Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 06, 2016 8:36 pm

A Feira dos Casamentos
Wera Ivanovna Krijanovskaia

CONDE J. W. ROCHESTER

Uma palavra do tradutor
No conjunto das obras completas de J. W. Rochester são relativamente poucas as editadas no Brasil.
Como antigo admirador do excelente narrador espiritual, andava eu há muito — e continuo andando — à cata dos livros faltantes, conforme publicações feitas mais de uma vez junto a artigos na imprensa espírita.
Por sorte, acabei encontrando um companheiro de ideal, também admirador dos escritos do conhecido autor espiritual.
Ao cabo de várias peripécias, que seria longo relatar aqui, eis que certa noite, creio que na última semana de novembro de 1981, o prezado confrade me põe nas mãos, em fototáctica, um dos livros de Rochester em francês, ainda inédito no Brasil e que ele localizara em Paris.
Ficou acertado que eu faria uma leitura preliminar para ter uma ideia de seu conteúdo.
Em seguida, decidiríamos como e quem fazer a tradução, mas era óbvio que o caro companheiro só faltava sugerir que eu a fizesse...
Não assumi prontamente o compromisso, pois tradução não é tarefa que a gente jogue prontamente aos ombros como um saco de paina.
Dentro de uma semana, liguei para o amigo e lhe disse que não apenas havia lido a obra, mas que já tinha trinta ou quarenta páginas traduzidas...
Ninguém resiste ao Rochester...
Traduzir é tarefa inglória, penso eu, além de arriscada, pois o mínimo que dizem do tradutor é que é, também, traidor, como nos assegura o batidíssimo ditado em língua italiana.
Nesse campo, que não é de minha especialidade, já fiz um pouco de tudo do inglês para o português, do português para o inglês, e do francês ou do espanhol para o português.
Seja como for, naquela tarde de 28 de novembro, sentei-me à máquina e comecei a martelar a tradução das 540 páginas do original, transplantando-as para a nossa língua.
As dificuldades não eram intransponíveis, a história me encantou, e o livro...
Enfim, o livro aí está.
Que tipo de dificuldades apresentava?
Bem, primeiro, a linguagem.
Repugnava-me botar toda aquela gente tratando-se mutuamente de vós ou de tu.
Embora o tu seja mais aceitável no Brasil, só é mesmo usando com naturalidade no sul do País.
E o vós... pelo amor de Deus!
Não dá mais, creio que nem mesmo para preces.
O que predomina por toda parte é o nosso brasileiríssimo você, que os portugueses inventaram em boa hora a partir do Vosmecê que, por sua vez, veio de Vossa Mercê.
Ele substitui com perfeição o you do inglês, palavra simples, elegante, versátil e apropriada, tanto para falar com o Papa, a Rainha da Inglaterra ou com o colega de trabalho.
Para o inglês e o americano, todo mundo é you e estamos conversados, ainda que, às vezes, apoiado nos adornos de praxe: Vossa Majestade, Sua Santidade, doutor, etc.
Por isso, adoptei as expressões senhor, senhora, madame, senhorita para os tratamentos mais formais, em lugar do mumificado vós, que seria sumariamente rejeitado com um risinho de ironia.
Em lugar do tu, usei o você.
Tudo isso, porém, com o maior respeito pelo texto, pois na época em que se desenrola a história o tratamento social era rigidamente formal e o tu só era usado na intimidade entre marido e mulher, por exemplo, de pais para filhos, de patrão para empregados. Fora disso, era o vós.
Era preciso preservar essa atmosfera de formalismo para não poluir o clima da história com modernismos inoportunos e anacrónicos.
Sobre o livro em si, também vale a pena dizer algo.
Rochester é um mestre consumado na arte de contar histórias.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 06, 2016 8:36 pm

Ele sabe armar situações, criar e movimentar personagens, reproduzir com incrível perícia diálogos de impressionante realismo e naturalidade.
Sabe, enfim, fascinar, manipular e arrastar o leitor até o último suspiro da última personagem.
Seu poder criador é tão convincente que a gente se deixa envolver pela história e acaba acreditando que as personagens que ali se movimentam são gente mesmo, como nós, e não criaturas imaginárias.
Como se sabe, ele costuma, de facto, produzir narrativas inspiradas em episódios e pessoas reais, mas não fosse ele o que hoje se chama um craque, os actos sairiam mofados e as personagens robotizadas.
Mesmo bordejando, às vezes, pela caricatura — Pfauenberg, por exemplo, ou Tarussoff — ele jamais deixa sua gente despenhar- se pelo abismo da farsa inverosímil.
Embora eles se conservem um tanto caricatos, são sempre gente, pois, infelizmente, há gente caricata na vida...
A história se passa na Rússia Imperial, aí pelo último quartel do século dezanove, cerca de 40 anos antes da Revolução que implantou o regime comunista e fez da Rússia a União Soviética.
O ambiente geográfico é a antiga capital do Império — São Petersburgo, posteriormente Petrogrado e hoje Leningrado.
O ambiente social é o da alta roda de príncipes, condes e barões, movimentando-se numa sociedade corrupta e corruptora, sofisticada e imoral mesmo, a maior parte do tempo.
É um livro um tanto amargo, à primeira vista, quando se pensa em todo aquele amplo painel de miséria moral, egoísmo, vaidade e cinismo.
Pouco a pouco, no entanto, o leitor vai percebendo, nas entrelinhas, a razão de ser do quadro desolador que se arma para contar uma história maior de fortaleza moral, de lealdade, de bom senso, ‘de incorruptibilidade, de pureza, no meio de toda aquela decadência.
Rochester consegue narrar a sua história, utilizando-se quase que exclusivamente do diálogo, com um mínimo de descrição.
Ele não precisa explicar suas personagens, nem o que dizem e fazem.
Cada cena tem seu lugar e finalidade, nenhuma frase ou palavra é desperdiçada, ou fica perdida no texto.
O autor espiritual vai ao requinte dos detalhes na escolha dos nomes de suas figuras. Pfauenberg, a pavonear-se pela sociedade, ambicioso e fantasiado (de falso) médium, para melhor abrir certas portas, tem o nome certo; algo assim como montanha empavonada (Pfauenberg); o Príncipe Ugarine, um dos vilões, nos quais Rochester é, por assim dizer, um especialista, também traz nome apropriado à sua condição moral: Arsénio.
De bela e inocente aparência, como o pozinho que lhe insigne o nome, é um sujeito venenoso e envenenado.
Tâmara, a heroína do livro, é um ser de excepcionais virtudes — ainda bastante orgulhosa e um tantinho preconceituosa — que par realmente sozinha e altaneira num deserto de decência, como uma tamareira a produzir frutos raros, de sabor indefinível um pouco ácido ao paladar daquela gente.
Seu marido, espírito de igual têmpera e de não menos excelentes virtudes, chama- Magnus, isto é, grande.
Sem demonstrar que está pregando moral, Rochester dá seu recado e obriga sua gente a pregá-la com o que faz e diz.
Por isso tudo, as canseiras da tradução acabaram amplamente recompensadas.

Rio, Janeiro/82
Hermínio C. Miranda
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 06, 2016 8:36 pm

Primeira parte

As meninas do colégio


Numa bela noite de maio de 1879 uma dezena de moças de dezasseis a dezassete anos, reunidas num vasto dormitório, conversavam animadamente, enquanto examinavam e apreciavam o conteúdo de uma infinidade de caixas e embalagens de papelão espalhadas pelo chão e sobre as mesinhas entre os leitos cobertos por uma colcha de lã branca.
A agitação das moças era compreensível:
encontravam-se às vésperas da partida tão impacientemente esperada.
No dia seguinte, após a missa e a distribuição dos diplomas, deixariam, enfim, o elegante internato da Sra. Hortênsia Williers para nunca mais voltar, dando início àquela vida mundana que lhes parecia tão radiosa e na qual cada uma delas acreditava, sem hesitação, encontrar a felicidade.
Experimentavam incessantemente as jóias enviadas pelas famílias e as comparavam e se admiravam umas às outras.
Por fim, dispersaram-se em grupos e o problema das roupas cedeu lugar aos projectos futuros.
Quatro das moças se instalaram junto a uma janela aberta e se puseram a conversar a meia voz, imaginando os prazeres que as esperavam no interior e durante o próximo inverno.
Uma delas se destacava pela voz alta e não cessava de enumerar os bailes e reuniões a que iria comparecer, bem como as roupas e jóias que exibiria.
Seu maior prazer, contudo, estava em tagarelar sobre as inúmeras conquistas que estava certa de realizar.
Essa ousada tagarela era uma moça grande e robusta, de aparência vulgar, mas decidida.
Tinha um busto amplo, grandes mãos de dedos espatulados e uma face pouco simpática, à qual uma grande boca de dentes brancos e agudos e um nariz arrebitado emprestavam uma expressão leviana.
Chamava-se Catarina Carpovna Migusov e era filha de um comerciante imensamente rico que, graças aos seus milhões e a alguns golpes de sorte, infiltrara-se na alta roda social.
Esta — especialmente os homens — comparecia de bom grado às esplêndidas festas e aos lautos jantares que ele oferecia no magnífico palacete que mandara construir e no qual ocupava sozinho todo um pavimento.
Ele havia colocado sua filha Catarina no aristocrático pensionato da Sra. Williers, tanto para proporcionar-lhe esmerada educação como a oportunidade de estabelecer boas relações com as jovens das famílias tradicionais que ali estudavam.
— E você, Tâmara, não diz nada?
Está triste? — perguntou uma das moças, interrompendo a tagarelice de Catarina e inclinando-se para uma de suas companheiras que há muito tempo se mantinha em silêncio, a cabeça apoiada na mão, absorvida pelos seus pensamentos.
— Não, Nadina.
Pensava apenas na partida — respondeu Tâmara, beijando amavelmente a amiga, uma loura saudável e bonita, mas de aparência insignificante.
— Não seria de admirar-se que ela estivesse triste.
Deixar Petersburgo e sua família para enterrar-se na Suécia entre pessoas estranhas, não é nada agradável — disse com vivacidade Catarina.
Francamente, não entendo essa ideia extravagante de seu pai e em seu lugar, Tâmara, eu diria:
“Não. Não quero ir!”
E se você fizesse pé firme, seu pai, que a ama, certamente haveria de ceder.
— O que você sugere é impossível.
Não posso me opor à última vontade de minha falecida mãe.
— Mas por que ela exigiu isso .de você?
Uma sombra velou o rosto de Tâmara, quando ela respondeu em voz baixa:
— Vocês sabem que minha mãe separou-se de meu pai alguns anos antes de morrer.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 06, 2016 8:36 pm

