CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 03, 2016 11:39 am

Breve pausa e perguntou:
Quanto tempo faz isso? —
Ela não respondeu. Só chorava.
Ele tornou apreensivo:
— Você fez algum exame?
Algum teste de farmácia?
—Não... Mas está muito atrasada.
Humberto sentiu como se houvesse mergulhado em um lago gelado.
Ao mesmo tempo, foi invadido por um misto de sentimentos fortes.
Não sabia se chorava ou se sorria.
Lívia estava constrangida.
Tentava deter o pranto comovente, mas não conseguia.
Ele a puxou para si, abraçando-a com carinho e afagando seus cabelos ao dizer:
—Calma. Não fique assim.
—Você não quer esse filho... -— falou, sufocando a voz em seu peito.
—Eu?!!! De onde tirou essa ideia?!!! -— exclamou, falando baixinho.
—Você disse... -— murmurou.
—Eu nunca te disse isso!!! -— tornou no mesmo tom e volume.
—Disse sim... -— afirmou entre os soluços.
Disse que se sentiria péssimo com um filho que não planeou.
Afastando-a de si, olhou-a bem nos olhos e falou sério e firme:
—- Agora eu me lembro do que falei e de quando falei isso.
Eu disse que me sentiria péssimo se o Flávio fosse meu filho, pois não seria um filho que planeei.
Ele me faria ficar ligado à Irene. Eu falei sim.
Porém estava me referindo ao Flávio e a toda a situação com a Irene.
—Mas confirmou que a ideia de um filho te apavorava...
—Lívia, acorda!
A ideia de ter um filho com ela me apavorava, sem dúvida! -— sussurrava.
Conhecendo-a, essa ideia apavora qualquer homem!
Acariciando-lhe o rosto, disse com ternura, bem baixinho:
— Eu nunca diria isso de você ou de um filho nosso!
—Não planeamos Humberto.
—E daí?! -— exclamou, murmurando alegre e sorrindo.
Não planeamos, mas aconteceu!
Ele ou ela será muito bem-vindo!
—Meu pai vai me matar! -— sussurrou.
—Não vai não! -— Sorrindo, abraçou-a e apertou-a contra si. —
Vamos resolver isso.
Quase rindo, contou:
— Quando te vi desse jeito, pensei que tivesse acontecido alguma coisa grave!
Quase tive uma coisa! -— riu.
—E não é grave?!
—Lívia!... -— riu.
Não diga um absurdo desses! Eu te amo! —
Segurando seu rosto com carinho, beijou-a nos lábios e depois pediu:
Precisamos confirmar se está mesmo grávida.
Você precisa ir ao médico.
Enquanto conversavam na sala, Débora e Sérgio aguardavam na cozinha.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 03, 2016 11:39 am

Depois de contar ao marido o que estava acontecendo, eles ficaram aguardando e Sérgio comentou:
—Hoje cedo, ele veio conversar comigo sobre o facto do pai ter ido ao centro e gostado.
Parece que o homem começou a se interessar em se tratar do alcoolismo.
Foi conversar com ele a respeito...
Ainda bem que o Humberto leu aquele livro que emprestei para ele.
—Que bom! Fiquei contente com a notícia!
—Sugeri que ele fizesse com que o pai participasse mais da vida dele e da família para o senhor Leopoldo pegar aquele gostinho bom de se envolver em tudo.
Seria um estímulo e um incentivo para um tratamento.
O Humberto disse que o Fabiano já havia sugerido isso e foi por isso que convidou o pai para ir ao centro.
Mas eu percebi que o Humberto estava angustiado.
Ficamos conversando...
Fomos para a casa dele, pois queria me mostrar um DVD que comprou...
Foi aquela hora em que te avisei que iria lá!
—Sei.
—Então ele me contou sobre a Lívia parecer distante, não querer nada com ele.
Depois ainda teve as agressões verbais da Irene...
—Já sei! A cabeça do cara ficou um inferno!
—É! Ele se sentiu inseguro.
Também não é por menos!
—Quando se está fora da situação, é bem mais fácil enxergar com clareza o que está acontecendo de verdade.
—Isso é falta de diálogo.
É preciso ser calmo, franco e esgotar determinados assuntos entre um casal.
Eu sempre gostei disso.
— Por isso que eu sempre gostei de você! -— falou com jeitinho mimado, levantando-se e beijando-o rapidamente.
Sérgio a segurou pela cintura, trouxe-a para perto de si e a puxou para que o beijasse.
Depois disse:
—Eu te amo!
—Eu também te amo!
Ele sorriu e Débora pegou a bandeja com as xícaras de chá e perguntou:
—Será que é um bom momento para ir até lá?
—Acho que sim! Vamos arriscar!
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 03, 2016 11:39 am

23 - NOVA MANEIRA DE VIVER

Ao retornarem para casa, dona Aurora estava apreensiva e os recebeu com nítida preocupação:
— Nossa, Lívia! Você demorou tanto, filha!
— Ela estava na casa da Débora -— disse Humberto.
Quando o Sérgio ia embora, vi meu carro em frente da casa dele e fui até lá.
Lívia nada disse.
Trazia o belo rosto sério e vermelho por ter chorado muito.
Pegando algumas sacolas e bolsas, foi para o quarto da Neide.
— Ela está assim por causa do pai, não é?
Devem ter discutido.
Coitada -— acreditou a senhora com olhar piedoso.
Humberto se sentou à mesa da cozinha, serviu-se com café que havia na garrafa e ficou em silêncio.
Enquanto bebericava a bebida quente, conservava o olhar perdido em algum ponto sem perceber seu rosto iluminado por um sorriso agradável e faceiro, como o de um menino que houvesse feito alguma travessura.
A mãe ficou intrigada ao observá-lo daquele jeito.
Nunca o viu daquela forma.
Parecia estar muito bem, mas resolveu perguntar:
— Humberto, o que foi?
Ele não ouviu nem lhe deu o mínimo de atenção.
O senhor Leopoldo, parado à pia bebendo água, assistia à cena.
Notou que o filho estava longe.
Nem o viu chegar, por isso comentou:
—Deve ter aprontado alguma.
Lembro de ver essa cara quando ele era moleque e fazia alguma arte!
—Filho, o que foi?! -— insistiu dona Aurora.
Sem obter respostas, tocou-o no ombro ao chamar:
-— Humberto?!
Ele se sobressaltou, olhou para ela e abriu um largo e lindo sorriso ao perguntar:
— O que foi mãe?!
—Eu que te pergunto, o que foi?
Parece tão longe e rindo à toa!
—Estava só pensando -— falou sem conseguir segurar o sorriso.
— Pensando em quê?
— Na próxima semana vou colocar o apartamento à venda, definitivamente.
Ligarei para a Irene avisando para o caso de querer tirar alguma coisa que é dela e...
— Aquele apartamento está todo mobiliado.
Tem muita coisa sua lá!
Até algumas roupas suas tinham sido levadas e...
— Eu não quero nada que tem lá!
E, por favor, não vamos mais falar nisso! -— disse calmo.
Vou vendê-lo com tudo o que a Irene não quiser.
Depois... -— sorriu novamente.
— Acho que vou comprar uma casa!
Uma casa bem grande!
Acho que será melhor do que apartamento.
—Uma casa? -— perguntou o senhor Leopoldo.
—É pai! Uma casa!
Vou me casar! Quero ter filhos e...
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 03, 2016 11:40 am

—Casar, Humberto?! -— exclamou a senhora.
— Por que não, mãe?!
Ele se levantou.
Estampou um sorriso lindo e triunfante que não conseguia conter e concluiu:
—- Vou me casar com a Lívia!
Estou muito feliz com isso!
E... A propósito! -— disse antes de sair da cozinha.
Nós acreditamos que o neto de vocês está a caminho! -— virou as costas e foi para a sala.
Demorou alguns segundos para dona Aurora concatenar as ideias e reagir.
Num grito, foi atrás do filho:
—Humberto!!! Pelo amor de Deus!!!
O que você fez com essa menina?!!! -— desesperou-se.
—Não fiz nada contra a vontade dela, mãe!
Por favor! Não peça para eu explicar! -— respondeu em tom de brincadeira e caindo na risada.
—Me respeita, Humberto!!!
Veja como fala comigo!!!
Ele ria. Não se importou em vê-la zangada.
Logo a senhora advertiu:
— O pai dela vai matar vocês dois, filho!
—Ele não vai ficar sabendo —- falou sorrindo e bem seguro. —
Vamos convidá-lo para o casamento. Depois contamos.
—Filho, isso não está certo!
—O que não está certo, mãe?! -— perguntou mais sério.
— Eu sempre gostei da Lívia e ela de mim.
O que pode nos impedir de ficarmos juntos?!
Eu tenho quase trinta anos!
Sei o que quero da vida!
Chega de dúvidas e amarguras!
Eu quero é viver! Viver bem!
Viver ao lado de quem amo!
— É isso mesmo, Humberto! -— concordou o senhor Leopoldo. —
Construa uma vida!
Tenha uma família como sempre quis!
Você se esforçou muito para chegar financeiramente aonde chegou.
Aproveite agora tudo o que conseguiu!
O rapaz sorriu e ficou admirado com o que ouviu de seu pai.
Só então se deu conta de que era sábado e até àquela hora ele não havia bebido.
Indo até o filho, o pai estapeou-lhe as costas, mas Humberto o puxou para um abraço e agradeceu:
— Obrigado pela força, pai!
Dona Aurora, ainda confusa, explicou:
—Filho, eu não sou contra você se casar com a Lívia.
Gosto muito dessa menina e quero que seja feliz ao lado dela.
Você merece ser feliz!
Mas a forma como está fazendo tudo!...
Eu fiquei surpresa e assustada ao saber que ela está grávida.
Vocês mal começaram a namorar!
Imagine o pai dela?!
Você conhece o senhor Juvenal...
Ele é muito ignorante e vai reagir!
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 03, 2016 11:40 am

—Quando ele souber e pensar em reagir, nós estaremos casados, certo?
Ele não poderá fazer nada!
—Você deveria ter sido mais responsável, Humberto.
Planeasse o casamento, sim.
Mas se prevenisse de uma gravidez! -— falou séria, deixando-o a sós com seu pai.
—Que droga! -— reagiu.
Nunca pensei que a mãe fosse contra a minha felicidade! -— irritou-se.
—De quantos meses ela está? -— quis saber o senhor Leopoldo.
—De pouco tempo, pai.
Algumas semanas. Acho que... quatro semanas.
—Uma criança na família é uma coisa muito boa.
Eles começaram a conversar enquanto dona Aurora foi até o quarto de Neide.
Lívia, com lágrimas correndo pelo rosto, arrumava suas coisas em uma parte do armário quando a senhora entrou.
— Você está bem? -— perguntou a mulher, preocupando-se ao vê-la daquela forma.
— Estou -— respondeu constrangida.
— O Humberto nos contou -— avisou calma e com simplicidade.
A jovem parou o que estava fazendo, sentou-se na cama e abaixou o olhar, falando com um tom tímido na voz baixa:
— Desculpe-me, dona Aurora.
Eu não sei o que dizer.
— Meu filho gosta muito de você, menina, e eu também. —
Sentando-se ao seu lado, passou a mão pelos seus cabelos e, ao vê-la chorar, comentou:
— Eu estou contente, Lívia.
Muito surpresa, mas contente! -— sorriu.
Um neto é sempre bem-vindo!
É uma bênção para alguém na minha idade.
Eu estava muito angustiada porque, talvez, eu não possa ser a avó que eu desejaria para o Flávio.
Acho que a mãe do menino não vai deixar. Você sabe.
Fui visitá-la e ela tratou a mim e ao Leopoldo muito mal.
De repente, quando menos espero, Deus manda outro netinho através de você! -— sorriu generosa, acariciando-a.
Lívia não continha o choro e os soluços fortes.
— Não fique assim desse jeito.
Tudo vai dar certo! Conte comigo!
— Estou preocupada com o meu pai...
—Eu sei. Eu também estou.
Sou um pouco antiga.
Penso que deveriam ter casado...
Mas, se Deus permitiu assim...
—Nunca tive tanto medo na minha vida!
Conheço o meu pai... Ele...
— Vem cá! -— sorriu e puxou-a para um abraço.
O melhor é ficar calma agora. Pense no nené!
A senhora ficou consolando-a enquanto, na sala, Neide estava eufórica por saber da novidade.
—Jura, Humberto?!!!
—Não posso jurar!
Mas tudo indica que sim!
Ela tem quase certeza!
—Ai!!! Que legal!!! -— gritou abraçando-o e beijando-o.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 04, 2016 10:49 am

Depois brincou:
— Você hein!...
—Pare com isso, Neide! -— pediu, fingindo ficar sério.
—De quanto tempo você acha que ela está?
—Se estiver grávida, está, exactamente, de quatro semanas.
—Uaaaau! -— O irmão riu e não disse nada, mas ela perguntou: —
Espere aí! Quanto tempo faz que estão namorando?!
—Neide, vamos mudar de assunto?!
—Caramba!!! -— exclamou, rindo do irmão.
Depressão?! Sei!...
Você não perdeu tempo!
Humberto atirou uma almofada em sua direcção, mas ela se esquivou, avisando:
— Vou lá dentro conversar com ela direitinho!
***
O tempo foi passado.
Para Lívia, a luta interior continuava.
Confirmada a gravidez, Humberto era simplesmente uma figura simpática que sempre estava sorrindo.
Agindo conforme planeou, ligou para Irene e avisou sobre a venda do apartamento, dizendo que ela poderia ir lá para tirar suas coisas.
Ela o agrediu com palavras, tentando ofendê-lo, mas Humberto tinha motivos demais para não se deixar atingir.
Sem perder tempo, foi ao cartório com Lívia e marcaram a data do casamento.
Decidiram por algo simples: uma cerimónia com juiz de paz e um jantar para um grupo restrito de familiares para celebrar a união.
Caso não desse tempo de comprar e mobiliar a casa que queriam, morariam com seus pais até solucionarem a situação, e isso seria em pouco tempo.
Era bem cedo. Lívia, sozinha na cozinha, fazia o desjejum.
Seus olhos vermelhos derramavam lágrimas quentes que corriam por sua face pálida, enquanto os seus pensamentos ruminavam o facto de contar sobre o casamento para os seus pais.
Sentia uma terrível amargura invadir-lhe o íntimo como um mau pressentimento anunciando uma catástrofe.
Experimentava uma sensação exausta pelas emoções sofridas quando se surpreendeu com a presença de Humberto, que a abraçou pelas costas e beijou-lhe os lábios.
Sentando-se ao seu lado, afagou-a e disse:
—Bom dia!
—Bom dia! -— respondeu, fugindo ao seu olhar.
—Por que você está chorando? -— perguntou calmo.
— Pensando nos meus pais e em como eles vão receber a notícia. —
Alguns minutos e falou:
— Daqui a pouco vou lá conversar com minha mãe, aproveitando que ele está na feira.
Vou sozinha. Não precisa ir comigo.
Assim ficamos mais à vontade.
— Sabe -— disse pegando-lhe a mão gelada e acariciando com cuidado—, - eu creio que é o momento de você parar de pensar desse jeito em seus pais.
Não que deva esquecê-los, mas entender que, principalmente, o seu pai não quer fazer parte da sua vida.
Ela fitou os seus belos olhos verdes e falou sem chorar:
— Fico pensando em como ele vai reagir.
— Não interessa o que ele pensa.
O importante agora somos nós!
Se pensar nele te deixa desse jeito, triste, pense em nosso filho! —- sorriu.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 04, 2016 10:49 am

