CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 24, 2016 10:05 am

O rapaz não esperava tamanha firmeza em voz tão doce e frágil.
Ele estava confuso, desorientado.
— Agora... Por favor, eu preciso ficar sozinha.
Humberto não disse nada.
Simplesmente olhou para Lívia sem saber o que fazer.
Sentia-se envergonhado.
Cabisbaixo, caminhou em direcção à porta e se foi sem se despedir.
***
Ao chegar à empresa, Humberto não conseguia prestar atenção em nada.
Seus pensamentos fervilhavam inquietos, enquanto uma angústia doía-lhe profundamente na alma.
À tarde, começou a se sentir muito mal.
Uma dor forte no peito o derrotava e uma tontura não o deixava reagir.
Usando de suas últimas forças, ele pegou o telefone, chamou a auxiliar administrativa até sua sala e perguntou:
—- Júlia, sabe dizer se o doutor Cássio ainda está aí?
- —Sim, está. Hoje ele fica até às cinco horas.
Percebendo-o pálido, a secretária indagou preocupada:
—- Está se sentindo bem, Humberto?!
Ele passou a mão pelo rosto frio, afrouxou a gravata, suspirou fundo e, com a voz fraca, pediu:
— Júlia... Chame alguém para me ajudar a ir até o ambulatório.
Não estou nada bem.
Sinto dor no peito, tontura, dor de cabeça...
Dizendo isso Humberto debruçou-se sobre a mesa enquanto a assistente saiu às pressas em busca de ajuda.
Algum tempo depois, Humberto se encontrava deitado em uma maca no ambulatório da empresa, tendo ao seu lado, o médico que, depois de lhe fazer muitas perguntas, concluiu:
—- Sua pressão está normal, um pouco baixa, pode-se dizer...
Mas você falou que não se alimentou hoje.
A medicação que tomou vai aliviar a dor de cabeça.
A tontura deve ser porque não comeu nada.
—- Pensei que eu fosse enfartar.
Senti uma coisa tão ruim!
—Pode ser stress!
Tem ficado muito nervoso ultimamente?
—Põe muito nervoso nisso, doutor!
—Tire umas férias! Procure relaxar! Isso passa.
—Após pensar um pouco, o médico decidiu:
—- Vou pedir uma série de exames e encaminhá-lo ao cardiologista, só para registarmos tudo e deixá-lo tranquilo.
Eu tenho certeza que não é nada.
Humberto se sentou.
Por um tempo, ficou quieto e de cabeça baixa.
Depois suspirou fundo, recompôs-se, desceu da maca, pegou as guias médicas de encaminhamento e dos exames laboratoriais e agradeceu:
—Obrigado, doutor!
—Não por isso!
Qualquer coisa me procure.
Ao chegar à sua sala, sentia-se muito triste e decidiu ir embora.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 24, 2016 10:05 am

***
Chegando a sua casa, não suportando tamanha preocupação, chamou sua mãe.
Dona Aurora, sempre amorosa e prestativa, largou o que estava fazendo e foi até o quarto do filho.
Humberto sentou-se em sua cama e ela na cama de Rubens, ficando frente ao filho.
Com semblante abatido e um travo amargo na voz grave, ele falou:
—- Mãe, hoje de manhã, eu fui até a casa da Lívia.
Ela não foi trabalhar.
Estava extremamente abalada.
O Rubens a procurou e...
Do seu jeito, ele relatou o que o pai de Lívia e seu irmão acertaram e desfechou:
— Ela não quer se casar com o Rubens, mas o pai exige o casamento.
—- Humberto, eu sei que o caso da Lívia é sério e nos preocupa muito, mas você e a Irene não estão com problemas mais sérios, filho?
Por que se importa tanto com a Lívia?
—- Ora! Quem disse que estou me importando com ela?!
Sem trégua a senhora perguntou:
—- Você sente algo pela namorada do seu irmão?
—- Lógico que não!
De onde a senhora tirou essa ideia?!
A mãe nada disse, e o filho comentou:
— A Lívia me contou que o Rubens tem ciúme de mim com ela, como eu já disse, e estou preocupado, eu...
—- Hoje cedo, o seu irmão me contou que vai se casar e ainda disse que queria vir morar aqui, a princípio, pois não quer alugar uma casa.
A ideia dele é juntar dinheiro e comprar uma.
Humberto sentiu-se gelar.
Não esperava por isso.
— Mas!... O que a senhora disse?!
— O que eu posso dizer, filho?!
Que não quero seu irmão aqui?!
Além do que, temos um cómodo e cozinha lá nos fundos que está desocupado.
Não posso negar isso ao meu filho.
O rosto de Humberto pareceu desfigurado, ficando com o olhar perdido por algum tempo, enquanto deixava sua imaginação formar ideias que o deixavam quase desesperado.
Não havia o que ele pudesse fazer.
Achava que a vida lhe estava sendo muito cruel.
Alguns minutos e dona Aurora indagou, preocupada:
—- O que decidiu em relação à Irene?
- —Ainda não decidi.
—- Por que quis terminar com ela, Humberto?
—- Meus sentimentos por ela mudaram.
A Irene está bem diferente de quando a conheci.
—- Por que deixou que ela engravidasse, filho?! -— perguntou comovida.
—- Ora, mãe! Por favor! -— disse, levantando-se e caminhando pelo quarto.
Fez ligeira pausa e continuou:
— Eu sei que tenho responsabilidade para com a criança, não vou abandoná-la.
Porém, mãe, o que acaba comigo é a ideia de ter de me unir a alguém que eu não quero mais!
Não sei dizer o que é mais errado:
eu, só por causa desse filho, me casar com a Irene sem gostar dela, ou tentar dar toda a assistência à criança e nos pouparmos de uma convivência forçada, em que, provavelmente, haverá muita incompatibilidade.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 24, 2016 10:06 am

—Você gosta de outra moça, Humberto? -— perguntou muito desconfiada.
O verde dos olhos do rapaz reluziu feito uma jóia pelas lágrimas que brotaram.
Fugindo-lhe ao olhar, com o coração batendo descompassado, não teve coragem de negar.
—- Gosto, sim. Estou muito interessado em outra pessoa.
Mas, agora, diante de tudo o que está acontecendo...
—É a Lívia? -— tornou ela murmurando.
— É alguém lá do meu serviço -— dissimulou ele.
Dona Aurora era astuciosa.
Por causa daquela resposta, entendeu que o filho dizia a verdade, porém só meia verdade.
Levantando-se, comentou:
— Eu não sei o que dizer.
Seria fácil eu te aconselhar a terminar tudo com a Irene e só dar provisões ao seu filho.
Eu sei como é difícil criar filho, mesmo casada, mas com pai ausente.
Imagino que sozinha seja pior.
Não é só de dinheiro que uma criança precisa.
Inquieto, sem saber o que fazer e tendo o coração oprimido, Humberto subitamente perguntou:
—- Mãe, por que levantou a dúvida sobre esse filho não ser meu?
- —Eu não tenho dúvida alguma! — respondeu quase assustada.
—- Então por que me perguntou se eu tinha certeza disso ou não?
- —Não sei por que falei isso, filho. Talvez...
Sabe, eu venho percebendo que você não estava levando esse namoro tão a sério.
Apesar do noivado marcado, não te vejo nada animado.
Achei que você estava meio distante dela...
Principalmente por ter voltado de viagem há pouco tempo...
Desculpa. Foi um erro ter falado isso.
Talvez seja por não querer te ver tão triste ao lado dela.
Sabe, a Irene é muito extrovertida.
—- A senhora acha que ela é fiel?
—- Quem sou eu para dizer alguma coisa.
De quanto tempo ela está?
- —Não perguntei.
Mas depois do comentário que a senhora fez, comecei a ficar desconfiado.
Sabe, mãe, não gostei de vê-la daquele jeito com o Rubens.
Senti alguma coisa no ar.
A Cleide estava extremamente nervosa e os dois se assustaram muito quando me viram.
—- Você tem alguma desconfiança da Irene?
—- Tem algo estranho acontecendo.
É uma coisa que sinto e não sei explicar.
—- Vou ser sincera, Humberto.
Eu não gostaria de te ver casado com ela.
Talvez foi por isso que comecei a levantar suspeitas.
Procure saber o que está acontecendo e desvendar essa "coisa" estranha que sente a respeito e que te causa essa desconfiança.
—- Tenho uma decisão muito séria para tomar, mãe, e não sei o que fazer.
***
Enquanto eles conversavam, na espiritualidade, Nelson, mentor de Humberto, e Josias, mentor de dona Aurora, observavam seus tutelados.
Preocupado com o seu protegido, o espírito Nelson comentou:
—A postura de Irene surpreendeu até a nós.
É impressionante como a criatura encarnada consegue desperdiçar uma oportunidade reencarnatória para harmonização de seus erros do passado.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 24, 2016 10:06 am

