Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Página 1 de 3 1, 2, 3  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 21, 2016 7:48 pm

"Do Reino das Sombras"
Wera Ivanovna Krijanovskaia

J. W. Rochester

(romance ocultista)

TRILOGIA — LIVRO 3

Que homem, dentre vós, tendo cem ovelhas, e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove e vai empós da partida, até que venha achá-la?
E, achando-a, põe-na sobre seus ombros, jubiloso; e, chegando em casa, convoca os amigos e vizinhos, dizendo-lhes:
Alegrai-vos comigo, porque já achei a minha ovelha perdida.
S.Lucas, XV, 4-6.

O FIM DE UMA TRILOGIA DE EMOÇÃO...

Este é o terceiro e último romance de uma trilogia de emoção concebida pelo espírito J.W.Rochester e psicografada pela médium russa WERA KRIJANOWSKAIA.
Agora, leitor amigo, está em suas mãos, uma história que começou com o romance O TERRÍFICO FANTASMA e prosseguiu com NO CASTELO DA ESCÓCIA.
Traduzidos cuidadosamente por Dimitry Suhogusoff, os textos em português guardam os mesmos sentimentos dos originais russos, graças à dedicação incansável do tradutor.
Os personagens, a trama esboçada, o contorno dos locais e paisagens, tudo guarda fidelidade ao original...
Por isso, mais do que uma simples publicação de um livro, trata-se de um documento para o estudo da história da mediunidade na Terra.
Necessariamente, a LÚMEN EDITORIAL pode não concordar com alguns conceitos e opiniões emitidas pelo autor espiritual.
Porém, julga de fundamental importância para o registo da História trazer à luz o texto tal qual foi criado pelo seu autor.

Os editores
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 21, 2016 7:49 pm

- I -

No outeiro arborizado do vale ermo do Tirol meridional, erguia-se, elegante, uma imponente vila cercada de jardim.
Afastada dos povoados vizinhos, ali reinava povoados vizinhos, ali reinava silêncio absoluto; seus habitantes eram aparentemente pessoas assaz caseiras, pois raras vezes eram vistas fora dos limites de seu refúgio encantado.
De facto, bem que a vila mereceria o epíteto de "castelo encantado".
Sua construção em estilo renascentista italiano, o pórtico de mármore branco, a ampla escadaria e a galeria com colunada realçavam-se no fundo das folhagens densas feito uma gigantesca pérola.
O vasto jardim, encimado por terraços, variegava de floreiras maravilhosas; por entre o verde arbóreo apontavam estátuas e dos numerosos chafarizes brotavam filetes de água prateada.
Num dos salões daquela fascinante mansão, comprido, estreito e ladeado por janelas, numa larga e confortável cama dormia um homem pálido e magro, visivelmente esfalfado.
As janelas estavam escancaradas; uma saía para o jardim e a outra — para o outeiro e o lago próximo; ambas as vistas eram igualmente esplêndidas, respirando profunda paz.
O ar embebia-se do aroma maravilhoso de milhares de rosas, pontilhando o jardim com tonalidades variadas.
Na mesinha, junto ao leito, jazia uma garrafa de cristal com um líquido rosa e uma cesta de frutas.
O homem adormecido vestia uma camisa branca de lã e estava toldado por um cobertor de pelúcia vermelha.
Acordado por um raio de sol que lhe incidiu sobre o rosto, abriu os olhos e esquadrinhou o ambiente com o olhar surpreso; depois, sentando-se e premendo a testa com as mãos, parecia tentar colocar os pensamentos em ordem.
Neste ínterim, abriu-se uma porta e entrou um homem de alto talhe, idade mediana e rosto benévolo.
Trajava vestes brancas de linho, segurando uma taça com bebida quente.
— Que óptimo, o senhor acordou, meu amigo!
Graças a Deus, parece mais forte e saudável!
Tome isso; depois conversaremos!
Mesmo que ainda não possa falar muito, o senhor está ansioso por saber o que está acontecendo — disse ele, sorrindo com bonomia.
O enfermo secou avidamente a bebida tonificante, que lhe aqueceu o corpo exaurido com calor agradável, e, olhando com gratidão para seu interlocutor, disse:
— Não sei o seu nome, porém fico-lhe muito grato pelos cuidados a mim dispensados e, de facto, estou muito curioso com tudo.
Literalmente, continuo perdido.
É como se as minhas lembranças formassem uma lacuna; a minha sensação reminiscente é a de ter sido ferido mortalmente.
Entenda bem: sou um médico e sei que vivi a mesma agonia que verifiquei inúmeras vezes em meus pacientes.
Pelas leis humanas, eu deveria estar morto; o abismo negro, no qual eu me vi rolando, deveria ser o meu túmulo.
Daí começa uma recordação vaga e incompreensível:
a de que já vi o senhor com outras pessoas junto ao meu leito de morte.
O mais estranho é que não me lembro da minha tia, que me substituiu a mãe.
Por obséquio, quero lhe fazer algumas perguntas para pôr fim a este meu estado estranho.
Qual foi o milagre que me deixou vivo?
Se estou num sanatório, então onde precisamente?
Quem me trouxe para cá, já que não foi minha velha tia, que ainda não apareceu pessoalmente?
— Seu desejo de saber a verdade é justo e natural.
O senhor está bastante forte para saber de tudo, sem risco para a saúde.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 21, 2016 7:49 pm

Levante-se e vamos ao quarto contíguo, mais confortável para conversar.
O enfermo levantou-se submisso, vestiu com a ajuda do estranho um roupão de seda e, sustentado pelo braço de seu interlocutor, dirigiu-se em passos lentos até a porta do fundo da sala.
Quando esta se escancarou, do peito do enfermo soltou-se um ai de admiração.
Ele se viu diante de uma sala espaçosa, iluminada por enormes vitrais em toda altura das paredes.
Quem já conhece as janelas da catedral de Kõln, incomparáveis pela beleza, ou de outras igrejas medievais, poderá imaginar o espectáculo; na sala, porém,
predominava uma meia-luz azul celeste.
As paredes eram brancas; a de fundo guardava um enorme quadro da Ressurreição de Cristo, do punho de algum pintor famoso.
A cabeça do Salvador, maravilhosa pela expressão e de beleza realmente divina, respirava vivacidade incrível.
No meio do ambiente, erguia-se um altar de mármore branco e, sobre ele, jazia a reprodução da famosa estátua de Cristo — obra-prima de Thorwaldsen, executada em rocha da cor de safira transparente.
Em sua base, lia-se uma inscrição em letras douradas:
"Venham a Mim todos os sofredores e Eu vos confortarei"; da parede frontal do altar jorrava, despejando-se num tanque, um filete de água cristalina.
— Ore, irmão, para que Cristo o inspire, o abençoe e o coloque no caminho da salvação! — ordenou o desconhecido, pondo-se de joelhos ao lado do enfermo.
Quase instantaneamente se fez ouvir um canto suave e harmónico, obrigando a fremir cada nervo com os sons poderosos e invadindo a alma com paz e alegria.
Ao silenciarem os últimos acordes, os dois homens levantaram-se e acomodaram-se no sofá ao lado da janela.
— E agora, irmão, o senhor terá explicação de tudo que lhe parece tão confuso — iniciou o estranho, deitando um olhar sério e pensativo sobre o interlocutor.
Por acaso o senhor ainda se lembra do príncipe Eletsky?
— Sem dúvida, lembro.
Ele está aqui?
Irei vê-lo? — agitou-se o enfermo.
— Verá, porém não agora; ele ainda não está aqui.
Mencionei-lhe o príncipe, porque foi graças a ele que seu destino mudou tão radicalmente.
Não sei se o senhor lhe será reconhecido, de qualquer forma terá o tempo de morrer à hora que quiser.
Agora me ouça sem interromper!
De facto, o senhor não está enganado:
seu corpo recebeu um ferimento mortal e, segundo as leis humanas, teria de retornar ao mundo invisível.
Contudo, o irmão Eletsky nutria-lhe uma sincera disposição, achando que nos recônditos de sua alma, sob a camada de imundície acumulada, espreitavam-se-lhe bons propósitos e anseios à luz; isso fez que o príncipe resolvesse salvar a alma e o corpo do senhor.
As expectativas dele se confirmaram:
durante a sua agonia, os princípios do bem levaram a melhor, sugerindo-lhe assumir a culpa de um duplo assassinato, isentando o barão, resguardando o pai para os filhos, e poupando o seu bom nome.
Por esse acto generoso, o senhor foi recompensado com vida corporal e, se assim o quiser, poderá ter sua alma totalmente renascida.
Mas, caro irmão, seu destino foi mudado.
O doutor Vadim Zatórsky morreu e está enterrado; o senhor não poderá mais usar seu antigo nome.
Tudo isso está acabado, porém o senhor poderá viver como um outro homem dotado de conhecimentos verdadeiros e não como um médico cego de saberes imperfeitos.
A ciência oficial ainda perambula às apalpadelas na escuridão; seus êxitos devem-se a casos fortuitos, amiúde, conquanto o senhor tenha chance de se tornar um cientista dotado de conhecimentos ocultos, capaz de curar as raízes invisíveis do mal no corpo astral das pessoas visíveis. Se o senhor ingressar na nossa irmandade, poderá estudar essa ciência, ficando imune às necessidades mundanas, já que a comunidade cuida de seus membros e, repito, nenhuma preocupação material quebrará sua paz espiritual.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 21, 2016 7:49 pm

Quando o interlocutor de Vadim Víktorovitch se calou por instantes, este, pálido e perplexo com o que ouvia, balbuciou:
— Bem, uma coisa eu não entendo:
como vim parar aqui?
Fui desenterrado do túmulo?
— O senhor apenas foi retirado do caixão. Ouça como isso aconteceu! — disse o interlocutor do doutor, esboçando um sorriso.
— Ao ficar convencido de que sua boa índole triunfara sobre o ódio e a sede de vingança, o príncipe ministrou-lhe um remédio que, além de lhe aliviar a dor e estancar a hemorragia do ferimento, levou-o a um sono letárgico, que lhe conferiu o aspecto de um defunto.
Ao receber a notícia da morte, sua tia ficou doente e pediu por intermédio de sua dama de companhia que o corpo do senhor fosse deixado em Revel, até que ela própria ou algum dos seus parentes providenciasse seu sepultamento.
Por diversos motivos, de que não falaremos agora, a baronesa foi sepultada às pressas no jazigo familiar de Zeldenburgo, que o senhor deve ter visto nos fundos do parque; no mesmo jazigo, a conselho do príncipe e até que não fossem dadas novas ordens, foi colocado também o caixão do doutor Zatórsky.
Para que o meu relato fique mais claro, devo acrescentar que a generala Bármina deixou o castelo com Mery e as crianças, no mesmo dia do enterro.
Ficaram apenas o príncipe e o barão, que deveria ultimar alguns assuntos, entre os quais abrir o nicho na capela, onde, segundo a lenda, estava emparedado o cavaleiro da Livónia.
Von Kosen queria dar um basta nas aparições do "agourento".
Seus restos realmente foram encontrados e logo enterrados com ritual religioso.
O príncipe assumiu a responsabilidade de desinfectar a capela e, com esse objectivo, permaneceu mais um dia no castelo; o barão mal via a hora de abandonar aquele local sinistro.
Um iate da irmandade, que casualmente navegava no porto de Libav, recebeu a ordem de passar em Revel e, na escuridão da noite, um grupo de pessoas de nossa confiança acostou de barco junto à escadaria da margem.
Orientados pelo príncipe, os homens entraram no jazigo, abriram o caixão e tiraram seu corpo, substituindo-o com lastro.
Envolto em manto, o senhor foi carregado no barco e transferido para o iate, que o trouxe para cá ainda em estado letárgico.
Aqui, no nosso refúgio, o senhor foi confiado a meus cuidados.
Aproveito o momento para me apresentar: meu nome é Dakhara.
O tratamento foi difícil e demorado devido às lesões internas.
Não obstante, como pode ver, o senhor está praticamente curado.
Para que as inquietações morais não interferissem no trabalho da natureza, nós lhe desligamos temporariamente a memória e, por cerca de cinco meses, o senhor teve uma existência vegetativa.
Bem, acho que por hoje chega de conversa...
— Permita-me fazer mais uma pergunta — interrompeu o doutor, arquejante de nervosismo.
Alguns dias antes da hora fatídica, eu fiquei noivo de uma jovem; vou vê-la algum dia ou terei de riscá-la do meu passado?
— Isso é um mistério do porvir.
Temos alguns indícios de achar que um cruel carma ameaça a jovem, que terá de passar por duras provações e grandes perigos.
Provavelmente o senhor haverá de ajudá-la a se salvar, mas para isso terá de trabalhar muito e armar-se de conhecimentos bem maiores do que possui.
Mas repito:
por hoje chega.
Pense naquilo que eu lhe disse e, quando lhe retornar a paz de espírito, reiniciaremos nossa conversa.
O senhor poderá meditar sobre passado e futuro, ou orar nesta sala.
Por alguns dias, Vadim Víktorovitch não conseguia recuperar o equilíbrio emocional.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 21, 2016 7:49 pm

