Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 30, 2016 8:00 pm

— Obedecerei, Mestre.
— Conto com isso; servindo-me, permitirei a você fruir por longo tempo a vida nesse corpo que lhe dei.
Em casa de Neco, o jovem e belo condutor do carro de Ramsés III, havia festa.
A elite da juventude dourada de Tebas e algumas mulheres de origem duvidosa, das que convivem com a hipocrisia, se achavam reunidas.
A alegria estava no apogeu e o vinho consumido em abundância esquentava cada vez mais o cérebro dos convivas, quando um escravo azafamado acorreu e anunciou ao senhor que uma rica liteira acabava de parar diante da casa e que uma muito nobre mulher, mas nunca antes vista, solicitava permissão de tomar parte na festa.
Uma gargalhada geral acolheu a esse pedido.
— Lógico! Certamente!
Faça-a entrar, Neco, você não pode decentemente recusar hospitalidade a uma mulher, talvez apaixonada por você, - gritou muita gente jovem com malícia.
— Espera, antes de tudo quero saber o aspecto da visitante, se for feia ou velha eu a despeço sem misericórdia, - replicou ele de modo espaventado, lançando-se para fora.
Alguns minutos mais tarde, voltou conduzindo uma jovem de surpreendente beleza, que ele apresentou aos outros como sendo a nobre Séfora, viúva de um funcionário morto em Sais e há pouco estabelecida em Tebas.
Como fascinados, os homens fixavam a bela desconhecida e, sob o olhar estranhamente queimante de seus olhos azuis sombrios e brilhantes como a pedra safira, alguns se sentiram mal.
Quanto às mulheres, todas - sem excepção - sentiram profunda aversão pela intrusa.
Por sua verve, sua alegria, suas espantosas réplicas, Séfora logo se tornou a rainha da festa; mas, com grande despeito de Neco e de alguns outros, ela só se preocupava com Adiroma.
A predilecção pelo jovem oficial era tão visível e o sucesso de Adiroma tão evidente, que seu amor próprio foi subjugado e logo que a encantadora o rogou, com sedutor sorriso, para conduzi-la a casa, ele acedeu sem hesitar.
Na liteira, a conversa continuou primeiro com animação, depois um singular torpor invadiu Adiroma; a cabeça girava, e por um instante perdeu a consciência de si mesmo.
Esse incidente foi tão fugidio, que mal se apercebeu do resto, e, quando se despediu de Séfora, trazia no dedo um soberbo anel de esmeralda que todos haviam admirado na mão da desconhecida.
Havia ainda prometido ir no dia seguinte passar a tarde com ela.
Quando ele acordou no dia seguinte, todo seu ser estava radiante de lembranças dela; ele acreditava não haver jamais conhecido tão adorável criatura, cuja imagem empalidecia a de sua noiva e foi quase com raiva que ele pensou em Nitétis e na necessidade de lhe fazer uma visita.
A filha de Septab estava ainda em seu quarto de vestir quando ele chegou, sentindo-se forçado a visitá-la, jogou-se em um assento e se pôs a sonhar com a imagem da tentadora Séfora, cintilante diante de seu olho espiritual.
Sempre contemplando a esmeralda que brilhava em seu dedo, rememorava com satisfação a preferência não disfarçada que a estrangeira lhe havia testemunhado.
Ele esqueceu tão completamente de Nitétis, que não reparou na jovem entrando travessa e sorridente.
Deslizando por trás dele, passou em seu pescoço uma cadeia de ouro, na qual se balançava um amuleto.
Como batido por uma comoção eléctrica, Adiroma saltou de sua cadeira berrando; pareceu-lhe que um torrencial calor e uma corrente de ar gelado provocaram violento choque, arrebatando-lhe a respiração.
Assustada com sua aparência de sofrimento e suas exclamações, Nitétis recuou empalidecendo:
— Que foi Adiroma?
Está doente?
— Não, mas o que você me fez? - Perguntou ele bruscamente.
— Nada, coloquei em seu pescoço o amuleto que Rameri, o Mago Divino, fez para meu noivo e do qual lhe falei outro dia.
Por um momento o jovem homem esqueceu Séfora; a afeição profunda e sincera que ele sentia por Nitétis pareceu se refazer e, sentando-se perto dela, falou de amor e fez planos para o futuro.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 30, 2016 8:00 pm

— Ah! que anel lindo!
Ainda não o conhecia! - Exclamou a jovem percebendo de repente o anel.
— É um presente, - respondeu Adiroma enrubescendo; recobrando seu mal estar íntimo, se apressou em se despedir.
Preocupado e de cabeça pesada, o jovem chegou em casa.
Alguma coisa esquisita e inexplicável se passava em seu íntimo; dois poderes pareciam aí lutar, dois amores - um calmo e doce, o puxava à sua noiva; o outro, violento, selvagem, absorvente, o arrastava a Séfora.
Duas sensações não menos singulares se apartavam em seu corpo:
uma agradável, de um calor que se espalhava em seu peito, enquanto um frio mortal gelava seu braço direito, onde parecia haver uma guerra invisível, cujas unhas se cravavam em sua carne.
Atormentado por esse mal-estar, andava a passos largos pelo quarto quando, subitamente, lembrou sua promessa de ir à casa de Séfora tomar a refeição da tarde.
Um novo combate se travou em seu coração - a honestidade lhe soprava que, tendo em consideração sua noiva, deveria evitar a mulher que, certamente, era uma aventura; a paixão o arrastava a essa picante aventura, insinuando-lhe sofismas de mil formas.
— Por Rá e Osíris! - gritou ele enfim, já impaciente - eu sou louco; creio que é muito escrúpulo por uma simples e inocente visita!
Ainda não estou casado, e tenho, ora, o direito de fazer uma visita a uma linda mulher durante os últimos dias de minha liberdade!...
Pôs fim a suas últimas hesitações e ordenou atrelar seu carro.
Despedindo o condutor, dirigiu-se até o bairro de Tebas sozinho.
Séfora o recebeu radiante, de mãos estendidas correu ao seu encontro.
Mas de repente empalideceu, estremeceu, e foi com voz incerta que ela convidou Adiroma a partilhar seu jantar.
Espantado, o jovem homem a seguiu sobre o tecto plano onde os esperava uma mesa sumptuosamente servida.
O ar fresco e puro da tarde, o aroma das flores que subiam do jardim, o selecto festim - tudo convidava ao bem-estar e à alegria; e Adiroma se abandonou cada vez mais; mas sua bela hospedeira parecia oprimida, sua frescura, como o brilho de seus olhos, estavam apagados.
Ao encher o copo do rapaz, servindo-o com animação, ela evitava cuidadosamente olhar o amuleto que se balançava em seu pescoço.
Cada vez mais esfogueado, o oficial examinava sua vizinha, não compreendendo absolutamente seu estranho abatimento.
Afinal ele a enlaçou e pediu, atraindo-a para si:
— Que você tem Séfora?
Está indisposta?
Lívida e trémula, a jovem mulher se jogou para trás.
— O ciúme me oprime, murmurou ela; se você ama e aspira a me possuir, tire e jogue longe esse amuleto que sua noiva lhe deu.
Adiroma estremeceu de espanto!
Por qual mistério Séfora poderia saber que o talismã suspenso em seu pescoço lhe havia sido dado por Nitétis, algumas horas antes?
Tomado de vago temor supersticioso, olhou sua vizinha que, curvada sobre si mesma, como uma pantera pronta a dar o golpe, o fixava com olhos de fogo.
Ao vislumbre do sol que se deitava, as pupilas azuis lhe pareceram esverdeadas e uma chama jorrava, fascinante como o olhar da serpente que subjuga sua vítima.
Embriagado, Adiroma contemplou a bela tentadora; todos os seus sentidos estavam em ebulição e a mais grosseira paixão o escravizava, expulsando de seu coração e de sua memória a imagem pura de sua noiva e a palavra dada; quanto mais o calor que vinha do talismã o enfraquecia, mais o frio subia em seu braço, invadindo todo seu ser.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 30, 2016 8:00 pm

Cego, fascinado, esquecendo honra e dever, ele arrancou o talismã, lançando-o longe, nas lajes.
— Por você, Séfora, eu sacrificaria tudo no mundo!
Murmurou ele se inclinando para ela.
— Oh, agora você está de bem comigo! - sussurrou ela, enlaçando seu pescoço e pressionando um beijo nos lábios do rapaz, que estremeceu sob curiosa sensação: parecia-lhe que duas serpentes geladas o estrangulavam, enquanto a boca fervente sobre a sua sugava e lhe absorvia a própria vida, que ia abandonando seus membros pesados e transidos dum frio mortal.
O sol se levantava quando Adiroma deixou sua amante; foi vã sua procura, sobre o tecto chato, da corrente que na véspera ele havia jogado longe; o talismã tinha desaparecido e foi com esquisita e desagradável sensação que voltou para casa.
Nitétis naquele dia tinha se levantado inquieta; um sonho singular e assustador perturbou sua noite; viu um abismo negro se cavar entre ela e Adiroma, e um monstro pavoroso puxar o jovem nesse abismo.
Tomada de pânico e pavor, ela invocou o socorro dos imortais; foi quando Rameri apareceu e disse:
"Tire do dedo de seu noivo a esmeralda que lhe deu a mulher do Amenti e ele se salvará."
Como uma verdadeira egípcia, Nitétis acreditava na veracidade dos sonhos; nessa mesma manhã iria visitar Nera, que teria boa explicação para seu sonho.
Depois tomaria de Adiroma o anel nefasto.
A jovem se preparou para sair, quando chegou inopinadamente sua amiga Benemba, a irmã do Neco, casada com um escriba real.
— Mande sair suas escravas, quero lhe falar de coisas bem sérias, - disse Benemba, que parecia apressada e cuidadosa.
Minha grande amizade por você me faz preveni-la da singular conduta de seu noivo, - começou ela quando se acharam a sós, - escute o que me contou Neco e o que já tagarela toda a cidade.
Relatou a chegada da desconhecida à festa nocturna, o convite feito a Adiroma para acompanhá-la e, enfim, o índice mais grave:
o anel de esmeralda que todo mundo havia admirado no dedo da desconhecida ornava agora o dedo do oficial, que, com toda evidência, se deixava arrastar a uma escandalosa aventura, pois no mesmo dia, pela manhãzinha, dois jovens, amigos de Neco, o tinham visto sair da casa de Séfora.
Nitétis corou vivamente durante essa narrativa.
— Agradeço o aviso, Benemba, e saberei recompensá-la, - respondeu ela; um sombrio relâmpago jorrou de seu olhar.
Hoje mesmo exigirei de Adiroma uma explicação e, se ele não puder se desculpar, provarei que não estou disposta a ser alvo do riso de Tebas.
— Foi muito difícil chegar a lhe dizer tudo isso... aprovo sua reacção e... não tomo mais seu tempo, - respondeu a jovem mulher se despedindo.
Chegando à casa de Nera, Nitétis soube que acabava de sair, mas Adiroma estava em casa e veio saudá-la, convidando-a a esperar o retorno de sua mãe.
Nitétis reparou imediatamente á palidez de seu noivo e o incómodo visível que o fazia evitar olhar em seu rosto.
Após conversações superficiais, ela olhou a esmeralda, louvando-lhe a beleza e pedindo a Adiroma que lhe desse essa jóia.
— Este anel? Impossível! - Balbuciou ele - peça-me qualquer outro.
— Essa recordação lhe é tão preciosa? - observou Nitétis com sarcasmo.
Pois sim! Eu lhe pergunto então como se explica que meu noivo levou de uma festa nocturna uma mulher desconhecida, se dá tanto com ela que ganha um anel, e só a deixa ao amanhecer?!...
Adiroma se endireitou encolerizado.
— Não tenho satisfação nenhuma a dar de meus actos, - disse ele com hostilidade; - você pensa que vou me tornar seu marido para ser seu escravo e viver perguntando onde posso ir e com quem posso falar?
Seu ciúme é ridículo!
Os lábios lhe tremiam; Nitétis escutou com as sobrancelhas franzidas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 30, 2016 8:01 pm

