Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 15, 2016 8:33 pm

Os viajantes foram recebidos por uma mulher de talhe miúdo, velha e horrorosa.
Sem proferir uma palavra, ela ajudou-os a despirem-se dos trajes de cima e, depois, serviu-lhes um delicioso almoço.
Mery admirou-se da voracidade de Van der Holm, conquanto ela mesma, apesar de ter caminhado tanto, não estivesse com fome e só tomasse um copo de vinho.
Retirada a mesa, eles entabularam uma conversa, quando Mery revelou seu espanto pelo facto de que um velho castelo pudesse abrigar tantos cómodos bem conservados.
— Oh, aqui sobejam subterrâneos e caminhos secretos somente acessíveis aos iniciados.
É um verdadeiro mundo subterrâneo com seus incríveis segredos.
Venha, vou lhe mostrar o local de sua grande iniciação e outros lugares pitorescos.
Van der Holm escancarou uma porta atrás do cortinado; desceram alguns degraus e adentraram um corredor abobadado, iluminado por lâmpada de tecto.
Ao longo das paredes perfilavam-se, feito soldados, cerca de cinquenta esqueletos empunhando rochas; no fundo do corredor havia uma segunda porta, toldada por cortina de veludo preto, bordada com sinais cabalísticos.
Eles deram numa sala redonda, debilmente iluminada por luz vermelha.
Perplexa, Mery estacou e pôs-se a examinar o incrível ambiente.
As paredes pareciam cobertas por esmalte negro, fosforizando sinais estranhos e inscrições desconhecidas em vermelho sanguíneo.
Num nicho, na altura de alguns degraus, erigia-se um trono de basalto preto sob baldaquino; lateralmente, localizavam-se pedestais pétreos negros com sinos metálicos, tingidos em cor negra.
Junto a cada pedestal, em assentos de couro, assentavam-se bustos de demónios, que Mery já havia visto no gabinete de Van der Holm em Petersburgo; mais adiante, ao longo das paredes, jaziam altas trípodes com carvões e feixes de ervas secas em cima, e mais dois nichos com esqueletos, que empunhavam harpas negras.
Em frente do trono, erigia-se um altar sobre o qual jazia um castiçal de sete braços, com velas pretas, uma taça e um livro de conjurações.
— Aqui é o templo das divindades do inferno, onde amanhã a senhora será iniciada e quando, então, eu lhe passarei os meus poderes — explicou Van der Holm.
Vendo que Mery estremecera involuntariamente, ele acrescentou, querendo dar outro rumo à conversa:
— Venha!
Quero lhe mostrar algo muito interessante.
Ele contornou o altar e levantou uma pesada cortina de escamas de aço.
Atrás dela havia uma saleta semicircular em cujos fundos erguia-se, em toda sua altura, um incrível quadro em relevo, feito de material estranho; seria de mármore, de cera ou de metal oxidado? — era difícil de se determinar.
O quadro representava alguns degraus que levavam aos portões de uma pirâmide, estreitos e altos, metade pintados de preto, metade — de vermelho, com emblemas cabalísticos; no frontispício estava esculpida a imagem de Tifão — divindade terrífica dos egípcios.
Na entrada ao nicho, como que montando guarda, postavam-se duas estátuas de basalto:
uma, com cabeça de bode e longos chifres curvados; outra, com cabeça de touro, em cujas órbitas brilhava luz vermelha.
A primeira tinha nas mãos uma chave vermelha, a outra — uma tocha emborcada.
Entre as estátuas encontrava-se uma serpente gigantesca, apoiada sobre a cauda; suas escamas reverberavam as cores do arco-íris e os olhos esmeraldinos pareciam vivos.
Atrás dela, estendia-se um clarão fosforescente e ouvia-se ora um crepitar, ora um chiado, tal qual água despejada num braseiro.
Embaixo dos degraus, como que protegendo a entrada à pirâmide, empinava-se um dragão em patas dianteiras, executado de metal em brasa.
À luz desbotada da sala, tudo aquilo assumia um aspecto funesto.
— Qual é o simbolismo desse quadro? — perguntou Mery.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 15, 2016 8:34 pm

— O dragão — disse Óscar — é o guardião do portão, ou melhor, significa todos os horrores vencidos pela magia negra e seus arcanos.
É o primeiro obstáculo que deve ser transposto por um adepto, pois aquele que sente medo não pode cruzar o limiar do mistério.
Vejamos as estátuas!
O bode é o senhor poderoso; ele está com uma chave e um livro, símbolos do poder sobre as forças do mal.
O touro personifica a força e a energia que se adquirem para dominar as falanges satânicas e para sugerir-lhes o temor.
Quanto à serpente, esta é a serpente da Vida, rastejando ao Tabernáculo do Bem, para envolvê-lo e fechar o círculo, abocanhando sua própria cauda, asfixiando-o com seu corpo flexível.
Mas os arcanjos velam em volta do Tabernáculo e, com as espadas flâmeas, talham o corpo da serpente, que não pára de trabalhar e tenta agarrar sua própria cauda.
Devo dizer que os bruxos da ordem superior conseguem penetrar nas moradas do inferno.
Ele foi interrompido por um miado alto.
O gato preto petersburguês saltou de um canto escuro, pêlo eriçado e rabo em pé.
Curvando o dorso, a criatura nojenta rastejou até a escada, pôs-se em patas traseiras e tocou com as garras o feixe fosforescente atrás da serpente.
A porta da pirâmide abriu-se com estrondo, revelando um espaço escuro, lembrando vale nevoento.
O gato atirou-se naquele sorvedouro e a porta se fechou.
— Traspassando assim esse umbral, a senhora encontrará prazeres até hoje ignorados.
Bem, por hoje basta; voltemos para jantar!
Eles retornaram ao quarto descrito anteriormente e a criada serviu-lhes uma farta refeição.
Mery admirou-se novamente do apetite de seu companheiro, que a estimulava dizendo:
— Não faça cerimónia, coma e beba à vontade; depois, vá dormir.
Amanhã precisará de muitas forças.
Após conversarem por algum tempo, ele se levantou e estendeu-lhe a mão.
— Adeus, Mery!
Somente nos veremos na hora de minha morte.
Não me lembre mal!
Uma angústia indescritível comprimiu o coração de Mery.
Ela se deitou, mas não conseguiu conciliar o sono.
Como se uma montanha lhe pesasse sobre peito, o coração parecia ser dilacerado por garras afiadas e à mente afluíam pensamentos bizarros.
Ora ela sentia vontade de dar cabo de sua vida, ora de fugir dali para bem longe; mas, só de pensar em cumprir um desses propósitos, suas forças vitais a abandonavam e ela deixava-se cair nas almofadas exausta e impotente.
Finalmente adormeceu, semimorta de cansaço.
Já era tarde quando ela acordou.
O pequeno relógio perto da cabeceira da cama mostrava duas horas, supostamente da tarde, pois naquele subterrâneo reinava escuridão eterna.
Mery levantou-se, vestiu-se, comeu e tentou ler o livro que encontrou sobre a mesa — mas nada ajudava.
As horas escoavam modorrentas em meio a assaltos de angústia indescritível.
Lembrou-se então do licor que Van der Holm havia lhe deixado para que se fortalecesse.
Após tomar um copo inteiro, finalmente ela se acalmou.
Já eram perto de onze horas quando a porta se abriu de repente e no umbral assomou-se a figura de um homem desconhecido.
Era alto, rosto magro e triangular, pequenos olhos negros e penetrantes; vestia um traje moderno.
Ele deitou sobre a jovem um olhar perscrutador e sorriu sarcástico:
— Como está, irmã Ralda — pronunciou, estendendo-lhe a mão.
— Estou aqui para ajudá-la durante a iniciação, a fim de que não fique sozinha.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 15, 2016 8:34 pm

Ao notar a surpresa da jovem, acrescentou:
— A senhora estranhou o nome com que a chamei?
Ao entrar na irmandade, todos recebem um novo nome.
Chamo-me Uriel; a senhora, a partir de hoje, será chamada de Ralda.
Acho-a muito pálida e nervosa para a cerimónia.
Seja forte e corajosa, querida irmã; não ceda à fraqueza!
Não se pode desistir agora.
O essencial é não ter medo.
Vou mandar a irmã Flaga vesti-la para a cerimónia.
Siga todas as suas instruções; quando estiver pronta, venho buscá-la.
Minutos depois chegou uma mulher e levou Mery ao quarto da toalete com uma banheira de mármore.
— Tome um banho rápido, pois temos pouco tempo — disse Flaga, ajudando Mery a se despir.
Mal se afundara na água, ela soltou um grito de dor e quis sair da banheira:
seu corpo parecia queimar num fogo líquido.
Mas a irmã segurou-a pelos ombros e a fez mergulhar de cabeça na água.
A dor lancinante passou subitamente e Mery, pasma, viu que a água desaparecera.
Teria ela se evaporado ou escoado imperceptivelmente?
O facto é que a banheira estava vazia e o corpo dela totalmente seco.
Flaga ajudou-a a vestir uma malha negra, fina e elástica, que a envolveu feito uma segunda pele; calçou-lhe chinelos dourados com pompons pretos e cingiu seus quadris com várias voltas de faixa de tecido vermelho, bordado a ouro.
Depois, a irmã fixou atrás de suas costas pequenas asas de morcego; os braços e o colo desnudados ela adereçou com braceletes e colar; e, finalmente, soltou os densos cabelos de Mery até os joelhos, que a envolveram feito véu sedoso e ondulante.
Concluindo a toalete, Flaga pôs na cabeça da jovem uma klafta vermelha com dois chifrinhos negros.
Mery se sentia bem, ainda que assaltada de excitação estranha; cada nervo seu fremia e desejos selvagens, antes ignotos, deixavam-na num frenesi.
Ao se mirar no espelho, pareceu-lhe ser uma outra pessoa.
Jamais se vira tão bela, ainda que sua beleza respirasse sedução genuinamente diabólica.
Neste instante, Uriel levantou o reposteiro e aproximou-se dela.
Ele também ataviara-se adequadamente:
uma malha negra delineava seu talhe alto e esbelto, um gorro com chifres cobria-lhe a cabeça e os ombros envergavam uma capa vermelha.
Tomando Mery pela mão, levou-a ao templo satânico, onde se perfilavam os esqueletos.
A sala agora estava profusamente iluminada.
Nas duas trípodes fumegavam carvões e ervas, recendendo um cheiro acre e asfixiante; no altar ardiam castiçais com velas negras; o livro das conjurações estava aberto e o trono era ocupado pela criatura do inferno, já vista por Mery, de nome Asrafil.
No meio da sala encontrava-se agora uma antiga pia de mármore e, ao lado dela, mais uma trípode flamejante.
Postado diante da pia, totalmente nu, Van der Holm tinha um aspecto terrivelmente asqueroso; seu rosto estava transfigurado de sofrimentos e o corpo adquirira tonalidade terrosa.
Uriel levou Mery até a pia e colocou-se do lado da trípode; tirou detrás da cintura um longo estilete com sinais cabalísticos na lâmina e, revirando-o nas chamas da trípode, começou a incandescê-lo.
Nisso, Asrafil se levantou e pronunciou em voz esganiçada.
— Bifru, eu despojo-o do anel de sangue cristalizado, que agora pertencerá a Ralda.
Van der Holm tirou o anel com brilhante negro e o enfiou no dedo de Mery; uma sensação súbita de queimadura lancinou sua mão.
— Agora — continuou Asrafil —, transfira a Ralda seus poderes junto com as fórmulas arcanas.
Van der Holm pegou as mãos da jovem e, segurando-as sobre a água da pia, pôs-se a recitar fórmulas de esconjuro, acompanhando-as, de tempo em tempo, por canto cadenciado.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 15, 2016 8:34 pm

