Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 18, 2016 7:58 pm

Minutos depois surgiu o espectro de Van der Holm.
Aterrorizado, ele notou acima dos joelhos de Mery um crucifixo azul celeste pairando pulverizado, do qual ele não pôde se aproximar até que uma rajada de vento irrompida no quarto o tivesse dispersado.
Alguns dias depois desse incidente, Mery recebeu a visita do desconhecido misterioso, que há algum tempo não via.
Ele estava pálido e parecia mais sombrio do que de costume.
Ao cruzar as mãos e recostar-se no espaldar alto da poltrona, permaneceu fitando Mery como se ela lhe despertasse lembranças vagas.
— O senhor parece triste.
Mandarei que lhe sirvam algo para revigorá-lo — disse ela, tocando a campainha.
Logo apareceu James com uma taça de sangue e pães, que o desconhecido devorou avidamente.
Em seguida, ele se acomodou na poltrona e disse sorrindo:
— Gostaria de conversar com a senhora, milady.
Ele já não estava tão pálido e poderia ser tomado por uma pessoa normal.
"O que será que quer esse velho satanista, tão gasto como Van der Holm?" - pensou Mery, sentindo um peso no peito.
Não obstante, respondeu que teria prazer em conversar.
Dominada por impressão desagradável, não percebeu o sorriso malicioso do visitante lendo-lhe os pensamentos.
— Minha cara milady, apesar de a senhora fazer parte da irmandade satânica, tem muito que aprender com as leis do mundo do além.
Assim, por exemplo:
a senhora tem alguma ideia sobre o poder fatídico das maldições?
Uma praga lançada em estado de excitamento ou de raiva violenta é uma irradiação da alma que calcina a aura, tal qual uma lava incandescente, gerando um monstro real fadando homens à vingança.
Ele aprisiona-os ao local da condenação, insufla neles um ódio insaciável e os ata a seres detestados, por séculos.
No entanto, os homens desconhecem que, ao lançarem uma maldição, tornam-se os próprios algozes que terão de perpetrar a vingança...
E, assim, quando chega a hora, as velhas chagas se abrem, reacendem os suplícios espirituais e físicos, o abutre da maldição reclama por alimento e o ódio acumulado desaba sobre os culpados...
Ele se calou.
Mery estremeceu sob o olhar impiedoso da criatura estranha que parecia odiá-la violentamente.
Com cabeça meio tonta, teve a sensação de já ter ouvido aquela voz; mas não podia afirmar se aquilo não passara de um sonho ruim.
— E o senhor lançou tal maldição que não lhe dá mais paz?
Contra quem? — balbuciou ela, constrangida.
O desconhecido soltou uma sonora gargalhada.
— Afortunados são os vivos esquecidos do passado e das leis terríveis do inferno que condenaram a vítima dos malefícios ao suplício fatídico, quando o agonizante clama por sorvedouro e não por... — ele interrompeu a fala e um sacrilégio infame soltou-se de sua boca retorcida.
Mery tudo ouvia tremelicando, sem condições de pronunciar uma palavra.
O terrível visitante, recuperado de sua ira, continuou:
— Há alguns dias, eu a levei ao local do crime perpetrado séculos atrás.
A minha esposa pérfida e seu amante mataram o duque de Mervin, que então ficou ali preso por causa de sua maldição.
Tornado guardião e assombração do local, mareado com o selo do passado trevoso, ele habita o castelo e atrai para si todos os protagonistas do malefício, vingando-se deles...
Esses — há-há-há —, em suas novas peles, não se dão conta do destino perverso que os atingiu.
Ele deu um passo em direcção à Mery, olhando para ela com tanto ódio, que Mery estremeceu e recuou.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 18, 2016 7:58 pm

— Está me reconhecendo finalmente, lady Antónia?
Sabe agora quem somos?
— Não...
Por que me chama de Antónia? — murmurou ela assustada.
— Sua mente está embotada, querida Antónia.
Então, para refrescar sua memória, leia um velho romance outrora desenrolado aqui.
Pegando Mery pela mão, ele a arrastou para junto de um baú cinzelado com incrustações, onde ela guardava diversas miudezas; depois, ele apertou uma mola e este se abriu revelando um compartimento secreto, de onde ele retirou uma caixa e um maço de cartas amareladas, sem tocar em outros objectos.
Depositando a caixa e as cartas na mesa, ele disse zombeteiro:
— Leia, mas antes eu me apresento:
sou Edmond — duque de Mervin.
Até o próximo encontro, Antónia!
Seu espectro parecia esmaecer, ele recuou até a porta e derreteu-se nas pregas do reposteiro.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 18, 2016 7:58 pm

~VII~

Com coração fremente, Mery deixou-se cair na poltrona e cerrou os olhos, sentindo-se totalmente aniquilada, incapaz de pôr os pensamentos em orem ordem. Mas aos poucos a fraqueza desapareceu; sua energia conata passara por boa escola que a ensinara a dominar-se.
Empertigou-se, passou a mão pela testa, afastando pensamentos tristes.
Ela acreditava que as pessoas não viviam uma única vez na Terra e que havia a transmigração; consequentemente, o que leria seria com toda certeza uma página daquele passado encoberto pelo véu do esquecimento de sua nova existência.
E que esse passado era criminoso, disso ela não duvidava:
o nome de Edmond parecia-lhe incrivelmente familiar.
Mas para que pensar em charadas se a chave para o mistério estava em suas mãos?
Aproximou de si a caixa e examinou-a.
Era de sândalo, bizarramente cinzelada, pés dourados e cantoneiras; na tampa estava incrustado um brasão salpicado de gemas sob a coroa do ducado.
A chave estava na fechadura.
O escrínio era revestido internamente por veludo e continha:
um caderno em capa de couro dourado, um pergaminho dobrado, alguns objectos de ouro e uma aliança com o nome de Edmond gravado, com data.
Havia também dois medalhões com retratos.
Mas Mery quase não lhes deu atenção; sua curiosidade concentrou-se no caderno, que ela abriu.
As linhas eram redigidas por escrita fina e condensada e representavam uma espécie de diário ou autobiografia.
Mery aproximou a lâmpada e começou a ler.
"Nesses dias resolvi descrever para mim mesma a história da minha vida ou, pelo menos, os episódios mais importantes.
Tenho pensado muito desde a minha doença.
Quero reviver as circunstâncias que me levaram a cometer as faltas, sem dúvida condenadas por minha consciência, ainda que a Igreja me tenha indultado.
Ela não erra, embora seus servidores sejam frequentemente indignos.
Por que então a morte me assusta?
Sim, tenho um medo terrível daquele mundo ignoto para onde terei de ir jovem, bela e prodigalizada das benesses que dão prazer à vida.
Talvez esteja sendo punida...
Não, não, o indulto está aqui, nesta caixa onde guardarei o meu caderno, e ele me assegura o perdão do Céu e a paz no paraíso.
"Ninguém, é claro, lerá estas linhas; mas tanto faz.
Para começar desde o início, escreverei sobre a minha infância, pois é nela que se espreitam os germes dos acontecimentos subsequentes.
"Minha mãe faleceu quando eu tinha apenas dois anos e, até os sete, vivi na Irlanda, num velho castelo às margens do mar.
Fui educada por velha ama; meus estudos eram dirigidos por papai.
Os dois me mimavam muito, pois o papai me adorava e era incapaz de recusar-me algo.
"Assim eu cresci sagaz, corajosa e muito inteligente para a minha idade.
Sabia que o papai era muito rico e eu era sua única herdeira — o que me deixava ainda mais prepotente e voluntariosa do que já era por natureza.
"Éramos católicos e meu pai, muito piedoso, incutiu-me desde a tenra idade muito respeito à Igreja e seus servidores.
O nosso capelão era um daqueles dignos e bons sacerdotes que mereciam o amor e veneração de todos, de modo que eu imaginava que todos outros eram como ele.
"Certo dia, recebemos em casa a visita de um sacerdote estrangeiro, velho conhecido do meu pai de Londres e Roma.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 18, 2016 7:59 pm

Era um homem de idade mediana, de rosto gélido, impassível, mas bonito; falava inglês com forte sotaque estrangeiro.
Seu nome era Juan Gomes da Silva e, mais tarde, soube que ele era um jesuíta de origem espanhola.
"Naquele dia, como de costume, eu brincava no vão da janela do gabinete do meu pai e ninguém me dava atenção — talvez porque simplesmente se haviam esquecido de mim ou porque me consideravam muito criança para compreender conversa séria; entretanto, eu a ouvia atentamente, sem perder uma palavra.
Falavam de um parente nosso na Escócia — duque Robert Mervin, do qual eu já tinha ouvido falar antes.
O meu pai exprobava-o severamente, chamando-o de vadio, estroina e desonesto, acusando-o de não devolver os empréstimos contraídos.
— Sim, ele é um homem sem princípios.
E como os teria, já que é um herege, não tem fé autêntica, nem possui um guia espiritual que possa mantê-lo no caminho da verdade — observou o sacerdote e depois acrescentou:
— Por outro lado, sua esposa, lady Arabella, merece todo o nosso respeito:
ela é uma cristã genuína, porém sua união com Robert é desafortunada...
— Sinto pena de Arabella; ela ficará na miséria, do jeito que seu marido está dilapidando o património.
Há pouco, ele me propôs que eu desse a mão de Antónia para seu filho Edmond; mas eu lhe agradeci pela distinção de ter que pagar suas enormes dívidas e entregar minha filha única àquele patife do Edmond, que, além de ser herege, é mau carácter — segundo dizem.
"Não lembro o fim da conversa, mas essas palavras gravaram-se profundamente em minha memória.
"Alguns meses depois, meu pai anunciou que um assunto inadiável o chamava para Londres e que ele ficaria fora por uns três meses, já que iria visitar também suas propriedades na Escócia.
Fiquei muito triste com a separação; na época eu nem imaginava que ela seria eterna.
O papai prometeu-me muitos presentes, eu me acalmei e fiquei aguardando impaciente o seu retorno.
"No início, suas cartas vinham regularmente, mas depois pararam de chegar quaisquer notícias; simultaneamente, fui atingida por uma grande desgraça:
a minha boa ama, a velha Griseldis, ficou doente e faleceu.
A perda deixou-me tão passada, que até me esqueci da ausência das notícias do pai, fora de casa por mais de três meses.
"Aos poucos a solidão foi crescendo.
Ninguém visitava o castelo e eu, por horas a fio, ficava sentada junto à janela, olhando para a estrada, na esperança de ver meu pai retornando.
Até que um dia vi uma carruagem, acompanhada de séquito numeroso, vir em direcção ao castelo.
Quando o primeiro carro parou junto ao portão, fiquei pasma de ver dele desembarcando um senhor de rosto seco e desagradável, seguido do padre Silva.
A presença do último tranquilizou-me, pois ele sempre fora bom e carinhoso comigo; o meu pai tinha por ele um alto apreço, considerava-o um homem de inteligência rara e muito amigo, de modo que eu confiava nele tal como num segundo pai.
"Fui ao seu encontro.
Atónita, recebi a informação do homem estranho de que meu pai havia falecido e que ele — duque Robert Mervin — fora designado meu tutor por desejo do papai e que, quando eu crescesse, deveria desposar o seu filho Edmond.
Acto contínuo, ele acrescentou que viera buscar sua pupila e futura nora para que fosse educada em sua família, sob os auspícios da esposa.
Isso me atingiu feito um raio e, no primeiro momento, nem consegui chorar; depois, eu me atirei em direcção do padre Silva e, agarrando sua batina, gritei:
— Como morreu meu pai?
Diga que é mentira que o duque é meu tutor.
O papai disse que ele é mau e que seu filho é um patife; ele só quer ficar livre das dívidas.
Eu não vou com ele.
"As lágrimas me sufocavam, porém pude perceber que o rosto asqueroso do duque empalideceu e retorceu-se de ódio.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 18, 2016 7:59 pm

Fiquei assustada.
Então o reverendo padre fez um sinal para que o duque nos deixasse a sós.
Ele me acomodou em seus joelhos, afagou minhas madeixas e deixou que eu chorasse à vontade.
Em seguida, contou que durante a estadia do papai na Escócia, este viajou de uma propriedade a outra com uma pequena guarda e, na floresta, foi surpreendido por um bando de bandidos.
Aparentemente ele fora vítima de assalto e foi morto, porque seus dois guarda-costas foram encontrados mutilados e sem roupa no bosque; quanto ao corpo do pai e de seu fiel Rutland — estes não foram achados.
Os guardas florestais, usando cães farejadores, fizeram uma busca minuciosa, mas só encontraram a capa do papai com manchas de sangue, uma luva sua e espada quebrada, mas nenhum sinal de bandidos.
Como os corpos não foram achados, supôs-se que eles foram atirados no pântano, próximo dali...
"No dia seguinte, quando o primeiro acesso de desespero diminuiu, o reverendo padre conversou comigo e conseguiu me convencer de que eu deveria obedecer à vontade de Deus, como seria esperado de uma cristã.
Depois, em expressões adequadas ao meu entendimento, ele me disse que eu não tinha nenhum direito de ofender o meu tutor.
— Mas meu próprio pai disse que ele era desonesto! — Interrompi.
— Às vezes, num momento de irritação as pessoas falam coisas impensadas, e a melhor prova de que ele não falava seriamente é o facto de ter designado o duque como seu tutor.
Eu vi o documento — acrescentou ele.
Você deve obedecer à vontade do morto, que a entrega à protecção de sir Robert, desejando assegurar-lhe o futuro no casamento com Edmond.
Tenho certeza de que você será feliz na família do duque, onde crescem ainda dois outros meninos.
"Não era difícil convencer uma criança de sete anos e ele soube, simultaneamente, seduzir-me com a perspectiva de ter dois amiguinhos.
Não me opus mais à partida e até concordei em chamar o duque de "tio Robert".
Uma semana depois viajamos.
"A viagem pareceu-me sem fim, mas a chegada a Komnor Castle e o primeiro encontro com os dois meninos que desempenhariam na minha vida um papel fatídico marcou-me tanto, que eu quero contar os detalhes.
"Chegamos na manhã de um lindo dia de agosto e, na primeira impressão, gostei mais do castelo do que do nosso ninho familiar na Irlanda; da tia, lady Arabella, não gostei.
Era uma mulher alta e magra, de aspecto arrogante e desagradável; recebeu-me gentilmente e até me beijou — o que me deixou enojada.
Eu ouvi falar tanto de nosso enorme património e, por outro lado, escutei tantas conversas dos negócios complicados do tio, que tinha a mim mesma em alta conta e, no fundo da alma, nutria desdém por eles...
"Após a troca de saudações, o reverendo padre perguntou por Edmond.
— Ele está brincando no jardim com Walter.
Vamos até lá — disse minha tia.
"Assim, sobreveio a hora de conhecer os meus futuros amigos de infância, mencionados pelo padre Silva.
Eu já tinha ouvido o papai falar sobre Walter — um menino órfão, maltratado e odiado em Komnor Castle; mas a razão disso eu não compreendia.
Lady Arabella quis me levar pela mão, mas eu a arranquei e segurei a mão do reverendo.
Descemos ao jardim.
Subitamente ouvi uns gritos; saindo ao relvado, fiquei pasma com a cena que se descortinava.
"Um menino loiro de uns onze anos estava amarrado a uma árvore grossa; um outro, de uns treze anos, batia nele com chicote.
Jamais vi algo parecido; em casa nem sequer batíamos em cães de caça, quando esses surripiavam algo da mesa.
Senti uma pena profunda da vítima e corri até eles, gritando:
— Pare com isso imediatamente, seu bandido!
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 18, 2016 7:59 pm

Não é à toa que meu pai disse que você não presta.
"O menino com o chicote, que se verificou ser Edmond, olhou para mim atónito e enraivecido; depois de medir-me com hostilidade, disse em tom de desprezo:
— Ah! Então essa "papisa" é minha futura esposa?!
Parece uma leoa com seus olhos de coruja e juba ruiva.
Não gostei de você; se puser seu nariz onde não é chamada, quebrarei sua cara.
"Fiquei abismada sem saber o que dizer.
Até então todos falavam que eu era bonita e meu pai adorava minhas madeixas douradas, e ali me chamaram de feiosa e ainda ameaçaram me bater.
"Meu amor-próprio de herdeira rica foi ferido; aproximei-me rente ao seu peito e desafiei, com raiva:
— Ouse só me tocar!
Você se esqueceu de que precisa de mim para pagar as dívidas da casa?
"Aparentemente ele conhecia a situação familiar, pois ficou enrubescido.
— Sua língua viperina também faz parte do dote?
Bem, sou muito nobre para bater em damas tão importantes.
Seus olhos de coruja não são tão feios quando você está brava.
Bem, leoa, por causa de seus belos olhos não vou bater em você.
Melhor ainda:
devido à sua vulgaridade comigo, quem apanhará é seu protegido.
"E ele desfechou vários golpes em Walter.
A tia e o padre assistiam calados ao primeiro encontro dos noivos; mas eu já me recuperara e parti enfurecida sobre Edmond, que não esperava por minha investida.
Arranquei-lhe o chicote da mão e, com toda a força, fustiguei-o no rosto.
— Tome, seu imprestável!
Experimente se é gostoso quando outros batem!
"Edmond urrou de dor e partiu ensandecido sobre mim.
Não sei qual seria o desfecho, se o padre Silva não me tivesse erguido.
Impossibilitado de descontar sua raiva em mim, Edmond atirou-se sobre Walter; eu, cingindo com os braços o pescoço do meu salvador, escondi meu rosto em seu ombro.
Com os gritos alucinados dos dois meninos brigando, minha cabeça tonteou e eu desfaleci.
"Ao voltar à consciência, vi-me deitada na cama; sobre mim se curvava o rosto bom e simpático de uma mulher desconhecida.
"Era Katty Lester — ama seca de Edmond.
Ela me beijava e tentava acalmar-me; mas eu me pus a gritar, repetindo que Walter tinha sido morto.
Para convencer-me do contrário, Katty levou-me ao quarto dele; ele agradeceu por eu ter intercedido por ele e me beijou.
— Você vai ver, Walter — disse eu —, quando eu crescer, você será meu marido, e não Edmond, a quem odeio.
"No dia seguinte tive uma conversa longa com o reverendo padre, que insistiu que eu pedisse perdão a Edmond.
No início eu recusei peremptoriamente, mas o padre Silva sabia ser convincente.
Ele me fez ver o meu pecado ao agredir o futuro marido e afirmou que Deus, sem dúvida, ficaria zangado com meu orgulho e teimosia, se eu não pedisse o perdão.
O último argumento abrandou-me e eu concordei.
"Então fui com ele até os aposentos do tio e este me levou ao quarto onde Edmond e Walter brincavam com dois outros meninos.
"Assim que Edmund me viu, chutou o pé de Walter e disse:
— A papisa está vindo para pedir o perdão e eu devo perdoar, porque ela é uma mulher; as mulheres, segundo diz meu pai, normalmente não sabem o que fazem.
Como vai, leoa?
Está mais calminha hoje?
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 18, 2016 7:59 pm

Eu a perdoo; vamos ficar de bem, contanto que não me morda.
"Assegurei-lhe com dignidade que não o morderia; trocamos um beijo, depois ele me mostrou seus brinquedos e começamos a palrear.
— Veja só como seu favorito está bem; tal qual um cavalo precisa de feno, ele precisa de surra.
"Censurei Edmond por estar tratando tão mal o órfão.
— Eu o trataria melhor, se ele não fosse medroso — disse Edmond.
Um menino de onze anos não pode viver agarrado às saias de mulheres e chorar à toa toda hora, ele não gosta de brincar de duelo, tem medo de andar a cavalo, esconde-se e chora quando lhe trazem o pónei.
Se eu tivesse outro amigo, eu o teria deixado em paz; mas é que quero reeducá-lo.
Quando quero envergonhá-lo, eu mando atrelar-lhe um burro, assim são dois burros, mas não adianta...
Ele só gosta de brincar de cozinha e confeitar bolos, ou então brincar de jardineiro.
Bem que esse idiota poderia me revidar com um soco, eu teria perdoado; com meu primo Charles brigo até machucar, mas nós sempre permanecemos bons amigos.
Walter é covarde:
se ele bate, é sempre por trás; ademais ele é um delator imprestável.
Ontem tivemos visitas:
Aldjernon Camp Bell, nosso vizinho, e John Smith — filho do castelão.
Eu marquei um grande duelo com Walter, para demonstrar que sou bom de espada, mas o miserável atirou as espadas no lago.
Então eu lhe disse que um fidalgo covarde só merece chicotadas; foi aí que você chegou com a minha mãe e o padre — justamente nesse momento trágico.
"Dei razão a Edmond, já que eu era valente por natureza; mas ao ver Walter chorando, senti pena dele e assegurei:
— Espere só!
Vou fazer de Walter um homem corajoso e, quando crescer, vou me desposar com ele e não com você.
— Ah é? E ele vai nu para o altar? — objectou Edmond.
— Por que nu?
Sou tão rica que posso vesti-lo — o que seria mais agradável do que pagar as dívidas de vocês.
"A altercação teria acabado em briga, se eu não fosse levada para fora do quarto.
"Não falarei aqui dos anos que sobrevieram, pois isso levaria muito tempo, ademais sem muito interesse, ainda que justamente nesse período em mim se enraizaram os sentimentos que, posteriormente, desviaram-me do rumo da verdade.
Depois... como posso saber? — talvez essas páginas venham cair casualmente em mãos estranhas, se eu não puder destruir o caderno a tempo, já que a minha morte será repentina devido à minha doença estranha.
De qualquer forma, se alguém ler a minha confissão post-mortem, que saiba como tudo aconteceu e que não me julgue!
"Já mencionei que eu tinha um carácter altivo, voluntarioso e passional; fora isso, eu era demasiadamente pedante e vingativa.
Edmond tinha uma capacidade notória de ferir meu amor-próprio.
"Por exemplo:
Katty Lester não raro costumava nos contar, à noite, histórias sobre assombrações; eu ficava com os cabelos em pé; nós três gostávamos de ouvi-la; mas, se na história havia alguma bruxa ou feiticeira velha, Edmond invariavelmente observava:
— Era você, leoa, com tranças ruivas e olhos de coruja, e perto de você voava não um corvo — Katty está equivocada —, mas corria ao lado um pincher amarelo, amarrado a uma fita azul.
"Essas intromissões me deixavam furiosa.
Lady Arabella, mulher muito devota, incutia-me respeito à Igreja e seus servidores; um de seus maiores desgostos era estar casada com um homem de fé anglicana.
Por outro lado, seu filho odiava sacerdotes e achincalhava-os sempre que podia; não raro ele se dirigia grosseiramente ao guia espiritual da mãe e meu — padre Rose.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 18, 2016 8:00 pm

Em razão disso, eu vivia brigando com Edmond.
Em contrapartida, a minha amizade com Walter solidificava-se a cada dia.
Ele era católico como eu e um devoto fervoroso e repleto de respeito pelo padre Rose, que lhe dispensava abertamente sua protecção.
Não raro, o padre dizia-me, suspirando:
— Oh, que pena que Walter não será o duque de Mervin.
"Devo acrescentar que Walter era parente do duque, sendo um representante da linhagem inferior da família totalmente arruinada; suas chances de tornar-se o duque eram quiméricas por causa de Edmond e seu primo Charles.
Em relação a mim, Walter era como uma luva macia; era meu confidente, meu cavaleiro e cuidava tanto de meus interesses, que até não se vexava de escutar, com ouvido colado na porta, o que de mim era escondido.
"Devo aqui mencionar sobre mais uma pessoa, decididamente odiosa, que interpretou um papel fatídico no drama da minha vida.
Era um menino chamado de Tomas Stenton, dois anos mais velho que Edmond e tão parecido com este, que era difícil de os distinguir em roupas idênticas.
Edmond era incrivelmente parecido com o pai, que, quando jovem, era muito bonito, até que se tornasse obeso em consequência de vida devassa.
Tomas era um filho espúrio do duque com uma criada, que falecera logo após o parto.
A tia, apiedada, deixou a criança morando em casa, se bem que não gostasse dela; o tio e Edmond, ao contrário, amavam-no, sendo correspondidos com sua lealdade.
"Os meninos passaram alguns anos na escola e retornaram homens feitos; eu tinha completado dezasseis anos...
Alguns meses antes faleceu lady Arabella e, em Komnor Castle, veio morar uma velha parenta para cuidar da casa.
"Edmond mudou pouco:
continuava arrogante como antes, explosivo, valentão e apaixonado por exercícios militares.
Walter, ao contrário, durante esses anos de ausência mudou para melhor; ficou mais atraente, aprendeu a montar a cavalo e manejar a espada; eu gostava de seu modo triste e dócil e do olhar pensativo.
Além do mais, ele tinha por mim uma adoração sincera, chamava-me de sua protectora e anjo de guarda e nós éramos amigos inseparáveis.
Edmond olhava torto para a nossa amizade e se portava como noivo, mas eu já tinha decidido não me casar com ele.
Como nós íamos a Londres, Walter aconselhou a dirigir-me directamente ao rei, para suplicar-lhe interceder contra o matrimónio odioso.
"Nós já havíamos nos explicado e juramos amar um ao outro.
Eu estava me preparando para a viagem, quando aconteceu uma desgraça inesperada.
"Meu tio foi ferido gravemente na cabeça.
Disseram que ele tropeçou ao descer, à noite, numa escada em caracol da torre de arquivos.
A única testemunha era Tom Stenton, que lhe iluminava o caminho com uma lamparina.
Ele chamou os criados e estes transportaram o ferido ao seu quarto; mas, dois dias depois, meu tio faleceu sem recuperar a consciência.
"Dois meses depois, viajamos para Londres.
Eu pouco via Edmond, sempre atarefado; Walter teria ido em seu lugar para uma propriedade erma.
Ele também deveria viajar connosco, mas não compareceu na hora marcada e nós partimos sem ele.
Indagado sobre a ausência de Walter, o duque respondeu ironicamente:
— Esse cordeiro pascal deve estar vadiando em algum lugar; mas esteja tranquila que ele volta.
"O apelido de cordeiro pascal ele deu a Walter porque o último gostava de usar roupas de cores suaves, sobretudo as brancas, enfeitadas por fitas azuis ou rosa.
"Em Londres me vi num outro mundo.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 18, 2016 8:00 pm

Depois da vida tranquila e isolada em Komnor Castle, senti-me deslocada naquela azáfama entre novos conhecidos.
Edmond era gentil e atencioso, não tocava sobre o assunto de casamento e eu, em minha ingenuidade, achava que ele desistira de seus planos, tendo em vista algo diferente.
"Certo dia ele me disse que a data de minha apresentação na corte estava marcada e que Suas Majestades queriam me conhecer.
Ele me aconselhou a ficar bonita, pois na corte haveria muitas beldades e eu seria julgada por especialistas em beleza feminina.
Nesta ocasião ele me presenteou com rendas maravilhosas e colares de pérolas, herdados da mãe.
Fui arrebatada por coquetismo e vontade de agradar, dormentes até então, já que Edmond me era indiferente; Walter, por sua vez, gostava de me ver vestida do jeito que fosse.
A minha toalete, todavia, absorveu-me tanto que até esqueci de Walter, que ainda não retornara.
"Quando no dia da apresentação me vi ao espelho, fiquei satisfeita.
Eu acabara de completar dezassete anos e estava linda.
O vestido de cetim branco bordado a prata, gola de renda valiosa e adorno de cabeça feito de pérolas iam maravilhosamente bem à minha tez.
Fiquei corada de excitação e parti satisfeita comigo em companhia de Edmond e da velha duquesa, que deveria me apresentar.
"Quando me vi por entre a numerosa e brilhante alta-roda e senti centenas de olhos curiosos em mim pregados, meu coração disparou; eu não conseguia erguer os olhos e atravessei, feito num sonho, o enorme salão.
Só quando fui fazer a reverência, decidi olhar para o casal real.
Ambos me pareceram muito simpáticos; a rainha sacudiu aprovadamente a cabeça e o rei olhou-me com sorriso benevolente.
"Qual não foi meu pasmo quando, pelas palavras dirigidas a mim, eu soube que fui apresentada como noiva de Edmond e que o rei e a rainha me dispensariam uma grande honra comparecendo ao meu casamento, que se realizaria dali a um mês na capela do palácio real.
Por instantes, pensei que a terra iria abrir-se aos meus pés, mas eu era muito jovem e não tive coragem de gritar:
"Isso é uma traição; ele mente!"
Nem sei o que balbuciei em resposta, mas provavelmente a minha expressão foi tomada como agradecimento, pois a rainha estendeu-me a mão, que beijei, e cumprimentou-me, assim como o rei; a mesma honra foi dispensada a Edmond, após o que toda a corte nos trouxe os votos de felicidade.
"Compreendi que tudo tinha acabado.
A minha alma rebelde e voluntariosa indignava-se da violência sofrida e, ao retornar a casa, fiz uma cena a Edmond, chamando-o de vil traidor.
Eu imaginava que ficaria possesso e fiquei pasma, quando ele apenas me riu na cara.
— Querida Antónia, eu odeio essas cenas e palavras inúteis.
Um trato familiar importante e bem reflectido não pode ser rescindido por caprichos de menina.
Por isso a questão está fechada, para evitar altercações que não levam a nada.
Agora já não existe mais retorno e você há de se resignar com o infortúnio de me ter por marido, ao invés daquele carneiro pascal.
Por mim, estou satisfeito:
estou lisonjeado com o que me disseram de sua beleza na corte — concluiu ele com bonomia.
"Eu estava tão indignada que me faltaram as palavras e, então, tranquei-me no quarto, onde chorei amargamente e jurei vingar-me de Edmond e obrigá-lo a pagar pela traição.
"Seguiram-se então tantas festas em nossa homenagem que eu parecia estonteada, sem tempo para pensar.
"Chegou finalmente o dia do casamento.
Eu estava triste, sentia-me infeliz e pensei muito em Walter.
Estava no meu quarto, quando a camareira anunciou a vinda do reverendo padre Silva, desejando conversar comigo.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 18, 2016 8:00 pm

Não o via desde a partida de Komnor Castle, ainda que me correspondesse com ele, tendo-o por amigo leal e sincero.
Ordenei que ele fosse introduzido e corri feliz em sua direcção assim que chegou.
O reverendo padre deitou-me um olhar cálido e perscrutador, abençoou-me paternalmente e, sentando-se ao lado, começou a indagar do meu passado.
Ele pouco mudara nos últimos tempos.
Permanecia magro, tez morena de espanhol com traços correctos, como sempre tranquilo e impassível, não aparentava mais de quarenta anos.
"Contei-lhe tudo:
os meus planos de casar com Walter e o expediente pérfido com que Edmond resolveu a questão a seu favor.
O padre Silva deu um sorriso.
— O duque revelou-se mais diplomata do que eu supunha e é bem natural que ele não queira perder a chance deste casamento vantajoso.
Sei que você, minha filha, quer ter por marido um homem da mesma fé consagrada, mas essa deve ser a vontade de Deus e nós devemos sujeitar-nos às provações enviadas.
"Falei-lhe de Walter e expus meus temores de que Edmond talvez o estivesse mantendo prisioneiro em algum lugar até o casamento; o padre prometeu esclarecer o seu paradeiro.
"Duas semanas depois do casamento, quando eu me preparava para fazer algumas visitas, inesperadamente veio Walter; estava triste e parecia furioso.
Ele contou que ficou num dos castelos de Edmond, proibido de sair.
Isso me deixou irada e eu pedi satisfações a Edmond.
"O padre Silva estava passando na época algumas semanas na Inglaterra, visitava-nos assiduamente para conversar comigo.
Certa vez, estávamos sentados junto à lareira:
— Sinto muito, lady Antónia, mas vou ter que lhe tirar seu amigo — o padre Rose.
— Por quê? — perguntei amargurada, pois me afeiçoara muito ao meu confessor.
— Para o bem da comunidade, ele foi designado prior num mosteiro em Roma.
Mas fique tranquila, pois eu lhe escolhi como guia espiritual o padre Mendonza, merecedor de nossa confiança.
Sua devoção e inteligência sóbria lhe servirão de apoio nos momentos difíceis da vida.
Amanhã eu trarei para cá esse digníssimo pastor.
"O padre Mendonza, assim como o venerando Silva, era espanhol de origem; era, porém, um homem discreto e calado, sempre pensativo.
Não obstante, Edmond o odiou desde que ele veio morar em casa, chamando-o de cínico, de lobo em pele de cordeiro, dizendo que ele bisbilhotava conversas, andava feito um gato e que sua cara adocicada e olhos estrábicos o deixavam nervoso.
Por várias vezes chamei atenção do duque por ele tratar tão grosseiramente o pobre padre Mendonza que, entretanto, não tolerava desobediências.
"Todo sábado eu confessava e o padre me dava bons conselhos.
No confessionário, ele era muito severo e impiedoso à menor falta; além disso, incutia-me resignação diante das ofensas que feriam a minha alma orgulhosa.
Tornei-me menos raivosa, intolerante e caprichosa com Edmond, depois de suas perorações de humildade, prometendo melhorar.
"Minha vida conjugal era infeliz.
Nos recônditos da alma, eu tinha ódio de Edmond e o descontava nele.
Eu era uma mulher feita e sabia que ele me amava apaixonadamente, ainda que não quisesse trair esse sentimento.
Sabia também que ele tinha ciúmes de mim, sobretudo em relação a Walter e, assim, quando não estava no melhor dos humores, eu o provocava pela intimidade que tinha com meu amigo da infância.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 19, 2016 7:49 pm

Eu brincava com fogo, pois, simultaneamente, excitava em Walter uma paixão escondida e obstinada e, em Edmond — um ódio violento, aliás mútuo, como cheguei a descobrir mais tarde.
"No segundo ano de casamento nasceu nosso filho, a quem demos o nome de Karl, em homenagem ao rei, que foi seu padrinho.
Edmond ficou exultante em ter um herdeiro; mesmo eu, afeiçoei-me muito à criança, bela feito querubim.
"Neste ínterim, a Londres viera o padre Silva.
Ele me cumprimentou pelo feliz acontecimento, mas lamentou-se que meu filho seria educado em heresia protestante.
"Meu Charly contava com sete meses, quando um primo do meu marido foi morto num duelo.
Edmond herdou dele duas propriedades no norte da Inglaterra e deveria viajar para lá a fim de legalizar a herança.
Logo depois de sua partida, adoeci gravemente.
Deus sabe lá o que eu tinha, pois a princípio o mal não passava de uma gripe.
Enquanto fiquei acamada inconsciente, uma nova desgraça terrível sobreveio:
a ama do meu filho pegou varíola, contagiou a criança e os dois morreram em poucos dias.
Quando voltei à consciência, meu querubim já estava enterrado.
Quase morri de desespero.
Edmond, avisado por mensageiro, retornou apressadamente para casa e enlouqueceu de dor; ele queria abrir o caixão, mas foi convencido de não fazê-lo devido ao risco de contágio; além disso, disseram-lhe que a moléstia horrenda desfigurara completamente a criança, tornando-a irreconhecível.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 19, 2016 7:49 pm

~VIII~

A morte de meu filho mudou a minha vida.
Quando me recuperei, percebi uma mudança radical no comportamento e humor de Edmond.
Ele tornou-se sombrio, desconfiado e irritadiço; não mais disfarçava seu ódio a Walter, que, sendo seu amigo de infância, continuava morando no palácio, ocupando no andar térreo seus aposentos particulares.
A partir de então, o duque começou a buscar pretextos para discutir com ele e tentar expulsá-lo da casa.
Certa vez, ao encontrar-nos os dois conversando, Edmond provocou uma briga; ambos desembainharam as espadas e teriam se matado se eu não me interpusesse entre eles.
A minha interferência evitou o duelo, mas não uma altercação violenta.
Edmond acabou expulsando Walter, exigindo que este partisse do palácio no mesmo dia e proibiu-o de pôr os pés na casa.
Walter não disse nada em resposta, mediu o duque com olhar enigmático, cujo significado só vim a descobrir mais tarde.
"Eu fiquei possessa.
A grosseria do duque para com um parente próximo — talvez seu herdeiro, mas de condição paupérrima — deixou-me tão indignada que Edmond, positivamente, tornou-se-me odioso e decidi ajudar Walter.
Eu tinha acabado de ganhar uma importância substanciosa e escrevi para ele uma carta.
"Na mesma noite, Walter abandonou a casa, mas nós começamos uma correspondência secreta com a ajuda de minha camareira Betty Pamley, considerada de confiança e recomendada pelo padre Mendonza como moça íntegra.
Seguiu-se depois uma discussão violenta com Edmond, após a qual passamos a nos encontrar apenas em eventos oficiais.
Ele levava uma vida dissipada, arrumou uma amante e começou a jogar — o que nunca fizera antes.
Manifestei ao duque abertamente meu desprezo por ele e comecei a me encontrar em segredo com Walter, que me confessou seu amor e disse que não podia viver sem mim.
Nos nossos encontros ele revelava paixão tão ardente, que acabei me entregando a ele.
Por algum tempo senti-me muito feliz.
Mas a felicidade foi anuviada pelo padre Mendonza, ao qual confessei toda a verdade.
Ele ficou chocado, censurou-me severamente pelo adultério e aplicou-me uma duríssima expiação.
Resolvi romper com Walter, porém, tão logo toquei no assunto, ficou possesso e ameaçou-me com escândalo.
Sentia-me infeliz, sem saber o que fazer; continuei tratando o duque em tom de desafio e aos seus olhares sombrios e desconfiados respondia com indiferença fria e snobe.
"Certa manhã, Edmond anunciou-me sua decisão de voltarmos a Komnor Castle, devendo eu estar pronta para a viagem em uma semana.
Não pude me opor abertamente e o meu ódio contra o duque aumentou ainda mais.
A temporada das festas estava em seu clímax, entretanto eu deveria enclausurar-me num velho ninho de coruja, sem poder encontrar a pessoa amada.
"Eu desconfiava estar sendo vigiada; apesar disso, com a ajuda de Betty, consegui marcar um encontro de despedida com Walter.
Hoje tenho certeza:
se aquele encontro não fosse realizado, eu não seria tão infeliz!
"Encontrei Walter estranhamente excitado.
Censurou-me por eu ter anuído em partir e, depois, disse-me em tom áspero:
— Não posso mais levar esta vida.
Temos que acabar com isso, eliminando o patife que se interpõe no caminho de nossa felicidade e na minha situação de independência financeira.
Por que me olha assim admirada?
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 19, 2016 7:50 pm

O que nós somos?
Você é uma esposa criminosa e eu — um indigente, enquanto sir Edmond — um Júpiter tonante, que pode nos desonrar e aniquilar, quando quiser.
Se ele morrer, serei o duque de Mervin e você, casando-se comigo, será uma duquesa.
"É verdade — concordei —, mas Edmond é jovem, goza de perfeita saúde e não pensa morrer, a não ser que você queira se tornar um assassino para alcançar esses objectivos.
"Ele soltou uma gargalhada e quase me quebrou a mão, de tanto apertá-la.
— Assassino? Não!
Não um assassino, mas um juiz equânime!
Esse homem tem-me torturado desde criança.
Além de lágrimas e humilhações, não tive nada desde aquela hora maldita em que fui levado a Komnor Castle para servir de palhaço, de brinquedo do perverso e selvagem patife, com quem o destino foi mais prodigioso.
Eu era órfão; era medroso e tímido, porque não recebi nenhum apoio e ninguém me protegia daquele miserável Tom Stenton, que teve a sina de nascer um duque.
"Ele crispou os punhos e eu até estremeci ao ver em seu olhar tanto ódio fulgindo.
— A felicidade só me sorriu quando você me entregou seu coração; mas esta foi arrancada por Edmond — continuou Walter, em voz trémula.
Covardemente, ele me enviou a Kelton Holm, aprisionando-me até se casar com você.
— Foi desleal da parte dele, mas o trato familiar entre o meu pai e o tio Robert foi tão vantajoso, que ele, é claro, não iria perder essa oportunidade — observei, tentando acalmá-lo, pois por nada nesse mundo desejava um desfecho sanguinário entre ambos.
"Walter deu uma risada maldosa e, pondo-se diante de mim, disse em tom mordaz:
— Está na hora de você saber de toda a verdade.
Por amá-la e para não constranger-lhe a paz, eu nada disse sobre um terrível crime; mas, agora, não ficarei calado.
Saiba, pois, que nunca houve algum acordo entre seu pai e Robert Mervin.
O corpo de seu pai não foi achado, porque ele estava vivo, aprisionado em Komnor Castle, onde foi morto um pouco antes de seu casamento.
"Soltei um grito e agarrei a cabeça com as mãos.
Não lembro quanto tempo fiquei aturdida, sem nada enxergar ou ouvir.
Voltei a mim quando senti o contacto de uma toalha molhada com que Walter me esfregava o rosto.
— Mas isso é impossível!
Como você não me disse nada, sabendo dessa patifaria — gritei, possessa.
— Já lhe expliquei a razão disso.
Aliás, só conheço uma parte dos factos.
— Quero saber de tudo que é de seu conhecimento.
Já que começou, não há motivos para esconder o resto.
Fale tudo!
— Está bem! Aconteceu assim.
Eu ocupava um quarto na torre setentrional, que dá para o pátio interno.
Certa noite não conseguia conciliar o sono; Edmond e Tom Stenton me obrigaram a brincar de batalha e me bateram tanto, que meu corpo doía todo.
Depois de chorar muito, eu me levantei da cama e abri a janela, querendo me refrescar.
Subitamente ouvi um barulho no pátio, normalmente vazio àquela hora.
Olhando pela janela, vi o portão que dava para o parque sendo aberto e em seguida percebi dois homens carregando uma maca, e o tio Robert saindo da sombra.
Da maca, tiraram um homem amarrado, tentando se livrar das cordas.
Ele foi imediatamente levado à torre — você bem sabe que ali existe uma escada que leva ao subterrâneo.
Assim, eu soube que ao castelo haviam trazido um prisioneiro.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 19, 2016 7:50 pm

Não ousei dizer a ninguém sobre minha descoberta, mas tentei descobrir o mistério.
Como eu não oferecia nenhum perigo e me consideravam um idiota, consegui ouvir muitas coisas.
Assim, certa vez o tio disse, não sei para quem:
- Finalmente, depois de muito trabalho, consegui a assinatura.
Incrível: esse cão de Aldjernon é tão teimoso!'
Eu tinha medo de ser descoberto e não fiquei para ouvir o resto.
— Aldjernon era o nome do meu pai.
O que lhe fizeram?
De ira e comoção, lágrimas me escorreram.
— Contar os detalhes seria demasiadamente longo — continuou Walter.
De qualquer modo, descobri que o velho Joffrei, leal ao tio de corpo e alma, levava comida ao prisioneiro, de cuja existência ninguém mais sabia.
Logo imaginei que se tratava de seu pai, pois ouvi de você mesma o nome.
Depois, com a morte de Joffrei, seu carcereiro passou a ser Tom Stenton.
Agora, o último acto do drama.
Lembra-se de que a morte do tio se deveu, supostamente, à sua queda da escada na torre, onde se guardam os arquivos? Há-há-há!
Naquela torre existe um acesso aos calabouços subterrâneos, de onde, justamente, o digníssimo Stenton carregou o tio — deve imaginar com quanto esforço!
Apesar de todos os cuidados tomados por parte de Edmond, eu vi o tio no leito de morte e ouvi o que ele disse em delírio.
Interceptei também a conversa de Edmond com Tom e, desses fragmentos, tirei a seguinte conclusão:
o seu pai tinha na Holanda diversos bens, herdados da mãe — uma holandesa, como você sabe.
O tio não conseguia arrancar de seu pai — um homem muito corajoso, aliás — a assinatura que lhe passaria todos esses bens.
Suponho que talvez devido a um longo confinamento e suplícios sir Aldjernon ficou doente e seus algozes resolveram fazer uma última tentativa.
Não sei como realmente aconteceu, mas o prisioneiro conseguiu desferir um violento soco com as algemas na cabeça do duque, afundando-lhe o crânio.
Tom Stenton então cravejou as costas de seu pai com um punhal e carregou o tio para fora.
Foi aí que soltaram aquela conversa; depois da morte do tio, vocês viajaram a Londres.
Diga-me então:
serei um assassino ou juiz, se acabo com Edmond — meu algoz e co-autor do crime hediondo?
— Não! — respondi. — Mate-o. Será feita justiça.
Não tivesse morrido o tio Robert, eu mesma teria lhe enfiado uma faca.
Quero que Stenton morra com o duque.
— Não serei eu a ter pena dele — respondeu Walter, beijando-me.
"Em seguida, discutimos com incrível frieza os detalhes do intento e a forma de nos correspondermos por intermédio de Betty.
"Voltei para casa como que ardendo de febre.
Vivi tanto tempo a alguns passos do pobre papai e o coração não me disse que ele estava vivo, sofrendo enormes suplícios.
No dia seguinte viajamos.
Tive bastante presença de espírito para não revelar ao meu marido nada além da indiferença que ele me sugeria.
Mas o ódio que me fervia na alma não arrefecia e eu ansiava a morte de Edmond, julgando que seu fim seria sacrifício expiatório da memória do papai.
"Assim passou mais de um mês após a nossa vinda ao castelo.
Já era metade do outono e o tempo naquele país montanhoso era chuvoso e frio.
"Edmond tentou inutilmente fazer as pazes comigo e, para contrariar-me, vivia fora de casa, voltando tarde da noite; não levava com ele ninguém, além de Stenton.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 19, 2016 7:50 pm

Devo dizer que Stenton, ainda desde Londres, mantinha o mesmo corte de cabelo e barba de meu marido; assim, somente pela roupa podia-se distinguir quem era um e quem era outro.
Isso me deixava irritada.
Observei o facto a Edmond, dizendo que, se Tom vestisse seus trajes, seria tomado por ele; mas, provavelmente ele precisava de um sósia para esconder suas traquinagens.
O duque apenas deu um sorriso irónico em resposta.
"Certa noite, estando Edmond fora de casa como de costume e eu preparando-me para deitar, Betty entregou-me uma carta, sem nome do remetente; eu sabia, porém, que era de Walter.
Ele dizia que tinha vindo tratar de negócios de meu conhecimento, e pedia que eu o encontrasse sozinha, entre meia-noite e uma hora, numa senda que levava ao parque.
Não fiquei muito satisfeita com o local do encontro, pois o duque normalmente voltava por aquele caminho, que era um atalho para casa.
Se ele me encontrasse ali com Walter, sem dúvida haveria um escândalo, cujo desfecho seria imprevisível.
Decidi ir o mais rápido possível para levar o incauto amante, mais tarde, a um lugar mais seguro.
Todos estavam dormindo no castelo.
Dispensei Betty, envolvi-me numa capa escura e saí de casa por um caminho secreto.
"O tempo estava horrível:
soprava vento glacial e uma chuva fina fustigava-me o rosto.
Pus o capuz, ergui as abas da saia de veludo e caminhei tão rápido quanto me permitia o vento.
Walter não me instruiu exactamente onde me aguardaria e eu, impacientemente, corri pela trilha ladeada de rochedos, quando ouvi um grito.
Ainda que a tempestade tivesse abafado o som, julguei ser a voz do duque.
"Meu coração palpitava celeremente e parei por um minuto indecisa.
Se Edmond tivesse visto e reconhecido Walter, eu teria de voltar depressa para casa.
Mas a curiosidade foi maior.
"Esgueirando-me por entre os rochedos, cheguei perto da curva da trilha, tentando ver o que havia acontecido.
Uma lamparina, na mão de um homem de máscara, iluminava um corpo jazendo na terra e, junto dele, de joelhos, avultava-se a figura de outro homem.
Ao longe, ouvia-se o tropel de cavalo fugindo.
Neste instante, ouvi:
— Ele deve estar morto.
"Cheguei mais perto e vi que Walter também estava de máscara.
Ele apontou para o homem estendido e disse a meia voz.
— Com toda certeza.
"Lembrando aquele minuto, fico espantada com o meu sangue frio.
Nem remorsos nem compaixão agitaram-se em minha alma; ao contrário, ela se encheu de satisfação.
Subitamente, uma dúvida me assaltou.
— É ele mesmo?
Não será Stenton; você não se enganou? — perguntei.
O homem mascarado estendeu-me a lamparina; Walter tirou a capa que toldava o rosto do cadáver, eu me agachei e o iluminei.
Era Edmond. Seu rosto azulado estava retorcido de sofrimento e o sangue jorrava do ferimento no peito.
— Agora que você está convencida, vamos atirar o ilustre duque no precipício.
Seu cavalo fugiu — o que será interpretado ter sido ele vítima de um acidente ou de bandidos...
Tanto faz! Que o procurem!
A chuva apagará os sinais de sangue.
"Walter arrancou a capa do duque, o chapéu e uma luva; depois tirou sua carteira e algo mais, de que não me lembro.
Ajudado pelo desconhecido, ele ergueu o cadáver e o atirou na fenda rochosa.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 19, 2016 7:50 pm

Conversamos um pouco.
Ele contou em poucas palavras que, para evitar suspeitas, algum tempo depois de nossa partida de Londres, ele também deixou a capital com um amigo seu e eles atravessaram o canal.
Ao desembarcarem no território francês, eles se separaram e Walter disse ao companheiro que ia entrar no exército, na Holanda.
Num lugar combinado, ele esperou a vinda de uma pessoa de confiança, que agora o estava ajudando, e ambos viajaram para a Escócia.
"Como o objectivo fora alcançado, eles viajariam de volta para um porto escocês próximo e, de lá, Walter escreveria para Londres, retornando à capital assim que lhe comunicassem ter-se tornado o duque de Mervin.
Nisso nós nos separamos.
"Qual não foi meu espanto quando, de manhã, fui acordada pela criadagem perplexa, comunicando-me que na trilha fora encontrado o corpo do duque, provavelmente vítima de latrocínio.
Não sabia o que pensar.
Alarmada, eu me vesti e fui até o local do crime, ao qual acorreram todos os empregados do castelo.
"No caminho, a uns cem passos de onde Edmond tinha sido supostamente morto, jazia um corpo, toldado de capa.
O rosto estava desfigurado por enorme ferimento; não obstante, nele se reconhecia o duque e em seu dedo fulgia o anel de rubi do qual não se separava.
Depois foram achados o chapéu, a luva e a carteira vazia.
O cadáver foi carregado para o castelo; todos estavam convictos de que aquele corpo era do amo assassinado.
Só mais tarde eu soube o que aconteceu realmente.
"Por alguma razão desconhecida, Tom Stenton ficou para trás; Walter e seu cúmplice, findo o ato ignóbil, abandonavam o local do crime, quando ouviram o trotar de cavalo e logo viram seu cavaleiro.
Era Tom que, ao que parecia, tentava alcançar o duque.
Os cúmplices agiram imediatamente:
enquanto um agarrava o cavalo pelos arreios, outro cravou um punhal nas costas de Tom, derrubando-o à terra.
Então veio-lhes a ideia de fazer pensar que aquele corpo era do duque, uma vez que seu amigo não seria tão judiciosamente procurado.
Com esse objectivo, eles desfiguraram o rosto de Tom e despiram-no para que a roupa não o traísse, puseram em seu dedo o anel de Edmond, que Walter descobriu em poder de seu cúmplice e obrigou que este o devolvesse.
"Como já disse, disso eu soube só mais tarde.
O plano não poderia ter dado mais certo.
Ninguém duvidou da morte de Edmond e, uma vez que Tom desaparecera sem deixar pistas, alguns criados que o odiavam e invejavam logo suspeitaram de que ele havia assassinado e assaltado o duque, na ocasião com muito dinheiro, ganho no baralho — não encontrado com a vítima.
Quanto a mim, todas aquelas incertezas deixaram-me, a propósito, com ar de viúva desconsolada.
Que coisa estranha! — eu não senti na época nenhum remorso, que hoje me dilacera, bafejando o terror da morte.
"Após o enterro fausto de Tom Stenton no jazigo dos Mervin, retornei a Londres.
Algumas semanas depois veio Walter, sendo introduzido na sociedade como novo duque.
Estávamos ambos felizes e decidimos nos casar findo um ano.
Por causa do luto, eu saía pouco, entregue aos sonhos cor-de-rosa do meu futuro.
"A notícia de que o padre Silva estaria em Londres deixou-me, não sei por que razão, deprimida.
"Certa noite ele veio me visitar.
Recebi-o com a costumeira alegria; a nossa conversa era meio murcha e eu me sentia estranhamente constrangida sob o seu olhar severo e perscrutador.
— Há tempo que não nos vemos, minha filha.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 19, 2016 7:51 pm

A senhora enviuvou e mudou muito.
Até hoje conversamos como duas pessoas mundanas, mas gostaria de lhe falar como sacerdote.
Por ter sido amigo de seu falecido pai e o ser da senhora, acredito ter esse direito.
"Eu fiquei vermelha e uma angústia indefinida tomou conta de meu ser.
Respondi então que sempre estava disposta a abrir-lhe o coração, e nós fomos até o oratório.
Ali, ele me disse, fitando-me os olhos:
— A senhora não quer me confessar o que lhe oprime tanto a alma?
Terá sido sempre sincera com seu guia de consciência, o padre Mendonza, como manda o dever?
"Fiquei embaraçada, pois eu nada havia dito ao padre Mendonza sobre a minha co-participação na morte de Edmond.
Como o reverendo chegou a saber disso?...
Fui tomada de terror supersticioso e desabei em pranto; depois, confessei-lhe tudo.
Ele ouviu calado e balançou a cabeça.
— Estou profundamente amargurado, minha filha, ao ver em que sorvedouro desceu sua alma.
Eu já sabia de tudo isso, pois eu os ando vigiando, mas queria ouvir a confissão do delito de sua própria boca.
Um acto ignóbil puxa outro.
Primeiro o adultério, depois o assassinato.
Sabe que seus pecados são passíveis de maldição?...
Ao me ver assaltada de terror insano, ele acrescentou:
— A nossa mãe comum e sagrada é a Igreja, piedosa com pecadores arrependidos.
Como, minha filha, a senhora pode provar seu arrependimento sincero?
"Minha cabeça girava e eu balbuciei que pretendia fazer grandes doações à Igreja e, depois, casando-me com Walter, tentaria me reparar, tornando-me uma esposa exemplar.
Um sorriso de escárnio franziu o rosto do venerado padre.
— Tenho a impressão, minha filha, de que o mal que se apoderou de sua alma também embotou-lhe a razão.
Para remir o delito de que foi mentora, a senhora não consegue inventar nada melhor do que casar com o amante, ratificando o crime?
Pois saiba que, se espera receber o perdão da Igreja e salvar sua alma do inferno, deverá desistir para sempre dessa intenção duplamente criminosa, que a Igreja jamais abençoará.
"Eu fiquei passada; todos os meus projectos iam ruindo e, entre o pranto, comecei a suplicar-lhe a obter a autorização do Santo Padre para essa união, mas o padre Silva continuou irredutível.
Achei que ficaria louca:
para evitar a execração da Igreja, eu seria condenada à viuvez pelo resto da vida — e eu só tinha vinte anos.
Tivesse pelo menos um filho; não, eu não tinha ninguém...
"Ao saber da minha conversa com padre Silva, Walter pôs-se a injuriar e amaldiçoar o clero.
Amedrontada, tentei acalmá-lo, ainda que debalde.
Torturava-me também uma dúvida insolúvel:
de que modo Silva conseguira saber da verdade sobre a morte de Edmond?
Quando abordei este assunto com Walter, ele, irritado, deixou escapar algumas palavras que germinaram em mim a suspeita de que ele tinha se aberto no confessionário com o seu guia espiritual, o qual, por sua vez, transmitiu tudo ao reverendo Silva.
Mas seria possível o padre Mendonza ter quebrado o segredo da confissão?
"O padre Silva visitava-me diariamente, tentando consolar-me e dissuadir-me.
Certa vez, ao comentar com ele que Walter estava francamente contrariado com o clero e pretendia apelar ao Santo Padre, ameaçando também fazer um escândalo por causa de certos factos a mim desconhecidos, o padre Silva observou severamente:
— Ele que se atreva!
Aconselhe àquele criminoso ficar quieto e agradecer a Deus de não o entregarmos à justiça dos homens.
Ou ele acha que, ao se tornar duque de Mervin, nem terra nem os céus têm poder sobre ele?
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 19, 2016 7:51 pm

"Logo depois dessa conversa, a minha fiel camareira Betty Farnley adoeceu.
Dispensei-lhe todos os meus cuidados e não medir recursos para seu tratamento, mas sua enfermidade ia-se agravando.
Certa noite, fui acordada por uma criada que me anunciou que Betty suplicava que eu fosse ter com ela para revelar-me algo muito importante...
Vesti o roupão e fui a seu quarto.
Quando ficamos a sós, ela disse chorando que um grave crime lhe pesava na consciência e rogou que eu a perdoasse e não a amaldiçoasse por isso.
Dei-lhe minha palavra e, então, ela me revelou que meu filho não estava morto, mas fora raptado quando fiquei doente, sendo substituído por uma outra criança que contraiu a varíola da ama previamente contagiada, vindo os dois a falecerem.
"Fiquei tomada de ira e desespero; quis saber do paradeiro da criança, mas Betty nada pôde dizer a respeito, a não ser que ela o havia levado à casa de uma mulher chamada Flora Vebster, que lhe entregou em troca uma criança moribunda.
Quem era o mentor daquele crime, ela não sabia.
Flora, uma jovem bonita, seduzira-a com cem moedas de ouro; Betty aceitou, pensando em abrir uma banca de miudezas e casar-se.
Deus, entretanto, puniu-a e seu noivo morreu numa briga; os remorsos não lhe davam a paz e ela não queria levar o segredo do crime para o túmulo.
Desde a época da entrega da criança, ela nunca mais viu Flora.
Eu exigi que Betty escrevesse a confissão e a assinasse — o que ela fez.
"Na mesma noite ela faleceu.
Eu não tinha como duvidar da veracidade do relato de Betty e, ao mesmo tempo, não conseguia atinar quem pudesse urdir essa trama.
Subitamente uma terrível suspeita brotou em minha alma.
A única pessoa no mundo para quem interessaria a morte do pai e do filho era Walter; justamente os dois seriam um obstáculo entre ele e a coroa de ducado de Mervin...
Se era Walter, teria ele matado Charly como o fez com Edmond, ou simplesmente o tirou do caminho?
Neste caso, o que havia acontecido à criança?
Eu me perdia em conjecturas e suspeitas e, por vezes, temia por minha sanidade mental.
Por fim, não aguentando mais, contei tudo ao padre Silva, vindo para se despedir de mim.
Ele pareceu ter ficado perplexo.
Após reflectir, aconselhou-me a não revelar minhas suspeitas e esperar, até que ele mesmo tomasse medidas enérgicas para elucidar o mistério.
— Sabe, minha filha, os olhos da Igreja enxergam melhor que os de mortais comuns, e seus servidores conseguem penetrar onde nenhum policial o consegue.
Esteja certa, lady Antónia, tudo será feito para que seu filho seja encontrado, se estiver vivo.
Se Deus devolvê-lo, será uma prova de Seu perdão e misericórdia para com a pecadora arrependida.
"Muito tempo se passou numa incerteza angustiante.
Não havia notícias do venerando Silva e eu vivia num total isolamento.
Passei a evitar Walter, amor que se foi extinguindo.
Com sentimento misto de terror e raiva eu tentava ler em seu rosto se ele era culpado ou inocente.
Finalmente veio uma carta do venerando; ele comunicava que após longas e, inicialmente, infrutíferas buscas, conseguiu encontrar os rastros e, mais tarde, a própria criança, que estava com músicos andarilhos.
Descobriu-se que Flora, já falecida, tinha sido amante de Walter.
Ela ficou com a criança morando numa cidade italiana e, mais tarde, por alguma razão desconhecida, deu-a aos músicos.
Um feliz acaso levou-os a Roma, onde a criança foi reconhecida pela extraordinária semelhança com Edmond.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 19, 2016 7:51 pm

O menino estava em lugar seguro e, assim que os documentos ficassem prontos, seus direitos seriam restituídos e ele seria trazido por uma pessoa de confiança.
Até lá eu deveria ficar calada.
Desde o recebimento daquela carta eu não me cabia de ansiedade.
"Algum tempo depois, Walter disse-me que planeava viajar a Roma para falar com o Santo Padre; o Papa, ouvindo-lhe a confissão, não recusaria em dar sua anuência para o nosso casamento.
Caso contrário, ele rejeitaria a fé católica.
Eu não disse nada, apenas olhei para ele com desconfiança e desdém.
Já não pensava em desposá-lo e, se ele ainda se tornasse um apóstata, significaria que era capaz de qualquer infâmia.
Oh, como ele seria punido, se eu conseguisse restituir a Charly seus direitos!
Walter perderia tudo que adquirira perfidamente e eu seria vingada por ter sido atraída para participar de um crime pelo qual pagava tão caro.
"Finalmente chegou um sacerdote em companhia de uma velha e um menino de três anos.
Um olhar bastou para eu ficar convencida de que ali estava meu filho.
A prova vinha estampada em seu rosto — cópia reduzida de Edmond.
Jamais vi uma semelhança tão fiel:
os olhos, as madeixas escuras, a expressão e até as maneiras — tudo era do pai.
O pequerrucho palreava em italiano e anunciou que era chamado de Tónio; em seguida, começou a brincar no quarto.
"O velho padre entregou-me alguns papéis, entre os quais os depoimentos oficiais de dois vizinhos da falecida Vebster e um depoimento de dois acrobatas volantes:
Charlotta e Gaetano Malvolio, que certificavam ter recebido o pequeno Tónio de Flora Vebster.
"Walter encontrava-se neste ínterim na Escócia, preparando-se para ir a Roma, e eu aproveitei sua ausência para marcar uma audiência com o rei.
Expus-lhe todo o assunto e apresentei o meu filho.
O rei, que conhecia Edmond desde a infância, ficou perplexo com a semelhança da criança com o pai morto, e mandou que se fizessem investigações.
Devo acrescentar que Edmond havia mandado gravar no ombro do menino a efígie familiar com uma tinta azul indelével; era justamente para encontrar essa marca que, na época, ele pretendia exumar o corpo.
A efígie foi encontrada no ombro do menino e o médico da corte atestou que a gravação era antiga, feita, supostamente, logo após o nascimento da criança.
"Nesse meio tempo Walter retornou, sem saber dos acontecimentos.
Ao entrar no meu quarto, viu o pequerrucho brincando no tapete.
Empalidecido cadavericamente, ele inquiriu rispidamente quem era aquela criança e o que ela fazia lá.
Respondi-lhe que era Charly — duque de Mervin, sequestrado por uma tal de Flora Vebster por instrução de um malfeitor ignóbil.
Pela providência divina, porém, ele foi achado e uma investigação rigorosa, ordenada pelo rei, revelaria logo o culpado, restituindo ao menino seus direitos legais.
Walter ouvia tudo, mudo e perplexo.
Se eu ainda tivesse dúvidas, aquele minuto convenceu-me do contrário:
mais do que quaisquer palavras, lia-se a culpa em seu rosto.
Sem dizer nada, deu as costas e saiu.
"No dia seguinte, entregaram-me uma longa carta sua.
Ela está comigo agora e eu a releio amiúde.
Hoje acredito que ela é sincera e contém toda a verdade.
Walter reconhecia a culpa, mas jurava que tanto para cometer o primeiro, como o segundo crime foi compelido por padre Mendonza, que odiava Edmond.
O padre exprobrava a possibilidade de que tanto os meus bens como os do duque viessem a cair nas mãos do "herege".
Se a criança fosse sequestrada, poder-se-ia salvar-lhe a alma, consagrando-a a serviço de Deus.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 19, 2016 7:51 pm

Ao mesmo tempo, Walter era seduzido com a ideia de se tornar o duque de Mervin, desforrando-se das ofensas e maus-tratos a que fora submetido.
A paixão por mim fez o resto.
Auxiliado pela amante, Flora Vebster, ele roubou a criança, mas a grande importância em dinheiro paga a Betty e Flora foi arrumada pelo padre Mendonza.
O assassinato de Edmond foi uma consequência do primeiro delito, movido por paixão a mim.
De qualquer forma, o cúmplice que o ajudou a matar o duque foi, por instrução de Mendonza, trazido da Itália.
Esse comparsa conhecido por Gaston de Tremon, estando embriagado, afirmou que era fiel ao padre Silva de corpo e alma e que fora enviado por ele à Escócia; além disso, o reverendo padre estava envolvido com o sequestro da criança.
"Estou acabado e, além do mais, perdi a mulher adorada — escrevia Walter.
Não suportarei o que me aguarda; a possibilidade de perder o que eu obtive pagando caro e ficar na miséria, ter minha cabeça à mercê do carrasco, ser odiado e desprezado por você, Antónia — tudo isso está além de minhas forças.
Se eu ao menos pudesse desmascarar os infames padres que me destruíram!
Mas quem me acreditaria... um criminoso?
Sei que não posso fazer nada.
Eles têm o poder nas mãos, conquanto sua hipocrisia erudita os salvaguarde da justiça humana.
Que eles sejam amaldiçoados!
"No dia seguinte, recebi a notícia de que Walter foi encontrado morto:
ele havia se suicidado com punhal.
A carta abalou-me profundamente; não sabia o que pensar e não me atrevia a confiar a ninguém as minhas dúvidas.
Minha razão, entretanto, recusava-se a acreditar na delinquência de dois homens sérios e honrados por quem nutria grande respeito e confiança, sobretudo por padre Silva, que parecia permanecer alheio aos assuntos mundanos.
"Não vou descrever aqui sobre o processo que restabeleceu os direitos de meu Charly; disso se falou muito na corte e na cidade.
A demanda estava por terminar, quando veio o padre Silva.
Ele estava incrivelmente meigo e bondoso comigo e com a criança; achou que mudei muito e emagreci.
Para animar-me, entregou-me o indulto do Santo Padre, onde se perdoava a minha participação na morte de Edmond; deu-me ele também duas hóstias, consagradas pelo Papa, com uma das quais o reverendo padre me comungou pessoalmente.
"Feliz e tranquilizada, eu agradeci.
Quando nós comentamos algo sobre Walter, eu lhe mostrei sua carta ante-mortem.
Percebi como as mãos e os lábios do padre tremiam ao lê-la.
Depois, ele persignou-se e disse:
— Esse infeliz, sem dúvida, estava possuído por demónio, já que foi capaz, antes de morrer, de inventar tantas histórias injuriosas.
Espero, minha filha, que nem eu, nem o respeitável padre Mendonza tenhamos que nos justificar de tais acusações absurdas.
"Eu afirmei que, se por um instante nelas acreditasse, não lhe teria mostrado a carta.
"Logo depois desse encontro, manifestaram-se os primeiros sinais de minha enfermidade misteriosa, que me foi debilitando e que não cedia a nenhum tratamento.
No início, eu era tomada por fraqueza repentina, seguida de ânsia de vómito e dor de cabeça; depois, era acometida de taquicardia e dores agudas nos membros.
O médico aventou a possibilidade de que as violentas perturbações que se sucederam em consequência da morte de meu marido, o rapto de meu filho e o suicídio do amigo da infância, abalaram o meu organismo, e prescreveu-me repouso absoluto, preferencialmente longe do lugar que me fazia lembrar dos tristes acontecimentos.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 20, 2016 7:29 pm

Ele aconselhou-me a passar o inverno na Florença, achando que o maravilhoso clima da Toscana faria bem a mim e à criança.
"Assim, eu viajei e me instalei na Florença.
Mas... não houve qualquer melhora na saúde.
O reverendo Silva visitou-nos por uns dias; ele parecia muito amargurado, nervoso com algo e fitava-me tão estranhamente, que me deixava constrangida.
Em minha alma havia também uma revolução em curso.
O perdão do céu como que despertou os meus remorsos, e a lembrança da morte de Edmond me atormentava.
Em sonhos, a mim assomava-se o rosto pálido do duque, transfigurado por agonia, e eu tornava a assistir ao seu corpo sendo jogado no precipício, de onde se ouviam seus gritos e apelos de ajuda; eu acordava toda trémula, suando em bicas.
Às vezes, com nitidez dilacerante, eu me lembrava dos bons momentos de nossa vida conjugal:
as menores atenções, as carícias ou as preocupações de Edmond comigo antes do nascimento do nosso filho, assim como da paciência com que ele suportava os meus caprichos.
Em tais momentos, os remorsos me atormentavam e eu sentia uma vontade irresistível de rever Komnor Castle, como se uma força incontrolável me atraísse àquele local fatídico.
"Meu estado doentio foi-se agravando ao lado da nostalgia pelo castelo e decidi partir; mas, um pouco antes de minha viagem, aconteceu um facto muito curioso e inesperado.
"Depois que Charly foi localizado, tentei por várias vezes indagar sobre sua vida anterior; mas, na época, ele era muito pequeno para ter consciência das condições de sua existência e do ambiente em volta.
Na maioria das vezes, em seu palrear, ele comentava o nome de Charlotte, de quem não gostava, chamando-a de cattiva (perversa) e de uma tal de Marietta, que, ao contrário, era por ele adorada e pela qual chorava, queixando-se de que ela não estava com ele.
Três ou quatro dias antes da partida de Florença, fui passear com Charly.
De repente, numa das esquinas, a nossa carruagem ficou presa por uma multidão de pessoas.
Olhei pela janela e vi no meio do povo dois músicos:
um jovem tocando bandolim e uma mulher que cantava e tocava uma harpa velha.
Ao terminar a canção, ela passou um prato de madeira por entre os presentes; mas, ao ver a carruagem parada, aproximou-se da portinhola e, hesitante, estendeu o prato; eu já abria a carteira, quando Charly exclamou de repente:
— Marietta! Marietta! - e estendeu-lhe as mãozinhas.
Seu movimento foi tão brusco, que ele teria caído para fora da carruagem, se eu não o tivesse agarrado.
A mulher também ficou pasma e exclamou:
— Tónio! é você?
"Ao notar os olhares da multidão pregados curiosos sobre nós, apressei a lhe enfiar na mão uma moeda de ouro e, ao me nomear, disse-lhe para passar em casa, junto com seu companheiro.
Ao retornarmos para casa, mal tive tempo de conseguir acalmar Charly, que chorava, tremia e chamava por sua Marietta, quando os dois italianos chegaram.
Mais tarde soube que o homem era chamado de Lasari e era marido de Marietta que, de facto, cuidou de meu filho, servindo na casa onde ele vivia.
"Ao ver a felicidade de meu filho, propus a Marietta trabalhar de babá de Charly, enquanto ofereci a Lasari o lugar de criado.
O salário contratado deixou-os satisfeitos e eles aceitaram acompanhar-me na viagem.
"Fiquei convencida de que Marietta adorava meu filho; quanto ao passado, ela era muito discreta e evitava falar dele, como que por medo.
Decidi que com tempo eu a faria revelar-me factos misteriosos do rapto.
"Já faz três semanas que estamos em Komnor Castle e eu me sinto cada vez pior.
Não sinto dores, devo dizer, mas a vida está me esvaindo, de modo que até escrever é difícil...
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 20, 2016 7:29 pm

~IX~

Oh, meu Deus, quantas desilusões desde que parei de escrever da última vez!
Que terrível foco de luz iluminou os inúmeros mistérios do passado.
Hoje eu sei que fui envenenada e... ainda por quem!
Minha razão recusa-se a entender isso...
Desde ontem, estou como num pesadelo; no entanto preciso de repouso, pois devo pôr em ordem muitas coisas e não sei quanto tempo me sobra de vida.
Tentarei, todavia, transmitir em detalhes o estranho relato de Marietta e, talvez, isso me acalme e me distraia do pensamento fixo da morte.
Eu jamais suspeitei da existência daquele mundo que descobri pelo relato de Marietta.
"Ontem à noite eu estava arrumando a caixa com minhas jóias, enquanto Charly brincava com Marietta junto à janela; porém a curiosa italiana aproximou-se da mesa onde eu deixei os objectos espalhados, entre os quais havia um medalhão com a miniatura de retrato do padre Silva.
Ele me havia presenteado com ela alguns anos antes.
De súbito, Marietta agachou-se e agarrou o medalhão, exclamando surpresa:
— Deus misericordioso!
O senhor Giovanni é um padre?!...
"Estremeci. O que poderia significar?
Como poderia aquela mulher conhecer o reverendo e, ainda, sob o nome de senhor Giovanni?
Ordenei que ela contasse tudo sobre aquele senhor Giovanni.
No início ela se opôs, alegando que não podia falar nada de desrespeitoso sobre um representante do clero, mas, como o segredo a oprimia e não se fazendo mais de rogada, contou-me toda sua vida.
Tentarei transmitir o relato dela com máxima precisão, reproduzindo as palavras de Marietta, de tão bizarras e incomuns pelos detalhes e protagonistas.
"A origem de Marietta é obscura.
Quando ela contava com apenas alguns meses de vida, um homem de máscara levou-a a uma pobre mulher nos arredores de Roma, dando-lhe tanto dinheiro, que essa pensou que a criança pertencesse a alguma dama nobre.
Entretanto, ninguém exigiu a criança de volta e, quinze anos depois da morte da mãe adoptiva, ela foi pega por vizinhos por ser boa trabalhadora.
Uns dois anos depois, certa manhã, apareceu um senhor, vestindo trajes ricos mas gastos, e anunciou que fora enviado pela pessoa que tinha entregue a criança a mando da mãe.
O homem ordenou que ela se preparasse para ir embora com ele.
A desconhecida progenitora sempre fora seu ídolo, com quem sonhava reencontrar-se e, apesar de o estranho não lhe inspirar muita confiança, Marietta acompanhou-o sem hesitar.
Ele a levou para outra extremidade de Roma, um lugar ainda mais ermo, pobre e sujo do que o que ela morava.
Ali, atrás de miseráveis casinholas, erguia-se um prédio em ruínas.
"A carroça em que eles chegaram foi estacionada no pátio, de onde havia entrada para a casa.
Através de uma porta, precariamente sustentada por uma dobradiça, e um corredor enegrecido feito chaminé de lareira, eles adentraram um pequeno quarto quase vazio e, depois, entraram numa sala espaçosa de tecto baixo, apinhada de móveis e objectos.
"Ao lado do fogão aceso, numa alta poltrona com espaldar engalanado por brasão, estava sentada uma mulher de idade indefinida.
O rosto carnudo com faces macilentas era feio, os olhos, penetrantes e severos, e os cabelos — despenteados.
Sua roupa era pobre e desleixada.
Do pescoço pendia um colar e a cabeça, desgrenhada, adornava-se por uma faixa de moedas de prata e ouro.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 20, 2016 7:29 pm

A mulher recepcionou Marietta com alegria adocicada e anunciou que a mãe da jovem, ao morrer, confiou-lhe sua filha e que esta iria viver com ela ali, ajudando-a nos trabalhos de casa.
"Quando Marietta transferiu para o velho baú seus humildes bens, a "dama" explicou-lhe suas novas responsabilidades, referindo-se a seus trapos como "toalete" e ao pequeno quarto sujo como "sala de recepção", onde ela, uma curandeira famosa, recebia pacientes numerosos.
Depois, todos se sentaram à mesa para almoçar.
Por mais que fosse simples a casa onde antes vivia Marietta, lá, no entanto, tudo era limpo, e a mais humilde das refeições era gostosa.
Já onde Marietta estava, o almoço era algo indefinido que a senhora Charlotta despejou da panela e chamou de caldo de peixe.
Não apeteceu a Marietta; apesar disso, a "senhora" e o "senhor" devoraram-no com apetite.
Este último ainda pegou uma garrafa de vinho e começou a tomá-lo.
— Vai se embebedar de novo?
Esqueceu, por acaso, que esse vinho é para paladares finos e, além do mais, teremos visitas à noite? — observou em tom severo Charlotta.
"Ele, porém, objectou contrariado:
— Passei o dia inteiro cuidando de seus assuntos e não pretendo morrer de fome e sede.
Já chega que eu, o cavaleiro Gaston de Tremon, humilhe-me representando um criado.
"Charlotta soltou uma gargalhada, segurando as ancas.
— Acalme-se, nobre cavaleiro, e não se esqueça que eu sou a marquesa Salvator Tartinelli; meus antepassados nem permitiriam que você entrasse no vestíbulo.
Você, seu patife, teria morrido de fome, se eu não trabalhasse tanto para alimentá-lo.
Está na hora de você mostrar o serviço.
"O nobre cavaleiro" passou a comer em silêncio e depois se deitou num velho colchão, estendido no chão.
Charlotta contou a Marietta que sua ilustre família se havia arruinado; não obstante à alta estirpe, ela ajudava os sofredores, fazendo poções mágicas.
Apontando para Marietta algumas prateleiras atravancadas de potes, vidros, saquinhos e feixes de ervas secas, explicou que eles continham a salvação do género humano, a que consagrara a vida, distribuindo os preparados aos necessitados a preço ridículo.
Além do mais, segundo suas palavras, ela tinha o dom de clarividência e, sendo assim, o passado e o presente não lhe eram mistério.
"À noite, o "cavaleiro", que dormia roncando, foi despertado com um chute de Charlotta, que lhe ordenou levar o cavalo para um tal de senhor Giovanni.
— Ande rápido, idiota!
Ele sempre lhe dá alguns trocados — acrescentou.
"Gaston balbuciou algo a respeito da avareza de Charlotta e de seus clientes; pegou a capa e montando no pátio um cavalo saiu segurando pelas rédeas um corcel maravilhoso, de sela cara.
Após sua partida, Charlotta enfeitou-se:
ela vestiu uma blusa vermelha e adornou a cabeça com uma espécie de turbante azul; em seguida, pôs na mesa uma garrafa de vinho e uma torta salgada de ave selvagem.
Indicando a Marietta um colchão de palha perto do fogão, mandou-a dormir, já que não precisava mais dela.
Marietta, curiosa em saber quem poderia visitar aquela casa imunda, fingiu estar dormindo; aliás, Charlotta não lhe dava qualquer atenção, roncando alto na poltrona.
"Passado algum tempo, Marietta ouviu o tropel de cavalos aproximando-se e silenciando perto da casa.
Logo, o quarto era adentrado por Gaston, seguido de um homem de máscara e capa.
Após apertar amistosamente a mão de Charlotta, o desconhecido tirou a máscara e Marietta pôde distinguir o rosto, que mais tarde reconheceu em meu medalhão; naquela hora, porém, ele chegava sem batina, trajando vestes ricas de veludo negro e, provavelmente, usando uma peruca, ostentando cabeleira escura e comprida, como era moda naquela época entre a fidalguia.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 20, 2016 7:30 pm

"Assim que o senhor Giovanni se acomodou na cadeira, Charlotta dispensou Gaston.
Aconselhada aos sussurros pelo visitante, ela foi buscar um braseiro com carvão, acendeu-o e despejou nele um punhado de grãos e um pó branco.
Do braseiro flamejou um fogo vivo que, ao se extinguir rapidamente, deixou uma espécie de pequenas cobrinhas multicolores que rodopiavam, deslizavam e se entrelaçavam no carvão, como vivas.
"Charlotta se inclinou sobre o braseiro e disse contrafeita:
— Sua paixão fatídica ainda há de lhe trazer muitas desgraças.
É melhor o senhor arrancar da alma a imagem que o perturba.
"O senhor, ou o padre Silva — pois era ele, e assim vou chamá-lo pelo verdadeiro nome — balançou a cabeça e disse:
— Meu amor haverá de ser correspondido.
Diga-me: quando lograrei o sucesso em meus projectos e poderei finalmente saciar a minha paixão?
— Para poder ver tudo mais claramente, preciso de um objecto que pertenceu a essa dama.
"Relutante, o reverendo tirou por trás do peitilho um lenço orlado de rendas e estendeu-o a ela.
Charlotta desatou a rir.
— Giovanni, Giovanni!
Se alguém o tivesse visto com esse lenço!
- Ao vê-lo, porém, esquadrinhando com olhar contrariado e temeroso em volta, ela acresceu:
— Fique tranquilo: ninguém está nos ouvindo.
"Depois, agitando o lenço sobre o carvão e examinando-o atentamente, Charlotta finalmente disse:
— Seus projectos darão certo, não sem antes algumas vítimas.
Ela acabará se apaixonando pelo senhor, com minha ajuda, é claro.
— Está bem! Prepare um filtro de amor; pagarei o que for pedido.
A senhora não se arrependerá em me ajudar.
"Seguiu-se então uma sessão de leitura da sorte em cartas; depois chegou Gaston, todos jantaram, após o que os homens iniciaram um carteado.
O reverendo perdeu uma boa soma e, visivelmente cansado, levantou-se para ir embora.
Gaston já ia enfiando o dinheiro ganho no bolso, quando do canto, onde dormitava Charlotta, ouviu-se sua voz adocicada:
— Meu caro, não ande com tanto dinheiro, pois pode ser assaltado; deixe que eu o guarde por segurança.
"Enraivecido, Gaston entregou-lhe o dinheiro e saiu em companhia do reverendo.
"Eu ri muito com o relato de Marietta.
Era engraçado que padre Silva, um sacerdote e carrasco impiedoso das fraquezas humanas, frequentasse travestido locais suspeitos.
Ali, jogava cartas, pedia para que fizessem adivinhações e comprava filtros de amor.
O respeito, a infinita confiança que eu nutria por ele desde criança — tudo ruiu imediatamente.
Ele já não era para mim um ser superior e juiz imparcial, mas sim uma criatura mortal com todos os seus defeitos e fraquezas...
Oh, destino!
Rindo, eu nem sequer suspeitava que, naquele antro, planeava-se meu fim...
Bem, continuarei meu relato...
"Assim, o piedoso padre Silva, ou o senhor Giovanni, continuou frequentando a casa de Charlotta, jogava baralho e, pelo carvão, espelho ou outras formas de adivinhação, ficava inteirado do que fazia a sua dama amada.
Ele lhe trazia as cartas e os objectos dela, submetidos pela feiticeira à defumação e demais formas de encantamento.
No decorrer desse tempo, Marietta tomou um verdadeiro nojo do novo senhorio, impossibilitada, porém, de largá-lo em vista da vigilância constante de Charlotta, que não queria abrir mão da laboriosa empregada.
"Os relatos dos vizinhos sobre o senhorio deixaram Marietta apavorada.
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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 20, 2016 7:30 pm

Assim, segundo eles, Charlotta era uma feiticeira famosa por ter envenenado muita gente, que fazia trabalhos para a clientela desejosa de ficar livre de seus rivais ou desafectos.
Gaston era assassino de aluguel e agiota notório; se algo, porém, não dava certo ou tomava um rumo desastroso, as brigas entre os dois eram homéricas.
A casa também era visitada por damas e cavaleiros normalmente de máscara, que compravam poções mágicas e amuletos para receber herança ou adquirir outras vantagens.
"Por vezes o senhor Giovanni não aparecia durante meses.
Assim, depois de uma longa ausência, ele levou para a casa de Charlotta uma criança, a quem chamava de António...
"Agora, quando escrevo estas linhas, a minha alma indigna-se.
Afinal Walter não mentira e o padre Silva realmente estava envolvido naquela trama.
Como ele foi hipócrita comigo!
Apregoando obediência e resignação diante da vontade divina, ele levara a criatura inocente para aquele horrendo barraco, privando-a da mãe, do pai e da posição social.
Oh, que patifaria! Se eu pudesse compreender ao menos as razões que o impeliram a praticar aqueles crimes!...
"Não tenho muito a dizer agora, mas o que falta é o mais difícil e medonho em toda essa história.
"O meu pobre pequerrucho acabou ficando na casa da bruxa.
Esta o tratava mal, porém absteve-se de fazer algo pior com ele, provavelmente pela interdição do "piedoso padre".
Marietta soube casualmente que Charlotta foi amante de Giovanni e que continuaram amigos.
"Marietta afeiçoou-se muito à criança, no que era correspondida.
Assim, foi um choque para ela quando o padre anunciou que levaria a criança embora.
De facto, após lhe comprarem algumas roupas e assinados montes de papel, ele viajou com Charly.
Esqueci de mencionar que Gaston ficou viajando por três meses e voltou com uma grande quantia de dinheiro, que Charlotta confiscou quando ele estava bêbado.
Embriagado, ele deixou escapar na frente de Marietta que esteve na Escócia, participando do assassinato de um nobre.
Ele era justamente o cúmplice que matou Edmond e Tom Stenton; Walter estava certo ao dizer que o padre Silva não só sabia do plano, como teve participação directa ao enviar aquele assassino torpe...
"Certa noite, após alguns meses da partida da criança, o senhor Giovanni apareceu e teve uma discussão acalorada com Charlotta.
Ele trouxera um estojo dourado com tampa salpicada de gemas azuis e exigiu que a feiticeira fizesse um encantamento do objecto nele contido; esta se recusou, alegando ter nojo de tocar na "porcaria", com risco de atrair sofrimentos, sem dizer que o seu trabalho duro era mal remunerado.
Após demoradas altercações vulgares, ele lhe pagou a soma exigida e deixou-lhe um papelote, com algo escrito.
Charlotta atirou o papel no fogo; tirou da caixa duas hóstias e embebeu-as com uma gota de líquido transparente — Marietta sabia que aquilo era veneno.
Em seguida, estendendo o estojo ao padre, Charlotta disse rindo:
— Está pronto!
Fique tranquilo, Giovanni, depois disso ela não amará mais ninguém.
"Alguns dias depois, Marietta fugiu daquela casa criminosa e casou-se com Lasari, a quem amava.
"Agora eu sei a quem se destinava aquele veneno.
Eis, diante de mim, a caixa dourada com tampa de turquesa; ela ainda contém uma hóstia letal.
Não há mais dúvida:
estou condenada à morte; Charlotta conhece bem seu ofício.
Mas, ó Deus misericordioso, por que ele me matou?
Não será pelo dinheiro que eu prometi à Igreja?
Sua Ordem é tão rica que, por mais substanciosa que fosse a minha doação, ela não o teria seduzido!...
"Tomei nojo pelo padre Mendonza.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - No Castelo da Escócia / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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