— Tem razão! Ter ciúmes de você seria ridículo, - respondeu ela o medindo com os olhos, cheia de desprezo.
Somente fique certo, jamais você teria necessidade de minha permissão para cometer qualquer covardia, pois você jamais será meu marido.
Guarde o anel que a cortesã lhe deu!
Entre nós está tudo acabado.
Durante essa altercação, Nera chegou de seu passeio e, à entrada da casa, havia encontrado Nekebet, que tinha acorrido a lhe contar os rumores escandalosos advindos da conduta de seu filho.
As duas mulheres se dirigiam para o terraço quando, na entrada da pequena sala de recepção, notaram os noivos e as últimas palavras de Nitétis chegando a seus ouvidos:
— Hator, possante deusa - proteja-nos!
Que se passa aqui? - exclamou a boa Nera sobressaltada.
Nitétis, meu bem, que está dizendo?
E você, Adiroma, fica calado ao invés de se desculpar diante de sua noiva?
— Não tenho mais noiva e acho que Nitétis faria bem se nos libertasse, aos dois; estava enganado julgando amá-la e agora somente compreendi o que é o verdadeiro amor.
Nitétis deu uma gargalhada dura e mordaz.
— Você compreende, nobre Nera, a resposta de seu digno filho; foi preciso encontrar uma reles cortesã e aventureira para entender o verdadeiro amor.
Eu também agradeço aos deuses por ter reconhecido a tempo que estava enganada, tomando-o por um homem decente.
Adeus! Eu lastimo, boa Nera; acreditei poder chamá-la Mãe e rogarei aos Imortais a sustentar no pesadelo que a espera.
Ela se virou e saiu, seguida de Nekebet, que resolvendo fugir a um entrevero familiar acreditava seu dever reconduzir a jovenzinha.
Triste e sombria Nitétis reentrou em casa.
Mortalmente ferida em seu orgulho lhe era penoso falar, mesmo a Nekebet; esta compreendeu seus sentimentos e o desejo de solidão, instalou-a em um leito de repouso e se retirou.
Mas Nekebet, sabendo que Septab acabava de entrar no palácio, foi para junto dele fazê-lo sabedor das ocorrências.
O portador do leque era homem violento, transbordou de cólera; foi para junto da filha a abraçou e lhe recomendou ficar tranquila, visto que ele tiraria vingança magnífica da injuria feita a sua filha.
Mas para seu grande espanto, Nitétis sacudiu negativamente a cabeça com um calmo desprezo e um indomável orgulho vibrava em sua voz quando respondeu:
— Se você me ama, papai, não suje a mão castigando o imbecil - jamais amei Adiroma e nada estou perdendo; se eu o aceitei foi mais para satisfazer seu desejo, pai, de me ver casada.
Ficando só com seu filho, Nera se jogou sobre ele como um falcão:
— Mas que escândalo!
Vergonha sobre você, Adiroma!
Age como um demente!
Quero saber o que significam suas imprudentes palavras.
— Significam que sou feliz de me ver livre para desposar Séfora, a única mulher que amarei sempre.
— Você está louco!...
Louco varrido!
Gritou Nera com voz aguda, agitando os braços sobre a cabeça dele; você, filho de Rahotep, desposar uma obscura aventureira que nenhuma egípcia honesta admitiria em sua casa?!
E crê que eu sobreviveria a isso?
Jamais, jamais essa criatura, pela qual você ofendeu a virtuosa Nitétis e seu nobre pai, passará pela soleira de minha casa!
— Ela passará a soleira de minha casa como esposa, tão certo quanto o de eu estar diante de você, de pé! - respondeu Adiroma; mas se minha mulher a desagrada, podemos nos separar de você...
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 30, 2016 8:01 pm

A pobre mãe pensou cair de costas e, batida por tão dura resposta, mergulhou em lágrimas.
- Adiroma, meu menino querido, torne a você...
Você está enfeitiçado, é um amor do inferno que o apanhou!
Vamos ao templo, talvez com abluções e amuletos os padres o curem.
— Não, mãe, é inútil; eu sei o que faço e não tenho necessidade de ser curado de um amor legítimo e natural.
Quinze dias se passaram; Adiroma resistiu na resolução tomada e a notícia de seu casamento com a desconhecida era a tagarelice de Tebas.
A bela e misteriosa mulher, vinda não se sabe de onde, despertava curiosidade geral.
Desde a festa em casa de Neco ela não apareceu em parte alguma, mas Adiroma havia levado três de seus amigos a casa dela, entre os quais o condutor do carro do rei; todos ficaram maravilhados com o espírito e a graça sedutora da jovem diferente, cuja tez tão rosada coloria o rosto pálido e tão transparente como jamais se tinha visto.
Nitétis, ofendida com todo o ruído que provocava essa aventura, evitava sair; apesar da máscara de desprezo gelado em que se cobria, seu coração estava profundamente ferido.
Quanto a Nera, seu desespero ultrapassava todos os limites; os preparativos para o casamento a exasperavam.
No dia em que Adiroma celebrou com pequena festa seu noivado oficial, a pobre Nekebet acreditou ser seu dever não abandonar a amiga, temendo ver Nera perder a razão pelo desespero e cólera.
Na casa de Séfora houve a reunião; ali se festejava o noivado da linda senhora do domicílio que, muito bem paramentada, amável, cheia de verve, presidia à festa.
Terminado o repasto, passou-se ao terraço, ornado com profusão de plantas raras e guirlandas de flores; perto de mesinhas carregadas de vinhos e frutas, agrupavam-se umas oito pessoas jovens e a conversação, animada por numerosas libações, prosseguia mais animada ainda.
Sozinho, Adiroma parecia pálido e derrotado; falava bruscamente, suas mãos eram febris, uma inextinguível sede o devorava.
Sua bela noiva estava cheia de amor e de atenção para com ele, mas cada vez que ela o encarava, vinha ao rosto dele uma expressão de sofrimento, um relâmpago jorrava dos olhos esverdeados da jovem e um misterioso sorriso brincava em sua boca.
Subitamente ela se sacudiu num estremecimento, um palor lívido invadiu seus traços, os olhos perturbados e dilatados se fixaram na ala que conduzia ao terraço:
ali acabava de surgir a alta e esguia figura de um padre vestido com longa veste branca.
Teria sido difícil lhe deduzir a idade:
seu rosto bonito parecia jovem, expressão de calma e superioridade reinavam nele; via-se que dominava evidentemente toda paixão humana e isso só se poderia dar a uma experiência de vida bem longa.
Seus olhos límpidos e profundos pareciam penetrar o fundo da alma de cada um.
Espantados com a vinda desse padre que ninguém dali conhecia, os jovens se tomaram dum respeito involuntário, levantando-se a fim de o saudar.
— Saúdo a todos, - disse o desconhecido com voz profunda e harmoniosa e, aproximando-se de Adiroma, lhe pôs a mão sobre os ombros:
— Chamado pela dor e lágrimas de seres inocentes, venho salvar da morte iminente que o ameaça.
Olha, imprudente!
Ele levantou a mão e subitamente todos viram uma flecha vermelha como sangue, assobiando e crepitando como metal em fusão, precipitando-se sobre Adiroma.
Foi aí que toda pessoa do hierofante pareceu se iluminar de luz alvinitente.
Sua mão suspensa expediu um raio que, volteado sobre si mesmo, a dois dedos do peito de Adiroma fez a flecha retornar sua ponta e, com um estrondo semelhante ao de um trovão longínquo, desapareceu na mão do Mago Divino.
— Mensageiro da morte, volte contra aquele que o enviou! - disse solenemente o Padre, voltando-se aos homens estupefactos e pálidos cujos olhares iam dele à Séfora, que já tinha escorregado de seu assento para as lajes e, com a face no chão, rastejava em direcção ao sábio.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 31, 2016 8:35 pm

Com o olhar incendiado, num instante o sacerdote fulminou o corpo servil como o de uma serpente, o qual se torceu a seus pés em convulsões de agonia; então, levantando sua varinha, pronunciou:
— Matéria, que te dissolvas em teus elementos constitutivos!
E você, ser impuro, evocado do Amenti, fique banido deste corpo que você usurpou!
Ele ainda falava quando um crepitar se fez ouvir, semelhante ao produzido pela água caindo sobre o metal incandescente:
uma nuvem escura se expandiu no meio dos assistentes que, mudos de horror, fixavam um cadáver em plena putrefacção, estendido aos pés dos expectadores!...
Essa massa pútrida, esverdeada, roída por vermes, exalava um mau cheiro asfixiante.
— Vejam, - disse o sábio, - o corpo era animado por um espírito impuro; mas desde que a luz o tocou, caiu na poeira, pois as sombras e as más paixões lhe tinham dado vida; deve ser sepultado o mais rápido possível na cal viva.
E você, Adiroma, - e o hierofante se voltou a ele que, imensamente emocionado, havia coberto o rosto com as mãos - deve suportar as consequências de sua fraqueza.
Lembre-se, pois, de que o mal só é poderoso quando não encontra ponto de resistência.
Você se deixou guiar somente por paixões grosseiras, esquecendo o dever e o amor filial; sujou a alma e o corpo ao contacto impuro, você se entregou ao poder de um ser nefasto que sugará sua força vital, a menos que uma afeição pura e desinteressada se levante entre você e o demónio do Amenti, como um escudo protector, tomando o lugar do talismã que jogou longe tão frivolamente.
O Padre se voltou, saudou a todos com um aceno, desceu os degraus do terraço e desapareceu sem que ninguém pudesse dizer por onde ele teria saído.
Enquanto se celebrava em casa de Séfora o alegre noivado, Nebenhari, radiante de ódio satisfeito, havia descido ao subterrâneo a fim de terminar, com a ajuda de sua ciência maldita, a perda de seu rival.
De pé ao meio do círculo mágico que o protegia contra os seres impuros que ele invocava, havia imolado um galo preto, após ter repetido o nome de Adiroma três vezes; acompanhando esses ritos sacrílegos de conjurações terríveis, mergulhou uma flecha no sangue do animal; depois, se ajoelhando, lançou o projéctil.
Em seguida, soltou um grito rouco:
recebeu um enorme tranco que, como trovão, abalou o subterrâneo; um foguete vermelho como sangue surgiu da parede e penetrou no peito nu do mágico, que estendeu os braços se abatendo como uma massa.
Nebenhari estava morto.
Alguns dias mais tarde se encontrou o corpo de Nebenhari:
olhos vítreos, parecendo ainda exprimir assombro e, na altura do coração, se via uma mancha negra semelhante a uma queimadura.
Neco e os participantes da festa já tinham propagado por toda Tebas a narrativa da terrível aventura que haviam presenciado.
Ninguém duvidava da culpabilidade de Nebenhari e o rei mandou jogar fora o cadáver impuro do mágico, para que fosse comido pelos corvos.
Adiroma tinha sido transportado em profundo desmaio; seus amigos tiveram de esperar muitas horas até que os cuidados de um padre-médico o fizesse voltar a si.
Enfraquecido e esgotado de tanto chorar e gritar, Nera o apertou emocionadamente contra o peito e, pela primeira vez, desde sua loucura fatal, ele lhe devolveu os carinhos com efusão.
Este primeiro momento de alegria passado, o jovem quis arrancar de seu dedo o anel que o ligava a uma odiosa larva do Amenti, mas qual não foi seu horror quando constatou que o anel parecia achatado em seu dedo e que lhe era impossível tirar!
E por segunda vez ele desmaiou...
Desde esse dia se tentou por todos os meios possíveis livrar o infeliz do sortilégio; ele maldizia sua imprudência, mas tudo era vão:
nem conjurações, nem abluções, nem sacrifícios, nada o ajudava a se livrar.
O anel maldito permanecia grudado no dedo de Adiroma, parecendo sugar e absorver sua vida.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 31, 2016 8:35 pm

Emagreceu e enfraqueceu a olhos vistos e logo não pôde mais se levantar; pouco a pouco a fraqueza invadiu completamente seu organismo e o frio glacial não se concentrava apenas em seu braço, mas havia tomado todos os seus membros.
Semelhante resultado de sua galante aventura tinha curado radicalmente Adiroma de seu amor pela encantada do Amenti; com vergonha e pesar, ele sonhava com Nitétis; voltou a ela toda sua profunda e sincera afeição.
Notando-lhe o remorso, o desejo de rever sua antiga noiva e reparando que ele já estava usando suas derradeiras forças, a boa Nera resolveu tentar uma reconciliação.
Foi a casa de Nitétis, que a recebeu afectuosamente, e escutou em silêncio o relato dos sofrimentos e do lastimável estado de Adiroma; mas à primeira palavra que a mãe arriscou de seu projecto, a orgulhosa mocinha a fez parar:
— Deixemos isso, minha boa Nera; seu filho, ele mesmo, quebrou todo laço que havia entre nós.
Eu não nego o poder do encantamento, mas se ele me amasse de verdade, teria, por causa desse amor, a força de resistir ao sortilégio; o talismã que lhe dei foi um escudo.
Mas ele se colocou nessa aventura de corpo e alma, desprezando a palavra dada e a fidelidade que me devia; depois me repeliu com palavras ferinas que jamais esquecerei.
Eu o perdoo e o lastimo, mas não mais o quero rever.
Nera partiu lacrimosa e Nitétis, ficando só, se jogou sobre o leito e chorou amargamente.
Malgrado o orgulho que a dominava e abafava todos os seus sentimentos, seu amor por Adiroma continuava a viver em um cantinho de sua alma, escondido; a narrativa de seus sofrimentos, dos amargos remorsos, a tinham comovido profundamente; seu coração abrandava, pleiteando o perdão e o esquecimento, e foi com esforço que ela rechaçou esse sentimento.
O estado de Adiroma piorava a cada dia...
Não se podia mais duvidar que a lassidão que o minava pressagiava um desfecho fatal próximo.
Nera suplicou e os padres se reuniram ainda mais uma vez à cabeceira do jovem e, depois de longa deliberação, declararam que o último e único meio de salvar o doente era lhe cortar a mão onde estava o anel maldito que o ligava ainda às forças destrutivas do abismo.
Apavorado, Adiroma recusou peremptoriamente, preferindo a morte à mutilação, mas as lágrimas de sua mãe e as persuasões de seus amigos o levaram a ceder, e ele tudo consentiu.
Foi decidido que dali a dois dias, à madrugada, após as preces e os sacrifícios, o grande padre cortaria sobre o altar sacrificatório a mão sacrílega que havia concluído o pacto com a noiva do Amenti.
Nekebet, contristada com esse acontecimento terrível, e cheia de compaixão pelo infortúnio do jovem e de sua mãe, os visitou e, ao deixar a casa de sua amiga, não pôde resistir ao desejo de fazer uma visita a Nitétis e lhe contar o que se preparava.
Sabedora de que se ia horrorosamente mutilar seu antigo noivo, a jovem soltou um grito e, tapando o rosto, murmurou:
— Pobre... Pobre Adiroma!
Os deuses estão surdos às suas preces e ao seu arrependimento!
— Em todo caso, você vê que é bem vingada, - observou Nekebet; bem poderia ver o pobre moço e lhe dizer algumas palavras de consolo; a presença da mulher amada lhe dará forças morais.
Faça isso, minha menina, porque se ele morrer - e os padres receiam terem tardado na resolução - você se reprovará amargamente do rancor e da dureza.
Depois que a velha dama partiu, Nitétis andou de um lado para outro em seu quarto com agitação febril; sua cólera tinha-se fundido em profunda piedade; ela se examinou fundamente, mas não encontrava um meio de socorrer Adiroma.
"Oh, por que ele jogou o talismã?"
Repetia ela desoladamente.
Com os olhos cheios de lágrimas, ela se ajoelhou diante da estatueta de Hator que ornava seu altar doméstico e fez ardente invocação elevada de sua alma, implorando à divindade, com toda fé de seu coração inocente, a saúde do corpo e da alma para o homem que a havia ofendido.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 31, 2016 8:35 pm

Foi aí que uma ideia a iluminou; o Mago Divino havia dito:
"Somente se uma afeição pura e desinteressada se levantar entre você e o demónio do Amenti você será salvo".
Então se o amor maternal era impotente, o seu talvez o salvasse.
Sem perder um instante, ela mandou preparar a liteira e, acompanhada da ama, foi à casa de Nera.
A velha dama dormia, esgotada de dor e lágrimas; Nitétis não quis incomodá-la, mas se fez conduzir à câmara do doente.
Num terracinho sombreado de árvores, Adiroma estava estendido em um leito de repouso; ele cochilava e o sol se pondo aclarava de tinta rósea seu rosto pálido e emagrecido; em sua mão inerte, no anular, brilhava a esmeralda fatal, infiltrando traidoramente a morte nesse corpo jovem e resistente.
Ela se aproximou do leito chorando; o orgulho ferido, as ofensas havidas estavam esquecidas; somente a compaixão e amor desinteressado enchiam seu coração.
Ela tirou de seu pescoço a cadeia na qual se balançava seu talismã e o premiu contra seus lábios:
"Leve a vida e a saúde, amuleto sagrado!" murmurou ela, "E o Senhor, Divino Hierofante, o perdoe como eu o perdoo; faça com que a luz dissipe as trevas e a vida triunfe da morte!"
O rosto brilhante de alegria generosa e de fé ardente, a jovem moça se inclinou e colocou o talismã sobre o peito do adormecido; nesse momento uma chama negra jorrou do anel, a esmeralda se fendeu e desapareceu, dispersada em milhões de átomos.
Adiroma soltou um grito e se levantou, sentando-se logo após.
Como um bêbado, passou a mão sobre a fronte; sentia um calor vivificante circular em seu corpo, voltando a elasticidade de seus membros e como por um milagre, o anel maldito havia desaparecido.
Que havia acontecido?...
Então ele se apercebeu da presença de Nitétis, que havia recuado espantada, e saltou do leito.
Ainda pálido e vacilante, mas transfigurado de felicidade e esperança, ele se lançou a ela.
— Nitétis, você veio me trazendo o perdão e a saúde!
Eu sinto uma nova vida encher todo meu ser e o anel que me ligava ao demónio que me matava desapareceu!
Estou salvo, eu o sinto e lhe suplico, minha bem-amada, não perdoe pela metade!
Ele se atirou bruscamente a seus braços e a jovem subjugada e feliz não resistiu.
— E agora me diga como você obteve esse milagre? - perguntou ele atraindo sua noiva para um banco, porque o excesso de felicidade o havia cansado.
— Eu me lembrei das palavras do divino Rameri; sobre o altar do amor verdadeiro depositei o meu orgulho e o meu perdão, - murmurou Nitétis com um lindo sorriso; eu lhe dei o amuleto sagrado e a força desse talismã o livrou.
Agora ele nos protegerá aos dois e apagará até mesmo a lembrança da noiva do Amenti.

ROCHESTER

São Petesburgo, 16/28 de fevereiro de 1892

(1) canopo: vaso em que os egípcios encerravam as entranhas das múmias. N.T.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 31, 2016 8:35 pm

A URNA

A neve caía em grandes flocos, cobrindo de branca e espessa mortalha as casas e ruas de uma grande cidade da Alemanha do Norte; era 24 de dezembro e a animação feliz que precede a mais bela das festas de família via-se por todo lado.
Carregadores com abetos(1) de todas as dimensões, gente carregando pacotes, crianças de rosto contente e olhos brilhantes corriam atarefadas, em todas as direcções.
Um elegante carro puxado por dois cavalos atravessava lentamente essa multidão de transeuntes e carruagens; ao atingir uma rua menos movimentada, o cocheiro mudou de marcha, dirigindo-se em trote rápido até o bulevar que conduzia para fora da cidade.
No interior desse carro estava sentado um elegante homem de aproximadamente trinta anos; sob o gorro de pele apareciam cabelos castanhos e uma barba curta da mesma cor emoldurava seu rosto de traços regulares; suas espessas sobrancelhas chegavam à raiz do nariz, e os grandes olhos brilhantes davam uma expressão de energia sombria mas adoçada por uma boca com lábios pouco carnudos, cujo sorriso indiferente pintava uma profunda bondade.
Perto dele, sobre uma banqueta, estava depositado um grande embrulho feito de lona impermeável, cuidadosamente amarrado, lacrado e vindo evidentemente de longe, a julgar pelos numerosos carimbos estrangeiros colocados em seus lados.
O carro tinha agora deixado a cidade e se dirigia por uma alameda arborizada, bordada de elegantes vivendas, em direcção de um castelinho construído em estilo renascença, flanqueado de torrezinhas e ornado de balcões ornamentados.
Um vasto jardim, cujos bosquezinhos nus vergavam sob espesso colchão de neve, cercava essa rica habitação.
Absorvido por seus pensamentos, o jovem homem nem prestava atenção ao caminho; não reparou que o carro acabava de atravessar a grade aberta do jardim e, somente quando a carruagem parou e um lacaio se aprestou em abrir a portinhola, ele se endireitou, estremecendo.
Vendo que o doméstico se ocupava do embrulho, ele parou seu braço:
— Espera, espera Daniel, levarei isso eu mesmo, você me ajude somente.
Queira Deus que não tenha havido dano no conteúdo, disse ele, saltando prestamente à terra.
Depois, ajudado pelo empregado, levou até o vestíbulo o embrulho que parecia ser muito pesado, e de lá, após ter tirado o casaco, ao primeiro andar, onde depositou a preciosa remessa sobre uma cadeira junto da porta.
O aposento em que acabava de entrar era um grande salão ricamente mobiliado, no meio do qual estava posto um grande abeto já ornado em parte de nozes douradas, caixas de bombons e daqueles mil artefactos elegantes criados pela indústria moderna para ornar a árvore simbólica.
Uma jovem, de pé sobre um tamborete, estava toda absorvida em fixar sobre os galhos superiores flocos de neve artificial.
Ao ruído da porta que se abria, ela saltou para o tapete e correu em direcção ao recém-vindo, gritando com visível impaciência:
— Enfim você chegou, Alfredo!
Onde esteve durante tanto tempo?
Era uma criatura encantadora, de vinte e dois anos, delgada, delicada, graciosa como uma criança, com grandes olhos azuis e espessos cabelos dourados, mas, pelo vinco de sua boca, a expressão móbil de seus olhos, o fremir de suas narinas, se percebia uma alma apaixonada, voluntariosa e caprichosa.
Vestia roupa caseira de seda cor de safira, com um corpete de pelúcia da mesma cor, que fazia sobressair vantajosamente sua tez deslumbrante.
Com olhos brilhando de amor, o homem a enlaçou em seus braços:
— Foi impossível vir mais cedo, mas vou agradecê-la, minha Edith, por ornar você mesma nossa árvore de Natal, a primeira que acendemos em nossa própria casa.
A jovem lhe deu um beijo, mas seu olhar deslizou para baixo da espádua do marido até o embrulho misterioso, e o designando, ela perguntou curiosa:
— Que tem aí dentro?
É um presente para mim?
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 31, 2016 8:36 pm