Seus pensamentos sempre andam às sombras da mentira e da vaidade.
—Era desnecessário que todos, principalmente Humberto, passassem por tamanho tormento -— considerou Josias.
Ela sabe que o filho que espera é do Rubens, não de Humberto e não diz a verdade.
—Nesta encarnação, ela deveria trabalhar em si a humildade e a verdade.
Se assim fosse, Irene não trairia Humberto e, pelo facto de tê-lo abandonado em encarnação passada, deveria experimentar somente a tristeza da separação nesta oportunidade.
Depois que Humberto terminasse com ela, certamente, Rubens surgiria em sua vida e aí, após conceber o filho planeado para esta reencarnação, ele a abandonaria também á fim de ela, novamente, sofrer com a separação e, sozinha, cuidar de um dos filhos que ela abandou no passado.
Cuidaria da criança o tempo que lhe coubesse.
—Este filho estava previsto, no planeamento reencarnatório, para vir assim que Irene e Rubens se envolvessem.
Ele aí está, mas ela manipulou os factos, provocando muitas alterações e sofrimentos.
—- É verdade, caro Josias.
Estou preocupado.
Preciso encontrar um jeito de Humberto conhecer a verdade.
Somente influenciar a querida Aurora a suspeitar de o filho não ser de Humberto, não foi o suficiente.
—- E quanto à Lívia?
—- Ajudaremos a companheira Alda a sustentá-la.
Lívia se livrará da opressão autoritária de Rubens, que em nada se melhorou e não cumpriu suas promessas.
Para ele, esse comportamento só acarretará solidão e dificuldades indizíveis.
Humberto, por sua vez, será testado,
A situação mudou, por causa da mentira da Irene, e eu temo por meu protegido, pois ele se colocará em grande perigo de falir nesta reencarnação.
Ele precisa se fortalecer e vencer muitos desafios.
Esperamos poder contar com Lívia para sustentá-lo.
Que Deus abençoe a todos.
***
Dona Aurora foi terminar o jantar, deixando Humberto a sós com Neide, que acabava de chegar.
Percebendo o irmão amargurado, com semblante sofrido pelo novo rumo dos acontecimentos, ela se achegou perto dele, afagou-lhe as costas e perguntou com voz macia:
—- Quer conversar?
- Estou cansado, Neide.
Minha cabeça dói...
Não consigo parar de pensar e...
É como se minhas ideias queimassem o meu cérebro.
—- Tudo bem. -— Não demorou e propôs:
-— Olha, eu peguei um filme emprestado.
Vamos jantar e assistir, tá?
É uma comédia romântica! Você vai gostar!
Forçando um sorriso, ele concordou para contentá-la:
—- Pode ser. Agora vou tomar um banho.
***
Mais tarde, mesmo diante da televisão, Humberto não conseguia assistir ao filme.
Apenas havia se alimentado por insistência de sua mãe.
Ele trazia os pensamentos surrados pelas contrariedades e conflitos íntimos.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 24, 2016 10:06 am

Quando o telefone tocou, sentiu-se gelar e um mau pressentimento o dominou.
Ele sabia quem era e, após Neide atender, a confirmação veio.
—- Humberto, é pra você!
Forçando-se a se levantar, ele engoliu seco, pegou o aparelho sem fio das mãos da irmã e foi para o seu quarto.
—Pronto — atendeu com a voz fraca.
—- Sou eu, a Irene.
—- Fala.
—- Estou preocupada com você.
Esperei que me telefonasse...
Precisamos conversar.
—- Eu sei —- afirmou, deixando o silêncio imperar por alguns segundos.
—- Por favor, Humberto! Fala comigo!
—- O que você quer que eu diga?
- —Não sei! Mas diga alguma coisa!
—- Irene, eu sei que precisamos conversar muito.
Mas, hoje, eu não estou me sentindo bem.
—- Quer que eu vá até aí?
—- Não -— respondeu secamente.
- Quando podemos nos ver? Amanhã?
—- Não. No sábado eu te procuro.
—- Sábado?!
-— Me dê um tempo, Irene!
Preciso pensar!
Contrariada, mas tentando não pressioná-lo, ela concordou ao percebê-lo nervoso.
—- Está bem. Eu te ligo no sábado.
—- Não. Eu te ligo!
Pode deixar! -— afirmou ele convicto.
—- Como quiser.
—- Tchau — ele despediu-se com frieza.
- —Eu te amo. Tchau.
Sem dizer mais nada, o rapaz desligou.
Jogando-se em sua cama, fechou os olhos na esperança de dormir e fugir daquele pesadelo.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 25, 2016 9:26 am

10 - FUGINDO DA FELICIDADE

Na manhã seguinte, lá estava Humberto, bastante nervoso, dentro de seu carro e na frente da casa de Lívia.
Ao vê-la sair, sentiu uma gota de alívio, embora ainda estivesse muito apreensivo.
Ela entrou no veículo, cumprimentando-o com extremo constrangimento.
— Tudo bem com você? -— ele quis saber.
— Tudo -— respondeu com voz baixa e sem encará-lo.
Além disso, nada mais foi dito durante todo o longo trajecto até a empresa.
Após estacionar o automóvel e desligá-lo, ela comentou:
—- Humberto, gostaria de te pedir um favor.
- - —Claro!
—Vamos esquecer tudo o que conversamos.
Até por que não houve, absolutamente, nada entre nós.
—Nada, a não ser um grande sentimento que está nos devastando.
Ora! Pelo amor de Deus, Lívia!
Não podemos negar o que sentimos um pelo outro!
—Podemos sim!
—E o que você vai fazer para me esquecer?! Me diz?!
—Vou me casar com o Rubens -— avisou friamente.
—Você não o ama! Está com medo dele!
—Medo não! -— reagiu.
Estou apavorada!
Você não sabe!...
Não imagina o que é viver aterrorizada!
É o que eu vivo!
Nunca sei o que faço!
Nunca sei como agir por causa dele!
—Eu não acredito no que estou ouvindo!!!
—O seu irmão nos mata!
Você não sabe como ele é de verdade!
Ele me venceu! -— chorava, enquanto desabafava:
Maldito foi o dia em que eu aceitei o convite dele para sairmos!!!
O dia em que aceitei namorá-lo!!!
O seu irmão não é normal!!!
Ele me ameaça, me agride e depois age como se nada tivesse acontecido!!!
—Se ele faz isso agora, depois do casamento vai ser pior!
— Talvez não! Talvez se sinta mais seguro!
Além do mais... Não estou suportando a pressão!
Você não pode me ajudar!
A sua vida não está melhor do que a minha!
Ele suspirou fundo, recostou-se no banco, fechou os olhos e murmurou:
—Já pensei em fazer uma loucura e...
—O quê?
—Matar o meu irmão -— confessou no mesmo tom.
—Ficou louco?!
Eu não esperava ouvir uma insanidade dessa de você!
—Eu não sei o que fazer, Lívia!
—A princípio, vamos nos afastar -— pediu mais calma.
—Não, por favor -— falou, parecendo implorar.
Se fizermos isso, vamos levantar desconfiança.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 25, 2016 9:26 am

—Então siga a sua vida que eu sigo a minha, e não tocamos mais nesse assunto.
Após pequena pausa, chamou-o:
-— Vamos entrar?
Não podemos ficar mais tempo aqui.
Depois lembrou:
— Apesar de eu não ir para a faculdade hoje, não vou voltar com você, pois o Rubens vem me buscar.
—De moto?
—Não sei. Talvez.
Sem qualquer outro comentário, Humberto abaixou o olhar e ambos desceram do carro e foram para o elevador.
***
Estava sendo bem difícil conciliar todos aqueles acontecimentos.
Os dias passavam, até que Humberto se encontrou com Sérgio no centro espírita.
O amigo percebeu que ele se encontrava nervoso e quase não prestava atenção na palestra.
No final da sessão, observando Humberto muito quieto, Sérgio se aproximou perguntando:
—E aí?! Como estão as coisas?
—Tem certeza de que quer saber?
—O que está acontecendo, Humberto? -— perguntou, preocupado.
O amigo contou tudo o que havia acontecido e que lhe afligia.
—Grávida?! A Irene?! -— exclamou Sérgio sussurrando pela surpresa.
—E. Está -— confirmou, desanimado.
Eu até passei mal por causa disso.
Precisei ir ao médico lá na empresa.
Senti algo tão estranho.
Parecia que eu ia morrer.
Agora, já estou bem.
— E o que pretende fazer?
— Não posso abandonar um filho.
Porém estou contrariado em ter que me casar com ela.
Eu não sei o que fazer.
Sabe, não estou muito bem.
Até cheguei mais cedo, hoje, aqui no centro, para me propor a um tratamento de assistência espiritual com passes.
Ando tendo ideias perturbadas e pensamentos confusos.
— Quer falar a respeito? Desabafar é bom.
Lançando-lhe um olhar transtornado, Humberto confessou, quase sussurrando:
— Ando pensando em matar meu irmão.
Sérgio continuou tranquilo, e ele explicou:
— Não são só pensamentos.
Não estou falando de uma forma simbólica, não!
Eu venho sentindo um desejo, uma vontade que quase não consigo controlar.
— Você sabe o que é isso, não sabe?
— Sim. Com certeza é uma influência exterior, espiritual, que está aproveitando as dificuldades e as circunstâncias para me levar ao desequilíbrio e fazer com que eu cometa uma loucura.
Com isso eu acabo é com a minha vida.
Você não imagina o que eu estou sentindo.
A ideia é fixa! É forte demais!
Sabe, outro dia, eu estava lá em casa e depois de um telefonema da Irene fiquei arrasado.
Então fiquei pensando e...
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 25, 2016 9:26 am