Será que ela estava prevendo que ele se casaria com a outra?
Não sei. Mas, de uma conversa que manteve com ele pouco antes do fim ela exigiu que eu fosse colocada num pensionato e que todas as minhas férias fossem passadas em casa de sua prima e melhor amiga, a sra. Ericsson, onde deverei ficar durante quatro anos após a minha saída daqui.
Meu pai jurou respeitar esse desejo de minha mãe e manteve sua palavra.
Seria eu, portanto, uma inconsequente para tentar desobedecer a uma morta?
Além do mais, é sem repugnância alguma que vou para Estocolmo.
Não me simpatizo nada com a minha madrasta, que se colocou como uma sombra entre mim e meu pai.
Em casa da tia Eveline me sinto bem.
Amo-a bastante, bem como aos seus.
Vocês sabem como gosto de desenhar.
Pois bem, se tenho já algum desembaraço, devo-o ao Sr. Ericsson — ele é professor de pintura e distinto retratista.
Todas as minhas férias ele se tem dedicado seriamente a mim e previu que, se eu trabalhar bem durante os quatro anos que deverei passar com eles, serei uma verdadeira artista.
Tâmara animara-se ao falar — suas faces tornaram-se mais coloridas e os olhos brilhavam de ingénuo entusiasmo.
Era uma jovem de arrebatadora beleza que se distinguia de suas companheiras pela extrema delicadeza de formas — as mãos, de dedos afilados, eram pequenas como as de uma criança; seu rosto pequeno não era de uma regularidade clássica, mas a pele de notável brancura, a boca rosada e bem desenhada e os grandes olhos cinzentos e brilhantes de estranho fascínio formavam um conjunto encantador.
— Tornar-se uma artista? Bela perspectiva, acho eu! — disse Catarina com uma careta de desdém.
E, afinal de contas, por quê?
Graças a Deus você não tem necessidade de pintar para ganhar a vida.
Estou prevendo que você voltará de Estocolmo como uma verdadeira burguesa que não pensará senão em pintura e no lar e que acabará casando-se com algum sueco melancólico.
Brrr... dizem que eles são ciumentos como os turcos.
Quanto a mim, recusarei um futuro desses e não me deixarei aprisionar dessa maneira. Espero mesmo não me casar dentro de dois ou três anos — quero desfrutar a minha liberdade, divertir-me tanto quanto puder e somente quanto estiver cansada de tudo me casarei com um conde ou um príncipe.
Tâmara, que a havia escutado, a princípio, com certo desprazer, explodiu num riso alegre.
— Você não pensa no que diz, Catarina.
Você deve se casar com aquele que amar...
E se ele não for um nobre?
Ou então, suponhamos — e ela sorriu maliciosamente — que nenhum conde ou príncipe queira você?
Os pequenos olhos azuis de Catarina fuzilaram e seus lábios vermelhos se retorceram num sorriso cheio de ironia e desprezo.
— Você é que não sabe o que diz, minha querida!
Nossos condes e príncipes, na sua maior parte, tanto desperdiçaram suas fortunas que estão mais ansiosos por abocanharem uma herdeira rica do que um peixe suspenso no anzol estaria em retornar à água.
Não me quererem!
Não há esse perigo!
Você se esquece de que vivemos no século da razão e que eu tenho um dote de um milhão.
Não são meras promessas no ar, mas um milhão de rublos bem sonantes depositados no Banco do Estado, sem contar meu enxoval, os diamantes, a prataria, etc.
Com uma isca assim irei atrair tantos condes e príncipes quantos queira — a única dificuldade vai ser a da escolha.
— Um milhão! Que enorme fortuna! — observou a terceira moça com uma sombria expressão de inveja na face magra e pálida.
Você é feliz, Catarina.
A mim, minha avó deu somente 80 mil rublos.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 06, 2016 8:36 pm

— Ainda é um belo dote e você pode ficar tranquila que nunca lhe faltarão, admiradores — respondeu Catarina condescendente.
Veja a nossa pobre Nadina que terá mais dificuldade em se casar se não conquistar o gordo coronel que já duas vezes lhe trouxe bombons — terminou ela, rindo estrepitosamente.
Tâmara ouvia tudo com o cenho carregado.
— Que horror! - observou ela.
Vocês só falam de seus dotes e contam os rublos como usurários.
Será que vocês têm algum preço?
Na minha opinião, no casamento é somente o amor que deve decidir quanto à escolha, não o dinheiro!
— Não nos tempos de hoje.
Na verdade, não estamos falando de dinheiro, uma vez que se trata de casamento — replicou Catarina.
No outono passado, por exemplo, um amigo de meu pai, Sossunoff, dono de uma fundição, casou sua filha com um barão.
Vocês viram Prascóvia Sossunoff quando ela veio me ver várias vezes neste inverno.
Certamente ela não é jovem, nem bonita; é redonda como uma bola, o rosto coberto de sardas e, no entanto, seu marido, jovem e belo, diz amá-la.
— E ela acredita nisso? — perguntou Tâmara.
— Sem dúvida.
Tive que morder meu lenço para não estourar de rir quando Prascóvia me contou como seu marido a adora.
Não sendo cega como ela, compreendi que a fonte de seus encantos são os 300 mil rublos de dote que o barão recebeu, e que o pai daquela besta teve a inteligência de garantir à sua filha.
Mas chega desse assunto!
Vem, Natália, quero mostrar-lhe um bracelete que me mandaram hoje de manhã e que você ainda nem viu.
Quando Catarina e Natália se afastaram, Nadina passou o braço pela cintura de Tâmara e apoiou a cabeça no ombro da amiga.
Ela ficara fortemente corada quando Catarina aludiu à sua minguada fortuna e estava, por isso, visivelmente agitada.
— Tâmara, quero um conselho sobre algo que vou confiar-lhe. ..
E sem esperar resposta, continuou:
— Você sabe que não tenho dote e foi graças à bondade de minha tia que fui educada aqui — ela pagou colégio para mim, como também para minha irmã mais velha, Lilly, e é em casa dela que vou morar.
Bem, minha tia deseja que eu me case com esse Coronel Kulibine, que Catarina ridicularizou.
É verdade que ele não é um homem muito bonito e que tem quarenta e dois anos, mas é rico e a tia diz que é um partido bem melhor do que o marido de Lilly, um oficial de infantaria que não sabe, às vezes, como chegar até o fim do mês.
— Você ama o Coronel Kulibine? — perguntou gravemente Tâmara.
Se não o ama, como pode casar-se com ele?
Vai fazê-lo crer que ele lhe inspira afeição?
— Ora, a tia já lhe disse que eu o estimo e que ele me agrada bastante — disse com veemência Nadina.
E, além disso, imagine você, se não me casar, terei que dar lições para atender às minhas pequenas necessidades e acho que qualquer coisa é melhor que isso.
— Não na minha opinião.
Cem vezes melhor trabalhar do que mentir e vender-se, ligando-se para o resto da vida a um homem a quem não se ama.
— Eu não mentirei.
Tratarei de amá-lo e, ao mesmo tempo, provarei à Catarina que não serei a última a me casar.
Mesmo porque, tudo está ainda em projecto, mas eu manterei você informada.
— Bem, espero que você me escreva sempre.
Olha, a Xénia já terminou de escrever a sua carta.
Vamos, pela última vez, conversar com ela à vontade.
Deus sabe quando nos veremos outra vez em algum recanto do mundo para onde a sorte nos conduzir.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 06, 2016 8:37 pm

O som do sino que chamava as alunas à refeição da tarde interrompeu no mesmo instante todas as conversas.
Como um bando de pássaros, as moças deixaram o dormitório.
A tarde do dia seguinte, com as diversas cerimónias, passou como um sonho.
Chegara o momento da partida:
cercadas pelas companheiras e pelos parentes que haviam ido buscá-las, as jovens, coradas de emoção e de alegria, despediam-se da directora, de seus professores e de suas antigas colegas.
Trocavam protestos de eterna amizade e promessas de se escreverem com frequência.
Pela última vez Tâmara abraçou Nadina e Natália e, em seguida, dirigiu-se a um senhor à paisana, que a aguardava sorridente em companhia de um velho marujo de alta patente'.'
— Enfim, aqui estou papai! — exclamou atirando-se aos braços do primeiro e abraçando-o com afecto.
— Muito bem, sua ingrata!
Não vai abraçar-me também? — perguntou o velho oficial, apresentando à sua afilhada um magnífico buquê de rosas e de muguets.
— Certamente, padrinho, você sabe como gosto de você.
Só que não podia abraçar os dois ao mesmo tempo — respondeu Tâmara rindo.
Em seguida, vestiu um casaquinho de pelúcia e tomou o braço que seu pai lhe oferecia para descer a escadaria.
— Aí está você uma bela senhorita; apenas lamento que tenha de nos deixar tão cedo — disse rindo o oficial.
— Que fazer? — suspirou Tâmara, enquanto uma sombra cobria o rosto de seu pai.
Nicolai Wladimirovitch Ardatov era um homem de cerca de cinquenta anos, bem conservado e ainda bonitão, a despeito dos cabelos grisalhos.
Os traços eram finos e regulares, os grandes olhos cinzentos cheios de fulgor e suas maneiras de requintada distinção.
A Cruz de São Jorge na sua botoneira evidenciava que servira a seu país com honra.
O Almirante Sergei Ivanovitch Koltovski era um antigo camarada e amigo de Nicolai Wladimirovitch.
Velho celibatário, tornara-se extremamente apegado à sua afilhada Tâmara, que amava como a uma filha.
Durante o trajecto, foi o Almirante que conversou com Tâmara; Ardatov permaneceu pensativo e silencioso.
Somente quando a carruagem estacou diante de uma das magníficas mansões da Grande Morskóia1 pareceu recuperar seu bom humor.
— Você chega em plena reunião, hoje é dia de nossa recepção — disse ele ajudando a filha a descer.
— Preferia que estivéssemos a sós, você, o padrinho e eu — observou a moça.
— Impossível, milha filha.
Por que, aliás, você acha desagradável conhecer nossos amigos?
A partir de hoje você passaria a frequentar a sociedade, se uma imprudente promessa não me forçasse a separar-me de você.
Cinco minutos mais tarde, Tâmara' e seus dois acompanhantes deram entrada no vasto salão onde se encontrava reunido um grupo de doze a quinze pessoas.
Prontamente a conversação estancou, enquanto a dona da casa se levantou com vivacidade e, correndo para a jovem, abraçou-a com efusão.
— Seja bem-vinda, cara filha, à casa paterna — ajuntou ela puxando-a em direcção às senhoras às quais foi apresentada.
Corada e contrafeita, Tâmara respondia às palavras afáveis das senhoras e à saudação profunda dos homens.
Sentiu-se bem feliz logo que pôde sentar-se, enfim, deixando de ser o centro de atracção.
Com certa curiosidade, procurava ouvir a conversação e examinar as pessoas das quais uma grande parte lhe era desconhecida.
A madrasta de Tâmara, Sra. Lúcia Ardatov, era uma mulher de trinta e cinco anos, de uma beleza provocante que se realçava num vestido dos mais rebuscados.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 06, 2016 8:37 pm

