de Prata ao público.
Loretta, nobre e elegante como sempre, foi quem apresentou ao povo a nora, que, vestida com um bonito manto e usando a coroa, segurava o ceptro e acenava para todos.
Seu longo cabelo negro e sua pele morena conquistaram a simpatia dos súbditos.
O rei mandou distribuir para todos barras de chocolate e pacotes de café.
O reino tinha-se tornado independente, as pessoas viviam bem, estava em primeiro lugar no mundo em artes, cultura e educação.
O soberano abrira as portas do país para o mundo.
O reino vendia seus produtos e comprava o que lhe interessava, negociando com vários países.
O povo aclamava a rainha Loretta como a rainha do amor.
Comentava-se:
—Ela sabe fazer o povo feliz.
Até seus vassalos só se casam por amor.
A única coisa que Loretta exigira do marido fora decretar a lei de prisão perpétua aos traidores e, em determinados casos, conforme o crime, a sentença de morte.
Portanto, homens e mulheres tinham muito cuidado em suas escolhas; temiam e respeitavam o casamento.
O casamento do rei com a índia alterava algumas cláusulas da lei.
Antes, o casamento só era permitido entre pessoas nascidas e registradas no país; agora, seria possível casamentos com estrangeiros, desde que houvesse o conhecimento e a permissão real.
O casamento de Lucília II com o índio Raio de Sol foi celebrado em praça pública, pois o povo queria ver os indígenas.
Todos usavam máscaras.
Na hora das assinaturas, para espanto não dos monarcas, mas do povo, o índio assinou a certidão de casamento.
Falava, lia e escrevia correctamente o idioma da esposa.
Agradeceu a todos e retirou a máscara por alguns minutos.
Muitas mocinhas invejaram a princesa, comentando excitadas:
— O rei poderia trazer todos os índios para a corte e deixá-los por aqui.
— Vou escrever uma cartinha para a princesa e perguntar-lhe qual o segredo de conquistar um belo guerreiro indígena!
— Vieram vários guerreiros indígenas acompanhando o noivo — brincavam outras.
Após a cerimónia, o rei, acompanhado da família e tendo como convidados especiais todos os índios, sentou-se em frente à arena para assistir ao desfile dos cavaleiros e à apresentação do grupo de cantores e bailarinas.
O cacique falava alguma coisa para os guerreiros, que prestavam toda a atenção ao espectáculo.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 09, 2016 11:16 am

Usavam máscara, inclusive o cacique, real centro das atenções.
Ele vestia uma calça de couro natural de leopardo, uma jaqueta aberta no peito, um colar de dentes de animais e estranhas sementes.
Calçava sandálias de couro cru e tinha vários símbolos desenhados nas partes expostas do corpo.
Trazia um enorme e comprido penacho de várias cores.
Todos os seus guerreiros estavam bem trajados, com os cabelos descendo até os ombros e os corpos pintados.
Loretta olhava para os índios e lembrava-se do grande espírito das matas.
Ainda bem que não estava ali.
Sua neta iria conviver com eles, e a filha do cacique agora era sua nora e rainha de seu país.
Olhou mais atentamente para o cacique, e um frio percorreu-lhe o corpo.
Foram autorizados três dias de comemoração na corte pelo casamento de Lucília II.
Seus pais estavam tristes, mas conformados com a partida da filha para a aldeia do marido.
Raio de Sol informou aos sogros que seria realizado o casamento da bênção com simples festejos para sua aldeia, e o grande espírito viria abençoá-los, uma vez que já estavam autorizados a casar-se pelo grande espírito da vida, a mãe peixe.
No segundo dia, o cacique pediu permissão ao rei para andar um pouco com seus guerreiros, pois estes precisavam respirar o ar puro das matas.
O rei colocou à sua disposição carruagens e cavaleiros para acompanhá-lo, mas este agradeceu e os dispensou.
Precisavam caminhar.
O cacique, acompanhado de cerca de quarenta guerreiros, seguiu estrada afora.
Andaram pelos arredores enquanto o cacique mostrava castelos aos companheiros, que ficavam assustados com aquelas construções.
O povo corria para ver de perto os índios.
Já passava do meio-dia quando pararam em frente ao castelo D'armis.
O cacique e os guerreiros sentaram-se para descansar.
Os empregados da rainha Loretta olharam apavorados para os índios.
Ali, comeram algumas frutas que tinham consigo e beberam o vinho e a água trazidos da tribo.
O cacique pediu aos guerreiros que ficassem sentados ou se deitassem nas folhas secas da estrada, coberta por imensos arbustos, que formavam boas sombras.
Ele andou mais adiante, parecendo conhecer o local.
Subiu em uma pedra e ficou olhando para o castelo.
O jardim estava florido, muitas rosas vermelhas cobriam a entrada principal.
Ninguém viu as duas lágrimas que rolaram em sua face.
Retornaram ao palácio.
Todos os guerreiros pareciam encantados com tudo o que viram, mas ansiosos por estar de volta à aldeia.
O rei, sentado à mesa e acompanhado da esposa, da mãe, de seus três filhos, de Raio de Sol, de Lucília II e do cacique, jantava.