— Pense em mim...
Ela retribuiu com sorriso doce e expressão delicada ao sussurrar:
— Humberto! Eu te amo!
Sempre penso em você.
— Foi tão difícil ficarmos juntos, meu bem.
Enfrentamos tantas situações...
Temos o direito de sermos felizes juntos!
Breve pausa e considerou:
— Fico vendo você chorar e, às vezes, bate uma dúvida...
— Que dúvida?!
—Será que está triste por que está grávida?
Será que não queria um filho?
—Humberto! Eu não vou admitir que diga um absurdo desse! —- reagiu quase irritada.
Ele riu gostoso e brincou:
—Nossa! Fiquei com medo!
Gostei de ver!
—Isso não é coisa que se diga!
Não para mim!
— Desculpe-me -— pediu generoso, beijando-lhe a mão.
Eu quis brincar e mexer com você.
— Conseguiu! -— falou brava, mas fazendo charme.
Ele acariciou-lhe o rosto, beliscou seu queixo com carinho e perguntou:
—Tem certeza que quer ir sozinha na casa da sua mãe?
—Tenho.
—Posso ir com você.
Não. Será melhor nós duas conversarmos sozinhas.
Vou contar a ela que vamos nos casar, para que avise o meu pai e também fale sobre irmos lá outro dia para conversarmos com ele.
Depois ela me liga, dizendo como ele reagiu e...
Conforme for, iremos lá juntos.
—Eu não gostaria que fosse sozinha lá, mas... se é assim que quer fazer...
Lívia sorriu, levantou-se, curvou-se e o beijou nos lábios com todo o carinho enquanto ele a envolvia num abraço terno.
***
Já passava da hora do almoço.
Humberto estava nervoso e inquieto pela falta de notícias de Lívia, que não atendia o celular.
Havia ligado para a casa de seus pais, mas também ninguém atendia.
Imaginando o que poderia acontecer, caso o senhor Juvenal chegasse e a encontrasse lá, Humberto sentia-se mal.
Sua mãe tentava acalmá-lo. Em vão.
Sem conseguir calar o desespero que o dominava, decidiu ir à casa de Sérgio e pedir a ajuda do amigo.
Não tardou e estacionaram o carro frente à casa de dona Diva.
Humberto desceu rapidamente e foi até o portão.
Após vê-lo tocar a campainha várias vezes, Sérgio falou:
—Parece que não tem ninguém em casa.
—E agora? O que eu faço?
Uma vizinha que os viu frente ao portão, foi ao encontro de ambos e comentou:
— Não tem ninguém em casa!
— Oi! Eu sou noivo da Lívia -— apresentou-se dessa forma—, ela veio visitar a mãe e...
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 04, 2016 10:49 am

Não estou vendo o meu carro aqui!
Sabe me dizer alguma coisa?
A mulher o olhou desconfiada.
Não sabia como falar.
Por fim, disse:
— Chamaram o meu filho aqui para ele levar a Lívia pro hospital.
— Que hospital?! Por quê?! -— perguntou Humberto aflito.
— Quando a Lívia chegou, o seu Juvenal estava em casa e ela não sabia.
Teve uma briga feia e depois ele saiu.
Então a Diva veio chamar meu filho pra levar a Lívia pro hospital porque ela não estava bem.
Ao ver o amigo transtornado, praticamente em choque, Sérgio despediu-se:
— Obrigado. A senhora nos ajudou muito.
Virando-se para o amigo pediu:
Entre no carro! Acho que sei para onde a levaram.
Tem um Pronto Socorro aqui perto.
Não demorou e chegaram ao hospital público.
Viram dona Diva ao lado da filha, que não havia sido atendida e aguardava sentada, num banco frio, encostada no ombro da mãe.
Aflito, Humberto ficou assustado ao se aproximar.
Sérgio assumiu o controle da situação, decidindo:
— Vamos levá-la daqui!
Pegue sua bolsa e os documentos.
Apesar de atordoado, o outro obedeceu.
Rápido, Sérgio pegou Lívia e a levou para o carro.
— Onde é o hospital do seu convénio que fica mais próximo? - perguntou assim que entraram no carro.
— Eu mostro. Pegue aquela avenida! -— indicou.
Lívia precisou ser socorrida às pressas.
Levaram-na para um hospital com condições e estrutura melhores.
Horas mais tarde, Humberto, seus pais e sua irmã ainda aguardavam para saber de seu estado.
— Ainda bem que o Sérgio foi embora -— disse Neide.
Está demorando tanto!
Ele disse para telefonar que ele vem nos buscar.
O irmão não disse nada.
Levantando, começou a andar vagarosamente de um lado para outro do grande corredor.
Algum tempo depois, o médico apareceu procurando por Humberto.
Conduzindo-o para uma sala, informou:
— Ela está bem machucada.
Foi muito agredida. Teve uma hemorragia.
Chegou a perder os sentidos, mas já recobrou a consciência.
Porém inspira cuidados.
Aparentando-se controlado, Humberto avisou com voz pausada e trémula:
— Doutor, ela está grávida.
E o nosso filho? Como está?
—Não sei lhe dizer isso agora.
Precisamos aguardar.
De quantas semanas ela está, mesmo? -— perguntou calmo, porém preocupado.
—Cinco semanas.
—É uma gravidez recente...
A hemorragia não foi forte, mas foi considerável e ainda não está totalmente controlada.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 04, 2016 10:50 am

O obstetra de plantão foi chamado e já está descendo para examiná-la.
Humberto sentia-se derrotado.
Não sabia o que dizer.
Sentiu o rosto esfriar.
Pálido, tentando conter as emoções, o que não conseguiu, perguntou com lágrimas correndo pelo rosto.
—Posso vê-la?
—Ela está bem machucada.
Precisou de pontos nos cortes nas diversas partes do corpo, por isso precisou de sedativos.
Talvez não consiga conversar ou reagir como você pensa.
—Só quero vê-la... -— insistiu.
—Então vamos lá!
Por causa de uma pancada na cabeça, principalmente, ela precisará ficar em observação até amanhã.
Será melhor. Além disso... -— explicava o médico enquanto caminhavam para ver Lívia.
***
Na noite do dia seguinte, Lívia já estava na casa de dona Aurora e sob os maternais e rigorosos cuidados da senhora.
— Eu pensei que ela fosse perder o nené! -— admirou-se Sérgio ao conversar com Humberto longe dos demais.
—Eu também. Mas esse tem raça!!! -— exclamou Humberto sorrindo.
Ele disse: eu fico!!!
Não quero voltar pro plano espiritual, não!!! -— riu.
—Ela vai precisar fazer muito repouso.
—Eu sei! O médico fez o maior sermão sobre isso.
O que mais me deixa indignado é o facto de ela não querer prestar queixa!
Não insisto para não contrariá-la.
Não quero que fique nervosa, principalmente, agora.
—Sabe, Humberto, às vezes não vale a pena.
Você vai se indispor com ela que, apesar de tudo, quer proteger o pai.
Agora ela vai continuar ao seu lado sem dar tanta importância à família antiga.
—Precisou acontecer isso pra ela ver que é necessário se desligar deles! Que droga!
—Infelizmente precisou.
—Você viu o meu carro? -— perguntou Humberto.
—Não. Por quê?!
—Fui buscá-lo, hoje cedo, na casa do rapaz que socorreu a Lívia e a levou ao hospital.
Chegando lá, vi que a lateral direita está amassada!
—Sério?!
—O cara não soube explicar o que aconteceu e...
Fazer o quê?! Eu nem disse nada.
Afinal, o rapaz só pegou o carro para ajudar.
—Por que não me chamou para ir lá com você?
—Não! Já te incomodamos muito!
—Então, vamos lá! -— brincou Sérgio.
Vamos ver o que aquela mulherada está falando!
—Sérgio, obrigado! Muito obrigado por tudo!
Você está sendo mais do que um irmão para mim!
—Ora! O que é isso?!
***
Certamente a vida de Humberto não se renovaria se ele não tivesse agido.
Ficar somente temeroso frente às consequências daquilo que nos abala, não é suficiente.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 04, 2016 10:50 am

Apesar da dor, do medo, de todas as terríveis sensações, que experimentou sob o efeito de seus transtornos, e a obsessão sofrida, ele reagiu e agiu.
Tudo o que realizou em seu benefício surtiu efeito positivo.
Seria muito fácil, cómodo e improdutivo fazer-se de infeliz e desvalido da sorte, atirando-se ao leito e passar a viver como uma carga para a família e para a sociedade.
Lógico que precisou de um supremo esforço para dar os primeiros passos em busca da libertação, mas isso o tornou muito mais forte e mostrou sua capacidade de resistir, corajosamente, ao abatimento.
Seu abalo psicológico foi um chamado de retorno à falta do perdão verdadeiro e amor incondicional a uma única criatura.
Quanto mais conhecemos, por nós mesmos, as dores ocultas, mais devemos nos interessar pelo socorro aos outros como nos ensina o Evangelho.
Humberto havia se afastado de seus princípios, por isso perdeu a paz, mas a encontrou novamente com as bênçãos de Deus, através de sua fé e perseverança.
Amigos do plano espiritual somente o ampararam, sem interferir.
Foi com suas preces, com sua fé, que se ligou ao Pai, a fluidos benéficos e salutares que o recompuseram a cada dia e a cada oração.
A realização do Evangelho no Lar, que reiniciou sozinho, não só foi, pouco a pouco, unindo a família, como higienizando todos os ambientes do lar, enfraquecendo até neutralizar totalmente a acção dos espíritos inferiores, que os castigavam impiedosamente.
Assim como também sua leitura diária do Evangelho junto com a água fluidificada, alimentavam o espírito, recuperando-o e suprindo-o das energias de que necessitava.
Mas tudo havia acabado.
Os obsessores não mais conseguiam estar perto dele por incompatibilidade, pela sua energia psíquica, espiritual ter-se intensificado pela forças recebidas do Pai da Vida, que a todos socorre, quando solicitado com fé, por justos motivos de amor e para a elevação.
Para com os obsessores, não foi necessária a acção de espíritos superiores, pois Humberto mostrou sua superioridade aos seus perseguidores.
Naturalmente, a vida o deixou conhecer toda a extensão de suas forças e, com serenidade, conduziu-o a um novo início, a uma nova maneira de viver: mais tranquila, mais confiante.
Ele foi fiel ao seu propósito reencarna tório. Para se melhorar, ele pôs em prática tudo o que aprendeu.
Fazia duas semanas que ele e Lívia haviam se mudado para a casa que compraram.
Uma bela residência, arejada e iluminada.
Como ele queria!
A gravidez estava bem adiantada e ela, como toda mãe, preocupava-se com detalhes do enxoval.
—Lívia, e a licença maternidade?
Já falou com o doutor Kleber?
—Ah, não! Eu estou bem!
Estou óptima e, se for possível, quero trabalhar até o último dia!
—Assim também não! -— disse, acariciando-lhe a barriga.
Nesse instante, o telefone tocou:
— Te acordei, filho?! -— perguntou a senhora quando Humberto atendeu.
— Não, mãe! Faz tempo que acordamos!
—Se te acordei, desculpa, mas...
Você está muito ocupado?
—Não. Por quê? -— Notando um tom de preocupação na voz de dona Aurora, ele quis saber:
Aconteceu alguma coisa?
—Filho, você pode vir até aqui?
—Algum problema?
—Não... É que...
A Irene está aqui e queria conversar com todos nós juntos e...
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 04, 2016 10:50 am

—Ah, não! Espere um pouco!...
Isso não está acontecendo!!!
— É importante, Humberto, ou eu não te pediria isso.
Ele pensou por alguns minutos e resolveu:
— Tudo bem. Daqui a pouco estarei aí.
Após desligar, sentiu-se contrariado.
O que Irene queria?! Ele estava casado!
Estava muito bem!
Não desejava qualquer dilema que incomodasse a sua felicidade.
Virando-se para Lívia, contou o que ouviu de sua mãe, e ela decidiu:
— Vamos lá o quanto antes.
Não imagino o que ela possa querer.
Sempre dificultou as visitas de sua mãe ao Flávio...
Nunca levou o menino na casa dos avós...
Precisamos saber o que está acontecendo.
— É melhor você ficar, Lívia.
— Mas de jeito nenhum!!! Eu vou sim!!!
Para não contrariá-la, Humberto concordou.
***
Não demorou e estavam na sala da casa de dona Aurora.
Ao ver todos reunidos, com grande expectativa, para saberem do que se tratava, Irene revelou:
— Vou ser bem directa.
Sem trégua anunciou:
— Estou aqui para ver se a dona Aurora quer ficar com o Flávio.
— Como assim?! -— perguntou Neide.
— Ela é avó. O Flávio é filho do Rubens, como vocês sabem.
Eu até o registei no nome do pai e todos concordaram.
Agora, naturalmente, a dona Aurora vai querer ficar com ele, porque é avó de facto e de direito, uma vez que eu não vou poder mais tomar conta dele.
—O que você quer dizer com isso?! -— estranhou Humberto. —
Você está dando o Flávio para minha mãe?
—E o seguinte: Humberto.
Há pouco tempo, eu descobri que estou muito doente.
É uma doença degenerativa.
A princípio fiquei revoltada... -— contou com lágrimas nos olhos.
— E uma doença progressiva e sem retorno à normalidade.
Em pouco tempo, eu não terei condições de tomar conta do Flávio.
—Hoje a medicina está muito avançada e...
—Não para a doença de Huntington, Lívia.
Ela provoca distúrbios progressivos dos movimentos, espasmos e demência.
Não vou dizer que estou conformada, mas preciso organizar a vida a começar pelo Flávio.
Breve pausa e contou:
— Peço desculpas, principalmente, ao Humberto, por ter que lembrar disso, mas a verdade é que eu não queria ter filhos, nunca quis.
Eu iria tirar a criança quando soube que estava grávida.
Porém, quando o Humberto quis terminar comigo, eu pensei que o único jeito de prendê-lo, seria dizer que eu esperava um filho dele e...
Bem, isso funcionou.
O Rubens não soube dessa gravidez antes do Humberto e não soube que era filho dele.
Quero que saibam que estava tudo agendado para o aborto no dia seguinte que eu precisei contar e não o fiz por sua causa -— confessou, fitando-o nos olhos.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 04, 2016 10:50 am

O silêncio era absoluto.
Com lágrimas a correr pela face, ela continuou:
— Reconheço que não sou uma boa mãe.
Parece cruel dizer isso, mas é a verdade.
Agora é o momento decisivo e eu preciso ser realista.
Minha família não é muito unida...
Moro com minha tia que tem inúmeros problemas e, como se não bastasse, somente ela pode cuidar de mim...
Enfim, conversei com ela sobre o Flávio e, apesar de gostar muito do menino, ela disse que o melhor, para ele, era ficar sob os cuidados da avó.
Todos vocês gostam muito de criança...
A dona Aurora já perdeu o filho e... de certa forma eu fui culpada...
Minha tia me aconselhou dizendo que deixar o Flávio com vocês era o mínimo que eu poderia fazer.
Ele é saudável, bonito... -— chorou.
O senhor Leopoldo se levantou.
Foi em sua direcção e pegou o menino, que dormia em seus braços.
Agasalhando-o no peito, embalou-o com cuidado e se dirigiu para o quarto sem dizer nada.
Irene secou as lágrimas com as mãos, permanecendo de cabeça baixa ao abrir uma bolsa e dizer:
— Aqui estão os meus exames e até uma cópia de um dos laudos para que fiquem com ele... -— disse, colocando o papel sobre a mesa.
— Se quiserem, eu posso assinar algum documento dizendo que é de minha vontade que o Flávio fique com a avó a partir de agora.
Observando que sua mãe estava petrificada, em choque e sem reacção, Humberto lembrou:
—Eu disse a você que todo e qualquer apoio que o Flávio precisasse, eu iria dar.
Temos um filho a caminho...
Mas eu e a Lívia vamos conversar e...
—Nem precisamos conversar -— interrompeu Lívia firme.
Temos condições de criar o Flávio como nosso filho e...
—De jeito nenhum!!! -— reagiu dona Aurora, inesperadamente. —
Ele é meu neto!!! Pode ficar em paz, Irene, pois eu vou cuidar muito bem dele.
O Flávio será muito amado!
Irene chorou compulsivamente e Humberto a olhou com piedade, mas não podia fazer nada.
Lívia se levantou e se sentou ao seu lado.
Afagando-lhe o ombro e as costas esperou a outra se refazer e comentar:
—Eu tinha certeza que vocês iriam aceitá-lo.
Por essa razão, eu trouxe tudo o que é dele.
As coisas estão lá no meu carro.
Eu ainda preciso procurar um advogado e ver o que posso deixar para ele como herança.
Talvez não reste muita coisa, pois preciso pensar nos gastos que terei com minha saúde.
Não quero dar muito trabalho para minha tia.
Estou pensando em uma internação, se for possível...
—Não diga isso, Irene.
De repente pode não ser assim -— disse Lívia comovida.
—Preciso ser realista! Não posso me iludir!
Alguns minutos e considerou:
Estou muito satisfeita por aceitarem ficar com ele desde agora.
Será bom. Ele é pequeno e vai se acostumar logo com vocês.
—Como descobriu que estava doente? -— perguntou Humberto em tom impressionado.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 04, 2016 10:50 am

—Comecei me sentir estranha.
Um médico disse que era depressão pós-parto.
Alguns sintomas diferentes começaram aparecer.
Eu reparei que tinha alguns espasmos, movimentos involuntários em várias partes do corpo, inclusive, repuxões no rosto, na boca...
Comecei a ter o que os médicos chamam de perda cognitiva, ainda suave, que são os esquecimentos, pensamentos confusos, falta de concentração...
Eu queria falar uma coisa e falava outra.
Então foram solicitados vários exames, inclusive de ressonância, que mostrou a atrofia do lobo frontal do cérebro, a princípio.
O médico se surpreendeu porque o meu quadro vem se acelerando, rapidamente, diferente de outros históricos clínicos.
Geralmente, essa doença tem início após os trinta e cinco anos e estou com vinte e oito.
Ela tem um tempo de evolução, em média, de quinze anos até a morte, mas o aumento dos meus sintomas vem progredindo muito rápido.
Os meus movimentos estão sem harmonia, sem controle e mais abruptos a cada dia.
Essa perda de movimento vai comprometer todas as partes do corpo.
Com o tempo, posso desenvolver a doença de Parkinson.
É certo que vou perder a consciência e ficar debilitada mentalmente até a demência e tantas outras reacções que vão me deixar num leito, impossibilitada.
Estou vendendo minha parte da sociedade das lojas que tenho.
Parte do dinheiro será gasto com as minhas necessidades e a outra, quero deixar para o Flávio.
— Irene, preocupe-se com você.
Ele estará muito bem amparado -— avisou Humberto, firme.
O que eu der ao meu filho, darei igual para o Flávio.
Abrindo novamente a bolsa, entregou à Lívia comunicando:
— Essa é a ficha médica do Flávio.
Peguei ontem no pediatra.
Como podem ver, ele é perfeito, tem óptima saúde...
Se quiserem mantê-lo no mesmo médico que já o conhece...
Aqui está a certidão de nascimento.
Após isso Irene se levantou.
A mulher alta e elegante, que sempre desfilou esbanjando nobreza e alegria, agora parecia definhar.
Estava extremamente abatida.
Nem suas roupas de alto custo lhe davam aparência melhor.
Foi então que puderam reparar nas contorções, os espasmos aos quais havia se referido.
_ Aonde você vai? -— perguntou dona Aurora.
_ Vou embora.
Meu primo está me esperando há muito tempo lá no carro.
_ Ele deveria ter entrado! -— reclamou a senhora.
- Eu queria conversar com vocês sozinha. — Breves instantes.
Todos se levantaram e ela pediu:
— Poderia ir alguém comigo até o carro pegar as coisas do Flávio?
_ Claro! - prontificou-se Humberto, ligeiro.
Observando-a, sentiu-se apiedado e até arrependido de ter desejado o seu mal.
Percebeu que Irene começava a sofrer as consequências de seus erros, de sua vaidade e orgulho.
_ Irene! - chamou dona Aurora.
Quando você quiser ver o seu filho...
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 04, 2016 10:51 am

Pode ser até de madrugada, pode vir aqui ou telefone, que nós o levamos até você.
_ Obrigada - falou com voz fraca, abaixando o olhar.
Lívia estava emocionada. Aproximando-se de Irene, envolveu-a em um abraço forte e carinhoso.
Irene a apertou firme e começou a chorar.
Ficaram assim por algum tempo.
Ao se afastarem, Lívia secou o rosto com as mãos e disse:
_ Eu vou te visitar, se não se importar.
_ Pode ir.
Quando ia saindo, virou-se e ainda falou:
— Lívia, talvez não acredite, mas eu gosto muito de você.
Não sei porquê, mas...
Desculpe por tudo, por dificultar a sua felicidade -— chorou. —
Quero que seja muito feliz. Boa sorte.
Neide, com lágrimas nos olhos, abraçou-se à Lívia, comovida.
Irene não se despediu do filho.
Após ela ir embora, todos estavam sentados na sala e permaneciam em total silêncio até o senhor Leopoldo chegar com o neto no colo.
Flávio brincava e sorria, muito esperto e alegre.
Dona Aurora, imediatamente, quis pegar o neto no colo, mas o senhor Leopoldo reclamou querendo ficar com o menino.
_ Olha lá! Já começou! -— riu Neide.
O Felipe precisa nascer logo para esses dois pararem de brigar!
Vai dar certinho: um neto para cada um!
_ Quem falou que vai se chamar Felipe? -— perguntou Humberto, sorridente.
— A Lívia!
— Dedo duro!!! Não era pra contar! -— brincou descontraída.
***
Não passou muito tempo e Humberto, radiante, estava em sua casa recebendo a visita de Sérgio e Débora pelo nascimento de Felipe.
—Cara! Faz três noites que eu não durmo! -— ria ao contar.
—Criança pequena é assim mesmo!
Elas são muito exigentes!
Com o tempo, isso passa -— Sérgio riu e brincou:
Isso passa, mas chegam outras preocupações.
—Apesar do trabalhão, eu agradeço muito a Deus por tudo! Nossa!
É tão gratificante ter paz!
Sentir felicidade! -— comentou Humberto.
E eu não sei?!
É importante descobrir que a felicidade não está nas coisas, mas em nós.
Acredito que, na frase, "a felicidade não é deste mundo", refere-se ao mundo exterior.
Na verdade, a felicidade é do mundo interior, tem que ser na alma.
—E verdade. Depois de tudo o que aconteceu, eu aprendi a viver melhor.
Quando algo diferente, fora do normal acontece, eu pergunto:
para que isso serve para minha evolução?
E não mais por que isso aconteceu comigo?
—Você está usando as dificuldades como ferramentas para a evolução.
—Precisei usar todo o meu conhecimento teórico, na prática, e a duras penas.
Um dia acordei com a seguinte frase:
nossos pensamentos, nossas práticas e nossa linguagem são responsáveis pelas forças superiores que nos protegem.
Precisamos ficar vigilantes.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 04, 2016 10:51 am

Muita coisa mudou Sérgio. Graças a Deus!
—Falando em mudança... eu vi o seu pai.
Nossa! Como ele está bem!
—Quem diria! O meu pai!...
Devagarzinho, ele foi gostando do centro, se achegando mais à família...
Depois que passou a frequentar os Alcoólicos Anónimos, como está mudado!
Depois que precisou, junto com minha mãe, tomar conta do Flávio, ele ficou muito diferente, mais responsável e participativo.
—Quem provocou toda essa mudança foi você, Humberto.
Ele, talvez, bebesse pela doença, mas se sentia excluído da família.
Quando você começou a conversar com ele, tratá-lo com mais atenção...
—Mas eu nunca o tratei mal!
—Também não o tratou bem!
Acho que você se afastava de seu pai.
—Breve pausa em que deixou o outro reflectir e continuou: —
Depois, acho que com as orientações do Fabiano, você deixou o seu pai fazer parte da sua vida.
Começou a se interessar por ele que, por sua vez, gostou e quis retribuir.
Por isso decidiu se tratar do alcoolismo.
Às vezes, a pessoa pensa que é o filho, ou o pai, ou o marido, ou a mãe quem precisa de terapia, de orientação psicológica, quando, na verdade, é ela, bem lúcida, quem precisa dessa orientação para poder ajudar aquele familiar necessitado.
É como a gripe. Você não pode arrancar os vírus da gripe de seu corpo, mas pode fortalecer e aumentar os anticorpos para combatê-los.
—Será que eu precisei de toda aquela movimentação tenebrosa para entender que precisava deixar meu pai participar da minha vida? -— perguntou Humberto, pensativo.
—Não exactamente.
Mas para arrumar um comportamento seu, você arrumou todos e o seu pai, de alguma forma, por algum motivo que ignoramos, queria várias coisas, inclusive participar da sua vida, algo que ele não fazia.
—Vai ver, eu neguei isso a ele no passado.
Após alguns segundos, comentou:
— Sabe, às vezes, tenho certo medo de experimentar novamente aquele estado horrível.
Até comentei isso com o Fabiano.
—Toda aquela movimentação violenta e dolorosa que experimentou mudou radicalmente o seu comportamento, talvez, acomodado.
No seu caso, com o conhecimento que tem, você havia deixado de praticar a prece, o evangelho.
Abandonou suas actividades e deveres morais na casa espírita quando se afastou das exposições das palestras e dos cursos.
Abandonou muita coisa, e o mundo não parou à sua volta, tudo continuou acontecendo e você ficando desarmado para a vida.
Precisou de um abalo muito grande para voltar ao seu ritmo, aos seus deveres e isso teve de fazer sob duras penas, apesar de todo sofrimento na alma.
Então necessitou buscar forças no Pai e em você para se equilibrar, agir e reagir.
Para isso, mudou toda a sua vida e a vida daqueles que estão à sua volta.
—Sacrifiquei muito a Lívia, porém ela ficou ao meu lado o tempo todo.
—Não. Você não a sacrificou!
Além de ser instrumento, ela aproveitou a oportunidade e se mostrou determinada e forte ao te impulsionar.
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Re: CORAÇÕES SEM DESTINO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 04, 2016 10:51 am

Por outro lado, você aproveitou, mas não ficou dependente dela e isso foi muito importante.
Há uma frase no evangelho mais ou menos assim:
"quando um golpe é desferido contra nós, ao lado dessa grande prova, Deus coloca sempre uma consolação".
Não foi por acaso que ela estava ao seu lado.
Não foi por acaso que te aconteceu isso.
Mas você venceu! -— sorriu.
Assim como você, eu descobri isso na prática, meu amigo!
—Você surtou assim como eu? -— perguntou Humberto curioso.
—Um dia te conto. A história é longa! -— riu.
—Graças a Deus estou me sentido muito bem!
Estou óptimo! Não voltei a ser o mesmo, estou melhor!
Nunca mais quero ver antidepressivo na minha vida! -— riu.
Trabalho em uma empresa farmacêutica e sabe que até a negociação dos materiais dessas medicações me dão arrepios! -— riu.
—Pegou trauma! -— riu junto.
A chegada da pequena Laryel os interrompeu, e Débora, que correu atrás da filha, chamou:
—Vamos lá! A Lívia quer tirar umas fotos com as crianças! —
Virando-se para o marido, lembrou:
— Depois nós precisamos ir, Sérgio.
Prometi à Rita que íamos passar lá na casa dela.
—E o Tiago, a Rita e os quatro, como estão? -— quis saber Humberto.
—Óptimos! A Rita está ficando maluca com quatro filhos pequenos, mas eu consigo deixá-la mais nervosa quando digo que eles terão mais dois filhos!
—Ai, Sérgio! Por que você a provoca tanto?! Coitada! -— repreendeu Débora.
— Adoro ver a Rita nervosa! - Humberto riu.
Em seguida, tiraram as fotos que queriam e depois Sérgio e Débora se foram.
Mais tarde, tudo estava muito quieto.
Lívia amamentava Felipe e Humberto, deitado ao seu lado, afagava-a.
— Escuta! -— disse ele com jeito maroto.
— O quê?! -— perguntou curiosa.
— O silêncio! Ele não está chorando!
— Por que está com a boca ocupada! -— riu Lívia.
Após mamar, ele vai dormir por...
Talvez duas horas.
Depois resmungar, querer colo, chupeta...
O senhor Felipe está muito manhoso! -— brincou.
Virando-se para o marido, perguntou:
— Por que você não aproveita e dorme um pouco?
— Não... -— sorriu.
Vou ficar com você.
Beijou-a, sorriu e falou:
— Te amo muito, Lívia.
— Eu também te amo.
Como peças de um quebra-cabeças, tudo na vida se encaixa no devido lugar.
Humberto e Lívia formavam uma família equilibrada e próspera.
Seus corações agora tinham um destino: a felicidade.

FIM

§.§.§- Ave sem Ninho
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