Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 26, 2016 8:55 pm

Uma ira tempestuosa exacerbou-lhe a alma quando ela se olhou no espelho e, subitamente, amadureceu-lhe a decisão de estragar os planos da irmandade, ainda que fosse a preço de sua própria vida, uma vez que esta, de qualquer forma, era insuportável.
Neste instante entrou Uriel vestido festivamente.
Seu rosto angular estava sombrio; os olhos fulgiam de ódio diabólico.
- Devo preveni-la, irmã Ralda, os meus superiores estão muito insatisfeitos com você.
Ao invés de lutar contra os nossos inimigos, você está sempre se rebelando.
Ou você acha que o doutor Zatórsky, tido por você como um ser "superior", não está de nosso lado?
Há-há-há! Bem antes de sua morte oficial ele se tornou um membro de nossa irmandade.
Mas como vocês dois se amam, nós, pacientes e misericordiosos, deixamos que você se case com ele.
Os mestres acreditam que, tornada a esposa do homem amado, você virá a ser nossa seguidora fervorosa.
Dessa cerimónia participará o grande mestre Asrafil e os demais membros da irmandade, por isso não quero vê-la de cara amarrada.
Caso contrário, sua morte será violenta ou, o que é ainda pior, você poderá ser encarcerada numa de nossas cidades satânicas.
Está surpresa?
Como em toda lenda existe um fundo de verdade, até os seres vivos correm risco de ir para o inferno.
Eles não imaginam o que é inferno, por isso não têm medo.
Soubessem eles dos mistérios que o mundo oculto guarda, seriam mais ajuizados e cuidadosos.
Bem, agora vamos — disse ele, rispidamente, pegando a mão de Mery e chamando com um gesto Pratissuria.
Eles galgaram a escadaria e adentraram o salão nobre, cuja decoração já era diferente.
No meio dele, na altura de dois degraus, assomava-se o altar revestido de veludo vermelho, onde, entronizado numa poltrona dourada, estava Asrafil ladeado por dois altos candelabros de sete braços, com velas pretas acesas; os braseiros, dispostos em triângulo, espalhavam um odor acre e entorpecedor; as lâmpadas de tecto inundavam o ambiente com luz sanguínea.
Em tomo de Asrafil apinhavam-se em semicírculo os convidados, em trajes festivos, rostos lívidos, carcomidos por paixões animalescas.
Na primeira fileira estava a baronesa Kosen e, diante do altar, postava-se em fraque e gravata branca o duplo do doutor Zatórsky.
Uriel levou Mery directamente a ele e a fez segurar a mão glacial do "doutor".
Neste ínterim, dois satanistas trouxeram arrastando pelos chifres um bode preto e, imediatamente, um dos homens em vestes vermelhas sacrificou-o aos pés dos noivos.
Ao colher na taça o sangue que jorrou do ferimento, ergueu-a sobre a cabeça, dizendo alto:
— Compartilhem a essência da vida desta taça.
Você, Ralda, em nome do senhor Satanás, jure amor e fidelidade ao seu esposo Astorot, filho legítimo do rei das trevas.
O coro dos presentes iniciou um canto desconexo e, no momento em que o noivo se preparava para colocar a aliança no dedo de Mery, o satanista levou-lhe aos lábios a taça, ordenando que ela tomasse de seu conteúdo.
Com resolução desesperada, Mery arrancou a mão de Astorot e com um soco violento derrubou a taça do sacerdote satânico; o anel rolou para longe.
Com voz rouca de indignação, ela gritou:
— A cruz triunfará sobre o inferno!
Morrerei devota a Cristo Salvador; vocês não terão a minha alma, seus malditos!
A minha agonia expiará meus pecados diante do Senhor, a quem injuriei, sacrílega.
Entrego a minha alma em sua mãos, ó Deus misericordioso!
Por entre a assembleia horripilante instalou-se um silêncio mortal, apenas quebrado por trovoadas longínquas; aparentemente, desencadeava-se uma tempestade cuja iminência, porém, era por todos ignorada.
Asrafil se retesou e, espumando pela boca, parecia prestes a se lançar sobre a "revoltosa".
Neste instante, Uriel com rosto transfigurado, empunhando uma adaga, saltou à frente de Mery; de súbito, porém, Pratissuria de um salto interpôs-se entre eles, eriçando o pêlo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 26, 2016 8:56 pm

Tomado de fúria, Uriel vociferou um impropério e urrou os esconjuros, ordenando ao tigre despedaçar a "indomável".
Para espanto de todos, a fera soltou um urro estrondoso, fazendo os vidros tremerem, saltou sobre Uriel e, derrubando-o no chão, cravou suas presas no pescoço do satanista, ao mesmo tempo que arrancava pedaços de carne de seu peito com as garras, junto com a roupa.
Um violento rolar de trovão se fez ouvir bem acima da casa, e o salão foi riscado por um raio ígneo atingindo e derrubando Asrafil do trono, bem como os candelabros, os braseiros e alguns dos presentes.
O tigre, entrementes, largou o cadáver de Uriel e, com uma patada, abateu Ukobakh.
Apesar das dores insuportáveis por todo o corpo, Mery só pensava em fugir daquele lugar nefasto, aproveitando a confusão reinante.
Assim que um novo relâmpago rasgou o ambiente com luz esverdeada, ela se lançou em direcção ao tigre, que acabava de dilacerar um satanista, agarrou-o pela coleira e puxou-o.
Pratissuria parecia ensandecido, contudo obedeceu a Mery.
Tal qual furacão, eles desceram a escada e através de uma porta lateral saíram para o jardim, correram até o portão e se viram na rua.
Segurando Pratissuria pela coleira, esquecida de suas estranhas vestes, Mery corria como se açoitada pelos demónios; ela só se lembrou de arrancar da cabeça o diadema com os chifres.
— Salve-me, Cristo!
A cruz triunfará sobre o inferno! — repetia ela sem parar.
Felizmente as ruas que ela percorria com seu estranho acompanhante estavam vazias:
a hora tardia e a chuva torrencial — que aliás pouco lhe importava — afugentaram os moradores.
De repente, dobrando uma rua, ela se viu diante da porta aberta de uma capela.
Algumas lâmpadas derramavam luz pálida sobre os rostos severos dos santos e um grande ícone de Nossa Senhora das Dores.
Mery soltou um grito surdo.
A casualidade que a levou à capela era como que uma resposta, vinda de cima, de que o seu arrependimento foi ouvido e os Céus novamente a amparavam.
Ali estavam os protectores benevolentes de todos os fracos de espírito, dos perdidos, dos pecadores e criminosos; ali estava a Mãe de Deus, estendendo Seu manto protector para propiciar refúgio a todos os sofredores.
Mery soltou o tigre da coleira, entrou na capela e, ajoelhada, estendeu súplice as mãos aos ícones; a prece, há muito tempo expulsa e proibida, jorrou de seus lábios em torrente de amor e arrependimento, pedindo forças e auxilio.
— Senhor, tenha piedade de mim — repetia ela, persignando-se em meio a prostrações até o chão.
E seus clamores não foram inúteis; sua fé e esperança redobraram-se, devolvendo-lhe relativa paz.
Arrebatada, ela agradeceu ao Criador a salvação e suplicou que lhe fosse indicado o caminho certo para romper de vez com seu passado criminoso.
Subitamente, lembrou-se de seu companheiro de infortúnio — o tigre, deixado solto.
E se ele embrenhasse pelas ruas; e se acontecesse alguma desgraça?
Ela se virou num sobressalto, porém se acalmou imediatamente, ao avistá-lo deitado na entrada da capela com o focinho enfiado entre as patas.
Ele, seu fiel amigo, que acabara de salvá-la da morte certa matando Uriel, estava esperando por ela.
Mery aproximou-se do mascote e acariciou-o; o tigre levantou a cabeça e lambeu-lhe a mão, fitando-a quase com uma expressão humana, triste e apreensiva.
O coração de Mery comprimiu-se de pena e seus olhos encheram-se de lágrimas.
Nisso, um outro pensamento fê-la estremecer por dentro:
onde acharia um abrigo no meio da noite procelosa, vestida em traje indecoroso, e em companhia de um tigre?
Deixá-lo à sorte do destino estava fora de questão.
Ela preferia a morte, a tornar a cruzar o limiar da porta da casa de Van der Holm.
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Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 26, 2016 8:56 pm

