Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Página 4 de 4 Anterior  1, 2, 3, 4

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 04, 2016 8:57 pm

— Por minha barba e por todos os Génios da Terra ele me pergunta ainda! - Exclamou o demónio.
Creio bem que ele tem essa pretensão, esse povo de elite!
Seus filhos trazem o nome soberbo de Kulturtràger(5) da civilização; tem a convicção de que todos os povos do Universo lhes devem pelo seu progresso intelectual, e todos são obrigados a um reconhecimento sem limites.
Quando põem o pé em um país selvagem, ali se faz a luz!
Assim já há algum tempo, um de seus comissários fez na África tais milagres de civilização que centenas de negros morreram de admiração!
Actualmente se preparam a levar a ordem e a felicidade de uma civilização cristã a um velho império asiático muito atrasado, para doar nome exacto às coisas, e eles são bastante impertinentes para quererem ser senhor em casa dos outros.
— E é com esse propósito que estão fazendo guerra a esses asiáticos?
— Não abertamente; um feliz acaso deu-lhe um pretexto plausível.
Portanto, não posso calar a você, amigo Génio, que o pretexto foi achado depois de longo tempo, porque esse povo é muito belicoso; e, nesse ponto, suas crianças masculinas, desde que ponham os primeiros dentes, são arrolados na armada.
O sonho deles é fazer do mundo uma caserna e anexar tudo o que possam atingir, porque depois dos judeus, é a nação mais voraz e presumida.
Chegamos. Veja - está sendo celebrado o serviço divino que precede o embarque; o padre pede a bênção do Céu à bandeira e aos soldados.
De olhar meio triste, meio curioso, o Génio abarcou com olhar o quadro realmente grandioso que ali se estendia; era uma cidade portuária; sobre as vagas balouçava uma imponente flotilha e sobre uma vasta esplanada comprimiam-se numerosas tropas, cujo ar marcial e disciplinado contrastava vigorosamente com a apatia e a má vontade dos soldados insulares.
— Quem é o oficial com ar enérgico e altaneiro que parece arengar às tropas? - quis informar-se o Génio.
— É o rei, um homem de sólida piedade o qual às vezes celebra o serviço divino.
Escute seu discurso, é o resumo em prática da teoria que ele professa.
Posto em desconfiança pela malícia que brilhava nos olhos do demónio, o Génio escutou atento as palavras cheias de fogo do Chefe de Estado, o qual, com voz retumbante, estimulava os soldados a se bater com tal vigor que o medo encheria o coração dos selvagens asiáticos e que em mil anos ainda a palavra TEUTÃO os faria tremer.
Na batalha, nada de feridos!
Nada de prisioneiros! Kein pardonü (6)
— Muito bem! Eis um discurso bem sentido que, certamente, electrizará os soldados, levando-os a façanhas completamente superiores.
Lógico! - exclamou o demónio; depois, batendo na espádua do Génio, ajuntou fazendo troça:
— Vá, vá, amigo, e pregue a esse príncipe Cristão a caridade, a piedade, o amor ao próximo, a fraternidade - é um bom momento, e que triunfo o seu de começar sua missão em país tão nobre.
O Génio nada respondeu; muito emocionado, cobriu os olhos com a mão; um frio intenso subia da Terra até ele, era um fluido glacial que exalavam todos aqueles homens com coração frio e egoísta, governados somente pela ambição e pela rapacidade, esquecendo que ao lado de cada um, fosse rei ou servo, está a Morte, para pôr fim a todas as ambições.
A voz chocarreira de Satã arrancou-o às suas reflexões:
— Está demorando com essas vãs reflexões, Génio; siga-me e vamos ver de perto as façanhas dos bravos guerreiros animados por tão piedosas exortações!
Quase maquinalmente o pobre Génio se deixou levar.
Por cima de uma cidade imensa, com arquitectura original, o Mensageiro Divino e seu guia pararam.
— Eis a capital chinesa, mas passa um mau momento, - murmurou Satã, designando diversos lugares visivelmente devastados por incêndios e bombardeios.
De diversas direcções avançavam os destacamentos de soldados conduzidos por homens vestidos de negro.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71891
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 04, 2016 8:58 pm

— Esse são os padres, - suspirou o Génio, aliviado.
— Sim, sim... os missionários! - Respondeu Satã, medindo a cena com um olhar divertido.
E por que você crê que esses pioneiros da fé em Cristo acompanham os soldados?
— Pergunta esquisita!
Naturalmente para acalmar seus instintos ferozes, para pregar-lhes a piedade, para consolar os feridos e os que vão morrer em uma palavra, para impedir toda violência no ardor do combate.
— Ha! ha! como você é bobo; os corajosos missionários designam a seus compatriotas as mais ricas casas para pilhagem, tendo tido ocasião de anotar isso durante o curso de sua piedosa missão.
— Você está mentindo, Satã; os servidores do Cristo não cometeriam uma infâmia assim! - exclamou o Génio vermelho de indignação.
— Ah... em vez de se irritar, veja isto: ele conhece não somente a casa mas também os bons lugares onde se escondem os tesouros; vai ver ele foi acolhido nessa casa.
E esse velho chinês que é dono das belas coisas que roubam, é o proprietário do lugar; alguém fará o velho correr a chicotadas até a caserna dos vencedores, e, depois, em agradecimento à sua dor, se lhe plantará uma bela bala na cabeça; eu conheço esse engenhoso processo por tê-lo visto em execução, mas vou poupá-lo... você tem tantos preconceitos!
É melhor você ver esta praça - vão executar alguns mandarins.
— Qual o motivo?
— Patriotismo intempestivo, ora... e além disso como vítima expiatória.
Veja! a população exasperada matou um embaixador que, se prevalecendo de sua inviolabilidade, desafiou-a impudicamente.
Pois bem! O soberano, cheio de mansuetude, cuja divisa é "kein pardon", exige em reparação desse ultraje, tantas cabeças chinesas quanto o embaixador tenha tido em fios de cabelos na cabeça; e até que ele é bom - não contou os pelos de seu bigode!...
Nesse momento, o Génio soltou um grito:
— Deus poderoso!
Na primeira fila de expectadores estão os padres!
Os ministros da paz e da misericórdia se saciam com o espectáculo de execuções?!
Oh, Satã! Por que me mostrou tudo isso?
Vamos fugir daqui, eu não quero ver mais!...
E, como um raio, ele se lançou no espaço.
O demónio o seguiu rindo ruidosamente.
— Pare, pare, não posso ir tão depressa!
Logo alcançou o Génio que tinha ralentado seu voo.
— Vejamos, acalme-se, belo Mensageiro, e seja razoável.
Como quer converter os homens, se nem tem coragem de ver o que eles fazem?
Ainda nos resta fazer uma derradeira visita.
— Para onde quer me arrastar?
Que torpeza quer me mostrar ainda? - Gemeu o Génio, Mensageiro do Céu.
— Oh! Nada... coisinhas pequenas:
vamos ver agora os vizinhos dos teutões belicosos; vamos à casa dos Ursos Brancos, um povo de bondade natural e simples... também descuidado, preguiçoso e desinteressado quanto os Kulturtràger são ordenados, activos e ávidos.
Absorto por tristes pensamentos, o Génio ficou mudo, contentando-se em regular seu voo com o voo lento e pesado do demónio.
Subitamente Satã interrompeu as reflexões do companheiro:
— Vou fazer uma pequena volta, amigo Génio, para lhe mostrar ainda um vizinho dos Ursos Brancos.
— Ah! Chega! Vamos directo, eu já vi muito povo infortunado e aviltado; meu coração já sangra com tudo o que mostrou.
— Bobagem! a Esperança e o Êxtase o reconfortarão!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71891
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 04, 2016 8:58 pm

