Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Página 2 de 3 Anterior  1, 2, 3  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 23, 2016 7:49 pm

Acotovelada no parapeito da janela da sala de estar, ela se pôs a observar a rua; seu lindo semblante, geralmente pálido, ardia em rubor intenso.
Lili se tornara uma jovem atraente, esbelta e graciosa, com enormes olhos negros e dóceis, como de uma gazela, e bastos cabelos cor de cinza, muito raros.
Indubitavelmente, seus encantos podiam despertar a paixão masculina; mas, simples e tímida, Lili não pensava nisso.
Seu nervosismo se explicava pela alegria de reencontrar seu orientador, a quem devotava uma adoração irrestrita desde criança.
Finalmente ela avistou o automóvel do pai, estacionando junto ao portão, e, um pouco mais tarde, no vestíbulo se ouviu a voz do barão, expedindo ordens, e uma outra, tão familiar, há muito tempo não ouvia.
Sua alma agitou-se em sentimento de bem-aventurança; ela cerrou os olhos e premeu a mão contra o coração palpitante.
Uma voz alegre a ela dirigida fê-la abrir rapidamente os olhos, embaraçada.
— Elizaveta Maximiliánovna, não quer ver seu velho amigo?
Ela estendeu as mãos ao príncipe, que a fitava com admiração indisfarçável.
— Oh, muito pelo contrário, estou feliz com a chegada de alguém a quem eu devo muito pelas orientações recebidas.
— Todo mérito é seu, já que conseguiu aplicá-las na prática — considerou o príncipe, beijando-lhe as mãos delicadas.
Mas como você cresceu e mudou, minha pupila!
Posso chamá-la como antigamente: mademoiselle Lili?
— Claro, claro, ou simplesmente Lili, se quiser.
O senhor é meu mestre e orientador.
O príncipe riu.
— Não quero abusar de meu cargo.
Permita-me então apresentar-lhe meu amigo, Ravana Veda, médico e cientista hindu.
Lili estendeu a mão em gentil saudação e o seu olhar escorregou indiferente pela figura alta do hindu curvado.
Nisso, seus olhares se cruzaram e, estremecendo, Lili fitou curiosa o rosto brônzeo do desconhecido.
Seus traços não lhe diziam nada, todavia os olhos...
Onde ela já havia visto esses olhos bondosos e meigos?...
O chamado do barão para o almoço interrompeu a conversa e todos passaram ao refeitório.
O príncipe não deixou de notar o modo com que Lili observava seu amigo hindu, conversando com o barão, e, curvando-se a ela, perguntou a meia-voz:
— Você não gostou do meu amigo?
Por que estremeceu tão logo o viu?
— Não, não é isso.
Surpreenderam-me os seus olhos.
Eles não lhe lembram alguém conhecido?
Com a resposta negativa do príncipe, ela tornou:
— O senhor provavelmente o conhecia pouco, mas eu me lembro bem:
o olhar desse hindu é igualzinho ao do doutor Zatórsky.
A semelhança dos olhos é surpreendente e...
— Sem dúvida, é curioso que alguém nascido nos trópicos se pareça com um nortista típico da Rússia, já falecido — interrompeu o príncipe.
— O doutor sempre foi bom connosco e sempre o estimei.
Eu descobri que Vadim Víktorovitch fora enterrado perto do túmulo de sua tia no cemitério Aleksandr Nevsky e achei sua sepultura.
Ela estava completamente abandonada e a cruz de madeira se encontrava caída.
Seu primo, que ficou com toda a herança, bem que podia lhe erguer um monumento adequado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 23, 2016 7:49 pm

Teria sido melhor que seu corpo permanecesse em Zeldenburgo, no nosso jazigo familiar — concluiu Lili, com desgosto.
— Eu mandarei construir-lhe uma bela lápide.
— Isso já foi feito.
Atendendo ao meu pedido, meu pai me deu dois mil rublos e eu mandei erguer um maravilhoso monumento em mármore branco com canteiro de flores, onde um guarda mantém uma lamparina sempre acesa diante do ícone da Virgem Santa.
Sempre que posso, eu vou lá para orar e levar flores frescas.
Falando em russo, em sua excitação, ela não percebeu o olhar enigmático que lhe deitou o hindu.
— Sabe, Aleksei Adriánovitch — tornou ela, em voz mais baixa, e após um minuto de silêncio —, eu ouvi dizer que os empregados em Zeldenburgo têm visto minha mãe correndo pela galeria de vidro e fazendo gestos desesperadores.
Sem dúvida, sua alma está penando, pois ela morreu sem se arrepender.
Oh, que pecado terrível pesa sobre meu pai!
Diga-me: não é possível fazer algo para que ela descanse em paz no túmulo?
— Preciso pensar.
De qualquer forma, rezarei muito por ela — adicionou o príncipe, fitando com compaixão os olhos perturbados e húmidos de Lili.
Após o almoço a conversa continuou e a jovem baronesa falou de Mery, observando que esta mudara muito.
— Não gostei da casa dela.
Apesar de todo o seu luxo, fiquei mal impressionada com os ídolos de demónios, colocados na ante-sala.
Sem falar de suas manias, no mínimo estranhas:
ela não se separa de seu tigre adestrado e, agora, quer passar o resto do verão naquele castelo assombrado de Zeldenburgo.
— O barão me falou dessa sua fantasia estranha, tanto mais depois de tudo que ela passou.
— Sabem, tenho a impressão de que, apesar de seu casamento, ela não se esqueceu de Vadim Víktorovitch.
Quando eu lhe expressei a minha estranheza de ela ir morar no castelo, ela comentou em tom triste:
"Aquele local me é caro, pois ali eu vivi os melhores momentos de minha vida".
Os dias que se seguiram foram para Lili uma aventurada tranquilidade; ao contrário, para o príncipe e seu amigo — marcados por trabalho exaustivo.
O doutor preparava-se para iniciar seus tratamentos, baseados na medicina hermética; Eletsky ultimava a edição de uma obra, trazida em manuscrito.
Ele não se enganara quanto à dificuldade de fazer um livro, cujo teor contrariava os conceitos arraigados com nova ideologia, abrindo horizontes totalmente ignotos.
Certo dia, o príncipe fazia uma palestra no auditório da casa do barão diante de um numeroso público, sobre o seu livro.
O tema abordava, entre outras coisas:
as tonalidades das cores dos pensamentos irradiados e a força da corrente do córtex na meditação, comprovada pela capacidade de fazer subir ou descer o nível do mercúrio no termómetro, sob a força fluídica do experimentador.
Não menos interessantes eram as experiências para ressuscitar, através de correntes astrais, as gemas valiosas, pérolas "mortas", flores murchas, insectos e pequenos peixes e, finalmente, os experimentos com a exteriorização do corpo astral e o enfrentamento da morte.
A palestra excitou curiosidade entre os ouvintes pertencentes à "nata" da sociedade, e uma vez que alguns se interessavam pelo ocultismo e tinham algum problema de doença, estes se candidataram a fazer um tratamento hermético com o "inigualável" hindu Ravana Veda.
Quando os amigos se viram sozinhos, o doutor parabenizou o príncipe com seus primeiros futuros leitores.
— E você, parabéns por seus primeiros pacientes!
Entre eles há muitas damas, querendo se tratar de graça.
— De facto, inscreveram-se dezasseis mulheres — o que não é nada mal para começo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 23, 2016 7:49 pm

É uma pena que todas essas damas e os distintos cavalheiros apresentam basicamente possessão demoníaca.
Vai ser difícil fazê-los entender isso.
— O caso mais difícil é o de Mery.
Encontrei-a hoje na Rua Morskaya, com seu terrível mascote sentado no banco dianteiro do coche.
Aposto que aquele tigre é o mesmo Pratissuria do castelo de Zeldenburgo.
Mery está linda, mas seu séquito oculto é asqueroso; arrancá-la das garras dos satanistas não vai ser fácil.
— Temo que a matem — observou o doutor com tristeza.
- Não, não, Vedjaga Singa prometeu nos ajudar! — redarguiu o príncipe.
O doutor nada comentou; ele parecia triste e apreensivo.
No outro dia, de manhã, o doutor foi para o cemitério Aleksandr Nevsky e orou demoradamente junto ao túmulo da tia; mais tarde, encontrou também o monumento em sua homenagem.
Com nervosismo compreensível, ele vislumbrou a cruz de mármore, recostada à qual estava uma jovem encoberta por véu; aos pés do túmulo havia buquês de flores.
Certamente era Lili — moça boa e encantadora, que se preocupava com sua alma.
Que recordação comovente ela lhe guardava!
Malgrado sua ingenuidade naquela época, ela intuía que o "amor materno" da baronesa e a educação absurda, dada aos filhos, não passavam de uma comédia, onde ela interpretava o papel de mãe ciosa e esposa devotada.
Ao recordar-se da mulher cínica e criminosa, que o escravizara e lhe arruinara a vida, ele foi tomado de nojo e vergonha pelo passado.
Como gostava de passear, ele foi andando a pé pela Avenida Nevsky, divertindo-se, meio sobressaltado, ao topar com velhos amigos, conhecidos ou ex-pacientes; porém ninguém o reconheceu.
Ao lado de uma loja rica, na esquina da Avenida Nevsky e Rua Morskaya, ele viu subitamente Mery.
Ela estava saindo da carruagem, deixando Pratissuria dentro, e quase esbarrou no doutor ao passar por ele; seu olhar apenas escorregou indiferente, ao vê-lo esquivando-se da trombada.
Vadim Víktorovitch ficou junto da vitrine, aguardando com coração acelerado sua saída da loja.
Que mudança radical se operara naquele ser encantador e puro, que consagrara seu coração a ele!
Ela estava ainda mais bonita, mas que preço pagou por sua beleza demoníaca, ao empenhar a alma!...
O que não daria para saber se ela ainda sentia algo por ele, ou que dele não se esquecera!
Bem, de qualquer forma, para salvá-la e arrancá-la do poder do mal, estaria disposto a sacrificar a vida, sem quaisquer outras intenções...
O doutor e o príncipe estavam assoberbados de trabalho.
Eletsky acompanhava a impressão de seu livro, a ser lançado com ampla propaganda; o doutor preparava sua clínica.
Ele havia alugado, perto do barão, um prédio com jardim, de dois andares, seis cómodos em cada um.
No térreo, localizavam-se a sala de recepção e a biblioteca — tudo modestamente mobiliado; no segundo andar, havia quatro salas para homens e mulheres, um salão amplo e, em anexo, um quarto destinado para uso especial.
Neste último, localizava-se no centro um grande disco metálico, furado tal qual peneira, embaixo do qual se via um braseiro.
Numa mesa, dentro de bacia de cristal com água jazia mergulhada uma cruz reluzente; em castiçais altos viam-se velas brancas de cera; numa outra mesa, dentro de um vidro com tampa eram guardadas as hóstias magnetizadas.
Uma das paredes da sala ostentava um enorme quadro, representando o momento em que Cristo operava a cura de um homem possuído, cujos demónios obsessores, incorporando-se em porcos, atiram-se no mar.
O semblante do Salvador, maravilhoso pela expressão do poder e da força de vontade, produzia um efeito grandioso.
Na manhã do dia da inauguração da casa de saúde e do primeiro dia de consultas, o príncipe observou:
— Está chegando a hora de seu primeiro desafio, amigo Ravana.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 23, 2016 7:49 pm