— Não, para você, minha querida, reservo presentes mais modernos, - respondeu Alfredo rindo; - a caixa é um presente para mim, e quando você vir o conteúdo, não vai querê-lo.
Vamos ao ateliê, estou apressado para abrir isso; somente pegue um xale, que ali está um pouco frio para você.
Edith se envolveu apressadamente numa echarpe de pelúcia, depois ajudou o marido a erguer a caixa.
No quarto contíguo, uma escada em caracol, recoberta de um tapete de veludo vermelho, conduzia a uma sala imensa que ocupava toda a fachada do rés-do-chão.
A sala acabava em uma rotunda circular, aclarada por três janelas e no centro havia um bloco de mármore grande e todos os instrumentos de escultura.
0 ateliê que precedia esse pequeno santuário de trabalho poderia muito bem passar por um museu, e a mão do artista, nunca incomodado por considerações financeiras, parecia haver juntado em profusão objectos de arte tão raros quanto preciosos.
O jovem casal depositou o embrulho sobre um diva encimado por uma panóplia(2) envolvida em brilhantes estofados orientais, e enquanto Alfredo se ocupava em desfazer os envoltórios, Edith perguntou:
— Donde veio isso?
— De Roma; meu velho amigo, professor Aubray-Brune me enviou uma urna que foi recentemente descoberta durante suas escavações na Via Ápia, - respondeu Alfredo, virando cuidadosamente os parafusos que fixavam a tampa da caixa.
— Você não ignora, acrescentou ele, que ele é arqueólogo apaixonado, e, sabendo qual parte eu tomo em seus trabalhos, me escreveu que enviaria uma urna funerária de rara beleza na qual estavam intactas as cinzas de um patrício chamado Valérius.
A respeito dela, coisa curiosa, não se tem outra indicação, salvo que foi conservada na sepultura da família e está em muito bom estado, como o professor a descobriu, continuou o jovem homem, retirando a tampa da caixa.
Edith se inclinou curiosamente e ajudou o marido a retirar o vaso precioso, que foi posto sobre a mesa; separaram-no então da espécie de acolchoado espesso e macio onde tinha sido envolvido.
Enfim, o último pano foi tirado e ao olhar dos dois jovens apareceu uma grande urna de alabastro, ornada com pegadores.
Sobre a tampa, esculturas admiráveis, mas o que tornava verdadeiramente original o pequeno monumento funerário era uma espécie de rede de arame metálico aplicada sobre um dos lados do vaso e no centro do qual se ornava engastado um grande camafeu onde se via esculpida uma cabeça de homem duma rara beleza.
Sobre o pé do vaso estava gravada a lacónica inscrição:
"Valérius, patrício".
— Mas que coisa curiosa!
Nunca vi semelhantes disposições numa urna antiga, eu creio.
Deus me perdoe!
Esta rede é de ouro! - fez Alfredo, examinando e apalpando com o dedo os elegantes arabescos que evidenciavam o camafeu; estavam tão finamente cinzelados que se destacavam como uma renda polida sobre o fundo branco do vaso.
— Somente uma coisa me espanta, - ajuntou ele encolhendo os ombros - é que o professor esteja decidido a se separar, em meu favor, de um objecto tão raro e original!
Edith não respondeu; absorvia-se na contemplação do camafeu.
— Que cabeça admirável!
Você acha que seja o retrato do homem cujas cinzas estariam nessa urna? - perguntou ela com vivacidade.
— É bem provável.
— Ah! Como eu gostaria de ver se verdadeiramente a urna não está vazia!
— Que mulher curiosa!
Dar uma olhada nas cinzas dum homem bonito, fez Alfredo rindo e tentando levantar a tampa; mas esta parecia cimentada e somente com a ajuda de uma faca ele conseguiu a separar do vaso.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 31, 2016 8:36 pm

— A gente só vai ver um pó cinzento, - disse Alfredo, depois de ter olhado e inclinado a urna para Edith; mas quando a jovem mulher quis ali deslizar a mão, ele recuou vivamente o vaso.
— Ei! Deixa isso, por que perturbar as cinzas desse nobre patrício?
Disse o jovem escultor com desaprovação; é melhor que me ajude a colocar a urna sobre este console; aqui ela vai ser vista e formará um precioso ornamento no meu ateliê.
Com ar agastado e descontente Edith seguiu o que lhe pediu o marido.
— Ah! que cabeça soberba!
Até hoje não se viu um homem assim tão bonito!
Exclamou ela, lançando um último olhar de admiração ao camafeu; depois, se virando, saiu correndo.
Ficando só, Alfredo pegou uma cadeira e se absorveu de vez na contemplação do camafeu, mas quanto mais ele fixava aquele rosto, apesar de sua incontestável beleza mais lhe parecia desagradável; uma expressão altaneira, um sorriso de desdém trocista parecia plainar em seus traços regulares.
Um sentimento de inimizade, chegando ao ódio, encheu subitamente o coração de Alfredo.
Surpreendendo em si mesmo essa sensação de animosidade sem motivo, sacudiu a cabeça com um sorriso.
Estou bobo ou com ciúme da admiração de Edith por este punhado de cinzas que outrora formaram esta bela cabeça? - murmurou ele.
Quem foi você, Patrício Valérius?
Se você está morto tal como representa o camafeu, que má sorte o destruiu na flor da idade?
Em todo caso, sua alma orgulhosa não tinha certamente imaginado que isto que restou de você, depois de dois mil anos, viria servir de ornamento ao ateliê de um artista.
Inclinou a cabeça sobre o espaldar da poltrona e sonhou silenciosamente.
Alfredo Roemrer era o filho único de um negociante muito rico que, mesmo sendo homem de negócios de corpo e alma, era muito liberal para deixar a seu filho toda liberdade de se consagrar à carreira artística.
O jovem homem estudou então a escultura em sua pátria primeiramente, depois na Itália; alguns trabalhos provaram a originalidade de seu talento e lhe deram cedo uma certa reputação.
Com a morte de seu pai, tornou-se dono de imensa fortuna, voltou à sua cidade natal, estabeleceu seu ateliê no pequeno palácio onde introduzimos o leitor, e se pôs outra vez a trabalhar com todo ardor dum verdadeiro artista, mas com a quietude que dá uma existência assegurada.
Após alguns meses, casou-se com a filha de uma antigo companheiro de seu pai, jovenzinha bela e rica que ele adorava; nada ainda tinha turvado sua felicidade, salvo a inclinação ao ciúme que, de vez em quando, se manifestava no carácter de Edith.
O jantar tinha acabado, a árvore de Natal apagada depois de ter iluminado a montanha de presentes que se haviam reciprocamente ofertado os jovens esposos, e sentados os dois no quarto de vestir de Edith, conversavam alegremente; ela não deixava de examinar e experimentar os novos adereços e Alfredo não se fatigava de admirá-la, quando a entrada de um doméstico os interrompeu, trazendo uma carta a seu patrão.
Olhando à primeira vista o envelope, o rosto de Edith se obscureceu e o vermelho da cólera a invadiu quando seu marido exclamou:
— Tenho de partir já, Edith.
Ema me escreve que o pai dela está muito mal e deseja me ver antes de morrer.
— Ah! Ema sempre exagera; eu aposto como o estado de seu pai não apresenta nenhuma gravidade e que não havia urgência em vir estragar nossa véspera de Natal; mas a verdadeira razão é que Ema gostaria de ver você lá; disse Edith com despeito não disfarçado.
— Você não se envergonha de atribuir uma tão baixa intenção àquela pura e fiel criança, já tão provada pela vida!
Se Ema escreve que seu pai está à morte, certamente é verdade.
E não é para mim senão um dever sagrado adoçar os últimos momentos de um velho que foi amigo de meu pai, que é meu amigo, guiou minha juventude e cultivou meu espírito, não como instrutor assalariado, mas como um segundo pai?
Vou partir já e chegarei a tempo de tomar o trem das onze horas; não tenho necessidade de lhe assegurar que me apressarei em voltar, tão cedo quanto possível.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 31, 2016 8:36 pm

— Oh! Não se incomode!
Fique uns quinze dias mesmo, se quiser; vou para casa de papai, o que será maravilhoso e ali ficarei duas ou três semanas, - respondeu Edith, os lábios tremendo e se jogando numa poltrona.
— Você é livre para agir como queira, e eu ficarei em casa de meus amigos tão longo tempo quanto meu dever me obrigue, respondeu Alfredo com olhar severo de desaprovação, deixando o quarto.
Meia hora mais tarde, o carro de novo estava diante do portal e o empregado ali colocava uma pequena valise, enquanto seu patrão entrava na sala de vestir para se despedir da esposa.
Edith não tinha se mexido do lugar.
À entrada de Alfredo, ela voltou a cabeça e disse venenosamente:
— Vá, vá e não perca tempo em formalidades supérfluas; eu nada sou para você e já estou habituada à infelicidade de ter um tal marido.
Eu também posso ter o belo Valérius - o prazer seria o mesmo!...
— Console-se com ele então durante minha ausência; pelo menos não ficarei com ciúme, - replicou o jovem homem, meio rindo, meio agastado.
Erguendo à força a cabeça baixada da bela caprichosa, ele a beijou e saiu.
Ficando sozinha, Edith começou a chorar; em seguida se pôs novamente a admirar e experimentar os presentes recebidos.
Mas sem Alfredo isso era metade do prazer.
Entediada e despeitada, passou para seu quarto, vestiu um penhoar, se fez pentear para a noite e tentou ler; mas seus pensamentos estavam longe e iam de Ema a seu pai doente para a uma chegada naquela manhã.
De repente, jogou o volume no tapete e levantou-se.
"Vou ao ateliê admirar o camafeu e examinar o interior da uma; Alfredo permitiu que eu me distraísse com o belo Valérius", murmurou ela com um sorriso de desafio zombeteiro.
Com a vivacidade que a caracterizava, Edith pegou uma vela, envolveu-se em um xale e desceu ao ateliê.
Iluminou dois candelabros e se sentou diante do console, fixando longamente o camafeu.
"Como esse homem deveria ter sido bonito!
Que charme sedutor nesses traços clássicos, nessa boca fina e altaneira!
Vou ver se consigo encontrar um ossinho na urna - seria uma estranha sensação apalpar um pedacinho desse belo corpo!"
Pensou e fez; ergueu a tampa e deslizou a mãozinha na urna.
Sacudida por um calafrio, apalpou uma poeira seca, misturada de fragmentos duros, de diferentes grossuras.
Ao mesmo tempo lhe pareceu que uma atmosfera glacial encheu o vaso e que um vapor húmido e pegajoso se colava a seus dedos; no mesmo instante ela sentiu segurar um objecto que lhe pareceu ser um osso bastante grande.
Ela retirou vivamente a mão e se aproximou das velas para examinar o achado.
Com grande espanto, reconheceu que acabava de retirar da urna não um pedaço de osso, mas um anel de metal polido e recoberto de poeira.
Emocionada bastante, se pôs a limpar e esfregar a jóia com a ponta de seu xale de lã, constatando que o anel, liso e uniforme como um anel nupcial, levava gravada uma inscrição que ela não pôde decifrar.
"Que lástima!" - murmurou Edith, passando a seu dedo o anel que lhe era muito largo.
Mas no mesmo instante ela estremeceu e recuou:
um suspiro distinto, parecendo sair da urna, tocou seu ouvido.
Um pavor sem nome tomou a mocinha, suas pernas trementes se recusando servir e, coberta de suor gelado, sucumbiu numa cadeira.
Todos os seus membros estavam paralisados e, no entanto, uma sensação desconhecida fazia palpitar dolorosamente cada fibra de seu ser.
Seus olhos arregalados estavam grudados na urna, de onde ressumava espessa nuvem negra, velando a luz das velas.
Uma semi-obscuridade baça reinava agora na sala vasta, cujo fundo se perdia em sombras espessas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 31, 2016 8:36 pm

Subitamente apareceu no orifício da urna uma chama azulada que rapidamente se dilatou, tornou-se compacta, tomou a forma de uma nuvem oblonga sulcada de clarões, depois se fendeu com um "crack" sinistro, enquanto uma lufada de vento húmido e frio bateu no rosto de Edith, forçando-a a fechar os olhos.
"É a urna que vai arrebentar e seus estilhaços vão me matar".
Esse pensamento passou como um raio pelo cérebro da jovem; mas no mesmo instante uma mão húmida tocou a sua e ela abriu os olhos, enquanto um grito abafado tentava sair de sua garganta.
Diante dela estava de pé um homem jovem, de alta estatura, enrolado em uma toga com um agrafe incrustado retendo as dobras sobre seu ombro: era o original do camafeu...
Somente que agora a vida animava seus traços de pureza clássica, anéis de ébano sombreavam sua fronte, um sorriso de orgulho satisfeito errava em seus lábios vermelhos e seu olhar de flama fixava Edith.
— Valérius... - murmurou ela involuntariamente.
— Sim, sou eu, - respondeu uma voz sonora, mas levemente velada; - seu coração me reconheceu e minhas cinzas palpitaram com sua aproximação.
Venha comigo, vamos imergir no passado, respiremos ainda uma vez a atmosfera desaparecida desde os séculos, mas sempre viva nos arquivos da criação!
0 romano se inclinou para ela, enlaçou-a pela cintura, forçando-a a se levantar.
Quebrantada, a jovem se apoiou nele, sentindo então os batimentos precipitados do coração no peito do misterioso visitante; as mãos roçaram as pregas macias de sua toga, e sua face sentiu o frio das pedrarias do agrafe.
Sem resistência, ela se deixou levar até à urna, que, iluminada de clarões avermelhados, parecia flutuar no ar.
Os ouvidos de Edith zumbiam, a cabeça rodava tudo parecia desmoronar ao seu derredor com um ruído de trovão e milhares de fagulhas dançavam diante de seus olhos.
Depois uma nova lufada pareceu levantá-la, fazendo-a turbilhonar no espaço e se abater com a sensação de cair de altura vertiginosa, mas sem que isso lhe fizesse nenhum dano, ao contrário:
um bem-estar agradável a enchia, um peso enorme parecia se ter destacado dela, e, com um profundo suspiro, ela reabriu os olhos.
A neve, o céu brumoso do norte, o ateliê, tudo tinha desaparecido.
Ela se encontrava sobre um elegante terraço com balaustrada de mármore e ornado de plantas raras; alguns degraus conduziam a um jardim de tamanho regular, circundado em dois lados por uma galeria com colunas; o céu de um azul-safira não tinha uma nuvem e os arbustos em flor enchiam o ar de um aroma delicioso.
Edith se via vestida com uma túnica de lã fina, branca, bordada de gregas de ouro; largos braceletes brilhavam em seus braços e correias de couro vermelho calçavam seus pés.
A jovem mulher, que tinha perfeitamente consciência da dualidade de suas sensações, levou as mãos à testa: tinha o tempo realmente recuado dois mil anos ou a existência de Edith era um sonho?
Hesitante e perturbada, ela se aproximou da balaustrada e seu olhar caiu sobre dois homens que acabavam de aparecer numa das galerias e atravessavam o jardim, dirigindo-se ao terraço; um era Valérius, o outro, indubitavelmente, era Alfredo; ele também estava togado e seu rosto sem barba, seus cabelos cortados à escovinha e mesmo uma certa diferença em seus traços o tornavam, em uma primeira abordagem, difícil de reconhecer.
Mas Edith não duvidou:
era seu marido, ali como Alfredo ou Flávius, que se aproximava, conversando com Valérius, ao qual ele parecia explicar qualquer coisa, denotando uma visível deferência.
O patrício escutava distraído e, desde que eles se aproximaram do terraço, seu olhar ávido e queimante se cravou na jovem mulher, cujo coração começou a bater violentamente; todo seu ser palpitava de amor por esse jovem homem, mas ela sabia que devia dissimular esse sentimento, e somente um rosado ligeiro coloria suas faces quando ela se inclinou diante do nobre visitante que a saudava.
— Você está aqui, Octávia?
Disse Flávius apertando amigavelmente sua mão.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 31, 2016 8:36 pm

