Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 13, 2016 7:25 pm

"No Castelo da Escócia"
Wera Ivanovna Krijanovskaia

J. W. Rochester

(romance ocultista)

TRILOGIA — LIVRO 2

Então respondeu Satanás ao Senhor:
Porventura teme Jó a Deus debalde?
Acaso não o cercaste de bens, e a sua casa, e a tudo quanto tem?
A obra de suas mãos abençoaste e o seu gado está aumentando na terra.
Mas estende a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face!
Jó, (9, 10e 11.

A SEGUNDA VIAGEM PELA LITERATURA DE ROCHESTER...

A LÚMEN EDITORIAL tem o prazer de passar às suas mãos, leitor amigo, o segundo romance de J.W ROCHESTER, NO CASTELO DA ESCÓCIA, que compõe a sua fantástica trilogia de emoção e suspense.
O primeiro romance da série é O TERRÍFICO FANTASMA; o terceiro livro, que finaliza a trilogia, é Do REINO DAS SOMBRAS.
Com psicografia da médium russa WERA KRIJANOWSKAIA, CONDE DE ROCHESTER, espírito, nos conduz, através de sua talentosa imaginação, a um mundo de sentimentos, tensão e ternura, ingredientes indispensáveis ao texto rochesteriano.
Traduzidos por Dimitry Suhogusoff, os romances desta trilogia guardam os mesmos pontos e vírgulas dos originais russos, graças ao meticuloso trabalho de "garimpagem" linguística efectuada pelo tradutor.
Necessariamente, a LÚMEN EDITORIAL pode não concordar com alguns conceitos e opiniões emitidas pelo autor espiritual.
Porém, julga de fundamental importância para o registo da História trazer à luz o texto tal qual foi criado pelo seu autor.

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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 13, 2016 7:27 pm

~I~

Era véspera do Natal; os sinos do campanário de Duma(1) bateram cinco e meia.
O tempo permaneceu húmido e frio no decorrer do dia inteiro e, à noitinha, do mar começou a soprar um vento glacial do norte.
Flocos graúdos e húmidos de neve fustigavam os rostos dos transeuntes.
Apesar da intempérie, Gostínyi Dvor'2) , àquela hora, estava apinhado de gente:
os petersburgueses, ricos e pobres, faziam suas compras de Natal.
À luz bruxuleante das lanternas eléctricas cobertas por película da neve em queda, entravam e saíam trenós e coches, particulares e contratados.
No interior das galerias, porém, a luz era profusa, iluminando as ricas paredes especulares das lojas, percorridas por gente de rosto grave, carregando pacotes.
Acomodadas sob as abóbadas, algumas mulheres e crianças vendiam modestos ornamentos para árvores de Natal:
serpentinas douradas e prateadas, estrelas de vidro, brinquedos de madeira...
Na esquina da avenida Nevsky e rua Perínnaya, defronte à capela do Salvador e recostada no poste de iluminação, uma jovenzinha parada, pobremente vestida, era foco de atenção de homens passantes.
Sua blusa de veludo surrada, fora de moda, delineava-lhe a figura esbelta; do gorro de pele sovado escapavam para a testa e as têmporas as negras madeixas, tirante alcatrão; o rosto acetinado e pálido, azulado do frio, era original e respirava resolução sombria; nos lábios descorados congelara-se, naquele minuto, uma expressão de sofrimento.
Numa das mãos ela segurava uma toalha de mesa em estilo russo, bordada em seda, e panos de prato orlados de renda.
A pobre moça aparentemente estava exausta; suas mãos, enrijecidas e azuladas do frio, tremiam.
Mais com gestos do que com as palavras, ela oferecia a sua mercadoria, todavia a multidão azafamada passava indiferente ao largo, lançando-lhe olhares de esguelha.
Sua ansiedade, pelo visto, deu lugar à apatia e à total indiferença, pois ela estava alheia à presença de um homem parado a alguns passos, que a observava atentamente.
Era um jovem envergando uma rica peliça, cuja palidez cadavérica e olhos afundados apontavam uma saúde debilitada.
Ele vagava desanimado em passadas lentas sob a colunada, quando a jovem moça lhe chamou a atenção.
Já de primeiro olhar, ele atinou tratar-se não de uma pobre ordinária:
alguma circunstância fatídica trouxera ali aquela moça encantadora, provavelmente de origem aristocrática.
Ademais, ela não podia ser uma jovem depravada, pelo facto de ali tiritar honestamente, vendendo os remanescentes do fausto extinto ao invés de passear de carruagem, negociando sua beleza estonteante.
Após reflectir por instantes, o desconhecido aproximou-se dela.
— Está vendendo essas toalhas? — perguntou em voz funda e sonora.
Ela estremeceu e ergueu para ele o olhar súplice e cansado.
— Sim. Compre, por amor a Deus, ao menos um pano e me pague o que puder!
Estou realmente exausta — lamuriou-se.
— Espanta-me e causa pena o facto de que a senhora não tenha uma actividade mais lucrativa.
A senhora me parece uma pessoa intelectual e, sem dúvida, tem uma formação que poderia lhe propiciar um sustento melhor.
— É verdade. Infelizmente estamos arruinados, mas tive uma boa educação:
sei francês, alemão e inglês, e pretendia ganhar o pão de cada dia de modo diferente.
Apesar de meus esforços, não consegui arrumar um emprego:
tudo está preenchido, não há vagas.
Quem é pobre e sem protecção, acaba sempre recusado — concluiu ela, com amargor.
Ao notar que o desconhecido ficou meditativo, ela acresceu suplicante:
— Por favor, compre alguma coisa!
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 13, 2016 7:27 pm

— Claro, eu vou comprar.
Vou levar um pano de prato e, além disso, oferecer-lhe um emprego.
Não gostaria de trabalhar como minha leitora?
Não tenha receios, nem pense nada de mal.
Sou um homem doente — sofro do coração — e procuro alguém que leia em línguas estrangeiras; o pagamento é cinquenta rublos por mês.
Pense nisso e, talvez, fechemos o acordo!
Ele pegou a carteira, extraiu um cartão de visita e dinheiro e estendeu-os à vendedora.
A um gesto seu, o cocheiro que aguardava aproximou-se e a parelha veloz levou o desconhecido embora.
Atónita, a jovem ficou por algum tempo imóvel, acompanhando com o olhar o coche sumindo; mas uma forte rajada de vento frio fê-la voltar à realidade.
— Ah, tivesse ele me dado ao menos uns três rublos! — pensou arrepiada, começando a embrulhar sua mercadoria.
Mas, próxima a uma vitrine, quando examinou o dinheiro recebido, quase não conteve um grito:
na mão ela segurava uma nota de cem rublos.
— Não teria ele se enganado? — perguntou-se, assustada.
Acho que não.
Ele tirou da carteira o cartão e o dinheiro com muita segurança.
Não, não — foi um acto generoso.
Feliz, esquecida do frio e de todos os desgostos do dia difícil, ela entrou numa loja de brinquedos e comprou uma boneca e uma caixa de tintas, trocando a nota de cem rublos; depois fez outras compras:
um xale, luvas para frio, uma pequena árvore de Natal, bombons e doces, chá, café e cacau.
Aparentemente, estava acostumada a viver bem, pois fazia as compras com naturalidade.
Tendo gasto doze rublos e sem condições de levar mais pacotes por causa do peso, chamou um coche.
O cocheiro parou diante de um prédio de madeira num dos quarteirões do subúrbio da cidade.
Junto ao portão, uma menina aparentando doze anos, trajando um vestido surrado xadrez, cheio de buracos, saltitava de uma perna para outra para se aquecer.
— Oh, finalmente você veio!
Estávamos preocupados; sua mãe até chorou, achando que algo lhe acontecera.
Meu Deus, quantos pacotes!
Até uma árvore de Natal! — exclamou a menina, toda radiosa.
— Rápido, Kátia, enquanto eu pago o cocheiro, leve uma parte dos pacotes; também comprei-lhe algo.
Vá, já estou indo!
Depois de acertar a conta com o cocheiro e tendo pegado os embrulhos restantes, ela abriu a porta de entrada e dirigiu-se ao primeiro piso.
Na escada, topou com um menino de uns treze anos, que se prontificou a carregar as compras.
— Pelo jeito você vendeu tudo e comprou um monte de coisas.
Mas como demorou!
Você saiu às dez horas.
— Tive uma sorte incrível.
Não há luz em casa?
— Não, estamos sem querosene.
Estou com fome; não comemos o dia inteiro — queixou-se o menino.
— Eu sei, Pétia, mas agora teremos um belo jantar.
Pegue estes cinco rublos e vá buscar querosene, lenha, pão e salsichas.
O menino partiu correndo e a recém-chegada entrou no quarto, onde por ela aguardavam a mãe e a irmã de oito anos.
— Você me deixou preocupada, Mery.
Ficou fora o dia inteiro — disse a mãe, uma senhora de meia-idade, beijando a filha.
E para que você gastou tanto? — acrescentou, apontando os pacotes dispostos na mesa.
— Não se preocupe com os gastos, mamãe; só comprei o necessário.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 13, 2016 7:27 pm