Em meio ao jantar, o rei perguntou:
—Grande cacique, como foi seu passeio hoje?
Nunca conversamos a respeito de sua origem, mas acredito que o senhor seja um dos filhos da mais alta nobreza.
Sua cultura demonstra isso.
Se algum dia confiar-me sua origem, farei um juramento de rei em não revelá-la a ninguém.
O cacique sorriu por baixo da máscara.
—Caro amigo, pois assim já posso chamá-lo, um dia talvez possamos conversar sobre nossas origens.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 09, 2016 11:16 am

Embora, meu amigo, acredite:
a origem de um homem começa onde ele descobre o amor.
Veja o seu caso e o de sua sobrinha e o dos meus filhos!
Suas origens mudaram diante do amor.
Loretta estava pálida, o copo tremia em suas mãos.
Seu neto foi quem notou e perguntou-lhe:
—Vovó, está com frio?
Por que está tremendo?
— Estou com frio, meu querido.
Vou pedir licença e retirar-me.
— Minha mãe, quer pedir para sua camareira lhe buscar um casaco? — perguntou o rei.
Ela desculpou-se, dizendo que preferia descansar.
No quarto dia, o cacique apertava a mão do rei e de sua família, prometendo cuidar de Lucília II como sua filha legítima.
Virando-se para Loretta, disse a ela:
— Sei que minha Lua de Prata está nas mãos da mais digna senhora desta corte, por isso não vou fazer nenhuma recomendação.
Combinaram que uma vez por mês um mensageiro levaria notícias da corte e traria as da aldeia.
As famílias poderiam trocar informações e presentes.
O rei fez questão de presentear o cacique com vários utensílios domésticos, cobertores e lençóis de linho e seda.
O cacique aceitou levar apenas café, fumo, sabão e azeite para a tribo.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 09, 2016 11:16 am

O CORTEJO REAL
Os comerciantes de vários países brigavam para entrar nos negócios do reino de Loretta, pois significava lucro garantido para quem conseguisse.
O rei em pessoa estava envolvido, negociando produtos e comprando o que satisfazia o povo.
Era comum vê-lo inspeccionando as mercadorias chegadas de outros países.
O cuidado com a saúde da população era levada a sério e reflectia-se no trato aos estrangeiros que chegavam ao país.
Todos os navios que atracavam tinham de obrigatoriamente desinfectar a embarcação e aguardar oito dias a bordo para receber ordem de desembarque.
O genro do importante produtor brasileiro, Senhor Arquimedes, já muito conhecido no país pela qualidade de seus produtos, estava aborrecido com a demora do desembarque.
Praguejava e proferia palavrões, pois não imaginava ficar detido no navio como se estivesse com lepra.
Imagine esperar oito dias!
Jurava a si mesmo:
"Nunca mais volto a este lugar; não foi à toa que meu sogro virou as costas para esta terra maldita".
No nono dia, o revoltado fidalgo, desembarcando, foi levado a uma hospedaria cheia de conforto.
Parecia realmente um outro mundo; tudo ali era feito com alta qualidade.
Agora entendia por que o sogro progredira tanto:
havia levado consigo uma cultura avançada.
Uma semana depois ele já tinha visitado diversos fornecedores, assinado vários contractos, estava satisfeito e até esquecera os aborrecimentos da longa espera para desembarcar.
Realmente o rei sabia colocar ordem em seu país; era um progressista.
Negócios fechados, era hora de conhecer alguma coisa a mais do rico país e fazer compras para os familiares.
Informou-se do que poderia levar, pois existia cuidadoso controle sobre algumas mercadorias, as quais não podiam sair do reino.
Fez uma lista do que poderia levar e pediu ajuda ao seu interlocutor para acompanhá-lo.
Este lhe disse:
—Hoje o rei desfilará com toda a sua família pelas ruas da cidade, pois é aniversário de sua coroação.
A grande rainha Loretta, que levantou o país, estará ao lado dele.
Você terá o prazer de conhecê-los.
E apaixonadamente contou-lhe vários factos sobre a família real.
O fidalgo encantou-se com as histórias da realeza e disse ao guia que queria sair cedo para ficar bem próximo da passagem e ver a família real de perto.
Assim, saíram quase duas horas antes do cortejo e encontraram um lugar em que poderiam até tocá-los.
Se existia algo naquele país, que era lei e acarretava punições severas aos infractores, era a pontualidade.
Na hora exacta, surgiram vestidos de gala e armados os cavaleiros da guarda real; logo atrás, duas belíssimas carruagens abertas levadas por cavalos enfeitados.
Sentados em bancos ornamentados com flores, estavam o rei e a rainha.
Ele vestia uma túnica branca e dourada.
O cabelo loiro voava ao vento, e a barba bem aparada deixava ver que era jovem.
Sorria e acenava para o povo.
A rainha tinha cabelo negro, longo e liso, era morena e muito bonita.
"Lembra as mulheres brasileiras", pensou o fidalgo.
O vestido de seda amarelo-ouro esvoaçava, ela sorria e mostrava dentes alvos e perfeitos.
A rainha era realmente linda, admirava-se o visitante de Ilhéus.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 10, 2016 9:32 am

Atrás da carruagem dos reis estava outra, ricamente ornamentada e mais aplaudida que a primeira.
Nela estava uma distintíssima senhora de porte nobre, a quem o povo gritava:
—Loretta, Loretta, Loretta!
Ela acenava com muita elegância para todos.
Ao seu lado, um garoto de mais ou menos dez anos de idade e duas meninas lindamente vestidas, que pareciam duas bonecas.
Ao chegar mais perto do povo, a rainha Loretta pediu que parassem a carruagem para apertar as mãos das pessoas que estavam próximas à passagem.
O fidalgo ficou boquiaberto olhando para o garoto.
Era a cara do seu enteado!
Se colocasse os dois juntos, ninguém poderia dizer quem era quem.
Encantou-se com a famosa rainha Loretta, mas seus olhos ficaram pregados na figura do garoto.
Este o olhou, deu-lhe um sorriso, pegou um lenço com o símbolo real e colocou-o na mão do seu admirador.
Assim que saíram do local, ele ainda estava atónito com a semelhança entre o príncipe e o enteado.
Falou para seu acompanhante:
— Nunca vi duas criaturas tão parecidas uma com a outra como o príncipe e o meu enteado!
E, muito feliz e emocionado, completou:
— De tudo que levo, o mais valioso presente é este aqui.
Abriu o belo lenço branco de puro linho com o símbolo da coroa, admirando-o.
Sorria só de pensar que levava uma relíquia real.
A família de sua esposa não iria acreditar!
Ele apertou a mão do príncipe e viu de perto a rainha Loretta, o rei e a rainha indígena.
Dobrou e guardou com todo o cuidado o lenço, colocando-o na mala.
Seu acompanhante informou-o de que a rainha e alguns membros da família iriam fazer uma excursão, mas o rei ficaria segurando as rédeas do reino.
Comentou que, assim que chegasse a primeira remessa dos produtos negociados, o rei iria fazer pessoalmente a inspecção; caso ficasse satisfeito, era possível que aumentasse os pedidos.
Completava cinco meses que estava ali, e o fidalgo de Ilhéus ansiava por embarcar.
Fazia oito dias que aguardava no navio, para então seguir viagem.
Por isso, foi com bastante emoção e o coração palpitando de alegria que, aliviado, ouviu o apito anunciando a Partida.
Enfim, começava a viagem de regresso ao lar.
Levava muitas coisas na bagagem, presentes para todos, mas apenas um era uma verdadeira relíquia:
o lenço do príncipe, que era a cara do filho de sua esposa.
Mas, pensando bem, riu ele, a única pessoa diferente que não se parecia com os outros era a rainha índia.
Todos eram loiros de olhos verdes ou azuis; sua mulher era loira de olhos verdes, e seu filho, naturalmente, teria de parecer-se com ela e com o pai, que deveria ter sido também loiro e de olhos verdes ou azuis!
Era um povo de pessoas parecidas entre si.
Ele começaria a chamar o enteado de príncipe e lhe daria de presente o lenço real.
Um mensageiro anunciou que o navio estava aportando.
A alegria de Mary e de seus familiares era grande.
Sua filhinha Larisse pulava de ansiedade, esperando pelo pai.
Mary aguardava o marido, e suas mãos gelavam quando pensava que ele estivera em sua terra natal e com certeza traria notícias da corte e do rei.
O marido de Mary chegou em casa e toda a família o recepcionou.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 10, 2016 9:33 am

Foram muitos abraços.
Como estava cansado da viagem e do desembarque, ficou combinado que a família iria reunir-se no dia seguinte, em um almoço, para que ele pudesse contar as novidades e distribuir os presentes.
As crianças mal podiam esperar pelo outro dia para recebê-los, mas conformaram-se em aguardar.
Após as despedidas de todos, Mary abraçou o marido, que lhe disse:
— Minha querida, trouxe uma coisa em que você não vai acreditar, mas só vou abrir amanhã.
Hoje, quero apenas ficar em seus braços; nem vou falar muito para não me cansar!
Teremos todo o tempo do mundo para conversar.
Mary estava feliz.
O esposo estava em casa e agora, mais do que nunca, ela sabia quanto o amava.
Adormeceram abraçados.
No outro dia, tomaram café juntos em seus aposentos e logo receberam a pequena Larisse, que, orgulhosa, abraçou o pai.
Ele então começou a desfazer as malas, entregando a Larisse seus brinquedos, para Mary roupas íntimas, que eram a última moda por lá, entre outras tantas coisas para as quais ela arregalava os olhos de contentamento.
Após o almoço com os familiares, o nobre começou a distribuir os demais presentes.
O genro do Senhor Arquimedes não se esquecera de ninguém.
Por fim, pegou a relíquia real e pediu silêncio e a atenção de todos.
Com muito orgulho, começou:
—Minha gente, vi muitas coisas interessantes naquele país, mas esta que vou mostrar-lhes vi e trouxe como o grande troféu que um viajante pode receber.
Prosseguiu:
— Fiquei, minha gente, a meio metro de distância dos monarcas.
O rei é jovem e bem simpático, e a actual rainha é uma índia que lembra as mulheres da nossa terra, uma morena bonita como uma flor.
Falaram-me que a falecida rainha não era tão bonita, mas muito bondosa.
Sem prestar atenção nas expressões de sua esposa, sogros e cunhados, continuou descrevendo os detalhes animadamente:
— Vi a rainha Loretta de perto.
Que mulher espectacular!
O povo a venera, é uma verdadeira rainha.
Vi os três filhos do rei.
As duas menininhas são duas bonecas loiras de olhos azuis, mas, minha gente, o príncipe é o nosso próprio Henrique!
Se colocarmos os dois juntos, nem você, Mary, nem o rei saberão filho de quem é cada um.
Olhei tanto para o garoto que ele deve ter achado graça da minha curiosidade e estirou a mão para mim, dando-me este lenço.
Abriu o lenço de linho branco e exibiu-o aos presentes.
— Não é uma relíquia?
Sem contar que meu guia me lembrou de que isto é um passaporte para nós.
Bem, pessoal, se todos concordarem, vou dá-lo de presente ao Henrique.
Ele se parece tanto com o príncipe que, se aparecer no palácio, o rei vai achar que é seu filho.
Henrique arregalou os olhos de alegria.
—Você vai me dar o lenço do príncipe?
—Vou, sim.
Vou dar-lhe o lenço do príncipe que se parece com você.
Henrique pegou o lenço como se fosse o maior tesouro do mundo.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 10, 2016 9:33 am

—Mamãe, veja de perto que coisa linda!
Vou guardá-lo com muito cuidado para não sujar.
Com excepção de Mary, dos sogros e dos cunhados, todos queriam ver e tocar o lenço real.
Faziam perguntas e mais perguntas ao fidalgo, e ele, orgulhoso, as respondia.
Queriam saber como se vestiam o rei, as rainhas e as crianças, e ele contava detalhadamente tudo o que vira e soube, inclusive as histórias dos casamentos com indígenas e do cacique, que foi à corte casar o filho com a sobrinha do rei.
A sogra dele pensava:
"A rainha Loretta não mudou nada, mas o rei mudou muito!
Pobre coitada de sua esposa!
Então morreu.
O rei casou-se com uma índia...
Então a posição social dela não era diferente da de Mary na época em que tudo aconteceu".
Mal sabia Loretta que era avó de um brasileiro...
E o rei então?
O que aconteceria com Henrique se o rei soubesse de sua existência?
Olhou para a filha e lembrou-se de todo o seu sofrimento.
Graças a Deus ela tinha conseguido sobreviver e agora estava casada e feliz!
O Senhor Arquimedes pensava:
"Como são as coisas do destino!
Meu neto tem irmãos e agora possui algo em suas mãos que pertenceu ao próprio irmão.
Meu neto não é só parecido com o príncipe, ele é um príncipe!
Minha pobre filha, que situação!
Quando pensamos que o passado morreu para todos nós, ele ressurge para nos atormentar".
Mary, tentando disfarçar o que sentia, voltava ao passado:
revia o rosto do rei, seu corpo nos braços dele.
Ele prometeu deixar até mesmo a coroa para ficar com ela.
Sonhou tantas coisas bonitas ao lado dele...
Lembrava-se do cheiro da relva e do trotar dos animais.
Lembrava-se do dia em que se entregara a ele: estavam na cachoeira, o sol batia nas águas, que pareciam pingos de ouro, e ele estendeu o manto que usava sobre as folhas secas do chão e ali mesmo se amaram.
Fizeram inúmeras juras de amor, e ela entregou sua vida nas mãos dele.
Estava tão feliz!
Nada queria dele a não ser seu amor.
Amava-o com todo o coração!
Naquele dia, ele contou-lhe que não se casara com a rainha por amor.
Nunca pensou em traí-la ou fazer-lhe nenhum mal, mas não imaginou que iria apaixonar-se e amar outra mulher.
Agora que conhecia o amor lutaria para ficar ao seu lado, mas não poderia prejudicar a boa moça com quem se casara.
Sem contar com os problemas que teria de enfrentar perante o reino...
Se fosse preciso, porém, renunciaria em favor do irmão.
Sabia que iria prejudicar a imagem e o poder de sua mãe perante o povo.
Ela representava o progresso e a estabilidade familiar.
Era um exemplo de mãe e esposa, todos se espelhavam nela; ela o tinha preparado para ser o rei e chefe da nação, aquele que devia ser o exemplo familiar.
—Vou encontrar uma solução para todos nós, confie em mim — prometeu-lhe naquele dia.
Abraçando-a, repetiu:
— Você é minha vida.
Sem você não posso mais viver!
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 10, 2016 9:33 am

Quanto orgulho ela sentiu de si mesma naquele instante!
Dois meses passaram-se.
Eles se amavam todos os dias.
Certo dia, estando em seu lugar preferido, a cachoeira dourada pelo sol, Mary percebeu que o rei estava abatido.
—Você está triste?
—Sim, Mary, estou triste.
A rainha está esperando um filho, o herdeiro do reino, e isso complicou mais ainda nossa situação.
Mas estou decidido a ficar com você, custe o que custar!
Você seria capaz de esperar nascer o herdeiro do trono de meu pai para então resolvermos nossa vida?
Embora chocada, como toda mulher ficaria na mesma situação, respondeu com sinceridade:
—Esperarei o tempo que for necessário.
Eu amo você. Um mês depois, viu o desespero tomar conta de sua família.
Sua mãe implorou-lhe que arrumasse suas coisas.
Teriam apenas três dias para partir; se insistissem, seriam executados, e o próprio rei assinaria a ordem.
A voz do povo era a voz do rei, foi o que lhe dissera a rainha Loretta.
Ela protestou, dizendo preferir a morte, mas depois, olhando para os pais e o irmão, algo dentro dela falou mais alto:
não poderia levar à morte toda a família; seria melhor, então, ceder.
Esperou desesperadamente que o rei viesse em seu socorro, mas ele não apareceu.
Por certo tinham sido descobertos.
Ele vinha todos os dias vê-la e agora fazia três dias que não aparecia.
Era o fim, teria mesmo de acompanhar os pais e nunca mais ver o homem que foi a alegria e a esperança de sua vida e que, naquele momento, levava a desgraça a ela e à sua família.
Como fora tola em pensar que ele deixaria a coroa por ela!
Claro, ele estava com a rainha, que esperava um filho, o herdeiro do reino, e ela era apenas a filha da governanta de sua mãe e d um agricultor.
No outro dia, seu pai quase a arrastou para fora de casa.
E saiu e olhando para trás, ouviu o barulho da cachoeira.
Parece um pesadelo...
Em seu íntimo, ainda restava a esperança de que amado aparecesse para salvá-la.
As carroças seguiam pela estrada, enquanto alguns vizinho lhes perguntavam, admirados:
—Vão viajar?
Sua mãe respondia:
—Vamos cuidar de uma das fazendas do rei.
Não deu tempo de nos despedirmos de vocês.
—Boa viagem e até a volta.
Nem lágrimas Mary conseguia derramar.
Olhava paisagem, os animais pastando, as crianças correndo em volta das árvores, as montanhas verdes que ficavam para trás.
Chegaram ao porto, e ela olhou para todos os lados.
Seu p entregou alguns papéis a um encarregado e despachou tudo que levavam.
Antes de subir na embarcação, ela também assinou um folha de papel e só se deu conta de que estava indo embora para sempre, quando foi ao convés e avistou apenas água por todos o lados.
Caiu ali mesmo.
Não tinha mais vontade de viver, queria mesmo era a morte.
Tempos depois, outra surpresa:
estava grávida!
Seu primeiro sentimento foi de medo e revolta, mas depois começou a gostar de sua barriga; trazia um filho do rei, um filho de sua terra que seria só seu!
Seus pais a instruíram e ao irmão para dizerem que era viúva, que seu marido morrera, deixando-a muito triste, e por isso resolveram ir embora para outro país.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 10, 2016 9:33 am

O ENCONTRO
A família do Senhor Arquimedes empenhou-se em trabalhar e cada vez mais exportava seus produtos, tornando-se uma potência brasileira.
Sua mercadoria era reconhecida e respeitada em muitos países do mundo, mas o ponto forte era a terra do Senhor Arquimedes.
Henrique estava com treze anos de idade e já mostrava sinais de masculinidade na voz, que começava a mudar.
Alguns fios de barba lhe brotavam no queixo como fios de ouro.
Seu padrasto e seu avô, juntamente com o tio, preparavam-se para viajar.
Ele também iria.
Mary, por mais que o marido insistisse, não quis acompanhá-los, dizendo não suportar a viagem.
Além disso, tinha a pequena Lane, com apenas dois anos, e Larisse, que não queria ficar sem a mãe.
Mary estava muito preocupada com o filho.
Fez de tudo para ele desistir da viagem, mas o garoto estava decidido a ir e seu esposo incentivava-o, dizendo:
—Ele precisa tornar-se independente.
Cuidaremos bem dele, fique calma.
Partiram, e Henrique levou o lenço do príncipe na viagem, pois o padrasto prometera-lhe fazer o possível para que o visse.
Tomara que ainda estivesse parecido com ele; deviam ter a mesma idade, pelo que pôde calcular.
Mary contou à mãe:
—Antes de virmos para cá, o rei contou-me que a rainha estava grávida, por isso creio que a diferença de meu filho para o dele seja de dois meses.
Minha mãe, só pode ser obra do destino.
Sinto-me angustiada só de pensar que Henrique possa ver o próprio pai e os irmãos, sem ao menos desconfiar de que tem o mesmo sangue deles.
—Guardaremos pelo resto de nossas vidas este segredo.
Ninguém jamais poderá saber a verdade.
Vamos esquecer isso, minha filha, e pensar em coisas boas.
Vamos aguardar a volta dos nossos.
Olhe, Mary, sabe o que estive pensando?
—O que, minha mãe?
—Ouça o que vou lhe dizer.
Na próxima viagem, nós duas iremos lá, sim!
Saímos de nossa terra como se fôssemos ladras ou assassinas.
Hoje somos as senhoras dos homens que servem a mesa do rei e de seu povo, somos respeitadas.
Não vamos lá para vê-los, mas para ver nossa terra!
Acho que já pagamos caro demais e temos o direito de voltar, sim.
Mary gelou por dentro.
Teria coragem de voltar?
Sua mãe tinha razão, porém.
Elas nada mais deviam a eles, e a rainha Loretta, por certo, nem desconfiava de que comia os frutos de sua terra.
Como seria bom lhe jogar isso na cara, mesmo que de forma subtil.
Ela não precisava ver a cara daquele que um dia estragou seus sonhos...
Iria pensar no assunto com mais tempo e talvez fosse mesmo com o marido.
Agora era uma senhora da alta sociedade brasileira e não devia nada para a corte e muito menos ao rei.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 10, 2016 9:33 am

Foi uma emoção muito grande para o Senhor Arquimedes pisar novamente em seu país e ver o quanto crescera.
Estava totalmente diferente de quando saiu.
Ele e o filho aproveitavam os momentos em que o genro estava com os fornecedores para sair.
Levavam sempre Henrique, dizendo querer que o garoto fosse aprendendo a integrar-se aos negócios.
Passeavam pela cidade, revendo alguns lugares e conhecendo novas estruturas que se levantaram em certos locais.
Passaram em frente ao palácio.
Era o único lugar em que nada havia mudado; até a posição e as vestes dos guardas reais eram as mesmas.
Seu filho disse-lhe:
Pai, as armas, pelo menos, são diferentes.
Gargalharam, e o Senhor Arquimedes, brincando, acrescentou:
—A comida também.
Com certeza é melhor! Somos nós que plantamos.
Certa tarde, combinaram alugar uma carruagem e passear na fazenda em que moraram.
Assim fizeram, dizendo ao condutor que gostariam de ir até lá.
Qual não foi o susto que tiveram quando o outro respeitosamente lhes perguntou:
—Vão visitar algum parente enterrado lá?
O Senhor Arquimedes e o filho entreolharam-se.
—Sim.
Seguiram adiante.
Nada mais era como antigamente, pouca coisa restara; apenas as montanhas continuavam verdes.
Assim que pararam, o Senhor Arquimedes e o filho depararam com um portão que se abria para um gigantesco cemitério.
Pediram ao condutor que os aguardasse, que pagariam as horas, que não se preocupasse com o tempo.
"Esses estrangeiros devem ter parentes por aqui.
O velho é muito parecido com nosso povo", pensou o motorista.
Andaram por muito tempo.
O Senhor Arquimedes calculou mais ou menos o local que outrora estava sua casa.
Foram também até a cachoeira, que ficava do outro lado; ela pelo menos estava intacta.
Já era tarde quando retornaram.
O genro e o neto esperavam ansiosos por eles.
— Por onde andaram? — perguntou o genro.
— Estávamos andando por aí.
Quando moramos neste abençoado país, não conhecemos a corte e agora estamos aproveitando para conhecê-la — respondeu o Senhor Arquimedes.
— Meu sogro, por que não vamos à sua terra natal?
Temos ainda tempo suficiente para isso!
Leve seu neto lá!
Ele vai gostar de ver onde nasceu e viveu sua mãe, seus tios e avós.
— Olhem, meus filhos, sinceramente não quero.
Acho que não vamos encontrar mais nada do que deixamos.
Andei conversando com algumas pessoas e fiquei sabendo que hoje toda aquela região é uma grande usina, restando pouca coisa no local Família não temos.
Ficaram alguns primos, cujos nomes ou paradeiro não sei bem.
Portanto, meu país tornou-se estranho para mim.
—Bem, já que é assim, então vamos aproveitar a cidade e o que ela nos oferece.
Orgulhoso, o genro contou todos os pontos positivos dos negócios fechados com os fornecedores.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 10, 2016 9:34 am

Uma semana depois, chegou onde estavam hospedados, rindo.
Estendeu-lhes alguns convites.
—Vamos assistir a um dos maiores espectáculos desta corte.
Os cavaleiros reais desfilarão em cavalos treinados.
Vão-se apresentar também músicos, cantores e bailarinos.
A família real estará presente, e vamos ficar bem na frente dela.
Nosso representante brincou que dará até para sentir seus hálitos!
Henrique vibrou.
Enfim veria se o príncipe era mesmo parecido com ele.
O espectáculo estava marcado para as 16 horas daquele dia Henrique tirou o boné e as pesadas botas que usava por cima das calças, a camisa de mangas compridas e o colete de lã que sua mãe recomendara-lhe usar, pois no reino, mesmo no verão, costumava ser frio.
Henrique preparou-se para ir ao espectáculo com um terno de linho branco que o padrasto lhe trouxera de uma viagem à França.
O cabelo loiro bem penteado para trás e os sapatos brilhando, passou o perfume do padrasto.
Levava no bolso o lenço que ganhara.
Seus traços finos davam-lhe uma beleza diferente.
Quando chegou a carruagem de luxo alugada para levá-los ao teatro, o cocheiro tirou o chapéu e exclamou, envergando-se:
—E uma honra, Sua Alteza, poder servi-lo!
Correu para abrir a porta e ajudou o menino a subir.
Este ficou assustado com tamanha gentileza, mas não entendeu o que o condutor disse.
O avô e o tio entreolharam-se e sentaram-se em silêncio.
Assim que desceram da carruagem, o menino foi cercado pela multidão, que lhe estendia as mãos e acenava para ele.
Foram ao camarote.
O Senhor Arquimedes e o filho temiam algum Incidente com a presença de Henrique.
Logo a arena ficou repleta, e todos se levantaram.
Bem à frente deles abriram-se as cortinas, e apareceu o rei em traje de gala, sua rainha, Loretta, as duas meninas e o príncipe, ao seu lado esquerdo, e um casal de crianças morenas e completamente diferentes das outras, à direita.
Num gesto de simpatia, o rei acenou para o povo.
O gesto foi repetido pelas rainhas e as crianças. Sentaram-se.
Em seguida, o rei sentiu a esposa beliscando-lhe o braço.
Olhou na direcção que ela apontava com os olhos e ficou pasmo com o que viu:
aquele garoto era uma cópia fiel de seu filho!
Loretta também olhava para Henrique.
As duas meninas cochichavam, olhando para o irmão e o garoto.
O príncipe acenou directamente para o sósia e sorriu-lhe.
Henrique respondeu ao aceno com um sorriso, idêntico ao do príncipe, e ficou admirado em ver como as pessoas, mesmo sem ser parentes umas das outras, podiam se parecer.
Lembrou-se de uma senhora que morava perto de sua casa e era parecida com uma das empregadas de sua avó.
Ainda bem que se parecia com um príncipe.
Podia ver que, se era parecido com ele, também era bonito.
Deu-se início ao espectáculo, realmente deslumbrante aos olhos dos espectadores, mas o maior espectáculo para o rei era aquele garoto, que poderia enganar até ele mesmo se lhe dissessem que era seu filho.
Como poderia uma criatura estranha ser tão parecida com seu filho?
— Você já viu duas pessoas tão parecidas em toda sua vida? — perguntou discretamente à esposa.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 10, 2016 9:34 am

— Não, é incrível!
Vamos convidá-lo no intervalo para vir até aqui?
Ele é muito bonito!
Seus parentes parecem ser estrangeiros.
No intervalo, Henrique tomava suco de uva e comia bolo de nozes quando, pedindo licença, entrou um cavaleiro:
—O rei e sua família convidam o menino e seus acompanhantes para fazerem o lanche juntos.
Apenas o Senhor Arquimedes e o filho entenderam o que falava o cavaleiro.
Transmitiram a mensagem para os demais, e os olhos de Henrique brilharam.
Iria apertar a mão dos nobres?
O Senhor Arquimedes então falou em português para os seus:
—Estando aqui, não podemos recusar um convite do rei.
Vamos lá!
O cavaleiro, sorrindo, acompanhou-os.
Será que não é filho do rei?
É a cara do príncipe", pensava, enquanto olhava par Henrique.
A família real estava sentada em volta de uma mesa repleta de guloseimas, mas o olhar de Henrique era para o rei e o príncipe.
O rei perguntou-lhe alguma coisa, mas quem respondeu foi o avô.
O soberano pegou em sua mão, fazendo o mesmo a rainha.
O príncipe, perto dele, só era diferente na roupa.
Tinham o mesmo tamanho, eram idênticos.
Henrique parecia ser mais moreno, e o avô disse ao rei que o neto era brasileiro.
Loretta aproximou-se de Henrique, afagou-lhe o cabelo e disse à nora:
—Como é parecido com meu neto!
Ele é brasileiro, mas seu avô nasceu aqui.
As meninas olhavam-no também e sorriam.
Uma delas perguntou ao avô de Henrique se ele não falava nada na língua delas, e ele respondeu algumas coisas.
Todos foram muitos gentis.
O rei tirou uma abotoadura de ouro com suas iniciais e entregou-a ao garoto.
Num gesto repentino, Loretta tirou um broche de ouro e pérolas e também deu-o ao menino.
Enquanto a rainha enchia-lhe as mãos de doces, o príncipe, olhando para o pai, perguntou:
—Posso dar-lhe minhas luvas?
—Claro que pode, meu filho!
Ele tirou as luvas, apertou a mão do menino e as deu de presente.
Loretta aproximou-se do garoto e falou carinhosamente:
—Vou falar bem devagar para você entender.
Seu avô disse-nos que você fala e entende um pouco nossa língua.
Qual o seu nome e quantos anos você tem?
O avô de Henrique passou a mão pela testa.
Estava suando e rezava para saírem logo dali.
O menino respondeu:
— Meu nome é Henrique e completei treze anos.
Loretta arregalou os olhos.
— Seu nome é Henrique?