Imagino o susto de seus encantadores pacientes, quando você lhes revelar as verdadeiras causas de seus males.
— Sinto-me tal qual um escolar antes do exame.
Falta-me a "muleta", ou seja, o diploma, a que me acostumei e do qual me orgulhava, malgrado minha ignorância.
No salão, já descrito antes, reuniram-se cerca de trinta homens e mulheres, a maioria com alguma doença.
O doutor entrou e subiu num pequeno estrado; depois de saudar o público presente, ele fez um pequeno discurso.
— Prezadas senhoras e senhores!
Permitam-me, antes de tudo, agradecer-lhes a presença aqui, onde eu quero mostrar-lhes alguns métodos de tratamento, diferentes dos que se aceitam pela ciência oficial.
Eles se fundamentam na ciência hermética, actualmente tratada com desprezo, mas que não lhe diminui a importância.
Segundo a grande premissa desta ciência, nunca podemos dizer que uma determinada doença é "incurável".
Se não sabemos a sua origem ou não conseguimos tratá-la, o mistério da cura do mal deve ser procurado não em causas físicas, mas morais e ocultas, pois trata-se de doenças de fundo espiritual e astral, que afectam o corpo físico.
Um genial cientista, Paracelso — quase desconhecido hoje —, estabeleceu cinco causas de todos os tipos de doença.
Entre outras, a benigna ou maligna influência dos astros celestes, pois tudo na natureza está associado ao bem ou mal, ao puro ou impuro.
A segunda causa, na opinião de Paracelso, deve-se à existência de princípios maléficos que debilitam o organismo em consequência de seus efeitos, ou — em palavras mais claras — a influência que exercem os espíritos do mal sobre o organismo ou o corpo a ele subordinado através de expedientes específicos.
Analisemos as causas que sujeitam um organismo à acção dos seres e fluidos maléficos.
Descobrir a causa é achar a chave para tudo.
Sendo fraco, o homem vive praticando actos repreensíveis e pecados morais, que desencadeiam pecados físicos.
Para efeito de ilustração, posso citar aqui os intentos impuros, as paixões e os vícios sórdidos, entre os quais a devassidão, a embriaguez, a avareza, que atraem ao homem seres invisíveis da mesma categoria.
Pessoas cruéis, ambiciosas e impiedosas convocam a si o ódio, a hostilidade e as danações; os miasmas fluídicos, atraídos por tais sentimentos, infiltram-se no sangue e grudam num órgão enfraquecido, precipitando uma doença perigosa e dita incurável.
A profunda descrença e o desprezo do homem por rituais religiosos purificadores, sua preguiça de orar, desarmam-no finalmente, deixando-o à mercê da possessão, da obsessão ou de outros males, que lhe destroem em seguida o corpo.
A medicina hermética, que eu lhes proponho, faz uso de aromas, cores, música e outros expedientes mágicos, que acabam com a doença pela raiz.
Depois de expor os diferentes sistemas de tratamento, o hindu sugeriu que os ouvintes se convencessem, na prática, sobre a eficácia da cura.
Um dos presentes, portador de uma profunda forma de neurastenia que não cedia a nenhum tratamento, ofereceu-se para se o primeiro a se sujeitar à experiência.
Era um homem quarentão que arrastava uma perna e se apoiava numa bengala; o rosto amarelado, cheio de rugas precoces, e os olhos cansados e opacos, testemunhavam a gravidade da doença.
O doutor o convidou para o quarto contíguo e pediu que ele se despisse.
— Vou me resfriar, sou muito sensível ao frio — protestou o enfermo.
— Não tenho dúvida de que o senhor sente frio em todo o organismo.
Tem dor nas costas, mãos e pés; além disso, o senhor sofre de tiques nervosos, dispneia e tontura.
A insónia e a ausência de apetite exaurem-lhe as últimas forças; a taquicardia e a cabeça pesada não o deixam trabalhar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 23, 2016 7:49 pm

Mas não tema resfriar-se; dispa-se e coloque esta camisola de lã!
Muito bem, agora junte suas coisas e siga-me!
Eles passaram ao quarto já descrito antes e então o médico perguntou:
— O senhor acredita em Deus?
— Devo reconhecer que não muito.
Sua pergunta me desconcerta:
vim para tratar-me e não para confessar minhas convicções religiosas — protestou o enfermo com desdém.
O doutor largou um sorriso.
— O senhor está enganado.
Se ouviu atentamente minha palestra, deveria ter compreendido que o estado moral afecta intensamente o físico.
As consequências ocultas do modo de sua vida não contribuem para que o senhor goze de perfeita saúde.
O senhor vive de agiotagem; muitos dos que foram pelo senhor dilapidados acabaram se matando e agora o perseguem com ódio implacável.
Até com seus próximos, o senhor é avaro e perverso:
seu irmão, adoecido em consequência das privações, morreu no hospital, e sua mãe passa por dificuldades.
As maldições e injúrias geradas por seus actos recaem no senhor, afectando-lhe a saúde.
Cadavericamente pálido, olhos esbugalhados e tremendo de pasmo e ódio, o paciente ouviu o médico, que calmamente desmascarava seus actos perversos de conhecimento de poucos.
— Agora, se o senhor quiser se curar, fique de joelhos e suplique a Cristo pela misericórdia; em sinal de arrependimento, escreva neste papel a relação de seus malefícios e depois o atire no braseiro — acrescentou o doutor.
O aborrecimento do paciente deu lugar à apreensão.
Ele ajoelhou-se, escreveu uma lista comprida de seus pecados e atirou o papel no braseiro.
O médico ordenou então que ele se postasse de joelhos no disco furado e atirou um punhado de ládano nos carvões do braseiro.
Colunas aromáticas envolveram o enfermo; Ravana benzeu-o com água benta, recitando preces purificantes e fórmulas mágicas.
O enfermo começou a gemer e contorcer-se, queixando-se de dor lancinante em todo o corpo, do qual subia em espiralaça negra; por fim, ele desabou em pranto convulsivo.
— Se o senhor se arrepende sinceramente de seus equívocos, pense numa forma de reparar o mal causado aos seus semelhantes.
Ou o senhor não pretende fazer isso? — perguntou o doutor.
— Sim, sim, eu quero reparar tudo.
Queimarei as notas promissórias dos devedores e aliviarei o infortúnio das viúvas e órfãos; darei uma pensão à mãe, mandarei erguer uma cruz no túmulo do meu irmão e encomendarei uma missa pela paz de sua alma — balbuciou o enfermo.
— Suas intenções são louváveis, mas não as fique postergando.
Agora desça, tenho de purificar também as suas vestes.
O enfermo desceu no chão e subitamente exclamou alegre:
— Estou me sentindo bem melhor; meus membros movem-se livremente, a dor na mão passou por completo.
Ó, senhor Ravana Veda, o senhor é um milagreiro fabuloso!
— Sou apenas um humilde discípulo da ciência hermética.
Prometo-lhe seu restabelecimento completo, desde que fique trilhando o caminho da verdade.
Quando o paciente se vestiu, o doutor lhe deu algumas hóstias magnetizadas, para serem ingeridas de manhã e de noite, e um frasco com essência para esfregar no corpo, ordenando-lhe que voltasse uma semana depois.
Entre outros pacientes, Zatórsky recebeu também uma dama, que chamara sua atenção devido às vestes excêntricas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 24, 2016 7:31 pm

Desfiando os inúmeros males que a atormentavam, ela, posando de Níobem, lançava ao hindu olhares maliciosos.
— A senhora é casada? — interrompeu ele as suas lamentações.
— Sim. Meu marido me adora — respondeu ela, dengosa.
— E, como recompensa, a senhora o trai com tanta naturalidade?
A senhora tem um amante, e esse relacionamento não é segredo nem para seus filhos, que a senhora perverte com seu exemplo.
Além disso, a senhora recorre à feitiçaria e às forças obscuras para subjugar o marido e o amante.
Enquanto prosseguir com tais sacrilégios, ficará incurável, pois só através de sacrifícios merecerá a misericórdia e o perdão.
Pega de surpresa, rubra de raiva e indignação, ela se recompôs um pouco e gritou:
— Como o senhor se atreve a dizer isso?
Em vez de me cuidar, o senhor está me ofendendo.
O senhor é um homem vulgar e, no mínimo, nunca lidou antes com uma mulher de alta-roda.
Saiba pois, seu ignorantão, que os meus únicos feitiços são a minha beleza, e os meus assuntos íntimos não lhe interessam.
Não quero seu tratamento de charlatão e direi aos meus amigos que o senhor é um espião.
Acharei quem me cure.
— Tenho dúvidas.
Seu câncer já está bem adiantado; para a ciência que só trata do corpo físico, a senhora está desenganada.
Sem nada dizer, ela saiu feito Fúria do quarto.
Vadim Víktorovitch contou o episódio ao príncipe e ambos riram a valer.
— Você é um médico bem indelicado.
Como pôde comentar seus segredos íntimos e ainda lhe dizer que sua enfermidade se deve aos "prazeres mundanos", impossível de ser curada com águas medicinais ou mesa de roleta?
— Tem razão, Aleksei; fui indelicado.
Mas como às vezes é gostoso atirar a verdade nessas pessoas dissolutas, mesmo tendo que ouvir epítetos nada honrosos de "vulgar", "ignorantão", "espião" e "charlatão", com que ela me chamou — acresceu o doutor rindo, sendo secundado pelo amigo.
Apesar do constrangimento que alguns pacientes experimentaram em consequência da demasiada franqueza do médico hindu, o afluxo do público ao sanatório hermético aumentava a cada dia.
Ali se realizavam curas de facto milagrosas; os "desenganados" se recuperavam corporal e espiritualmente, e Ravana mal conseguia atender a todos os pacientes.
Ele clinicava unicamente ali, em horários determinados, e recusava-se a atender os pacientes em domicílio, para preservar a liberdade e ter seus momentos de repouso.
Seu coração, contudo, estava aflito, pois Mery abandonou Petersburgo.
Para o espanto de seus conhecidos na alta-roda, que consideravam Zeldenburgo um local nefasto, ela viajou para o castelo, movida por recordações que ainda se espreitavam nos recônditos de sua alma.
Ali se havia desencadeado o drama lúgubre que lhe subtraiu a pessoa amada; mas o medo, este ela dominou havia muito tempo.
Decidida a passar no castelo umas seis semanas, para lá ela se dirigiu em companhia de Pratissuria e da criada, intimorata como a patroa.
Uma angústia estranha por algo para sempre perdido assaltou-se dela ao ver o castelo, onde nascera seu primeiro amor.
Cada canto, cada objecto lhe falava dele; o barco lembrava-lhe o passeio sob o luar, o salão era motivo da recordação de quando dançava com ele, o antigo quarto — da confissão de amor e do primeiro beijo de Zatórsky.
Ansiosa por rever os traços do ex-noivo, ela lembrou-se de que no boudoir da baronesa, sobre a escrivaninha, havia um retrato do doutor; porém este já não estava lá e as gavetas achavam-se trancadas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 24, 2016 7:31 pm