— Sim, eu vim esperá-lo; pensava que você viria só, - respondeu ela balbuciando.
— Encontrei seu marido, e, tendo minha manhã livre, propus a Flávius a utilizar para a última sessão que ele pede, explicou o patrício, que, mergulhando um olhar queimante e ousado nos olhos da jovem mulher, acrescentou:
— O acaso me favoreceu me dando ocasião de saudá-la; mas rogo a você, Flávius, autorize sua esposa a nos acompanhar ao ateliê; nada melhor me permitirá conservar a expressão satisfeita que você me exige senão contemplar o rosto sorridente da mais bela mulher de Roma.
Com um sorriso e a melhor boa vontade, Flávius atendeu ao pedido, e os três passaram a um vasto ateliê de escultor, atravancado de blocos de mármore, de esboços e obras já terminadas.
No meio do ateliê se encontrava uma estátua quase terminada, de tamanho natural, representando Valérius; era uma obra magistral como parecença e como acabamento; o altaneiro e desdenhoso sorriso do modelo errava nos lábios de mármore, os olhos conservavam sua expressão sorridente; a mão fina e aristocrática segurava as dobras tão flexíveis e tão macias que não deixavam nada a desejar do tecido verdadeiro de lã fina que portava Valérius.
Enquanto o cinzel do artista modelava algumas últimas nuances de expressão à cabeça de seu modelo, os jovens conversavam e, por instantes, os olhos de Valérius exprimiam claramente -mais que as palavras - os sentimentos apaixonados que lhe inspirava Octávia.
O coração da jovem mulher batia quase a se romper, um tremor nervoso a sacudia e, temendo se trair, Octávia pretextou um afazer urgente e deixou o ateliê; refugiando-se no bosque mais isolado do jardim, ela se deixou cair sobre um banco e apoiou em uma árvore a cabeça febril e entorpecida.
Que tempo decorreu nesse espaço de esquecimento?
Disso ela não teve consciência, mas gritos e um imenso clamor de assombro e desespero a arrancaram de seu torpor.
Reabriu os olhos e constatou em primeiro lugar que uma espessa e acre fumaça enchia o ar e que dominava o tumulto das vozes humanas um crepitar semelhante àquele de uma imensa caldeira em ebulição, interrompida de tempos em tempos por estrépitos semelhantes a trovões.
Louca de terror, Octávia se lançou para casa, procurando Flávius e chamando seus servidores, mas seu marido, subitamente ela lembrou, tinha saído e o medo havia dispersado seus escravos como uma tropa abandonada pelo pastor; sozinhas, algumas mulheres lívidas, os olhos desvairados, corriam daqui para lá, berrando lugubremente.
Ansiosa para olhar o que se passava lá fora e compreender o que realmente ocorria, a jovem mulher subiu correndo uma escada em caracol que conduzia a uma plataforma duma alta torrezinha de madeira, do alto da qual Flávius se divertia a fazer observações astronómicas; dessa altura a vista se estendia ao longe, mas o espectáculo que se oferecia à jovem a pregou como petrificada a seu lugar.
Roma inteira parecia em fogo; imensos turbilhões de fumaça aumentavam ainda a obscuridade da noite que caía, estendendo-se como uma lúgubre mortalha sobre a malfadada cidade; um mar de chamas se elevava por tudo, como tochas gigantescas, e inundava a terra a perder de vista, iluminando com clarão sangrento os contornos dos edifícios que se destacavam como metal fundido sobre um fundo de azeviche.
O desmoronar das casas, as colunas que desabavam, os clamores desesperados de milhares de homens, misturados ao crepitar da madeira inflamada, tudo isso se confundia em caos assustador, apavorante.
Edith tinha se esquecido completamente da dualidade de vida e de sensações que ela experimentava antes; neste instante ela se sentia Octávia; o terror de uma morte horrível fazia correr arrepios em toda a sua pele; o perigo se aproximava, as vagas encapeladas do incêndio rolavam com um ruído sinistro até sua casa; os gritos se tornavam mais distintos, as lufadas de fumo acre lhe tiravam a respiração.
Com um grito de angústia ela se arrancou a esse torpor e desceu correndo.
Queria fugir, mas para onde?
Como? Ela nada sabia - queria somente abandonar aquela casa voltada à destruição.
Como louca, atravessou correndo as salas desertas, e à entrada do átrio se chocou com Valérius, que se precipitava para o interior.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 31, 2016 8:37 pm

— Octávia, está sozinha?
Onde está Flávius? - gritou ele, segurando-lhe a mão.
— Não sei, ele não entrou e os escravos se foram, me abandonando, - balbuciou ela.
— Você não está abandonada enquanto eu respirar, mulher adorada!
Eu a salvarei ou morrerei com você! - gritou apaixonadamente Valérius.
Mas Octávia, neste momento supremo, diga a verdade, fale se eu não estou enganado crendo ler em seus olhos o voto mudo de que você partilha meus sentimentos?
Ao som dessa voz vibrante de amor, sob o olhar de fogo do patrício, Octávia esqueceu tudo:
o rugido do incêndio, os gritos de angústia, a morte iminente, tudo se apagou e, murmurando:
— Sim, eu o amo e não quero viver ou morrer senão com você!
Ela se jogou em seus braços.
Um instante ficaram abraçados, depois Valérius se refez energicamente.
— Nós viveremos, minha querida, e esta infelicidade pública trará nossa felicidade; rápido, vamos!...
Arrancou sua toga, envolveu-a na jovem, baixou um pano em seus olhos e arrastou-a para fora.
No pátio igualmente deserto estava atado seu cavalo; ele montou, colocou Octávia diante de si e deixou a casa.
O jovem homem forçou um galope pelas ruas obscuras ainda não invadidas pelo incêndio, mas logo teve de ralentar o passo, pois o caminho estava atulhado de uma multidão que, carregada de seus mais preciosos haveres, fugia em todas as direcções; charretes reviradas, animais que escouceavam aturdidos, alguns carros sem cocheiro levados pelos seus cavalos, gritos de pessoas esmagadas, aumentavam ainda mais o horror e o tumulto.
Apavorada, Octávia se apertava contra seu companheiro.
— Nada tema, querida, - murmurou Valérius em seu ouvido, e junte toda sua coragem - teremos de atravessar uma parte da fornalha porque quero ir até o palácio imperial; em uma de suas alas se encontra o pequeno apartamento atribuído a meu encargo; eu não o ocupo senão de tempos em tempos e lá eu a esconderei até amanhã.
Lentamente continuaram seu caminho e logo atingiram o perímetro ocupado pelo incêndio; aqui a morte estava à espreita a cada passo; as ruas se apresentavam atulhadas de escombros, semeadas de cadáveres; as vigas calcinadas desabavam fendendo-se, os tições inflamados voavam de todos os lados, tijolos avermelhados e frontões de mármore se abatiam com estrépito quase sob as patas do cavalo; mas Valérius dominava com mão de ferro os saltos desordenados de sua montaria que já espumava.
Evitava felizmente os projécteis inflamados e calcava sem piedade todo ser vivente que fizesse obstáculo à sua passagem.
Octávia tinha fechado os olhos e apertado a cabeça contra o peito de seu companheiro.
Pouco a pouco o ruído diminuiu, Valérius fez sua montaria tomar uma andadura mais viva, depois pararam.
— Chegamos. É necessário fazermos o resto do caminho a pé, disse ele saltando do cavalo e fazendo descer sua companheira.
Jogou as rédeas sobre o pescoço do animal e o abandonou a si mesmo.
— Frelon vai voltar à cavalariça e ao mesmo tempo desfará as pistas, acrescentou com bom humor.
Durante alguns minutos costearam um vaiado, depois se puseram numa ala de jardins imensos que cobriam o Palatino e cercavam a residência imperial; ali reinava silêncio e quietude, somente um odor acre de fumaça testemunhava o inferno que pipocava e fervia até o pé da colina.
Logo apareceu, entre os bosquetes, os muros do palácio, e Valérius, que se deslizava com precaução, estremeceu e parou:
a alguns passos deles se encontrava um terraço avançado, religado ao palácio por uma galeria de colunas, e lá estavam dois homens de pé, um dos quais, apoiado à balaustrada, contemplava a cena de destruição que se estendia a seus pés.
Ele acabava, sem dúvida, de tocar, pois em seus braços repousava uma lira dourada e, voltando-se a seu companheiro, sombrio e mudo a alguns passos atrás de si, exclamou com admiração visível:
— Que soberbo espectáculo este grandioso mar de chamas, esta incomparável gradação de cores, desde o ouro e a púrpura até o negro de ébano!
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 01, 2016 7:53 pm

A única coisa que estraga é que a turba estúpida tire a harmonia deste quadro único com seus gritos discordantes.
— É a plebe grosseira, cegada por seus interesses mesquinhos, que não pode, ó César, se elevar a seu nível de artista, - respondeu o homem com voz abafada.
— Sim, tantos gritos por seus vasos quebrados e algumas casas miseráveis de madeira que desabam!
Minha alma de artista julga de outra maneira:
sob as cinzas desta Roma de madeira e de pedra, eu farei surgir uma Roma de mármore, de pórfiro(4) e de ouro, a primeira e a mais bela cidade do mundo!
E, com um gesto de entusiasmo, tangeu as cordas de sua lira e entoou um canto de alegria esfuziante.
Crispando os punhos Valérius murmurou:
— Tirano cruel, histrião sanguinário, quando enfim Némesis(5)
Depois ele arrastou sua companheira no silêncio da noite
Sem que tivesse consciência da metamorfose, a jovem Octávia se encontrou numa pequena sala abrindo sobre o terraço atulhado de flores, ao pé do qual brotava um jacto d'água; ela estava semi-estendida sobre almofadas de púrpura, a seus pés se sentava Valérius, falando-lhe de seu amor e brincando com seus longos cachos dourados que se espalhavam até às lajes.
Subitamente a alta figura de um homem surgiu no terraço e, em dois saltos, já estava perto da dupla que se endireitou espantada; reconhecendo no intruso seu marido, Octávia soltou um grito de assombro e se agarrou em Valérius.
Flávius estava irreconhecível; a raiva convulsionava seu rosto lívido e flocos de espuma tremiam nos cantos de sua boca quando ele proferiu com voz entrecortada:
— É assim então que você está em perigo!
E é nesta vivenda isolada, nos braços de um amante que a trouxeram as vagas de fogo do incêndio!
Valérius, vermelho e furioso, saltou de seu assento, mas antes mesmo que ele pudesse pronunciar uma palavra, Flávius se jogou contra ele e, com um grito:
— Morra, ladrão de mulheres!
Cravou-lhe uma faca no peito.
O patrício estendeu os braços e se abateu pesadamente sobre o leito de repouso, inundando de sangue a jovem mulher.
Vendo os olhos de Valérius se velar nas sombras da morte, sentindo seu sangue quente avermelhar suas mãos, Octávia desmaiou:
ela se sentia turbilhonar sobre um abismo e, no seu desespero, procurou ansiosamente se agarrar... e se pegou a um volume gelado.
Subitamente viu que se achava no ateliê de Flávius e que o objecto a que se havia abraçado era a estátua de Valérius, esculpida por seu marido.
Se bem que estivesse um pouco avermelhada e escurecida pelo fogo, ela se achava intacta num pedestal alto com dois degraus, sobre o segundo dos quais se encontrava também pousada uma urna enfeitada com um camafeu.
Uma mulher de cabelos cinzentos estava ali ajoelhada, aos pés da estátua e Octávia o sabia - chorava seu filho único.
Com um surdo gemido a jovem mulher se jogou para trás e... reabriu os olhos; mas no mesmo instante soltou um grito: Flávius, isto é, Alfredo se inclinava sobre ela, pálido e inquieto.
— Minha bem-amada, que acontece?
Pensei morrer de inquietação durante todo o caminho, - disse o jovem homem com ternura.
— Eu... não me lembro, - balbuciou Edith.
— Que acaso a conduziu ao ateliê?
A camareira que a procurava por toda parte a encontrou ali sem consciência, estendida sobre o assoalho; chamou o médico e me telegrafou, mas como você delirava, voltando a si, e parecia sobre excitada de maneira extrema, lhe deram um narcótico e você dormiu até este momento.
Já faz bem uma hora que vigio seu sono.
Mas, me diga, que é esse anel?
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 01, 2016 7:53 pm

Acrescentou o escultor designando a jóia antiga em seu dedo.
— Ah! Agora me lembro, - respondeu Edith, enquanto um estranho sentimento de inimizade se levantava nela contra seu marido; após a sua saída eu me aborreci e desci ao ateliê para examinar a urna que lhe enviaram; depois o desejo me tomou de ver o interior do vaso; pus a mão ali e, crendo pegar um pequeno osso, retirei este anel; eu já estava com dor de cabeça e, sem dúvida, desmaiei.
Lembro-me vagamente de um pesadelo, mas nada nítido - terminou Edith tornando a fechar os olhos.
Ela não pôde dizer a razão pela qual escondia a estranha visão que tinha tido, pois uma invencível repugnância lhe fechava a boca.
Ao fim de alguns dias Edith se sentiu plenamente restabelecida, a harmonia afectuosa que havia reinado entre ela e seu marido deu lugar a relações frias e tensas; uma surda aversão a invadia por vezes à vista do marido; um áspero rancor a tomava a ponto de querer lhe fugir ou feri-lo com sua indiferença; e, se cheia de remorsos ela se reaproximava, acabava por reprovar sua própria conduta; queria se jogar ao pescoço de Alfredo para lhe confessar tudo e lhe pedir perdão, mas uma força superior à sua vontade a impedia de seguir esse bom impulso.
O jovem escultor sofria nesse surdo combate que não compreendia; sentia que sua esposa lhe escondia alguma coisa que datava do dia de seu misterioso desmaio; mas que teria acontecido?
Ele se perdia em conjecturas.
Sob o império dessas tristes preocupações, ele resolveu começar algum trabalho bem grande, um trabalho sério, certamente a melhor distracção.
Uma tarde Edith se retirou a seus aposentos sob pretexto de forte enxaqueca - agora ela sofria desse achaque amiudamente.
Alfredo desceu ao ateliê e, apoiado nos cotovelos sobre sua mesa de trabalho, se pôs a examinar uma série de esboços, entre os quais queria encontrar o que mais lhe agradasse e então se poria a esculpir; mas seu pensamento estava alhures e um peso de chumbo oprimia suas têmporas.
O jovem homem tentou sacudir essa fraqueza; pegou uma folha em branco, um lápis e desejou esboçar um novo desenho, quando de repente sentiu uma comoção em sua espádua; uma corrente de calor percorreu seu braço e, no mesmo instante, uma mancha fosforescente apareceu sobre o papel.
Como fascinado, Alfredo fixou aquele ponto luminoso que, cada vez mais brilhante, parecia lançar raios eléctricos que feriam seus membros, entorpecendo-os completamente, à excepção da mão armada do lápis.
Ele concentrou toda sua atenção absorvida pelo maravilhoso espectáculo:
o ponto luminoso se estendia, formando um desenho cujas linhas fosfóricas representavam a forma de um homem de pé, vestindo uma toga; a cabeça coroada de cachos espessos era soberba; a queda da fazenda formava dobras harmoniosas.
Com rapidez vertiginosa o lápis de Alfredo começou a correr sobre esse estranho desenho, e, quando passou sobre a última prega da toga, o jovem sentiu uma tal fadiga que o lápis lhe escapou da mão, sua cabeça sucumbiu no espaldar da cadeira e seus olhos se fecharam.
Apenas um minuto havia passado quando ele acordou.
"Que está acontecendo?
Por que adormeci aqui e que sonho estranho me tomou?" - falou bocejando e se apoiando sobre os cotovelos; mas foi aí que seus olhos se arregalaram de espanto, fixando-se no desenho, cujas linhas ousadas se destacavam vigorosamente do fundo branco do papel.
"Que coisa endiabrada!
A estátua que vi em sonho desenhada aqui, e muito bem desenhada por sinal!
Se eu faço isso dormindo, sou mais artista de olhos fechados que de olhos abertos!" - resmungou Alfredo examinando a folha.
"Que dobras admiráveis e que cabeça linda!...
Mas é cabeça do camafeu... do Valérius desconhecido, do qual Aubray-Brune me enviou as cinzas e a uma funerária!"
Abanando a cabeça e absorvido pela estranha aventura, o jovem deixou o ateliê; mas desde esse dia pensou em esculpir uma estátua segundo o modelo tão misteriosamente obtido; a ideia o perseguiu dia e noite, obsedando-o com tal persistência que ele abandonou todos os planos precedentes e, uma manhã, se pôs resolutamente à obra.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 01, 2016 7:54 pm

Como atraída por um imã invisível, Edith reapareceu no ateliê do marido, passando horas a vê-lo trabalhar, mas a inquietude, a agitação febril que antes atormentava a jovem mulher, parecia ter sido transferida a Alfredo; ele se dava ao trabalho com tal ardor, que se esquecia de beber ou de comer; empalidecia e emagrecia a olhos vistos, e Edith, que cada vez mais frequentemente se sentava no ateliê, tomada de sua antiga afeição pelo marido, fixava-o por vezes com tristeza e ansiedade.
A obra avançava rapidamente; do informe bloco de mármore se desenhava já a esbelta figura do jovem romano; a cabeça, admirável de vida, de expressão, estava terminada; Alfredo trabalhava nos panos e nas dobras, quando um telegrama veio advertir Edith que seu pai, gravemente enfermo, a queria perto dele.
Ela partiu naquela mesma tarde, tendo acertado com o marido que este iria procurá-la assim que o doente se sentisse melhor.
Essa ausência, presumida por alguns dias, se prolongou nada menos que seis semanas; já era dezembro e pela véspera do Natal Edith desejaria voltar para casa; Alfredo não podia, por diversas razões, passar as festas em casa do sogro.
Na manhã do dia 22, o jovem escultor trabalhava no ateliê com mais ardor ainda que de costume, pois, à tarde, partiria para estar com sua mulher e queria antes terminar a parte da toga que recobria o peito da escultura - Alfredo estava positivamente enamorado de seu trabalho; parecia-lhe que a estátua era sua obra-prima, nunca antes teria feito coisa melhor na execução e no acabamento; e no entanto o belo rosto do desconhecido Valérius lhe inspirava, por instantes, uma aversão tão grande que chegava até ao ódio.
Estava todo absorto pelo trabalho quando, subitamente, sentiu no braço direito um choque violento:
o cinzel desviou, fazendo saltar uma grande lasca do mármore; no mesmo instante sentiu uma dor aguda na mão, um jacto de sangue esguichou de sua palma, enchendo a reentrância que acabava de produzir na peça o desvio do instrumento, salpicando de manchas rubras a toga e o braço da estátua.
Alfredo ficou petrificado de espanto e de dor, pensando que o cinzel lhe tinha transpassado a mão, mas um verdadeiro assombro inundou sua fronte de suor gelado quando viu os olhos de mármore se iluminarem, se tornarem vivos e dardejarem sobre ele um olhar de ódio implacável; a cabeça de Alfredo rodou e, com um grito surdo, ele perdeu os sentidos.
Quando abriu os olhos, estava deitado, a mão bandada; o médico da família o velava, sentado à cabeceira do leito, declarando que ele tinha um sério ferimento na mão.
— Mas que falta de perícia a sua atravessando completamente a mão com um velho punhal!
Isso é para mim incompreensível, - acrescentou o ancião.
— Não foi um punhal, mas meu cinzel que me machucou; ele saltou do mármore e, sem dúvida, voltou com a forma do choque.
— Que está me dizendo?
Eu mesmo retirei da ferida a arma antiga que estou lhe mostrando, a qual deveria estar em sua mão, - respondeu o médico tomando de sobre a mesa um objecto que mostrou a Alfredo.
Duvidando do testemunho de seus sentidos, o jovem homem examinou um fino estilete com a ponta ligeiramente recurva e o cabo de ágata incrustado, cuja procedência antiga não poderia ser posta em dúvida; na lâmina ainda húmida de sangue fresco apareciam em alguns lugares manchas escuras semelhantes às de ferrugem.
— Com o risco de passar pela sua opinião de que estou louco, eu juro que estou vendo essa arma pela primeira vez em minha vida, - disse Alfredo com emoção.
Não posso explicar o facto compreensivelmente, cuja prova palpável está aqui entre nossas mãos; mas me deixe doutor, lhe contar o que aconteceu.
E relatou com detalhes a estranha maneira pela qual tinha obtido o desenho que o havia arrastado a esculpir a estátua do romano, a inquietude febril que o atormentava já há mais de um mês e, enfim, o choque inexplicável que fez desviar seu cinzel, bem como a estranha visão dos olhos vivos e odientos no rosto de mármore.
Impressionado, apesar de sua incredulidade, o velho médico escutou; ele também não encontrava nenhuma explicação para os fenómenos cuja evidência o forçava a admitir a realidade, ao menos em parte.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 01, 2016 7:54 pm

Mas se escudando, segundo o mundo moderno, declarou que tudo aquilo procedia de uma superexcitação de nervos, produzida por um excesso de trabalho e, para impedir o retorno dessas perigosas alucinações, prescreveu calmantes e repouso absoluto.
Prevenida por um telegrama do médico, Edith chegou na manhã seguinte e, sabedora dos detalhes do acidente, um inexplicável sentimento de angústia e de cólera fechou seu coração.
Alfredo, que tinha compreendido o quanto sua esposa estava emocionada, aproveitou o momento em que estavam os dois a sós para lhe dizer:
— Eu quero Edith, contar alguns detalhes que não pude lhe dar diante dos outros...
E repetiu a narrativa que fez ao médico.
Pálida e trémula, a jovem se apoiou no espaldar de sua poltrona; esses factos, que coincidiam tão estranhamente com o que ela havia vivido na véspera de Natal do ano precedente, confirmavam a suspeita de que um ódio oculto mas implacável planava sobre seu marido, surgindo entre o casal como uma barreira invisível, ameaçando, talvez, a vida dos dois.
— Edith, - disse Alfredo com ternura, - eu vejo por sua palidez que minhas palavras reavivaram em você a lembrança de alguma coisa que sempre me escondeu e que se passou em 24 de dezembro último; você mudou desde seu desmaio no ateliê, lugar onde parece se encontrar uma força nefasta e desconhecida; seja franca, minha bem-amada, e talvez consigamos encontrar a chave do enigma.
— Sim, Alfredo, quero lhe contar tudo, - respondeu ela.
Abraçando seu marido com impetuosidade e, voz entrecortada, a jovem relatou a visão que havia tido, e o sonho estranho em que lhe foi mostrado o incêndio de Roma, assim como o assassínio do patrício Valérius por Flávius, o escultor.
"Os espiritualistas pretendem que nós vivemos mais de uma vez; e se nós dois duvidamos dessa assertiva, agora temos certeza, depois do que passamos.
Essa urna que, depois de dois mil anos vem nos reencontrar com as cinzas que ela contem intactas, está indubitavelmente ligada a nós dois por um passado criminoso; desde que esse vaso fatídico entrou em casa, alguma coisa invisível permaneceu entre nós, semeando o frio e a inimizade, - exclamou Edith, trémula e agitada.
Por qual força misteriosa da natureza se operaram esses fenómenos, eu ignoro, mas sei que as cinzas desse Valérius animaram esse fantasma, que não acha repouso na morte, nos embruxa e nos persegue.
Jogue essa urna fora, Alfredo, ou a dê a algum museu, mas que ela saia de nossa casa."
Pálido e emocionado o escultor ouviu atento.
— Tem razão, tudo isso é esquisito, misterioso, até lúgubre...
Que sabemos sobre o passado e o futuro? Nada.
De onde viemos? Aonde vamos? Não se sabe.
Mas essa uma é verdadeiramente nefasta para nós dois e amanhã, quando venha o doutor, vou lhe rogar que a leve ao museu de nossa cidade.
Edith suspirou aliviada, mas nesse momento sentiu uma corrente de ar glacial, e, sacudida por um arrepio, procurou ver de onde vinha esse vento.
— Que frio! E a janela está fechada!
Muito séria e inquieta, Edith retomou seu lugar à cabeceira do doente.
Durante a noite seu estado piorou e ele delirou com febre alta.
Durante o dia seguinte ela ficou absorvida com os cuidados a dar a seu marido, esquecendo de pedir ao doutor para levar a urna.
Veio a noite. Alfredo dormia um sono pesado e febril; o coração opresso de Edith velava em sua cabeceira, visualizando o ano decorrido.
"Meu Deus! - murmurou ela, - na véspera do Natal passado eu estava furiosa porque Alfredo havia ido visitar seu pobre e velho instrutor que estava morrendo e, por punição a mim, é ele hoje que está doente, ferido...
Por minha falta de coração a árvore do Cristo não vai se iluminar debaixo do meu tecto..."
Algumas lágrimas correram em seu rosto, e fechando os olhos ela recostou a cabeça no espaldar da poltrona - uma fadiga exagerada pesava nela toda.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 01, 2016 7:54 pm

Um ruído de passos a fez estremecer e, na soleira do quarto, ela percebeu distintamente a alta figura do romano que lhe fazia um sinal com a mão para que o seguisse.
Paralisada de pavor, ficou chumbada na poltrona.
Em compensação, viu Alfredo se sentar na cama, o rosto febril, os olhos desvairados; depois, com um novo sinal do romano, o viu descer da cama, se jogar sobre Valérius e lutar corpo a corpo.
Vendo-o rolar pelo chão, Edith soltou um grito e fechou os olhos.
— Estou sonhando!
Murmurou ela, mas no mesmo instante saltou da poltrona:
o leito estava vazio e as cobertas no chão.
Sob o império do sonho que acabava de ter, a jovem não duvidou que a sombra maldita, surgida do abismo do passado, estava de novo em acção; mas para onde tinha ela arrastado Alfredo?
Ele estava muito febril e tinha deixado a cama?!
Com a mão trémula Edith acendeu uma vela e procurou o marido; não o encontrou nem nos quartos contíguos, nem no seu escritório, e, com o coração fechado por triste pressentimento, ela desceu a escada correndo, entrando no ateliê; mas logo ao primeiro olhar pela sala, ela parou de pernas trémulas e se encostou à parede:
percebeu Alfredo enlaçado à estátua, parecendo lutar com ela; o peito do doente resfolegava, sua respiração entrecortada e ruidosa denotavam o esforço de uma luta acima de suas forças.
Súbito o olhar aflito de Edith encontrou a urna pousada sobre o console, destacando-se como uma mancha fosforescente de sombra que afogava aquela parte do apartamento; bem em cima do vaso vacilava uma grande chama azulada cuja luz brincava caprichosamente sobre o ouro brilhante da rede e do camafeu que ela enquadrava.
Um misto de pavor e ódio surgiu na alma de Edith contra o romano cujas cinzas retomavam vida para os perseguir e, tomada por súbita ideia, ela se precipitou sobre o console, levantou a urna com as duas mãos, e num esforço desesperado, a jogou ao chão.
O barulho do vaso que se quebrava foi coberto por um fragor semelhante ao trovão; um duplo grito se ouviu e, atingida na cabeça como por um golpe de massa, Edith desmaiou, com a sensação de que rolava para dentro de um enorme buraco.
A criadagem assustada acreditou se tratar de um desmoronamento e todos correram ao ateliê.
Ali encontraram o casal caído, ambos estendidos no chão inconscientes; ao derredor os cacos da urna e os escombros da estátua quebrada que havia saltado de seu pedestal e, ao cair, tinha atingido Edith na cabeça ocasionando-lhe um profundo corte; quanto a Alfredo, quando quiseram levantá-lo, constatou-se que seu braço direito fora quebrado, estando sobre um grande bloco da estátua.
Os dois foram retirados do ateliê desmaiados; e somente depois de longas semanas de sofrimento a natureza jovem de ambos triunfou ao mal teimoso que os pusera a um passo da morte.
Mas uma triste circunstância devia lhes lembrar pelo resto da vida o terrível e misterioso acidente:
o braço de Alfredo ficou rígido e fraco; nunca mais sua mão trémula poderia manejar o cinzel de escultor.
A alma vingativa de Valérius paralisara o braço vingador que outrora o havia tirado de uma vida de riquezas e prazeres.
Os jovens esposos venderam o pequeno palácio que lhes passou a ser odioso, e, tendo adquirido no sul da Alemanha uma propriedade, ali se estabeleceram; nunca, contudo, puderam esquecer as duas trágicas vigílias de Natal, durante as quais veio atingi-los uma estranha e misteriosa Némesis.

(1) Abeto: árvore europeia da família das abietíneas; pinheiro alvar; planta ornamental. N.T.
(2) Panóplia: Armadura de cavaleiro da Idade Média. N.T.
(4) Pórfiro: No grego, púrpura. O nome alude à cor.
Qualquer mármore que apresente cristais muito brancos em contraste com o fundo.
N.T.
(5) Némesis: Ser da Mitologia grega, filha da noite.
Às vezes é personificada como a vingança divina que castiga o crime, abate o orgulho e corrige o excesso de felicidade com que um mortal pode despertar a inveja nos deuses.
A concepção grega é de que todo aquele que se eleva acima de sua condição está sujeito à correcção por parte dos Imortais, porquanto tende a comprometer o equilíbrio do universo.
N.T.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 01, 2016 7:54 pm

O AMOR - Conto Filosófico

Uma alma humana chamada Psique se preparava para deixar o Céu e descer à Terra, para se revestir da pesada veste da matéria.
Como era mulher, era curiosa; então, antes de abandonar a Pátria Celeste, resolveu visitá-la, ver tudo, experimentar tudo, mas acima de tudo, conhecer a verdadeira natureza do Amor, pois sobre a Terra todos devem experimentá-lo para adquirir a felicidade.
É sabido que o Amor dá mais dor que alegria e ela desejava levar a seus irmãos a compreensão do sentido verdadeiro desse estranho e traiçoeiro sentimento.
Ela se pôs a caminho, percorrendo em todos os sentidos as alas risonhas do Paraíso, embalsamadas, bordadas de flores.
Um templo imenso, de arquitectura aérea e original, foi o que lhe atraiu primeiramente a atenção:
"Aqui é o Templo das Artes.
Entre. Mulheres também são admitidas", - explicou-lhe um pequeno querubim, respondendo à sua interrogação muda; ele estava sentado à soleira e brincava com as flores.
Curiosamente Psique penetrou no vasto edifício, iluminado por radiosa luz; os génios, vestidos de branco, se ocupavam em todos os trabalhos que se nomeie por Arte.
— Aproxime-se, filha da Terra, disseram eles, saudando-a com sorrisos; a mulher, assim como o homem, está apta a compreender a arte perfeita e a se revestir com a estrela do génio.
E eles a fizeram admirar a beleza perfeita, sob todas as formas, e, embriagada com tanta perfeição, consternada por deixar tudo aquilo para descer à Terra, tão imperfeita, Psique se pôs a contar seus pesares em um eflúvio harmonioso, assim como suas alegrias e todas as dores terrestres, toda a nostalgia de sua alma que aspirava às felicidades do Céu.
Depois tomou de um pincel e tentou traçar no éter uma imagem de beleza perfeita.
A Pintura, observando-a, sorriu e coloriu sua obra com raios do prisma solar, animando-a de radiosa vitalidade; depois, os génios da poesia e da pintura beijaram Psique e sobre sua testa brilhou uma estrela.
Saindo do Templo das Artes, Psique se dirigiu a uma vasta clareira bordada de árvores gigantescas:
lá, ela viu seis pequenos templos que se elevavam, três de um lado e três de outro; todos eram ornados de emblemas e sua brancura de neve era nítida sobre o fundo escuro de espessa verdura que os cercava.
No centro desses templos, ocupando o fundo, se elevava um edifício de aparência singular, maior que os demais, parecendo feito de ouro e pedras preciosas tais os faiscantes raios que fulguravam em sua fachada, aclarando os arredores como um sol.
Mas o fundo da construção era sombrio, parecia se perder numa bruma longínqua.
— Eis a morada das sete virtudes, explicou um geniozinho que acompanhava Psique; lá, à direita reside a Justiça; vá visitá-la primeiro.
Com embaraço respeitoso, Psique franqueou a soleira e se inclinou profundamente diante de uma mulher de severa e rígida beleza, sentada sobre cadeira de pedra.
Seu olhar transpassava como uma chama e sua veste cintilava como um raio de luz.
— Aproxime-se, filha da Terra, - disse ela em voz metálica, pousando a mão sobre a cabeça respeitosamente inclinada de Psique; - eu encho seu cérebro com meu sopro, para que você julgue seu próximo com justiça; mas para usufruir do dom que prodigalizo, sem que a cólera a arraste e as paixões a ceguem, vai rogar às minhas irmãs a armarem com as virtudes que elas possuem.
No templo contíguo, Psique encontrou a Paciência, ser suave, olhar melancólico que afectuosamente a atraiu a seus braços.
— Vem, minha filha, darei tempera a todo seu ser com meu eflúvio; és mulher, então, mais que os outros, terá necessidade de mim a cada passo que dê na vida.
Paciência é a divisa da mulher.
Ao lado da Paciência morava a Vontade.
Seu rosto pálido era rígido, seus lábios finos fortemente cerrados, e o mirar de seus grandes olhos escuros era inflexível e imutável como o destino; uma túnica com reflexos de aço a envolvia.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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— Todos os dons são estéreis se não há a Vontade de os pôr em prática, disse ela com voz forte.
Então aprenda a querer, filha da Terra, mas somente a querer o Bem.
Levantou a mão e um clarão atravessou o cérebro de Psique como um raio.
Estranhamente reconfortada, ela saiu, atravessou a clareira e penetrou no primeiro dos três templos que havia do outro lado.
Doce e vivificante luz ali brilhava e, na soleira, a recebeu jovem mulher com ar tão carinhoso, tão doce, que Psique se sentiu invencivelmente atraída por ela; em seu peito se via um coração chamejante, vermelho sangrento, que palpitava como se fosse vivo.
Ela cobriu Psique com um tecido de seu agasalho, que brilhava com reflexos róseos e dourados, lhe dizendo:
— Sou a Caridade e doo a você a compaixão e o desejo de ajudar.
Cubra com um impulso do coração todo o ser que veja sofrer, como eu a cubro com meu manto.
Em seguida, a Caridade tomou a mão de Psique e a conduziu até o templo contíguo:
— Eu mesma a apresentarei a meus irmãos, a Abnegação e o Perdão; somos inseparáveis, e quem recebe em seu coração um de nós, deve acolher também seus irmãos.
Um pálido crepúsculo enchia a casa da Abnegação, ser frágil, com contornos imprecisos e vaporosos, que flutuava, parecia, por cima do solo, sustentada por grandes asas prateadas; sua túnica ampla e acinzentada se fundia com a atmosfera; seus grandes olhos, azuis como a flor de linho, eram insondáveis como o oceano em repouso.
— Pareço impalpável e sem consistência, como a nuvem que a lufada de ar dissipa, mas meu ser é mais resistente que o granito, disse ela com voz harmoniosa e velada.
— Minhas asas, mais flexíveis que o sopro, entretanto mais duras que o aço, me levam sobre os abismos; me libro sobre os maiores obstáculos, com minha aparente flexibilidade, sou mais poderosa que todos os meus irmãos, que podem enfraquecer e cair, feridos com as asperezas do caminho, repelidos pela ingratidão dos humanos; eu passo sem ver essas vicissitudes, porque posso beber a mais bela e a mais embriagadora das bebidas do Céu - o esquecimento de si mesmo!
Ela estendeu à visitante uma pequena ânfora azul, transparente como cristal, e, quando Psique acabou de tomar um gole do seu conteúdo, se sentiu leve e forte como não havia jamais experimentado.
Coração cheio de fé e entusiasmo, penetrou a casa do Perdão, cuja alta e majestática figura, olhar enérgico e profundo, lhe lembrou a Vontade.
— Aprende, filha da Terra, que sou o resumo de todas as Virtudes que você acaba de visitar; quando se compreendeu e sondou na verdadeira essência a Justiça e a Paciência, a Abnegação e a Caridade, se perdoa a fraqueza e o erro dos homens; tudo compreender é tudo perdoar.
Então exerça, filha da Terra, o perdão sob todas as suas formas; penetre na compreensão de meu ser.
Sou o bálsamo das feridas da alma:
o ódio, a injustiça, a crueldade.
Derrubo a meus pés os sete pecados capitais; eles rastejam diante de mim, rugem de impotência, amordaçados em suas paixões venenosas das quais eu zombo.
Perdoe e você será forte; as feridas que lhe façam os homens não sangrarão e você tornará pela metade o peso de sua cruz.
Perdoe, creia, espere e subirá seguramente no caminho estreito e íngreme da perfeição.
Comovida e quase trémula, Psique se encontrou enfim diante de um estranho e misterioso edifício que ocupava o fundo da clareira e ali encontrou reunidas as Virtudes e os Génios das Artes que ela acabava de visitar.
Constatou que, em lugar de uma porta, era uma cortina que vedava a entrada, dissimulando-a.
Mas ela jamais havia visto semelhante tecido:
ele vibrava e ondulava, parecendo tanto ser luz brilhante quanto sombras compactas.
E a cada ondulação da cortina, a um só tempo pesada e transparente, emanava perfume delicioso que se metamorfoseava em seguida em um aroma ácido e atordoante.
Mais disparatado era o ruído que havia no interior:
por instantes, música verdadeiramente celestial, um canto de esferas superiores se fazia ouvir, logo se mudando para um zumbido tempestuoso de sons discordantes, lancinantes, semelhantes a gemidos de seres submetidos a torturas sobre-humanas, que, em desvario, estivessem sendo arrastados ao suplício.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 01, 2016 7:55 pm