De súbito sua atenção foi atraída para o som da buzina de um automóvel e, antes que ela pudesse esconder-se no interior da capela, Zatórsky e o príncipe saltaram do carro.
— Mery! Graças a Deus que nós a achamos! — exclamou o doutor, indo em sua direcção.
— Ajude-me, Vadim! — rogou Mery, lançando-se em seus braços.
— Foi para isso que viemos — assegurou o príncipe, envolvendo-a numa capa.
Rápido, Vadim, leve-a ao carro; ela mal se aguenta em pé — acrescentou, ao ver Mery cambaleando.
O doutor ergueu-a feito a uma criança.
— Peguem Pratissuria; ele acabou de salvar minha vida — tornou Mery em voz débil, estendendo as mãos ao tigre.
O animal interpretou o gesto como convite e, num piscar de olhos, alojou-se no banco traseiro do automóvel para grande alívio do príncipe e Zatórsky, que carregava Mery nos braços.
Mas as experiências vividas esgotaram por completo as forças de Mery; sua cabeça tonteou e ela desfaleceu nos braços do médico.
Ao chegarem à clínica, Vedjaga Singa mandou que Mery fosse entregue aos cuidados da administradora e, dirigindo-se aos discípulos, disse:
— Bem, amigos, temos de ir à casa de Van der Holm, onde nos espera um serviço inadiável, ou seja:
concluir o justiçamento supremo.
Ajudados por Kovindassami, eles puseram vestes longas de lã; o mago e o príncipe colocaram no pescoço medalhões com sinais mágicos, de acordo com seu grau de iniciação; Zatórsky pôs uma faixa com estrela de prata bordada.
Envoltos em capas escuras, partiram de automóvel em companhia de Kovindassami; este levava consigo um comprido estojo de ébano.
A casa de Van der Holm estava mergulhada em lúgubre escuridão; todos seus acessos estavam trancados, com excepção do portãozinho do jardim, através do qual Mery e o tigre escaparam.
O príncipe foi na frente iluminando o caminho com farolete de pilha, até que no vestíbulo Vedjaga Singa, que parecia conhecer bem a casa, adiantou-se e acendeu a luz, que iluminou um quadro asqueroso.
Um satanista aparentemente em fuga fora surpreendido pela morte:
ajoelhado e abraçado na coluna, sua cabeça pendia para trás sob o peso de um gato morto, que cravara as garras em sua nuca, e — coisa incrível! — o focinho do animal tinha o aspecto de um anão senil de cara enrugada.
Pegando com Kovindassami duas espadas mágicas dentro do estojo, Vedjaga Singa as deu aos seus discípulos, ficando com uma terceira de lâmina larga e fulgente.
Com as outras mãos empunhando os crucifixos de ouro, dardejando feixes luminosos, os três subiram ao piso superior seguidos por Kovindassami, carregando uma bacia com água e aspersório.
Na porta do salão eles se detiveram por alguns instantes, enojados do espectáculo medonho.
No primeiro plano, jazia Uriel totalmente dilacerado por presas e garras do tigre; os cadáveres mutilados de Abrakhel, Ukobakh e Zepar espalhavam-se em poças de sangue:
tamanha fora a ferocidade de Pratissuria.
Ali e acolá, amontoavam-se os corpos contorcidos por terríveis convulsões de pessoas estranhas, entre os quais o da baronesa Kosen, já em decomposição; ao lado do bode sacrificado, estendia-se o cadáver daquele que interpretou o noivo satânico de Mery.
Com todo o luxo da mobília e decoração, apesar de tudo profusamente iluminado, o salão parecia o próprio inferno, onde o mal emergira em toda a sua fealdade, sendo alcançado pela justiça celeste.
Empunhando alto a cruz luzidia, Vedjaga Singa caminhou até atrás do altar tombado de lado; ali, como que crucificado na parede, uma criatura horrenda — o filho sinistro do sorvedouro — espreitava a aproximação do mago, de olhos injectados.
Seu aspecto era humano, mas seu corpo flexível era coberto até o pescoço de pêlo negro, felpudo e brilhante.
O rosto, palidamente esverdeado, transfigurado por fúria impotente, terminava por barbicha pontuda.
As mãos ganchosas, tal qual garras, e as asas dentadas estavam pregadas à parede com flechas incandescidas com pontas cruciformes, que neutralizaram o monstro diabólico.
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Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 26, 2016 8:56 pm

Vedjaga Singa postou-se diante dele e ergueu o crucifixo.
Mal os feixes iridescentes do símbolo da eternidade e salvação atingiram o demónio, este começou a se contorcer e urrar feito fera.
— Bem, estamos frente a frente, Asrafil — seu monstro convencido e criminoso!
É claro:
no reino das trevas você tem lá a sua importância, mas diante da omnipotência de Deus, ao qual ousou profanar, você não passa de nulidade diabólica, cheia de vícios.
A hora do castigo por seus malefícios chegou; mas o Todo-Poderoso em sua infinita misericórdia às Suas criaturas, até com os ínfimos, oferece-lhe duas opções:
vagar como um demónio infame pelos sorvedouros do inferno ou rejeitá-lo, curvando-se diante de seu Criador e remir a culpa com boas acções.
— Jamais! Sou um príncipe das trevas e quero permanecer assim! — urrou ele, tentando se libertar, espumando pela boca e esbracejando palavras sacrílegas.
— Bem, foi você que escolheu o destino e que se cumpra seu desejo!
Incorpore-se no cadáver desse bode e vague nas moradas das trevas e do mal!
O mago agitou a espada e pronunciou fórmula mágica:
Uma chama cintilou na lâmina e atingiu o bode inerte.
Um tremor percorreu o corpo já enrijecido do animal, e este se levantou feito autómato, escancarando a boca e arregalando olhos vitrificados.
Vedjaga Singa aproximou-se de Asrafil e nele desenhou um sinal cabalístico que cintilou fosforicamente no ar, obrigando o demónio a urrar de dor e a contorcer-se como que tocado de brasas incandescidas. Agilmente, o mago então perpassou-o com a espada flamejante, dizendo em voz alta:
— Asrafil!
Pelos poderes a mim conferidos de exorcizar os seres demoníacos perversos, ordeno-lhe encarnar-se nesse animal, já condenado para a decomposição.
Ouviu-se um estrondo, o corpo penugento do demónio inflamou-se e começou a contrair-se, até ficar reduzido na ponta da espada ao minúsculo monstrinho de cara asquerosa e transfigurada.
O mago então levou-o à boca escancarada do bode, onde a criatura desapareceu; os olhos vitrificados do animal subitamente cintilaram de ódio diabólico e ele recuou, assobiando roucamente.
Enquanto seus ajudantes iniciavam a recitação de fórmulas, Vedjaga Singa foi até a cortina de seda que toldava a parede e descortinou um amplo e fundo nicho com porta em estilo gótico, coberta de hieróglifos vermelhos, guardada, de um lado, por serpente empinada na cauda, e do outro — por dragão de asas dentadas.
Mal aquela porta foi tocada pelo mago com a ponta da espada, ela se abriu com estrondo, liberando uma coluna de fogo fumacento, que logo se extinguiu e, por trás da fumaça em dispersão, divisou-se um quadro lúgubre e bizarro, já visto por Mery em sua viagem ao pandemónio.
Num salto tresloucado, o bode atravessou o limiar e, urrando surdamente, sumiu no espaço nevoento.
O príncipe e o doutor, abismados, presenciaram então mais um espectáculo inesperado e asqueroso.
Revelando agilidade incrível, como que ressuscitados por corrente galvânica e movidos por força invisível, os cadáveres ensanguentados se erguiam e lançavam-se ao vão da porta, desaparecendo na bruma, de onde se ouvia uma gargalhada sonora de escárnio, recepcionando cada um que chegava.
Quando finalmente desapareceu o último cadáver, a porta fechou-se com violência e Vedjaga Singa nela desenhou uma cruz límpida.
— Nenhuma larva ou espírito demoníaco poderá mais passar por ela — disse ele.
Precisamos agora acabar de limpar a casa das forças do mal.
Como Mery é herdeira legal deste imóvel, direi para ela que o destine para alguma instituição beneficente.
A irmandade satânica sofreu perdas pesadas e não ousará protestar contra isso.
Bem, vamos embora, meus amigos!
Os miasmas daqui são nocivos até para adeptos.
De facto, o príncipe estava muito pálido e fraco; Zatórsky cambaleava de tontura, receando desmaiar.
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Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 26, 2016 8:57 pm

Vedjaga Singa deu-lhes uma essência aromática e tonificante para cheirar.
Ao saírem para o jardim, o ar fresco revigorou-os ainda mais e eles retornaram rapidamente para a clínica de Zatórsky.
No vestíbulo, a administradora recebeu-os preocupada.
— Mestre, fiz o que me mandaram:
queimei a roupa dela e lhe preparei o banho, porém não consegui carregar Mery — seu corpo está pesado feito chumbo e alguém precisa ajudar-me.
— Está bem.
Deixe-me tomar um banho e trocar de roupa, depois irei ajudá-la; enquanto isso continue com a defumação — ordenou o mago.
Um quarto de hora mais tarde, Vedjaga Singa e Zatórsky foram à sala onde ficava a piscina; num canto, no sofá, Mery jazia ainda inconsciente.
Na lareira crepitavam as brasas, e recendia forte cheiro de ládano e zimbro.
Com a entrada do mago, de todos os cantos se ouviu barulho.
Um golpe de vento atravessou a sala, fazendo tremer as janelas; os vidros foram atingidos por areia e pedaços de pedra.
Sem dar atenção às manifestações beligerantes, Vedjaga Singa aproximou-se e curvou-se sobre Mery, que gemia surdamente, ainda que estivesse desacordada.
Sobre seu peito repousava uma xícara com ervas resinosas que crepitavam ao arderem; o mago lançou um punhado de pó branco e verteu sobre a cabeça de Mery um líquido incolor, recitando fórmulas.
Do corpo dela começou a se desprender uma fumaça densa, cobrindo-a toda; em seguida, da fumaça saltaram esferas vermelho-sanguíneas, azuis, amarelas e negras, que estouravam e espalhavam um odor nauseabundo de putrefacção.
Mery continuava a gemer.
Vendo seus sofrimentos, Zatórsky perguntou alarmado, com olhos marejados:
— O senhor tem certeza de poder salvá-la?
— Sem dúvida, sua sorte é que ela não foi possuída por nenhum demónio, o que é raro ao se tratar de satanistas.
A providência resguardou-a dessa relação terrível e mortal, e ela revelou muita força e resolução em momentos difíceis.
Está claro que ainda terá muito trabalho para recuperar a sua pureza.
Mesmo assim, repito, ela é muito corajosa e estou convicto de que suportará dignamente as dificuldades da purificação.
Mery foi vítima das circunstâncias e tornou-se o que é contra a vontade e sem se dar conta disso.
Indo até a piscina, ele mandou acender os braseiros dispostos em triângulo a seu redor.
Verteu na água um líquido do frasco, mergulhou nela o crucifixo, determinou que Mery fosse trazida e, com o auxilio do doutor, colocou-a na piscina.
Instantaneamente, ela soltou um grito desatinado e abriu os olhos; a água, neste ínterim, começou a efervescer como se nela houvessem posto ferro incandescido.
Mery se debatia, achando que ia morrer — tal era a dor insuportável que lhe abrasava o corpo; mas o mago e Zatórsky seguravam-na firmemente e, à medida que o primeiro recitava as fórmulas, os sofrimentos de Mery pareciam diminuir, enquanto a água se levantava em espumas esverdeadas, mescladas por sulcos púrpuros.
Quinze minutos depois, a água parou de efervescer.
Mery foi retirada da piscina e transportada para um dos quartos da clínica, onde ficou estendida desacordada, aparentemente num estado cataléptico.
Vedjaga Singa mandou a administradora trocá-la em roupas novas, colocar na cabeceira uma cruz e repetir a cada duas horas as defumações receitadas.
— Deixemos que descanse até amanhã, quando então falarei com ela e lhe darei alguns conselhos; depois, daqui a dois dias, eu tenho de ir embora.
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Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 26, 2016 8:57 pm

Dirigindo-se novamente à administradora, ele a inquiriu:
— E onde está o tigre?
— Ele se enfiou num canto do saguão e não deixa ninguém se aproximar dele — respondeu ela.
— Deve estar com fome.
Mandarei Kovindassami cuidar dele; e vocês, meus amigos, precisam descansar — disse o mago, despedindo-se.
A administradora da clínica trouxe-lhe um copo de leite e pão, deu-lhe um banho e vestiu-a num robe branco e comprido com cruz vermelha bordada nas costas e um cálice dourado enfeitando-lhe o peitilho; um cordão branco de seda cingia-lhe a vestimenta leve.
Durante a toalete, ela perguntou apreensiva o que acontecera a Pratissuria.
Ao saber que o tigre se achava na casa, sendo cuidado por assistentes do mago, ela se acalmou.
Logo chegou Zatórsky, a fim de chamá-la para uma conversa reservada com Vedjaga Singa.
Vedjaga Singa recebeu-a vestido de trajes hindus, envergando turbante de musselina na cabeça.
Ele ordenou que a jovem se pusesse de joelhos e repetisse, palavra por palavra, uma oração; feito isso, disse-lhe para oscular a cruz sobre a mesa, abençoou-a e levantou-a.
— Parabéns, minha filha, por ter tido a coragem suficiente de romper com as forças obscuras e retornar, submissa e arrependida, aos pés do Criador.
Mas não vá pensar que tudo acabou.
Você só teve uma purificação prévia e ainda há muita coisa a ser feita para desenvencilhar-se definitivamente dos grilhões funestos do passado.
Então, minha criança, eis o que deverá ser feito.
Antes de tudo, recolha-se por uns sete meses num dos nossos abrigos e lá, na solidão, nas orações e reflexões, haura as forças necessárias para enfrentar os satanistas.
Quando esse embate terminar e os nossos mentores a acharem suficientemente forte, você irá a Komnor Castle para libertar Edmond e livrar-se da maldição que a oprime.
Você jamais desfrutará de paz enquanto existir aquele monstro, gerado pelo ódio; ele encarnou em si tanto os malefícios seus como os de Edmond.
Tornando-se um espírito livre, ele poderá deixar o lugar ao qual ficou atado por suas maldições e profanações; ao se purificar, você poderá orientar o infeliz para o caminho da verdade.
Sem conseguir conter a emoção, Mery agarrou a mão do mago no intuito de beijá-la, mas este não o permitiu e, depositando-a sobre a cabeça da jovem, prometeu-lhe amizade e protecção constante.
De súbito, Mery ajoelhou-se e, olhando súplice para o mago, sussurrou hesitante:
— Tenho, mestre, dois grandes pedidos.
— Então fale!
Que amigo seria eu se não atendesse seus pedidos.
— Mestre, no reino das trevas que eu abandonei, deixei alguns seres, aos quais fiquei afeiçoada e de quem tenho enorme pena.
Primeiro é o capeta Cocotó com seu bando, cedidos na qualidade de servidores.
O senhor não pode fazer com que a actividade deles se oriente para o bem, e não para o mal?
Eles estão muito infelizes sem a ama deles, porque eu não pude devolvê-la.
Famintos e abandonados, esses coitados poderão causar muitos malefícios.
Tenho muita pena de Cocotó e queria que o seu minúsculo cérebro, dirigido para o mal, fosse orientado para o bem e para a luz.
Não poderia eu fazer algo por eles?
Eles estão atados a mim e devem-me a obediência.
— Cumprimento-a, minha filha, por não se ter esquecido de seus pequenos servos.
E qual é o outro pedido? — perguntou sorrindo o mago.
— E com respeito a Pratissuria, meu guardião e companheiro, que compartilhou comigo as horas mais infaustas da minha vida; inclusive já choramos juntos.
O pobre animal não tem culpa de ter sido arrancado das selvas nativas, sendo transformado numa arma das forças do mal.
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Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 26, 2016 8:57 pm

Juro-lhe, mestre, que essa fera não é mais cruel do que aqueles em cujo poder eu sucumbi.
De tanto nos afeiçoarmos, ele me salvou de Uriel.
Diga-me, mestre, é possível libertá-lo do poder dos demónios?
Um sorriso bondoso iluminou o belo rosto de Vedjaga Singa.
— Estou feliz, minha filha, que mesmo cercada do mal seu coração permaneceu sensível às afeições puras e desinteressadas dos seres inferiores.
Atenderei seu pedido de libertar seus ex-servos das peias infernais. Chame-os!
— Eu ainda posso proferir fórmulas satânicas?
— Sim, pode, mas pela última vez.
Espere um pouco, enquanto eu faço as devidas preparações.
Por determinação do mago, Kovindassami trouxe alguns objectos e em seguida Vedjaga Singa disse para Mery iniciar o chamamento.
Mal ela acabou de pronunciar a devida fórmula, surgiu Cocotó com sua turma e, após reverenciá-la, postou-se diante dela.
Ele parecia triste, debilitado, e sua carinha reflectia desespero; atrás dele, o aspecto de seus comandados também era digno de pena:
seus corpinhos apertavam-se assustados uns contra outros e os olhos faiscavam na sombra feito minúsculos rubis.
O mago pegou um pedaço de resina quente e volteou-a por três vezes em tomo dos capetas; tomados de terror, eles perceberam que seu caminho de volta estava cortado.
Vedjaga Singa então verteu de um frasco uma substância para dentro do vaso com água, tudo se inflamou tal qual álcool, e imediatamente despejou o conteúdo sobre os capetas amontoados; estes, aos gritos e silvos, turbilhonaram pelos cantos, tentando sair do círculo mágico, sem conseguir rompê-lo.
Em seguida, tudo se toldou em densa fumaça negra.
Vedjaga Singa ergueu a mão sobre a nuvem e pronunciou imperiosamente:
— Pelos poderes a mim conferidos sobre os seres inferiores, eu rompo os elos que os atam às forças do mal e devolvo-os à condição de espíritos elementais.
Transformem-se em espíritos do ar e elevem-se à luz sob a orientação das entidades superiores — seus mentores.
De agora em diante, vocês não têm mais acesso aos sorvedouros lúgubres, onde tiritaram.
Ordeno-lhes que se esqueçam de seus actos criminosos e de terem vivido nas esferas satânicas.
A partir de agora, vocês só praticarão o bem.
Que se disperse a escuridão, dando lugar à luz!
Um feixe amplo de luz azul celeste coruscou da mão do mago e como que recortou a fumaça negra, que se dispersou imediatamente, e os presentes deslumbraram então a metamorfose consumada.
Os corpos de Cocotó e de seus comandados perderam a densidade e tomaram-se diáfanos e azulados; os olhinhos vermelhos ganharam coloração cinza-azulada:
as carinhas pontiagudas transformaram-se em rostinhos de criança e sob a testa de cada um cintilava uma chama.
Dois espíritos da natureza, de ordem superior, pairavam sobre a multidão nevoenta para orientá-la daí em diante.
Lágrimas rolaram das faces de Mery; ela sabia que seus ex-servos não mais praticariam o mal e começariam sua ascensão a Deus, sempre fazendo o bem e coisas úteis.
Feito uma revoada de borboletas, eles cercaram sua ex-senhora; Cocotó apertou-se reconhecido com sua cabecinha transparente contra a face dela.
Neste instante o mago escancarou a janela.
Uma luz prateada inundou a sala e sentiu-se um suave e vivificante aroma; ao mesmo tempo, ouviu-se um poderoso e solene canto.
Como que agarrados por ondas harmónicas, os seres transparentes alçaram-se na escuridão da noite junto com seus mentores.
Trémula de alegria e gratidão, Mery voltou-se para o mago.
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Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 26, 2016 8:57 pm

— Oh, como o senhor é bom!
Como é generoso!
O mago balançou a cabeça em tom de censura.
— Não, minha filha, sou apenas um humilde servidor do Todo-Poderoso.
Generoso de facto só é Deus, inefável em Sua infinita sabedoria e misericórdia.
É Ele que propicia a redenção de toda criatura Sua, por mais baixo que ela tenha decaído, abrindo o caminho para Si...
Bem, vamos cuidar de Pratissuria!
Realizaram-se então novos preparativos sob a orientação do mago.
Braseiros foram dispostos com galhos resinosos em volta de uma esteira.
Sobre a mesa colocada diante dos braseiros em círculo, Vedjaga Singa deitou sua espada mágica e uma almofada de pele de tigre, sobre a qual colocou o colar com o coração da bailadeira, que decorava a estátua da deusa Káli.
O mago mandou então que trouxessem o tigre e, dirigindo-se ao príncipe e a Mery, completou:
— Vocês, meus amigos, serão encerrados num círculo de protecção que não atrapalhará, entretanto, que assistam a tudo.
Eu instarei por Vairami; é ela que está atada magicamente ao tigre e, devido a isso, o animal foi entregue ao poder das forças do mal.
Você, príncipe, também está parcialmente ligado a essa mulher, pois ela lhe deu seu sangue para beber.
Sua vida austera, juntamente com a iniciação recebida, protegeram-no dos ataques da Fúria que anseia por matá-lo, mas está na hora de pôr um fim nisso tudo.
Com as palavras do mago, o príncipe empalideceu intensamente e pôs-se a tremer todo.
— É verdade!
Eu percebi muitas vezes a presença dessa mulher, senti seu aroma e até fui tocado por ela.
Certas ocasiões, à noite, eu a vi turbilhonando junto à minha cama numa dança lasciva, agitando seu terrível cordão vermelho.
Assim que eu pronunciava a devida fórmula, ela desaparecia; em seus olhos porém havia tanto ódio que, devo confessar, me deixava com medo.
— Você ainda não estava bastante forte para não temê-la.
Basta uma fraqueza momentânea e você pode se tornar uma presa desse monstro; mas eu romperei o elo que o prende a ela.
Nisso Kovindassami trouxe o tigre e retirou-se.
Após encerrar Mery e o príncipe com Zatórsky num círculo mágico, o mago postou-se diante da mesinha, ordenando que o tigre deitasse aos seus pés.
Este, ainda que tivesse obedecido, revelava certa inquietação, fustigava o chão com o rabo e por vezes rugia.
Tirando do peito o bastão de sete nós, o mago começou a girá-lo acima da cabeça e, logo, na sua ponta, ardeu uma chama que se destacou e acendeu os braseiros.
À medida que se elevavam as densas colunas de fumaça, um fenómeno estranho operou-se no coração petrificado: sacudindo-se sobre a almofada, dele desprendeu-se no início um vapor avermelhado que, depois, começou a espargir gotículas de sangue.
Nisso, sobre a esteira assomou-se uma nuvem enegrecida, salpicada de ziguezagues ígneos; após, a fumaça escura explodiu com estrondo funesto e no centro do círculo ígneo apareceu a bailadeira em todo o esplendor de sua beleza sedutora.
O seu corpo brônzeo-moreno, de talhe ideal, era apenas toldado por uma massa de cabelos negros feito alcatrão, que quase caíam até o chão.
Em seu quadril esquerdo, entrevia-se um corte comprido e desse ferimento saía lentamente um sangue denso e escuro.
As belas mãozinhas fechadas estavam estendidas para a frente, sacudindo ameaçadoras um cordão vermelho, enquanto os enormes olhos negros, ora flamejando, ora extinguindo-se, vagavam entre o príncipe e Pratissuria com indescritível expressão de sofrimento, fúria e desespero.
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Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 26, 2016 8:57 pm

O tigre esboçou um movimento para se levantar, mas, depois, arrepiou o pêlo e retrocedeu, rugindo sinistramente.
Vedjaga Singa ergueu a mão e então foi possível ver como do coração petrificado se desenrolou para cima uma tira fosforescente, que se dividiu em duas e, com uma ponta, cingiu o pescoço do tigre, que se quedou com gemido; a outra ponta quase agarrou o príncipe, resvalando em seu pescoço.
Do ferimento da bailadeira cintilaram fios ígneos grossos que tocaram instantaneamente as duas tiras, unindo-se a elas.
O príncipe soltou um grito rouco, empalideceu cadavericamente e arremessou o corpo para trás.
Neste instante a lâmina da espada mágica inflamou-se na mão do mago e fulgiu com estrondo no ar, dessecando os fios, que se enrolaram com silvos e desapareceram.
Vedjaga Singa pegou da almofada o coração, que parecia fresco como se acabassem de tirá-lo do corpo, e jogou-o para a bailadeira; imediatamente o órgão ensanguentado sumiu no ferimento aberto, que se fechou e, onde deveria estar a cicatriz, surgiu um triângulo fosforescente, como que selando o ferimento.
O espírito densificado estava terrível.
Seu corpo flexível contorceu-se e cobriu-se de manchas escuras; as mãos assumiram aspecto de garras; o rosto transfigurado pela convulsão e os olhos injectados de sangue respiravam ódio diabólico; uma espuma sanguinolenta cobriu os lábios abertos.
— Você recebeu de volta seu coração, espírito perverso, e agora desapareça; retorne ao local de seus crimes e não ouse abandoná-lo, nem aproximar-se desses dois seres por mim libertados — ordenou o mago, desenhando no ar um sinal cabalístico que se inflamou e irisou-se em todas as cores do arco-íris, extinguindo-se em seguida.
O corpo da bailadeira toldou-se de fumaça escura e logo desapareceu; o fogo no braseiro apagou.
Depois que Kovindassami tirou os objectos mágicos usados, Vedjaga Singa virou-se para os amigos e disse:
— Aleksei, tome imediatamente um banho e troque de roupa!
— Tenho roupa que servirá para ele, pois somos quase do mesmo tamanho — observou Zatórsky.
Ambos saíram da sala.
Mery, que não despregava o olhar do tigre estendido imóvel, sobressaltou-se:
— O que está havendo com Pratissuria?
Ele não está morto, está? — perguntou ela, esboçando a intenção de ir até ele.
— Não se preocupe, ele está vivo.
Devido à reacção ao golpe do fio fluídico cortado, ele encontra-se em estado de choque; o vapor que o envolve são os fluidos venenosos que antes o impregnavam.
De facto, do corpo de Pratissuria desprendiam-se colunas de gás ténue e diáfano, formando acima dele uma cúpula violeta.
Uns quinze minutos depois, ele se soergueu às sacudidelas em patas trémulas, com olhos embaçados e, ao chamado do mago, rastejou até ele e descansou a cabeça em seus joelhos.
Vedjaga Singa fez então alguns passes no animal, com o que este pareceu ter-se restabelecido; seus olhos readquiriram o brilho de antes, fitando o hindu com expressão de inteligência.
Tal qual Uriel costumava fazer com a fera, o mago começou a lhe falar no ouvido.
Sons estranhos eram aqueles:
ora sibilantes, ora guturais, porém o timbre e as entonações eram diferentes.
Após ouvi-lo atentamente, o tigre lambeu a mão do mago e foi até Mery, de quem lambeu também a face, estendendo-se a seus pés.
A jovem acarinhou a fera e beijou-a na testa.
— Você ganhou um amigo livre dos feitiços de Vairami.
Como recompensa por ter sido tão boa com uma criatura inferior, que deveria matá-la, mas não o fez graças à força poderosa da afeição, Pratissuria poderá permanecer com você como protector.
Ele jamais a abandonará; e o que lhe for invisível não o será para ele, pois mesmo de longe ele pressentirá os demónios que a atacarão em sua purificação, prevenindo-a do perigo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 26, 2016 8:58 pm

Neste ínterim Zatórsky retornou.
Vedjaga Singa chamou-o com um gesto e, pegando a mão de Mery, depositou-a na mão do doutor.
— Eu revalido, meus amigos, o seu noivado, mas vocês só poderão se casar depois que Mery se purificar e ficar livre da maldição lançada.
Coragem, minha filha:
seu noivo vale este sacrifício.
Ele provou seu amor, orando incansável e ardentemente diante de sua imagem, e é a ele que você deve sua salvação.
Emocionada, Mery atirou-se nos braços do noivo e agradeceu pela profunda devoção.
Todos foram à sala onde estava o príncipe.
Feliz pelos amigos, este os cumprimentou efusivamente.
A conversa fluiu alegre e ficou decidido que já no dia seguinte eles pediriam ao barão, por intermédio do príncipe, para acolher Mery por alguns dias em sua casa, enquanto ela arrumava seus assuntos particulares.
Na casa de Van der Holm, ela não podia nem queria pôr os pés.
O príncipe encarregou-se de avisar o barão do noivado de Ravana Veda.
O doutor, que os ouvia pensativo, virou-se para o mago e questionou-o da possibilidade de revelar ao barão a sua verdadeira identidade, que, naturalmente, este manteria em sigilo.
— Eu gostaria que ele parasse de sofrer de remorsos, culpando-se pela minha morte.
Aliás, ele já sofreu o suficiente — argumentou Zatórsky.
Vedjaga Singa, sem hesitação, deu o seu consentimento.
No dia seguinte, Eletsky foi à casa dos Kosen e comunicou ao barão e Lili a vinda de Vedjaga Singa, o noivado de Mery e o pedido do mago em hospedar por algumas semanas a jovem discípula.
Quanto aos aspectos satânicos da história de Mery, ele revelou apenas o mais indispensável, para justificar a relutância da jovem em ficar em sua própria casa.
O barão alegrou-se pela vinda inesperada à cidade do cientista hindu, que já lhe salvara a vida, ainda que ficasse ofendido pelo facto de o mago não ter se hospedado em sua casa.
Ele quis imediatamente ir ao encontro do mago na clínica, mas, informado pelo príncipe de que Vedjaga Singa saíra a negócios, instruiu Eletsky a convidá-lo para o almoço juntamente com os noivos, acrescentando que Mery sempre seria uma visita bem-vinda a qualquer hora e que o mago poderia contar com sua hospitalidade enquanto estivesse em Petersburgo.
Lili pôs-se a ultimar os preparativos para o repasto.
Ela sentia-se feliz e lisonjeada após uma conversa reservada com o príncipe, quando este lhe confiou mais coisas do que para o pai, o que significava ser ela merecedora de sua confiança, em parte "iniciada" em ciência oculta; a consciência disso deixava-a orgulhosa.
Além do mais, ela interceptara um olhar de seu amado tão significativo, que só de lembrar dele sua alma agitava-se esperançosa.
De vestido branco, com um buquê de rosas acolchetado na cintura, Lili não via a hora de chegarem as visitas e também de conhecer Vedjaga Singa.
Finalmente o automóvel do príncipe estacionou junto ao portão e um minuto depois as visitas adentravam a sala.
Enquanto o barão recepcionava efusivamente o cientista hindu, Lili aproveitou o momento para sussurrar no ouvido de Zatórsky:
— Parabéns, tio Vadim!
Só falta uma coisa:
revelar ao papai que você está vivo.
— Concordo e acho que o farei logo — disse Zatórsky, apertando a mão de Lili, essa jovem encantadora que o reconhecera com o coração, apesar de ele ter mudado muito.
O almoço correu alegre.
Vedjaga Singa, um interlocutor brilhante, animou a todos com seus relatos espirituosos e interessantes; depois, todos levantaram um brinde à saúde dos noivos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 27, 2016 8:19 pm

Após o almoço, Zatórsky pediu ao barão para que ele lhe dispensasse alguns minutos e eles passaram ao gabinete do anfitrião.
Enquanto Vedjaga Singa entabulava uma conversa séria com Mery, Lili foi para a saleta contígua e sentou-se no sofá perto da janela.
Minutos depois, entrou o príncipe, sentou-se ao seu lado, tirou da cintura dela o buquê de rosas e o trocou por citrus frescos.
— O que está fazendo, Aleksei Adriánovitch? — surpreendeu-se ela, perturbada.
— Estou decorando a outra noiva deste dia.
Ou estou enganado, Lili, ao ler em seus olhos que meu amor é correspondido e você está disposta a se tomar minha esposa — um anjo protector do nosso lar?
Ele se curvou e fitou amoroso os olhos erguidos da jovem.
— Como posso ocultar que não desejo outra felicidade senão pertencer-lhe.
Desde a minha adolescência, o senhor arrebatou-me o coração e eu farei tudo possível para ser uma esposa digna — admitiu Lili, alegre e francamente.
Feliz e emocionado, o príncipe abraçou-a e beijou-a ardentemente nos lábios.
— Minha querida!
Estou feliz e orgulhoso de seu amor e farei tudo para merecê-la.
Trabalharemos juntos pela grande causa do amor ao nosso próximo, iluminando as almas e alçando-nos à luz.
Enquanto o príncipe e Lili se explicavam, entre o barão e Zatórsky realizava-se uma conversa séria e no mínimo estranha.
Mal ambos se viram sozinhos, Vadim Víktorovitch iniciou, sem qualquer preâmbulo:
— Eu sei que o senhor chora a morte de Zatórsky.
Mas disperse essa última nuvem do passado triste que lhe obscurece o coração.
Ele está vivo, eu é que o digo.
Eu sou Zatórsky e vim pedir seu perdão pela ingratidão e patifarias.
Ele falava em russo; sua inflexão de voz, característica e familiar, fez o barão saltar da poltrona, estremecido.
— Besteira, mentira!
Os mortos não ressuscitam...
Eu mesmo vi Zatórsky no túmulo.
— Mesmo assim, ele está diante do senhor, em pessoa.
Desta vez um morto ressuscitou; então, peço-lhe parar de se culpar pelo assassinato, ainda que eu tivesse merecido isso.
E ele relatou ao barão sucintamente como sua morte física foi evitada por Vedjaga Singa e como, graças à ciência oculta e muito trabalho, ele recuperou a alma.
Concluindo, o doutor adicionou:
— Devo dizer que eu ressuscitei somente para o senhor e Lili, e peço-lhe guardar segredo absoluto.
Zatórsky morreu para o mundo e deve ser riscado de sua relação de vivos.
Do interior do túmulo surgiu Ravana Veda — um homem novo em todos os sentidos da palavra, consciente de seus pecados, que ficará feliz se o senhor lhe perdoar o passado e não rejeitar sua amizade.
Com lágrimas nos olhos, o barão abraçou-se ao médico.
— Perdoo-lhe sinceramente os equívocos passados, por culpa da mulher devassa e perversa.
Só posso agradecer-lhe por me ter aliviado dos remorsos que me dilaceravam, conquanto o delito já tenha sido remido pelo grandioso acto, que me salvaguardou da responsabilidade penal.
Aceito sua amizade com alegria e ofereço-lhe a minha.
Quanto ao segredo, fique tranquilo: jamais o revelarei.
Após uma conversação amistosa e franca, que restabeleceu a antiga amizade dos dois, eles retornaram à sala, quando então ficaram sabendo do noivado de Lili.
Radiante e rejuvenescido por dez anos, o barão beijou os noivos, certificando o príncipe de nunca ter desejado um outro genro senão ele.
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Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 27, 2016 8:19 pm

Todos tomaram mais uma taça de champanhe; quando se dispersaram, já era tarde.
Lili ocupou-se do enxoval; Mery pôs-se a arrumar os assuntos pendentes.
O mago viajou a Londres.
Cerca de duas semanas após os últimos acontecimentos, Mery recebeu a visita de um homem que, ao se identificar como um parente longínquo de Van der Holm, apresentou-lhe documentos legais, exigindo parte de seu espólio, já que Mery não tinha filhos.
Pratissuria, perturbado com a presença do estranho, pôs-se a escavar o chão, rugindo, e teve de ser levado embora da sala por Mery, antes que acontecesse alguma desgraça.
Ela mesma sentiu desconforto sob o olhar hostil de seu interlocutor e compreendeu que ele era um membro da irmandade, que exigia a restituição de seu património.
Sem hesitar, Mery aceitou devolver os bens do falecido marido ao seu "primo", com excepção da casa — uma lembrança de sua viuvez.
Quando, mais tarde, atendendo ao pedido de Mery, o príncipe passou naquela casa, que seria reformada tal como o mago havia sugerido, notou o desaparecimento das estátuas de Satanás, bem como de todos aqueles tesouros no porão, que haviam seduzido Mery.
Umas seis semanas mais tarde, realizou-se o casamento de Lili com o príncipe, festejado num círculo estreito, e os recém-casados viajaram para a sua propriedade na Crimeia.
Resolvidos os assuntos de herança, Mery viajou com o doutor para o Tirol, onde teria de passar por duras provações, buscando sua definitiva purificação.
A pequena comunidade feminina habitava na margem do mesmo lago que podia ser visto das janelas da vila onde Zatórsky teve sua iniciação, e era dirigida por uma superiora, também "iniciada", a quem foram passadas todas as instruções quanto à nova irmã entregue a seus cuidados.
O doutor recolheu-se à morada masculina, cara pelas lembranças de sua "ressurreição", onde planeava trabalhar até que terminassem as duras provações da noiva.
Após alguns dias de descanso, a superiora anunciou a Mery que era hora de começar a purificação.
Levada à cidade vizinha, a jovem confessou-se e comungou; no dia seguinte, trocada em vestes brancas de penitência, de vela acesa na mão, ela foi conduzida pela superiora para um lugar solitário, onde passaria pela provação.
Perto da margem do lago, havia uma gruta rochosa escavada naturalmente, no fundo da qual murmurejava uma fonte cuja água caía numa piscina pétrea e esgotava-se por uma fenda.
Junto a um dos paredões, erguia-se um altar pétreo com crucifixo tendo sete círios em cima e, aos pés dele, repousava um cálice encimado por uma cruz e o Evangelho.
O ambiente era iluminado por lâmpadas de tecto; junto a um outro paredão, havia um órgão. Mery dominava bem aquele instrumento.
Na gruta anexa, encontrava-se um leito simples, dois tamboretes e um armário de madeira; aos pés da cama amontoavam-se feixes de grama para Pratissuria.
Na mesa estavam postas duas xícaras:
uma com água, outra com leite, e um pedaço de pão.
A superiora beijou a noviça e disse que uma das irmãs viria diariamente para visitá-la e trazer-lhe roupa limpa, leite, pão e comida para Pratissuria, acrescentando que Mery podia tomar banho no lago, sempre vazio, e que deveria dormir de dia.
— Não se atemorize com nada, irmã, estando sob a protecção do tigre, mas fique de vigília à noite e reze, pois os filhos do inferno atacam com a escuridão.
Toque músicas sacras e queime ládano para purificar o ar; se for assediada pelos demónios, erga contra eles o cálice, que contém hóstia consagrada.
Eles poderão assumir tanto formas humanas como de animais para alcançá-la, mas Pratissuria a avisará a tempo, pois não pode ser enganado.
Se você se sentir enfraquecida, puxe aquele cordão perto do órgão, que fará soar um sino e nós viremos em seu socorro.
No armário você encontrará roupa, velas e uma garrafa de vinho, com o qual poderá, de tempos em tempos, recuperar suas forças.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 27, 2016 8:20 pm

Bem, até mais, querida irmã!
Seja firme e suporte com coragem a iminente luta e não se esqueça de que o triunfo dependerá apenas de sua firmeza e serenidade.
— Agora que readquiri a fé e a capacidade de orar, não temo os ataques dos demónios — assegurou Mery.
De facto, tendo frequentado a seita satânica, experimentado e sentido todo o horror dos fenómenos aterrorizantes do reino das trevas, Mery se considerava munida de sangue frio e preparada para qualquer teste; assim, com certa tranquilidade, aguardava pelo confronto.
Sua fé era tão inabalável, seu arrependimento tão profundo e a esperança na misericórdia do Pai celeste tão forte, que ela não duvidava de sua libertação definitiva.
Após beijar em despedida a superiora e as irmãs que a acompanhavam, Mery se sentou em frente do órgão, tocou algumas músicas sacras, tomou uma xícara de leite e deitou-se, ordenando ao tigre protegê-la.
Já estava escurecendo, quando acordou; imediatamente começou os preparativos para passar a primeira noite sozinha.
Completando o óleo nas lâmpadas, acendeu as velas no altar, defumou a gruta com o ládano, ajoelhou-se diante do altar e, depois de ler um capítulo do Evangelho, começou a orar fervorosamente.
A alguns passos dela, estendia-se sobre a areia Pratissuria, vigilante.
Com focinho descansando nas patas, o tigre ora observava sua ama, ora esquadrinhava a gruta, aguçando os ouvidos.
Aproximava-se a meia-noite.
Subitamente o tigre levantou-se, rugindo.
Mery ficou de sobreaviso; dali a uns instantes, ouviu claramente o tropel de cavalo se aproximando.
Silenciou junto à entrada da gruta.
Uma voz familiar foi ouvida em meio a um riso de escárnio:
— Que fantasia é essa, irmã Ralda, enfiar-se nesse buraco em penitência?
Há-há-há! De qualquer forma, a gratidão não é uma virtude sua.
Você se esqueceu, sua ingrata, de como tiritava de frio pelas ruas e eu salvei toda sua família da morte por fome?
E eu, que depositava em você tantas esperanças!
Como retribuição por todas as benevolências, você desgraçou seu mestre Asrafil e matou seus benfeitores.
Saia daí!
Eu quero lhe propor um acordo vantajoso.
No vão largo da gruta, Mery avistou então o alazão resfolegante, iluminado pelo luar, de cujas narinas se desprendia uma fumaça vermelha.
O animal estava inquieto, estremecia e escavava a terra com as patas; ao seu lado postava-se o vulto alto e felinamente esguio de Van der Holm, cujos olhos brilhantes fitavam Mery maliciosamente.
Sem nada dizer, ela pegou a cruz do altar e, erguendo-a alto, pôs-se a orar.
— E então, vem ou não vem? — gritou Van der Holm em voz rouca.
Ou tenho de ir aí para acertar as contas?
O inferno está me responsabilizando por eu ter escolhido uma herdeira tão ingrata e perigosa.
Dizendo isso, ele saltou para dentro da gruta.
Simultaneamente, Pratissuria se lhe interpôs no caminho e, rugindo diante da larva materializada, aplicou-lhe um golpe com poderosa pata, jogou longe o monstro; este, esbracejando injúrias, derreteu-se no ar. Uma voz surda, trémula de fúria, ouviu-se então:
— Víbora! Você contagiou até os nossos animais!
Mas espere só!
Voltaremos mais tarde e domaremos os dois.
A partir desse dia, não havia quase uma noite que se passasse sem algum sobressalto.
Às vezes à gruta voavam pedras e outras sujidades, atiradas por mãos invisíveis; houve vezes em que exércitos de ratos atacavam o tigre, porém este os esmagava com suas patas poderosas e, quando Mery borrifava com água benta a malignidade diabólica, esta se transformava em esferas, que acabavam rolando para fora, deixando atrás de si um fedor insuportável.
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Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 27, 2016 8:20 pm

Certa vez de dia, ao retornar do banho, a gruta foi invadida por um bando de pardais; mas, prevenida por um leve rosnar do mascote, Mery neles atirou pão eucarístico e eles debandaram piando alto.
Mery suportava tais ataques com firmeza, orava fervorosamente ou tocava órgão para relaxar.
A fé em Deus e a certeza de que o Redentor aceitaria seu arrependimento nela não arrefeciam.
Certa tarde, após ter entoado um hino à Virgem e arrumado a gruta, ela ouviu gemidos estranhos lá fora.
Ao sair da gruta, topou com o corpo de um homem desacordado junto à entrada.
Apiedada, quis acudi-lo, porém Pratissuria soltou um rugido e puxou-a com os dentes pelo vestido.
Voltando rapidamente para a gruta, encheu uma xícara com água benta, adicionou algumas gotas de ládano dissolvido em álcool, dado por Vedjaga Singa, e verteu a solução sobre o homem inerte.
No mesmo instante, ouviu-se um tiro de espingarda, o corpo do estranho começou a se contorcer em convulsões, virou-se de costas e ficou imóvel com os braços estendidos.
De sua boca escancarada saiu voejando uma esfera negra com rabo e olhos vermelhos, que, silvando, desapareceu nos arbustos.
O corpo diante de Mery começou a se decompor rapidamente.
Seu susto foi tal que ela tocou o sino.
Ao chamado ocorreram algumas irmãs, explicando-lhe que o cadáver era de um andarilho que se enforcara na floresta e fora enterrado duas semanas antes.
Depois desse ataque, tudo se acalmou aparentemente e alguns dias passaram sem qualquer manifestação por parte dos demónios.
Quando Mery expôs à superiora sua convicção de que as forças do mal talvez, ao sentirem sua firmeza, tivessem desistido das perseguições, essa, sorrindo, respondeu-lhe que aquela inactividade era um prenúncio de uma grande tempestade.
Certa manhã, Mery foi chamada pela superiora.
— Tenho razões para crer que hoje à noite, se não amanhã ou depois, você terá de enfrentar um ataque violento não só por parte dos demónios, mas também dos vivos, seus antigos co-irmãos.
Notando a inquietação de Mery, a superiora acrescentou:
— Você deverá se armar de muita coragem para este — que eu considero — último ataque, já que o exército satânico está mobilizando todas as suas forças.
— Terei forças suficientes?
Não cairei vítima dos monstros vingativos? — balbuciou Mery, com olhos húmidos.
— Não perca confiança em si!
Além disso, seus amigos a protegem e lhe enviam armas para a defesa. Olhe!
Ela abriu um longo estojo que estava na mesa e dele tirou uma estranha espada.
Sua empunhadeira possuía forma de cruz, e a lâmina, com sinais cabalísticos gravados, tinha uma estrela na ponta.
— Em caso de ataque, recoste-se no altar e lute com esta arma; mas cuidado:
não saia em nenhuma hipótese da gruta, senão estará perdida.
Ao escurecer, recite as fórmulas que estão neste pergaminho e desenhe com a espada três círculos em volta do tigre, pois eles tentarão matá-lo.
De pensar indignada que os seres malignos pudessem fazer mal a Pratissuria, a quem se afeiçoara e que dela não se afastava por nada, Mery encheu-se de nova coragem.
Ela perguntou então à superiora se havia alguma irmã corajosa que pudesse ficar com ela na gruta para manter a defumação e tocar o órgão, caso isso viesse a ser necessário.
Uma jovem, conhecida na comunidade pela vida austera, fé ardente e energia, anunciou que acompanharia Mery para ajudá-la a enfrentar os demónios encarnados e desencarnados.
Mery agradeceu à voluntária e as duas, junto com Pratissuria, dirigiram-se à gruta.
Já ao se aproximarem, o tigre começou a revelar sinais de inquietação:
ele rugia, fustigava as ancas com o rabo e rangia os dentes; por vezes, parecia socar com as patas algo invisível.
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Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 27, 2016 8:20 pm

Mery e sua companheira concluíram que o ataque seria naquela noite e puseram-se a ultimar os preparativos.
Elas instalaram o braseiro, encheram-no de ervas aromáticas e galhos resinosos.
Enquanto a irmã Eleonora defumava o ambiente com ládano, Mery ocupou-se de Pratissuria, que andava agitado pela gruta, cheirando o ar e rugindo.
Uma vez até soltou um urro tão forte, que a terra tremeu, assustando a irmã Eleonora.
Mery deu-lhe um pedaço de pão embebido em vinho doce — muito apreciado por ele; depois de pronunciar as fórmulas e encerrá-lo no círculo mágico, o tigre tranquilizou-se por completo, indo deitar-se aos pés do altar.
Apenas pelo brilho fosfórico de seus olhos e estremecimentos de suas orelhas sabia-se que a fera não dormia, mas estava vigilante.
Bateu meia-noite e nos paredões da gruta ouviram-se estalidos; rajadas de vento invadiram a gruta, ameaçando apagar as chamas no braseiro e as velas nos candelabros.
Mery galgou os degraus do altar, recostou-se nele e, empunhando a espada, pôs-se de guarda, observando os braseiros.
Desencadeava-se uma tempestade.
O vento assobiava, vergando as árvores; ao longe ouviam-se trovoadas e os relâmpagos cintilantes iluminavam os arredores e o interior da gruta com luz funestamente esbranquiçada.
Subitamente dos cantos dos paredões e da terra começaram a surgir esferas multicolores, espalhando odor de cadáveres putrefactos, sufocando e tonteando Mery e Eleonora.
Enormes ratazanas, morcegos e outros bichos nojentos surgiram então, lançando-se contra Mery, tentando derrubá-la, ou contra Pratissuria que, de pêlo eriçado, defendia-se com dentes e garras.
Mery lutava valorosamente e sua espada operava grandes devastações entre as hordas dos atacantes:
tão logo a lâmina atingia algum ser diabólico, este se contraía e derretia no ar, exalando cheiro insuportável.
A luta estava no auge, quando por entre as trovoadas e urros da tempestade se ouviu o tropel e o relincho de cavalos e o som de uma corneta de caça.
Mery compreendeu que os "caçadores do inferno" vinham em auxílio dos monstros do além, uma vez que os vivos representavam forças mais reais.
Uma oração fervorosa elevou-se do coração de Mery para o Pai Celeste, suplicando-lhe ajuda e protecção.
Tudo o que sobreveio depois se preservou na memória de Mery como um terrível pesadelo.
Na entrada da gruta avultou-se um grupo de umas dez pessoas em negras malhas felpudas e chapéus com chifres, liderados por enorme bode preto de olhos fosforescentes.
"É Asrafil", pensou Mery.
Reunindo toda a coragem, ela apertou forte a espada mágica e, quando o bode-diabo curvando os chifres se arremessou contra ela e já estava no primeiro degrau do altar, Mery cravou-lhe no peito a espada.
O monstro soltou um urro, retrocedeu e desapareceu num dos cantos escuros.
Ao tempo em que o bode se lançava sobre Mery, seus subordinados arremessaram no tigre uma chuva de flechas ígneas e tiros de pistola.
Mas, devido ao barulho da tempestade, trovoadas, tiros e urros da fera, os satanistas não notavam que os projécteis lançados ricocheteavam no animal protegido por muro invisível, e caíam ao seu lado.
Não obstante, Pratissuria como que retesado para dar um bote, ficou imóvel nessa posição; de súbito sua cabeça pendeu, atingida por um golpe.
Após rechaçar o ataque do bode, Mery sentiu uma forte fraqueza e cerrou os olhos; seus pensamentos estavam embaralhados e ela repetia maquinalmente:
"Jesus, salve-me! Salve-me!"
Aproveitando seu momento de fraqueza, os atacantes largaram o tigre e lançaram-se sobre Mery; tiraram-na do altar e começaram a arrastá-la para a saída.
— Espere só para ver, sua traidora, que torturas nós lhe preparamos! — vociferou um dos satanistas, tentando arrancar a espada da mão de Mery, agarrada convulsivamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 27, 2016 8:20 pm

— E você, idiota, não se meta onde não é chamada! — gritou um outro, derrubando com um chute o braseiro, que caiu sobre Eleonora.
Sem largar a espada, Mery foi sendo arrastada em direcção à saída e já estava a alguns passos dela, quando subitamente um terrificante urro fez estremecer os paredões:
era Pratissuria que se recobrou de seu torpor momentâneo.
De um salto, ele se viu junto ao bando que levava sua ama e cravou as presas na nuca de um dos satanistas, soltando-o quando esse já estava morto.
Instalou-se um verdadeiro pânico.
Aquele que segurava Mery finalmente a soltou e quis fazer uso do estilete, mas o tigre derrubou-o no chão e o despedaçou instantaneamente.
Os satanistas puseram-se em debandada; um deles ainda foi alcançado pelo tigre e, não fosse o animal chamado de volta por Mery, temerosa que ele ultrapassasse os limites da gruta, o infeliz seria dilacerado.
Entretanto, o tropel das patas desenfreadas e os gritos ensandecidos anunciaram que os vencidos abandonavam o campo de batalha.
Ainda tremendo, Mery correu para junto de Eleonora para apagar as chamas em seu vestido.
Todos esses acontecimentos, longos para serem descritos, duraram poucos minutos; quando o primeiro nervosismo amainou, Mery e sua ajudante prostraram-se de joelhos e, em meio à oração ardente, agradeceram a Deus por terem escapado.
Já estava clareando, quando ambas, já refeitas, foram examinar as baixas sofridas pelos satanistas.
Pratissuria, estendido no chão, lambia as patas, ronronando satisfeito.
O primeiro corpo era impossível de ser reconhecido, de tão mutilado que estava seu rosto; outros dois eram ainda jovens.
Um deles Mery reconheceu:
era um membro da irmandade que ela viu em Paris; o outro ela não conhecia.
Enojadas pelo fedor insuportável dos cadáveres, decidiram voltar ao abrigo.
Nisso, como já estava bem claro, Mery notou abismada que os cabelos negros da irmã Eleonora haviam embranquecido.
No abrigo, foram recebidas com cumprimentos extasiados, sendo elogiadas por terem rechaçado corajosamente aquele ataque furioso.
A superiora declarou a Mery que esta não precisava mais voltar à gruta e que deveria terminar a purificação com estudos e preces.
Mery ficou feliz com a notícia de poder viver entre as bondosas irmãs evoluídas, que a cercavam de cuidados meigos.
Em meio à paz, consagrando o tempo às orações, reflexões e estudos, aos poucos adquiriu equilíbrio espiritual e saúde física, abalada pelos últimos acontecimentos.
De Lili, com quem ela se correspondia, soube que a casa de Van der Holm fora transformada num asilo para velhinhos e deficientes físicos.
Assim se passaram três meses e, certa manhã, a superiora anunciou a Mery que na recepção por ela aguardava um homem.
Intrigada, correu até lá e encontrou seu noivo, que a beijou e disse:
— Você trabalhou com tanta coragem, que os mentores decidiram abreviar seu tempo de provação e a consideram suficientemente forte para o último ato de sua purificação:
a libertação de Edmond.
Ao notar o palor de Mery, ele acrescentou:
— Não tenha medo!
Vedjaga Singa ainda está em Londres; iremos até lá e lhe pediremos ajuda.
Quero também saber com ele se eu posso acompanhá-la a Komnor Castle, para você não ficar sozinha.
Mery agradeceu efusivamente ao noivo pela preocupação com ela.
O encontro iminente com o terrível proprietário de Komnor Castle a apavorava.
Teria ela sucesso em apaziguar o terrível vingador?
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Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 27, 2016 8:20 pm

