O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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Re: O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 06, 2016 10:25 am

Rindo ironicamente, completou:
- Ele vem se mobilizando muito para guiar essas ovelhas e tem que receber algum pelo seu trabalho, não é pastor?
- Não posso acreditar nisso! - exclamou Alcides.
- Tenho provas de tudo!
Caso o irmão queira confirmar! - insistiu Honório num grito.
- Eu mesmo faço a divisão do numerário - disse Alcides.
- Não sejas tão estúpido, Alcides - manifestou-se Monteiro.
Tu só entregas o dinheiro nas mãos deles e depois recebes uns trocos de volta e não verificas onde e quanto foi consumido.
Se tu queres ser cego, seja, mas, diante da realidade, não sejas burro!
- Não tenho mais motivos para ficar aqui - disse Honório.
Eu e Monteiro estamos abrindo uma nova igreja em outro bairro.
- Vou chamar a Força Pública!
Tenho conhecidos lá e tu serás preso! - gritou Freitas.
- Chame! Chame mesmo!
Assim tu, teus comparsas e cúmplices sereis presos comigo.
Haverá um belo escândalo público!
Só não te esqueças de que há vários soldados, um tenente e um capitão que são membros activos da tua igreja!
Eles são colaboradores e contribuintes assíduos com valores consideráveis que tu, em pessoa, desviaste!
Chame-os, vamos lá! Denuncie-me!
Virando-se para Alcides, que estava assombrado com tudo, Honório falou:
- Em poucos dias sairei da casa que me alugaste.
Outra já está sendo providenciada.
Quanto ao emprego... só irei lá amanhã para o acerto de contas.
Eu me demito.
Voltando-se aos demais explicou:
- A verdade sobre anjos e demónios é uma só:
todos nós temos uma alma ou espírito, sei lá, mas tenho certeza de que temos o direito de agirmos livremente como anjos ou demónios.
Ninguém aqui pode se considerar mais honesto do que eu que admito o que faço.
Se há demónios a me rodear, esses são vós que não sois dignos de se intitularem servidores do Senhor!
Honório deu-lhes as costas e Monteiro o seguiu.
Alcides, a princípio, revoltou-se por saber de toda a verdade, mas decidiu manter a calma e não se precipitar antes de ter mais esclarecimentos.
Freitas, envergonhado, chamou os demais membros que compunham a direcção e a contabilidade.
Todos confessaram os desvios das verbas ou materiais destinados à reforma da igreja para seus próprios benefícios.
Eles assumiram suas culpas e verdadeiro arrependimento prometendo ressarcir tudo o que haviam subtraído o mais breve possível, além de solicitarem o perdão de Deus junto com a promessa de que não mais repetiriam aquilo.
Apesar de contrariar-se, Alcides aceitou lembrando-se de que o perdão é o mais nobre sentimento recomendado pelo Evangelho de Jesus.
Assim foi feito.
Aqueles homens dedicaram-se inteiramente ao trabalho a que se propuseram de maneira humilde e honesta, ajudando de forma material e espiritual todos os membros daquela congregação, não mais se deixando levar pela cobiça de angariar algo para si.
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Re: O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 06, 2016 10:26 am

5 - CAMILA ESCOLHE CONFORTO E COMODIDADE

Num bairro próximo de onde já moravam, Honório e Monteiro alugaram pequenas casas e continuaram vizinhos.
Alugaram também um pequeno salão onde começaram sua nova igreja.
Guardavam consigo a tranquilidade de que nunca seriam denunciados pelo pastor Freitas ou por qualquer um dos outros, tendo em vista que ocultavam também grande segredo destes.
A pequena igreja, fundada por Honório e Monteiro, contava com a participação de alguns membros da igreja anterior que os seguiram por se identificarem com a pregação de Honório, sem desconfiarem do que havia ocorrido para que Honório se afastasse de Freitas.
Quando questionado sobre o assunto, Honório respondia:
- Em um reino não pode haver dois reis.
Eu recebi um aviso para dedicar-me inteiramente a Deus a fim de guiar Tuas ovelhas e assim estou fazendo.
Como o digníssimo pastor Freitas já tem seu rebanho formado, só me restou sair em busca das ovelhas que se desgarraram para trazê-las até Deus guiando-as no caminho do Senhor.
Honório era sagaz, ardiloso e em pouco tempo sua igreja mudou de um pequeno salão alugado para um grande salão emprestado, indefinidamente, por um dos fiéis.
Enquanto isso, outros doaram cadeiras e bancos.
Aos poucos até um microfone e algumas caixas de som, coisas raras na época, Honório recebeu como doação.
Incentivados por Honório durante as pregações, os fiéis doavam altas verbas a fim de adquirirem um terreno para a sede própria da igreja.
Não demorou muito e foi feita a aquisição do referido imóvel e junto com a compra, Honório e Monteiro omitiram que parte do valor usado foi destinado à compra de outro terreno bem próximo de onde seria a sede da igreja.
Essa aquisição ilícita teria a finalidade da construção de suas casas, uma ao lado da outra.
Contra sua própria vontade, Camila foi imposta a namorar um membro da igreja.
Era um compromisso arranjado por conveniência e determinado por seu pai.
O mesmo ocorreu com Vera, uma das gémeas.
Seu pai providenciou sua transferência de escola sem sua prévia opinião.
Além disso, obrigava-a frequentar e seguir uma doutrina religiosa com a qual a jovem não concordava e ainda namorar quem ela não queria.
Não! Tudo isso era excessivamente tirano.
Camila revoltou-se por esse e outros motivos.
Por essa razão ela não tinha o menor remorso ao sair às escondidas para namorar outro rapaz e passear com algumas poucas amigas que ainda tinha.
Em pouco tempo Honório terminou a construção de sua casa e estabilizou-se nela.
Nessa mesma época a sede da igreja também ficou pronta.
O novo templo religioso era razoavelmente confortável, havia mais espaço e o número de fiéis passou a aumentar consideravelmente.
Quando não estava fazendo pregações na igreja, Honório dava-se ao trabalho de visitar os fiéis em suas casas e até nos hospitais para fazê-los perceber sua dedicação, seu interesse e sua preocupação para com os membros da igreja.
Pouco tempo restava-lhe para dedicar-se à mulher e os filhos.
Entretanto sabia que sua família encontrava-se financeiramente estável, vivendo com muito conforto e bem amparados.
Camila era a mais vaidosa e exigente.
Apesar de a televisão ser proibida por aquela doutrina religiosa, Camila tanto reclamou e impôs que pai comprou uma e a instalou em um quarto destinado somente para essa finalidade.
Esse quarto seria trancado, pois ninguém poderia saber que eles tinham uma televisão.
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Re: O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 06, 2016 10:26 am

Mesmo assim para a jovem nada estava bom.
Ela queria liberdade.
Certo dia insistiu em conversar com seu pai a respeito de sua presença obrigatória na igreja e sobre seu namoro.
Afinal, ela não gostava do rapaz e não queria mais ostentar aquela farsa.
Tanto teimou e protestou com modos exigentes alteando o volume da voz que Honório, perdendo a paciência, deu-lhe uma surra forte e marcas roxas espalharam-se por todo o corpo da moça.
Camila não pensou muito.
Na manhã seguinte, na primeira oportunidade, apoderou-se de algumas roupas e até de algum dinheiro e saiu de casa.
Sem rumo e ainda revoltada, foi para a casa de seu tio Alfredo.
Ao recebê-la, Dora não sabia como agir.
Não poderia fechar-lhe a porta nem mesmo incentivá-la e apoiar a sobrinha naquela decisão.
Aos prantos, Camila relatava tudo para a tia:
- Ele me bateu, tia!
Me espancou!
Eu não volto mais para aquela casa, nunca mais!
- Camila, minha filha - dizia Dora -, a situação é recente.
Tu estás nervosa.
Não sabes o que estás dizendo.
Quando te acalmares...
- Não volto, tia!
Não volto mais lá!
Quando se fez noite e Alfredo chegou, surpreendeu-se com a situação e, pensando na preocupação de Honório e Clara, imaginou que os pais não sabiam onde procurar a filha, ele decidiu, na mesma hora, ir até a casa do irmão.
Ao ser atendido por Honório ao portão daquela bela residência, Alfredo, com satisfação, cumprimentou-o.
- Honório, meu irmão, tu estás bem?
- O que desejas? - perguntou Honório friamente.
- Desculpe-me se o incomodo, mas gostaria de falar-te sobre Camila.
Poderíamos conversar? - expressou-se Alfredo recatado diante da indiferença do irmão.
- Eu deduzi que ela te havia procurado.
Não temos nada a conversar.
- Mas Honório, é tua filha!
- Será minha filha somente diante do perdão que há de pedir-me.
Do contrário, hoje ela deixou de ser.
Depois de pequena pausa, Honório perguntou:
- Era só isso?
Alfredo ficou perplexo, pasmo de espanto.
Diante disso, ele não teve alternativa e desfechou:
- Quero que tu saibas que Camila está em minha casa e, é claro, será muito bem tratada e orientada.
Caso tu ou Clara queiram vê-la, minha casa está de portas abertas.
- Sou-te grato.
No entanto, não posso dizer-te o mesmo.
Rezarei por ti, para que vejas a luz antes que se apague.
Porém minha igreja estará de portas abertas caso queira o perdão.
- Obrigado, meu irmão.
Alfredo ficou decepcionado com a frieza do irmão.
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Re: O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 06, 2016 10:26 am