Utilizando suas próprias chaves, conseguiu abrir uma delas e encontrou, no meio de diversas miudezas, um retrato em aquarela de Vadim Víktorovitch.
O pintor por certo era um artista genial, pois a obra era muito fiel.
Mery colocou-a diante de si e pôs-se a admirar os traços queridos; quanto mais olhava para os olhos vivos que a fitavam, mais a angústia dolorosa apertava-lhe o coração.
Ele é que era feliz, e ela?...
Oh, por que a morte não a alcançou quando ficou doente depois de voltar para casa?
Quantos sofrimentos teriam sido evitados; ela jamais teria sucumbido ao sorvedouro do mal, ao qual foi empurrada pela indigência...
Uma dor lancinante em todo o corpo e o rugir surdo de Pratissuria lembraram-lhe que os seus pensamentos vagavam em zona proibida.
Oh, essa vigilância odiosa!...
Soltando um riso seco, ela se levantou, afagou o tigre e saiu levando o retrato; ali ele não serviria para ninguém, enquanto para ela era uma recordação cara.
O tempo posterior escoou-se calmamente.
Mery lia, estudava, passeava e sonhava.
Ela viu também a baronesa, esfarrapada e ensanguentada, vagando pela galeria de vidro, e uma vez até esta tentou atacá-la.
Porém, o espírito errante hostil foi amansado por Mery e não apareceu mais no castelo.
De volta a Petersburgo, ela levou consigo o retrato de Zatórsky.
Sua intenção era perguntar para Lili onde o doutor fora enterrado, para fazer uma visita ao seu túmulo.
Tais visitas não eram proibidas aos membros da irmandade, frequentemente obrigados a participarem de cerimónias fúnebres, quando uma ausência poderia suscitar suspeitas; eles só evitavam entrar em igrejas.
Chegou a primavera quente e maravilhosa, rara para Petersburgo; muitas famílias haviam retornado para a capital, cuja vida se animou.
Entre os conhecidos de Mery havia uma certa baronesa Dogel — uma alegre mulher de alta-roda, que vivia procurando novas diversões.
Mery já a conhecia antes, mas depois a perdeu de vista; agora ela a reencontrava num círculo de ocultistas, onde a baronesa se imaginava erradamente iniciada em ciências "arcanas" e disso se orgulhava.
Como seu filho deveria prestar exames na escola, ela retornou da casa de campo antes que habitualmente.
De índole empreendedora, a baronesa logo inventou um bazar beneficente, cujos lucros seriam revertidos para ajuda às vítimas de uma aldeia queimada.
Ao saber do retorno de Mery, a baronesa foi procurá-la em casa a fim de que participasse do bazar.
— Vai ser divertido.
Todas as vendedoras terão seus uniformes e, para a senhora, eu reservei um belo quiosque.
Teremos dois grandes chamarizes:
o príncipe Eletsky e um hindu de Benares — famoso por suas curas maravilhosas.
Devo acrescentar que, além de seus conhecimentos em medicina, Ravana Veda é um homem muito bonito; ele prediz o futuro melhor do que qualquer Nostradamus.
Seu quiosque por certo atrairá muita gente.
— Eu gostaria de consultá-lo sobre o meu futuro, mas como o farei, tendo que tomar conta da minha barraca? — perguntou Mery.
— Não se preocupe!
Uma sobrinha minha vai ajudá-la, de modo que a senhora arrumará um tempo para conversar com ele.
Lili Kosen também terá sua banca; o pai dela doou para o bazar algumas antiguidades raras.
Finalmente chegou o dia do bazar, cuja decoração e os artigos disponíveis à venda faziam jus ao bom gosto da baronesa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 24, 2016 7:31 pm

Cada quiosque decorado ao estilo do género dos artigos vendidos tinha sua vendedora em trajes típicos.
Em roupa de vestal, Lili tomava conta de uma banca imitando gruta, decorada com estátua de Vesta, onde eram oferecidas lâmpadas originais, abajures, louça de cerâmica, incensos, fósforos; Mery, vestida de italiana, vendia flores, bijuterias e demais miudezas.
Uma das grandes atracções era o quiosque do príncipe Eletsky, cujas poções de amor, perfumes orientais e talismãs faziam grande sucesso.
Seu maior concorrente era Ravana Veda, instalado num pequeno pagode, cuja entrada era guardada por um faquir.
O "feiticeiro hindu" predizia o futuro e mostrava o passado, consultando espelho mágico.
Entre os consulentes, não havia quem saísse do pagode sem se admirar, pasmado com as revelações do feiticeiro hindu.
Mery remoía-se de curiosidade:
"O que estará me guardando o futuro?
Será ele tão pavoroso como o foi para Van der Holm?
Adivinhará o feiticeiro quem sou eu de verdade?"
Aproveitando um minuto oportuno, ela correu até o pagode, sendo ali admitida sem esperar na fila.
Seu minúsculo interior estava mergulhado em semi-escuridão; no fundo do ambiente, via-se um grande espelho mágico de superfície turva; duas poltronas ladeavam uma mesinha, sobre a qual o hindu remexia algo num estojo aberto.
Mery esquadrinhou com o olhar curioso a figura alta e esbelta do "feiticeiro", trajando túnica branca e turbante de musselina.
Sem motivo aparente, por sua espinha percorreu um arrepio gélido, ao ser convidada para se sentar e indagada sobre o que queria saber.
— Diga-me se terei uma vida tranquila e que tipo de morte me aguarda? — perguntou ela, estendendo a mão.
O hindu tomou-a e curvou-se diante da palma acetinada; os dedos do adivinho estavam gelados e a Mery pareceu que eles tremiam.
— A vida, pela qual optou, irmã Ralda, não pode ser tranquila ou sem sobressaltos.
Os espíritos das trevas vigiam-na e criam em seu caminho diversos obstáculos, o que lhe trará muitos sofrimentos.
O inferno exige um tributo pelas benesses terrenas que lhe são prodigalizadas.
Mery ficou pálida, estremeceu e saltou da poltrona. Surpresa e apreensiva, ela fitou o hindu, que a olhava com tristeza e compaixão.
Aquele olhar parecia-lhe incrivelmente familiar, mas onde ela poderia tê-lo visto?
— Irmão, o senhor deve ser um dos nossos, já que conhece meu nome — balbuciou ela indecisa.
O hindu meneou a cabeça em sinal de negação.
— Não, não sou um dos seus.
Apenas sou clarividente e sua vida para mim não é mistério.
Quanto à sua morte, não posso lhe dar uma resposta conclusiva:
seu futuro é nebuloso.
Só posso lhe dizer que a senhora se encontrará diante de um dilema:
retornar à luz ou continuar adepta do inferno.
Não consigo prever a opção que será feita.
— Minha opção já está feita e estou firme em minhas decisões.
Como o senhor não é um dos nossos, espero contar com sua discrição — disse Mery em tom frio, dirigindo-se à saída.
Lugubremente sobressaltada, ela deixou o pagode.
A alegria do bazar estava estragada; ao retornar para casa, mergulhou em devaneios, pensando em avisar Uriel, mas logo descartou a ideia.
Que mal pode haver se o hindu conhece a verdade?
Que ele ficaria calado, disso ela não tinha dúvidas; indispô-lo com Uriel, era-lhe desagradável por algum motivo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 24, 2016 7:32 pm

Passados alguns dias, Mery tranquilizou-se por completo e o incidente no bazar já não a perturbava.
Ela acabou aceitando o convite de almoçar na casa de Kosen, sabendo que lá encontraria Ravana Veda.
A pedido de Lili, instruída pelo príncipe, Mery levou o seu mascote, pois os convidados do pai queriam ver a fera domesticada.
Na sala de estar já se encontravam o barão, o príncipe e o hindu.
Mery apertou a mão do príncipe e respondeu friamente à reverência respeitosa do hindu.
Após dar um beijo em Lili, que acabara de entrar, subitamente o tigre lhe chamou a atenção.
Pratissuria revelava sinais de nervosismo, sacudia-se e roçava-se nela.
Cuidando sempre para que o animal estivesse bem alimentado, ela estranhou seu comportamento.
Além disso, ao apertar a mão do príncipe, ela sentiu um tremor nervoso e uma sensação de angústia.
Uma vez que Pratissuria não revelava qualquer hostilidade, acalmou-se e todos passaram ao refeitório.
O mal-estar de Mery tornou a repetir-se quando ela voltou à sala de estar.
Ao lançar um olhar em direcção à lareira, viu Cocotó fazendo caretas e apontando para a porta.
Seu bando agitava-se atrás dele, sem ousar, entretanto, passar dos limites da lareira.
Cocotó adiantou-se a ela, mas nisso Mery interceptou o olhar do príncipe, fitando com expressão de desprezo a lareira.
De súbito, uma entidade límpida e nevoenta como que surgiu do nada e interpôs-se no caminho de Cocotó, empunhando uma espada azulada.
"Terá o príncipe visto Cocotó e chamado um guardião?", pensou ela, ao lembrar-se de que o príncipe também estudava ciências ocultas.
Alarmada, Mery olhou para Pratissuria.
A fera permanecia deitada com o focinho enfiado entre as patas e mexia nervosamente as orelhas.
Mery pensou em ir embora, mas isso seria indelicado de sua parte, de modo que se dominou e continuou a conversa.
Falava-se da índia.
Mery contou sobre o jovem rajá que a presenteara com o tigre e a convidara para visitar aquele país.
Ela planeava empreender uma viagem com um casal de amigos para aquelas terras de pessoas bizarras.
— A senhora deve estar se referindo a faquires, Maria Mikháilovna?!
São pessoas deveras interessantes, cuja psicologia os europeus não compreendem — considerou o príncipe, tentando sustentar a conversação.
Convidada por Eletsky para ver o acervo de antiguidades indianas e fotos de templos e palácios, Mery desceu com ele e Lili à biblioteca, acompanhada por Pratissuria.
Após examinar as raridades, Mery foi levada para um outro salão; mas, tão logo foi cruzado o umbral da porta, o tigre começou a rugir e fustigar as ancas com o rabo.
Com expressão estranhamente concentrada, Eletsky se propôs a lhe mostrar o retrato de um Mahatma genuíno, levou-a até o fundo do salão e descortinou um pesado drapejado do nicho.
Ainda que fosse setembro, já estava escurecendo; o príncipe acendeu uma lâmpada, cuja luz jorrou sobre o retrato de Vedjaga Singa, que parecia incrivelmente real; suas vestes agitavam-se e os olhos fitavam-na feito vivos.
Esta visão assustou Pratissuria.
Com urros estrondosos, ele se empinou em patas traseiras, arregalou os olhos para o retrato e depois começou a arranhar o piso com garras poderosas, fazendo saltar lascas de madeira.
Teria ele reconhecido o homem que o matou?
Ao notar a janela aberta, o tigre atravessou seu vão num salto espectacular e, urrando lugubremente, desapareceu na escuridão do jardim.
Achando que a fera, em seu bote, fosse atacar o príncipe, Lili soltou um grito de terror e desmaiou.
Mery sentiu a cabeça tonta e apoiou-se na mesa.
O príncipe aproximou-se dela e pegou-lhe a mão.
— De onde é essa fera perigosa?
Quem lhe deu esta criatura do inferno? — inquiriu ele em tom severo.
Mery se retesou, soltou-lhe a mão e o mediu com olhar desafiador.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 24, 2016 7:32 pm

— O senhor me atraiu para uma armadilha e ainda faz perguntas!
Isso não é da conta de ninguém — retrucou ela.
— Qualquer pessoa honesta tentaria salvar alguém se afogando.
A senhora corre um grande perigo, com risco de perder a alma.
Volte a si, Maria Mikháilovna, e quebre o círculo diabólico que a aprisionou.
Pratissuria é seu carcereiro.
Nesta casa a senhora está segura, pois as forças do mal não conseguem penetrar aqui.
Fique connosco e o poder de Cristo a protegerá.
Rejeite os demónios que a obsidiaram, e o que perder com eles recuperará aqui; eu lhe prometo.
O rosto pálido de Mery franziu-se em convulsões e ela cerrou os olhos com dores insuportáveis.
Garras afiadas pareciam cravar-se em seus ombros como que tentando tirá-la dali e mãos glaciais apertaram-lhe o pescoço tolhendo a respiração; ela se sufocava e estremecia em convulsões.
Com esforço quase inumano, recompôs-se, desenvencilhou-se bruscamente da mão do príncipe que a amparava e gritou, fora de si:
— Não me toque!
Eu lhe proíbo isso e não tente me converter à força.
Pertencemos a dois lados antagónicos; eu escolhi o meu espontaneamente e por isso ficarei fiel a ele.
Ela se virou e saiu correndo, quase esbarrando no barão e no hindu, na porta.
Ao ouvirem os urros pavorosos do tigre, eles acorreram para saber o que estava acontecendo.
Passando ao lado do doutor, Mery sussurrou-lhe surdamente, medindo-o com olhar desdenhoso e hostil:
— Espião, traidor!
Saboreando frutas, Billis e a camareira de Mery conversavam no jardim da casa, quando sua atenção foi despertada por rugidos estranhos e barulho de animal pesado forçando a cerca.
Ambos saltaram dos lugares e, quando Billis abriu o portão, viu Pratissuria estendido inerte.
— Pela barba do bode!
O que é isso? — exclamou Billis, ajoelhando-se ao lado do tigre e examinando-o.
Não está morto, pois está respirando.
O que será que aconteceu?
Ou, quem sabe, foi borrifado com água benta ou topou com algum homem santo — desfiava conjecturas a camareira, ajudando Billis a transportar o animal para o vestíbulo.
— Uriel ficará uma fera se o deixarmos morrer.
Tomara que a patroa volte logo, pois eu não sei o que fazer — lamuriou-se Billis, esfregando a cabeça do tigre com uma toalha molhada.
Uns dez minutos depois, um automóvel a toda velocidade aproximou-se do portão e no vestíbulo entrou Mery, nervosa e pálida.
Ao ver o tigre desfalecido, curvou-se diante dele e ordenou que telefonassem a Zepar, comunicando-lhe o ocorrido e pedindo que ele viesse imediatamente.
O irmão Zepar, que vivia por perto, chegou rápido e encontrou Mery e os criados ocupados com a reanimação de Pratissuria.
Zepar era um homem de meia-idade, rosto moreno e aspecto enérgico.
Após examinar o tigre, ele tirou do bolso um estojo de marroquim com diversos frascos de cristal.
Após encher uma colher com líquido de um dos frascos, ele o verteu na boca do animal, cuja cabeça Billis amparava.
O tigre sacudiu-se e, quando Zepar lhe umedeceu a cabeça com uma essência aromática, soltou uma respiração rouca e abriu os olhos.
— Rápido, Billis, arrume um bom pedaço de carne — ordenou Zepar, afagando o tigre soerguido e visivelmente satisfeito, roçando-se em seu joelho.
Tendo se refestelado com um grande pedaço da carne bovina, Pratissuria recuperou-se por completo e acompanhou a patroa e o médico à sala de estar, onde Mery contou resumidamente o que acontecera.
— Parabéns, irmã Ralda, pela demonstração de grande presença de espírito!
Continue firme e enérgica, pois esse vil e covarde ataque não será o último.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 24, 2016 7:32 pm

Nada me indigna tanto como essa mania de tentarem eles converter as pessoas em sua fé, à força, e impingir suas convicções, sem levar em conta a vontade dos outros.
Depois que Zepar foi embora, Mery deitou-se, mas não conseguia conciliar o sono.
Todo seu corpo doía, a cabeça parecia cheia de chumbo e as recordações do episódio nocturno perseguiam-na feito num pesadelo; finalmente, tarde da noite, ela se esqueceu num sono perturbado.
Uma sensação de brisa quente acordou-a.
Ela se soergueu e, surpresa, viu uma nuvem esbranquiçada e coruscante pairando a alguns passos de seu leito; essa se foi ampliando rapidamente e adquirindo o aspecto de um homem.
O espectro se curvou diante da cama de Mery.
Ela estremeceu ao nele reconhecer Vadim Víktorovitch, fitando-a com amor e tristeza.
— Eu continuo a amá-la.
Volte para mim e não deixe que o inferno nos separe — ouviu-se a voz fraca, tão familiar a ela.
Pasma, Mery deixou-se cair no travesseiro e, fremente, sentiu o contacto de lábios tépidos em sua boca e depois na mão.
O espectro então esmaeceu e derreteu-se no ar.
Ela não pôde mais dormir.
Todo o seu ser se agitava e na memória assomavam-se as recordações da felicidade fugidia.
Significava que ele a amava até do além do túmulo, já que apareceu para confirmar que seu amor não se extinguira, suplicando-lhe voltar para ele. O que ele queria dizer com aquelas palavras?
Deveria ela morrer para se juntar a ele, ou rejeitar o inferno que os separava, pois Vadim Víktorovitch era crente em Deus.
Instantaneamente, ressuscitou-lhe o sentimento antigo, despertado pelo olhar amoroso; parecia-lhe ainda sentir nos lábios o beijo da pessoa querida e, de súbito, ocorreu-lhe um desejo incontrolável de ver seu túmulo.
Ela não ousaria orar, mas sonhar e chorar lá, onde descansavam seus restos — isso não lhe seria proibido.
De Lili, ela sabia que o túmulo de Zatórsky estava no cemitério Aleksandr Nevsky; assim, no dia seguinte, dirigiu-se para lá.
Após algumas buscas e pedidos de esclarecimento, um dos vigias levou-a ao monumento.
O portão gradeado estava aberto; um jardineiro acabava de decorar o túmulo com flores.
Mery aguardou o fim do trabalho e, enfiando na mão do vigia uma nota de um rublo, disse que queria orar junto à sepultura do falecido.
O guarda, reconhecido, só lhe pediu para fechar o portão à chave, quando fosse embora e devolvê-la a ele.
Ao ficar só, ela depositou junto aos pés do monumento uma grinalda de rosas com orquídeas e, sentando no banco, mergulhou em pensamentos.
O barão Kosen havia estranhado a saída repentina de Mery na véspera; mas o desmaio de Lili obrigou-o a esquecer esta circunstância e ele ajudou a transportar a filha ao seu dormitório.
Só depois que Lili recuperou a consciência e foi deixada no quarto sozinha para descansar, o barão inquiriu sobre o acontecimento.
Eletsky explicou que a visão de Vedjaga Singa assustou e enraiveceu o tigre, a julgar pelo piso destruído.
Felizmente, ele não atacou os presentes, fugindo pela janela aberta.
Mery, temendo que acontecesse alguma desgraça na rua, saiu atrás do tigre para acalmá-lo.
Obviamente, nada foi dito sobre o facto de Mery pertencer à irmandade satânica.
A sós com o doutor, Eletsky relatou-lhe da mal sucedida tentativa de resgatar Mery.
— Será difícil, senão impossível, arrancá-la daquele sorvedouro.
Sendo uma pessoa teimosa e enérgica, talvez ela já se tenha apegado aos encantos do mal — considerou Vadim Víktorovitch, desanimado.
Eles preferirão matá-la a deixar escapar de suas garras.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 24, 2016 7:32 pm

— Você não se envergonha, Vadim, de depositar as armas sem a luta?
Tenho opinião melhor sobre Maria Mikháilovna e acredito que a energia, da qual você fala, ela usará para se livrar das peias que a prendem — sustentou o príncipe.
Oh, se pudéssemos fazê-la entender que você está vivo — isso facilitaria o trabalho.
Mas como ressuscitá-lo somente para ela?
Eis a questão!
— A questão mais importante é saber se ela ainda me ama — tornou o doutor, balançando a cabeça.
Cinco anos é tempo suficiente para esquecer um morto.
Zatórsky despediu-se do príncipe; este, vendo a depressão do amigo, não tentou segurá-lo.
As palavras injuriosas de Mery o haviam atingido dolorosamente.
Eles tiveram a oportunidade de conversar por duas vezes, no entanto a voz do coração nada lhe sussurrou e ela sequer notou a semelhança entre ele e Ravana Veda.
Entretanto, essa semelhança tinha surpreendido Lili.
Ele se ajoelhou e orou por longo tempo, suplicando a Deus instruí-lo, para salvar a jovem criatura, outrora pura, inocente e cheia de alegria.
Estava apreensivo:
será que estava tudo bem com ela?
Em seu curso iniciático no Tirol, ele teve aulas teóricas e práticas de viagens astrais e desenvolveu certa capacidade de abandonar o corpo físico para transportar-se ao lugar desejado.
Pensou então em repetir a experiência, no que teve sucesso e o que nós verificamos na visão nocturna de Mery.
De volta de sua incrível "viagem", ele ficou mais calmo e alentado: nos olhos de Mery havia lido que ele continuava vivo no coração dela.
O dia seguinte era o jubileu da morte de sua tia.
Após orar junto à sua sepultura, como que movido por uma força invisível, o doutor dirigiu-se ao monumento, em cuja lápide estaria escrito:
"Vadim Víktorovitch Zatórsky".
Ao se aproximar do local, ele estremeceu e estacou:
no banco, ao lado da sepultura, estava sentada uma dama soluçando, com rosto escondido nas mãos.
Aproximando-se mais, ele viu que era Mery.
Já perto da grade, sua presença foi notada pela jovem, que se apressou em se levantar do banco.
— Senhor Ravana?
Por que está me seguindo?
Eu fui bem clara ontem ao dizer o que acho do senhor — disse com desprezo.
— A senhora foi injusta comigo.
Não a segui; apenas um acaso divino me trouxe para cá.
Bem, pelos meus poderes de clarividência, vejo que a pessoa, cujo nome está inscrito na lápide, foi muito cara para a senhora.
E, se ele estivesse aqui, teria a senhora se tornado irmã Ralda?
Mery o mediu com olhar lúgubre e perscrutador.
— Os mortos não retornam e o passado não pode ser reparado; a minha felicidade morreu junto, no sorvedouro.
Mas já que o senhor sabe tudo, diga-me, que morte aguarda a feiticeira que recebeu o legado de Van der Holm?
Zatórsky dela se aproximou e lhe tomou a mão.
— Mery, se você ainda ama o homem a quem confiou seu primeiro amor, a "feiticeira" desaparecerá no sorvedouro e ressurgirá Mery Suróvtseva.
Por acaso seu coração não lhe sugere nada e você perdeu a capacidade de lutar pela felicidade?
Ele se inclinou e o seu olhar, cheio de amor, pregou-se nos olhos assustados da jovem; esta recuou e agarrou a cabeça com as mãos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 24, 2016 7:32 pm

— Quem é o senhor?
O senhor me olha como Vadim, que está morto.
Não estou entendendo mais nada.
O senhor veio do além, ou não passa de um espião inimigo, aproveitando-se da semelhança com Zatórsky para converter-me à sua fé?
Como ousa sugerir ser aquele cujo túmulo guarda seus ossos?
As dúvidas, a indignação e a ira soavam na voz da jovem, enquanto seus olhos perscrutavam apreensivos a figura de Zatórsky.
Este suspirou pesado e disse:
— O túmulo está vazio, Mery.
Graças a um acaso miraculoso, estou vivo, ainda que esteja morto para o mundo.
Infelizmente seu coração ficou mudo; encontramo-nos por duas vezes e você não me reconheceu.
Uma tristeza infinita soava em sua voz e era sentida em seu olhar.
Pálida, Mery tremia febricitante e, arregalando os olhos, dele se aproximou, fitando-o no rosto.
— É você!...
Os mortos ressuscitam e você está entre os eleitos; sobre sua cabeça fulge uma chama.
Sou uma desafortunada... amaldiçoada!... — balbuciou ela em voz entrecortada, pondo-se de joelhos e cobrindo o rosto com as mãos.
Sacudida por pranto convulsivo, ela foi levantada e acomodada no banco pelo doutor que, apertando-lhe fortemente a mão, sussurrou:
— Você ainda me ama?
— Sim, amo.
Mas estou presa ao inferno e um abismo nos separa para sempre.
Nos olhos do doutor fulgiu uma expressão de felicidade.
— Se você me ama, nada está perdido.
Ainda que eu não passe de um aspirante à luz e não seja um eleito, como me considera; mas, com a ajuda dos mestres, por várias vezes eu consegui protegê-la dos perigos mortais e tenho a certeza de poder salvá-la.
Quero lhe contar resumidamente a história da minha maravilhosa "ressurreição", mas você terá de prometer guardar o segredo, pois para o mundo eu estou morto.
E ele contou-lhe sucintamente o que aconteceu desde que foi ceifado pelo projéctil do barão, assim concluindo:
— Tenha esperanças, Mery, e seja forte!
Tal qual Orfeu, eu descerei ao inferno e a arrancarei dos demónios.
O terrível passado há de ser reparado e o futuro radioso a recompensará pelos sofrimentos vividos.
Sorrindo de felicidade, ouvia-o Mery, sem acreditar em seus olhos; por vezes parecia-lhe estar sonhando.
Ao conscientizar-se de que estava vivo o homem amado, chorado por longos anos, seu coração encheu-se de indescritível bem-aventurança.
Esquecendo-se de tudo, ela se entregou ao fascínio venturoso de ouvir-lhe a voz meiga, julgada para sempre emudecida, alheia ao contacto glacial dos espíritos demoníacos, sem dar atenção ao bando ameaçador que se juntou ao derredor dela.
Nela despertaram-se as esperanças e a vontade de lutar pela felicidade.
Após conversarem por uma hora, eles se despediram; com espírito animado e sorriso venturoso nos lábios, Mery dirigiu-se à carruagem que a esperava junto aos portões do cemitério.
Zatórsky voltou para casa preocupado.
A explicação com Mery enchia-o de felicidade, mas também de apreensão.
Ele sabia o quanto seria dura e perigosa a luta contra o inferno, que ele empreenderia para libertar a mulher amada, e tinha consciência de que a vida dela corria perigo.
Sentou-se à mesa e tirou da pasta o retrato de Mery, que lhe fora dado por ela, no dia da declaração de seu amor.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 24, 2016 7:33 pm

O príncipe o havia achado e preservado para aquele a quem salvara sem consultar.
O doutor pôs-se a meditar diante da imagem de Mery, outrora inocente e alegre, agora "irmã Ralda" — desditosa servidora do mal...
Conseguiria ele salvá-la?
Teria ela forças para rasgar com o passado e purificar-se da imundície que lhe conspurcara a alma?
Remoendo os tempos idos, assomou-se em sua mente a imagem da baronesa, desencadeando a vergonha e o desespero por ter sido ele o culpado pelo infortúnio de Mery.
Não tivesse ele cedido à escravidão daquela devassa que o envolveu na paixão criminosa e imunda, ele não teria sido atingido pela bala punitiva do barão, nem a indigência de Mery a teria empurrado na rede de Van der Holm.
Absorto em seus pensamentos e recordações, ele não percebeu a porta se abrindo, tampouco ouviu os passos leves se aproximando, até que uma voz trémula lhe sussurrou no ouvido:
— Vadim Víktorovitch!
O doutor estremeceu e soltou involuntariamente um grito abafado, pois havia muito tempo que ninguém assim chamava o hindu Ravana.
Virando-se rapidamente, ele viu Lili, pálida e perturbada.
Seus olhos brilhavam de alegria e pelas faces rolavam lágrimas; ela lhe estendeu as mãos e sussurrou:
— Tio Vadim, é o senhor?
O coração não me enganou.
Mas não tema, ficarei muda tal qual seu túmulo.
— Lili, minha pequena, você me reconheceu, apesar de eu ter mudado tanto.
Como poderei agradecer-lhe pela afeição e memória que você guardou por um homem estranho, esquecido de todos? — balbuciou Zatórsky, atraindo-a para lhe dar um beijo.
— Seus olhos o traíram, tio Vadim.
Eu logo reconheci o seu jeito de olhar, bondoso e meigo, que não esqueço desde criança, quando você cuidava de mim, doente.
Custa-me acreditar que esteja vivo depois de vê-lo no caixão.
Agradeço a Deus e à Virgem Santa por sua salvação, o que acaba absolvendo meu pobre pai do crime medonho de assassinato.
Minhas últimas dúvidas se dissiparam, quando eu o encontrei segurando o retrato de Mery.
O rosto do doutor anuviou-se.
— Ela está em perigo e eu não sei se poderei salvá-la.
— Sim, eu a achei muito mudada e estranha.
Com tantos reveses na vida, ela se tornou ateísta.
Mas seu amor a salvará, tio Vadim, pois não existe nada impossível para o amor verdadeiro.
— E você sabe o que é amor, já que fala dele com tanta certeza?
— Sim, tio Vadim, sei o que é amor.
Eu amo o Sol que aquece tudo que busca seus raios, mas não sei se mereço o amor dele.
Você deve estar adivinhando de quem estou falando.
— Sim, você ama Eletsky.
Mas por que ele não haveria de amá-la também?
Lili balançou a cabeça.
— Como poderia eu pretender a atenção do homem que recebeu iniciação superior, ainda que infinitamente bom e tolerante com alguém tão insignificante como eu.
Se ele continuar como meu orientador e mestre, isso me bastará.
Nunca vou me casar; dedicarei minha vida ao estudo das forças arcanas, sobretudo ao magnetismo curativo.
Com tempo, abrirei minha própria clínica.
— Isto não quer dizer que, se o príncipe lhe fizer a proposta, você a rejeitará? — perguntou o doutor maliciosamente.
Um rubor intenso coloriu o rosto diáfano de Lili.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 24, 2016 7:33 pm

— Claro que não, tio Vadim!
Como poderei dizer "não" a algo que ele me pedir?
Só de pensar nessa possibilidade, gira-me a cabeça.
Zatórsky largou uma risada.
— Escute, Lili! Temos de ter cuidado.
De repente vem seu pai e nos flagra conversando assim.
Ele não pode saber de nada; para ele, eu sou Ravana Veda.
— Não se preocupe, meu pai não vem.
Ele está almoçando na casa de um arqueólogo amigo e ficará lá até a noite; o príncipe também está fora, mas pode voltar a qualquer momento, sendo assim é melhor eu me retirar.
Voltaremos a conversar depois.
Preciso lhe perguntar tanta coisa, agora que você é um homem novo com poderes de praticar curas maravilhosas, sempre bom comigo, e não mais mal humorado ou nervoso como antigamente.
— Foi para adquirir harmonia espiritual que trabalhei tanto esses anos.
— Ah, se eu não sair agora, não pararei mais de falar — disse Lili e, enviando um beijo pelo ar, abandonou o quarto.
O doutor tornou a se sentar no mesmo lugar e abriu a pasta para guardar o retrato de Mery; neste ínterim, o reposteiro foi levantado e surgiu o príncipe, visivelmente perturbado.
— Como? Você estava aqui, Aleksei, e ouviu a nossa conversa?
Lili me reconheceu.
— Sim, ela suspeitou disso desde o começo.
Mas não tenha medo, Lili é discreta e guardará o segredo.
— Oh, quanto a isso não tenho dúvidas!
Agora, se você ouviu a conversa, sabe que ela o ama; possuir aquele coração puro é uma grande felicidade.
— Tem razão. Também a amo muito e serei infinitamente feliz em ter por companheira de vida uma criatura tão pura, com a qual poderei compartilhar meus conhecimentos.
Os mestres aprovam meu casamento e, na primeira oportunidade, farei a proposta.
Antes, porém, vou ajudá-lo a salvar a pobre Mery, o que exigirá todo o nosso empenho.
Oh, soubesse ela que você está vivo, tudo seria mais fácil — suspirou o príncipe.
— Ela sabe! — exclamou o doutor, e transmitiu ao amigo sua conversa no cemitério Aleksandr Nevsky.
— Excelente! — alegrou-se o príncipe.
Precisamos agora lhe dar todo o apoio.
Hoje à noite eu irei à casa de Van der Holm, sou mais forte que você, e verei o que podemos fazer contra os satanistas.
Mery voltou para casa tensa e perturbada, e trancou-se no quarto.
No decorrer do dia, sua alegria alternava-se com momentos de grande apreensão.
Saber que o homem amado estava vivo deixou-a jubilante; porém, pensar no abismo insondável que os separava a fazia desesperar.
Inutilmente ela procurava uma saída.
Subitamente veio-lhe à mente a ideia de fugir para perto de Zatórsky e pedir-lhe protecção.
Mas, mal ela esboçou a intenção de chegar até a porta, Pratissuria rugiu e se lhe interpôs no caminho.
Desesperadamente, ela tentou abrir a janela, mas o tigre pôs-se de patas traseiras e, pela primeira vez, suas garras deixaram-lhe sinais nos ombros.
Sem outra solução, não querendo ser dilacerada pelo terrível guardião, Mery deixou-se cair na poltrona e desabou em pranto; logo, porém, sua natureza obstinada venceu a fraqueza.
Indignada pela violência sofrida, resolveu rezar, para que os Céus a protegessem contra o inferno; mas, mal tentou pronunciar mentalmente o nome do Senhor, dores medonhas a privaram da capacidade de raciocínio e, contorcendo-se feito queimada por carvões incandescidos, ela desmaiou.
Ao se recuperar, conscientizou-se de sua derrota.
Não, o senhor das trevas, a quem ela entregara a alma, não deixa escapar seus súbditos!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 25, 2016 8:16 pm

Apática, por algum tempo ela ficou deitada no sofá e, depois, fazendo um esforço, comeu um pedaço de ave e deitou-se exausta na cama.
Porém o sono não vinha e logo a apatia cedeu lugar ao completo desespero.
Bateu meia-noite.
De súbito, ela estremeceu e soergueu-se na cama.
Seu rosto foi bafejado por uma brisa tépida e aromática; sons suaves e harmónicos percorreram o quarto, como que iluminado por luar azulado e, nesse fundo límpido, assomou-se uma nuvem avermelhada.
Rodopiando, ela se aproximou do leito, densificou-se e adquiriu a forma de um homem alto em vestes brancas; sua cabeça era envolta em fulgor fosforescente, ofuscando suas feições.
Inclinando-se a Mery, que fitava em terror mudo o visitante misterioso, ele disse em voz surda mas clara:
— Está chegando a hora de enfrentar o inferno para salvar sua alma.
Seu amado está vivo e também o ama; você terá de lutar pela felicidade de ambos e só poderá unir-se a ele, se romper para sempre com as criaturas nojentas que a escravizaram.
Se você suportar valorosamente os ataques das forças do mal, resistir contra o ódio dos servidores de Satanás, será apoiada e salva.
Está vendo em minha mão esta cruz cintilante?
Este símbolo sagrado a protegerá, pois ele é estandarte do perdão do Pai celeste, cuja misericórdia é infinita com os que se arrependem.
Lembre-se disso e seja firme, pois a luta iminente será renhida.
A visão ergueu a mão e desenhou sobre Mery o sinal místico da salvação; como que atingida por raio, ela caiu sobre as almofadas.
Por cerca de um minuto, a cruz límpida pairou sobre ela, depois se desfez em raios azulados que a cobriram feito véu transparente.
À tarde, o irmão Zepar apareceu na casa de Van der Holm, visivelmente preocupado.
Saindo ao seu encontro, Billis, que o chamara pelo telefone, contou que à noite aconteceram coisas terríveis.
Ele e a camareira foram acordados por badalares de sinos de igreja; um odor insuportável de ládano encheu em seguida a casa, varrida por descargas eléctricas tão fortes que os fizeram perder os sentidos; já era manhã, quando, finalmente, eles voltaram a si.
A camareira foi ao quarto de Mery e quase não suportou o cheiro do quarto; a patroa jazia feito morta e até Pratissuria parecia doente.
Zepar balançou a cabeça e dirigiu-se ao dormitório de Mery.
O odor forte de ládano obrigou o satanista a recuar enojado.
Ele ordenou que as janelas fossem abertas e que lhe trouxessem o braseiro com carvão aceso.
Cumpridas as ordens, tirou do bolso um estojo redondo com pó amarelo e despejou-o no carvão; imediatamente, alçou-se uma fumaça densa com odor sufocante de enxofre.
Mery, de camisola, foi transportada para o centro do quarto e colocada sobre um banco trazido do paiol.
O satanista pôs-se a andar ao redor, recitando fórmulas e realizando defumações.
Do corpo de Mery, ainda desfalecida, começou a alçar-se um vapor azul claro que se derretia aos estalidos na fumaça sulfúrica; quando a última coluna de fumaça escapou pela janela aberta, Zepar ordenou que dessem um banho de imersão em Mery.
— Avisem-me quando estiver tudo pronto para o banho! — acrescentou ele, aproximando-se do tigre, estendido catalepticamente em seu tapete.
Assim como na primeira vez, Zepar verteu na boca do animal uma colher de essência vermelha e esfregou-o com água aromática.
O animal voltou a si, comeu um pedaço de carne trazido e, rugindo alegremente, ficou ao lado de Mery, ainda imóvel.
Pondo-lhe a pata no peito e continuando a urrar surdamente, ele balançou a cabeça como que querendo dizer que estava pronto a reassumir suas obrigações de protector.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 25, 2016 8:17 pm

Zepar o afagou na cabeça.
Neste ínterim, a camareira entrou para dizer que o banho estava pronto.
O satanista levantou Mery feito uma criança e levou-a ao quarto de banho; depois, deitou-a no sofá e verteu algo do frasco, com que a água da banheira se tingiu de vermelho e começou a ferver.
— Coloquem a patroa dentro, sustentem-lhe a cabeça e mantenham-na assim até que a água pare de ferver e lhe voltem os sentidos.
Depois, ajudem-na a sair da banheira e deitem-na na cama, vestindo-a numa camisola de flanela.
Dêem-lhe uma taça de sangue quente; mais tarde eu lhe trarei um copo de vinho.
Cerca de quinze minutos depois, a água parou de borbulhar.
Mery abriu os olhos e perguntou em voz débil:
— Onde estou?
— Acalme-se, patroa, tudo está bem.
A senhora passou mal; vá deitar-se que vou lhe trazer algo para beber.
Estendida na cama, trouxeram-lhe uma taça de sangue quente, que ela tomou enojada; Zepar fê-la tomar também um copo de vinho, misturado com algo picante e cheiroso; em seguida ela dormiu um sono pesado e profundo.
Sobreveio a noite; Zepar resolveu ficar de vigília para o caso de os "canalhas" tornarem a atacar.
Tão logo ele se acomodou no antigo gabinete de Van der Holm, veio Ukobakh para saber o que acontecera, pois Billis havia lhe telefonado, sem encontrá-lo em casa.
Ao saber dos acontecimentos, ele prontificou-se a fazer companhia a Zepar e mandou que lhes trouxessem um bom jantar.
Sentados à mesa, saboreando patê de aves, ostras, champanhe e outros quitutes, os amigos conversavam animadamente sem a presença de Billis, por eles dispensado.
— De facto, corremos o risco de perder a irmã Ralda, pois os cavaleiros da Luz Ascendente resolveram resgatá-la de nós.
Mas isso ainda veremos, ela não nos escapará com vida — e Ukobakh crispou os punhos.
Zepar concordou com o amigo e a conversa foi tomando um rumo beligerante, até que ele sugeriu tomarem algumas precauções para o caso de o ataque se repetir.
Decidiram montar vigilância alternada.
Ukobakh foi ver Mery e, ao certificar-se de que ela estava dormindo e o tigre encontrava-se em seu posto, deitou-se no sofá e adormeceu.
Zepar desenhou no quarto um círculo com giz vermelho, sentou-se na poltrona, tirou do bolso um livrinho parecido com breviário, e pôs-se a recitar esconjurações.
Aos poucos, seu rosto magro foi adquirindo uma expressão estranha e tingiu-se de olor esverdeado; seus olhos ardiam feito brasas.
À medida que ele balbuciava em voz surda e cadenciada as fórmulas estranhas, o quarto se enchia de público medonho.
Os seres monstruosos, meio humanos, meio animais, juntamente com sombras nanicas negras de caras transfiguradas de paixões vulgares, rastejavam pelo piso ou escarafunchavam os cantos.
Cocotó também estava presente, acocorado angustiado no vão da porta; atrás dele, agitavam-se, silvando e chiando, seus comandados.
Zepar parecia apreensivo; seus pés e mãos tremiam nervosamente.
Apesar do pelotão de honra que se apinhava em sua volta, ele estava assustado e, por vezes, lançava olhares amedrontados em direcção à porta do quarto de Mery.
Perto da meia-noite, Pratissuria revelou sinais de alarme, retesou-se, rugiu e começou a andar de fasto em direcção à porta; Zepar, empalidecido, aguçou o ouvido para um canto longínquo e harmonioso; o suave aroma de ládano provocava nele ânsia de vómito.
Ao avistar o tigre apontando no umbral com cabeça baixa e rabo entre as pernas, o satanista enfurecido levantou-se e, com gesto imperioso, ordenou-lhe voltar junto a Mery; mas o animal não se moveu e, em resposta à ordem reiterada, rugiu ameaçadoramente.
Zepar então ergueu as mãos; de seus dedos, orientados para Pratissuria, dardejaram feixes púrpuros, tal qual flechas, fazendo o animal contorcer-se de dores.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 25, 2016 8:17 pm

Enfurecida, a fera agachou-se para dar um bote em seu agressor, não tivesse neste instante Ukobakh, acordado pelo barulho, pronunciado uma fórmula para acalmar o animal.
— Ahá, então os malditos cavaleiros estão atacando! — bradou ele, soltando um sonoro palavrão.
Mas nisso, um clarão intenso coruscou o quarto e, adquirindo a forma de crucifixo, flutuou sobre a cabeça do satanista aparvalhado.
Instalou-se uma algazarra:
os espíritos instados por Zepar, estirado no chão, turbilhonavam ensandecidos dentro do círculo satânico incapazes de rompê-lo.
Ukobakh, mal se aguentando em pés trémulos, não perdeu, porém, a presença de espírito.
Sacando o bastão de sete nós e agitando-o vigorosamente, pôs-se a vociferar esconjurações e conseguiu enfim quebrar o círculo mágico, libertando os seres asquerosos, que sumiram num piscar de olhos, como que varridos por vento.
A cruz radiosa empalideceu e derreteu-se no ar; Ukobakh deixou-se cair na cadeira, perdendo momentaneamente a consciência.
Passada a fraqueza, ele se levantou num esforço, arrastou-se até a janela e abriu-a.
Revigorado pelo ar fresco e húmido, foi cuidar de Zepar, que jazia de bruços.
Quando este se recuperou um pouco, notou enfurecido que seu rosto, as costas e os braços estavam cobertos por dezenas de mordidas.
Dirigindo pragas e impropérios aos "canalhas agressores", sua atenção foi chamada para Pratissuria deitado junto à porta, com o focinho enfiado nas patas.
Num átimo, pegando o chicote pendurado na parede, ele partiu sobre o tigre, aplicando-lhe golpes nas ancas e chutando-o com os pés.
O animal, no início acuado, soltou um urro selvagem de dor, fazendo estremecer as paredes, e saltou sobre o seu agressor, cujos minutos seriam contados, se Ukobakh não tivesse agarrado a fera pela coleira e arrastado para fora do quarto, entregando-a aos cuidados de Billis.
Indignado com o tratamento dispensado ao favorito de Mery, o mordomo conseguiu por fim acalmá-lo com afagos; deu-lhe comida e o cobriu com manta.
Estendido em seu tapete, Pratissuria lambeu reconhecido a mão de seu protector.
— Que deu em você para bater no tigre?
O que ele podia fazer, se nem você conseguiu se defender? — reprochou Ukobakh ao voltar para o gabinete.
— Vou embora. Não ficarei mais um minuto nesta casa maldita.
Jamais vi coisa igual.
O idiota do Van der Holm não podia ter achado uma herdeira melhor?
Ukobakh deu de ombros.
— Queria que você fosse tão idiota como ele!
Bem, pode ir; ficarei aqui para tomar conta de Mery.
Não se pode largá-la, já que ela não tem culpa de nada.
É bom vigiá-la, pois é possível que tentem tirá-la da casa; se ela cair nas mãos deles, Asrafil colocará a culpa em nós.
Isso não será agradável.
— Aconselhe-se com Van der Holm; foi ele que trouxe essa preciosidade.
Não há ninguém melhor do que ele para nos dizer o que fazer nestas circunstâncias.
Ele que se julga tão previdente! — observou Zepar com escárnio.
— Ironia à parte, vou seguir-lhe o conselho — tornou Ukobakh e puxou o reposteiro num nicho de parede, no fundo do qual se verificou haver um espelho negro.
Recitadas as fórmulas de esconjuração e instado por três vezes o nome de Bifru, ouviram-se batidas secas na parede e, no fundo brumoso do espelho, apareceu uma mensagem escrita por mão invisível em letras fosfóricas:
Aconselho-os a desistirem dessa mulher, pois ela conta com forças poderosas de luz.
Um confronto será desastroso e nos causará muitas baixas; assim, proponho nos livrarmos de Ralda...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 25, 2016 8:17 pm

Subitamente a escrita interrompeu-se, a superfície do espelho como que se inflamou e uma nova mensagem em letras verde-esmeralda surgiu então.
As letras eram espaçadas e irregulares:
"Ceder? Jamais!
Vamos lutar até as últimas consequências!
Depois de amanhã estarei aí para assumir o caso pessoalmente.
Você, Ukobakh, proteja e vigie Ralda; tranque-a no quarto e não deixe ninguém mais se aproximar dela.
Zepar tem que cair fora.
Só faltava esse velho idiota covarde encerrar nossos servidores dentro do círculo mágico!
E onde já se viu descontar a raiva num animal inocente?
Já que ele não consegue proteger nem a si nem a outros, destituo-o de suas funções".
A escrita parou e a mensagem desapareceu.
Zepar estava possesso.
Batendo os pés e arrancando chumaços de cabelos grisalhos, prorrompeu em pragas e impropérios; quando finalmente a explosão de fúria amainou, ele disse com voz trémula:
— Adeus, Ukobakh, e espero que Uriel consiga juntar larvas suficientes para a luta inglória; mas, se ele pagar com sua velha pele, não sentirei pena.
O futuro mostrará se Bifru tem razão, dizendo para desistirmos dessa estouvada.
Ela não nos serve para nada e só nos traz problemas; herdeiros melhores seriam encontrados para o legado de Van der Holm do que essa mulher, cheirando a ládano.
Zepar saiu resmungando.
Ukobakh defumou os quartos, deu uma bebida tonificante a Billis e à camareira, e foi ver como estava Mery.
Esta continuava a dormir sono profundo, alheia ao que acontecia em volta.
— Amanhã, assim que a patroa acordar, diga-lhe para passar no laboratório — ordenou ele para a camareira.
Mery acordou tarde.
Sentia-se quebrada, todo o corpo doía e a cabeça estava pesada; não obstante, a visão que antecedeu ao seu desfalecimento estava viva na memória, assim como o encontro com Vadim Víktorovitch no cemitério.
Oh, como ela necessitava de sua companhia!
Seus devaneios foram interrompidos pela camareira, que viera lhe dizer que Ukobakh a estava esperando no laboratório.
Como poderia ter esquecido que a antiga Mery já não existia, senão apenas a irmã Ralda — filha amaldiçoada do inferno?
Cabisbaixa e com o coração opresso, ela foi ao laboratório, onde Ukobakh lia perto da janela.
Com olhar demorado e perscrutador, ele fitou a bela jovem, lívida feito máscara de cera.
— Como vai, irmã Ralda?
Queira se sentar — disse ele cortesmente, empurrando a poltrona.
Vamos conversar.
Primeiro, não sei se a senhora sabe, mas esta noite ocorreu um incidente que o irmão Zepar não conseguiu superar sem a minha ajuda.
E ele lhe relatou o acontecido, acrescentando:
— Nas fileiras adversárias, há gente querendo-a de volta, intrometendo-se em nossos assuntos — o que não toleramos.
O confronto é inevitável e a senhora corre perigo de vida.
Jamais deixamos os nossos membros iniciados saírem da irmandade, principalmente como a senhora, irmã Ralda, detentora de forças poderosas e conhecimentos perigosos.
Devo acrescentar que a senhora revela uma indiferença criminosa em relação aos ataques realizados e esta inactividade dificulta que a protejamos.
Cuidado, irmã, tudo isso pode terminar mal!
Sacuda a inércia e enfrente as tentativas de resgate por parte de seus amigos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 25, 2016 8:17 pm