Estava, contudo, muito pintada e suas maneiras pareciam um pouco vivas demais e infantis para uma pessoa de sua idade.
Ao falar, seu olhar se dirigiu para a enteada e, interrompendo o que narrava, disse a rir:
— Eis a nossa estudante! — séria como a lição de um professor, esquecida de que está inteiramente em casa.
Tira as suas luvas, querida, e o seu chapéu!
Assim dizendo, tomou-lhe das mãos o casaco de seda azul.
E continuou:
— E, agora, veja quanta coisa bonita nossos amigos oferecem a você para comemorar sua entrada na sociedade — ajuntou trazendo Tâmara para uma mesa carregada de buquês de flores e de elegantes caixas de bombons.
Toda confusa, a jovem agradecia, quando percebeu à soleira da porta do aposento contíguo uma menina de três anos, que lhe fazia um gesto com sua mãozinha roliça.
Dirigiu-se a ela, tomou-a nos braços e cobriu-a de carinhos.
Grata ante a oportunidade de eclipsar-se, Tâmara passou à outra sala e, fazendo a pequena sentar-se ao seu colo, começou a tagarelar alegremente com ela.
Quando Olga manifestou desejo de mostrar-lhe uma imponente boneca, ela mandou-a busca o brinquedo e, enquanto a esperava, aproximou-se de um espelho para arrumar a opulenta cabeleira castanha que coroava sua cabeça como um duplo diadema.
Ocupada em ajustar os grampos, contemplava, não sem satisfação, sua graciosa imagem.
Como aquele vestido branco de cintura azul lhe ficava bem!
E o medalhão incrustado de turquesas que lhe dera seu padrinho era verdadeiramente magnífico!
— Ah! é aqui que ela se refugiou, Príncipe.
Veja a pequena vaidosa que nos abandona para mirar-se ao espelho e contemplar à vontade seu primeiro vestido longo!
Vermelha como uma cereja, Tâmara virou-se e seu olhar cravou-se, como que fascinada, no rosto de um jovem oficial de pé ao lado de sua madrasta.
Ela acreditava jamais ter visto traços tão regularmente belos, um olhar tão fascinante como aquele.
Completamente absorta na sua contemplação, não ouviu sequer que a Sra. Ardatov mencionava o nome do estranho e somente voltou a si quando sua madrasta tomou-lhe a mão e lhe perguntou a rir:
— Que tem você, Tâmara?
Apresento-lhe o Príncipe Ugarine, que deseja saudá-la e você dorme acordada?
A moça voltou a si e, muito embaraçada, respondeu à saudação do príncipe, mais efusivamente, talvez, do que o teria respondido a outrem.
Ligeiro sorriso deslizou pelos lábios do jovem oficial.
Ainda que acostumado a esse género de triunfo, a admiração ingénua e mal disfarçada de Tâmara lhe causara prazer e o divertira.
A moça, por sua vez, estava descontente consigo mesma:
despeitada e pouco à vontade, disse umas poucas palavras e, ouvindo seu pai chamá-la no salão, levantou-se vivamente:
— Papai me chama. Com licença, mamãe.
Mal deixara a sala, a Sra. Ardatov perguntou a rir:
— Muito bem, príncipe, grande Salomão em matéria de beleza feminina, que pensa o senhor de nossa estudante?
O príncipe passou a mão sobre a barbicha negra e disse:
— Penso que ela deveria chamar-se Titânia, em vez de Tâmara.
Não lhe faltam senão as asas para completar a ilusão e fazer dela a encarnação da heroína de Shakespeare.2
Lúcia ergueu os olhos com assombro:
— O senhor brinca, ingrato, e no entanto ela acaba de lhe conceder um triunfo muito lisonjeiro! - riu com todo o gosto.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 06, 2016 8:37 pm

— Não estou brincando — acabo de expressar minha convicção, o que não quer dizer, afinal de contas, que seja o tipo de beleza de minha preferência.
Uma mulher menos diáfana, uma beleza mais terrena é bem mais desejável para nós, simples mortais — disse o príncipe com um sorriso galante.
A réplica da Sra. Ardatov foi cortada com a entrada de uma velha senhora, cujo rosto redondo e jovial irradiava grande bondade.
— Procurava o senhor, Arsénio Borissovitch, para perguntar-lhe se já tomou as providências relativas à petição do pobre funcionário de quem lhe falei — disse, sentando-se em frente ao príncipe para conversar com ele sobre o caso de seu interesse.
A Sra. Ardatov participou por alguns momentos da conversa, mas logo se afastou para juntar-se aos outros convidados no salão, deixando o príncipe e a velha senhora.
Vera Petrovna, Baronesa de Raban, era esposa do chefe de um departamento num dos ministérios.
Muito rica e sem filhos, ela dividia a sua vida entre a sociedade e a caridade.
Membro de um grande número de entidades beneficentes, seu bondoso coração a levava a compadecer-se de todos os infortúnios, que seus numerosos amigos ajudavam-na a aliviar.
Era muito estimada na sociedade pelo seu carácter amável e sua alegria e no seu salão hospitaleiro encontravam-se pessoas pertencentes aos círculos mais variados e opostos.
Havendo esgotado a questão concernente ao seu protegido e dobrado as notas que havia consultado, a Baronesa guardou os óculos de aros de ouro e, sem prestar atenção aos olhos do príncipe fixados na porta do salão, perguntou-lhe:
— O senhor viu Tâmara?
Que achou dela?
— Muito gentil.
É realmente lamentável que seu pai a envie à Suécia.
Estranha ideia essa, de facto, a de exilar a filha do lar paterno.
Ardatov está preso a uma promessa feita à sua primeira esposa, mas temo que tal separação seja prejudicial à menina — suspirou a Baronesa.
— Por quê?
— Porque conheço um pouco a família Ericsson, em casa de quem ela vai viver.
São pessoas exaltadas, cheias de ideias antiquadas e de convicções incompatíveis com os costumes de nossos dias.
— Mas, nesse caso, é tolice cumprir a promessa.
Não compreendo por que Nicolai Wladimirovitch sacrifica dessa maneira a filha à fantasia de uma mulher hoje defunta.
Seria indiscreto, Baronesa, perguntar por que ele se separou da primeira esposa?
— Não é segredo.
Aliás, sobre as verdadeiras causas da desunião, creio estar eu mais bem informada do que qualquer outra pessoa — respondeu a velha senhora, baixando um pouco a voz.
Ardatov servia ainda na marinha, quando conheceu Swanhild.
Em vista de uma avaria, seu navio ficou algumas semanas em Gotemburgo para reparos.
Foi aí que ele a viu e se tomou perdidamente apaixonado por ela.
Swanhild era deslumbrante — com o tempo, Tâmara será o retrato dela — e tão boa como bela, inteligente e uma verdadeira erudita.
Nunca vi uma mulher tão perfeita, e contudo, mas infeliz.
Fez uma pausa e continuou:..
— Mas estou antecipando o futuro.
Na época em que Ardatov a conheceu, Swanhild estava noiva de um jovem sueco imensamente rico, ao que se dizia.
Sem dúvida ela também sentiu uma Viva paixão por Nicolai Wladimirovitch, pois, a despeito dos seus rígidos princípios, faltou à palavra dada.
Desconheço os detalhes, mas sei que essa união, celebrada sob tão romanescos auspícios, não foi feliz, porque a moça não era feita para a vida real.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 06, 2016 8:37 pm

Educada no isolamento, cheia de ideias doentias, ela aspirava a um ideal irrealizável, a virtudes, que a sociedade actual não possui.
Uma vez que Deus tolera a existência do mal, é preciso suportá-lo enquanto vivemos neste mundo — não é voltando as costas ao semelhante, como se ele fosse o próprio demónio, que estaremos fazendo o bem a nós próprios e aos outros.
A pobre Swanhild estava nesse caso:
arrancada ao mundo de suas fantasias onde vivera, acreditou-se transportada ao inferno.
Seu espírito, suas ideias, seu saber diferiam de tal maneira do que veio encontrar em nossa sociedade, que logo um abismo separou-a das pessoas, que não a compreendiam por sua vez, não eram compreendidas por ela.
O contacto com o mal a chocava, ela desprezava o vício e o condenava abertamente.
No lar, sua intolerância chegou a criar desarmonia:
Ardatov, ainda que excelente criatura, tinha suas fraquezas e sua mulher não as soube perdoar.
Seu orgulho desmesurado tornou impossível qualquer tentativa de reconciliação.
Ela manteve-se insensível ao arrependimento do marido e, muito abalada pela morte do primogénito acabou separando-se dele, quando nasceu Tâmara.
Diziam alguns que ela considerava o fracasso de sua vida como punição por haver traído seu primeiro noivo e, minada pelo remorso, extinguiu-se em cinco anos, vítima de sua educação irracional.
Swanhild sabia da ligação do marido com Lúcia e previa que aquilo acabaria em casamento e, sem dúvida, a perspectiva de ter sua adorada filha educada por uma antiga actriz lhe era odiosa.
Talvez ela temesse a influência de seus princípios um tanto levianos.
Seja como for, ela exigiu e obteve de Ardatov o juramento de enviar Tâmara à sua prima e melhor amiga, até que a moça completasse vinte anos de idade.
Claro que eram boas as suas intenções, mas eu não espero nada de bom da permanência dela em casa dos Ericsson, pessoas misantropas, exaltadas, cheias de ideias superadas.
Tâmara será ali subtraída à realidade da vida e voltará à casa paterna com o cérebro carregado de ciência e o coração com exagerada sensibilidade, incapaz de retomar o equilíbrio, permanecendo isolada como sua mãe.
Tudo lhe terá sido retirado sem que nada lhe tenha sido dado em troca para sustentá-la na luta com a vida e os homens, pois armada apenas com o dever e a virtude é bem difícil subsistir.
O príncipe ouvira silenciosamente a longa narrativa da velha senhora.
— Em resumo, a senhora teme que a senhorita Tâmara não se torne muito virtuosa — observou ele ironicamente após curto silêncio.
— Ao contrário — retrucou a Baronesa com vivacidade.
Ela terá dignidade e reserva demais para agradar os homens e muito orgulho para dobrar-se às circunstâncias.
Será bela demais para passar despercebida e muito exigente para encontrar marido com o qual simpatize, pois seu espírito muito evoluído lhe fará ver sem ilusão as deficiências, o vazio e os vícios de todos.
Em uma palavra:
faltará a ela a ingenuidade de acreditar no que é falso e a simplicidade para desculpar o que desprezar.
Pobre menina!
Eu a lamento, porque é cem vezes melhor ser cega do que lúcida demais, sobretudo na vida conjugal.
A entrada de várias pessoas impediu Ugarine de responder e a conversação tomou rumo diferente.
Os oito dias que Tâmara passou em casa do pai foram ocupados, em grande parte, pelos preparativos da viagem.
Mesmo assim, sua madrasta, que somente se sentia bem no turbilhão da sociedade, levou-a a várias reuniões, em uma das quais ela teve oportunidade de rever o príncipe Arsénio Ugarine, que exercia sobre eia verdadeira fascinação.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 06, 2016 8:38 pm

À véspera da partida, dia da recepção habitual de seus pais, a casa encheu-se de gente e entre os convidados estava Ugarine.
Após o chá, muitos instalaram-se às mesas de jogo.
Liberada de qualquer compromisso, Tâmara recolheu-se a um divã e, de seu recanto algo obscuro, observava o príncipe Arsénio, que ela não se cansava de contemplar e no qual tudo era de seu agrado — o sorriso desdenhoso e sarcástico, o olhar enfarado e indiferente de seus grandes olhos negros, tudo, até o gesto indolente com o qual distribuía as cartas.
O pensamento de que não mais o veria apertava o coração de Tâmara.
Se ao menos pudesse levar um de seus numerosos retratos que vira nos álbuns!
Mas não ousava pedir um deles à sua madrasta, temendo o rubor traidor que lhe subia à face só em pensar nisso.
Após a partida dos convidados, a moça retirou-se para o seu quarto de dormir, mas, interiormente agitada e insone, dispensou a camareira e, apesar do avançado da hora, sentou-se junto à escrivaninha e se pôs a guardar numa caixinha alguns objectos espalhados sobre a mesa.
Ali se encontrava também uma foto colorida de sua mãe, cópia de um grande retrato a óleo pendurado no gabinete de trabalho de seu pai.
Tâmara o aproximou da lâmpada e contemplou a imagem querida.
A Baronesa havia dito a verdade:
mãe e filha se pareciam extraordinariamente; só que uma delas era ainda uma criança, enquanto a outra estava no auge da sua beleza.
Logo o pensamento de Tâmara desviou-se e, de sua mãe, voltou a Ugarine.
A imagem fascinadora do jovem bailava ante seu espírito e o desejo de possuir um retrato dele despertou nela com nova intensidade.
Porque não o pegava, mesmo sem permissão?
Quem haveria de notar um só retrato faltante?
E, por certo, não havia mal algum em levar consigo o modelo de uma cabeça particularmente bela e que lhe agradava do ponto de vista artístico.
Com súbita resolução, ela levantou-se e, como uma sombra, deslizou pelo salão.
Com as mãos trémulas, retirou de um álbum um grande retrato do príncipe e o substituiu por outro fotografia.
De volta ao seu quarto, envolveu o seu tesouro em um papel de seda e o fez escorregar para o fundo da caixa.
Tâmara não se dava conta do sentimento que a fazia agir daquela maneira.
Nem sequer pensava na indiferença do herói de seus sonhos, que não havia tido para ela um só olhar.
Estava contente em poder apenas contemplá-lo quando o desejasse e, subitamente tranquilizada, deitou-se e dormiu o sono calmo e profundo da juventude.

1 Grande Morskóia — Nome de uma rua de São Petersburgo, hoje com outra denominação, na qual, na época tzarista, residiam, em sua maioria, os elementos da nobreza.
2 Titânia — Soberana do reino das fadas e esposa de Oberon na peça “Sonho de Uma Noite de Verão”, de Shakespeare.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 06, 2016 8:38 pm

O doce exílio em Estocolmo

Ardatov levara pessoalmente a filha a Estocolmo, mas negócios urgentes exigiam sua presença na Rússia e ele partiu ao cabo de dois dias.
Antes de embarcar no navio que o levaria de volta, chamara Tâmara em seu quarto e lhe dera uma carteira bem suprida de dinheiro para as suas pequenas necessidades; em seguida, abraçando-a, havia dito, com lágrimas, nos olhos e agitado pela mais penosa emoção:
— É com o coração pesado que me separo de você, minha querida filha, mas se você se sentir triste, se ficar entediada aqui, escreva-me com franqueza e em dois anos eu lhe prometo levá-la de volta.
Após a partida de seu pai, Tâmara voltou para casa em lágrimas, mas a afeição que lhe testemunhou toda a família Ericsson fez retornar ao cabo de alguns dias sua alegria habitual.
A Sra. Eveline Ericsson era uma mulher ainda bonita, de modos aristocráticos, sempre doce e séria.
Mantinha a casa em uma ordem exemplar e era, certamente, a alma e o centro da numerosa família que se agrupava em torno dela.
O marido era pintor, homem instruído e distinto.
Devotava-se, como »a esposa, à educação dos cinco filhos, dos quais o mais velho, de vinte anos, era cego.
O pai do Sr. Ericsson vivia também ali na casa, onde ocupava três cómodos, atravancados de alto a baixo de livros e manuscritos.
Antigo professor de história e de arqueologia, o velho sábio só se sentia bem entre seus livros queridos, trabalhando, ainda, assiduamente na sua obra capital:
um tratado sobre as antiguidades escandinavas.
Nada era mais calmo do que aquele ambiente, onde tudo era regulado como num relógio e onde cada membro da família contribuía, na medida de suas forças, para o bem-estar comum.
Dessa forma, o mais velho dos filhos, apesar da cegueira, tocava violão como verdadeiro artista e participava de concertos; a Sra. Eveline fazia, em várias línguas, bem remuneradas traduções, em vista da perfeição com que as executava e, nos momentos de lazer, pintava com aquarela.
Dessa forma, a despeito da modesta fortuna, os Ericsson viviam confortavelmente, passando o inverno na cidade e o verão numa bonita vila à beira-mar, construída no meio de vasto jardim.
Tâmara sentia-se bem ali naquele ambiente ao qual se habituara.
Gostava de Eveline e de seu marido como de parentes próximos e as lições de pintura que lhe dava o 'tio Ivar, como o chamava, eram para ela os melhores momentos do dia, pois era uma artista nata e cada patamar da arte que escalava a enchia de alegria.
O verão passou alegremente — era um tempo de repouso para todos e diariamente a família fazia excursões pelos arredores, ou passeios no mar.
À noite, Malcus tocava violão ou cantava com a sua mãe, e com esse pequeno concerto a família encerrava o dia.
Mas quando chegou o inverno, Tâmara começou a sentir um pouco de tédio; seus pequenos companheiros de distracções ficaram absorvidos pelos estudos, quase nunca vinham visitas e, entre os livros, poucos romances eram encontrados.
Ela começou a sentir falta da animação e da alegria barulhenta que reinava em casa de seu pai.
Voltava a pensar em Ugarine que, em sua terra, ela teria podido ver com frequência, tomada de tristeza e despeito, encerrava-se no seu quarto, contemplando o retrato do príncipe e negligenciando os estudos de pintura.
A Sra. Ericsson havia claramente observado as oscilações no humor de sua hóspede e, certa manhã, chamou-a aos seus aposentos pessoais.
— Minha querida — disse ela fazendo-a assentar-se junto de sua mesa de trabalho — há muito tempo que estava para pedir-lhe que me ajudasse.
Veja: pinto leques para uma fábrica — é um trabalho fácil e elegante, mas que exige conhecimento e bom gosto.
Se eu lhe der algumas indicações, você pintará melhor-que eu sobre a seda e o cetim.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 06, 2016 8:38 pm

Tendo algo que fazer, você sentirá menos a nossa solidão e ainda me ajudará no trabalho, como poderia fazer minha filha, pois gosto tanto de você como dela, você sabe.
Contudo, se você não tem vontade de fazer isso, diga-me com franqueza.
— Que é isso, “tia” Eveline?
Certamente que quero ajudar a senhora e aprender esse trabalho tão bonito! — respondeu Tâmara com os olhos brilhantes.
A partir daquele dia, Tâmara trabalhou activamente com a Sra. Ericsson, feliz em poder ajudá-la e sem tempo para entediar-se.
Foi também uma grande alegria ser admitida com o seu cavalete ao atelier de seu mestre e trabalhar com ele e com o segundo filho, Eric, que também escolhera a profissão de pintor.
A competição entre os dois jovens era viva, mas a moça suplantou logo o seu companheiro e o pai apontava como modelo a seu filho a segurança de seu pincel, a transparência do seu colorido e a expressão de autenticidade que ela imprimia ao seus quadros.
Uma carta que Tâmara recebeu nessa época- veio quebrar* toda essa quietude.
A moça mantinha assídua correspondência com seu pai e sua madrasta.
Quanto às colegas de internato, pareciam
havê-la esquecido, com excepção de Nadina, que lhe participara seu noivado com o Coronel Kulibine e lhe contara todas as novidades de seu interesse.
A carta que trouxe perturbação à alma de Tâmara veio de Catarina e constava de várias páginas.
Com a ousada sem-cerimónia que lhe era própria, a Srta. Migusov descrevia a viagem que fizera ao estrangeiro, os inúmeros bailes, concertos e festas alegres dos quais havia participado, bem como os estonteantes vestidos do costureiro Worth, de que todas as mulheres sentiam tanta inveja.
A maior parte do relato, contudo, era dedicada às suas conquistas e estava impregnada da mais orgulhosa satisfação:
“Meu milhão tem produzido todo o resultado que eu esperava — já abrasou muitos corações — escrevia ela.
Em Nice, um príncipe italiano, um marquês e um barão alemão me pediram em casamento.
O último deles quis mesmo suicidar-se ante minha recusa, mas mantive a palavra, pois nenhum deles me agradou e, quem sabe, talvez os palácios e castelos que eles se vangloriavam de possuir não fossem mais do que pardieiros em ruínas que consumiriam meus rublos?
Não, muito obrigada.
Por ora, a liberdade antes de tudo!
E os apaixonados que me assediam aqui não terão maior sucesso que os pretendentes de fora”.
Inquieta e de cenho carregado, Tâmara apoiava-se com os cotovelos sobre a sua mesa.
A leitura dos triunfos de Catarina veio despertar nela um violento desejo de diversões e, com uma sensação de despeito, ela se perguntou por que, afinal de contas, ela deveria enlanguescer e entediar-se ali, quando o mundo era tão belo e oferecia tantas distracções.
Tanto quanto sua amiga, ela poderia brilhar nos bailes e festas e conquistar corações.
Não era ela também uma rica herdeira?
Seu pai, é verdade, não havia mencionado a importância de seu dote, mas o padrão de vida em sua casa, os vestidos e os diamantes da madrasta, tudo evidenciava que seu pai desfrutava de grande fortuna.
Estava de tal maneira absorvida em tais pensamentos, que nem notou a entrada de Eveline e que esta percebeu a nuvem que obscurecia a face de sua protegida, bem como a carta aberta diante dela.
— Recebeu más notícias, minha filha? — perguntou a Sra. Ericsson.
— Não, tia; é uma das minhas colegas de internato que me escreveu.
Se você soubesse como ela é feliz, como se diverte e que sucesso ela tem feito na sociedade!
Ela tem despertado grandes paixões...
— Posso ler a carta?
— Claro! Você verá como ela é interessante.
Um sorriso errava pelos lábios de Eveline quando ela redobrou o papel da carta.
— Quem é a autora da carta?
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 06, 2016 8:38 pm

A tola vaidade e a arrogância vulgar que destila de cada frase da carta levam a imaginar que ela seja de baixa condição social.
— Catarina Migusov é filha de um negociante muito rico — respondeu Tâmara corando.
— Deve ser um novo rico em quem a súbita fortuna não conseguiu extinguir a rudeza primitiva.
Sua filha é prova disso e você não deve, minha querida, tomar ao pé da letra todas as gabolices da Srta.
O verniz superficial do internato não pôde dar-lhe o que lhe faltava:
a educação de uma mãe instruída, distinta e inteligente, que incute desde o berço a verdadeira elegância e a delicadeza de sentimentos.
Pode você, em sã consciência, achar de bom gosto essa ostentação de uma fortuna sobre a qual é preciso falar, a fim de não ser considerada como algo comum?
Creia-me, a verdadeira aristocracia não tem necessidade de fazer tilintar o ouro na bolsa e ninguém se enganará com ela.
Quanto aos seus êxitos, são dos mais tristes.
Caçadores de dotes sempre se encontram por toda a parte, mas pode o casamento com um homem desses trazer felicidade?
O imprestável arruinado que a desposar irá desprezá-la e arruinar sua existência.
Quando você tiver maior experiência da vida, verá que tenho razão e, então, não invejará triunfos que não são devidos ao mérito do espírito, mas a um incidente financeiro.
— Mas, “tia”, eu também sou rica.
Posso, por essa razão, desprezar todo o sucesso mundano ou desconfiar de todos que me amarão?
— Não, certamente.
Mas a experiência ensinará você a distinguir homens que se interessarem pela sua pessoa daqueles que só terão em mente o seu dote.
Além do mais, minha querida, a riqueza é coisa frágil e espero que sua felicidade futura seja construída sobre bases mais sólidas do que o acaso da fortuna.
Essa base é a cultura do espírito e a do coração.
E agora, basta de falar sobre o futuro — vem ajudar-me na minha tradução.
Após esse incidente, logo esquecido, a vida retomou seu ritmo habitual e horizontes sempre novos se abriam à inteligência de Tâmara, enriquecendo-a de conhecimentos profundos e variados.
Toda tarde, enquanto os escolares preparavam suas lições, Eveline, seu marido, os dois mais velhos e a moça reuniam-se no aposento do velho Sr. Ericsson e, alternadamente, cada um lia um texto em voz alta ou eram debatidas as novidades literárias e científicas do momento.
Tâmara começara ficando um tanto à margem, ouvindo distraidamente a conversação.
Que lhe importavam a luta contra o materialismo e a teosofia, as querelas entre hipnotizadores e magnetizadores, as escavações para localização de cidades destruídas e esquecidas?
Pouco a pouco, contudo, seu interesse despertou e, em breve, ela passou a escutar avidamente a leitura dos interessantes tratados que discorriam sobre as forças ocultas da alma e as leis misteriosas e tão pouco estudadas que regem o mundo invisível, nos seus contactos com a humanidade terrestre e lançam uma luz nova sobre o porquê da vida.
A história também ficou mais -clara para ela.
A palavra mágica do velho sábio fazia reviver para seus ouvintes as antigas civilizações extintas.
Os povos desaparecidos se levantavam do esquecimento e sacudiam a poeira dos séculos.
O velho Egipto, a Assíria, a índia, a Grécia desfilaram, assim, ante os olhos deslumbrados de Tâmara.
Não eram mais nomes vazios de interesse que lhe recordavam apenas uma árida nomenclatura de datas ou de personagens lendárias — das ruínas poupadas pelo tempo, o velho arqueólogo reconstruía a vida das raças mortas, suas artes, suas ciências, suas crenças religiosas.
Os heróis lendários tornavam-se seres vivos novamente, com os quais a moça se familiarizava, compreendendo como e porque haviam lutado, trabalhado e amado.
Com a face em fogo, Tâmara contemplava as gravuras que representavam os baixo-revelos, as estátuas, os monumentos postos a descoberto pelas escavações.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 06, 2016 8:38 pm

Sem mesmo perceber, ela ficava contando as horas até a tarde.
Trabalhando com Eveline, discutia todos esses assuntos interessantes e nem sentia mais a ausência dos romances e jamais o tédio colocou sombras em seu belo rosto.
O magnetismo também a interessava vivamente.
Fez experiências com flores doentes, pássaros e com o seu cãozinho, obtendo resultados surpreendentes, que a encheram de alegria.
Quando o verão chegou novamente, Tâmara verificou, com espanto, que o longo inverno passara como um sonho.
Apesar das grandes modificações ocorridas em vista do progresso, no espírito e nas opiniões de Tâmara, uma recordação da casa paterna permanecera viva nela e a auréola que a envolvia não sofrera nenhum esmaecimento — era a lembrança do príncipe Ugarine.
A imagem do jovem exercia sobre Tâmara todo o seu fascínio primitivo.
A moça não se cansava de contemplar e de estudar cada traço daquela bela face.
Fez, afinal, vários esboços e depois retratos dele.
A cabeça do príncipe Arsénio serviu de modelo a todos os heróis que seus estudos históricos evocavam.
Exibia alternadamente a dupla coroa dos faraós, a tiara dos reis de Nínive ou o elmo de Aquiles.
Só que nenhum olhar indiscreto jamais pousara sobre esses inumeráveis estudos, cuidadosamente guardados no canto mais secreto de suas gavetas.
Nesse ambiente solitário e grave decorreram insensivelmente os quatro anos que Tâmara deveria passar na Suécia e o pensamento de sua volta à casa paterna despertava na alma da jovem um misto de alegria e apreensão.
Há dois anos ela não via o pai; a última vez que ele veio vê-la anunciou o nascimento de um irmãozinho que havia recebido o nome de Jorge e era igualmente afilhado do Almirante.
Agora Nicolai Wladimirovitch escrevia que esperava impacientemente pelo retomo da filha e o coração de Tâmara batia ao pensar em rever Petersburgo e... Ugarine.
Que estaria ele fazendo?
Nunca seu pai nem o Almirante haviam mencionado seu nome em suas cartas.
Estaria ele casado?
Esse pensamento a perseguia e lhe inspirava um sentimento pungente do qual ela não se dava conta.
Tanto queria partir logo como, às vezes, desejava ficar na Suécia para sempre, dado que sua madrasta inspirava-lhe íntima aversão.
Ali, ela amava a todos e todos a queriam muito.
Era a discípula favorita de todos e, sem perceber, tornara-se uma pequena erudita.
O avô empenhara-se em tornar-lhe atraentes as ciências mais sérias, enquanto Eveline havia desenvolvido seu gosto pela literatura e pelas artes recreativas.
Quanto ao “tio” Ivar, seu grande amigo, cultivara seu talento com o amor de um pai e quando, por ocasião do último Natal, que Tâmara passava com eles, ela lhe fez presente de um retrato de Malcus; ao abraçá-la, o pintor lhe havia dito com profunda emoção:
— Não tenho mais nada a ensinar-lhe, minha querida!
A técnica desta cabeça desafia a crítica, e a chama de vida intelectual que você soube criar para animar esta face de um cego prova que Deus dotou você daquela profundidade de observação que faz os grandes artistas.
Persevere que você atingirá o auge da arte.
— Sim, minha filha, cultiva a arte e a ciência.
Aí estão duas amigas que tornarão supérfluas a sociedade e as banais distracções do mundo — acrescentou o avô.
Creia-me, os homens perturbam o repouso, destroem o equilíbrio da alma.
Somente longe deles podemos encontrar paz e felicidade.
A arte e a ciência abrem-nos as portas dos domínios do pensamento.
Ali, nem a inveja, nem a traição, nem ;a calúnia poderão alcançar-nos e ferir-nos.
Chegara o último verão que Tâmara deveria passar com seus amigos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 06, 2016 8:39 pm

Por diversas razões, seu regresso foi adiado por três meses e somente no fim de agosto ela deveria partir para São Petersburgo.
A iminente separação pesava sobre todo a família.
Mais do que nunca, procuravam permanecer todos juntos.
As crianças preparavam lembranças para a jovem companheira e Eveline, em longas conversas, resumia os ensinamentos proporcionados à sua discípula pelo exemplo e pela palavra, discutindo e esclarecendo as graves questões da vida.
Uma tarde, a Sra. Ericsson e Tâmara encontravam-se a sós no terraço coberto por uma trepadeira.
A Sra. Ericsson fazia um trabalho manual, enquanto a moça lia para ela uma carta que acabara de receber de sua madrasta, que lhe falava de bailes, espectáculos e festas das quais iria participar durante o inverno, pois seu pai decidira introduzi-la na sociedade com toda a pompa e fazê-la casar-se, se possível.
Em seguida à leitura, Tâmara, vivamente agitada, começou a elaborar intermináveis projectos para o futuro.
Eveline ouviu com um sorriso e depois observou:
— Certamente, minha filha.
Desejo de toda a minha alma que seu futuro seja radioso e sem nuvens, mas a experiência me diz que é perigoso esperar demasiado da vida.
Tudo no mundo é tão frágil, as decepções tão numerosas, que somente uma fé inquebrantável na Providência Divina pode sustentar-nos e conservar-nos a serenidade da alma.
Terá você essa fé serena e a força de não ceder à tentação?
Somente o futuro nos dirá.
— Sem dúvida, minha fé em Deus é inquebrantável, e poderia ser de outra maneira depois de tudo o que lemos e estudamos sobre a imortalidade e a vida no Além?
Mas, porque, tia Eveline, você acha que serei tentada?
— Porque é inevitável no meio em que você passará a viver.
Para não ser tentada, é preciso viver longe dos homens e elevar-se muito acima de suas fraquezas.
— Mas, “tia” Eveline, sob a protecção de meu pai, não estou garantida contra a maldade humana?
Nossa fortuna me assegura um futuro independente, e quando me casar — prosseguiu ela corando — tratarei de criar no meu lar o entendimento e a afeição que reinam entre você e “tio” Ivar.
— Repito-lhe, minha querida, que espero para você um futuro feliz.
A prudência, contudo, me leva a lembrar-lhe que não podemos contar com nada, sobretudo com a vida humana.
Somos todos pó e ninguém conhece o momento em que se apagará aqui para regressar ao mundo do qual nos separa um véu espesso.
Os seres amados que nos cercam são como um empréstimo feito pelo destino, que nos poderão ser retomados no momento em que menos esperamos e nenhum amor poderá retê-los.
Quanto à fortuna, é uma vantagem ainda mais efémera e é connosco mesmo e não com ela que devemos contar na vida.
Tâmara empalideceu:
parecia-lhe que o futuro se cobria de escuridão e que sua alegria de viver se turvava ao contacto inevitável da lei de destruição e do tempo, esse gigante insaciável, que tudo traga.
De repente, ela pensou em sua própria vida, bem curta ainda, mas que havia passado tão depressa!
Ainda ontem ela era tão pequenina e brincava com a sua mãe!
E, contudo, já há nove anos ela estava morta.
E quantos outros haviam desaparecido no abismo desconhecido, ao encontro do qual ela também rolava com a rapidez de uma avalanche!
E, nessa corrida vertiginosa, o tempo lhe arrebataria pouco a pouco todos os que ela amava, bem como sua juventude e sua beleza, até o momento em que, envelhecida, enrugada, débil e, talvez, solitária, cairia no túmulo.
Um tremor a sacudiu e uma lágrima assomou-lhe aos cílios.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 8:21 pm

A Sra. Ericsson, que observava seus traços móveis, tomou-lhe a mão docemente e lhe disse:
— Terá você tão pouca coragem, Tâmara, que um só olhar atirado sem ilusão sobre a vida a faz tremer?
Quanto à morte, não a tema.
Se lembrei a ideia da destruição material, não é para levar você a ter medo de uma lei natural, clemente e necessária como tudo quanto foi instituído pelo nosso Pai Eterno.
A morte não é mais que uma nova fase na existência de nosso ser indestrutível.
O amor sobrevive às trevas do túmulo e nos religa àqueles que pareciam desaparecidos para sempre e que ainda estão juntos de nós.
É como se estivéssemos reunidos num aposento escuro:
não nos vendo uns aos outros, você pensaria que estamos ausentes, mas, desde que venha a luz, você pode ver-nos.
Da mesma forma a alma, ao despertar, reencontra aqueles a quem amou.
Vamos ainda mais longe.
Nada, nem mesmo o que nos parece ínfimo, se perde, desde que a afeição nos tenha ligado àquilo, pois o amor, sentimento divino, se estende igualmente a tudo quanto amamos.
Assim, a sua afeição por Biju — e ela apontou o cãozinho favorito de Tâmara — forja entre você e ele um vínculo tão indestrutível e eterno quanto aquele que liga você a mim.
A única diferença é que Biju é um irmão inferior na escala da perfeição e seu apego a ele é a protecção, o elo de atracção pelo qual o ser superior se liga ao inferior.
— Compreendo, "tia”, e sei que todas essas belas e consoladoras teorias têm sido confirmadas pelos factos.
Mas, para testar todo o benefício de tais ensinamento, é preciso ver por si mesmo.
Ah, se a mamãe me viesse dizer:
"Estou viva e velo por você” então, sim, a morte perderia todo o seu horror, mas... ela permanece muda...
— Quem sabe se a graça de Deus não concederá a você a prova da sobrevivência no Além? — respondeu Eveline com os olhos brilhantes.
Saiba, minha filha, que vive entre nós um desses seres privilegiados que servem de intermediários entre nós e os queridos que se foram.
Malcus é um médium de grande potência e as pequenas reuniões nocturnas, que tanto têm intrigado você e às quais prometi admiti-la antes que nos separássemos, são sessões mediúnicas.
— E você vai me admitir agora? — perguntou Tâmara com a face afogueada.
— Sim, minha querida, é chegado o momento de introduzir você no templo da verdade, de conferir as teorias com os factos, a fim de que a luz que ilumina sua alma a proteja como uma perfeita couraça e sustente você no mundo cheio de tentações em que irá viver.
Dois dias depois, em seguida ao chá, o pequeno círculo doméstico, composto da Sra. Ericsson, seu marido, o sogro e Tâmara, reuniu-se no salão.
Com interesse palpitante, a moça observou o cego que, logo, caiu em profundo sono e, com a segurança de um vidente, ordenou que a iluminação fosse reduzida a certo ponto e recomendou diversas disposições.
— Mas você está vendo, Malcus?
Como você me vê e às coisas que me cercam? — perguntou curiosamente Tâmara.
— Sim, sem dúvida, eu a vejo.
Você é bonita, Tâmara, e se parece muito com a sua mãe — respondeu Malcus.
Descreveu, a seguir, a moça, a cor de seu vestido e de seus cabelos e até o medalhão que ela trazia.
— Neste momento não sou cego, pois somente os olhos terrenos estão cerrados à luz — acrescentou ele — os olhos da alma vêem tanto mais claro.
As manifestações que se seguiram não deixaram dúvida alguma em Tâmara sobre a presença e a acção de uma força inteligente e perfeitamente independente dos assistentes.
Uma comunicação de sua mãe a encheu de alegria e gratidão.
Pouco depois, o jovem médium anunciou que a mãe de Tâmara desejava mostrar-se à filha.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 8:22 pm

Na noite escolhida, as luzes foram reduzidas e a cadeira de rodas de Malcus foi levada para trás de uma cortina que formava um gabinete escuro ao canto do salão.
Em seguida, profundo silêncio estabeleceu-se.
Com o coração palpitante de temor e de esperança, Tâmara olhava fixamente para a cortina, através da qual se ouvia a respiração sibilante e oprimida do médium adormecido.
Parecia-lhe que uma eternidade de espera havia decorrido, quando ligeiro ruído se fez ouvir e algumas placas fosforescentes deslizaram sobre o pano, ora desaparecendo entre as suas dobras, ora aglomerando-se como massa nebulosa.
Ao cabo de alguns instantes, o cortinado abriu-se e uma figura vaporosa, envolvida em tecidos brancos, apareceu.
Uma luz intensa brilhava em torno da aparição, clareando não somente o seu rosto sorridente, mas também a Malcus, atirado sobre a cadeira.
— Tâmara! — chamou uma voz doce, como que velada pela distância.
E a mão vaporosa e transparente da visão fez um sinal à jovem para que se aproximasse.
Toda trémula, levantou-se e veio ajoelhar-se ante aquela a quem não poderia deixar de reconhecer:
era mesmo a mãe querida que ela vira pela última vez no caixão.
Lívida e gelada naquela ocasião, permanecera insensível às suas lágrimas e ao seu desespero.
Agora, viva, bela e rejuvenescida, ela a olhava com amor.
— Estou viva, amo-a e velo por você — disse a mesma voz frágil e apagada, mas cujo timbre conhecido fez palpitar o coração de Tâmara.
A luminosa aparição curvou-se sobre ela, cobrindo-a quase com os tecidos fosforescentes que a envolviam, e um sopro tépido e perfumado aflorou sua testa.
Subitamente, tudo acabou e o salão voltou à escuridão.
Algo ficara, contudo, na mão da moça e quando a lâmpada foi acesa, todos viram que era uma rosa branca, flor maravilhosa, trazida do espaço pelo amor materno à filha exilada na terra.
O episódio suscitou em Tâmara profunda impressão.
A convicção de que sua mãe velava por ela enchia-lhe a alma de quietude e felicidade.
A lembrança da morta foi estranhamente reavivada e a moça passou a procurar com avidez tudo quanto, directa ou indirectamente, havia pertencido à sua mãe.
Nas suas conversas com Eveline, era o assunto predominante e todas as noite ela contemplava longamente o retrato dela, que seu pai lhe dera após ter deixado o internato.
Sob a impulsão de tal sentimento, a moça começou a dar preferência aos seus passeios em direcção a certo local que sempre lhe interessara mas que raramente ela visitava.
A uma hora de caminhada da residência dos Ericsson encontrava-se um pequeno bosque nos limites do qual havia um parque cercado por uma grade e, ao longe, através de verdejantes clareiras, viam-se os tectos pontudos e as torres de um castelo gótico.
A bela construção parecia deserta.
Nunca se vira ali viva alma, nem no caminho formado pelos enormes carvalhos, nem no parque.
Até mesmo o bosque era deserto e nem camponeses eram vistos nas cercanias.
Eveline gostava de ir até ali com as crianças para procurar frutinhas e cogumelos e repousar em liberdade sob a espessa floresta.
Um dia Tâmara ficou sabendo a quem pertencia o castelo.
— É do Sr. Olaf Cederstedt — respondeu Eveline laconicamente.
E, a despeito do interesse que o nome provocara na moça, a conversa ficou nesse ponto e não houve meios de fazê-la prosseguir.
Olaf Cederstedt era o nome do noivo ao qual sua mãe havia faltado com a palavra empenhada, a fim de desposar seu pai.
Tâmara sabia disso, se bem que as causas desse rompimento lhe fossem desconhecidas.
Ela sabia também que, nos últimos tempos de sua vida, a Sra. Ardatov sentira remorsos.
Uma conversa de Tâmara com a sua mãe, dois dias antes da morte desta, causara profunda impressão na criança, então com onze anos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 8:22 pm

A agonizante pediu que lhe trouxessem uma caixinha contendo um caderno, algumas cartas e um medalhão de ouro.
Após haver examinado e recolocado os objectos na caixa, ela a fechou e a entregou, juntamente com a chave, a Tâmara.
— Você é ainda uma criança, mas o seu espírito é precoce — disse-lhe a doente.
Você compreenderá e respeitará, eu sei, minha última vontade.
Conserve este cofre em seu poder — ele contém o meu diário e o retrato de um homem ao qual eu causei grandes dissabores.
Não desejo que você leia essas páginas, nas quais depositei muitas dores, mas se um dia você encontrar- se com Olaf Cederstedt, dê-lhe esse caderno, pois somente ele deverá conhecer o que contém.
Entenda-me bem:
você não deve procurá-lo e, se souber que ele morreu, queime a caixa.
Você lha entregará somente se o acaso colocá-lo em sua presença, pois então terá sido vontade de Deus, que ele tome conhecimento de que fui punida naquilo que pequei!
Tâmara prometeu, em lágrimas, obedecer e manteve sua palavra.
Como todas as crianças às quais a desarmonia entre os pais coloca em situação falsa e penosa, ela amadureceu precocemente e ninguém, nem mesmo Eveline, sabia do legado que conservava em seu poder.
Sem despertar a atenção de ninguém, contudo, a moça fora se informando dos factos e conseguira apurar que o Sr. Cederstedt vivia há muitos anos no exterior.
O tempo havia esmaecido essa lembrança, mas a aparição de sua mãe viera despertá-la com intensidade.
Tâmara começou a frequentar com assiduidade o pequeno bosque e ali, estendida sobre a relva, enquanto seus companheiros — os dois filhos menores de Eveline — colhiam plantas para os seus herbários, ela meditava sobre a tragédia emocional que havia mudado o destino de sua mãe e contemplava com curiosidade o castelo, onde, sem dúvida, sua mãe teria vivido e ela própria teria crescido, sob condições completamente diferentes da sua vida actual.
Oito dias antes de partir, Tâmara foi pela última vez à floresta para despedir-se do seu local favorito e contemplar o castelo.
Sentada no tronco de uma árvore, enquanto Harald e Cias colhiam cogumelos, meditava em silêncio, quando uma tosse seca atraiu sua atenção.
Viu, então, um velho magro e curvado que, de cabeça baixa, caminhava lentamente, apoiado numa bengala.
O desconhecido parecia absorto nos seus pensamentos e passou sem notar a presença da moça, mas tomado de novo acesso de tosse, tirou o lenço e o levou à boca.
Nesse momento, Tâmara viu que um objecto brilhante caíra de seu bolso ao chão.
O homem pareceu não haver percebido o incidente e continuou a caminhar.
Tâmara abandonou sua cestinha de trabalho e correu na direcção do caminho.
Apanhou ali uma pequena cigarreira de prata e em um instante alcançou o desconhecido.
Estendendo-lhe seu achado, disse-lhe:
— Senhor, por favor, aqui está a cigarreira que o senhor acaba de deixar cair.
O velho levantou a cabeça a estendeu a mão, murmurando um agradecimento.
Mas, logo que seu olhar recaiu sobre a interlocutora, recuou, apoiou-se cambaleante a uma árvore e murmurou com a voz sufocada:
— Swanhild!
Espantada e inibida, Tâmara olhava o estranho sem compreender sua agitação, mas, ao ouvir o nome de Swanhild, singular suspeita atravessou seu pensamento como um clarão.
— Swanhild era o nome de minha falecida mãe.
Swanhild Ardatov — disse ela.
— Sua mãe? Sim, sem dúvida, e ela é morta! — murmurou o velho baixando a cabeça.
Morta! — repetiu.
Tudo acabado; ninguém pode contar com os mortos.
Mas, e você, como se chama? — perguntou, segurando bruscamente a mão da moça.
— Meu nome é Tâmara Ardatov.
E o senhor não é Olaf Cederstedt? — perguntou ela hesitantemente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 8:22 pm

— Ê esse o meu nome.
— Ê do senhor, então, que minha mãe falou antes de morrer e...
— Ela falou de mim antes de morrer? — interrompeu o velho com a voz brusca, enquanto os clarão brotou de seus sombrios olhos azuis.
E ela foi feliz?
Mas, que digo eu?
Não é a filha que vai saber se seu pai fez a felicidade de sua mãe.
— Minha mãe não foi feliz — disse Tâmara em voz baixa — e antes de morrer ela me entregou seu diário e um medalhão que eu a vi contemplar muitas vezes.
“Se algum dia — disse ela — você se encontrar com Olaf Cederstedt, entrega-lhe estes objectos, mas não o procure.
Se o acaso colocar você em sua presença, terá sido um sinal de que, pela vontade de Deus, o homem ao qual causei tantos dissabores deve ler minha confissão e ficar sabendo que fui punida naquilo que pequei“.
O velho ouvira, respirando penosamente.
Após um instante de silêncio, disse:
— Muito obrigado, minha filha, por tudo o que você acaba de me dizer.
Espero impacientemente o legado supremo daquela que foi a felicidade e a desgraça da minha vida.
Venha me ver.
Moro no pequeno castelo que você vê daqui.
Mas e você? onde mora e o que faz aqui na Suécia?
— Moro em casa do professor Ivar Ericsson.
Por ordem de minha mãe, passei quatro anos com a família de “tia“ Eveline.
— Ah! em casa da Sra. Eveline Ericsson!
Há bem uns vinte e cinco anos que não a vejo, mas não importa.
Transmita-lhe meus cumprimentos e venha logo.
Quer que amanhã lhe envie uma carruagem para buscá-la?
— Ah!, não, muito obrigada!
Gosto de caminhar.
Irei vê-lo amanhã, como o senhor deseja.
Muito emocionada, Tâmara regressou a casa e o relato de seu inopinado encontro emocionou não menos à “tia“ Eveline, que, no entanto, recusou-se a acompanhar a jovem, como esta desejava, à visita do dia seguinte.
— Eu ignorava que Cederstedt houvesse retomado do exterior.
Minha presença despertará nele muitas e penosas lembranças e, por isso, não irei vê-lo.
Leva Harald ou Adolphe com você e entrega-lhe o legado de sua mãe.
Pobre Olaf! Sofreu muito por tê-la amado tão cordial e fielmente.
Deixemos, porém, dessas tristes recordações.
Pela manhã do dia seguinte, antes de se pôr a caminho, Tâmara retirou do fundo de seu armário o pequeno cofre de cantoneiras de prata e o abriu.
Não tocou nem no caderno nem nas cartas, mas retirou o medalhão e contemplou longamente a miniatura representando um jovem louro, de olhar enérgico, traços nobres e simpáticos, e no qual tornara-se difícil reconhecer o velho curvado, de feições angulosas, que ela havia encontrado na véspera.
Somente os olhos azuis, penetrantes e cheios de fogo conservavam-se os mesmos.
Com o coração um tanto oprimido, Tâmara e seu pequeno companheiro chegaram ao castelo e foram recebidos por um velho servidor de cabelos brancos, que estremeceu ao ver a moça.
O fiel criado servia a seu senhor há quarenta anos e se lembrava bem de sua noiva.
Respeitosamente, pediu aos jovens que o seguissem e os conduziu através de numerosos salões ao gabinete de seu patrão.
Tâmara examinava com curiosidade o luxo severo e o arranjo às vezes estranho dos aposentos que ia cruzando.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 8:22 pm

Viam-se por ali, acumulados em pitoresca desordem, objectos raros provenientes dos mais diversos lugares:
preciosas porcelanas e admiráveis bronzes da China e do Japão estavam colocados ao lado de grotescos ídolos hindus; tecidos orientais fruta-cor recobriam as paredes, servindo de pano de fundo a curiosas antiguidades egípcias e gregas e, sobre as mesas, classificadas como em um museu, viam-se miniaturas de navios de todas as dimensões, desde os de três mastros, feitos para navegação no Oceano Índico, até o iate elegante e ao pesado barco de cabotagem.
Esta última colecção suscitou menor admiração de Tâmara — ela sabia que o Sr. Cederstedt, um dos mais ricos armadores de Gotemburgo, possuíra toda uma frota de navios mercantes, os quais singravam lucrativamente todos os oceanos do planeta, antes que ele se retirasse à vida privada.
Mas os olhos do pequeno Harald, que tinha paixão pelo mar, estavam pregados às miniaturas e era com pesar que ele continuava a caminhar.
Por fim, o velho servo os introduziu um vasto gabinete de estilo gótico.
As paredes eram cobertas de lambris de madeira entalhada.
Nas prateleiras das estantes alinhavam-se livros e manuscritos, enquanto altas janelas de vitrais coloridos emprestavam ao aposento a aparência de uma biblioteca conventual.
Cadeiras de espaldar alto e reposteiros de veludo violeta acentuavam ainda mais essa impressão.
Ao lado de uma das janelas abertas e ornadas de flores estava sentado o Sr. Cederstedt, com um jornal nas mãos, mas não o lia e logo que percebeu a presença dos dois visitantes, um sorriso iluminou sua pálida face.
— Bom dia, meus jovens amigos.
Sejam mil vezes bem- vindos — disse cordialmente.
Não é necessário apresentar-me o filho de Eveline Ericsson — é o retrato dela.
Com um gesto carinhoso, passou a mão sobre a cabeça loura do menino e, em seguida, virando-se para o velho criado, acrescentou com emoção:
— Veja, Justin, esta é a filha de Swanhild!
— Ah! senhor, pensei que estava vendo a própria senhorita Swanhild!
Só que me parece que ela era um pouco mais alta.
— É verdade, e os cabelos um pouco mais claros, mas esses detalhes se perdem no conjunto.
E agora, meu velho Justin, diga à Sra. Berglund que mande servir-nos a refeição da manhã.
Depois do chocolate, o senhor Cederstedt ordenou a Justin que fosse mostrar a Harald todas as curiosidades do castelo e retomou com Tâmara ao seu gabinete.
— Agora, querida filha, vamos conversar — disse-lhe, fazendo-a sentar-se numa cadeira em frente.
— Antes de tudo, senhor, permita-me entregar-lhe o legado de minha mãe — respondeu a moça apresentando-lhe o cofre.
Com a mão ligeiramente trémula, Olaf abriu a caixa e, de olhos velados pelas lágrimas, examinou os objectos ali contidos.
Numa espécie de veneração, retirou o caderno e colocou tudo junto num velho móvel entalhado.
Em seguida, retomou seu lugar e mergulhou em sombria meditação que Tâmara não ousou interromper.
Após longo silêncio, ele se recompôs e, tomando a mão da moça, apertou-a fortemente.
— Muito obrigado, minha querida, pelo raio de sol que a sua vinda projectou sobre os meus últimos dias.
Estou em paz com o passado e a sua presença faz desaparecer o véu que se estendera entre mim e aquela de quem você é a imagem viva.
E, agora, fale-me de sua mãe e de seu fim, e também de seu pai:
lamenta ele muito a mulher incomparável que perdeu?
— Sem dúvida, ele lamenta muito a perda de mamãe, mas casou-se novamente.
— Casou-se outra vez?
Com quem? — perguntou o sueco, com o cenho contraído.
— Com uma actriz francesa, senhorita Lúcia Morin.
Tenho agora uma irmã e um irmão, filhos de minha madrasta.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 8:22 pm

Uma expressão de raiva e desprezo crispou a face de Olaf.
— Traidor! foi então para sacrificá-la a uma mulher do teatro que você ma roubou! — murmurou ele, esquecido da presença da sua interlocutora e absorvendo-se novamente num silêncio ainda mais longo.
Tâmara observava-o com ansiedade, acompanhando as mutações nos traços móveis do velho que traduziam as penosas emoções que o agitavam.
Enfim, Cederstedt recuperou-se, passou a mão pela testa e, desejoso, sem dúvida, de imprimir novo rumo â conversa, disse, apontando um belo eloendro junto à janela e do qual ele estivera maquinalmente a fazer rolar as folhas entre os dedos durante todo o tempo que tinha livres as mãos.
— Veja ,Tâmara, este arbusto de flor é descendente de um que plantamos juntos, sua mãe e eu, no dia do nosso noivado.
— Dê-me uma de suas flores.
Hei-de levá-la ao túmulo de mamãe como um testemunho visível de seu perdão — disse a jovem com vivacidade.
— Nesse caso é o arbusto inteiro que lhe dou, com o pedido de que você o plante sobre o túmulo da minha querida Swanhild.
Será o meu beijo de perdão, minha mensagem de amor e de pesar que você lhe transmitirá.
Ele curvou-se, levou aos lábios uma das flores e Tâmara viu que uma lágrima rolara sobre as folhas do arbusto.
Pouco a pouco o velho acalmou-se e, em conversa amável, fez muitas perguntas à moça sobre ela mesma e sobre seus planos futuros, bem como sobre sua mãe e as circunstâncias de sua morte.
Ao separarem-se, Cederstedt aproximou-se de filha da noiva traidora e depositou um beijo em sua testa.
— Não leve. a mal este carinho paternal, querida filha, mensageiro da paz e do perdão — disse ele com emoção.
Que o céu proteja sua encantadora cabeça, seu coração puro de toda infelicidade, de toda decepção!
Mas, se algum dia você tiver necessidade de um amigo devotado, conte comigo como um parente muito chegado.
Naquela mesma noite, um jardineiro levou o arbusto prometido, já embalado cuidadosamente para viagem numa cestinha de vime.
Tâmara prometeu velar cuidadosamente durante a viagem pela preciosa flor, mas decidira nada dizer a seu pai de seu encontro com Olaf para não suscitar nele penosas recordações.
Os dias que se seguiram foram completamente absorvidos pelos preparativos da viagem, que um telegrama de seu pai viera abreviar, alterando as disposições originais.
O Sr. Ardatov informava que, detido por causa de importante compromisso, não podia ir pessoalmente buscar sua filha.
Havia conseguido que uma senhora russa, esposa de um diplomata de regresso a São Petersburgo, tomasse Tâmara sob seus cuidados.
A moça ficara descontente e entristecida.
A viagem com aquela dama desconhecida lhe repugnava e a separação da família que ela amava oprimia-lhe o coração.
Dentro em breve, somente com Fanny, sua fiel camareira, ela poderia falar de seus longínquos amigos e conversar em sueco, que se lhe tornara tão familiar quanto a sua língua materna.
Fanny era uma jovem da idade de Tâmara, filha de uma modesta costureira, quase uma modista, com a qual Eveline fazia suas encomendas de roupa.
A morte do pai, um gravador, ocorreu após longa enfermidade e por pouco não deixou a família arruinada, pois eram muitos.
As despesas excessivas haviam criado dívidas e a pobre viúva aguardava a penhora de seus últimos haveres quando Tâmara lhe veio em socorro.
Amplamente provida de dinheiro pelo seu pai e gastando pouco, a moça pôs fim, generosamente, a todas as preocupações da pobre família, de cuja desgraça soube por intermédio de Eveline.
Pagou todas as dívidas, encarregou-se das despesas de colégio dos dois meninos e tomou Fanny, a filha mais velha, como camareira.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 8:23 pm

Cheia de reconhecimento, esta ligou-se profundamente a Tâmara, considerando uma grande felicidade poder acompanhar sua benfeitora.
No dia da partida, Tâmara dava os últimos retoques na sua roupa, quando Eveline entrou, dispensou Fanny e, conduzindo sua pupila a um divã, disse-lhe, abraçando-a:
— Venho buscar você para o almoço, mas, antes de passarmos ao salão, queria dizer-lhe umas palavras, minha querida.
Não nos vamos ver por muito tempo, anos talvez, e o mundo no qual você passará a viver é de tal maneira diferente da austera reclusão de nossa família, que seu contacto será a pedra de toque de seu carácter.
Naquela sociedade brilhante, mas corrupta, você estará em choque permanente com o egoísmo e a traição.
Os andrajos brilhantes, os títulos, o verniz mundano disfarçam ao primeiro olhar o vazio do coração, a pobreza de espírito, mas ao primeiro choque, ao primeiro conflito de interesses, toda a secura, todo o egoísmo daqueles insaciáveis gozadores há-de mostrar-se em toda a sua nudez, ferindo dolorosamente as almas mais delicadas.
- Mas talvez eu tenha a sorte de não conviver com pessoas assim tão odiosas.
Há por toda a parte gente honesta e boa, não é? — disse Tâmara com voz incerta e lágrimas aos olhos.
Eveline apertou-a contra o coração com ternura:
— Eu o desejo, sem o esperar, minha filha.
A vida dissipada da alta sociedade e o piso dos salões são terreno muito fértil para a presunção, as rivalidades mesquinhas, a vaidade.
Como não iriam brotar disso tudo as más paixões?
Os homens, cínicos e ambiciosos, só buscam o prazer ou o interesse pessoal.
As mulheres, viciosas e adúlteras, somente pensam em adornos e conquistas.
Para apossar-se de um partido vantajoso, arrancar uma amante a uma rival, despreza-se honra e dignidade, enquanto lealdade e amizade cessam de existir.
Contudo, esse quadro tristíssimo não deve assustá-la.
A vida é uma batalha que cada um de nós deve sustentar e você deve temê-la menos do que os outros.
Na medida de nossas forças, armamos você para a luta.
O seu saber e o seu talento garantem-na contra os imprevistos da fortuna — você tem condições de sustentar-se na hipótese de um revés acontecer.
O seu gosto pelo estudo, as leituras sérias e o trabalho proporcionam-lhe certa independência da sociedade, se algum dia você for abandonada por ela.
Com tais suportes espirituais você jamais se sentirá isolada.
Enfim, os preceitos do bem que temos procurado transmitir-lhe o conhecimento do destino da alma devem proporcionar-lhe força necessária para resistir ao mal que investir contra o seu coração e ferir o seu olhar.
Que o dever, tal como nos dita a consciência, regule todos os seus actos.
Esse guia incorruptível mostrará sempre a você o caminho recto.
Ainda uma palavra final, minha querida:
guarde cuidadosamente a sua dignidade de mulher — ela é o nosso mais precioso escudo.
Sua dignidade deve ser mais preciosa que suas conjecturas ou sua posição, mais preciosa mesmo que o próprio amor, pois o amor sem dignidade leva à queda.
Evite os maus livros, essa literatura moderna aceita nos grandes salões da sociedade e que, sob o pretexto de naturalismo, chafurda na lama social, abastarda o pudor, a delicadeza de sentimento e nivela o ser humano ao mais baixo animal.
Seja, pois, forte na luta inevitável.
A vida entre os homens é dura e, por isso, tanto mais meritória a vitória e espero que, quando nos revermos, encontre você tão pura de coração quanto hoje e possa dizer à sua mãe que cumpri a minha tarefa.
Banhada em lágrimas, Tâmara atirou-se ao pescoço da Sra. Ericsson.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 8:23 pm

— Juro, “tia” Eveline, meditar sempre sobre suas lições e sobre o exemplo que você e os seus me proporcionaram.
Qualquer que seja o futuro que Deus me reserva, permanecerei honesta e cumprirei o meu dever.
Um longo beijo selou a promessa.
Em seguida, as duas passaram ao salão, onde toda a família estava reunida para despedir-se da discípula favorita, da companheira amada.
O coração de Tâmara estava partido.
Ao deixar aquela família honesta e terna, à qual a uniam mil laços de simpatia, parecia-lhe deixar um porto calmo e seguro para enfrentar um futuro incerto e, talvez, tempestuoso.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 8:23 pm

O Barão paralítico

A viagem dissipou as negras ideias da moça e, chegando à casa paterna, sempre tão cheia de vida e de movimento, ela retomou todo o alegre abandono da juventude e os quatro anos decorridos após a sua saída do internato lhe pareciam como um sonho, tão depressa haviam passado.
Ela foi recebida de braços abertos.
Sua madrasta estava bonita, alegre e enfeitada como sempre, mas seu pai lhe parecia mudado:
envelhecera, profundas rugas lhe marcavam a face e uma inquietação e agitação íntimas haviam substituído a descuidada bonomia do grande senhor.
Olga crescera bastante e estava muito bonita, mas suas maneiras e suas pretensiosas denguices desagradavam fortemente a Tâmara.
Quanto ao pequeno Jorge, era uma criança encantadora que ela não se cansava de abraçar.
O primeiro dia foi passado inteiramente em família.
Somente o Almirante veio para o chá e trouxe uma enorme caixa de bombons.
Conversaram todos alegremente.
— Neste inverno Tâmara frequentará bastante a sociedade.
É preciso pensar em casamento, não é, Nicolai Wlãdi? — observou, rindo, o Almirante.
— Mas, sem dúvida, uma filha tão notável!
Minha cara Lúcia, você providencia para que não lhe faltem boas roupas.
— Já amanhã vou levá-la à minha costureira para encomendar-lhe um pequeno enxoval — respondeu a Sra. Ardatov com vivacidade.
— Papai, meu padrinho, vocês estão querendo livrar-se de mim?
Logo no dia da minha chegada já falam em me casar! — disse Tâmara corada e amuada ao mesmo tempo.
— Você não entende disso, minha filha.
Quanto mais um pai ama a sua filha, mais ele deseja desfazer-se dela — respondeu Sergei Ivanovitch, induzindo-a a tirar mais um bombom.
No dia seguinte uma vida nova começou para a moça — idas às lojas, visitas à baronesa de Raban e a outras famílias já de volta à cidade, festas nas redondezas ocupavam-na o dia todo e as noites.
Tâmara sentia-se como que num turbilhão.
Não se esqueceu, contudo, de comparecer ao túmulo de sua mãe, onde plantou o arbusto enviado pelo homem fiel que havia amado apenas a ela e permanecido solitário o resto de sua vida.
Durante uma dessas saídas matinais ao Gostinnu Dwor, Tâmara encontrou-se inopinadamente com a sua antiga colega Nadina, que parecia encantadora e lhe fez prometer uma visita para o dia seguinte, a fim de tomar com ela uma taça de chá em companhia de Catarina e Natália.
Essa pequena reunião causou à moça certo desencanto — todas as suas antigas amigas haviam mudado e ela não encontrou mais o tom de harmonia que as unira outrora.
A Sra. Kulibine estava mais bonita — era uma jovem saudável e de formas opulentas, mas suas maneiras eram bruscas e dengosas. Catarina Migusov rivalizava com ela nesse ponto — como sempre, falava alto e não pensava senão em bailes e conquistas, mas se havia tornado muito mais feia, a pele desbotara e o rosto emagrecido revelava suas linhas pouco clássicas. Quanto a Natália, parecia enfadonha e uma cólera concentrada fervia em seu íntimo, pois recebeu de muito mau humor a maliciosa informação de Catarina, segundo a qual certo senhor — que ela mencionou com nome e tudo — voltara casado de uma viagem à Crimeia.
Evidentemente ela encarava muito menos filosoficamente que Catarina o facto de não estar ainda casada.
De modo geral, a conversa desdobrou-se em tomo de uma multidão de pessoas desconhecidas de Tâmara e estava cheia de subentendidos que não faziam sentido para ela.
Incomodada pelo tédio e também pela fumaceira que enchia o salão — as três fumavam desesperadamente — aquilo tudo lhe parecia odioso.
O nome de Pfauenberg, pronunciado por Catarina, contudo, despertou inopinado interesse em Tâmara.
A baronesa de Raban já lhe havia falado de um jovem oficial com esse nome, a quem ela parecia muito afeiçoada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 8:23 pm

Entre outras coisas, ela lhe confiara, sob o manto do segredo, que Pfauenberg era espírita e médium de extraordinário poder, mas que ocultava cuidadosamente essa faculdade que poderia prejudicá-lo na sua carreira, de vez que o Espiritismo ainda era mal visto nas altas rodas da sociedade que o jovem frequentava assiduamente.
— Somente para mim e para alguns íntimos ele concorda, às vezes, em fazer uma sessão.
É evocado, nessas ocasiões, o seu guia espiritual, Calchas3 que me prescreve um tratamento — acrescentara a velha dama com entusiasmo.
— Calchas? Sem dúvida o Espírito adoptou esse nome, não é? — perguntou Tâmara.
— De forma alguma — é o espírito de um iniciado, grande sacerdote e sábio mencionado por Homero.
Vê-se bem pelas sublimes e sábias comunicações que ele transmite.
Ele fez a Eitel Franzovitch revelações espectaculares sobre seu passado, entre outras que ele é o próprio Páris reencarnado.4
Não se ria, sua tola.
Uma vez que cremos na reencarnação, por que não poderia ele ter sido o príncipe troiano idealizado pela poesia?
Essa conversa assomou à memória de Tâmara ao ouvir a referência ao nome de Pfauenberg e ela passou a seguir com atenção o que diziam as amigas.
Falava-se de uma rica herdeira, filha de um banqueiro, que o oficial cortejava, mas sobre suas chances de sucesso elas se dividiam:
Natália o julgava frívolo demais para assumir logo uma definição; Catarina declarou que a moça estava considerando outros candidatos e a Sra. Kulibine acrescentou com certa malícia que se Pfauenberg descobrisse um partido mais vantajoso, ele se retiraria com a maior sem cerimónia.
Quinze dias após a chegada de Tâmara, sua madrasta prosseguiu com as recepções.
— Nesta quinta-feira ainda não haverá muita gente, mas para aqueles que já retornaram à cidade é tanto mais agradável ter onde se reunirem — disse a Sra. Ardatov, pedindo à sua enteada que cuidasse com esmero da sua apresentação.
Mesmo sem a solicitação, Tâmara trataria de se cuidar bem. — uma secreta esperança lhe dizia que ela veria Ugarine.
O Almirante encontrara-se na véspera com o Príncipe, já há alguns dias de volta à cidade.
Encantadora no seu vestido de seda azul e o lenço de rendas, as faces coloridas pela expectativa e pela emoção de sua introdução à sociedade, Tâmara instalou-se no salão menor e começou a folhear um álbum, atenta ao vaivém dos criados que davam os retoques finais nos aposentos brilhantemente iluminados, bem como à conversa entre seus pais que discutiam a aquisição de uma nova carruagem.
Em seguida, chegou o Almirante com alguns senhores mais velhos e, enfim, Tâmara ouviu Lúcia saudar alegremente outro convidado.
Algumas palavras sem importância foram trocadas e, um momento após, a elevada estatura do príncipe Arsénio surgiu à entrada do salão.
Sentou-se juntamente com a Sra. Ardatov e se pôs a conversar com a moça, desejoso de saber como fora sua permanência na Suécia, sua viagem, seus projectos para a temporada.
As respostas francas e ingénuas de Tâmara muitas vezes traziam um sorriso aos lábios de Ugarine que, cumprido seu dever de polidez, virou-se para Madame Lúcia e prosseguiu contando o que acontecera a uma pessoa conhecida de ambos, e que ele presenciara enquanto no exterior.
Vendo o Príncipe e sua mãe absorvidos pela conversa, Tâmara olhou fixamente o belo rosto do herói de seus sonhos infantis e observou que ele se tornara mais pálido e mais magro e que uma expressão de cansaço e tédio parecia pesar sobre todo o seu ser.
Admirada e sob a impressão de um vago mal-estar, a moça contemplou-lhe as mãos, uma das quais brincava negligentemente com a corrente do relógio.
Um diamante, que ela já conhecia, brilhava no seu dedo, mas a aliança de ouro, tão simples e, contudo, tão significava, não era vista — o Príncipe ainda não se casara, portanto.
Tâmara estava tentando explicar a si mesma por que razão essa certeza a encheu de íntima satisfação, quando a entrada da Baronesa e de outras senhoras pôs fim a suas observações e a conversação se generalizou.
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