De resto, é para o agradar que o trouxe aqui; o império que nós atravessamos é apenas um termo etnográfico, uma aglomeração disparatada de nacionalidades diversas, mas aqui, como na casa dos Ursos Brancos, vê, Génio, habita uma raça rainha do futuro, a raça eslava.
No momento ela é ainda oprimida, maltratada e desvalorizada para quem assim ache, pois seus filhos, em seu próprio país, não ousam empregar sua própria língua!
— E eles não protestam?
— Ainda não; estão muito imbuídos dos seus princípios, Mensageiro: generosidade, piedade, modéstia e diminuição de si mesmos.
O que conta contra eles é a discórdia; enquanto os membros da família brigam, judeus e teutões os atormentam e já comeram mais de um pedaço suculento do património deles.
Portanto, o tempo se aproxima, quando, esquecendo dissensões, o gigante eslavo sacudirá as cadeias; daí, sob seus pés, serão demolidos todos os opressores seculares e a palavra opressiva "ontem" será sufocada por milhões de "zde"(7)
E agora veja!
Satã estendeu a mão e, como uma fada morgana(8), surgiu da bruma uma magnífica paisagem:
uma cidade à beira de um golfo, dominada por cúpulas e minaretes, envolvida na verdura dos jardins e, dominando tudo, uma vasta construção com uma cúpula gigante, onde predominava uma cruz luminosa cuja claridade abrasava o céu.
— É Santa Sofia, a paladina dos eslavos; lá planearam suas águias vitoriosas.
Sua grandeza e se elevará sobre a pujança desmoronada da decadência latina e da velhice teutónica.
Virão tempos de lutas e de descontentes por mim, - suspirou Satã continuando, - mas não vou me desencorajar, sei que virá minha vez.
E agora vem, é tempo de nos transportarmos à casa dos Ursos Brancos.
Logo apareceram a seus olhos planuras imensas cobertas de gelo, depois um golfo também gelado.
De repente, um quadro singular atraiu suas atenções:
ao centro de uma espécie de parapeito, formado de enormes blocos de gelo, aparecia um grande forno de onde saía agradável calor que ia longe.
Nos dois lados do forno estavam sentados dois militares:
um tenso e afectado, tendo à cabeça um boné de ponta; o segundo, abotoado em uniforme dum vermelho gritante que parecia jogar reflexos sobre as costeletas que enfeitavam seu rosto.
Com ar trocista e expansivo, sem alarde, comiam com apetite castanhas assadas que muitos ursos brancos retiravam do forno, onde eles as assavam e lhes apresentavam com zelo de serviço.
O trabalho era de retirar as castanhas incandescentes; os ursos tinham o focinho coberto de queimaduras e as patas em sangue; também, às vezes, a hesitação lhes vinha de comer eles mesmos uma das castanhas, mas os dois bravos guerreiros os vigiavam para lhes impedir tal guloseima.
Logo um segurava um chuço e aplicava um golpe na lã de sua pele espessa, ao que o urso, resmungando, lhe devolvia a castanha; quanto ao outro soldado, afagando o focinho do temível carnívoro, coçava-lhe as orelhas e, sempre cantando uma terna canção, despojava-o também.
— Que grupo estranho esse!
Que são esses animais? - pediu o Génio.
— É um grupo alegórico, amigo Génio, que representa a simplicidade extraviada a serviço da arrogância e da avidez; mas também se poderia chamar de "o concerto europeu".
Continuemos nosso caminho; lá na borda do golfo acha-se a capital dos Ursos Brancos.
Logo se desenrolou a seus olhos uma cidade considerável.
Uma multidão de cúpulas azuis, verdes, douradas, dominando o amontoado de casas, brilhavam aos raios dum sol pálido, velado de vapor.
— Que tristeza há nessa paisagem!
Somente o sinal da redenção, que brilha sobre todas as cúpulas, a alegra um pouco! - observou o Génio.
— Sim, o clima aqui deixa a desejar; confesso que a fé aqui é mais simples, mais sincera, mais piedosa que noutro lugar.
Já lhe disse que os Ursos Brancos são simples e bondosos e com isso são muito originais; eles têm por especialidade de carácter prejudicar-se a si próprios, por tudo e ao máximo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71891
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 04, 2016 8:58 pm

Além disso, sua preguiça é fenomenal e os faz cair nos extremos.
Por exemplo:
é um país de agricultores por excelência, e é precisamente esse ramo de produção nacional que menos os interessa; os serviços de que se ocupam os nobres e camponeses reclamam em vão uma sustentação eficaz.
A crise económica é tão grande que provoca a transmigração da população rural para a conquista de outras terras longínquas, enquanto que em seu lugar, no centro mesmo da região, se estabilizam os teutões puro sangue.
'Não menos engenhosa é a venda a leilão de todas as riquezas do país a estrangeiros e isso se intitula "reavivar a indústria".
Proteger e desenvolver minúsculos patriotismos locais, tais como o dos arménios, dos livónios, finlandeses, quirguizes(9), tchremisse(10), tschouvache(11), etc.; isso entre eles se chama "aclarar a política interior".
Resumindo, só os Ursos Brancos sacudiram a dominação mongólica.
"Se eu fosse lhe contar, mexericando, todos os absurdos dessa gente boa, seria um nunca acabar...
Eis outra coisa curiosa entre eles:
é supérfluo ter bons escritores ou óptimas obras científicas, mesmo notáveis, quando é bem mais cómodo açambarcar as riquezas intelectuais do mundo inteiro, remunerando economicamente autores pilhados.
Sim! Dão a eles apenas admiração platónica e aos editores, que se enriquecem e os distraem tão engenhosamente, consagram sincera gratidão.
— Mas como a honesta e sincera piedade desse povo se acomoda a uma tão flagrante injustiça?
— Têm uma escusa valiosa; no décimo mandamento de Moisés está:
"não cobice nem a mulher, nem o boi, nem o asno de teu próximo", mas como ele esqueceu de mencionar as obras literárias do vizinho ou do próximo, eles estão em regra com a Lei.
Oh! você ainda não conhece toda a utilidade de um discernimento hábil entre a letra e o espírito da lei.
Guarde bem na cabeça o que vou lhe dizer:
vejo em sua cintura o bico de uma pena; se durante sua encarnação tiver proposta de ser literato, a coisa vai interessá-lo.
— É verdade - como companheira de minha missão escolhi a Poesia, - fez o Génio enrubescendo.
Satã cocou a orelha.
— Ela está um pouco fora de moda, como todas as províncias celestes.
Em todo caso, evite esta região.
E agora vamos fazer um giro nos teatros e restaurantes; é a semana gorafa(12), está tudo cheio e bastante interessante.
O Génio acedeu, querendo ser agradável, e seu condutor se animou e se alegrou à vista desses lugares de prazer, cheios de uma multidão mais que alegre com essas saturnais modernas.
— Diga-me, Satã, - inquiriu o Génio, assim que saíram do restaurante:
quem é essa mulher nua e desavergonhada, coberta de andrajos velhos, de missangas, de enfeites de fantasia que não escondem de forma alguma seu corpo disforme?
— Oh! tantas vezes você velou os olhos com a asa:
acreditei que não havia notado essa amável personagem, - disse Satã zombando e piscando o olho.
— Tem sido difícil; temos visto por toda parte campainhas suspensas em cada ponta de sua coroa de papel dourado; ressoam tão desagradavelmente! Quem é ela?
— É uma grande dama; chama-se Vaidade e é a concubina do Ouro.
Os dois cultivam tão bem os mesmos gostos e instintos que sua desaprovação, Génio, me é supérflua.
O que você chama de enfeites de fantasia são objectos preciosos de arte, decoração, sinais académicos, títulos nobiliárquicos.
Para adquiri-los os homens mentem, se humilham, se destroem mutuamente, sem nunca se aperceber que os dons distribuídos pela Vaidade são farrapos que nunca cobrem a nudez daquele que se enfeita com ela.
— Mas é preciso abrir os olhos desses pobres cegos, para provar que a Vaidade os engana e que se enfeitam somente duma indigna fraqueza.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71891
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 04, 2016 8:58 pm