Conseguiria ele, através do perdão e arrependimento, destruir o monstro gerado no momento fatídico de seu tresloucado desespero, alimentado por séculos com ódio e sede de vingança?...
No dia seguinte, Mery se despediu das irmãs e deixou o abrigo juntamente com o fiel Pratissuria que, por sua docilidade, granjeou a disposição das habitantes da comunidade.
Desde que foi purificado pelo mago, o animal, aparentemente ameaçador, esquecera seus instintos de predador, e só a presença de algum ser satânico, visível ou invisível, desencadeava sua fúria.
Vedjaga Singa recebeu Mery e Zatórsky com a costumeira alegria e sugeriu à jovem passar alguns dias em Londres para descansar e traçar um plano de acção de sua empreitada.
— Você parece apreensiva, quando deveria estar feliz por ter triunfado sobre os demónios.
O que a oprime?
Talvez eu possa ajudar? — perguntou o mago.
— Estou preocupada com minha viagem a Komnor Castle — disse Mery, corando intensamente.
Eu vivo me perguntando como cumprirei o ritual prescrito numa casa cheia de satanistas, onde eles são donos do castelo e cujos empregados são membros da comunidade satânica.
Se eles não me matarem antes, farão tudo para impedir o planeado.
Um sorriso franziu os lábios do hindu.
— Tivesse me confiado seus receios antes, eu teria lhe dito que Komnor Castle passou para um novo proprietário; o baronete, seu antigo dono, morreu misteriosamente durante uma viagem.
Era um homem bizarro, vivia viajando sempre sozinho, sem dizer para onde ia.
Dizem que ele foi assaltado e depois morto, pois seus objectos pessoais foram encontrados ensanguentados junto ao corpo mutilado.
— Mestre!
Não era Uriel? — exclamou Mery.
— É possível, mas não tem importância.
Resumindo: o novo proprietário de Komnor Castle agora é um menino de dez anos, cuja tutora, a mãe, é uma mulher respeitada e religiosa, ligada à nossa irmandade.
Os satanistas abandonaram o castelo e os poucos empregados ali são pessoas confiáveis.
Assim, você poderá ficar lá o tempo que quiser, sem medo.
Aproveitando uma pausa na conversa, Vadim Víktorovitch perguntou ao mago se podia acompanhar Mery.
— Eu ia lhe dizer, meu amigo, que você, por ser um dos principais personagens do drama, não só pode como deve acompanhá-la.
Walter, mais do que Antónia, deverá conseguir o perdão de Edmond — explicou Vedjaga Singa para o doutor perplexo.
— Deus misericordioso!
Então fui eu que matei o pobre duque!
Agora entendo por que preciso ir a Komnor Castle.
Mas serei perdoado por ele?
Mery me contou toda a história e agora eu sei por que o relato me impressionou tanto.
— Que pena que Vadim não leu o diário — observou Mery.
— Ele deverá fazê-lo para que o ex-Walter possa ter total consciência de seu passado.
Vocês poderão ficar com o escrínio e seus objectos, bem como com outros objectos guardados em lugar secreto, que pertenceram a Antónia.
Este é o presente de casamento da proprietária do castelo, que quer devolver essas lembranças à sua legítima dona — observou o mago, sorrindo.
Após descansar por alguns dias e tendo recebido as devidas instruções, Mery e seu noivo dirigiram-se a Komnor Castle.
Quando o coche adentrava a alameda que dava ao velho castelo, Mery foi dominada por uma sensação angustiante, esperando que de um minuto para outro aparecesse o murzelo com seu cavaleiro funesto.
Mas isso não aconteceu; tudo parecia tranquilo.
Alguns empregados afáveis, de meia-idade, receberam os viajantes e os acompanharam aos aposentos preparados.
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Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 27, 2016 8:21 pm

Com coração palpitante, Mery entrou no quarto que ocupara em sua primeira vinda.
O maior medo infundia-lhe o velho oratório, transformado em templo satânico; não obstante, ela resolveu verificar o seu interior e arrancar de lá a estátua asquerosa do demónio.
Qual não foi sua satisfação ao ver que o oratório fora reconstituído à sua função original.
O nicho abrigava uma estátua da Virgem Santíssima, que parecia fitar Mery com expressão de bondade infinita; no facistol, em frente, jazia um crucifixo.
Mais tarde, Mery pediu que lhe indicassem a localização da câmara funerária, para onde ela se dirigiu em companhia do doutor.
Entre outros, eles acharam o túmulo do pseudo Edmond; ao lado havia um pequeno caixão, de que falara Vedjaga Singa, destinado para os ossos do duque.
Eles oraram demoradamente diante dos restos de sua segunda vítima e, ao saírem, pegaram o caixãozinho.
No dia seguinte, Mery e Zatórsky foram até a fenda rochosa e prepararam-se para nela descer com todos os objectos necessários e com o caixãozinho, em cujas paredes internas foram gravados sinais cabalísticos.
Com a chegada da noite, após elevarem orações fervorosas, eles colocaram vestes alvas de penitência e foram ao local de seu crime.
O fundo do abismo parecia estar iluminado por uma luz sanguínea horripilante.
Consciente do perigo de revelar qualquer fraqueza, ela dominou valorosamente o nervosismo e pediu que Zatórsky baixasse primeiro os pacotes.
Após benzer a fenda e recitar as fórmulas, ensinadas pelo mago, Vadim Víktorovitch baixou os objectos e depois desceu com Mery.
Eles se viram então diante da gruta, onde o agonizante Edmond passara por tantos suplícios; era de lá que irradiava a luz purpúrea.
Ao adentrarem o interior, os dois estacaram pasmos:
dos fundos, fitava-os com olhar ameaçador o monstro do inferno, materializado pela maldição, pronto a defender os restos de seu criador, tal qual seu sustentáculo.
Soltando, aos assobios, colunas de fumaça fétida e negra, a criatura asquerosa armou o bote, mas nisso Zatórsky tirou a cruz do peito e, erguendo-a sobre a cabeça, pronunciou tonitruante:
— Fora daqui, criatura das excrescências do mal!
Feneça diante do símbolo eterno da Redenção!
Em nome Daquele que perdoou, crucificado, aos seus inimigos e orou por Seus carrascos, em nome de Deus nosso Jesus Cristo, ordeno-lhe que desapareça e nos entregue esses ossos, para que sejam enterrados de modo cristão.
O monstro estremeceu, enrodilhou-se todo, toldou-se de nuvem enegrecida, reverberando em riscos ígneos, e desapareceu.
A luz púrpura imediatamente se extinguiu, porém os sons de estalidos surdos e os risos longínquos de escárnio apontavam que a criatura do inferno ainda ali estava.
Mery e seu acompanhante desembrulharam as tochas, acenderam-nas e as fixaram nas fendas da gruta; à luz trémula, eles avistaram um esqueleto esbranquiçado, parcialmente coberto por musgo.
Zatórsky estendeu no chão um brocado branco com cruz bordada a ouro no centro e, trémulo, aproximou-se dos restos da vítima.
Notou então que a mão crispada do esqueleto, na região do coração, segurava um estilete curto de cabo cinzelado.
No que antes era um dedo, via-se a aliança de Antónia; por entre os ossos jazia também um medalhão enegrecido e, de lado, duas esporas.
Com as mãos levemente trémulas, Zatórsky começou a juntar e arrumar os ossos sobre o brocado.
Depois desembrulhou uma pequena mesa de armar, cobriu-a com toalha com flores bordadas a ouro, deitou sobre ela o crucifixo, o Evangelho, o candelabro de sete velas, o aspersório e uma enorme taça com a água benta.
Após aspergir cruciforme os paredões da gruta, mergulhou o crânio por três vezes na água e colocou-o sobre um triângulo metálico na mesa; em seguida, embrulhou os ossos no brocado e pôs o embrulho embaixo do altar.
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Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 27, 2016 8:21 pm

Tirando do escrínio cinzelado um pequeno cálice encimado por cruz, ele o colocou sobre o altar.
Feito isso, ajoelhou-se ao lado de Mery, a recitar orações de últimos sacramentos.
Com fé inabalável e devoção ardente, eles suplicaram para que a vítima perdoasse Walter e Antónia, pedindo a Deus abrandar-lhe o coração, sugerir-lhe a força e o desejo de aniquilar voluntariamente o monstro por ele gerado.
De súbito, a criatura infernal ressurgiu no lugar de antes, silvando e contorcendo-se como que em estertores, com olhar chispando de ódio.
Zatórsky ergueu-se e, elevando o cálice sobre a cabeça, instou em voz alta:
— Edmond, duque de Mervin, senhor de Komnor Castle!
Convoco-o e ordeno-lhe que aqui apareça, no local de sua morte, para que possa finalmente libertar-se do invólucro larvário que carrega, e tornar-se novamente um espírito livre capaz de alçar-se à luz.
Ouviu-se um silvo brusco e penetrante e à gruta irrompeu uma rajada de vento glacial.
Na entrada da gruta, avultaram-se de súbito seres asquerosos, verdadeiras criaturas, tolhendo o caminho ao espírito de Edmond, entre eles surgido.
O sinistro proprietário de Komnor Castle, assustado e exausto, tentava chegar ao local de seu suplício, mas os espectros trevosos assediavam-no, tentando puxá-lo de volta.
— Edmond, Edmond!
Ore e peça auxílio a Deus! — gritou Mery, em desespero.
Mas já por muitos séculos Edmond só conhecia ódio, maldição e sede de vingança; ele não sabia mais orar e sua alma havia perdido a capacidade de se elevar ao Céu, clamando por ajuda.
Inutilmente ele se debatia entre o furacão de silvos e rajadas glaciais; no fundo da gruta, o monstro da vingança materializada parecia recuperar as forças.
Ele se insuflava, crescia e erguia-se ameaçadoramente, preparando-se para se lançar sobre os insolentes que ousavam desafiar seus poderes, tentando arrebatar-lhe o criador e, também, o escravo.
Mery e Zatórsky sentiam-se fraquejando; suas cabeças estavam zonzas.
Parecia-lhes que o exército das trevas estava prestes a triunfar, arrebatando Edmond e aniquilando os audaciosos, demasiadamente fracos para lhes opor resistência.
Porém, neste instante, um raio rasgou a escuridão, e uma esfera luminosa desceu vertiginosamente das alturas, tomando o aspecto de um homem de branco, cuja cabeça estava envolta em feixes radiosos.
Na mão erguida, ele empunhava uma cruz iridescente.
— Feneçam, criaturas do inferno!
Fora daqui, servidores das trevas, e não ousem impedir o caminho da alma arrependida em busca da luz!
Em nome de Cristo, eu os expulso.
Desapareçam nos abismos que os geraram e lhes dão abrigo — pronunciou uma voz autoritária.
Em meio a urros e gemidos ensandecidos, as massas negras dos entes demoníacos, calcinados por luz radiosa da cruz, foram derretendo no ar e, finalmente, sumiram como que dispersas por vento tempestuoso.
Ficou apenas Edmond, um espírito desditoso onerado por corpo larvário denso e pesado, tornado um anfíbio entre os mundos visível e invisível.
Pálido e exausto, ele recostou-se na parede.
O mago então ergueu a cruz reluzente em sua direcção.
— Espírito criminoso e vingativo, arranque de seu coração a serpente da vingança que o suga por séculos; arrependa-se, perdoe e acalente-se no triunfo sobre si mesmo.
O caminho à libertação está livre.
O vulto límpido empalideceu e sumiu de vista, deixando atrás de si um aroma suave e vivífico; ouviram-se vibrações harmónicas de um canto longínquo, que foram tranquilizando o espírito sofredor, perpassando e suavizando cada fibra de seu corpo astral atormentado.
Visivelmente perturbado e tremendo nos pés, Edmond foi como que dominado pela vontade de adentrar a gruta, local de sua agonia; finalmente, em passos lentos, ele se posicionou no círculo mágico iluminado por sete velas.
— Walter, Antónia! — murmurou ele, olhando para o casal criminoso de joelhos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 27, 2016 8:21 pm

— Edmond, perdoe-nos o crime perpetrado!
Seja misericordioso e aceite o nosso arrependimento, libertando-se e também nos libertando de sua maldição, lançada num momento de sofrimento e desespero! — exclamou Mery, estendendo súplice as mãos.
Só você é capaz de fazer isso; só você poderá acabar com o monstro num ímpeto de perdão, amor, fé e arrependimento.
Trémulo, Edmond encarou então sua criatura:
o monstro que era seu implacável carcereiro e carrasco impiedoso, a atormentá-lo e lhe sustentar a sede de vingança ou instigá-lo para novos crimes.
E ele estremeceu com a numerosidade do mal praticado, conscientizando-se pela primeira vez do poder que se espreitava na alma humana para gerar e dotar de vida um ser tão medonho, prestes a se lançar nele feito fera.
Nasceu-lhe neste minuto a sede de deleitar-se com a aniquilação do inimigo, tornado seu senhor, que o fitava desanimado como se previsse seu fim.
Edmond ergueu alto os braços e soluçando disse:
— Walter e Antónia!
Com toda a sinceridade eu os perdoo e espero que o Pai Celeste perdoe-me os pecados por sua vez.
Eu rejeito o inferno e peço aos meus assassinos que me perdoem por persegui-los com tanto ódio.
Enquanto você, monstro, incorporação de meus malefícios e ódio, não terá mais com que se alimentar e, assim, desapareça, tal qual a neve se derrete sob os raios do astro-rei.
Ordeno-lhe isso pelo sangue de Cristo e em Seu Nome sagrado.
Do crucifixo do altar cintilou uma estrela brilhante que se projectou sobre o monstro astral; da encarnação lúgubre do mal ardeu uma chama, calcinando tudo com crepitar funesto.
Edmond permanecia imóvel, porém uma estranha transformação operava-se nele:
algo imundo e negro, parecido com pele lanosa, dele se destacava, derretendo em forma de fumaça densa.
Um minuto depois, ele, uma imagem cinza nevoenta, pôs-se joelhos e persignou-se com devoção.
— Que o Céu os abençoe pela minha libertação!
Oh, se os homens cegos soubessem que felicidade bem-aventurada é perdoar! — murmurou a voz fraca como um sopro.
Feito um passarinho libertado da gaiola, o espectro alçou-se e derreteu-se na escuridão.
Chorando de alegria, Vadim Víktorovitch abraçou Mery; finalmente se consumava o último e o mais difícil acto do drama de seu passado...
Depois de elevarem uma ardorosa oração de agradecimento a Deus, eles depositaram no caixãozinho os restos de Edmond, juntaram os objectos em pacotes e deixaram o precipício.
Exaustos mas imensamente felizes, retomaram ao castelo para descansar; o dia seguinte eles passariam em Komnor Castle para enterrar os restos de Edmond.
De manhã, o caixão dele foi colocado na câmara funerária onde repousavam seus antepassados e, quando a porta de bronze foi trancada, Mery e o doutor sentiram como se seus ombros ficassem aliviados de um enorme fardo.
Pensativos, eles entraram no quarto de Antónia, e Mery, com a mão trémula, tirou da gaveta secreta os objectos ali guardados.
No escrínio estava o diário com a confissão de lady Antónia e um maço de correspondência da duquesa com Walter e o padre Silva; no fundo da gaveta, ela encontrou uma segunda caixa, onde estavam guardados os retratos dos pais de Antónia, algumas jóias e brinquedos, provavelmente recordações de sua infância.
Após examinar emocionada as lembranças do passado, Mery embrulhou-as para levar consigo; a leitura do diário ficou adiada para uma outra hora mais livre, quando teriam mais paz espiritual.
Eles não viam a hora de deixar Komnor Castle e, após um leve desjejum, partiram para Londres.
Lá, uma surpresa agradável os aguardava:
o príncipe Eletsky e sua jovem consorte foram cumprimentá-los pelo triunfo final sobre o passado lúgubre e participar da cerimónia de casamento do casal, já que nada mais os impedia.
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Re: Conde J. W. Rochester - Do Reino das Sombras / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 27, 2016 8:21 pm

À noite, num círculo íntimo de Vedjaga Singa e do casal principesco, eles discutiram seus planos do futuro.
Devido à hostilidade irreconciliável dos satanistas em relação a Mery, o mago aconselhou-os a morarem perto do local da iniciação de Mery, para que os membros da comunidade pudessem defendê-la dos eventuais ataques.
Por sua vez, a Irmandade da Luz Ascendente estava oferecendo a Zatórsky o cargo de director de uma casa de saúde, nos moldes da aberta em Petersburgo.
A irmandade tinha intenção de fundá-la nos arredores da cidade.
Vadim Víktorovitch aceitou prontamente o convite, mantendo o nome de Ravana Veda.
O casamento foi marcado para dali a uma semana.
— o senhor acha que os satanistas tentarão me atacar, apesar da derrota por eles sofrida? — perguntou Mery.
Vedjaga Singa sorriu.
— Aqui você estará em segurança e eles não se arriscarão a atacá-la, pois a retaliação seria instantânea.
O ódio deles é compreensível:
eles não só sofreram a derrota estrondosa, como perderam uma adepta em que depositavam grandes esperanças, e muitos de seus membros, entre os quais Asrafil e Uriel.
O último era muito rico, influente e erudito.
Aliás, eles estão muito enfraquecidos para empreender algo.
No dia seguinte, numa reunião com os dirigentes da irmandade, Vedjaga Singa entregou a Zatórsky uma importância em dinheiro, que correspondia ao património do doutor "falecido".
Depois do almoço, o mago levou os amigos para ver o hospital para os "incuráveis", que seria dirigido pelo médico.
Perto dessa clínica havia um lindo sobrado, envolto em jardim frondoso, guarnecido com todo o conforto.
Qual não foi a surpresa e a alegria de Mery, quando Vedjaga Singa anunciou que o imóvel era seu presente de casamento.
O casamento foi festejado num círculo íntimo, seguido de almoço em companhia dos membros da irmandade.
Ao se verem a sós em sua nova residência, Zatórsky abriu a janela da sala de estar e, debruçados no parapeito, continuaram a conversar.
Era uma noite tépida e tranquila; a lua cheia inundava a terra com luar lustroso e intrigante; sobre as janelas perfilavam-se floreiras aromáticas e adiante pretejava a densa folhagem do jardim.
O jovem casal relembrava o passado e os estranhos acontecimentos na vida, que desencadearam a descoberta de tantos mistérios assombrosos do mundo do além, cuja existência é negada por homens cegos.
— Oh, como sou agradecida a Deus por Ele ter concedido a paz à minha alma — esse bem valioso ao qual se dá tão pouca importância em meio à hostilidade, inveja e vícios que assolam a sociedade — observou Mery.
— Sim, a felicidade está tão próxima, mas as pessoas não a notam, achando que ela está distante; procuram-na por toda a parte, porém raramente a encontram.
Neste instante, Pratissuria, que roncava tranquilamente a poucos passos deles, soergueu-se e, resmungando docilmente, deitou as patas no parapeito da janela.
Mery afagou a cabeça do animal, um pouco alarmada com seu inesperado despertar, receando que ele tivesse farejado a aproximação de algum inimigo.
Subitamente ela soltou um ai de surpresa e apontou para uma nuvem de criaturas aladas, minúsculas e cinzentas, que voejavam em direcção à janela.
Uma delas, maior e mais nítida que as outras, pairou perto de Mery e esta sentiu na face o contacto como que de um gás sedoso.
— Meu querido Cocotó, você veio cumprimentar-nos! — exclamou ela alegremente.
Meu Deus, como estou feliz que meus antigos servos se encontram agora no caminho límpido da evolução e, como eu, desfizeram-se dos laços do Reino das Trevas...

(1) Mitologia grega — Rainha da Frigia, transformada por Zeus numa estátua chorosa. (N.T.)
(2) Demónio masculino que, segundo crença popular, vem copular à noite com uma mulher, perturbando-lhe o sono e causando pesadelos. (N.T.)

Sorrento, 10 de outubro de 1913.

Leia os dois primeiros romances desta trilogia: "O Terrífico Fantasma" e "No Castelo da Escócia"

§.§.§- O-canto-da-ave
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