Subitamente um vento varreu a sala e raios flamejantes riscaram o ar; surgidos do corredor, os esqueletos, chocalhando funestamente os ossos, puseram-se a dançar em torno da pia.
Ao mesmo tempo, seres monstruosos — metade humanos, metade animais — apareceram não se sabe de onde e flutuaram acima de Mery e Van der Holm, que parecia ensandecido.
Seus olhos estavam injectados de sangue e o corpo suava em bicas.
Ele prosseguiu com as esconjurações; sua voz trémula e penetrante soava mais alto que o barulho dos trovões.
Neste instante, os sinos negros começaram a repicar em sons lúgubres e prolongados, misturando-se com bulício desordenado.
Uriel tirou então das chamas o estilete incandescido e o cravou, até o cabo, nas costas de Van der Holm.
Este soltou um urro inumano, largou as mãos de Mery e caiu morto.
A jovem mal se aguentava nas pernas, apoiada nas bordas da pia, olhos arregalados.
Feito uma matilha de lobos esfaimados, atiraram-se as criaturas asquerosas sobre o cadáver estendido, disputando-o aos urros, gritos e rugidos selvagens.
Pedaços de carne ensanguentados voavam pelo ar; Mery, estremecida, cerrou os olhos.
Quando olhou de novo, no chão jazia apenas um esqueleto.
Uriel pegou os ossos, neles pendurou uma tabuinha com a inscrição em vermelho "Holm" e os levou para o corredor.
Com o olhar demorado e pensativo, Mery viu serem levados os restos daquele que uma hora antes era um ser vivo.
Como poderia ele, voluntariamente, ter escolhido aquela morte?...
Suspirando, virou-se e interceptou o olhar da entidade misteriosa sentada no trono; os grandes olhos esverdeados fitavam-na com expressão enigmática e nos lábios vagava um sorriso zombeteiro e cruel.
Asrafil saltou do trono e tomou a mão da jovem empalidecida.
— Ralda! Agora você é nossa, pois aceitou esse compromisso diante dos espíritos superiores.
Você nos deve obediência e deverá aplicar-se nos estudos das forças que os ignorantes titulam como mal.
Terá também de manter silêncio absoluto dos mistérios que a unem ao nosso mundo, motivo de zombaria dos seres vivos.
Eles acham que são tolos e desvairados os que querem conhecer o mistério da nossa existência e acreditam em feitiçaria e nas forças poderosas do mal.
Deixe que zombem!
Quanto mais o fizerem, mais seguidores e alimento teremos.
Agora gostaria de apresentar-lhe seus servos, que lhe jurarão a fidelidade.
Ele desenhou no ar um círculo fosforescente, pronunciando fórmula.
Quase instantaneamente no ar despontou uma nuvem que, ao se dissipar, revelou tratar-se de uma legião de seres negros e peludos; uns se pareciam com macacos, outros eram nebulosos, de formas indefinidas, mas todos tinham caras inteligentes e perversas, com grandes olhos vermelhos fosforescentes.
O tamanho da maioria não passava o de um pardal.
Na liderança daquele bando agitado estavam sete diabinhos, maiores de estatura, de olhos penetrantes e caras zombeteiras.
Asrafil ergueu a mão.
— Servos de Bifru, a partir de agora vocês terão de obedecer a Ralda, sua sucessora!
Cumpram zelosamente suas ordens!
Sucedeu-se uma algazarra; por algum tempo a turba umbrosa agitou-se em volta dela e, depois, dissipou-se no ar.
— Estes serão seus servos.
Dê-lhes tarefas, se não quiser que eles a atormentem por serem muito activos.
São capazes, se necessário, de mudarem de aspecto, transfigurando-se em corvos, sapos, ratos, aranhas ou morcegos.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 15, 2016 8:34 pm

Utilize-se deles para praticar qualquer tipo de mal ou para satisfazer sua sede de vingança, mas jamais os use para boas acções, pois essa não é a especialidade deles.
Governe-os e eles a protegerão.
Cabe a eles afastá-la de igrejas e santuários, onde se venera Aquele.
Eles têm ordem de paralisar sua mão, caso você se atreva a fazer algum sinal anti satânico; eles lhe tolherão o caminho à luz, mas apontarão o caminho às trevas e a aliviarão.
Por isso, tenha cuidado para não servir a dois senhores, caso contrário, você terá um fim terrível.
Deixarei aqui Uriel para orientar e aconselhá-la nos primeiros tempos.
Só me falta uma coisa a dizer-lhe:
você ainda terá de pagar um tributo ao inferno, entregando seu corpo para mim — seu senhor.
Amanhã, à meia-noite, eu espero por você.
Ele se despediu com um gesto, virou-se e desapareceu atrás da cortina.
As forças de Mery, porém, estavam esgotadas; como que tonteando diante de um abismo tenebroso, perdeu os sentidos.
Ao se recuperar, Mery viu-se deitada na cama.
Forcejando as ideias, achou ter tido um pesadelo.
Estava quebrada; um peso violento comprimia-lhe o peito e a respiração era difícil.
Sua indisposição era tanta, que desistiu de se levantar; algum tempo depois, porém, chegou a criada trazendo uma bandeja com desjejum substancioso.
— Estou tão fraca, irmã Flaga, que não se sei se consigo me levantar.
Talvez aquele senhor que eu vi ontem queira falar comigo?
Ele ainda está aqui?
— O senhor Uriel está estudando na biblioteca.
Ele disse que a senhora deverá comer e dormir.
Quando for a hora, eu venho acordá-la.
Flaga deitou a bandeja sobre a cama e deu à jovem um copo de vinho muito aromático.
Mery experimentou um calor agradável percorrer-lhe o corpo e a fraqueza passou; tomou um prato de sopa, comeu um pedaço de ave e uma porção de bolo; depois adormeceu num sono profundo e restabelecedor.
Despertada por Flaga, sentindo-se forte e calma, Mery acompanhou a criada para o quarto de banho.
A água da banheira tinha cor rosada e forte aroma entorpecente.
Ao imergir, Mery sentiu estranhas picadas em todo o corpo, acompanhadas de calor intenso, como se fogo se tivesse espalhado em suas veias; a temperatura no quarto passava de quarenta graus.
Após o banho, Flaga disse que lhe passaria um unguento no corpo.
Sem fazer objecções, Mery se estendeu no sofá e viveu uma série de incríveis sensações, à medida que a aromática pomada avermelhada era absorvida por sua pele.
No início, a substância parecia queimá-la, porém a sensação dolorosa logo deu lugar a um vigor intenso, jamais experimentado; seus músculos pareciam de aço e, ao mesmo tempo, eram tão flexíveis que ela tinha a sensação de poder trepar como gato, saltar como tigre e torcer-se feito serpente, como se não tivesse ossos.
Pondo-se de pé, espreguiçou-se e ficou tomada de vontade intensa de se movimentar.
— Agora, preciso vesti-la para o banquete — disse Flaga.
Ajoelhando-se, ela colocou em Mery meias negras de seda e sandálias douradas; soltou-lhe as longas tranças pretas e as borrifou com perfume; depois, sobre a sua cabeça depositou uma coroa com gema amarela no centro, que dardejava chamas vermelhas e alaranjadas.
Sobre o busto de Mery, pendurou um colar de pérolas e brilhantes, a cintura foi cingida com uma faixa bordada a ouro e salpicada de gemas preciosas, acolchetada com fecho em forma de estrela negra.
Após adereçar os pulsos e tornozelos com braceletes, Flaga levou Mery junto ao espelho.
Ao se ver nele, Mery não conteve um grito de surpresa.
Será que o vidro a reflectia certo?
Será que esta mulher de corpo branco marmóreo, como que envolta em véu por cabelos ígneos, brilhando fosforescentes, era ela — Mery?...
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 16, 2016 8:20 pm

Sua figura airosa, grandes olhos ardentes e lábios púrpuros respiravam tanta sensualidade, que, de facto, poderia seduzir o próprio demónio...
— Mas eu não posso ir nua assim ao banquete, aparecer deste jeito a homens — exclamou Mery, sobressaltada.
— Seu senhor gosta de corpos desnudados; além do mais, se ficar muito vestida, passará muito calor.
Bem, vista esta capa de gaze vermelha!
Mal Mery teve tempo de colocar sobre os ombros a cobertura transparente, bordada a ouro, o reposteiro se levantou e no limiar da porta surgiu Uriel.
Seus olhos faiscaram de admiração ao ver Mery — estonteante em seus adereços diabolicamente estranhos; mas ele se dominou de imediato e cumprimentou-a numa reverência.
— Queira me acompanhar, bela noiva do nosso senhor — disse, respeitosamente.
Mery se encerrou na capa de gaze e seguiu-o.
Eles cruzaram o corredor, a sala, onde se desenrolara a terrível tragédia da morte de Van der Holm, e detiveram-se junto aos degraus que levavam à entrada da pirâmide.
Uriel ergueu as mãos e proferiu as devidas fórmulas mágicas.
Imediatamente o dragão recolheu as asas e recuou, enquanto a serpente se enrodilhou e também se afastou.
Então Uriel tomou a mão de Mery, ajudou-a a subir nos degraus e, pegando um martelo de bronze, bateu-o por três vezes na porta, acompanhando as batidas com canto de uma melodia selvagem.
A porta se abriu silenciosamente e Mery teria cruzado o umbral, se não ficasse paralisada com o que viu.
Ela achava que ia adentrar algum laboratório; entretanto, diante dela se descortinava um enorme espelho d'água imóvel.
A penumbra violeta e cinzenta que se derramava pela atmosfera a impedia de avistar bem a lonjura; todavia, ainda que vagamente, podia distinguir lúgubres rochedos denteados que emolduravam as margens do lago misterioso, cuja água azul parecia ser iluminada por baixo.
Junto aos degraus, acostava-se um barco tingido de negro e duas tochas, na proa, espargiam chamas vermelhas e fumacentas.
Assim que Uriel e Mery embarcaram, o barco partiu célere, sem ser por alguém dirigido pela água adormecida.
O lago parecia imenso e eles passaram por diversas ilhotas nuas e desérticas, nas quais ardiam fogueiras como que em noite de São João, derramando luz sanguínea sobre construções bizarras, de arquitectura inédita.
O barco orientou-se directamente à margem oposta escarpada e deslizou para uma gruta, que se verificou ser entrada de um canal subterrâneo abobadado.
Enormes cavernas abriam-se ora de um, ora de outro lado; os paredões eram escavados por imensas e fundas aberturas, feito precipícios, ou projectados em rochedos bizarros.
O quadro lembrava as ilustrações do Inferno de Dante e causava impressão tétrica, acentuada pela luz esverdeada que se espargia sobre o mundo subterrâneo, povoado por criaturas não menos terrificantes.
Deitados na terra ou escarafunchando-se por entre os rochedos, viam-se animais selvagens: hienas, panteras — todos com caras humanas; em alguns lugares, por entre as frestas, saíam seres humanos com cabeça de animais, acompanhando o barco com olhos fulgindo de ódio.
Encontravam-se também outros seres estranhos, meio humanos, meio animais, que se contorciam como serpentes, trepavam ou pulavam com agilidade acrobática de um rochedo a outro, ou que jaziam sonolentos.
Mas o mais incrível era o silêncio mortal que ali reinava; até o bater das asas dos morcegos, que não paravam de voar, não produzia qualquer barulho.
— Que animais estranhos! — observou Mery.
— São os habitantes das regiões satânicas.
A tola humanidade terrestre imagina que o mundo invisível é imaterial e não atina que os seres inacessíveis à sua visão grosseira possuam um corpo.
Há-há~há! Qual seria sua surpresa, tendo alguma mão corajosa descortinado o outro lado do mundo!
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 16, 2016 8:20 pm