Satã não parava de rir...
— Ah! Génio, Génio! - disse enfim, enxugando os olhos.
A gente logo vê que você veio do Céu, onde a dama Vaidade não é admitida!
Se ela for caçada aqui, o mundo desmorona!
Ela tem muitos adeptos. Pense bem!
Que se tornariam então os homens sem nenhum mérito pessoal, nem talento, nem trabalho, nem virtude, e que são somente filhos, parentes ou amigos de homens notáveis ou de dignatários altamente colocados?
Ajudados pela Vaidade eles se crêem, graças a essas relações, pessoas de posição social, com amigos bem abonados e se rebentam de orgulho, pois são pais de filhos célebres ou sobrinhos de um ministro.
Eles correm a saudar um homem poderoso, ou apertar a mão dele, felizes por fazer crer aos invejosos que eles são muito bem vistos pelos grandes da Terra.
Que se tornariam todas essas pessoas sem a Vaidade, que lhes dá o ar de serem alguma coisa?
Eles vão lapidá-lo se você inventar de lhes tirar isso!
— Sem dúvida combaterei com todas as forças essa abominável mentirosa que torna os homens escravos de uma covarde fraqueza.
Mas deve existir os que são excepções do ridículo da Vaidade; vou tomá-los como aliados, - exclamou impetuosamente o Génio.
— Seus aliados serão pouco numerosos; os seres modestos e de mérito verdadeiro são tão raros que a massa os têm como anormais; um sábio chegou a declarar ultimamente que os génios são loucos.
Você já se queimou com o Ouro, se agora ofende a Vaidade, você acaba...
"Mas parece fatigado, amigo Génio; voltemos às portas da Terra - você já viu o bastante para renunciar à missão.
O Génio suspirou e baixou a cabeça.
Nesse momento seu olhar caiu sobre a lâmpada suspensa em seu peito:
uma chama quase apagada e vacilante, quase a se extinguir; mas subitamente ela pareceu reviver e crepitou, aclarando o Génio com uma luz brilhante.
Ele se recompôs e seus olhos retomaram o brilho de esplendor.
— Cumprirei minha missão e a Esperança me sustentará.
— Oh! essa mentirosa não vai largá-lo, mesmo que você queira se desfazer dela... já o está arrastando a tentar o impossível - disse Satã, fixando com olhar longo e pensativo o Mensageiro luminoso e diáfano, cujos traços reflectiam a harmonia de todos os sentimentos.
Em seu modo de ver tão puro brilhava o fogo do Êxtase.
Um suspiro elevou o peito do Génio enfraquecido e alguma coisa, como uma lembrança ou saudade, fechou seu peito sofrido.
— Vá, então; tenha piedade de si mesmo, vá entre os homens mais duros que a pedra, mais impiedosos que os animais ferozes; eles não saberão apreciar nem sua beleza celeste, nem sua pureza radiosa; e quando você voltar aqui à entrada da Terra, suas asas estarão quebradas, terá perdido a suave harmonia do seu ser, o êxtase vai estar extinto de seu olhar; vá, repito, mas cada vez que você fracasse em seus esforços, que os homens zombem de você, que o mal triunfe, que uma alma que você acredita ter conquistado para o Céu escorregue entre suas mãos para recair entre aqueles odiosos Génios da Terra, você vai me escutar rir provando que vejo e sei tudo.
O Génio, que havia escutado com calma e doçura, se aproximou e uma indefinível expressão de afeição e lástima se pintou em seu rosto:
— Como eu o lastimo, pobre guardião da Terra; seu suplício é verdadeiramente eterno, pois você não tem esperança; mas sinto que não é tão mau quanto diz ser, que em seu riso cruel modula o amargo desespero de uma alma atormentada que não encontra repouso.
Um riso estridente, agudo e discordante como um grito de angústia lhe respondeu, e o demónio desapareceu em uma nuvem de chamas e de fumaça.
O Génio suspirou.
Tinha ele, com seu olhar puro, sondado o sombrio abismo que se chama "o coração de Satã" e compreendido até a raiz o resumo de todo sofrimento?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71891
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 05, 2016 8:54 pm

O Génio estava sozinho, sentia-se pesado e uma atracção invencível o puxava para a Terra.
Descia cada vez mais rapidamente, e seu olhar se obscurecia; de repente, um raio se abateu sobre sua cabeça e ele perdeu a consciência de si mesmo.
Quando voltou a si, achou-se em uma gruta, estendido num leito de palha; um venerável velho estava inclinado sobre ele e molhava com água fria sua fronte e suas têmporas.
— Enfim, pobre menino, você está abrindo os olhos e acordando do longo entorpecimento - disse afectuosamente o velho.
Muito feliz de encontrar sobre si um olhar límpido e bom, o Génio se endireitou, apertou a mão de seu hospedeiro e perguntou:
— Onde estou?
Que acaso me trouxe a sua casa?
Ao mesmo tempo ele se examinava, se apalpava curioso; constatou que possuía um corpo humano, jovem, bonito e delicado.
— Eu o encontrei sem consciência, sozinho e abandonado na floresta e o trouxe à minha ermida e já faz dois dias que o trato, querendo que volte à vida.
— Quem é você, bom velho?
— Sou um eremita; desde minha juventude fujo do mundo e dos homens para me devotar à contemplação e à prece.
Vivo feliz e calmo em minha solidão e se desejar, fique comigo; já o amo e será meu filho adoptivo, a menos, todavia, que tenha parentes aos quais deve voltar.
— Não, não tenho parentes terrestres e ficaria feliz de morar aqui com você, bom velho, se não tivesse de cumprir uma missão - exclamou o Génio.
Mas sou um Mensageiro do Céu enviado à Terra para lembrar aos homens quanto é bela sua pátria celeste, onde o sofrimento é desconhecido, onde reina o amor puro e a harmonia perfeita.
Devo levá-los a vencer suas paixões torpes, a caçar de seus corações a vaidade e a desprezar o ouro e as alegrias perecíveis que os chumbam à Terra.
Diga-me, Venerável Pai, para onde devo me dirigir, a fim de encontrar os homens?
Tenho pressa de começar a lhes abrir os olhos.
O eremita o escutou, cheio de emoções; a suave pureza que emanava de todo o adolescente e o fogo subjugante de seus olhos não lhe deixavam dúvidas sobre sua origem.
Unindo as mãos o velho exclamou:
— Como sou feliz de ter podido, antes de morrer, contemplar um Mensageiro de nosso Pai Celeste!
Os homens acreditarão em você?
Quererão escutá-lo?
São tão incrédulos, tão maldosos que o irão maltratar e farão você morrer de fome!
— Deus me sustentará...
E depois veja como a Esperança me aquece! - fez o Génio, mostrando-lhe a luz dourada que emanava de seu peito.
Já sei que os homens são maus, mas são cegos e se esqueceram do Céu.
Quando lhes provar que estão errados, se emendarão.
O eremita lhe deu sua bênção e um pedaço de pão para apaziguar a fome, indicou-lhe o caminho a seguir e, ao se despedir, disse:
— Vá, então, puro Mensageiro da Luz; e quando tenha acabado a missão, venha para perto de mim; rezarei a Deus incessantemente para que consiga salvar muitas almas.
Caminhando, modesto e cheio de resolução, o Génio se pôs a caminho e ao cair da noite atingiu um albergue.
Como estava cheio de gente ele se sentou em um canto e prestou atenção às conversações:
discutia-se a instalação de um terceiro cabaré em uma pequena cidade vizinha; os protestos tímidos de alguns assistentes eram cobertos pelos risos e zombarias.
— Que está fazendo aqui? - perguntou subitamente o dono do Albergue, aproximando-se do Génio e examinando-o suspeitosamente.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71891
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 05, 2016 8:55 pm