Depois lhe conto tudo, agora só penso em me aquecer.
Vamos tomar um copo do Madeira.
Meia hora depois, com fogo alegre crepitando no fogão e lamparina ardendo sobre a mesa, toda a família, sentada em frente do samovar, comia e servia-se do chá.
Refestelada da bebida, Mery mandou o irmão e a menina que trabalhava de empregada comprarem carne e tudo o mais para o almoço do dia seguinte.
A pequena Nita quis acompanhá-los também.
Assim que as crianças saíram, Mery pôs-se a ajudar a mãe a enfeitar a árvore natalina e lhe relatou a aventura em Gostínyi Dvor.
— Que Deus abençoe aquele bom senhor!
A oferta dele seria nossa salvação, se não houver más intenções; receio que algo de sujo aí se espreite — observou Suróvtseva.
— Não creio, mamãe.
Ele pareceu-me uma pessoa séria, aliás, muito doente, com olhos afundados e tez muito pálida.
A propósito, estou com seu cartão.
Vamos ver o nome dele!
Ela foi buscar a bolsa e de lá tirou o cartão de visita.
"Óscar Van der Holm"
— O nome não diz nada; agora, aqui há algo de estranho — observou Suróvtseva, apontando para estrelinhas de cinco pontas na base do cartão e para o endereço:
"Ilha das Pedras — casa própria".
— Deve ser um estouvado qualquer, necessitando de uma leitora e secretária.
Mas, sem dúvida, ele tem bom coração.
Acho que, no segundo dia do feriado, você deve por carta perguntar quando ele pode recebê-la.
— Sim, mamãe.
Seria tolice não aproveitar esta oportunidade.
Animadas com a nova esperança, a mãe e a filha puseram-se a arrumar a casa, que consistia de uma minúscula cozinha escura e dois pequenos cómodos, quase sem mobília.
Quando as crianças voltaram com as provisões, o ambiente tinha aspecto festivo:
as velas da árvore de Natal ardiam alegremente, iluminando os presentes e as guloseimas; havia muito tempo que a pobre família não ia dormir bem alimentada, feliz e cheia de esperanças.
Diremos algumas palavras sobre a onda de infortúnios que assolou a vida da pobre Mery, subtraindo-lhe de vez o homem amado, o património e a posição social.
Logo após a mudança para uma rua erma nos arredores de Vyborg(3), obrigadas a deixarem um prédio luxuoso onde viveram felizes e despreocupados, Anna Petrovna adoeceu gravemente e os parcos recursos que sobraram da ruína foram gastos em médicos e remédios.
Sua recuperação foi muito lenta, tendo-se iniciado então uma luta humilhante pela sobrevivência cheia de privações, quando muitas famílias empobrecidas, atiradas fora de seu meio, ficam à deriva por algum tempo e desnecessárias a quem quer que seja, no meio dos vagalhões incertos da vida, até que estes não os engulam.
Para o grande mundo em que viviam, os Suróvtseva, "afundados", simplesmente deixaram de existir; ao mesmo tempo ficaram patentes, em toda a sua nudez, o egoísmo, a insensibilidade e a torpeza descerimoniosa humana em relação àquela gente que, ao perder sua antiga posição social, resumia-se a um maçante fardo sugerindo receios:
"e se acontecer de cuidar deles... e se for preciso ajudá-los?"
Ninguém se interessou em como haviam se arrumado os infelizes, desorientados num mudo torpor, vez ou outra atingidos por uma nova desgraça.
Mal Anna Petrovna começou a se levantar da cama, teve de tirar o filho do corpo de cadetes.
Orgulhoso, o menino não conseguiu suportar o tratamento de indulgência piedosa de seus colegas; não era fácil aceitar a sua posição de pobre num lugar onde tinha sido conhecido como rico, quando voltava de férias escolares em carruagem própria.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 13, 2016 7:27 pm

Sua manutenção no colégio pago era insustentável devido aos parcos recursos da família.
Cedendo aos clamores do filho, Suróvtseva levou o menino para casa — o que diminuiu os gastos com ele.
Mery sentia-se muito infeliz após a morte de Zatórsky; mas, só depois que ela se viu à míngua numa casa humilde no subúrbio de Vyborg, compreendeu que existiam desgraças piores.
Como que tomada por torpor, ela não conseguia sequer chorar e ficava, por vezes, horas a fio sentada junto à janela olhando, com os olhos secos, para o pátio sujo e estreito onde brincavam ruidosamente os filhos do zelador e dos inquilinos, na maioria operários.
Mery, todavia, tinha uma natureza altiva e enérgica.
Tão logo viu que os poucos objectos remanescentes iam desaparecendo na casa dos penhores, ela dominou-se, sacudiu a apatia e decidiu trabalhar.
Na prática, porém, era diferente.
Para trabalhar, precisava-se, é claro, encontrar um emprego — o que é difícil amiúde numa cidade grande, onde a demanda excede a oferta.
Não vamos esmiuçar as extenuantes e inúteis peregrinações, recusas rudes ou ofertas indecorosas a que se sujeitou a moça.
Resumindo:
sua aflição beirava o desespero, quando veio uma ajuda inesperada.
Um acaso fê-la encontrar sua ex-professora de francês.
Esta era uma mulher aparentando trinta e cinco anos, feia e doente, que se desdobrava em sustentar a mãe e a irmã inválida.
Conhecendo bem o que era passar por necessidades e lutar pela sobrevivência, a ex-professora compadeceu-se da infeliz família.
Anna Petrovna Suróvtseva, assim como a filha, sempre fora boa com ela e, nos tempos de bonança, vivia ajudando sua velha mãe e a irmã doente.
Ela ficou feliz em reencontrar a ex-aluna e, poucos dias depois, foi visitá-la em casa.
Ao saber que Mery procurava por trabalho, prometeu-lhe arrumar traduções, e manteve a palavra.
Mery começou a traduzir romances da actualidade e sumários da imprensa estrangeira para uma revista.
Enquanto o trabalho sobejava, a remuneração era ridícula; de qualquer forma era melhor do que nada.
Neste ínterim, Anna Petrovna, também com o auxílio de uma alma boa, começou a bordar para uma loja, de modo que a vida melhorou um pouco.
O pior de tudo era que, tendo antes uma situação sossegada e acostumadas a não medir gastos, nem a mãe nem a filha conseguiam viver com recursos exíguos.
Por vezes, num dia era gasto o dobro do que deveriam, faltando o mínimo necessário para o dia seguinte.
Ademais, explorava-se impiedosamente o trabalho das pobres mulheres sem experiência de vida e que não tinham coragem de protestar contra as exigências indignas.
Bem ou mal, a relativa prosperidade da família durou pouco mais de um ano, quando então se seguiram novos infortúnios.
O primeiro foi a morte de Aksínia, que compartilhava de todas as amarguras dos Suróvtsev; ela teve uma forte gripe, contraiu tifo e, dias depois, morreu no hospital.
Neste ínterim, o jornalzinho se fechou e Mery perdeu o cargo; sua boa ex-professora havia viajado com a família ao interior, onde arrumou uma colocação.
Para culminar, Anna Petrovna teve conjuntivite e não pôde trabalhar.
A penúria, em toda a sua forma repulsiva, instalou-se na casa; na alma enraivecida de Mery já se prenunciava uma tempestade.
Durante todo aquele período, ela teve de engolir inúmeros remoques ao reencontrar seus velhos "amigos".
Alguns nem se dignavam a cumprimentá-la ao passarem de carruagem, outros, ainda que a reconhecessem, diziam estar "ocupados" ou açodados por compromissos, mas jamais alguém a convidou em casa.
O incidente que mais a revoltou foi o que se segue.
Três ou quatro anos antes, uma dama conhecida de sua mãe, ao se ver temporariamente em situação difícil, emprestou de Suróvtseva trezentos rublos, comprometendo-se a devolvê-los em dois meses.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 13, 2016 7:27 pm

O acerto não se sucedeu e Anna Petrovna até se esqueceu da dívida, quando encontrou no meio da papelada a carta da devedora, agradecendo o empréstimo e prometendo saldá-lo o mais rápido possível.
Feliz com a expectativa, Anna Petrovna escreveu para a dama, pedindo-lhe para enviar ao menos a metade da dívida.
Mãe e filha contavam com aquele dinheiro para assumir certos dispêndios, no entanto, a carta que dela receberam deixou-as perplexas.
Usando expressões vulgares e revoltantes, a dama informava já haver pago a dívida no prazo avençado, dizendo que jamais esperaria uma extorsão desavergonhada após quatro anos, arrependendo-se de não ter pedido a quitação por escrito.
Se lhe tivessem solicitado alguma ajuda, ela de bom grado enviaria uma pequena importância; mas, agora, receando cair numa trapaça com "gente descerimoniosa", pedia não ser mais importunada com aquele tipo de mensagens.
Um ódio desabrido instalou-se no coração de Mery e sua antiga fé singela deu lugar a um surdo rancor contra Deus e o destino.
Por que o destino a punia?
O que ela fizera para merecer tal castigo do Céu?
Enquanto suas antigas amigas batiam as asas nos bailes e nas festas, cercadas de luxo e admiradores, ela estava metida num buraco, passando por necessidades e trabalhando feito condenada, com risco de morrer de fome e frio...
De sua alma foi-se apoderando o ódio contra a estreita e abjecta sociedade que as riscou de seu convívio, e contra aqueles brilhantes cavalheiros que supostamente a amavam, cujo amor se volatilizara tal como os milhares de rublos de seu dote.
Mimalho da fortuna, ela não estava preparada para as vicissitudes da vida:
o presente era um inferno, o futuro — um abismo insondável.
Aproximava-se o Natal(4).
Porém, a festa da límpida e memorável descida à Terra do Mensageiro Divino de paz e amor, a qual deveria instalar alegria e luz, era para os Suróvtsev uma tortura, cuja única saída era a morte.
Todos os recursos de sobrevivência estavam esgotados; deviam dois meses de aluguel, a lenha tinha acabado e avizinhavam-se os festejos natalinos, quando era impossível achar algum trabalho.
O senhorio havia declarado que, se até o dia primeiro de janeiro não lhe fosse pago pelo menos um mês de aluguel, ele os poria na rua.
Com olhos húmidos de lágrimas, Mery examinou seus bens despretensiosos:
quem sabe se acharia algo para vender ou empenhar?
Ela pôs de lado, sem abrir, sua caixa de madeira repleta de lembranças, cartões, bugigangas, ovos de Páscoa, entre outras coisas, quando viu no fundo da cesta, embaixo de pequenos cortes de fazenda, meia dúzia de panos de prato de linho, bordados e orlados de renda.
A mãe os bordara para seu enxoval, quando ela tinha dezassete anos; Mery sempre relutara em se desfazer deles, de modo que até se esqueceu de sua existência.
Ela decidiu então vendê-los, se lhe dessem um terço do que valiam — dois rublos a unidade; com doze rublos daria para passar as festas.
Agora já era tarde, mas no dia seguinte, na véspera do Natal, ela iria a Gostínyi Dvor e ofereceria os panos para alguma loja.
Se ali não conseguisse vender, tentaria oferecê-los aos transeuntes, numerosos nessa época do ano.
Mal humorada, sentou-se perto da janela e mergulhou em devaneios:
seus projectos feriam-lhe o coração orgulhoso e rebelde, fazendo-lhe afluir recordações que lhe causavam dores quase físicas.
Nos tempos idos, o Natal era o dia mais festejado.
Ela se via enfeitando a árvore natalina num salão amplo, guarnecido de móveis dourados, estofos de cetim, bordados de flores.
Recordava-se também de suas idas de carruagem a Gostínyi Dvor para fazer compras; mas, na época, não tinha problemas e passava indiferente por entre os pobres parados junto à colunada oferecendo aos transeuntes sua humilde "mercadoria".
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 13, 2016 7:28 pm