A incrível mudança em seu destino inquietava-o profundamente; só de pensar que ele morrera para o mundo em que nasceu e viveu, deixava-o de cabeça tonta.
As recordações de Mery provocavam sofrimentos quase físicos.
Que sentido escondiam as palavras do adepto sobre o carma que a atingira, sobre as provações e perigos iminentes?
E ele estava "morto", poder-se-ia dizer, incapaz de ajudar e protegê-la.
Talvez ele pudesse, através de um meio oculto, influenciar sua tia para que esta cuidasse de Mery.
Mas a tia, segundo lhe constava, adoecera gravemente, ao saber da tragédia no castelo dos Kosen.
Esses devaneios, aliados à excitação nervosa, afectaram seu organismo debilitado.
Certa noite, ele adormeceu e só acordou algumas semanas depois, consciente de seu passado e presente.
Fisicamente, sentia-se mais forte, com sua antiga energia recuperada.
Ele pediu então alguns esclarecimentos a Dakhara, que o fora visitar.
Dele, Vadim Víktorovitch também soube que sua tia morreu, legando seus bens a um parente longínquo.
Quanto a Mery, o adepto foi evasivo, dizendo que ela continuava a morar em Petersburgo, mas que sua vida atravessava duros reveses do destino.
— Minha segunda mãe morreu por minha culpa, agora irreparável; Mery está viva e talvez precise de mim.
Diga-me, mestre, o que poderei fazer para livrá-la dos perigos iminentes.
Por amor a ela farei qualquer coisa; diga-me como devo proceder!
O adepto largou um sorriso.
— Antes de empreender algo para salvar mademoiselle Mery, o senhor deverá juntar forças.
No estado em que se encontra, o máximo que poderá fazer é perecer junto com ela.
Torne-se primeiramente um dos nossos e, depois, purifique-se!
Ou o senhor acha que a sua vida anterior passou sem deixar consequências?
Seu corpo astral, tal como a aura, foram envenenados pelo relacionamento carnal com uma mulher devassa, obcecada por instintos vis.
Essa mulher incitou-lhe tudo que havia de pior, imundo e imoral em sua alma.
O senhor chafurdava-se feliz no esgoto, justificando seus actos no sofisma conveniente "Não sou nem o primeiro, nem o último".
A bala que o atingiu foi um castigo justo daquele que o senhor desonrou e cuja confiança traiu.
Sua relação era ainda mais asquerosa pelo facto de a baronesa estar casada e ser mãe de família.
Não pense que o casamento, uma instituição tão desacreditada e ultrapassada hoje em dia, é uma fantasia vazia da moral caduca.
Não, esse sacramento, personificando a família, é o alicerce de qualquer sociedade e serve para colocar freios à devassidão humana.
Não foi sem razão que os primeiros legisladores, esses introdutores do conhecimento súpero, cercaram o casamento de leis rígidas e até cruéis.
Cientes dos princípios fluídicos e da devassidão que medra instintos animais, desencadeando correntes contagiosas que geram epidemias, eles sentenciavam à morte as mulheres criminosas e seus sedutores.
No entanto, o que temos na sociedade moderna é uma orgia completa que abala todas as convicções e deveres que, bem ou mal, ainda proporcionam algum equilíbrio, enquanto as torrentes caóticas estremecem os continentes, os altares e os tronos.
Será que o senhor, um pupilo digníssimo da sociedade licenciosa e alheia a qualquer dever, não compreende que é impossível vencer o mal, senão com as forças do bem?
Até os lábios do doutor ficaram lívidos ao ouvir aquilo.
Tremia-lhe cada nervo, sob o olhar severo do interlocutor; jamais ele se sentira tão mísero e digno de dó.
— A alma penada da baronesa irá vagar na primeira esfera ainda por muito tempo — reiniciou o adepto, após algum silêncio.
O senhor, meu irmão, poderá purificar-se sem abandonar seu corpo terreno, mas terá de trabalhar duro, pois não será fácil despojar-se de toda a sua imundície.
Mas ... quem tem ouvido, ouvirá!...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 21, 2016 7:50 pm

Sinto muito por ter sido cruel com o senhor, porém espero que tenha compreendido toda a torpeza da sua vida passada.
— Sim, tenho consciência da minha mediocridade moral, só não sei como poderei me purificar.
A alma não é um quarto contaminado com miasmas, que pode ser ventilado por se abrir uma janela — ponderou em tom grave Vadim Víktorovitch.
— Ao contrário, sua comparação foi correta.
Tanto no primeiro como no segundo caso, o ar limpo deve substituir o contaminado, apenas o acto de abrir a janela talvez seja mais complexo...
De início, imbuía-se da ideia de que o senhor realmente morreu para o mundo das seduções em que vivera antes, e agora está no "purgatório", iniciando um grandioso trabalho:
libertar e utilizar as forças astrais do corpo.
Ele é algo parecido com um bloco de granito, inserindo um fogo de força gigantesca e, para que se liberte, precisará de uma marreta que quebre a rocha; então, o fogo calcinará e fundirá o granito, transformando-se num lingote de metal precioso.
— Onde arrumarei a marreta? — sussurrou Vadim Víktorovitch, desanimado.
O adepto inclinou-se e olhou nos olhos anuviados do interlocutor; depois, apertou-lhe a mão com força.
— Temos essa marreta miraculosa em cada um de nós, meu irmão.
É a força de vontade; Cristo falou que ela poderia mover montanhas.
A oração sustenta aquele que almeja por luz.
A fé no sucesso e a força de vontade promovem a geração do fogo interior, que a tudo transforma.
E agora me diga:
o senhor gostaria de ser um homem da ordem superior e desenvolver capacidades até então ocultas?
À medida que das trevas se alce à luz um ser novo — o patrão do escravo —, o senhor se surpreenderá com o poder conquistado.
No momento é o escravo que manda no patrão, porque este é preguiçoso...
O rosto de Vadim Víktorovitch tingiu-se de rubor intenso e pelas faces rolaram algumas lágrimas quentes; ele se pôs de joelhos e murmurou:
— Eu quero a luz.
Seja meu mestre!
O senhor, que me salvou e me curou o corpo, salve-me a alma.
Meigamente, o adepto o ergueu dos joelhos, abraçou-o e disse que antes de dar início a estudos sérios, ele teria de acostumar-se à sua nova condição e, através de uma dieta rígida e vibrações, colocar em ordem suas correntes fluídicas para ir libertando o corpo astral.
— O senhor ao menos sabe orar ou se concentrar; como isso é indispensável, terá de adaptar para tanto os seus órgãos — disse-lhe certo dia o adepto.
Seguiu-se então um período de tempo que propiciou a Vadim Víktorovitch um repouso para a alma e o corpo.
O silêncio profundo do refúgio mágico, onde raramente ele via de longe algum outro habitante, agia feito bálsamo curativo sobre seus nervos abalados.
De manhã, tomava seu banho de imersão e depois orava na sala azul; cada vez que se postava de joelhos diante da imagem de Cristo Salvador, ouvia-se um canto maravilhoso, cuja melodia o deixava emocionado e pensativo.
Seu alimento consistia unicamente de leite, pão, frutas e legumes; após fazer seus longos passeios obrigatórios pelo amplo jardim, descansava.
Deitado na rede, sob a sombra das árvores densas, animado pelo murmúrio do chafariz, ele meditava sobre o passado, já sem amargura, e sobre o futuro, já com gratidão; uma paz nunca antes experimentada foi-se instalando em sua alma.
Em tais horas de repouso, era frequentemente visitado por seu orientador, que lhe falava de forças ignotas, de cuja existência o doutor até então nem sequer suspeitava.
Dakhara aconselhou ao seu discípulo especializar-se na área da ciência para a qual ele já tinha o dom, ou seja: a Medicina, mas deixando de ser simplesmente uma arma cega da ciência materialista, restrita a tratar apenas o corpo físico.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 21, 2016 7:50 pm

Ele deveria se tornar um médico iluminado, conhecedor da fisiologia astral humana, unindo em milhares de ramificações os seus invólucros rudes; ele deveria saber encontrar a raiz oculta da maioria das doenças, sobretudo as nervosas e as cerebrais.
— Nenhum tratamento será efectivo, se o médico não consegue descobrir qual doença espiritual afecta o corpo — disse o adepto certo dia.
É o mesmo que ir à floresta de olhos vendados; por mais que suas pernas sejam sadias, o senhor acabará se perdendo.
— Mas como estudarei a medicina do corpo astral?
— Adquirindo a clarividência.
Só de ver um doente, o senhor poderá estabelecer suas causas ocultas.
No início será difícil ler o corpo astral; mas, com perseverança e em isolamento, concentrando os pensamentos em algum objecto, as faculdades irão desenvolver-se.
Certo dia, finalmente, Dakhara anunciou que era hora de iniciar os estudos sérios e levou seu discípulo a uma sala redonda, sem janelas, no andar térreo.
No centro havia uma poltrona e, diante dela, num nicho, via-se pendurado um crucifixo e a imagem do Salvador.
Na parede, ao lado do nicho, havia sete lâmpadas com seus interruptores; o mestre explicou que cada uma delas iluminava a sala com luz de espectro diferente.
— Enquanto estiver aqui se concentrando, acenda em sequência as luzes e observe qual delas contribui melhor para o desenvolvimento de seus pensamentos e visões.
No braço direito da poltrona, acha-se fixado o mecanismo que acciona uma música melodiosa, de modo a lhe facilitar o trabalho mental; do lado esquerdo, há um console para o livro com fórmulas mágicas e orações para as forças do bem.
Bem, irmão, mãos à obra!
Que o Pai Celeste o ajude!
O doutor começou a trabalhar com grande afinco, mas as primeiras semanas foram difíceis e não trouxeram resultados.
O cansaço físico que impede as pessoas de se concentrarem e, por assim se dizer, de instarem sua força astral — esse terrível cansaço da carne, que dificulta o trabalho da mente e dos órgãos espirituais, deixava-o tão extenuado, que ele adormecia.
Aos poucos, a força de vontade foi vencendo a matéria e ele já conseguia meditar e ouvir a música sem cair no sono.
Passado mais algum tempo, parecia-lhe que o cérebro como que se aliviava de um peso e a meditação se tomava mais fácil.
Ele começou a compreender que a opressão da matéria teria de ser eliminada, para que a carne fosse subjugada, pois estava dificultando a sua ascensão à luz.
Quando, finalmente, as primeiras dificuldades foram vencidas e conseguidos os primeiros resultados, Dakhara lhe disse, com sorriso aprovador:
— Você trabalhou diligentemente, meu filho, e provou-me isso, vencendo as dificuldades e dando um passo importante.
Agora, para acelerar sua aprendizagem, nós daremos brevemente um passeio pelos arredores e você verá coisas que os olhos vulgares não enxergam.
Se você for um médico de verdade, enxergará tudo normalmente.
Ficará perplexo ao ver como no mundo há pouca gente sadia, mas não se assuste.
Alguns dias depois, o mestre e o discípulo deixavam os portões da vila, vestidos em trajes simples mas elegantes.
Através de uma vereda íngreme, desceram ao lago, embarcaram num barco acostado e atravessaram para a outra margem.
Ali, eles subiram um morro e adentraram uma caverna ampla; após a cruzarem, deram numa trilha estreita e íngreme, pela qual desceram por degraus esculpidos na rocha.
Finalmente, viram-se num terreno aberto, onde se erguia uma casa camponesa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 21, 2016 7:50 pm

