CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 19, 2016 10:34 am

Se eu tiver essa oportunidade!...
—Todos teremos.
Só que isso não é assim de imediato.
Tudo é muito bem planejado.
Sabe, a nossa mãe vai reencarnar em breve.
Não estava em seu planeamento reencarnatório nos receber, mas aceitou fazê-lo, apesar de toda dificuldade que enfrentará por conta de nossos desafios, provas e expiações.
Ficou feliz e até propõe a receber a Neide como filha, uma vez que foi a neta que ela não aceitou no passado.
—Tudo está certo, então?!
Vou reencarnar para corrigir os meus erros e me livrar dessa angústia, desse desespero que sinto?!
—Calma. Reencarnar, você vai, mas não é algo tão simples como parece.
Precisa se recuperar, sair deste hospital, se dispor a aprender para se equilibrar e se dispor a fazer tudo correctamente.
Não basta apenas reencarnar para não ter mais a angústia e o desespero.
Se quando estiver encarnado, você não fizer o que é certo, ao retornar para a pátria espiritual, suas dores na consciência voltarão com a mesma intensidade e, às vezes, piores por ter perdido a oportunidade.
Rubens pareceu ganhar vida.
Imediatamente seus olhos brilharam.
— Puxa! Como eu quero ser diferente!
Farei de tudo para me livrar desses pesadelos que me consomem!
Deixar de sentir os reflexos do que fiz a você, do que fiz de errado quando encarnado, mesmo que seja para passar por um sofrimento parecido, será um grande alívio.
Os dois continuaram conversando por longo tempo e Humberto explicou qual era o planejado e o irmão ainda ressaltou:
—Humberto, fique tranquilo, eu juro!
Eu prometo que serei um bom companheiro para Lívia enquanto Deus me permitir ficar encarnado!
Serei fiel, digno, responsável, gentil! Acredite!
—Eu vou procurar acreditar, mas isso depende de você, meu irmão.
Como era de se esperar, Rubens oferecia toda a atenção às palavras de Humberto.
Encontrava-se ansioso e arrependido o suficiente para ter essa oportunidade de se livrar de todo o sofrimento e dor causados por seus erros, por sua vida sem fé e, principalmente, sem amor ao próximo.
***
A tarde, o sol estava quase se apagando para o dia que morria.
Rubens escutava o ruído rápido e confuso da corredeira, cujos borrifos cintilantes bailavam cristalinos pelos últimos raios de sol.
Achegava-se sentado sobre uma pedra e com os pés descalços na relva verdinha salpicada de flores.
Trazia os pensamentos carregados de ideias e planos para o futuro enquanto olhava as águas correndo e espumando.
De repente algo lhe chamou a atenção.
A aproximação serena, no caminhar suave de dona Aurora o fez se virar, alegrando-se ao murmurar:
— Mãe! A senhora aqui?!
—Vim te visitar, filho.
Como está? -— perguntou, beijando-lhe a face de traços sofridos.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 19, 2016 10:34 am

—Estou bem, mãe. Não tanto como eu gostaria, mas muito melhor do que já estive.
O rosto belo e agradável da gentil senhora ofereceu-lhe suave sorriso e ela comentou:
—Sinto-me feliz por sua recuperação tão rápida.
Espero que os estudos e a dedicação às tarefas simples iluminem sua mente e aliviem o seu coração além de servirem como exemplo e aprendizagem.
—Mãe, até hoje, não te pedi desculpas por tudo que a fiz sofrer —lágrimas correram em sua face.
Por favor, me perdoe por tudo.
—Na verdade, filho, o que eu quero é que você se harmonize, se corrija.
A sua paz, o seu bem-estar me deixam feliz e satisfeita.
—Estou me esforçando para não errar de novo.
Sabendo que serei irmão do Humberto, eu não posso falhar.
Ele é uma criatura que eu prejudiquei muito e tudo por inveja, ciúme e tantos outros vícios morais.
Por outro lado, vejo que a Lívia sofre até hoje por minha causa.
Não levei em conta que ela tinha um compromisso com o meu irmão.
Por isso, nessa oportunidade de ficar ao lado de Lívia, quero tratá-la com amor, respeito, fidelidade.
Quero corrigir todos os meus erros.
Sei que será difícil para o Humberto nos ver juntos e... tenho medo por ele, que se sentirá abalado.
Será difícil ele vê-la com outro, ou melhor, comigo.
Mãe, se o meu irmão se deixar dominar pelo ódio, pela raiva, pela contrariedade... poderá desejar me matar e, fazendo isso, perderá toda uma vida!
—Ele será testado no limite de suas forças.
Precisará vencer o ciúme e entender o amor incondicional, concedendo o perdão.
Eu confio em seu irmão.
Ele é uma criatura elevada.
O que mais me preocupa é você e a Irene.
Juntos, por puro vício no prazer, temo que vocês prejudiquem o Humberto e a Lívia.
—Não, mãe! Nunca mais!
Sofri o suficiente para não deixar mais os prazeres mundanos me dominarem.
Experimentei tanta dor e desespero que vou ser fiel ao meu irmão, a minha companheira.
Roguei tanto para ter uma oportunidade de aliviar minhas dores que não vou desperdiçar.
—Peço a Deus que você aproveite mesmo essa chance, filho, para que não sofra mais!
—Eu tenho muito que agradecer à senhora por me aceitar como filho novamente, mesmo sabendo de tudo o que terá de experimentar por minha causa.
Sei que vai sofrer muito por mim, e até pelo Humberto, quando as provas e expiações começarem.
—Não era para eu ter filhos nessa experiência de vida e isso me magoaria muito.
Quando recebi a proposta de tê-los novamente, fiquei muito feliz.
Experimentarei uma grande dor, mas saberei que foi para ajudá-lo na evolução.
Ao mesmo tempo, terei a oportunidade de receber aqueles a quem, um dia, neguei ajuda, Neide e Flávio, que foram meus netos, filhos de Humberto e Irene, quando ela o abandonou para fugir com você.
Humberto passou todos os tipos de privações e necessidades, além dos flagelos da alma.
E eu virei as costas para o meu filho e os meus netos acreditando que não eram problema meu.
Realmente não eram, mas passaram a ser quando eu tive condições e não ajudei, não amparei.
Tudo o que estava acontecendo na vida do Humberto, somado à minha falta de amparo, quase o levou a cometer uma loucura com ele e com os filhos.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 19, 2016 10:34 am

Agora eu vou corrigir tudo isso, apesar da dor.
Naquele momento, o céu tornava-se levemente escurecido e as nuvens, entremeadas de cores, desmanchavam no horizonte.
O sol desapareceu completamente e um azul firme e denso descia, deixando as primeiras estrelas cintilarem.
Dona Aurora olhou o firmamento por alguns segundos enquanto o silêncio reinou.
Rubens, agora em pé a sua frente, conservava olhar vivo com expectativa de que ela dissesse mais alguma coisa.
— Vim aqui me despedir de você, filho.
Vou me recolher para reencarnar em poucos dias.
Envolvendo-o em demorado abraço, a senhora beijou-lhe o rosto a medida que lágrimas banhavam suas faces.
Ao se afastar, ela afagou-lhe carinhosamente o rosto e ainda pediu:
— Rogue por fé, para você crer em Deus, para que, encarnado, ouça as inspirações de seu mentor amigo e confie nos planos de Deus.
Esse propósito reencarnatório é para que você vença a inveja, o orgulho, a arrogância e tantas outras mazelas.
É certo que todos nós precisaremos e iremos nos propor a vencer os nossos vícios.
Não fique preocupado ou pensando no que os outros têm para corrigir.
Preocupe-se com o que você precisa fazer para se melhorar.
— Obrigado, mãe — disse com lágrimas correndo na face.
— Deus o abençoe, Rubens.
Eu te amo, filho.
Começava, ali, a concretização do planeamento reencarnatório de todos.
Na espiritualidade, muitas promessas de melhoria íntima foram feitas.
O desejo de não sofrer mais pelas faltas cometidas era intenso.
Porém, o livre-arbítrio de cada um poderia mudar muito o destino de todos.

1 N.A.E. O nome dos personagens do plano espiritual não será trocado quando estiverem no plano físico para facilitar o reconhecimento deles pelo leitor.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 19, 2016 10:35 am

3 - RETORNANDO PARA CASA

Naquela tarde de verão, o sol escaldante não oferecia trégua.
Apesar disso, dona Aurora se empenhava, na cozinha, para fazer o bolo predilecto de seu filho Humberto, que estava para chegar.
A empresa em que o rapaz trabalhava o havia mandado para a filial do Nordeste e por isso ele ficou meses longe da família.
—Mãe, como se não bastasse o calor horrível que está fazendo, a senhora ainda fica com esse forno ligado!!!
O inferno é mais fresquinho do que aqui! -— reclamou Neide, filha mais nova de dona Aurora.
—Não estou com o forno ligado, não senhora!
Já desliguei faz tempo!
Tô fazendo um bolo gelado para o seu irmão!
Ele adora! Daqui a pouco o Humberto tá aí!
Tomara que dê tempo de gelar!
—Ah! Só porque o Humberto chega hoje, a gente precisa morrer de calor?!
— Deixa de coisa, menina!
Liga o ventilador pra mim!
Neide foi pegar o aparelho.
Após ligá-lo, ouviu o barulho do portão e gritou alegre:
— O Humberto chegou!!!
Dona Aurora tirou o avental, às pressas, e correu para recebê-lo.
Só que Neide passou sua frente e se jogou nos braços do irmão, beijando-o.
Em seguida, o filho abraçou-se à mãe, que demonstrava sua saudade em forma de carinho e lágrimas.
Humberto era um rapaz alto, com um corpo bem apropriado à sua altura.
Olhos verdes, grandes, brilhantes e expressivos.
Cabelos lisos e aloirados. Muito bonito.
Comunicativo, amável e atencioso.
Gostava de ser prestativo e sempre presente.
— Ora, mãe! Não chora! -— pedia sorrindo e trazendo os olhos umedecidos pela emoção.
— Como você está magro!!! Abatido!!!
—O que é isso, mãe?! Não estou não! -— riu.
Depois perguntou: —
Como estão todos?
—O Rubens está de namorada nova! -— anunciou Neide, empolgada.
Ele foi lá na casa dela!
—Que legal! Estou sabendo.
Mas falando em namorada... E a Irene?
Cade a minha namorada?! -— brincou.
—Ela ligou, filho!
Disse que, onde estava, o trânsito ficou terrível e por isso iria demorar.
—Óptimo! Preciso de um banho urgente! -— disse.
Puxando as malas em direcção ao seu quarto, perguntou:
E o pai?
—Já chegou do serviço, mas... saiu -— avisou dona Aurora, entristecida.
— Já sei! O pai foi para o bar! -— concluiu Humberto.
— Talvez, filho. Mas conta, por que não quis que a gente fosse te buscar no aeroporto?
— Não, mãe! Não quis dar trabalho.
O voo atrasou. Além disso, o serviço de táxi é prático e óptimo.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 19, 2016 10:35 am

Indo atrás de Humberto, Neide reclamava:
— Eu também não entendi essa sua decisão!
O Rubens ou o pai poderia ter ido te buscar.
Colocando a mala sobre a cama, Humberto a abriu, tirou um pacote e a interrompeu dizendo:
—Veja! Eu trouxe isso para você!
—Ai! Que blusa linda!!! -— exclamou Neide ao abrir o embrulho.
—E essa é para a senhora, mãe!
—Puxa, filho! Não precisava se preocupar!...
—Nossa! Aqui está tão calor quanto lá! -— reclamou ele.
—Isso é porque você não foi até a cozinha! -— avisou a irmã.
A mãe ficou com o forno ligado até agora!
—Oba!!! Booooolo!!!
Hoje vou comer o meu bolo predilecto!!!
E sozinho!!! -— exclamou Humberto, rindo e esfregando as mãos ao adivinhar o que sua mãe havia preparado.
—E o seu bolo mesmo, filho!
Agora vai tomar um banho pra você comer alguma coisa!
Você deve estar com fome e cansado!
—Cansado eu estou, mesmo!
Não vi a hora de chegar aqui em casa.
O rapaz, bem humorado, pegou uma muda de roupa, a toalha e foi para o banheiro.
Algum tempo depois, ele chegava à sala, perguntando:
—Mãe! Cade os meus chinelos?!
—Estão aqui! -— respondeu a senhora.
— E eu também!!! -— disse Irene sorrindo ao ir abraçá-lo.
Que saudade meu amor!
Correspondendo ao carinho, ele a beijou com ternura, e depois falou:
—Puxa! Como é bom te ver!
—E lá?! Espero que não precise mais voltar!
—Acho que não.
Na segunda-feira vou à empresa e retomo meu lugar.
Esses últimos dez meses foram bem cansativos.
Durante a semana, enquanto eu trabalhava, tudo bem, mas quando chegava o final de semana...
Era um tédio!
Não tem coisa pior do que ficar longe de casa, da família...
—Nesse tempo todo você só veio para cá cinco vezes!!!
—Você contou?!
—Lógico! Eu estava louca de saudade!
—Eu também. Nem acredito que estou em casa, para ficar!
— Pensei que chegaria aqui antes de você, mas peguei um trânsito!
E a loja de roupa no novo shopping?
Está dando certo?
—Ah!!! Não poderia ser melhor!
As vendas estão óptimas! Puxa!
Agora tenho três lojas!
E estou pensando em abrir mais uma! -— riu satisfeita.
Sinto-me tão realizada!
—Estou feliz por você, meu bem.
É bom que se ocupe com algo que goste — sorriu ele.
— Adoro o que faço!
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 20, 2016 10:32 am

— Trouxe uma coisa para você!
Vou pegar! -— avisou, levantando-se e indo até o quarto.
Sem demora, retornou, dizendo:
-— Espero que goste!
Irene abriu o embrulho e admirou:
—Ai! Que linda!
Quando vi a blusa da sua irmã e da sua mãe pensei:
se ele não trouxe uma pra mim, vai ver! -— riu.
—Eu não iria tratar diferente as três mulheres da minha vida! —
disse, abraçando-a com carinho.
Nesse momento, insatisfeita com o comentário, Irene fechou o sorriso sem que ele percebesse.
Logo a atenção se voltou para o senhor Leopoldo, que acabava de chegar.
—Aala! Eu sabia que você tinha chegado! — exclamou o senhor com voz grogue, pois havia bebido.
—Oi, pai! Tudo bem? -— perguntou Humberto, nada animado, indo em sua direcção para abraçá-lo.
Seu pai era um homem vencido pela bebida.
Marcado pelo alcoolismo.
Havia perdido o respeito dos amigos e familiares devido às situações difíceis e aos dramas que provocava.
—Está tudo bem, Humberto!
Não... não podia tá diferente! -— respondeu.
Mas, ao dar o próximo passo, tropeçou no próprio pé, e foi amparado pelo filho.
—Calma, pai.
Vai devagar -— falou o filho, segurando-o firme.
É melhor o senhor se deitar -— aconselhou entristecido.
O homem estava tão embriagado que não sabia o que responder.
Ele não conseguia pensar direito e Humberto o levou para o quarto.
Ao retornar, trocou olhar com Irene e foi directo para a cozinha avisar sua mãe.
Dona Aurora respirou fundo e, sentindo forte amargura, foi até o quarto para cuidar do marido.
De volta para a sala, Humberto reclamou:
—Parece que isso não vai mudar nunca.
Estou cansado de ver o meu pai assim.
—Ele havia parado de beber.
—Ele sempre pára de beber, Irene, por uma semana, um mês... depois volta.
Não tem opinião.
Não é firme nas decisões.
Vendo-o chateado, ela propôs:
—Quer sair?! Dar uma volta?
Meu carro está aí fora! -— sorriu.
—Primeiro vou comer aquele bolo gelado que só a minha mãe sabe fazer! -— riu de um modo travesso e foi para a cozinha, dizendo: —
Depois vamos dar uma volta, sim.
Mas eu quero voltar cedo.
Estou tão cansado e gostaria de dormir até!...
Irene não gostou dos modos alegres de Humberto, que era bem caseiro, mas nada disse e só o acompanhou.
***
Bem mais tarde, Humberto estava deitado em sua cama quando o irmão chegou.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 20, 2016 10:33 am

Rubens o cumprimentou com um sorriso e perguntou:
—Como estão as coisas?
—Bem! Tudo tranquilo! -— respondeu, indo abraçá-lo.
Depois se deitou novamente e ainda falou:
Eu não via a hora de voltar pra casa.
— O queridinho da mamãe não fica longe de casa, não é?!
O irmão fechou o sorriso e perguntou em um tom chateado:
— Por que você sempre me chama de queridinho da mamãe?
Não me sinto bem com isso.
—Por que você é!
A mãe não fala em outra coisa, há uma semana, a não ser na sua volta.
Até a Lívia percebeu!
—Lívia?! E o nome da sua nova namorada?
—É. É uma garota muito legal. Vai conhecer.
Ela já te conhece de tanto a mãe falar em você.
—Não se importa em trazê-la aqui, por causa do pai?
—No começo fiquei com receio, mas depois...
—Hoje mesmo o pai chegou daquele jeito.
—Agora, todo dia ele tá assim! — disse Rubens.
Com jeito moderado, um tanto constrangido, Humberto aconselhou:
—Toma cuidado, meu irmão. Vê se não faz como o pai.
—Por que me diz isso?! — perguntou, quase irritado.
—É que eu vejo que você gosta de beber um pouco.
Sei que não tenho nada com isso, mas falo para o seu bem.
De repente, sem que perceba, pode começar a aumentar as doses, a frequência com que bebe...
É bom se prevenir enquanto é cedo.
—Qual é, Humberto?!
Eu sei me cuidar!
—Tudo bem. Já entendi.
Virando-se, falou: -— Boa noite!
— Olha, cara, pode deixar que eu me cuido, tá?!
O outro não disse nada.
Rubens apagou a luz e saiu do quarto.
***
Mais de uma semana havia se passado.
Era sexta-feira de manhã quando a campainha tocou, insistente, na casa de dona Aurora.
Humberto levantou, entorpecido pelo sono, e foi ver quem era.
Ao ir até o portão, deparou-se com uma moça bonita, estatura baixa, pele alva e bem tratada, cabelos castanho-escuros, longos e lisos, que escondiam seus belos olhos castanhos expressivos, vermelhos de tanto chorar.
—Pois não?! -— desconfiado e estranhando a cena, ele perguntou com a voz rouca pelo sono.
—Por favor... A dona Aurora está? -— quis saber a moça educada com voz doce e embargada.
—Eu não sei... Perdoe-me...
Quem é você? -— perguntou em tom brando.
— Sou a Lívia, namorada do Rubens.
— Ah!... Sim! -— sorriu.
— Um minuto! Vou pegar a chave para abrir o portão.
— Em instantes ele voltou e a fez entrar.
Logo se apresentou:
— O meu nome é Humberto.
Sou irmão do Rubens.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 20, 2016 10:33 am

A moça apertou sua mão e desatou a chorar.
Sem saber como agir, ele disse:
— Venha! Entre!
Já na sala, ele a fez sentar e solicitou que aguardasse.
Imediatamente foi até o quarto de sua irmã e não encontrou ninguém.
Procurou alguém pelo resto da casa, e nada.
Voltando à cozinha, pegou um copo com água, foi até a sala e o entregou à moça, pedindo:
— Tome, Lívia. Vai se sentir melhor.
Com as mãos trémulas, ela pegou o copo e tomou alguns goles, vagarosamente, depois falou:
— Desculpe-me. Eu não sabia o que fazer nem para onde ir.
Decidi vir pra cá.
—É que não tem mais ninguém em casa.
Eu tirei quinze dias de férias, por isso estou aqui hoje.
Acordei agora e não sei onde minha mãe está.
Os meus irmãos e o meu pai já devem ter saído para trabalhar e...
O que te aconteceu?
Será que posso ajudar?
—Cheguei ao serviço hoje e fui demitida —- contou, sentida, controlando as emoções.
Sem saber o que fazer, Humberto falou com brandura:
—Sinto muito. Mas não fique assim.
Você arrumará outro emprego em breve.
—Talvez. O mais difícil será enfrentar o meu pai.
Ele não vai entender.
Minha mãe também... -— deteve as palavras.
—Desculpe-me, Lívia, eu não a conheço nem a seus pais, mas, hoje em dia, não se pode ser tão radical, tão duro.
Foi um acontecimento independente da sua vontade.
—Sim, eu sei.
Mas é que você não conhece o meu pai.
Esse emprego era muito importante para mim.
Pago meus estudos e...
Algumas lágrimas rolaram em seu rosto triste e, ao vê-la chateada, ele comentou:
—Olha, de repente isso foi bom.
Pode encontrar coisa melhor.
Quem sabe?!
Você tem um currículo?!
—Tenho.
—O Rubens ou eu mesmo podemos entregá-lo para a empresa onde trabalhamos e para conhecidos, quem sabe!
—Obrigada, Humberto.
Estou tão confusa, agora, mas vou cuidar disso.
Não sei como vou para casa com essa notícia.
—Não sei a que horas minha mãe vai chegar.
Nem sei aonde ela foi.
— Consultando o relógio, comentou:
São quase onze horas.
Se quiser, pode esperá-la.
Se não... Eu estou com o carro da Irene, minha namorada, e...
Se esperar eu tomar um banho e me arrumar, posso te levar para casa.
—Não. Não precisa.
Acho que vou indo.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 20, 2016 10:33 am

—Não será incómodo nenhum!
E só um minuto!
Nesse instante, dona Aurora chegou e logo ficou ciente de tudo o que aconteceu.
Humberto, por sua vez, sentiu-se aliviado, pois ela, imediatamente, confortou a moça dando-lhe toda a atenção.
Mais tarde, a pedido de sua mãe, o rapaz foi levá-la para casa.
Antes de Lívia descer do carro, ele pediu:
—Dê-me um currículo seu!
Vou ver o que posso fazer para te ajudar.
—Obrigada, Humberto.
Assim que eu actualizá-lo te entrego.
Desculpe-me por tudo.
—Não tem porque se desculpar.
—Obrigada mais uma vez.
Tchau -— sorriu agradecida.
—Tchau.
Ele permaneceu olhando-a entrar em casa.
De imediato, seus pensamentos ficaram confusos.
Reparou o jeito dócil, sua beleza generosa que se tornava encantadora com seu modo recatado e delicado de ser.
Sentiu-se tocado, como se já a conhecesse de algum lugar.
Havia simpatizado com a moça mesmo tendo conversado tão pouco com ela.
Foi uma atracção inexplicável. Sua voz suave e seu sorriso agradável foram marcantes.
Algo de que ele não iria se esquecer.
Humberto respirou fundo, sacudiu a cabeça afugentando os pensamentos, ligou o carro e partiu.
Era noite quando o telefone tocou na casa de dona Aurora, e o filho atendeu:
—Pronto!
—Rubens?! Sou eu, Lívia!
—Não! Aqui é o Humberto!
—Desculpe-me, Humberto.
É que sua voz é tão parecida com a dele.
—E verdade. Todos se confundem.
E aí, Lívia?! Tudo bem?!
Você está mais calma?!
—Um pouco mais calma, porém muito preocupada.
O Rubens está?
—Não. Ainda não chegou.
—Tudo bem.
Quando ele chegar, diga que eu liguei.
—Digo sim -— Lembrando-se a tempo, ele perguntou:
Ah! Não se esquece de me trazer um currículo!
—Lógico que não.
Estou actualizando-o e, assim que estiver pronto, o primeiro será seu.
Obrigada por sua atenção.
Nem nos conhecemos direito e você tentando me ajudar!
—Gostaria que alguém fizesse isso por mim, caso eu estivesse em uma situação como a sua.
Fique tranquila.
Vou fazer o que puder!
— Onde você trabalha, Humberto?
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 20, 2016 10:33 am

—Em uma indústria farmacêutica.
Estou de férias no momento, mas, ao retornar, na semana que vem, verei como posso te ajudar.
Só que a empresa fica longe do bairro onde moramos.
—Tudo bem. Distância não é problema.
Preciso do emprego.
Desculpe minha curiosidade, você faz o quê?
_ Um dos directores.
Trabalho na área financeira.
Lívia ficou surpresa, não pensava que ele ocupasse um cargo tão considerável, porém disfarçou ao perguntar:
_ Viaja sempre a serviço?
—Não. Foi a primeira vez e espero que seja a última -— riu ao falar em tom de brincadeira.
A empresa abriu uma filial no Ceará e o gerente de lá se demitiu.
A filial é nova e tinha muitas coisas pendentes em vários departamentos.
Então uma reunião me elegeu para ir ficar lá por uns três meses, a princípio.
Só para o tempo de contratação e treinamento de uma nova gerência e estabilização financeira.
Admitimos um gerente novo, mas, depois de três meses, sabe como é...
Ele ficou folgado e precisou ser demitido.
Foi necessária a contratação de outro e mais um período de treinamento.
Resultou que precisei ficar dez meses por lá.
—Nossa!
—Diga uma coisa, você estuda o quê?
—Estou no quarto semestre de Ciências Contábeis.
Detestaria trancar a matrícula por estar desempregada.
Foi algo tão repentino.
Trabalhei por seis anos nesse banco.
Foi o meu primeiro emprego.
Eu me sentia tão segura, tão confiante...
Até agora não me conformo!
—E aí na sua casa?
Como ficou o clima com os seus pais?
— Ai, Humberto... Que barra!
E que você não conhece o meu pai.
Minha mãe não pára de falar, me tortura o tempo todo.
O meu pai soube agora há pouco e quase me bateu.
— Quase bateu?!
Mas por quê?! -— perguntou incrédulo.
— É que ele é muito rigoroso.
Aquele tipo de pessoa rude.
—Não tenho nada com isso, mas estamos no século XXI!
Ele tem que entender.
—Eu sei, você sabe, mas ele não pensa assim.
O que eu posso fazer?
—Desculpe, não quis me intrometer.
Tudo bem... Vai dar tudo certo!
Em breve terá um emprego novo e melhor!
—Tomara. Obrigada por tudo por enquanto.
Quando o Rubens chegar, diga que eu liguei, por favor.
O celular dele deve estar desligado.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 20, 2016 10:33 am

— Pode deixar! Digo sim.
Os dois se despediram.
Humberto, após desligar o telefone, ficou pensativo e até inquieto com a situação de Lívia.
Repentinamente, ele se pegou preocupado e querendo, demasiadamente, ajudar uma pessoa que mal conhecia.
Aliás, gostaria de fazer algo por ela antes de seu irmão.
Não demorou e o telefone tocou novamente.
Era Irene.
— Oi, meu amor! Tudo bem?
—Nossa, Humberto!
O telefone só dava ocupado!
Eu não conseguia ligar! -— reclamou antes mesmo de cumprimentá-lo, deixando-o sem jeito.
—Não fiquei muito tempo ao telefone.
A Lívia ligou procurando pelo meu irmão.
Por que você não ligou no meu celular?
—Só dá caixa postal!
Se o deixasse ligado!... -— exclamou aborrecida.
— Ah... Esqueci -— respondeu, consultando o aparelho.
_ O que a Lívia queria?
Ela nem te conhece direito para bater papo.
— Ela esteve aqui hoje.
Humberto contou o acontecido e explicou:
— E agora há pouco ela ligou para falar com o Rubens.
—Sei... Tá bom, então.
Amanhã eu te ligo.
—Não vai precisar do carro?
— Não. A Cleide me deu carona até em casa.
Amanhã conversamos.
Vou tomar um remédio e vou dormir.
Estou com uma dor de cabeça terrível.
—É por isso que está mal humorada?
—Deixa de ser exigente.
— Amanhã nos vemos.
Te amo, tá -— falou em tom romântico.
— Eu também.
Assim que se despediram, Irene, que estava deitada na cama de um quarto de motel, virou-se para o lado e avisou:
— Rubens, a Lívia foi demitida.
— Sério?!
Antes de ela confirmar, ele suspirou fundo e reclamou:
— Que droga!
Em seguida, perguntou:
E se o Humberto ligar para sua casa?
— Não vai ligar, eu o conheço.
Rubens sorriu, fez-lhe um carinho e a beijou.
Rubens e Irene traiam Lívia e Humberto e suas próprias consciências não cumprindo suas promessas, não aproveitando a oportunidade que tinham para se harmonizarem e fazerem o que era correto.
Antes que terminassem suas férias, Humberto telefonou para a empresa onde trabalhava e não foi difícil encontrar uma colocação para Lívia no Departamento de Contabilidade.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 20, 2016 10:34 am

Ele havia comprado um carro novo quando retornou ao trabalho e ofereceu carona para a moça, comprometendo-se a pegá-la em casa bem cedo.
Conforme combinado, pontualmente, Lívia o aguardava no portão.
Estava radiante e ansiosa para iniciar.
Ao ver o veículo parar em frente à sua residência, sorridente, entrou e cumprimentou-o:
— Bom dia, Humberto!
Tudo bem?!
Dando-lhe um beijo no rosto, ele falou alegremente:
— Bom dia!
Tudo bem! E você?
— Estou óptima!
Um pouco nervosa, devo admitir.
— Isso é normal -— considerou sorrindo.
Durante o trajecto, eles conversavam e ela perguntou:
— Tenho uma dúvida, Humberto.
Como devo te chamar lá na empresa?
Senhor Humberto? Doutor Humberto?
Porque notei que a Miriam, do Recursos Humanos, e a Júlia, sua secretária, te chamam de senhor... de doutor...
Meio sem jeito, ele comentou:
— É um pouco complicado...
Veja, não é por mim...
Até porque não gosto de ser tratado de senhor.
Afinal, não sou senhor de nada.
Se eu tenho alguma coisa, é só para tomar conta -— riu.
Porém a empresa preserva termos de tratamento respeitoso e conservador.
Então, quando estivermos a sós quero que seja minha futura cunhada e me chame só de Humberto.
Se outro funcionário vir... tudo bem!
Mas perto de outro director ou mesmo gerente, faça como a Júlia: haja conforme a situação.
Ela não me chama de senhor quando não tem alguém por perto.
—Entendo. Pode deixar, não se preocupe.
Alguns segundos e admitiu:
— Ainda tenho muito que te agradecer por essa ajuda, pela confiança em mim.
Mal nos conhecemos.
—Há quanto tempo você e o Rubens estão namorando?
—Há dez meses!
—Então, assim que eu viajei vocês se conheceram?!
—Não. Nós nos conhecemos há cerca de dois anos.
Eu trabalhava no banco e ele teve um problema com a entrega dos talões de cheques.
Chegou nervoso e bem irritado lá na agência.
Fui atendê-lo e... Nossa!
O caso estava bem enrolado! -— riu.
Daí eu resolvi tudo.
Depois ele levou uma caixa de bombons para mim como uma forma de agradecer e pedir desculpas por ter sido um tanto mal educado.
Depois ele começou a ir ao banco toda semana.
Insistiu para que saíssemos para um lanche e daí tudo foi acontecendo.
Tanto que o Rubens insistiu que começamos a namorar há dez meses.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 20, 2016 10:34 am

Breve pausa e perguntou:
— E você e a Irene?
Soube que estão juntos há bastante tempo.
—Três anos.
—Ela me disse que vocês ficarão noivos.
—Sim, é verdade.
Íamos ficar noivos no aniversário dela, mas eu estava viajando a serviço e acreditamos que não ia ser legal.
Agora que eu voltei, estamos pensando em outra data e ela quer para breve.
—É engraçado, eu simpatizo tanto com a Irene.
Parece que nos conhecemos há séculos! -— sorriu Lívia.
—Ela também gosta de você.
Vai ver se conhecem de outras encarnações -— riu gostoso.
—Você acredita em reencarnação?
—Eu acredito.
O Espiritismo é uma filosofia que faz sentido para mim.
—Frequenta alguma casa espírita, algum centro?
—Actualmente, não frequento como deveria.
Sou espírita. Fui expositor nos cursos.
Fiz muitas palestras. Adoro isso!
—Por que parou?
—Pelas necessidades no serviço.
Desde que fui promovido a director, não tive mais tempo.
Depois com a viagem...
Mas vou voltar a fazer tudo novamente.
E você? Acredita no Espiritismo?
—Acredito. Gosto muito do assunto.
Já li vários livros, mas nunca fiz curso na casa espírita.
Adoro os romances!
Já fui a um centro várias vezes, mas não frequento como gostaria.
Os meus pais me matariam.
—Eles são muito rigorosos, não é?!
—Sim, são. Muito!
—O que o seu pai faz?
—Ele é feirante.
Meu pai sempre achou que eu deveria ajudá-lo na feira como o meu irmão faz.
Mas eu detesto feira! Entende?
É um serviço muito duro.
Então resolvi estudar.
O que causou a maior contrariedade no meu pai.
Por sorte e por ter um tio que tinha um conhecido que trabalhava no banco, eu consegui o emprego assim que fiz dezoito anos.
—Então você tem vinte e quatro!
—Como sabe? Ah!
Viu o meu currículo!
—Não só isso.
Outro dia você disse que foi o seu primeiro emprego e trabalha há seis anos.
—Que boa memória, hein!
—Tenho mesmo! -— falou envaidecido e sorridente.
—É por querer a minha ajuda na feira que o meu pai exige que eu trabalhe e tenha um salário maior do que normalmente eu teria com ele.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 20, 2016 10:34 am

Se eu ficar sem trabalhar, devo ajudá-lo na banca e eu não quero, pois ficará difícil eu arrumar outro emprego.
—Entendo.
O casal conversou longamente até chegarem ao trabalho, se separaram apesar de estarem no mesmo sector.
***
Naquele mesmo dia, no final da tarde, Humberto chamou Lívia até a sua sala e explicava:
—Após terminar os cálculos, você os transmite para as planilhas que serão repassadas para os fornecedores das matérias-primas.
—Entendi.
Jogando-se para trás sentado em sua cadeira, perguntou descontraído:
—Como é? Está mais tranquila agora?
Parecia tão nervosa hoje cedo.
—Ah! Eu estava nervosa sim!
Agora estou melhor.
O pessoal é bacana e bem paciente para me ensinar o serviço.
—A respeito de qualquer dúvida, fale com o Ademir, o seu encarregado.
Ele vai te ajudar.
Não passe dificuldade.
—Tudo bem.
—Entrei nessa empresa como encarregado desta sessão.
Eu tinha o cargo do Ademir -— sorriu de modo saudoso.
—Puxa! Que legal!
Alguns segundos e argumentou: —
Humberto, caso eu não esteja fazendo algo certo, por favor, me avise.
Chame a minha atenção.
Não quero ser protegida só pelo facto de ter sido apresentada por você.
—Pode deixar -— falou sorrindo.
Você não será poupada! -— brincou.
—Obrigada, Humberto! Nossa!
Eu não esperava arrumar um trabalho tão rápido, muito menos em uma empresa tão grande, tão estruturada!
Um salário tão bom!
Acho que não mereço tanto! -— riu com doçura e meio sem jeito.
—Pare com isso, Lívia -— sorriu, encabulado.
—Obrigada mesmo!
—Não por isso.
Acredito na sua capacidade.
—Então vou voltar pro sector.
Tenho algumas coisas que quero terminar hoje. Tchau!
—Até mais! -— despediu-se ele.
Humberto observou-a atentamente sair de sua sala.
Começou a sorrir admirando o jeito agradável de Lívia.
Para ele, a moça possuía uma personalidade cativante, carismática.
Sempre educada e amável.
Era inteligente e sabia se comportar.
Deixando os pensamentos vagarem, enquanto experimentava leve balanço em sua cadeira confortável, ele se perguntou:
"Como será que a Lívia tolera o Rubens?
Ela é tão simpática, amável...
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 20, 2016 10:34 am

Por ser tão esperta, não deveria estar com um cara como ele.
Sem dúvida que o idiota do meu irmão não reconhece as qualidades que ela tem.
Ela é tão bonita, delicada...
Seu sorriso e...
Droga!" repreendeu-se em pensamento.
"O que estou fazendo?!
Não é a primeira vez que fico pensando essas coisas!"
Contrariado com o rumo de suas ideias, de imediato, sobressaltou-se.
Esfregou o rosto com as mãos e, em seguida, alinhou os cabelos, suspirando fundo.
Imediatamente procurou ocupar-se, desviando sua mente daquele assunto, mas estava difícil.
Humberto começou a se irritar consigo mesmo ao admitir que passou a admirar a namorada de seu irmão.
Algo, naquela moça, parecia enfeitiçá-lo.
Por um instante começou a se arrepender por ter trazido Lívia para trabalhar tão perto dele.
Ao mesmo tempo, chegando à sua mesa, Lívia acomodou-se na cadeira e, observando o que precisava ser feito, pensou:
"Tomara que eu termine isso logo pra mostrar minha eficiência.
Afinal...".
Mudando os pensamentos, imaginava:
"Não sei como agradecer ao Humberto.
Ele é tão bacana! Me ajudou tanto!
Ele parece... Sei lá!
Mais legal do que o Rubens.
E não fuma!
Ah!... Mas o Rubens vai parar de fumar.
Ainda vou conseguir isso.
O Humberto é tão responsável, atencioso...
Ele nem precisava se preocupar comigo, mesmo assim me chamou lá na sala dele e ainda quis saber se eu estava nervosa.
A Irene tem sorte!
Ela bem que poderia tratá-lo melhor... ser mais atenciosa...
Hoje em dia é difícil um cara assim".
Mesmo divagando os pensamentos, Lívia dedicou-se ao trabalho não percebendo que sua admiração por Humberto crescia a cada momento.
O véu do esquecimento não era tão forte quanto o amor verdadeiro.
***
Os dias foram passando e certa noite, chegando perto de sua residência, Humberto viu sua mãe parada em frente ao portão de uma vizinha conversando.
Ao vê-lo, dona Aurora sinalizou para o filho ir até onde ela estava e assim ele o fez.
Descendo do carro, o rapaz cumprimentou:
— Boa noite! Tudo bem?
— Oi, Humberto! -— cumprimentou a moça que segurava firme no braço de dona Aurora e trazia no rosto sinal de choro.
— Oi, mãe! -— disse em seguida.
—Oi, filho!
Sem demora, avisou:
— Filho a cachorrinha que a Débora tem saiu pra rua e não estamos achando.
O Sérgio ainda não chegou e não sabemos mais o que fazer.
—Fica tranquila, Débora.
Posso ajudar a procurá-la, mas eu não a conheço direito.
Quer dar uma volta de carro pelo quarteirão para ver se a encontramos?
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 20, 2016 10:34 am

—Eu quero sim. Você me ajuda? -— perguntou com voz embargada.
—Mas é claro! Venha!
Observando que Débora estava grávida e aparentemente nervosa, ele perguntou:
— Você está bem?
— Estou. Só quero encontrar a Princesa.
Muito paciente, o rapaz ajudou-a a entrar no carro e perguntou a sua mãe em seguida:
— A senhora vem, mãe?
— Não. Eu fico aqui.
De repente a cachorrinha pode voltar.
Após percorrerem os quarteirões do bairro onde moravam, Débora começou a chorar.
Preocupado, ele perguntou:
—Quer ir embora?
—Não sei... Não estamos encontrando.
Ao olhar no portão de uma casa, próximo a um degrau na calçada, ele mostrou:
— Veja aquele cachorrinho ali!
— É a Princesa! -— exclamou, estampando no rosto um sorriso imediato.
Humberto parou o carro e juntos desceram, indo para perto do animalzinho.
Débora se abaixou, pegou a cachorrinha, que estava muito assustada, e lhe fez um carinho, apertando-a junto a si.
— Pronto! Encontramos a Princesa! -— disse ele satisfeito.
— Obrigada, Humberto! Muito obrigada! -— expressou-se imensamente emocionada.
Não sei como te agradecer.
Imediatamente eles retornaram para a casa onde dona Aurora esperava junto ao portão.
Ao ver o rapaz estacionar o carro, ela perguntou indo em direcção à porta:
— E então, filho? Encontraram?!
— Encontramos! -— afirmou sorrindo.
Ajudando Débora a descer do carro, ele segurou a Princesa no colo, depois a devolveu e inquiriu:
— Tudo bem, Débora?
—Tudo.
—Não é o que parece — tornou ele.
— Quer que entremos com você, menina? -— indagou dona Aurora.
— Você não parece bem!
Ela nada respondeu e o rapaz a conduziu para que entrasse.
Já na sala de estar, Débora sentou-se no sofá.
Estava pálida e quieta.
Passou a mão pelo rosto frio, abaixando levemente a cabeça, parecendo envergonhada.
Dona Aurora foi até a cozinha, pegou um copo com água enquanto Humberto pedia:
—Respire fundo, Débora. Abra os olhos.
Ela obedeceu e ele quis saber:
Quer ir ao médico? Eu posso levá-la!
—Não -— murmurou.
Procurando se manter firme, avisou:
— O Sérgio deve chegar daqui a pouco...
—Não estou gostando disso.
É melhor ir a um pronto socorro.
—Tome, filha -— pediu a senhora.
Bebe um pouco de água com açúcar que você vai melhorar.
Novamente ela obedeceu.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 20, 2016 10:35 am

Passados alguns minutos, comentou:
— Estou me sentindo melhor.
Não se preocupem.
Enquanto aguardavam, dona Aurora contou ao filho:
—Eu saí na rua pra por o lixo e vi que ela estava andando e olhando de um lado pro outro procurando alguma coisa.
Então vim até aqui e ela contou que, enquanto punha o lixo, a cachorrinha saiu sem que ela visse.
Depois que entrou, fechou o portão e só depois de muito tempo deu falta dela.
—Quando a gente se apega nesses bichinhos, eles se tornam parte da família -— comentou Humberto amável.
— É verdade... -— concordou Débora com voz fraca.
—De quantos meses você está? -— questionou ele.
—Vinte semanas, ou seja, cinco meses -— respondeu sorrindo.
O barulho vindo do portão da garagem, anunciava a chegada de Sérgio.
Sem demora, ele entrou e se surpreendeu com a presença de todos.
Educado e gentil, cumprimentou com expectativa ao sorrir:
—Boa noite!
—Boa noite! -— respondeu dona Aurora, estendendo-lhe a mão.
—Olá, Sérgio! Tudo bem? -— perguntou Humberto fazendo o mesmo.
—Tudo! Comigo tudo bem! -— Desconfiado, sorriu.
Ao mesmo tempo em que se aproximou de Débora, beijou-a, afagou-lhe o rosto, perguntando:
Tudo bem por aqui?
—Agora está. Não se preocupe -— disse dona Aurora que, rapidamente, contou toda a história.
—Você está bem? -— indagou o marido, afagando-a.
—Estou sim -— disse Débora encabulada.
Foi só um susto. Ai, gente... Desculpa!
Estou tão envergonhada! -— riu sem jeito.
—Não se preocupe, Débora. Isso acontece.
Se precisar da gente, filha, pode chamar! -— ofereceu dona Aurora.
Aliás, acho que vocês não têm parentes aqui perto, não é?
—É verdade! O mais próximo daqui é o meu irmão, Tiago.
Apesar de perto, por causa do trânsito, demora uns trinta minutos daqui até a casa dele.
—Por causa do seu estado, não é bom ela ficar muito tempo sozinha, Sérgio -— aconselhou Humberto.
— Nunca se sabe.
Quer ficar com o número do nosso telefone?
—Quero sim! Deixe-me anotar -— disse ele, indo pegar um bloco de anotações.
Retornando, tomou nota do número que Humberto falou e também passou o seu, dizendo:
— Aqui está o número daqui de casa, do meu celular e também da clínica onde trabalho.
Nunca se sabe...
—Vou ficar de olho nela, Sérgio.
Pode deixar -— avisou a senhora que, com jeito maternal, afagava os cabelos finos e aloirados de Débora.
Toda ajuda é bem vinda.
Principalmente agora.
Estou estudando à noite.
Faço Mestrado e fico bem preocupado, pois ela passa o dia sozinha e parte da noite também desde que deixou de trabalhar por recomendação médica.
—Não se preocupe, Sérgio.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 20, 2016 10:35 am

Vou ficar atenta!
Qualquer coisa, pode me chamar, viu?
Eu venho rapidinho! -— tornou a senhora bem prestativa.
—Isso mesmo. Não se envergonhem.
Vizinho é para essas coisas! —
Olhando para sua mãe, Humberto convidou:
— Vamos? Eles precisam descansar.
—Ah, sim! Claro! Então, tchau!
A senhora, amavelmente, beijou Débora que ainda parecia envergonhada.
Todos se despediram e eles se foram.
Ao se verem a sós, Sérgio tornou a perguntar:
—Tudo bem, mesmo Débora? A nené está bem?
—Estamos óptimas. Foi só um susto.
Abraçando-o com carinho, escondendo o rosto em seu peito, ela riu ao dizer:
— Ai! Que vergonha, Sérgio!
E tudo por causa da safada da Princesa!
Se eu pegar essa danada na rua!...
— Não vai fazer nada, tenho certeza!
Te conheço! -— disse rindo, abraçando-a com carinho e beijando-a em seguida.
Momento em que a cachorrinha entrou na sala bem alegre e fazendo festa para ser percebida por eles.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 20, 2016 10:35 am

4 - CONTRARIANDO O ALCOOLISMO

Um pouco mais tarde, enquanto jantava, Humberto conversava com sua mãe:
—Fiquei com dó da Débora.
Ela parecia bem nervosa.
Pensei que fosse precisar levá-la para o hospital.
—Algumas mulheres grávidas ficam bem sensíveis.
Foi só um mal estar.
Ela é um amor de menina!
Sempre tão educada!
— Ela parou de trabalhar, né?
—Parou. Só o Sérgio trabalha.
Você sabe. Ele é psicólogo.
Esse moço é tão esforçado!
Foi da polícia!
Primeiro alugou aquela casa.
Reformou tudinho.
Depois comprou.
Não sei muito da vida deles.
Só sei que são casados há menos de um ano.
São gente boa!
Admiro o jeitinho dos dois juntos. Você tem que ver.
—Já reparei. É um casal muito tranquilo.
Humberto sorriu ao dizer:
— Ela está uma grávida linda!
O Sérgio deve estar todo empolgado com o primeiro filho.
Eu estaria! Adoro crianças! —
Com um sorriso enigmático e olhar perdido, perguntou, parecendo sonhar:
— Será que quando eu me casar vou me dar bem assim?
—Está pensando em se casar logo, não é, Humberto?
—Estamos namorando já faz tempo.
Eu gosto da Irene, nós nos damos bem.
Devo esperar mais o quê?
—Será que ela é a mulher ideal pra você, filho?
—Como vou saber antes de me casar?
As vezes fico inseguro, vem uma dúvida... não sei do quê...
Já estou com vinte e nove anos, bem estabilizado financeiramente.
Perdi muito tempo me estruturando nesse sentido.
Alguns segundos de silêncio e perguntou: —
Parece que a senhora não simpatiza muito com ela, não é, mãe?
—Não tenho nada contra a Irene!
—Mas também não tem nada a favor!
—Eu não disse isso, Humberto!
—Eu sei. Outro dia eu estava observando e percebi que a senhora parece se dar melhor com a Lívia do que com a Irene.
—A Irene é extrovertida, agitada...
Não pára quieta!
Enquanto a Lívia é mais amorosa, atenciosa, caseira...
São duas pessoas bem diferentes.
—Sabe, acho que a Lívia não merece o Rubens.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 20, 2016 10:35 am

Quando conversamos, percebo que ela é uma pessoa tão centrada, segura, fiel... -— riu.
Enquanto ele... um irresponsável!
—Não fale assim do seu irmão!
Ele gosta de festa, de balada...
—Não é só disso que ele gosta, mãe.
O Rubens não assume qualquer responsabilidade.
Não está nem aí pra nada.
Fuma, bebe, sai com a mulherada...
Só está naquele emprego porque eu arrumei, se não...
Outro dia eu chamei a atenção dele por ter chegado de manhã e bêbado que só vendo!
Nem sei como conseguiu vir dirigindo pra casa!
Quer que eu acredite que, naquele estado, ele saiu com alguma mulher e se preveniu de alguma forma?
E quanto à Lívia?
Ele não a respeita?
—Essa fase passa.
—Sem dúvida que passa.
Mas será que não vai deixar consequências graves?!
Será que ele não vai se contaminar com alguma doença?!
Engravidar alguém?
E depois de casado, vai continuar do mesmo jeito?
A Lívia não o viu bêbado ainda!
Ela não imagina que, depois de deixá-la em casa, ele cai na farra!
Essa moça não merece esse cara!
—Seu irmão vai mudar. Isso é a idade.
—Que idade, o quê, mãe!
O Rubens tem vinte e seis anos! É bem grandinho!
A senhora fala como se ele tivesse dezoito!
Ele vai ficar como o pai.
Coitada da Lívia se não abrir os olhos!
Naquele momento a porta foi aberta e o senhor Leopoldo entrou.
Novamente o pai de Humberto trazia os olhos injectados, o rosto vermelho e os movimentos trôpegos, inseguros.
Ao falar lentamente, exalava forte odor de bebida alcoólica.
Imediatamente Humberto empurrou o seu prato de refeição, esfregou o rosto e segurou a fronte com as mãos, apoiando os cotovelos à mesa.
Instante em que o homem começou a falar coisas sem sentido, sem razão de ser e de modo cada vez mais agressivo.
—Cade minha comida?!
O prato era ......... era pra tá pronto!!!
O que você ficou fazendo?!!
—É melhor você tomar um banho primeiro, Leopoldo -— pediu dona Aurora paciente.
Vem, eu te ajudo.
—Ajuda o quê?! Por quê?!
Você pensa que eu não me aguento?!
Quem você pensa que é?!
— Venha, homem. Toma um banho frio, depois você come e— disse ela segurando-o pelo braço, tentando conduzi-lo.
Com modos rudes o senhor Leopoldo gritou:
—Banho frio por quê?!
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 21, 2016 10:35 am

Quero comer é agora!!!
Eu decido se vou tomar banho ou não!!!
Por que eu vou tomar banho frio?!!
—Por que você tá que não se aguenta.
Não vê que bebeu demais?!
Olha como está de fogo?!
— Cale a boca!!!
Tô de fogo coisa nenhuma!!!
Você, cale essa boca!!!
Quem você pensa que é?
Você não passa de uma...
O senhor Leopoldo começou a proferir frases ofensivas e agressivas.
Mesmo com a fala mole e expressões sem sentido, ele insultava dona Aurora tomando postura física de quem iria agredi-la fisicamente.
E tentou.
Nesse momento, Humberto não teve opção e interferiu.
Uma briga iniciou-se e durou até o pai gastar toda a sua energia e cair vencido pela embriaguez.
Depois de deixá-lo no quarto, com a ajuda do filho, dona Aurora reparou o corte que sangrava no supercílio de Humberto, resultado da agressão do pai, que o feriu com o prato que lhe atirou.
— Humberto, vem cá!
Você está machucado, filho!
Quando a mãe ia tocar sua face, ele pediu:
— Deixa, mãe! Por favor, deixa!
— Mas filho...
— Eu estou cansado disso, mãe!
Não vejo a hora de me casar e sair daqui!
Acompanhando-o até o quarto, entrou em seguida e perguntou firme:
—É por isso que vai se casar, Humberto?!
Vai se casar só para sair dessa casa?!
—Não é sobre isso que estou falando.
Não suporto mais essa situação.
Não sei como a senhora aguenta!
Com os olhos humedecidos pelas lágrimas, dona Aurora respondeu:
—E o que você queria que eu fizesse?
Acha que o correto é eu abandonar o seu pai?!
—Talvez fosse, mãe!
Isso seria bom para ele tomar vergonha e ter mais responsabilidade! -— falou, sentindo raiva.
—Humberto, eu e o seu pai estamos casados há trinta e sete anos!
Desde quando me conheço como gente, eu o vejo chegando em casa embriagado, agredindo a senhora e nos espancando quando éramos pequenos!
Depois que crescemos, não pode continuar nos batendo, mas ainda a agride se não estivermos por perto!
Como pode tolerar isso, mãe?!
Como a senhora aguenta?!
—Ele é meu marido!
Você não entende?!
—Entender o quê?!
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 21, 2016 10:35 am

—Vou deixar o seu pai e fazer o quê da minha vida?!
Não tenho mais vinte anos! -— disse, começando a chorar.
—Mas tem uma vida!
E, quando se tem vida, devemos fazer o melhor e o possível para nos sentirmos bem!
—E o que será desse homem?!
O que será do seu pai, Humberto?!
Você conseguiria viver tranquilo, viver bem mesmo sabendo que o seu pai está jogado na rua, na sarjeta?!
Sim, porque é isso o que vai acontecer se a gente deixar essa casa!
A solidão vai fazer miséria com a cabeça dele, pois todo homem que bebe tem a mente fraca.
Se ele tivesse abandonado o lar, seria diferente.
Mas não é esse o caso, meu filho.
Você e seus irmãos podem ir embora, mas eu não vou deixar o meu marido porque eu não viveria bem por causa disso.
Não teria tranquilidade ou paz se soubesse que ele vive na miséria por falta do meu apoio, mesmo que esse apoio não adiante muita coisa agora!
Fico admirada por uma pessoa como você, com o seu entendimento me dizer uma coisa dessa!
Com lágrimas correndo no rosto sofrido, porém olhando firme para o filho, falou:
— Eu ainda tenho esperança de que o Leopoldo pare de beber. Deus é grande!
Em seguida, virou-se e o deixou sozinho no quarto.
Humberto ficou remoendo os próprios pensamentos.
Estava contrariado e arrependido do conselho de separação que deu para sua mãe, afinal, isso era contra os seus princípios morais.
As lembranças mais vivas que guardava de seu pai eram dos momentos em que o homem se apresentava embriagado.
Sempre se envergonhou dos vizinhos e amigos por causa das situações constrangedoras em que seu pai se apresentava alterado, brigando ou com a fala trôpega pela bebida alcoólica que o deixava extremamente mal humorado, sem controle, ou sem domínio de si mesmo.
Sem mencionar os momentos de brigas, discussões ou agressões promovidas pelo álcool.
Aborrecido consigo mesmo, balançou a cabeça negativamente, num gesto enfadado e decidiu ir até o banheiro para lavar o rosto.
No caminho, o telefone tocou e ele decidiu atender:
Era uma tarde de sábado, quando Sérgio chegou à cozinha e avisou a esposa:
—Fui à garagem agora e o carro está com o pneu furado.
—Você vai trocar?
—Vou, mas não com o nosso macaco.
—Por quê?
—O macaco é novinho!
Nunca foi usado, mas está emperrado!
Não funciona! Acredita?! -— riu.
—Ainda bem que estamos em casa!
Já pensou se tivéssemos saído?
—Foi o que eu pensei.
—E agora?
—Acho que terei de incomodar o vizinho.
Será que o Humberto ou o Rubens estão em casa?
—Não sei. Quer que eu veja?
—Não, fique aí! Eu vou lá!
Passados alguns minutos, Humberto, bem disposto, estava na garagem da casa de Sérgio, ajudando na troca do pneu enquanto conversavam.
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Ave sem Ninho

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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 21, 2016 10:36 am

—Veja só! E se eu estivesse em uma auto-estrada?
—Ainda bem que aconteceu aqui e nesse horário.
Já pensou se é noite e a Débora precisa ir para o hospital?
—Nem brinca! -— Sérgio riu e falou:
Eu iria ter de pegar o carro de alguém!
Ao ver o pneu trocado, Humberto ofereceu-se, animado:
— Vamos lá no borracheiro arrumar!
O meu carro está na rua!
_ Não é preciso, Humberto.
Você já me ajudou muito.
— Não estou fazendo nada mesmo!
Vamos lá!
Diante da insistência, Sérgio concordou.
No caminho, e enquanto o pneu era consertado, eles conversavam sobre vários assuntos até Humberto comentar:
—Eu admiro muito você e a Débora.
Vocês dois formam um casal tão bonito pela calma que apresentam, pela união.
Outro dia lá em casa, minha mãe e eu comentávamos isso.
Daqui a pouco vou me casar e gostaria de saber o segredo dessa harmonia.
Gosto muito da Irene, nós nos damos bem.
Mesmo assim, às vezes, sou invadido por uma insegurança...
Temo haver alguma incompatibilidade que só se revele mais tarde.
—Nem toda incompatibilidade é prejudicial ou um problema em uma relação.
Quando um casal não se dá bem ou quando um deles quer, definitivamente, se afastar do outro, começa-se a criar situações ou procurar-se incompatibilidades em pequenos acontecimentos e costumes que poderiam ser considerados corriqueiros, normais e sem importância.
—Tipo, deixar os chinelos fora do lugar.
—Isso! -— Sérgio sorriu e confessou:
Esse é um exemplo óptimo.
Na minha casa, eu costumo esquecer os chinelos fora do lugar.
Sou muito organizado com tudo, mas deixo os benditos chinelos jogados num canto ou outro ou no meio da sala.
É lógico que a Débora não gosta disso, mas esse não é um grande problema entre nós.
Não é motivo de briga ou irritação para ela que sempre os recolhe e os coloca no lugar certo.
Isso não e um motivo de transtorno para nós.
Se bem que, nos últimos tempos, estou menos folgado por causa do estado dela.
Outro exemplo é... -— pensou e comentou:
Eu gosto de tomate na salada de alface e ela sempre esquece.
Eu poderia reclamar e questionar agressivo ou insatisfeito, mas não.
Sempre pergunto, com jeito educado, ou faço uma brincadeira.
Quando ela está ocupada e diz para eu ir pegar, eu vou.
Pego o fruto, lavo, corto e acabou.
Não fazemos dessa situação um problema.
—Mas esse tipo de postura é das duas partes.
Ela poderia ser agressiva e responder mal.
—Sim, poderia. Por isso, desde o início da nossa relação, um não deixa que o outro se altere sem, com muita calma, dizer que não é preciso falar daquele jeito.
Quando uma pessoa perde a serenidade, é agressiva com gestos ou palavras, muitas vezes ela não está insatisfeita com o que aconteceu naquele exacto momento.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 21, 2016 10:36 am

Na maioria das vezes, ela está insatisfeita consigo mesma ou por outro motivo completamente diferente daquele ocorrido naquela hora.
Quando estamos em paz connosco, não nos alteramos e quando fazemos o que é correto, vivemos em harmonia.
—Tenho receio de que a Irene se torne aquele tipo de mulher que se irrita à toa, que quer conseguir tudo no grito, viva momentos explosivos.
—Qualquer pessoa grita quando quer ser ouvida.
E o que é o grito?
— Sem esperar por uma resposta, disse:
O grito é um meio de comunicação entre aqueles que estão longe.
Uma pessoa grita porque ela está distante.
Se não existe muito espaço físico entre ela e a outra, então existe o espaço emocional, sentimental.
— Nossa! Isso é profundo.
— Isso é facto, meu amigo! -— disse Sérgio sorrindo, ao ver o outro reflexivo.
Ao chegarem à casa de Sérgio, Débora saía ao portão acompanhando Lívia, que foi logo explicando:
—Cheguei há cerca de uma hora!
Eu vi que ninguém a atendia no portão de sua casa e avisei que você saiu com o Sérgio, mas voltariam logo e pedi para ela esperar aqui -— completou Débora.
Humberto beijou o rosto de Lívia enquanto Sérgio limitou-se ao aperto de mão.
Em seguida, Humberto comentou:
—O Rubens saiu logo cedo e não chegou até agora.
A Neide foi à casa de um amigo e meus pais foram ao casamento do filho de um conhecido.
—Pensei que o Rubens estivesse aí.
Não consegui falar com ele.
Ele vive com o celular desligado!
—Quando não, esquece o aparelho em casa -— tornou ele.
Ao pensar que não ficaria bem permanecer na casa sozinha com Humberto enquanto esperasse pelo namorado, Lívia avisou um tanto constrangida:
—Então eu vou indo.
Mais tarde eu ligo para o Rubens e a gente se encontra.
—Vou te levar!
Rapidamente Débora e Sérgio se entreolharam, entendendo a situação, e ela propôs:
—De jeito nenhum!
Vamos entrar e tomar um café ou um suco, pois está muito calor.
—Não. Vou levar a Lívia até sua casa.
—Fará essa desfeita connosco, Humberto?! -— Sérgio sorriu ao brincar.
Quando eu precisar novamente de ajuda, vou recorrer a outro vizinho.
Não te procuro mais.
— Depois dessa ameaça, teremos de aceitar o convite! -— tornou o outro.
Eles entraram e se acomodaram na sala conversando longa e prazerosamente.
Em algum momento da conversa, Humberto comentou:
—Gostei muito do que ouvi do Sérgio, hoje, referente ao grito.
Disse-me ele que, mesmo estando perto, a pessoa grita porque está longe da outra emocionalmente.
—Bem profundo! -— concordou Lívia.
Eu nunca havia pensado nisso dessa forma.
—É uma distância sentimental, com certeza, mas essa máxima filosófica pertence a Gandhi -— explicou Sérgio.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 21, 2016 10:36 am

—Hoje eu estava comentando com o Sérgio sobre uma pessoa - —Humberto sorriu de modo engraçado e provocativo olhando para Débora e Lívia ao continuar -— quer dizer... eu estava falando sobre a mulher que muda sua personalidade depois do casamento.
Muitas se alteram e vivem irritadas, nervosas e passam a gritar.
Observei isso principalmente onde trabalho.
—Foi a coisa mais injusta que eu ouvi hoje, Humberto! -— reclamou Lívia com um tom engraçado na voz enquanto sorria intrigada.
—Estou comentando somente o que eu observo.
Não quero generalizar, mas...
Ele embaraçou-se e recorreu ao amigo: —
Sérgio, o que você acha?
—Todas as pessoas, independente do sexo, mudam o comportamento conforme aumenta a sua responsabilidade.
Algumas podem tomar para si excessos de tarefas e criar preocupações que não conseguem suportar.
Por isso o menor desafio ou um problema insignificante se torna um transtorno, algo insuportável.
Então, sob a pressão que ela mesma criou, a pessoa se irrita, fica nervosa, grita.
—Será que entendi bem?
É a própria pessoa quem se pressiona?
Não é alguém ou uma situação que faz isso? -— perguntou Lívia.
—Em absoluto! -— tornou Sérgio.
Pense comigo: eu posso, por algum motivo, ser exigente com você, fazer ameaças ou até fazer o maior terrorismo na sua vida para conseguir algo, mas quem se magoa, fica triste, se irrita, se desespera e se pressiona para obter o resultado é você mesma.
A única criatura capaz de tirar a própria paz somos nós.
Quando alguém diz não ter paz, eu digo que é porque essa pessoa não vem fazendo, na vida, o que é certo, a começar pela falta de fé em Deus e depois em si mesma.
—Nossa, Sérgio!
O que é isso?! -— admirou-se Humberto sorrindo.
— Só algumas horas com você e já aprendi tanto!
—Não é a toa que ele é psicólogo! -— ressaltou Lívia.
— Esse assunto vai me fazer reflectir muito.
—Estou vendo que as orientações de um psicólogo não são importantes somente para aqueles que passam por problemas — tornou Humberto.
—Lógico que não! -— afirmou Sérgio.
O trabalho de psicologia pode ser aplicado em qualquer pessoa e em qualquer fase da vida a fim de que ela progrida, seja melhor do que já é.
Você sabia que os atletas de muitos países têm acompanhamento psicológico?
—Por isso eles têm o maior número de medalhas!
Já ouvi falar! - disse Humberto.
—Sem dúvida que esse é um dos motivos.
Quando alguém tem controle emocional, domínio sobre si, sempre realiza o melhor no que faz.
Infelizmente, a grande maioria pensa em procurar um profissional, nessa área, só quando tem algum problema.
Eu me atrevo a dizer que a saúde emocional, mental é até mais importante do que a saúde física.
Quando se está bem emocionalmente, todo o seu corpo entra em um ritmo saudável e de paz.
—Vendo por esse lado, você tem toda razão.
O correto é irmos ao dentista e ao médico antes que um problema apareça, pois, caso haja algum comprometimento, será mais fácil de cuidar no início, antes de uma manifestação aguda — disse Humberto.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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