Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 28, 2016 7:51 pm

Narrativas Ocultas
Wera Ivanovna Krijanovskaia

CONDE J. W. ROCHESTER

A Morte e a Vida
A Noiva do Amenti
A Urna
O Amor
O Cavaleiro de Ferro
Satã e o Génio
Em Moscovo

O Conto Em Moscovo não pertence originalmente ao livro tendo sido acrescentado pelo editor da versão em português.

Existe no mundo dois mundos: aquele que a gente vê e o invisível.
Um é tão real quanto o outro, ainda que não tenha aceitação sob a faculdade de apreciação dos sentidos - a inteligência.
Eu deploro, sem os condenar, àqueles que não crêem no mundo invisível.
(Alphonse de Lamartine 1790 - 1869)
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 28, 2016 7:51 pm

A MORTE E A VIDA

Na praia, junto ao mar, se elevava uma elegante vivenda cercada de um grande jardim; as colunas brancas sustentavam os balcões e uma larga escada de mármore conduzia a um vasto terraço ornado de flores e de arbustos raros em vasos japoneses,
A vista do alto do terraço era linda; dum lado, por uma larga clareira, via-se o mar, tão azul quanto calmo, tão cinza quanto ameaçador, eriçado de vagas espumosas; do outro, o olhar se estendia sobre a espessa verdura do jardim, longas alas sombrias, enormes canteiros de flores multicoloridas e fontes que jorravam nas bacias de alabastro.
Na hora em que o sol se deita, toda natureza parece repousar e as flores exalam seus mais suaves perfumes.
A essa hora, sobre o terraço estava sentada uma Irmã de Caridade, no severo costume da Ordem, tricotando um longo xale de lã.
Ao seu lado, numa poltrona com rodinhas, prostrada, descansava em almofadas bordadas uma menina de doze anos presumíveis:
o penhoar de cambraia guarnecido de rendas mal dissimulava sua magreza; as mãozinhas diáfanas repousavam sobre a coberta de seda azul que também cobria seus pés; os longos cílios projectavam sombra sobre suas faces cavadas e pálidas.
Ela parecia dormir e a Irmã fixava às vezes com piedade e pesar o doce rosto da menina, cercado como uma auréola pelos cachos de seus espessos cabelos louros.
Dali um pouco um passo leve se aproximou, um homem vestido de preto apareceu no terraço; era ainda jovem, se bem que seus cabelos e barba já se encaneciam; seus olhos reflectiam grande bondade e profunda melancolia.
— Então, minha Irmã, como vai nossa doentinha? - perguntou ele em voz baixa.
— Está dormindo, Sr. Doutor; não tenho constatado nenhuma melhora em seu estado, - respondeu a Irmã de Caridade.
O médico se inclinou, examinou a criança e se endireitou com um profundo suspiro.
— Será verdade que toda esperança está perdida?
Que golpe terrível a seus pobres pais! - Murmurou à religiosa.
— Ai, minha Irmã, tudo está acabado.
O mais triste em nossa ciência cega é ver o mal sem poder frequentemente lhe descobrir a causa.
Veja esta criança!
Está se consumindo em nossas mãos como uma cera ao sol.
Por quê? Seus pulmões estão sadios, seu corpo bem constituído, e ainda assim a vida escapa por uma fissura invisível e nem sabemos por onde a vida se vai...
Daria um ano de minha vida para salvar Violeta; ela está cercada de luxo, de amor, o que torna mais dura sua perda.
Como exprimir minha amargura e minha dor quando eu velo junto ao leito de agonia de um pai ou uma mãe que são arrimos de uma família!
De sua existência dependem os filhos pequenos que, jogados no caminho da vida, sem pão nem tecto, podem se tornar vagabundos ou criminosos?!
— É verdade, doutor, Violeta será um anjo a mais; mas quanto tempo crê ela viverá ainda?
E seu fim, será doloroso?
— Acho que não; ela se extingue como uma lâmpada que precisa de óleo.
Provavelmente, em alguns dias, dormirá para não mais acordar.
Voltarei esta noite ou amanhã cedo; não posso me decidir a dizer a verdade à mãe, mas devo preveni-la e ao pai também do inevitável.
— Ainda uma questão, Sr. Doutor; desde alguns dias já Violeta nos suplica deixá-la à tarde no terraço, algumas horas ao menos, para ver a lua que ela tanto ama, e respirar o ar fresco; ela acha que se sufoca em seu quarto, mas... receando que ela pegue frio, nós temos sempre recusado.
— Deixe-a aqui, se ela assim o deseja; nada mais a pode prejudicar e por que privar duma tão inocente alegria e do ar morno e embalsamado duma soberba noite de julho?
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 28, 2016 7:51 pm

Ambos estavam separados, cada qual de um lado, mas à borda do terraço.
Conversavam em voz baixa.
Entretanto a doentinha havia acordado e, com seu fino ouvido, acompanhou cada palavra da conversação.
Um sombrio pavor a tinha, por assim dizer, fechado imóvel em seus travesseiros.
Quando o médico e a Irmã que a acompanhava deixaram o terraço, ela se endireitou.
Juntando as mãos, com os lábios trémulos, numa voz ansiosa:
"Meu Deus! eu devo morrer... o Doutor disse...
Então não é verdade que eu vou sarar; vou morrer, vou deixar meus queridos pais que tanto amo, todos nossos bons servidores, meus companheiros de jogo e este lindo jardim.
Ah! quanto é duro! é assustador!"
Fechou os olhos outra vez e, esgotada, encostou nos travesseiros.
Quando veio a Irmã de Caridade, Violeta se informou de onde estava sua mãe e, tendo sabido que se deitara por algumas horas, esgotada, a criança repetiu seu pedido de ficar no terraço.
— O Doutor permitiu, meu bem; vou somente cobri-la com este lençol de seda e ficará tanto tempo quanto queira.
— Então me leva até a balaustrada, peço, para que eu veja bem o jardim - murmurou a doente.
Algumas horas se escoaram.
A noite veio calma, silenciosa, embalsamada.
A lua subiu, inundou de luar doce e argentino a sombria verdura das árvores, os feixes cintilantes dos esguichos de água e a face polida do mar; um rouxinol cantou nos bosques e os perfumes embriagadores subiram dos canteiros em flor.
A Irmã de Caridade estava cochilando em sua poltrona, mas Violeta não dormia; seus olhos erravam cheios de lágrimas e medo sobre a radiosa paisagem que a rodeava.
"Oh! como estou desgraçada! - murmurou ela; os passarinhos, as flores, o mais humilde insecto, tudo vive, respira, goza o sol bonito e a luz da lua, tão misteriosa e tão doce.
A morte odiosa virá com seu crânio desnudo, seus olhos vazios e sua foice... cortará o fio de minha vida.
Então ficarei rígida e imóvel como vovô, e me porão em um caixão estreito, e me enterrarão num fosso escuro, sozinha, longe dos que eu amo, e uma pedra bem pesada ficará em cima de mim..."
Ela teve um calafrio e fechou ao derredor de si o amplo lençol de seda e baixou a cabeça acabrunhada.
Como ela se sentia infeliz e acabrunhada!... mas a mamãe dormia e não se podia acordá-la, ela estava tão fatigada! e papai tinha partido para uma viagem indispensável e só voltaria no dia seguinte.
Estragar o sono da Irmã ela não queria de jeito nenhum.
Violeta suspirou, mas nesse momento seu olhar caiu sobre o jardim e ali ficou cravado, fascinado por um maravilhoso espectáculo:
do cálice de cada flor se desprendia uma pequena sombra transparente, vestida com uma túnica muito leve, que parecia tecida de pétalas de rosas, de lírios, cravos ou miosótis; asas de libélulas ou de borboletas se erguiam de suas espáduas e, sobre a cabeça de cada uma, brilhava uma pequena chama azul em que se vislumbravam pequenos olhos acinzentados, de traços indistintos.
Como arrastadas pelo vapor, as sombrinhas turbilhonaram em espirais fantásticas, fechando e abrindo seus círculos vaporosos, por baixo, na relva e nas alamedas de areia.
De mãos dadas dançavam alegremente ao canto do rouxinol; depois, na água das bacias e na poeira diamantina dos esguichos de água, apareceram pequenas ondinas vestidas de túnica de nuvem e coroadas de plantas aquáticas; elas também pareciam felizes e dançavam fazendo roda ao clarão da lua.
"Ah! como elas são alegres!
E que elas não devem morrer como eu.
Oh! como gostaria de viver!
Queridas almas das flores que tanto amo, venham me salvar, me consolar!" e ela estendeu as mãozinhas diáfanas em direcção aos grupos de bailarinas etéreas.
A dança parou instantaneamente - o apelo da criança tinha atingido o fino ouvido das almas das flores e, como uma nuvem de flocos multicoloridos, elas voaram até o terraço, cercaram Violeta, fixando-a com seus olhos brilhantes e alegres.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 28, 2016 7:51 pm

Algumas formazinhas mais luminosas e maiores que as outras se destacaram da massa e, inclinando-se para Violeta, exclamaram com espanto:
— Uma filha da terra, uma alma humana! e ela tem medo de morrer?
Mas nós todas morremos; nossa vida é uma manhã de sol e uma noite de luar; depois vem a morte para nos levar no espaço como poeira criativa das esferas; e nós não temos medo da morte; ela é tão bela, tão doce; ela nos transforma, de vida em vida, em espírito de luz que canta a glória e a bondade do Criador.
— Então você nunca viu a morte, alminha humana, e a teme?
— Eu a vi somente desenhada nos livros, ela é odiosa:
um esqueleto descarnado armado de uma foice! e aqueles que ela foiça, descem para um buraco escuro, selado com uma pedra pesada de sepulcro; e depois se está só, quando sopra a tempestade e o vento de inverno sacode os braços desnudados das árvores...
Violeta fechou os olhos sacudida de horror.
As ondinas, as libélulas, as almas das flores pernoitaram olhares espantados:
— Nós nunca vimos a morte assim!
Você pode se convencer até a aurora, você nos verá morrer, pois a vida duma flor ou de uma borboleta é curta, mas nós não nos queixamos; gozamos as doçuras da luz, degustamos a poeira melosa dos cálices de flores, bebemos a água cristalina do orvalho.
Alegramos o olhar dos que nos vêem; ornamos as cabeças e os domicílios dos vivos assim como o túmulo dos mortos.
Nosso aroma acaricia o odor dos homens.
Concentramos em nós o mistério da criação e as possantes forças curativas.
Os homens passam ao nosso lado, ignorantes e cegos, nos matam sem necessidade!
Não importa! Nós cumprimos nossa parte na obra comum que Deus nos designou e partimos felizes para continuar a grande viagem.
Um vultinho sorridente, com grandes asas de libélula se aproximou então e disse:
— A morte, tal como você acaba de descrever, só aparece aos homens da matéria, que amam a escravatura do corpo mais que a liberdade do espírito e crêem que depois da morte do corpo nada lhes resta.
É por isso que ela lhes aparece na feiura da velhice ou da decrepitude, por arrastar o pecador ao julgamento e à expiação.
O crânio vazio que eles vêem lhes diz que o egoísmo ali reina e nos olhos cavos jamais habitou um espírito belo e amante do próximo.
A verdadeira morte é tão bela que somente o homem do mau desejo e materialista pode a temer criando uma Morte em sua própria imagem.
Violeta se sentiu tranquilizada; a calma e a esperança renasceram em seu espírito e ela contemplava com reconhecimento seus amigos aéreos que não a deixavam; eles se apertavam ao derredor dela, agrupando-se sobre seus joelhos, sobre o espaldar e sobre o braço da poltrona, e, como desafio, eles lhe contavam sobre as maravilhas das Esferas, onde, mudados em átomos luminosos, eles turbilhonavam, cooperando na grande obra da criação.
— E eu não poderia ali trabalhar também? - Perguntou Violeta com animação.
— Oh! Certamente! e muito mais que nós, pois você é uma alma humana!
— Olhem minhas irmãs, - disse subitamente uma libélula, lá no horizonte, uma linha clara anuncia a aurora, e vejam esta grande sombra - é a Morte que avança para nos levar a outras Esferas.
Fremindo de emoção, Violeta fixou essa Morte que lhe inspirava tanto horror e que talvez viesse à procura dela mesma.
Das profundezas do horizonte emergia uma gigantesca figura humana, vestida num vasto manto tecido de sombra e de luz; seu rosto pálido era grave e doce, seus olhos irradiavam quietude e repouso.
Sobre sua testa, sóis formavam um diadema; dispersados entre seus longos cabelos soltos, cintilavam estrelas infinitas, parecendo cascatas luminosas.
Os mundos não dependem dessa possante soberana que atravessa as sete Esferas, tocando com seu sopro poderoso os homens e as coisas, percorrendo infatigavelmente o universo infinito para o transformar?
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 28, 2016 7:51 pm