Felizmente, todos os tratados de magia negra e os livros de conjurações são escritos de forma incompreensível para os ignorantes — zombou Uriel, rindo sonoramente.
O barco neste ínterim saía do canal e navegava por rio largo em direcção à escadaria cujos degraus inferiores estavam mergulhados na água.
À margem, cresciam árvores de folhagem negra e imóvel e, ao longe, viam-se diversas construções de uma cidade; mas a luz esverdeada e brumosa e a semi-escuridão que a tudo envolvia conferiam àquele estranho quadro uma impressão sinistra.
Ao desembarcarem, Uriel e Mery tomaram uma rua comprida com as construções negras.
Uma numerosa população — homens, mulheres e crianças — parecia vagar sem qualquer objectivo; todos estavam nus e eram macérrimos, os rostos — horríveis e transfigurados de sofrimentos, os olhos — afundados e vagos.
Uma fumaça negra, variegada de clarões amarelos, envolvia-os feito auréola, exalando cheiro nauseabundo.
O medo que tomava conta de Mery desapareceu subitamente; ela se sentia corajosa e, sobretudo, sua curiosidade estava muito aguçada.
Neste instante, na lonjura surgiu uma luz vermelha.
— O que é aquilo, irmão em Satanás? — perguntou Mery, instruída da maneira como deveria tratar seus novos colegas.
— É o palácio de Asrafil.
— Escute, irmão — tornou Mery após uma breve reflexão —, de que forma nós — pois você não é um espectro, já que não morreu de morte corpórea — podemos rodear por aqui, na esfera da morte?
Um sorriso leve franziu o rosto do capeta.
— É muito simples, irmã:
precisamos apenas saber utilizar as leis existentes e ter a chave que abre o mundo invisível.
Os espectros não aparecem no mundo dos vivos, do que há inúmeras provas?
Por que não pode ser o contrário?
Se as esferas infernais não propiciassem tantos prazeres, não haveria tantos interessados em vir para cá.
Bem, estamos chegando.
Eles se aproximaram de uma espécie de vala cheia de líquido esverdeado fosforescente; do outro lado, via-se um enorme prédio, como que executado em metal incandescente.
Uma larga escada levava ao saguão com colunas; nos fundos, abria-se a visão de uma galeria.
Por todo lugar, multidões estranhas de habitantes do inferno apinhavam-se; aparentemente toda a hierarquia tinha ali seus representantes.
Ao lado de seres nojentos com caras animalescas topavam-se criaturas esbeltas e graciosas, cobertas de penugem brilhante e macia; não raro chifres luzidios adereçavam rostos bonitos, ainda que com expressões perversas e lascivas.
Havia ali mulheres jovens e belas, expondo descaradamente seus belos corpos desnudados, como também bruxas horrendas, de olhar assustador.
No meio dessas multidões pulavam e adejavam bandos de capetas garbosos, porém mal-encarados e carrancudos.
Cada qual possuía acima de sua cabeça urna estrela colorida: azul-safira, verde-esmeralda, amare-lo-laranja ou vermelho sanguíneo.
Passando através daquele ajuntamento que se ia abrindo diante de Mery e seu acompanhante, os dois cruzaram a galeria e deram num salão amplo com mesa posta.
Pelo luxo do serviço, aquele festim diabólico superaria um banquete mundano; uma luz vermelha reverberava sobre as louças valiosíssimas e iluminava feericamente os convidados e Asrafil, ocupando um trono alto de dois lugares junto à mesa.
Com o aparecimento de Mery e Uriel, ouviram-se gritos ensurdecedores:
— Viva Ralda, a noiva prometida — urravam vozes desconexas.
Mery aproximou-se.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 16, 2016 8:20 pm

Asrafil ergueu-se, fê-la sentar-se junto de si e estendeu-lhe sua taça.
Foi então que ela viu que a taça estava cheia de sangue e não de vinho, como imaginava; visivelmente enojada, ela afastou a bebida.
Asrafil soltou uma gargalhada e forçou-lhe, goela adentro, o líquido denso e viscoso.
À cena sucedeu uma explosão de palmas e a orgia continuou, alcançando seu apogeu.
Uma música caótica atroou os ares, se é que se pode chamar de música um remoinho de sons misturados com urros da tempestade, gemidos e gritos das vítimas imoladas e rugidos desesperados de animais sacrificados.
De súbito, aconteceu algo totalmente inesperado.
A luz vermelha embaçou, como que se apagando, e deu lugar a um lusco-fusco esbranquiçado; simultaneamente, debaixo das abóbadas cintilou um feixe largo prateado.
Sobreveio, por segundos, um silêncio mortal, seguido da gritaria dos presentes que saltavam dos lugares e se amontoavam no fundo do salão, rostos assustados e transfigurados de ódio.
Asrafil, o primeiro a deixar o trono de um pulo, enrodilhou o seu longo rabo na Cintura de Mery.
A mesa do banquete tinha desaparecido como que por encanto.
Numa banda de luz descendente delineou-se uma caravana extraordinária como que vinda das alturas, liderada por um majestoso ancião de roupas alvas e manto salpicado de diamantes; em sua cabeça prateada repousava uma coroa de seis feixes, tão ofuscante, que era difícil fitá-lo.
Na mão ele empunhava um crucifixo, irradiando luzes multicores.
Ao lado do ancião, descia um jovem alto também de branco.
Por baixo de seus cabelos cintilava uma chama dourada e a barba negra emoldurava-lhe a parte inferior do rosto.
Numa das mãos ele segurava uma cruz radiosa, na outra — uma espada, cuja lâmina ardia flamejante.
Atrás daqueles dois representantes das forças puras superiores, vinham homens em trajes de cavaleiros e túnicas curtas prateadas, no peitoril das quais havia um cálice bordado, encimado por cruz; todos os cavaleiros estavam armados de crucifixos e espadas.
Em volta, agrupavam-se alvas figuras transparentes e, atrás delas, seres vagamente delineados — os espíritos da natureza, subordinados a magos.
Um canto harmonioso, suave e potente ao mesmo tempo estremecia as paredes do palácio satânico.
O antro satânico estava irreconhecível.
Rolando no chão em convulsões, os servidores do mal vomitavam um líquido esverdeado e gelatinoso.
Neste ínterim, porém, Asrafil levantou-se com visível esforço, uivou feito fera e pôs-se a atirar flechas ígneas nos espíritos puros, sendo acompanhado por outros.
Ajoelhados, com rostos transfigurados de ódio e fúria, eles imitavam o seu senhor.
Logo, uma chuva de projécteis incandescidos sibilou no ar e atingiu os mensageiros da luz; não obstante, estes avançavam apesar dos sofrimentos causados pelas emanações contagiosas do mal.
As pessoas tendem a acreditar que o reino das trevas é fácil de ser derrotado por seres límpidos.
Não! A luta contra o inferno é dura e renhida para resgatar dos demónios as almas ainda em tempo de se arrependerem.
Lentamente, o exército do bem foi avançando.
O canto tornava-se cada vez mais poderoso e, à medida que os feixes de luz clara atingiam os grupos de demónios, entre os satanistas instalava-se pânico.
Um grupo de homens e mulheres, nus e repugnantes, separou-se da multidão e, rastejando, tentava chegar até a faixa de luz.
Eram os desafortunados, em cujo coração ainda havia resquícios da consciência de sua pobreza espiritual, atraídos pela harmonia do bem.
O crucifixo na mão do ancião espargia feixes de faíscas douradas; a sua voz chamava e os encorajava, prometendo auxílio e perdão; ao mesmo tempo, chamas douradas caíam de cima feito flocos de neve e, ao atingirem algum demónio, faziam-no tombar, contorcido em dor(6).
A deserção dos arrependidos motivou, entretanto, uma explosão de fúria por parte dos satanistas.
Negros projécteis choveram sobre os infelizes, que se contraíam de espasmos.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 16, 2016 8:21 pm

Alguns sucumbiam, outros prosseguiam obstinados para vencer a distância que os separava do feixe luminoso.
Subitamente, o ancião curvou-se e cobriu-os com manta diamantina.
Olhos arregalados, Mery assistia a tudo perplexa; de repente ela compreendeu que estava perdida e quis se aproximar da luz para fugir daquele local sinistro.
Tentou se livrar do elo diabólico que a atara, mas debalde.
Quando viu os guerreiros do bem se alçando e partindo, foi tomada de desespero e começou a se debater e gritar, mas ninguém já lhe dava atenção.
Postado a alguns passos, Asrafil parecia desanimado; ao lado dele, Uriel conversava animadamente; muitos dos convivas jaziam inânimes no chão.
Uma meia-luz dourada ainda se espargia pelo ambiente e os flocos alvos a flutuarem no ar apontavam que o antro satânico acabara de ser visitado por forças de luz.
Nisso Mery ouviu Asrafil expedindo alguma ordem a Uriel, pois este saiu do salão, seguido de seus subordinados.
Logo depois, ela ouviu gritos e barulho de luta e viu uma mulher gorda e suja, de rosto transfigurado de pavor, sendo arrastada.
Uma nuvem de capetas grudou feito sanguessugas no corpo da bruxa, que se debatia desesperada.
Rapidamente, a mulher foi derrubada aos pés de Asrafil e este lhe cravou o punhal na garganta.
O sangue espargiu em chafariz do ferimento, derretendo-se no ar feito fumaça escura.
Asrafil abaixou-se e sorveu-lhe o sangue espumoso, o que parecia tê-lo revigorado; outros rastejaram ao cadáver para também matar a sede.
Mas os esponsais satânicos pelo visto tinham sido adiados, a julgar pelas palavras de Asrafil a Uriel.
— Leve Ralda daqui.
Eu a chamarei quando me livrar do contágio da visita...
Uriel curvou-se e levou Mery ao quarto contíguo.
— É melhor a gente se vestir; está frio depois desta aventura.
Só então Mery sentiu um frio glacial.
— Pegue isto — disse Uriel, tirando detrás da cintura um saco com duas malhas, de tecido fino, macio e brilhante.
Enquanto se vestiam, ele adicionou:
— E não é para odiar esses monstros lá de cima?!
Eles não param de nos atormentar e vivem estragando nossos banquetes sob o pretexto de "salvar" algumas almas "arrependidas", como se elas os tivessem invocado.
Defendemos os nossos por uma questão de princípios, mas isso é idiotice:
bastava expulsar daqui esses parvos, inseguros em sua fé satânica.
Já de malha, Mery sentiu o corpo confortável e calada seguiu Uriel ao rio, cheio de barcos a essa hora.
No canal subterrâneo, Mery pôs-se a observar com novo interesse as figuras bizarras e lúgubres dos moradores do inferno.
Vez ou outra ela divisava algum demónio pensativo recostado na parede, aureolado por coroa vermelha que lhe delineava a cabeça, com cara sinistra e as asas dentadas.
— Em que eles podem estar pensando? — sussurrou Mery.
— Em malefícios que possam praticar para subir na hierarquia satânica — respondeu Uriel, também sussurrando.
— Mas eles também são um sopro de Deus...
Mal pensou em dizer isto, Mery imediatamente soltou um grito de dor.
Era como se fosse perpassada por ferro em brasa.
— Com Ele você já não tem mais nada em comum — observou Uriel, sorrindo com escárnio.
Mery abaixou a cabeça sem dizer nada.
Neste instante, o barco saiu para o lago.
— Causa-me horror esse mundo desconhecido!
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 16, 2016 8:21 pm