—Sim, senhora.
Meu nome é Henrique.
Foi minha mãe quem escolheu.
O rei ouvia a conversa sem tirar os olhos do menino.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 10, 2016 9:34 am

Loretta então perguntou:
—E como se chama sua mãe?
Nesse momento, um cavaleiro entrou, anunciando que o espectáculo iria recomeçar.
Despediram-se rapidamente e saíram do camarote.
O avô e o tio de Henrique deram graças a Deus, enquanto o menino e o padrasto estavam nas nuvens.
Foi um dia inesquecível para Henrique.
A família real retirou-se assim que terminou a apresentação.
Antes de sair, acenou para a multidão, enquanto o povo agradecia ao rei pelo espectáculo.
O nome de Loretta era gritado pela multidão.
Olharam para a direcção de Henrique e acenaram.
O rei deu-lhe um sorriso e desapareceu por trás das cortinas.
Henrique voltou radiante, examinando os presentes.
"Quando contar isso para minha mãe e mostrar-lhe o que ganhei, ela não vai acreditar", ia pensando.
O Senhor Arquimedes piscou para o filho e disse ao genro e ao neto:
— Vamos dar uma volta até a hora do jantar.
Na rua, puseram-se a conversar:
— Só pode ser obra do destino!
Pai e filho frente a frente, a avó Loretta agradando o neto sem saber.
— Meu Deus, que medo me deu naquela hora em que ela perguntou o nome da mãe de Henrique!
Sabe, meu pai, que daria para ela desconfiar?!
Por sorte entrou aquele guarda e a pergunta ficou sem resposta.
Acho que o senhor deveria ter mudado nossos nomes também.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 10, 2016 9:34 am

A COLHEITA É OBRIGATÓRIA
Voltando aos indígenas, após a união com a família real, parece que tudo entrou nos eixos.
Loretta chegou a esquecer o incidente com o grande espírito.
Nunca mais tocou no assunto com a nora, e esta, por sua vez, parecia também ter esquecido.
Todos os anos o rei, a rainha e os filhos iam visitar a tribo.
Lucília II também ia de vez em quando com o marido Raio de Sol e os filhos visitar os familiares na corte.
Loretta nunca mais havia voltado lá, nem pretendia fazê-lo.
O mesmo acontecia com o cacique.
Foi então que mais uma vez o destino lhes pregou uma peça.
Estavam na primavera, e a família real decidira viajar.
As crianças precisavam respirar o ar puro das montanhas e ter mais contacto com a natureza.
Decidiram aproveitar o bom tempo para atravessar o oceano.
Iriam para um de seus castelos, que ficava em uma belíssima ilha.
Foi formada então a expedição:
marinheiros, cavaleiros da guarda, educadores, médicos, damas, cozinheiros e babás.
Um navio de bom porte foi preparado para acomodar todos e as bagagens.
As crianças estavam felizes, não viam a hora de partir.
Loretta fiscalizou tudo pessoalmente, pois a segurança da família era a coisa mais importante de sua vida.
Tudo estava bem, e o navio, em perfeitas condições de atravessar o oceano e levá-los Para qualquer lugar do mundo.
A tripulação era formada por experientes marinheiros.
O rei deixou tudo sob controle; poderiam ficar ausentes por até dois meses.
Partiram numa manhã ensolarada.
Tudo corria normalmente, mas, no quarto dia, ao anoitecer, repentinamente começou a soprar um vento forte vindo não se sabe de onde.
O navio jogava, e ondas gigantes cobriam de água o convés.
Os experientes marinheiros desviaram da rota, empurrados pelas correntes e pelo vento que sacudia a embarcação.
O pavor tomou conta de todos.
Mesmo temendo a morte, Loretta tentava acalmar a família.
—Todos em seus lugares, não quero ouvir um grito.
Se tivermos de morrer hoje, que o façamos com dignidade — ordenou.
Passaram mais de cinco horas de aflição até o mar voltar a acalmar-se.
O capitão e seu enteado entraram na cabine em que estavam Loretta e a família reunida.
O capitão, após pedir licença, participou ao rei:
—Meu senhor, estamos fora da rota de nossa viagem, mas próximos da aldeia de seu sogro.
Precisamos fazer alguns reparos no navio e o mais seguro será ancorar lá por uns dois dias, para depois então prosseguirmos viagem.
Lua de Prata sorriu para o rei e pensou consigo mesma:
"A mãe peixe quer nos levar para lá!".
Lembrou-se então do grande espírito das matas.
"Ele não mente nem se engana nunca!
Um dia, disse que uma das filhas da mãe peixe, Iemanjá, viria pelas águas para acertar algo de seu passado com meu pai.
Minha sogra desmaiou no dia do meu casamento, quando o grande espírito lhe disse isso."
O rei olhou para sua mãe.
Seu irmão e chefe da marinha advertiu-o:
—Não temos outra saída ou arriscaremos nossas próprias vidas.
Loretta estava pálida e de cabeça baixa, mas logo se recompôs:
—Que seja feito o que deve ser feito!
Vamos para a aldeia.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

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