Nada lhe resiste!
Ela entra em tudo, Ela atinge a tudo que respira!
Calma e grave em sua força e majestade, a Morte estacou diante das almas que pululavam ao derredor de Violeta e estas contemplavam a soberana com admiração e respeito.
A soberana Morte se inclinou a elas, entreabrindo as vastas dobras de seu manto, e, como flocos de nuvens, todas ali foram tragadas, enquanto que seus corpos diáfanos se apagavam, e não restou deles mais que pequena flama que havia brilhado sobre suas frontes, essência divina e imortal, destinada a progredir e a atingir os cumes da perfeição.
Agora o olhar profundo da Rainha das Sombras se fixou em Violeta, pálida e trémula.
— Você tem medo de mim, pequena alma humana, - disse ela numa voz suave e harmoniosa; porquê?
Não sou eu o repouso e a libertação?
Veja como você sofre, privada pela doença de todas as alegrias próprias à sua idade; você não quer vir aos meus braços e ali dormir um sono reconfortante e profundo?
A menina a olhou, dividida entre a admiração e o pavor; seus olhos erraram um momento sobre os objectos conhecidos e amados que a cercavam; depois, subitamente, ela estendeu as mãos juntas à aparição, dizendo num tom suplicante:
— A Senhora é bonita, mas afinal a Vida ainda é mais bonita; ó Morte!
Seja misericordiosa e clemente! Deixe-me viver!
Um sorriso enigmático surgiu nos lábios da Morte.
Ao fim de um instante, ela respondeu:
— Seu corpo usado não tem mais seiva vital, não mais pode servir, mas posso conceder que viva em outro corpo.
Vê lá, na borda do repuxo, aquela bela ondina que respira tão penosamente? está esperando um raio de sol para expirar.
Quer entrar em seu corpo e viver longo tempo nas profundezas do lago, ou no mar, ou no fundo da fonte, aquela que, como avalanche, desce a montanha?
Você vai viver e sentir com sua alma humana as alegrias e as misérias da terra.
Vai ver seus pais, mas será privada do amor, porque será uma ondina e não passará sobre a terra senão às horas do dia; quando o sol se deita, você retorna ao fundo das ondas, até que o primeiro raio do astro do dia volte.
Mas devo ainda preveni-la duma coisa:
se agora você escolhe a Vida, eu não a virei procurar senão como uma libertadora, pois não gosto dos que não reconhecem o grande benefício que lhes concedo, dos que lutam contra mim obstinadamente, que preferem sofrer, ficar estropiados, agonizar lentamente, decrépitos e horrorosos, aconchando-se à Vida, esta inimiga tenaz do homem, pedindo-lhe uma trégua, e me fugindo - EU - que lhe dou a independência, a vitória sobre a matéria, eu que dou à alma prisioneira as asas possantes que a levantam até o infinito, que de escravo faço um senhor do Espaço Sem Limites!
E agora escolha: a Morte ou a Vida?
— Escolho a Vida! - Murmurou Violeta.
— Seja; vou então chamar meu competidor:
que ele apresente a você o golpe envenenado que lhe parece tão doce e desejável!
Nesse momento um raio purpurino jorrou da terra e se transformou em um adolescente de beleza viril.
Membros robustos palpitavam, seus olhos lançavam chispas vigorosas, de suas narinas escapava um sopro possante que coloria de púrpura tudo o que atingisse; seus músculos pareciam de ferro, o corpo flexível, mas como se fosse de aço, em seu peito a força exuberante fervia bramindo como lava na cratera do vulcão, exalando em todas as direcções torrentes de luz e calor.
Violeta sentiu uma onda de fogo percorrer seu corpo friorento e esgotado e se refez, aspirando a plenos pulmões o ar fresco e acre da manhã.
— Eis o dispensador da vida, que percorre as veias dos seres e ao qual todos se agarram em desespero, - disse a Morte, designando o adolescente que avançava entre ela e a menina.
Soberano autocrata da terra, é acolhido com alegria onde quer que passe; semeia flores sob seus pés, e onde chega um ser vivo é aceito como dom precioso e se o agradece bem alto!
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 28, 2016 7:52 pm

Veja - em tudo o que pisa surge luxuriante vegetação.
Seu hálito anima a poeira, colore as flores, cria as humanidades que eu engulo; mas ele recua diante de mim e me odeia, pois.
Armados de um poder igual, lutamos, eu temida e não reconhecida, pois não posso agradar, e ele adorado, desde o primeiro dia da Criação.
E os cegos não vêem o quanto ele trai!
Sob seu manto furta-cor ele oculta os gérmens de todos os vícios, todos os desejos que dilaceram a alma humana. Onde ele passa, cria necessidades e lutas inevitáveis para satisfazer aos homens; e é para pôr fim ao exagero da avidez e do egoísmo que intervenho.
De resto, você vai experimentar, pois escolheu a Vida...
O adolescente se inclinou sobre Violeta, sorrindo e, com sua mão nervosa, lhe arrancou o coração.
Este, entre seus dedos, se transformou em uma fumacinha que ele lançou como uma flecha ao corpo da Ondina, sobre o qual ele se debruçou, inundando-a de um eflúvio vivificante.
As faces vividas da filha das águas se coloriram dum tom róseo; um suspiro elevou seu tórax e seus olhos esverdeados se abriram, animando-se de alegria e gratidão.
— Vive, então, criança cega, e adeus por longo tempo!... ¬ disse a Morte - até que você me persiga, me barre o caminho, me suplique de a despir do dom funesto da existência.
Para me apreciar como mereço pequena alma humana, vive... até à saciedade!
Ela se elevou lentamente nos ares e desapareceu, enquanto a Vida reentrava na terra para reaparecer sob todas as formas da Criação, desde a nascente cristalina que abre o caminho através da rocha, à folha verdejante, à flor odorante, à seiva que sobe na árvore, até o homem que acorda do sono da noite, armado de novas forças.
Sob o sopro poderoso da Vida, Violeta dormiu sono reparador; as vagas, seu novo berço, a tinha carregado docemente a uma gruta sombreada e lá, sobre um banco de musgo, ela repousou das fadigas e emoções sofridas.
Quando acordou, sentiu uma brisa leve a balançar sobre as ondas.
Claridade azulada baixou sobre ela e, com uma rapidez vertiginosa, submergiu para o fundo do abismo que se fez transparente e iluminado de uma luz fosforescente.
Enfim seus pés tocaram a terra e ela viu, com espanto, uma planície imensa coberta de areia tão fina e brilhante que parecia pó de ouro.
Ao seu redor se estendia um jardim pontilhado de pequenos bosques de coral rosa; flores aquáticas gigantescas e estranhas substituíam ali as árvores; e nas alas desse jardim, nas grutas decoradas de pedrinhas e conchas, brincavam golfinhos; peixes de ouro passeavam com crustáceos, caranguejos enormes e outros habitantes do mar.
Violeta andava e examinava tudo curiosamente, quando, na volta de uma ala, encontrou a entrada de um palácio de cristal duma riqueza mágica; suas colunas eram de âmbar, seus móveis de nácar.
Por toda parte se viam suspensas guirlandas e lírios d'água com franjas de pérolas; em vasos maravilhosos desabrochavam buquês de flores azuis cujo cálice era uma chama.
Uma multidão numerosa circulava no palácio; a maior parte se dirigia a uma sala imensa, no fundo da qual, sobre um trono de rubis, se assentava um velho majestoso, vestido com uma couraça de escamas de peixe e manto púrpura.
Uma coroa dentada cingia sua cabeça; na mão, um ceptro de três pontas.
Ao seu lado estava sentada uma bela mulher com ar altaneiro; sobre seu penteado, uma coroa terminava em ponta, a enfeitava uma guirlanda de flores.
Na sala e ao redor de seu trono se agrupavam ondinas de todas as idades; vestiam túnicas transparentes e usavam coroas de nenúfar(1) em seus cabelos soltos.
Entre elas, se viam homens jovens de tez pálida e olhos tristes:
eram marinheiros afogados no mar, capitães de navios, assim como príncipes e guerreiros que haviam perecido durante tempestades, ou simplesmente estavam encadeados por malefício ao fundo do mar.
O Rei e a Rainha protegiam os seus heróis que deviam desposar as ondinas; eles os cercavam dum luxo real lhes dando por esposas as mais belas filhas das águas, mas os príncipes, heróis e mesmo os simples marinheiros tinham saudade da terra, aspiravam aos raios do sol, ao amor terrestre; a uma vida cheia de perigos e aventuras.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 28, 2016 7:52 pm