Um velho solene recebeu-os na porta, levou-os à sala limpa e humilde, e convidou-os para almoçarem.
O doutor, esfaimado pela longa caminhada, devorou com apetite o pão, o queijo e o mel oferecidos; o adepto limitou-se a comer um pedaço de pão e a beber um copo de leite.
— Esta casinha chama-se Hotel do Bom Pastor, cujo proprietário, o velho Ian, é membro da nossa irmandade; sua esposa, Linda, saiu para fazer compras — explicou Dakhara.
Aqui os nossos irmãos param para descansar antes de seguirem para a vila; para cá também é trazida a nossa correspondência.
Agora, irmão Vadim, antes de ir à cidadezinha vizinha, preciso lhe fazer uma pequena operação nos olhos, pois você não suportaria ver o que eu lhe mostrarei.
Ele tirou do bolso um estojo de marroquim, extraiu dele um frasco de vidro escuro e verteu algumas gotas num copo com água.
As gotas azuis tingiram a água em azul turquesa; Dakhara molhou nela um pedaço de pano e, ordenando que o médico deitasse no sofá, aplicou em seus olhos essa compressa. Zatórsky soltou um grito.
Pareceu-lhe que sobre suas pálpebras deitaram um fogo que lhe calcinou os olhos; sua cabeça tonteou e ele perdeu os sentidos.
Ao se recobrar, Dakhara lhe disse, rindo a valer:
— Perdoe, irmão Vadim, por não tê-lo prevenido a respeito da compressa; mas fique tranquilo e descanse um pouco.
Nada lhe acontecerá com os olhos, apenas vai enxergar mais do que o normal.
A dor da queimadura deu lugar a uma forte mas agradável sensação de calor; em seguida, pareceu-lhe que seus olhos ficavam cada vez maiores.
Quando a compressa foi retirada, Zatórsky convenceu-se prazerosamente de que enxergava bem, ainda que tudo o que o cercasse tivesse adquirido outro aspecto.
A atmosfera antes incolor lhe parecia agora de tonalidade azul celeste, fulgindo estranhamente, e todos os objectos nesse fundo se apresentavam em relevo.
As paredes, os móveis, a louça, tudo era envolto num debrum azul celeste, num fulgor ténue e nevoento.
— Então, a caminho!
Não vamos perder nada — disse o adepto, tomando a mão de Zatórsky, cujas pernas tremiam.
Através de uma trilha estreita, atingiram uma estrada bem conservada e logo avistaram uma pequena cidade no vale cortado por rio; por entre as graciosas e limpas casinhas de telhados vermelhos assomava-se o campanário pontiagudo de uma igreja.
— O que está rutilando naquela torre? — indagou Zatórsky.
— É a cruz da igreja.
Você a enxerga agora envolta em corrente fluídica, que, tal como qualquer cruz, representando o símbolo da fé, irradia seu fulgor — respondeu o adepto.
Lá, onde as pessoas se juntam para orar, os pensamentos dos fiéis emanam uma substância peculiar, que se desloca e se fragmenta, tal como o mercúrio.
Esta substância se agrupa em focos de luz invisíveis para os profanos, capazes de sentir apenas o bafejar benfazejo de sua luz e pureza.
Ao entrar numa rua lateral da cidade, Dakhara observou:
— Antes de visitar as moradias dos encarnados, vamos até o cemitério — sítio de repouso das almas, segundo os homens.
O bem conservado cemitério, cercado de alto muro, assemelhava-se a um parque; por entre a vegetação densa branquejavam monumentos ricos e pobres, lápides ou, simplesmente, cruzes de madeira.
Na curva da primeira alameda, Zatórsky parou ofegante.
— Mestre, o que é aquilo?
A sepultura à esquerda parece ter fogueira acesa e a outra, ao lado, está envolta em névoa azulada.
Sobre a lápide grande fulge uma cruz dourada, enquanto na outra, atrás, só vejo fumaça.
Mas o mais incrível é aquela pequena sepultura, à sombra do castanheiro, que está coberta por gás prateado, em meio ao qual cintila uma chama em forma de coração.
De súbito, Zatórsky estremeceu e agarrou a mão de Dakhara.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 21, 2016 7:50 pm

— Mestre, que sombras são aquelas: nojentas, negras e disformes, monstruosas, meio humanas, meio animais?
Veja, elas vagam e rastejam feito serpentes entre os monumentos, parecendo sugar algo nas sepulturas.
— Graças ao poder de sua clarividência, descortina-se diante de você a visão do cemitério, impenetrável ao olhar profano.
As sombras tétricas que lhe sugerem tanta repugnância são as almas penadas que, após a vida, malgrado as leis da pureza e da harmonia, não encontram a paz e vagueiam — cansadas e infelizes — nas cercanias de seu túmulo; o peso plúmbeo do corpo astral e a aura impenetrável e densa, que as envolve feito sarcófago, aprisionam os infaustos na terra.
Aqui também fervilham as larvas e outros espíritos inferiores, que se alimentam da decomposição.
Vamos espiar as sepulturas que tanto o surpreenderam, por exemplo, aquelas, em volta das quais paira um vapor azulado e chamas multicolores.
Essa névoa e as chamas são a essência perceptível do amor e lágrimas, transportados pelos vivos à sepultura.
Não existe um sentimento mais desinteressado do que o amor ao morto, pois ele já não serve para nada, e as lágrimas vertidas sobre os seus restos são uma expressão sincera do amor, esquecimento das ofensas e perdão.
Por pior que tenha sido o morto, as orações elevadas para ele incandescem e, feito fogo eterno, adornam o monumento, independentemente de ser ele rico ou pobre.
Este fogo inextinguível, aceso por sentimento nobre e puro, protege a sepultura e afugenta as larvas que ainda celebram orgias ao derredor dos cadáveres, saturados de fluidos vivos.
Olhe! Ali está, junto ao muro, um montículo derribado sem o madeiro.
É a sepultura de um suicida; entretanto, como ela é maravilhosa, alumiada pela cruz fulgente, como que salpicada de diamantes.
Ali se ajuntaram as orações ardentes de sua mãe, verteram-se em rios as lágrimas de seu coração, ignorando outro sentimento, senão o amor e o perdão ao filho perdido.
Esse clamor desesperado alcançou o Pai Celeste e a Sua misericórdia desceu ao túmulo do infeliz.
Muito tempo se passou desde então, mas o sopro do amor, expresso em cruz límpida, ainda se sustenta no montículo abandonado e o protege.
Em nenhum outro lugar o amor se materializa tão perceptivelmente como num cemitério; sua atmosfera acha-se impregnada de fluidos especiais, onde cada lágrima derramada é valiosa, pois procede do fundo do coração, fazendo inflamar um facho invisível junto àquele que concluiu sua provação terrena...
Ele se calou e contemplou pensativo a morada dos "mortos".
O doutor parecia visivelmente perturbado.
— Quantos mistérios encerra esse mundo!
Fico agradecido, mestre, por ter me mostrado isso.
Lá na Rússia, quando uma procissão fúnebre passa, os fiéis desnudam a cabeça e, quando não elevam suas orações pelo morto, pelo menos persignam-se piamente, numa demonstração de que um dia hão de morrer também.
— Uma tradição judiciosa, meu filho.
Saiba que nenhum sinal-da-cruz, feito com devoção, é perdido; esses gestos poderosos e arcanos inflamam-se no ar e, feito fogos errantes, unem-se à procissão fúnebre tal como guardiões purificadores.
O mundo não conseguiria enfrentar o mal, se todas as preces sinceras, todas as persignações em nome-do-padre, não se unissem feito gotículas formando correntes ou esferas de mercúrio.
Desta maneira, a aglutinação das emanações puras forma esferas atmosféricas de substâncias curadoras, que ficam à disposição dos bons espíritos e lhes servem de material para prevenir os perigos e evitar ou debelar uma epidemia, pois nada na natureza desaparece sem consequências — nem o bem, nem o mal — e tudo cumpre seus desígnios.
Bem, vamos adiante! Quero levá-lo a um hospital fundado por um de nossos irmãos com auxilio de fiéis.
É uma instituição nova, onde as pessoas são tratadas por fluidos curativos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 21, 2016 7:50 pm

Quero mostrá-lo porque, ao retornar para o mundo, você talvez queira abrir um igual.
Um hospital desses teria uma grande repercussão.
Já houve tentativas anteriores neste sentido, mas os resultados foram ridículos.
Cristo disse:
"Muitos são os chamados e poucos os escolhidos".
Há muitos que se auto denominam "curadores", mas não detêm a verdadeira ciência; feito cegos, eles vagueiam às apalpadelas em domínios ignotos, contraem e depois alastram o contágio fluídico, que atinge normalmente eles mesmos; no fim, acabam vítimas das enfermidades que não conseguem curar ou vítimas das obsessões perigosas.
Além disso, ofuscados pela prepotência, eles acham que sabem mais que outros.
Como o orgulho é mau conselheiro, suas tentativas, na maioria dos casos, dão em nada.
Tratar de doenças ocultas exige o dom de clarividência desinteressada.
De qualquer forma, isso é um trabalho complexo; disso você se convencerá mais tarde.
No caminho, Dakhara apontou para um homem que andava com grande dificuldade e tossia muito.
— É um tuberculoso.
Olhe seus pulmões!
Eles estão cheios de fumaça pegajosa.
A criança que o acompanha é raquítica e seus ossos estão cobertos de fluido negro.
Sua aura parece líquido de esgoto, em que fervilham seres vermelhos feito formigas.
— O que isso significa, mestre?
Todos esses seres e os fluidos maléficos foram segregados por sangue danoso.
Essas doenças, que exaurem o fluido vital, não são fáceis de serem curadas.
— Interessante!
Estudarei com afinco para poder desvendar esses mistérios.
Nem mesmo minha morte factual seria um preço alto para granjear conhecimentos tão maravilhosos.
— Sim, caro discípulo.
Suas palavras apontam que você não se lamenta por ter sido riscado de seu mundo anterior, nem nos culpa por fazê-lo renascer num homem novo.
— Não diga isso, mestre!
Poderia eu sentir algo diferente, senão a gratidão por todas essas dádivas? — exclamou o doutor.
Em seu refúgio eu gozo de paz espiritual, jamais antes sentida; a minha vida anterior só me sugere repugnância.
A única coisa que me oprime o coração é a lembrança da pobre Mery e não poder ajudá-la.
Não posso deixar de amá-la.
— Longe disso!
Ame-a com amor puro e, quanto mais firme você for, mais sucesso terá.
Eles se aproximaram de um grande prédio nos arredores da cidade, erguido numa elevação e cercado por vasto jardim.
Sobre o portão da entrada, uma placa com inscrição:
"Hospital Astral".
O acesso ao prédio era através de uma alameda e uma galeria aberta.
Muitos enfermos estavam sentados à sombra das árvores e às mesas da galeria, cheias de jarros de leite e cestos de frutas, como que envoltas em névoa azulada.
— São frutas magnetizadas — observou Dakhara, introduzindo o discípulo num cumprido corredor ao fundo da galeria.
Eles entraram numa ampla sala, numa espécie de farmácia e biblioteca, pois de um lado perfilavam-se estantes com livros e do outro — armários com vasilhas, saquinhos e feixes de ervas secas.
A parede do fundo era ocupada por um aparelho estranho com tela, tal qual é usada no cinema; no chão, antevia-se um disco, ligado a uma lâmpada.
No centro da sala, estava sentado à mesa atravancada de papéis e diversos aparelhos um homem de idade mediana, de rosto agradável e pensativo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 22, 2016 7:39 pm

Ele recepcionou alegremente as visitas.
Depois de trocar algumas ideias sobre os pacientes da instituição, Dakhara pediu que fosse permitido ao seu discípulo assistir alguma experiência.
— Com todo o prazer, Dakhara!
Aliás, você veio a propósito.
Estamos iniciando um tratamento fluídico de um demente com paralisia progressiva da medula espinhal.
Ele é considerado desenganado.
Chamado por telefone, apareceu um assistente do director, trazendo um jovem aparentando trinta anos, de olhar fixo e insano.
Descalço, vestia um roupão de lã.
O médico colocou-o sobre o disco, que, imediatamente, começou a vibrar; a lâmpada acendeu-se sozinha.
O enfermo estava ali postado nu, lançando olhares angustiosos e nervosos.
Na tela, neste ínterim, reflectiu-se a figura do paciente envolta em aura oval cinzenta, como que repleta de massa grudenta em suspensão.
O contorno do corpo foi adquirindo maior nitidez; a cabeça parecia coberta de pêlos enrodilhados, ao longo do corpo desciam negros pingentes lanosos, variegados de listras púrpuras, que envolviam os membros e as costas.
Na aura, feito num aquário, fervilhavam animais microscópicos de forma bizarra e monstruosa, semelhantes a répteis, por vezes deslizando ao corpo do enfermo.
A imagem na tela tornava-se cada vez mais nítida e transparente.
Podiam ser distinguidos agora os órgãos internos e seu funcionamento lento e difícil; a medula espinhal parecia estar em falência, entupida de fumaça negra.
À medida que a lâmpada jogava mais luz, o paciente ficava mais tenso; o conteúdo da aura parecia ferver e os olhos do enfermo injectaram-se de sangue, seguindo-se um acesso de cólera convulsiva.
Dois médicos carregaram o paciente para uma banheira de vidro com água azulada e o mantiveram, à força, nela imerso.
Soltando espuma esverdeada pela boca e uma chuva de impropérios, o doente se debatia como que se defendendo de um inimigo invisível; simultaneamente, dele emanava um vapor negro que se densificava em forma de cone acima da cabeça.
Um dispositivo mecânico prendia-o imerso na água até o pescoço; aos gritos desatinados, ele se contorcia em convulsões.
Subitamente, dos quatro cantos da banheira surgiram cruzes límpidas; a água turvou-se e começou a ferver, enquanto um vapor escuro se elevava em colunas do organismo do paciente.
Gaumata, como era chamado o director do estabelecimento, esvaziou então a banheira, encheu-a com água limpa e verteu uma essência de um frasco, enquanto seu assistente acendia uma lareira.
Os gritos, os insultos e as convulsões reiniciaram-se; da banheira, de súbito, alçou-se uma massa negra, enchendo o ambiente de odor putrefacto.
A massa foi-se deslocando em direcção à lareira, na fornalha onde Gaumata jogou um punhado de ládano; mal ela atravessou o fogo, desaparecendo na chaminé, ouviu-se um forte estrondo.
O enfermo, que jazia desfalecido na banheira, foi transportado para o sofá, envolto num lençol fosforescente e toldado por cobertor; em sua boca foi vertido um líquido aromático.
— Seu desmaio irá ceder a um sono profundo e ele acordará sadio — explicou Gaumata e, virando-se para Zatórsky, acrescentou:
— O senhor presenciou, meu amigo, a expulsão dos espíritos que obsidiavam o enfermo.
Dakhara anunciou ao seu discípulo que ficaria por algumas semanas no hospital para aprender o tratamento esotérico sob a orientação de Gaumata.
O tempo que sobreveio a seguir passou para Vadim Víktorovitch rapidamente.
Gaumata, um excelente cientista, iniciou-o em conhecimentos de cuja existência o doutor nem suspeitava e, se um ano antes lhe falassem de algo parecido, ele teria tomado o seu interlocutor por louco.
Agora para ele qualquer organismo — fosse um seixo, uma planta, um animal ou um homem — era sujeito a doenças, desde que fosse danificado o equilíbrio do metabolismo natural, permitindo a penetração de substâncias nocivas que arraigam e iniciam seu trabalho lesivo de decomposição.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 22, 2016 7:40 pm

Um mineral doente, um seixo, uma pérola, perdem seu brilho, e não é à toa que se diz que uma determinada gema ou pérola está "morta".
Objectos antigos, as roupas surradas, também emanam fluidos repugnantes e putrefactos, que contagiam os vivos.
O médico que deseja curar um corpo astral deve conhecer bem as propriedades das substâncias mágicas que eliminam os princípios decompositores, expulsam os espíritos diabólicos e purificam a aura.
No tratamento, usando os fluidos, o papel dos aromas, das cores e da vibração, é primordial, pois em cada doença existe seu respectivo aroma, cor e vibração.
A cura dos metais e plantas se processa ao serem eles impregnados com o máximo de carga de correntes solares ou lunares; usam-se os aromas para inibirem os cheiros nocivos e, finalmente, as vibrações musicais, habilmente manipuladas — para se obter o efeito desejado.
Sabe-se que apenas para um olho rude os corpos parecem densos.
Na verdade, eles são uma aglutinação de células móveis, cada uma equipada com um aparelho, através do qual a célula respira, percebe os aromas, as vibrações e as cores.
Assim que o corpo pára de respirar correctamente, ou seja, com a falência de algumas partes das células, ele fica à mercê dos fluidos decompositores, que fecham os dutos respiratórios e então começa a decomposição. Todos os iniciados ou adeptos devem praticar exercícios respiratórios.
Os estudos de Zatórsky no hospital incluíram, entre outras coisas, o ressuscitamento de flores murchas, que se tratavam com aromas especiais e vibrações sonoras.
Tais experiências, assim como muitas outras, serviram-lhe para aprender a governar as poderosas forças da natureza, empregando-as na devida intensidade, e controlar seus efeitos específicos, pois um mesmo aroma, cor ou vibração pode ser útil ou prejudicial — um remédio miraculoso ou um veneno letal.
As forças do bem operam através da luz; as do mal — através das trevas.
Sairão vitoriosas desse enfrentamento as substâncias límpidas que absorverem as escuras, e os sons harmónicos que sobrepujarem as dissonâncias caóticas.
Ao retornar para a vila, Dakhara felicitou seu discípulo pelo sucesso alcançado e disse-lhe que ele deveria iniciar o desenvolvimento de seu sexto sentido, que lhe propiciaria distinguir as vibrações e os aromas dos espíritos demoníacos das emanações benfazejas dos espíritos límpidos, no labirinto oculto.
Absorto nesse interessante trabalho, Vadim Víktorovitch não percebeu o tempo passar, esquecido completamente do mundo exterior, com o qual não tinha nenhum contacto, excepto sua correspondência com o príncipe Eletsky, trocando ideias sobre seus estudos.
Certa noite, o doutor e Dakhara descansavam após os estudos no gabinete do mestre, quando subitamente este indagou:
— Vadim, você ainda ama sua ex-noiva?
— Se ainda a amo?
Claro, amo-a com toda a alma.
Oro por ela todos os dias, e é por ela que trabalho tanto, buscando me armar para ajudá-la.
— Bem, então chegou o momento de socorrer a alma da pobre jovem, que corre perigo.
Ela caiu vítima de demónios — disse Dakhara.
Vadim Víktorovitch ouviu então, empalidecido de terror, os detalhes que levaram Mery a conhecer Van der Holm e mais tarde, a se converter na satanista — irmã Ralda.
— Não poderemos salvar a minha pobre Mery? — perguntou o doutor, com lágrimas nos olhos.
— Faremos tudo para isso; mas, por enquanto, os mestres lhe confiam a tarefa de protegê-la nos momentos mais críticos.
Venha comigo!
Dakhara levou Zatórsky ao quarto que este ocupava e, abrindo na parede uma porta de cuja existência ele nem suspeitava, introduziu-o num compartimento circular iluminado por lâmpada de tecto.
O doutor não pôde conter um grito de surpresa.
Diante dele, Mery, de pé, fitava-o com grandes olhos negros, tristes e pensativos.
Examinando-a melhor, ele viu que se tratava de uma figura de cera, executada com tal perfeição, que parecia viva.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 22, 2016 7:40 pm

Estava postada num pedestal que, por sua vez, apoiava-se num grande disco metálico, repleto de sinais cabalísticos gravados.
A estátua vestia uma túnica branca; numa das mãos, tinha uma vultosa vela de cera, consumindo-se em chama azulada; do pescoço pendia uma cruz na corrente.
Emocionado, fitou Vadim Víktorovitch o rosto maravilhoso, tão real que parecia que a boca estava prestes a se abrir num largo sorriso.
O doutor então perguntou sussurrando o que ele deveria fazer.
— Ore diariamente, de manhã e à noite; defume o ambiente com as substâncias que eu lhe fornecerei e borrife a estátua com água benta.
Depois, cubra-lhe a cabeça com esta toalha com cruz bordada e salpique-a de ládano.
A vela arderá normalmente; mas, se você sentir uma agulhada na região do coração, venha imediatamente para cá.
Se a chama começar a crepitar e oscilar como que de lufada de vento, significará que Mery corre um grande perigo.
Neste caso você deverá pedir a ajuda dos mestres.
Puxe este cordão, que accionará um dispositivo fazendo contacto com eles, e ore com todo o ardor e força.
Passaram-se cerca de quatro anos e meio desde a morte da baronesa Kosen; porém, neste lapso de tempo, o mundo não ficou melhor.
Ao contrário, com furor ainda mais violento florescia o materialismo, os homens se entregavam a todas as insanidades, enquanto a "ciência" inventava meios de acabar com a velhice e alisar as rugas.
Tudo se deveria aparentar viçoso, para se gozar a vida e enganar a idade.
O culto ao corpo estava em alta, ao passo que a alma aviltada se embaciava cada vez mais diante da ridicularização do dever, da honra e da fé, perdendo o solo embaixo dos pés e mergulhando nas trevas das epidemias fluídicas.
Inebriada de licenciosidade e sede de prazer, a turba cega celebrava a orgia em meio a homicídios, suicídios e demência, evitando ou conspurcando aqueles que ainda não haviam renegado Deus, eclipsada pela sombra gigantesca do espírito do mal e a humanidade indigna, que não intuía o Criador nem sentia Sua presença.
Em face do perigo moral e físico que isso representava para a humanidade, os sábios mestres decidiram enviar ao mundo alguns de seus discípulos para reverter a situação, atraindo e iluminando os que ainda sentiam a necessidade de crer em algo, além dos anelos da vida terrena, frágil e fugidia.
Era necessário aproveitar as circunstâncias que amoleciam a alma humana, tais como:
desastres, provações, doenças e, sobretudo, o medo da morte.
E esta lúgubre e misteriosa visitante aparece normalmente de súbito e sem constrangimento, acabando com a alegria e levando, sem distinção, os crentes, os impuros e os soberbos deste grande mundo para a região ignota.
Entre os eleitos para essa missão encontravam-se o príncipe Eletsky e o doutor Zatórsky — ambos suficientemente preparados.
O príncipe foi designado para promover cursos públicos de esoterismo, que abrangiam — é claro — só os conhecimentos permitidos para serem repassados, conforme as instruções dos mestres.
Ele seria responsável pela edição de livros, versando tais assuntos, porém escritos em linguagem simples, clara e acessível a todos, sem frases de efeito e termos estranhos e nebulosos, ou seja:
sem usar aquele pseudo-misticismo ostensivo, que nada explica, mas apenas atrapalha o entendimento do leitor, constrange-o e, finalmente, instala nele a suspeita de que até o próprio autor não compreendia o que queria dizer.
O príncipe vivia nessa época em Londres, estudando arduamente na "Irmandade da Luz Ascendente".
Ele se preparava para viajar a Petersburgo levando consigo Zatórsky, cuja tarefa era abrir uma casa de saúde, aplicando o tratamento fluídico-astral.
Ele se correspondia com o barão e Lili e alegrava-se sinceramente com os progressos de sua jovem pupila.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 22, 2016 7:40 pm

Já de algum tempo, as cartas singelas da menina revelavam um amor inocente ao príncipe; contudo, esse sentimento era puro e alheio ao egoísmo.
Sentia-se que ela desejava tão somente ser digna da amizade e respeito do homem, a quem considerava um ser superior.
Isso comovia o príncipe.
Com total franqueza, Lili confiava a Eletsky minúcias de sua vida e, com alegria extasiada, participava-o de qualquer sucesso alcançado.
"O senhor não imagina, querido orientador, como estou progredindo, e tudo graças à felicidade de ser sua aluna" — escrevia ela.
"O senhor sabe:
estou tentando auxiliar o máximo que posso os desafortunados; o papai me dá um bom dinheiro para minhas despesas com roupa e outros caprichos, mas, economizando, sempre me sobra alguma coisa.
Entre os pobres que eu ajudo, há uma viúva de operário com seis filhos; o menor contava com oito meses, quando seu pai morreu num desastre ferroviário.
A pobre mulher mora perto de nossa vila.
Ela é muito boa e honesta, seus filhos também são óptimos e eu gosto muito de sua família.
"Há pouco tempo atrás, Eusápia ficou doente e, apesar dos esforços do médico, seu estado piorou.
Ele me disse que havia poucas chances de salvá-la.
Vendo o meu desespero, o papai me deu trezentas liras para o enterro dela e pequena ajuda para seus filhos.
Mas o que é dinheiro, quando se trata da vida valiosa da mãe e seis crianças?
"Certa noite, depois de rezar, lembrei-me do que o senhor disse sobre as propriedades curativas da água magnetizada.
Peguei um copo de água e comecei a magnetizá-la como o senhor me ensinou e — imagine só! — vi com meus próprios olhos as gotículas douradas jorrarem dos meus dedos, precipitando-se no fundo do copo.
A água adquiriu uma coloração azulada e as paredes do copo ficaram orvalhadas.
Como ainda era cedo, peguei a copeira e fomos à casa de Eusápia.
Encontrei-a delirante e quase moribunda; convenci-a a tomar a água e, em seguida, ela adormeceu, dormiu a noite inteira, acordou bem consciente e pediu para comer.
Continuei lhe levando aquela água por mais alguns dias.
Graças a Deus, ela já se levantou e agora está quase boa.
"Sou muito reconhecida, caro mestre, por seus ensinamentos, que eu aplico na prática; estou convencida de que as minhas boas acções emanam do senhor."
Quando o príncipe já se preparava para viajar ao Tirol, a fim de pegar Zatórsky para ambos irem à Rússia, recebeu uma carta do barão Kosen, mas já enviada de Petersburgo.
"Estou de volta, meu amigo — escrevia ele —, lamento, porém, ter abandonado meu tranquilo refúgio perto da antiga Spoleto.
Já lhe escrevi as razões que me moveram a tomar esta decisão.
Meu filho precisa continuar seus estudos na pátria e Lili acaba de completar dezoito anos.
Ela é uma moça muito estranha; não é sociável, não gosta de festas barulhentas, mas acho que é meu dever tirá-la de lá.
Estou feliz com sua vinda para cá.
Como eu anseio reencontrá-lo!
Durante esses últimos anos o senhor tem trabalhado junto à fonte de luz e deve ter aprendido muita coisa; eu, devo confessar, conto com sua ajuda para descobrir o que me oprime tanto a alma.
"Não lamento ter matado a minha esposa, pois ela não valia nada.
Tenho remorsos pela morte de Zatórsky; por mais que ele tivesse culpa, seu coração era nobre.
"Às vezes tenho pesadelos, principalmente depois que voltei para Petersburgo.
Sonho com uma pesada rocha apertando-me o peito, e fico com a sensação de ter alguém, invisível, ao meu lado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 22, 2016 7:40 pm

Não sei explicar essa sensação desagradável:
é como se o espírito da minha esposa estivesse me perseguindo.
Estou muito infeliz e nem a arqueologia me distrai actualmente.
"O senhor me achará no novo endereço.
Vendi a minha antiga casa, que me traz más lembranças, e adquiri uma outra, na Ilha das Pedras.
É um prédio novo, parece um palacete, tem jardim e é bastante amplo para receber visitas, o que pretendo fazer.
A mudança fará bem aos filhos.
Quero que eles se esqueçam da mãe e de seu passado funesto.
Não tenho ido a Zeldenburgo pois o lugar me é repugnante; só lamento não poder vender o castelo, já que ele é nosso ninho familiar.
Aparentemente, o castelo permanece intranquilo e ninguém quer morar lá.
O administrador afirma que a baronesa e Karl continuam a assombrar o local; os camponeses dizem que ele se tornou um vampiro e degolou várias pessoas.
Há pouco, acharam o seu túmulo aberto e seu corpo estava perpassado por uma estaca.
Tal método de destruir os vampiros é tido pelo povo como o mais eficaz.
Os responsáveis não foram achados, mas Karl, segundo dizem, não apareceu mais.
"Quanto a Zeldenburgo, esqueci de mencionar uma coisa interessante. O senhor deve estar lembrado de Mery Suróvtseva, que ficou noiva do pobre Vadim Víktorovitch quase na véspera de sua tragédia.
Ela era uma jovem encantadora.
Na época que íamos viajar para a Itália, ela se recuperava de uma grave doença.
Depois eu soube que sua família sofreu muitas desgraças.
O pai, um rico banqueiro, perdeu todos os bens e enforcou-se.
Sua bancarrota teve uma grande repercussão; mas o que aconteceu mais tarde com a família arruinada, não pude saber de ninguém.
Imagine a minha surpresa, quando vi Mery andando em magnífica carruagem, vestindo roupas caras.
Alguns dias depois, eu e Lili encontramo-la no Jardim Botânico.
Soube então que ela ficou viúva de um tal de Van der Holm, era muito rica e vivia em casa própria.
No inverno, ela planejava viajar para o exterior.
Está muito bonita, mas em sua beleza há algo diabólico e nos olhos fulge um sorriso perverso.
O senhor nem imagina o que ela me havia proposto: arrendar-lhe por dois-três anos o castelo de Zeldenburgo!
Quando eu lhe mencionei que ele era mal afamado, ela soltou uma gargalhada indelicada e disse que não era supersticiosa.
Comentei então que ela não encontraria empregados que se dispusessem a ficar naquela casa fatídica; ela tornou a rir:
— Meus serviçais não têm medo de nada.
Zeldenburgo me é caro pelas lembranças da felicidade que ali me sorriu — retrucou ela, olhando-me com ódio.
"Apesar de sua sedutora beleza, fiquei com péssima impressão dela, assim como Lili.
Tenho certeza de que tanto ela como seus serviçais não temem nem o próprio Satanás.
Não obstante, concordei em alugar o castelo para ela e, ontem mesmo, nós assinamos o contrato.
Que more lá, se não tem medo de Pratissuria.
"Agora eu lhe faço um pedido, Aleksei Adriánovitch.
Se puder me dar essa honra, aceite a minha hospitalidade.
A casa é enorme; tenho uma ala totalmente livre, que dá para o jardim.
Posso lhe oferecer cinco cómodos mobiliados, com quarto de empregada e entrada independente.
O senhor se sentirá como na própria casa.
Uma escada interna leva à minha biblioteca e nós poderemos nos ver quando quisermos.
Poderá desjejuar e almoçar connosco; trabalharemos juntos e conversaremos sem sair de casa.
Sua recusa, Aleksei Adriánovitch, me amargaria muito.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 22, 2016 7:41 pm

O senhor é meu único amigo e me apoiou no momento mais difícil da vida, por isso sua presença me dará muito prazer."
"Pobre amigo!" - pensou o príncipe, dobrando a carta.
"Está evidente que sua esposa o persegue; com respeito à infeliz Mery, conheço sua história.
Esperem só, senhores satanistas, a última palavra ainda não foi dada!
Pelo jeito, está sendo preparado o acto final do drama, pois os atores principais estão se juntando.
Responderei imediatamente ao barão, aceitando seu amável convite e passarei algum tempo ao lado do amigo e da minha pupila Lili, mas lhes comunicarei que estarei levando comigo o meu novo amigo hindu."
O príncipe escreveu imediatamente ao barão e, ao receber dele um telegrama em que este afirmava que receberia com prazer seu amigo hindu, despediu-se dos mestres e viajou para o Tirol.
Feliz por terem seus mestres considerado concluída a sua primeira iniciação, ele saía de Londres já na qualidade de representante da irmandade, com total apoio dos mestres e de Vedjaga Singa; levava consigo também a corneta de caça, que o salvara da morte.
Eletsky foi recebido na vila de braços abertos; Dakhara levou-o imediatamente ao laboratório onde trabalhava Zatórsky.
Ao ver o príncipe, o doutor saltou da cadeira e, emocionado, abraçou-o e beijou-o fraternalmente.
— Agora somos irmãos, Vadim, e eu tenho a grata satisfação de não vê-lo infeliz no novo estado.
— Infeliz?
Não, Aleksei; ao contrário, não encontro palavras para expressar a minha gratidão por ter-me salvado a vida.
Morrer como ignorante cego e criminoso, e depois renascer, enxergando o caminho à luz e à vida espiritual, cheia de harmonia serena, não será uma graça suprema?
— Suas palavras são a melhor recompensa do risco que assumi, sem consultá-lo.
No íntimo eu temia que você se arrependesse de perder sua posição anterior, tendo que iniciar uma existência nova, a você impingida.
O doutor balançou a cabeça.
— Não fosse o destino terrível de Mery, eu seria um homem completamente feliz.
Aprendi tantas coisas nestes últimos anos, tantos novos horizontes se descortinaram diante de mim, que, quando penso no passado, não consigo definir em palavras o quanto eu fui ignorante e ridículo, apesar do título sonoro de "doutor" e "professor".
Dakhara, querendo deixar os dois amigos à vontade, retirou-se humildemente; Vadim Víktorovitch levou o príncipe ao quarto, onde, acomodados no sofá, ambos se examinaram curiosos.
— Você continua a esbanjar beleza, caro príncipe; não é à toa que Lili está apaixonada.
Já naquele tempo, você foi o ideal da menina — observou o doutor, malicioso.
— Como vou saber?
Talvez seu gosto tenha mudado.
Quanto a você, Vadim, eu teria dificuldade de reconhecê-lo, você está diferente.
De facto, o doutor havia mudado muito.
Emagrecido, ele parecia mais esbelto e rejuvenescido; sua fisionomia modificara-se e, nos olhos, mais escuros que antigamente, fulgia uma poderosa força de vontade.
A tez branca ganhou tonalidade brônzea, como a de um hindu, enquanto os densos cabelos, a barba e as sobrancelhas, antes escuros e levemente dourados, agora eram negros tirante a azul.
— Sem dúvida, tive de ficar diferente para não ser reconhecido — esclareceu o doutor, suspirando.
Você deve estar estranhando a minha tez oriental, os cabelos negros e os supercílios quase fechados.
A metamorfose foi uma exigência dos mestres.
Em meus banhos, desde há muito tempo, eu acrescento uma substância que vem escurecendo a minha pele; nos cabelos e nas sobrancelhas, eu passo uma pomada, que os fazem crescer rapidamente, conferindo-lhes a tonalidade de asa de corvo.
Imagine como eu ficaria rico se fosse vender esta pomada para os calvos! — acresceu ele, rindo.
— Contente-se em ser cabeludo e não pense em comercializar o segredo da irmandade.
Agora falemos de assuntos sérios!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 22, 2016 7:41 pm

Ficarei aqui três dias e depois viajaremos a Petersburgo, onde o barão nos espera, ou seja:
por mim e por Ravana Veda, meu jovem amigo hindu da casta dos brâmanes.
Não se esqueça de que este agora é o seu nome.
Estou certo de que ninguém reconhecerá em você o doutor Zatórsky.
— Sem dúvida, doutor Zatórsky já morreu e está enterrado.
Aliás, deixei de ser aquele homem leviano e materialista devasso.
Nem me arrependo de que a morte cavara um precipício entre mim e o grande mundo; só uma coisa me perturba: é o encontro com Mery.
Como ela está morando em Petersburgo, o encontro será inevitável.
Eu conhecia muita gente, mas desse tal de Van der Holm, com quem ela se casara, nunca ouvi falar.
Bem, tentaremos salvá-la, Aleksei, não é verdade?
Os mestres prometeram me ajudar.
— Sim, faremos tudo para arrancar a infeliz das garras dos demónios.
Vedjaga Singa prometeu nos dar o seu apoio e garantiu que, desde que ela não tenha tido uma relação carnal com algum ser demoníaco, poderá ser resgatada.
— Sim, sim! Gaumata também me disse o mesmo e, até agora, conseguimos salvaguardá-la de qualquer mácula, graças à vela acesa que a protege do perigo.
Oh, quanto bem poderíamos fazer por nossos próximos, não fossem eles tão cegos e conhecessem as leis que accionam as forças poderosas!
— O amor, de qualquer forma, pode operar milagres.
Não se desespere, Vadim!
Tenho certeza de que Mery será salva e, quem sabe, você a despose.
Eu também preciso me casar por determinação dos mestres, visto que os espíritos, em seu anseio de evolução através de vida nova e digna, devem encarnar-se em famílias onde são observados os princípios do bem e devoção.
Os pendores herdados pelos pais, sua negligência criminosa em relação à educação espiritual dos filhos, o contágio moral do meio escolástico pestilento, os livros pornográficos e a libertinagem geral da sociedade — tudo isso contribui para a sua degradação e, amiúde, as melhores pessoas, desiludidas, tomam asco da vida e caem no precipício do suicídio.
— As excepções também são frequentes, como é o caso de Lili.
Quem poderia imaginar que esta pura e encantadora criança, de aspirações sublimes, seja filha da bruxa devassa — Anastácia Andréevna?
Seu exemplo poderia ter exercido sobre a filha uma influência perniciosa — observou o doutor, pensativo.
— Ela suportou estoicamente sua provação — tornou o príncipe.
Também não podemos esquecer que seu pai é um homem íntegro e bom — um cientista evoluído.
É dele provavelmente que ela herdou suas virtudes.
Normalmente é assim:
os filhos absorvem os elementos essenciais do pai ou da mãe, ou seja, daquele que mais se adequar à sua necessidade moral.
Não é à-toa que o povo diz:
"cuspe do pai" ou "retrato da mãe".
— Que bom seria se a sociedade e o povo soubessem todas essas leis arcanas!
Há tanta gente que anseia pela iluminação! — observou o doutor.
— É para isso que nos estão enviando para Petersburgo, porém não pense que vai ser fácil.
Estorvos para o desenfreio, seremos malvistos por aqueles que só pensam em prazeres imediatos, orientando-se pela máxima que diz "après nous le déluge".
Depois de nós, o dilúvio!
Tão logo conseguirmos seguidores, eles se sentirão ameaçados e tentarão nos desacreditar.
A sociedade nos chamará de terroristas e maníacos, por termos ousado professar que os homens têm alma e que nem tudo acaba com a morte física, desmistificando o consolo de que toda a vilania é permitida desde que dê certo e não acarrete consequências.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 22, 2016 7:41 pm

Oh, deveremos ser insensíveis para não estremecermos diante da pressão, sob a chuva de títulos lisonjeiros: "loucos", "idiotas", etc...
Sei de antemão que, em torno dos livros a serem editados, será armada uma conspiração silenciosa; e você, Vadim, não pense que as suas curas miraculosas irão cobri-lo de fama.
Sem contar com o diploma, suas curas dos desenganados pela ciência oficial serão vistas como charlatanice e engodo.
Os filhos de Esculápio, não raro charlatães patenteados, vivem nababescamente por conta dos sofrimentos humanos, já que não há nada mais lucrativo do que as doenças "incuráveis".
Assim, desgraçado daquele que os perturbe!
— Concordo com o que me diz, Aleksei mas, quanto mais dura for a tarefa, maiores são os méritos.
Em meu caso, eu preciso remir o passado e não tenho o direito de me esquivar dos eventuais ferimentos, sejam físicos ou morais.
Você sabe o quanto fui um espírito pobre; tenho agora a dupla obrigação de propagar a verdade aos cegos e difundir os ensinamentos dos nossos mestres.
Cada espírito que eu conseguir salvar no mar tempestivo das paixões humanas considerarei como melhor recompensa por meus esforços e paciência.
— Oh, a paciência é a mais difícil das provações de um discípulo! — suspirou o príncipe.
Vedjaga Singa me disse certo dia:
"A paciência de um mestre é a escada pela qual ascende o discípulo e, quanto mais ela for firme, mais pessoas a galgarão.
Aquele que deseja difundir a luz aos ignorantes deve armar-se de paciência — um verdadeiro talismã em que se insere força mágica e hipnótica, que alça a alma para degraus supremos do conhecimento e purificação.
— Não é à toa que os profanos se orgulham de sua paciência e a consideram uma grande virtude — observou o doutor, rindo.
Continuando a conversa, Aleksei Adriánovitch falou de sua intenção de fazer no dia seguinte os retratos mágicos de Vedjaga Singa, de que precisariam em sua missão.
O doutor expressou o desejo de estar presente na interessante experiência, para conhecer o mago hindu.
— Sem dúvida, você participará dela, pois o mestre permitiu.
Ele é benevolente e gosta de demonstrar as maravilhas que não temos a capacidade de entender.
Seu desejo de vê-lo se realizará em Petersburgo.
— Vedjaga Singa pretende ir à Rússia?
— Não, mas isso não impede que você o veja.
Distância não é nada para ele, pois ele sabe contrair o espaço; como isso é feito? — só os grandes iniciados sabem!
Na noite seguinte, o príncipe abriu seu baú e dele tirou um longo estojo cilíndrico de papelão, dentro do qual se achava um fino papel gelatinoso.
Depois, ele armou uma moldura do tamanho natural de uma pessoa e nela esticou a tela de papel.
Feito isso, baixou as cortinas e acendeu a lamparina mágica, colocando-a na mesinha, de modo que essa iluminasse a tela.
A superfície da tela agitou-se, reverberando as cores do arco-íris, e, à medida que a luz suave esverdeada incidia sobre a moldura, a superfície ondulante se aplainava e logo se tornou lisa e brilhante, feito espelho.
Ordenando que o doutor não se mexesse, o príncipe trouxe um braseiro, deitou nele um punhado de ervas secas, derramou um pó branco e um liquido denso.
Depois, pegou o bastão de sete nós que trazia no peito, reverenciou os quatro pontos cardinais, recitou fórmulas e começou a girar com o bastão sobre a cabeça.
Alguns minutos após, na extremidade do bastão inflamou-se uma chama; o príncipe parou os movimentos e acendeu com aquele fogo o braseiro.
Ouviu-se uma pequena explosão e para o ar alçou-se uma labareda multicolor; o quarto encheu-se de colunas de fumaça densa de odor agradável e refrescante.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 22, 2016 7:41 pm

Por instantes a tela sumiu de vista; em seguida, através da fumaça delineou-se nitidamente um largo feixe de luz partindo da lamparina, pelo qual escorregou em direcção da tela algo vago, ali desaparecendo junto com toda a fumaça.
A lamparina iluminou então um quadro em que se via um terraço com balaustrada, envolto por plantas trepadeiras, onde se postava um homem alto, vestindo trajes alvos e um turbante na cabeça.
Uma de suas mãos estava erguida e de seus olhos negros e dedos delgados coruscavam feixes azulados; esses estranhos fulgores fosforescentes de seus olhos parecia saltarem fora da moldura, perdendo-se no espaço.
O doutor não pôde conter um grito de surpresa, vislumbrando avidamente o quadro surgido do espaço, que, de perto, parecia pintado a óleo e surpreendia por sua vivacidade.
Os feixes estranhos que se irradiavam dos olhos e dedos só podiam ser distinguidos, se o quadro fosse visto a certa distância.
O príncipe sorria de alegria e imediatamente começou a preparar outros retratos.
Ele conseguiu fazer mais dois ovalados, de busto, que colocou dentro dos medalhões de ouro com corrente, anteriormente preparados.
Um medalhão ele pendurou em seu pescoço e o outro deu a Vadim Víktorovitch, dizendo-lhe para carregá-lo sempre, para se proteger do mal e desenvolver suas forças astrais.
Dois dias depois, eles se despediram dos amigos na vila e partiram para Petersburgo.
Tendo deixado Komnor Castle após o ataque de seu ex-marido, que quase lhe custou a vida, Mery primeiro foi a Paris.
Lá ela se despediu de Uriel e depois foi a Cannes, onde estava sua mãe, com intenção de levá-la a Petersburgo.
Para sua infelicidade, ela encontrou Anna Petrovna muito envelhecida e doente; as provações por que passara, as privações e humilhações, abalaram a saúde da fraca mulher, acostumada às comodidades e luxo. Doente do fígado, seu estado complicou-se ainda por enfermidade cardíaca.
Mery achou por bem não levar a mãe para Petersburgo, cujo clima era frio, e comunicou esta decisão por carta a Uriel, expressando a esperança de que a irmandade não se oporia à sua vontade de ficar junto à mãe e prometendo cumprir, por sua vez, todas as determinações de seus mestres.
A permissão foi concedida.
Com receio de ser separada da mãe, Mery cumpria zelosamente todos os rituais satânicos.
Apesar de estar feliz por ter por perto a filha querida, Anna Petrovna sentiu instintivamente que Mery estava diferente e que essa mudança era fatídica.
Sua inquietação dilacerava-a, mas ela não quis trair suas dúvidas com medo de ofender a filha; ela não conseguia entender por que razão Mery evitava ir à igreja ou falar de religião, tornando-se uma verdadeira ateísta.
Com o corpo debilitando-se e sofrendo moralmente, Anna Petrovna extinguiu-se em sete meses após a vinda de Mery da Inglaterra.
No dia da morte de Suróvtseva, apareceu inopinadamente um dos membros da irmandade, intitulando-se como irmão Ukobakh, supostamente um amigo do falecido Van der Holm.
Um acaso o trouxera para auxiliar a jovem no sepultamento da mãe.
Na verdade, não queriam que Mery participasse do enterro.
Subitamente adoecida, Mery não foi ao enterro.
Com o objectivo de recuperar a paz espiritual, ela viajou para Itália e Suíça; passado um ano da morte da mãe, resolveu finalmente voltar para a Rússia.
Uriel aconselhou-a a não se sobrecarregar, no início, pelas preocupações com os irmãos; assim, ela instalou Natasha num bom pensionato em Nevshatel.
Pétia, que possuía uma bela voz de tenor e sonhava com o palco, foi matriculado em Milão na escola de um cantor famoso.
Ao ficar livre das preocupações quotidianas, Mery viajou para Petersburgo.
Antes de partir, foi visitada por Uriel, que lhe deu alguns conselhos e instruções, prometendo ir brevemente à Rússia, onde planeava fundar algumas organizações satânicas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 22, 2016 7:41 pm

Ele aconselhou-a a reatar amizade com seus antigos amigos, aparecer na sociedade, receber em casa e evitar atrair suspeitas sobre si.
— Nossos irmãos petersburgueses irão introduzi-la nos círculos ligados à nossa comunidade; mas você deverá também manter um estreito contacto com os mortais comuns para granjear seguidores.
Rica e bela, você ocupará um lugar de destaque na sociedade.
No andar térreo da casa de Bifru, há maravilhosos salões para as recepções.
Mas — acrescentou ele — nunca demonstre medo, que pode ser fatal, esvaindo-lhe o fluido da coragem, da força de vontade e resistência, e colocando-a à mercê do mais forte.
Confie em seus amigos e principalmente em Bifru, que ficará por perto.
Com sensação de angústia, Mery viajou para seu novo lar, ponto de partida de uma estranha e lúgubre carreira.
A carruagem de Van der Holm foi buscá-la na estação.
Já em casa, serviram-lhe lauto almoço, após o qual o mordomo Billis lhe estendeu um novo talão de cheques, pedindo que ela assinasse alguns.
— Se a senhora não tiver nada contra, assumirei a administração da casa como nos tempos do patrão vivo, livrando-a das preocupações desnecessárias.
— Excelente, meu amigo, assuma tudo.
A propósito, quero que me arrume uma camareira para serviços pessoais, mas que seja uma mulher de índole corajosa.
— Isso já foi providenciado; contratamos uma criada eficiente e destemida.
A camareira verificou-se ser uma mulher de meia-idade, taciturna e feiosa, porém conhecedora de suas obrigações, de modo que a ama ficou satisfeita.
Mery não precisou ocupar-se da economia da casa e tudo ia como máquina engraxada.
Os primeiros dias ela passou arrumando seu novo lar.
Os cómodos do primeiro andar eram esplêndidos e totalmente adequados para grandes recepções; para os aposentos particulares, Mery escolheu os quartos de Van der Holm.
Ela surpreendeu-se em encontrar no mesmo local, no gabinete, a estátua de Satanás, que ficava no oratório de Komnor Castle.
Tendo-lhe rendido a devida reverência, Mery foi se sentar à mesa, quando avistou no espaldar da poltrona o medonho gato de Van der Holm.
Ao lembrar-se das vezes em que aquele animal asqueroso a atacava, estremeceu; o gato lhe infundia medo incontrolável.
— Fora, monstro, criatura das trevas!
Não quero vê-lo aqui! — gritou ela.
O gato espichou o dorso, ameaçador.
Eriçando o rabo e arregalando os olhos de ódio diabólico, ele se agachou preparando-se para dar um bote; Mery, a custo dominando o medo, apressou-se em recitar a devida fórmula e instou por Bifru.
Ouviu-se então um forte estalido, uma lufada de vento varreu o quarto e, no ar, agitou-se uma nuvem escura que deu lugar à figura alta de Van der Holm.
— Está me chamando, querida Ralda, para que eu leve embora meu velho amigo?
Há-há-há! Não gosta do bicho?
No entanto, ele faz parte da herança — observou ele, brindando o gato com um chute vigoroso.
— Não preciso deste animal nojento.
Tire-o daqui, Bifru!
— Humm! Neste caso, adopte um outro animal.
Você sabe que pelas leis do inferno você deve ter um mascote.
— Onde vou arrumá-lo?
Ajude-me nisso:
você é mais experiente nesses assuntos.
— Darei um jeito no gato, mas você terá de encontrar outro animal.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 23, 2016 7:48 pm

— Já sei, já sei! — gritou Mery.
Em Zeldenburgo, no castelo do barão Kosen, havia um tigre misterioso, trazido da índia.
Diziam que era empalhado, mas eu o vi com meus próprios olhos rastejando em minha direcção e urrando.
Agora que tenho poderes para domar feras diabólicas, farei dele um mascote.
Conto com os mestres para que me ajudem a ressuscitá-la.
Imagine, eu levando para minhas festas um tigre domesticado!
— Sem dúvida, isso faria grande sensação; mas acho que deve esperar algum tempo para pôr o plano em acção.
O barão Kosen está para vir a Petersburgo; tente encontrá-lo e arrende seu castelo.
Você poderá substituir o tigre misterioso por um outro, empalhado de verdade; ninguém notará isso e, quando vier Uriel, peça-lhe para ressuscitar Pratissuria, como a fera é chamada.
— Que nome bonito!
Obrigada, Bifru, pelo conselho.
Agora, leve embora esse gato nojento.
O gato soltou um forte miado e desapareceu junto com Van der Holm.
Feliz por ficar sozinha, Mery sentou-se na poltrona e pôs-se a examinar alguns papéis sobre a mesa.
De súbito, nela bafejou um cheiro, misto de enxofre e cadáver em decomposição.
Quase se sufocando, apressou-se a cobrir o nariz com lenço perfumado.
Neste instante, ela avistou Cocotó com seu séquito, rendendo-lhe saudação.
— Ah, é você, Cocotó, com seu bando malcheiroso?
Argh! Não dá para respirar! — fez ela, meio brincando, meio séria.
O capeta ficou amuado e fez um beicinho.
— O nosso ex-amo gostava deste cheiro; nós o espalhamos de propósito, querendo agradá-la.
— Fico agradecida.
Talvez esse odor seja aprazível para os diabos, mas não estou acostumada com ele.
De qualquer forma, agradeço pela boa intenção.
Enquanto Mery acendia um incenso, o capeta acomodou-se no braço da poltrona e disse, todo satisfeito:
— Cumprimos sua ordem, patroa:
a família que você nos mandou aniquilar está na indigência.
Já lhe falei que o filho se matou e a velha nós despojamos das jóias.
A filha fugiu com um aventureiro, levando as últimas economias da casa; a propriedade pegou fogo e a fábrica deles teve greve e amotinações.
Correu tudo às mil maravilhas.
Houve muitos feridos e alguns mortos, entre os quais o próprio dono da fábrica.
Se você for dar um passeio em Gostínyi Dvor, o lugar onde conheceu Bifru, encontrará uma mulher pobre vendendo quinquilharias aos passantes.
O coração de Mery agitou-se de maldosa alegria:
ela estava vingada.
— Obrigada, Cocotó!
Estou contente com você e lhes darei um regalo pelos esforços.
Ela tirou do armário uma caixa com sangue em pó, misturado a migalhas de pão e açúcar, espalhou a iguaria sobre a mesa e, acomodando-se na poltrona, pôs-se a observar pensativamente os capetas devorando aquilo aos pios.
Sua satisfação maldosa, há pouco experimentada, esvaneceu-se subitamente sem que ela compreendesse a razão disso, substituída por angústia vaga.
Ínfimos e aparentemente inofensivos, aqueles seres eram um exército perigoso, semeando em seu caminho crimes e desgraças, hostilidade e homicídios, e toda a espécie de mal.
Quantas lágrimas derramaram os infortunados, vítimas do "trabalho" deles.
Provavelmente um bando semelhante assediara também a sua família, levou-a à miséria e empurrou seu pai a praticar o suicídio.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 23, 2016 7:48 pm

No coração de Mery agitou-se um sentimento hostil contra os malfeitores minúsculos; imediatamente, porém, ela sentiu uma forte dor no braço, que a arrancou de seus devaneios.
Tendo largado seu petisco, Cocotó mordia com raiva e dolorosamente o braço, enquanto seus comandados também cravavam os dentes em seus pés.
Mery compreendeu que seus pensamentos hostis provocaram a retaliação dos servos; porém ela sabia se proteger.
Após recitar a devida fórmula que atirou para longe os monstrinhos, pegou da mesa um garfo de bronze e espetou o rabinho de Cocotó ao braço da poltrona.
Gemendo de dor, o capeta suplicou por clemência.
— Se ousar comportar-se desse jeito com sua patroa, eu o deixarei espetado neste garfo e, de comida, você só receberá paprica — admoestou ela severamente.
Entendeu? Agora, caia fora e não se atreva a aparecer até que encha com pérolas aquele vaso chinês, no canto.
Desencravando o garfo, ela fez um gesto mágico e pronunciou o esconjuro, após o que Cocotó e seu séquito sumiram como que varridos por rajada de vento.
Durante o tempo subsequente, nada aconteceu de especial.
Uma vez que o inverno estava terminando, era tarde para fazer grandes recepções; não obstante, através de dois co-irmãos, Ukobakh e Abrakhel, Mery fez novas amizades e filiou-se a alguns círculos da irmandade, sob nomes mais inofensivos; algumas organizações eram de acesso restrito, onde se realizavam rituais e sessões satânicas, inclusive curandeirismo.
Por pertencerem os membros a diversas camadas da sociedade, Mery formou um círculo variado de amizade.
Passando certa vez num joalheiro, onde foi trocar o engaste fora de moda de uma jóia, ela encontrou uma velha "amiga" dessas que haviam totalmente esquecido daquela "pobretona", a quem não se dignavam a cumprimentar ou pelas quais era simplesmente ignorada.
No início Mery não a reconheceu; mas a ex-"amiga" tendo-lhe avistado os trajes ricos, avaliado as gemas valiosas e se convencido de que a carruagem estacionada na frente da loja também lhe pertencia, logo intuiu que Mery enriquecera.
Com a descerimónia com que primam os indivíduos dessa espécie, ela "reconheceu" subitamente sua ex-amiga e apressou-se em manifestar sua satisfação com aquele inesperado e agradável encontro.
Cumprindo as ordens superiores de reatar as antigas amizades, Mery tratou amistosamente a pretensa amiga, por quem no fundo da alma nutria um profundo desprezo.
Com maldosa gabolice, mais tarde Mery mostrou-lhe suas jóias e demais tesouros, rindo por dentro da inveja e ódio mal disfarçados da visita, que tivera um casamento infeliz e atravessava problemas financeiros.
Da mesma forma, Mery ficou radiante ao encontrar em Gostínyi Dvor, sob cujas arcas ela outrora vendia toalhas, a senhora Bakhválova — pobre, doente e totalmente abalada, vendendo miudezas.
Quando Mery, trajando casaco de zibelina, parou diante dela e lhe estendeu uma nota de dez rublos, a infeliz rompeu em pranto.
Certa vez, o irmão Abrakhel informou a Mery sobre o retorno do barão Kosen e, a partir de então, ela buscou uma oportunidade de se encontrar com ele.
Como já soubemos do barão, eles se viram rapidamente e, mais tarde, encontraram-se no Jardim Botânico, quando Mery aproveitou para restabelecer a amizade com Lili, sendo convidada por esta a visitá-la em casa.
Mery aceitou o convite e foi à casa de Lili.
A jovem lhe mostrou seus aposentos, constituídos de dormitório, sala de estar, biblioteca e um ateliê; a jovem baronesa pintava aquarelas e gostava de artesanato.
Acomodadas na sala de estar, Lili contou os factos mais importantes de sua vida nos últimos anos e acrescentou, fitando Mery:
— Como você mudou, Mery!
Está ainda mais bonita que antes, mas há algo em seu olhar diferente e estranho.
Sei que você passou por muitos infortúnios e perdeu o marido — o que deixa marcas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 23, 2016 7:48 pm

Diga-me: você o amava muito?
— Certamente, eu amava Óscar.
Ele era uma pessoa de qualidades raras, infinitamente bondoso e magnânimo, ainda que muito doente.
E ela contou a Lili como conheceu Van der Holm e como se casou, acrescentando com suspiro:
— Seus médicos lhe prescreveram um clima montanhoso e caminhar muito.
Num desses passeios nas montanhas do Tirol ele caiu num precipício e eu herdei todo o seu enorme património, já que ele não tinha parentes próximos.
Sua morte me deixou abalada; actualmente eu vivo na casa legada, onde tudo é repleto de lembranças dele.
Depois Mery falou da morte da mãe, contou sobre os irmãos e, finalmente, expressou seu desejo de alugar o castelo de Zeldenburgo.
— Meu Deus!
Você quer ficar naquele lugar assombrado?
Meu pai já teria vendido o castelo, não fosse ele um ninho familiar.
De qualquer forma, se o castelo não a assusta, eu acredito que o papai concorde em alugá-la.
— Foi lá que conheci Vadim Víktorovitch e passei os melhores momentos de minha vida.
Nisso veio o barão, e Mery reiterou-lhe o pedido de arrendar a propriedade; após algumas considerações, o barão aquiesceu, colocando uma única condição:
a de que Mery jamais entrasse no quarto onde ficava o museu com a estátua de Káli e o tigre.
— Prometo-lhe isso, barão.
Não me apraz a vista daquele ídolo asqueroso nem do tigre empalhado; tanto mais que um rajá hindu, que conheci na Suíça, prometeu me dar um tigre domesticado.
No início eu relutei em aceitar; assustava-me a ideia de ter uma fera em casa, mas o rajá riu do meu medo e disse:
"Lá na índia, sabemos adestrar os tigres; a senhora vai ver como Pratissuria é manso feito cordeiro".
Ele deve estar mandando o animal brevemente.
Ao ouvir a palavra "Pratissuria", o barão estremeceu e pediu que ela repetisse o nome.
— Pratissuria. Conforme me explicou o hindu, significa "o mais belo sob o sol".
Provavelmente este nome é muito comum — acrescentou ela, fingindo indiferença.
Alguns dias mais tarde, o contrato de aluguel foi firmado entres as partes.
O barão enviou uma carta ao administrador do castelo — um estoniano velho e surdo, meio fraco de cabeça — participando-o do arrendamento e ordenando que a propriedade fosse arrumada para receber a nova inquilina.
Um pouco antes, Uriel escrevera a Mery de sua breve vinda ao Petersburgo, confirmando que ela poderia adoptar Pratissuria como mascote.
Não demorou nem uma semana e o satanista veio.
Sem demorar na cidade, ele e um subalterno partiram a Zeldenburgo, levando consigo alguns baús, supostamente pertencentes à senhora Van der Holm — o que era natural.
O castelo, além do administrador, era guardado por um camponês rude, normalmente bêbado, mas suficientemente corajoso para morar naquele local funesto; ambos ocupavam uma edícula ao lado do castelo.
Dois dias depois, Uriel e seu subalterno deixavam o castelo, levando num enorme baú o terrífico tigre, que fora substituído por um outro tigre, artisticamente empalhado.
Uriel chegou à casa de Mery visivelmente satisfeito; o baú foi transportado para o laboratório de Van der Holm, onde "já se encontravam Mery e os co-irmãos Ukobakh e Abrakhel.
Eles retiraram e colocaram o corpo imóvel da fera sobre um pano vermelho estendido.
Ao se sentar na poltrona no canto do laboratório, Mery pôs-se a assistir à cerimónia mágica.
Cobrindo o tigre com um lençol molhado e fumegante, eles acenderam ao seu lado três braseiros em triângulo e Uriel começou a ler as esconjurações de um livro, escrito em tinta vermelha e língua estranha.
Em seguida, ele bateu por três vezes com martelo no disco de bronze cabalístico, pronunciando, a cada batida, o nome de Pratissuria; Ukobakh e Abrakhel neste ínterim salpicavam nos braseiros uma espécie de pó, cantando cadencialmente.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 23, 2016 7:48 pm

Uma densa fumaça encheu o laboratório, e o odor cáustico e sufocante tolheu a respiração de Mery, deixando-a tonta.
As nuvens de fumaça escureceram e começaram a reverberar em faíscas multicolores.
Subitamente, uma rajada de vento dissipou-a e Mery soltou um grito de pasmo.
O lugar estava irreconhecível:
as paredes desapareceram e diante dela se assomava floresta virgem, iluminada .por luz esverdeada.
Da cavidade oca de uma árvore secular espreitava um homem seminu, magro feito esqueleto, cabelos grisalhos e desgrenhados; seus olhos, a arderem feito brasa, pareciam vivos.
O faquir se levantou lentamente, agachou-se diante do tigre e, tirando da cintura uma flauta, começou a tocar uma incrível melodia, que fez Mery sacudir-se febrilmente, perguntando-se se aquilo não era um pesadelo.
À medida que no ar se propagavam os sons agudos da flauta, do oco da árvore surgiu uma enorme jibóia, que rastejou até o tigre e o enrodilhou com o corpo poderoso em meio a luzes púrpuras e coruscantes.
Um clarão ofuscante faiscou da cabeça do tigre, atingindo a jibóia e atirando-a para longe.
Do que sobreveio em seguida, Mery preservou apenas uma vaga lembrança.
O corpo do tigre pareceu-lhe inflamar-se; tudo em volta balouçou, rodopiou e sugou-se como que por vórtice estrondeante.
Ela perdeu os sentidos.
Ao abrir os olhos, Mery viu-se sentada na poltrona do laboratório, que retomou seu aspecto normal.
Teria ela sonhado?
De chofre seu olhar deteve-se no tigre, deitado calmamente no chão diante de uma bacia de porcelana, lambendo com ronronar de satisfação um líquido vermelho, provavelmente sangue.
O animal era de facto esplendoroso em sua beleza selvagem; seu pêlo luzia feito seda e os olhos brilhavam tal qual esmeraldas escuras.
Dando-se por satisfeito, a fera se espreguiçou.
Abrakhel pendurou-lhe no pescoço um colar de ouro com gravações cabalísticas, engastado ao medalhão; pasma, Mery reconheceu nele o coração de rubi que decorava o colar dado pela baronesa, mais tarde vendido para Van der Holm.
— Vou conversar com ele — disse Uriel, chamando o animal com gesto.
O tigre aproximou-se submisso; o satanista o afagou carinhosamente e pôs-se a lhe sussurrar no ouvido.
Era estranho aquele linguarar ora ronronante, ora assobiante, ora murmurejante e imperioso.
Pratissuria parecia entendê-lo, aguçava as orelhas e em seus olhos esverdeados fulgia luz de inteligência; fustigando as ancas com o rabo, seu olhar por vezes detinha-se em Mery, com expressão quase humana.
Aparentemente o tigre parecia à vontade.
Uriel lhe deu um beijo na fronte e a fera esfregou a cabeça no pescoço do satanista.
— Agora vá e dê um beijo em sua nova patroa.
Pratissuria aproximou-se de Mery, empinou-se em patas traseiras e, apoiando-se com as dianteiras nos ombros dela, lambeu-lhe a face.
Ao sentir a respiração cálida no rosto, Mery estremeceu, contudo dominou o medo e, sem piscar, afagou a fera.
Ronronando, o animal acomodou-se no chão aos seus pés.
— Você pode levá-lo em seus passeios, Ralda; até crianças podem brincar com ele sem correr perigo.
Mas cuide para que ele seja sempre alimentado.
Vou dizer para Billis lhe fornecer diariamente cinco libras de carne picada e uma bacia de sangue fresco.
Estando alimentado, o animal será inofensivo, a não ser contra aqueles que tentarem demovê-la do satanismo.
Seja firme em sua fé para evitar quaisquer dissabores.
Mery acostumou-se rapidamente ao novo companheiro; logo, nem o seu cheiro característico lhe causava náuseas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 23, 2016 7:48 pm

Através de Uriel, Mery conheceu muita gente na cidade.
As visitas dele eram frequentes.
O satanista a divertia muito contando episódios engraçados sobre pessoas que se intitulavam "mestres em magia negra" ou "membros proeminentes da seita satânica".
Parvos, de inteligência limitada, eles davam-se ares de importância por suporem conhecer os "grandes poderes mágicos" — o que os fazia ridículos.
— Cuidado, Ralda:
não confie a esta gentalha qualquer informação arcana!
Ainda que eles nos sejam úteis, devemos evitar de muni-los de poderes perigosos.
Com tempo, depois que você estudar profundamente a nossa doutrina, vai entender melhor todo esse nosso cuidado, por mais engraçadas que possam parecer essas pessoas.
A sensação que Mery produziu ao sair com Pratissuria na rua foi enorme.
No início, em passeios dos dois de carruagem ou caminhando no Jardim do Verão, os passantes ficavam aterrorizados com o terrífico mascote; mas, com o tempo, o andar majestoso e a aparência dócil de Pratissuria eram motivos de admiração menos apreensiva.
Os mais ousados até se arriscavam a afagar-lhe o dorso e ofereciam comida; ele aceitava os regalos, surpreendendo a todos com a arte dos hindus em domesticar feras.
A princípio, o animal também infundia em Lili um pavor incontrolável em suas visitas a Mery; contudo ela logo se acostumou à sua presença e até aceitou que Mery a visitasse com ele, já que não gostava de sair sem sua companhia.
No vagão da primeira classe do trem expresso que ia a Petersburgo, encontravam-se dois homens em trajes elegantes de viagem.
Um eles era o príncipe Eletsky, o outro — o brâmane Ravana Veda, em quem dificilmente alguém reconheceria o doutor Zatórsky, cujo russo estava meio enferrujado; seu inglês e francês, porém, eram fluentes, pois era nessas línguas que ele se comunicava com seus mestres e orientadores.
Os viajantes estavam meditativos.
À medida que se aproximavam da capital, uma angústia indefinida tomava conta de Vadim Víktorovitch.
Assomavam-se-lhe as recordações de sua velha tia, sua casa com objectos queridos, lembrando as pessoas próximas e caras.
Tudo aquilo estava irremediavelmente perdido, disperso ou apossado por outro herdeiro.
Sua mãe de criação estava morta; o passado, tanto como ele, ficou enterrado sob a cruz lapidar na sepultura do doutor Zatórsky.
Pela primeira vez ele experimentou a amargura de sua solidão e o peso da necessidade de refazer a vida na nova condição.
Não eram, contudo, as preocupações materiais a causa de suas apreensões, já que na algibeira seu talão de cheques lhe assegurava uma situação segura, e tudo por conta da irmandade.
Por dentro, ele estava meio constrangido em ter aceitado a hospitalidade do barão, mas também não tinha uma causa justa para declinar do convite e precisava, além disso, orientar-se antes no novo ambiente, já na qualidade de um estrangeiro.
Finalmente o trem adentrou as abóbadas de vidro da Estação de Varsóvia e, ao saírem do vagão, os amigos avistaram o barão, procurando-os na plataforma.
Maximiliano Eduárdovitch também havia mudado muito:
seu alto talhe encurvou-se, a fronte cobriu-se de rugas e o cabelo e a barba embranqueceram.
"Terão sido os remorsos que o envelheceram tanto?" — perguntou-se o doutor, examinando o barão a abraçar alegremente o príncipe, feliz pelo reencontro.
Eletsky apresentou então seu companheiro; apertando-lhe a mão, o barão atestou a Ravana Veda, em inglês, que este o lisonjeara com a honra de acolhê-lo em casa.
Com certo alívio o doutor verificou que o barão não o reconhecera.
Lili aguardava a chegada dos viajantes com ansiedade febril.
Após ter reexaminado os aposentos reservados aos hóspedes, ela espalhou pelos cantos vasos de flores para criar um ambiente mais aconchegante e, depois, passou em revista a mesa posta, servida magnificamente.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 1 de 3 1, 2, 3  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum