CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 31, 2016 10:28 am

Pode ser uma expressão do seu inconsciente que se manifestou por causa desse transtorno e se potencializou com a medicação.
Mas isso pode e deve ser tratado.
O correto não é você perguntar:
porque eu tive isso?
O correto é se questionar:
para que eu tive isso?
Com certeza a resposta virá.
Descobrirá que teve isso para evoluir, crescer, fortalecer-se e principalmente corrigir-se, desenvolver mais amor e fé.
Para sofrer a crise que sofreu foi porque as energias criadas em você, por você mesmo, foram, incompatíveis ao amor e a fé que aprendemos com Jesus.
Deus é bom e justo e ninguém fica assim eternamente.
Vai precisar de muito empenho e determinação, mas vai conseguir.
—Certo. Quero começar me livrando desses remédios!
E também começar a psicoterapia! -— sorriu, animado.
—Foi a melhor notícia que eu tive hoje!
Vamos lá!
Vou ajudá-lo a diminuir esses medicamentos até a isenção total!
Não se pode, repentinamente, parar de tomar esses remédios.
Vou avisá-lo e, provavelmente, o psicólogo também o alerte de que haverá momentos em que você achará que não está adiantando nada.
Vai querer um remédio mágico ou vai querer a medicação de volta para tirar toda e qualquer sensação que esteja sentindo.
Alguns chamam a esses momentos ou períodos de recaídas.
Eles não têm muito a ver com os remédios, mas sim com o estado emocional.
Na verdade, são adaptações psíquicas e fisiológicas, vamos dizer.
O caminho é a sua recuperação e uma nova pessoa, mais firme, mais sábia com despertar das novas ideias.
Aquilo tudo que aquela moça a...
— Lívia!
— Sim, a Lívia.
Tudo o que ela aconselhou é verdade.
Será muito bom para você.
Saia, dance, ande, tenha várias actividades tranquilas, prazerosas e tudo vai acontecer naturalmente.
Mas não dependa somente da companhia dela.
Faça o que tiver de fazer mesmo sozinho.
Você me disse que era instrutor em cursos de espiritismo e que fazia palestras também.
— Sim eu era.
— Não! Você ainda é! -— sorriu.
Volte a essa actividade.
Mesmo se, no início, estiver inseguro.
Volte aos poucos. Vai lhe fazer bem.
Após vê-lo fazer anotações, Humberto, curioso, perguntou:
—Doutor, a propósito, e a senhora que mencionou que sofreu depressão por mais de cinco anos?
Ela melhorou?
—Ficou óptima!
Tornou-se outra pessoa!
Uniu-se a um grupo da terceira idade, começou a viajar, participar de passeios... -— riu.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 31, 2016 10:29 am

A filha me encontrou um dia no centro e reclamou da mãe para mim.
Disse-me que a mãe se tornou um pé de valsa e tinha arrumado um namorado.
Por ser viúva, estava pensando em se casar novamente.
— E aí?!
— Ora! Virei para a moça e perguntei se ela queria sua mãe trancada e deprimida dentro de casa como antes ou alegre e extrovertida como ela estava?
A moça sorriu, mas não respondeu.
Eu ainda falei:
deixe sua mãe viver!
Deixe-a ser feliz!
—E bom saber de casos assim.
Infelizmente, as pessoas só comentam assuntos catastróficos.
—Uma coisa de que gosto de alertar é para a pessoa não falar ou se lembrar do nome do que ela tem.
— Como assim?!
— Tem gente que vive dizendo: eu tenho depressão!
Com essa afirmação, a sua mente fica presa nesse estado.
Ela acredita e vive tendo o que diz ter.
Esquecer o nome:
depressão, pânico, ansiedade e se for preciso mencionar, dizer:
eu tive depressão, tive pânico.
Em seguida afirmar:
a cada dia estou melhor, mais segura e feliz.
Essa é uma táctica óptima para impressionar o inconsciente e mudar de atitude mental.
Você sabe, como disse o grande sábio:
o que você pensa, você cria; o que você sente, você atrai; o que você acredita, torna-se realidade!
Ao vê-lo pensativo, ainda orientou:
— Vamos falar em termos de energia.
Devido às contrariedades da sua vida, você criou sentimentos ruins que são energias negativas e todo o seu corpo físico sofreu as consequências de um choque por causa dos seus desejos e sentimentos que experimentaram grande conflito.
Assim sendo, você está carregado ou sobrecarregado de uma energia muito negativa.
O que precisa fazer é gastar, livrar-se dessa energia ruim para que uma energia boa ocupe novamente esse lugar.
Você precisa suar, literalmente suar, transpirar.
Isso ajuda muito a se livrar, a gastar essa energia negativa.
Sorrindo, continuou:
— Depois disso, não fique parado.
Procure ambientes, terapias, ocupações ou trabalhos saudáveis como a leitura de um bom livro, ir à casa espírita para palestras e passes ou outras actividades salutares, pois será isso que irá ajudá-lo a repor de energias saudáveis o "espaço" vago deixado pela energia ruim que gastou.
Além disso, leia o Evangelho Segundo o Espiritismo, diariamente, antes de dormir.
Leia um parágrafo e reflicta.
Ore pedindo a Deus um sono tranquilo, reconfortante, que possa repor suas energias mais saudáveis.
Peça protecção de seu anjo da guarda, de amigos espirituais que atuem em nome de Jesus.
Peça com muita fé.
Tudo isso, com certeza, vai ajudá-lo muito. Acredite.
O médico ficou conversando por mais algum tempo com Humberto, fazendo-o sentir-se melhor, mais seguro e decidido a melhorar.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 31, 2016 10:29 am

***
Era final de semana.
Lívia, sentada no sofá da casa de dona Aurora, ouvia atentamente sobre o que Humberto contava a respeito da consulta com o doutor Edison, o psiquiatra, e o doutor Fabiano, o psicólogo indicado por Sérgio e que ele foi consultar.
—- O que você achou? —- perguntou ela.
—- O Fabiano me passou muita confiança e me animou bastante, reforçando que é possível eu sair desse estado e me fazendo entender melhor o que sinto, pois eu nunca podia imaginar que essas sensações ou sintomas pudessem existir, muito menos que ocorreriam comigo.
—Eu venho te dizendo que isso vai passar!
Mas não acredita! -— sorriu.
—Eu sei -— sorriu junto.
Mas quando essa informação vem de um profissional é diferente.
Após alguns segundos, comentou: —
Você deve estar cansada de me ver assim, só me queixando e falando do que sinto, não é?
—Não é agradável ouvir queixas.
Às vezes me sinto aflita, sem saber o que fazer.
Mas já percebi que você tem melhorado, principalmente, nos últimos dias.
Está reagindo, agindo...
—Obrigado por me ajudar, Lívia.
Sentada ao seu lado, ela afagou-lhe as costas com carinho ao estampar suave e belo sorriso.
Em seguida, propôs:
—Vamos sair e dar uma volta?
—Para onde?
— Não sei. Coloque um ténis!
Vamos andar um pouco.
Humberto sorriu, levantou-se e concordou:
— Só um minuto, tá?
Dizendo isso, ele foi para o seu quarto.
Sem que percebessem, na espiritualidade, Rubens se demonstrava totalmente descontrolado.
Desgraçados! Seus...
Depois de vários nomes indecorosos, vociferava:
— Vou acabar com vocês dois!!!
Vou matar essa safada e depois você!!!
Como podem fazer isso na minha cara?!!!
Enquanto colocava o calçado, Humberto sentia-se mal.
Experimentava uma tontura que o enfraquecia ao mesmo tempo que sentia o rosto frio e gotejado de suor.
Diante de sua demora, Lívia foi até o quarto e expiando perguntou:
— Posso entrar?
Ao vê-lo sentado, mas com a parte superior do corpo deitado sobre a cama, quis saber:
— O que foi, Humberto?
— É aquilo de novo... -— murmurou.
Mesmo percebendo-o trémulo, pediu:
— Sente-se direito. Respire fundo.
Obedecendo, ele falou:
—Estão acontecendo algumas coisas meio diferentes comigo.
É horrível! Parece que vou morrer!
—Não vai! Não vai mesmo!
É só uma crise. Abra os olhos e respire fundo.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 31, 2016 10:29 am