O Rubens havia ido trabalhar de carro e a moto estava na garagem e...
Bem, eu entendo um pouquinho de mecânica de moto.
Entendo o suficiente para mexer no mecanismo e deixá-lo pronto para um acidente.
Cheguei a levantar, ir à garagem e pegar a maldita moto e...
Diante da pausa, Sérgio questionou:
—Você mexeu em alguma coisa?
—Não. Precisei me esforçar muito para não fazer nada.
Depois, no outro dia, conversando com a Lívia, ela me contou que o Rubens iria buscá-la no serviço e, talvez, de moto.
Fiquei em choque.
Entendeu o que eu poderia ter feito?!
—Mas não fez nem vai fazer! -— falou firme.
—Estou nervoso, Sérgio.
Muito preocupado com a minha sanidade.
—As coisas estão acontecendo depressa demais para você, para o seu ritmo.
São acontecimentos não agradáveis.
Nada saiu como você queria.
Faça a assistência espiritual.
Não abandone o centro.
E o que eu faço quando vier essa vontade insana de matar o meu irmão?
—Sabe fazer meditação?
—Sei.
—Medite todos os dias, centralizando o pensamento em tudo o que for bom, próspero e de Deus.
Quando essas ideias surgirem, pegue o Evangelho Segundo o Espiritismo e leia-o.
Se não tiver o livro a mão, ore! Ore mesmo! -— enfatizou.
Entendeu?! A prece, a oração é a única e a maior arma que temos contra qualquer força ou pensamento negativo.
Quando você tiver essa vontade, essas ideias ou outras que são incompatíveis ao seu grau de evolução, perca alguns minutos orando.
—Vou fazer isso.
A aproximação de Débora os interrompeu e o rosto de Humberto desanuviou ao vê-la sorridente, desfilando com a avantajada e bela barriga.
— Não olhem para mim desse jeito -— brincou ela.
Hoje eu não demorei!
— E como está a Laryel, Débora? —- quis saber Humberto sorrindo.
— Bem sapeca! Fazendo a maior bagunça! -— disse rindo.
Não sei com quem ela está brincando o tempo todo.
Só sei que o playground está pequeno demais!
Eles riram e Humberto perguntou enquanto caminhavam para o estacionamento:
—- E quanto ao nome Laryel?
É um nome muito bonito, porém diferente.
Eu nunca o ouvi antes.
Quem escolheu esse nome?
— Foi o Sérgio!
Até hoje eu não sei onde ele arrumou esse nome.
Quando eu disse que estava grávida, ele afirmou que seria uma menina e que se chamaria Laryel!
— A verdade é que eu ouvi esse nome em um sonho, eu acho —- explicou Sérgio.
Não sei muito bem se eu estava dormindo ou desdobrado, conversei com uma entidade linda!
Não sei o que falávamos, mas a conversa me fez muito bem, me deu forças e bom ânimo.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 25, 2016 9:26 am

Então, pelo facto do nome ser bonito, em homenagem a essa criatura maravilhosa e por ser o primeiro nome que surgiu à minha cabeça, eu escolhi Laryel!
A princípio, até pensei que essa entidade estivesse reencarnando.
— Por esse sonho ter sido antes da gravidez, não acha que era, realmente, a sua filha conversando com você antes da concepção? - tornou o amigo.
— Por isso pensei que fosse ela, mas depois tive a certeza de que não era.
Essa entidade nobre, com quem sonhei, ainda está na espiritualidade.
—Como tem certeza? -— perguntou Débora.
—Porque sonhei com ela novamente depois que você ficou grávida.
Sorrindo, tornou a dizer:
É um nome muito bonito e uma homenagem a quem me ajudou muito.
Eles não podiam ver, mas, naquele momento, na espiritualidade, seus mentores e outros amigos os acompanhavam.
A nobre entidade Laryel, sempre com indizível serenidade e amor, aconselhou o companheiro:
- —Querido Nelson, será preciso trabalho incansável e assídua atenção de sua parte para com o seu protegido.
Haverá uma força mental cruel para influenciar Humberto contra o irmão.
Isso já começou e vai aumentar.
O objectivo é trazer angústia e inúmeros tormentos.
—Sérgio estará atento e pronto para ajudar o amigo conforme prometeu -— avisou Wilson.
Ele é muito sensível às nossas inspirações.
No entanto nem sempre está próximo de Humberto.
Será preciso muita vigilância.
***
Humberto acordou, porém ficou algum tempo deitado.
Estava tomado por um grande cansaço, mas, com convicção, pensava:
"Uma coisa agora está clara para mim:
farei tudo o que eu preciso, antes que cause mais danos às pessoas à minha volta.
Não é pelo facto da Lívia não querer nada comigo que eu vou deixar de pensar nela.
O que eu não posso fazer é trair o meu irmão.
Não posso trair a minha consciência.
Prefiro sofrer por me afastar da Lívia, mesmo gostando tanto dela, a ficar dias e noites pensando no que fiz contra o Rubens.
Se fosse para ela ficar comigo, eu a teria conhecido primeiro.
Como poderei viver bem comigo mesmo com o remorso de tirá-la do meu irmão?
E se ele fizer algo contra a Lívia como diz?
Como viverei com isso?
Além de tudo, como é que vou abandonar um filho e ser feliz?
Nunca poderei ter paz na consciência sabendo que renunciei um filho, que me foi confiado.
Se eu soubesse de algo sério ou grave no comportamento da Irene, seria diferente.
Ela precisará que eu esteja ao seu lado, precisará do meu apoio.
Não é justo que eu a abandone.
Está decidido! Farei o que preciso fazer e pronto!
Vou procurar a Irene e resolver essa situação hoje".
***
Bem mais tarde, na casa da tia de Irene, Humberto sentou-se frente à namorada como se estivesse curvado pelo peso de uma infinita e profunda tristeza.
Forçando-se um meio sorriso, explicou:
—- Eu demorei a te procurar porque precisei pensar muito.
Ultimamente, tudo ficou meio estranho entre nós e eu não sabia o que fazer, por isso decidi me afastar de você.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 25, 2016 9:26 am

