Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 02, 2016 9:06 pm

O CAVALEIRO DE FERRO
(lenda)

Um caramanchão formado de rosas, acácias e palmas floridas um jovem casal se sentava a um banco de mármore; um belo homem, elegante, declamava inflamado os versos contidos num pergaminho que ele havia desenrolado; a mulher sentada a seu lado era de uma beleza incomum; seu vestido de brocado azul aderente ao busto desenhava formas admiráveis; espessos cabelos anelados de tom ouro-cinzento envolviam como auréola um rosto de traços regulares, clareados por grandes olhos azuis.
Naquele instante ela parecia absorta e seus dedos delicados arrancavam inconscientemente as pétalas de um ramalhete de flores sobre seus joelhos.
— Com você eu me esqueço, Gabriela - disse o homem detendo-se e enrolando o pergaminho.
Poderia adorá-la eternamente, mas é preciso que eu parta imediatamente se quiser chegar a tempo à aldeia.
— Mas você voltará logo, Loredano; aqui estarei contando as horas! - respondeu a mulher erguendo-se e colocando delicadamente seu braço sob o dele.
Falando de amor, eles se dirigiram através de espessa alameda, na direcção da muralha que cercava o jardim.
Perto de um portão que se abria para a estrada, alguns homens a cavalo aguardavam e um servo detinha as rédeas dum soberbo corcel.
Loredano montou-o.
— Até À volta, MADONA MIA, - exclamou despedindo-se finalmente.
Amanhã, ao anoitecer, estarei de volta.
Gabriela permaneceu de pé, seguindo com o olhar a pequena equipa de cavaleiros que descia a galope a estrada sinuosa que conduzia à planície.
Quando uma curva do caminho furtou definitivamente a vista de seu marido, ela se recolheu, empurrou cuidadosamente o ferrolho do portão e retomou apressada o caminho do castelo, vasta construção - metade palácio, metade fortaleza flanqueada de torres e circundada por altas e espessas paredes.
Como quem se liberta de um enorme peso, a jovem mulher respirou fundamente; sorridente, olhar reluzente, ela se recolheu a seus aposentos, deu algumas ordens às suas criadas, acariciou uma bela criança de alguns meses que brincava no colo de sua ama, e, a seguir, tomando da mesa um volume encadernado em couro, disse à sua camareira:
— O tempo está maravilhoso, vou ler no jardim.
Lépida como uma fada, desceu a escada do terraço, mas em vez de se dirigir a algum banco ou caramanchão, caminhou sob várias alamedas escuras que rodeavam o castelo e, abrindo passagem através de arvoredos carregados de flores, deparou-se ao pé duma torre.
Retirando do bolso uma chave, abriu pequena porta, quase oculta nos arbustos, e galgou uma escada em caracol, escura e estreita.
Ao chegar diante duma segunda porta, que entreabriu sem fazer ruído, Gabriela se deteve um instante.
Seu coração batia como prestes a se romper, e seus olhos examinavam ansiosamente o interior do apartamento.
Era um quarto redondo, forrado de tapeçarias escuras sobre as quais os raios de sol poente lançavam como que filetes de ouro.
Sobre a beira da janela aberta estava sentado um homem jovem, vestido de negro.
Seu rosto pálido e bem proporcionado era duma beleza admirável e tinha tudo para seduzir uma mulher, mas nos seus grandes olhos escuros, sombrios e profundos como um abismo, pareciam brotar todas as paixões que embaciam a alma humana.
— Ugo! - Murmurou Gabriela com a voz alterada.
O rapaz atirou-se a ela e apertou-a com arrebatamento contra o peito:
— Finalmente você voltou!
Pensei que iria ficar louco aqui!
Saber que está sempre com ele, sendo amada da maneira como ele a ama, é um inferno acima das minhas forças.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 02, 2016 9:07 pm

Ele levou a jovem mulher até uma espaçosa poltrona entalhada, situada junto à janela e ajoelhou a seus pés.
— Sim, Gabriela, prosseguiu ele enlaçando sua cintura, não posso suportar esta vida por mais tempo e decidi partir amanhã.
Odeio Loredano e tenho ciúmes; mas ele despreza o pobre primo sem fortuna e sem protecção para destruí-lo.
Um mendigo como Ugo Castellari ousaria ser o rival de Loredano?!...
A essas palavras vibrantes de furor e amargura, a jovem mulher fundiu-se em lágrimas:
— Não fale assim, Ugo.
Gostaria de o poupar desses sofrimentos, mas como fazê-lo?
Que posso eu contra um esposo?
Aconselhe-me. Como me desembaraçar dele?
Seu amor, suas carícias me são odiosas.
Ela abraçou apaixonadamente o rapaz.
Uma expressão indefinível contraiu o rosto do italiano e seus olhos reluzentes devoraram a bela criatura abatida em seus braços.
— Acalme-se, Gabriela.
Se você cessar finalmente de hesitar e fizer uma escolha entre nós dois, sei de uma maneira de devolver sua liberdade.
— Um assassinato? - murmurou ela, estremecendo. Ugo sacudiu a cabeça.
— Nada de morte.
Nem sua consciência nem a minha serão manchadas do seu sangue.
Puxou um banco, sentou-se e continuou:
— Ouça, pois, minha bem amada, o plano que idealizei para garantir nossa felicidade e livrá-la de remorsos.
Ninguém aqui sabe que sou um homem de ciência, para quem a natureza tem poucos segredos.
Não foi em vão que vivi dos dez aos vinte e sete anos junto a Fra Gregório, o sombrio alquimista do Convento de Santa-Croce.
O órfão que ele recolheu tornou-se seu ajudante, empregado e, finalmente, o herdeiro de sua ciência.
Pois bem! Esse saber tão preciosamente adquirido, quero utilizá-lo para nos privar de um crime.
Abriu sua algibeira e retirou dela um pequeno frasco cinzelado que deu à jovem mulher.
— Quando retornará Loredano? - Ajuntou ele.
— Amanhã ao entardecer.
— Bem, quando ele estiver deitado e adormecido, faça-o respirar o conteúdo deste frasco.
Ele cairá num torpor semelhante à morte e então você deve me chamar e nos deixar a sós.
Mas eu juro a você, por Nossa Senhora, que de forma alguma o matarei.
Alguém poderá até fazê-lo reviver, desde que você o queira; ele somente desaparecerá e não fará mais obstáculo à nossa felicidade.
Gabriela, escutando atenta a exposição desse plano estranho, apaziguou-se e seu rosto se tornou completamente tranquilo.
— Oh! De minha parte jamais desejarei reviver Loredano!
Que nossos descendentes o despertem de seu sono encantado, - acrescentou ela sorridente.
Mas, Ugo, onde ocultaremos o corpo para que permaneça escondido, se não o sepultarmos?
— Já pensei nisso.
Diga-me, Gabriela, pode-se chegar, sem ser visto, à sala de armas?
— Sim, através de uma passagem secreta que se abre ao fundo da sala na grande lareira.
— Não poderia ser melhor.
Por esse caminho levarei Loredano à sala de armas e o ocultarei na armadura de seu avô Galeazzo, que morreu tão misteriosamente, levado pelo diabo, segundo dizem.
Ele mesmo me contou que nunca o molestam ali, onde ninguém irá procurá-lo e ele terá tempo de aguardar sua ressurreição!
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 02, 2016 9:07 pm

Ambos riem, muito divertidos e selam com beijos apaixonados o pacto odioso que acabam de concluir.
Anoitecera. Tudo dormia no castelo, nenhum ruído perturbava o profundo silêncio.
No dormitório do jovem castelão, parecia que se repousava igualmente; a luz duma lamparina aclarava tenuemente os móveis entalhados e um largo leito com um brasão, cercado de tapetes de veludo.
Nesse instante, o raio luminoso aclarou uma cabeleira loura que se ergueu do travesseiro e se inclinou com precaução sobre o castelão profundamente adormecido.
A seguir, uma pequena mão apareceu empunhando um frasco cinzelado que ela colocou todo aberto sob o nariz do adormecido.
Este respirou ruidosamente, depois soltou um profundo suspiro.
A jovem mulher estremeceu e inclinou-se de volta ao travesseiro; mas ao fim de um instante, tranquilizada pela imobilidade do marido, aproximou uma segunda vez o frasco de suas narinas.
A seguir, deslizando para fora do leito, vestiu uma larga veste nocturna e dirigiu-se rápida como uma sombra a um dos cantos do dormitório.
Com a mão trémula soltou uma alavanca oculta ao revestimento de madeira.
Um painel secreto se abriu e descobriu um pequeno corredor que conduzia a uma escada espiralada.
Ali, acostado à muralha, se encontrava Ugo, pálido e inquieto.
Uma vela de cera brilhava num castiçal de prata colocado sobre o último degrau da escada.
Ao avistar a aparição de branco, ele estremeceu:
— Foi feito? - Disse ele.
Gabriela inclinou a cabeça, sem responder; seus dentes batiam e sua garganta estava cerrada como num torno.
Ugo apanhou o castiçal e, aproximando-se rapidamente do leito, iluminou o rosto pálido de Loredano, estendido como morto, os olhos totalmente abertos:
— Excelente, - exclamou ele com satisfação.
Deixe-nos, Gabriela.
A jovem mulher permaneceu imóvel ao pé do leito.
Todo seu corpo tremia, inclusive os pés que se recusavam a obedecê-la.
Então Ugo a pegou em seus braços, levou-a a um quarto contíguo, onde a colocou numa poltrona, persuadindo-a a ter coragem e a esperá-lo ali.
Uma hora mais tarde ele a chamou; o jovem conde, vestido com as roupas da véspera, estava colocado sobre uma cadeira.
Ugo carregou-o nas costas, ordenando à jovem mulher, refeita de sua primeira emoção, a apanhar o castiçal e iluminar o caminho.
Silenciosamente eles galgaram os degraus da escada, atravessaram um estreito corredor e se detiveram diante de um paredão aparentemente sem saída.
Gabriela então abriu uma pequena porta oculta:
penetraram numa sala comprida, arqueada, iluminada por altas e estreitas janelas góticas.
Ao redor, sobre pedestais, encontravam-se armaduras completas - todas pertencentes aos membros ilustres da família - amassadas nas muitas batalhas.
A lua cheia aclarava a sala; seus raios argênteos espargiam-se de maneira fantástica sobre os homens de ferro imóveis e o conjunto de armas de todo tipo que ornamentavam as paredes.
Diante de uma das armaduras, Ugo se deteve e, deitando sobre a laje o corpo inerte de Loredano, começou a armá-lo.
Depois de encerrar o jovem conde em sua prisão de ferro, ergueu-o, pondo-o em pé sobre o pedestal e colocando-lhe o elmo, cuja viseira ele fechou.
Em seguida, deslizou entre os dedos da luva metálica um minúsculo rolo de pergaminho.
— Que é isso? - Perguntou Gabriela, que havia assistido a toda a cena.
— e a fórmula para a ressurreição do cavaleiro Loredano, - disse Ugo com um sorriso lúgubre.
Talvez, nalgum século futuro, a sorte traga aqui um sábio que saiba decifrar esse pergaminho.
Ergueu a lamparina e proclamou de forma irónica:
— Adeus, Conde Loredano!
Venha Gabriela.
Conduziu a jovem mulher ao quarto abandonado e, apertando-a ao seu peito, murmurou apaixonadamente:
— Agora este lugar vago me pertence, não é mesmo, mulher adorada?
— Sim, Ugo, - respondeu Gabriela em voz baixa e trémula.
O lugar daquele que deixou este quarto é teu, mas não antes que o Padre haja abençoado nossa união.
— Sua vontade é a minha lei, - respondeu o jovem homem, beijando sua mão; em seguida, lançou-se ao corredor secreto e desapareceu.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 02, 2016 9:07 pm

CENTO E CINQUENTA ANOS DEPOIS

É o mesmo castelo que encontramos, no momento de retomar esta narrativa.
Um século e meio se passou sem provocar sensíveis mudanças no aspecto do velho edifício.
Como outrora, ele se ergue sombrio e imponente no cume da colina.
Entretanto, desta vez, o velho colosso de pedra se mostra ornado e cheio de vida.
Por toda parte enrolam-se guirlandas de flores e a toda volta flamejam estandartes multicores.
Os sons dl música ressoam ao longe e uma multidão alegre e enfeitada se aperta nos salões, jardins e alamedas, onde os vassalos os servem.
Festeja-se o casamento do jovem Conde Ugo, o único filho do velho castelão.
Seus pais o adoravam e por essa razão haviam consentido sua união com a mulher que ele amava, uma jovem e bela órfã, sua consanguínea, de nobre nascença, mas inteiramente desprovida de fortuna e elevada agora a nobre posição no castelo.
O banquete de núpcias estava terminando e os convidados se apertavam junto aos noivos para felicitá-los.
Ela estava encantadora e adornada como uma rainha, mas numa tristeza que saltava aos olhos.
Tão branca quanto seu véu de gaze prateada, ela tinha os olhos abaixados, respondendo com uma inclinação silenciosa os bons votos dos amigos e vizinhos.
O noivo tinha um rosto bem proporcionado e espiritual, grandes olhos negros cheios de fogo e uma cabeleira espessa e anelada.
Ele poderia desfrutar de uma beleza incontestável, se aquela bela cabeça não se fizesse acompanhar de um corpo disforme e corcunda, que nem a rica vestimenta de tecido prateado, nem o pequeno manto adornado de pedrarias poderiam embelezar.
A certeza de estar unido à mulher amada não parecia, no entanto, lhe dar felicidade.
Uma expressão amarga e sofrida contraía sua boca e seus olhos reluzentes não deixavam a pálida noiva.
Pouco a pouco a sociedade se dispersou, grupos se formaram, alguns jovens arrastaram consigo o Conde Ugo.
No grande salão começava-se a dançar.
— Onde está Gabriela?
Você a viu? - perguntou o velho conde, aproximando-se, preocupado, de um jovem e distinto senhor que, esbaforido pela dança, enxugava sua fronte molhada de suor.
— Eu a vi entrar na sala de armas, meu tio.
— Efectivamente ela despreza de maneira ostensiva seu marido.
Acabei de encontrar Ugo procurando-a, - disse o velho senhor com um profundo descontentamento.
E que estranha predilecção para uma moça!
Ela tem uma verdadeira paixão por aquela sala, enquanto que Ugo a detesta, e, desde sua infância, não põe ali os pés senão a contragosto, apesar dos tesouros que ela encerra no que diz respeito às armas preciosas e armaduras!
É verdade, - disse o velho com um suspiro, - que meu filho não é de modo algum adestrado para a vida guerreira, pois tem os gostos de um sábio.
Ele passa os dias na biblioteca a estudar os anais da família ou a folhear os velhos livros de alquimia.
— Console-se meu tio.
Em seus netos nossa antiga raça guerreira renascerá em todo seu esplendor, e se Ugo encontrar o segredo de fazer ouro, isso não será de desprezar, - disse o jovem senhor rindo.
Se tem tempo disponível nesse instante, venha comigo à sala de armas.
É a primeira vez que venho aqui e gostaria que me mostrasse as peças mais importantes.
Interesso-me demasiadamente por essas relíquias de família.
— Com grande prazer, caro Fúlvio.
Aqui se dança e não notarão nossa ausência; além disso, devo encontrar Gabriela e trazê-la para junto de seu marido.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 02, 2016 9:08 pm

Certamente lisonjeado pelo interesse que inspirava sua colecção, o velho senhor pegou o braço de seu sobrinho e o conduziu, através de uma longa galeria iluminada por tochas e lampiões, em direcção à sala de armas.
O vasto recinto era fracamente iluminado por uma lâmpada suspensa no tecto, mas pelas altas janelas góticas vinha do exterior a claridade avermelhada mesclada dos pálidos raios de lua, e esta estranha luz cintilava em reflexos fantásticos sobre os cavaleiros de ferro, imóveis sobre seus pedestais e, sobre a roupa cintilante de pedrarias da noiva, apoiada a uma das janelas, bem no fim da sala.
— Ah! ah! ali está ela, disse o conde - e como sempre junto à armadura do velho Galeazzo, que Satã levou vivo...
Caro DIAVOLO!... vou mandar exorcizar esse ferro velho para que ele não enfeitice minha nora.
— Gabriela, por que você se isola da festa?
Seu marido a procura, preocupado e contrariado, e você sonha com as estrelas nesta sala escura e deserta, sem temer nem mesmo a aproximação de um objecto sujo pelo contacto com Lúcifer...
E como que pondo fim ao seu descontentamento, o velho senhor bateu violentamente sobre a armadura incriminada de ligações satânicas.
A esse golpe uma das luvas de ferro se destacou e caiu pesadamente ao chão.
A jovem noiva, que se havia voltado a ele pedindo desculpas, imprimiu um grito surdo, e atirando-se a seu sogro, agarrou-se a ele.
Do braçal apareceu uma mão de dedos afilados, branca como a cera e vivamente iluminada pela luz de fora.
A essa visão incompreensível, os dois homens recuaram fazendo sinal da cruz.
— Por São Marcos!
Veja que coisa inacreditável, gritou o conde; sei, a propósito, que, de pai para filho, essas armaduras são conservadas aqui como preciosas lembranças, mas... elas sempre estiveram vazias!
Corra, Fúlvio, buscar uma luz; é preciso saber de onde saiu esse membro cortado.
O jovem senhor se atirou pela galeria e, ao final dum instante, reapareceu trazendo um candelabro de braços carregados de velas de cera que ele havia arrancado das mãos de um pajem.
Pálidos como os mortos, os três se penderam sobre aquela mão branco-amarelenta, ornada no quarto dedo com um anel de ouro, com grande pedra preciosa incrustada.
Após um momento de hesitação, o conde pegou e apalpou a mão.
Ela era mole como uma esponja, mas muito rija para ser dobrada; tentou então tirar o anel mas não pôde fazê-lo porque o dedo parecia inchado.
Fúlvio subiu no pedestal e bateu na armadura.
— PER BACCO! Ela não soa oca.
Tio, há qualquer coisa dentro!
E se levantando sobre a ponta dos pés, ergueu a viseira do elmo que cedeu com um rangido lúgubre.
No mesmo instante ele estremeceu e saltou para trás; Gabriela soltou um grito agudo e se abaixou na laje, ocultando o rosto com as mãos.
O tumulto foi ouvido na galeria.
Os convidados e os serviçais, trazendo tochas, irromperam à sala.
Num piscar de olhos um círculo se formou ao redor do cavaleiro de ferro; olhares receosos e estupefactos fixaram o jovem e belo rosto com grandes olhos descorados e sem expressão que apareciam na moldura do elmo.
— Ah! - murmurou uma voz trémula - um crime misterioso foi cometido aqui e o cadáver do infortunado escondido nessa armadura...
— Mas se o assassinato não é recente, como é provável, por qual milagre o corpo não apodreceu? - observou um outro.
A discussão foi interrompida por passos rápidos e pela voz alterada do conde Ugo perguntando:
— Que se passa aqui?
Aconteceu alguma coisa com Gabriela?
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 02, 2016 9:08 pm

Deram-lhe passagem, mas, ao perceber o rosto imóvel, iluminado como ao sol do dia, Ugo se deteve como fulminado:
— Ah!... - disse ele surdamente, a lenda não era mentira, foi aqui que esconderam o conde Loredano, nosso avô tão misteriosamente desaparecido!
Tremores sacudiram o corpo do jovem corcunda, e seus olhos injectados de sangue pareciam pregados no Cavaleiro de Ferro.
— Então é verdadeira a suposição do capelão, de que Ugo Castellari era um alquimista e um envenenador, - continuou ele com agitação crescente, balançando os braços.
Não, não, não, isso não é verdade!
O conde não está morto! - exclamou fora de si e, com gritos agudos, caiu rolando sobre a laje num dos horríveis ataques aos quais estava sujeito desde a infância.
Ergueram-no e o levaram a seu quarto, para onde sua mãe e Gabriela o seguiram.
Homens a cavalo foram enviados em todas as direcções para buscar médicos; tomadas essas primeiras medidas, o velho conde apareceu pálido e abatido entre os convivas consternados:
— Caros hóspedes e vizinhos, - disse ele, - perdoem-me o triste fim desta festa que vocês honraram com sua presença.
Mas as emoções do dia e a extraordinária descoberta que nós fizemos na sala de armas, impressionaram muito meu filho.
Estranhamente ele sempre se interessou pela morte do avô desaparecido sem deixar traços e procurou minuciosamente onde ele poderia ter desaparecido.
— Acalme-se, meu velho amigo, - disse um cavaleiro apertando a mão do conde; seu filho se restabelecerá e nós viremos festejar com ele sua convalescença; uma surpresa como essa poderia quebrar nervos mais fortes que os de Ugo!...
Além disso ele tem razão - é sem dúvida alguma o corpo de Loredano que o diabo meteu na armadura de seu amigo Galeazzo pois examinei o anel do cadáver e nele está gravado o emblema desta família.
Respeitando o desgosto dos nobres castelões, os convidados se dispersaram silenciosamente, e o castelo tão animado algumas horas antes, ficou deserto e silencioso.
Solitários, alguns grupos de serviçais cochichavam aqui e ali, comentando à sua maneira os estranhos eventos da noite.
Muitas semanas se passaram.
Acometido de uma febre alta, o jovem conde se debatia entre a vida e a morte.
Os mais célebres médicos estavam reunidos à sua cabeceira.
Seus pais e Gabriela o velavam com devotamento.
Mas uma agitação singular tomava conta da jovem mulher; sempre que podia, num momento de liberdade, ela fugia para a sala de armas e, fascinada, contemplava o belo rosto pálido de Loredano, que, por uma esquisita superstição, medo e repugnância, ainda não havia sido retirado da armadura para ser enterrado.
Era ali que se tinha sempre a certeza de encontrá-la, e como Ugo começava a se restabelecer e a queria sem cessar ao seu lado, o conde trancou as portas da sala que todos os habitantes evitavam cheios de pavor supersticioso, interditando a entrada à sua nora.
Ela, desesperada, implorou e chorou, mas o conde permaneceu inflexível.
No primeiro momento ela se agastou; mas o destino a fez descobrir no seu aposento - o mesmo que outrora haviam habitado Loredano e sua esposa - uma porta oculta no forro da parede, a qual, por uma passagem secreta, levava à sala de armas.
Ela se aquietou e, usando de astúcia, satisfez seu ardente desejo de contemplar o cavaleiro de ferro.
Triste e esmorecido, seu sogro desistiu de impedir a jovem mulher de seguir seu impulso.
Ugo recobrou pouco a pouco a saúde; percebeu bem cedo a estranha paixão que despertava no coração de sua mulher o Cavaleiro de Ferro - assim haviam baptizado o corpo descoberto na armadura.
Ódio e ciúme ferviam nele.
Passou horas arquitectando um modo de destruir esse rival mudo, esse corpo enfeitiçado que não conseguia apodrecer de maneira nenhuma.
Mas um terror supersticioso o afastava continuamente da sala de armas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 02, 2016 9:08 pm

Ele tinha ideia infernal de que, se livrasse Loredano de sua prisão de ferro, este ressuscitaria e lhe arrancaria o resto de sua felicidade e tranquilidade.
Sombrio e irritado ele se trancava frequentemente na torre de arquivos e, com uma impaciência febril, lia e relia a crónica do velho castelão que relatava como o conde Loredano, retornando de uma viagem à cidade, havia se deitado como de hábito, mas em consequência do depoimento da condessa, levantara à noite, vestira as roupas de véspera e saíra, respondendo à sua pergunta que ele voltaria cedo.
A partir desse momento ninguém voltou a vê-lo e as mais laboriosas buscas não haviam lançado a menor luz sobre este misterioso desaparecimento.
Mas, quando alguns meses mais tarde a jovem viúva escolheu para esposo Ugo Castellari, o primo pobre de seu marido, o qual havia transportado ao castelo instrumentos bizarros e livros de alquimia, uma incómoda suspeita despertou no coração do velho monge que havia baptizado Loredano.
Ele observou atentamente o filho deixado pelo jovem conde e suspeitou de uma justa punição de Deus à morte de Castellari e sua mulher, que, durante uma pequena viagem, afogaram-se ao atravessar um lago.
Agora a dúvida não era mais possível: Ugo, o alquimista, de comum acordo com a bela avó, havia matado o infeliz, e durante um século e meio o marido traído havia feito sua vigilância sob os olhos de seu filho e de seus descendentes.
A agitação desordenada do jovem conde aumentava dia a dia:
— Preciso acabar com isso, destruí-lo, - repetia ele.
Uma manhã, reunindo toda sua coragem, penetrou na sala de armas.
Coração batendo forte, deteve-se frente ao pedestal sobre o qual se erguia calmo e imóvel o Cavaleiro de Ferro, que o contemplava com seu olhar embaçado e vítreo.
Ugo se arrepiou e baixou a cabeça.
Foi aí que seu olhar tombou sobre a manopla estendida no chão e que ninguém ousara tocar; entre os dedos ele percebeu, como que colado, um minúsculo rolo de pergaminho desgastado pelo tempo.
— O que é isso?
Murmurou ele, abaixando-se para pegá-lo.
Será o testamento de meu infeliz avô, que ele em vão ofereceu, sem que ninguém percebesse?
Talvez possa eu mesmo executar sua última vontade.
E com esse respeito arraigado pelos membros mortos da nobre e vigorosa raça da qual ele era o último e insignificante descendente, Ugo desenrolou o pergaminho que continha uns escritos góticos e sinais cabalísticos.
O jovem conde voltou apressadamente ao seu quarto e após demoradas e sofridas buscas em seus livros de alquimia, conseguiu decifrar alguns fragmentos que tratavam de um punhal preso ao flanco de Loredano e de uma ferida a fazer com esse punhal para que o sangue fluísse.
Ah! - Exclamou Ugo, arrebatado de alegria, - enfim encontrei o meio de destruir o terrível sortilégio que lhe dá aparência de um vivo, fascina o coração de Gabriela e me tira todo o sossego!
Apenas preciso procurar o punhal do qual fala o pergaminho.
À noite, quando todos estiverem dormindo no castelo, direi à minha mulher que tenho trabalho a fazer, então adentrarei a sala de armas e o vasculharei.
Passado algum tempo, o relógio acusava meia-noite e um profundo silêncio reinava na velha fortaleza, quando Ugo, pálido e abatido, executava de castiçal na mão sua expedição nocturna.
A entrada da sala de armas ele se deteve tomado de um arrepio supersticioso; os raios pálidos da lua iluminavam o feixe de armas suspenso na parede e as estátuas de ferro escuras e mudas.
Somente uma tinha sua viseira erguida e, na escura abertura do elmo, aclarado por essa luz esbranquiçada, o rosto pálido de Loredano estava positivamente assustador...
— Oh! se eu não precisasse encontrar esse punhal! - murmurou o corcunda comprimindo sua mão sobre o peito opresso.
Mas devo me dominar e pôr fim a esse sortilégio que me faz perder o amor de Gabriela!
Atravessou a sala a passos vacilantes, colocou seu castiçal no chão e, subindo ao pedestal, procurou soltar os ganchos que prendiam o peitoril da armadura.
No primeiro instante seus dedos trémulos não podiam agir com precisão, mas a seguir a couraça começou a se desprender.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Ugo quis tirá-la, mas suas mãos fracas e trémulas não puderam suportar um tal peso e a couraça rolou ao solo com um ruído pavoroso.
Muito pálido, joelhos dobrando, Ugo se apoiou à beira da janela, contemplando com olhar desvairado a estranha figura em pé sobre o pedestal, ainda vestida com o elmo e o resto da armadura; o peito estava agora descoberto e via-se que o Cavaleiro de Ferro estava vestido com um gibão de veludo escuro, costurado com fios de prata.
Um cinto ricamente trabalhado envolvia sua cintura e, preso a ele, pendia ao lado uma pequena adaga com cabo de ébano, incrustado de pedras.
— Aí está o punhal mencionado no pergaminho! - murmurou Ugo.
Dominando a emoção, ele estendeu a mão para apanhá-lo mas deixou-o cair imediatamente com um grito abafado: uma aparição branca havia resvalado entre ele e o Cavaleiro de Ferro e detivera seu braço:
— Você quer destruí-lo; você o feriu com o punhal!
Então é esse o trabalho de que você me falou?
Murmurou Gabriela com uma voz sofreada pela emoção.
- Jamais consentirei nisso... eu o defenderei!
Fora de si, tão pálida quanto seu vestido nocturno, a jovem mulher projectou-se para frente sobre o degrau do pedestal, cobrindo o Cavaleiro de Ferro com seu próprio corpo.
Um furor insano apoderou-se de Ugo:
— Ah! infeliz! esse cadáver maldito a enfeitiçou a esse ponto!
Espere - descobri o meio de nos livrarmos!
Com uma força que ele não suspeitara até então nesse corpo débil, envolveu a cintura de Gabriela e arrancou-a do pedestal, a despeito de sua resistência.
Com a outra mão apanhou o punhal e aplicou um golpe no vazio do estômago do Cavaleiro de Ferro (a adaga estava imantada); um instante depois a arma rolou ao chão e um duplo grito soou no ambiente abobadado.
Sangue esguichou da ferida e um estremecimento agitou os traços até àquela hora imóveis, transmitindo-se gradualmente a todos os membros da estátua de carne.
A seguir, a mão solta da manopla ergueu-se em direcção a testa e dois olhos embaçados fixaram com estranheza o casal apavorado.
Uma voz sonora e metálica perguntou:
"Onde estou?"
Ugo segurou a cabeça entre as mãos e se pôs a correr pela sala como um louco, ora emitindo gritos agudos, ora resmungando frases incoerentes.
Gabriela permaneceu imóvel como uma estátua, mas seus olhos completamente abertos não perdiam um só movimento do Cavaleiro de Ferro que, cambaleante, descera do pedestal e dera alguns passos.
A cena durou apenas dez minutos, mas o alarido e os gritos do jovem conde já haviam posto o castelo em alerta.
De todos os lados acorriam serviçais com tochas e castiçais e finalmente os castelões.
Mas todos se detiveram petrificados ao ver o Cavaleiro de Ferro que, coberto de sangue, as mãos comprimindo sua ferida, se encontrava no meio da sala.
Seus olhos grandes vagavam dum lado a outro, com temor e inquietude, mas subitamente seu olhar se velou e, com um surdo gemido, ele se abateu sobre os joelhos.
A esta visão, um terror desvairado tomou conta dos espectadores.
Uns fugiram gritando, outros se jogaram de rosto no chão, persuadidos de que o próprio satanás encontrava-se diante deles.
Apenas o velho conde se aproximou do ferido e, debruçando-se sobre ele, constatou o coração palpitando.
Então se tratava de um homem em carne e osso, e não de um espectro, e que qualquer que fosse o mistério dessa ressurreição, seu avô Loredano vivia e respirava.
Levantando-se, pálido e resoluto, o velho senhor chamou os serviçais e ordenou-lhes erguer o infeliz homem e levá-lo a um quarto vizinho onde o estenderam sobre o leito, retirando a armadura; o próprio conde enfaixou a ferida como pôde.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 02, 2016 9:08 pm

— Pietro, - disse ele a seu homem de confiança que o ajudava nessa tarefa, - mande imediatamente buscar um médico.
Ugo e as mulheres estão como que enlouquecidos e podem ficar doentes.
Quanto a esse infeliz - e indicou Loredano - acho que será mais útil para ele trazer o velho alquimista que habita as ruínas do castelo negro; talvez ele conheça alguma coisa deste mistério satânico.
Completamente transtornado, o velho conde voltou à sala de armas onde o infeliz Ugo continuava correndo como um tigre na jaula, gritando e com os olhos desvairados:
— Ele ressuscitou, se moveu! fiz mal a ele dando um golpe de punhal!
Em vão seu pai tentou acalmá-lo.
Ele repelia a todos e somente quando o esgotamento o fez tombar num banco, apanhou a mão do conde e contou em voz baixa que, durante uma ausência de Loredano, ele e Gabriela, arrastados por um amor culpado, decidiram fazê-lo desaparecer.
— Ali na torre do relógio, nós combinamos tudo... - finalizou ele de forma dilacerante.
E agora ele voltou!...
Gabriela! Gabriela! fujamos!!
As pessoas o ouviam sem nada compreender, crendo que o susto o fizera perder a razão.
Ninguém supunha que esse abalo moral havia despertado e exposto ao seu cérebro um negro episódio dum passado longínquo; o criminoso alquimista, que desprezara a honradez da família que o acolhera como amigo, pela inexorável Justiça Divina viera nascer como filho dessa Casa, posição que ele tanto desejara!
Mas fraco e corcunda, não podia gozar nem dessa fortuna, nem satisfazer sua ambição, e ele mesmo deveria, por intuição, restituir a vida ao infortunado Loredano, de quem reteve a alma, tornando-o uma sentinela muda, por seu cinismo sacrílego, durante século e meio!
A mulher que ele seduzira agora era sua, mas também aqui a Lei de Talião o agarrara:
era evidente que ela não se agradava dele.
Em Gabriela chegou o remorso, acordando a lembrança de o haver amado, ligando seu coração ao Cavaleiro de Ferro; naquele momento ela esquecia totalmente Ugo e se dirigia ao quarto onde haviam colocado o ferido.
Ajoelhada ao pé do leito, não tirava os olhos do rosto pálido de Loredano.
Uma hora mais tarde o próprio conde introduziu ali um velho de talhe alto, envolto num longo e amplo hábito negro seguido de um anão que carregava uma caixa.
Os serviçais, pálidos de pavor supersticioso, rodeando o leito como sentinelas, fizeram o sinal da cruz com alívio - o sábio alquimista afinal exorcizaria o diabo incorporado na múmia.
— Contei-lhe as circunstâncias inacreditáveis deste facto inaudito, - disse o conde, agora confio à sua ciência, senhor Leonardo, para nos ajudar a esclarecer.
— A Magia Negra nos ensina os meios de interromper assim a vida num corpo por um tempo indefinido, - disse o velho, inclinando-se sobre Loredano que parecia reincidir na imobilidade da morte.
Tocou-o, examinou a ferida, colocou o ouvido sobre o coração e em seguida disse:
— Ele vive e tudo o que estiver ao meu alcance será feito para salvar seu avô.
Peço somente, senhor conde, que mande acender a lareira e afastar sua gente e essa jovem mulher.
Peço também trazerem aqui uma banheira, água, leite e uma chaleira.
Quase tudo estava pronto e o pessoal desnecessário afastado, o velho sábio trancou cuidadosamente a porta, enquanto o anão acendia as tochas e as velas de cera.
O escuro dormitório se aclarou e a chama crepitante do fogo espargiu calor agradável.
Então o astrólogo desnudou completamente a ferida e examinou minuciosamente o corpo inerte, amarelado como a cera e ligeiramente inchado.
Ao terminar a inspecção, tomou da caixa muitos frascos, um maço de ervas e diversos objectos que alinhou sobre a mesa, enquanto o anão vigiava a ebulição da água na chaleira suspensa sobre o fogo.
Em primeiro lugar o astrólogo friccionou com um licor vermelho as têmporas, os lábios e o peito de Loredano; depois, com uma esponja e água morna, lavou a ferida e todo o corpo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 02, 2016 9:09 pm

O jovem homem começou a respirar ruidosamente, porém sem abrir os olhos.
Então, a pouca distância de sua cabeça, o sábio fixou duas ampolas inchadas que exalavam um odor forte e estranho.
Tirando da caixa uma comprida mangueira ligada numa ponta a um tubo em forma de trompa e na outra uma esponja, ordenou ao anão colocar a esponja na água que borbulhava e nela jogou as ervas trazidas.
Ele próprio pegou uma outa esponja e esfregou fortemente o corpo, a cabeça e os cabelos do doente; à medida que o vapor quente saía do tubo e alcançava o corpo, ele perdia a coloração amarelada de cera tornando-se róseo e flexível, enquanto a ferida começava a cicatrizar.
O sábio cheirou o sangue, sacudiu a cabeça com satisfação, enfaixou a chaga e, abrindo com seu punhal os dentes fortemente cerrados do ferido, verteu dentro de sua boca o conteúdo de um frasco.
Enquanto isso, o anão preparou um banho misturado de água, leite e essências aromáticas; com sua ajuda o astrólogo ali mergulhou Loredano sempre desfalecido.
Mas no fim de certo tempo, o jovem homem suspirou e abriu os olhos.
— Onde estou?
E que faz você de mim? - Murmurou ele.
- Acalme-se, meu filho, e tenha um pouco de paciência.
Breve saberá tudo.
Enquanto isso, beba esse copo de vinho quente que estou trazendo à sua boca, isso o reconfortará.
Loredano bebeu e fechou os olhos.
Quando o corpo retomou a coloração e elasticidade necessárias, o velho sábio colocou-o no leito, enxugou-o, vestiu-o de linho fresco e cobriu-o com uma espessa coberta.
— Tenho sede! Murmurou o enfermo.
O astrólogo trouxe-lhe um copo no qual havia misturado leite com ovos crus.
Após bebê-lo avidamente, Loredano dormiu um sono profundo e reparador.
Algumas horas mais tarde, o sol nascente aclarava com seus raios o escuro dormitório e dois homens em pé ao lado do leito de Loredano sempre adormecido.
— Seu avô está salvo e o despertar ocorrerá a qualquer instante, disse o alquimista com um alegre sorriso.
Quanto a ferida, senhor conde, ela não terá, assim o espero, nenhuma consequência desagradável.
O velho senhor, pálido e emocionado, inclinou-se sobre o adormecido e examinou o pobre homem com ternura misturada de veneração.
— Fico com a cabeça transtornada quando penso que este ser, na flor da idade, é meu avô, disse ele.
Nesse momento Loredano abriu seus olhos grandes e negros e fixou-o com estranheza.
— Quem é você?
Que aconteceu comigo?
Onde está minha mulher? - perguntou ele se levantando.
Fale, preciso saber de tudo.
O velho conde sentou-se apertando sua mão e contou-lhe sucintamente o que se passou e o que supunha dele.
Todas as emoções se reflectiam sucessivamente no rosto expressivo do ressuscitado.
— Você... você é o neto do meu filho pequenino e tem a barba branca... eu estou vivo e sou jovem! é incrível, é espantoso! - repetia Loredano, levando as duas mãos à testa molhada de suor.
E Deus permitiu um tal sacrilégio!
O que será de mim aqui, onde eu não tenho ninguém?!
Minha esposa está morta, sem dúvida...
Sim, posso entendê-lo, pois cento e cinquenta anos se passaram desde estes tristes acontecimentos.
Mas acalme-se Loredano, nós o amaremos e nos esforçaremos para lhe tornar a vida suportável, acrescentou o velho conde, afagando com a mão seus cabelos anelados.
— Quem é a mulher que tem as feições de Gabriela e que acreditei ter visto aqui? - perguntou repentinamente Loredano.
— E a mulher de meu filho Ugo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 03, 2016 9:13 pm

O infeliz homem abaixou a cabeça extenuado e algumas lágrimas amargas rolaram entre seus dedos.
Algumas semanas se passaram.
Graças ao tratamento do alquimista, Loredano se restabeleceu, mas uma tristeza profunda obscurecia sua alma.
Ele vagava pelo velho solar, buscando avidamente os objectos que lhe haviam sido familiares e que estivessem conservados.
Solitário, a lembrança da sala de armas lhe causava sempre uma agitação nervosa e quase sempre se refugiava no jardim e nos bosques mais afastados; passava horas a devanear.
" Recusara formalmente receber alguém ou visitar senhores vizinhos.
— Faz cento e cinquenta anos que morri para o mundo... - dizia com amargura.
Que farei entre esses desconhecidos?
Nenhum dos que me amaram e me conheceram existe mais!...
Todavia o alarido do acontecimento tão extraordinário havia-se espalhado e algumas vezes os vizinhos ou vizinhas indiscretos vinham ao castelo; não conseguindo obter uma entrevista com o miraculoso Cavaleiro de Ferro, penetravam furtivamente no jardim, para contemplar, ao menos, através dos ramos dos arbustos, o belo moço de olhar ígrieo, que tinha no passado sido bisavô do velho guerreiro de barba branca que comandava o castelo.
Desde a convalescença de Loredano, ele vira muitas vezes Gabriela e logo percebeu o amor apaixonado que ele lhe inspirava.
Às vezes ele partilhava desse sentimento, mas frequentemente uma aversão estranha, pela qual não encontrava nenhuma explicação, perseguia-o, fazendo-o evitá-la.
Com tudo isso Ugo vigiava e tornava toda aproximação impossível.
Quanto ao infeliz corcunda, seu estado de espírito inspirava a seus pais as mais vivas apreensões.
Ele definhava visivelmente e ver Loredano provocava-lhe crises nervosas.
Fugia até mesmo de seus parentes, desaparecendo dias inteiros, sem que alguém pudesse encontrá-lo; aparecia somente à noite para se alimentar um pouco.
Um dia ele desapareceu novamente e, apesar das mais ostensivas procuras, não se conseguiu encontrá-lo; chegou-se a supor que ele deixara o castelo e vagava na floresta, como já ocorrera antes.
No terceiro dia após esse desaparecimento, o velho conde, atormentado de tristeza e inquietude, conversou com Loredano; foi quando este exprimiu o desejo de rever uma vez mais, em plena luz do dia, a prisão de ferro que ele habitara século e meio.
Foram então à sala de armas e detiveram-se, tristes e pensativos, diante da armadura do Cavaleiro Galeazzo, recolocada no pedestal, luvas de ferro atarrachadas e viseira baixada, em tudo parecido aos seus compares mudos, seus vizinhos.
Loredano tirou o conde de seus devaneios:
— Miserável alquimista, - disse batendo de forma rude nos dedos da couraça - a que horroroso destino ele me condenou!
Uma voz fraca e velada ergueu-se do interior do elmo:
— Pago meu crime; tomei seu lugar.
A essa estranha resposta, cujo timbre lúgubre parecia vindo de uma tumba, os dois homens recuaram, tremendo. Guiados por um pressentimento, eles se aproximaram da nefasta armadura, tiraram-na do pedestal e Ugo foi retirado, quase morto de fome, num estado tão deplorável que morreria algumas horas mais tarde, divagando sempre sobre um passado que ninguém compreendia.
Como tinha conseguido entrar na prisão de ferro?
Difícil compreender.
Mas também para Loredano esse dia se tornara fatal, pois o esforço que fizera, levantando a armadura, reabrira sua ferida ainda mal cicatrizada.
Trouxeram-no ao quarto e um médico chamado à pressa - pois o alquimista estava ausente - declarou que ele não passaria daquela noite.
Esquecendo conveniências Gabriela, ansiosa, não deixava seu leito de agonia.
Ajoelhada à cabeceira, apertava a mão já fria de Loredano, inundando-a de lágrimas ardentes e murmurando com voz entrecortada a confissão de seu amor.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 03, 2016 9:14 pm

Por um momento a vida pareceu renascer; o jovem apertou sua mão e um olhar triste e afectuoso procurou o seu:
— Não chore mais, Gabriela; é melhor morrer quando se renasceu tão tarde e se sente tão só.
Abateu-se, exaurido.
Seu rosto se cobriu com as sombras da morte.
Mas repentinamente os olhos do moribundo se abriram, fixos e completamente dilatados:
— Eis então o mistério da vida! murmurou.
Nesse momento seu olhar esquisito, já vendo além da matéria, recaiu sobre Gabriela; um raio de cólera e repulsão brotou:
— Você! Você foi a traidora... e ele, Castellari! Maldita seja você...
Repeliu-a e se prostrou no travesseiro.
Tudo acabara...
Com as mãos na cabeça, a jovem saiu correndo.
Na noite do dia seguinte, à claridade imprecisa das velas, três caixões mortuários estavam postos na sala grande do velho solar.
Num estava Gabriela, tão alva quanto o vestido que lhe haviam posto, os lindos cabelos louros se estendendo em anéis pesados e húmidos.
Ela havia se suicidado no tanque do jardim.
De ambos os lados estavam estendidos os dois homens que ela havia amado e traído.
Um velho vestido de negro estava ajoelhado, unindo sua prece às preces dos monges que recitavam as orações dos mortos.
Lágrimas de amargura orvalhavam sua barba branca e seu olhar errava do jovem avô ao melancólico e último descendente de sua ilustre raça.
Os anos se passaram e novos habitantes se estabeleceram no velho castelo, mas a obscura lenda do Cavaleiro de Ferro ressuscitado se perpetuou de geração em geração.
As pessoas faziam o sinal da cruz ao passarem perto da sala de armas e evitavam atravessá-la à noite, pois bom número de pessoas dignas de fé juravam ter visto ali, em noites de lua cheia, uma mulher descabelada e vestida de branco que vagava, torcendo os braços em volta das armaduras, e sob a viseira erguida do elmo aparecia tanto o rosto pálido e os olhos fixos de Loredano, quanto as feições emagrecidas e contraídas do último descendente da antiga família extinta com ele.

(1) Pervinca: Designação comum a duas plantas da família das Apocináceas. N.T.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 03, 2016 9:14 pm

SATÃ E O GÉNIO
(lenda das esferas)

O centro do infinito irradia um foco de luz tão resplandecente, tão imenso, que a imaginação humana não pode conceber quem possa ter uma ideia disso.
Ao redor desse foco gravitam majestosamente as nebulosas com seus milhões de sóis.
A vibração harmoniosa das esferas o enche de uma música deliciosa e todos os eflúvios do bem aí convergem criando a inalterável serenidade da perfeição.
Este foco incandescente de luz e de vida é o Céu, a residência do Criador do Universo, e ao redor de seu trono, alteado por montanhas de nuvens prateadas e azuladas, agrupam-se as falanges resplandecente dos arcanjos, dos anjos, toda a hierarquia celeste, até os génios que, bem embaixo da escala, espalham-se, como nuvens de borboletas multicoloridas, em toda a extensão do paraíso.
Diante do trono do Eterno, a audiência é perpétua, pois de todas as esferas, de todos os mundos, chegam incessantemente mensageiros que dão conta do estado das almas e do grau de progresso nos planetas que lhes são confiados.
À porta do Paraíso, São Pedro controla e depois deixa passar os governadores das províncias inumeráveis do reino de Deus e também o séquito de que cada qual dispõe.
Lá estão os chefes, os guias, os espíritos protectores, e, entre eles aqui e ali, os mártires trazidos pelos espíritos serviçais; ensanguentados de corpo e alma, eles não teriam, sozinhos, a força de comparecer diante do Criador.
Um planeta sobretudo - um atomozinho perdido na imensidão de sua nebulosa - que somente seus vizinhos mais próximos podem perceber, envia abundantemente esses estropiados que os anjos e os génios cercam curiosamente e questionam sobre a origem de suas feridas.
A narrativa dos mártires sobre a crueldade e maus tratos que os fizeram sofrer sobre a Terra fazem os anjos e os génios ficarem de cabelo em pé; eles torcem as mãos vertendo torrentes de lagrimas e, com esse horror todo, as penas de suas asas se eriçam.
— E é porque vocês querem que os homens aprendam a virtude, o amor, a integridade, a caridade que os homens lhes fazem tanto mal?
- Mas é horrível! - Repetem eles.
— Sim, mas eles são de tal forma endurecidos no mal!... - gemem os mártires.
— Eles conhecem a existência do Criador, dos arcanjos, dos anjos e de toda a milícia celeste, esses guardas da virtude e da harmonia dos sentimentos?
Talvez seja a ignorância que os torna tão maldosos... - aventou um dos anjos.
— Oh, certamente eles todos sabem que o Pai Eterno existe, - responde um dos mártires, - somente imaginam que, se acendem uma vela ou uma lâmpada diante da imagem pintada de um velho de barba branca, tendo um globo em sua mão, o Senhor ficará satisfeito; isso não é tudo:
há um Deus dos católicos e um Deus dos protestantes, e ainda um outro para os seguidores de Maomé.
Cada um proclama o seu e nas lutas sanguinolentas que fazem com esse propósito, os adeptos do Deus católico degolam aqueles do Deus protestante, e assim indefinidamente.
Para o que é Deus dos arcanjos, não é de sua luminosa beleza, com sua virtude que eles se preocupam, mas de decidir se suas asas são feitas de plumagem de águia ou de pomba.
E as lágrimas amargas correm dos olhos dos mártires ao lembrar de tudo quanto sofreram em vão.
Foram imolados por querer ensinar o bem, e as almas que tinham seguido seus exemplos tinham sido apenas notadas na multidão.
Um arcanjo que estava próximo e escutava também, abanou tristemente a cabeça:
— E desolador que os habitantes da Terra sejam tão cegos, mas é preciso abrir-lhes os olhos, fazê-los compreender que é Satã quem os inspira.
— Absolutamente, falou um dos missionários; Satã nem se mexe do lugar, uma pedra onde ele se senta na entrada da Terra; ele apenas olha o que ali se passa e se diverte.
"Eu não tenho necessidade de me fatigar como vocês; eles fazem sozinhos o que me é agradável", - ele nos disse zombando.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 03, 2016 9:14 pm

— Ele tem razão, ajuntou com despeito um martirzinho menos maltratado que os outros; aos Enviados de Satã os humanos não fazem mal, eles não matam aqueles que o adoram; mas a nós, desde que nos farejam, caçam-nos e em lugar nenhum achamos refúgio, mesmo nas igrejas, que deveriam ser nosso asilo e nosso abrigo; mas os servidores desses templos também são homens, e, com palavras, adoram Deus, mas no fundo de suas almas reina Satã.
A conversação foi interrompida porque toda a falange dos chegados da Terra foi chamada diante do Eterno para contar sua parte.
Após ter conhecimento de tudo o que se passou, o Criador, em sua infinita bondade, se entristeceu.
— Repousem, meus fiéis mensageiros, na paz do Paraíso, - disse o Senhor; - vocês merecem muito de mim, mas ao pensamento de que minhas crianças terrestres perigam na cegueira e no vício, aflijo-me.
Quero fazer apelos aos Génios do Céu, almas intrépidas, animadas de todas as boas aspirações, para que uma delas se devote e desça sobre a Terra para acordar a consciência dos homens, lembrando-lhes sua origem celeste, pregando a virtude e a fraternidade.
Pega a trombeta, disse ele a um dos arcanjos, e proclama minhas palavras, a fim de que se apresentem aqueles que queiram trabalhar para o bem de seus irmãos, e ao mesmo tempo adquirir as asas angelicais, subindo na hierarquia celeste.
O som brilhante da trombeta ecoou no Céu todo, e por três vezes o arcanjo repetiu o apelo do Criador; mas os Céus quedaram mudos, os génios ansiosos e perturbados ensaiaram esconder-se nas nuvens, e nenhum apareceu diante do trono para dizer: "estou pronto!".
Em vão os anjos lhes jogaram olhares significativos, impelindo-os - os génios ficaram mudos; a vista dos mártires terrestres tinham-lhes tirado toda vontade de se tornarem missionários, e nenhuma persuasão angélica os animava.
Os arcanjos estavam vermelhos de vergonha, e o Pai Eterno exclamou indignado:
— Eu vejo agora que meus génios são fracos do coração e egoístas, que preferem levar uma vida cómoda no Céu a levar o saber que adquiriram aqui a seus irmãos sofredores.
Vejamos, vocês falem suas razões; é preciso ajudar os infortunados cegos da Terra, disse ele voltando-se aos arcanjos igualmente entristecidos.
Enquanto deliberavam entre eles, viu-se ao longe uma nuvem deslumbrante que se aproximava rapidamente.
"Eis nosso salvador; quando o anjo Êxtase acabar de falar, não mais teremos que escolher o Mensageiro mais apropriado a executar a missão do Eterno", exclamaram os anjos visivelmente aliviados; alguns, ao escutarem o nome do anjo Êxtase, rodaram para as nuvens, com tal impetuosidade, que os demais arcanjos, que nunca esperavam isso, não os puderam reter e, a custo, alcançaram um só que cuidaram de não deixar escapar.
Este único prisioneiro era um bem jovem espírito tornado génio há pouco; jamais tinha visto Êxtase e se tinha retardado por curiosidade.
A nuvem faiscante agora estava próxima.
De repente ela se fendeu, dando passagem a um ser de fascinante beleza:
as túnicas furta-cores envolviam-no de mil reflexos; sobre os cachos dourados que cercavam sua cabeça, como uma auréola, repousava uma guirlanda de lírios, tendo bem em cima uma estrela; às mãos ele erguia uma taça cheia dum líquido vermelho como sangue, exalando um aroma atordoante.
Parando em frente do Génio, Êxtase dardejou seu olhar de chamas, com um sorriso fascinante nos lábios e disse-lhe numa voz suave e persuasiva:
— Génio, meu irmão bem-amado, eu o vejo muito bonito e cheio de impulsos; por enquanto, lhe faltam ainda asas que completarão sua celeste beleza e o levarão pelo espaço infinito, onde o queira levar seu pensamento; não o Céu apenas, mas o universo sem limites serão sua habitação...
Por que não quer você ganhar asas de anjo?
As misérias da Terra o assustam?
Mas você ainda não as viu e as narrações das almas fracas e aturdidas pelo sofrimento não o devem comover.
"Sublime é a missão de um Mensageiro do Céu.
Imagine um campo de batalha coberto de feridos agonizantes de sede, de fome, de perda de sangue, mergulhados nas sombras da noite, que aumenta ainda o horror de seus estados.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 03, 2016 9:14 pm

E você chega, dá de beber a uns, banda a ferida de outros, ajuda os agonizantes a morrer, a bem viver aos que se reanimam; a todos sua chama devolve a luz, dissipa o horror das sombras.
Por toda parte, ao toque de sua doce mão, as feridas saram, as lágrimas secam, todos bendizem sua passagem; escutam avidamente suas palavras que cairão como celeste orvalho sobre essas almas insensíveis e doentes.
Você lhes ensinará a perdoar ao invés de odiar, a amar não aquele que é materialmente útil e proveitoso, mas aquele que é digno de ser amado; você os lembrará que sua alma, filha do Céu como você, é chama imortal, obscurecida apenas pela imperfeição e pela matéria; e suas palavras os acordarão do entorpecimento moral no qual elas estagnaram.
Quando enfim, como coroamento de sua missão, você lhes ensinar a orar, terá reatado o cordão luminoso que os religa ao Pai Celeste e aclarado com um farol imperceptível as sombras amontadas por Satã.
Quanto à lama que lhe jogarão os infelizes cegos nunca poderá sujar sua brancura imaculada e nem o atingir, pois você planará acima dessas fraquezas terrestres; luminoso, triunfante, enobrecido pelo dever cumprido, você reentrará entre nós para se revestir da túnica de neve dos anjos e desdobrar suas asas que farão do infinito seu domínio.''
O jovem génio tinha escutado indeciso e ansioso; em seguida um rubor escuro invadiu seus traços juvenis e encantadores; o entusiasmo, o fogo que exalava Êxtase invadia pouco a pouco seu corpo e sua alma.
Todo o horror, todo o temor do contacto terrestre se dissiparam a seus olhos obscurecidos pelo vapor de Êxtase e, em sua imaginação, ele já se via na terra, levando por toda parte a luz, desenraizando o mal, levando centenas de almas purificadas e arrependidas aos pés do Criador.
Caindo de joelhos, ele estendeu os braços:
— Eu aceito, disse; envie-me à Terra em missão do bem.
Todo seu ser palpitava, tudo nele era impulso sublime, amor, caridade, abnegação; não mais sonhava com as torturas morais que lhe poderiam advir; ele estava pronto a se sacrificar pela ideia que queria proclamar.
Êxtase então se inclinou para ele e levou a seus lábios a taça cheia de líquido embriagante que devia, por longo tempo ainda, inundar o coração do génio dessa embriaguez que arrasta aos grandes sacrifícios, tornando-o apto à sublime renúncia de si mesmo por uma ideia na qual ninguém crê, excepto ele, fazendo-o surdo aos risos zombadores da multidão embrutecida que o rodeia.
Arrancando a taça vazia dos lábios do génio, Êxtase elevou-se na atmosfera e pareceu fundir-se nos raios deslumbrantes que cercavam o trono do Eterno.
— E agora, arme-se duma armadura celeste o cavaleiro da santa mensagem e harmonizem nele todos os dons espirituais, porque ele pode ser muito bonito, forte e sábio, este que desce à Terra para levar as riquezas do Céu e lutar contra o mal, proclamou um arcanjo com voz retumbante.
A esse apelo, os anjos acorreram felizes, de todas as partes, cercando o novo Mensageiro do bem e enfeitando-o ao máximo:
revestiram-no com armas de brancura deslumbrante, ataram a suas espáduas asas tão leves como penugem, tão brilhantes como diamantes e que deveriam elevá-lo a regiões etéreas para ali repousar das torpezas e lutas terrenas.
Enfim, eles o armaram duma espada cuja lâmina era um relâmpago para cortar e destruir as sombras.
Quando ele veio em seguida se prosternar diante do Criador, este fixou com um olhar de amor - seu puro e valente Mensageiro:
— Vá, meu filho, trabalhar na saúde de seus irmãos cegos; para que os homens reconheçam que é meu Enviado, porei sobre sua fronte uma estrela que o distinguira da multidão.
Nesse momento, uma faísca se destacou do feixe de raios que emergiam do trono e veio se fixar sobre a fronte do génio, onde brilhou com vasta claridade, cercando sua cabeça duma auréola intensa.
Cheio de coragem, de energia e de ardente desejo de começar sua missão, o génio pegou sua espada flamejante.
Como se dirigisse à saída, percebeu um grupo de seres luminosos que vinham ao seu encontro sorrindo.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 03, 2016 9:14 pm

— Pare um instante, irmão, - disseram eles - permita-nos lhe dar um beijo fraternal e incorporar a você os dons divinos dos quais somos representantes.
A Beleza se aproximou primeiro e o beijou.
Viu-se o rosto do génio iluminar-se duma graça imperecível, e seus grandes olhos reflectiram a harmonia do Céu; depois a Verdade abraçou-o e uma claridade transparente emanou de todo seu ser; a Caridade também se aproximou, abraçando-o:
— Você terá mais necessidade de mim que dos outros, meu irmão, junto aos homens ingratos e endurecidos.
Em seguida veio o Amor, exalando uma pura claridade e um calor vivificante:
— Compreenda-me em minha verdadeira concepção, disse ele enlaçando-o; eu sou o sacrifício, eu sou o perdão, eu sou a abnegação; não se pode me enganar nem traficar comigo; não permito que me comprem ou que me vendam e nos corações em que habito sou uma lâmpada condutora que aclara o caminho para a Pátria Celeste.
Sobre a Terra encontrará espectros mentirosos que levarão meu nome; mas você me reconhecerá, porque me viu e compreendeu a essência do meu ser.
Oh! como sou denegrido sobre a Terra!
Como sou desconhecido ali!
E assim a venalidade, a hipocrisia, a baixa e a brutal paixão, todos se vestem de meu nome, todos afirmam que se chamam Amor...
O génio devolveu calorosamente o beijo que havia recebido do Amor.
— Juro, meu irmão, que pintarei na Terra sua verdadeira imagem, explicarei sua divina origem e, ousadamente arrancarei a máscara dos falsos pregadores que ousam se coroar com seu nome.
— Agora você está armado, - disse o arcanjo seu condutor; resta você escolher entre as filhas do Céu a radiosa companhia que o sustentará na luta e adoçará seu exílio.
E ele designou com a mão a falange luminosa das artes que flutuavam diante deles.
O olhar embriagado do génio errou sobre as figuras encantadoras da Música, da Escultura, da Pintura e suas irmãs, depois, resolutamente, ele se abraçou à Poesia.
— É a você que eu escolho, a mais bela das filhas do Céu, você que arrasta a alma às esferas luminosas, que descreve em letras de fogo as belezas do Paraíso e os abismos do Inferno.
— Tome! - Disse o arcanjo seu condutor, estendendo uma pluma que retirou de sua asa.
Que a multidão trema ao suave ranger desta pluma de águia que condenará seus crimes, flagelará impiedosamente seus abusos e será o espelho incorruptível de sua feiura moral.
— Obrigado. Serei forte e não me deixarei desencorajar nem pelo ódio, nem pelos obstáculos, - respondeu o génio, abarcando com um último olhar a imensidade do Céu, cuja lembrança queria gravar em sua alma.
— Não me esqueça, irmão, e aceite o dom que lhe trago, - disse-lhe uma voz doce; e um ser vaporoso, com contornos vagos e imprecisos, aproximou-se do génio que o fixava surpreso:
— Você é quem?
— Eu sou aquele que sustenta o homem, quando a paciência, a coragem e a fé o abandonaram; eu sou a Esperança.
Toma esta lâmpada cuja luz vacilante parece a todo instante querer se apagar; mas não tema, ela se reiluminará sempre com uma claridade deslumbrante e aclarará as sombras do caminho.
Sem mim, nenhum ser suportaria a vida.
Com um sorriso de gratidão o génio tomou a lâmpada, ligou-a a seu peito e deixou o Céu.
Frente a ele se estendia o infinito em seu esplendor indescritível, más ele não podia agora se absorver nessa contemplação; toda sua atenção se concentrou sobre dois seres gigantescos, duma estranha e severa beleza, sentados num trono à entrada do Paraíso.
Eram duas formas femininas, uma pálida, impassível, vestida de negro, em seus lábios fechados um misterioso sorriso e tinha em sua mão uma ampulheta.
A segunda, serena, radiosa em seus véus duma brancura deslumbrante; um diamante cintilava em sua testa; na mão erguia uma balança.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 03, 2016 9:15 pm

— Aproxime-se, Génio, Mensageiro Celeste, e contemple bem meus traços, - disse ela.
Eu sou a Justiça e você dificilmente me reconhecerá sobre a Terra.
Apesar de meu nome estar em todas as bocas, minha efígie em todas as leis, é um espectro desfigurado, e não eu, que você verá.
Os mesmos que me desfiguram acabam por blasfemar meu nome ou negar minha existência; guarde bem minha lembrança em seu espírito para assegurar aos homens que eu mando na entrada do Céu e na barreira do inferno... que em minha balança eu peso os elementos da virtude e do vício com o que se harmoniza cada alma.
A virtude é leve mas o vício é pesado e faz pender ao abismo o prato de minha balança.
"Eu não me vingo do crime, como me imputam na Terra; não condeno, mas também não agracio, absolutamente; não posso ser adocicada pela lisonja, nem comprada pelo ouro, porque cada alma é receptadora em si própria do instrumento que a suplicia ou da coroa que a compensa.
— Tentarei fazer entender aos homens sua verdadeira imagem, divina filha do Céu; abençoe-me e sustente-me, a fim de que sua lembrança e a fé em sua existência estejam sempre vivos em meu coração, respondeu o génio.
— Minhas palavras serão o último adeus que lhe endereçamos do Céu, - disse gravemente a segunda mulher, vestida de negro - sou a Morte.
Como minha irmã imortal, a Justiça, sou desconhecida na Terra onde me temem e me fogem; mas eu sou a consolação, a derradeira amiga do homem.
Quando ferido pela maldade, inveja, calúnia, debatendo-se esgotado em agonia moral e física, eu venho com a mão compassiva fechar seus olhos fatigados e o adormentar em sono reparador.
"Ao seu redor aparecerei quando, magoado em seus sentimentos, obscurecido pela ingratidão, aspirar ao repouso; se não posso curar sua alma, meu beijo o livrará do corpo que então será pesado como a grilheta do forçado.
Ela estendeu a mão e tocou com seu dedo gelado o peito do génio.
— Agora vá, eu o dotei do talismã da renovação eterna - você será mortal.
Por um segundo a fronte do génio se obscureceu:
podia ele, o Mensageiro Divino, fracassar em sua missão ao ponto de aspirar a uma saída pela morte?!...
Não, o bem deve triunfar ao mal e ele triunfaria!
Desdobrando suas asas poderosas, lançou-se à frente, atravessando em rapidez vertiginosa o oceano sem limites do éter, no qual flutuavam como ilhotas, nebulosas colossais; o génio fixava o olhar deslumbrado na imensidão de sóis, dirigindo seu voo a um imperceptível átomo, vermelho como sangue, que turbilhonava quase perdido entre gigantescos planetas.
Logo o pequeno globo cercado de nuvens sombrias se desenhou distintamente e um estrondo surdo, entremeado de gritos agudos e discordantes atingiu os ouvidos do génio.
Súbito vapor negro e espesso se amontoou, barrando-lhe a passagem; a nuvem tomou a forma de uma pedra, um raio fulgurante jorrou e um ser estranho apareceu, fixando com um olhar ardente o Mensageiro do Céu.
Seus traços bonitos eram acentuados por todas as paixões e sua boca se crispava numa expressão de indizível amargura; dois cornos iguais a chamas se erguiam em sua testa.
— Pare, insensato!
Você quer ir à Terra para ser mutilado e destruído? - perguntou ele em voz surda e profunda.
— Não, é para caçar você, Satã, corruptor das almas, que eu desço do Céu! - respondeu o génio levantando sua espada flamejante - recue, espírito das trevas!
Diante da luz divina da qual sou Mensageiro, todas as sombras devem dissipar!
Satã sentou-se pesadamente sobre a pedra que lhe servia de trono e seu riso estridente e sinistro fez tremer a atmosfera.
— Você... você... quer me caçar!...
Vê-se bem que você veio do Céu, onde se sonha com o impossível.
Recue... Génio!
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 03, 2016 9:15 pm

Eu repito enquanto é tempo, se não quer, como as Péris(1) que, não tendo cumprido suas missões, erram inconsoláveis entre o Céu e a Terra, perdidas por aqueles e eternamente estranhos a esta.
"Persiste?... Você tem a ideia da dificuldade em que está se metendo?
Provavelmente o anjo Êxtase colocou em você lunetas róseas...
Deixe-me conduzi-lo à Terra e mostrarei os Génios que a guiam; se depois de os ter visto você se obstinar a declarar guerra, só você se acusará da série de suas imprudências.
— Guie-me, Satã, porque nisso você tem razão; para combater o mal é preciso conhecê-lo.
O Espírito do Mal, aprumou-se em toda sua altura, desdobrando suas vastas asas dentadas; uma nuvem negra sulcada de relâmpagos envolvia-o como um sobretudo.
Num voo lento ambos desceram, dirigindo-se a um círculo de nuvens vermelhas como metal incandescente; de seu interior escapava um crepitar sinistro, parecido ao de uma fornalha, de onde o Génio já havia percebido gritos discordantes e agudos.
Quando franqueou, com seu condutor, a barreira de chamas, o Génio se encontrou sob um imenso zimbório, ao centro do qual, sobre um montão de sacos e de materiais brilhantes e multicoloridos, estava sentado um ser gigantesco:
seu corpo nu era de um amarelo intenso e sua face brutal reflectia todos os vícios; ao seu derredor, rastejando na terra ou adorando-o de joelhos, agitava-se uma multidão de seres onde era difícil, à primeira vista, distinguir traços.
— Quem é esse monstro? - Perguntou o Génio, parando espantado.
— É o dinheiro, o soberano autocrata da Terra, e seu poder quase se iguala ao meu, - respondeu Satã, inclinando-se profundamente diante de seu co-regente.
— Que devo fazer para o agradar e obter dele um dom celeste que me ajude na missão? - fez o Génio assustado e indeciso.
Um enigmático sorriso perpassou nos lábios do demónio:
— Para agradá-lo deve lhe votar uma adoração absoluta, sacrificando-lhe qualquer sentimento, fazer dele seu Deus, sua consciência e sua vida; em troca, ele o dotará dum encanto fascinante que curvará diante de você as cabeças mais rebeldes; aquele que se aproximar de você, rastejará, adorando-o; se você é feio, admirarão sua beleza; se é acanhado de inteligência, cantarão o seu espírito; se é covarde, proclamarão sua bravura; se é criminoso, aplaudirão suas virtudes.
Em uma palavra, é um talismã; se você o obtém, dará a você toda a Terra:
amor, justiça, estima, descanso... e aí poderá até comprar a absolvição de seus pecados...
— Ei, intruso!
Que está fazendo aí me olhando? De joelhos!
E sacrifique em meu altar, se não quer se tornar em meu reino o último dos párias! - gritou nesse momento o monstro, e sua voz troante abalou a abóbada.
— Não, jamais sacrificarei ao seu poder, monstro odioso! - respondeu o Génio recuando cheio de horror.
— Então farei reconsiderar o que me disse em suas entranhas famélicas!
Miserável, abandonado, esmagado sob meu peso, voltará a mendigar meu perdão!
Rugiu o ídolo, dardejando seu luminoso antagonista com um olhar odioso.
Satã abanou a cabeça:
— Você vai ter muito que fazer, meu Génio, por colocar sua ameaça em execução cara-a-cara...
Para extirpar o veneno com que Êxtase encheu sua alma, será preciso esforços de todos os seus servidores.
Venha! Vou lhe mostrar os servidores do grande Deus contra os quais terá de lutar; somente... você fez mal em desafiar tão abertamente o soberano de todos os povos da Terra...
— Mas ele é a incorporação de todos os vícios!
Seus dons são de mentiras ditadas pelos mais baixos instintos, - exclamou o Mensageiro do Céu.
— É verdade, mas o mundo se alimenta dessas mentiras, - disse Satã numa risota - o mundo subsiste com elas...
Designando um grupo de seres odiosos, envolvidos em vapores negros:
— Quem são aqueles? - fez o Génio, estremecendo ao contacto com os eflúvios glaciais que exalava o grupo repelente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 03, 2016 9:15 pm

— São os Génios da Terra.
Deve dar-lhes o beijo fraterno e tratar de conviver com eles, pois no curso da missão que empreendeu, manterão contacto diário e a benevolência deles vai ser mais útil que o seu ódio.
Os nojentos génios acorreram, cercando o Mensageiro Celeste e seu condutor, fixando-os curiosamente.
— Estão espantados de nos ver juntos, - disse Satã de bom humor.
Não trema, amigo Génio; eu sei que, habituado ao clima do Paraíso, você está tiritando de frio, mas deve se habituar à temperatura do sítio onde quer trabalhar...
"Agora vou apresentá-lo a estes amáveis personagens:
este robusto velho armado de uma foice é o Assassinato, acompanhado de seus filhos:
Parricídio, Fratricídio, Infanticídio e o Suicídio; esta dama descarnada é a Avareza; ela dá o braço à sua irmã, a Hipocrisia; habitualmente elas operam juntas.
A velhinha amarela e decrépita ali à esquerda é a Inveja; se ela não fosse imortal, há muito tempo que se teria devorado a si mesma; já que não pode, se distrai a excitar a mulherona cega, de cabelos desgrenhados e rosto furibundo, que ela conduz na trela e que se chama Vingança.
Mas aqui está um dos mais perigosos adversário que terá de combater:
esta espécie de réptil com cabeça de cobra e corpo de escorpião, que rasteja, tanto se encolhendo, mudando de forma, de cor, tanto aumentando até o céu como um gigante, é a Calúnia.
Eu o previno que ela se empenhará em agarrá-lo e, se escapar a seu abraço mortal, apesar da espada flamejante que você carrega, ela fará com que a espada emperre no momento o mais necessário.
Quanto a pessoas importantes, resta-me apresentá-lo à Luxúria; você a vai encontrar em todo lugar da Terra.
Quanto ao resto do povo, são pequenos vícios primos dos primeiros, como a Chantagem, a Gulodice, o Perjúrio, a Usura, o Roubo, o Egoísmo, a Mentira, etc., que nem vale a pena apresentá-los em particular.
O Génio estava assombrado, respirando com dificuldade; os eflúvios gelados, acres, fedorentos de seus recém-conhecidos quase o asfixiavam.
Ao contrário, os Génios da Terra pareciam se sentir bem; a esse desafio estendiam mão amiga ao Enviado do Céu, persuadindo-o a fazer causa comum com eles.
— Você é tão leve, tão diáfano... quase um raio de luz!... como vai lutar contra nós?!
Repetiam eles.
Vamos fazer uma aliança o quanto antes... logo vamos fazê-lo entrar "na nossa" e o iniciar em delícias desconhecidas.
— Você não conhece a embriaguez que inspira o aroma do sangue derramado, da vingança satisfeita, ou quais sensações faz fruir o amor proibido, explicavam-lhes os vícios.
E depois, não fique chocado com os nossos nomes; na Terra trazemos nomes honrosos, até nome de virtudes!
Assim, a Luxúria se chama Amor; a Avareza é sábia economia; o Assassinato em massa é a guerra pelo bem da pátria; a Hipocrisia é piedade e desprendimento do mundo; a Embriaguez, um consolador dos momentos penosos; o Infanticídio, sacrifício de si mesmo provocado pela vergonha e a modéstia.
Em uma palavra - você se encontrará em tão boa companhia que vai pensar não ter abandonado o Paraíso.
O Génio, que escutava mudo e consternado, recuou vivamente:
— Não; eu não quero suas amizades; vim para os destruir e lhes declaro guerra!
Vendo-o brandir sua espada flamejante, os Vícios recuaram, estupefactos com sua audácia, mas Satã soltou uma gargalhada:
— Você está mesmo cego, belo Mensageiro... como todos os que vêm do Céu.
Quem, dentre os homens o escutará?
Você quer destruir seus génios domésticos...
Quando for viver na Terra, eu o aconselho a ler um livro de um escritor espiritual que conhecia os homens; seu herói se chama Dom Quixote:
é um temerário a combater moinhos de vento.
Vai ser boa essa leitura, instrutiva.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 03, 2016 9:15 pm

Por um momento mas, venha.
Vou mostrar as principais capitais do mundo civilizado.
Lá se concentra pouco a pouco tudo o que você quer combater; tudo converge aos grandes centros, e poderá ali observar a vida desde o primeiro degrau da escalada até o cume.
— Mostre-me os lugares sagrados dos homens, suas igrejas!
Quero orar e me retemperar após tudo o que acabo de ver e ouvir, pediu o Génio.
— Perfeitamente!
Vou conduzi-lo a uma cidade santa; encontrará ali igrejas às centenas, - respondeu Satã todo complacente - isso vem a propósito, - ajuntou Satã dirigindo seu voo a uma vasta cidade pitorescamente construída sobre muitas colinas; vai ver uma grande festa religiosa sob a égide de São Pedro!
Penetraram no vasto edifício cheio de uma multidão compacta, assim como a praça que a precedia; através de fileiras de expectadores comprimidos, avançava solenemente uma procissão, e, sobre um trono móvel, cercado de portadores de abano, como aqueles de um faraó egípcio, estava assentado um homem trazendo à cabeça uma tiara brilhante.
— Ah! é sem dúvida um imperador que se coroa ou que se leva em triunfo? - Disse o Génio com interesse.
— Nada disso.
É o Vigário do Cristo, o chefe da igreja católica.
— Impossível! Nosso Senhor Jesus pregava a humildade, a pobreza, andava de pés no chão, não tinha uma pedra onde repousar a cabeça e trazia a coroa de espinhos do mártir... e seu vigário se senta sobre um trono, trazendo sobre a cabeça uma verdadeira tiara de ouro e pedrarias?...
Que significam essas três coroas e as chaves bordadas que se vê sobre seu assento?
Satã sorriu astuciosamente:
— As chaves abrem ou fecham as portas do Paraíso, segundo o bem querer do pontífice, e as três coroas significam que ele reina sobre o Céu, o Inferno e a Terra.
Mas não fique assim sobressaltado!
Essa presunção é inocente e sem consequências; no Céu, você o sabe por experiência, se duvida haver aqui um representante das altas esferas; sobre a Terra se lhe amputa cada dia um pedaço de seu poder e somente os tolos crêem ainda que podem comprar por dinheiro, junto ao Papa, a remissão de seus pecados.
Para aquele que está no Inferno, ele goza, é verdade, de uma certa autoridade, mas como meu aliado, a armada dos padres que ele comanda fornece um contingente considerável de meus vassalos.
Esses milhares de homens que fazem voto de pobreza são de uma inconcebível avidez e sabem tudo na arte de juntar milhões... entre eles todos os vícios florescem; e o previno de que esses homens serão seus piores inimigos, pois eles têm monopolizado as verdades que você vem pregar com tanto empenho.
Você não sabe que eles têm restrições estabelecidas?
"Muito saber prejudica" é a divisa deles; então vão persegui-lo enquanto vivo, mas após sua morte talvez eles façam de você um santo, visto que a pessoa já não pode mais prejudicar... e vender restos de um santo é lucrativo...
— Que horror! Vamos embora, eu já vi muito por aqui! - exclamou o Génio.
Mas como ao se elevar passassem em voo rasante por um bairro de ruas estreitas, sujas, sombrias, à entrada do qual, sobre uma porta enferrujada, estava escrito a palavra "Gueto", o Génio perguntou o significado.
— Gueto é o bairro onde se encerram os judeus, um povo impuro, que todas as nações odeiam, caçam e evitam com horror, - respondeu Satã.
— Que se torna então a fraternidade pregada por Nosso Senhor?
— Ela é proclamada somente, mas não praticada, o que é perfeitamente lógico ao homem.
Assim, esses mesmos cristãos têm por santos os judeus que eles adoram nas igrejas, mas desde que encontrem um na rua, lhes jogam pedras.
Silencioso, entristecido, o Génio seguiu seu guia e logo viram aparecer num risonho vale uma cidade imensa e soberba, cheia de vida e animação.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 04, 2016 8:56 pm

— Eis uma residência que me agrada; é a capital do povo mais rico e mais espiritual do Velho Continente; mas sua vivacidade e seu espírito versátil atraem a esses coitados dissabores bem desagradáveis; enquanto querelam entre si, outros os roubam.
Sua mania de ridicularizar tudo, provoca as mais estranhas anomalias, assim eles negam Deus sob o pretexto de materialismo; fazem pouco da honestidade e da virtude, cantam em verso e prosa as maiores torpezas e chamam isso tudo materialismo.
— Vamos, vamos, não posso ver esses infelizes cegos - gemeu o Génio tapando os olhos.
— Não se apresse tanto, - troçou o demónio, - existe aqui ainda muita coisa interessante.
— Não! Não! Eu não quero ver mais nada desta cidade horrorosa.
— Ha! ha! ha!
Quer levar luzes a essas pessoas, lhes curar os vícios, se apenas os vê e se desvia com horror?
Que vai ser quando tiver de falar com eles e gostar de sua lógica?
Eu, Satã, me perco às vezes...
"Assim, veja esta triste e escura casa com janelas gradeadas - é uma prisão.
Fecham-se os pobres diabos que roubaram um pão, arrastados pela fome, ou mataram embrutecidos pela embriaguez; enfim, todos aqueles que contrariaram a lei, a justiça humana condena e alguns são deportados para as colónias longínquas para ali morrer miseravelmente.
"E este senhor que passa em uma carruagem de luxo atrelada com cavalos puro-sangue é o chefe de uma sociedade industrial.
Milhares de coitados lhe confiaram suas economias que ele embolsou para declarar em seguida que o negócio faliu, desaparecendo com os milhões dos accionários.
Após alguns anos de ausência ele reaparece mais rico e mais honrado que nunca; suas próprias vítimas sentem respeito por tanta audácia e não arriscam chamá-lo de ladrão - não! - é um génio comercial!
Nesse momento, o Génio parou sob uma construção no frontão da qual estava escrito em letras de ouro:
"Liberdade, Igualdade, Fraternidade"; um sorriso de alegria e triunfo aclarou seu rosto.
— Vê, Satã, e ruborize com suas mentiras!
Um povo que hasteia uma divisa semelhante não pode praticar a injustiça e outros vícios que você lhes imputa.
Satã alisou sua barba de ébano e, após um instante de silêncio, respondeu com uma singeleza trocista:
— Com que facilidade você me chama de mentiroso!
Mas eu o perdoo; em sua celeste ignorância você não sabe que existem palavras duma tal elasticidade que se aplicam a tudo o que se quer e pode-se mesmo desnaturar seu sentido primitivo, sem que ninguém ouse criticar isso.
As três palavras que tanto o entusiasmaram são dessa categoria e, mesmo que o bom povo desta região tenha derramado torrentes de sangue para estabelecer em sua casa a liberdade, a igualdade e a fraternidade, ele não se vangloria dos resultados obtidos - bem entendendo o seu ponto de vista, Génio.
— Eu não compreendo como tão sublimes princípios possam trazer o mal.
— Vou me esforçar para lhe explicar isso.
Olha! Este país era outrora um reino; no curso de longos séculos teve bons e maus monarcas, pois eram homens sujeitos às fraquezas e ao erro, mas amavam sua pátria e eles a fizeram grande, gloriosa e possante.
Mais tarde, uma tenebrosa associação fomentou uma revolução; cansaram-se da tirania real e para conseguir a liberdade começaram por decapitar seu rei, sua esposa e milhares de pessoas, sem considerar sexo e idade, afogaram, queimaram, devastaram, e em lugar da antiga nobreza se instalou a ralé do povo.
Um segundo resultado da febre de liberdade que abrasou os cérebros foi abrir o país aos judeus, raça impura e viciosa, a qual, como uma lepra, invadiu e gangrenou todo organismo desta bela França.
Quase após produzir um São Luís, um Henrique IV e outros tantos heróis, se curvou documente sob o jugo de um déspota que tem o nome de "aliança israelita" e daí é que o primeiro ministro da França é o grande rabino...
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 04, 2016 8:57 pm

"Por enquanto, a bela divisa gravada sobre esse frontão se pratica dessa forma original...
Satã estendeu a mão e o Génio percebeu uma rua muito estreita; lá, uma casa cercada de agentes de polícia, em cujo redor se amontoava uma porção de gente:
— Veja! lá mora um cidadão livre; somente que não se permite ter sua opinião sobre questões sociais e religiosas; está sitiado, será preso e o trarão como criminoso porque ele ousa se dizer nacionalista, reclamando a França para os Franceses; a igualdade e a fraternidade floresceram da mesma maneira na França, mas não para os franceses; os judeus reclamam como seu monopólio, isto é, ELES são iguais a todos, mas ninguém é seu igual; sua religião deve desabrochar ao Grande Sol, mas a dos nacionais deve ser destruída e extirpada sob o pretexto de obscurantismo.
— E o povo sofre tudo isso?
— O que você quer?
Ele é ingénuo e simples, e por essas qualidades se parece com um outro povo, os Ursos Brancos, aos quais eu o levo mais tarde; não é em vão que esses dois povos são aliados.
— Que exagero, Satã, para me assustar e me desencorajar! - exclamou o Génio.
— Vai ter certeza disso quando estiver encarnado.
É para que você escolha com conhecimento de causa sua futura nacionalidade que lhe mostro todas estas capitais.
De resto, na cidade colossal há muitos milhões de homens; aonde vou conduzi-lo agora você não gostaria de nascer; a metade do ano está mergulhada em espesso nevoeiro; um povo de mercadores a habita e o seu interesse celeste se sentiria ali bastante incomodado.
Uma originalidade deste povo é que somente dez mil habitantes têm direito de viver bem e de serem olhados como homens.
— Grande Deus! Que ferocidade!
Que fazem então os outros homens?
— O que querem.
Também você se equivoca tratando esses peninsulares de ferozes - são muito piedosos.
No domingo só lêem a bíblia; é justo dizer que o resto da semana não têm escrúpulos em envenenar com ópio ou deixar morrer de fome populações inteiras.
Resumindo, é o povo mais fastidioso entre os povos fastidiosos do universo.(2)
— Penso que nós poderíamos nos dispensar de visitá-los; o que me diz é o suficiente - fez o Génio com desgosto.
Um agradável sorriso clareou a face de Satã.
— Começo a constatar que seu espírito está se clareando, belo Mensageiro; também me contentarei em fazê-lo atravessar a capital dos dominadores dos oceanos, assim eles próprios se intitulam, esses insulares; mas é impossível poupar você de uma ida à casa deles, pois no domínio do mal que você vem combater eles têm um papel tão preponderante que sua aliança com os Génios da Terra, apresentados ainda agora, é tão íntima, que é indispensável fazer esse conhecimento antes de empreender sua louca cruzada.
O Génio suspirou, mas, sem protestar, seguiu seu guia, que avançava em voo mais rápido.
Abaixo deles, se estendiam terras férteis, admiravelmente cultivadas, entremeadas de cidades florescentes; em seguida, atravessando um braço de mar, logo apareceu um colossal amontoado de casas cortado por um raio sulcado de numerosos barcos.
Magníficos prédios de antiga arquitectura se elevavam aqui e ali; tudo respirava riqueza e orgulho - essa impressão aumentava ainda pelo ar de festa que reinava por todo lado; as casas estavam embandeiradas e um povaréu compacto enchia as ruas.
Mas, à medida que os dois viajores aéreos se aproximavam, o quadro perdia sua beleza, os ruídos discordantes se elevavam e, sobre as faces brutais e avermelhadas, lia-se uma singular mistura de triunfo e de ferocidade rancorosa.
Por um instante, uma furiosa agitação pareceu se apoderar da multidão; em alguns lugares quebravam-se janelas com pedradas, em outros tentavam forçar portas cerradas, em outros ainda o povo se precipitava sobre diversos indivíduos, moendo-os de pancadas e quase se tentou dependurar um num poste.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 04, 2016 8:57 pm

— Meu Deus! Que significa tudo isso? - Perguntou o Génio aturdido.
As casas enfeitadas devem indicar uma festa, mas os actos de violência indicam uma revolução!...
— Não se engane, amigo Génio, celebra-se aqui uma grande vitória; o livramento de uma cidade longamente sitiada.
Veja: os insulares empreenderam uma guerra longínqua, a qual lhes trouxe mais espinhos que lauréis; somente seu orgulho não permite saber disso; em lunetas róseas cada vantagem fútil é tida como vitória, quebram-se vidros e se sovam imprudentes que ousam dizer bem alto que a guerra é iníqua e feita desprezando-se os direitos humanos.
Oh! - continuou Satã com um risinho satisfeito, - eu aqui, agora, sou o mestre e meu filho pequeno, a Mentira, aí é vice-rei e não lhe falta trabalho:
pronuncia discursos, passa telegramas, faz soar um ferro velho e vomita bílis sobre tudo o que se aproxime.
Mas vamos embora - isso é se retardar com bagatelas.
É no lugar mesmo de suas façanhas que nós vamos ficar e lá poderá você admirar meus protegidos em todo o fulgor de sua glória.
E Satã retomou seu voo.
Abaixo deles logo apareceu um vasto porto cheio de navios; em alguns deles embarcavam tropas, mas seu aspecto era pouco belicoso e era quase de mau humor que os homens de ar enfadado e descontente subiam a bordo.
— Mas esses soldados não estão muito entusiasmados - observou o Génio.
— Mas por que seria isso?
São mercenários alugados para se bater e o resultado da luta pouco lhes interessa.
Um trejeito de indizível ironia desabrochou na face do demónio quando ele continuou:
— Ah, se você visse partir as primeiras tropas, ah! ah! foi um delírio!
Iam guerrear vinte contra um; iriam recolher um mundo de vitórias e de aplausos; mas daí compreenderam que aquela gente da ilha paga mais com bofetadas que com dinheiro.
Veja com que desprazer eles embarcam.
Quanto à glória... está resfriada neste país de nevoeiros e as pessoas se abstém de toda participação nessa campanha, obstinadamente; consegui isso com dois dos meus geniozinhos - a Crueldade e a Má-fé, muito meus amigos.
— Contra quem, então, meu Deus, essa luta ignóbil de vinte contra um se empenha?! - Exclamou o Génio cheio de indignação, tremendo.
— Contra um povo(3) de cultivadores que ganhará, certamente, todo seu coração, Génio, pois eles fazem a besteira de viver segundo os preceitos que você vem pregar, isto é, um povo piedoso, simples, honesto, activo, que defende sua liberdade e sua pátria com a coragem de um leão. Já estamos aqui:
olhe os frutos de uma guerra conduzida por um povo que se considera modestamente o mais humano e civilizado da Terra.
Diante dos olhos dos invisíveis visitadores estendia-se agora uma planície devastada, semeada de ruínas fumegantes, de cadáveres de jovens e animais.
Ao longe se percebia uma casa ainda intacta; ali ainda era uma granja bem cuidada, com ordem, limpeza e conforto.
No momento em que ambos ali chegaram, era meia-noite, havia paz e os moradores da casa estariam dormindo.
— Olha os preguiçosos que vão acordar assustadinhos e vão compreender que não é bom dormir quando meus protegidos estão de mau humor! - troçou Satã, apontando ao seu companheiro um forte destacamento de tropa comandado por dois oficiais que silenciosamente cercaram a casa.
Quando o cerco foi completado, um soldado se aproximou da porta e bateu violentamente; alguns gritos se escutaram no interior, uma velha surgiu na soleira semi-vestida e sobressaltada.
— Sai todo mundo daí já; damos cinco minutos para que embalem suas coisas pra deixar a casa; o tempo está passando e vamos pôr fogo nos quatro cantos da casa! - gritou brutalmente o soldado.
Quem pode descrever o que se passa então?
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 04, 2016 8:57 pm

O espanto, o morno desespero, os gritos e o choro das crianças, as súplicas das mulheres e de alguns velhos caçados seminus em suas camas pela soldadesca desumana que, descaradamente, pilhava tudo que representava algum valor diante dos olhos bestificados dos moradores, incapazes de nada juntar no prazo irrisório que lhes davam.
Um quarto de hora mais tarde, todas as construções queimavam com grande satisfação dos gloriosos vencedores, que riam e apupavam suas vítimas soluçantes, despojadas de todos os seus haveres.
Nesse momento, evadiram da casa incendiada duas pessoas, que evidentemente ali estiveram escondidas até aquele momento; um era um jovem alto, visivelmente ferido, pois seu braço e sua cabeça estavam bandados e uma jovem mulher, que pálida como a morte, se agarrava a ele.
0 jovem tinha um fuzil na mão também ferida, o que o impedia de usar a arma.
Percebendo isso o oficial ordenou, furibundo, que o matassem - fogo no rebelde!
— Piedade! Ele está ferido... ele se rende, - gritou a mulher cobrindo o companheiro com o próprio corpo; mas muitas balas atingiram o jovem par, matando a mulher sobre o peito de seu marido... e os dois tombaram ao mesmo tempo.
Sem mais se preocupar com eles, os soldados, sob a ordem dos chefes, amontoaram em um furgão todo o resto dos prisioneiros e o sinistro cortejo partiu.
O Génio se sentiu petrificado de horror vendo essa cena cruel de selvageria; segurou a cabeça com as duas mãos e perguntou:
— Satã, você não está me enganando com algum artificio?
É impossível que um povo cristão faça semelhante guerra a outros cristãos?
Eu ouvi esses desafortunados invocarem o nome de Jesus...
Satã estourou uma grande gargalhada:
— Eu acredito mesmo que eles são cristãos; têm uma fé tão robusta que poderiam forçar o Céu a ajudá-los!
Eles praticam também as regras do Salvador: são caridosos, generosos e humanos.
E portanto, no Paraíso de onde você veio, você ainda não compreendeu os queixumes desses heróis, seu apelo à divina justiça.
Por enquanto, o sangue inocente corre, a fumaça e o grito vão até o céu.
Mas como são surdos por lá... a grande deusa Justiça não se apressa em lançar sua espada sobre o carrasco, para a defesa do fraco.
De resto, isso não me diz respeito, é de sua alçada, Génio Celeste.(4)
— Mas e a causa dessa luta ímpia? - balbuciou o Mensageiro do Céu.
— Simples! Esses obstinados cultivadores têm a chance, ou a má chance, de possuir minas de ouro que meus protegidos desejam açambarcar, e como são muito práticos e têm sacudido desde longo tempo os preconceitos idealistas, vão directo ao objectivo.
Se para os alcançar é necessário matar alguns milhares de homens, destruir mulheres e crianças dos ditos rebeldes, a fim de cortar o mal pela raiz, nada os deterá.
— Senhor! Senhor!
E estes são os cristãos que sacrificam ao Ouro, à Avidez, todos os princípios de fraternidade, de caridade pregados pelo Salvador?! - Gemeu o Génio.
Satã soltou uma risadinha estridente:
— Oh! Amigo Génio, você é cego, como o Céu de onde você vem... e esquecido também; esqueceu da dama Hipocrisia?
Sob seu lindo nome terrestre ela lê a bíblia, festeja o domingo e proclama a LETRA, não o espírito dos grandes princípios pregados pelo Salvador.
Depois disso, o rebanho de seus fiéis se crê em regra com o Céu e nada os impede de velar por seus interesses; e como eles têm interesses, esses caros insulares!
Não apenas um canto do universo, não apenas um país do mundo eles consideram seu domínio; também toda veleidade dos outros em ter interesses próprios é considerada por eles uma ofensa pessoal!
"Mas vamos embora; se fico dando detalhes de todos os méritos desse povo de elite, a fineza artística de suas intrigas, o sem-cerimónia grandioso de seus procedimentos, sua generosidade em assalariar os traidores e rebeldes, seria um nunca acabar.
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Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 04, 2016 8:57 pm

O Génio nada respondeu; enfraquecido, cabeça baixa, seguia seu guia.
Este se divertia zombando dele, mostrando-lhe toda uma série de cenas que o faziam estremecer.
Granjas pilhadas e incendiadas pelas hordas de negros selvagens, um campo de batalha onde os soldados do povo o mais civilizado acabavam matando os feridos, um campo de prisioneiros guardado por sentinelas - mas esses prisioneiros eram mulheres, velhos e crianças extenuados, doentes, morrendo de fome pela privação das coisas indispensáveis à vida...
Cada vez o Génio velava seus olhos com a asa e um frio glacial percorria seu corpo diáfano.
De repente, o Génio parou, como que enraizado, e designou com a mão uma aldeia sombreada de palmeiras, em cujas ruas e casas se desenrolava um espectáculo pungente e odioso.
Pessoas magérrimas, numa apatia de desespero em seus rostos lívidos, estavam estendidas ou encolhidas diante de suas cabanas ou ao longo do caminho; entre esses agonizantes, alguns estavam mudos, outros gemiam baixinho e viam-se numerosos cadáveres.
Um homem avermelhado, seguido de numerosos servidores atravessava lentamente o lugar de desolação: nenhum sinal de piedade iluminava seus olhos embaciados e frios; seu rosto longo, emoldurado de suíças bem ruivas, parecia petrificar-se numa altaneira indiferença; as mãos trémulas que se estendiam em sua direcção eram-lhe totalmente indiferentes!...
— Explique-me, Satã, o que se passa aqui; quem são esses infortunados que parecem morrer de fome e esse homem desumano, que é capaz de contemplar de olhos frios semelhante miséria, com tais sofrimentos? - murmurou o Génio, tremendo.
O demónio fixou-o com olhar sonso:
— Esses infortunados são os hindus, um velho povo amolentado que habita uma das colónias do império insular; está havendo em sua casa uma dessas periódicas penúrias que dizimam a população.
Morrem um milhão ou mais e eis tudo; eles assim ganham o Céu, belo Mensageiro, e você deveria saber melhor que ninguém que se ganha o Paraíso pelo sofrimento.
Quanto ao belo cavalheiro que injurias sem razão, é um delegado da caridade governamental, um comissário que faz uma vistoria para se assegurar do estado da população, a fim de regular a distribuição de socorros...
— Mas isso é zombaria... esperar que essa gente morra para lhes decretar socorros!
E por que há dessas penúrias periódicas?
O país parece rico e deveria produzir em abundância - repreendeu o Génio.
Satã alisou sua barba - tão negra que chega a ser azulada - depois observou num tom escarnecedor:
— DEVERIA produzir! Hum... talvez produzisse se o povo fosse menos sobrecarregado de impostos, se não fosse sugada tão cuidadosamente a riqueza da colónia em proveito da metrópole.
— E são sempre os queridos insulares, seus protegidos, que trabalham para arruinar este país e fazer perecer de fome milhões de homens?! - exclamou o Génio com cólera.
— Vê-se bem, Génio, que não compreende a política:
a metrópole tem necessidade do ouro para suas especulações, e seus honoráveis filhos, que sacrificam as raças inferiores para administrar, são remunerados como príncipes; os insulares não se afectam em ver arrebentar esses seres impuros e inferiores.
Tudo é natural; em seu nobre orgulho eles não admitem os direitos humanos senão a eles mesmos; os outros são parasitas que a gente esmaga, se incomodam.
"Mas vem cá!
Se vai ficar plantado assim tanto tempo, onde qualquer coisa o choca, esta vistoria não vai mais acabar!
Por isso eu quero, de facto, lhe mostrar ainda dois novos vizinhos muito interessantes.
Um, onde iremos primeiro, é aliado dos meus caros insulares; somente a amizade deles é que eu amo e protejo, pois cada um dos dois amigos espreita o momento favorável para agarrar seu aliado pela garganta, ou ao menos para lhe morder as partes moles.
— Aliados exemplares e que se equivalem!
Fez o Génio ironicamente por sua vez.
Mas me diga, Satã, esse povo para onde está me conduzindo tem a pretensão de ser um paradigma da civilização cristã?
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