Quem é você? Se quer comer, tome o de que precisa, pague e vá embora, - continuou ele rudemente.
— Eu não tenho dinheiro e venho somente pedir um abrigo em nome de Deus.
— Ah! um esfarrapado mendigo, pedinte; sua cara suspeita não me engana; foi para espionar ou para roubar que veio...
Saia, enquanto seus ossos estão inteiros! - berrou o estalajadeiro, agarrando-o pela gola e arrastando-o até a porta.
O Génio ficou sobressaltado por semelhante acolhida, mas como ainda não tinha adquirido a faculdade de se zangar, tratou de se desculpar dizendo que era um Mensageiro do Céu, o que lhe valeu uma resposta torta e a ameaça de ser mandado ao comissário de polícia.
Entristecido, se pôs de novo a caminho:
"Ainda não tenho experiência de seus costumes, se persuadia ele; talvez devesse pedir perdão de ter vindo sem dinheiro, em lugar de me glorificar de minhas qualidades."
Durante toda a noite e todo dia ele andou sem destino, não ousando entrar em lugar nenhum, sonhando com um meio de se proporcionar honestamente um pouco de dinheiro.
Acabou chegando a grande parque cujo portão estava aberto.
Encolheu-se sob uma árvore para descansar.
Pouco depois chegaram três rapazes sujos, em desalinho, de caras suspeitas; estenderam-se na relva a pouca distância, e, fazendo circular uma garrafa de aguardente entre eles, discutiam em voz baixa, mas com animação. Enfim um deles disse:
— Olha esse moço franzino e pálido sob a árvore; aposto que tem fome e está sem um tostão no bolso.
Se a gente pudesse "enrolá-lo" connosco, estaria feito o negócio; magricela como é, escorregará pela janelinha e nos trará a caixinha; vocês trazem a escada e eu vigio; se houver alarme, teremos tempo de nos salvar, se alguém o prende, não poderá mesmo nos trair.
— Tá bom, tá bom, vai lá... ele parece meio bobo mesmo.
O vagabundo se aproximou do Génio e lhe propôs ganhar um tanto com que pagar um alojamento e comida, se por acaso ele não tivesse dinheiro.
— Certamente, é exactamente o que desejo - ganhar trabalhando.
— Você sabe subir numa escada e atravessar um quarto sem fazer barulho?
— Oh! Sou leve como um passarinho.
Muito satisfeito, o trio conduziu o Génio, levando-o a um jardim cercando uma elegante vivenda; trouxeram uma escada que postaram em direcção a uma janelinha estreita, a única que não tinha sido fechada pelos ventos contrários.
— Suba depressa, arrombe o vidro depois de aplicar ali este papel, e entre; ao fim de um corredorzinho vai encontrar um quarto; uma velha dorme lá, perto de sua cama se encontra uma caixinha com moedas de prata que você pega e nos traz.
Mas seja prudente porque, se bem que a velha seja surda, um ruído pode nos trair e daí... é prisão, cuidado!
O Génio escutou petrificado; lembrou-se do que Satã tinha dito sobre as prisões e gritou horrorizado:
— Mas como?! Mas é roubo com arrombamento!
Eu não me presto a isso.
Sua voz clara soava como um clarim.
Fulos da vida, os ladrões o arrastaram dali enchendo-o de socos e nomes feios, mas como ouviram alguém correr e chamar pessoas de dentro de casa, os malvados se enfureceram e tanto socaram sua cabeça que o deixaram sem sentidos na estrada.
Logo pessoas acorreram e, encontrando o Génio desmaiado, com um ferimento na cabeça, transportaram-no a um hospital.
Lá constataram que ele não possuía documentação e foi decidido que tão logo estivesse curado, seria posto na cadeia até esclarecimento posterior.
O sofrimento do pobre Mensageiro do Céu durou muito e durante a longa convalescença travou conhecimento com um velho rico, membro de uma sociedade beneficente, tendo por especialidade suavizar a estadia de doentes em hospital.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71891
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 05, 2016 8:55 pm

O velho se interessou por ele, por tê-lo ouvido falar do Céu a um pobre moribundo, seu vizinho de cela.
Esse velho tinha pecado muito em sua longa vida; para juntar sua grande fortuna teve de amordaçar a consciência por numerosas vezes, o que nunca o tinha preocupado tanto quando jovem, mas agora que a morte se aproximava, tinha medo do abismo desconhecido e uma imperiosa necessidade de se reconciliar com o Céu.
As palavras do Génio o interessaram e estabeleceu conversação com ele; ficou tão encantado com tudo o que o Génio lhe contou da vida além-túmulo, sobre a inesgotável bondade do Pai Celeste, da beleza do Paraíso, que ele se fez fiador da honestidade do Génio; encarregou-se de legalizar sua posição e instalou-o em sua casa.
O Génio, radiante por ter encontrado uma alma que aspirava a suas lições, se mostrou infatigável.
Em conversas intermináveis, instruía seu novo amigo; depois, a seu pedido, o velho escrevia o que lhe tinha sido contado.
Cada vez mais emocionado e tomado de uma febre de altruísmo, o velho decidiu que era indispensável levar essas maravilhas a seus irmãos da humanidade - as consolações morais que tanto reconfortam - e resolveu fazer uma grande sociedade diante da qual o Génio leria e declamaria os extractos de seus ensinamentos.
Somente que, como o velho senhor era muito económico e, por princípio nunca impunha um incómodo a si próprio, persuadiu uma senhora de seu conhecimento a organizar essas reuniões em casa dela.
Uma sociedade muito numerosa se estabeleceu; havia incrédulos que vinham para caçoar, desocupados que ali estavam para gastar umas horas, não importa como; velhas senhoras que não mais podendo pecar, aspiravam à saúde; enfim, os exaltados prontos a se entusiasmar por tudo.
A eloquência persuasiva do Génio e o encanto sugestivo que emanava dele não faltaram absolutamente em seus efeitos e ele teve um primeiro triunfo.
Em unanimidade, se decidiu publicar esses sublimes ensinamentos, mas na questão do título a ser dado a essas publicações as querelas começaram.
Uns desejavam intitular o livro:
"A Saúde da Alma - ditado por um Mensageiro do Céu"; outros eram mais prudentes - "Meditações Celestes - por um desencantado da Terra".
— Uma voz vinda do Céu abalou as consciências - gritaram os primeiros.
— Vós assustareis os leitores sérios - repostaram os segundos.
Ninguém queria ceder, e se separaram nos piores termos.
Entretanto, as reuniões se tornaram conhecidas, falou-se do Génio - verdadeiro ou falso? - que acabava de aparecer e esse era um motivo de o visitar, de o consultar, de submetê-lo a questões da consciência.
A admiração exagerada lhe criou invejosos, mal querentes e até mesmo inimigos; o Génio não ligava a isso; animado de um zelo ardente, de um desinteresse completo, incapaz de iras e rancores, sonhava com o campo de batalha que lhe havia sido descrito por Êxtase e envidou todos os esforços para esclarecer os homens, para curar suas dores morais e físicas; ensinava, consolava, curava, nada pedia em troca, apenas desejava que eles se melhorassem e compreendessem que existe alguma coisa mais preciosa para a alma do que o ouro, a vaidade e os gozos materiais, isto é, um pouco de amor, o eflúvio puro do coração que não pode ser fingido.
A multidão, primeiramente curiosa e interessada, se alterou alarmada - que vinha fazer ali o pregador incómodo, esse insolente, ousando chamar os vícios por seu verdadeiro nome, desvendando sem delicadeza alguma a feiura moral, e apontando com o dedo a nudez de cada um, em lugar de a velar com algum elegante sofisma?
Os mesmos a quem o Génio havia servido, começaram a vaiá-lo; as curas milagrosas eram devidas ao acaso, suas pretensas consolações somente envenenavam a existência, atrapalhavam a quietude da alma; as responsabilidades no outro mundo que ele proclamava impediam de se fruir com tranquilidade as satisfações terrestres.
O pessoal tinha medo e tapava os ouvidos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71891
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 05, 2016 8:55 pm