Diga-me, irmão Uriel:
terei de voltar para cá?
Não me seduz essa ideia...
— Decerto voltará, irmã Ralda, ao menos para descansar.
Vê aquelas ilhas verdejantes de ciprestes e figueiras?
São lugares de repouso, para onde nos retiramos quando a vida mundana se torna insuportável.
— Posso vir a qualquer hora ou terei de aguardar por um convite?
— Deverá comparecer aos sabbats, participar de caças satânicas, entre outros eventos.
Toda vez que se ouvir o tocar dos sinos ou os sons de trombeta, as esposas dos demónios são obrigadas a vir.
Mas não se preocupe, logo achará as nossas festas aprazíveis.
Você gostará de nossa vida, cheia de agitações cálidas e volúpia demoníaca, com banquetes nocturnos nos cemitérios e orgias de larvas e vampiros.
Como não gostar de uma vida longa e da juventude eterna, mantida pelos sumos vitais das vítimas?!
Quão míseros lhe parecerão, depois disso, os prazeres "mundanos"!
— Irmão Uriel, quem é você, afinal?
Ser humano ou demónio?
— Sou tal como você, um anfíbio entre a Terra e o inferno.
— E o que aconteceu a Van der Holm após sua terrível morte?
— Agora ele é um demónio.
Se você ainda sente algo por ele, poderá aliviar seu estado; seria até uma forma de reconhecimento.
Vou ensiná-la como isso pode ser feito; ele poderá se tornar seu protector e conselheiro.
— Ah, eu não queria perder contacto com ele; justo agora, quando estou sozinha enfrentando tantos mistérios terríveis...
Neste ínterim, o barco acostou e eles adentraram o subterrâneo que levava à pirâmide.
Mery estava completamente exausta e tremia de frio.
Flaga preparou-lhe imediatamente um banho de imersão e, depois, vestiu-a.
Uriel, sentado à mesa, também de roupa trocada, aguardava-a no refeitório.
Avidamente, ambos se refestelaram com o lauto jantar acompanhado de vinhos fortes.
Após o café, Mery perguntou:
— E como será a minha vida agora?
— Poderá levar uma vida social mundana, mas lembre-se de que a sua virgindade pertence ao nosso senhor — Asrafil.
Depois, se quiser, poderá se casar.
Deve também consagrar uma parte de seu tempo aos estudos dos livros que tem.
Se tiver algum plano de vingança, ponha-o em prática; para isso os servos estão sempre à sua disposição...
Um estalo, acompanhado por leve explosão, interrompeu Uriel.
— O que foi isso? — alarmou-se Mery.
Uriel ergueu sorrindo a mão e a alguns passos deles surgiram os súbditos dela — que ela já conhecia.
O líder dos capetas saudou-a e exigiu que lhes dessem uma tarefa; Mery, acabrunhada, dirigiu-se súplice a Uriel:
— Por favor, ajude-me!
Eu ainda não assimilei a minha nova função.
Uriel tirou do bolso um rolo de papel negro, rabiscou com lápis fosforescente algumas palavras e estendeu-o a Mery.
"Suicídios, homicídios e infanticídios — três cada um; duas punhaladas numa briga de bêbados; uma catástrofe ferroviária" — leu ela, entregando em seguida o papel ao capeta, que desapareceu com o seu bando.
— O trabalho deixá-los-á ocupado por algum tempo — observou Uriel —, mais tarde, eu lhe ditarei um programa.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 16, 2016 8:21 pm

É preciso distribuir-lhes essas tarefas de modo que haja sempre muitos homicídios e sangue derramado, pois é disso que se alimenta o inferno.
Agora, irmã, desejo-lhe uma boa noite.
Descanse bem!
Que Satanás a guarde!
Vá dormir e não se esqueça sobretudo — ele levantou o dedo significativamente — de evitar maus hábitos:
ter pensamentos beatos ou fazer sinais anti satânicos e outras bobagens, que poderão estragar-lhe o sono.
Eles se despediram.
Mery, com cabeça pesada e coração opresso, recolheu-se em seu quarto e logo adormeceu um sono profundo.

(6) O descrito é comprovado nos casos em que os obsidiados não conseguem se aproximar de hóstias ou de relíquias sagradas sem gritos lancinantes, uma vez que os espíritos do mal os atravessam com seus fluidos venenosos. (N. do Autor)
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 16, 2016 8:21 pm

~V~

Ela despertou fraca e quebrada, sem forças para se levantar, e depois de um desjejum substancioso tornou a dormir.
Sua fraqueza física e espiritual prolongou-se por vários dias; Flaga a acordava de três a quatro vezes por dia para obrigá-la a comer e tomar vinho, após o que ela mergulhava novamente num sono profundo.
Finalmente, ao se sentir bastante forte, Mery almoçou bem e levantou-se da cama.
Flaga anunciou-lhe que Uriel queria lhe falar.
Mery vestiu-se rapidamente.
Logo veio Uriel, saudou-a cordialmente e colocou sobre a mesa uma garrafa de cristal e um pequeno cálice.
— Trouxe-lhe um tonificante, querida irmã.
Tome-o três vezes ao dia e logo ficará boa.
Vai precisar de forças para sair deste lugar não muito aprazível.
Tenho alguns assuntos particulares para cuidar, e você deverá iniciar os estudos da magia superior.
A biblioteca que Van der Holm lhe legou, contém obras de valor inestimável e nelas você encontrará tudo de que precisa.
Vou-lhe indicar as fórmulas e o devido ritual que terá de saber de cor.
Você deverá estar bem armada, pois entre os espíritos encontram-se alguns bem recalcitrantes; além disso, precisará comer muita carne e tomar bastante vinho para se fortalecer.
Daqui a dois dias partiremos.
— Então voltarei a Petersburgo?
Eu queria tanto rever a minha mãe — lamuriou-se Mery.
— Não, cara irmã, você ainda não está suficientemente forte para suportar a atmosfera desfavorável que cerca sua mãe; dizem que ela é muito religiosa.
Daqui a alguns meses, poderá até buscá-la; por enquanto, escreva-lhe dizendo que assuntos de herança do marido a impedem de visitá-la.
A nossa irmandade cuidará de enviar suas cartas, sem levantar quaisquer suspeitas.
Eu vou levá-la à Escócia, precisamente a Komnor Castle — um castelo de um de nossos membros, que gentilmente é cedido a irmãos e irmãs que atravessam períodos difíceis de tentação e estudam campos específicos da ciência.
O prédio foi reconstruído ainda no tempo da rainha Elisabeth; está luxuosamente mobiliado e é cercado por parque.
Ficará bem instalada e isso não lhe custará nada.
Ali encontrará o necessário e terá sua própria criadagem.
Os arredores são pitorescos; existem montanhas e penhascos com desfiladeiros interessantíssimos — acrescentou Uriel, sorrindo enigmaticamente.
Graças ao medicamento fornecido, dois dias depois Mery se recuperou tão bem que pôde deixar o castelo.
Primeiro eles retornaram à cidadezinha onde antes haviam pernoitado, quando se deu então a inevitável comédia.
Mery declarou que seu marido caiu num abismo numa das excursões e, enquanto ela foi buscar socorro, um feliz acaso fê-la encontrar seu velho amigo, que a ajudou muito.
De facto, no fundo do desfiladeiro apontado por Uriel foi encontrado o corpo de um homem, em trajes de Van der Holm.
Os criados do hotel confirmaram tratar-se do mesmo, ainda que o rosto do morto estivesse irreconhecível por causa da queda; mas, como todos os documentos e objectos pessoais valiosos estavam com ele, não houve dificuldade de se obter o atestado de óbito das autoridades locais.
Após o enterro do suposto marido no cemitério local, Mery e seu acompanhante dirigiram-se a Paris, onde passaram alguns dias, pois Uriel tinha assuntos a resolver.
De lá, eles foram à Inglaterra e, após dois dias de permanência em Londres, partiram para a Escócia.
Ao desembarcarem do trem, tomaram um carro que os levou a Komnor Castle.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 16, 2016 8:21 pm

A bem conservada estrada era difícil e íngreme, pois o castelo ficava num vale cercado de rochedos escarpados.
Era uma enorme construção no estilo Stuart, com enorme parque.
No caminho, Uriel contou a Mery que o castelo havia pertencido aos duques de Mervin, porém a sua linhagem desapareceu no século XVIII, após o que a propriedade passou para um tronco lateral.
— A família nunca vem para cá, pois dizem que Komnor Castle é mal-assombrado.
Felizmente isso não é um empecilho para nós — riu Uriel.
Mery nada respondeu e continuou olhando pensativa o velho castelo assomando-se por trás do parque verdejante.
Aparentemente eles eram esperados, já que na entrada foram acolhidos por um homem vestido de negro, cujo rosto repulsivo causou impressão desagradável sobre Mery.
"Deve ser algum ex-presidiário", pensou ela, estremecendo em seguida com o comentário jocoso de Uriel:
— Não pense alto, querida irmã!
James Kennedy é um servidor fiel da irmandade.
Voltando-se para o criado, ele adicionou:
— James, lady Van der Holm passará aqui alguns meses; cuide bem dela.
Espero que Merjit tenha deixado tudo pronto.
Sim? Neste caso leve milady aos seus aposentos.
Ao adentrar os seus apartamentos, Mery encontrou uma camareira com o mesmo rosto lúgubre e nojento que o de James.
Esta lhe tirou o vestido de viagem, penteou-a e lhe deu um traje de casa, dizendo que viria anunciar quando o almoço estivesse servido.
"Pelo menos deve ser uma camareira experiente", pensou Mery ao ficar sozinha, examinando a mobília.
Na altura de dois degraus havia uma cama larga sob baldaquino — como era moda nos tempos antigos; as colunas eram em marfim ricamente trabalhado, com incrustações em madrepérola; o próprio baldaquino, com cortinas de brocado verde bordadas a ouro, estava engalanado por efígie com a coroa do ducado.
Em mesmo estilo eram os maravilhosos móveis, de estofos idênticos, assim como o reposteiro levantado, cobrindo uma entrada à peça contígua, que se verificou não menos opulenta.
As paredes eram cobertas por antigos dosséis; a mobília dourada tinha estofos de veludo vermelho e, na grande lareira, encimada por brasão do ducado, o fogo estava aceso, pois, ainda que o tempo estivesse quente, as velhas e grossas paredes eram frescas e húmidas.
Ao lado da lareira havia duas poltronas com brasões nos espaldares e almofadas de veludo vermelho com franjas douradas para os pés.
Mery se sentou e, pensativa, pôs-se a examinar o ambiente com olhar entristecido.
Nas paredes estavam pendurados alguns retratos em velhas molduras cinzeladas.
Seu olhar deteve-se no quadro que representava um senhor de idade mediana, trajando roupa escura, ao lado de uma menina de uns seis a sete anos de rara beleza.
Pela moda da época, ela trajava, feito adulta, um longo vestido de veludo negro; por trás do chapeuzinho, também negro, avultavam-se densos cabelos louro-avermelhados, caindo em madeixas encaracoladas até os joelhos.
Seu rostinho iluminava-se por um par de grandes olhos escuros, olhando severos, orgulhosos e resolutos; a pequena boca com expressão altiva como que confirmava que a pequenina seria, com o tempo, uma mulher voluptuária e enérgica.
Depois de examinar longamente esse retrato, Mery aproximou-se de dois outros.
Um representava um menino de treze-catorze anos, incrivelmente bonito, olhos e cabelos negros, mas que não inspirou simpatia em Mery; o segundo era rapaz louro e sonhador, em trajes de cetim branco com fitas azuis e grande colarinho rendado.
Sem nenhuma razão aparente, Mery se sentiu mal; o ar pareceu-lhe pesado.
Talvez o quarto devesse ser arejado.
Ao notar uma porta que dava para um pequeno terraço, ela abriu-a e, recostando-se no parapeito, pôs-se a examinar a vista do parque em frente.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 16, 2016 8:22 pm

Começava a escurecer; o ar estava aromático e tépido.
Subitamente, Mery avistou o vulto alto de um homem aproximando-se pela alameda, vindo do fundo do parque.
Ao passar perto do terraço, ela observou-lhe o traje de veludo dos tempos de Carlos I, com fitas pretas, gola larga de linho orlada de rendas.
A cabeça era encimada por largo chapéu de feltro com pena branca.
O desconhecido tirou o chapéu e reverenciou Mery.
Era um homem jovem, alto e bem talhado, muito bonito, de rosto sério, emoldurado por densas madeixas e barba pontiaguda negra.
Os olhos bem dilatados sob os densos cílios negros fitaram Mery com olhar túrbido e sinistro, e os lábios púrpuros franziram-se num sorriso cruel de escárnio.
Um frio glacial percorreu o corpo de Mery, enquanto ela acompanhava com o olhar a figura do desconhecido, que sumiu atrás de uma curva da alameda.
Ela voltou ao quarto, trancou a porta do terraço e deixou-se cair na poltrona.
A visão daquele homem a deixou perturbada.
Onde havia visto aquele rosto pálido que, apesar de ser indubitavelmente bonito, sugeria-lhe nojo, quase ódio?
Merjit, que veio anunciar o almoço, interrompeu suas reflexões.
À mesa, Mery contou a Uriel sobre o estranho indivíduo, engalanado como que para um baile de máscara.
— Quem é ele? — perguntou ela.
— É o proprietário do Komnor Castle — respondeu Uriel, soltando uma risadinha.
— Como? Você mesmo me disse que eu ficaria sozinha e que o proprietário nunca aparece no castelo, tendo-o cedido à irmandade.
Agora, verifica-se que aquele senhor, meio afectado, mora aqui.
— Irmã Ralda, você faz muitas perguntas — admoestou Uriel.
A palavra "porque" tem de ser riscada do nosso vocabulário e você deve simplesmente obedecer as ordens dos mestres.
Você já não é mais livre como antes.
Está atada com elos terríveis à irmandade satânica, da qual é seu membro.
Nunca se esqueça disso!
Está aqui para estudar e eu serei seu instrutor nas ciências satânicas enquanto você não se armar o suficiente para se defender dos perigos; até lá, eu a protegerei.
Mas previno-a:
sou um mestre severo e exigente, por isso trabalhe com dedicação, seja razoável e obediente e nós permaneceremos bons amigos.
Agora venha, vou lhe mostrar a biblioteca, onde iremos estudar.
A enorme sala estava totalmente tomada de estantes de carvalho ocupadas por livros.
Numa delas, Mery, para sua grande surpresa, encontrou os três livros legados por Van der Holm.
Após meia hora de prosa, Uriel anunciou-lhe que os estudos começariam no dia seguinte e que ela então deveria ir dormir, sem se esquecer de fazer as devidas rogações a Satanás.
Com a alma pesada, ela voltou ao dormitório, onde a camareira esperava.
Depois de lhe pedir para trazer o penhoar, Mery a dispensou.
Estando sem sono, procurou alguma coisa para ler no armário de livros; porém, quando foi girar a chave, reparou na parede uma porta disfarçada.
Aproximando-se dela curiosa, lampejou-lhe na mente um pensamento vago de que de outro lado deveria se encontrar um oratório com as imagens do Cristo e da Virgem Santa.
Ela empurrou bruscamente a porta, mas, de súbito, sua respiração foi sustada por uma dor aguda que parecia arrancar-lhe a pele.
Isso se deu no exacto momento em que lhe afluiu à mente a lembrança do Criador e Nossa Senhora.
Como pôde ter-se esquecido de se encontrar fora dos domínios puros e sagrados?
Afastando de si quaisquer pensamentos desta natureza, examinou a pequena peça, iluminada por alta janela gótica.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 16, 2016 8:22 pm

Decerto, ali outrora ficava um oratório; porém, o que era agora a deixou atónita.
Do tecto pendiam sete lâmpadas vermelhas a derramarem luz sanguínea em um bloco de basalto negro, sobre o qual se erguia a estátua já vista por ela antes, na casa de Van der Holm.
O demónio representava-se sentado, com as pernas cruzadas e descansando o queixo sobre a mão; seus olhos esverdeados fitavam Mery com incrível vivacidade e expressão de cruel escárnio.
Aos pés da estátua havia uma almofada preta e, sobre a base, fulgia a inscrição:
"Reverencie-me de joelhos".
Ao lado havia um livro encadernado em couro, com cantoneiras de prata.
Movida por força incontrolável, Mery se aproximou, abriu o livro e leu:
"Breviário".
Apesar do que ela já havia visto, ouvido e experimentado, ter de fazer "orações" a Lúcifer era um sacrilégio inaudito.
Estremecida por dentro, virou-se e quis abandonar o local profanado, contudo parou pasma.
Um bando de capetas, já vistos em sua iniciação, tolheu-lhe o caminho e a fez recuar.
Atacada por nojentos monstrinhos, ela compreendeu que eles não a deixariam em paz até que não concluísse o ritual satânico.
Abalada e exausta, Mery finalmente voltou ao quarto e logo adormeceu um sono pesado e forte.
As semanas que se seguiram passaram em trabalho árduo e estafante.
Mery teve de decorar numerosas fórmulas, na maior parte em língua estranha.
Além de sabê-las de cor e salteado, ela deveria escandi-las em diferentes tons; paralelamente, estudou os rituais, os trajes, os aromas, etc... que se usavam nas evocações.
Mery era inteligente o bastante para compreender que, estando em poder do inferno, teria de subjugar os espíritos maus que a cercavam para não se tornar uma vítima deles.
Ela trabalhava com afinco, de modo que Uriel estava contente com sua aprendiz.
Sem dúvida, ela alcançaria altos postos na hierarquia satânica, se não fosse acometida de acessos de lamúrias, recordações, desânimo e de outras tolices.
— Você está indo bem, irmã Ralda, e acha-se bastante armada para que eu a deixe por algum tempo — disse-lhe ele certo dia.
Montei-lhe um pequeno programa de estudos, pois não haverá necessidade de trabalhar muito durante a minha ausência.
Seu organismo passou por fortes abalos e você precisa se poupar.
Espero que este lugar lhe seja de agrado.
— O castelo é muito bonito, mas não pude conhecê-lo melhor.
Nem tive tempo de ver todo o parque por causa dos estudos.
— Mais alguns conselhos de como se comportar, querida irmã, caso vierem seus servos.
Terá de ser gentil com eles, regalá-los com carne crua e outros quitutes, pois eles não só devem obedecê-la, como afeiçoar-se a você.
É nesta afeição que está todo o seu poder!
A lei de atracção, ou de amor — segundo a terminologia usada na sociedade mundana —, funciona mesmo aqui e sua recíproca se aplica a nossos adversários.
Aliás, se encontrar o proprietário do castelo, seja boa com ele — ele tem direito.
Depois do almoço Uriel se despediu e viajou, sem dizer quando voltaria, proibindo Mery de abandonar Komnor Castle a qualquer pretexto.
O tempo estava maravilhoso e Mery resolveu dar um passeio no parque, que se estendia até as encostas que cercavam o vale.
Caminhou vagarosamente aspirando o ar aromático, quando, numa curva da aleia, viu um homem sentado num banco de pedra, à sombra de densos arbustos.
Ao se aproximar dele, o desconhecido levantou-se e foi ao seu encontro, segurando o chapéu na mão.
Era aquele indivíduo estranho em trajes do século XVII, que havia avistado antes.
— Por favor, não se incomode.
Eu ainda não conheço bem este lugar, caso contrário não teria quebrado a paz de sua solidão — disse ela, respondendo à reverência do desconhecido.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 17, 2016 7:11 pm

— Oh! Eu conheço bem o castelo e seus arredores e, se milady me permitir, poderei servir-lhe de guia — prontificou-se ele em voz sonora, como que vinda de longe.
Mery esquadrinhou-o com olhar curioso.
Agora, de perto, ela conseguiu definir o belo rosto, cadavericamente pálido, e os grandes olhos que fulgiam sinistros.
Um frio exalava do desconhecido, mas isso não a deixou admirada:
por experiência própria ela conhecia que de Uriel, Van der Holm, e de outros luciferianos também bafejava uma espécie de brisa gelada, de modo que concluiu que o desconhecido era membro da irmandade satânica, vivendo no castelo, tal como ela, para estudar as ciências arcanas.
— Obrigada pela gentileza!
O senhor também anda fazendo aqui pesquisas pós-iniciáticas?
Está há muito tempo em Komnor Castle?
— Oh, há muito tempo! — respondeu ele, displicente.
— Eu apenas há algumas semanas.
Infelizmente, ainda que me dedique muito, acho esses estudos complicados.
Recebi as primeiras noções de Óscar Van der Holm — um orientador hábil e erudito, com quem estudar era fácil, se bem que tive com ele apenas o abecedário da verdadeira ciência.
— Se eu lhe puder ser útil, milady, terei enorme prazer de transmitir-lhe tudo que sei — propôs o desconhecido.
Durante a conversação, eles cruzaram o parque e começaram a subir uma trilha, bastante íngreme, que serpenteava e perdia-se de vista nos rochedos.
— Para onde estamos indo, afinal? — inquietou-se Mery.
Eles haviam alcançado uma trilha estreita:
de um lado emoldurada por rochedos escarpados, de outro — um fundo vale, salpicado de fendas profundas.
— Queria lhe mostrar as ruínas do velho castelo dos Mervin, abandonado depois que eles se mudaram para Komnor Castle.
Porém está ficando escuro e vamos transferir essa excursão para outro dia.
Contornemos o rochedo; quero lhe mostrar um lugar lendário que talvez lhe interesse.
Mery seguiu-o pela trilha pétrea que serpenteava por trás do rochedo, ora descendo, ora subindo.
Num local formando depressão, os rochedos de um lado pareciam menos altos, cobertos por arbustos; do outro — via-se um despenhadeiro em cujo paredão, para o espanto de Mery, estava gravado um triângulo vermelho.
— O que é aquilo? — perguntou Mery, desviando o olhar para seu acompanhante e imediatamente estremecida por causa da expressão furiosa de seu rosto.
— É o sinal que marca o lugar onde foi perpetuado o crime de que fala a lenda; está vermelho pelo sangue que se derramou por culpa de uma mulher criminosa.
De facto, como são bem-aventurados os espíritos pecaminosos que, ao se reencarnarem, esquecem-se de seus actos passados, ainda que Némesis faça a justiça, quando eles já se esqueceram de seus delitos.
O local, como vê, é próprio para emboscadas.
A história é muito antiga e não espanta mais ninguém, só os seus figurantes.
Um dos Mervin voltava para casa numa certa noite tempestuosa e, atrás dos arbustos, espreitavam os assassinos, que o apunhalaram no peito, inspirados por uma jovem lindíssima.
Oh, mulheres, mulheres, sereias pérfidas!
Como elas sabem conjugar a beleza com a hipocrisia e a luxúria!
Choram se seu cachorrinho ou papagaio ficou doente ou fazem um escândalo tremendo, caso um espinho lhe espete o dedinho acetinado.
Como são fortes, porém, se precisarem se livrar de marido inconveniente!
Dizem que o cadáver foi atirado nesse despenhadeiro e a alma vaga sem encontrar a paz...
Entretanto, os assassinos não gozaram por muito tempo dos frutos de seu malefício e, em parte, a vítima foi justiçada...
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 17, 2016 7:11 pm

Bem, vamos voltar; está ficando tarde.
A volta foi em silêncio.
Perto da porta do castelo, Mery com uma ideia fixa na cabeça quebrou o silêncio:
— Por acaso o senhor conhecia a vítima?
— Ah, sim.
Era um bom sujeito — assegurou o desconhecido.
— Como o senhor está pálido!
Não quer entrar?
Posso lhe oferecer um refresco ou, talvez, um copo de vinho.
O desconhecido aquiesceu com a cabeça.
— Agradeço. Se me permitir, chamarei por James; ele conhece os meus hábitos — disse o desconhecido e, suspirando, apertou a campainha.
— O senhor vive no castelo? — perguntou Mery.
O estranho nada respondeu, apenas seu rosto adquiriu uma expressão indefinidamente amarga.
Neste ínterim, entrou James e interrogou o visitante com o olhar.
— Traga-me uma taça daquela bebida e pão! — ordenou o desconhecido, afundando-se na poltrona e fechando os olhos.
Mery continuou de pé, constrangida e sem saber o que fazer.
Após alguns minutos de silêncio opressor, James retornou trazendo uma bandeja com grande taça dourada dentro de vasilha com água quente.
Num prato de cristal havia alguns pães enegrecidos.
As mãos do criado tremiam visivelmente e o rosto estava lívido, enquanto ele colocava a bandeja diante do desconhecido.
Este se endireitou, pegou a taça e a secou avidamente; depois, com a mesma voracidade, pôs-se a comer os pães, deixando só um pedacinho.
Como que por encanto seu rosto se desanuviou; ele se levantou do lugar e pegou o chapéu com pena na aba.
— Tenha boa noite, milady, e agradeço-lhe por tudo.
Seu tom de voz e o modo como fez a reverência de despedida não escondiam escárnio.
Ele se dirigiu à porta e sumiu, como que derretendo no reposteiro; mas Mery não deu atenção a isso.
Seu olhar estava pregado na bandeja de prata; ela queria saber de que o desconhecido se havia servido.
Após hesitar por alguns instantes, aproximou-se da taça, pegou e examinou-a; no fundo ainda restavam algumas gotas sanguíneas e, pelas migalhas do pão que sobrara, ela concluiu que ele estava umedecido de sangue.
Então, seu novo amigo era também um satanista.
Ali estavam as evidências:
todos os membros da irmandade bebiam sangue e ela teria de fazer o mesmo.
Uriel, já por diversas vezes, oferecera-lhe essa bebida no cálice, mas ela sempre declinou, enojada.
Após jantar sozinha, Mery chamou a camareira, despiu-se e deitou, mas demorou para pegar no sono.
Estava angustiada e seu peito era como que esmagado por um bloco de pedra.
A vida parecia-lhe vazia e desafortunada, e o futuro — sem perspectivas; ao mesmo tempo, não lhe saía da cabeça a cena terrível da morte de Van der Holm, em todos os detalhes.
A sensação era que duas forças antagónicas se digladiavam em sua alma, causando-lhe dor em todo corpo.
Finalmente, ela se esqueceu num sonho inquieto e estranho.
Via-se no quarto da vila em que morava Suróvtseva.
Sua mãe estava ajoelhada e orava diante da imagem da Virgem Santa; mas Mery não conseguia distinguir o ícone, encoberto por uma nuvem negra e densa, diante da qual ela se via dormindo.
Feixes de luz resvalavam na película negra e atingiam seu corpo no leito.
Subitamente, ela se viu cercada por capetas — seus servidores.
O exército do inferno estava em polvorosa:
suas caras reflectiam fúria e desespero.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 17, 2016 7:11 pm

Toda vez que um feixe de luz atravessava a cortina fumacenta e atingia os minúsculos demónios, eles tombavam de borco, outros acabavam calcinados em clarões dourados, outros, ainda, espumando um líquido verde, saltavam sobre Mery enfurecidos e a mordiam e beliscavam.
Ela se sufocava em meio a dores lancinantes; o corpo parecia um só ferimento.
Entretanto, o caos ao redor dela aumentava e os uivados desconexos dos capetas encobriam um súbito canto longínquo e o tilintar dos sinos.
Mery compreendia que alguém rezava por ela, no entanto não podia se mover nem se concentrar num pensamento.
Finalmente, perdeu a consciência...
Acordou tarde, sentindo-se tão alquebrada, fraca e apática, que não conseguia se levantar da cama.
Sua cabeça estava vazia e até o acto de pensar lhe era doloroso, entretanto, o pesadelo que a atingiu estava vivo na memória.
Merjit, que fora para vestir Mery, deitou-lhe um olhar desconfiado, fê-la tomar um banho de imersão e levou uma taça cheia de sangue quente, que a obrigou a tomar.
De manhã, Mery vasculhou a parte desconhecida do castelo cujos aposentos pareciam inabitáveis, ainda que contivessem objectos interessantes e muitos quadros do punho de grandes mestres.
Depois do almoço, passeou no parque, sem encontrar, porém, o desconhecido do dia anterior.
No caminho ela topou com alguns padres católicos, mergulhados em seus breviários.
Macérrimos e cadavericamente pálidos, eles passaram por ela sem a cumprimentar.
A presença deles naquele antro satânico deixou Mery intrigada.
No dia seguinte, ela já se sentia melhor e retornou aos estudos.
A ciência negra enchia-a de entusiasmo, pois os poderes de que se armaria seduziam sua alma altiva e ambiciosa.
Tendo analisado toda a sua situação, achou por bem não lutar contra o inevitável e subtrair as vantagens que adviriam.
Como consequência de suas reflexões, Mery decidiu que, assim que lhe permitissem voltar à sociedade, solidificaria a sua posição, tiraria proveito de sua riqueza e, simultaneamente, vingar-se-ia daqueles que a injuriaram e humilharam na pobreza.
A ideia da desforra foi reforçada pela última carta da mãe, com quem ela se correspondia constantemente.
Suróvtseva julgava que Mery estava em Londres tratando, junto aos bancos, da transferência dos bens herdados do marido para a Rússia.
Por diligências de um dos luciferianos, as cartas de Suróvtseva eram entregues em Komnor Castle através de Londres e seguiam de volta por mesmo caminho.
Na última carta, Anna Petrovna contava à filha ter encontrado em Cannes casualmente com Bakhválova — a mulher que se recusara a devolver-lhe os trezentos rublos devidos, acusando-a de chantagem e desonestidade por exigir um pagamento supostamente já feito.
Suróvtseva fingiu não ter reconhecido a mulher detestada; esta, porém, teria ficado intrigada pelo facto de encontrar Anna Petrovna no exterior, aparentemente cercada de muito conforto.
Com sua descerimónia, peculiar a pessoas mal-educadas, Bakhválova aboletou-se perto de Suróvtseva como se nada houvesse acontecido entre as duas e começou a indagar sobre a mudança ocorrida em sua vida e onde estava Mery, cuja ausência a intrigava.
Ao saber que Mery desposara um homem muito rico e que já enviuvara, encontrando-se no momento na Inglaterra para cuidar de assuntos de herança, Bakhválova soltou uma gargalhada de escárnio.
Anna Petrovna largou a mulher rindo sozinha, sem se despedir, jurando nunca mais conversar com aquela insolente.
— Espere só, víbora imprestável!
Mais dia, menos dia, você pagará caro por essas insolências — Mery ciciou entre os dentes e uma chama maldosa fulgiu em seus olhos negros.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 17, 2016 7:11 pm

~VI~

Passaram-se três semanas.
Mery continuou estudando sozinha; Uriel ainda estava viajando e o misterioso desconhecido também não aparecia.
Certa noite, tendo acabado uma tarefa, Mery estava semi-estendida na poltrona da biblioteca.
Na mesa ao lado havia jornais e revistas ilustradas que ela às vezes lia, regularmente entregues a Komnor Castle.
Estava triste.
De manhã havia recebido uma carta da mãe, que a deixou com saudade dos familiares.
Sentia também uma enorme nostalgia da época de sua antiga vida, quando o pai estava vivo.
Tentou afastar os pensamentos recorrentes e concentrar-se no que aprendera durante o dia:
os rituais e as fórmulas que serviam de comunicação com o tenebroso e desconhecido reino das trevas, do qual debocha a turba ignara, esquecendo-se, tal qual os arruaceiros brincando com pólvora ou dinamite, de sua força ou perigo.
Recordou-se então de uma conversa que tivera com Van der Holm, quando ela fora iniciada no labirinto da ciência negra.
Na época, tinha muitas dificuldades em pronunciar palavras incompreensíveis e, meio decepcionada, meio rindo, perguntou-lhe do sentido daquelas esconjurações, aparentemente tolas e estranhas.
Van der Holm balançou a cabeça e disse sério:
— Quando vamos ao estrangeiro, temos de conhecer a língua de seus cidadãos.
Igualmente as fórmulas mágicas nos servem de língua que é compreendida pelos habitantes do outro mundo.
Mery suspirou pesadamente e cobriu o rosto com as mãos:
todos os habitantes do outro mundo que ela conheceu eram servidores terríficos do mal...
Oh! Por que isso tinha de acontecer?
Por que uma casualidade fatídica e seu ódio a empuxaram para aquele mundo?
Não fosse a necessidade de vender as toalhas de mesa, ela não teria conhecido Van der Holm, nem a conjugação sinistra das circunstâncias a teria lançado para aquela vida, que lhe sugeria uma vaga ameaça, desde que ela se conscientizou do perigo e do abismo escuro que se abrira a seus pés.
— Para que se entregar a pensamentos lúgubres, querida aprendiz e herdeira?
Lamentar-se sobre o que é irreversível é uma fraqueza imperdoável para uma alma tão enérgica como a sua — ouviu-se uma voz profunda.
Mery estremeceu, retesou-se e soltou um ai de pasmo.
Na poltrona ao lado estava sentado Van der Holm, iluminado por fraca auréola púrpura.
Seu rosto rejuvenescido tinha praticamente as mesmas feições, ainda que a tez estivesse enegrecida e coberta de pêlo brilhante; seus lábios eram vermelho-sanguíneos; as unhas longas e delgadas pareciam garras encurvadas; por trás dos densos cabelos destacava-se um par de chifres vermelhos fosforizantes; os olhos, outrora negros, tinham adquirido uma tonalidade esmeraldina, verde escura, e neles se percebia um escárnio cruel.
— Não se assuste, querida irmã Ralda!
Eu soube de sua vontade de me ver e cá estou.
— Mas que aparência é essa, senhor Van der Holm!
Estará transformado em demónio ou, numa linguagem vulgar, agora o senhor é um capeta chifrudo com rabo e cascos?
— Justamente, minha amiga!
Aqui, como aí, temos as nossas diferenças.
Querendo, eu posso engalanar-me nesses atributos de um capeta ordinário.
Ele se levantou e endireitou o talhe alto, tão flexível que parecia não ter ossos; seus pés adquiriram a forma de cascos e por trás das costas apareceu um rabo peludo.
Ao ver o espanto de Mery, ele soltou uma gargalhada selvagem.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 17, 2016 7:12 pm

— Juro pela barba de bode que a senhora se assustou com seu velho amigo; todavia, devo preveni-la de que em sua posição é perigoso temer-me, o que a fará sucumbir ao meu poder.
Porém, não lhe desejo mal algum.
Nunca se esqueça de que a senhora é uma mulher real, bela feito um sonho — uma verdadeira personificação da sensualidade.
Lembre-se também de que se encontra no meio de feras selvagens e, se a domadora perder seu poder de subjugar, estará perdida.
Seu único escudo é o destemor.
Ele aproximou-se de repente e cingiu-a num forte abraço.
Mery estremeceu do contacto que lhe queimou o corpo; dele jorravam como que correntes de fogo e nos olhos esmeraldinos e maliciosos ardia volúpia; os dentes arreganhados, brilhando entre os lábios púrpuros, eram de facto assustadores.
Mas a proximidade do perigo devolveu a Mery o sangue frio e coragem.
Empurrando a criatura demoníaca, ela pronunciou esconjurações e fez um sinal que se desenhou no ar num triângulo fosforescente.
— Fora, demónio!
Não lhe tenho medo e o proíbo de me tocar — pronunciou imperiosamente e, tirando do peito um pentagrama esmaltado, ergueu-o diante de si.
— Bravo, Ralda! — exclamou Van der Holm, recuando.
A senhora está começando a dominar seu ofício.
Mery soltou uma risadinha sarcástica.
Sua serenidade habitual havia retornado e o primeiro susto e temor desapareceram.
— São apenas alguns resquícios da minha antiga fraqueza espiritual que, com o tempo, desaparecerão.
Não é fácil de uma hora para outra deixar de ser "simples mortal" - assustando-se com os galanteios de cavalheiros do outro mundo.
Quero crer, irmão Bifru, que permaneceremos bons amigos e que o senhor me ajudará a organizar a herança assaz complicada.
Está de acordo?
— Será um prazer ajudá-la.
Agora que a senhora aprendeu a lição de ser vigilante, quero lhe dar mais um conselho.
Está muito desleixada com seus servidores, a quem deveria dar contínuas tarefas; actualmente eu chefio um bando de capetas bem mais desenvolvidos intelectualmente, mas ainda mantenho bons relacionamentos com meus ex-súbditos.
Neste instante, Mery viu no espaldar da poltrona, onde estava sentado Van der Holm, um minúsculo demónio.
Seu corpinho era negro e coberto de pêlo; atrás do dorso via-se, contorcendo-se graciosamente, um rabo; um par de olhos grandes e redondos iluminava sua carinha esperta.
Ele parecia estar desgostoso, olhava embevecido para Van der Holm e lhe sussurrava algo no ouvido; seu ex-senhor afagava-lhe o dorso com ternura paternal.
Mery reconheceu nele o pequeno demónio que liderava os espíritos dela.
— Cara irmã, Cocotó está dizendo que seus súbditos estão se queixando de estarem ociosos; além disso eles estão com fome.
Ao ver Mery pensativa e até preocupada, ele acrescentou:
— É necessário dar trabalho ao seu pequeno exército.
Por acaso a senhora não tem nenhum inimigo no mundo de quem queira se vingar?
O rosto de Mery afogueou-se:
ela se lembrou de Bakhválova e de sua indigna carta, que precipitou o seu projecto de ir vender as toalhas, faminta e indigente, naquele dia fatídico em que ela caiu em poder de Van der Holm.
Como não lhe ocorrera antes desforrar-se daquela miserável e fazê-la pagar, com lágrimas de sangue, suas torpezas e sorrisos maliciosos?
Van der Holm, que observava Mery e, aparentemente, lia seus pensamentos, fez uma careta.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 17, 2016 7:12 pm

— Ao que me parece, querida Ralda, a senhora considera um grande infortúnio ter me conhecido.
Mas isso tem um lado bom, já que poderá se vingar de seu desafecto.
Cocotó está aqui; recite o esconjuro, dê uma ordem e seus súbditos farão o resto.
Só que antes seria bom acalmá-los um pouco.
Olhe como eles estão inquietos!
Atrás de Cocotó surgiram revoadas de seres minúsculos, que Mery já conhecia; eles não eram maiores que camundongos, caras perversas e, aparentemente, só a presença de seu antigo senhor evitava que eles se lançassem sobre Mery.
— Veja: os pobrezinhos estão com fome; é preciso alimentá-los antes de mandar trabalhar!...
— Mas o que poderei lhes dar agora?
Onde arrumarei sangue em pó?
— Naquele armário.
Uriel não lhe falou disso e a senhora também se descuidou.
Mery abriu rapidamente uma gaveta e de lá tirou uma caixa redonda com pó vermelho púrpuro.
Pegando um punhado, ela o atirou para o ar e ele se espalhou em nuvem de poeira.
Num instante, as partículas foram consumidas e as caras de seus servos se desanuviaram.
Mery postou-se no meio do quarto, ergueu o bastão nodoso pendurado em seu pescoço e pronunciou algumas esconjurações, acompanhadas por sinais cabalísticos.
Imediatamente, o corpo de guerreiros perfilou-se em sua volta, liderado por Cocotó e aguardando respeitosamente.
— Cocotó, ordenho-lhe assediar a família dos Bakhválov e torturá-la sem dó nem piedade!
Instale-se na casa deles e cause-lhes os piores males:
mortes, suicídios, discórdia, animosidade.
Que a ruína os ceife como a mim; que eles passem por toda a humilhação pela qual passou a minha família.
Vá, haverá bastante serviço para vocês e não tenham medo de retaliação!
Eles são "liberais", eivados de ideais modernos, e são descrentes, de modo que nenhuma força hostil lhes tolherá o caminho.
A cada sucesso alcançado, Cocotó, reporte-se a mim.
Enquanto Mery falava, seu rosto adquiria crueldade impiedosa; seus olhos brilhavam de sede de vingança.
Cocotó se inclinou ante Van der Holm e repetiu o gesto, ainda que com menos reverência, em relação a Mery; pelo visto ele tinha por ela bem menos apreço do que por seu antigo amo, e retirou-se com o bando.
— Está fazendo progressos, irmãzinha, e acho que não decepcionará a nossa irmandade.
Cuide agora para afastar definitivamente qualquer lembrança de seus antigos preconceitos.
Enquanto estiver vulnerável, a senhora sofrerá com os fluidos maléficos de nossos oponentes, como os de sua mãe, por exemplo; quando estiver bem forte, nada a atingirá e sua couraça interna lhe servirá de protecção, com excepção, é claro, de ataques directos, muito dolorosos, aliás.
— Obrigada, Bifru, pelos bons conselhos.
Compreendo sua equanimidade e tentarei melhorar.
A propósito, tenho algumas dúvidas, pois ainda não consegui elucidar-me nos livros da ciência negra.
Onde o senhor habita, onde habitam todas essas larvas, os vampiros, os demónios?
Uriel já me levou à cidade satânica; aliás, em seu tempo, Swedenborg pesquisou as esferas do mundo do além, mas tudo é tão nebuloso...
— Ah, a senhora gostaria de ver o lugar onde habito?
Vou mostrá-lo uma hora, se bem que ali a gente se sinta melhor sem o corpo, mas isso é o de menos.
A propósito, a senhora precisa frequentar algumas de nossas festas.
Elas propiciam ao corpo habilidades especiais e uma flexibilidade incrível ao astral.
Não estou bem certo da data, mas logo haverá uma reunião muito interessante.
É a chamada caçada satânica.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 17, 2016 7:12 pm

Fique pronta para participar dela, assim que ouvir o som de corneta.
Como vê, temos as nossas diversões e não há o que se espantar disso.
— Eu li sobre uma caçada satânica de um caçador negro na floresta Fonteneblo e outras aventuras do género, que assombravam os habitantes das regiões obsidiadas... achei que eram lendas.
— Não há fumaça sem fogo, Ralda! — riu Van der Holm.
— Bem, Bifru, obedecerei às ordens superiores.
Ficarei aguardando o chamado da corneta.
— Excelente!
Agora, o que acha do dono do castelo?
— É bem apessoado e até gentil, se bem que antipático.
Estranho: parece-me que já o vi em algum lugar.
— É provável, só que a senhora se esqueceu.
Bem, está na hora de ir embora; se precisar falar comigo, bata com o martelo metálico, que se encontra na biblioteca, no círculo na parede.
É só bater as letras do meu nome, e eu aparecerei sem assustá-la.
Instantes depois, a figura do espectro esmaeceu e derreteu-se numa fumaça cinza, desaparecendo.
Certa feita, Mery acordou tarde e ouviu uma chuva forte batendo na janela; o tempo estava péssimo e ela se sentia cansada e quebrada.
Sem sair da cama, mandou que Merjit lhe trouxesse o café.
— Recomendo não se levantar, milady.
Lá fora cai chuva com granizo e é melhor descansar bem.
Hoje, à meia-noite, está marcada uma caçada e a senhora deve estar pronta, porque o mestre não gosta de esperar.
Vou lhe trazer sangue quente e algo mais substancioso.
Um quarto de hora depois a camareira trouxe na bandeja uma xícara de sangue quente e alguns pães embebidos nele.
Mery já estava se acostumando com esse tipo de alimentação e secou o sangue e comeu os pães.
Em seguida, Merjit pôs num cálice um líquido denso feito mel, que Mery tomou e, instantaneamente, mergulhou num sono profundo.
O contacto de algo gelado e húmido em seu rosto fê-la acordar.
Diante dela curvava-se Merjit, segurando uma toalha numa das mãos, na outra — um copo.
— Tome logo esta limonada e vamos à toalete, não há tempo a perder.
A bebida aromática, levemente amarga, revigorou-a.
— Agora vou massajá-la com unguento e passarei um óleo no corpo; não tenha medo.
— Diga-me, Merjit, a senhora já esteve numa dessas festas nocturnas? — indagou Mery, enquanto a camareira abria um pote de porcelana com unguento e destampava o frasco com óleo.
— Sim, milady, várias vezes — respondeu a camareira.
Só que não na primeira fileira.
A senhora montará um cavalo, e nós, o que tivermos:
bodes, carneiros, porcos... — o que der para montar.
Enquanto ela massageava com o unguento o corpo de Mery, este parecia estar abrasado, sua cabeça girava e ela como que pairava no ar.
A sensação dolorosa sumiu ao ser aplicado o óleo; ela somente experimentou algumas leves picadas.
Quando se levantou, Mery sentiu-se feito uma pena, o corpo flexível como borracha e o chão parecia fugir-lhe por falta de gravidade.
Ao mesmo tempo, um calor agradável espalhava-se por suas veias.
Merjit vestiu-a numa malha lanosa, tão fina que lhe envolveu o corpo como que numa segunda pele; sua cabeça ela encimou com um chapeuzinho em forma de morcego com duas lampadinhas verdes no lugar dos olhos fosforescentes; no pescoço, pendurou uma corrente de aço com medalhão em forma de cabeça de gato e olhos de brilhantes.
Por fim, Merjit cingiu-a com uma fita prateada, de onde pendia numa corrente uma corneta de caça, e estendeu-lhe uma capa cinza e luvas da mesma cor.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 17, 2016 7:12 pm

— Que tempo horrível — observou Mery, entreouvindo, estremecida, as rajadas do vento, os estalos das árvores seculares e o rolar dos trovões longínquos.
O granizo fustigava as janelas.
Na velha lareira e chaminé uivava o vento como que em voz humana.
— É sempre assim, milady; as forças da natureza tempestuam quando o mestre sai para caçar.
Mas não tema:
nada lhe acontecerá!
Vou me vestir rapidamente.
Daqui a uns quinze minutos a senhora ouvirá o sinal.
Ao ficar sozinha, Mery aproximou-se da janela, encostou o rosto ao vidro e olhou para fora.
A tempestade estava enfurecida, retumbavam os trovões e, de quando em quando, os raios iluminavam tudo com luz funesta e selvagem; no ar turbilhonavam sombras indefinidas, vindo a se reunir junto ao castelo.
"Começou o sabbat", pensou Mery e estremeceu involuntariamente.
No mesmo instante, ela sentiu penetrarem-lhe no ombro umas garras e do lado de fora do vidro grudou uma cabeça asquerosa — metade humana, metade animal.
Subitamente, ouviu-se a voz de Van der Holm gritando:
— Não tenha medo!...
Mery retesou-se e levantou a mão, recitando conjurações.
A ela retornou, então, a coragem e o destemor.
A cara nojenta sumiu.
Seguiu-se uma algazarra de vozes uivando:
"Har! Har!, Sabbat!"
Simultaneamente, ouviu-se o som sonoro e prolongado da corneta de caça.
— Rápido, rápido, milady! — berrou Merjit, irrompendo no quarto e agarrando Mery pela mão.
Correu com ela em direcção da grande escada.
O pátio do castelo parecia inundado por clarões de incêndio; embaixo, junto à porta da entrada, um homem segurava pelas rédeas um murzelo que se empinava nas patas traseiras e de cujas narinas se soltava vapor vermelho.
O cavalo era magnífico com sua crina e rabo esvoaçando ao vento e olhos coruscando.
Um homem levantou Mery, ajeitou-a no lombo do animal e lhe passou as rédeas; o corcel, ao se sentir livre, desembestou para frente e logo alcançou o líder da cavalgada.
Ali, montando um murzelo parecido, gineteava Asrafil, soprando sem parar sua corneta de caça.
Como num sonho, projectaram montados, à frente de Mery, Van der Holm e o dono misterioso do castelo; depois, ela sentiu a terra fugir das patas do animal e iniciou-se uma cavalgada selvagem.
Os caçadores satânicos pareciam voar em meio aos sons desconexos do canto e da corneta, alternados por gritos:
"Har! Har!, Sabbat!"
Seria difícil a Mery dizer quanto tempo durou a corrida estonteante.
Feito nuvens do mal corriam eles por cima dos vales e florestas em direcção às montanhas.
Finalmente, Mery viu-se num vale cercado por rochedos escarpados, junto às paredes semi-destruídas de um monastério, a julgar pela existência de uma igreja desmoronada com altar destruído.
Ao lado estendia-se, ao que tudo indicava, um cemitério monástico, já que ao derredor branquejavam crucifixos, lápides e outros monumentos funerários.
Nisso a tempestade amainou, as nuvens se dispersavam pelo firmamento e um luar pálido iluminava o quadro funesto.
O desconhecido de Komnor Castle aproximou-se de Mery, ajudou-a a apear e levou-a até onde estava Asrafil, postado no meio do cemitério em cima de um alto monumento.
Provavelmente ali eram ruínas de uma capela funerária, mas Mery não conseguia definir; ela percebeu somente que o mestre Asrafil tinha por baixo da capa uma malha felpuda, se é que aquilo não era sua própria pele.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 17, 2016 7:13 pm

Premendo à boca a corneta prateada, ele se pôs a soprar nela e, à medida que os sons desconexos recortavam o ar, de todos os lados começaram a se juntar como que chamas errantes, pairando sobre ele; os monumentos e as lápides funerárias balouçaram e se envolveram em fumaça escura; depois surgiram figuras estranhas, algumas trajando batinas, outras — vestes de séculos idos.
Seus rostos eram pálidos, magros, asquerosos, e como que desfigurados por sofrimento; a cada movimento ouviam-se estalidos de seus ossos.
Estranhamente Mery não sentia nenhum medo e, com interesse vivo, acompanhava o desenrolar dos acontecimentos.
Subitamente, o desconhecido do castelo que, pelo visto, julgava-se o cavalheiro de Mery, tomou-a pela mão.
— Não vale a pena ver esses carunchos, eles estarão na festa — resmungou ele com desdém.
Já dentro da antiga igreja, Mery viu homens e mulheres apinhando-se em volta de fogueiras; seus rostos imprimiam-se de paixões lúbricas.
Em duas fileiras ao longo das paredes, perfilavam-se diversas mesas baixas, repletas de iguarias e vinhos.
Aparentemente, aguardava-se um banquete.
Atónita, Mery viu Asrafil trepando no altar, imediatamente se transformando num enorme e horrendo bode de pés longos.
O monstro, meio homem, meio animal, de olhos vermelhos flamejantes, segurava uma tocha e, arreganhando os dentes, observava com escárnio a turba desnudada e uivante iniciando uma dança despudorada.
A orgia crescia à proporção que as taças com vinho ou sangue quente foram passando de mão em mão; alguns urravam cantos selvagens, outros se divertiam imolando sapos vivos, corvos e outros animais.
O misterioso desconhecido não arredava o pé de Mery, servindo-lhe diligentemente vinho e sangue.
A orgia alcançou um clímax indescritível.
De súbito, o cavalheiro de Mery agarrou a sua mão e levou-a junto ao trono do bode, gritando por cima da algazarra geral:
— Asrafil, príncipe das trevas, possua Raída, sua bela noiva, e, depois, devolva-a para mim.
Você sabe que tenho direitos sobre ela.
Uma angústia mortal comprimiu o coração de Mery...
Apesar do vinho temperado com poções estimulantes, apesar de não conseguir pensar direito e estar sobreexcitada, a ideia de ser possuída por aquele monstro encheu sua alma de nojo e horror...
Mas as garras afiadas já rasgavam em pedacinhos suas vestes; mãos estranhas levantaram-na e deitaram-na aos pés do bode.
Como se através de uma nuvem ela entrevia o monstro se inclinar sobre ela, os olhos ígneos fitarem-na zombeteiros e a bocarra felpuda franzir-se em careta — o que deveria ser um sorriso.
Subitamente sua cabeça tonteou e ela julgou estar caindo dentro de um precipício.
Nisso, um repicar trémulo de sinos fê-la voltar a si.
Os sons foram ganhando força e ouviu-se então um coro longínquo, entoando "Que o Senhor ressuscite!", cada vez mais forte e poderoso.
No alto fulgurou uma faixa de luz azul celeste e, no fundo dela, como que uma visão longínqua, abriu-se uma janela e, ali, erguendo nas mãos uma cruz radiosa, viu-se um homem de branco em posição genuflexa.
Seu rosto, vivamente iluminado, parecia com o de Zatórsky; ao seu lado, com as mãos estendidas para frente, postou-se um homem alto também de vestes brancas como que pontilhadas por diamantes.
Mery mal teve tempo de deslumbrar a visão.
O altar começou a desabar; línguas de fogo lamberam o bode destronado; a multidão nua e asquerosa, embriagada de sangue e lascívia, rolou em convulsões em meio a mesas caídas.
Rolares de trovão entremeados de gemidos e pragas encheram o ar.
Por fim, a terra tremeu, as paredes estalaram e Mery perdeu os sentidos.
Ao se recobrar, viu-se deitada em seu leito, fraca e alquebrada, ossos moídos; todo o seu corpo doía.
Do banquete nocturno, lembrava-se vagamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 17, 2016 7:13 pm

Com esforço — uma vez que movimento mínimo lhe causava dor — ela tocou a campainha.
Após uma espera demorada, veio finalmente Merjit; um braço seu descansava na tipóia, a cabeça estava atada e um olho — roxo.
Ela chegou acompanhada de um homem corcunda, rosto enegrecido e cruel, de voz fanhosa.
Este aconselhou Mery a ficar deitada, pois havia ainda muitas queimaduras em seu corpo.
Ele passou um unguento, trocou os emplastros e a fez tomar um remédio, após o que ela adormeceu imediatamente.
Após algumas horas de sono e sentindo-se melhor, Mery perguntou a Merjit o que havia ocorrido.
Suas lembranças eram muito vagas; ela só tinha certeza de ter escapado de um grande perigo.
— Ah, milady, a festa que começou tão bem teve um final horrível! — com lágrimas nos olhos confiou a camareira.
Todos os nossos irmãos e irmãs estão feridos; até o nosso mestre foi atingido por um raio.
Lentamente Mery foi-se recuperando.
Num esforço da vontade, tentava afastar as lembranças do grandioso repicar dos sinos e do longínquo canto melodioso.
Foi com imensa satisfação que ela recebeu as notícias de como ia sua vingança — o que a reconciliou temporariamente com a vida e dispersou seus pensamentos lúgubres.
Ela lia à noite na biblioteca, quando ouviu um leve crepitar e ergueu involuntariamente a cabeça ao se sentir tocada por alguém.
No espaldar da poltrona estava acomodado Cocotó, sorrindo de contentamento; o rabo sacudia-se alegremente e os olhos fitavam-na maliciosos.
— Vim reportar-me pessoalmente do sucesso de nosso trabalho, já que você não me chamou antes.
— Eu estive doente, Cocotó.
Obrigada por ter vindo.
Bem, conte-me o que vocês fizeram!
— Conforme você mesma disse, ninguém nos atrapalhou por nos instalarmos naquela casa, fácil de se trabalhar.
A dona da casa estava viajando; seu filho — um jogador — passou a perder no jogo tão logo começamos a acompanhá-lo por toda parte.
Necessitando de dinheiro, ele arrombou a gaveta do pai e, na mesma noite, perdeu todo o dinheiro furtado.
Sua mãe, ao retornar da viagem, achou-o morto em casa, pois ele havia se suicidado.
Abalada pela dor, ela esqueceu na mesa um porta-jóias cheio de valores, em que nós demos um sumiço. Hi-hi-hi!
Mery afagou seu dorso felpudo.
— Estou satisfeita com vocês.
Continuem a trabalhar assim.
Vou lhe buscar um regalo.
Ela trouxe-lhe um pão, assado em sangue; o monstrinho devorou-o avidamente e desapareceu.
Van der Holm visitava-a assiduamente e ajudava nos estudos.
Quando ela lhe relatou da visita de Cocotó, esse soltou uma gargalhada escarnecedora:
— Compreendo os motivos de seu contentamento, irmã.
O poder de nos vingar é um grande privilégio nosso.
Senti a mesma satisfação ao desforrar-me do meu primo, o patife que me arruinou; ele pagou seus actos com lágrimas de sangue.
Esse aprazimento maldoso e a vontade incontrolável de aniquilar e humilhar seu desafecto ainda estavam frescos em sua alma, quando Mery recebeu uma carta da mãe, que dizia:
"Todos os dias eu rezo a Deus, minha querida, e peço que Cristo, a Virgem Santa e São Nicolau a abençoem..."
Mal ela percorreu essas linhas, sua cabeça tonteou, a carta incendiou-se nas mãos e ela tombou inânime, como que atingida por raio.
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