Embriagada de início pela celeste harmonia, Psique se sentiu atraída por esse lugar misterioso; uma felicidade insensata a invadiu, fazendo-a esquecer o Céu e os dons das Virtudes e dos Génios; ela se lançou com ímpeto nos degraus, mas subitamente parou e recuou apavorada:
gritos de agonia e de sofrimento chegavam dali...
— Que significa isso? - Balbuciou ela.
— E aqui que reside o Amor, e é em seu templo que ressoam os hinos de felicidade e os tumultos deste caos discordante, responderam as Virtudes e os Génios.
Não transpasse essa soleira, Psique; aquele que reside aí não será para você um amigo e um protector, mas um adversário implacável.
Nós a armamos, enfeitamos e sustentamos mas esse ser lutará contra você e a condenará ao sofrimento sem medida, se imprudentemente você provar a beberagem envenenada que contém sua taça.
Uma vez que lhe sinta o gosto, o veneno encherá todo seu ser e você não quererá viver sem ele.
Está escutando os gritos?
Essas são as vítimas, pois estão nas chamas, sobre os altares, se consumindo; não são perfumes, mas corações humanos palpitantes e dilacerados.
Psique escutou, tremendo, atraída e repelida por esse mistério duplo; mas nesse momento soou de novo o canto divino e o sentimento embriagador de felicidade a invadiu, fazendo-a esquecer tudo.
Como enlevada por uma onda abrasadora, ela subiu os degraus, fendeu o véu que mascarava a entrada e, num só impulso, saltou e se encontrou diante do altar, onde se sentava no trono o Autocrata.
Sorridente e seguro do triunfo, o amor se aprumou diante de seu olhar deslumbrado; seu corpo era como afogado em raios purpúreos do sol nascente; sobre sua fronte, um gigantesco feixe de raios formava um diadema; cachos dourados a cercavam, delicada como uma auréola, que nenhuma ruga desfigurava, que nenhum cuidado obscurecia.
Radioso sorriso errava nos lábios purpurinos desse Rei da hora presente; por sua causa não subsistem nem as dúvidas do passado, nem as dores e decepções do futuro - ele só admite a felicidade do presente. Estendendo a Psique uma taça cheia dum líquido avermelhado, ele mergulhou em seus olhos o olhar poderoso ao qual nem um ser vivente resiste e disse em voz harmoniosa e sonora:
— Pequena alma humana - espera em vão esconder seu coração, roubá-lo ao meu altar.
Uma vez aqui, aos meus pés, está perdida; nem as dúvidas, nem as agonias, nem as dores a desanimarão; seus lábios sempre sedentos procurarão sem descansar a taça que contém todas as delícias do céu para aquele que pode ali estancar sua sede.
Sou a incorporação do mais possante motor do Universo; do átomo ao arcanjo, tudo se prosterna diante de mim; sobre meu altar é veiculada a própria essência dos corações, os mais puros como os mais abjectos, porque sou o sentido verdadeiro da vida, mas dou a felicidade somente aos que compreendem a verdadeira essência de meu ser.
Saiba bem isso:
sou o Céu e o Inferno; eis minha taça - bebe se tem coragem!
Psique hesitava, tremendo; sentia-se impotente para resistir; tudo nela era arrastado para o grande mistério traçado sobre a fronte do Amor e a compreensão que lhe faltava, apesar de todos os dons que a haviam dotado.
Para seu espírito não havia passado e futuro - estavam apagados; invadida e escravizada pela sensação do presente, com mão trémula, pegou a taça, essa taça sempre cheia por alguém, por cada um daqueles que querem compreender, apoderar-se da solução do mistério: e a esvaziou.
Por curto momento, se sentiu enlevada, sobre as asas do êxtase, numa felicidade sem limites; depois, à medida que esse estado se enfraquecia, seu coração se enchia de todas as dúvidas, de todas as amarguras, de toda essa sede inextinguível à qual o Amor faz pagar esse curto momento de felicidade.
Com uma dolorosa súplica, ela estendeu suas mãos à embriagadora bebida, tentando se desalterar, mas a taça estava vazia para ela e não mais se enchia.
Psique morria de sede e se torcia de dor e angústia, fixando o Amor, que, vitorioso, impassível, estava diante dela.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 01, 2016 7:55 pm

Mas, subitamente, ela viu o Deus Autocrata sofrer estranha metamorfose - seus traços, que respiravam orgulho e triunfo, se tornaram harmoniosos e calmos; as cores brilhantes que tornavam difícil a seus olhos suportar, se fundiram em tons de doçura infinita; um vapor violeta o envolveu como uma nuvem, escondendo-o aos olhos de Psique, deixando apenas visível sua mão elevada, sustentando o cálice de ouro.
Do fundo da taça vazia, se elevou então um radioso e pequenino ser, com membros róseos e frágeis, com a cabecinha de cabelos encaracolados, olhos azuis como pervinca (1).
Com um sorriso celeste, estendeu a Psique seus bracinhos roliços e com voz tímida murmurou:
"Acolha-me, me ame, me ensine as virtudes com as quais é dotada, faça de mim um ser útil, digno do nome de Homem, que compreende as palavras amor e dever em seu verdadeiro sentido."
Esquecendo sua sede, esquecendo que por ele a taça ficou vazia de seu conteúdo embriagador, Psique pegou o menino e o apertou contra o coração.
De novo a corrente quente e vivificante percorreu todo o seu ser, e uma paz solene e profunda encheu seu coração atormentado.
Todo seu rancor desapareceu; o Amor não lhe tinha pagado seus sofrimentos por esse dom inestimável?
Ela tinha em seus braços uma alma humana confiada a ela para que a conduzisse até o fim luminoso da perfeição.
Essa missão sublime ela aspirou perfazer dignamente e, sob o impulso desse novo e poderoso sentimento, ela sentiu lhe crescerem asas e uma força sobre-humana encheu seus membros, para proteger o ser confiado a seu amor, para o carregar e defender através de todos os obstáculos e perigos da vida.
O Amor também tinha reaparecido, mas harmonioso e velado, e como Psique contemplava sem amargura o copo vazio que ele sustentava, ela o viu se tornar maior, com a brancura da neve.
Uma guirlanda de açucenas agora ornava sua fronte, conservando o véu rosado com reflexos de ouro que o cercavam como um manto imenso, abrigando a seus pés uma multidão de diversos seres, desde o insecto até o homem, uns sadios, outros estropiados ou doentes.
Todos se apertavam contra ele, procurando o calor e a luz que a admirável aparição exalava.
Com espanto, Psique viu que ele também trazia um manto imenso e quente e que uma parte dos seres que se agrupavam aos pés do Amor se refugiavam perto dele.
Um sentimento indizível de afeição e de pena encheu seu coração por esses espíritos, que, em todos os degraus da escada - desde o animal até o homem, subiam penosamente o caminho das provas.
Ela se inclinou, abraçando a todos, enquanto lágrimas de piedade caíam de seus olhos, lágrimas quentes como fogo e brilhantes como diamantes.
Então o Amor estendeu sua taça, recolheu as lágrimas e disse:
— Agora você compreendeu o sentido secreto de meu ser.
O amor embriagador dos sentidos é passageiro e mesclado de amargura; o amor maternal lhe deu asas, o amor humanitário lhe arrancou lágrimas que em minha taça se incendeiam.
Veja! elas fervem com a chama imortal que aquece mas não consome.
Todos os dons que as Virtudes e os Génios lhe deram quedavam como forças mortas e estéreis enquanto não os tinha vivificado o fogo do amor verdadeiro.
Agora vai à Terra, alma humana, praticar a Justiça e a Caridade, a Abnegação e o Perdão, animando-os de Amor sob todas as suas formas.
Vai à Terra cantar-me nas Artes e nas Virtudes, ensinando aos homens a conhecer e a praticar meu sentido secreto, e os pouparei da amargura que está no fundo de minha taça.
Silenciosa e introspectiva, Psique deixou o templo onde havia aprendido todos os mistérios da Vida; com uma das mãos ela pressionava contra si a criança; com a outra ela trazia a taça na qual queimava uma chama brilhante de Amor Humanitário, aclarando o seu caminho.
Logo se reencontrou diante das Virtudes e dos Génios que a esperavam.
Entre eles, pequenos anjos sustentavam um vasto espelho feito de éter transparente; a imagem da Psique ali se reflectia e, com espanto, ela viu seus cabelos, que dantes pretos, se haviam tornados brancos como a neve e uma coroa de espinhos sangrentos cingia sua fronte como uma auréola purpurina.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 01, 2016 7:55 pm

— Que significa isso? - balbuciou ela.
— Isso significa o triunfo de uma alma sábia que suportou valentemente uma prova terrestre, com suas grandes misérias e seus sublimes devotamentos e que reentra agora na Pátria Celeste enfeitada duma velhice honrosa e coroada pela Coroa dos Magos onde cada jóia é uma vitória sobre si mesma, responderam os habitantes do Céu.
E apresentando a Psique uma palma, eles acrescentaram:
— Toma este símbolo de vitória e vai ensinar a todos os seus irmãos terrestres o sentido místico do Amor Verdadeiro, que todos os homens procuram, mas não podem achar, porque eles querem somente beber a taça que embriaga; e passam, cegos, ao lado do Grande Motivo, que é a base do Universo e o Guia Luminoso nas provas de nosso espírito.

(1) Pervinca: Designação comum a duas plantas da família das Apocináceas. N.T.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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