Os Vícios, inimigos do Génio, não ficaram inactivos; apresentavam tentações sustentando os vacilantes, insinuando-lhes as mais insidiosas desculpas em favor do pecado; e cada vez que lhe escorregava entre as mãos uma alma que o Génio acreditava ter ganhado, o Mensageiro do Céu via sob aquele rosto humano a zombaria da face odiosa da Vaidade, da Avareza, do Egoísmo ou de um de seus confrades - e o riso de Satã tinia em seus ouvidos.
Apesar desse ódio surdo da Sombra, vinham centenas de pessoas ao audacioso que desprezava o Ouro, a Vaidade; o insensato que ficava indiferente à Lisonja, não se deixando tentar nem por honras, nem por prazeres, desdenhando a Calúnia, só se deixando guiar pela Verdade e pelo Dever.
Essa luta o esgotou; o Génio empalideceu e um profundo vinco apareceu em sua fronte.
Mas a Esperança ainda o sustentava; ele não queria ver que os que se aproximavam eram inimigos disfarçados, espreitando o momento favorável para o atacar, lhe jogar lama.
Acolhia com braços abertos os que lhe vinham ao encontro, e mesmo por instantes esses corações endurecidos acordavam sob a influência daquela voz que falava dos esplendores do Céu e embelezava com um encanto tentador os caminhos áridos da virtude.
Esses impulsos momentâneos criaram ao redor do Génio uma multidão de discípulos que se ligavam a ele jurando submissão e afeição eternas, mas cumulando-o de pedidos e pretensões; mas quando a ocasião se apresentava para comprovar por actos a sinceridade de suas promessas, o Génio se chocava com uma invulnerável couraça: o Orgulho ou o Egoísmo, a Covardia ou a Avidez lhe dirigiam dardos venenosos, suas palavras pareciam perder força, os discípulos recuavam sob seu olhar de fogo, derretiam como cera ao calor do sol e fugiam para não mais voltar.
Cada vez mais frequente era o riso de Satã, estridente c zombador.
Aos poucos o olhar do Génio ensombreceu, seu ser perdeu o vigor e se velou; de sua alma se elevava um sentimento do qual ele ainda não se havia percebido; dor enervante, amargo desprezo, desencorajamento e desconfiança até de si mesmo.
"Será que vim em vão?
Satã teria razão?" - perguntava-se ansiosamente.
A esperança ainda vinha, mas raramente, reanimar sua coragem; segurava a pena de águia ou sua espada de fogo, proclamava a verdade ou dava encontrões nas sombras; mas uma vez que a luz houvesse passado, um espesso vapor se fechava e às suas impalpáveis promessas de felicidade no Céu se opunha a agradável realidade das tentações terrestres.
Com esse trabalho de Sisyfo(13), as forças do Génio escassearam; a alma ulcerada aspirava retornar à Pátria Celeste.
A cada dia ele sentia restringir seu círculo de acção.
Somente com um dos seus discípulos, o último, o único a quem ele esperava arrancar das mãos cruéis dos Génios Terrestres, o pobre Mensageiro falava ainda do Céu.
— Mestre, vejo que sofre, - disse-lhe um dia este, - e sei que, apesar dos indignos, tem em vão pregado a verdade.
Quanto gostaria eu, que o amo tão sinceramente, reconciliá-lo com a Terra e, mais tarde, segui-lo às esferas luminosas!
Diga-me o que devo fazer para ser digno do Céu?
Ordene e eu obedecerei.
Um relâmpago iluminou o olhar obscurecido do Génio.
Inclinando-se a seu discípulo, disse:
— Tenha um verdadeiro impulso do coração, esqueça tudo o que o liga à Terra, sacrifique no altar de sua fé todos esses interesses mesquinhos, sem os quais os homens imaginam não poder viver, e que fazem de sua alma, afinal de contas, o albergue de todos os vícios.
— Sem dúvida, mestre querido, não duvide de mim, - respondeu sem hesitação o discípulo - desde que eu me assegure de que isso não me prejudique e não me faça perder a herança que deverá me tocar, farei o que me pede.
— Você resolveu o problema do processo, meu discípulo fiel; agradeço sua promessa, - respondeu o Génio com um enigmático sorriso, já ouvindo o riso acerbo e caçoísta de Satã.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71891
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 05, 2016 8:55 pm

"Tem razão, demónio zombador, eu me declaro vencido", murmurou ele.
"Que se pode pedir a almas que não compreendem mesmo o que se lhes pede?"
No silêncio e na solidão da noite, o Génio sondou, recapitulou todas as peripécias de sua missão fracassada e decidiu partir; sua alma estava toda ferida.
Seu corpo quebrado, pelos anos de trabalho ininterrupto, de esforços sobre-humanos, recusava-se a servi-lo e nessa hora de angústia estava só, só como no dia de sua chegada sobre o campo de batalha onde o ferido, o vencido, era ele. O Génio suspirou e as lágrimas queimaram seus olhos.
"Tudo em vão; vou à casa do eremita buscar repouso, se é que ainda poderei achar repouso".
Em sua gruta, sozinho, o solitário rezava.
A abstinência, a meditação, o desprezo das vaidades terrestres tinham purificado e tornado seu corpo leve; a alma via através da matéria.
Sentiu a aproximação do Génio e partiu ao seu encontro; mas à vista do Celeste Mensageiro, soltou um grito de dor e espanto:
— Grande Deus! Que fizeram a você os homens?
Ao Mensageiro do Infinito?!
Onde estão a radiosa harmonia de seus traços, o fulgor de seu olhar, a claridade luminosa que emanava de todo seu ser?
— De todas essas belezas me havia dotado o Céu e as sacrifiquei aos homens; esperava esclarecê-los, torná-los menos rudes; sempre batendo na pedra se faz sair fagulhas, mas no granito do coração humano fui obrigado a renunciar em ver as fagulhas de generosidade, gratidão, amor verdadeiro; somente faz vibrar suas almas o que lembra o ouro, lisonjeie sua vaidade ou os leve aos gozos materiais.
Convenci-me de minha inutilidade, fugi e venho a você.
O eremita chorou, abraçou o Génio, depois o levou à gruta onde o ajudou a se estender sobre seu leito de musgo.
Esgotado de fadiga, fechou os olhos e caiu em um torpor apático, mas o repouso não vinha de forma alguma:
visões odiosas o perseguiam; espectros de todos os ingratos por quem ele se havia sacrificado desfilavam diante dele; o Enviado era incapaz de odiá-lo, mas uma indizível amargura o torturava.
Subitamente uma chama clara jorrou de seu coração ferido, vivificante calor aqueceu seus membros e se sentiu embalado em sonho estranho que o aturdia.
Estava de novo na Terra recomeçando a missão, mas só que desta vez era mais feliz; as almas estavam mais aptas a compreendê-lo, deixando-se tocar pelo amor verdadeiro, à abnegação, a aspirar ao infinito; ao seu derredor se agrupavam amigos que, cheios de gratidão, se esforçavam em seguir suas lições, vencer seus instintos inferiores.
Precipitados de seu trono, o Ouro e os Vícios jaziam na poeira.
Uma nova energia encheu o coração do Génio; em um instante ele esqueceu suas feridas, decepções e ultrajes sofridos.
Aprumou-se e, com a mão desfalecente, segurou a espada de chamas, pronto a se jogar naquela cena e tentar novo combate, quando percebeu a Esperança, radiosa em sua túnica cintilante, elevando a lâmpada em sua mão, flutuando por cima de seu leito.
A espada se lhe escapou; uma cólera mesclada de desespero, como jamais havia sentido, encheu sua alma.
— Traidora, espectro mentiroso, que promete a felicidade do Céu para empurrar os cegos a todos os sofrimentos terrestres! gritou ele; oh! que pena não poder asfixiá-la com minhas mãos a fim de que não possa maldosamente lograr os infortunados que se fiam em suas promessas!
A Esperança pareceu ficar insensível a essas reprovações:
boca sorridente, olhar cheio de promessa, trazia uma braçada de rosas no pano de sua túnica; a radiosa visão se elevou docemente e se fundiu no abobadado tecto da gruta; então, do fundo obscuro, avançou lentamente e majestosamente uma alta figura de negro se inclinou sobre o Génio e, tirando o véu, descobriu o rosto pálido, severo e calmo da Morte.
Uma compaixão infinita brilhava em seus olhos de profundez insondável; uma lágrima refrescante veio ter sobre a fronte lívida do pobre Mensageiro. Isso o estremeceu, reabriu os grandes olhos e um sorriso reconhecido clareou seus traços.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71891
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 05, 2016 8:56 pm