Jamais lhe sobrava dinheiro para comprar algo daqueles desventurados, tiritando de frio, na esperança de ganhar algum níquel para comprar pão.
E, se amanhã toda aquela gente snobe passasse por ela indiferente, sem ao menos dignar um olhar para seus panos bordados?
Assaltaria a alguém a ideia de que no porvir tenebroso se espreita a Némesis(5), que, talvez, os fizesse passar pelos mesmos suplícios, embaixo daquelas arcadas?
Suspirando pesadamente, Mery enterrou o rosto nas mãos.
Durante esses dois últimos anos ela só não pensou em Deus!
Nenhum arrebatamento ao Pai Celeste ou aos santos, protectores de todos os sofredores, acalentava seu coração atormentado.
Ao contrário, ela censurava o Céu por injustiça e crueldade; ferviam nela ódio, indignação e amargura espantosos.
Foi com esse estado de espírito que ela partiu no dia seguinte para Gostínyi Dvor, onde o acaso a fez conhecer Van der Holm.
A resposta à carta de Mery não se fez esperar.
Van der Holm informava que a esperava dali a dois dias, das treze às dezasseis horas.
No dia marcado, Mery colocou suas novas luvas e o traje de luto, resgatado da penhora na véspera, e pôs-se a caminho acompanhada pelo irmão, pois não queria ir sozinha.
Pétia deveria aguardá-la junto ao portão.
A viagem foi longa e o local era isolado.
A casa ficava no fim de uma travessa, em meio a datchas circundadas por jardins e cercas de madeira.
Era um prédio alto de alvenaria, cercado por enorme jardim.
O cocheiro parou diante de um portão gradeado de bronze, de onde partia uma ampla alameda varrida meticulosamente da neve e coberta de areia, levando ao umbral.
Por entre os galhos neviscados, viam-se janelas com estores de seda vermelha abaixados, sendo algumas guarnecidas de grades.
Sobre a casa repousava um selo de tristeza angustiante.
— Fantasia estranha desse ricaço:
esconder-se nos confins da cidade! — balbuciou Mery, preocupada, esquadrinhando em volta.
Fique andando, Pétia, para não se resfriar; tentarei voltar o mais breve possível.
O portão de entrada estava destrancado.
Mery atravessou a alameda e tocou a campainha da porta, acima da qual, numa placa de cobre, via-se escrito:
"Óscar Van der Holm, doutor em teosofia".
Um minuto depois, a porta de madeira maciça foi aberta e o mordomo, de libré escura e elegante, deixou-a entrar no vestíbulo.
Era um homem de meia-idade, de rosto magro e malares salientes, barba grisalha, olhos escuros e penetrantes; Mery estremeceu sob o olhar perquiridor.
Enquanto o criado lhe tirava o casaco, Mery, angustiada, examinou o ambiente.
O vestíbulo era bastante amplo, com paredes revestidas de papel velho; nas laterais, apoiados nos pedestais, perfilavam-se os bustos brônzeos de sátiros, monstros corcundas e cabeças de animais.
O ar recendia cheiro acre e penetrante.
No fundo da peça, uma escada com balaústre de bronze trabalhado, coberta de tapete negro, levava ao segundo pavimento; o criado, porém, instruiu a visitante a entrar pela porta lateral do térreo.
Após atravessarem um salão e, depois, uma biblioteca abarrotada de livros nas estantes altas e cinzeladas, finalmente ele abriu uma pesada porta de carvalho e suspendeu um reposteiro franjado.
Mery parou estupefacta.
Pareceu-lhe ter-se transportado ao gabinete do doutor Fausto, tal como o representavam nas pinturas.
As paredes ali eram revestidas por lambris de madeira, todos os móveis, em estilo gótico; os reposteiros, os estofos e as toalhas de mesa, em pelúcia violeta.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 13, 2016 7:28 pm

Num canto, sobre um pedestal de rocha negra, delineava-se em tamanho natural a estátua de Satanás sentado, de olhar vivo e rosto respirando expressão demoníaca, cruelmente escarnecedora.
Através da alta janela gótica com vidros coloridos filtrava-se a luz do sol invernal, reverberando em diversos objectos estranhos que se amontoavam sobre uma mesa grande, diante de uma poltrona onde estava sentado o próprio anfitrião.
Ele se levantou e estendeu a mão para a jovem visitante; Mery arrepiou-se do gélido contacto e olhou para ele perscrutadora.
Agora, ele lhe parecia mais alto e mais jovem do que quando vestia a peliça.
Era um homem com menos de quarenta anos, magro e bem talhado, rosto bonito e regular, cuja palidez cérea era acentuada pelos cabelos negros; a expressão dos enormes olhos, afundados entre os cílios densos, era enigmática; não obstante, nos lábios descoloridos rutilava um sorriso amistoso.
— Queira se sentar! — disse ele, apontando uma poltrona para Mery.
Quando ela balbuciou algumas palavras de agradecimento por sua generosidade, ele a interrompeu:
— Por favor, não fale mais disso!
Se eu pude lhe proporcionar alguma satisfação com essas ninharias, fico infinitamente gratificado.
Vamos directo ao assunto — acrescentou ele, afável.
Devo preveni-la que sou um ocultista e leio exclusivamente obras de magia.
Interessam-me muitíssimo as ciências ocultas que tratam do mundo do além e das forças desconhecidas da natureza.
Tal como Hamlet, eu creio que entre o Céu e a Terra existe muita coisa de que não suspeitam os "cientistas" titulados; entretanto, constranger-me-ia a presença nos meus estudos de uma pessoa manifestamente incrédula, como é a maior parte de nossos jovens modernos; eles teriam escarnecido de mim à surdina e me tomado por desvairado.
Confesso até que, por certos motivos, eu procurava justamente uma mulher que trabalhasse de leitora.
Como vê a senhora, sou bem franco.
Assim, se a minha proposta não a constrange, poderemos ser bons amigos.
— Absolutamente, terei imenso prazer de ler livros de ocultismo, pois sempre me interessei pelo tema.
Aliás, devo acrescentar que, há uns dois anos atrás, fui testemunha de fenómenos muito estranhos — impossíveis, eu diria — e até hoje não consegui lhes dar uma explicação.
Talvez o senhor, um especialista nessas questões, possa me explicar essas leituras e eu ficaria grata se o senhor, mais tarde, interpretasse aqueles estranhos e terríveis acontecimentos por mim testemunhados.
— Excelente! Tenho a impressão de que foi um bom génio que a enviou para mim! — exclamou Van der Holm.
Sem dúvida, eu lhe explicarei tudo que desejar e estou feliz por ser útil.
No que diz respeito aos fenómenos vistos, a senhora poderá descrevê-los depois e nós os analisaremos com cuidado.
Confesso que, para os meus estudos, os factos vividos por testemunhas fidedignas são mais valiosos do que os narrados em livros.
Em vista do que eu disse, Maria Mikháilovna, espero que a senhora não se recuse a ser minha secretária.
Eu gosto de ditar as conclusões de meus trabalhos; porém, acredite, não quero abusar.
— O senhor pode ficar certo de que farei o possível para deixá-lo contente comigo.
— Então está acertado:
a senhora será minha secretária e leitora; uma vez que assume dupla função, é justo que eu lhe pague em dobro.
Seu salário será de cem rublos por mês, com direito a folga nos feriados.
Mery se sentia no sétimo céu e agradeceu lacrimosa.
Ali mesmo eles combinaram que ela viria trabalhar já na próxima segunda-feira — dali a três dias —, das três horas da tarde às nove da noite.
Ao saber onde Mery morava, Van der Holm acrescentou:
— Sua casa fica muito longe e vir a este ermo seria arriscado para uma jovem sozinha, à noite.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 13, 2016 7:28 pm

Façamos o seguinte:
o meu coche está quase sempre desocupado, pois saio raramente; eu mandarei o cocheiro buscá-la e levá-la para casa.
Assim sua mãe não ficará preocupada.
Ao se despedir e apertar a mão fria de seu novo patrão, um arrepio gélido perpassou seu corpo.
"Ele deve estar muito doente; Deus sabe por quanto tempo eu terei esse magnífico salário", pensou, meio aflita.

(1) Parlamento. (N.T.)
(2) Pátio com galerias de lojas. (N.T.)
(3) Cidade russa às margens do golfo da Finlândia. (N.T.)
(4) O Natal dos cristãos ortodoxos é comemorado no dia sete de Janeiro. (N.T.)
(5) Deusa grega da vingança e justiça implacável e punitiva, mas consoladora dos humildes e desprezados. (N.T.)
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 13, 2016 7:28 pm

~II~

No dia estabelecido, o coche de Van der Holm estacionou junto à casa de Suróvtseva, e Mery acomodou-se no carro acompanhada por olhares curiosos dos familiares e demais habitantes do prédio.
Ela estava feliz e tranquila, sabendo que a família se encontrava de barriga cheia, o fogão aceso, e que o senhorio não viria insultar sua mãe e ameaçá-la jogar para a rua; ao se ver entretanto, sozinha com o novo patrão, seu coração ficou opresso.
Mas Van der Holm portava-se com tanta discrição e, ao mesmo, era tão amável, que ela se tranquilizou, pensando apenas em executar bem a sua tarefa.
Após ditar algumas cartas e um opúsculo sobre o sonambulismo e estados de hipnotismo profundo, baseados em diversos registos, Óscar Van der Holm comunicou a Mery a intenção de editar um livro de ciências ocultas e forças invisíveis da natureza.
— Para isso — acresceu ele —, eu quero, primeiramente, seleccionar em capítulos o material pronto e distribuído em numerosos apontamentos; subtrairemos também súmulas de diferentes livros, que preciso ler; assim, Maria Mikháilovna, queira me acompanhar à biblioteca.
Para surpresa de Mery, eles se dirigiram não à biblioteca ao lado do gabinete, mas ao quarto contíguo.
O dia curto de inverno se extinguia e já estava escuro; Van der Holm acendeu luz eléctrica.
Com curiosidade pusilânime, Mery esquadrinhou o estranho cómodo.
Era uma sala ampla com paredes guarnecidas por prateleiras contendo livros novos e velhos; num dos cantos havia uma pequena fornalha com retortas e cubos, parcialmente encoberta por cortina preta; no centro ficava uma grande mesa redonda, atravancada de revistas e livros.
Indubitavelmente, só um neuropata semelhante ao estranho anfitrião da casa poderia sentir-se confortável no meio daqueles terríveis adereços que Mery então viu.
Ao lado da porta para o quarto vizinho, havia dois esqueletos, cuja brancura reluzente se destacava no fundo negro dos reposteiros de veludo.
Um dos esqueletos segurava uma bandeja com botelha e um copo em cima; o outro — uma luminária.
Suas órbitas ocas embutiam lampadinhas eléctricas que, em luz purpúrea funesta, iluminavam parte da sala mergulhada em sombras.
O dono da casa parecia alheio ao pânico estampado no rosto pálido da jovem.
Ele se acomodou calmamente na poltrona e começou a folhear um livro; Mery não ousou fazer nenhum comentário e também se sentou calada.
Ela estava de costas para os esqueletos, quando, subitamente, um arrepio percorreu-lhe a coluna!
Por debaixo da mesa esgueirou-se um enorme gato preto que, saltando no braço da poltrona de Van der Holm, pregou em Mery seus olhos verdes fosforescentes.
— Meu Deus, que olhar terrível e cruel tem esse bicho; sua expressão é quase humana! — observou Mery, virando-se involuntariamente para o lado.
O rosto de Óscar franziu com sorriso enigmático.
— A senhora acha isso? — disse, afagando o gato.
O bichano pulou sobre o espaldar da poltrona e ali se acomodou; Mery pôs-se a ler o livro a ela estendido.
O interesse que lhe excitara a leitura e as explicações de Van der Holm absorveram tanto sua atenção, que ela se esqueceu do medo que lhe sugeria aquele ambiente.
Às sete horas, eles passaram ao refeitório e se sentaram à mesa, servida para dois talheres, guarnecida de cristais caros e pratarias.
Apesar de excelentemente preparada, Mery quase não tocou na comida.
Sem saber os motivos, foi tomada novamente por uma angústia indefinida que lhe tirou o apetite.
Após o repasto, a leitura foi retomada, e, às nove horas, o mordomo anunciou que o coche estava servido.
Na despedida, Van der Holm estendeu a Mery um envelope.
— Aqui está o seu salário.
Eu sempre pago adiantado — observou, gentilmente.
Assim, monotonamente, correram meses e Mery aos poucos se acostumou à estranha atmosfera da casa.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 14, 2016 7:39 pm

Os esqueletos e o gato já não a assustavam; seu interesse por estudos ocultistas cresceu diante do incrível mundo que se lhe descortinava.
Encorajada pela boa vontade de Van der Holm, ela fazia frequentes perguntas sobre assuntos que lhe despertavam interesse.
Certa vez, depois do repasto, Van der Holm lhe disse afável:
— Em nosso primeiro encontro, a senhora mencionou ter sido testemunha de estranhos fenómenos ocultos.
Não estou com vontade de trabalhar hoje; conte-me o que aconteceu e nós discutiremos o tema.
Ela agradeceu e narrou os acontecimentos em Zeldenburgo:
o aparecimento do tigre que, mesmo empalhado, rastejou até ela rugindo e rangendo os dentes; em seguida, descreveu a morte misteriosa de Karl e, finalmente, a assombração do cavaleiro — arauto de maus agouros da família Kosen.
Van der Holm ouviu visivelmente interessado e fez perguntas detalhadas.
— E a senhora diz que o tigre morreu misteriosamente, fulminado com o olhar ou palavra de um iogue?
— Foi o que disse o barão, afirmando também que o animal trazia boa fortuna ao seu dono.
Van der Holm sorriu, mordaz.
— É isso o que acham, mas existem excepções.
O tigre de Zeldenburgo provavelmente é algum vampiro da ordem inferior.
E ele contou resumidamente sobre o que sabia dos vampiros, da materialização, etc...
Sua exposição sobre o contacto dos seres vivos com o mundo invisível, sobre os fenómenos da materialização e mais o que ela havia lido nos livros, ensejaram nela a vontade de pôr em prática um experimento.
Apesar das desgraças que se abalaram sobre a família, do trabalho extenuante e constantes preocupações que embotaram o amor por Zatórsky, sua imagem permanecia viva nos recônditos da alma de Mery.
Assaltou-a então o desejo de rever o homem outrora tão amado, ouvir-lhe a voz, nem que fosse do túmulo, para certificar-se de não ter sido esquecida, ou, ainda, fazer um contacto com o pai, ardentemente amado.
Essa estranha vontade manifestava-se tão inteligível em seus olhos expressivos, que Van der Holm disse:
— Seu olhar significativo revela um pedido.
Diga, pois, em que posso ajudá-la!
Se estiver ao alcance de minhas forças, terei prazer enorme em atender ao seu desejo.
— O senhor adivinhou! — inflamou-se Mery.
Tenho um pedido, mas receio abusar de sua generosidade.
O senhor que conhece a magia, diga-me:
é possível invocar os mortos e materializá-los, conforme afirmado em seus tratados, que eu passei a limpo?
— Naturalmente.
É possível invocá-los.
— Ah! O senhor poderia, por favor, invocar o meu pobre pai e o homem de quem fiquei noiva, morto pelos equívocos cometidos?
— Agora estou fraco — disse Van der Holm, após instantes de reflexão —, mas tentarei atender ao seu desejo amanhã.
— E quem será o médium?
O senhor decerto tem alguém.
— Há muitos caminhos que levam a Roma, minha jovem amiga; as invocações por meio de médiuns não são perfeitas, e a elas apelam só os neófitos.
Um iniciado, fazendo uso de fórmulas, não precisa recorrer às forças vitais dos seres vivos, incapazes de proporcionar uma materialização perfeita.
Avise sua mãe que amanhã a senhora voltará mais tarde para casa.
No dia seguinte, eles trabalharam como de costume.
Mery, porém, sentiu todo o tempo o seu corpo pesado e, após o almoço, por duas vezes tonteara-lhe a cabeça.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 14, 2016 7:39 pm

— Vejo que não está se sentindo bem, Maria Mikháilovna, talvez a expectativa a perturbe.
Como quero cumprir a promessa, aconselho-a a descansar um pouco.
Vá à saleta ao lado do refeitório e deite-se no sofá; isso acalmará seus nervos.
Mais tarde, mandarei chamá-la.
Mery agradeceu e foi ao local indicado.
Após ficar deitada por uns dez minutos no sofá macio, adormeceu profundamente, sendo acordada pelo criado.
Constrangida, esfregou o rosto com guardanapo embebido em água-de-colónia e seguiu o criado ao laboratório.
Van der Holm a aguardava, vergando um traje medieval:
calças pretas de seda e camisa de veludo da mesma cor com bordadura de uma estrela e cabeça de Adão; do pescoço pendia um triângulo vermelho.
Quando o criado se retirou, Van der Holm abriu uma porta habilmente disfarçada na parede e introduziu Mery numa pequena sala circular, de cuja lâmpada de tecto espargia luz violeta pálida.
A saleta estava quase vazia.
Havia dois armários de ébano nas laterais; no fundo, alguns degraus davam acesso a um amplo e profundo nicho, encimado por baldaquim, onde também se via uma mesa coberta por toalha branca, sobre a qual Van der Holm depositou os objectos trazidos.
Perplexa, Mery notou sobre a mesa um pedaço cru de carne bovina, um pires com líquido escuro e denso e uma massa farinácea, que ela julgou ser um biscoito cru.
Diante do nicho estava instalado um altar coberto por pano vermelho, sobre o qual jazia um livro antigo encadernado em capa de couro surrado, com cantos metálicos, e dois castiças de sete braços:
um — com velas vermelhas, outro — com pretas.
Ladeavam o altar quatro braseiros de bronze com carvão, sobre os quais Van der Holm despejou ervas secas tiradas das gavetas, regando com um líquido, salpicando de pó branco, acendendo tudo em seguida.
Uma coluna de fumaça acre e asfixiante alçou-se agitada.
Van der Holm subiu ao nicho, empurrou uma portinhola e desapareceu dentro da parede.
Mery, atónita, viu formar-se atrás do nicho um espaço indefinido e nevoento, iluminado por feixes esverdeados.
Van der Holm então retornou, postou-se diante do altar e começou a recitar em voz alta fórmulas cabalísticas, desenhando no ar sinais diversos que se inflamavam por instantes e extinguiam-se com estalido; por fim, ele instou por três vezes:
"Mikhail"! "Mikhail"! "Mikhail"!
O espaço umbroso escureceu e como que entrou em ebulição; instantes depois, no fundo verde escuro surgiu uma esfera negra, variegada de ziguezagues vermelhos, e o quarto foi varrido por rajada de vento frio.
A esfera começou a girar em seu eixo e, aos poucos, foi-se dilatando, assumindo finalmente um espectro humano, em que Mery reconheceu seu pai.
Este curvou-se sobre a mesa e pôs-se a devorar as provisões ali deixadas.
Mery ficou paralisada de terror e nojo.
O corpo seminu era de um cadáver em decomposição; o rosto enegrecido com os olhos esbugalhados estava deformado como o de alguém morto por enforcamento.
A lembrança da morte violenta do pai ainda não se havia apagado da memória de Mery.
Porém, a jovem dominou o torpor passageiro.
— Papai, papai!
Por que você está assim?
Você deve estar sofrendo.
Talvez eu possa...
Ela queria completar:
"orar por sua alma", mas neste instante uma convulsão constringiu-lhe a garganta, seus lábios não conseguiam se mover e uma forte dor lancinou-lhe a cabeça.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 14, 2016 7:39 pm

— Se ele aceitar servir aos senhores do mal, poderá acabar com o sofrimento —, manifestou-se Van der Holm.
Espírito de Mikhail, você quer se libertar de seu corpo putrefacto, não ter mais nem fome nem sede e parar de sofrer como os seres terrenos?
Sua vida astral, depois do suicídio, é um verdadeiro suplício.
A terra e o mundo o olvidaram e o Céu o considera indigno de alçar-se a ele.
Somente os senhores do mal poderão aceitá-lo e aliviar-lhe os sofrimentos; mas, para granjear sua protecção, você deverá rejeitar a luz e trabalhar nas trevas.
O espírito se contorcia e gemia surdamente; aparentemente nele se processava uma luta renhida.
De súbito, ele se retesou e disse em voz lúgubre:
— Estou cansado de sofrer...
Aceito servir às trevas.
Van der Holm tirou debaixo do livro um disco, desenhou nele algo em vermelho, dobrou-o num triângulo e ordenou:
— Venha e pise no disco!
O espírito desceu pesadamente.
— Agora, repita comigo!
"Juro fidelidade aos sete príncipes do inferno (seguiram-se os nomes).
Juro, a partir deste momento, odiar tudo o que antes venerei, e venerar tudo o que antes condenei".
Uma labareda envolveu o espectro que se contorcia e crepitava como se fosse consumido pelo fogo; colunas de fumaça negra e nauseabunda encheram o quarto.
Mas, em pouco tempo, tudo se dissipou e volatilizou-se e ali estava um homem, em nada diferente dos seres vivos.
Era Suróvtseva, vergando seu habitual traje elegante; apenas seu rosto era mais pálido e nos olhos fulgia uma expressão sombria e perversa.
Ele parou a dois passos da filha, cruzou os braços no peito e deitou-lhe um olhar um tanto estranho.
— Obrigado, Mery, por ter-se lembrado de mim.
Mas, por que me chamou através desse poderoso feiticeiro?
Bem, o que está feito, está feito; é melhor ser demónio do que sofrer tanto!
Muda de pavor e angustiada, Mery não acreditava no que via:
ali estava seu pai em carne e osso.
Ela não se atirou, porém, em seus braços como teria feito antes; o pai lhe sugeria um terror insuperável.
Mas não havia tempo para reflectir, pois Van der Holm gritou imperioso:
— Desapareça e instale-se na cidade satânica.
Lá você descansará e encontrará algum trabalho.
Uma nuvem escura envolveu o espectro e, quando a névoa se dispersou, Suróvtseva já tinha sumido de vista.
O coração de Mery batia disparado, sua respiração era difícil e ela, cambaleando, recostou-se na parede; Van der Holm havia reiniciado o ritual das invocações e nesse ínterim gritava:
— Vadim!... Vadim!... Vadim!...
Desta vez, todavia, não acontecia nada e o silêncio continuou imperando.
Visivelmente surpreso, o invocador retomou o ritual.
De súbito, apareceu um ser peludo com cara de macaco, ao qual Van der Holm ordenou que trouxesse o espírito instado.
A criatura demoníaca sumiu e o feiticeiro reiniciou o trabalho.
Quando já pela nona vez ele berrava em voz sonora o nome de "Vadim", uma faixa larga de luz azul celeste recortou o ar e, diante de Mery, surgiu uma nuvem fosforescente, em meio da qual se delineou o busto de Zatórsky:
ele premia ao peito um crucifixo fulgente e fitava-a com olhar cheio de amor, porém repleto de angústia.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 14, 2016 7:39 pm

— Mery, Mery, fuja deste lugar fatídico!
Você está em poder dos demónios — ouviu-se a voz cara e familiar.
Van der Holm soltou um grito desatinado e a cabeça de Zatórsky desapareceu.
Do nicho afluíram multidões de seres esquisitos:
metade humanos, metade animais; ouviu-se uma balbúrdia desconexa, mas Mery neste ínterim tombava no chão desfalecida.
Como de hábito, ela acordou de manhã em sua própria cama.
Sentia-se cansada.
Aos poucos, foi-se recordando da noite anterior, mas como viera parar em casa — disso não tinha a menor ideia.
Como a mãe não falou nada, Mery informou-se pela empregada da hora de sua chegada; essa, uma moça bonachona e meio estúpida, respondeu de pronto:
— Eram umas onze e meia.
A senhora disse estar cansada e foi dormir.
"Que estranho", pensava Mery.
"Esqueci completamente como voltei para casa.
Lembro vagamente ter presenciado a invocação do papai e Vadim.
Lembro também de ter visto a cabeça dele, mas o que ele me disse — não consigo lembrar.
Vou ter de perguntar a Óscar."
Por dois dias o coche não foi buscá-la.
Ao encontrar novamente Van der Holm, Mery instou-o para contar o que acontecera durante a sessão e, sobretudo, o que lhe havia dito o seu noivo falecido, pois que, infelizmente, ela se lembrava de tudo muito vagamente.
— Minha jovem amiga! — iniciou ele.
A senhora pediu para invocar seu pai e o noivo, mas estava indisposta e foi descansar no sofá, na saleta.
Lembra-se? Depois a senhora dormiu e eu, naturalmente, não quis acordá-la.
Quando a senhora despertou, já era tarde, e voltou imediatamente para casa.
Sua imaginação devia estar muito excitada e a senhora simplesmente sonhou com a invocação e o aparecimento das pessoas que lhe são caras.
Assim, por mais que eu queira, não posso explicar-lhe o que viu no sonho.
Faremos a invocação outro dia, quando estivermos bem dispostos.
Espero que dois dias de descanso a tenham restabelecido.
A resposta deixou Mery constrangida, pois ela se lembrava nitidamente de ter ido à saleta descansar por sentir-se indisposta.
Porém, a partir de então, a intenção de tentar invocar os entes queridos despertava-lhe uma aversão incontrolável; ao mesmo tempo, a lembrança do suposto sonho foi-se embaciando e logo apenas ficou uma impressão indefinida de ter visto a cabeça de Zatórsky e ter-lhe ouvido a voz.
Os dias escoavam de modo costumeiro:
Mery lia, traduzia ou escrevia, sob ditado de Óscar Van der Holm, a continuação de seu livro.
Certa feita, quando ela estava no gabinete procurando um apontamento, seu olhar deteve-se sobre a estátua de Satanás, postada no canto.
A incrível vivacidade do semblante do Lúcifer pétreo sempre a intrigou; mas jamais, como naquele minuto, sentiu sobre si os olhos vivos que a fitavam com sorriso perverso.
Para retornar à biblioteca, Mery deveria passar pela estátua, e ela se deteve por um minuto para examiná-la.
Surpreendida, notou que a estátua não era de mármore, como imaginara, mas de material desconhecido, coberto de lã fina, aveludada e densa; dois olhos verdes coruscantes fitavam-na com expressão lugubremente diabólica.
Intrigada, Mery apalpou o pé da estátua e teve a sensação de tocar numa pele macia, sem dúvida de um ser vivo, em cujas veias corria sangue; simultaneamente, picadas abrasantes lancinaram-lhe a mão.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 14, 2016 7:40 pm

Ela soltou um gemido surdo, atirou o corpo bruscamente para trás e teria caído, se um braço forte não a amparasse.
Era Van der Holm a fitá-la enigmaticamente.
— Esta estátua é uma espécie de aparelho eléctrico e, provavelmente, a senhora levou um choque.
Ademais, seus nervos estão à flor da pele nessa atmosfera mística — concluiu, em voz grave.
Mery empertigou-se e enrubesceu.
— Desculpe-me pelo susto idiota!
O senhor acredita mesmo o que dizem os livros que estamos estudando?
O inferno existe?
O senhor já teve alguma prova de sua existência?
O senhor viu algo de sobrenatural?
— Sim, o mundo satânico, tal como descrito nos livros, realmente existe, com todas as suas fórmulas estranhas e invocações; toda fórmula não é nada mais que uma campainha eléctrica invocando o mundo do além e, quando ela é tocada por uma mão conhecedora, acciona as respectivas forças invisíveis.
Conversando, eles retornaram à biblioteca.
— Maria Mikháilovna! — disse ele inesperadamente, recostando-se à mesa.
A senhora não gostaria de dar um grande passo à frente, aprendendo a governar as forças ocultas?
Isto seria interessante, pois colocaria à sua mercê forças terríveis que poderiam lhe trazer a riqueza, o poder, a possibilidade de vingar-se e a força de ordenar, ao invés de ser ordenada.
Não gostaria de ser poderosa e livrar-se, para sempre, das privações, tendo à sua disposição os génios que atenderiam a qualquer ordem sua e que lhe satisfariam qualquer desejo? Ou seja: a senhora gostaria de ingressar naquele estranho e terrível mundo sedutor, protegido pelo dragão guardião?
Mery ouvia, interessada e trémula.
— Eu gostaria... mas tenho medo — balbuciou, hesitante.
— Oh, o medo pode ser vencido! — sustentou Óscar, com sorriso enigmático.
Ele se aproximou da escrivaninha com as incrustações de madrepérola; tirou da gaveta um estojo de couro vermelho e o abriu.
Nele havia um pentagrama esmaltado numa corrente fina de ouro e um anel com ónix, com gravação de um sinal cabalístico.
— O medo é apenas uma sensação tola e estes dois talismãs são eficazes contra a fraqueza dos nervos.
Não quer ficar com eles?
— Queria, pois anseio com toda a alma iniciar-me nessa ciência oculta, mas não posso aceitar objectos tão valiosos — murmurou ela, indecisa.
— Não preciso deles, pois já há longo tempo superei o medo — sustentou Van der Holm.
Ele colocou a corrente no pescoço de Mery.
Imediatamente, um arrepio gélido percorreu-lhe o corpo; quando então ele lhe pôs o anel no dedo, ela sentiu uma violenta queimadura.
Diante de seus pés parecia ter-se aberto um abismo insondável; a cabeça lhe tonteou e ela perdeu a consciência.
Ao abrir os olhos, viu-se afundada numa poltrona, enquanto Óscar Van der Holm lhe dava sais para cheirar.
Ela se sentia totalmente recuperada e um calor agradável espalhava-se por suas veias.
Levantando-se de imediato, ela disse:
— Estou me comportando inadmissivelmente; o senhor não irá querer uma discípula tão fraca — balbuciou, embaraçada.
— Absolutamente.
Uma leve fraqueza é natural para alguém de natureza tão impressionável.
Se está completamente recuperada agora, é um sinal de que terá forças para mandar no mundo oculto.
Quer ver os objectos inanimados se moverem?
— Por favor!
Quero ver se perdi o medo.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 14, 2016 7:40 pm

Van der Holm empunhou o bastão nodoso que carregava no peito, desenhou no ar um sinal, recitou uma fórmula estranha e gritou:
— Ei, esqueleto, venha cumprimentar a senhorita e lhe traga uma ambrósia.
Um minuto depois, ouviu-se o chocalhar de ossos, acompanhado por riso distante; um dos esqueletos dirigiu-se a passos firmes a Mery e curvou-se diante dela.
Pondo-se de joelhos, ele destampou uma garrafa de cristal de sua rolha de ouro e verteu no cálice um líquido, denso feito mel, de aroma entorpecente.
Mery assistia a tudo com os olhos arregalados, mas já sem medo — que seria até natural.
Ela investigou corajosamente as órbitas do crânio, notando-lhe as lâmpadas eléctricas crestando de chamas estranhas.
Sob o olhar imperturbável de Van der Holm, Mery pegou maquinalmente o cálice e esvaziou-lhe o conteúdo.
O gosto do líquido era cáustico e pareceu a Mery que suas veias foram percorridas por uma corrente ígnea.
Sua cabeça girou e ela sentiu vagamente Óscar premer os lábios gélidos dele à sua boca ardente; mas essa sensação fora tão fugidia, que ela não conseguiria dizer se ele a beijara realmente.
Quando ela ergueu o olhar para o feiticeiro, ele continuava parado no mesmo lugar, pálido e impassível como sempre; apenas em seus olhos escuros havia um fulgor de paixão, misto de crueldade.
Insaciável de estudar para penetrar fundo nas esferas arcanas.
Van der Holm sugeria-lhe também um sentimento inusitado:
ela começou a gostar dele, ainda que seu coração permanecesse frio; só os seus sentidos estavam excitados, associados a pensamentos e desejos.
Nesse período ela fez uma estranha descoberta.
Já dissemos que no dia em que Mery examinava a sua velha cesta e encontrou as toalhas que mudaram sua vida, ela havia posto de lado, sem abrir, uma caixa com objectos de lembrança.
Deve-se acrescentar que agora, graças ao salário de Mery, seus serviços esporádicos de tradução, redacção de correspondências e coisas afins, pelas quais Van der Holm pagava generosamente, a penúria da família cedeu lugar a modesta prosperidade.
A mãe e a filha conseguiram alugar um bom apartamento, simples mas confortável; mobiliaram-no e contrataram empregados:
uma alemã vinha estudar com Natasha, e um estudante passou a dar aulas a Pétia.
A família ganhou vida nova.
Mery gostava de decorar seu modesto ninho e, certo dia, após ter comprado uma estante nova, lembrou-se da caixa com as bugigangas.
Qual não foi sua surpresa, quando, embaixo dos ovos de Páscoa, porta-retratos e outras miudezas, ela encontrou o colar, embrulhado em papel de seda, que fora dado pela baronesa Kosen.
Curiosa e irritada, Mery examinou a jóia.
Ora, enquanto a família padecia de fome e frio, que subsídio poderia ter proporcionado aquela coisa, se vendida na ocasião!...
Após a morte do pai, no auge da desgraça, Mery se esqueceu completamente do presente da mulher odiosa que arruinou sua felicidade; depois, ela achou que o colar tivesse sido arrematado no leilão em pagamento das dívidas, juntamente com outras jóias e prataria.
Como aquele colar fora parar na velha caixa com bugigangas? — isso lhe parecia indecifrável.
Com base em certas considerações, ela resolveu mostrar o colar a Van der Holm; ele, um conhecedor de obras de arte, avaliaria a jóia e a instruiria como melhor vendê-la, pois a simples ideia de ficar com uma lembrança da baronesa lhe era repugnante.
Óscar examinou o colar com visível interesse.
— Sabe, Maria Mikháilovna, esta pedra preciosa na verdade é um coração humano, reduzido ao estado de petrificação por um método que eu gostaria de conhecer.
Não é menos curioso o facto de que este coração está fixado ao colar — aliás muito antigo.
Como esta jóia foi parar na mão da baronesa?
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 14, 2016 7:40 pm

Mery ouvia-o pálida e intrigada.
— Ah! Agora estou me lembrando onde vi o colar antes.
Este era um adereço de Káli, e aquela bruxa o surripiou para dá-lo de presente.
Quem será esse fanático que consagrou seu coração à deusa sanguinária?
Vou atirá-lo nas águas do Neva — acrescentou em tom de nojo.
— De forma alguma!
Isso seria uma barbárie de sua parte, Maria Mikháilovna.
Atirar na água uma jóia tão rara e preciosa?
Ela deve ser preservada ao menos para se descobrir a composição química de sua petrificação.
E, se a senhora quer vendê-la, eu compro.
Mery concordou e, quando Van der Holm lhe deu mil rublos, sua felicidade não tinha limites.
Aconselhando-se com a mãe, decidiu deixar o dinheiro no banco em poupança, uma forma de prevenir-se caso Óscar Van der Holm viesse a morrer e ela não conseguisse arrumar rápido um outro emprego.
Obstinada e devotada, Mery continuou seus estudos sob a orientação de Van der Holm; seu anterior relacionamento discreto e cortês deu lugar a certa intimidade, que não ultrapassava, entretanto, as fronteiras do decoro.
Certa vez ao entrar na biblioteca, Mery ficou pasma com o aspecto doentio do mestre.
Ele respirava pesadamente e premia, vez ou outra, as mãos contra o peito ou garganta; um sofrimento indescritível transfigurava, em convulsão, seu rosto lívido.
— Talvez o senhor não esteja disposto a trabalhar hoje e precise descansar; eu venho amanhã — propôs Mery.
Ele fez um gesto negativo com a mão e começou o ditado; subitamente, jogou o corpo para trás, contraindo-se em dor.
De sua boca soltaram-se estranhos silvos e sons borbulhosos, como que de água se despejando do barril, enquanto ele tentava rasgar o colarinho.
De chofre, seu gato deu um bote e cravou as garras no pescoço de Van der Holm.
Na luta para se desenvencilhar, ele caiu da poltrona e rolou pelo chão.
— Deixe-me, criatura do inferno, sair deste cadáver errante! — urrava Van der Holm, contorcendo-se em dores.
Estupefacta, Mery assistia àquele espectáculo terrível, sem saber o que fazer para ajudar o infeliz.
Neste instante, à biblioteca irrompeu o mordomo.
Com um pano de linho preto em argênteos sinais cabalísticos bordados, ele içou o gato pelo pescoço e o atirou para outra extremidade da sala, onde a criatura nojenta caiu inânime, esticando as patas.
Cobrindo Van der Holm com o tecido, o mordomo deu de ombros e disse para Mery:
— Acalme-se, senhorita, o patrão teve uma crise cardíaca; o seu gato adorado sempre o ataca e, depois, fica esticado de medo, fingindo-se de morto.
Que animal! Vou mandar atrelar os cavalos; por favor, aguarde na sala.
Se amanhã a carruagem não for buscá-la, é porque o patrão ainda está fraco.
Só no quarto dia daquele episódio o cocheiro foi buscá-la; mas os três dias em que ela ficou em casa foram angustiantes para Mery.
A imagem de Van der Holm perseguia-a feito pesadelo e, acima de tudo, atormentava-a uma dó inexplicável e a vontade de vê-lo; à noite, ela teve a sensação de que ele a estava chamando.
Esta preocupação angustiante era ainda mais opressa pelo facto de que tinha de escondê-la dos familiares.
Ela jamais falou à mãe estar estudando a magia, com medo de preocupá-la, doente, vítima de tantos infortúnios e privações, que também se reflectiram sobre a pequena Natasha, débil e anémica.
Trémula de nervosismo, Mery adentrou a casa misteriosa.
Van der Holm recebeu-a na biblioteca.
Envelhecido e pálido tal qual espectro, ele estava sentado na poltrona, os olhos febrilmente faiscantes, afundados.
O gato, como sempre, aninhara-se atrás de suas costas, no espaldar.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 14, 2016 7:40 pm

— Não existe um meio de aliviar sua terrível doença? — perguntou ela, apertando-lhe a mão húmida e fria.
Um sorriso amargo contorceu os lábios de Óscar Van der Holm.
— O meio existe, porém é doloroso.
— O que é, então?
— A morte. Só ela pode me aliviar dos sofrimentos... se eu...
- Não pode morrer? Por quê?
Como o senhor pode ser privado da última libertação, dadivada a qualquer criatura de Deus?! — redarguiu Mery, olhando com pena para o belo e pálido rosto do interlocutor, contorcido por dores.
— Tss! — fez Óscar, erguendo a mão diáfana, tal qual cera.
— Não pronuncie jamais esse nome!
A senhora não compreende que estamos aqui nos domínios do inimigo do Céu?
Ele se ergueu da poltrona; um leve rubor cobriu-lhe as faces pálidas.
— Mery, liberte-me!
Eu lhe deixo tudo:
o meu nome, os bens, os conhecimentos — tudo.
A senhora ficará a salvo da pobreza e eu lhe darei os terríveis poderes pela dádiva preciosa de deixar-me morrer, livrar-me deste corpo funesto e dos sofrimentos.
Nem sempre fui amaldiçoado:
as necessidades e a fome empurraram-me ao inferno.
Nisso, o gato soergueu-se, arqueou o dorso e grunhiu; seus olhos verdes faiscaram de ódio diabólico.
Van der Holm não conseguiu esconder a irritação.
— Cale-se, monstro! — berrou ele, erguendo o punho cerrado e fazendo um sinal, que fulgiu fosforescente no ar.
O gato soltou um miado penetrante, eriçou-se todo, tombou de borco no tapete e ficou estendido imóvel.
— Que bicho tenebroso!
Parece possuído pelo próprio diabo — observou Mery, estremecendo involuntariamente.
Sem lhe responder, Van der Holm ajoelhou-se diante dela, agarrou suas mãos e atraiu-a si.
Seus lábios tremelicavam e os olhos ardiam.
— Apiade-se de mim, Mery!
Eu sei que a senhora gosta de mim; então, liberte-me e seja minha herdeira!
Muda, paralisada sob o olhar ígneo e penetrante, pareceu-lhe que a vida lhe escapava do corpo, sendo substituída por uma força estranha que lhe subtraía a vontade e enchia-a de um sentimento inédito de amor e compaixão àquele homem de joelhos.
Sob o efeito dessa afeição repentina e inexplicável, ela sussurrou:
— Está bem, eu concordo.
Jubilando de alegria, Van der Holm se levantou e premeu dolorosamente a mão de Mery.
— A senhora não renunciará à palavra dada?
— Não! — assegurou ela, nervosamente.
— Agradeço. Para que não ache que eu quero seduzi-la com falsas promessas de lhe deixar meus bens, vou-lhe mostrar uma parte deles.
Ele aproximou-se de um alto armário cinzelado e apertou uma mola; silenciosamente, o armário girou em gongos invisíveis, abrindo-se para uma porta de carvalho, também com tranca secreta.
Óscar abriu-a, acendeu uma vela e, através de uma escada em caracol, eles desceram num estreito corredor abobadado, no fundo do qual se achava uma porta com travas de ferro, decorada no centro com enorme pentagrama em esmalte vermelho e preto, com uma inscrição cabalística embaixo.
No momento em que a porta foi descerrada, acendeu-se uma lâmpada, iluminando um porão não muito espaçoso, repleto de diversos objectos.
No fundo, num enorme cofre à prova de fogo jaziam sacos de moedas de ouro de diversos países, muitas pastas guardavam escrituras de casas em capitais europeias e cheques de bancos estrangeiros — num montante de dois milhões de rublos, no mínimo —, e outras notas promissórias menores.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 14, 2016 7:40 pm

Ao longo das paredes, enfileiravam-se mesas e baús com estojos e caixas de diversos tamanhos, abrigando, na maior parte, outro tipo de objectos preciosos:
jóias de ouro antigas, armas valiosas, tecidos urdidos a prata e ouro, que já não se faziam mais, incrivelmente transparentes; sedas e musselinas — finas feito teia e com bordados raros, como que urdidas por fadas; vestidos de valor inestimável.
Mery ficou zonza.
Com as mãos trémulas e olhar radiante, ela remexia e examinava os diademas, os colares e os pingentes, os rubis, as esmeraldas, os brilhantes, as safiras, as pérolas...
Tudo que se lhe espreitava na alma:
o orgulho, a ambição, a sede por prazeres e até de vingança — tudo lhe afluiu e tomou conta dela.
Como num caleidoscópio, sucederam-se em sua mente todas as cenas humilhantes:
a bancarrota, o desprezo e a descerimoniosa vulgaridade de seus ex-amigos"; resumindo — todos os remoques sofridos.
De posse daquela fortuna, dos milhares de objectos inestimáveis somados, ainda, ao místico poder oculto e terrível de que ela tinha consciência, Mery saberia se vingar pelo desdém e sorrisos hipócritas.
Uma verdadeira torrente de raiva e altivez afluiu-lhe ao coração, excitando sua alma passional e tempestuosa.
Recostado na parede, de braços cruzados, Van der Holm observava o desenredo em seu rosto expressivo, e um sorriso misterioso franzia-lhe os lábios.
Após fechar a última caixa, Mery virou-se para ele.
Seus olhos brilhavam; uma firmeza sinistra ouviu-se em sua voz, quando ela lhe estendeu a mão, dizendo:
— É de livre e espontânea vontade que eu aceito o acordo.
Faço-me sua herdeira e eu lhe dou a libertação desejada.
— Agradeço. A senhora poderá repetir, ainda hoje, essa promessa diante do dirigente máximo das forças que irá comandar?
— Sim! — pronunciou ela em tom firme.
Já estava escuro quando eles retornaram do porão, pois a inspecção dos tesouros levou muito tempo; eles não iriam almoçar, já que, segundo Óscar, haveriam de jejuar até a hora da invocação, que seria promovida entre onze e meia-noite.
De início, Mery assaltou-se por ter de voltar tarde, preocupando a mãe, mas logo decidiu que arrumaria um pretexto.
Quando o relógio bateu onze e meia, Van der Holm tomou Mery pelo braço e a levou à porta, ao lado da qual ficavam os dois esqueletos.
Saindo para um corredor debilmente iluminado por luzes púrpuras, eles desceram uma escada e, através de um caminho secreto, deram numa sala circular, também purpurada.
Van der Holm acendeu duas tochas e as fixou na parede e, então, Mery viu que as paredes do subterrâneo estavam revestidas com tecido preto, bordado com sinais cabalísticos e letras; a porta pela qual ela entrara simplesmente desapareceu.
Perto de uma das paredes, havia uma espécie de altar coberto com pano negro, no qual jazia um castiçal de sete braços com velas de cera pretas; no meio da sala, dispunham-se braseiros com ervas, formando triângulo. Van der Holm acendeu as velas, apagou as tochas e postou-se com Mery no centro do triângulo formado pelos braseiros.
— Onde estamos e o que o senhor vai fazer? — perguntou Mery, trémula.
— Fique quieta!
Estamos no templo de Satanás.
Ponha-se de joelhos e reverencie o senhor do inferno! — disse Óscar, apertando-lhe a mão até doer.
Mery obedeceu submissa.
Van der Holm ergueu o bastão e o girou por sobre a cabeça, iniciando um canto cadenciado.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 14, 2016 7:41 pm