Apesar do pavor que o dominava, Humberto atendia aos seus pedidos.
Lívia foi até a cozinha e trouxe um copo com água adoçada.
Ao segurá-lo, pediu em pensamento para amigos e benfeitores espirituais depositassem fluidos balsâmicos que pudessem ajudá-lo a se recompor mais rápido.
Sem que ela visse, foi atendida imediatamente pelos mentores que os acompanhavam.
Chegando ao quarto, solicitou simplesmente:
— Bebe um pouco. Vai te fazer bem.
Enquanto ele bebia lentamente a água fluidificada, ela afagou-lhe sua cabeça e sua nuca sem perceber que lhe passava energias que o auxiliariam a se recuperar mais depressa.
A equipe do espírito Adamastor, pouco antes, sugava energias de Humberto, vampirizando-lhe os fluidos vitais e oferecendo-lhe uma sensação de pânico muito maior do que a Própria morte.
Alguns outros inertes e sem saber o que estavam fazendo, consumiam suas reservas de forças psíquicas, deixando-o desorientado, confuso com a impressão de que sua mente enlouquecia saturada de impulsos inferiores.
Lívia ajoelhou-se frente a ele e segurou suas mãos gélidas e suadas entre as suas.
Ignorando como proceder, fechou os olhos e começou a orar.
Em seu socorro, do ponto mais alto, veio uma luz azulada e cintilante que, generosamente, envolveu Lívia que passou a ter todo o seu corpo aureolado.
Sem perceber, ela transmitia fluidos sublimes ao rapaz a sua frente.
Tais energias, lentamente, invadiam Humberto e provocavam pequenas ondas de choques que se manifestavam como calafrios.
A energia em forma de luz, grandiosamente divina, chegava até os espíritos inferiores ligados a Humberto e produziam nesses infelizes reacções como que intoxicantes.
Amedrontados, espíritos sob as ordens de Adamastor, começaram a gritar por seu nome e, em fracção de segundos, ele apareceu.
Percebendo o que acontecia, Adamastor, imediatamente, dirigiu-se a Humberto, áspera e estrondosamente, impondo:
— Você vai morrer!!!
Está morrendo da pior forma, seu desgraçado!!!
Essa aí levou seu irmão à morte e agora vai levar você!!!
Sinta o horror da morte!!!
Sinta que o inferno está chegando!!!
É onde eu te espero!!!
Humberto começava a se recuperar um pouco, mas, subitamente, foi invadido por nova e gigantesca onda de mal-estar indefinido.
Interrompendo Lívia, que se concentrava em uma prece sentida e se ligava ao alto, comentou:
—Parece que vou morrer...
Que coisa horrível!
A fala do rapaz bastou para a moça abrir os olhos e prestar atenção no que ele dizia.
Sob o olhar de revolta de Adamastor, ela se sentiu fraca e inútil diante de tudo.
Mesmo na espiritualidade, em plano que não conseguia ser percebido pelos demais, Nelson e Alda envolveram Lívia, protegendo-a dos ataques do obsessor e seu grupo.
Sob a inspiração dos mentores, ela reagiu:
—Humberto! Levanta!
—Não posso. Vou cair!
—Não! Não vai! -— falou firme, exigindo:
— Levanta agora! Parece que é essa cama, esse quarto que te deixam assim!
Ela o puxou e o fez ficar em pé.
Ao olhá-la, Humberto passava mal, lembrava-se de seu irmão, de como ele desencarnou, de como deveria ter sofrido e muitos outros pensamentos velozes e decaídos.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 31, 2016 10:29 am

Exigente, mas muito educada e generosa, ela falou:
— Não é possível!
Agora há pouco, lá na sala, você estava tão bem!
De repente, chega aqui no quarto e fica assim! Isso não é normal!
— Eu sei, mas não posso fazer nada!
— Ah! Pode sim!
Vamos sair, venha!
Daremos uma volta!
Sem conseguir concatenar as ideias, sentindo-se fraco e indefeso, Humberto a acompanhou, mesmo sob as reclamações e ameaças furiosas de Rubens, que ficou na casa.
Tempo depois, ao caminharem por uma avenida ladeada de árvores, ela perguntou:
—- Sente-se melhor?
—- Um pouco.
—- Foi uma crise.
Você não vai morrer.
Nada vai te acontecer.
—- Crise do quê? -— perguntou ele entristecido.
—Sei lá! O nome pouco importa.
Vamos chamar de crise.
—Estou me sentindo melhor.
Mas muito estranho.
Sinto um tremor por dentro.
Quando falo parece que não sou eu que estou falando.
Se dou risada é como se não fosse eu quem estivesse rindo.
É estranho, não é?
—Isso também vai passar!
—Você fala com tanta convicção, Lívia.
Já viu alguém passar por isso?
—Já ouvi falar.
Pelo que te conheço, você tem força interior mais do que suficiente para vencer esse estado.
Um tratamento de assistência espiritual seria muito bom.
Você começou, mas não deu continuidade.
—Será que tive essa crise por que o médico diminuiu um pouco a dosagem dos remédios?
—Não creio.
—Por quê?
—Porque já teve outras crises com a medicação em alta.
Eu acho que precisa é mudar aquele quarto.
Se me permitir, vou falar com a Neide e pedir para ela e sua mãe mudarem sua cama de lugar, tirarem dali a cama que foi do seu irmão, as roupas dele do armário...
Mudar tudo, entende?
Deixar o quarto mais iluminado, mais arejado...
Quem sabe pintar com uma cor mais alegre?!
Aquela cor gelo é muito fria! -— riu com gosto.
—- Eu sempre quis um quarto azul!- — admitiu.
—Azul seria perfeito!
Poderíamos mudar as cortinas também!
—- Tirar as cortinas beges e trocar por azuis?
—- Não. Creio que tudo azul não ficaria bom.
Mas cortinas brancas cairiam bem!
Além disso, com uma cama a menos, você poderia mudar a mesa do computador e fazer uma bancada para que possa escrever ou ler perto da janela!
- O que acha?
—- É mesmo!
Assim, Lívia começou a desviar os pensamentos de Humberto do que ele sentia, pois ele não tinha outro assunto para falar a não ser sobre o seu estado.
As sugestões sobre as mudanças o faziam tecer planos e desenvolver ideias novas e produtivas.

1 N.A.E. Os relatos apresentados ou comentados, nesta obra, não podem servir de referências para diagnóstico.
Somente um profissional bem qualificado na área poderá fazê-lo.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 31, 2016 10:29 am

19 - VIVER UM DIA DE CADA VEZ

O tempo foi passando.
Um dia nublado.
Uma luz pálida no céu repleto de nuvens cinza anunciava mais um dia sem sol e um tanto frio.
Humberto conversava com Lívia a caminho do serviço e, em determinado momento, ele comentou:
- —Eu vou conversar com a Irene.
- —Quando? -— interessou-se ela bem surpresa.
- Não sei. Ainda não marquei.
Andei conversando com o Fabiano e ele considera que resolver toda pendência à minha volta vai ajudar.
—- Também concordo.
—Mas quando penso em falar com ela...
Sinto-me muito abalado.
—A vida é acção e acção é energia -— comentou Lívia.
Agindo para enfrentar ou resolver o que for preciso à sua volta, você estará criando energias novas e gastando ou se desfazendo das energias velhas.
Assim estará se renovando.
Muito à vontade, ele riu de um jeito gostoso e brincou:
— Você fez algum curso de psicologia nos últimos tempos?
A moça sorriu e ficou satisfeita ao vê-lo brincar naturalmente Humberto parecia voltar à vida.
Em seguida, ela respondeu:
— Não. Não fiz, mas seria um curso interessante.
Ele simplesmente sorriu e mudou de assunto.
—- Amanhã vou comprar tinta para pintar o quarto.
Você vai ajudar?
—- Ajudar a comprar a tinta ou a pintar?
—- As duas coisas. Topa?!
—- Com o maior prazer! -— alegrou-se ela.
Eles continuaram conversando até chegarem à empresa.
Naquele dia, Humberto se sentia bem melhor.
Não totalmente recuperado, mas dos últimos tempos em que era mordazmente acometido por terríveis crises psíquicas depressivas ou de pânicos inexplicáveis, aquele era um dia bem tranquilo.
***
Os amigos que trabalhavam na contabilidade da empresa, combinaram de almoçarem juntos e Lívia fazia parte desse grupo.
Ao retornarem do restaurante, Ademir a segurou no hall do elevador, impedindo-a de subir com os demais e pediu:
— Fique! Vamos aguardar o próximo.
Lívia aceitou com simplicidade e o rapaz perguntou:
—- Está livre amanhã?
-— Como assim? -— tornou ela, querendo ganhar tempo para pensar e entender a finalidade daquela pergunta.
—- Poderíamos sair, tomar um chopinho, dançar...
O que acha?
-— Olha, Ademir...
Ela não terminou e ele a interrompeu generoso e educado:
- Lívia, já passou tempo suficiente desde a morte do Rubens.
Você não pode ficar só pensando nele.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 31, 2016 10:30 am

Afinal, é uma moça jovem, bonita, cheia de vida e...
—- Não é isso.
- —Como não é isso?!
Eu reparo muito bem no que faz e não a vejo ligando para ninguém.
Ninguém te liga ou te procura.
Você está muito sozinha, presa...
Precisa viver um pouco e se soltar mais.
A mando de Adamastor, os espíritos infelizes, que acompanhavam Lívia à espera de uma oportunidade, encontraram o momento de agir.
Envolvendo-a com intensos fluidos inferiores, sugeriam-lhe pensamentos e sentimentos enquanto Ademir falava.
—Vejo você chegando e indo embora com o Humberto.
Sei que ele é um cara legal e está precisando da sua ajuda, mas...
Parece que ele está te usando!
É muito estranho vê-lo juntos.
Digo isso porque não estão envolvidos, certo?
—Eu e o Humberto não temos nada.
—Nem teria cabimento!
Só porque o seu namorado morreu, você não vai ficar com o irmão dele porque está sozinha, não é? Sei lá!
Pode parecer que quer trocar um pelo outro!
Aquela opinião mexeu com Lívia.
Ela começou a questionar a respeito de serem corretas ou não as suas intenções.
Afinal, na verdade, não queria estar comprometida com Rubens quando conheceu Humberto.
De certa forma, estaria trocando um pelo outro.
Isso tudo lhe causou dúvidas e conflitos.
—O que me diz? Não parece isso? -— perguntou Ademir, despertando-a das reflexões.
- —É... Não sei direito... -— respondeu confusa, pois não havia escutado direito o que o outro falou.
—Eu acho isso.
Parece que você está sendo usada, perdendo o seu tempo, a sua juventude, deixando de viver!
Pense, Lívia!
Ficando frente a ela, Ademir tirou-lhe a mecha de cabelo do rosto, enlaçou-a atrás da orelha e, fazendo-lhe terno afago na face, convidou: —
Vamos sair amanhã?
Afastando-se um pouco, ela respondeu abaixando a cabeça:
—- Amanhã... Eu não posso.
—- Domingo? —- insistiu, aproximando-se novamente enquanto acariciava-lhe o braço.
—Eu não sei... -— respondeu confusa, sob o efeito de energias de espíritos inferiores que tentavam influenciá-la.
A certa distância, Humberto, que esperava o elevador dos executivos, assistia à cena.
Resgatando as lembranças de ver Irene e Rubens juntos, confundindo-as com o momento presente, sentiu-se estranho, com sensações que o desequilibravam.
Pensou que Lívia o estava traindo de alguma forma, apesar de não terem qualquer compromisso.
Imaginou que ela não deveria ser diferente da outra e o enganava sim.
Afinal, conversar tão próxima de Ademir, deixando-o tocar-lhe os cabelos com um afago, não seria algo comum com quem não se tivesse afinidade.
Humberto ficou muito confuso com o que via.
Não conseguia raciocinar direito.
Os medicamentos que tomava interferiam, cruelmente, em sua capacidade de julgamento e os espíritos infelizes que o acompanhavam ininterruptamente, aproveitavam-se dos efeitos colaterais dos remédios e como que preenchendo as lacunas de seus pensamentos, imprimiam-lhe ideias mórbidas, terríveis e comprometedoras.
Teve o impulso de ir até eles, mas desistiu com a chegada do elevador.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 31, 2016 10:30 am

Ao passar pela sala de sua secretária, Humberto mal a olhou e, sem parar, pediu secamente:
—- Júlia, venha até minha sala, por favor.
Acomodando-se em sua cadeira giratória confortável, abriu uma gaveta onde pegou uma carteira de medicamento.
Olhou-a, destacou um comprimido e o tomou, engolindo-o a seco.
Vendo-a parada à sua frente, perguntou:
- A remessa da qual eu lhe falei hoje cedo, já foi encaminhada para o Rio?
—Já. Foi exactamente a remessa solicitada.
Não houve qualquer alteração nos lotes.
— Óptimo.
A cena de Lívia e Ademir não lhe saía da cabeça.
Naquele instante, ele passou a imaginá-los juntos, igual quando pegou Irene e Rubens.
Acreditava piamente que Lívia o enganava.
Talvez se encontrasse às escondidas com Ademir, que era um rapaz bonito, simpático e não tinha problemas iguais aos dele.
Desde quando falou para Lívia que foi um erro terem começado um envolvimento, ela se afastou.
Não ofereceu chance para qualquer intimidade.
Não se demonstrou apaixonada.
Não deveria gostar dele como acreditava.
Novamente estava sendo enganado.
-— Tudo bem, Humberto? -— perguntou Júlia ao vê-lo em silêncio por longo tempo.
Apoiando os cotovelos na mesa e amparando a cabeça nas mãos, respondeu com voz abafada e estranha:
—- Estou bem. Vai passar.
—- Quer uma água?
Jogando-se para trás na cadeira, balançou-se ao olhá-la de um modo incomum e comentou:
—- Quero sumir, Júlia. Sumir!...
—Hoje você me pareceu tão bem.
Eu o vi conversando e sorrindo de um jeito tão espontâneo, natural...
Ainda falei comigo mesma:
nossa! O Humberto está de volta! -— sorriu.
—Eu me sinto oscilando...
É como se eu vivesse em ondas altas e baixas, vagando...
Parece que mudo de personalidade.
Tenho dúvidas quanto aos meus sentimentos.
— Minha irmã reclamava de algo semelhante.
— Creio que estou incomodando todos à minha volta e...
Às vezes, acho que as pessoas estão comigo por interesse ou obrigação.
Vem um desespero! Uma coisa!...
—Vai passar —- ela afirmou em tom bondoso.
—Quando?! Quanto tempo isso dura?!
—- Cada pessoa tem o seu tempo próprio, psicologicamente falando.
As defesas e os pontos fracos servem de factores positivos ou negativos, mas, sobretudo, a sua aceitação, o seu amor próprio vão lhe ajudar.
—- Como assim?
- Tenha paciência com você mesmo, Humberto.
Dê-se um tempo.
Diga a você mesmo que vai conseguir.
Hoje, por exemplo, você melhorou muito em relação aos outros dias.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 31, 2016 10:30 am

Se depois ficou triste, diga: é por enquanto!
Daqui a pouco estarei melhor novamente!
Isso é confiar e amar a si mesmo.
Alguns segundos, vendo-o em silêncio, perguntou:
— Você passou no médico novamente e ele diminuiu a dosagem dos remédios?
—Ele mandou diminuir mas, porém...
Não estou conseguindo.
Como ainda tenho alguns comprimidos a mais, nos momentos de crise muito forte, eu acabo tomando.
—Deveria falar isso para o médico.
Por que não conversa com ele?
O rapaz não respondeu e, querendo mudar de assunto, pediu:
—Por favor, ligue para a filial do Rio.
Preciso conversar com o Valdir.
—- Certo.
Júlia entendeu que o assunto estava encerrado, mas decidiu contar antes de sair:
— Humberto, o doutor Osvaldo veio me perguntar de você.
Queria saber como estava.
—O que você respondeu? -— quis saber, estranhando a atitude do outro.
—Disse que você estava bem.
—Ele está reparando que eu não me apresento como antes.
Não opino tanto, não participo de forma tão dinâmica...
—Olha o que você está fazendo!
Nem sabe se o homem está pensando isso ou não e afirma, com convicção, ideias negativas a seu respeito na suposta opinião dele.
— Devo admitir que não estou tão actuante quanto antes, Júlia!
Demoro a entender algo simples.
Fico confuso diante de determinadas pressões e...
Nesse instante, o doutor Osvaldo, vice-presidente da empresa, entrou repentinamente na sala, pois a porta se encontrava entreaberta.
—E aí, Humberto?!
Já falou com o Valdir sobre as novas aquisições?
—Ainda não, doutor Osvaldo!
Acabei de pedir à Júlia para fazer a ligação.
Imediatamente, a secretária argumentou sensata e educada antes de sair:
— Com licença, doutor Humberto, vou fazer a ligação agora.
— Isso! -— exclamou o vice-presidente.
Virando-se para Humberto, pediu:
— Coloque no viva voz que eu quero conversar com ele também.
Em seguida, comentou:
— Li seus relatórios sobre a análise financeira que fez e gostei muito.
Ah! Já viu os rendimentos das acções hoje?
O assunto continuou e foram realizar o que precisava.
Isso distraiu Humberto dos pensamentos conflituantes que teve anteriormente.
***
Naquela noite, retornando para casa ao lado de Lívia, ele não disse nada.
Insatisfeita, embalada por pensamentos negativos impostos por espíritos inferiores, ela acalentava silenciosas ideias de que Humberto não queria se recuperar e ficaria eternamente daquele jeito.
Enquanto ele, trazia a imaginação povoada com ideias de Lívia e Ademir juntos, confundindo com as cenas que viu entre Irene e Rubens.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 31, 2016 10:30 am

Isso lhe provocava impressões causticantes de profundo desespero.
Um momento de fúria o dominou quando experimentou imensa vontade de puxar o volante do carro, virando totalmente a direcção para aproveitar a velocidade e provocar um acidente.
Desejou vê-la morta.
Desejou morrer junto.
Mas, por um instante, pensou que o acidente não seria grave o suficiente para morrerem.
Então, se conteve para não agir.
Ao chegar a casa, o espírito Rubens exibia-se furioso ao vê-los juntos.
A pedido de Neide, Lívia entrou para ver as cores de tinta que ela havia comprado sem avisar o irmão.
-— Esse azul é para o quarto do Humberto.
Esse lilás, quase rosa, é para o meu quarto.
—- São cores lindas! -— admirou Lívia.
—Eu ia comprar as tintas amanhã -— ele avisou, sentindo-se insatisfeito com a iniciativa da irmã.
Começou a pensar que sua opinião não era mais importante para ninguém.
—- Ganhamos tempo, Humberto! -— lembrou Neide.
Amanhã começamos cedo! —- O irmão não disse mais nada.
Ele foi para dentro de casa, e ela comentou animada:
-— Eu estava pensando, se o Humberto quiser, a parede do quarto dele onde vai ficar a mesa do computador e a bancada, poderia ser pintada com esse lilás, o que você acha, Lívia?
—- Penso que ficaria bonito!
- Precisamos ver se ele gosta.
—- Cale a boca, Neide!!! -— gritava o espírito Rubens revoltado, confuso e ainda sem entender o que acontecia com ele.
- Você não vai fazer nada!!!
Aquele quarto é meu!!!
Vai se ver comigo se mexer lá, cretina!!!
Ele estava muito perturbado ainda.
Não sabia dizer há quanto tempo era ignorado pela família.
Supunha que se tratava de dias, menos de um mês.
Extremamente desorientado, quando despendia energias, revoltado com a atitude de todos, ficava fraco e esmorecido.
Entrava em um estado semelhante ao sono, permanecendo assim por muitas horas ou dias.
Ao despertar, acreditava que o seu acidente de moto tivesse acontecido há pouquíssimo tempo.
Quando desejava sair de casa, sentia-se abatido, sem forças e não conseguia.
Chegou a pensar que tivesse morrido, mas percebia-se vivo demais para aceitar essa suposição.
Afinal, ele tinha dor, sangrava, movia-se, falava.
Apesar de experimentar sensações estranhas, não considerava, sobre-maneira, que pudesse estar morto.
Ao imaginar essa possibilidade, ficava tonto, sem vigor, sem ânimo e não conseguia organizar os pensamentos.
Experimentava um grande vazio.
A jovem não o ouvia e comentou:
—Minha mãe concordou em se desfazer das coisas do Rubens.
Amanhã, um homem, lá do bazar beneficente da igreja, virá buscar a cama e as roupas.
—Creio que será a melhor coisa que vão fazer, Neide.
O quarto vai ficar com um ar novo, mais agradável e diferente. - concordou Lívia.
—Eu também acho.
Aliás, isso já deveria ter sido feito.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 01, 2016 10:14 am

— O que pensam em fazer comigo?!!!
Eu ainda moro nesta casa!!! -— berrava o espírito Rubens sem ser percebido.
Com isso perdia as forças, enfraquecia e não entendia o que estavam falando.
Dona Aurora chegou à garagem e ao ver as moças conversando, perguntou sorridente:
—Você vem amanhã ajudar esses dois a pintar os quartos?
—Venho sim! -— respondeu bem-disposta.
No instante seguinte, o espírito Rubens se refazia um pouco, sentia-se contrariado, entorpecido e, aproximando-se de sua mãe, exigiu emotivo e chorando:
— O que está fazendo?!!
Por que estão me ignorando e me tratando desse jeito como se eu não existisse?!!
Mãe! Parece que eu morri!!!
Por que está fazendo isso comigo?!!
Eu preciso de socorro...
Preciso de um médico...
Acho que vou desmaiar...
A senhora entristeceu imediatamente e, com lágrimas nos olhos, comentou:
—A gente precisa de algumas mudanças para ver se o Humberto melhora.
Se isso é preciso para o meu filho se recuperar, então vamos fazer.
—Vai ficar bonito, dona Aurora! -— disse Lívia.
—Vai sim — afirmou a senhora com o coração partido.
***
No dia imediato, bem cedo, Humberto e Neide estavam com tudo no jeito para pintar os quartos, quando Lívia chegou.
Animada, ela os ajudou em tudo o que precisavam.
Eles brincaram, cantaram ao som de músicas alegres e se divertiam com o trabalho.
Riam muito um do outro pelos rostos coloridos.
Como se não bastasse, Neide fez questão de desenhar no rosto do irmão e de esborrifar tinta em Lívia, que ficou manchada.
Mas não escapou de ser pega pela amiga que também lambuzou seus braços, pernas e rosto como deliciosa vingança.
A pintura das paredes, no plano físico, como que desintegrou fluidos negativos existentes no plano espiritual.
Havia um véu pesado e invisível de condensação energética inferior incrustada na parede que parecia absorver as irradiações enfermiças, depressivas da mente de encarnados e desencarnados.
Certamente a limpeza dessas energias pesarosas beneficiaria os usuários dos cómodos, não somente pela higienização espiritual, mas também pela nova cor que emitia uma vibração transformadora, pois espíritos mais elevados aproveitavam-se da limpeza física, material para condensarem energias benéficas e construtivas no ambiente mais luminoso, de vibração colorida, bem tranquila e edificante.
Isso incomodou imensamente o espírito Adamastor e seu grupo.
De tanto protestar, o espírito Rubens ficou exaurido de forças e, como que entorpecido, caia em uma espécie de sono profundo, um tanto perturbado.
No domingo à tarde tudo estava pronto.
O quarto de Humberto havia se transformado e adquirido um novo ar.
Achava-se mais limpo, bem claro.
A cor nova fez ganhar beleza e vida.
Neide também se beneficiava com a mudança, pois também renovou o visual de onde dormia.
Lívia riu ao ver o seu rosto no espelho e, sentando-se no chão, comentou alegre:
— Estamos cansados, mas valeu a pena!
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 01, 2016 10:14 am

—Nossa! Ficou tão diferente!
Bonito! -— disse Humberto, satisfeito ao contemplar o ambiente.
—Amanhã, após colocar as cortinas novas, aí sim, você vai sentir a diferença! -— ressaltou ela.
— Humberto? -— chamou Neide.
Telefone!
Ele se levantou e foi até a sala pegar o aparelho com sua irmã.
Depois de conversar um pouco, retornou até o quarto avisando:
— O Sérgio está nos chamando para irmos até a casa dele.
O que você acha?
— Primeiro preciso de um banho! -— disse Lívia.
— Então vai logo! -— pediu alegre.
Vou avisar que iremos!
***
Ao saírem para a casa do amigo, frente ao portão, Lívia parou e olhou o horizonte onde o sol se punha com seus raios faiscantes, tremeluzindo de dourado tudo o que atingia.
Seu belo rosto ficou iluminado e Humberto a observou inebriado, sem dizer nada.
Extasiada com a bela visão, ela falou baixinho:
— Veja que lindo!
Ele acompanhou seu olhar e contemplou afirmando no mesmo tom:
— Lindo mesmo!
Por alguns instantes um alívio tocou suas almas, dando-lhes uma sensação de profunda e agradável paz.
A moça sorriu docemente quando os seus olhos se encontraram, e ele falou em tom amável:
— Obrigado por tudo, Lívia.
— Tenho certeza de que você faria o mesmo por mim.
Ele sorriu e, num impulso carinhoso, abraçou-a com força, agasalhando-a em seu peito.
Sentia-se confuso, inseguro e sem saber o que fazer com aquele sentimento nobre, de um amor sem limites.
Apertando-a junto a si, beijou-lhe a cabeça e depois o rosto.
Lívia trazia o coração esperançoso, batendo descompassado.
Erguendo-lhe o rosto, encarou-o firme por algum tempo.
Humberto beijou-lhe novamente a face, acariciou-a com ternura e afastou-se do abraço.
A jovem se sentiu frustrada.
Uma decepção doía-lhe na alma e acreditou ser usada de alguma forma.
Ela não disse mais nada, e ele pediu, sorrindo:
—Vamos?!
—Claro -— aceitou sem empolgação.
Não demorou muito e estavam conversando animadamente na casa de Sérgio, reparando o quanto Laryel havia crescido.
A menininha dormia tranquilamente um sono profundo em seu quarto e, aproveitando-se disso, Débora chamou Lívia até a cozinha enquanto Sérgio e Humberto dialogavam na sala.
— E então, Humberto?
Como está?
—Às vezes me sinto melhor, porém sempre tenho uma espécie de recaída.
Acho que a diminuição dos remédios não está me fazendo bem.
Não é a diminuição das doses dos medicamentos.
Acho que você está se reajustando novamente. Isso é normal.
—O medo de ter uma nova crise me deixa apavorado.
Aliás, eu tenho um medo que, apesar de saber que é insano, excessivo e irracional, não consigo controlar.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 01, 2016 10:14 am

Meu pavor é de que isso me aconteça no serviço, em alguma reunião, com executivos, com quem possamos fechar alguma negociação... Entende?
—À medida que você for resolvendo determinadas situações pendentes em sua vida, isso vai passar.
— Será?!
—Sem dúvida!
Eu pude perceber que as suas crises ou o seu mal-estar, as sensações horríveis que descreve, acontecem sempre ligadas a algum evento e situações específicas.
—É bem provável, pois, de uma forma ou de outra, eu acabo pensando no meu irmão, me sinto mal ao lembrar o que desejei fazer com ele, ao imaginar o que ele sofreu e...
Fico acreditando que vou experimentar o mesmo de alguma forma.
Não sei se te contei, mas eu estava muito apavorado ao olhar para a parede do meu quarto à noite.
Era como uma alucinação, eu acho...
Temia que a parede se movesse, ficava em pânico esperando algum ruído ou movimento.
Sei que isso não é racional, mas era o que sentia.
Mas, depois que o meu quarto foi pintado, esses sintomas melhoraram muito.
Praticamente sumiram.
Isso me animou bastante, pois, agora, acredito que, assim como o medo de olhar para a parede sumiu, esse pânico que tenho, quando lembro do meu irmão, também vai sumir.
— É por isso que não se resolveu com a Lívia.
—Ela me faz lembrar do Rubens e...
Sinto ciúme dela, mesmo sem motivo e...
Parece que vou enlouquecer em alguns momentos, apesar da melhora que observei.
Breve pausa e comentou: —
Sérgio, preciso te confessar uma coisa.
O outro aguardou paciente e ele revelou, temeroso:
— Eu voltei a tomar a mesma dose dos remédios, pois não me senti muito bem com a diminuição.
—Por quê? -— perguntou com tranquilidade, mas lamentando profundamente em seu íntimo.
—Estou perdendo o controle, Sérgio.
Na próxima sessão, eu vou comentar com o Fabiano.
É que...
— Humberto sentia imensa dificuldade para relatar o que precisava, mas a custo contou:
Eu me sinto mal quando fico olhando muito para a Lívia.
A princípio, percebo que desperta em mim um sentimento muito forte por ela.
Quero que fique comigo, entende?
— Você gosta muito dela.
Acho que isso está claro para você.—
Sim, mas me lembro muito do Rubens.
Teve um dia que saímos; nós nos envolvemos um pouco.
Depois senti um arrependimento horrível.
Passei muito mal por isso e, no dia seguinte, pedi um tempo.
— Ela aceitou?
— Eu disse que não era correto ficarmos juntos.
Depois não conversamos mais a respeito.
Com olhar amedrontado e o coração aos saltos, confessou:
— Tenho experimentado ideias estranhas.
Falei com o doutor Edison a respeito disso...
— Que ideias estranhas?
— Desejo de matar a Lívia... -— falou quase sussurrando e envergonhado.
— Como assim? — perguntou Sérgio, parecendo calmo.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 01, 2016 10:14 am

— Eu a vi conversando com o encarregado dela, o Ademir.
Eu o conheço bem e...
Ele a rodeava de um jeito...
Falava com muita generosidade.
Não sei o que dizia, mas a tocava no cabelo, no rosto e acariciou o seu braço.
Eu a vi se afastando, mas...
Senti minha cabeça esquentar.
Passei mal.
Depois vieram as ideias de matar os dois, de ela estar me traindo com ele, igual à Irene fez e...
Não parei de pensar nisso.
Quando cheguei à minha sala, pensei que eu fosse enlouquecer.
Se a Lívia tivesse ido, lá, àquela hora, não sei dizer o que eu teria feito.
Não estou suportando os pensamentos, as sensações e por isso faz mais ou menos uma semana que voltei a tomar a mesma dose de remédio de antes.
—Você fez uso de bebida alcoólica?
—Não, Sérgio. De forma alguma!
Você sabe que não bebo!
— E depois? Ficou só nisso?
— Não. Nós voltávamos para casa no meu carro e, em determinado trecho, estava em certa velocidade... quase noventa, talvez...
Eu tive uma vontade, um desejo quase incontrolável de puxar o volante e provocar um acidente.
Mas eu não queria só um acidente simples.
Eu desejava que morrêssemos nós dois.
— Entendo — falou reflexivo e com simplicidade.
— Será que você entende mesmo, Sérgio?! -— perguntou
amargurado, sem ver saída para o que experimentava.
Encarando-o firme, Sérgio invadiu sua alma com olhar sério ao afirmar:
— Eu sei, exactamente, o que você sente.
Eu já te falei isso.
—Já passou por uma situação igual?
—A situação foi diferente.
Mas os sentimentos de colocar um fim em tudo...
Esse foi o mesmo.
Eu sei qual é à força desse desejo, Humberto.
Mas descobri que eu tinha um poder maior para lidar com isso.
—Que poder é esse?
—O poder da fé!
A fé em Deus. Fé em mim.
Fé em acreditar que amanhã será melhor.
Não resolvi tudo da noite para o dia.
Simplesmente fui vivendo, um dia de cada vez.
Resolvi o que podia resolver e o que não podia deixava para Deus que, por fim, colocou ordem na minha vida.
Arrumou situações que eu não poderia.
Com o tempo tudo se resolveu.
—Estou com medo de ficar sozinho com a Lívia.
Fico apavorado de pensar que posso ter novamente aquela vontade.
E eu sou um cara racional, consciente.
Mesmo assim, o desejo de fazer uma loucura dessas é incontrolável.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 01, 2016 10:14 am

—Eu sei. Acredito que esse desejo tenha grande incentivo de obsessores, com certeza.
Os espíritos inferiores, vingativos, podem aproveitar aquele momento em que você tem os pensamentos confusos e incentivá-lo a aumentar a dosagem dos remédios, influenciá-lo a crer que não pode ficar sem medicamentos e depois se aproveitarem do prejuízo que essas drogas trazem para a capacidade de julgamento e o estimular a actos contra a própria vida ou contra alguém.
Só que você tem o controle da situação.
Você é forte o suficiente para lidar com isso.
Veja, eu não digo que tenhamos de lutar contra isso.
O correto é lidar, trabalhar essa sensação, essa vontade.
— Como?
—Conversar a respeito com alguém preparado para ouvi-lo é um meio.
E, também, quando sentir qualquer alteração negativa referente a esse estado, você pensa e diz a você mesmo com convicção:
"já está passando.
Deus me protege e me ampara".
Logo depois saia.
Vá fazer alguma coisa que as sensações, os sentimentos e até mesmo esse desejo horrível vai passar.
Sérgio não comentou, mas ficou com medo de um ataque obsessivo, pois já havia experimentado algo parecido.
Humberto, você está fazendo o culto do Evangelho no Lar?
—Não, eu... -— não soube explicar.
Não faço com a mesma frequência de antes.
—Então comece a fazer.
Não só o culto do Evangelho no Lar com dia e hora marcados.
Leia, nem se for um trecho curto do evangelho, toda noite antes de dormir.
Aproveite o seu quarto novo e o imagine cheio de luz.
Peça as bênçãos de Deus.
Acredite que está protegido e seguro. Ore de coração.
—O doutor Edison me disse isso...
Não sei por que me afastei tanto do Pai.
Eu não era assim.
— Ele está sempre à sua espera. Ore!
—Tenho medo de fazer alguma coisa contra mim ou contra a Lívia.
—Não vai fazer.
Em todo caso, converse com o Fabiano sobre isso durante a psicoterapia.
Volte ao doutor Edison e fale sobre o remédio.
Em minha opinião, você não deveria ter aumentado a dosagem por conta própria. Isso é perigoso.
—É... Acho que errei.
—Errou mesmo.
Siga as recomendações.
—E quanto à Lívia?
Às vezes sinto que está diferente.
E se ela sair com outro cara?
—Veja bem, Humberto, a Lívia está do seu lado o tempo todo.
Apesar de vocês não se envolverem, não terem qualquer compromisso, ela está com você.
Contudo é uma pessoa livre!
Ela tem direito de seguir com a vida, ter amizade, a companhia que quiser e até um envolvimento com outro.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 01, 2016 10:15 am

— Eu não vou aguentar, Sérgio!
— Ela está livre!
Mesmo demonstrando que gosta muito de você, não está envolvida ou compromissada, apenas o está ajudando, e ajudando muito, diga-se de passagem!
Você é quem vai ter de decidir, meu amigo!
Não sabemos por quanto tempo ela vai suportar ficar assim ao seu lado.
Se você gosta dela mesmo...
Humberto estremeceu, um frio e uma sensação angustiante correram-lhe por todo o corpo.
Observando Sérgio seriamente, com seus expressivos olhos verdes, nunca desviando de seu rosto, comentou:
— Não sei o que fazer.
Estou em conflito.
Eu a quero, mas não posso...
— Não quero interferir no que o Fabiano te propôs, mas...
Faça o seguinte:
organize o que precisa fazer.
Coloque uma ordem e resolva uma coisa de cada vez.
Primeiro, é lógico, organize a sua vida espiritual, religiosa.
Isso vai estruturá-lo muito.
Volte a frequentar o centro assiduamente.
Envolva-se, novamente, com suas tarefas dentro da doutrina espírita.
Faça o culto do Evangelho no Lar.
Leia o evangelho toda noite.
Ore diariamente.
Faça os exercícios de relaxamento, sentindo-se envolvido por uma luz azul, mentalizando paz, calma, tranquilidade, saúde e tudo o que for bom.
Com isso você vai se ligar ao Pai.
Ele vai te ajudar.
Peça sabedoria, harmonia, organização das ideias e acredite que isso está acontecendo.
Nunca diga:
Deus, estou confuso e quero organizar as minhas ideias.
Não, nunca!
Diga: os meus pensamentos são organizados.
Tenho paz, harmonia, amor, saúde, etc... Entendeu?
Nunca pense ou imagine algo negativo para pedir algo positivo.
—E quando eu começar a pensar que está acontecendo algo comigo?
Que estou doente ou que vou morrer?
—Peça: Pai, dê-me forças!
Eu sei que tenho saúde!
Mas, se for preciso ficar doente ou morrer, eu quero fazer isso com dignidade, com Suas bênçãos, repleto de paz e amor.
Em seguida, mentalize saúde, alegria.
Sinta-se alegre e a alegria virá.
Humberto sentiu-se desarmado de suposições negativas e queixas.
Sabia que tinha muito a fazer e, se quisesse melhorar, tudo dependeria somente dele.
Apesar de sua elevação espiritual, do conhecimento adquirido, os fluidos inferiores com que o envolveram o deixavam sem lembranças e forças de como se socorrer.
Mas os amigos que Deus lhe confiou, ajudavam-no muito.
Porém tudo deveria proceder dele.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 01, 2016 10:15 am

20 - O REENCONTRO COM IRENE

O tempo foi passando.
Munido de força de vontade, pois desejava se recuperar, Humberto se superava vencendo tudo o que o abalava para realizar suas propostas a fim de melhorar.
A semana iniciou com novidade.
Lívia retomaria as aulas e não poderia voltar para casa junto com ele.
Isso até o ajudou a se organizar melhor.
Ao sair do serviço, agendou para cada dia uma actividade.
Um dia iria ao centro espírita para um tratamento de assistência espiritual.
No outro, a psicoterapia.
Depois, novamente, ao centro espírita para receber passes e acompanhar um curso que, apesar de já tê-lo realizado, sentiu-se atraído em refazê-lo, não só para se reciclar, mas também para se ligar e se reintegrar mais à doutrina espírita.
Nos demais dias, iria para a academia de ginástica, para natação ou para casa.
Decidiu que seria persistente.
Retornou a fazer o culto do Evangelho no Lar e a orar, fervorosamente, como antes era de costume.
Com o passar dos dias, no serviço, percebia-se mais disposto.
Ninguém diria que ainda sentia-se um pouco estremecido psicologicamente.
As ocasiões em que se deprimia, a ponto de chorar, eram cada vez mais raras.
Porém elas ocorriam e, quando isso acontecia, ele acreditava, no momento, que toda aquela sensação angustiosa não iria mais passar e nunca mais seria o mesmo.
No entanto, era envolvido por amigos espirituais e, com o tempo, percebeu que o mal-estar passava e sentia-se mais seguro.
Tudo ia bem até que, certo dia, viu Lívia sorrindo animadamente na companhia de Ademir, enquanto tomavam café na lanchonete da empresa.
Influenciado por espíritos inferiores, Humberto começou a dar atenção aos pensamentos que o invadiam e passou a entender que havia uma troca de olhares bastante comprometedora entre os dois.
Fazia tempo que não ouvia aquele riso gostoso e cristalino de Lívia, que gesticulava graciosamente ao contar alguma coisa.
Por que ela não agia assim quando estava com ele?
O coração de Humberto acelerou as batidas à medida que ele embebia os seus pensamentos com venenosas ideias influenciadas por espíritos inferiores.
O ciúme parecia dominá-lo de forma doentia.
Aproximando-se deles, simulou um sorriso com o canto da boca ao perguntar:
— Tudo bem?
— Olá, Humberto! Tudo bem? -— perguntou Ademir, sorridente.
— Estão animados, hoje! -— comentou Humberto com algo estranho no semblante.
Lívia percebeu alguma coisa diferente em seu jeito e não ousou responder nada, ficando mais recatada.
Mas Ademir, contou:
— Estávamos falando das perguntas muito cretinas que ouvimos na sala de aula! -— riu.
É cada uma!
Olhando para ela, Humberto contemplou-a por alguns segundos.
Fixou-se em seus olhos castanhos e expressivos.
Sorriu de modo enigmático. Virou-se para Ademir, estapeou-lhe as costas com suavidade e pediu:
— Continuem. Não quero atrapalhar.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 01, 2016 10:15 am

Ao vê-lo a certa distância, Ademir perguntou:
— O que deu nele?!
Está tão esquisito!
Lívia não disse nada, mas ficou muito preocupada.
Algo a perturbou.
***
Mais tarde, na sala de Humberto, Lívia o procurou perguntando:
—Tudo bem com você?
—Tudo -— respondeu secamente.
— É que você me olhou de um modo estranho quando eu estava conversando com o Ademir.
— Estranho?! -— perguntou com expectativa.
— É... Você chegou e olhou estranho.
Não disse nada com nada e foi embora.
Humberto levantou.
Sentia os pensamentos confusos.
Respirou fundo, foi a direcção da janela e olhou para fora imaginando que aquela seria uma altura ideal para se jogar com Lívia.
Estavam no décimo andar.
Seria uma queda considerável.
Ela se aproximou, tocou-lhe o ombro com carinho e perguntou com brandura:
— Tudo bem?
Os espíritos inferiores que o acompanhavam, tinham conhecimento do histórico da outra encarnação de ambos e usavam ideias que mexiam com os sentimentos dele, dizendo que Lívia, se não o traía de facto, traía-o em pensamento.
Provocando como que uma confusão dos factos, Humberto se lembrava de Rubens e Irene, imaginando Lívia e Ademir, ou então lhe diziam que ela só estava com ele por ser parecido com o seu irmão.
— Humberto! Tudo bem?! -— a moça insistiu.
Ele se virou.
Encarou-a firme e a segurou com leveza pelos braços, quase os acariciando, sem dizer nada, sem qualquer expressão.
Pensava em como abrir aquelas janelas, uma verdadeira parede de vidro, hermeticamente fechada por causa do ar condicionado.
Conseguiria abri-las, jogá-la e se atirar?
Lívia sorriu.
Trazia os olhos brilhantes, cheios de vida e esperança sem saber o que estava acontecendo.
Nesse instante, Júlia abriu a porta abruptamente e, reconhecendo sua falha, falou ao vê-los:
— Desculpe-me. Volto depois.
Saindo imediatamente, ela fechou a porta.
Foi o suficiente para Humberto retornar à realidade.
— Meu Deus! -— murmurou ele.
Afastando-se de Lívia, esfregou o rosto e alinhou os cabelos com as mãos, sentando-se novamente.
— Você está bem? -— tornou ela com tom generoso e doce na voz.
— Estou. São só aquelas ...recaídas...
Já está passando —sorriu, disfarçando os pensamentos.
— Hoje eu não vou para a faculdade.
Volto com você.
Ainda sob o efeito de forte influência inferior, respondeu sem pensar:
— Não acha melhor pegar uma carona com o Ademir?
—O que está dizendo?! -— ela reagiu.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 01, 2016 10:16 am

— Você me ofende falando assim!
—Desculpe-me -— considerou de imediato.
Levantando-se, foi até ela e tentou acariciar seu ombro, mas a moça se esquivou.
Afastou-se indignada com o que ouviu.
Por favor, Lívia, me desculpe -— pediu verdadeiramente arrependido.
Olhando-a com ternura, falou de modo meigo e constrangido:
—Eu fiquei com ciúme quando vi vocês dois conversando e rindo.
Por favor, me perdoa.
Ciúme?! Ciúme do Ademir?!
Ora, Humberto! Pelo amor de Deus! -— sorriu contrariada.
— É verdade. Fiquei com ciúme sim.
Fiquei com raiva - —confessou envergonhado.
Oferecendo meio sorriso, aproximou-se, afagou-lhe o rosto com carinho e, olhando-a de um modo como se invadisse sua alma, explicou:
— Você sabe o que sinto por você e...
Não gosto de te ver ao lado dele.
Sinto ciúme.
Gosto muito de você, Lívia.
—Eu também —- falou baixinho e sorriu.
—Por favor, desculpe —- disse bem próximo, tocando-lhe o rosto com as costas da mão e com a intenção de beijá-la.
—Claro -— respondeu. Sentiu-se estremecer.
Invadida por uma sensação estranha, não sabia como agir e decidiu:
— Agora tenho que ir.
Podemos conversar mais tarde, não é?
—Lógico -— concordou sorrindo e se afastando para deixá-la passar.
Ela saiu sem dizer nada e Humberto percebeu-se atordoado e desconcertado.
Voltando para a cadeira frente à sua mesa permaneceu pensativo.
Ele amava Lívia. Achava-se atraído por ela.
Por que não envolvê-la em seus braços como sempre quis?
Até quando iria se deixar perturbar por aqueles pensamentos sem sentido, sem razão?
Isso o impedia de ser feliz.
Precisava fazer algo a respeito.
Talvez fosse a sua dúvida que o tornava inseguro e confuso daquele jeito.
De repente começou a se decidir.
Iria ficar com Lívia.
Tinha certeza de que a amava muito.
Venceria os seus medos, a sua insegurança e ficaria com ela.
Resolveria tudo em sua vida, a começar por Irene.
Já havia adiado muito sua situação com ela.
Iria enfrentá-la e talvez se sentisse mais livre para se resolver com Lívia.
Naquele momento o telefone tocou.
Era sua secretária, Júlia, avisando que Irene estava aguardando na linha para falar com ele.
Humberto se surpreendeu.
Não esperava por aquilo.
Porém, decidido a não fugir da situação, atendeu.
—Pronto!
—Humberto?
—Eu.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 01, 2016 10:17 am

—É a Irene.
Ele ficou em silêncio - é ela:
- Sei que ainda deve estar abalado com tudo, mas precisamos conversar.
—O que você quer? -— estremeceu ao perguntar, mas ficou firme.
—Já se passou muito tempo...
Daqui a pouco vou para o hospital e...
Precisamos conversar.
Ele não dizia nada e Irene insistiu com voz melancólica:
— Humberto?! Você está me ouvindo?
Sua mente abalada o deixava confuso.
Mesmo assim, fez-se forte.
Sem que ela percebesse, respirou fundo e perguntou:
—Onde quer me encontrar?
—Pode ser na sua casa e...
—Não! -— firme, decidiu de imediato antes de Irene terminar.
—Gostaria que não fosse em público.
O assunto é delicado. Então...
Poderia ser no nosso apartamento?
Nunca mais fomos lá e...
Tem algumas coisas minhas que eu quero pegar.
—Nosso apartamento, não! -— reagiu rápido.
— Aquele apartamento é meu!
—Desculpe-me. Foi força de expressão —- disse com voz mansa.
Um torpor o dominou.
Sentia o coração batendo forte e descompassado, parecendo sair pela boca.
Mesmo assim, enfrentou a situação.
— Pode ser lá sim. Quando? -— perguntou secamente, sem alterar o tom.
—Hoje? Pode ser hoje?
—Certo. Estarei lá. Até mais.
—Humberto?! -— chamou-o a tempo.
—Fala.
— Ligue para a portaria e peça para me deixarem subir.
Você deu ordens para eu não entrar mais e estão seguindo à risca.
— Farei isso. Tchau.
Antes de Irene se despedir, ele já havia desligado o telefone.
Debruçando em sua mesa, Humberto perguntou em voz alta:
— Deus! O que eu fiz para merecer isso?!
Sem obter respostas, pediu:
-— Pai dê-me forças!
***
Enquanto Humberto falava com Irene ao telefone, Lívia já estava em sua mesa e Ademir se aproximou com seu jeito sempre gentil, muito educado.
—Já terminou aqueles lançamentos? -— perguntou ele.
—Acabei de te passar!
— Obrigado. -— Alguns segundos depois, puxou uma cadeira para próximo da mesa da moça.
Sentou-se e falando baixo, para garantir a privacidade, pois os funcionários ao lado poderiam ouvir, ele disse:
— Está passando uma peça óptima no teatro e eu já adquiri dois ingressos.
Quer ir comigo?
Lívia suspirou fundo.
Reflectiu o quanto os seus sentimentos por Humberto eram verdadeiros.
Acreditou que deveria por um basta em Ademir, que desejava algo além de amizade.
O facto de tratá-lo bem, talvez, deixasse-o com alguma esperança.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 01, 2016 10:17 am

Além do mais, o próprio Humberto revelou sentir-se enciumado por causa dele.
Pensou em seu afecto por Humberto.
Ela o amava e era com ele que gostaria de ficar, por isso deveria ser fiel, não só a ele, mas fiel à própria consciência.
Educada, respondeu com voz pausada e tom ameno:
—- Ademir, obrigada. Mas não vou.
—Por quê? Tem algum compromisso?
—Não.
—Lívia, você está muito fechada!
Não sai, não tem amigos...
—Isso não está me fazendo falta.
Agradeço o seu convite, mas eu não quero sair com você.
—Não tenho nada com isso, mas vai só servir de companhia para o Humberto?
Pelo que sei, vocês não têm nada, nem teria cabimento, pois...
—Olha aqui, Ademir!
Isso diz respeito somente a mim!
É a minha vida!
Eu gostaria muito que você se limitasse a conversar comigo sobre assuntos, estritamente, de serviço!
Pode ser? -— falou firme e alto.
— Você está de caso com o Humberto?!
— Quer ir até a sala dele e perguntar?!
Podemos fazer isso agora! -— disse firme, ficando em pé ao encará-lo.
O rapaz levantou-se e olhou-a de cima a baixo, mas não disse mais nada.
Virou e se foi.
Observando à sua volta, Lívia viu os outros colegas surpresos, olhando-a, pois havia falado alto o suficiente para que eles escutassem.
Envergonhada pela cena, sentou-se novamente, puxou a cadeira para mais perto da mesa e voltou a trabalhar.
***
O expediente havia terminado.
Júlia recolhia alguns documentos assinados por Humberto quando um gerente saía da sala dele, e Lívia chegou com jeito desconfiado.
Havia decidido não contar a Humberto sobre Ademir.
Não queria deixá-lo com mais uma preocupação.
Esperaria e, se o rapaz não falasse mais nada, aquele assunto seria esquecido.
— Já vai embora? -— perguntou Lívia após entrar, pois a porta estava aberta.
— Vou -— respondeu Humberto bem sério.
Júlia foi saindo sem dizer nada.
Dando as costas ao chefe e, de frente para Lívia, ela gesticulou com a boca, envergando-a para baixo e chamando a atenção da outra para a sisudez de Humberto.
— Tudo bem? -— indagou, a se ver a sós com ele.
— Está tudo bem, Lívia.
Dentro dos meus pobres limites humanos, está tudo bem.
Não como eu desejaria, mas... - falou com expressão enfadada, tentando não ser mal-educado.
Olha... Eu gostaria de pedir uma coisa...
Não me leve a mal, mas...
Por favor, não pergunte mais, com tanta frequência, se eu estou bem.
Às vezes estou, porém um segundo depois, começo sentir alguma coisa, um tremor, uma apreensão...
Ou ao contrário. Essa pergunta me incomoda um pouco.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 01, 2016 10:17 am

— Tudo bem. Desculpe-me -— falou constrangida.
Depois perguntou:
— Posso ir embora com você?
Ele a encarou por algum tempo, ofereceu um largo sorriso e respondeu gentil:
— Pode. Claro que pode.
Mas fechando o sorriso, avisou:
— Só que eu não vou directo para casa. Tudo bem?
—Tudo —- sorriu. -— Aonde vai?
—Você vai ver.
***
Durante o trajecto, Lívia percebeu que Humberto se dirigia para o seu apartamento, mas não disse nada.
Certamente, aquele lugar não lhe trazia boas recordações e, se precisava ir até lá, não queria estar sozinho.
Em silêncio, ele estacionou o carro na garagem do luxuoso edifício e subiram de elevador até o décimo quinto andar.
Experimentando uma amargura nas lembranças que violentavam seus pensamentos, revivendo a experiência torturante, ele pegou as chaves, abriu a porta e, acendendo as luzes, pediu simplesmente:
— Entra. -— Depois de alguns segundos, solicitou:
— Desligue o celular.
Vou desligar o meu.
Não quero que alguém nos incomode.
Lívia obedeceu, mas começou a se sentir insegura.
Por que aquilo?
O que Humberto faria ali?
Por que não quereria ser incomodado?
Não tendo respostas para essas perguntas, começou a observar.
O lugar estava intacto.
Exactamente como o viram da última vez.
Ela, bem nervosa, com o coração aos saltos, conteve as emoções e sem dizer nada foi para a grande sala de estar, atrás dele.
Sem dizer uma só palavra, Humberto agia estranhamente.
Jogou as chaves em cima da mesa provocando grande barulho.
Passou as vistas em volta e foi para os quartos examinando, um por um, até chegar à suíte principal.
Lívia não o seguiu.
Sentia um medo inexplicável.
Sentando-se no sofá, ficou aguardando-o.
Na suíte, ele olhou a cama ainda desarrumada, com travesseiros jogados e lençóis revirados, suas lembranças passaram a ser vivas, como se estivesse vendo Irene e Rubens novamente.
Humberto sentiu que perdeu as forças, uma sensação de desmaio o dominava enquanto tremia e suava frio.
Seu peito apertava forte como nunca.
Segurando-se na parede, levou a mão no coração e deu um gemido lento, curvando-se.
Atenta, Lívia ouviu e correu em seu socorro.
— Humberto! O que foi?!
Sem dizer nada, ele retornou para a sala ao seu lado e se sentou à mesa da sala de jantar.
O rosto pálido e gelado exibia seu estado abalado, mas ele não dizia nada.
Lívia não sabia o que fazer e propôs:
— Vamos embora, Humberto.
Você não está bem e eu estou preocupada.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 01, 2016 10:17 am

Nesse instante a campainha tocou e o rapaz avisou parecendo calmo:
—Abra a porta para mim, por favor. É a Irene.
—A Irene?!! -— assombrou-se ela.
Você ficou louco?!! A Irene, aqui?!!
—Abra a porta, Lívia, por favor -— pediu novamente, num tom fraco e estranho.
Mesmo sentindo as pernas enfraquecerem, ela foi até a porta de entrada social e a abriu para a surpresa da outra, que se assustou:
—Lívia?! Você aqui?!
—Boa noite, Irene -— cumprimentou cinicamente, disfarçando o seu nervosismo.
— É... Boa noite! -— retribuiu embaraçada ao entrar.
Enquanto Lívia fechava a porta, Irene caminhou pelo pequeno hall e corredor chegando até a sala de jantar onde Humberto a esperava.
O rapaz a olhava de um modo colérico.
Dardos de rancor faiscavam através de seus lindos olhos verdes.
Procurando manter sua classe, Irene o cumprimentou:
— Boa noite, Humberto.
Ele não respondeu e somente a olhou de cima a baixo.
Elegante, Irene estava com a barriga bem avolumada para o seu corpo magro e alto.
Muito bela e imponente, não perdeu a pose nem a arrogância.
Sem pedir licença, puxou uma cadeira e se sentou frente a ele colocando a bolsa que segurava no extremo da grande mesa.
Lívia chegou. Olhou-os embaraçada, não sabendo o que fazer.
Enquanto pensava, Irene pediu sem rodeios:
—Eu gostaria de conversar com você a sós, Humberto.
—Vou até o carro pegar...
—Você fica, Lívia! -— exigiu ele, sem deixá-la terminar.
Não tenho nada a esconder de você.
Não tenho muito que conversar com ela.
Seremos breves e o assunto, talvez, a interesse também.
Uma nuvem de dor e revolta pesava no rosto de Humberto, endurecendo-o à medida que permanecia sentado, imóvel.
Apesar de parecer firme, Lívia ficou constrangida, mas num impulso resolveu:
— Estarei ali na sacada.
Indo à direcção às largas portas de vidro, que davam para a sacada, abriu-as sentindo o frio cortante e agressivo da noite bater em seu rosto, esvoaçando seus cabelos.
Fechando a por atrás de si, percebeu que o vento minimizou.
Ela poderia vê los e ser vista, mas nada ouvia.
Sentindo-se mais à vontade, Irene retorceu as mãos ao falar:
—Humberto, eu também sofri muito e ainda sofro com tudo o que aconteceu e...
—Poupe-me disso, Irene! -— disse firme.
Vamos directo ao que interessa.
O que você quer de mim?!
— Quero que seja mais humano.
Ouça-me, por favor!
— Depois do que eu presenciei aqui, neste apartamento, você exige que eu seja mais humano?!
Ora! Por favor!
Sou eu quem precisa saber só de uma coisa!
— O quê?
—Você sabe dizer ou não se esse filho é meu ou do meu irmão?
—Humberto! O Rubens me enganou, me envolveu, me seduziu!
Nós viemos aqui para verificar a instalação do ar condicionado que estava com defeito e o técnico tinha...
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 01, 2016 10:17 am

—Pare com isso!!! -— exigiu num grito, levantando-se enfurecido.
Irene foi para perto dele e, em pranto, tornou a dizer:
— Naquela noite, ele me envolveu, me seduziu...
Eu amo você! -— disse, abraçando-o pelas costas.
Abruptamente, Humberto esquivou-se do abraço.
Afastou-se e voltou para junto da mesa espalmando as mãos sobre ela para se sustentar, pois se sentia muito mal.
—Acredite em mim!!! -— pedia em pranto.
O seu irmão se aproveitou da minha sensibilidade.
Por estarmos sozinhos, ele...
—Cale a boca!!! Se ele foi um cafajeste, você foi pior!!!
Foi uma safada!!! Baixa!!!
Eu bem que notei você agindo diferente!
Tinha reparado algo estranho entre os dois!...
Havia muito contacto entre vocês.
Depois, aquele dia quando fui te encontrar na loja sem que me esperasse e vi os dois chegando de braços dados... rindo...
Senti algo muito estranho no ar!
Eu deveria ter terminado tudo, definitivamente, mas não!!!
Fui um idiota e me deixei enganar!!!
E vocês?!!! Ah!!!
Vocês dois devem ter se divertido às minhas custas!!!
Agora não venha me dizer que a culpa foi dele!!!
Humberto sentia-se fora de si.
Seus nervos estavam extremamente abalados.
Trémulo, experimentava os lábios dormentes e as mãos formigando.
Da sacada Lívia começou a ouvir os seus gritos e olho para trás algumas vezes, mas tornava a fitar as milhares de luzes da cidade para se distrair e não ir até a sala se envolver.
Acreditou que os dois tinham muito para conversar.
Ela também estava muito nervosa.
Sofria com o que acontecia.
Acreditava que Humberto não merecia viver tudo aquilo.
Uma aflição passou a tomar conta de seu ser, mas não poderia se envolver.
Sem que ela esperasse, repentinamente a porta de vidro da sacada foi aberta com violência.
Quando Lívia se virou viu Humberto agarrando Irene pelo pescoço com uma da mãos e com a outra a empurrava pelo braço em direcção ao guarda-corpo.
— Humberto!!! Pelo amor de Deus!!!
Lívia gritou em desespero, correndo em sua direcção e puxando-o pelo braço, praticamente, pendurou-se nele.
A luta durou alguns minutos.
Irene tentava se livrar e na primeira oportunidade, gritou:
— Você vai matar o seu filho!!!
Foi quando ele parou, mas ainda segurava seu pescoço, olhando-a de um modo muito estranho.
Lívia tirou as mãos de Humberto que quase esganavam Irene, e a puxou para o lado.
Levando-a para a sala, viu-a em lágrimas e esperou que se recompusesse um pouco.
— Você está bem? -— perguntou Lívia, preocupada.
Ainda tossindo, e com a mão na garganta, Irene respondeu:
Ele me paga! Maldito!
— Irene, se você está bem, por favor, vá embora.
Será melhor para todos nós.
O Humberto não me parece bem.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 01, 2016 10:18 am

Assustada e em choque, Irene não disse nada.
Pegou sua bolsa e se foi.
Lívia voltou para a sacada onde Humberto trazia as mãos segurando o corrimão do guarda-corpo e o olhar perdido ao longe.
Pegando em seu braço, ela pediu com brandura:
— Venha. Vamos entrar.
Lentamente, ele a olhou firme e sério.
Sem qualquer expressão.
Seu semblante não era o mesmo.
Lívia não o reconhecia, e um medo apavorante percorreu-lhe o corpo em forma de arrepio e de mau presságio.
Enérgica, ela exigiu:
— Humberto, entre agora!
—Eu deveria ter matado aquela desgraçada -— falou, impostando na voz grave um tom cruel.
Deveria tê-la jogado daqui de cima.
—Pare com isso!!! -— Lívia gritou, chamando-o à realidade.
Quer me deixar louca?!!
Pense em Deus!!! Pense em você!!!
No que vai querer para o seu futuro!!!
Subitamente, ele pareceu acordar.
Apreensivo, experimentou uma sensação estranha e indefinida que lhe roubou as forças.
Olhando para Lívia, viu-a em lágrimas.
Ela havia se afastado.
Estava longe dele e perto da porta, aparentando ter medo de algo que ele pudesse fazer.
Uma aflição, com misto de angústia, dominou-o e a moça, percebendo o seu estado, agora frágil, aproximou-se e puxou-o pelo braço para que entrasse.
Na sala, Humberto não chegou até o sofá.
Deixou-se cair de joelhos sobre o tapete grosso e macio, sentando-se em seguida.
Ainda apreensiva, Lívia ficou ao seu lado.
Abraçou-o e chorou também, mas se refez logo.
Levantando-se, ela foi até a cozinha onde começou a orar pedindo protecção, luz e paz.
Nesse momento, amigos espirituais os envolveram com bênçãos sublimes, neutralizando a acção de espíritos inferiores e afastando-os.
Uma grande dor tomou conta dos sentimentos do rapaz, que demorou muito para se recompor.
Sentado no chão, com o corpo largado e recostado no sofá, olhava para o tecto, quando Lívia se aproximou trazendo um copo com água e oferecendo-o, com jeitinho:
— Toma. Vai te fazer bem.
Ele pegou o copo de suas mãos e bebeu lentamente, gole a gole, ao mesmo tempo que desabafava com a voz amena:
— Eu ia fazer uma loucura.
—Mas não fez -— falou com calma, sentindo-se anestesiada.
—Ela está grávida e eu não respeitei o seu estado -— comentou arrependido.
—Eu acho que ela está bem. Foi só um susto.
Amanhã vou procurá-la para saber como está.
Respirando fundo, ele se sentou direito, curvou-se e colocou o copo sobre a mesinha central.
Encarando a moça ao seu lado, pegou-lhe a mão, colocou entre as suas e pediu sentido:
—Desculpe-me, por favor. Você ficou nervosa.
—Já passou — falou com voz meiga ao encará-lo.
Agora estou bem -— sorriu com bondade.
Ela, mais séria, fugiu-lhe do olhar, enquanto ele fitou-a por longos minutos.
Aproximando-se, afagou-lhe o rosto com ternura, envolvendo-a com um abraço.
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