—- Acho que o nosso namoro caiu na rotina, Humberto.
—- Pode ser isso.
Na verdade, Irene, eu ainda não estou muito bem, mas quero tentar novamente.
Afinal, temos um filho a caminho e ele pode nos dar ânimo e uma vida nova.
Sentando-se ao lado dele, ela o envolveu num abraço forte.
Recostando o rosto em seu peito, disse aliviada:
—- Ah, Humberto! Como estou feliz!
Meu amor, isso vai passar!
Você vai ver! E uma fase!
Um momento ruim!
Abraçando-a com carinho, ele afagou-lhe os cabelos e beijou-lhe a testa.
Sentiu-se apiedado por vê-la tão feliz.
Imaginou como a estava magoando, principalmente, naquele estado tão sensível, por causa de sua distância e falta de notícias.
Acariciando-lhe o rosto, ele sorriu levemente e avisou:
—Eu prefiro que não fiquemos noivos.
O que você acha de marcarmos a data do casamento logo?
—Acho óptimo!!! -— quase gritou de alegria.
—Então, na segunda-feira, podemos providenciar isso. Tudo bem?
—Tudo! Estou tão feliz, meu amor! Te amo muito!
Beijaram-se longamente e ela propôs:
-— Vamos contar para minha tia, para sua família!...
Vou ligar para os meus irmãos!
—Como quiser.
—Contou para a sua mãe?!
—Não. Eu queria conversar com você antes.
—Vamos até sua casa contar pra eles?
—Vamos. Vamos sim. -— concordou, conformado com o seu destino.
—Ah! Se amanhã vamos ao cartório marcar a data do nosso casamento, vamos aproveitar para dar uma olhadinha naquele apartamento de que te falei?
Eu queria tanto que você visse! -— falava com voz mimada.
Tenho certeza que vai adorar!
—Tudo bem. Vamos, sim.
O tempo foi passando.
A notícia sobre o casamento de Humberto e Irene deixou alguns surpresos e outros com grandes expectativas.
Ao saber, Lívia foi invadida por um frio cortante, como se não lhe restasse mais esperança alguma de felicidade.
Ela e Humberto continuaram indo juntos para o serviço, pois Rubens queria assim.
Sentindo-se inseguro, disse a ela que, se não fosse trabalhar junto com seu irmão, seria por haver algo entre os dois e que confabulavam contra ele.
No entanto, nem Humberto ou Lívia tocavam no assunto.
Ele encontrou Lívia sozinha, na cozinha da casa de sua mãe, e, somente depois de muito pensar, perguntou:
—- Como estão as coisas?
—- Caminhando.
- —E você e o Rubens, como estão?
Seus olhos lacrimosos o encararam firme e, fazendo-se forte, contou:
— Não estou suportando ficar mais com ele.
Preciso dar um jeito ou...
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 25, 2016 9:27 am

—O que está acontecendo, além do que eu já sei?
—Brigamos muito.
Não aguento ficar mais ao lado dele.
Sentindo o coração apertado, queria abraçá-la, envolvê-la, mas não podia e permaneceu sentado à mesa ao comentar:
—- Lívia, talvez só eu possa te ajudar, se você quiser, lógico.
—- O quê?
-— Como director na empresa eu posso conseguir sua transferência para a filial do Rio de Janeiro ou do Ceará.
Não contaremos para ninguém.
Você simplesmente pega as suas coisas e vai embora.
Será o mesmo serviço, o mesmo salário que dará para os seus gastos.
Depois de instalada, se quiser avisar os seus pais, tudo bem.
Pela distância, o Rubens não vai poder fazer nada com você. Acabou.
—- Mas... E você, Humberto?
—Não foi você mesma quem me alertou sobre as minhas responsabilidades para com o meu filho?
Vou me casar agora, Lívia!
Não posso fazer mais nada por você além disso!
—Não estou te pedindo nada!
Não confunda as coisas.
Eu quis dizer que... -— ela perdeu as palavras.
Não sabia o que dizer.
Sofria ao pensar que Humberto iria se casar.
Sério, falando friamente, ele perguntou:
—- O que você me diz da transferência?
—Eu aceito! É o que eu quero.
Se puder fazer isso por mim, serei eternamente grata.
Mas que ninguém desconfie. Pode ser?
—Pode. Isso eu consigo -— falou com gravidade no tom da voz.
Os seus olhos verdes expressavam uma tristeza sem fim enquanto se nublavam pelas lágrimas que brotavam.
Disfarçando a amargura, ainda comentou:
-— Amanhã vou dar um telefonema e depois conversaremos.
Perdoe-me por não poder fazer mais nada por você além disso.
—Você está fazendo muito.
Nem imagina. Eu só quero que seja muito feliz.
Subitamente a voz macia de Neide ecoou firme, assustando-os:
-— Vocês estão cometendo a maior burrada de suas vidas!
—O que é isso, Neide?!
Do que você está falando?! -— perguntou Humberto, parecendo bem irritado.
—De vocês dois!
Como podem abrir mão da felicidade e do amor por causa de criaturas tão mesquinhas como a Irene e o Rubens?!
—Neide, por favor, pare com isso! -— pediu Lívia amedrontada.
—Só porque estou falando a verdade, vocês me mandam parar?!
Olhem pra vocês dois! Estão apaixonados!
Lívia, o Rubens não te merece!
E quanto a você, Humberto, acredita que a Irene é tudo com que sonhou?
Tem certeza que é com ela que quer viver o resto da sua vida?!
Cai na real!
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 25, 2016 9:27 am

—Fique quieta, Neide!
Pelo amor de Deus!
Se alguém te escuta!... -— pediu Lívia, desesperada.
—Isso não pode ficar assim! -— exclamava a irmã, inconformada.
Humberto aproximou-se e, frente a ela, ordenou bem severo:
—- Cale a boca, Neide!
Você ainda vai me arrumar uma grande confusão com o que está dizendo! Pare!
Um murmurinho os fez ficar atentos.
Era a aproximação de Irene e dona Aurora que conversavam pelo corredor, antes de chegarem à cozinha.
Ao ver Humberto, Irene abriu um sorriso.
Aproximou-se, beijou-o e anunciou:
—- Oi, amor! Eu passei aqui só para pegar com você o cheque para pagar o pintor.
Combinamos que você daria um cheque seu, e o pintor já está terminando o serviço.
Olhando para as outras, contou:
-— Nosso apartamento está lindo!
Ainda bem que o proprietário anterior teve bom gosto com a escolha dos armários planeados que deixou.
—Já está todo mobiliado? -— perguntou Lívia com simplicidade, tentando disfarçar o nervosismo de pouco antes.
—Sim, está. Só faltam as cortinas.
Essa semana chegam os tapetes e a mesa da sala de jantar.
Ontem entregaram os sofás.
O Humberto nem viu ainda!
Neste fim de semana vamos lá para vocês conhecerem, combinado?
—Vamos sim, filha.
Eu gosto de ver casa nova! -— disse dona Aurora.
Falta pouco tempo para o casamento, hein!
Os convites estão prontos?
—Os convites estão na gráfica ainda.
Mas o grupo de convidados é bem pequeno.
Virando-se para Humberto, Irene perguntou: —
- Você queria chamar o Sérgio para ser seu padrinho.
Falou com ele?
— Ainda não. Vou falar.
— Não demore!
Convite de última hora não é bom.
Em seguida, Irene avisou:
-— Já é tarde! Preciso ir.
Faz o cheque pra mim, Humberto!
Sem qualquer empolgação, ele foi até o quarto, e Irene o seguiu.
Quando o assunto era referente ao seu casamento com Irene, Humberto precisava se esforçar muito para expressar leve sorriso.
Uma angústia o envolvia sempre que pensava em sua união com ela.
Contudo não poderia fazer mais nada, já estava resolvido.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 25, 2016 9:27 am

11 - CONSEQUÊNCIAS DE UMA TRAIÇÃO

Era sábado à tarde, quando Humberto, atendendo a um desejo sincero, estava na casa de Sérgio convidando-o para ser seu padrinho.
—Será uma cerimónia simples onde o juiz de paz celebrará o casamento no próprio salão.
Haverá cerca de sessenta convidados.
—Você me disse que a Irene é católica.
Ela não quer se casar na igreja?
—Sou eu que não quero casar na igreja.
Se eu deixasse pela Irene, o nosso casamento teria até carruagem puxada por cavalos brancos.
Já estou deixando que faça tudo o que quer no apartamento, que ela decorou com o maior luxo, mas quanto à cerimónia...
Não quero nada extravagante.
Breve pausa, olhou para Sérgio e perguntou com leve sorriso:
— E aí? Vocês aceitam ser meus padrinhos?
—Lógico, cara! Sem dúvida! -— afirmou o amigo, com largo sorriso.
—Fiquei muito feliz com o convite, Humberto. Nossa!
Adorei saber de sua consideração por nós!
Mas tenho uma preocupação...
—Que preocupação, Débora?!
—Será que eu não estarei no hospital nessa data?
—Ah! Não brinca! -— surpreendeu-se Humberto.
— Não tem problema!
A Débora fica no hospital, e eu vou ser o seu padrinho! -— brincou Sérgio.
— Engraçadinho!!! -— ela reclamou, brincando.
Virando-se para a esposa, Sérgio a abraçou, comentando:
—Acredito que dê para você ir sim.
Só se ela resolver chegar antes.
— Voltando-se para o amigo, avisou:
-— Pode contar connosco!
Ficaremos felizes em sermos os seus padrinhos.
—Mas ficarei alerta.
Caso a Laryel resolva chegar antes, já deixarei outros de sobreaviso -— sorriu de um jeito maroto.
—Quem? -— quis saber Débora.
—O Tiago e a Rita!
—Eles vão gostar! -— exclamou Sérgio.
—Tenho muitos conhecidos, mas amigos afins, pessoas que eu considero mesmo, só tenho vocês.
—Ficamos contentes com isso.
Também consideramos muito você -— disse Sérgio.
Débora se levantou, informando:
— Vou fazer um cafezinho para nós!
Aproveitando-se de sua ausência, o amigo perguntou:
— Tem certeza de que é isso o que quer, Humberto?
— Na verdade, eu não queria isso. Você sabe.
Mas é o que eu devo fazer.
Não posso abandonar um filho.
Se a Irene me desse motivo para isso, seria diferente.
Do contrário... Jamais eu teria tranquilidade.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 25, 2016 9:27 am

Alguns segundos e comentou:
— Eu e a Lívia não temos nenhuma chance.
Para ajudá-la, estou cuidando de sua transferência para a filial do Rio de Janeiro.
Assim ela ficará longe do Rubens.
—E longe de você também.
—Isso será bom para nós dois.
—É verdade. Mas o que me preocupa é pensar por quanto tempo você irá suportar ficar ao lado de alguém que não ama.
Você terá de ser bem forte.
—É isso o que peço a Deus. Muita força.
Eu estava lendo no evangelho sobre o dever e sei que preciso cumprir com o meu dever moral.
—Vamos lembrar que o evangelho nos ensina que o dever é a lei da vida, mas também diz que o dever é a obrigação moral, primeiro para consigo mesmo e depois para com os outros.
Sabe... Eu adoro a Débora.
Acho que se nós não estivéssemos juntos eu não ficaria com mais ninguém.
No seu caso, há um filho comprometendo qualquer decisão que tome a respeito de ficar com a Lívia.
Será que é justo você sacrificar a sua vida íntima por ele?
—Esse filho me chama à responsabilidade.
Se não fosse por ele, eu não iria me casar com a Irene. De jeito nenhum.
—Não acha que mais tarde poderá se arrepender e se separar?
Isso não será pior para todos?
—Estou fazendo o que acho certo agora.
Não consigo pensar no futuro.
Sérgio não disse nada, mas lamentava tudo o que estava acontecendo na vida de Humberto.
Encarnados, desconheciam a verdadeira e sincera amizade espiritual de longos anos.
Sérgio queria ajudá-lo, porém não sabia como.
Em seu íntimo estava contrariado com tudo.
Ele sentia que os acontecimentos não deveriam ser naquela ordem.
Nada poderia dizer para não deixar o amigo ainda mais triste.
A campainha tocou estridente e logo se ouviu a voz de Rita com os dois filhos e Tiago, que a ajudava.
O irmão de Sérgio, que tinha as chaves do portão, entrou avisando:
—Cheguei!!!
—Entra Tiago!!! -— pediu Sérgio.
Já na sala, eles se cumprimentaram e Rita, sem rodeios, colocou Daniel no colo de Humberto e exclamou sorridente:
— Segura esse que eu não aguento mais! -— jogando-se no sofá, ainda falou:
— Meus braços estão em frangalhos!
Quando não é um, é o outro que quer colo!
Humberto brincava com o garotinho esperto e risonho ao perguntar:
— Como vocês os conhecem? São idênticos!
Largada no sofá, ela explicou:
— Amarramos uma fitinha no braço do Rafael, veja -— erguendo a manguinha da blusa do menino, que estava no colo de Sérgio, mostrou.
E usamos um caderno para anotar e controlar tudo o que damos ou fazemos para eles.
Mesmo assim, muitas vezes, cheguei a dar de mamar para um duas vezes e só desconfiava depois que o outro começava a gritar de fome e o que estava comigo não queria mamar.
E quanto a dar remédios e vitaminas!...
Faço a maior confusão! É uma loucura!
Não sei se Deus me deu um presente ou um castigo! -— riu.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 25, 2016 9:27 am

— Deus te ama tanto, Rita, que agora virão duas meninas!
Você vai ver! -— disse Sérgio.
Jogando uma almofada nas costas do cunhado, Rita falou séria e quase nervosa:
—Vira essa boca pra lá! -— Levantando-se, foi para a cozinha parecendo zangada.
—Oh, Sérgio! Não fala isso não!
Ela fica uma fera e desconta em mim! -— reclamou Tiago, indo atrás da esposa.
Sérgio riu com gosto e comentou:
—É que os gémeos ainda não têm um ano e Rita está desconfiada de que está grávida de novo.
—Uaaaaaauh!!! -— divertiu-se Humberto.
Até eu ficaria uma fera! - brincou.
—Semana que vem ela vai ao médico para ter certeza.
Vamos aguardar -— explicou o outro, ainda sob o efeito do riso.
Os dias foram passando
Irene, rapidamente, agilizava tudo para o casamento.
Os convites já haviam sido entregues e o apartamento decorado ao seu gosto.
Humberto estava mais calado a cada dia, mergulhado em seus próprios pensamentos que não ousava dividir com alguém.
Algumas vezes em que levou Irene até a casa de Sérgio ou foram juntos ao centro espírita, o amigo reparou que Humberto, praticamente, não conversava.
Sempre quieto, parecia alheio a tudo a sua volta.
Lívia e Humberto não ousavam conversar mais sobre o assunto.
Limitavam-se, no máximo, a falar de sua transferência para o Rio de Janeiro ou alguns assuntos de serviço.
Não poderiam deixar que Rubens desconfiasse de nada, por isso o tratavam normalmente.
Aliás, Humberto pouco conversava com o seu irmão.
Faltava menos de uma semana para o casamento.
Humberto havia ganhado alguns presentes dos colegas de serviço.
Não querendo levar os pacotes para casa, decidiu ir até o seu apartamento e deixá-los lá.
Já havia passado mais de uma hora do fim do expediente e se surpreendeu ao ver Lívia esperando, no hall, o elevador:
—- Ainda está aqui?
-— Eu tinha que adiantar um serviço e...
Como não tenho aula, pois emendaram por causa do feriado amanhã, resolvi ficar até mais tarde um pouquinho.
—O Rubens não vem te buscar?
—Não. Nem avisei que não vou à faculdade hoje.
—- Posso te levar, mas preciso passar antes no apartamento para deixar uns presentes lá.
Quer uma carona?
—- Aceito, sim! Vamos!
Estavam no prédio onde ficava o apartamento de Humberto.
Lívia desceu do carro propondo-se a ajudá-lo com os presentes.
Agradecido, aceitou.
No hall, a moça aguardou que ele abrisse a porta.
Ao entrarem, para estranheza dele, havia um abajur aceso na sala e uma claridade vinda da suíte do casal, indicando alguém lá.
Olhando para Lívia, pediu com simplicidade:
—- Venha. Coloque os pacotes ali, sobre a mesa, por favor —- mostrou.
Em seguida, comentou falando baixo e cismado:
—- Tem alguém aí. Será que é a Irene?
Sem demora, Humberto foi à direcção da suíte.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 25, 2016 9:28 am

Lá, encontrou Irene e Rubens deitados, juntos, em um momento bem íntimo.
Ao percebê-lo, Irene deu um grito e exclamou:
—- Humberto!!! Ai, meu Deus!!!
Ele ficou em choque, incrédulo, parado à porta e sem conseguir se mexer.
Enquanto Lívia permanecia ao seu lado.
—- Espere! Vamos conversar! -— pediu Rubens espantado, cobrindo-se.
Ao vê-los, Lívia levou a mão à boca abafando o grito e, em seguida, o choro.
Não suportando, ela virou as costas e saiu correndo.
Atónito, completamente perplexo, Humberto pareceu ter dificuldade em se mexer e respirar.
Um torpor o dominou e se sentiu tonto.
Não ouvia mais nada do que era dito por eles.
Entorpecido, precisou usar toda a sua força interior para não dizer nada nem reagir contra sua namorada e seu irmão.
Hesitante, virou as costas e saiu à procura de Lívia.
Sua visão estava turva e não escutava direito.
Chegando à garagem, ele encontrou Lívia, agachada e encostada à porta do carro, chorando muito.
Humberto tremia.
Com a respiração alterada, sentiu a tontura dominá-lo e acreditou que não fosse suportar.
Fechando os olhos, pensou em Deus e pediu forças.
Em seguida, curvando-se, segurou no braço de Lívia, que se esvaía num choro compulsivo, e a forçou se levantar.
A jovem o abraçou com força, escondendo o rosto.
Não demorou e ele pediu, ainda confuso e com voz vacilante:
— Entre no carro. Vamos sair daqui.
Humberto mal prestava atenção ao que fazia.
No trânsito, dirigia automaticamente.
Ele não sabia como agir.
Não conseguia organizar as ideias.
Enquanto isso, lágrimas começaram a correr em seu rosto e um sentimento doloroso de indignação o dominava.
Não esquecia, por um segundo, a cena que presenciou.
Aquilo foi muito cruel.
Estava revoltado.
Como alguém normal poderia ter a capacidade de trair o próprio irmão daquele jeito?!
No seu quarto, na sua cama...
Não acreditava no que havia acontecido.
Se, por acaso, Lívia não tivesse visto tudo, Humberto duvidaria da própria sanidade.
Como alguém como a Irene, que o conhecia tanto tempo, pôde fazer aquilo com ele?!
Ela sabia, sentia que ele estava se casando contrariado e por causa do filho que ela esperava.
Por que o obrigou a tanto, e em tão pouco tempo, para ficarem juntos, se não o amava?!
Nunca viu tanta hipocrisia, tanta mentira junta!
Há quanto tempo o traía?!
Com quantos outros mais?...
Sua mãe bem que falou que Irene era muito liberal.
Até levantou a dúvida sobre o filho não ser dele.
Pensamentos mórbidos o dominavam.
Acreditava aquela ser a ocasião propícia para matar Rubens e Irene.
Deveria ter reagido!
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 25, 2016 9:28 am