E por conta de tudo, Camila passou a morar na casa de Alfredo e Dora.
Com o passar dos dias, ela arrumou um emprego como auxiliar de crediário numa loja de grande porte financeiro.
Parte do que recebia como salário ela dava à tia a fim de auxiliar com as despesas da casa e a outra parte ficava para si.
Passou a frequentar o Centro Espírita junto com seus tios e primos, pois acreditava identificar-se com a Doutrina Espírita que quase nada exigia dela, somente orientava.
A casa de Alfredo era humilde e com muito custo e sacrifício era mantido o estudo dos filhos.
Era comum Dora fazer faxina em casa de família para ajudar com as despesas.
Dirceu, o filho mais velho do casal, trabalhava e com seu salário conseguia pagar sua a própria faculdade e parte da faculdade do irmão.
Alfredo arcava, com dificuldade, o restante do pagamento da faculdade de Júlio, filho mais novo, e o que sobrava do que recebia era exacto para as despesas da casa.
Dirceu estava no último ano da faculdade de Direito e Júlio no terceiro ano de Medicina.
Muitas vezes, Júlio enfraquecia e queria largar os estudos.
Sentia-se inútil uma vez que o estudo roubava-lhe todo o tempo e ele não podia trabalhar para ajudar nas despesas.
Porém Alfredo não admitia.
Se Júlio quisesse deixar a faculdade por não gostar do curso, seria justo, mas por dinheiro, ele nunca iria deixar.
Por essa razão, o pai fazia muitas horas-extras sem que o filho soubesse.
Mais de um ano depois, Alfredo encontrava-se num ônibus que colidiu com um caminhão.
No terrível acidente, morreram cinco pessoas e Alfredo foi uma delas.
Dora sofreu muito com a separação.
Entretanto sua evolução espiritual serviu de muita sustentação.
Sabendo que essa experiência terrena é passageira e que a separação seria temporária, conseguiu se resignar, mas não deixou de chorar e experimentar imensa dor.
Com a falta de Alfredo, as dificuldades financeiras aumentavam.
A pensão, que recebia como esposa era pouca para pagar a faculdade de Júlio.
Dirceu, recém-formado, não ganhava o suficiente para ajudar o irmão.
- Não, Júlio - dizia Dora firmemente -, tu não largarás a faculdade.
- Mãe, milagres não existem - justificava-se Júlio.
Não posso estudar sem pagar.
Não é justo a senhora se matar de tanto, fazer faxina, lavar e passar roupas para os outros para que eu estude.
Vamos dizer a verdade, com todo respeito: mãe, nem que a senhora fizesse isso todos os dias da semana, não conseguiria pagar meus estudos.
A senhora sabe disso.
- Tem que haver um jeito, filho.
Tem que haver.
Camila ouvindo a conversa não se manifestou.
Havia tempos percebia que tudo ali estava difícil.
Os alimentos já não eram tão fartos como antes e mal tinham uma porção de arroz para dividir no jantar.
Ela trabalhava, mas não achava justo entregar seu pagamento nas mãos de Júlio só para ele estudar e ela ficar sem nada.
Tinha uma pequena economia que guardara desde quando começou a trabalhar, mas não podia desfazer-se dela, o futuro era incerto e já começava a ficar preocupada.
Dora, em seu desespero de mãe, sem ter a quem recorrer, procurou por seu cunhado Honório.
Afinal, Júlio era seu sobrinho e era um caso de necessidade.
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Re: O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 06, 2016 10:26 am

- Procura-me para pagar a faculdade de Júlio?! - exclamou Honório.
Ficastes louca, mulher?!
Hoje nenhum dos meus filhos se dá ao luxo de estudar em uma faculdade!
- Se não fosse pela falta de Alfredo, eu não recorreria a ti, Honório.
Mas tenho pena de meu filho.
Deixá-lo parar com um estudo tão nobre e útil à humanidade na metade de seu curso...
Ele é estudioso, devotado mesmo...
Interrompendo-a bruscamente, Honório desfechou:
- Peça dinheiro ao satanás.
Não é ele que se comunica através de ti?
Não é o espírito do demónio em que acreditas?
Então peça a ele.
Tenho causas mais importantes para me preocupar.
Sou pastor de Deus e é aos filhos Dele que devo ajudar.
Virando as costas, Honório entrou e deixou Dora parada junto ao largo e majestoso portão de sua residência.
Voltando para casa, a pobre mulher lamentou a atitude de Honório.
Entretanto nem em pensamento protestou ou se arrependeu do favor que já haviam prestado ao cunhado no passado.
Ela orou e pediu a Deus uma solução, a melhor possível e que sua alma estivesse forte o bastante para aceitar e suportar com paciência o aprendizado daquela prova.
Não era fácil para uma mãe devotada ver tanto empenho e sacrifício de um filho cair por terra.
Naquela mesma noite Camila a procurou.
- Tia, sei que a situação é difícil.
Nada está dando certo para a senhora desde que o tio Alfredo morreu.
Não quero ser mais um estorvo, por isso, amanhã, vou deixar esta casa.
- De maneira alguma, Camila!
Não posso permitir que tu saias daqui para ir sabe Deus pra aonde.
O pouco que temos também é teu.
Nunca nos importunamos com tua presença.
Não vou permitir isso.
- Tia, já decidi.
Voltarei para a casa do meu pai.
Dora calou-se incrédula e Camila continuou:
- Sabe o que é, estou cansada de importunar, além de tudo aqui está muito difícil.
- Filha, se lamentas da falta de conforto e fartura, não estamos te negando tal tratamento.
Dividimos o que temos contigo e ninguém te nega nada aqui.
- Não é isso, ou melhor, creio que terão mais se eu sair daqui.
Dora não disse mais nada sentindo que a sobrinha não conseguia viver sem conforto.
Abraçou e beijou-a com carinho, afirmando que sempre estaria ali e disposta a ajudá-la em qualquer coisa.
Na manhã seguinte Camila procurou pelo pai.
Rotulando no rosto um falso arrependimento, ajoelhou-se diante dele e pediu perdão por tudo.
Naquela noite a igreja de Honório pôs-se em festa.
O tema foi a volta do "Filho pródigo".
Uma semana depois, Dirceu, actuando como advogado, acabara de ganhar uma causa no fórum e estava sendo cumprimentado por alguns colegas.
Apesar de sua bela actuação, ele não conseguia disfarçar uma nítida preocupação, sem conseguir alegrar-se.
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Re: O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 10:13 am

Um juiz de direito, muito amigável, aproximou-se dele e o interpelou inesperadamente:
- O que há contigo, caro rapaz?
Não estás satisfeito?!
- Sim meritíssimo, claro que sim.
- O que te aflige?
Sem titubear, Dirceu desabafou e contou tudo sobre a morte de seu pai e o prejuízo que isso causou aos estudos de seu irmão.
Impressionado e comovido, o juiz chamou-o até seu gabinete para que conversassem mais à vontade.
Depois de uma hora.
Saiu do fórum directo para casa.
Ao chegar, viu que Júlio preenchia a documentação para trancar a matrícula da faculdade.
Aproximou-se, tomou-lhe das mãos os papéis, olhou-os rapidamente e os rasgou.
- Tu ficaste louco?! - perguntou Júlio estupefacto com a atitude do irmão.
Dirceu, sorrindo largamente, respondeu:
- Tu já ouviste falar em bolsa de estudo?
- O que tem isso a ver comigo?
- Acabaste de ganhar uma até o último ano de teu curso! - gritou, abraçando-o e saltitando como um menino.
- O quê?! Como?!
Já tentei por todos os meios conseguir uma bolsa, mas não teve jeito! - dizia o irmão sem entender nada.
- Resumirei. Conversando com um juiz de direito sobre teu caso, depois de três ou quatro telefonemas, ele te conseguiu a tão sonhada bolsa!
Do outro cómodo da casa, a mãe ouviu a conversa e se aproximou quase incrédula.
Dora, Júlio e Dirceu abraçaram-se de felicidade.
Suas lágrimas se misturaram.
Não conseguiam conter a imensa alegria que lhes invadiu a alma.
Na casa de Honório e Clara, Camila se satisfazia no conforto e na fartura, coisas das quais sentiu muita saudade.
Ela não precisava mais trabalhar nem levantar tão cedo para pegar uma condução lotada.
Depois de tão sofrida experiência, começou a acreditar ou forçar-se a crer que seu pai estava certo.
Às vezes, a jovem pensava em seu tio Alfredo.
Ele tanto acreditou no Espiritismo e em espíritos, no entanto por que nenhum espírito o avisou do acidente fazendo-o escapar da tragédia?
Seu tio sempre viveu na pobreza e defendendo o Espiritismo.
Onde se escondiam os amigos espíritas agora que sua tia estava quase na miséria?
Seu primo deixaria a faculdade por falta de dinheiro.
Como se explica isso?
Por outro lado seu pai, que tanto defendia o Velho Testamento e o Evangelho, possuía mais dinheiro, conforto e fartura.
Cabendo salientar que somente depois de começar a fazer isso, a vida dele, bem como a de toda família, mudou para melhor.
Ele tinha razão em não concordar com essa história de cultivar estima aos espíritos.
Veja só ela.
Estaria também na miséria se continuasse naquela casa.
Teria dado todo o dinheiro que guardou com muito sacrifício e talvez até entregasse tudo o que ganhava para sustentar a faculdade de seu primo.
Se o Espiritismo desse algum lucro, aquele pessoal não passaria dificuldade.
Como fora tola. Seu pai estava certo.
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Re: O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 10:13 am

Sinceramente sabia o que era bom para ela.
Realmente, a bênção de Deus encontrava-se no que ele defendia, no que pregava.
Foi preciso que trabalhasse, passasse por necessidades e desconfortos para saber valorizar as graças de Deus.
Depois de sua volta para casa e sua reintegração na igreja, Camila observou que Honório ficou mais atencioso com ela.
Agora ele a inteirava sobre alguns factos e detalhes da igreja e de seus planos para o futuro.
A jovem passou a entendê-lo melhor e partilhar com as tarefas da igreja.
Fingia ignorar a subtracção do numerário doado para fins evangélicos usados para o conforto e bem-estar de sua família.
Quando, vez ou outra, questionava-se em pensamento sobre o facto de se acharem bem estabelecidos diante de um governo de opressão, Camila procurava desviar suas ideias acreditando ser induzida pelo demónio a pensar daquela forma, levantando suspeitas infundadas e injustas sobre seu próprio pai.
Honório e Monteiro estavam às vésperas de inaugurar sua segunda igreja, quando Monteiro, aflito, procurou pelo sócio:
- Honório! Honório! - gritou Monteiro desesperado, entrando às pressas no escritório de ambos.
- Acalme-se, homem! - pediu Honório.
O que te aflige?!
- É minha filha mais velha, a Telma, tu não imaginas...
Sentando-se em uma cadeira, Monteiro passou as mãos pelos cabelos e aflito continuou:
- soube agora que a menina engravidou.
- Isso jamais poderia ter acontecido! - exclamou Honório enfurecido.
Como pode ser uma coisa dessa?!
A filha de um pastor!...
O que dirão?!
Que a moral e os bons princípios não são mantidos dentro de nossa própria casa!
Que não damos bons exemplos!
- O que faço agora, Honório?!
- Mande tirar, é claro! - respondeu Honório de imediato.
- Mas!...
- Mas o quê?! - gritou Honório.
Tu queres ser chamado de quê?!
Acha que continuarão te respeitando depois que vier ao conhecimento de todos?!
- Tenho medo por ela.
É uma menina ainda e... muito nova...
Vai completar dezassete...
Se fosse tão nova assim, não teria engravidado!
Sabes quem é o pai pelo menos?!
- Um garoto da escola.
Colega da mesma classe.
Deve ter a mesma idade.
- Por isso tirei minhas filhas daquela escola!
Pensando por poucos segundos, planeou:
- Vejamos... tu terás que levá-la para outro lugar para fazer esse tipo de serviço!
Não podemos nos arriscar!
Ninguém mais deve saber.
Tenho alguns contactos em São Paulo e tu a levarás lá para fazer isso! Entendeu?!
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Re: O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 10:13 am

Monteiro concordou imediatamente.
Aquilo era uma imensurável vergonha para um pai, principalmente, um pai evangélico.
Por essa razão, tudo foi realizado com o mais rigoroso sigilo.
As igrejas de Honório e Monteiro, cada dia que passava, estavam mais repletas de seguidores que os idolatravam.
Honório era considerado pelos fiéis um homem culto, leal aos princípios que pregava e, acima de tudo, muito honrado.
Nunca preocupou-se em saber como estava passando Dora, a viúva de seu irmão que tanto o ajudou, nem mesmo procurava saber sobre sua própria mãe e irmãs.
Camila, por sua vez, esforçava-se para esquecer dos dias em que viveu junto aos pecadores para fugir das imposições de seu pai.
E sem maiores problemas ou preocupações, passou a saciar-se numa vida tranquila e muito cómoda.
Dora, agora mais do que nunca se empenhava na divulgação e no entendimento do evangelho à Luz do Espiritismo juntamente com seus filhos Júlio, que continuava na faculdade de Medicina e Dirceu, que decidiu não mais militar na carreira de advogado e estava associando-se na abertura de uma imobiliária.
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Re: O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 10:13 am

6 - DIANTE DA VERDADEIRA VIDA

Alfredo desencarnado já há alguns anos, desempenhava importantes tarefas na colónia espiritual onde vivia e também, como não poderia deixar de ser, visitava seu lar terreno com certa frequência auxiliando os trabalhos espirituais ali realizados.
Na colónia, foi informado sobre o desencarne de sua sobrinha mais velha, Camila.
Ficou satisfeito por saber que ela havia sido envolvida e levada com carinho para um Posto de Socorro próximo da colónia onde ele estava.
Depois de argumentar com seus superiores, recebeu autorização para ir em visita ao Posto de Socorro recepcionar Camila quando ela despertasse a fim de ajudar seu entendimento e sua aceitação sobre suas novas condições no plano espiritual.
O tio sabia que a sobrinha tivera uma educação religiosa rígida e inflexível.
Apesar das explicações e entendimentos que ele e Dora procuraram passar-lhe sobre Espiritismo, sabia que não seria fácil fazê-la acreditar tão rapidamente que o espírito passa por inúmeras experiências, repara seus erros, aprende e vive evoluindo, não ficando tão somente confinado ao céu ou ao inferno, como Camila passou a acreditar piamente.
Meses depois do desencarne da sobrinha, foi até o Posto onde ela se encontrava.
Pondo-se em conversação com o dirigente do lugar, seu velho conhecido, Alfredo dizia:
- Caro Inácio, eu creio que Camila vai entender e aceitar.
Ela é inteligente e logo perceberá que está em um bom lugar e se sentirá entre amigos.
- Sim Alfredo.
Ela vai perceber que está em um bom lugar.
Porém temo pelo seu entendimento.
Temos de admitir que Camila viveu nos últimos anos uma vida religiosa rigorosa e fanática.
Como sabes, o fanatismo nos leva até mesmo a auto-obsessão, a um flagelo físico e mental desnecessário e a um grande desequilíbrio espiritual.
- Sei que és muito sensato e prevenido, Inácio, mas sempre me dei muito bem com Camila.
Acredito que ela vai me ouvir com atenção e logo aceitará sua nova condição.
Nós conversávamos muito quando encarnados.
- Prezado Alfredo, não quero de forma alguma te contrariar.
Entretanto devemos atentar que, quando em experiência na vida terrena, o amigo foi parente de sangue da querida Camila.
O que o leva a ter imensa afeição pela amada sobrinha.
Isso não é errado.
No entanto, com o teu conhecimento, sabes que és tu quem deseja ardentemente que ela aceite a situação presente e talvez isso, no momento, seja difícil.
Antes desse último reencarne, Camila aprendeu muito no plano espiritual.
Como sabemos, ela sofreu demasiadamente após o desencarne como Samara e passou por terríveis experiências no Umbral.
Resgatada por elevar os pensamentos, abraçou as lições com muito amor e dedicação.
Não creio que todo esse aprendizado possa se perder agora.
O amigo Alfredo não quer perder as esperanças.
Porém deve alertar-se para o facto de que todo o bom aprendizado que demonstrou ter abraçado com imensa dedicação na espiritualidade, e até as terríveis experiências nas tristes caminhadas pelo Umbral, ela, sozinha, colocou a perder.
Isso ocorreu a partir do momento em que não atentou à suas mais sublimes intuições a fim de almejar a verdade e seguir o bom caminho.
Não te deixes enganar pela pouca idade terrena.
Camila estava madura o suficiente para decidir o que queria ou no que acreditar.
No entanto ela não hesitou e escolheu o que era mais cómodo e eficiente para o seu próprio bem-estar.
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Re: O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 10:14 am

Ela nunca questionou o pai sobre suas atitudes, sobre a verdadeira fonte que lhes servia de subsistência e enorme conforto.
Nunca encarou suas reflexões ou tentou investigar seus próprios pensamentos, analisando sobre o certo e o errado.
Mesmo possuindo conhecimento e preparo espiritual suficientes para isso, preferiu ignorar suas dúvidas e incertezas, desviando seus pensamentos dos factos que presenciava para disfarçar a realidade e viver de fantasias para seu bem-estar não ser abalado.
O que agrava ainda mais sua situação é o facto de que ela, no pouco tempo que conviveu contigo e tua família, teve a oportunidade de rever os ensinamentos Cristãos sob a Luz do Espiritismo.
Entendeu sobre a Lei de Causa e Efeito e experimentou os ensinamentos evangélicos.
Fora isso, viveu o teu exemplo de caridade e humildade, exemplo este que, cabe salientar, foi em benefício dela, de seus pais e de seus irmãos.
No entanto, quando ela poderia ajudar, mesmo com pequena participação, Camila negou-se, repetindo o erro do passado.
Fez imenso esforço para convencer-se de que Deus demonstra suas bênçãos através do bem-estar e do conforto em que vivem algumas pessoas.
Nós, espíritas, sabemos que isso não condiz com a verdade.
Quanto maior o valor em dinheiro, maior será a prova, maior será a expiação e maior poderá ser o arrependimento.
Jesus, nosso Irmão Maior, já alertou:
"Será mais fácil um camelo passar por uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus."
Camelo era o nome dado, na região de Jerusalém, a uma corda muito grossa, feita de pelagem da crina e rabo do animal:
camelo, e como sabemos, uma agulha possui um orifício pequeno demais para que uma corda o atravesse.
- Com isso o amigo Inácio quer dizer quê?...
- Quero dizer que não será fácil o esclarecimento e a aceitação de Camila.
- Vais me deixar ter com ela?
- Claro! Sem dúvida.
Não quis, dizendo isso, insinuar uma negativa à sua recepção.
Por experiência, só estou avisando-te.
Não será fácil.
Devemos sim é orar muito por seu entendimento, pois, como te falei, temo por suas condições espirituais caso se negue a aceitar a verdadeira realidade que se desvendará, deixando por terra todos os seus mitos e ilusões.
Será um momento de grande conflito íntimo.
O caro amigo sabe que não podemos intervir por ela.
Não podemos prendê-la.
Se Camila está aqui, se foi atendida em seu momento de transição, é porque teve méritos para isso, teve dignidade suficiente a fim de não ser abandonada e ficar vagando.
Esses valores pessoais são independentes de quaisquer graus de parentesco adquirido durante a vida corpórea.
Entretanto não temos como impedi-la.
Lembre-se do livre-arbítrio, que é o direito de escolha através da vontade própria.
Com o olhar indefinido e o semblante preocupado, Alfredo concordou.
- Eu compreendo, caro Inácio, porém quero empenhar-me ao máximo para auxiliar Camila em sua evolução, em seu entendimento.
- Nós nos empenharemos, meu amigo - disse Inácio espalmando com firmeza o ombro de Alfredo.
Daremos todo o apoio e toda a força necessária.
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Re: O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 10:14 am

- Fico-te imensamente grato.
- Não há pelo que me agradecer.
Agradeça ao Pai por nos dar essa oportunidade de tarefa em nome do Cristo.
Sentindo a preocupação de Alfredo, Inácio começou a narrar seus planos para animá-lo:
- No momento, tua amada sobrinha está em uma enfermaria junto com outras tantas irmãs que se encontram em sono profundo, como ela, depois do desencarne.
Se Camila não foi uma criatura má, o bem ela não praticou.
Não há regalias ou tratamentos especiais a alguém só pelo facto deste ter esse ou aquele parente que, quando encarnado, praticou boas acções, caridade ou agiu correctamente.
Essas virtudes são individuais.
Os méritos, assim como os débitos, só a ela pertencem.
Quando Camila estiver próxima de despertar, nós a tiraremos da enfermaria e a levaremos a um quarto individual para não formar opiniões precipitadas sobre suas condições ou sobre o lugar.
Logicamente não se lembrará imediatamente de tudo.
Nós a envolveremos com fluidos calmantes. Em seguida a faremos conhecer este lugar para que ela sinta as vibrações aqui existentes.
Além de se beneficiar, experimentará impressões boas e agradáveis.
Tudo isso antes que tenha referências sobre o seu desencarne.
Depois conversaremos e daremos todas as explicações necessárias, com tua ajuda, é claro.
Alfredo animou-se um pouco mais, embora ainda estivesse temeroso.
Ao despertar, Camila pensou estar em um hospital.
O quarto onde ela se encontrava não era muito grande, porém muito bem iluminado e de mobília muito simples.
Após suspirar profundamente e sentindo-se confusa, ela olhou querendo reconhecer o local.
Procurou lembrar-se do que havia ocorrido.
Examinou a janela coberta por suaves cortinas de renda branca tentando, parcialmente, barrar a luz do sol que teimava penetrar através delas.
Num canto do quarto, havia uma pequena mesa onde se depositava uma jarra de vidro transparente cheia com água e ao lado um copo.
Existia também um vaso solitário com uma flor semelhante a uma margarida.
Este pequeno quarto possuía duas portas, Camila ficou observando-as e desejando que entrasse alguém por uma delas.
Experimentou sentar no leito, mas sentiu-se tonta desistindo logo na primeira tentativa.
Esfregou o rosto com as mãos, buscando animar-se mais.
Porém algo estava diferente.
Sentia como se a textura de sua pele fosse mais subtil e achou isso engraçado.
Pensando encontrar-se em um hospital, procurou por uma campainha na cabeceira do leito, pois em todo leito hospitalar há uma.
Foi quando uma das portas se abriu vagarosamente e entrou uma senhora sorridente, de aparência amável e gestos delicados.
Camila não a conhecia.
A senhora era de estatura baixa e aparentava ter uns cinquenta anos de idade.
Sorridente, ela aproximou-se do leito e disse:
- Olá, meu bem! Sei como se sente.
Mas em breve irá recuperar suas forças e ânimo.
- Onde estou?
Que lugar é esse? - perguntou ainda confusa.
- Este é um Posto de Socorro. - respondeu a senhora amavelmente.
Fique tranquila que em breve tu terás esclarecimento sobre tudo.
Ainda sentia-se tonta, porém com muito esforço e a ajuda daquela senhora conseguiu sentar-se.
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Re: O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 10:14 am

Foi aí que indagou em pensamento:
- Como é meu nome?
Quem sou eu?
De onde vim?
A bondosa senhora virou-se e colocando água no copo, foi em sua direcção dizendo:
- Beba um pouco, é água.
Segurando o copo com ambas as mãos, pois temia deixá-lo cair, levou-o à boca e passou a beber pequenos goles.
Suas mãos estavam trémulas e nada havia que pudesse fazer para impedir tal reacção involuntária.
Sentia um torpor e não se lembrava de nada.
Até aquele momento não conseguia, sequer, recordar o próprio nome.
A amável senhora, percebendo os pensamentos que a estavam deixando nervosa e angustiada, pois o medo e a dúvida já lhe tomavam conta, explicou:
- Camila, desculpe por não me apresentar, meu nome é Aurora.
Não precisas te preocupar, estás em um bom lugar e em breve tudo vai se esclarecer em tua própria mente.
Não te precipites.
Tu sempre acreditaste em Deus, não é?
Pois bem, agora é hora de ter muita fé e confiar em nosso Criador, aguardando com tranquilidade tudo o que Ele nos reservou.
- Aguardar o quê?
Do que a senhora está falando?
Eu não me sinto muito bem.
Estou tonta e, há um minuto, não recordava meu próprio nome.
O que me aconteceu?!
Camila fez uma avalanche de perguntas à senhora, sem dar uma pequena pausa para as
Durante todo o tempo, Aurora sorria tranquilamente, o que a deixava, ainda mais, com o semblante generoso.
- Acalma-te, meu bem.
Tu estiveste dormindo por muito tempo.
É normal que te sintas confusa.
Pessoas que se encontram em estado semelhante ao teu podem esquecer temporariamente das coisas.
Em breve tua memória voltará e estarás mais lúcida do que nunca.
- Dormindo?! - indagou Camila.
Eu dormindo por muito tempo?!
Como isso aconteceu?!
- Espere, Camila. Logo receberás uma visita.
É alguém que não vês há muito tempo e ficou feliz em saber que estás aqui entre nós.
Mas antes que ele chegue, se quiseres, ali naquela porta, há um banheiro onde poderás te lavar e, no armário, encontrarás roupas de teu agrado.
Sorrindo delicadamente, Aurora brincou:
- Não vais querer receber visitas com esse camisolão de hospital, vais?
- Eu me sinto fraca.
- Não. Não estás fraca - respondeu com firmeza.
Em seguida observou com doce carinho:
- Tu estás te restabelecendo e à medida que desejares reagir e sentires-te forte, estarás revigorada e todo esse mal estar vai passar, certo?
Mesmo se achando fraca, concordou.
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Re: O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 10:14 am

Foi então que Aurora aumentou o volume da voz com ênfase e alegria, dando energia e ânimo à Camila:
- Vamos, meu bem! Vamos logo!
Escolhe uma roupa bonita, lava-te, penteia teus cabelos e arruma-te!
Lá fora há um sol maravilhoso a tua espera e poderás aproveitar o final da tarde no belo jardim que há a tua disposição.
- Tenho medo de cair - temeu Camila.
- Tu não vais cair.
Com a ajuda da senhora, Camila levantou-se e ficou em pé.
Notou seus pés adormecidos.
Aliás todo seu corpo parecia adormecido.
- Aurora - perguntou não conseguindo esperar muito tempo para elucidar os factos -, o que eu estou fazendo aqui?
Por que me sinto tonta embora não tenha nenhum machucado aparente? Sinto-me mal.
- Mal? Quem disse que tu estás mal?
- Eu estou dizendo - insistiu Camila.
- Meu bem - tornou Aurora paciente -, esteve dormindo por algum tempo.
Acordou poucas vezes nesse último mês e voltou a dormir.
Só que não se lembra.
- Acordei algumas vezes nesse último mês?!
Do que estás falando?!
A mulher sorriu com ternura e respondeu:
- Tu estás em um Posto de Socorro.
Este é um bom lugar.
Daqui a pouco terás todas as informações que quiseres e as terá por ti mesma.
Agora vamos, tens de te arrumar para receberes uma visita.
Ele já está chegando.
- Quem é?
- Um parente teu.
- Um parente! Espera aí!
Quem são meus parentes e onde estão?
Se é um hospital, onde está minha família?
Eu não me lembro da minha família.
Não consigo recordar de ninguém.
Estou com amnésia!
- Dê o nome que quiseres ao teu esquecimento.
Mas eu te garanto, isso já vai passar. Acalma-te.
Camila contentou-se temporariamente.
Ela banhou-se, penteou os cabelos e escolheu uma roupa de seu agrado.
Ao sair da toalete, sentou-se na cadeira próxima à pequena mesa.
Sentia-se exausta.
Arrumar-se sozinha parecia ter-lhe exigido grande esforço.
Aurora havia saído e não retornara até aquele momento.
Foi então que levantou-se, caminhou até a porta e a abriu deparando-se com um enorme corredor onde havia várias portas que pareciam ser de quartos iguais ao seu.
No final desse corredor, surgiu uma moça trazendo uma bandeja.
A jovem se aproximou e parou frente a ela dizendo amistosamente:
- Boa tarde. Tudo bem?
- Sim. Obrigada.
Quando Camila percebeu que a moça desejava entrar ali, recuou dando-lhe passagem.
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Re: O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 10:14 am

Dentro do quarto ela se apresentou:
- Meu nome é Lara.
- O que faz aqui, Lara?
- Eu trabalho neste Posto de Socorro.
Tirou a tampa da bandeja, chamando-lhe a atenção para o que trazia:
- Veja, Camila, que frutas lindas!
São especialmente para tu saboreares.
Creio que irás adorá-las, são deverasmente deliciosas!
- De facto são lindas! - concordou Camila.
- Saboreia. Tenho certeza de que vai gostar.
Camila aproximou-se da mesa e pegou uma pêra, observando:
- Sempre gostei muito de pêra.
- Viu só! Já lembraste que gosta de pêra.
Camila sorriu.
Ao prová-la, sentiu alguma coisa especial em seu sabor.
Nunca havia experimentado fruta como aquela.
Apesar do gosto ser o mesmo, existia algo diferente em seu impressionante paladar, em sua essência que não sabia explicar.
- Dê-me licença. Tenho outros para servir.
Daqui a pouco Aurora vai voltar para levá-la a um passeio.
Foi um prazer enorme conhecê-la.
- Obrigada, Lara. Muito obrigada.
- Ora! Não por isso. Até mais.
Lara se foi e um imenso vazio se fez nos sentimentos de Camila.
Ao acabar de comer a pêra, resolveu saborear uma nectarina que lhe pareceu deliciosa.
Após bater suavemente à porta, Aurora entrou.
- Vejo que estás te alimentando! Isso é bom.
Não quero te interromper, mas quando acabar vamos dar uma volta para que possas conhecer este local enquanto o nosso astro maior está presente no céu límpido e de um azul esplêndido!
- Se quiseres - disse Camila -, estou pronta.
Entretanto me sinto fraca.
Não sei se poderei andar muito.
- Isso não é problema, veja.
Abrindo a porta, Aurora mostrou uma cadeira de rodas que a esperava do lado de fora do quarto.
- Para mim?! - surpreendeu-se Camila.
- Claro. Quanto mais tempo ficamos presos entre paredes e deitados em camas, maior é o desânimo que nos assola.
Sei que precisas sair.
Lá fora há um lindo jardim a tua espera.
Um pouco constrangida, por achar-se um estorvo, Camila aceitou a cadeira de rodas.
Aurora, animada, pôs-se a empurrá-la corredor a fora.
Passaram por corredores e saguões até que chegaram a um imenso jardim.
Seu gramado era de um verde inigualável parecendo ser aveludado.
Seus canteiros ornamentavam lindas flores que nunca vira antes.
Havia rosas e margaridas também.
Ao longe, podiam-se ver magníficas árvores semelhantes a eucaliptos gigantescos.
O sol realmente estava radiante.
Camila nunca havia observado um entardecer tão lindo.
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Re: O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 10:15 am

Os pássaros, percebendo a aproximação do crepúsculo, faziam suas revoadas encenando um lindo balé aéreo.
Ela ficou vislumbrada com tudo e, por alguns minutos, esqueceu suas dúvidas e curiosidades.
A certa distância ela pôde observar outras pessoas que se encontravam por ali.
Uns pareciam apenas passear, admirando a bela natureza; outros, sentados em bancos de jardins, apreciavam um bom livro; outros, ainda, somente andavam de um lado para outro, parecendo trabalhadores do local.
Depois de longo tempo, quando o sol quase se punha, Aurora interrompeu sua apreciação perguntando:
- Gostou do nosso jardim?
- É maravilhoso! - respondeu Camila emocionada.
Este lugar é encantador.
Quem o fez tem imenso bom gosto.
- Quem o fez, projectou-o com amor, com muito amor - enfatizou Aurora sorridente.
Depois de ficarem ali por mais alguns minutos, a generosa senhora convidou-a para entrar:
- Importas-te de entrarmos agora?
Creio que tua visita já chegou e te aguarda.
- Sim, claro. Vamos entrar.
Manobrando a cadeira de rodas, Aurora empurrou-a até uma sala onde havia dois sofás e uma mesinha central que ostentava um vaso com belas flores.
- Camila - disse Aurora. -, se desejares, podes levantar e caminhar um pouco.
Tua visita não vai demorar.
Aceitando o convite, andou até a larga janela de onde pôde observar o jardim de outro ângulo.
Após alguns minutos, ela ouviu seu nome pronunciado por uma voz que lhe pareceu familiar.
- Camila?...
Quando ela se virou...
- Minha querida, que bom que tu estás aqui!
Ela ficou petrificada e incrédula.
Repentinamente, lembrou-se da família, do passado mais recente e não conseguia entender como estava frente àquele homem que fora seu tio por parte de pai e que havia falecido há uns seis anos.
Alfredo ficou parado, esperando alguma reacção, pois entendia o espanto da sobrinha.
A custo Camila murmurou:
- Tio Alfredo!...
- Camila, querida...
Quando Alfredo tentou aproximar-se imediatamente ela se afastou e gritou:
- Não!!! Socorro!
Por favor, ajudem-me!
Ele morreu! Socorro!
- Querida, seu tio te ama.
Ele só quer teu bem - disse Aurora.
Alfredo, querendo ser amável e para não atormentá-la mais, tentou explicar em rápidas palavras:
- Camila, meu bem, Eu não morri, só deixei de viver na carne para viver em espírito.
Já te expliquei isso quando vivemos encarnados.
Abraçada à Aurora, Camila chorava enquanto implorava em soluços:
- Não deixe que ele se aproxime de mim.
Ele morreu. É uma assombração!
- Ele não é uma assombração.
Nenhum de nós somos.
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Re: O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 10:15 am

Teu tio Alfredo desencarnou, ou melhor, deixou de viver entre os encarnados para viver entre nós, como espírito, como tu também.
- Eu?! - gritou inconformada.
- Sim querida.
Assim como todos os que vês ou viste por aqui.
Nós só deixamos de viver na Terra.
Isso não significa morte, significa que deixamos a carne, deixamos de viver no nosso corpo material e agora somos só espíritos.
- Não pode ser! Não é verdade!
- É sim - confirmou Alfredo amável.
Camila afastou-se de Aurora, como se a repudiasse, e perguntou ofensivamente:
- Onde estão meus pais?!
Onde estão meus irmãos?!
- Na Terra, Camila.
Eles ainda vivem encarnados - respondeu Alfredo em tom generoso.
- E eu... eu morri?!
- Tu desencarnaste há seis meses - tornou Alfredo.
- O que eu estou fazendo em um lugar como este?!
- Estás sendo socorrida, ajudada.
Estás aqui para receberes orientação sobre o plano espiritual.
Recordares tudo o que já sabes sobre o mundo dos espíritos e as experiências que tiveste de vivenciar para harmonizares e evoluíres moralmente.
Não é a primeira vez que tu desencarnas.
Temos a certeza de que, em breve, vais lembrar-te de tuas outras reencarnações, das outras experiências quando desencarnada, dos cursos em colónias que já viveste...
- Chega!!! Chega!!!
Isso não existe! Isso é besteira!
O que é que estou fazendo no mesmo lugar que ele?!! - perguntou Camila à Aurora, apontando com desdenho ao seu tio.
- Alfredo não vive aqui.
Ele pertence a uma colónia espiritual não muito distante e veio para cá a fim de te recepcionar e nos ajudar a te esclarecer tudo - respondeu Inácio que acabara de entrar na sala.
Camila não se conformou.
Agitando a cabeça como se tentasse negar a situação e o esclarecimento que recebia, passou a andar de um lado para outro repetindo:
- Não! Eu não morri!
Não morri! Se eu morri, não é esse o meu lugar.
Não foi para um lugar deste que eu me preparei e me eduquei.
Olhando para o alto, como em súplicas, ela ainda disse:
- Oh! Senhor! Tenha misericórdia de mim!
Eu não pequei. Sempre segui Teus mandamentos!
Nunca fiz nada de errado para merecer estar nas mesmas condições que os pecadores!
- Camila, pára.
Por favor - pediu Alfredo com voz enérgica.
Não digas nada sem antes tentares entender a situação.
- Não fales comigo!
O senhor só viveu em pecado e quando morreu foi pro inferno porque viveu pregando coisa do demónio!
- Não digas mais nada, Camila - insistiu Alfredo.
Não te precipites.
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Re: O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 10:15 am

- O senhor viveu no erro, tio!
Eu bem sei! Viveu no pecado.
Eu fui cristã!!!
Meu pai sempre nos disse que o senhor iria pro inferno quando morresse e, se eu morri, não posso estar junto de pecadores!
Isso eu não aceito!
Aqui é o inferno e tu és o satanás!!!
Eu quero sair daqui!
- Acalma-te! Não digas mais nada.
Tua atitude, palavras e sentimentos não são convenientes às vibrações existentes neste lugar.
Não fales mais nada ou poderás te arrepender disso - tornou Alfredo novamente enérgico.
Porém ela não o ouviu.
- Aqui é o inferno!!!
Quero sair daqui!!!
Este lugar é para os sujos e pecadores!!!
Este lugar é para imundos, sujos!!!...
Camila entrou em desespero e, sem que pudesse reagir, sentiu-se tonta e foi enfraquecendo.
Alfredo aproximou-se e tentou segurá-la, mas escorregou por entre seus braços e se fez sumir.
Aurora e Alfredo se entreolharam.
Sabiam o que havia acontecido.
Alfredo olhou em seguida para Inácio como quem questionasse.
Entendendo sua expressão, Inácio falou:
- Lamento muito, caro Alfredo. Bem sabe como lamento.
Mas as vibrações emanadas por Camila, destruiria a harmonia de nosso Posto caso continuasse aqui.
Na hora e no momento certos, ela se harmonizará e voltará para nós.
Oremos para que isso seja em breve.
Camila é uma criatura de personalidade superior e já foi enriquecida, em outros tempos, com orientações que irão operar em seu âmago.
Após certificar-se de seu desencarne e recordar suas experiências passadas, ela própria se guiará, a princípio pelo instinto, depois pela certeza no caminho da evolução.
- Eu não consigo entender como isso pôde acontecer.
Preparou-se tanto no plano espiritual para esse último reencarne.
Teve tanto estudo, assistência e amparo, além de imensa boa vontade e orientações quando encarnada.
- Tu entendes sim, Alfredo.
É claro que entendes.
A ignorância, o medo e a comodidade não permitirão, a qualquer espírito, lembrar-se das verdades eternas.
Quando, no círculo da carne, a criatura se acomoda e se acovarda, negando-se a ser o servidor que deveria, tende a encontrar dificuldade diante da verdadeira vida, que é no mundo espiritual, e quer, muitas vezes, tentar justificar sua existência improdutiva.
Se ela não se integrar no trabalho de propagação de valores espirituais, morais e educativos para as almas com ela encarnada, recolhe-se indevidamente na comodidade que lhe traz o mais completo bem-estar físico e material.
A Terra é uma oficina de trabalho para os que lá se preparam.
Não importa o que a vida nos apresente como experiência quando encarnados.
Temos de seguir os nossos mais suaves sussurros interiores voltados para o bem e cumprir nossas obrigações fundamentais com muita responsabilidade.
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Re: O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 10:15 am

Vamos aguardar e vibrar para que Camila encontre o melhor, onde quer que vá.
A propósito, para que saibas, será possível enviarmos uma excelsa criatura que atingiu elevados valores morais e espirituais para tentar acompanhar nossa querida Camila.
Há muito ele vem, gentilmente, fazendo tal solicitação na Colónia onde se encontra, mas somente agora ela pode alcançar a vibração espiritual para vê-lo, se ele diminuir a luminescência.
O espírito Alfredo olhou-o surpreso, mas nada disse.
Porém o nobre Inácio revelou:
- O amor verdadeiro e incondicional transcende as barreiras da vida e do tempo.
Falo do nosso querido e elevado Túlio.
Sabemos o quanto ele se empenhará para ajudá-la e trazê-la para junto de si como filha espiritual.
Os olhos de Alfredo brilharam.
Ele não conseguia argumentar nada.
Depois de algum tempo sorriu e agradeceu imensamente.
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Re: O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 10:15 am

7 - CAMILA RETORNA À CROSTA

De súbito Camila sentou rapidamente em sua cama.
Sentindo o coração bater aos saltos, pensou:
- Puxa, que pesadelo horrível!
Como pode ser isso?
Olhando-se, observou:
- Adormeci vestida. Que engraçado!
Perdi a noção do tempo.
Devo ter dormido demais.
Logo sua atenção voltou-se aos chamados de sua mãe.
- Vamos, meninas. Estamos atrasadas!
Seu pai não pode se atrasar hoje, viu?!
Vamos logo.
Camila saltou da cama, olhou-se rapidamente no espelho e saiu correndo.
Na sala, ela viu quando Cida e Vera saiam às pressas enquanto sua mãe segurava a maçaneta da porta, pronta para fechá-la.
As irmãs entraram no carro acomodando-se no banco de trás onde Júnior já se encontrava sentado.
Cida e Vera começaram algum tipo de brincadeira logo interrompida pelo severo senhor Honório que, sentado no banco do motorista, repreendeu-as zangado:
- Parem com isso!
Se perturbarem mais uma única vez, eu as colocarei de castigo e até prometo-lhes uma surra.
Sabendo da rigorosidade do pai e temendo a punição, as meninas se aquietaram.
Dona Clara acomodou-se no banco dianteiro e todos seguiram em total silêncio até a igreja.
Ao chegarem, como sempre faziam, sentaram-se logo nos primeiros bancos a espera do início do culto, que não iria demorar.
O senhor Honório era cumprimentado por todos de forma muito cortês e amistosa.
Uma senhora, que se pôs ao órgão, passou a executar um belo hino.
Alguns jovens apossaram-se de violões enquanto outros emitiam sons em instrumentos percursores que estavam num dos cantos do imenso salão.
Nesse momento o ambiente ficou perturbado pela miscigenação sonora que se fez devido aos acordes emitidos pela afinação dos instrumentos.
Cida e Vera cochichavam e gracejavam de algumas coisas que viam, enquanto Camila sentia-se ainda desconcertada.
Aquele sonho parecia ter-lhe feito mal de alguma forma.
Estava confusa e um pouco atordoada.
Virando-se para a irmã, Camila chamou:
- Vera?
Vera não se importou com o chamado e continuou murmurando graças com Cida.
- Vera! - insistiu Camila que se irritou.
- Deixem de ser crianças.
Parem com essas besteiras!
Vendo que as irmãs não se importavam, virou-se soberba e resmungou:
- Crianças são assim mesmo!
Espero que cresçam algum dia.
Ao perceberem a entrada do pastor, que assumiria seu lugar na frente, todos os presentes se colocaram em pé e se puseram a cantar um belo hino para iniciar o culto.
O senhor Honório, pastor da igreja, entrou muito animado e sorridente, cantando enquanto batia palmas.
Ele sentiu-se orgulhoso ao assumir, na frente de todos, o patamar mais alto de onde podia ver aquele salão lotado de fiéis fervorosos e dedicados.
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Re: O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 10:16 am

Depois dos cantos, cumprimentos colectivos e de ler uma passagem bíblica com muita emoção, o pastor Honório explicou de maneira conveniente e pregou alvitrando favoravelmente aos interesses daquela igreja.
A cada pedido de confirmação de fé, os fiéis deliravam em gritos fervorosos de aleluia.
Pela primeira vez, Camila começou a sentir-se muito mal com todo aquele alarido que se fez.
Era um sentimento estranho, pois já se acostumara com tudo aquilo.
Em alguns momentos, a multidão de fiéis parecia enlouquecida.
Eles estavam realmente fora de si, longe de seus juízos normais.
Pareciam completamente insanos em seus protestos chorosos, pedidos, súplicas, agradecimentos e rogativas infinitas.
No momento da colecta e arrecadação de valores denominados serem para a "casa do Senhor", o pastor Honório falava em altos brados:
- Ninguém é tão pobre que não tenha nada para oferecer!
Isso está escrito aqui... no livro do Senhor! - e erguendo a bíblia, ele gritava:
- Colaborem, irmãos!
Colaborem para o crescimento do amor.
Provem seu amor pelo Senhor e que darão a Ele tudo em nome do amor!
Doando, todos vós provam que não têm ambições em seus corações!
Livrando-se de todos os valores, todos vós provam ao Senhor que são puros de coração!
Que são isentos do grande pecado, que é a ambição, pois o dinheiro abundante que não tiver o destino ao Senhor, é sujo!
É pecaminoso!
Nenhum prazer vós tirareis dele aqui neste mundo!
A cada exclamação dita, ouviam-se louvores de "glória e aleluia" da multidão que parecia dominada pelas propostas e considerações proferidas pelo pastor Honório que os fascinava e entorpecia, parecendo fazer debilitar as faculdades da multidão que se deixava enfraquecer sem raciocínio algum sobre o deblaterar proclamado pelo pastor que tinha como objectivo, talvez inconsciente, uma insana lavagem cerebral colectiva.
Observando a igreja, já lotada, Camila percebeu que o número de fiéis parecia ter dobrado.
Enquanto os músicos executavam uma canção e uma mulher cantava, o pastor Honório dizia palavras de agradecimentos aos que colaboraram com tudo o que tinham e ainda incentivava aqueles que não haviam doado o suficiente.
- Irmãos! - gritava o pastor Honório.
O que quer que tenham doado aqui de coração, podem ter certeza de que o Senhor está vendo!
O Senhor sabe se realmente tu ofertaste à Ele tudo o que podia!
E por isso o Senhor te abençoará!
Ele te dará em dobro tudo o que tu deste a Ele aqui!
O Senhor sabe se tu estás ou não sendo sincero!
O senhor sabe dos teus pensamentos e da tua ganância!
Mas se não quiseres doar ao Senhor os teus bens, não tem problema.
Porém, lembra-te de que se estiveres sendo egoísta para com Ele, Ele também será egoísta para convosco!
O Senhor não te dará mais nada!
Ele negará a ti a entrada no reino dos céus!!!
Em meio aos apelos fervorosos do pastor, a multidão aglomerada clamava repetidas vezes:
- Glória!!! Aleluia!!!
Fazia-se um emaranhado de vozes no ar, vibrando para uma só proposta:
a de convencer mais um a doar seus bens, pois sempre havia um e outro fiel a se levantar e dirigia-se à frente a fim de dar seu último óbolo e, muitas vezes, realmente era o último valor em dinheiro que havia para si e para sua família.
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Ave sem Ninho

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Re: O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 08, 2016 10:59 am

Mas a credibilidade nas palavras do pastor, de que aquele numerário seria para Deus, os fiéis ali presentes se desfaziam até mesmo de pertences e adornos pessoais, acreditando pudessem ter algum valor às obras do Senhor e os doavam para não serem vistos por Deus como avarentos, ambiciosos ou egoístas.
Aqueles homens e mulheres estavam entorpecidos pelas palavras do pastor, que mais parecia um ditador usando de manifestos convincentes aos desprovidos de perspicácia e observações, óbvias aos olhos de quaisquer pessoas de espírito prudente e lógico.
Porém Honório convencia-os com sagaz palavreado de indução aos óbolos, fazendo desta petição de donativos um ponto fundamental e indiscutível da doutrina religiosa, dando-lhes referências vagas e indirectas de como e onde tudo aquilo seria usado por Deus.
Camila começou a sentir-se indignada com os dizeres, observações e alusões feitas com disfarces por seu pai para aquela gente humilde e ignorante aos conceitos espirituais.
Ela sentiu imensa vontade de sair dali, mas como poderia?
Onde já se viu a filha do pastor abandonar o culto?
Poderia parecer arredia à vista dos irmãos de crença.
Observando melhor seu pai, não como um parente e sim como quem observa um desconhecido, Camila estarreceu.
Como é que ele poderia usar o nome de Deus para arrecadar aqueles valores de pessoas que pareciam ser tão pobres e indefesas?
Isso era um crime!
Seu pai usava de subtileza em suas palavras, era engenhoso com os trechos bíblicos lidos, direccionando, com ousadia, suas explicações a tudo o que lhe era conveniente.
Seu pai possuía grande subtileza de raciocínio ao argumentar qualquer contenda que poderia surgir.
Ele conseguia encobrir, com astúcia, seus propósitos, ocultando o que realmente almejava obter.
Por outro lado, Camila não entendia como aquelas pessoas se deixavam levar por tais argumentações, por todo aquele enredo exibido e proposto pelo pastor Honório.
Muitas vezes, em suas encenações, ele fazia de seus cultos um verdadeiro espectáculo circense simplesmente para incentivar, animar e convencer aquelas pessoas às suas argumentações e propósitos, dissimulando o verdadeiro significado da boa conduta que nos ensina a Bíblia.
De súbito Camila questionou-se por tais pensamentos.
Por que pensava aquilo e somente agora?
Não contendo mais a imensa vontade de abandonar aquele recinto, levantou-se e, sem titubear, andou corredor afora saindo pela porta principal.
- Os irmãos de igreja - pensou ela - estão tão envolvidos em delírios que nem mesmo se incomodaram com minha retirada.
Ao ganhar a porta principal e passar rapidamente pelos homens que estavam ali em pé fazendo-se de sentinelas para inibir a entrada daqueles que não são bem vindos aos cultos dessa doutrina, Camila sentiu-se aliviada.
Os homens que se faziam de guardiões para a segurança da igreja e do pastor, estavam atentos a tudo, porém não se incomodaram com sua saída rápida nem poderiam.
Já no pequeno quintal da igreja, antes de sair pelos portões, Camila começou a observar as pregações feitas por seu pai.
Reparou que suas palavras nos longos discursos maçantes nunca deixavam de arguir e até ofender outros credos ou doutrinas religiosas, como se todos os não - simpatizantes com aquelas pregações pudessem ser pecadores sem perdão, confinados às chamas eternas do tão temido inferno.
O pastor Honório possuía refinada argúcia, empregando em suas palavras, manifestos e gesticulações que convenciam a todos.
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Re: O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 08, 2016 10:59 am

Ele enobrecia seus palavreados, suas propostas e sugestões de modo a tolher e constranger a qualquer um dos presentes a alguma dúvida que pudesse surgir.
Camila começou a ficar preocupada com o que deveria dizer a seu pai sobre sua súbita retirada.
Logo mais, quando findou o culto e todos os irmãos começaram sair, ela passou a afligir-se ainda mais.
Assim que seus pais começaram a descer os poucos degraus para chegarem ao pátio, sorriam prazerosamente aos cumprimentos recebidos dos estimados irmãos de doutrina.
Alguns deles estavam ali a visitá-los, pois pertenciam a outra comunidade da mesma regra religiosa.
Outros não eram vistos há alguns dias.
Mesmo temendo a punição de seu pai, pois sabia de sua severidade, principalmente tratando-se da religião, Camila pôs-se à frente deles para ser notada e com isso procuraria sentir, ao observar a fisionomia de ambos, qual o conceito que tiveram de sua atitude.
Os pais de Camila se fizeram neutros.
As expressões fisionómicas eram de que nada viam.
Por sua vez, aproximou-se de sua mãe e a chamou:
- Mãe?!
Mas de imediato, outro grupo de conhecido se fez à frente deles, por isso Clara não lhe deu atenção, pensou ela.
Aguardando que houvesse uma pausa na conversação, Camila se pôs ao lado dos pais, mas notou que ninguém a cumprimentava.
- Estariam eles punindo-me com o desprezo, ignorando minha presença devido à atitude arredia durante o culto? - pensou Camila.
Porém sobressaltou-se ao ouvir de um irmão de culto a seguinte condolência:
- Irmã Clara - disse ele -, eu lamentei imensamente a morte de nossa irmã Camila.
Aceite os meus pesares.
Soube ontem, quando retornei de minha viagem a São Paulo.
Fiquei imensamente triste, mas ao mesmo tempo estou contente por ter a certeza de que nossa irmãzinha Camila se encontra no reino do Senhor e não mais neste mundo infectado pelas tentações perniciosas dos infelizes e maldosos que não acreditam na fúria do Senhor e vivem no erro e no pecado.
Nós aqui na Terra, cara irmã, estamos rodeados de satanases disfarçados de gente.
- O que é isso?!! - gritou Camila, tentando interrompê-los.
De que Camila o senhor está falando?!
Mas nem sua mãe ou o amigo puderam ouvi-la.
- Sim, caro irmão Pedro - respondeu Clara -, tenho certeza de que minha filha está ao lado do Senhor, longe das maldades deste mundo, pois se houve algo que sempre eu e Honório lhe ensinamos, foi a boa conduta.
Nunca deixamos que Camila se aproximasse daqueles que transgridem as leis do Senhor.
Hoje eu tenho a certeza de que os anjos cuidam de minha filha ao lado do Senhor!
No reino de Deus! Na glória eterna!
- Aleluia, irmã! - disse Pedro.
Glória ao Senhor!
- Espere aí! - desesperava-se Camila em pânico.
Mãe! Senhor Pedro! Estou aqui!
Vejam! Olhem para mim!!!
Porém toda a tentativa para ser vista ou ouvida era inútil.
De nada adiantavam seus gritos, rogativas e desespero.
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Re: O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 08, 2016 10:59 am

O assunto sobre sua morte continuou:
- Irmã Clara - perguntou o senhor Pedro -, eu ainda não soube com detalhes o que aconteceu a ela, se não se incomodar...
- De forma alguma, irmão Pedro.
Eu estou amparada nas forças do Senhor, pois tenho certeza de que se o Senhor levou minha filha para junto Dele, lá ela estará bem melhor.
O Senhor me consola e me fortifica...
Clara passou a interpor em sua conversação termos bíblicos decorados e, voltando logo as suas explicações, continuou:
- O Senhor teve misericórdia de mim porque minha alma confia Nele!
E à sombra de suas asas me abrigo até que passe as calamidades!
Clamei ao Deus Altíssimo, que por mim tudo executa!
E Ele dos céus enviou o seu auxílio e me salvou do desespero.
O senhor me enviou Sua misericórdia e a Sua verdade.
Por isso, confiante no Senhor, não temo em contar o que houve.
No sítio do irmão Paulo, as meninas dele junto com as minhas filhas animaram-se a passear de barco na represa próxima.
O irmão Paulo se prontificou a levá-las.
Colocando todas em sua camionete, levou-as ao tão solicitado passeio.
Eu e Honório ficamos no sítio.
Contaram-nos posteriormente que, as sete meninas, junto com o irmão Paulo, seguiram represa adentro num barco a remo.
Momentos depois, quando estavam muito longe da margem, a água passou a invadir o pequeno barco.
As meninas se apavoraram e começaram a gritar.
Ângela, a filha mais nova do irmão Paulo, caiu na água e o irmão atirou-se nela para salvá-la.
As meninas contam que com o balanço que se fez no barco, um dos remos atingiu Camila na cabeça e que no mesmo instante ela caiu na água.
Ângela foi posta no barco pelo pai com a ajuda das meninas que logo contaram ao irmão Paulo que Camila também caíra na água.
Disseram-nos que o irmão mergulhou à procura de Camila que, ao cair, conforme contam as meninas, afundou sem voltar à superfície por uma única vez.
O irmão Paulo ficou fora do barco para não fazer mais peso até a chegada do socorro, que não demorou.
Os bombeiros encontraram o corpo de minha filha somente horas mais tarde.
Segundo os médicos, Camila afogou-se dormindo.
Ela desmaiou imediatamente, no momento em que o remo a atingiu e não sofreu a angústia do afogamento.
- Tão nova. Tão bondosa.
O Senhor só poderia colhê-la dormindo - salientou o senhor Pedro.
- Minha filha foi levada ao reino dos céus logo depois de fazer vinte e seis anos - disse Clara.
Camila ficou estarrecida.
Não lembrava, em absoluto, o que sua mãe contara.
Contudo aquela narrativa lhe era familiar.
Em seguida, veio à memória a conversa que, acreditando ser sonho, teve com seu tio Alfredo, do lugar onde esteve que parecia ser um hospital e do pôr-do-sol luzente e inigualável.
Sentindo-se atordoada com todas aquelas recordações, agitou a cabeça como se quisesse negar o que ocorria ou despertar de um pesadelo.
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Re: O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 08, 2016 10:59 am

Resolveu insistir com eles, mais uma vez, sobre sua presença:
- Mãe, por favor, mãe. Veja!
Por Deus, mãe! Olha pra mim!!!
Eu não morri! - Clara não conseguia registrar sua presença e ficava completamente indiferente aos chamados da filha.
Não pode ser! - reclamava o espírito Camila em seu desespero.
Eu acordei há pouco e... Foi isso mesmo!
Eu acordei, sentei na cama... na minha cama...
Depois entrei no carro com meus irmãos e vim pra igreja.
Eu não morri! Eu vejo a todos, sinto meu corpo. Eu não morri!
Correu para seu pai, que não pode percebê-la.
Depois para as irmãs, que não puderam senti-la.
Tentou então outros conhecidos da igreja, com quem outrora vinculara amizade.
Tudo em vão. Ninguém a notava.
Ninguém registava sua presença.
Camila pensou que iria enlouquecer.
Até que um senhor de certa idade, já encurvado pelos anos, pôs-se frente a ela e perguntou:
- Menina, também te sentes boba falando e falando sem ninguém te dar ouvidos?
- É comigo que o senhor está falando?
- Puxa, menina!
Ainda bem que me ouviste!
- O senhor pode me ver?!
- Claro! Com quem acha que estou conversando?
Ninguém aqui dá importância ao que eu digo.
- Como é que o senhor pode me ver e também falar comigo?
Aqui ninguém mais consegue me perceber.
- É simples. Tu morreste.
Como eu e muitos outros que estamos aqui. Veja só.
E apontando para alguns grupos de pessoas reunidas, Camila notou que um e outro se juntavam aos aglomerados, mas esses eram diferentes dos demais, porém agiam como se pudessem ser notados e palestravam sobre o assunto em pauta como se os demais acatassem suas opiniões, o que frequentemente acontecia.
- Estou ficando louca! - exclamou Camila.
Isso não está acontecendo comigo!!!
- Mas está. Não se assuste.
No começo é difícil, mas depois tu acostumas.
Agora tenho que ir.
Minha família já está se retirando.
Ah! Só um aviso: cuidado com as sombras.
- As sombras?! - perguntou Camila.
O senhor se virou sem se incomodar com a indagação e acompanhou seus parentes.
Percebendo também que sua família estava indo embora, sem titubear, ela os seguiu.
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Re: O BRILHO DA VERDADE - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 08, 2016 11:00 am

8 - A DESONESTIDADE DE HONÓRIO ATRAVÉS DA RELIGIÃO

Dentro do carro, a caminho de sua casa, Camila tentou, em vão e seguidas vezes, falar com seus familiares.
Chorosa por suas condições, começou a sentir-se insegura pelo seu futuro incerto.
Acompanhando a família em tudo o que faziam, ela não tinha alternativa, se não a de ficar ali vegetando na companhia dos seus.
Ao amanhecer, sentiu fome.
Tentou pegar alguns dos alimentos que se encontravam arrumados sobre a mesa para o desjejum de todos.
Incapaz de sequer tocá-los, desistiu após inúmeras tentativas.
Depois chorou.
Sentindo-se um ser translúcido e malfadado, começou a impugnar a existência de Deus e todos os valores morais que aprendera a respeitar durante toda a sua vida.
Em seu pensamento, começaram a surgir inúmeras indagações:
- Para onde vão os que morrem?
Se estou em minha casa, onde está o restante dos meus familiares que cruzaram a fronteira da morte antes de mim?!
Meus avós maternos, que morreram há anos?...
Por que será que não estão aqui agora?!
Para onde foram?!
Mesmo sem obter respostas, ela prosseguiu seu raciocínio naquela linha de pensamento, questionando:
- Onde será que fica o céu?
E o inferno? Seria o inferno aqui, junto com os vivos?
Não. No inferno há fogo e sofrimento.
O que eu tenho, no momento, é fome.
Sentando ao lado de sua mãe durante o tempo em que tomavam o café da manhã, Camila recostou sua cabeça no ombro da progenitora buscando afecto, pois a carência afectiva era imensa.
Durante aquele desjejum, Clara ficou com um semblante choroso e passou a pensar na filha que perdera desejando ter ali sua presença, ou querendo ter a certeza de que ela estivesse em boas condições.
Honório, notando a tristeza presente na mulher, vociferou:
- Lembre-se, mulher, o demónio entra em nossos pensamentos quando nós deixamos!!!
Clara não se pronunciou, continuando seu café.
Logo depois que todos se retiraram da mesa, Camila sentia-se menos faminta.
Ela havia absorvido as energias dos alimentos através de sua mãe.
Porém não se deu conta disso.
Sem saber o que fazer naquelas condições em que se achava, Camila foi para a sala de estar onde seu pai se encontrava empenhado na leitura de um jornal.
Minutos depois, Vera e Cida pararam junto à estante, vasta de livros, à procura de uma determinada matéria.
As irmãs discutiam sobre o assunto enquanto Honório, resoluto e inflexível, pronunciou a elas, de forma hostil e desagradável, sem respeitar a actividade nem os direitos das filhas.
Vão para o quarto.
Preciso telefonar.
- Mas pai... precisamos de... - Vera tentou dizer.
Interrompendo-a bruscamente ele reagiu:
- Eu mandei irem para o quarto!
Sem demora ou reclamação, elas se retiraram temerosas.
Camila passou a reflectir sobre o comportamento de seu pai.
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