Prefeririam uma existência movimentada à vida preguiçosa e eterna do fundo do mar, com seus banquetes intermináveis, suas iguarias requintadas, mas também a monotonia desesperante.
Quando Violeta entrou, todos os olhares se fixaram nela com admiração e o Rei exclamou:
— Ah! eis enfim a mais belas de nossas ondinas e a mais cara de nossas jovenzinhas.
Violeta estava verdadeiramente maravilhosa; seus grandes olhos esverdeados pareciam reflectir o mar em repouso, sua pele era branca e rosada, seus cabelos da cor do âmbar.(2)
Sua veste linda ressaltava sua beleza.
Um corpete feito de escamas de peixe, de ouro, desenhava seu talhe fino, a saia e as mangas eram de gaze prateada, as mais belas pérolas do reino subterrâneo enfeitavam seu pescoço; sobre a cabeça trazia uma guirlanda de lírios d'água, cujos cálices eram chamas que revestiam sua cabeça quando, à noite, as ondinas subiam à superfície do mar:
o clarão fosforescente de suas guirlandas as iluminavam como uma auréola e se mesclava às ondas em reflexos fantásticos.
Quando ela se aproximou do trono, o Rei e a Rainha lhe estenderam os braços, mas quase imediatamente lançaram um grito de espanto:
— Esta não é Pérola, nossa filhinha! - exclamou a Rainha.
Nesses olhos brilham uma alma humana.
— Quem é você, estrangeira, e como entrou no corpo de nossa filhinha? - ajuntou o Rei.
Antes que Pérola pudesse responder, a poeira de ouro que formava o chão da sala se agitou, inchando-se.
Um vento muito quente atravessou todo o palácio, surgiu da terra o belo adolescente que ela já havia visto, a Vida.
— Rei e Rainha do Abismo, - disse ele, - fui eu quem animou o corpo de sua filha:
ela amava um homem da terra, queria morrer para ter uma alma imortal e um corpo mortal; não queria ser condenada a uma vida interminável e vazia no fundo do oceano.
Esta aqui, Violeta, filha do rico senhor que mora na Vila Branca, à borda do mar, não quis morrer e, para viver, viver o mais longo tempo possível, renunciou à sua alma imortal.
Recebam-na então como a um membro de sua grande família; de noite ela viverá aqui no fundo do mar, mas de dia subirá à terra para consolar seus pais.
— Mas Pérola era noiva do Príncipe Bohemond, que está sempre triste; que faremos agora? - Fez a Rainha solícita.
— Casaremos Violeta com o Príncipe, eis tudo, - respondeu a Vida com um sorriso, desaparecendo na poeira de ouro enquanto se extinguia o raio avermelhado que havia enchido de luz e calor o palácio subterrâneo.
Um estranho e penoso sentimento se apoderou de Violeta; qualquer coisa como saudade por ter aceitado a troca; depois, que significava ter renunciado à sua alma imortal?
Toda alma, mesmo aquela de uma flor, não era eterna? - como se alguém houvesse escutado seu pensamento, uma velha ondina se inclinou para ela e murmurou:
"O progresso só se atinge pela alternativa da vida e da morte.
É uma necessidade da existência da alma imortal; aquele que voluntariamente se condena a ficar estacionário, renuncia ao mais belo atributo de sua essência divina".
Violeta empalideceu, mas não teve tempo de pensar muito, pois o Rei do Mar acabava de chamar o Príncipe Bohemond que sonhava em uma grande gruta.
Ficaram solenemente noivos, passando um ao dedo do outro um maciço anel de ouro.
O Príncipe Bohemond era maravilhosamente bonito, cabelos negros como ébano, olhos azuis profundos, mas morna tristeza morava em seu ser, e o olhar que lançou sobre Violeta era frio e indiferente.
O coração da Ondina se fechou, mas o Príncipe se agradou dela.
Ela começou a amá-lo; apesar disso, rogou aos soberanos retardar um pouco os esponsais, a fim de que pudesse habituar-se à vida aquática, o que eles concordaram.
Os pregoeiros anunciaram a todo o reino submarino o casamento do Príncipe Bohemond e da Princesa Pérola.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Como na superfície das águas fazia um belo dia, Pérola quis retornar à terra para consolar seus pais, que certamente estavam muito tristes.
Ela subiu rapidamente à praia, secou as gotinhas de água que perolavam suas vestes e foi para o jardim; atravessou correndo as alas onde, no dia anterior, havia admirado a luxuriante verdura dos bosques de rosas odorantes, e subiu ao terraço.
Em toda parte reinava o silêncio da morte.
Aproximando-se do grande salão, sentiu forte odor de incenso e ruído de soluços abafados chegaram a seus ouvidos.
Calada, trémula, ela parou à entrada e seu olhar chegou ao catafalco enfeitado no meio do salão:
estendida sobre as almofadas de cetim branco, repousava o corpo que, ainda na véspera, sua alma animava.
Haviam-no vestido de branco e pousado entre suas pequenas mãos transparentes como cera uma cruz dourada.
Sobre o corpo, como sobre o catafalco, um amontoado de flores, formando uma mortalha odorante.
Nos degraus, vestida de luto, a cabeça comprimida contra as dobras da roupa da morta, estava ajoelhada sua mãe, que chorava amargamente; aniquilada pela perda de sua única filhinha, ela queria ficar com sua querida até o fim - o enterro.
Se as ondinas pudessem chorar, Pérola o teria feito nesse momento, tanto ela se apiedou de sua mãe, mas quase no mesmo instante um eflúvio de alegria inundou seu coração, pois era possível secar as lágrimas de seus pais.
Lançando-se à sua mãe, lhe enlaçou o pescoço e murmurou:
— Mamãe querida, não chore mais; eu não morri!
A senhora se aprumou e fixou com espanto a bela criança que não tinha os traços de Violeta, mas sim a voz da criança adorada; o olhar era o mesmo e, esquecendo as diferenças, cia apertou Pérola contra seu peito.
— Seu rosto me é desconhecido, mas reconheço sua alma, filha adorada, e já que você me é devolvida, que me importa o resto!
— Explico tudo, mamãe querida, - murmurou Pérola ajoelhando-se perto dela.
Tive tanto medo de a perder, de morrer.
Quando à noite vi a Morte, supliquei a ela me poupar.
Ela me reprovou de lhe fugir, mas acolheu favoravelmente meu pedido...
Meu corpo exaurido pela doença não podia mais me servir, aí ela transportou meu espírito ao, corpo de uma ondina.
Já estive no fundo do mar e me fizeram noiva de um belo Príncipe que se afogou no ano passado; à noite eu devo viver no fundo do mar, mas durante o dia posso ficar perto de você e de papai.
Vocês se habituarão a mim, espero, e esquecerão este corpo morto que jaz aqui inerte.
— Sim, filhinha, me sinto consolada e feliz agora.
Que importa a veste usada, se me devolveram você?
Contentes, abraçadas uma contra a outra, conversaram, e quando se reuniram as pessoas do castelo para a missa de morte, viram com estupefacção que as lágrimas de sua senhora estancaram, que indizível felicidade iluminava seus traços fatigados e, indiferente à morta, só tinha olhos para a estrangeira que ela enlaçava pela cintura.
Mas quem poderia ser aquela bela mocinha de cabelos dourados, com tez transparente e olhos tão verdes como os de uma ondina?
Perguntava-se toda gente com curiosidade.
Quando a missa de defunto acabou, Pérola e sua mãe se retiraram ao antigo apartamento de Violeta e a castelã lhe disse:
— Você está de novo em casa e será nossa filha como sempre.
Oh! Como seu pai ficará contente!
Pérola a beijou, mas vendo sua fadiga, lhe suplicou repousar até a chegada do velho Conde, seu pai.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 28, 2016 7:52 pm

Sozinha, Pérola se sentou no parapeito da janela e olhou o mar, que agora era seu lar; então pegou a harpa que Violeta aprendia a tocar e deixou seus dedos correrem em suas cordas.
Constatou, com surpresa, que possuía um saber insuspeitado.
Pegou a harpa, desceu ao terraço, e se pôs a tocar.
Sob seus dedos brotaram sons poderosos, formando melodias desconhecidas, mas de um encanto fascinante; acreditar-se-ia ouvir doces murmúrios duma fonte, o rugir duma tempestade, o ruído de vagas que se quebravam nos recifes da costa, ou mesmo um canto suave, subtil e misterioso como a voz das sereias.
À medida que tocava, todos os servidores do castelo, a Irmã de Caridade, o frade que deveria proceder à inumação, um velho parente doente, todos se reuniram no terraço para ouvir aquele tanger maravilhoso.
Pérola compreendeu então que não mais pertencia à humanidade terrestre, que nela vibrava e palpitava um mundo novo e desconhecido.
Absorvidos pelas cambiantes de seu tocar, pelo seu canto, ninguém notou que um navio trazendo velas negras tinha abordado e que o velho Conde desceu vestido de luto, pois ainda não sabia das novas notícias sobre sua morta; seu coração estava amargurado - a filha era toda sua alegria deste mundo.
Foi directamente à sala grande, espantado que as dependências todas estivessem vazias e se perguntava quem ousava tocar e cantar em uma casa de luto!
Mas, à vista do catafalco, esqueceu isso e, com os olhos inundados de lágrimas, se ajoelhou abraçando o corpo da filha.
Subitamente sentiu que alguém o enlaçava e, erguendo a cabeça, viu sua esposa que, radiante, o beijou, murmurando em seu ouvido:
— Não chore mais, meu marido, nossa Violeta adorada não está morta, vou levá-lo até ela.
O Conde a escutava espantado, pensando que a dor a havia perturbado, mas, não querendo contrariá-la, a seguiu até o apartamento de sua filha, onde Pérola acabava de voltar e retomava seu canto.
O velho senhor queria orar e se recolher ao quarto da desfalecida, mas ouvindo o canto maravilhoso, se sentiu aliviado e sua dor amarga se acalmou.
— Quem toca e canta assim? - perguntou.
— É nossa filha querida, - respondeu a Condessa radiante.
Quando eles entraram, Pérola jogou a harpa e se precipitou aos braços do pai.
— Você não me reconheceria... mas sou sua Violeta!
O Conde estremeceu, pois o timbre carinhoso era bem o de sua filha e aquele olhar era bem o dela.
Embriagado de felicidade esqueceu a morta deitada lá embaixo, sobre o catafalco; aquilo era apenas um corpo morto destinado à destruição.
A parte viva, o espírito adorado de sua filhinha lhe fora devolvido.
Quando os transportes de alegria se acalmaram, o Conde e a Condessa decidiram se estabelecer no castelo por todo o resto de seus dias.
Determinaram também apresentar imediatamente a ondina como sua filha adoptiva e herdeira.
Desceram ao salão e, quando o som do sino reuniu a todos, o Conde disse solenemente:
— Deus teve piedade de nós e nos enviou esta bela menina órfã de pai e mãe, e cujos olhos e voz nos lembram nossa filha morta.
Nós a adoptamos como filha e será herdeira de todos os nossos bens; devem amá-la e a obedecer como à nossa querida Violeta, pois ela é boa e linda como nossa filha.
Todos prometeram amar e honrar a nova filha do bom patrão, maravilhando-se que ela tivesse a voz e o olhar da patroazinha falecida e, como eram velhos e fiéis servidores, se alegraram que os pais tivessem encontrado consolo.
Sepultaram com pompa o corpo de Violeta, à borda do mar, onde se construiu um belo monumento que se via à distância.
Pérola vinha cada manhã, assim que o sol saía, passava o dia com eles.
Cantava-lhes as mais belas melodias do abismo submarino, ensinadas pelas ondinas e sereias que, ao clarão da lua, as cantavam sobre as ondas; mas nada a podia reter quando, na abóbada do céu, apareciam as primeiras estrelas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 28, 2016 7:52 pm

Uma brisa estranha e poderosa parecia inchar suas finas túnicas, ela parecia fundir entre os braços de seus pais e, como um vapor muito leve, desaparecia nas vagas.
Durante esse tempo, no reino submarino, se ocupavam activamente seus habitantes em preparar o casamento de Pérola com Bohemond; mas a bela ondina estava triste, pois seu noivo, que ela adorava, se quedava frio e indiferente.
Um dia ele lhe disse:
— Você é a mais linda moça deste oceano, Pérola, e certamente eu a amaria de todo o meu coração se, sobre a terra não tivesse deixado uma noiva, a Princesa Rosalinda, a quem jurei amor e fidelidade por toda a eternidade e não posso faltar à minha palavra.
Sem dúvida devo obedecer ao Rei que ordena nosso casamento, mas não posso amá-la, e o que mais me desespera é que minha pobre noiva ignora que eu me conservo fiel; e há mais:
soube por um de seus servidores, afogado recentemente, que seu pai a força a se casar com o cavaleiro Tancredo, Príncipe estimável e digno de sua afeição, mas que ela não pode amar, pois seu coração ainda me pertence.
A pobre Pérola sentiu dor amarga, mas sua bondade natural lhe inspirou compaixão por Bohemond e lhe respondeu:
— Você não pode se mostrar sobre a terra, mas eu posso.
Se me disser onde vive Rosalinda, irei encontrá-la e lhe contarei o quanto você ainda a ama.
— Oh! quanto você é boa e quanto Rosalinda seria feliz! - exclamou o Príncipe reconhecido.
Se você ainda quiser ser mais agradável, leve minha echarpe que ela mesma bordou, meu anel e este buquê de flores aquáticas, que lhe envio do fundo do mar.
Amanhã, ao amanhecer, eu a conduzirei aonde vive a minha adorada noiva.
No dia seguinte, quando os primeiros raios do sol douraram o horizonte, Pérola e o Príncipe se puseram a caminho, pois o percurso era bastante longo. Era preciso atravessar toda a largura do oceano e o astro do dia havia passado do seu zénite quando Bohemond lhe mostrou uma costa elevada e, sobre uma rocha que avançava para o mar, um soberbo castelo rodeado de altas torres e uma grande escada de mármore, cujos últimos degraus eram banhados pela água.
Essa escada conduzia a uma galeria com colunas e por todos os lados se viam bandeirolas e guirlandas de flores.
— É aqui o castelo.
Está ornado, porque hoje celebram os esponsais de minha pobre Rosalinda, - disse tristemente o Príncipe.
Oh! se eu ao menos pudesse vê-la...
Pérola não respondeu.
Pegou o anel, a echarpe e o buquê e subiu os degraus.
Na galeria, encontrou um pajem e lhe perguntou onde encontraria Rosalinda.
— Sua Alteza ainda não deixou seus aposentos, mas vou conduzi-la até sua porta, - respondeu o pajem.
Na antecâmara de Rosalinda, uma dama de companhia apareceu; examinando Pérola com desconfiança, disse que a Princesa estava em seu oratório.
Sem se perturbar, a ondina declarou que ela era uma amiga de Rosalinda e lhe trazia notícias importantes.
Sem esperar resposta, se dirigiu ao oratório, onde entrou.
A Princesa estava ajoelhada no genuflexório e orava com fervor.
Estava vestida com a roupa do casamento em tecido prateado e usava a coroa dos esponsais sobre seus cabelos pretos; longo véu de gaze a envolvia como uma nuvem.
O coração de Pérola se crispou dolorosamente à vista da bela rival, mas, como seu amor por Bohemond era puro e despido de egoísmo, ela pensou antes em lhes dar alegrias e, tocando sua espádua, disse:
— Bela Rosalinda, console-se!
Trago notícias de seu noivo.
Rosalinda se endireitou bruscamente e fixou a graciosa ondina com surpresa e admiração:
— Meu noivo está morto.
O que você pode dizer dele, menina bonita?
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 29, 2016 8:29 pm