Entenda: a senhora só sairá da irmandade morta e, se os mestres a virem sucumbindo às tentações, eles usarão de meios mais severos, mandando-a inclusive para alguma comunidade longínqua, a fim de a fortalecerem no culto ao qual jurou a fidelidade.
Ukobakh calou-se e fitou Mery, postada imóvel, pálida e cabisbaixa.
— Amanhã virá Uriel para conversar com a senhora; por enquanto, devo colocá-la a par de suas determinações.
Até uma segunda ordem, a senhora ficará em seus aposentos, sem poder sair ou receber visitas.
Fica-lhe proibido entregar-se aos pensamentos do passado.
Eis o que eu queria lhe dizer.
É meu conselho de amigo:
seja firme, razoável e não ponha a perder o seu futuro, que lhe reserva muitas riquezas e prazeres, em vez de pensar nas utopias para sempre riscadas de sua vida.
Agora elevemos as orações luciferianas; depois eu a deixarei livre.
Maquinalmente Mery, exausta, balbuciou a oração sacrílega e prostrou-se de joelhos diante da estátua de Lúcifer; em seguida, saiu do laboratório sem dizer nada, acompanhada pelo olhar lúgubre de Ukobakh.
— Hmm... Esse seu desânimo é mau sinal; temo ter de acabar com ela — pensou ele, franzindo o cenho.
Ao voltar para seu quarto, Mery atirou-se na poltrona e agarrou a cabeça com as mãos.
Uma exasperação intensa invadiu-lhe a alma; todo o seu ser tremia da angustiosa consciência de estar condenada à morte.
Lágrimas amargas rutilaram repentinamente por entre seus dedos, caindo sobre Pratissuria, invariavelmente deitado a seus pés, protegendo a ama.
O tigre levantou os olhos, fitou-a e, resmungando suavemente, descansou a enorme pata no joelho dela.
Mery se endireitou, percebendo a expressão incrível do olhar da fera.
Afeiçoada ao guardião mudo, de quem havia perdido o medo, chamou-lhe a atenção o seu jeito de fitá-la com olhar esmeraldino, quase humano, com expressão de angústia e sofrimento.
Mery arrepiou-se.
Estaria ele lamentando-se do cativeiro, sonhando com florestas virgens nativas, onde ele, o terrível rei, vivia solto até ser subjugado pela bailadeira que dele fez um brinquedo e arma de vingança?
Oh! sem dúvida, a terrível fera era menos selvagem e cruel do que a horda dos seguidores de Satanás, em cujas garras ambos se achavam.
Ela abraçou-se abruptamente ao pescoço do tigre e desabou em pranto convulsivo.
Tendo chorado à vontade, levantou o rosto e viu que os olhos de seu mascote estavam cheios de lágrimas.
— Oh, Pratissuria, você também chora pela liberdade?
Meu pobre companheiro de infortúnio! — balbuciou Mery, comovida, tornando a soluçar.
O tigre deitou a cabeça nos joelhos dela e ambos imobilizaram-se nessa pose.
Aquela noite e o dia seguinte não trouxeram nada de especial; Mery ficou vagando pelos três quartos, tornados calabouço, sem encontrar paz.
Não viu ninguém além da camareira, que vinha trazer-lhe o desjejum e o almoço, sempre calada; porém Mery não tocou na comida.
À medida que as horas passavam, sua depressão foi aumentando.
Tentou chamar Van der Holm, mas este não se dignou a vir.
Indiferente, ela avistou Cocotó com seu bando, observando-a apreensivo da lareira.
As horas escoavam angustiosas e, com a aproximação da meia-noite, sua ansiedade raiava pelos limites da loucura e o coração parecia arrebentar.
Mentalmente então ela chamou por Zatórsky.
De súbito uma voz sonora e desconhecida fez-se soar perto de seu ouvido:
— Você não está sozinha.
As forças do bem a protegem.
Seja firme e, mesmo ameaçada de morte, não perca as esperanças.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 25, 2016 8:18 pm

Olhe:
vou deixar desenhado no ar o símbolo da salvação, cuja luz radiosa não se apagará nem com a presença das forças maléficas.
A cruz é o selo do Omnipotente, clamando por Ele você a verá instar pelo nome de Deus.
Os demónios são impotentes para enfrentar esse símbolo divino.
A voz calou-se e Mery, trémula, não conseguia despregar os olhos da cruz límpida pairando, jorrando feixes ténues.
Sentado sobre as patas traseiras, o tigre, com pêlos eriçados mas sem demonstrar nervosismo, também parecia deslumbrado com o espectáculo.
Neste ínterim a porta se abriu, assomando-se em seu vão a figura de Uriel.
Seu rosto transfigurou-se repentinamente, ele retrocedeu e soltou uma chuva de imprecações.
Erguendo os braços, recitou uma fórmula de esconjuro; a cruz cobriu-se de névoa violeta, porém permaneceu visível.
— Ralda, venha imediatamente comigo — ordenou ele em tom ameaçador.
O olhar do satanista parecia perpassá-la com flechas incandescidas.
Maquinalmente, com cabeça zonza, ela saiu do quarto acompanhada por Pratissuria, de cabeça pensa e rabo encolhido.
Uriel levou-a ao laboratório, onde continuou com as esconjurações e defumou o ambiente, que logo se encheu de fumaça densa e nauseabunda.
Voltando-se a Mery, que assistia a tudo calada, ele a agarrou pelo braço e berrou furioso:
— O que estavam fazendo aqui esses patifes, achando que poderiam arrancá-la de nós?
Como se atreveram a profanar o nosso santuário com o símbolo asqueroso?
E é tudo culpa sua, criatura imprestável; ao invés de reagir, fraqueja e morre de medo.
Olhe só o seu estado!
Recite imediatamente as fórmulas mágicas ao nosso senhor!
Fique de joelhos diante de Satanás! — ordenou ele, sacudindo-a e arrastando-a junto à estátua do príncipe das trevas.
Mas Mery não acatou a ordem, pregando seu olhar na cruz fulgente, meio anuviada pela fumaça escura.
— Deixem-me! — balbuciou ela em voz surda.
Eu assinarei um documento transferindo à irmandade todos os bens legados de Van der Holm.
Não quero nada de vocês; entrei na irmandade pobre e sairei pobre também.
Quanto aos seus mistérios, podem ficar tranquilos, ficarei muda feito túmulo; só me deixem ir.
Estou sufocando-me aqui, falta-me ar! — e ela estendeu-lhe as mãos crispadas.
Uriel soltou uma gargalhada de escárnio tão sonora, que Mery estremeceu.
Seu talhe alto e magro, rosto angular pálido, olhos fulgindo de ódio e sorriso franzindo os lábios finos intimidavam; ele era um filho legítimo das trevas.
— Deixá-la ir? Só isso?
Há-há-há! Você acha que nós deixamos sair os nossos seguidores assim tão fácil?
Engano seu, querida irmã.
Sua relação com a irmandade é sólida e jamais será rompida.
Porém, não é de seu corpo que precisamos.
Não, queremos sua alma, que será nossa para sempre.
Tome cuidado!
Se ousar nos resistir e deixar que a subvertam, acabará como desjejum de Pratissuria.
Ele fará de você um picadinho e a sua alma será arrancada de seus restos ensanguentados.
Entendeu-me bem, infeliz?
Nós a deixaremos à mercê dos elementos desenfreados, dos quais você será um brinquedo.
Tenha juízo, sua tola!
Fique de joelhos diante de seu senhor!
Beije a terra e peça perdão por ter se insurgido!...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 25, 2016 8:18 pm

Ele a agarrou bruscamente pelos ombros, tentando forçá-la a ficar de joelhos, porém Mery resistiu:
seu corpo parecia elástico.
Sem dúvida, sua resistência seria inútil, se nesse ínterim um raio ígneo não tivesse recortado o ar e, entre Mery e a estátua, se interpusesse a cruz azul celeste.
Como que atingido por um golpe no peito, Uriel foi atirado para trás largando Mery; esta soltou um grito abafado, estendeu as mãos e caiu no chão de bruços.
Ao voltar a si Mery viu-se deitada na cama.
Estava muito fraca e quebrada, sua cabeça parecia vazia:
era-lhe difícil até raciocinar; tanto o incidente na véspera como todo o seu passado pareciam toldados por névoa, com lacunas que ela não conseguia preencher.
Estando esfaimada, tocou a campainha; minutos depois em seu dormitório adentrava uma jovem bonita.
Mery a observou curiosa.
Aquele rosto pálido, com olhar estranho e olhos fosfóricos, parecia-lhe familiar.
Mery deixou-se vestir indiferentemente.
Aproximando-se da janela, viu que a noite já havia descido.
Teria ela dormido o dia inteiro?
Por quê? Como?
Ela não conseguia atinar.
Maquinalmente, dirigiu-se ao refeitório, onde lhe foi servido um repasto; mas o chocolate denso tinha um gosto asqueroso de sangue e o pão torrado esfarinhou-se em sua boca feito cinza.
Apesar do nojo experimentado, Mery comeu e bebeu tudo como que movida por força estranha.
Descansando o rosto nas mãos acotoveladas, tentava juntar as ideias e lembrar-se onde tinha visto a nova camareira quando, de súbito, esta anunciou-lhe a vinda do doutor Zatórsky, que a aguardava na sala de estar.
Mery estremeceu. Zatórsky?...
Mas esse é o sobrenome de Vadim Víktorovitch, seu noivo falecido.
Ou tudo isso era um sonho?...
Com dor aguda no cérebro, ela novamente perdeu o fio do raciocínio, preservada apenas a recordação de que o doutor a aguardava; e saiu apressadamente para seu encontro.
Sentado à mesa, o doutor, de trajes negros, folheava um álbum.
Ao vê-la, ele se levantou e beijou a mão de Mery.
— Como está se sentindo, minha querida?
Está tão pálida!
Por que convidou visitas para esta noite?
Mery sentia a cabeça tonta, os pensamentos se embaralhavam; enxugou febrilmente a testa húmida com um lenço.
Seu noivo pareceu-lhe estranho.
O modo de olhar era diferente: penetrante e incandescido de paixão, como nunca; seu corpo emanava frio e a mão que apertara a sua era húmida e gelada.
— Eu convidei as visitas? — fez ela, sem entender nada.
Que visitas?
Não consigo entender o que há comigo hoje.
Ocorre-me na mente que o senhor foi morto pelo barão Kosen.
O doutor rompeu em riso esganiçado.
— Mery, Mery, seus nervos estão à flor da pele, você está tendo alucinações.
Tenho a impressão de que devo tratá-la seriamente.
Espero que você não tenha se esquecido de nosso casamento? — continuou ele, rindo.
Bem, vou tratar sua saúde.
Que eu estou vivo, as provas dispensam.
Quanto ao barão e sua esposa, ambos estão sadios e você verá Anastácia Andréevna à noite.
Bem, tenho de deixá-la agora.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 25, 2016 8:19 pm

Você ainda precisa se vestir e ultimar alguns preparativos para o banquete.
Ele se levantou, abraçou-a apaixonadamente e a cobriu de beijos.
Seus lábios glaciais espalharam frio por todo o corpo de Mery.
A vida parecia-lhe se esvair; quando Zatórsky a soltou dos braços, ela caiu no sofá, perdendo momentaneamente a consciência.
Já recuperada, viu que estava sozinha.
A iminência do banquete nocturno afluiu à sua mente, e este seria no salão nobre da casa — disso ela tinha certeza.
Momentaneamente isso lhe pareceu natural, pois a casa pertencia a Van der Holm, como tudo que era relacionado a esse nome.
Sem pensar em mais nada, seguiu para o andar de cima.
Profusamente iluminado, o salão recebia últimos preparativos.
Na saleta anexa, um homem colocava flores dentro de vasos japoneses; ao se virar para Mery, esta estremeceu:
o homem de rosto cadavericamente pálido e pescoço atado era Karl — o jardineiro de Zeldenburgo...
Não é possível... ela estava sonhando... ela o viu morto pelo tigre misterioso, e o tigre era Pratissuria — seu guardião!...
Novamente uma dor lancinante na cabeça rompeu o curso de seus pensamentos.
Seguindo adiante, no refeitório ela topou com o mordomo e a nova camareira, arrumando a mesa para o jantar.
Foi então que ela reconheceu a ambos:
o mordomo era Akim, criado da baronesa, e a moça era Fênia.
Mas os dois haviam morrido!...
Aliás, todos os que ela encontrara até então eram tidos como mortos, entretanto ali estavam trabalhando...
Um novo evento, porém, mudou o rumo de seus pensamentos desconexos.
O refeitório foi adentrado pela baronesa, e Mery apressou-se em sua direcção para cumprimentá-la e convidá-la para o quarto contíguo.
A baronesa trajava um vestido negro bordado, uma flor vermelha acolchetava-se ao corpete e um pequena diadema adornava seus cabelos ruivos.
Deitando um olhar desdenhoso em Mery, ela perguntou por Vadim Víktorovitch e, sem esperar resposta, adicionou:
— Sabe, queridinha, o que estão falando de mim na alta roda?
Dizem que o doutor está caído por mim e é meu amante. Há-há-há!
Que infâmia! Só amo meu marido.
Ela soltou uma nova gargalhada tão sinistra, que Mery se arrepiou.
— Estou feliz que seu casamento colocará um termo nesse falatório.
Sua conversa foi interrompida pela chegada de outras pessoas, entre as quais estava o doutor, desta vez de fraque e gravata branca.
Mery não se O salão de baile já estava repleto de pessoas dançando ao som de um piano cujos acordes trémulos e bruscos produziam uma impressão pesada.
De cabeça zonza, Mery observava a multidão rodopiando em dança tresloucada, pairando com a leveza de folhas multicoloridas ao sabor do vento.
Subitamente, seu coração abrasou-se, inflamado por sentimento de ciúme:
o doutor e a baronesa haviam sumido.
Respirando pesado, Mery esgueirou-se até a saleta onde há pouco conversara com a baronesa, e ergueu de leve o reposteiro.
Sentada nos joelhos do doutor, a baronesa cingia-lhe apaixonadamente o pescoço, fitando-o nos olhos.
Através da cútis e por trás de seus cabelos ruivos, desenhava-se um contorno de caveira.
Mery virou-se indignada e saiu correndo de volta, mas nisso o doutor a alcançou e, segurando-a, censurou-a pelos ciúmes infundados, jurando-lhe amor irrestrito.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 25, 2016 8:19 pm

Erguendo-a pela cintura, ele rodopiou com ela até o fundo do salão, tão vertiginosamente que lhe sustou a respiração.
Então, de súbito, uma melodia maravilhosa, tal qual de harpa eólica, atravessou o salão, e o ar coruscou-se de cruz luzidia, de cujo centro feixes luminosos partiram em todas as direcções, instalando pânico nos dançarinos.
O cavalheiro de Mery fugiu assustado para o gabinete; os demais convidados, cujos rostos de palor intenso se desnudavam em caveiras arreganhadas, corriam pelo salão.
Finalmente tudo mergulhou em escuridão violeta...
Ensandecida de terror, Mery tratou de deixar o local e, sem saber como, conseguiu descer a escada escura.
Já no quarto, totalmente exausta, ela se deixou cair na poltrona e desfaleceu.
No dia seguinte àquele serão diabólico, por volta das nove horas da noite, Eletsky e seu amigo Ravana Veda — como este era chamado na casa do barão — estavam no quarto do príncipe.
Ambos pareciam preocupados, sobretudo o doutor, que andava pelo quarto de cenho carregado.
— O momento decisivo está chegando.
Tomara que tenhamos forças suficientes para resgatá-la das garras dos monstros, que já a querem morta — observou Zatórsky, com olhos umedecidos.
— Não venha com desânimo nesta hora!
Lançarei mão de todas as forças de que disponho; fora isso temos Vedjaga Singa, de quem espero algumas instruções.
Se Deus quiser, derrotaremos o mal.
Suspirando, o doutor sentou-se como que mais animado; sobreveio um longo silêncio.
De súbito a porta se abriu silenciosamente e entrou um homem alto de rosto brônzeo, que se aproximou do príncipe e curvou-se-lhe em reverência.
— Kovindassami! — exclamou Eletsky, levantando-se.
Foi o mestre que o enviou?
— O mestre está aqui em pessoa e os aguarda no automóvel junto ao portão.
Disse para vocês irem até ele, levando consigo os objectos relacionados nesta folha — disse o hindu, estendendo um papel.
Em cinco minutos, o príncipe e seu amigo desciam ansiosos até o automóvel estacionado na rua.
O príncipe acomodou-se agilmente no banco traseiro ao lado de um homem de capa escura e capuz na cabeça, e esboçou a intenção de beijar-lhe a mão, porém este a arrancou, dizendo:
— Deixe disso, meu filho!
Eu sei que você está feliz em me ver.
Deixe entrar seu amigo e vamos logo à clínica dele.
— Que felicidade inesperada, caro mestre!
Bem, diga-me como veio parar aqui?!
— Eu estava a caminho de Londres e resolvi passar por aqui para dar meu apoio no resgate da pobre infeliz, vítima dos satanistas.
Queria também conhecer meu novo discípulo, que salvamos da morte.
Enquanto Zatórsky, gaguejando de emoção, expressava sua gratidão, o automóvel a toda velocidade chegava à clínica hermética.
Os nossos heróis dirigiram-se então a um anexo do prédio, que normalmente servia para abrigar eventuais pacientes necessitados de certo repouso, onde foram recebidos pela administradora da clínica — uma mulher de idade mediana, simples mas enérgica, enviada pela irmandade em Tirol para auxiliar o doutor.
O mago passou-lhe algumas instruções e, quando ela saiu, disse a Zatórsky:
— Seja corajoso, meu filho!
Se sua amada rejeitar espontaneamente o inferno e buscar o auxílio divino, sua alma será salva.
Conforme o senhor sabe superficialmente, há alguns dias numa reunião dos membros superiores os satanistas decidiram livrar-se de Mery.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 25, 2016 8:19 pm

Com esse intuito, eles paralisaram o cérebro dela e o povoaram de larvas e, se não tivéssemos intervindo ontem, ela estaria morta.
Agora eles estão furiosos e pretendem hoje à noite, após uma orgia satânica, sacrificá-la pelo tigre.
Devemos juntar nossas forças, tanto mais que o próprio Asrafil e Uriel estarão presentes.
Eu vou preparar-me para o confronto, mas antes devemos devolver à coitada seu pleno juízo e livre vontade.
Com o auxílio de seus discípulos, o mago iniciou os preparativos misteriosos.
Mery recuperou a consciência na mesma poltrona onde desfalecera, depois de fugir do salão de baile.
A recorrente lembrança vaga do ocorrido enchia-a de sentimento de nojo e revolta.
Seu corpo parecia moído; ela levantou-se com dificuldade e esquadrinhou o olhar em volta.
Pratissuria, deitado no tapete ao seu lado, observava-a com olhos inteligentes.
Ela acariciou o tigre e foi para o dormitório, onde se deitou na cama sempre seguida por ele.
Depois de tocar a campainha por duas vezes, sem que alguém aparecesse, Mery mergulhou numa sonolência pesada.
Tirou-a desse torpor um forte golpe de vento, que lhe refrescou o rosto.
Ela se soergueu e avistou uma misteriosa faixa larga de luz azulada que invadiu o quarto pela janela.
Nessa faixa luminosa, tal qual de luar, divisava-se um homem alto em trajes alvos, com a cabeça envolta em larga auréola.
Antes deslizando do que andando pelo tapete, o estranho visitante foi até o tigre deitado, curvou-se e manipulou sua coleira, indo em seguida até Mery, que o observava pasma e calada.
Foi então que ela pôde distinguir que o misterioso visitante era ainda um homem jovem, tipo estrangeiro; sua tez brônzea era bela e majestosamente severa e nos grandes olhos negros fulgia vontade dominadora.
Ao depositar suas mãos sobre a cabeça da jovem, esta sentiu como que uma flecha ígnea atravessando-lhe o cérebro.
Dando um passo para trás, ele lhe sussurrou:
— Está se aproximando o minuto decisivo de sua vida.
Os filhos do inferno, aos quais você está ligada, tentaram matá-la entregando-a à luxúria dos espíritos impuros, que os devora com paixão carnal até no túmulo.
Aquele que assumiu o aspecto de seu amado nada mais era que um íncubo(2), que deveria atá-la para sempre ao reino das trevas.
Mas a misericórdia de Deus é infinita e Seu amor às Suas criaturas jamais se extingue, por mais que elas sejam criminosas.
Assim, eu vim dizer-lhe que, se ao invés das palavras sacrílegas que você é obrigada a pronunciar, você se dirigir ao Senhor e disser, com muita fé — "a cruz triunfa sobre o inferno", será protegida e salva.
A figura do espectro empalideceu e dissolveu-se no feixe azulado, que se esmaeceu por sua vez.
Mery saltou da cama e, febricitante, pôs-se a andar pelo quarto.
O cansaço e a incapacidade de raciocinar sumiram totalmente; tinha consciência de tudo e seus pensamentos possuíam uma clareza incrível.
O aparecimento da camareira interrompeu seus devaneios.
Esta a mediu com olhar hostil e desconfiado, dizendo que viera vestir a ama.
— A senhora não esqueceu que hoje é dia de seu casamento? — acrescentou ela em tom jocoso.
— Oh, não!
Eu sei que a cerimónia é logo mais, por isso vista-me rapidamente — ordenou Mery, determinada.
Sem se opor, ela suportou a toalete diabólica com banho e unguentos; deixou-se vestir numa fina malha negra; colocou uma capa vermelha bordada a ouro e decorou seus cabelos soltos com diadema de brilhantes, do qual saltavam chifres de rubi.
Terminada a toalete, Mery passou ao boudoir, sempre acompanhada por Pratissuria, de cabeça tensa e rabo encolhido.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 2 de 3 Anterior  1, 2, 3  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum