CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 02, 2016 10:56 am

Não demorou e a ajeitou em seus braços, segurando-a como quem embala uma criança ao oferecer protecção e carinho.
Longos minutos se passaram e o silêncio absoluto deixou cada um entregue aos seus próprios pensamentos.
Humberto a contemplava quando foi invadido por confortante sensação de paz.
De repente, deu-se conta de que aquele era o momento tão esperado por ele.
Estavam sozinhos.
Lívia ali, aninhada em seus braços, serena, com olhos fechados e a face recostada em seu peito.
Podia sentir sua respiração fraca e compassada.
Carinhoso tocou suavemente com a ponta dos dedos em seu rosto, contornando-o com ternura.
Como Lívia era bonita!
Seus olhos castanhos fortes e bem expressivos.
Sobrancelhas bem delineadas e marcantes na pele alva e macia.
Seus lábios carnudos de lindos contornos pareciam com os de uma pintura, projectados para serem atraentemente belos.
Aquele momento era exactamente tudo o que sempre desejou e sonhou em seus pensamentos mais secretos.
Não havia ninguém com quem precisassem se preocupar.
Afinal, estavam livres de qualquer compromisso.
Não tinham a quem dar satisfação.
Ele sempre a quis daquela forma, somente para si.
Aproximando seu rosto do dela, fechou os olhos roçando sua face delicada com o toque de seus lábios, experimentando, com leves beijos, a suavidade de sua pele.
Enquanto apreciava o seu perfume brando e gostoso, pensava o quanto aquele instante era sublime, gratificante, especial.
Lívia se deixava ficar em seus braços.
Abraçando-o pela cintura, afagava-lhe as costas vez ou outra.
Trazia os pensamentos confusos e longe, carregados de dúvidas sobre ela, Humberto e aquele momento.
Não sabia dizer se o que acontecia estava certo ou não.
Sentindo os seus carinhos, ela se ajeitou tentando se afastar, mas Humberto, cuidadosamente, agasalhou-a nos braços, ajeitando-a para si ao seu lado.
Seus corações batiam fortes e descompassados.
Tirando-lhe os cabelos do rosto, com gestos e carícias subtis, ele lhe fazia constantes e delicados afagos invadindo sua alma com o olhar.
Com um abraço apertado, ela pôde ouvir sua respiração suave quando ele sussurrou:
— Lívia... Eu te amo...
Dizendo isso, beijou-a apaixonadamente, como sempre quis.
***
As nuvens brancas, quase transparentes, desmanchavam-se no céu enquanto as sombras da noite começavam a cair, dando lugar às lindas cores cintilantes a leste onde o amanhecer se iniciava lentamente.
Lívia experimentou um frio cortante na alma quando abriu os olhos e se viu com um lado do rosto apoiado sobre o braço de Humberto, que usava como se fosse travesseiro, ao mesmo tempo que o abraçava pela cintura.
Ele dormia.
Estavam cobertos por um edredom que ele havia pegado, junto com travesseiros, sem que ela visse, e os agasalhou.
Afagando-o enquanto o balançava vagarosamente, chamou-o sussurrando, mas parecendo aflita:
— Humberto, acorda!
Está amanhecendo!
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 02, 2016 10:56 am

Ele despertou sem lembrar de imediato onde estava.
Lívia, rapidamente se levantou do chão da sala e fugindo-lhe do olhar começou a chorar sem que o rapaz percebesse.
Olhando à sua volta, ao se lembrar do que havia acontecido, Humberto sorriu, experimentando um sentimento emocionante, satisfeito.
Com voz rouca, comentou em tom alegre:
— É!... Perdemos a hora!
Observando-a de costas, arrumando-se com gestos rápidos, ele se levantou, foi para junto de Lívia e perguntou carinhoso, abraçando-a pelas costas enquanto a beijava no rosto:
— Tudo bem?
Por não ouvir respostas, com delicadeza virou-a para si e, curvando-se levemente para vê-la melhor, quis saber com generosidade imposta na voz:
— O que foi, Lívia? Você está bem?
Sem encará-lo, ela respondeu com voz macia, tentando esconder as lágrimas:
— Não fui para casa...
Meu pai vai me matar. Está amanhecendo...
Ele já deve ter levantado e viu que não cheguei...
— Calma. Não fique assim -— disse, abraçando-a com ternura, ao lhe afagar as costas, recostando sua cabeça em seu peito.
Se for preciso, eu falo com ele.
— Vai falar o que, Humberto?! -— perguntou com voz fraca e sentida.
Vai dizer que dormimos juntos, aqui, no seu apartamento?!
— Calma -— pediu preocupado.
Vamos encontrar uma saída.
Eu não vou te deixar sozinha nessa situação.
Lívia se afastou do abraço.
Estava nervosa.
Depois de ir ao banheiro e lavar o rosto, retornou para a sala à procura de sua bolsa e pediu:
— Vamos, por favor.
Encarando-a sério, perguntou:
—- Vamos para onde?
Quer ir para a sua casa ou para a minha?
—Eu não sei, Humberto -— murmurou em lágrimas, tremendo de medo e preocupação, pois conhecia bem seu pai.
Ele a abraçou, procurando confortá-la.
Sentia-se culpado.
Em seguida, decidiu:
— Vamos para a minha casa.
Será melhor e teremos um tempo para pensarmos.
***
Ao chegarem, dona Aurora encontrava-se na cozinha e aguardava aflita.
Após guardar o carro na garagem, ele entrou com a mão no ombro de Lívia quando sua mãe perguntou em desespero:
— Filho! Onde vocês estavam?!
Liguei pra vocês dois, mas os celulares estavam desligados!!!
O que aconteceu?!!
— Mãe, espera! -— pediu firme.
Podemos conversar mais tarde e então vou te explicar tudo!
Agora, nós precisamos tomar um banho, tomar café e ir trabalhar.
Pode ser assim?
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 02, 2016 10:56 am

Lívia, sentindo-se extremamente envergonhada, não ousava erguer o olhar nem dizer qualquer coisa.
Preocupada, dona Aurora contou:
— A dona Diva ligou várias vezes, ontem à noite, aqui para casa e hoje cedo.
Quer dizer, de madrugada foi o senhor Juvenal quem telefonou.
Ele estava bastante nervoso.
Humberto sentiu-se arrependido por Lívia.
Sabia que seu pai não era nada compreensivo e iria reagir.
Vendo-a tentar esconder as lágrimas que corriam em seu rosto, ele pediu afagando-lhe os cabelos:
— Lívia, você conhece a casa.
Vá lá dentro, tome um banho e, se for preciso, procure uma roupa no quarto da Neide.
Ela não disse nada e obedeceu.
Vendo-se a sós com o filho, a mãe perguntou firme:
— Humberto! O que aconteceu?!
O que você fez com essa moça?!
Sentando-se à mesa, ele serviu-se de café e contou:
Ontem à noite, a Irene quis que eu a encontrasse lá no apartamento.
A mãe pareceu perder o fôlego.
Puxando uma cadeira, sentou-se à sua frente e aguardou que o filho continuasse, e ele o fez:
— Chamei a Lívia para ir até lá comigo e foi o que me salvou.
— Como assim?!
—Eu não aguentei ouvir a Irene falar certas coisas tentar se defender e...
Entrei em desespero.
Tive uma crise d ódio, raiva e tentei matá-la.
—Humberto!!!
—É verdade, mãe!
Eu tentei jogar a Irene do décimo quinto andar!!!
Foi a Lívia que me impediu.
Depois que a Irene foi embora, eu entrei em pânico.
Tive uma crise muito forte e...
A Lívia ficou muito nervosa também.
Chorou por causa da briga e...
Acabamos por lá e pegamos no sono.
—E por que ela está assim?!
—Preocupada com o pai, lógico!
Ele é muito ignorante! A senhora sabe!
—O que vocês vão dizer?
—Ainda não sei. Eu diria a verdade.
Esperaria o senhor Juvenal mandá-la embora de casa e a traria para morar aqui.
—Filho, isso não está certo! Pense bem!
—Então o que devo fazer, mãe?! -— indagou nervoso.
—Leve-me para casa, agora! -— pediu Lívia que retornou à cozinha.
—Você não... -— ele tentou perguntar, mas foi interrompido.
—Por favor, Humberto. Leve-me para casa -— repetiu, trazendo na voz uma grande amargura.
—Tem certeza?
—Sim. Tenho. Preciso resolver isso o quanto antes -— decidiu mesmo sob o efeito de grande medo.
—O seu pai não está lá agora.
Deve ter ido para a feira —- tornou ele.
_ Se eu o conheço, ele está me esperando.
Caso não esteja, falo com minha mãe.
- Deixe-me tomar um banho. Conforme for, de lá vou trabalhar.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 02, 2016 10:56 am

21 - A INSEGURANÇA DE LÍVIA

O caminho para a casa de Lívia parecia mais longo.
Enquanto dirigia, Humberto, vez e outra, afagava-lhe os cabelos e o rosto.
Ao estacionar seu carro frente à casa, ele desceu e contornou o veículo ao passo que ela já estava na calçada, frente ao portão.
Eu vou entrar sozinha, Humberto. Você pode ir.
— De jeito nenhum! -— reagiu decidido.
Foi por minha causa que não dormiu em casa.
Estou nessa com você, Lívia!
O que você pensa que eu sou?!
Eles se olharam firme por alguns minutos e não disseram nada.
Ambos achavam-se nervosos e com o coração aos saltos.
Ao entrar, a moça chamou por sua mãe, mas foi a imagem robusta e grosseira de seu pai que surgiu na sala, exigindo:
—Onde é que você estava até agora?!!! -— berrou o homem.
—Ela estava comigo! -— avisou Humberto, sem trégua, enfrentando-o e sem dar chance de Lívia responder.
—E quem você pensa que é, para vir na minha casa dizer isso, assim, na minha cara?!!! -— gritou inconformado.
—Se o senhor quiser ouvir, nós podemos conversar como pessoas civilizadas, ou então...
—Ou então, o quê?!!!
—Ou então eu vou embora e a levo junto!
Não vou me desgastar com gente ignorante!
—Humberto! Por favor! -— pediu Lívia em desespero, colocando-se a sua frente.
Vá embora, eu me entendo com ele!
Violento, o senhor Juvenal agarrou a filha pelo braço e a puxou, batendo-lhe no rosto com força.
Humberto interferiu, iniciando uma briga.
Dona Diva chegou e logo se pôs no meio.
Foi quando o rapaz conseguiu puxar Lívia e levá-la para fora.
— Não, por favor... -— ela implorava chorando, enquanto chegavam ao portão.
Segurando-a pelos braços, olhando-a firme nos olhos, ele perguntou:
— Quer ficar?! Quer que ele te mate?!
Quer que eu continue brigando para te defender?!
Sim! Porque eu não vou te deixar sozinha!
Vendo-a chorar, abraçou-a com carinho e piedade, falando em tom generoso:
— Eu não sei o que fazer. Desculpe...
Por favor, venha comigo. Fique comigo Lívia.
Ela o abraçou com força e aceitou ser levada para o carro.
Retornando para sua casa, ele contou à sua mãe o que havia acontecido e recomendou:
— Por favor, mãe, toma conta da Lívia.
Ela vai ficar aqui. Eu preciso ir trabalhar.
Tenho uma reunião importante hoje.
Se puder, venho cedo e conversamos.
Se aquele homem vier aqui, não o deixe entrar! Certo, mãe?!
— Vai tranquilo, Humberto. Eu cuido dela.
Lívia entrou em desespero e chorou muito.
No quarto de Neide, ficou deitada o dia inteiro.
Não quis comer nem conversar.
O que piorava seu estado era o espírito Rubens, que se revoltava com a situação, xingava-a e a ofendia, passando-lhe vibrações inferiores e depressivas.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 02, 2016 10:56 am

Abalada, Lívia chorava aos ataques de Rubens, que não lhe oferecia trégua.
O que ele fazia, provocava-lhe pensamentos perturbados e confusos, e ela arrependia-se tudo.
Bem mais tarde, diante da demora do filho que não chegava do serviço, dona Aurora se sentou na cama ao lado da jovem e ofereceu-lhe uma caneca de chá, pedindo:
— Senta direito, meu bem.
Toma um pouquinho desse chá.
É de erva-cidreira.
Ela obedeceu, ajeitou-se na cama e agradeceu:
— Obrigada e... desculpe-me por tudo.
—Ora, o que é isso?!
Somos nós que pedimos desculpa por ter te colocado nessa situação.
—Eu estou assustada, dona Aurora...
Estou com tanto medo... —
lágrimas, que não conseguiu deter, correram por sua face pálida.
A senhora puxou-a com carinho, recostando sua cabeça em seu peito, afagou-a maternalmente, dizendo:
— Tudo isso vai passar, menina.
Não fique assim.
— Estou me sentindo tão mal, tão insegura...
Após breve pausa, a senhora perguntou:
—Lívia, me diz uma coisa, filha:
a Irene chegou a dizer se o nené que ela espera é do Humberto?
—Disse sim.
Afastando-se, ela sentou direito e contou:
— O Humberto perdeu o controle.
Segurou-a pelo pescoço e quase a enforcou ao mesmo tempo que queria jogá-la lá de cima.
Foi quando a Irene gritou que ele iria matar o filho dele.
Nesse momento, ele parou e eu consegui tirá-la da sacada.
—Meu Deus! Será que ela está bem?!
—Eu iria procurá-la, hoje, mas... Amanhã eu vou.
—Diz mais uma coisa, se você quiser, claro... -— falou a senhora com jeitinho, acariciando-a ao tirar-lhe os cabelos do rosto.
— Você e o Humberto estão namorando?
Lívia ergueu o olhar triste, novamente empoçado em lágrimas, e respondeu com voz chorosa:
— Eu não sei...
Puxando-a outra vez para si, dona Aurora pediu com carinho:
— Tudo bem! Tudo bem!
Não fique assim.
Vocês dois vão se entender.
Tenho certeza.
Um barulho na sala denunciou a presença de Humberto, que as procurava.
Dona Aurora se levantou e foi ao seu encontro.
Breve conversa com sua mãe e ele entrou no quarto da irmã.
Perto de Lívia, afagou-lhe o rosto, beijou rapidamente seus lábios e sentou-se ao seu lado, perguntando:
—Como você está?
—Péssima... -— falou sentida ao olhá-lo de um modo indefinido, temeroso.
Ele passou o braço sobre os seus ombros e a puxou para junto de si ao dizer:
— Não fique assim. Tudo vai dar certo.
—Você demorou tanto —- falou com voz fraca.
Fiquei com medo que fosse até minha casa falar com meu pai.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 02, 2016 10:57 am

—Não. Acho melhor ele se acalmar primeiro.
Eu fui até a clínica.
Depois de tudo o que aconteceu, precisava conversar com o Fabiano.
O que eu senti ontem não pode mais acontecer.
Se eu tivesse feito aquilo...
Já estaria arrependido.
Não quero assustá-la como fiz ontem e não quero que tenha medo de mim.
Eu vi medo nos seus olhos quando se afastou de mim lá na sacada e...
—Falou com ele?
Contou que quis jogar a Irene do décimo quinto andar?
— Contei tudo.
Inclusive sobre você.
Ela se afastou um pouco, olhou-o por algum tempo e indagou:
-— Sobre mim?! E aí?
—- Cheguei à conclusão de que preciso assumir meus sentimentos.
Apesar dos altos e baixos, das crises, que eu chamo de recaída, eu preciso continuar vivendo e vivendo bem.
Para isso acontecer, eu preciso de você ao meu lado.
—Mas... Quando olha para mim, lembra do seu irmão.
Como vai vencer isso?
—O Fabiano é espírita e me fez lembrar uma coisa muito importante.
Algo que vou pôr em prática.
Não se preocupe. Deixa comigo.
Curiosa, ela perguntou:
— É sobre a Irene?
Já sabe o que vai fazer?
—Não. Vou fazer uma coisa com o Rubens.
Deixa comigo. Mas, ao que se refere à Irene, bem...
Ela falou de uma forma que deixou entendido que nunca teve nada com o Rubens antes e depois afirmou que o filho era meu.
Estou contrariado, lógico.
Não era isso o que eu queria.
Em todo caso...
Vou assumir a criança. Só a criança.
— Alguns segundos, acariciou-lhe o rosto, sorriu e comentou: —
Agora, estou preocupado é com você!
—Vou ficar bem.
—Amanhã cedo nós iremos até sua casa para pegar as suas roupas, suas coisas...
—Estou com medo, Humberto.
Nunca me senti assim. Estou preocupada...
Eu... -— deteve as palavras encarando-o de um modo estranho, apreensivo, como se quisesse falar algo que não conseguia.
—Não quer ir à sua casa?
—Na verdade, eu não quero -— disse ela em tom triste.
—Então faça o seguinte:
amanhã não vá trabalhar.
Saia e compre algumas roupas...
O que sirva até ir buscar as suas na sua casa.
—Quero ver a Irene, saber como ela está.
Humberto não disse nada e Lívia lembrou:
— Ela está grávida, deve ter se assustado.
Pode ter ido à polícia.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 02, 2016 10:57 am

—Faça como quiser, mas eu não quero vê-la nem falar com ela por um bom tempo.
Eu preciso desse tempo.
Vou pôr em ordem muitas coisas na minha vida, mas não me sinto preparado para lidar com ela ainda.
Outra coisa:
se você falar com ela, avise que vou vender aquele apartamento.
Semana que vem terá permissão para subir e tirar o que quiser.
Depois disso, o apartamento estará à venda.
—Ela não tem direito a nada sobre a venda?
—Não. -— Sentindo-se esgotado, com o tremor de sempre lhe abalando e uma dor forte no peito, pediu com jeito amável:
— Por favor, eu não queria mais falar sobre isso.
Vou tomar um banho, depois vamos comer alguma coisa, tá? -— sorriu amável.
—Tudo bem -— concordou, forçando um sorriso.
Ele a beijou nos lábios, fez-lhe um afago e sorriu com ternura ao sair do quarto.
***
No dia imediato, Lívia foi ao shopping comprar algumas roupas e decidiu ir até a loja de Irene para saber como estava.
Recebida por Cleide, sócia e amiga da outra, Lívia ficou sabendo:
— A Irene não chegou ainda.
Ela quase não está vindo à loja.
—Você sabe se ela está bem?
—Foi você quem a separou do Humberto, ontem no meio de briga, não foi?
—É... Eles discutiram -— dissimulou.
—Ela me ligou, disse que ficou apavorada! -— contou Cleide.
Mas passa bem.
A Irene não se abala por muito tempo.
Isso até me assusta.
—O Humberto está muito perturbado ainda.
Depois do que ela aprontou...
—Coitado... Eu sempre fui contra o que a Irene fazia com vocês dois.
Ela e o Rubens não tinham consciência.
—Então o caso dos dois era antigo mesmo? -— perguntou Lívia, propositadamente, para ter certeza.
—Começou assim que você e o Rubens iniciaram o namoro!
Esperta, Lívia ficou atenta e fez outra pergunta astuciosa:
—Por isso é que ela nem sabe de quem é o filho, não é?
— Preste atenção!
A criança está para nascer por esses dias e...
Faça as contas! Quando ela engravidou, o Humberto estava viajando a serviço!
—Ela está completando nove meses?
—Claro! Daqui a duas semanas!
Eu sei que nem parece.
Ela não engordou nada!
Cuidou-se muito!
Olha, Lívia, eu estou falando isso porque nunca achei certo o Humberto passar pelo que está passando.
Eu soube que ele entrou em depressão. Ficou mal...
E eu não me senti bem com essa história.
O irmão dele foi um safado!
Eu detestava o Rubens!
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 02, 2016 10:57 am

Alguns segundos e perguntou:
— Por sorte você estava lá e não deixou o Humberto fazer nenhuma besteira.
Ele iria acabar com a vida dele. Mas...
O que você estava fazendo lá com ele? Vocês estão namorando?
—Aquele apartamento lhe traz uma revolta imensa.
Ele não queria ficar sozinho lá com ela e me pediu para acompanhá-lo.
—Ah, bom! Pensei que vocês dois estavam juntos, entende?
Lívia sorriu e não disse nada, pedindo:
— Diga que eu estive aqui e preciso conversar com ela.
E sobre o apartamento.
O Humberto quer vendê-lo.
Peça para ela me ligar.
— Pode deixar.
Após falar o que precisava, Lívia se despediu e se foi.
** *
Ao chegar a casa, encontrou Neide em seu quarto e, depois de mostrar o que havia comprado, contou sobre a possibilidade de o filho ser de Rubens.
— O que você acha Neide?
Devo contar para o Humberto agora, ou espero o nené nascer?
— Esperar para quê?!
Conte o quanto antes!
— Não sei, Neide.
Não quero que se abale.
Acho melhor esperar.
Ele até aceitou a ideia de ser o pai, parece que está conformado com isso.
Se eu disser alguma coisa, ele vai ficar ansioso, com grande expectativa e pode entrar em crise.
— É verdade. Pensando bem...
— Não! -— decidiu Lívia.
Não vou contar não.
Vou esperar a criança nascer.
***
Irene deu à luz um menino bonito e saudável a quem deu o nome de Flávio.
Ao saber da notícia, Lívia procurou tranquilizar Humberto contando o que sabia.
— E só fazer as contas.
Se o nené nasceu de nove meses, não é seu filho.
Nem precisa fazer exame para comprovar a paternidade.
Ele se sentiu confuso e revoltado.
Novamente, experimentou outra crise forte, com as mesmas sensações estranhas e estado depressivo muito intenso.
Atordoado pelo inevitável mal-estar, deixou Lívia sentada na sala e foi para seu quarto.
Não suportando o que o abatia, deitou-se em sua cama e ficou quieto.
Sem saber como ajudá-lo, Lívia o deixou sozinho, pois também estava com muitas preocupações.
O senhor Leopoldo entrou em casa e, mais uma vez, estava embriagado.
Trôpego, chegou à sala falando mole.
—Oi, menina! Você aqui de novo! -— riu.
Eu gosto de você, viu!
—É, senhor Leopoldo.
Eu preciso ficar aqui por enquanto —- disse de modo paciente, sem saber o que responder.
Em seu quarto, Humberto teve forte crise de choro por não suportar a pressão.
Além de Adamastor, que o castigava, o espírito Rubens, ainda perturbado, confuso e sem entender o que acontecia com ele, também lhe imprimia impressões causticantes e cruéis.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 02, 2016 10:57 am

Humberto sempre se sentiu culpado por seu desencarne, além de arrependido pelo desejo de matá-lo e por ter sido a razão da sua fuga de moto, levando-o para a morte.
Agora tudo havia piorado.
Não estava bem pelo facto de saber que o filho de Irene era de Rubens e agora o menino não teria pai por sua culpa.
Lembrando-se da conversa com o psicólogo, que lhe sugeriu pedir desculpas ao seu irmão no momento em que estivesse preparado, ele arrancou forças da própria alma e reagiu.
Sentando-se na cama, começou a orar fervorosamente e rogar amparo a Deus.
Apoiando os cotovelos nos joelhos e a cabeça nas mãos cruzadas à frente do corpo, na altura do peito e, sem que o espírito Rubens esperasse, Humberto pediu em voz baixa e comovente:
—- Rubens, me perdoa!
Meu irmão, me perdoa!
Eu te amo... Sempre te amei.
Sempre quis o seu bem, mas, dentro dos meus pobres limites humanos, eu não soube te entender.
Eu sei que você não agiu certo comigo nem com a Lívia, mas eu precisava te compreender e acho que só agora consegui isso.
Você não foi forte, assim como eu...
Eu desejei te matar, mas, na verdade, eu não queria que morresse.
Gostaria que estivesse aqui, vivo e ao meu lado -— chorou sentido.
Puxa, me desculpa, cara!
Desde que morreu, eu estou sofrendo.
Se eu soubesse que iria fugir de mim e morrer naquele acidente...
Longa pausa.
— Sei que nada acontece por acaso, Deus não falha...
Provavelmente, você desencarnaria de forma semelhante, num acidente, mas... não precisava ser para fugir de mim.
Estou desesperado e com remorso.
Lágrimas copiosas corriam por seu rosto e, mesmo com voz embargada, continuou:
— Por favor, me perdoa!
Estou experimentando a maior amargura da minha vida.
Eu gostaria de estar em seu lugar em vez de sentir o que sinto.
Eu prometo que vou cuidar do seu filho como se fosse meu.
Fique tranquilo... eu vou cuidar dele.
Menos emocionado, continuou:
— Eu acredito que há espíritos superiores e iluminados para te socorrer, é só você orar e desejar ajuda...
O espírito Rubens estava prostrado, de joelhos, frente ao irmão, que não o percebia.
Quando Humberto começou a falar, imediatamente, Rubens passou a ter visão de seu acidente e entender o seu desencarne.
Logo em seguida, começou a ver as imagens da encarnação passada.
Assistiu-se tentando compor um triângulo amoroso entre Lívia e seu irmão.
Conseguiu perceber o quanto o invejava, não só na actual existência, mas na outra também.
Inconformado, desejando ter a jovem só para si, ele se observou tramando a morte de Humberto e empurrando-o, subitamente, sob as rodas de um trem, simulando um acidente e dizendo que o outro escorregou.
Viu-se mentindo, contando e relatando o facto, várias vezes, fingindo desespero.
Depois, como se sua crueldade não fosse suficiente, Rubens supôs à sua mãe que o irmão havia se suicidado, deixando-a ainda mais aflita e inconformada.
Ele pôde recordar seu sofrimento de muitos anos na espiritualidade, tempo em que Humberto procurou socorrê-lo e ajudá-lo até conseguir.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 02, 2016 10:57 am

Nesse instante, o espírito Rubens entendeu a razão de seu desencarne no acidente de moto.
Compreendeu o porquê de ter encontrado Lívia e a deixado livre para o irmão.
Também percebeu o amor que ambos sentiam e o motivo de serem tão afins como eram.
Um arrependimento o dominava, por não ter cumprido as promessas feitas no planeamento reencarnatório, chorava muito.
Humberto continuava conversando, imaginando-se frente ao irmão.
O que, na verdade, acontecia.
Dominado por um pranto compulsivo, o espírito Rubens estava como que apoiado em Humberto e começou a acompanhá-lo na concentração da prece do Pai Nosso.
Luzes cintilantes, que vinham do Alto, envolveram os irmãos de forma sublime, fortalecendo-os e acalmando-os.
Humberto ligou-se ao Alto e a energia poderosa que se distribuiu no ambiente, em forma de luz, irradiava-se de seu peito de forma espectacular.
Sustentando-se firme, acreditando no amparo Divino, Humberto cedeu fluidos salutares ao irmão que vagarosamente começou a perceber entidades elevadas ao seu lado.
Olhando-as emocionado, Rubens murmurou:
— Em nome de Deus, me ajudem!
Com indescritível carinho, seu mentor Arlindo o envolveu com elevada ternura e, com a ajuda dos espíritos Nelson e Alda, Rubens foi adormecido e entregue ao socorro abençoado.
Alguns minutos e Humberto se sentiu aliviado das emoções fortes, enquanto espíritos inferiores que o acompanhavam, estavam atordoados.
Repentinamente, viram seus laços fluídicos de energias negativas se rompendo, um a um, desligando-o das amarras que vampirizavam suas forças vitais.
Adamastor, assustado, ficou inconformado e confuso com o sumiço do espírito Rubens, desconfiando do que poderia ter acontecido a ele.
Precavido, Adamastor se afastou de Humberto, observando-o à distância.
Esgotado, sentindo-se entorpecido, Humberto levantou, pegou uma muda de roupa e foi tomar um banho.
Passando pela sala, Lívia o fitou sem dizer nada.
Ele retribuiu o olhar e observou-a, admirando a paciência da moça dando atenção ao seu pai embriagado.
Na espiritualidade, a nobre entidade Laryel estava presente sem poder ser vista se não por aqueles que a acompanhavam.
Olhando a sua volta, comentou com bondade:
— O amparo providencial às nossas dificuldades chega, mas precisamos nos ajudar, iniciando pela organização e disciplina.
O Humberto começou a entender a mensagem dele para ele mesmo.
Agora está determinado a solucionar, de forma ordenada e prudente, tudo o que estiver ao seu alcance.
Com paciência, vai aguardar o tempo resolver o que ele não puder.
Apesar de todo o seu conhecimento, nosso querido Humberto vacilou.
Não se protegeu quando deixou de se ligar ao Pai através da prece bendita.
Eram somente alguns minutos por dia, porém não teve tempo, esquecendo-se até do Evangelho no Lar.
O espírito Nelson, mentor de Humberto, considerou:
— As pessoas sempre querem ajuda espiritual, mas não se dão ao trabalho de realizar o culto do Evangelho no Lar, esquecendo-se de quanto esse momento é abençoado!
E a ocasião em que são chegadas energias dos planos mais elevados, fluidos que resultam como que alimento espiritual.
Fonte de luz excelsa que ilumina e higieniza cada parede, cada cantinho da casa tornando todos os ambientes saudáveis e harmoniosos.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 02, 2016 10:57 am

—Agora é questão de tempo — tornou a nobre Laryel.
Nosso querido Humberto tem em mãos as ferramentas necessárias para se equilibrar novamente e reerguer-se, elevando-se muito. Essas ferramentas são:
a fé, os pensamentos elevados, a confiança em Deus e em si mesmo, a paciência e tudo o que resulta na paz interior.
—Somente agora, meu protegido perdoou, verdadeiramente, ao irmão por ter interrompido a sua experiência em outra encarnação e lhe tirado a oportunidade de viver ao lado de Lívia.
Antes dessa experiência terrena, no plano espiritual, apesar de sua elevação, entendimento, capacidade e de todo seu esforço para socorrer Rubens no Umbral, Humberto ainda trazia um grau de ressentimento do irmão.
—Por essa razão, nesta encarnação, o seu inconsciente revelou o desejo de matá-lo — comentou o espírito Alda.
Seus conflitos e a crise emocional junto aos ataques espirituais que sofreu, abriram portas e o desejo de matar alguém que o contrariasse, surgiu descontroladamente.
Foi sua boa moral, sua boa conduta que o fizeram ficar no controle da situação apesar de tamanho abalo e desespero.
Ao ser sincero, reconhecer o seu erro e pedir perdão, Humberto conseguiu a harmonia, o alívio da consciência por entender a pequenez do irmão.
—Muitas vezes precisamos declinar nas aflições e na angústia para entender e perdoar.
O Mestre Jesus nos ensinou a reconciliar primeiro com o nosso irmão, e depois apresentar a mossa oferta a Deus.
Perdoar é amar incondicionalmente e aceitar viver ao lado daquela pessoa ajudando-a, amparando-a e ensinando-a a evoluir -— completou Laryel.
Contudo, meus queridos, fiquemos atentos.
Os espíritos ignorantes, que ainda o acompanham, apesar de surpresos com sua postura, vão tentar incomodá-lo de algum jeito.
***
Era final de semana.
Lívia foi até a casa de Débora avisar dona Aurora, que estava lá, que sua irmã mais nova havia ligado do interior e em pouco tempo telefonaria novamente.
A senhora retornou para sua casa, mas Lívia ficou brincando com a pequena Laryel em seu colo.
— Nossa! Como ela cresceu, Débora!
— Você viu?! Já perdeu um monte de roupinha.
As priminhas vão ganhar tudo! -— brincou sorridente.
—E a Rita, como está?
—Enorme! Aquela barriga não pára de crescer -— riu.
—Faz tempo que não a vejo!
— O Sérgio foi danado!
Ele acertou de novo!
São duas meninas mesmo!
— Uaaau! Quatro filhos!
Que lindo, né?! Dois casais!
— Eu também acho lindo, mas quando penso no trabalho que uma coisinha dessas dá!... -— riu.
Falando nisso, a dona Aurora me disse que o nené da Irene nasceu!
—E verdade. O nome dele é Flávio.
—Já o visitou?
—Não.
—O que o Humberto diz?
—Tudo indica que o filho não é dele, mas está decidido a pedir exame de paternidade.
Não quer ficar com essa dúvida.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 02, 2016 10:58 am

Porém, não disse nada sobre visitar o nené.
—Como essa moça foi cruel, não é?!
Montou uma trama tão desumana!
Em vez de dizer a verdade, fica aí com esse joguinho de mentiras e enganações.
Que absurdo! Estou com tanta pena do Humberto.
Ele parece gostar tanto de criança.
—Gosta sim.
—Toma! -— disse entregando-lhe uma mamadeira.
Dê um pouquinho de água pra ela.
Enquanto Lívia servia a pequena Laryel, Débora perguntou:
— E vocês dois? Como estão?
—Ah!... — suspirou e sorriu, disfarçando a tristeza.
Estamos indo.
Sinto-me bastante constrangida por ter de ficar lá na casa dele.
Às vezes, me sinto tão insegura, Débora -— falou em um tom melancólico.
—Eu sei o que é isso.
—Sabe mesmo?!
Por acaso já dependeu do Sérgio e ficou morando por necessidade na casa dele?! -— riu, duvidando.
Garanto que não!
A amiga a encarou com seriedade e, fitando-a firme, declarou:
—Já sim. A situação foi bem pior do que a sua.
Se o Sérgio não me acolhesse, eu viraria indigente, pois nem emprego eu tinha!
—Débora!... -— admirou-se pasmada.
—Mas já passou! -— sorriu, fugindo do assunto.
Com você é diferente.
A dona Aurora te conhece, te respeita, gosta muito de você...
Ela te elogia tanto!
Disse que, se não fosse você, o filho dela estaria trancafiado no quarto até hoje.
Diz que não sabe onde você arruma forças para ter tanta disposição a fim de ajudar o Humberto!
— Arrumo disposição no amor que sinto por ele.
Enfrento tanta dificuldade, tanto conflito por isso!
Você nem imagina!
— E o seu pai?
Já falou com ele novamente?
— Não! Nem pensar!
Liguei para minha mãe e ela disse que o meu pai ainda está uma fera.
Bebe e briga todos os dias, reclamando de mim.
Ele diz que quer me matar.
— Esses sentimentos vão passar, Lívia. Vai ver.
— Sabe, Débora...
Estou insegura por causa do Humberto.
— Por quê?
— Ele aparenta grande melhora.
Parece que saiu daquele estado depressivo.
Mas tem hora que o vejo quieto, pensativo...
Tenho medo de que ele sofra uma recaída ou algo assim e desista de mim.
— O Humberto gosta de você!
Ele não vai fazer isso!
Lívia embalava vagarosamente Laryel nos braços.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 02, 2016 10:58 am

Quando Débora viu a filha dormindo, pediu:
-— Deixe-me colocá-la no berço!
Seus braços, talvez, estejam doendo! -— sorriu.
Ela está bem pesadinha!
Enquanto ajeitava a filhinha cuidadosamente no berço, a outra foi atrás e contou:
—- Teve um dia que saímos e nos beijamos.
No dia seguinte, ele estava arrependido.
Achou que foi um erro.
—Mas depois voltaram.
Eu os vi juntos, lá no centro, e reparei que ele te tratava com tanto carinho!
Ainda comentei isso com o Sérgio!
— É, eu sei -— concordou com a respiração curta, aflita e torcendo as mãos.
Mas e se ele se arrepender novamente e achar que foi um erro?
Débora olhou para a amiga e ficou desconfiada.
Pegando-a pela mão, fez com que Lívia se sentasse no sofá, acomodando-se ao lado.
Olhando-a firme nos olhos expressivos, indagou:
—- Aconteceu alguma coisa entre vocês dois, não é?
—- Débora! Eu não sei o que faço!
Estou desesperada! -— confessou inquieta, angustiada.
Eu não esperava!
Foi no apartamento dele, no dia em que ele quase matou a Irene!
Foi por isso que não fui para casa! -— contou, inconformada.
—Calma, Lívia. O Humberto gosta muito de você.
O que ele está passando é uma fase.
Se mesmo assim isso não te convence, comece a pensar no pior e analise.
Se não der certo com ele...
Você é jovem, muito bonita, tem um emprego...
—- Mas, Débora, meu pai me mata!
- —E quem vai contar para o seu pai que vocês ficaram juntos?!
Pense! -— Breve pausa e perguntou:
Já conversou com o Humberto a respeito disso?
—Não. Não quero ser mais um problema para ele que já está tão sobrecarregado.
Mas estou aflita. Não paro de pensar nisso!
—Você mesma reconhece que ele está sobrecarregado.
E por isso que ele fica quieto e pensativo.
—Desculpe por te incomodar com os meus problemas, mas não tenho com quem conversar e esse assunto está me sufocando.
—Você não me incomoda, Lívia!
Fique tranquila! -— sorriu generosa.
—Estou com medo.
Acho que nos envolvemos muito cedo.
Estou muito preocupada com uma coisa...
O toque da campainha a interrompeu.
Débora se levantou e, ao olhar para ver quem era, anunciou alegre:
— É o Humberto!
Indo até o portão, ela o abriu, fazendo-o entrar.
—E o Sérgio? — perguntou o amigo animado.
—Ele foi ao mercado. Não deve demorar.
—É que o carro está na garagem, por isso pensei que estivesse — tornou o rapaz.
—Ele foi com o Tiago, que passou aqui e também ia para lá.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 02, 2016 10:58 am

Ao chegar à porta da sala, deparou-se com Lívia que abriu lindo sorriso ao vê-lo e avisou:
—Eu já ia embora!
—Então vamos! O Sérgio não está.
Eu queria falar com ele -— sorriu.
—Ah, não! Fiquem comigo! -— reclamou Débora.
—Venha você lá para casa! -— chamou Humberto.
Minha mãe vive aqui! -— brincou.
Aliás, parece que ela abandonou todo o resto da família por causa da filha e da netinha postiça! -— riu. —
Quero ver o dia em que eu ou a Neide lhe der um neto! —
Recordando-se de que o filho de Irene, era neto de sua mãe, ele fechou o sorriso e não disse mais nada.
Lívia abaixou o olhar sem saber o que dizer, enquanto Débora, muito ágil, continuou brincando como se não tivesse lembrado de nada.
—Olha, vocês podem arrumar outros netos para a dona Aurora, mas a Laryel continuará sendo a mais velha!
Sorrindo, contou: —
Sabe que ela conhece até a voz da avó postiça?!
—Sério?! -— admirou-se Lívia.
—É sim! Você tem que ver!
Quando a dona Aurora chega conversando, a danadinha fica procurando e rindo!
—Que gracinha! Qualquer hora eu quero ver isso! -— disse Humberto.
Em seguida, perguntou:
— E onde ela está?
—Dormindo!
—Então outra hora eu a vejo.
Decidindo, despediu-se:
— Tchau, Débora! Mais tarde eu ligo para o Sérgio.
Vão lá em casa, tá? Minha mãe vai gostar!
—Vamos ver! Se o Tiago e a Rita não vierem aqui, é bem capaz de irmos sim!
—Estamos aguardando! -— disse Lívia, beijando-a no rosto. —
Tchau.
***
Ao chegarem a casa, Humberto avisou satisfeito:
— O carro já está lavado e abastecido!
Uma coisa a menos para fazer!
Entristecida, Lívia comentou:
—Eu queria ligar para minha mãe.
O que você acha?
—Seu pai deve estar em casa.
Não seria um bom momento.
Já falou com ela essa semana.
Espere mais alguns dias.
Vendo-a triste, Humberto se aproximou, abraçou-a pela cintura embalando-a vagarosamente, de um lado para outro.
Trazendo leve sorriso no rosto, ele contemplou sua beleza por alguns segundos.
Reparou o quanto Lívia era doce, generosa, tudo o que ele sempre quis encontrar em alguém.
Além disso, ela era sábia e inteligente.
Qualidades a serem bem consideradas.
Sorrindo com generosidade, enquanto deixava seus pensamentos livres, decidiu perguntar ao vê-la quieta e séria demais:
- Você está bem?
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 02, 2016 10:58 am

—- Estou preocupada com os meus pais, Humberto.
Ele é rude e minha mãe, talvez esteja sofrendo muito.
—E por isso mesmo que está assim? -— questionou, impostando ternura na voz, enquanto a segurava pela cintura com uma mão e afagava-lhe o rosto com a outra, tirando-lhe os cabelos do belo rosto.
Ela ergueu o olhar, ofereceu meio sorriso e respondeu:
-— É que tem muita coisa acontecendo.
Estou preocupada.
—- Minha maior preocupação é ficar com você... -— murmurou carinhoso, beijando-lhe a face e os lábios.
Abraçando-a forte contra si, Humberto foi levando-a em direcção de seu quarto ao mesmo tempo em que a beijava e a afagava com carinho.
Ao chegar próximo da porta, entendendo suas intenções, Lívia pediu com jeitinho na voz baixa:
—Não... Por favor...
—Vem cá... -— murmurou.
—Não... Sua mãe...
—- Ela saiu. Não tem ninguém em casa -— disse, abraçando-a firme.
Empurrando-o lentamente para se afastar do abraço, ela pediu novamente, no mesmo tom, só que mais firme:
—Não, Humberto, por favor.
—Por quê? -— perguntou mais sério, sem forçá-la a nada, mas segurando-a pelo braço.
—Por respeito à sua mãe.
Porque pode chegar alguém e eu não vou me sentir bem -— respondeu, afastando-se dele e fugindo-lhe do olhar.
Tomado por uma sensação desagradável, ele perguntou bem directo:
—Não se sentiu bem quando ficamos juntos no meu apartamento, Lívia?
Não foi bom para você?
—Eu não disse isso, Humberto -— respondeu constrangida.
—- Por que está me rejeitando então?
—Eu não estou te rejeitando.
Não confunda as coisas, por favor.
Para colocá-la à prova, propôs:
— Então vamos sair.
Podemos ir para um lugar tranquilo.
Longe do risco de alguém nos ver.
Ela andou alguns passos.
Esfregou as mãos no rosto num gesto nervoso e murmurou sentando-se no sofá:
— Meu Deus! Como posso fazer você entender?
Humberto acomodou-se do seu lado e, segurando seu queixo, fez com que o encarasse.
Olhando-a firme e com bondade, pediu em tom generoso:
— Se me explicar, eu posso entender. Tente.
Com a voz sentida, enquanto lágrimas copiosas corriam-lhe pela face, ela tentou justificar:
—Humberto eu não quero ser mais um problema para você.
Por favor, eu preciso de um tempo.
—Um tempo?!! -— surpreendeu-se, decepcionado. -— Como um tempo?!!
—- Não é um tempo longe de você.
Não foi isso o que quis dizer -— Olhando-o firme, invadindo sua alma, explicou:
Quero ficar com você! Eu te adoro!
Mas não estou preparada para algo mais íntimo.
Não agora.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 03, 2016 11:37 am

— Mas nós...
— Eu sei! -— interrompeu-o, parecendo aflita.
Você me envolveu...
Foi uma surpresa! Eu não esperava e...
— Vai me dizer que se arrependeu?!
— Não! Não me arrependi!
Não diga isso! Mas, por favor, me entenda.
— Não estou conseguindo te entender, Lívia.
— Então me aceite, por favor -— pediu, como se implorasse.
Eu preciso que aceite o meu desejo agora.
Estou muito preocupada.
Extremamente nervosa e... Humberto, eu não quero sair com você por sair, entende?
Não quero ser um objecto.
— Eu não te tratei como um objecto! -— reagiu, confuso.
— Eu tenho certeza disso!
Também não foi isso o que quis dizer...
Só te peço um tempinho, por favor.
Se não consegue me entender, me aceite.
— Tudo bem -— concordou decepcionado e triste.
Lívia o envolveu em um forte abraço que ele correspondeu generoso.
Apesar de ter os pensamentos tumultuados, beijou-a com carinho, escondendo o seu rosto em seus cabelos como se procurasse um refúgio de paz.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 03, 2016 11:37 am

22 - CONHECENDO FLÁVIO

O domingo amanheceu com um sol radiante.
Humberto acordou, abriu a janela, e tornou a se deitar, cruzando os braços atrás da cabeça e entrelaçando os dedos na nuca.
Encontrava-se pensativo e preocupado com Lívia, que parecia evitá-lo.
O espírito Adamastor e seu grupo estavam presentes.
— Ela não te quer! -— dizia ele.
— Ela é pior do que a outra!
Essa aí é ardilosa feito uma cobra traiçoeira!
Vai te dar um golpe!
Viu que você ganha bem, tem dinheiro, pra comprar um apartamento daquele!
E só mais uma interesseira.
Toda mulher quer ficar com você por interesse!
Observando a vibração de Humberto e percebendo que seus pensamentos começavam a se inclinar para o que ele queria, Adamastor virou-se para os seus subordinados, exigindo:
— Fiquem de olhos bem abertos.
Na primeira oportunidade, envolvam esse sujeito com as energias mais pesadas que puderem!
Vamos iniciar outra vez o que já fizemos antes e ele destruiu!
Tenho todo o tempo do mundo!
Ao perceber novamente os pensamentos decaídos, Humberto praticamente saltou da cama, pegou o Evangelho Segundo o Espiritismo e o abriu ao acaso.
Leu e reflectiu sobre o tema.
Em seguida, orou ligando-se ao Alto com fios ténues de uma luz azulada, que o impregnou de fluidos salutares.
Ao terminar, apesar de ainda preocupado com Lívia, sentia-se mais refeito e confiante.
Após um banho, foi para a cozinha onde encontrou todos reunidos.
— Bom dia! -— cumprimentou sorridente.
— Oi, filho! Sente-se aqui! -— pediu dona Aurora, apontando um lugar à mesa.
Ele a beijou no rosto, beijou Lívia ao seu lado e se sentou.
Conversaram sobre vários assuntos até que Humberto olhou para o seu pai, que fazia o desjejum em silêncio, e perguntou repentinamente:
—Quer ir comigo ao centro espírita amanhã à noite?
—Eu?! Ora! Por que eu?! -— surpreendeu-se, confuso.
—Por que o senhor nunca foi e talvez goste!
O senhor Leopoldo ficou sob o efeito de um choque.
Ofereceu um sorriso encabulado e tornou em tom tímido e alegre:
— Talvez eu vá. Vamos ver.
— Eu tenho um livro, é um romance espírita e talvez o senhor queira ler para saber um pouco sobre o assunto ou para se distrair.
É um bom livro! Quer? -— tornou o filho.
— Eu não gosto muito de ler -— respondeu o homem.
— É um livro pequeno! Bem interessante.
Conta uma história bem legal! Quer ver?
Quem sabe pega gosto pela leitura! -— insistiu Humberto descontraidamente.
— Depois você me empresta. Vamos ver - Humberto sorriu, sentindo uma satisfação nunca experimentada ao conversar com seu pai.
Não sabia explicar o motivo.
Seu pai nunca foi gentil e educado antes, quando se falavam, porém, naquele momento, foi diferente.
Dona Aurora ficou surpresa e trocou olhares com a filha, que se retirava da mesa.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 03, 2016 11:37 am

O senhor Leopoldo também se levantou e, ao passar pelo filho, estapeou-lhe as costas três vezes, parecendo em sinal de amizade, mas não disse nada.
Alguns minutos depois, a sós com Lívia, decidiu perguntar ao vê-la muito quieta:
—Você está bem?
—Estou sim.
—Vamos almoçar fora hoje? -— convidou com largo sorriso e grande esperança.
—Humberto, é um assunto desagradável, mas...
O que você decidiu realmente sobre a Irene?
Ele fechou o sorriso.
Bem sério, encarou-a firme e avisou:
—Sobre a Irene, eu não tenho de decidir nada.
Quanto ao Flávio, como eu já te disse, vou pedir um exame de paternidade.
Somente assim, todos ficam tranquilos.
—Você precisa ir falar com ela.
—Então, está estranha desse jeito por causa da Irene?
Tem alguma dúvida do menino ser meu filho ou não?
—Não. Acho que precisa ir falar com ela e isso me incómoda, mas não é só por causa disso que estou preocupada.
Porém, quero ajudá-lo a resolver esse assunto.
—E o que esse assunto tem a ver com irmos almoçar fora?
Afinal, eu te fiz um convite e veio me falando da Irene -— disse firme.
—É que pensei em irmos almoçar fora sim.
Só que, mais tarde, poderíamos passar na casa da Irene para falar com ela, ver o nené...
Humberto apoiou os cotovelos sobre a mesa e esfregou as mãos no rosto num gesto aflitivo.
Depois respirou fundo, tentando aliviar a tensão.
Sentiu-se apreensivo e aquele conhecido mal-estar chegou.
Só que mais leve, menos cruel que antes.
—Está certo! -— respondeu sério e contrariado. -— Você venceu!
Vamos almoçar e falar com ela. Como quiser.
—Ei?! Não é assim: eu venci!
Isso precisa ser resolvido!
—Está certo!
Só que eu vou almoçar nervoso e inquieto porque vou pensar que, em poucas horas, terei de conversar com aquela criatura! Entendeu?
—Desculpe-me. Então não vamos -— falou, arrependida.
—Agora vamos sim! -— resolveu.
Não quero adiar essa história nem por mais um dia! -— avisou firme, alterado, mas sem perder a educação nem a compostura.
Não quero ver você emburrada por causa disso. Chega!
***
Após o almoço, em que Humberto permaneceu sério e introvertido, eles foram visitar Irene.
Ao chegarem, dona Zélia, tia da moça, recebeu-os sorridente, porém com certa apreensão.
Na sala, convidou-os a se sentar enquanto a sobrinha não aparecia.
Humberto mantinha aparência serena.
Procurava se acalmar por se sentir confuso, com os pensamentos desorganizados.
Ao lado de Lívia, pegou sua mão, colocou entre as suas e, sem perceber, mexia continuamente em um anel que havia em seu dedo.
Com jeito delicado e doçura na voz fraca, ela perguntou:
—Você está bem?
—Estou -— respondeu no mesmo tom.
Não demorou e Irene chegou à sala, trazendo Flávio em seus braços.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 03, 2016 11:38 am

Ao vê-la, eles se levantaram, cumprimentando-a a distância.
De imediato, Lívia se encantou ao ver de perto o bebé no colo da outra.
Que coisinha linda! Olha só! -— exclamou Lívia.
—Quer segurar? -— perguntou a mãe.
—Claro! -— sorriu satisfeita.
Com o pequenino nos braços, Lívia sorria constantemente ao embalá-lo com carinho enquanto o mostrava para Humberto.
Ao olhar Flávio, ele também sorriu com ternura, não resistindo a uma atracção e simpatia inexplicáveis.
Curvando-se, beijou-o com carinho, afagando cuidadosamente no rostinho.
Examinando suas mãos minúsculas, Humberto colocou seu dedo para que o menininho segurasse.
Com isso, sorriu novamente, trocando olhares com Lívia e se esquecendo de Irene.
— Segure-o Humberto.
Você tem jeito com criança -— disse Irene secamente, parecendo insensível.
Ele pegou Flávio dos braços de Lívia e se sentou.
Começou a brincar com o garotinho, que resmungava um pouco.
Observando-o bem, ele pôde perceber que os traços fisionómicos do pequenino foram herdados de sua família.
Os cabelos bem clarinhos, quase brancos, a pele muito alva e rosada, além do rostinho comprido e narizinho afinado.
—Ele é lindo, Irene. Parabéns! -— cumprimentou Lívia.
—Obrigada -— sorriu, mecanicamente.
Humberto brincou alegre com Flávio.
Estava encantado, mas não havia esquecido o motivo que o levou ali.
Após algum tempo, o clima era tenso.
Ninguém dizia nada.
Não sabiam como começar.
Mais sério, ele entregou o menino nos braços de Lívia, novamente.
Encarou Irene e comentou:
— Gostaria que me desculpasse pela forma como a tratei na última vez em que nos vimos.
Eu não estava bem e fiquei transtornado.
Perdoe-me. Eu errei.
Irene se surpreendeu e sorriu levemente ao dizer:
— Fiquei muito assustada.
Não esperava por aquilo.
— Bem... Naquele dia você acabou dizendo que o Flávio era meu filho.
Da forma como falou, descartou a possibilidade de ele ser filho do meu irmão.
Ela o encarou firme e ele continuou:
— Não vou negligenciar um filho.
Jamais eu me negaria a dar atenção, todo o conforto e cuidado ao meu filho.
Isso vai acontecer, sem dúvida, se o Flávio for meu filho mesmo -— desfechou com tranquilidade, aguardando-a se manifestar.
—Como assim?! O que quer dizer?! -— perguntou Irene bem surpresa.
—Eu quero um teste de paternidade -— tornou sereno.
—Você está duvidando de mim, Humberto?!
—Entenda como quiser -— respondeu, parecendo imperturbável. —
Esse é um direito que me assiste e eu exijo esse teste.
Irene demonstrou-se contrariada.
Sem encará-los, levantando-se e caminhou alguns passos negligentes pela sala.
Respirando fundo, virou-se para ele, quase furiosa, mas decidida esclarecer.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 03, 2016 11:38 am

Expressava-se com amargura e raiva no tom de voz:
— Vou poupá-lo de tudo isso!
Se quer saber, o filho é do Rubens!
Pronto!
Ele pendeu com a cabeça positivamente e comentou bem sereno:
—Eu já desconfiava.
—Por que diz isso?!! -— perguntou de modo hostil.
Está me chamando do quê?!!
—Eu não vim aqui para discutirmos.
Pode falar baixo. Respeite o seu filho.
—Por que quer dar uma de superior, Humberto?!!
Para me humilhar?!! É uma forma de me ofender?!!
Atraída pela voz alta e agressiva de Irene, dona Zélia chegou à sala, assustada.
Humberto trocou olhares com Lívia e ambos se levantaram.
Tranquila, a moça se aproximou da senhora e lhe entregou Flávio nos braços, voltando para perto de Humberto, que Pegou sua mão e informou:
—- Já resolvi o que precisava.
Sendo meu sobrinho, pode ter certeza de que não vou deixar faltar nada, absolutamente nada, a ele.
Certamente, os meus pais vão querer visitá-lo.
Espero que você não crie nenhum empecilho.
Leve em consideração que minha mãe não tem mais o Rubens, e o Flávio vai significar muito para ela.
—Por que veio aqui, Humberto?!! -— gritou, perdendo o controle. —
Para se exibir com ela?!!
Eu quero que vocês morram!!!
Sem dizer nada, ele conduziu Lívia para que saíssem da casa.
Quando passavam pela porta, inspirada por espíritos inferiores, Irene gritou para ofendê-lo:
— Você não foi homem para mim!!!
Foi por isso que saí com seu irmão!!!
Você não foi capaz de me dar um filho!!!
Ele parou por um segundo, sentiu um travo amargo na garganta, mas não disse nada.
Abaixou a cabeça, sobrepôs o braço nos ombros de Lívia e foi embora.
***
Já no carro, a caminho de casa, ela comentou ao vê-lo calado:
— A Irene cometeu muitos erros e não está tranquila com ela mesma.
Sabe o quanto errou.
Toda a descoberta, toda a confusão que provocou a abalou muito.
Agora, depois que teve o nené, deve estar bem perturbada.
Foi por isso que tentou te ofender.
Humberto não disse nada, e Lívia lhe fez um afago na nuca enquanto ele dirigia.
***
Ao chegarem a casa, ele trazia os pensamentos carregados de dúvidas e preocupações que, em sua grande maioria, eram impostas pelas sugestões cruéis do espírito Adamastor.
Humberto, sentando à mesa da cozinha, tomando uma xícara de café, continuava em silêncio.
Parecia que uma escuridão vazia pairava em sua mente deixando-o sem saber o que fazer.
Temia experimentar novamente o horrível estado deprimido, que conheceu tão bem.
Lívia chegou.
Afagou carinhosamente suas costas, sentou-se ao seu lado e, segurando-lhe o braço, inclinou-se, procurando por seus olhos, ao indagar com voz e sorriso doces:
— Tudo bem?
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 03, 2016 11:38 am

Encarando-a com o semblante sério, respondeu com voz grave e baixa:
— Tudo. Só estou tentando organizar as coisas na minha cabeça.
—Posso ajudar? —- tornou em tom carinhoso.
—Você tentou, Lívia. Bem que você tentou.
— Como assim?! Não estou entendendo! -— disse surpresa.
Quando Humberto ergueu o tronco, virou-se para ela e ia falar, dona Aurora chegou à cozinha e, sem perceber que os interrompia, perguntou ansiosa ao filho:
—Ah! Ainda bem que vocês chegaram!
Foram lá?! Viram o Flávio?!
—Fomos sim, mãe -— respondeu Humberto.
Logo sorriu ao contar:
— Ele é uma gracinha! Tão bonitinho!
—Falaram com a Irene?! -— tornou sem trégua, muito curiosa.
—Tentei conversar, mas, depois de um tempo, ela reagiu agressiva.
Acho que foi por ter me visto com a Lívia.
Entendeu logo que estamos namorando e teve uma crise de raiva.
Não falei tudo que precisava, mas...
—O que ela disse?! -— insistiu a senhora.
Humberto ficou em silêncio.
Não sabia qual seria o impacto daquela notícia para sua mãe.
Afinal, Flávio seria, para ela, a maior e melhor herança e lembrança viva de seu filho.
Além disso, não tinha a menor ideia de como Irene reagiria dali por diante, com dona Aurora e sua família.
Talvez, uma forma de vingar-se dele era não deixá-los ver ou visitar o filho de Rubens.
Na troca de olhar com Lívia, ele pareceu pedir para que ela contasse e assim a moça fez com jeitinho próprio:
—- Sabe, dona Aurora, quando o Humberto disse que iria pedir um exame de paternidade, ao entender que isso seria desgastante, inevitável e o resultado incontestável, a Irene decidiu nos poupar de tudo e contou a verdade.
—- O que ela disse?! -— perguntou aflita, apesar de já saber o resultado.
—Ela revelou que o filho é do Rubens mesmo.
Nós já tínhamos quase certeza disso, e ela confirmou.
A senhora virou-se de costas para ele, de frente para a pia e começou a chorar.
Lívia se levantou e foi para junto dela.
Afagando-lhe as costas, pediu:
— Não fique assim, dona Aurora.
Para animá-la, comentou:
— A senhora vai conhecer o seu netinho e vai ver como ele é lindo! Uma gracinha!
A mulher se virou e a abraçou com força, chorando em seu ombro.
Com um sentimento indefinido, Humberto se levantou e foi para o seu quarto.
Não demorou muito e Lívia foi procurá-lo.
Ao vê-lo sentado na cadeira frente à bancada, mexendo em alguns papéis, ela perguntou:
— O que foi? Você está estranho.
Ele não respondeu.
Sentando-se na cama do rapaz, experimentando um sentimento triste e amargo, indagou novamente:
— O que você ia me dizer lá na cozinha, quando perguntei se poderia ajudá-lo e me disse que eu tentei? O que tentei?
O rosto de Humberto estava sério.
Não queria falar sobre o assunto e respondeu:
— Tanta coisa aconteceu hoje, Lívia.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 03, 2016 11:38 am

A revelação da Irene, a reacção agressiva que ela teve por nos ver juntos ou coisa assim...
—- Posso te fazer uma pergunta bem pessoal?
—- Claro!
—Você ficou decepcionado pelo facto do Flávio não ser seu filho?
—Não! Lógico que não!
Eu me sentiria péssimo se fosse.
Seria um filho que não planeei.
Ele representaria a minha ligação com aquela mulher.
—Entendo. Um filho não planeado pode criar situações complicadas.
—Sem dúvida! Imagine-me ligado pelo resto da vida à Irene?
Não consigo falar com ela nem a respeito daquele maldito apartamento!
Imagine, então, tentando opinar na educação de uma criança!
—Parece que a ideia de um filho te apavora?
—Sem dúvida!
Neide entrou no quarto com a pequena Laryel no colo.
Sorrindo encantada, disse:
—Olha quem veio nos visitar!!!
Fala oi, pro titio, fala! -— dizia divertindo-se ao levar a menininha até Humberto.
—Oi, coisinha linda!!!
Cade a nené do tio?! -— ele sorriu e brincou, pegando-a no colo.
Depois perguntou:
— O Sérgio está aí?
—Está lá na sala junto com a Débora -— confirmou Neide.
Lívia, sorrindo, levantou-se e começou a brincar com a garotinha, quando Humberto a chamou animado:
—- Vamos lá na sala para recebê-los!
***
Os dias foram passando rapidamente.
Era sábado e Lívia vivia às voltas com pensamentos sobre sua situação com seus pais.
Logo cedo, pediu emprestado o carro de Humberto e recusando sua companhia, foi até sua casa conversar com sua mãe, aproveitando-se da ausência de seu pai e seu irmão.
A senhora, muito sofrida, queixou-se do marido grosseiro e ignorante que a maltratava muito, principalmente agora pela ausência da filha.
Sabendo que não lhe restava muito a fazer, Lívia pegou algumas coisas que lhe pertenciam, principalmente seus livros da faculdade, que estavam lhe fazendo falta, e foi embora, prometendo voltar outro dia para vê-la.
A rude provação com um pai embrutecido fortaleceu-a sem que ela soubesse.
De menina mimada, em outros tempos, criou agora força, coragem, responsabilidade e determinação para seguir e enfrentar a vida sem ilusões nem dependência.
Lutava com aquela vaga sensação de algo estar errado entre ela e Humberto.
Apesar de juntos, havia momentos, quando o via quieto, calado e imerso em seus próprios pensamentos sem dividir com alguém, em que reinava uma esquisita e perturbadora emoção.
Seria ela a razão de suas preocupações?
Humberto estaria arrependido de estar com ela, que se tornou um encargo?
Abatida, sentindo-se cansada e angustiada, sem saber que rumo dar à sua vida, decidiu ir falar com Débora.
Talvez a amiga lhe clareasse a mente e aliviasse o seu coração.
Elas conversaram bastante aproveitando o tempo em que a pequena Laryel dormia um sono profundo.
— Então é isso. Minha mãe está muito sofrida e eu não sei como resolver essa situação com o meu pai.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 03, 2016 11:38 am

Por outro lado, estou me sentindo muito mal por ter de ficar na casa da dona Aurora, dependente e...
Como se não bastasse, o Humberto está muito calado.
Na última semana, ele estava bem estranho.
Não sei se foi o facto do Flávio não ser filho dele...
— Mas ele disse que essa notícia foi um alívio!
Acredite nele!
—Eu não sei o que fazer, Débora!
Estou confusa... -— chorou.
Depois desabafou:
Acho que errei quando fiquei com ele lá no apartamento e dormimos juntos.
O Humberto deve ter me considerado fácil... uma... -— chorou.
—Não! Não diga isso!
Ele gosta muito de você, Lívia!
—Então por que está distante, quieto?
Débora pensou um pouco, organizou as ideias sobre tudo o que a outra lhe contou e concluiu:
—Lívia, você me disse que pediu um tempo, porque achou que tudo havia acontecido muito rápido entre vocês.
Não queria que ele tivesse pensamentos equivocados, acreditando que era uma garota fácil ou coisa assim.
Mas será que ele não está pensando que você não o quer porque não se sentiu bem, não gostou dele ou de como aconteceu?
—Ele não pensaria isso! -— disse chorando.
—Por que não?! Analise.
Você pediu um tempo.
Disse que não queria um relacionamento mais íntimo.
Depois a outra gritou que ele não era homem para ela e que não foi capaz de lhe dar um filho!
Puxa vida! Isso vai mexer muito com a cabeça do cara! Não acha?!
Lívia ficou pensativa e um tanto inquieta.
Preocupada, duvidou:
—Será?! O Humberto é um homem maduro, confiante.
Sabe o que quer e o que faz.
—Minha amiga!
A respeito de sexo, todo o mundo, principalmente no começo de um relacionamento, sempre tem muita insegurança!
—Mas ele foi um homem maravilhoso! Carinhoso e...
—Você disse isso pra ele?!
—Não... eu...
—Ah! O que disse é que queria um tempo! Queria distância! Lívia!
Acorda, amiga!!!
Se ele está do seu lado é porque gosta de você.
Mas a cabeça do coitado deve estar um inferno!
Além disso, está envergonhado com o que sentiu quando a outra falou aquilo...
Foi muito baixo da parte dela!
—Débora! Você não faz ideia ...do que eu estou vivendo! —- chorou.
—Converse com ele. Conte tudo!
Exactamente tudo do jeito que contou para mim!
Você vai resolver essa situação toda e ainda dizer:
nossa! Como fui boba! Sofri à toa!
—Você não entende...
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 03, 2016 11:39 am

Refazendo-se um pouco, contou:
— Quando tudo aconteceu...
Foi repentino! Eu não esperava!
Do jeito que o Humberto estava, eu não esperava nem por um beijo lá naquele apartamento.
Mas nós começamos a nos abraçar, depois ele me beijou...
Somente no dia seguinte eu fui parar e pensar em tudo o que aconteceu.
—E não foi bom?
—Sim. Ele se revelou um homem maravilhoso, que eu não julgava existir.
Só que além de tudo o que fizemos ter sido óptimo, foi irresponsável!
Chorou novamente ao contar:
— No dia seguinte, depois da briga com meu pai, eu estava lá na casa dele, no quarto da Neide, entrei em pânico quando peguei o calendário na minha bolsa e fiz as contas...
Eu estava exactamente...
—No dia fértil?... -— indagou a outra, tentando ajudar.
—É... -— chorou. -— Acredito que toda mulher sabe fazer essa conta e...
—Você não toma remédio? -— perguntou, mesmo sabendo a resposta.
—Não... Eu não precisava tomar nada...
Sou muito regulada, conheço bem meu ciclo...
Quando entendi o que tinha feito, quase tive um troço! -— chorou mais ainda.
Secando as lágrimas com as mãos, falou com a voz entrecortada e estremecida:
— Estou desesperada...
Isso não sai da minha cabeça... O meu pai...
—Falou com o Humberto a respeito do seu ciclo?
—Não... O que ele diria?
Além de fácil, sou irresponsável...
Eu deveria ter falado na hora!
Deveria ter lembrado...
—Foi por isso que pediu um tempo pra ele?
—Foi... Mas eu não consegui falar...
Tinha muita coisa acontecendo e...
E eu não queria ser mais um problema.
Não queria que ele tivesse outra crise...
Apesar de toda a preocupação por causa da Irene, ele vem se mostrando bem melhor a cada dia.
Quando pensei em contar... ele veio com aquela história de não sentir bem com um filho que não planeou e...
A jovem não conseguiu mais falar e abaixou a cabeça, escondendo o rosto entre os cabelos.
A amiga ficou triste por vê-la daquele jeito, porém perguntou com jeitinho:
— Lívia, quando foi isso?
A outra chorava compulsivamente e não conseguia responder.
Mas ela insistiu:
— Está atrasada?
A outra não respondeu e entrou em desespero.
Débora a puxou para um abraço, confortando-a em seu ombro para vê-la mais calma.
Em meio ao choro comovente, Lívia desabafava com voz rouca e abafada:
—Não foi irresponsabilidade minha...
Eu não lembrei...
—Não foi sua culpa.
Ele também foi responsável, oras!
—Eu sei... Mas o que ele vai pensar de mim?!...
—Você não planeou isso e...
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 03, 2016 11:39 am

Débora deteve as palavras quando ergueu o olhar e viu Sérgio e Humberto parados à porta.
Lívia não os viu de imediato, pois escondia o rosto no ombro da amiga, que não sabia o que fazer.
Humberto ficou imóvel, aflito por não entender o que acontecia e Sérgio, mais preparado, indagou com jeito simples, tranquilo e amigo:
— Tudo bem, ou nós devemos voltar depois?
Ao ouvir sua voz, Lívia, ainda sob o efeito de soluços fortes, com lágrimas correndo na face enrubescida e inchada pelo choro, ergueu o olhar na direcção deles.
Preocupado, Humberto imediatamente se aproximou, e Débora se levantou oferecendo seu lugar para que ele se sentasse ao lado de Lívia.
Com bondade, ela comentou:
—É melhor vocês conversarem.
Acho que a Lívia tem muito a dizer.
—O que aconteceu para ela estar assim?! -— perguntou assustado ao vê-la daquele jeito.
— Olha, eu vou fazer um chá para ela se acalmar.
Será melhor ficar com ela, Humberto.
Dê um tempinho pra ela ficar mais tranquila e contar tudo o que está acontecendo.
Dizendo isso, Débora fez um sinal subtil para seu marido, que a seguiu até a cozinha.
Não demorou e a amiga retornou com um copo de água adoçada, que ofereceu à outra, depois voltou para a cozinha, deixando-os a sós.
Humberto, aparentando serenidade, aguardava aflito, acariciando o rosto e os cabelos de Lívia, que parecia sem controle.
Até o copo com água tremia entre as mãos geladas da moça enquanto o seu queixo batia e seu coração apertava cada vez mais.
Afagando-lhe as costas e o ombro, ele pediu generoso:
— Procure ficar calma, meu bem.
Respira fundo.
Percebendo que ela estava um pouco mais tranquila, comentou:
— Eu nunca vi você perder o controle, Lívia.
Já te vi nervosa, mas nunca desse jeito.
Sempre te achei uma pessoa muito segura, forte, equilibrada e controlada.
O que te deixou assim?!
Novamente lágrimas compridas corriam em sua face e ele pediu, parecendo calmo, quase sussurrando:
— Por favor, me conta de uma vez.
Estou muito preocupado por te ver desse jeito.
Foi o seu pai? Você encontrou com ele?!
—- Não... -— murmurou com voz rouca.
- —O que foi?
-— Quando nós fomos lá ao seu apartamento...
Ela contou exactamente tudo.
Surpreso, ele perguntou falando baixinho e tentando conter a emoção forte:
—Por que não me contou no dia seguinte?!
Por que não falou comigo assim que desconfiou?!
—Você iria dizer que sou fácil e... -— chorava.
Além de fácil, sou irresponsável e...
Foi por isso que te pedi um tempo...
—Meu Deus! Lívia!... -— exclamou, sussurrando.
Eu acreditando que me rejeitava por outro motivo!
Não gostou de mim, nem de como aconteceu! Pensei...
Você não sabe o que passou pela minha cabeça!
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