Segundos após, uma chama vermelha e fumacenta fulgiu na ponta do bastão, com o qual ele desenhou um círculo encerrando a ambos; com a mesma chama misteriosa, ele pôs fogo nos braseiros, que se inflamaram em labaredas amarelas, verdes e violetas, espalhando um odor acre e sufocante.
Inesperadamente, ele começou a se desfazer de suas roupas, atirando-as fora do círculo e, abismada, Mery viu-se frente ao próprio capeta.
Uma malha pelosa envolvia sua alta e esbelta figura, pequenas asas imbricavam-lhe as costas e, sobre a cabeça, por trás dos cabelos, saltavam-se chifres como que incandescidos.
Parecia até mais jovem; seus olhos faiscavam e todo ele fulgia de beleza lúgubre.
— Asrafil! — instou ele por três vezes a plenos pulmões, desenhando no ar sinais flamejantes de invocação.
Um minuto depois, ouviu-se um barulho longínquo e, em seguida, o rolar do trovão; a sala parecia ser palco de uma tempestade. Rajadas de vento glacial turbilhonavam fazendo estremecer as paredes; raios flamejantes recortavam a atmosfera escurecida; sob os braseiros elevou-se uma nuvem escura que começou a se densificar.
De súbito um ziguezague aterrou-se ao lado do invocador e uma figura humana assomou-se fora do círculo fosforescente.
O ser, vindo do espaço invisível, era um homem de alto talhe, esbelto, magro e ágil; sua pele era lanosa e o rosto regular era belo, soberbo e sinistro; os grandes olhos, cor de safira, fitaram Mery com olhar abrasador, respirando escárnio e crueldade.
Van der Holm caiu de joelhos.
— Ó, poderoso senhor, eu encontrei quem me substitua; ela irá servir e obedecer-lhe tal como eu.
Ela aceitou o meu legado, tomará conta de meus súbditos e fornecer-Lhes-á as tarefas.
O visitante misterioso estendeu o braço peludo e Van der Holm, tomando a mão de Mery, uniu os dois, proferindo:
— Jure a lealdade e a obediência a Asrafil — príncipe das legiões do inferno!...
Nisso, a cabeça de Mery tonteou e ela perdeu os sentidos.
Ao se recobrar, com cabeça pesada e corpo moído, viu-se na biblioteca.
Ela se lembrava nitidamente da cena no subterrâneo, porém não saberia dizer se o príncipe lendário das trevas não lhe aparecera num sonho.
Van der Holm deu-lhe de beber um copo de vinho, que a tranquilizou e revigorou.
Sem perder tempo, ela voltou para casa e, para seu grande espanto, a porta de entrada estava entreaberta; todos os familiares estavam dormindo e ninguém notou sua chegada.
Ao acordar bem tarde, nem a mãe, nem a irmã falaram-lhe nada.
Ela achou que a força oculta já estava funcionando.
Só um dia depois veio o coche para buscá-la e, quando Mery entrou na biblioteca, Van der Holm recebeu-a dizendo:
— Agora, minha amiga, até a sua iniciação superior e a minha morte, precisamos pôr em ordem os assuntos mundanos.
Para que a senhora herde legalmente o meu nome junto com o património, deve se casar comigo.
Mery enrubesceu.
— Como fazê-lo, se o senhor mesmo diz que não pode pôr pé na igreja?
Um leve sorriso vincou o rosto de Óscar.
— Podemos passar sem essa formalidade.
Traga-me sua certidão de nascimento e, em pouco tempo, teremos a de casamento lavrada legalmente.
Da mesma forma depois formalizarei o testamento, que consolidará seus direitos a todos os meus bens.
Enquanto vou cuidar desses dois assuntos, resolva seus problemas de casa.
Durante a iniciação e no período vindouro, nem seus irmãos, nem sua mãe nos podem atrapalhar, já que conforme suas próprias palavras sua mãe é muito religiosa.
Acredito que o melhor é instalá-los num lugar seguro e, para que a questão financeira não a constranja, eis quinze mil rublos, para começar.
Ele estendeu-lhe as notas.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 15, 2016 8:32 pm

Mery empalideceu:
a ideia de separar-se daqueles que ela amava comprimiu dolorosamente seu coração, mas o seu forte e firme carácter superou esse sentimento.
Voltar atrás ela já não podia e devia submeter-se ao que dela era exigido.
— Eu poderei vê-los mais tarde? — perguntou, após reflectir por algum tempo.
— Sem dúvida!
Não só poderá vê-los, como morar com eles, se quiser.
— Neste caso, uma vez que a minha mãe está doente e Natasha anda anémica, vou instalá-las provisoriamente no sul do continente e enviarei Pétia para um internato.
— Excelente!
Como sua iniciação será no exterior, seus familiares poderão morar na Itália.
Discuta esses pormenores com a família; agora, eu queria que nos conhecêssemos melhor.
Descreva-me sua vida até o momento do nosso encontro, depois eu contarei qual foi a conjugação das circunstâncias que me fizeram o que sou.
— Relatarei de bom grado a história sem graça de nossa ruína — disse Mery, e resumidamente, sem omitir nada, narrou sua vida jovem mas cheia de reveses, já conhecida do leitor.
— No dia do nosso encontro, estávamos à beira do colapso total.
Eu tinha a intenção, se nenhuma ajuda viesse e não encontrasse saída, de acabar com todos, fechando o escapamento dos gases de nosso fogão.
Seria melhor do que morrer de fome.
O seu dinheiro trouxe-nos a salvação e, agora, ao libertá-lo, eu apenas retribuo a gratidão.
Mas essa gente... esses meus ex-amigos"!
Ó, como eu os odeio! — e ela crispou os punhos.
Que doce será a vingança!...
Devo confessar, entretanto, que a necessidade de rejeitar a fé e as orações, que me apoiaram tanto nas provações, ser-me-á dolorosa — e ela suspirou profundo.
Van der Holm acotovelou-se e fitou-a triste; algo parecido com remorso agitou-se em sua alma.
— A desforra pode ser cruel, se assim o desejar, pois todos os artifícios e meios, todo o poder do mal ficará à sua disposição.
Apenas, para o seu próprio bem, evite fazer uso de orações, fique longe das igrejas e de tudo que tenha contacto com o mundo da luz.
Não quero julgar agora quem está certo, quem optou por fadário ditoso:
o eleito pelo Céu ou por Ele rejeitado; mas, já que as nossas almas estão condenadas, devemos considerar isso e gozar das benesses terrenas, que propiciam riqueza, satisfação das ambições e ódio.
Disso eu sei e a minha opção já foi feita.
O Céu não me quis; o inferno, por outro lado, verificou-se mais generoso e eu o servirei para sempre.
Já que temos a vida, precisamos vivê-la, ainda que a contragosto!...
Ele soltou uma gargalhada surda, e uma chama lúgubre brilhou em seus olhos escuros.
— Sim, a necessidade é má conselheira; sei disso! — observou Van der Holm, amargurado.
Vou-lhe contar a minha história, muito parecida com sua.
Meu pai, um médico, era homem bondoso e íntegro, de boa fé, como a maioria das pessoas que, sendo boas e honestas, não permitem patifarias alheias.
Ele tinha um primo com o qual cresceu e a quem amava como irmão.
Esse miserável — um jogador inveterado —, tendo dissipado todo o património, empreendeu-se em negócios escusos e arriscados.
Para a nossa infelicidade, meu pai acabara de receber uma substancial herança, e o seu primo, o patife, convenceu-o a investir muito dinheiro num empreendimento.
No fim daquele ano, esse primo desapareceu com todo o capital dos accionistas e o papai ficou na miséria, já que suas poupanças foram todas aplicadas.
Ele não suportou o golpe e morreu de apoplexia.
Na época eu cursava uma faculdade, mas não tive como terminar os estudos.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 15, 2016 8:33 pm

Não vou relatar aqui os pormenores de nosso pesadelo, que quase nos levou à morte pela fome; a senhora mesma já passou por isso.
Minha mãe ficou à beira da morte e a senhora sabe perfeitamente como é doloroso não ter dinheiro nem para fazer um prato de sopa para a pessoa amada e doente.
Penhorei os últimos trastes.
Nessa época, conheci um colega de universidade que se apiedou de mim.
— Ouça! — disse-me ele.
Você não quer trabalhar como secretário de uma velha idiota, que ainda acredita em diabo e assombrações?
Estou cheio de seus ditados e leituras; além disso, preciso viajar para o interior.
Ela paga generosamente e, assim que você se assentar na vida, poderá largá-la, se quiser.
Imagine se não aceitei a proposta!
Naquela mesma noite fui à casa daquela velha, que não me inspirou um mínimo de simpatia, porém essa impressão foi apagada com sua incomum generosidade.
Ela inquiriu-me do passado, associou-se em dor aos meus infortúnios, presenteou-me com um terno de seu marido e me deu cinquenta rublos para o tratamento da minha mãe.
Reiterando seu convite para eu ser seu secretário, ela disse que o meu antecessor era meio estúpido e não lhe servia.
Não cabendo de felicidade, beijei-lhe as mãos com lágrimas nos olhos.
Infeliz, eu não sabia que estava nas garras do diabo!
O trabalho não era difícil e, simultaneamente, comecei a estudar a magia — tal como a senhora — entre os ditados e leituras fascinantes.
Resumindo:
caí numa emboscada — a mesma que tramei para a senhora e pela qual há de me amaldiçoar um dia — porém, voltar atrás, já era tarde.
Acabei herdando o património dela, que agora passo à senhora, somado a uma herança ainda mais terrível.
Nada disso eu comentei com minha mãe, muito religiosa, que estava à beira da morte.
Depois que ela faleceu, atirei-me irreflectidamente em gozos materiais, ansiando pela vingança.
Eu era jovem e fogoso.
Primeiramente, destruí aquele patife que arruinara a família — o que me proporcionou uma satisfação intensa...
Depois, uma vez que os prazeres vão perdendo seus atractivos com o tempo, as alegrias deram lugar aos sofrimentos.
Eu não lhe disse ainda, mas a vida dos satanistas é assaz longa.
Estou com noventa e cinco anos e já cheguei ao limite, pois o meu corpo não aguenta mais os suplícios.
Quero morrer, ainda que saiba que a morte será horrível...
O que acontecerá depois?
Ficará a minha alma em poder do inferno, mesmo que eu não queira? — essa é uma boa questão!
Nesse instante, um miado foi ouvido e o gato preto saltou sobre o ombro de Van der Holm; seus pêlos estavam eriçados e os olhinhos verdes faiscavam de ódio diabólico.
Mery recuou.
— É ele o responsável por sua desgraça! — exclamou ela em voz surda.
O gato soltou um silvo agudo e, de um salto, atirou-se sobre a jovem, cravando as garras em seu peito e quase a derrubando.
Van der Holm agarrou rapidamente a criatura nojenta pelo pescoço e a atirou no canto, onde ela se enrijeceu, feito morta.
— Que bicho nojento e estranho! — balbuciou Mery, respirando pesado.
— Oh, a senhora ainda não viu nada, minha amiga!
Que dirá do poder terrífico da magia negra superior, comparada com essa feitiçaria grosseira — fracção medíocre de uma ciência obscura campesina?
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 15, 2016 8:33 pm

A senhora penetrará num mundo bem diferente, povoado de anfíbios — seres de existência dupla que vagueiam entre a vida e a morte.
Por acaso sabe que as larvas, as legiões de demónios, os invólucros vivificados e os pensamentos vivos são sombras geradas e materializadas pelo cérebro?
No espaço invisível há uma vida real luciférica, mantida pela respiração humana materializada, pelo sangue das carnificinas e homicídios, desgraças e catástrofes; é com essas emanações humanas que o inferno se alimenta.
Lá fica o reduto dos demónios e de grandes sacerdotes de Satanás; lá reina a verdadeira vida, consagrada aos malefícios.
A senhora penetrará numa atmosfera inacessível ao olho rude de ignaros.
A razão humana recusa-se a intuir essa esfera misteriosa, povoada de entes invisíveis governados por leis das quais os eminentes cientistas nem sequer suspeitam.
Eles imaginam terem alcançado o mistério da criação; entretanto, passam, cegos, ao largo do mecanismo complexo do mal.
— Sim, eu sei que muitas surpresas me aguardam, mas não vou desistir agora, uma vez que já decidi — objectou Mery.
A propósito, por que a minha iniciação tem que ser feita no exterior, e não aqui?
— Porque a maior concentração de satanistas se encontra lá, onde desde há muito tudo está adaptado para a nossa sociedade.
O lugar fica no Tirol, onde os luciferianos centralizaram suas actividades principalmente na Idade Média.
Contarei o resto depois e lhe mostrarei coisas muito interessantes; tudo tem sua hora.
Por enquanto, ficaremos uma semana um longe de outro; preciso de tempo para legalizar os documentos e cuidar de outros assuntos.
Neste ínterim, a senhora deverá instalar seu irmão e preparar a viagem de sua mãe.
Informe-a da forma que lhe aprouver sobre nosso casamento, para deixá-la preparada; daqui a uma semana discutiremos o resto.
Mais uma coisa de que quase me esqueço — e ele foi até o armário e o abriu.
Aqui estão três livros:
de capa preta, amarela e vermelha.
Utilize-os como manuais para os rituais e as fórmulas mágicas.
E isto — ele tirou do armário uma garrafa de cristal com rolha esmaltada em forma de pentagrama — é um licor, que a senhora terá de tomar neste cálice — e estendeu-o.
É um preparado próprio para revigorá-la e livrá-la do medo — particularmente perigoso para quem mexe com os servidores do inferno; a ameaça maior vem de larvas masculinas, que podem destruí-la.
Se a senhora tremer na hora das esconjurações, perderá poder sobre elas.
Após conversar sobre outros assuntos mundanos e abordar algumas questões de ordem ocultista, os dois se despediram como bons amigos e aliados.
No dia seguinte, Mery confiou à mãe a inopinada felicidade:
seu benfeitor, sendo acometido de longa enfermidade e sentindo a iminência da morte, sem ter parentes próximos, decidiu transferir para ela, Mery, toda a sua imensa fortuna pelo enlace matrimonial; mas, estando debilitado e sendo misantropo, não queria que a cerimónia fosse pública, e sim realizada em segredo.
Ao tomar ciência da enfermidade que acometera a mãe e Natasha, ele, magnanimamente, dera-lhe quinze mil rublos, devendo ela, Mery, sem perda de tempo, levar as duas para o sul.
Pétia seria imediatamente matriculado num colégio.
Fraca e doente, Suróvtseva não desconfiou de nada; ao contrário, agradeceu a Deus pelo maravilhoso futuro dos filhos.
Graças ao dinheiro, tudo foi rapidamente ajeitado e quando, uma semana depois, Mery cruzava a soleira da casa misteriosa, Pétia já estava no colégio, faltando apenas comprar as passagens para a mãe e a irmã; Van der Holm ficou tão satisfeito que convidou a ambas para o almoço em casa.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 15, 2016 8:33 pm

A aparência do anfitrião não deixou dúvida a Suróvtseva de que ela estava diante de um moribundo.
Ele mostrou-se gentil e explicou que, sendo um homem completamente sozinho, sentia-se venturado em deixar o património à digna e valorosa jovem, merecedora de seu respeito e amor.
No fim da visita, ele conquistou definitivamente o coração de Suróvtseva ao presentear Pétia e Natasha com dois títulos no valor de vinte mil rublos cada um.
A partida da família estava marcada para dali a três dias.
Mery visitava o noivo diariamente; na véspera da viagem, contudo, ela voltou para casa tarde, visivelmente nervosa.
Disse à mãe que, ao se encontrar com Óscar, este estava acometido de forte crise da doença e, temendo o pior, eles acharam conveniente casarem-se antes da partida dela.
Assim o fizeram, duas horas mais tarde, numa igreja próxima em presença de duas testemunhas, amigos de Van der Holm e um escrivão, que lavrou o testamento, devendo estar tudo pronto no dia seguinte.
Mery já fazia uso da aliança e o seu relato não suscitou qualquer suspeita da mãe.
Esta ainda insistiu em adiar a viagem, mas Mery sustentou que o marido lhes pediu para viajarem impreterivelmente no dia marcado, pois queria que elas voltassem o mais rápido possível.
No dia seguinte, o trem expresso levava Mery e seus familiares para o sul da França.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 15, 2016 8:33 pm

~IV~

Após instalar a mãe numa bela vila nos arredores de Cannes, Mery viajou de volta; mas, ao invés de ir a Petersburgo, foi a uma cidade no sul do Tirol, onde se encontraria com Óscar.
Este a recebeu na estação ferroviária e eles passaram a noite no melhor hotel da cidade, onde se registraram como "casal Van der Holm".
À noite, ele lhe entregou todos os documentos, incluindo a certidão de casamento e o testamento, que consolidavam a sua posição social e os direitos à herança, assim como uma bela soma de dinheiro, até que ela tomasse posse do património em definitivo.
No dia seguinte, foram de carro a outra cidade, da qual empreenderam uma excursão às montanhas.
— Dessa viagem, a senhora voltará como viúva — observou melancolicamente Óscar.
Ele parecia muito triste, doentio e nervoso.
Uma parte da viagem foi feita de automóvel, depois continuada a pé por uma trilha.
A província de Tirol era salpicada por centenas de ruínas de velhos castelos; em direcção a um desses ninhos feudais, grudado a um rochedo pontiagudo e escarpado, dirigiram-se então os viajantes.
A senda íngreme, cada vez mais estreita, levou-os ao desfiladeiro selvático e isolado.
Van der Holm apontou para o cume, onde se via uma parte de paredes semidestruídas, a torre redonda e montes de pedras.
— Ali está o objectivo de nossa viagem — disse ele.
Não há como não admirarmos a habilidade dos construtores que conseguiram erguer cidadelas em altitudes tão estonteantes, difíceis de serem escaladas até por cabritos monteses.
— De facto, não dá para entender como eles levaram os materiais para cima.
Não se vê uma trilha, o rochedo é nu, não vejo o meio de chegarmos lá.
Ademais, a velha torre é capaz de desmoronar sobre nós, do jeito que está mal sustentada — observou Mery.
Van der Holm sorriu.
— Não existe o menor perigo; ela está sólida e aguentará ainda por alguns séculos.
De qualquer forma, é lá que fica o local de sua iniciação.
Mas esteja tranquila: há um acesso!
De facto, assim que eles contornaram o rochedo, Mery viu-se diante de uma trilha estreita, com trechos de degraus esculpidos na rocha.
Serpenteando, a vereda perigosa levou-os ao cume.
Transpondo montes de blocos rochosos e escombros, os dois finalmente alcançaram a torre que, de perto, parecia bastante sólida para aguentar ainda alguns séculos.
As enormes e espessas paredes não apresentavam rachaduras; apenas seus dentilhões haviam ruído parcialmente.
No salão redondo, ocupando todo o interior da torre, atravancavam-se os escombros de uma escada que outrora dava acesso aos pavimentos superiores.
Através de duas fundas seteiras a fraca luz do dia penetrava no ambiente; no fundo do salão erguia-se enorme lareira, encimada por um brasão danificado pelo tempo.
Van der Holm aproximou-se da lareira e apertou um dispositivo secreto, tão habilmente disfarçado, que não se lhe poderia supor a existência.
Imediatamente, um imenso bloco pétreo, ao qual a lareira se fixava, girou sobre gonzos invisíveis, escancarando uma abertura estreita atrás da qual se viam degraus de escada esculpidos no paredão.
A abertura se fechou automaticamente tão logo Mery e seu acompanhante entraram.
Van der Holm tirou do bolso uma lanterna e, guiados por luz, desceram o longo caminho íngreme.
O ar estava pesado.
Mery respirou aliviada ao se ver num corredor abobadado, aparentemente sem saída.
Entretanto, uma porta secreta dava ao que parecia ser um amplo dormitório, a julgar pelos brocados a drapejarem numa cama em estilo antigo; ali se viam também uma mesa, algumas cadeiras e um baú cinzelado, tudo de uma época anterior ao século XIV.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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