Seria a oportunidade de vingar-se da traição dos dois.
Vingar-se de tudo o que o irmão fez para Lívia.
Arrependia-se por não ter reagido contra eles.
Seria a hora certa.
Nesse instante, espíritos sem instrução e que desejavam promover toda espécie de mal e discórdia, rodeavam-no.
— Vamos! Mate os dois!
Ainda dá tempo! Vai! Volta lá! —- insuflavam, ininterruptamente, os espíritos cruéis.
Não seja covarde! Volta lá e acaba com os dois!
Humberto sentia-se confuso, desorientado e com muita raiva.
Subitamente parou o carro.
Deu um soco forte no volante e vociferou:
— Vou voltar lá!!!
Vou acabar com aqueles dois!!!
— Não! Por favor, Humberto -— pediu Lívia, em desespero.
Virando-se para ela, trazia no olhar um brilho estranho, ao mesmo tempo que uma dor, uma mágoa o corroíam.
Com voz grave e rouca, murmurou entre os dentes:
— Vou sim! Vou matar aqueles dois!
— Não!!! -— ela gritou determinada, segurando-lhe a mão que ia ligar o carro novamente.
E falou firme:
-— Humberto! Por favor, me escuta!
Ele a encarou com olhos vidrados, e ela continuou: —
- Você teve mais decência, mais dignidade em ter deixado os dois lá!
Não se iguale aos dois!
Não seja tão baixo!
O que fizer agora pode se voltar contra você!
Não perca a razão, o carácter!
— Eles não podiam fazer isso comigo!!! íamos nos casar no sábado!!!
Não acredito no que eu vi!!! -— Ele tremia e suava frio.
Estava transtornado. Após alguns segundos, lembrou:
— Eu não amo a Irene, mas ia me casar pelo meu filho!!!
Eu ia abrir mão de toda a minha vida por isso e ela sabia!!!
Desde quando os dois estão juntos?!!
Será que esse filho é meu?!!
Lívia, em lágrimas, abraçou-o, puxando-o para junto de si, e Humberto debruçou-se em seu ombro, abafando o choro.
Ela não disse nada. Entendia o seu desespero.
Sabia o quanto ele estava sofrendo e, qualquer coisa que falasse, provocaria mais dor.
Longo tempo se passou e os dois continuavam em silêncio.
Abraçado ao volante, através dos vidros do carro, ele olhava para o céu escuro coberto por longas nuvens carregadas por um vento gelado.
Ainda sentia faiscar no peito um ódio mortal, nascido da indignação.
Ela experimentava um enfraquecimento, algo que esgotava suas forças.
Estava exausta e incrédula com o que acontecia.
Finalmente, Humberto a olhou e perguntou sério:
—O que você vai fazer?
—Não posso mais encarar o Rubens.
Nunca mais quero vê-lo.
Depois disso... Eu o odeio tanto!
Estou com nojo dele!
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 25, 2016 9:28 am

—A ideia de matá-lo não me sai da cabeça -— falava de um modo calmo, muito estranho, como se estivesse planeando algo.
Se eu queria uma oportunidade para fazer isso... Esse é o momento.
—Pelo amor de Deus, Humberto!
Pare com isso! Não fale assim!
—A lembrança dos dois juntos, na minha cama, não me sai da cabeça e...
—É lógico! Acabou de acontecer!
Eu também não esqueço!
—Estou sentindo algo muito estranho, Lívia.
Não consigo me controlar.
Ela virou-se para o rapaz, segurou com força suas mão geladas e húmidas, e com fala firme olhou em seus olhos como se invadisse sua alma e pediu:
— Ore! Por favor, ore!
Faça a prece que Jesus nos ensinou.
Algo apertava o coração de Lívia como se fosse um mau presságio.
Ele recostou a cabeça no encosto do banco, fechou os olhos e orou como ela pediu.
Lágrimas corriam pelos cantos de seus olhos cerrados, e uma nuvem de dor pairava sobre o seu rosto pálido.
Vez ou outra, engolia a seco enquanto um soluço o estremecia.
Passados alguns minutos, suspirou fundo, abriu os olhos e esfregou o rosto com as mãos.
Olhou para Lívia por vários segundos sem nada dizer.
Ajeitou-se no banco, ligou o carro e falou decidido:
—Vamos embora.
—Eu vou para a sua casa.
Não quero que fique sozinho.
Estou preocupada com você.
Lívia temia que ele retornasse ao apartamento e fizesse algo contra o irmão ou Irene.
Queria acompanhá-lo para garantir que não praticaria qualquer loucura.
Chegando próximo a sua residência, Humberto parou o veículo na rua.
Não tinha vontade de abrir a garagem, muito menos de entrar.
Não sabia se Rubens estaria em casa nem como iria reagir ao ver o irmão.
Era bem tarde da noite.
Sentia-se estranho, como se um cansaço o dominasse.
Debruçado ao volante, não dava importância à voz de Lívia, que pedia preocupada:
— Humberto, vamos entrar?
Vamos conversar com sua mãe?
Ela saberá nos aconselhar.
Não é bom ficarmos aqui.
A muito custo, ela o convenceu.
Dentro de casa, ele entrou com modos estranhos.
Passou por sua mãe e irmã andando firme, sem encará-las ou cumprimentá-las.
Dona Aurora e Neide não entenderam o que estava acontecendo.
Ele não costumava agir assim quando chegava a sua casa.
Ao contrário, Humberto era sempre alegre, beijava-as e as cumprimentava sorridente.
O rapaz foi para o quarto que dividia com o irmão.
Dona Aurora, estranhando o jeito da moça e sua presença ali, perguntou:
—- O que aconteceu, Lívia?!
Ela se sentou e começou a contar.
Mesmo sob o efeito do choro e dos soluços impertinentes, contou tudo.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 25, 2016 9:28 am

No final, a senhora disse horrorizada:
—- Meu Deus! Eu desconfiava disso! -— murmurou assustada, incrédula.
—- Desconfiava e não me contou!!!- — Humberto gritou e com voz forte, pois havia chegado à porta e escutou sua mãe.
—Por que não me contou, mãe?!!
—- Eu poderia estar enganada!
É uma acusação muito grave! Calma, meu filho!
—- Como pode me pedir calma?!!
Como acha que estou me sentindo?!!
—Seja realista, Humberto!
Foi óptimo isso ter acontecido!
Você não gostava mesmo da Irene e ia se casar por obrigação! - —opinou a irmã.
—Cale a boca, Neide!!! Fica quieta!!!
Você não sabe o que está dizendo!!! -— gritou ele, incontrolado.
—Sei sim! Pode parecer o fim do mundo, mas ganhou a sua liberdade!
Aliás, vocês dois estão livres! -— tornou a jovem.
Lívia, sentada à mesa da cozinha, debruçou-se sobre os braços e chorou em silêncio, inconformada.
Humberto, extremamente nervoso, não sabia o que fazer.
Sentia-se mal. Uma tontura o dominava.
Precisou apoiar uma mão na parede para se segurar, sem que alguém percebesse, e recostou a testa no próprio braço.
Repentinamente, um barulho de moto anunciou a chegada de Rubens.
Humberto ergueu a cabeça e apurou o olhar febril em direcção à porta.
Seu belo rosto achava-se conturbado e sisudo, quase irreconhecível.
A passos rápidos, apanhou uma faca grande de cozinha, que estava sobre a pia, e saiu quase correndo, em direcção da porta que dava para um quintal, depois para a garagem.
Lívia, atenta e deduzindo o que poderia acontecer, bem ligeira, foi atrás dele.
Ao chegar à garagem, Humberto encarou o irmão.
Rubens estava pálido e nervoso.
Ao ver a faca na mão do irmão, balbuciou:
—- Espera aí, cara!!! Vamos conversar!!!
Com voz grave, baixa e rouca, o outro respondeu indo a sua direcção:
—- Não tenho nada pra conversar. Desgraçado!!!
Lívia segurou-se no braço de Humberto, enquanto gritava:
—- Some daqui, Rubens!!! Vá embora!!!
Some!!!
Pondo-se na frente de Humberto, ela tentava segurá-lo. Em vão.
Humberto estava completamente transtornado, irreconhecível e sob grande influência espiritual inferior.
Empurrando Lívia contra a parede, ele foi à direcção do irmão ao mesmo tempo que Neide e sua mãe tentavam segurá-lo pela camisa.
Rubens ficou aterrorizado ao perceber que o outro se encontrava decidido.
Rápido, o rapaz montou novamente a moto em que havia chegado, manobrou o veículo e partiu às pressas.
Humberto sentiu-se muito mal.
Teve a impressão de que iria desmaiar.
Atordoado, parou por alguns instantes, mas não ouvia o que Lívia, sua mãe e sua irmã falavam.
Abrindo a mão, deixou que a faca caísse ao chão.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 25, 2016 9:28 am

Tudo estava ficando muito confuso. Sua cabeça roçava.
Experimentava o rosto esfriar e as pernas amolecerem.
Sem se importar, automaticamente foi para o seu quarto e jogou-se de bruços sobre a cama.
Não sabia dizer quem estava ali nem o que lhe diziam.
Mesmo deitado, achava-se tonto, exausto.
Não conseguia organizar suas ideias.
Fechando os olhos, largou o corpo e entregou-se a um adormecimento, que não sabia dizer se era sono.
***
A claridade do céu passava por entre as frestas da janela, deixando o quarto na penumbra.
Humberto abriu os olhos lentamente e virando-se reconheceu o amigo Sérgio, sentado em uma cadeira ao seu lado.
Sentia o corpo dolorido. Era difícil se mexer.
Forçando-se, sentou-se na cama e verificou que dormiu com a mesma roupa que chegou.
Havia se esquecido do dia anterior.
No momento seguinte, pensou que havia tido um sonho ruim.
Mas, vagarosamente, as lembranças ressurgiam com intensidade e ele não podia negar o que tinha acontecido.
—- Tudo bem, Humberto? -— perguntou Sérgio com tranquilidade.
-— Não sei... -— balbuciou.
—Tome este chá -— pediu ao lhe oferecer uma caneca com a bebida fumegando.
Foi a Lívia quem preparou.
—Eu não quero. Obrigado -— respondeu confuso, sem entender por que o outro estava ali.
—- Bebe um pouco, vai! -— insistiu.
—Não... Estou enjoado e com a cabeça doendo.
Não quero nada. Obrigado.
Observando melhor o amigo, ele perguntou após organizar um pouco os pensamentos:
—- Você soube o que aconteceu?
—Eu soube pela Lívia e pela Neide -— tornou Sérgio, sempre calmo.
—Não posso acreditar...
Estou arrasado! Confuso!... -— dizia ainda atordoado.
Desculpe-me...
Não precisavam ter te chamado até aqui por causa disso.
Você deveria estar no trabalho e...
—Hoje é feriado, esqueceu?
—Feriado?!... Hoje?!...
Percebendo que o amigo ainda não concatenava as ideias, Sérgio decidiu conversar para actualizá-lo:
—Humberto, ontem o seu irmão...
—Pare! -— pediu rápido e nervoso.
- Não me fale nesse desgraçado!
Quero que ele morra!
Se ele aparecer na minha frente, eu o mato!
—Espere, Humberto.
Ontem, depois que o Rubens saiu daqui, ele sofreu um acidente de moto.
Observando-o perplexo, imóvel e parecendo prender a respiração, Sérgio continuou:
—- O Rubens se chocou contra a lateral de uma carreta em alta velocidade.
O impacto foi muito forte.
Ele e a moto foram para baixo dessa carreta.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 26, 2016 9:07 am

Após algum tempo, ordenando os pensamentos, e mesmo não querendo considerar o que pudesse ter ocorrido, perguntou murmurando:
—- Como ele está?
Em tom calmo e triste o amigo revelou:
—- O Rubens não sobreviveu.
Humberto ficou confuso.
Abaixando a cabeça, levou as mãos ao rosto esfregando-o vagarosamente, permanecendo cabisbaixo.
Mais uma vez ele não acreditava no que estava acontecendo.
Parecendo desorientado, indagou com voz trémula:
—- Onde está minha mãe?
-— A sua mãe não se sentiu bem e a levaram para o hospital.
Ela está em observação e sob efeito de tranquilizantes.
A Neide está lá com ela.
O seu pai está junto com o Tiago cuidando de tudo para o funeral do seu irmão.
Os seus primos, tios e tias estão vindo para cá.
A Neide os avisou.
De repente, Humberto, como que gemendo, sussurrou:
—- Ai, meu Deus! Sérgio me ajuda! -— pediu com voz baixa e a respiração ofegante.
Estou passando mal...
Não sei o que está acontecendo comigo...
Humberto foi levado ao hospital.
Sentia-se como se estivesse vivendo um pesadelo, mas com alguns poucos momentos de lucidez.
A cena de ver Irene e Rubens juntos era incessante, imutável.
A vontade de matar o irmão vinha-lhe à cabeça constantemente.
A lembrança confusa de quando foi à sua direcção com uma faca, pronto para matá-lo, não o abandonava.
Foi a última vez que o viu.
O arrependimento transformou-se em uma dor profunda, desesperadora, cravada em seu peito de forma muito cruel, impiedosa.
Acreditava que o seu desejo de matar Rubens tornou-se realidade pelas energias despendidas através de seus pensamentos, de sua vontade intensa.
Após passar horas em observação, o médico de plantão resolveu interná-lo uma vez que nenhum medicamento o fazia melhorar.
Humberto dizia sentir tonturas, formigamento nas mãos e nos pés, dor de cabeça.
Apresentava contracções musculares e fortes tremores.
No dia seguinte, ainda com os mesmos sintomas, negava-se a comer e largava-se sob o leito hospitalar trazendo o olhar perdido e olhos lacrimosos.
De vez em quando, era dominado por crises de choro intenso.
Só dormia sob o efeito de medicamento e, estando acordado, o pouco que conversava era de forma incoerente.
Parecia desorientado.
Sérgio, muito preocupado com Humberto, foi à procura do doutor Edison, médico psiquiatra e seu grande amigo.
Foi também o seu professor na universidade e seu actual sócio na clínica onde trabalhava.
—- Então foi isso, doutor Edison.
O irmão pilotava uma moto e, não se sabe como, entrou sob as rodas de uma carreta.
O acidente foi muito violento.
O corpo do rapaz foi triturado.
Ele teve morte instantânea.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 26, 2016 9:07 am

Quanto ao Humberto, ele está internado há um dia e eu sei que essa internação não lhe fará muito bem.
Está sob o efeito de medicação forte.
De certa forma, sinto-me culpado, pois eu o levei ao hospital.
—Você fez o que era preciso.
O seu amigo não estava bem e necessitava de socorro.
Lembro-me dele no aniversário da Débora.
Conversamos um pouco e ele me pareceu um bom rapaz. —
Olhando para Sérgio de um jeito desconfiado, o médico amigo perguntou, sorrindo:
-— E então, Sérgio?
Em que eu posso ajudar?
O que quer que eu faça?
—- Se não for pedir muito, doutor, eu gostaria que o senhor fosse vê-lo, por favor.
Acho que o Humberto não deveria ficar internado.
—Posso vê-lo sim.
Mas sabe que não posso interferir na opinião do médico que está tratando dele.
Acredito também que esse tipo de crise não o deixe internado por muito tempo.
Para ele ficar lá, o médico tem alguma suspeita.
***
Algumas horas depois, Sérgio estava no quarto do hospital e ao lado de Humberto.
Seus olhos abriam e fechavam vagarosamente e ele parecia alheio a tudo.
Chamando Sérgio para um canto, o doutor Edison explicou:
—- Ele tomou uma medicação muito forte e hoje será impossível receber alta.
Provavelmente nem amanhã irá para casa.
Veja, ele passou por situações e conflitos que foram altamente stressantes.
Com certeza, é um distúrbio de estresse agudo.
Dependerá dele, ou seja, de sua estrutura emocional ficar bom o quanto antes ou não.
—Por que está sob efeito de medicamentos?
Tremores fortes, violentos.
Contracções involuntárias, o que não é muito comum.
Talvez devessem deixá-lo sem medicação por mais tempo e...
Além disso, ele reclama de forte dor de cabeça, intensa dor no peito, desrealização e apresenta midríase.
—O que é midríase?
—Aumento dos diâmetros das pupilas.
O médico está se precavendo.
—Entendo -— disse Sérgio.
-— Vai que o Humberto recebe alta e, de repente, tem um infarto ou um acidente vascular encefálico!
—O jeito é aguardar.
Ele está sendo bem atendido.
***
Alguns dias depois, Humberto recebeu alta e estava em sua casa.
Pouco falava.
Quando lhe faziam perguntas, limitava-se a dizer:
sim ou não e havia momentos que nada respondia, deixando o olhar triste perdido.
Preocupado com o amigo, Sérgio foi visitá-lo e Neide contou:
—Ele não se alimenta.
Hoje, com muita dificuldade e depois de muita insistência, tomou meia xícara de café com leite e nada mais.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 26, 2016 9:07 am

Fica deitado o dia inteiro e, é só olhar para ele por algum tempo, que podemos vê-lo chorar.
Você vai ver!
Não se barbeia! Não se cuida!
—E sua mãe? Como ela está?
—Arrasada! Fica meio perdida.
Chora... Acho que não entrou em depressão ou não ficou pior porque tem de cuidar do Humberto.
A Débora tem vindo aqui e conversado bastante com a minha mãe.
Além de fazer companhia para ela, quando eu não estou aqui, minha mãe se distrai com ela.
—Sua mãe e o Humberto conversam?
—Ela entra lá no quarto e fica horas falando, contando coisas corriqueiras.
Mas eu percebi que não conversam sobre o Rubens ou a Irene.
Nem ele diz nada.
—Posso vê-lo?
— Claro, Sérgio! Venha!
Ao chegar à porta do quarto, Neide deu poucas batidas e enunciou:
— Visita para você!
Humberto pareceu fazer grande esforço para se sentar na cama enquanto Sérgio, sorridente, adentrou falando:
— E aí? Tudo bem?!
— Como vai, Sérgio? -— perguntou sem qualquer ânimo.
Após oferecer uma cadeira para o visitante se sentar frente ao amigo, Neide pediu licença e saiu.
Acomodando-se, o amigo respondeu:
— Estou bem. E você?
— Não me sinto bem.
Estou com uma sensação estranha e muito ruim -— Humberto sentia o corpo dolorido e um cansaço o dominava.
Não suportando, inclinou-se para o lado e deitou novamente.
De seus olhos fechados, lágrimas corriam pelos cantos.
—O médico prescreveu algum medicamento?
—Sim -— murmurou. -— Mas não está adiantando nada.
Minha cabeça está pesada, me sinto tonto, confuso.
Não consigo pensar direito.
Não consigo me concentrar.
Sérgio olhou para o criado-mudo e viu a caixa aberta com a carteia de comprimidos à mostra.
Curvando-se um pouco, pegou a medicação, olhou-a e depois a colocou no lugar.
Em seguida, virou-se para o amigo e aconselhou:
— Você precisa é sair deste quarto o quanto antes.
— Não consigo andar.
Parece que vou desmaiar a qualquer momento.
Sinto uma fraqueza, e um frio percorre o meu corpo, principalmente o meu rosto.
Minhas pernas ficam fracas, como se eu fosse cair.
A sensação é de não ter mais o controle sobre mim.
O espírito Wilson, mentor de Sérgio, aproximou-se de seu protegido, inspirando-o.
Num impulso Sérgio levantou-se, foi até a janela e a abriu.
Virando-se para Humberto, pediu firme:
—- Vai! Levanta!
—- O quê?
—- Vou fazer com você o que eu gostaria de fazer com todos os pacientes que me procuram nesse estado.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 26, 2016 9:07 am

Com eles eu não posso fazer isso, só me limito a sugerir, aconselhar.
Como você não é meu paciente...
Não vou passar vontade!
Pegando-o pelo braço, ele o fez sentar e falou:
- Vamos lá, levanta!
Você precisa sair daqui o quanto antes!
Cama é lugar de dormir!
Ficando aqui você só estará à mercê de pensamentos negativos, alimentados por espíritos inferiores.
— Estou tonto, posso cair — falou, desanimado.
— Acha que eu não consigo te segurar?! Olha o meu tamanho! —
sorriu, brincando. — Como você já está de agasalho, é só pôr um ténis!
Humberto despendia grande força para fazer qualquer movimento.
O simples facto de pegar os calçados, para ele, era um grande sacrifício.
Naquele momento em que decidiu agir, colocando o ténis, o espírito Nelson, seu mentor, envolvia-o com grande fluxo de energia salutar e, sem saber por que, Humberto obedecia ao amigo.
Com voz fraca, ele falou:
—Estou avisando, Sérgio. Não me sinto bem.
—Fique tranquilo! Você está comigo!
Já na sala, com uma bandeja nas mãos, Neide os olhava assustada, pois ia levar um café para eles.
Sorrindo ao vê-la, Sérgio pediu:
—- Você tem um pouco de leite para pôr nesse café?
Seria bom o Humberto tomar um café com leite antes de sair.
—- Tenho sim! Mas... Vocês vão sair?!
—- Vamos dar uma volta! — tornou o amigo.
—- Um instante! -— disse a jovem, que não demorou e retornou à sala com uma xícara de café com leite.
Olhando para o irmão, que havia se sentado no sofá, Neide ofereceu:
-— Toma! Vai te fazer bem!
Será óptimo sair um pouquinho.
Está um sábado lindo!
Humberto nada respondeu.
Com enorme sacrifício, deu alguns goles na bebida e logo colocou a xícara sobre a bandeja.
Sem deixá-lo se acomodar, o amigo convidou:
—- Vamos logo! Está uma tarde linda!
Será bom tomar um pouco de sol.
Em seguida, saíram.
Enquanto andavam pelos quarteirões do bairro, Sérgio perguntou:
—- Quando você retorna ao serviço?
—Na próxima terça-feira.
Na segunda-feira, tenho consulta médica.
Não sei como vai ser.
—Por quê?
—Não tenho vontade de fazer nada.
Tudo está sendo muito difícil.
Como vou trabalhar assim?
Parece que não consigo pensar direito.
Como vou resolver situações lá na empresa?
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 26, 2016 9:08 am

—Diante da pressão que experimentou, do estresse que viveu e o súbito falecimento de seu irmão, é de se esperar que esteja assim.
Mas veja, você está assim, você não é e não ficará desse jeito.
Isso é uma fase.
—Será?!
—Lógico!
—Eu gostaria de acreditar nisso.
Mas o que sinto é tão intenso, é algo tão ruim.
Sinto-me incapacitado, inútil, culpado.
—Culpado pelo quê?
Humberto não respondeu.
Mas, passado alguns minutos, pediu:
—Vamos voltar. Não estou me sentindo bem.
—Como quiser. Vamos sim.
Chegando a sua casa, Humberto foi directo para o seu quarto e Sérgio o seguiu.
Ao vê-lo se sentar na cama, falou com voz firme:
—Reaja, Humberto!
Não pense que a cama vai acabar com esse estado!
Ao contrário! Quanto mais você ficar aí, mais retarda a sua melhora.
—Não consigo reagir.
—Consegue! Consegue sim!
Breve pausa e perguntou:
— Você disse que se sente culpado.
Culpado de quê?!
—Você talvez não entenda porque nunca desejou morrer nem matar alguém.
Eu queria matar o Rubens antes de vê-lo com a Irene.
Eu sabia que o meu irmão não prestava, que saía com outras mulheres, que traía a Lívia... só não sabia que traía a Lívia com a minha futura esposa...
Quando os vi lá, no apartamento, eu fiquei insano, louco.
Nunca senti tanto ódio de alguém e... -— lágrimas copiosas corriam em sua face e ele se calou.
—Qualquer ser humano normal sentiria ódio diante da mesma situação.
—Mas ele morreu!
Estou confuso! Desorientado!
—Reencarnamos com um compromisso, com vários propósitos, com diversos planos.
O desencarne do Rubens nada tem a ver com os seus desejos de matá-lo.
Ou você se acha tão poderoso assim?!
Acredita que é só desejar uma coisa e ela acontece?!
Acredita que o seu ódio ou a sua vontade de matá-lo contribuiu de alguma forma para que ele morresse?
Ora, Humberto! Seja sensato!
O outro secava o rosto com as mãos, procurando fugir-lhe o olhar.
Algum tempo e comentou:
-— Eu não paro de lembrar a cena dos dois juntos...
Estavam se amando...
Breve pausa e continuou:
— Fico pensando: desde quando isso vinha acontecendo?
Será que aquela criança é meu filho?
E se não for? Como saber?
Eu ia terminar com a Irene, mas por causa da gravidez resolvi me casar.
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