— O Príncipe Bohemond mora no fundo do oceano e, como prova de que sou sua mensageira, lhe trago o anel, a echarpe e este buquê.
Ele a ama e permanece fiel à palavra dada.
— Como você me faz feliz e agradecida!
Exclamou Rosalinda, beijando o anel e as flores.
Mas, me diga quem é você e por que não pode Bohemond vir me falar pessoalmente?
— Ele não pode se aproximar da terra, onde vivem os homens.
Eu posso: sou uma ondina, venho do fundo do oceano, onde moro.
Para lá tenho de voltar quando as primeiras estrelas surgirem no céu.
Se você for ao terraço, verá ao longe Bohemond oscilando sobre as águas me esperando.
— Certamente irei! - disse a Princesa contentíssima.
Depois fez Pérola se sentar e conversaram.
Rosalinda contou que era imensamente infeliz por ser obrigada a se casar com o Príncipe Tancredo.
Pensou até em ser freira para evitar esse casamento, mas seu pai não aceitou e as núpcias seriam celebradas assim que a noite caísse.
Ficou pensativa por longos minutos e por fim exclamou:
— Tenho uma ideia que poderá arranjar tudo.
Antes de pô-la em execução, devo somente rezar a Deus.
Ela se ajoelhou e rezou.
Nesse momento Pérola, levantando inopinadamente os olhos, percebeu a alta figura da Morte, em pé em um nicho.
Seus grandes olhos sombrios e serenos fixaram a jovenzinha com doçura, sua mão levantada parecia a bendizer.
A ondina sentiu uma estranha angústia.
Era possível que Rosalinda, tão jovem, tão cheia de vida, fosse condenada a morrer?
Ela também pareceu ver a temível visitante, mas longe de a odiar, lhe estendeu os braços, sorrindo.
A noite veio.
Lampiões e tochas se acenderam, desenhando em linhas de fogo, sob o céu sombrio, os contornos imponentes das torres e muralhas do castelo.
Sob a galeria e sobre a balaustrada da escada se acendeu o alcatrão nos grandes vasos de bronze.
A capela se clareou com mil velas e, perto do altar, chegou um padre venerável, juntamente com o noivo.
Esperando os sinos soarem, Rosalinda se levantou electrizada.
— Chegou a hora! Meu pai virá me buscar.
Mas, enquanto isso, quero ver Bohemond!
Ela atravessou correndo os cómodos, assim como as salas e galerias contíguas, e se lançou pela escadaria.
— Olha, lá está! - disse Pérola, que a havia seguido, e mostrava o Príncipe que, à luz viva e argentina da lua se mostrava distintamente, balançando-se na crista de uma vaga.
— Adeus, Rosalinda! - gritou ele, saudando com a mão sua bela noiva.
Adeus! e viva feliz!
Rosalinda estendeu os braços em sua direcção e depois, de um pulo, se precipitou ao mar(3), tentando chegar ao Príncipe.
Pérola quis se lançar logo após para a reter e trazê-la à terra, mas diante dela surgiu das vagas o torso da Morte que, com um gesto ameaçador, a repeliu sobre os degraus, onde ficou caída.
No mesmo instante se escutaram gritos na galeria.
Pajens, escudeiros e cortesãos apareceram na escada e depois o próprio pai seguido do Príncipe Tancredo.
Porém a corrente já havia arrastado Rosalinda.
Por um momento ainda se viu seu véu flutuar e sua larga saia de brocados se inchar, cintilando à luz da lua, como um gigantesco diamante.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 29, 2016 8:29 pm

Depois, ela afundou bruscamente e desapareceu.
Vendo isso o velho Rei tombou desfalecido.
Pérola, levantando-se bestificada e assombrada, viu que o levavam ao interior do castelo.
O Príncipe Tancredo, notando a bela ondina, se aproximou e agradeceu, pois lhe haviam dito que a jovem estrangeira tinha tentado salvar a Princesa, mas o mar não o permitiu.
Um pajem acorreu, anunciando que o Rei acabava de reabrir os olhos, o que interrompeu a conversação.
Tancredo voltou para perto do Rei.
Pérola sentiu remorsos por ter aceitado o pedido de Bohemond.
Reprovava-se por ter sido a causa da desgraça.
Decidiu ver o Rei.
O velho havia pedido um padre para fazer suas devoções, como convém a um bom cristão, porque sentia que não sobreviveria àquele momento.
Após haver confessado, fez seu testamento legando seu reino e todos os seus bens a Tancredo, que considerava como seu genro.
Acabando de escrever e assinar o importante documento, Pérola, que se conservava silenciosa à cabeceira, perto do novo Rei que chorava lágrimas amargas, viu entrar pela grande porta a Morte, grave e silenciosa, parando ao pé do leito.
Sem lançar um olhar sequer sobre a ondina, se inclinou para o moribundo e lhe sorriu.
Com um grande suspiro, este lhe estendeu os braços.
Os que a isso assistiam, pensaram que o Rei via sua filha, mas Pérola viu a Morte soprar sobre ele e, como arrancado e arrastado por seu hálito gelado, a alma imortal destacou do corpo e, sustentada pela sombria visitante, se elevou pelo espaço com ela.
Apesar de sua tristeza, O Rei Tancredo não se esqueceu de Pérola.
Parecia-lhe nunca haver visto tão adorável jovenzinha, olhos tão verdes, cabelos tão dourados e, para ele, ela era mil vezes mais sedutora que a recém-morta Rosalinda.
Ele a procurou com os olhos, assim que o velho Rei expirou, mas ela havia desaparecido como bruma subtil, sumindo nas vagas.
Ninguém soube lhe dizer o que tinha sido feito dela.
Voltando ao fundo do oceano, Pérola encontrou Rosalinda e Bohemond.
Eles não se cansavam de conversar e exprimir sua felicidade.(4)
Então, Pérola procurou o Rei e lhe disse, depositando em sua mão o anel de casamento:
— Permita, ó Rei, que o Príncipe Bohemond espose sua verdadeira noiva, que ele reencontrou, e não a mim, que lhe sou indiferente.
Rosalinda, para cumprir a palavra dada, renunciou a todas as alegrias da vida, ela merece sua graça.
Tocado pela generosidade da Ondina, o Rei consentiu nas bodas de Bohemond e Rosalinda, que foram celebradas com grande pompa, contando com a presença do Rei e da Rainha.
Sozinha, Pérola não compareceu.
Seu coração também estava pesado porque uma doença grave lhe inspirava os mais sérios temores.
Sua mãe, a Condessa estava bem doente.
Desde a aurora até a noite, o quanto pôde, ficou junto dela, velando, cuidando, orando ardentemente para que a Vida não cedesse à Morte aquela existência que lhe era tão preciosa.
Anotou muitas vindas da temível inimiga e sua angústia aumentava...
Suas preces foram vãs.
O adolescente transbordante de vida não se mostrou e, um dia, o mais poderoso dos soberanos deslizou traidoramente para a câmara da doente.
Pérola viu, com espanto, como a Morte abraçava sua mãe, erguendo-a e levando seu espírito.
Foi um golpe terrível e ela sentiu, como nunca, quanto dolorosamente a faculdade de chorar lhe fazia falta.
Seu velho pai também ficou desesperado pela perda da mulher.
Tornou-se sombrio, fraco, enfermiço e começou a falar de seu fim próximo.
Depois da desaparição de Pérola, uma grande tristeza se apoderou do jovem Rei Tancredo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 29, 2016 8:29 pm

Ele a procurava por toda parte e finalmente se desesperou.
Pensava somente nela.
Passava noites e dias inteiros assentado nos degraus que conduziam ao mar, perdido em seus sonhos.
Contemplava o vaivém das ondas encapeladas, o voo das gaivotas e a brincadeira dos delfins, ou fixava o céu estrelado.
Uma noite, estava assim sentado sobre os degraus como era agora de seu hábito, fixando a planura espumosa, clareada pela lua, quando percebeu uma grande mancha fosforescente sobre a crista de uma vaga.
Essa aparição imprecisa, luzia e parecia aumentar, se dilatar, tomando a forma de uma mulher que, balançando-se graciosamente, se aproximou dos degraus.
Então Tanciedo reconheceu Rosalinda, vestida em uma túnica prateada; uma guirlanda de flores fosforescentes nos cabelos soltos; o rosto lindo, transparente e luminoso como um raio de lua.
Ela o saudou com um aceno e, com um sorriso, exclamou em voz doce e velada:
— Aquela que você ama é filha do Conde Ricardo e da Condessa Matilde, que habitam imponente castelo no extremo oposto do oceano.
Poderá os encontrar facilmente por serem muito conhecidos em razão de sua riqueza e caridade.
Lançou-lhe um buquê de lírios d'água e de novo mergulhou ao mar.
Uma nova vida animou Tancredo.
Resolveu se pôr em marcha para pedir ao Conde a mão de sua filha.
Mas, para chegar à casa de seu futuro sogro com a pompa devida à sua realeza, fez preparar um soberbo navio: mastros de ouro, velas de seda vermelha e a proa ornada com uma ondina de prata.
Seguido de toda uma flotilha que trazia sua corte de damas e senhores, o jovem Rei se dirigiu ao castelo do Conde Ricardo.
O sol se levantava no horizonte quando seu navio - o "Pérola" - lançou âncoras em frente ao castelo.
Apesar de fraco e doente, o velho Conde veio receber seu ilustre visitante e, quando o jovem Rei lhe pediu a mão de sua filha, experimentou grande alegria, pois sentia seu fim se aproximar e se atormentava com o pensamento de deixar sua filha só.
Em seu grande afecto, esquecia que Violeta era agora uma ondina e, vendo-a triste, queria consolá-la com um novo amor e um novo dever.
Pérola se perturbou ao receber o pedido do Rei.
Ele a agradava, mas não poderia desposar um homem da terra.
Quis então persuadir seu pai, mas este não a ouviu; esperava, ao contrário, que o grande amor que sentia por Tancredo a arrancasse do abismo e a prendesse de novo à terra.
Por fim seu pai suplicou para que lhe desse essa última alegria à vida.
Pérola consentiu, mas com a condição de que, após a morte dele, o castelo seria transformado em hospital para aleijados, doentes e órfãos, sendo todos os seus bens distribuídos aos pobres.
Tancredo consentiu alegremente e, sob o desejo do Conde, que já se sentia muito mal, o casamento foi celebrado no dia seguinte, sem pompa, na capela do castelo.
Mesmo o banquete projectado não pôde ter lugar, porque durante a noite a Morte veio e, a despeito das lágrimas e súplicas de Pérola, levou o velho doente.
- Tendo confiado ao capelão o cuidado de organizar o hospital e de levar o corpo embalsamado do pai ao reino de Tancredo, os recém-casados subiram ao lindo navio e se dirigiram a toda vela à pátria de Tancredo, onde, depois, o Conde foi inumado.
Tancredo estava radiante.
Só falava a Pérola de seu grande amor e da felicidade que os esperava; mas ela estava silenciosa e triste.
Quando chegaram ao pé da escadaria, ele viu que todo o palácio estava magnificamente iluminado e que o banquete seria servido.
Tendo subido alguns degraus, Pérola parou - as estrelas já brilhavam no céu, ela sentia a estranha brisa a atrair ao oceano, agitando e levantando suas vestes de gaze e sacudindo as mechas douradas de seus cabelos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 29, 2016 8:30 pm

Ela rogou ao Rei despedir a todos, pois tinha de lhe contar algo muito grave.
Achando-se a sós com ele, disse:
— Eu lhe havia pedido, caro esposo, para não perseverar em sua intenção de me esposar e também pedi isso a meu pai.
Nem um dos dois quis me escutar.
Faltou-me coragem, porque iria obscurecer os últimos dias de meu pai e também supus a dor que causaria a você a minha recusa.
Agora estamos sós, mas vem o momento em que eu devo desvendar o grande mistério de minha vida.
Relatou tudo o que acontecera a ela e continuou:
— Meu espírito foi então transportado ao corpo de uma ondina e, graças à minha escolha, imprudente e fatal, não tenho pátria definitiva, nem na terra nem no mar.
Não gozo as delícias da vida, nem o repouso da morte.
Erro entre os dois elementos, lastimando amargamente ter amado em demasia a vida.
Durante o dia posso ficar perto de você, mas desde que venha a noite, devo retornar ao meu lugar no oceano.
Não posso ter amor humano - você me amará como ama as flores ou o sol... não sou mulher como as outras, mas um Espírito das Águas...
Ela enlaçou o pescoço do Rei, o beijou e depois, ligeira como um sopro da noite, deslizou sobre as vagas, sacudiu seus longos cabelos e desapareceu.
O Rei ficou desesperado.
A cada manhã Pérola reaparecia, mas isso não o consolava.
O pensamento de que aquela que ele adorava era uma ondina, sem alma, não uma piedosa virgem cristã, o minava.
Tornou-se silencioso e misantropo, perdeu o sono e o apetite; uma doença langorosa o levou, ao fim de um ano.
Pérola ficou só e um profundo desespero invadiu seu espírito.
Durante a doença do Rei, ela se sentia ligada a ele e a perda de tudo o que lhe estava próximo a acabrunhava.
No fundo do mar se sentia uma estranha e, sobre a terra, ninguém a amava.
Estava só e não podia nem mesmo chorar...
Começou a odiar a vida e, quando a cada manhã, acordava sobre seu banco de musgo, sentindo a corrente forte e vivificante que percorria suas veias, a cólera e o desespero se apoderavam dela.
Foi quando se pôs a procurar a Morte.
Porém, quando a encontrava, o sopro quente e vivificante do qual a havia dotado a Vida, fazia recuar e fugir a Soberana das Sombras.
E assim passaram-se séculos...
Junto dela tudo morria, os amigos que conseguia, os servidores e os pobres que aliviava, todos eram tragados no seio da Morte.
Só ela vivia e odiava a Vida.
Frequentava igrejas, dotava os monastérios, fazia votos e peregrinações, mas a Morte continuava a lhe fugir teimosamente.
Um dia, por acaso, ela entrou na cabana de um pobre ermitão centenário e, vendo a fé estática com a qual ele orava, Pérola caiu a seus pés e lhe confiou seu pesar e toda a tortura de sua solidão.
O Ermitão a abençoou e disse:
— Procure sobre a terra uma vida útil, uma vida que encerre em si a felicidade de toda uma família e sacrifique a essa família sua vida, aceitando a morte em troca.
Eis a faca consagrada; pegue-a e a mergulhe em seu coração quando você encontrar o ser digno e útil de que lhe falei e, quando seu sangue quente fluir, irá encher de uma nova seiva vital esse outro ser.
Então, você conseguirá morrer, livre dessa vida inútil que lhe pesa.
Pérola se pôs à procura imediatamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 29, 2016 8:30 pm

Faca junto ao peito, ia de casa em casa procurando uma vida, tal como havia prescrito o Ermitão; mas diversas decepções a esperavam.
Assim ela penetrou no palácio de um Rei que agonizava e encontrou já seu herdeiro, que, cheio de inveja e avidez pelo poder, se impacientava com a lentidão daquela morte.
A vida do moribundo se tecera de abusos e injustiças.
Nem seu povo nem sua família haviam ganhado nada daquele que continuava a viver e ela saiu tristemente.
Veio também à câmara mortuária dum avaro milionário que em toda sua vida tinha estagnado sobre o ouro, sem jamais secar uma lágrima, aliviar uma miséria.
Por enquanto, ele se humilhava, se torcia aos pés da Morte, mendigando uma trégua.
Pérola se afastou desgostosa, pois pela primeira vez viu a Morte hedionda como era representada em sua infância.
Desencorajada, subiu à casa de uma rica mulher que morria, e que durante a vida toda havia negligenciado seus filhos, não procurando senão prazeres e enfeites.
Também ela mendigava, mas em vão, sua vida inútil.
Aproximando-se dos confins da cidade, Pérola viu na chaminé de um pobre casebre de operário, a sombra da Morte pairando.
A jovem entrou e viu perto do catre um homem ajoelhado, chorando, e sete crianças que se apertavam contra uma mulher agonizante.
Ela sustentava toda aquela família.
Seu marido era cego e também dependia dela; era exactamente o de que Pérola precisava!
Com um suspiro de alívio, ela parou enfim - havia encontrado o ser cuja vida era realmente útil.
Tirou seu colar de coral, seu adorno de pérolas, seus maciços braceletes, e os colocou sobre o cobertor.
Depois, levantando um olhar suplicante à Morte, ela impulsionou a faca, mergulhando-a em seu peito.
O sangue esguichou e inundou como torrente quente o corpo da pobre mulher, salpicando de rubi líquido a manta escura da Morte, que recuou.
Pérola sentia que a matéria de seu corpo se consumia como uma veste de gaze ao contacto de uma chama.
Enfim livre, ela se ergueu junto à Morte, que estampava uma beleza sobre-humana.
Ela estendeu a mão com um doce sorriso e Pérola exclamou enlevada: .
— Enfim sou digna da Senhora?
Veja, minha vida inútil circula nas veias desta infeliz; ela viverá para educar os filhos e os fará úteis e bons e eu venci a invencível, a Vida que todos mendigam...
— Você está enganada, disse perto dela uma voz profunda.
E, com terror, Pérola percebeu a Vida de pé perto dela, mas com aspecto mudado, mantendo os mesmos traços.
Um manto de brancura nívea a envolvia e a luz que ela exalava era doce e brilhante.
— Jamais tenha medo de mim.
Sou a Vida do Espírito, não aquela do corpo que você venceu.
Ela e eu - apontou a Morte - não somos antagonistas, mas aliadas.
Trabalhamos e glorificamos o Senhor com um mesmo fim.
Vem connosco a outras Esferas aprender os Grandes Mistérios.
Calma e feliz, Pérola subiu entre a Morte e a Vida Imortal que a levantaram, levando-a em direcção ao sol que resplandecia.

Wera Krijanowsky
16 de Novembro de 1897.

(1) Plantas da família das Nifeáceas. N.T.
(2) Cor amarelo-pálida; o âmbar também pode ser pardo ou preto. N.T.
(3) O suicídio é erro grave.
Kardec fala sobre o assunto no "O Livro dos Espíritos", no livro quarto, capítulo primeiro: "Penas e Gozos Terrestres".
N.T.
(4) ...Vê-se que o conto neste ponto foge ainda mais à realidade.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 29, 2016 8:31 pm

A NOIVA DO AMENTI

Era uma tarde bonita.
O calor abafado dava lugar a um agradável frescor e os habitantes de Tebas, cuja posição privilegiada dispensava a necessidade de trabalhar, apesar da temperatura elevada, deixavam suas casas para passear, fazer visitas ou simplesmente andar com toda comodidade.
Num pequeno terraço da casa do ilustre Septab, portador do leque do Faraó Ramsés III, achavam-se duas mulheres conversando com animação.
À sombra de muitas palmeiras e arbustos raros estava posta uma mesa de cedro com os pés trabalhados e uma tapeçaria raiada sustentada por bastões dourados que garantiam a indiscrição dos raios de sol.
Num leito de repouso, uma jovem mulher de rara beleza estava semi-estendida sobre almofadas de púrpura.
Esbelta, morena, com grandes olhos de gazela, era bem o ideal do tipo egípcio.
Somente a ruga altaneira e caprichosa de sua boca, suas narinas móveis e ligeiramente dilatadas, enfim, seu olhar coruscante que nada tinham da doçura da gazela, mostravam que uma alma voluntariosa, enérgica e consciente de suas vantagens animava esse exterior sedutor.
Uma túnica branca bordada de fios multicores desenhava suas formas esbeltas; maciços braceletes ornavam seus braços e seus tornozelos.
Uma estreita faixa de ouro ornava sua fronte com uma esmeralda retendo seus cabelos pretos encaracolados.
Essa bela criatura era Nitétis, a filha única do portador do leque, menina mimada e única dona da casa desde a morte de sua mãe, que havia sido adorada pelo marido.
A visitante assentada do outro lado da mesa, em uma cómoda poltrona, com os pés sobre um coxim franjado, era uma mulher de certa idade, de olhos negros e traços acentuados.
Um turbante raiado cobria sua cabeça e sua túnica branca era coberta de um manto azul, ricamente bordado.
Gesticulava vivamente com as duas mãos, fazendo soar os braceletes que pesavam em seus braços magros.
— Então, Nekebet, você não bebe nem come nada?
Será que aprecia estes bolos de mel?
— Obrigada, já bebi e comi o suficiente e também contei o suficiente de novidades, - respondeu Nekebet, bebendo um último gole de leite e repondo sobre a mesa uma elegante taça esmaltada.
Agora gostaria de falar com você seriamente e peço retirar os servos.
A um sinal de Nitétis, duas jovens escravas ocupadas em abanar cuidadosamente as senhoras, retiraram-se discretamente.
— Sou toda ouvidos!
O que de tão grave tem você para contar?
Espero que não se trate de um novo pretendente, - perguntou a mocinha com um sorriso malicioso.
— Não, desta vez é um antigo pretendente: Nebenhari.
É amplamente sabido que ele quer desposá-la.
Há mais de três anos que ele frequenta a casa de Septab com essa intenção.
Sob o ponto de vista do mundo, nada a se dizer contra ele: é rico, de boa família, de exterior agradável, mas lhe suplico não o escolher para marido.
Soube sobre ele coisas sinistras:
- é um temível mágico, e eu, como sua parente e melhor amiga de sua falecida mãe, acredito meu dever preveni-la.
— Obrigada pela bondade, Nekebet.
Creia que aprecio profundamente o interesse maternal que tem por mim, respondeu afectuosamente Nitétis.
Porém nesse ponto, lhe asseguro jamais me tornar esposa de Nebenhari.
Seu amor me inspira aversão e sua presença é uma cruciante inquietude.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 29, 2016 8:31 pm

Sinto-me mal sob seu olhar pesado e abrasador e, sem saber ainda o que você vai me contar, acho que há nele algo estranho e misterioso, mas me diga:
o que você sabe provém de quem?
— De Mihotep, a esposa de Psaru, parente do Hicrofante do Templo de Amon.
Instruiu-me da verdade que eu conhecia desde muito tempo, - respondeu a velha dama baixando a voz.
Ela me falou com hesitação, pois teme a vingança de Nebenhari, mas para você, eu precisava saber e a fiz tagarelar.
E continuou:
— Ela conheceu intimamente Karamat, a avó de Nebenhari, uma egípcia que aprendeu todos os segredos da magia e da arte de comandar as forças da natureza.
Logicamente ela esconde cuidadosamente sua ciência, mas, Mihotep contou-me uma série de factos.
Ele teve uma questão a resolver com o rico Penotem, a propósito de um prado, que no final das contas, foi concedido a este último.
Nebenhari jogou um malefício sobre o rebanho de seu competidor e os animais morreram às centenas.
Num outro caso, há oito anos mais ou menos, Nebenhari cortejava uma bela e rica jovenzinha de quem talvez você não se recorde, Nefert, a filha do zelador dos jardins reais.
Ela o recusou, preferindo outro jovem que, pouco depois, caiu doente e morreu em alguns dias.
Nefert começou a definhar, seca como planta sem água e sua mãe jurou a Mihotep que, durante sua agonia, viu um ser negro e horroroso que parecia sufocá-la.
E um facto bem recente:
Em uma região, Termutis, a sobrinha de Mihotep, caçoou de Nebenhari por causa de seu amor por você, predizendo que seria recusado.
Alguém contou isso ao feiticeiro e daí a pobre moça enlouqueceu até morrer.
E agora, eu temo por você, minha menina.
Não quero que se case com ele, porém sua vingança me amedronta.
Nitétis ouvia inquieta e preocupada.
— Mineptat também morreu de mal estranho e súbito, - murmurou ela com um suspiro.
De repente ela se asserenou tirando de suas roupas um amuleto suspenso por uma fina corrente de ouro e mostrou a Nekebet.
Então disse com segurança:
— Nada tema por mim; sou invulnerável a todos os malefícios.
Um bom velhinho me fez um sortilégio neste talismã e me disse que será a salvaguarda contra todas as bruxarias e maus olhados.
— Conte-me onde e como você viu esse velhinho, pois ignoro isso, - perguntou a velha dama.
— Há dois anos meu pai fez uma peregrinação ao Templo de Isis construído no deserto.
Papai me levou com ele e foi lá que vi um hierofante tão santo e tão sábio que todos os que dele se aproximavam o faziam com veneração.
Como ele me tratou com bondade, eu ousei lhe perguntar sobre meu futuro e se após a terrível perda que acabava de suportar, eu me tornaria esposa de outro homem.
Ele sorriu, pousou uma de suas mãos sobre minha cabeça, com a outra cobriu seus olhos e, durante alguns momentos, ficou imóvel; depois me disse:
"Seu coração será curado, mas somente quando a morte disputar aquele que é destinado a ser seu marido.
Quando a dor e as lágrimas depurarem e amolecerem seu coração, você conhecerá o amor verdadeiro e será feliz."
No dia seguinte, me deu este talismã, ordenando usá-lo sempre e um segundo, parecido com este, destinado a meu futuro noivo.
Esperando este noivo, coloquei o amuleto na estátua de Hator que está em meu quarto, - terminou a jovem rindo.
Nekebet se inclinou e beijou com veneração o precioso talismã de ouro, em forma redonda, que trazia gravado na face uma estrela com cinco pontas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 29, 2016 8:31 pm

— Uma graça dos deuses lhe foi destinada, querida Nitétis, estou bem segura.
Com esse perigo afastado, você deve pensar em se estabelecer.
Você está com dezoito anos, o que não é juventude para uma moça de sua estirpe e enfim, seu pai deseja seu casamento e você não pode chorar eternamente Mineptat.
— Ah! Certamente nunca encontrarei um homem como ele, - suspirou Nitétis.
— E preciso submeter-se à vontade dos deuses, mas me parece, que ninguém é mais digno de tomar o lugar de seu falecido noivo que Adiroma, cuja mãe me confiou que ele a ama ardentemente e é um bom partido sob todos os aspectos.
Seu cargo na guarda nobre do faraó assegurará a você uma brilhante posição na corte e seu carácter é a melhor garantia de sua felicidade.
Na opinião de todos, ele é leal e está muito bem colocado como poucos jovens tebanos.
Ao mencionar o jovem oficial, Nitétis corou vivamente:
— Tem razão, Adiroma é um homem muito atraente e, se pedisse minha mão, penso que aceitaria.
Não posso dizer que me inspire grande paixão ou que sua chegada faça bater mais forte meu coração, como fazia Mineptat, mas talvez - ela sorriu - os deuses me recusem a possibilidade de um desses amores que cegam, subjugam e transformam todo o ser.
— Em todo caso deixe-o amá-la.
O fogo virá, - falou Nekebet rindo.
O belo Adiroma saberá acender esse fogo.
A entrada precipitada de uma dama de companhia interrompeu a conversação:
— Nobre senhora, - exclamou ela, - o nobre Adiroma solicita ser admitido em sua presença.
— Certamente é bem vindo, - disse Nekebet sem esperar resposta de Nitétis.
Vá, Kama. Traga-o ao terraço.
Nitétis, que ficara vivamente corada, se refez, alisou os cabelos e recompôs as dobras de sua túnica.
Mal terminara esses arranjos quando apareceu o visitante anunciado.
Adiroma era um belo jovem de vinte e dois anos aproximadamente, esbelto e desembaraçado.
Cada um de seus movimentos denotavam força e saúde.
O olhar franco e leal de seus grandes olhos negros, a bondade que se patenteava de seu sorriso, revelavam simpatia e seu carácter honesto e serviçal, o faziam amado por todos que o conhecessem.
Saudou cortesmente as damas e se informou da saúde de ambas.
— Obrigada, os deuses abençoaram meus dias, - respondeu Nitétis, convidando-o a sentar, enquanto Nekebet se informava sobre sua mãe.
— Sou portador de uma mensagem da parte dela e contava ir a sua casa, nobre senhora, mas desde que os deuses me deram a graça de a encontrar aqui, lhe transmito o recado.
Depois de amanhã mamãe festeja meu aniversário e reúne amigos.
Ela espera que você, Nekebet, e o nobre Septab com sua família, nos dêem a honra de assistir a essa reunião.
As duas mulheres aceitaram o convite e, em seguida, Nitétis que já havia enrubescido sob o olhar ardente do jovem oficial, perguntou se ele não sabia de alguma novidade na residência real, e que lhes pudesse contar.
— Não, tudo segue a rotina habitual e, se houvesse algo de novo, seu pai saberia antes de mim, - respondeu Adiroma sorrindo.
Há a expedição ao país de Noharana, planeada pelo faraó, mas nada está decidido ainda.
Tenho, por enquanto, alguma coisa particular a lhe dizer:
vindo aqui, encontrei Nebenhari.
Olhou-me de soslaio, como é de seu hábito e tenho a convicção de que chegue a esta casa de um instante a outro.
Peço-lhe, nobre Nitétis, se tem alguma estima por mim, ordene ao guarda do portal dizer a Nebenhari, se vier, que você está repousando e não o receba!
Esse homem me é odioso.
Seu olhar suspeitoso e sinistro me pesa e o ódio que ele me testemunha é positivamente ridículo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 29, 2016 8:31 pm

— É fácil ser agradável a você em uma coisa de tão pequena importância.
Não tenho a mínima simpatia por Nebenhari, - respondeu Nitétis, batendo palmas.
Uma escrava apareceu e ela ordenou dizer a Nebenhari, se ele viesse, que não receberia ninguém.
Após meia hora de conversa animada, Nekebet disse ser tempo de voltar para casa.
Adiroma levantou-se, despediu-se e atravessando os apartamentos que conduziam à saída, disse:
— Permita, nobre mulher, que eu volte aqui.
Desejaria conversar sem testemunhas.
Nekebet acedeu a esse pedido com leve sorriso e, tendo tomado lugar em sua liteira, pediu ao jovem homem se sentar ao seu lado.
Quando os carregadores saíam do pátio interior, perceberam um carro parado diante do portal.
Junto da equipagem postava-se o guardião da porta, anunciando bem audivelmente que Nitétis, ligeiramente indisposta, não receberia ninguém.
No carro estava em pé um homem de aproximadamente trinta anos, magro, muito moreno e de talhe mediano.
Suas feições eram belas e regulares, mas seus lábios estreitos exprimiam uma impiedosa dureza e algo de enigmático, de sonso.
Uma dissimulação maldosa vacilava em seus olhos, sombrios como a noite e impenetráveis como um abismo.
À vista da liteira e de seus ocupantes, uma onda de sangue inundou o rosto de Nebenhari.
Instantaneamente seus olhos se fixaram como duas chamas sobre os de seu rival.
Ele puxou as rédeas e fez voltar seu carro com tal violência, que os fogosos corceis empinaram e o veículo levado a toda velocidade desapareceu numa nuvem de poeira.
Adiroma o seguiu com uma olhadela, escarnecendo.
— Acho que se não morrer de raiva, também não voltará mais aqui, - disse rindo.
Felizmente Nitétis é indiferente ao seu amor e ao seu ódio.
Nekebet nada respondeu, mostrando-se preocupada.
Ao fim de um instante o oficial rompeu de novo o silêncio:
— Nobre mulher, permita que eu a entretenha com uma questão muito grave para mim e que concerne à filha de Septab.
Você sabe que amo Nitétis e espero que ela me aceite como esposo.
Entretanto, estou impedido por uma circunstância que somente você, a amiga maternal da mocinha, pode esclarecer.
Sei que Nitétis foi noiva há quatro anos, do príncipe Mineptat, o sobrinho de nossa rainha, que a morte levou algumas semanas antes do casamento.
Desde então, ela tem impiedosamente recusado todos os partidos que se apresentaram e eu não compreendo isso.
Ela ainda ama o príncipe depois de tantos anos?
Está ligada a um juramento de ficar fiel à memória do finado?
Qual o mistério que a torna fria e invulnerável ao amor dos homens?
Mesmo estando frente a frente ela é reservada.
Eu lhe peço, Nekebet, me dizer o que se passa.
— Não vá atrás de quimeras e não fique com ciúmes de um morto, - respondeu Nekebet.
Sem dúvida Mineptat era o mais belo e o melhor dos homens.
Renunciou a uma melhor aliança para ficar noivo de Nitétis e que de melhor para subjugar o coração de uma mulher?
— E claro que ele era de tal forma perfeito, que Osíris julgou a terra indigna dele e o chamou a si? - disse ele.
— Como você é rancoroso, Adiroma!
Sem dúvida Nitétis muito amou Mineptat e pranteia sinceramente.
Você pode considerar como um rival esse homem pacífico que dorme na cidade dos mortos?
— No entanto, ele assombra o presente, - respondeu com despeito.
Sinto que Nitétis sonha ainda com ele e o considera a incorporação de todas as virtudes que um homem deve possuir; ela desdenha os que a amam com amor terrestre!
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 29, 2016 8:31 pm

— Todos esses sonhos de mocinha se evaporarão após o casamento e caberá a você fazê-la apreciar o amor terrestre.
Em todo caso, lhe juro que não há em sua vida nenhum mistério e nenhum juramento.
— Agradeço, nobre mulher, e espero que meu sincero amor possa fazê-la esquecer o passado.
Chegaram à casa de Nekebet, o oficial a ajudou a descer de sua liteira e partiu.
Ficando só após a partida de seus hóspedes, Nitétis se estendeu sobre o leito de repouso, fechou os olhos e se absorveu em graves meditações sobre a decisão que deveria tomar.
Ela não duvidava que nessa festa, dali a dois dias, Adiroma a pediria.
O grave momento se aproximava, quando ela, caprichosa e voluntariosa, se daria a um dono, um senhor.
Uma ruga se formou em sua fronte... que palavra dura: um senhor!
Sem dúvida Adiroma era um excelente partido, homem leal e bom; sim - ela o amava.
Mas também tinha seus defeitos; ela o sabia obstinado e violento.
Além disso, ciumento e sempre querendo mandar, achando que as mulheres eram criadas para obedecer.
Nitétis suspirou.
Como uma visão tentadora, surgiu em sua lembrança a imagem do príncipe Mineptat.
Por que não tinha ela podido lhe dar o nome de senhor?
À frente do príncipe ela nunca teve vontade própria.
Todo seu ser se submetia, dobrando-se quando um olhar acariciante de seus olhos veludosos mergulhava nos seus.
O simples som de sua voz embriagava Nitétis e, quando a morte cruel veio arrebatá-lo, ela pensou perder a razão.
Seu coração ficou petrificado de dor e nada podia reaquecê-lo.
Oh! se Nebenhari, o miserável, o tivesse matado com um malefício, como ela o odiaria, como gostaria de retribuir sofrimento com sofrimento!
Seus projectos de vingança a levaram novamente a Adiroma.
Seu casamento com o oficial faria certamente Nebenhari sofrer.
Com sua perspicácia feminina, tinha entendido a ávida paixão de Adiroma por ela.
Depois, era necessário se casar.
Ela já estava quase com dezanove anos e não tinha vocação para ficar solteira!
De resto, Adiroma era sem dúvida o mais simpático de seus pretendentes e por nada deste mundo se casaria com outro.
Essa última consideração pôs fim a todas as hesitações de Nitétis.
Recusando, ela poderia preparar o triunfo de Tbubui, a linda filha do segundo portador do leque, que havia feito todos os esforços para atrair Adiroma à sua rede e por pouco não teria conseguido.
Lembrou-se com raiva que durante muitas semanas o oficial havia frequentado assiduamente a casa do pai de Tbubui.
O casamento só não aconteceu porque Tbubui tratou Adiroma miseravelmente e encheu de favores Nebenhari e um outro pretendente.
Assim ela conseguiu novamente trazer Adiroma que estourava de ciúmes, a se emendar.
"Está decidido.
Vou aceitá-lo, - murmurou ela saltando do leito de repouso.
Mas o amor não me cegará, conhecerei seus defeitos, suas fraquezas e veremos quem de nós vai reinar!"
Na tarde da festa, uma sociedade numerosa e escolhida estava reunida na casa de Adiroma.
Sua mãe, a nobre Nera, estava sentada em meio aos convidados, na grande sala que se abria para os jardins, e conversava com uma volúpia que não deixava a seus interlocutores tempo para responder.
Era uma mulher de quarenta e oito anos, saudável, gorda e extremamente turbulenta.
Não era muito brilhante, mas boa, serviçal e nunca invejosa da felicidade alheia.
Adorava seu filho único e, vê-lo casado, segundo seu coração, embalar seus filhos em seus joelhos, era o sonho supremo dessa excelente mulher.
Seu único defeito era a mania de tagarelar com curiosidade fútil, investigando todos os falatórios de Tebas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 30, 2016 7:59 pm

Nitétis estava presente junto do pai.
Quando o repasto da tarde terminou e todos os hóspedes, animados pelo vinho que corria solto, se dispersaram nos salões e nos terraços, Adiroma se aproximou de Nitétis e, com um sorriso, lhe propôs um passeio pelo jardim.
A mocinha enrubesceu e se perturbou:
o terrível momento de renunciar à sua liberdade era chegado!
Contudo, se levantou sem hesitar e desceu com ele os degraus do terraço.
Em que termos Adiroma lhe proporia escravatura conjugai?
Esse pensamento a preocupava.
Com curiosidade mesclada de ansiedade, seu olhar foi até ele dissimuladamente.
Pelo menos ele estava pálido e inquieto.
Será possível que ela o recusasse...
Mas não. O rosto agradável do oficial não reflectia senão uma calma feliz, a quietude da vitória.
Tomada de súbito despeito, se afastou e percorreu com o olhar o jardim magicamente iluminado por uma lua que acabava de surgir.
— Foi para admirar esta noite bonita que você me propôs um passeio? - perguntou ela com ar zombeteiro.
Não sabia que você era admirador da lua e das estrelas.
Foi Tbubui que lhe inspirou esse gosto?
— Oh, não! Tbubui não se interessa nem pela lua nem pelas estrelas - um pouco de malícia vibrou em sua voz - é de bom gosto imitar os grandes da terra e me conformo com essa regra, porque me disseram que o vencedor de tantos corações femininos, o belo príncipe Mineptat, agora no seio de Osíris, celebrava seus mais belos sucessos sob os doces raios do astro da noite.
Vendo que Nitétis fizera um ar de descontentamento, calou-se e continuaram a andar.
Os dois jovens chegaram a uma larga ala ao fim da qual um banco de pedra convidava ao repouso.
— Uma outra razão ainda me inspira o desejo de lhe propor este passeio, - falou Adiroma depois de curto silêncio - é que as confissões de amor saem mais facilmente de lábios tímidos em meio a essas paragens encantadoras e a gente sente menos a derrota quando se declara vencido e se suplica ser aceito como escravo.
Nitétis se sentiu enrubescer vivamente.
— Eu teria a má vontade de recusar um escravo tão tímido e tão modesto? - disse ela, sentando-se sobre o banco para o qual eles se haviam dirigido.
Adiroma se colocou perto dela e, segurando suas mãos, a envolveu em um olhar apaixonado, deixando-a perturbada.
— Você me permite, então, confessar minha derrota e apresentá-la a nossos hóspedes como minha noiva?
A jovem egípcia fez um sinal afirmativo com a cabeça e não resistiu quando Adiroma a atraiu e premiu um beijo em seus lábios.
Um quarto de hora mais tarde os convidados, sabedores da grande novidade, cercaram com taças cheias o jovem senhor da casa e sua noiva, lhes desejando longa vida e prosperidade.
Era aproximadamente meia noite e a antiga capital do Egipto repousava após o trabalho e a fadiga do dia.
Na casa do portador do leque reinava igualmente um profundo silêncio.
Senhores e escravos estavam profundamente adormecidos.
Na ruela escura que seguia o muro do jardim de Septab, um homem envolto num manto escuro, caminhava silenciosamente; mas, evidentemente, conhecedor da topografia dos lugares por onde andava, parou sem hesitar perto de uma pequena porta de serviço e abriu-a com uma grande chave que tirou de sua cintura.
O desconhecido atravessou rapidamente o jardim e, chegando perto da casa, seguiu por uma longa galeria sustentada por pequenas colunas, pintadas como se fossem troncos de palmeiras.
Ao sair dessa galeria, desembocou em uma rotunda, fechada de um lado por moitas cobertas de flores e do outro pela fachada da casa, que, apresentava um terraço aberto, elevado de quatro a cinco degraus, embaixo dos quais estavam esculturas de duas esfinges agachadas.
O intruso tirou seu manto e os raios brilhantes da lua iluminaram a cabeça de Nebenhari.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 30, 2016 7:59 pm

Trazia o claft, uma túnica raiada e sobre o peito nu estavam muitos amuletos de formas estranhas.
Uma expressão de sombria resolução estava pintada no rosto desse homem.
Postando-se diante do terraço, elevou os dois braços e, agitando uma varinha com sete nós que estava em uma das mãos, pronunciou com voz cadenciada uma conjuração em língua desconhecida.
Sua vontade era tal que as veias da testa, das têmporas e do pescoço incharam-se como cordas, e seus olhos sinistros, sob suas sobrancelhas franzidas, pareciam fosforescer.
Depois de certo tempo ele chamou por três vezes em voz baixa:
"Nitétis, venha aqui, eu ordeno!"
Alguns minutos se passaram em profundo silêncio.
Logo o pesado cortinado de lã que fechava a entrada se elevou e uma esbelta figura de mulher apareceu no terraço: Era Nitétis.
Sua veste de noite, longa e branca como a neve, desenhava suas formas flexíveis e, sob os raios da lua que a clareava, ela se assemelhava a uma visão sobrenatural.
A cabeça tombada para trás, os olhos fechados, mais deslizava que andava sobre as lajes, com os pés descalços.
Avançava como que atraída por uma vontade estranha.
No penúltimo degrau parou e, com um doloroso suspiro, comprimiu as mãos contra o peito.
Com os olhos cravados na moça, respirando pesadamente, Nebenhari se aproximou, elevando a mão que segurava a varinha.
Perguntou com voz imperativa:
— Você me ouve?
— Sim.
— Você me vê?
— Sim.
— Pois bem! eu ordeno que esqueça Adiroma e me aceite como esposo quando eu lhe peça.
— Não, não! - murmurou ela recuando.
— Você deve me obedecer, amar-me e esposar-me eu ordeno! - falou Nebenhari aproximando-se.
Com um gesto ameaçador, ele levantou a varinha para apoiá-la na testa da jovem; ela recuou e, com um gesto de pavor, cobriu-se com a mão, para aparar o golpe.
Subitamente ela elevou os braços em direcção a uma visão de seu espírito e exclamou:
— Rameri, Mago Divino, salve-me!
Furioso, os olhos coruscantes, Nebenhari deu novamente um passo em direcção a ela.
— Obedeça! - Sibilou ele, quase batendo em sua testa.
Mesmo estando adormecida, Nitétis parecia agora dirigida por uma força oculta.
Agarrando o amuleto sagrado, amálgama de sete metais que lhe havia dado o velho hierofante, ela o elevou com as mãos num gesto de irresistível autoridade.
No mesmo instante, um raio de luz azulada, cintilante como uma chispa de diamantes, jorrou do talismã e bateu no peito e no braço levantado do mago.
Como atingido por uma flecha Nebenhari caiu de joelhos e seu braço se abaixou inerte.
Nesse momento ele estava horroroso:
o rosto convulso, a boca espumando; vomitava uma onda de censuras torpes, de ameaças e conjurações.
Incapaz de se apaziguar e se refazer, começou a rastejar em direcção a sua vítima, tentando atingi-la com sua varinha; mas a cada passo, o raio protector batia sobre ele, curvando ao solo o adepto das forças impuras que se torcia como em contacto com ferro em brasa.
Essa luta assustadora entre a luz e as sombras durou vários minutos, depois, definitivamente vencido, Nebenhari se arrastou sobre os joelhos para fora do círculo mágico criado pela cintilação luminosa; arquejando, inundado de suor, se encostou a uma árvore.
Como um animal feroz, ele, com os olhos, devorava Nitétis, que estava prostrada nos degraus; mas perto dela velava, como uma sentinela fiel, uma estrela brilhante que parecia surgir de seu peito.
Enfim ele se virou e se foi.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 30, 2016 7:59 pm

Chegando em casa, bebeu uma taça de vinho na qual derrubou algumas gotas de um líquido escuro e, se estendendo em seu leito, dormiu profundamente.
Na manhã seguinte chegou a Nebenhari uma nova decepção - um de seus amigos, um egípcio, lhe contou a notícia do noivado de Adiroma e Nitétis.
Ele mal teve forças para dissimular sua ira e, desde que sua visita partiu, se fechou em seu quarto e ordenou que sob nenhum pretexto deveriam importuná-lo, esperando com impaciência o pôr-do-sol - era nas sombras que buscava sua força.
Quando veio a noite, desceu por um corredor escuro a um vasto subterrâneo, dividido por uma cortina de couro em dois compartimentos completamente diferentes no aspecto e no arranjo.
O primeiro parecia um laboratório de alquimista, com suas prateleiras carregadas de canopos(1), vasos, frascos e ânforas de formas estranhas, o chão e os cestos se enchiam de rolos de papiros; viam-se suspensos em ganchos, maços de ervas secas e membros dissecados de animais diversos; perto de uma mesa de pedra maciça pousada ao meio da sala e carregada dos mais diversos objectos, se encontrava um assento.
Nebenhari pousou sua lâmpada sobre a mesa, iluminou uma tocha e passou ao compartimento contíguo.
Neste, as paredes eram pintadas; sobre o fundo negro estavam traçados em vermelho hieróglifos e signos cabalísticos; sobre uma superfície lisa, lembrando um painel, uma gigantesca serpente se levantava ameaçadora.
A excepção de alguns tripés, um grande cofre fechado e uma estante, essa sala subterrânea estava vazia.
Nebenhari começou por acender os carvões que amontoou sobre os tripés e ali jogou punhados de ervas secas, grãos e um pó que queimou crepitando com chama esverdeada, enchendo o subterrâneo de um cheiro azedo e desagradável; em seguida, se despojou de suas vestes, cingiu a testa com uma banda preta bordada de sinais cabalísticos, tomou um ponteiro fendido e se postando em meio aos tripés, dispostos em triângulos, traçou com giz ao redor de si um círculo, ao meio do qual ficou em pé.
Elevando a forquilha começou, com voz cadenciada, a pronunciar suas conjurações; logo, golpes secos ressoaram na parede e nas lajes; depois, clarões vacilantes, vermelhos e esverdeados, apareceram surgindo dos cantos sombrios para se agrupar ao redor dos tripés.
Essas chamas pareciam se fundir em uma fumaça negra que se condensou tomando a forma de seres estranhos e horríveis, mistos de homens e animais.
Rastejando ao redor do círculo mágico que não podiam franquear, esses seres terríveis estendiam suas "mãos", procurando agarrar o ousado mágico que os tinha invocado dos abismos do Amenti; mas nada conseguindo, eles se agacharam, fixando Nebenhari com seus olhos abrasadores, nos quais a inteligência se mesclava com uma infernal perversidade.
Sem prestar atenção a seu público odioso, o mágico continuava seu canto bizarro, elevando cada vez mais a voz; depois, como um apelo, pronunciou três vezes uma palavra estranha e desconhecida.
Então, sob um dos tripés, surgiu turbilhonando uma coluna de fumaça negra que se elevou até o tecto e, fendendo-se de alguma forma, como uma cortina, deixou ver sua assustadora aparição:
sobre um gigantesco torso humano erguia-se uma cabeça de bode com cornos recurvados ao alto, entre os quais, uma chama avermelhada queimava como uma tocha; imensas asas negras estendiam-se em suas espáduas, perdendo-se no fundo sombrio do subterrâneo.
— Por que me chama? - perguntou o espírito mau.
— Quero sua ajuda para destruir meu rival, separá-lo de Nitétis para que eu ganhe o coração daquela a quem amo.
— Para desligar seu rival de sua noiva é preciso criar uma mulher mais bela e mais poderosa.
Séfora, sua escrava, morta ontem de esgotamento, lhe servirá neste propósito.
Amanhã, à meia-noite, faça a grande conjuração e, com minha ajuda, um dos meus servidores animará esse corpo inerte abandonado pela alma que o habitava, seduzirá Adiroma, afastando-o de Nitétis e, quando eles celebrarem o casamento, se lançará a flecha mortal.
Com seu rival destruído nós tomaremos conta de Nitétis.
Nebenhari escutou com olhos brilhantes de selvagem satisfação; então pronunciou as palavras mágicas que ordenavam ao ser inferior se dissolver e reentrar no invisível.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 30, 2016 8:00 pm

O egípcio empregou a manhã do dia seguinte a diversos preparativos.
Em primeiro lugar, fez aquisição, em nome de uma mulher chamada Séfora, de uma pequena mas elegante casa situada nos confins de Tebas.
Essa habitação, que se vendeu toda mobiliada e com os escravos indispensáveis ao serviço, convinha a seus planos.
Em seguida, ele transportou ao subterrâneo os objectos dos quais tinha necessidade, para a obra assombrosa a que se propunha.
Um pouco antes da meia-noite, Nebenhari, o corpo untado de um unguento com aroma acre e forte, desceu ao subterrâneo que estava completamente mudado desde a véspera.
Agora, elevava-se ao fundo um estrado alto com sete degraus, encimado de um dossel sustentado por quatro pequenas colunas.
Em três lados, pregas sombrias pendiam até o chão.
No último degrau, viam-se duas esfinges cujas cabeças fosforescentes se destacavam vigorosamente no fundo escuro da sala.
A cada uma delas se encostava um tripé e um terceiro se encontrava sobre o estrado.
Por último, nesse estrado, um leito de repouso recoberto de um pano ao pé do qual se apoiava um grande disco de metal pousado sobre o último degrau.
Nebenhari começou por acender os carvões sobre os tripés, depois jogou ali punhados de ervas que exalaram um odor nauseabundo e sufocante, em seguida, colocou à cabeceira do leito uma vela feita de gordura de crianças mortas antes de nascerem.
E ao pé, um candelabro de sete braços com círios de cera preta.
Isto feito, tirou o pano descobrindo o corpo nu da mulher estendida sobre o leito:
era uma jovem e bela criatura com formas esculturais, cujos longos cabelos loiros pendiam até o chão; sua tez deveria ter sido branca, mas já tinha tomado a cor baça e esverdeada da matéria abandonada pelo princípio vital; no belo rosto rígido da morta, parecia congelada uma expressão de sofrimento e depauperamento.
Essa mulher fora uma prisioneira de guerra comprada por Nebenhari para a empregar em suas experiências ocultas; mas, abusando sem misericórdia das forças da desditosa menina, ele havia quebrado o laço de vida do frágil organismo.
Sobre o peito do cadáver, o mago pousou um morcego com asas estendidas; entre as patas do animal encontrava-se uma escudela de louça cheia de tufos de ervas alcatroadas.
Terminados esses preparativos, Nebenhari, de forquilha na mão, se colocou no círculo que havia traçado ao pé dos degraus.
Inclinou-se para o norte, para o sul, oriente e ocidente, pronunciou um canto monótono, conjurando os quatro elementos e seus servidores para virem ajudá-lo; depois se prosternou e invocou Tifonset, pedindo-lhe também auxiliar sua vingança.
Em seguida, agarrou um martelo posto sobre os degraus e deu um golpe sobre o disco de metal.
Um som vibrante, lancinante como um grito de angústia, encheu o subterrâneo, fazendo tremer a abóbada, ao mesmo tempo que um jorro de chamas esguichou do centro do disco, inundando-o de um clarão incandescente que logo se apagou.
A varinha mágica que Nebenhari tinha estendido à frente, brilhou com um clarão esverdeado e, quando elevou o braço, essa chama estranha se destacou e, cortando o ar, iluminou a vela colocada na cabeceira, a qual se pôs a queimar com um crepitar sinistro; as ervas alcantroadas sobre o peito queimaram vermelhas como sangue e, enfim, os sete círios negros cuja luz multicor aclarou fantasticamente essa cena lúgubre.
Pegando de novo o martelo, Nebenhari bateu sobre o disco mais dois golpes:
as possantes vibrações que encheram o subterrâneo ainda não estavam extintas quando rumores estranhos se elevaram de todas as partes; um estrondo surdo, semelhante ao barulho das vagas que se chocam com os rochedos da costa, fez tremer as paredes; trovões troaram, raios e clarões sulcaram o ar com seus ziguezagues de fogo, o vento assobiava e gemia.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 30, 2016 8:00 pm

Nesse caos de elementos desencadeados, começaram a surgir larvas em nuvens negras turbilhonando como tropas de morcegos.
Investindo contra o cadáver sobre o qual se arrojavam, erguiam suas cabeças imundas, disputando a presa com gritos, uivos e roucos suspiros.
Essa luta se prolongou por instantes; então a multidão odiosa recuou; uma das larvas, dentre as muitas que havia, encolhida sobre a cabeça da morta, parecia se infiltrar em seus cabelos louros, não permitindo a aproximação de competidores, crivando-os de jactos eléctricos.
Erguendo os dois braços, Nebenhari pronunciou uma conjuração para restabelecer a circulação do sangue; pegou um bodinho preto que, deitado com os pés amarrados, tinha sido escondido até aquele momento nas dobras da cortina, e lhe cravou no pescoço uma faca brilhante.
O sangue jorrou da ferida borbulhando; o mágico encheu do liquido quente uma taça posta a seus pés, após o que, de um salto sobre o estrado, ele a esvaziou na chama que crepitava ainda sobre o peito do cadáver.
Ouviu-se um ferver semelhante ao da água caindo sobre o metal incandescente; um estrondoso trovão acompanhado de gritos e roucos gemidos sacudiu as paredes; as velas se apagaram subitamente sob o vento possante que parecia varrer o subterrâneo... e então tudo ficou silencioso.
Nebenhari jogou sobre os dois tripés, novos punhados de ervas e no clarão vacilante que elas projectaram, ele viu o corpo de Séfora estremecer com um longo suspiro, estirar os membros flexíveis e sacudir com delícia a massa de seus cabelos dourados.
Mesmo o destemido mágico fremiu com esse espectáculo; um arrepio gelado o sacudiu e, dominado por terror momentâneo, cobriu os olhos com as mãos.
O contacto com uma mão gelada que procurava estender até seu pescoço o trouxe à realidade; fixando-o com olhos brilhantes, uma indefinível expressão de crueldade e um sorriso maldoso nos lábios, a morta-viva estava de pé diante dele.
"Um segundo de fraqueza e eu me ponho à mercê dum monstro que invoquei!...", pensou Nebenhari, e, pronto como um raio, vibrou um golpe duro da forquilha na cabeça dela.
— Para trás!
Serpente do Amenti, e trema diante de seu Mestre! - disse ele em voz imperativa.
A mulher se curvou com um estremecimento:
— Ordene! - Murmurou ela.
Intimando-a a segui-lo com um gesto de ordem, Nebenhari passou para a primeira sala, acendeu as tochas e, designando uma mesa sobre a qual se viam vestes e uma caixinha cheia de jóias, ele disse:
— Vista-se.
Com habilidade estranha e felina, ela se paramentou com uma túnica branca bordada, colocou braceletes, enfeitou os cabelos e cingiu a testa com uma banda trabalhada em ouro.
Com cruel satisfação Nebenhari contemplou essa sinistra e maravilhosa beleza:
— Você será bem forte, Adiroma, se resistir... - falou trocista.
Sob a ordem de Nebenhari, a mulher cobriu a cabeça com um véu espesso, envolveu-se num manto escuro, e saíram do subterrâneo.
Uma hora mais tarde uma pequena barca conduzida por dois remadores punha o mágico e sua companheira na entrada do jardim pertencente à casa comprada na véspera em nome da nobre Séfora.
Os escravos reunidos por ordem do egípcio saudaram com temor e respeito sua nova dona.
Quando os servidores se retiraram, Nebenhari se voltou para Séfora - deste instante em diante daremos esse nome à morta-viva:
— Você está em sua casa; vigie a fim de que tudo esteja pronto a receber um hóspede que lhe ordeno escravizar e que lhe permito destruir.
Eis em primeiro lugar o que deve você fazer:
amanhã à tarde haverá festa em casa de Neco, o condutor do carro do faraó; estarei lá, assim como um oficial chamado Adiroma, que lhe apresentarei.
Você vai se apresentar nessa reunião, se interessar por Adiroma e se fazer amar por ele; se possível, faça com que ele a conduza de volta e ponha em seu dedo o anel que lhe estou dando.
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