— Agradeço por ter vindo, ó mais caridosa das filhas do Céu; só você não faltou à promessa; conceda-me bem depressa o beijo prometido.
— Sim, meu abraço é glacial, mas proporciono um momento de repouso, uma hora de trégua no extenuante combate que o Espírito recomeça sem fim.
Ela o atraiu a seus braços e apertou sua fronte contra seus lábios.
A esse toque, a matéria perecível, já pesando ao Mensageiro do Céu, se consumiu como um fio de cabelo ao contacto com a chama, enquanto que o ser imortal, livre dos entraves grosseiros e levantado pelos braços da Morte, subia para os ares, parecendo uma nuvem transparente.
Sem olhar os despojos mortais que o haviam servido e onde tinha tanto sofrido, o Génio subia, ensaiando estender suas asas amarrotadas e entorpecidas, quando, chegando às portas da Terra se encontrou diante de Satã, que o encarou com insistência, zombando, fixando-se em seu olhar esmaecido, em sua túnica fanada, em sua espada embotada; enfim, a aura sem viço empanando todo seu ser outrora tão luminoso.
— Então? Quem tinha razão? - Perguntou Satã curvando-se sobre ele.
— Você, - respondeu o Génio, baixando a cabeça.
— Enfim aprendeu a odiá-los como eu os odeio, - retumbou Satã com sua voz surda; - eu também fui um arcanjo, e foi o mal quem me venceu; soprou em minha alma a revolta e quando fui precipitado do Céu, a Terra apenas zombou de mim...
Mas também eu odeio os homens e vigio aqui para saborear à vista de seus sofrimentos; eles se infligem dores uns aos outros; criam lutas fratricidas, e a cada infelicidade que os atinge, a cada flagelo que lhes advém, tremo de alegria e nos urros de aflição eu ouço o soar da Justiça Divina.
— Não, não sei odiar; apesar de tudo fico condoído pelos cegos que me desconheceram e me esqueceram.
— Ora! por que o esqueceriam, agora que suas exprobrações incómodas não mais os importunam?- fez Satã com um riso estridente que ecoou em cada fibra do Celeste Mensageiro.
O Espírito do Mal levantou a mão e logo as nuvens espessas que escondiam a vista da Terra se afastaram e se viu uma procissão avançar, trazendo uma estátua através de ruas da cidade onde, nos últimos tempos, havia vivido o Génio.
— Olha! Beatificaram-no!
Agora o adoram como a um santo; proclamam seus ensinamentos - para os ler, mas não para os seguir, bem entendido.
E o método humano de adorar os que eles crucificaram ou queimaram sem piedade.
O Demónio recomeçou seu terrível riso e, envolvendo-se em seu manto sombrio, retomou seu lugar na pedra, satisfeito com o mal que o consolava de sua queda celeste.
O Génio se deprimiu, ferido por um doloroso estupor; apertando sua fronte contra a pedra gelada, assento de Satã, seu olhar se fixou cheio de dor em um segundo quadro que as nuvens desvelavam, abrindo-se.
Era o templo do Ouro:
mais soberbo, mais altaneiro, reinava o brutal ídolo e, ao seu redor, de mãos dadas, todos os vícios trocavam beijos fraternais, turbilhonando uma sarabanda infernal.
Com gargalhadas de triunfo, se felicitavam mutuamente, mostrando com o dedo o grupo estranho que flutuava nos ares, cercado duma vasta auréola de fogo - era Satã, sombrio e sonhador; a seus pés, o Génio vencido e desesperado. Essa corja odiosa não compreendia que todos os dois sofriam, encadeados à Terra: o Génio, incompreendido pelo desencorajamento que pesava suas asas; o Demónio, por seu ódio insaciável.
Subitamente o arcanjo decaído estremeceu e, sacudido por risos discordantes, se inclinou para o Génio acabrunhado:
— Olhe! disse ele, estendendo sua mão gigantesca para onde emergia um clarão avermelhado, na direcção de uma estrela que resplandecia, acabando de surgir, longe ainda dos céus, e descendo em direcção a eles com rapidez vertiginosa.
— Olha! O Céu impiedoso e incorrigível envia em seu lugar outro Génio.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71891
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 05, 2016 8:56 pm

Quando se deixará de arrancar de seu meio as muitas crianças da luz, tão puras, para sacrificá-las no altar sangrento da Terra ingrata?
Com um assobio parecido àquele da tempestade rebentando, sobrelevando as vagas do oceano, o Espírito do Mal se aprumou para saudar o novo Mensageiro, destinado a provar uma vez mais ao Céu que o Anjo das Trevas é e continua sendo o Senhor soberano desta Terra, pois foi ela quem fez dele SATÃ.

J. W. Rochester
(W. Krijanowsky)

(1) Espíritos femininos da mitologia persa. N.T
(2) O Autor nasceu na Inglaterra (1647 a 1680) N.T
(3) Eles se referem á guerra da Inglaterra contra a índia, Egipto, Turquia...
O tratado de a Paris, em 1763 consagrou a preponderância Inglesa na Índia e na América Ingleses se instalaram no Egipto em 1882.
Em 1919 os turcos lutaram contra o desmembramento de seu País pelos aliados.
Pelo Tratado de Utrecht (que são alguns) a Inglaterra recebeu importantes bases marítimas: Gilbraltar, Minorca, Tera Nova, Acadia 1713- 1715.
N.T
(4) A ideia da Reencamação como Justiça Divina ainda é aceita por poucos. N.T.
(5) Kulturtrâger: bagagem cultural
(6) [i]Kein pardon! Nada de perdão!
N.T
(7) “zd” Não conseguimos achar o seu significado N.T
(8) Fata Morgana: fada Morgana; assim chamada por se supor ser trabalho de uma fada chamada Morgana.
Nome dado a um fenómeno óptico, espécie de miragem que tem sido anotada no Estreito de Messina, entre a Costa da Cecília e a Calábria.
Imagens de homens, torres, palácios, colunas, árvores, etc. são ocasionalmente vistas da costa, algumas vezes na água e outras vezes no ar, ou ainda na superfície da água.
É uma expressão preferida de Rochester.
N.T.
(9) Kingueses habitantes turcos do Tenshan e Pamir- Alai N.T
(10) Tchremisse: antiga denominação de um povo pertencente á divisão do grupo linguístico da língua finlandesa. Constituem os principais habitantes MARI ou MARTINS que habitam a República Socialista Soviética Autónoma de NAQUICHVÃO. N.T
(11) Tschouvache: um povo pertente a um povo pertencente a um dos grupos linguísticos de origem turca, constituem habitantes básicos dessa origem na República Socialista Soviética NAQUICHVÃO N.T
(12) Semana Gorda: carnaval. N.T
(13) Sisyfo: o mais astucioso de todos os mortais, por isso foi condenado a rolar até uma alta montanha um enorme bloco de pedra que, mal chegava ao cume, rolava para baixo puxando por seu próprio peso.
Ssisyfo recomeça a tarefa por toda a eternidade.
N.T
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71891
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 05, 2016 8:58 pm

EM MOSCOVO
(Sonho numa noite de outono)

Moscovo 1906
É preciso salvar a fé, é preciso salvar a Rússia.
É chegado o tempo de provação
Levanta sua voz o discurso sem princípios
A verdade é obscurecida e se perde a consciência
No âmago da indiferença se oculta uma velha mentira
Vós repousastes longos e longos séculos como eu
Despertem! E hora de agir!
Uma força má se aproxima.

N. Sokolov

I

A noite era escura e nebulosa.
No céu as nuvens cinzentas e a névoa fina se confundiam. O ar era pesado.
Os trovões soavam como tiros de canhão a sacudir tudo ao redor.
Os relâmpagos sulcavam o céu carregado, permeando-o com sinistras luzes brancas a iluminar as árvores seculares da velha e majestosa floresta.
Apoiando-se no seu báculo, um velhinho corcunda caminhava pelo bosque.
Vestia uma sotaina de linho branco e calçava um par de alpargatas(1).
O clarão opaco dos relâmpagos iluminava na penumbra seu rosto coberto de rugas, emoldurado pela barba grisalha e contorcida.
O velho andava a passos apressados e, às vezes, um suspiro pesado lhe fugia do peito.
Saindo do bosque ele subiu a colina e diante de nós começou a se delinear, cada vez mais e mais claro, os contornos de uma grande muralha, atrás da qual se distinguiam as cruzes e as cúpulas douradas das igrejas. Agora, porém, os clarões apagavam-nas, como que a envolvê-las com uma densa névoa.
O portão da muralha do monastério estava inteiramente aberto.
Quando o velhinho se aproximou viu que saía um frade de elevada estatura, trajando uma túnica(2).
Atrás dele se estendia uma longa fila de monges.
Tinham a cabeça coberta; os rostos expressavam uma aflição profunda, e os lábios sussurravam orações.
Todos eles saíram pelo portão e junto com o velho monge seguiram o caminho que levava à "primeira das cidades" (3).

(1) Literalmente: lápot- espécie de calçado tipicamente Russo. N.T
(2) Literalmente Skim- espécie de túnica usada pelos monges da igreja ortodoxa N.T
(3) Moscovo N.T.


II

Na Praça do Tzar(4) se aglomerava uma multidão enorme e incrivelmente heterogénea.
Eram camponeses; antigos guerreiros
Em Moscou com seus capacetes, elmos e cotas de malha; bordados com seus casacos de pele e chapkas(5); soldados de tempos idos, feridos e mutilados.
Em suma: pessoas de todas as idades, épocas e classes aí se reuniam.
Pálidos de medo, olhavam desnorteados o cadafalso alto erguido no centro da praça, sobre o qual um carrasco vigiava cm pé.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71891
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 05, 2016 8:58 pm

Trajava uma camisa vermelha e enquanto mantinha uma mão à cintura se aparava com a outra no seu machado.
No seu rosto barbado estava estampada somente a crueldade, uma crueldade que não admitia súplicas.
"— A cabeça de quem será cortada?
Quem espera o castigo cruel?
Quem é tão terrivelmente perverso para ser castigado e torturado com a escuridão das trevas?''
Eram os murmúrios vagos e tímidos pronunciados em meio à multidão.
O povo na praça se agitava e bramia. Com medo olhava ao redor.
À espera daquele terror uns faziam o sinal da cruz e outros em oração caíam de joelhos.
O céu se tornava cada vez mais escuro e o ar abafado; os relâmpagos como espadas de fogo cortavam o Armamento sombrio.
De repente a tempestade desencadeou sua fúria.
O vento assobiava um triste silvo de dor e pranto.
As nuvens levantavam o pó, varriam os casebres e arrancavam as árvores com as raízes, espalhando-as como se fossem palha.
Os estrondos dos trovões se confundiam com os gritos e gemidos dos homens.
O furacão a tudo destruía.
Balançava as velhas paredes e ondulava sombras fantasmagóricas saídas das sepulturas para presenciar o monstruoso castigo prestes a se executar no velho Kremlin.
A multidão crescia.
Sob o estrondo da tormenta uma nova legião chegou. Tinham aspecto horrível. O sangue escorria nos rostos deformados pelo sofrimento.
"— Nós estivemos com os anunciadores da grande desgraça, - gritaram
Nós somos vítimas de Khodinka (6)
Nossa morte não o saciou, nosso sangue não deteve sua marcha."
O desespero do bando infeliz contaminou o povo.
Prantos e gritos de horror estalaram no ar.
Somente o carrasco, em pé no cadafalso, permanecia impassível, acima da multidão.
Nos seus lábios se franzia um diabólico sorriso de escárnio.
Mas eis que os gritos de milhares abafaram os prantos e lamentações do povo na praça.
Praguejando e blasfemando, cuspindo ódio boca afora, uma massa escura de homens, mulheres e crianças se aproxima, como uma avalanche.
Eram guiados por criaturas detestáveis, de rostos pálidos, narizes aduncos e insolentes olhos de rapina.
Com seu alento venenoso entorpeciam a atmosfera.
O obediente rebanho humano que os seguia gritava:
— Esquartejar! Esquartejar!
Os astutos guias se puseram frenéticos, erguendo os punhos cerrados e berrando:
— Abaixo a cruz! Fora a fé!
Abaixo a pátria, a honra e o dever!
Para o reinado do caos e da desordem!
Começou o nosso domínio.
Gritos, ruídos, e ensurdecedores aplausos soavam ao redor.
Nas mãos eram levadas tochas enegrecidas, e suas chamas de sangue ardiam como que querendo ascender ao céu.
Longe, muito longe, aonde somente alcançam os olhos, um clarão de chamas derramou-se, como o ferro fundido, sobre a terra, incendiando-a.

(4) Refere-se á Praça Vermelha N.T
(5) Gorro típico Russo. N.T
(6) Termo não identificado. N.T
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71891
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 05, 2016 8:59 pm

III

Havia berros frenéticos e raivosos; gargalhadas dementes dos possessos.
Tudo isso abafado por um ensurdecedor rugido.
Os rebeldes carregavam através da multidão sua vítima, por eles condenada à execução.
Pessoas famintas cercavam uma jovem de beleza majestosa e celestial.
Seu rosto era pálido como o de um morto. Nos seus grandes olhos cinzas,... calmos, dóceis e claros olhos eslavos se podia ler o tormento pelo que passava a alma.
O manto real de peles estava em farrapos, manchado, e mal cobria a esbelta figura, corpo maravilhoso, uma beleza tal que nem se quer as feridas sobre o seu corpo o podiam deformar.
O gorro felpudo mal se mantinha sobre a cabeça.
O vento fustigante suspendia no ar seus cabelos esplendidos.
As mãos fortes e esculturais, que davam a impressão de serem indeformáveis, estavam agora torcidas pelas cordas.
Tomada pelo demónio, a tropa, bramindo selvagemente, a carregou e a lançou ao cadafalso, onde estavam a jogar pedras e lama.
A grande atormentada caiu desmaiada, vertendo seu sangue no tablado, no qual era exposta à vergonha.
O carrasco impaciente levantava o machado e movendo-o sobre a cabeça saudava os bandidos vencedores com um grito triunfal.
Finalmente ela, A Rússia Santa em suas mãos!
Nesse momento tiravam o proveito máximo da situação:
xingando-a de todos os nomes, lançando-lhe, a corja de ladrões, que cercavam o cadafalso como chacais, ávidos por atingirem seus objectivos.


IV

De repente o som vibrante dos sinos invadiu o espaço.
O campanário de "Ivan o Grande" começou a tocar, e logo a seguir, trazendo-lhe eco, o sino do campanário de Moscou.
Um som de desalento e tristeza se espalhou sobre a cidade, tocando a alma, e, ao mesmo tempo, chamando todos aqueles de fé ortodoxa a saírem em defesa da condenada.
Esse som abalou aos que estavam reunidos ao redor do cadafalso.
Eles se lançaram em direcção à vítima com um ímpeto nunca antes visto, todos sem distinção, desde o servo miserável, que nada de seu possui, nem mesmo a vida, até o boiardo guerreiro.
Todas essas figuras do passado que abnegadamente, sem pedir nada em troca, amam sua pátria; que depois de defenderem seu valor com a própria vida, que depois de a banharem com seu sangue, cercavam agora essa moça e de joelhos beijavam seus ferimentos e seus pés.
"— Matuchkcf (7), tu és nossa querida.
O que fazer por ti?
O que te aconteceu?"
E lágrimas sinceras, amargas e desconsoladas caíram como gotas de fogo sobre a condenada.
No terraço vermelho surgiu um homem vestindo um kaftan(8) de seda e um sku(9) preto sobre a cabeça.
Fitou a multidão e com seu báculo desfechou um terrível golpe sobre o muro.
Sua voz forte encobriu o barulho que havia na praça e até mesmo o estrondo da tormenta.
— Por qual pobre estúpido se está fazendo tanto barulho?
Como se atreveram a me despertar de um sono secular?
Que pessoas são vocês?
Como ousaram violar minha tranquilidade?
O povo estremeceu, e, abrindo passagem entre a tropa amotinada, se atirou para trás ante a terrível sombra de João.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71891
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 05, 2016 8:59 pm

Um grito furioso saltou dos lábios do "Terrível Tzar".
Elevando seu báculo ele ameaçou os violadores.
— Onde estão os malditos que com costumes estranhos transgrediram o juramento e se uniram aos inimigos do cristianismo?
Aos meus sucessores eu deixei um reinado íntegro, forte e temível, e vocês, com malícia premeditada, para onde conduziram nossa Rússia?
Agora somente um rebelde permanecia em pé diante dele.
Com ousadia se recusava a ficar de joelhos e apressando o verdugo dizia:
— E então?! Não fique aí parado.
Faça o que tem que fazer!
Nós estamos esperando!
Ponha fim ao nosso ódio e que cada um receba sua parte do festim.
Com convulsão o rosto de João se contraiu.
O báculo de ferro começou a girar na sua mão e a voz do Tzar ressoou forte tal qual um sino.
— Como? Gente russa!
Eles se atrevem a pronunciar discursos infames e a servir os inimigos cruéis!
Por que se enfurecem vendedores afoitos do Cristo?
Assim como Judas vendeu Cristo, vocês, com suas línguas diabólicas, vendem a Rússia Santa e jogam suas glórias à vala do esquecimento.
Querem destrui-las igrejas, pisotear os ícones e bestializar os cristãos?
Oh, que espécie de depravados, pobres de espírito e desgraçados!
Vocês não metem medo, malditos, ao erguerem a mão contra sua mãe, sua terra pátria, a qual lhes deu de beber e comer e onde repousaram seus ossos.
"— Mágoa, mágoa do povo aos renegados engendradores do génio do mal!
Mas, se os vivos estão cegos e perderam a razão, eu - Tzar Ivan(10) - ordeno salvar para a pátria a alma daqueles que a engrandeceram e reunindo punhado por punhado de terra a transformaram num poderoso, imenso e rico reinado!
"— Venham todos que com suas mãos construíram a próspera terra russa e por ela derramaram seu sangue.
O sinal de alerta é o som dos sinos das igrejas ameaçadas.
Som que ecoa a abalar os seus monumentos fúnebres e a despertarem.
Reúnam-se todos! Nossa pátria está em perigo!
Precisamos de filhos fiéis e puros para lutar contra os seguidores de satanás!
E ele lançou seu báculo aos condenados que recuaram no meio da confusão.
Nesse instante se ouviu um ronco confuso.
Nuvens surgiam de todos os confins do horizonte formando sombras que voavam para o Kremlin.
Lá chegando, pousavam ao redor do tablado.
Entre elas se podiam ver antigos guerreiros que sob o comando de Dmitri Dorskoi haviam acabado com o jugo tártaro.
Combatentes destemidos do exército comandado por Minir e Pojarskii; polacos expulsos dos muros deste mesmo Kremlin, e incalculável multidão de camponeses, liderados por Susaninii.
Obscuros desconhecidos, porém heróis imortais, que pela terra natal deixaram a própria carne e os ossos nos campos de batalha da Europa e da Ásia.
Depois, ao lado de João, Pedro apareceu.
Sua figura magnífica despontou ameaçadora e cheia de indignação.
Atrás deles se estenderam suas gloriosas tropas guerreiras.
Cada vez mais e mais chegavam de todos os lados defensores do Império: Suvorov, Kutozov...
Heróis da Guerra Pátria e os inesquecíveis defensores de Sebastopol; Hakhimov, Kornilov, Jstominym e outros.
Sob o comando do "General do Bem" despontaram os caídos gloriosamente nos campos búlgaros, cuja espada, da mesma maneira que a de Svrastolav golpeou os portões de Bizância.
Por fim surgiram aqueles que banharam com seu sangue a longínqua Manchúria; até eles atenderam ao apelo e se levantaram de suas sepulturas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71891
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 05, 2016 8:59 pm

Diante dessa grandiosa e ameaçadora massa de grandes e valentes defensores da pátria, a gentalha malvada recuou.
Então um de seus líderes se manifestou.
Sua feição era parecida à de Judas.
Lágrimas de sangue escorriam de seu rosto, carregando atrás de si mágoa e ruína.
Impetuosamente saltou ao tablado e, agitando os braços, se pôs a berrar com ódio.
— Venham a mim, trabalhadores!
Não se deixem intimidar por contos e fábulas!
Por vocês! Por sua verdade, por sua liberdade lutamos nós!
Abaixo as superstições!
A verdadeira pátria - é o universo; o único Deus é o proveito; o único mandamento é a força!
Coroaremos o nosso feito e prescreveremos as leis.
E você, carrasco, faça o que é necessário:
corte o corpo desse monstro insaciável e dê um pedaço a cada um.
E assim avive a minha vingança.
A seguir, exaltando-se ao máximo, ele impeliu o carrasco a empunhar o machado.
Seus companheiros inflamavam o ambiente agitando tochas de desordem.
A matilha imunda repetia:
— Morte para ela! Morte!

(7) Forma carinhosa de tratamento minha cara, minha querida. N.T
(8) Antiga vestimenta masculina de origem persa - kaftan. N.T
(9) Pequeno gorro usado pelos monarcas da igreja ortodoxa. N.T
(10) Ivan João N.T


V

A multidão já estava certa que a desgraça ocorreria, quando repentinamente na noite escura, abrindo a penumbra sangrenta e o horizonte sombrio, brilhou um largo raio de clara luz.
Entre o carrasco e a vítima surgiu aquele que com seu peito expulsou da terra pátria suecos, alemães e lituanos.
Livrou os povos do tormento tártaro e pelo seu serviço fiel e devotado foi chamado o "Sol da Terra Russa".
Sua armadura brilhava e cintilava como a neve ao sol; uma larga auréola iluminava sua cabeça.
Depois de erguer sua espada de fogo, o Protector do Império cobriu a sofredora inocente com seu corpo luminoso como o relâmpago.
Seguindo-o despontaram de todos os lados figuras santas, tantas vezes admiradas nos livros de orações; mártires, ermitões e monges ascetas.
Eles cercaram a moça que jazia estendida no cadafalso e se puseram a lhe tratar os ferimentos.
A corja de fanáticos e traidores saiu em desesperada fuga para todas as direcções.
E então Aleksandr Nievskii elevou sua voz grandiosa:
— Nossa luta irmãos, é a luta da luz contra as trevas.
Em harmonia e com coragem, sigam adiante na luta pela salvação do povo e da fé.

§.§.§- O-canto-da-ave
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71891
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Narrativas Ocultas / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 4 de 4 Anterior  1, 2, 3, 4

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum