Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 12, 2016 9:18 pm

— Bom dia, Tâmara Nicolaevna — disse o Príncipe, aproximando-se vivamente e estendendo-lhe a mão.
Mas a moça, que parecia não notar o gesto de boas-vindas — saudou-o com a fria reserva que testemunhava a todos os modelos que vinham posar no atelier.
Ela não considerava como seus conhecidos nenhum daqueles que haviam voltado as costas ao seu pai e a ela.
Arsénio, como os outros, era apenas um desconhecido.
— Queira, senhor, indicar-me as dimensões do retrato e me dizer quando o senhor deseja comparecer para a primeira sessão — falou ela com indiferença.
O Príncipe percebeu a lição e um sentimento misto de vergonha e desprezo se apossou dele.
Seria de facto invulnerável em seu orgulho aquela moça que um dia o amara?
— Desejo um retrato de tamanho natural, até os joelhos, e serei obrigado a começar amanhã, pois ele se destina à minha noiva, sua companheira de colégio, a Srta. Catarina Migusov — disse ele, destacando bem o nome e fixando-a com um olhar perscrutador.
Ele esperava uma dolorosa surpresa ou, pelo menos, uma emoção, mas a fina e móvel face de Tâmara nada reflectiu senão imperceptível ironia.
Catarina mantivera sua palavra e comprara para marido um príncipe.
— Será, então, amanhã, senhor Príncipe.
Queira, apenas, indicar-me a hora.
Quanto ao preço, será necessário combinar com o senhor Belzoni — acrescentou ela com uma saudação que era também inequívoca despedida.
No dia seguinte, o Príncipe apresentou-se à hora combinada e após as explicações acerca da pose que ele desejava, sentou-se e Tâmara começou o primeiro esboço.
Ela conhecia de cor cada traço daquele rosto que havia sido o ideal de seus sonhos infantis, seu primeiro amor inconsciente.
Cem vezes ela o havia desenhado, segundo a fotografia subtraída a um álbum de sua madrasta, sem prever que chegaria o dia em que ela o pintaria como simples operária assalariada, para outra mulher.
Não acreditara ela, na sua ingenuidade, que para merecer o coração daquele homem tão belo lhe bastariam as qualidades de espírito e de coração e que a moça que ele dignara amar deveria ser bela e pura como um anjo?
E na realidade, o que ocorrera?
Para adquirir aquele belo príncipe, bastava uma mulher feia e vulgar possuir um milhão solidamente aplicado.
Como era enganador aquele brilhante envoltório de uma alma mesquinha e ávida, e como ela se sentia reconhecida à Baronesa por haver-lhe aberto os olhos a tempo!
Tais reflexões se chocavam em seu espírito, enquanto ela fitava seu modelo tão indiferentemente como se estivesse a contemplar uma estátua.
Ela fingia estudar os traços do Príncipe, pois não desejava, de forma alguma, fazer-lhe perceber que os conhecia tão bem.
O Príncipe, a seu turno, examinava a moça com verdadeiro interesse, surpreso ante a profunda mudança que se operara em toda a sua pessoa.
Que teria acontecido com a expressão sonhadora e doce, a tez rosada, o olhar límpido e sorridente daquela a quem ele havia comparado outrora a Titânia e chamado de “raio de sol”?
A tormenta que passara por aquela jovem cabeça produzira profundos estragos.
Uma palidez doentia e transparente substituíra a cor saudável da sua pele, a pequena boca com os cantos abaixados exprimia amarga dureza e os grandes olhos cinzentos, cintilantes e duros, eram proibitivos à aproximação de quem quer que fosse, como duas sentinelas hostis e desafiadoras.
O Príncipe absorvia-se cada vez mais na contemplação de sua companheira.
Parecia-lhe um novo ser e, ao fitar sua encantadora face e observar sua requintada distinção, ele pensou, com pesar, que era realmente uma pena que, com uma aparência tão favorável, com tanta chance de abrir caminho de um modo ou de outro, ela ficasse restrita pela sorte a um trabalho assalariado.
Numa das sessões seguintes, Arsénio Borissovitch, que observava com admiração a segurança com a qual Tâmara trabalhava e que se entediava com o mutismo que reinava entre ambos, procurou saber por que circunstâncias ela conseguira atingir aquele grau de perfeição na arte da pintura.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 12, 2016 9:18 pm

— Na família junto à qual concluí minha educação, o dono da casa era professor de pintura.
Prevendo a fatalidade que deveria abater-se sobre mim e compreendendo que com a fortuna tudo se perde — posição, conhecimentos, amizade — ele não quis que eu ficasse à mercê dos passantes.
Tive que trabalhar sem descanso para desenvolver meu talento, mas graças a essa previdência de meus pais suecos, meu trabalho me dá condições de tornar-me independente de qualquer favor estranho.
O Príncipe experimentou novamente um sentimento desagradável.
Sua conduta em relação àquela família aparecia-lhe agora em toda a sua nudez.
Para dizer algo, ele observou:
— Catarina ficou muito satisfeita ao saber que a encontrei.
Ela deseja vir e me disse que a senhora é uma grande amiga.
— Eu o fui, talvez.
A gente deixa de ter amigos quando fica pobre.
Mesmo os maiores amigos não se interessam por nós, a menos que — indefinível expressão vibrou na voz de Tâmara — a menos que um acaso faça lembrar-lhes a nossa existência.
Agradeço as amáveis intenções de Catarina Carpovna, mas rogo assegurar-lhe que não pretendo, de forma alguma, restabelecer relações rompidas dessa maneira e que não teriam razão de ser.
O olhar de Ugarine estava pregado à pálida face de Tâmara, na qual cada traço exprimia invencível orgulho e repelia desdenhosamente a possibilidade de conservar qualquer uma das antigas relações de amizade.
Por um momento, ele esqueceu tudo:
sua noiva, o passado, o futuro, para ver apenas aquela jovem enérgica e digna e uma estranha subjugação apossou-se dele.
Mas a fascinação durou pouco — ele suspirou e baixou a cabeça.
— A senhora julga as pessoas com muita dureza, Tâmara Nicolaevna, e atribui-lhes intenções maldosas de que elas próprias nem suspeitam.
Na confusão da vida mundana, muitos deveres são pisoteados, não por maldade intrínseca, mas por leviandade.
Se a senhora houvesse apelado para as relações do passado, muitos amigos devotados ter-se-iam apresentado.
— Eram todos estranhos para mim; não senti jamais o desejo ou a necessidade de apelar para a caridade deles.
A filha de Nicolai Wladimirovitch tinha direito incontestável a uma única coisa da parte dos antigos convivas de seu pai — a polidez, mas para isso não é necessário fazer apelo algum.
Arsénio sacudiu a cabeça.
— Não estou reconhecendo a senhorita.
O que aconteceu?
— Sou simplesmente uma pintora no atelier do signor Belzoni.
O senhor quer fazer o favor de levantar um pouco a cabeça, senhor Príncipe?
Não estou vendo direito a sua boca.
Alguns dias após essa conversa, Tâmara acabara de chegar ao atelier e estava ainda retirando as luvas, quando surgiu o Príncipe acompanhado de Catarina.
Esta dirigiu-se para a antiga colega e abraçou-a com ostentação.
Em seguida, começou a palrar barulhentamente, como de seu hábito, gesticulando com suas grandes mãos avermelhadas e fazendo tilintar seus numerosos braceletes.
Ainda retirando suas luvas e o chapéu, Tâmara analisou-a com um olhar crítico.
Catarina, muito enfeitada, trazia um vestido de pelúcia verde guarnecido de pele e um chapéu Rubens carregado de penas, mas essa vestimenta vistosa chocava-se com a robusta pessoa que se tomara um tanta atarracada, a tez amarelada, cheia de bolsas e os olhos fatigados, com olheiras.
Essa era a mulher que o Príncipe devia amar e suportar junto dele para toda a vida!
Furtivamente, o olhar de Tâmara deslizou para ele e quando seus olhos se encontraram, ambos viraram a cabeça noutra direcção.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 12, 2016 9:19 pm

Arsénio também examinara a moça, comparando-a com a, noiva.
Nunca a feiura vulgar da senhorita Migusov contrastara tão cruelmente com a aristocrática beleza de Tâmara.
Ela parecia uma serva endomingada ao lado de uma esbelta jovem tão elegante no seu simples vestido de luto, o chapéu de crepe com um longo véu que lembrava uma touca no estilo Mary Stuart, emprestando-lhe uma aparência toda particular.
Um longo suspiro escapou do peito do Príncipe — porquê, meu Deus, o milhão repousava nas robustas mãos de sua noiva e não naquela adorável mãozinha de contornos clássicos e dedos afilados?
Seria, então, juntar o útil ao agradável...
Ah, porque a fortuna é cega?
Catarina nada suspeitara das divagações de seu noivo.
Sentada ante o cavalete, ela fitava com o lorgnon o retrato ainda em esboço e falava sobre a pose e os trajes que ela queria absolutamente em grande estilo.
De repente, ela virou-se para sua antiga companheira e exclamou com vivacidade:
— Por favor, Tâmara, não vai dar a Arsénio alguma expressão imperdoável, como você fez com o Príncipe Fluresco.
Vi o retrato dele e de Madame Elaponine, mas ouvi a respeito opiniões muito contraditórias — uns dizem que são obras-primas de execução, mas também de malícia, enquanto que o Príncipe, com quem estive ontem, me assegurou que são péssimos, sem a sombra de uma semelhança, com borrões de principiante.
— São sempre os ignorantes e os ociosos os mais difíceis - de satisfazer — respondeu Tâmara com desdém.
Dei a um e a outro as expressões que neles vi e que correspondiam às interessantes conversas que mantinham para distraírem-se e que teriam sido apropriadas em qualquer lugar, menos no salão de uma mulher digna.
Além disso, se o Príncipe Fluresco e Madame Elaponine estão descontentes com esses borrões, só lhes resta destruí-los ou devolvê-los a mim, porque ambos foram feitos de graça e até as tintas são minhas — eles não terão nada a perder.
Catarina explodiu em ruidosa gargalhada e ajuntou às palavras de Tâmara alguns comentários pouco lisonjeiros ao Príncipe Fluresco e à sua amiga.
Em seguida, declarou ter algumas visitas indispensáveis a fazer ao seu joalheiro e à sua modista e despediu-se.
Sem mesmo notar a fria reserva de Tâmara, a senhorita Migusov convidou-a a ir vê-la e a assistir ao seu casamento.
O Príncipe levou a noiva até à porta e retomou para posar, mas estava sombrio e distraído.
Tâmara desejava terminar aquele retrato o mais depressa possível, e ainda que já há algum tempo viesse sentindo-se indisposta e excessivamente fatigada, chegava mais cedo ao atelier para trabalhar nos acessórios.
Certa manhã, ela pintava com ardor uma das mãos de Ugarine pousada sobre o braço da cadeira, quando Stella Belzoni, que arrumava alguns objectos, veio colocar-se atrás de sua cadeira e após uma longa e silenciosa contemplação, exclamou:
- Meu Deus!
O Príncipe é um belo homem e que mão adorável!
É raro que um homem tenha a mão de formato tão clássico.
— A senhora tem razão — respondeu Tâmara com mordente sarcasmo — é uma belíssima mão, verdadeira mão principesca, que tem vergonha de trabalhar, mas que hão tem vergonha de vender-se.
E como é preciosa essa mão clássica: vale um milhão!
Um pequeno grito que Stella deixou escapar fê-la levantar o olhar e, não sem alguns constrangimento, ela viu Ugarine de pé junto à cortina levantada.
Sua face era de um vermelho acobreado e uma expressão como jamais vira nele, contraía seus traços.
Stella fugiu como um pássaro assustado, mas Tâmara não era mulher de recuar ante as consequências de suas palavras.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 12, 2016 9:19 pm

Pronta a retrucar, ela levantou a cabeça, mas Arsénio Borissovitch nada disse e tomou o seu lugar com ar sombrio.
Longo silêncio se estabeleceu; mas como seu modelo baixava obstinadamente a cabeça, a moça observou calma:
— Queira levantar a cabeça e olhar para mim, Príncipe, pois, assim se toma impossível captar a expressão do seu rosto.
O Príncipe empertigou-se e seu olhar mergulhou como uma chama nos olhos límpidos e frios que — pelo menos, pareceu-lhe — reflectiam leve ironia.
— Será que o senhor não poderia assumir uma expressão menos carrancuda, senhor Príncipe?
Esta não me parece, de forma alguma, apropriada a um retrato destinado à sua futura esposa.
— A senhora acha indispensável que eu tenha a aparência alegre de um noivo amoroso e feliz? — respondeu Arsénio com um sorriso constrangido.
— Permiti-me formular uma observação — não uma opinião, Príncipe, mas dar-lhe-ei a expressão que lhe agradar.
0 Príncipe nada respondeu e a sessão terminou em silêncio.
Naquela mesma noite, Tâmara foi visitar a Baronesa.
Magnus também viera com um livro raro que havia prometido à moça e que esta folheou distraidamente.
Em seguida, com uma aparência fatigada, apoiou-se no encosto da cadeira.
O mal-estar que a atormentava intensificara-se ainda mais; doía-lhe a cabeça e uma tristeza pesada como chumbo oprimia-lhe todos os membros.
Com inquieta e mal disfarçada ternura, Magnus a observava.
— Tâmara Nicolaevna, a senhora está com mau aspecto e parece esgotada — disse ele com uma voz estranhamente vibrante.
A senhora está trabalhando demais e deveria poupar-se e repousar um pouco.
A moça suspirou longamente.
— Que quer o senhor?
Não tenho tempo de repousar e, além disso, não creio que o trabalho me esgote, é minha alma que está fatigada!
Aspiro a um repouso para o qual não tenho nome, a morte talvez, pois sinto a matéria pesar tanto sobre meu espírito!
E será que a morte nos proporciona repouso completo?
Será que ela preenche com o éter azulado o vazio do coração?
Apoiou a cabeça nas mãos e ficou a meditar com o olhar fixo no espaço.
Uma nuvem de inquietação obscureceu novamente o olhar de Magnus, mas, tentando apagar a pungente impressão das palavras da moça, ele disse sorrindo:
— Não é preciso entregar-se a ideias tão sombrias, Tâmara Nicolaevna.
A senhora tem estado muito silenciosa.
Nem mesmo a sociedade a senhora tem flagelado como habitualmente, por isso suponho que essa indiferença lhe é prejudicial.
A senhora não deseja, porventura, que pessoas dignas sejam guilhotinadas...
Um sorriso travessou deslizou furtivamente pelos lábios de Tâmara.
— Temo que até a minha língua esteja convencida da inutilidade de guilhotinar as pessoas, pois, certamente, não falta assunto.
Meu Deus! que tipos a gente encontra!
Hoje de manhã, por exemplo, veio à casa de Belzoni um casal realmente impagável.
Imagine o senhor aí pelos seus sessenta anos, portador de uma respeitável gota, um pé morto, que ele arrasta como um cavalo manco e, ainda por cima, com uma peruca, pintado, hediondo e enfeitado como um mocinho bonito de vinte anos.
Esse monstro é um Barão Doppelberg.
— Arre! a senhora me faz desgostar do meu título — disse Magnus com uma careta.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 12, 2016 9:19 pm

— Agradeça antes a Deus por trazê-lo honrosamente.
Mas voltemos ao outro Barão.
Pois bem, ele tem uma noiva, para a qual se faz pintar.
Esta criatura, de vinte e dois anos, faz o papel de apaixonada daquele velho gordo hediondo.
É divertido e abominável ao mesmo tempo.
Isto me seria outrora inesgotável tema de zombaria; hoje, porém, não me causa senão desgosto pensar que terei que ouvir aqueles tolos pelo menos durante duas semanas.
Virão amanhã, para a primeira sessão.
Fatigada, com a cabeça pesada, Tâmara apresentou-se no dia seguinte no atelier.
Pintou com sacrifício e as vozes do Barão Doppelberg e de sua noiva irritavam-lhe os nervos.
Pouco depois chegou o Príncipe Arsénio.
Parecia ter esquecido seu rancor e observou, rindo, à meia voz:
— A senhora está com aquele casal encantador no atelier de fora.
A dama parece muito ciumenta e não menos apaixonada.
— A culpa não é dela — a morte lhe disputa esse belo tesouro.
Que piada de mau gosto seria se essa invencível rival o arrebatasse antes que ela se transforme em Baronesa!
Na verdade, não se sabe o que é mais ridículo — se a cega credulidade desse velho gordo, ou a despudorada farsa da dama.
— Que quer a senhora? — respondeu Arsénio, destacando palavra por palavra.
Uma mulher, mais frequentemente ainda que um homem, não deixará de vender-se, se a ocasião se oferece, o que é natural.
£ mais agradável viver como uma grande dama e andar de carruagem para aqui e para ali mesmo com um velho gordo, do que caminhar a pé e trabalhar para viver.
O que não impede às mulheres de julgarem com a maior dureza as uniões de conveniência, quando elas não podem realizar também uma delas.
Tâmara empalideceu até os lábios e seus olhos cinzentos, quase negros de íntima emoção, cravaram-se no Príncipe como duas chamas destruidoras.
Era, portanto, com aquela insinuação insultuosa que ele retrucava à sua observação da véspera?
Será que ele pensava que, acusando-a de ser venal como as outras, ele acobertava e desculpava sua própria miséria íntima?
Por um instante, o pincel tremeu-lhe na mão, mas ela conseguiu dominar-se e um desprezo glacial vibrava na sua voz, quando lhe respondeu:
— O senhor tem razão, Príncipe, são os parasitas que procuram e encontram oportunidade de vender-se para desfrutar do prazer de passear em carruagens que não lhes pertencem e que eles pagam representando uma farsa.
Certamente, esses ociosos, cuja trabalho consiste apenas em traficar com a própria pessoa e servir-se de todos os privilégios concedidos pela natureza ou pelo acaso, não passam sem conforto, mas, graças a Deus, não terão jamais o poder de fechar a boca e tapar os olhos de todo o mundo!
Foi a vez do Príncipe empalidecer.
Desconcertado por essa dura réplica, não conseguiu encontrar uma resposta adequada e ficou mudo.
Tâmara, contudo, sentia-se mal, a cabeça em fogo e um indefinível mal-estar oprimia todo o seu ser. Levantou-se.
— Obrigado, Príncipe.
Amanhã eu o importunarei pela última vez.
Quando chegou em casa, Fanny entregou-lhe uma carta chegada na sua ausência.
— De Lilienstiema?
Sobre o que pode ele me escrever? — murmurou ela admirada, ao ver o envelope gravado com as iniciais M.L. encimadas pelo brasão do Barão.
A carta era efectivamente de Magnus e à medida que ela a lia, um tremor nervoso apossou-se dela e seu coração batia violentamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 13, 2016 8:34 pm

“Não me foi possível vê-la e apreciar todos os tesouros de seu coração e de seu espírito, sem amá-la com toda a força de minha alma — escrevia o Barão.
Mas, certamente, o testemunho de tal sentimento jamais poderia transpor os meus lábios, pois que pode um infeliz enfermo oferecer a uma moça tão jovem e bela?
Vê-la, no entanto, sofrer e sucumbir numa luta acima de suas forças, sem ter o direito de subtraí-la dessas mesquinhas misérias, destruiu ó meu sossego.
De todas as mulheres que conheci e que conheço, a senhora é a única, Tâmara, à qual ouso dizer:
aceite a protecção de meu nome, aceite uma vida agradável, ao abrigo dos azares da fortuna.
A senhora será o anjo bom de minha vida isolada.
As crianças que estão em sua companhia serão a alegria e o futuro de minha casa deserta!”
Pálida como morta, Tâmara abateu-se sobre uma cadeira e fechou os olhos:
julgava sufocar de dor e de amargura.
A carta abria-lhe um futuro de calma e de felicidade.
Sim, ela teria sido feliz em viver com aquele homem generoso e nobre que a protegeria da brutalidade dos passantes e das humilhações da miséria, mas entre ela e Magnus levantava-se como um espectro a acusação contundente que o Príncipe lhe atirara ao rosto.
Quem haveria de crer que ela amasse sinceramente aquele doente?
Todos pensariam que ela se vendera ao paralítico que, para ter uma enfermeira, assegurava-lhe a existência.
Cobrindo o rosto com as mãos, ela chorou amargamente.
Renunciar a Magnus, que lhe era simpático, que ela preferia a todos, era tão duro que por um momento ela decidiu desafiar tudo, mas seu indomável orgulho prevaleceu.
Bruscamente, ela tomou uma folha de papel, uma pena e escreveu:
"Não encontro palavras para agradecer sua oferta generosa e seu amor desinteressado, do qual sou tão pouco digna.
Senhor de Lilienstiema, eu também o amo sinceramente e, contudo, não posso tornar-se sua esposa, pois não quero que se considere como covarde especulação a afeição leal que nos uniria.
A turba abominável, junto da qual tudo se vende, não compreenderia um sentimento puro e desinteressado.
Meu coração sangra ao escrever-lhe esta recusa, mas não vejo como agir de outra maneira.
Não guarde, porém, nenhum rancor de mim, continue sendo meu amigo como sempre — não poderia suportar a inimizade do único ser ao qual falo de coração aberto.
Quem sabe, afinal, o que acontecerá?
Sinto-me mal e pressinto que algo está para suceder que porá minha vida em perigo.
Se eu deixar esta terra, transmita um pouco da afeição que o senhor me dedica aos meus dois pobres pequenos abandonados.
Quanto a mim, levarei para a pátria eterna a sua lembrança, Magnus, como a do único homem cujo amor pairou acima de todo interesse mesquinho."
Como ela temia arrepender-se de sua decisão, apressou-se em fechar e expedir a carta.
Em seguida, atirou-se sobre o leito e se pôs a chorar.
Muito inquieta, Fanny fê-la deitar-se e lhe preparou um chá, pois arrepios gelados sacudiam a moça e sua cabeça queimava como fogo.
Após uma noite passada em febril sonolência, Tâmara sentiu-se tão fraca, que desejou continuar deitada.
Mas reunindo todas as forças de sua vontade, dominou a prostração e levantou-se para a toalete matinal.
Custasse o que custasse, ela queria ir ao atelier para terminar o retrato de Ugarine, primeiro porque o quadro deveria ser entregue antes do casamento, marcado para daí a quinze dias, e, em segundo lugar, porque ela queria livrar-se de Arsénio, que detestava por causa da insinuação venenosa que a expulsara do porto de felicidade e de paz que o amor de Magnus lhe oferecia.
Chocados com a sua aparência abatida, Belzoni e a mulher tentaram persuadi-la a voltar para casa e repousar, mas Tâmara recusou.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 13, 2016 8:34 pm

— O Príncipe posa hoje pela última vez e eu quero terminar o quadro.
Esse mal-estar não é nada de importante.
Quando Ugarine chegou, também notou a febre que queimava a face de Tâmara, seus lábios ressequidos e o brilho anormal em seus olhos, mas, após a saudação gelada e visivelmente hostil da moça, ele não se arriscou a fazer qualquer observação.
Tâmara continuou a pintar, mas sua mão tinha a segurança habitual.
De repente, ela foi tomada de uma tontura, palheta e pincel escaparam-se de suas mãos e, de olhos fechados, ela desabou sobre a cadeira.
“Água! Água!“ — gritou Arsénio, atirando-se a ela assustado.
Carlota e o marido acorreram, como também Stella, com essências com as quais friccionaram a doente que, em breve, reabriu os olhos.
— Como se sente? — perguntaram todos.
— Bem; só que tenho necessidade de repousar e devo voltar para casa.
Por favor, senhor Ercole, mande vir uma carruagem para mim.
— Minha carruagem está aí em baixo — permita-me levá-la com a Sra. Belzoni — disse Arsénio, inclinando-se sobre ela com pesar e interesse.
— Sim, sim.
Vou correndo apanhar meu casaco — exclamou Carlota, mas a moça sacudiu bruscamente a cabeça.
— Não, não. Não quero que se preocupe comigo, senhor.
Tragam-se uma viatura de aluguel.
Levantou-se, calçou as luvas e fez menção de apanhar o casaco, mas assim que deu alguns passos, desfaleceu e teria desabado ao chão se o Príncipe não tivesse corrido a segurá-la.
— Ah! a teimosia das mulheres! — murmurou ele.
Vejam, ela desmaiou, mas enquanto a língua pode mexer-se a teimosia domina tudo!
Muito assustada, Madame Belzoni não hesitou mais em aceitar o oferecimento do Príncipe.
Envolvendo-a cuidadosamente no agasalho, conduziram-na à carruagem, onde ela foi instalada ao fundo, enquanto Arsénio sentava-se no banco da frente, sem deixar os olhos do rosto lívido da moça, que jamais lhe parecera tão sedutora do que naquela imobilidade, com a indefinível expressão de dor que ali se impregnara.
Quando chegaram à residência de Tâmara, Arsénio a levou até à entrada da casa, enquanto Carlota tocava a campainha.
Fanny veio abrir e deixou escapar um grito ao ver sua jovem patroa prostrada como morta nos braços de um homem que seu pavor nem permitiu reconhecer.
Atraídas por esse clamor, Charlotte e as crianças também acorreram e puseram-se a chorar de medo.
Ajudados por Carlota, as duas mulheres levaram Tâmara ao seu quarto de dormir para fazê-la deitar-se, com o pequeno Jorge a chorar atrás, mas Olga reconheceu o Príncipe e perguntou ansiosamente:
— Tâmara também morreu, Arsénio Borissovitch?
— Não, não, Olga. Não chore.
Sua irmã está apenas desmaiada; ela voltará a si — respondeu ele, abraçando a criança e atraindo-a para junto de si, a um pequeno sofá.
Enxugando as lágrimas que inundavam as faces da menina, o Príncipe examinou curiosamente o salão modesto, mas arrumado com gosto e cheio de flores raras — presentes de festas de Natal da parte de Magnus.
Essa era, portanto, a residência actual da estranha e orgulhosa criatura que o repelia e o atraía ao mesmo tempo.
— Vamos, Olga, não chore mais.
Já lhe disse que é apenas um desmaio, mas vejo com alegria que você gosta muito da sua irmã.
— Sem dúvida, eu a amo. Tâmara é tão boa para nós!
E depois, sem ela, o que seria de nós? — dizem Fanny e Charlotte.
Mas por que, Príncipe, você não vem mais à nossa casa? — perguntou a criança tomada de nova ideia.
Quando o papai e a mamãe estavam vivos, você vinha sempre!
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 13, 2016 8:34 pm

— Não tenho tido tempo, mas agora eu virei.
— Ah! fico muito contente.
É então, verdade que ninguém quer mais conhecer a gente?
Cumpra sua palavra, então, Arsénio Borissovitch e venha.
Você pode vir depois do jantar ou da ceia?
— Por que depois do jantar?
O que você quer dizer com isso? — perguntou Arsénio aturdido.
— Porque me disseram que somente se vai à casa de pessoas que dão bons jantares e ceias, que tem belas casas e móveis dourados, e nós agora somos pobres, pois nossos belos móveis foram vendidos — respondeu a criança com pesar.
Um rubor causticante subiu ao rosto do Príncipe:
a ingénua expressão da menina era uma verdadeira bofetada na face do orgulhoso cavalheiro.
— Foi Tâmara quem disso isto a você? — perguntou de voz rouca.
— Não. Fanny e Charlotte disseram.
Tâmara nunca fala sobre você, nem de ninguém.
Ela diz somente que não temos mais conhecidos e uma noite em que a lareira estava acesa —- isso fora no ano anterior — ela retirou dos álbuns todas as fotografias e as jogou ao fogo... as suas também.
Ela não deixou nem uma só e os três álbuns cobertos de prata ela vendeu.
— Adeus, menina, devo partir para prevenir seu padrinho e Vera Petrovna quanto à doença de sua irmã, mas vou mandar-lhes alguns bombons e virei logo ver você.
Nervosamente agitado, atirou-se à sua carruagem com a cabeça em fogo.
A criança nem suspeitava do alcance de tudo aquilo que dissera:
a vergonha e a cólera sufocaram-no, ao lembrar-se da engenhosa suposição das criadas.
Certamente ele não havia pensado nem no mobiliário, nem nos jantares ao cessar de frequentar os Ardatov após a ruína, mas a evidência era contra ele e a opinião de Tâmara acerca dos antigos conhecidos estava claramente expressa naquele auto-de-fé.10
Ao fogo como um traste inútil, as imagens daquela turba desprezível com a qual ela nada tinha em comum!
Como o Almirante não estava em casa, Ugarine partiu imediatamente para a residência de Madame Raban, colocando-a a par do acidente sobrevindo à sua amiga favorita.
Muito assustada, Vera Petrovna mandou preparar sua própria carruagem para ir imediatamente à casa de Tâmara e, se possível, apanhar, a caminho, um médico.
Saindo de casa da Baronesa, Arsénio resolveu ir ver o seu primo, que morava no mesmo andar, pois precisava falar-lhe de algo.
O criado informou que o Barão acabara de sair para o seu passeio habitual, mas que deveria estar de volta a qualquer momento.
O Príncipe resolveu esperar e, com essa intenção, passou ao gabinete de Magnus, que começou a percorrer de um lado para outro, entregue aos pensamentos desagradáveis que continuavam a perturbá-lo.
Passou-se mais de um quarto de hora.
Impaciente, Arsénio resolveu escrever um bilhete ao primo, sobre o negócio que o trouxera ali.
Para isso, aproximou-se da escrivaninha em busca de papel de carta.
Não o encontrando prontamente, abriu uma gaveta cuja chave ficara no lugar, admirado desse descuido de Magnus, sempre tão ordeiro.
A gaveta continha apenas contas e documentos comerciais, cuidadosamente animados.
Via-se, contudo, ali, uma carta aberta, na qual Arsénio leu com surpresa a assinatura de Tâmara Ardàtov.
— Vejam só!
A amizade vai até o ponto de se corresponderem! - murmurou o Príncipe e, movido por uma curiosidade que sufocava qualquer escrúpulo, percorreu a missiva rapidamente com os olhos.
“Ela o recusou!
Não aproveitou a oportunidade para vender-se!” — murmurou ele estupefacto.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 13, 2016 8:34 pm

“Foi ontem, justamente o dia em que lancei em seu rosto essa insinuação e eis que me pesa talvez na consciência a sua recusa e a infelicidade de Magnus.
Compreendo agora a distracção dele em esquecer a gaveta aberta.
Não desejei isto, certamente, mas quem o teria previsto?”
Largou vivamente a carta, voltou a fechar a gaveta e retornou ao salão.
A lembrança da face pálida de Tâmara o perseguia.
E se ela morresse?
Teria ele contribuído para isso?
Atormentado por uma inquietação íntima, partiu sem ter visto o primo.
Quando Tâmara voltou a si de seu desmaio, sentiu-se tão mal, que pensou estar próximo o fim.
— Telegrafe imediatamente à “tia” Eveline para que ela venha — disse a Fanny.
Um invencível desejo de rever sua amiga maternal a assaltara.
Quando a Baronesa chegou com o médico, a moça, mergulhara em profunda prostração, não a reconheceu.
Declarara- se uma febre nervosa das mais perigosas.
A Baronesa, ajudada por uma irmã de caridade, velou sobre a doente com devotamento.
O Almirante estava desolado, pois o mal piorava dia a dia.
Acessos de delírio, acompanhados de febre ardente, alternavam-se com profundo abatimento e o velho médico militar que cuidava de Tâmara e havia conhecido seu pai mostrava-se cada vez mais preocupado.
Alguns dias mais tarde chegou Madame Ericson que, mortalmente assustada pelo telegrama, partira no mesmo dia.
Com os olhos cheios de lágrimas a excelente senhora inclinou-se sobre a moça que ela amava como sua própria filha.
Leu em seus traços magros todo o seu sofrimento, todas as lutas que havia suportado.
Como se Tâmara houvesse sentido o olhar amoroso que se fixava nela, abriu os olhos e um vago sorriso errou sobre seus lábios ressequidos, mas um momento após ela recaiu no estado de torpor.
Como a Igreja não desejava assumir publicamente os ónus da execução dos condenados, entregava-os às autoridades civis para esse fim, mas nem a entrega e nem a execução eram habitualmente levadas a efeito durante o auto-de-fé e, sim, em ocasião posterior, mais discreta.
Os primeiros autos-de-fé de maior impacto ocorreram quando Tomaz de Torquemada assumiu a direcção da Inquisição espanhola (Sevilha, 1482, e Toledo, 1486).
A última, já no reinado de Carlos III, foi realizada em segredo e cuidou de poucas sentenças.
Em 9 de outubro de 1861 foram queimadas solenemente, num auto-de-fé em Barcelona, várias obras de Allan Kardec e outras de conteúdo espírita.
Desde esse dia, Eveline instalou-se à cabeceira da doente e, velando dia e noite, disputava sua presa à morte, com toda a tenacidade do amor materno.
Magnus estava completamente desesperado.
Ligara-se àquela moça por todas as fibras de sua alma.
Mesmo resignado a não mais considerá-la como sua esposa, parecia-lhe impossível viver sem ao menos vê-la.
Ouvir o seu riso sadio e sonoro e mergulhar seu olhar nos seus olhos puros e brilhantes tornara-se para ele uma fonte de vida.
E... quem sabe, os termos da sua recusa não haviam deixado no fundo de sua alma uma esperança?
Dez vezes por dia ele mandava alguém saber notícias dela.
Ugarine também ardia por conhecer o estado da doente.
Sua lembrança o perseguia como uma obsessão.
Seu rosto encantador postava-se entre ele e sua noiva, estancando em seus lábios as banais palavras de amor.
Mas havia perdido o direito de informar-se dela directamente e procurava por vias diferentes saber como passava Tâmara.
Sua melhor fonte de informações era o velho médico, que frequentava a casa do pai de Catarina, e por ele soubera o Príncipe que a moça ia de mal a pior.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 13, 2016 8:35 pm

Chegou, assim, o dia do casamento.
Sempre dominado por uma vaga inquietação, o Príncipe, na expectativa da chegada da noiva, avistou entre os convidados o velho médico que acabara de entrar.
— Pois bem, doutor, como vai Tâmara Nicolaevna? - perguntou ele com vivacidade.
— Mal, muito mal.
Estou vindo da casa dela e temo que não passe desta noite.
O organismo está esgotado.
Muito trabalho, muita desgraça!
Pobre moça...
A chegada da noiva interrompeu a conversa e, um instante mais tarde, Arsénio estava diante do altar, ao lado de Catarina vestida de brocado prateado e sobrecarregada de jóias, mas, contemplando aquela mulher feia e insignificante, à qual nenhum adorno poderia dar encanto, um vazio assustador se fez de repente no coração do Príncipe:
um futuro sombrio parecia abrir-se diante dele e a mão robusta que o sacerdote acabara de unir à sua lhe parecia um pesado ferrolho de metal que lhe barrava o caminho rumo a um destino melhor.
Obstruindo a cabeça ornada de diamantes e de flores de laranjeira de Catarina, surgia como uma visão sedutora o rosto de Tâmara, a orgulhosa e enérgica jovem que, pobre e abandonada, morria, desprezando-o a despeito de seu título e da riqueza da qual ele se apossara, bem como “daquela bela mão principesca que tinha vergonha de trabalhar, mas não tinha vergonha de vender-se”.
Um tremor nervoso sacudiu o corpo de Arsénio.
Catarina notou o fitou-o admirada, mas o olhar do Príncipe evitou o seu.
Sentia-se naquele momento como um malfeitor, um impostor, cujo “sim” mentiroso não tinha senão um sentido:
“Sim, quero ser rico!”
Ele não amava e nunca haveria de amar aquela mulher que ele estava ligando a si mesmo indissoluvelmente.
Sabia que ela haveria de traí-lo, que não queria dele senão o título e a posição social.
De facto, Deus não era supérfluo naquele mercado, no qual os corações não tinham parte alguma?
Apesar das predições do médico, Tâmara não morreu; seu organismo jovem e sadio venceu o mal.
Sob a guarda fiel de seus três sinceros amigos, ela voltou à vida e, alguns dias depois do casamento de Ugarine, foi declarada fora de perigo.
O Príncipe soube disso ainda antes de sua partida para o exterior e um suspiro de verdadeiro alívio escapou de seu peito.
Quanto a Magnus, sentia-se muito feliz — alegria e esperança retomaram lugar em seu coração.
A convalescença de Tâmara, contudo, foi extremamente lenta, pois o estado de alma da moça reagia de maneira prejudicial sobre seu corpo enfraquecido.
Prostrada durante horas na poltrona, ela se absorvia em sombria meditação, considerando uma ironia da sorte o retomo a uma vida que não lhe trazia senão desgosto e canseiras.
Perdera todas as ilusões; os seres humanos e as coisas lhe apareciam em toda a sua triste realidade.
De todo o seu ser ela ansiava por voltar à pátria invisível, e eis que as portas da eternidade, já abertas de par em par, fechavam-se novamente.
Com que finalidade?
Eveline notou com tristeza o estado de espírito de sua antiga discípula, a amargura que ressoava em cada palavra que ela pronunciava, a opinião dura e cheia de desprezo que tinha dos seres humanos.
Estando já quase restabelecida, Madame Ericson pensou em voltar a Estocolmo, onde a chamavam numerosos compromissos.
Cerca de oito dias antes de sua partida, sentou-se junto ao divã sobre o qual Tâmara estirara-se preguiçosamente e lhe disse, abraçando-a:
— Há muito tempo, minha querida, estou para conversar com você mais seriamente.
Hoje você parece tão repousada e forte, que nossa conversa não a fatigará.
— Você quer me repreender, "tia” Eveline? — perguntou Tâmara, tomando-lhe a mão.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 13, 2016 8:35 pm

A senhora Ericson sorriu.
— Você acha que o mereceu, minha filha?
Não, não quero repreendê-la, mas apenas procurar reparar o que a desgraça deformou e fez desviar em seu coração e em seu espírito.
Sua alma está doente:
uma exagerada desconfiança, um sombrio e intratável orgulho invadiu tudo.
À priori você só admite nos homens a cupidez e a baixeza.
A impiedosa dureza com a qual você julga tudo o que se aproxima de você às vezes me assusta.
Esse não é um bom caminho e não é cavando um abismo entre você e o mundo que conquistará a paz de coração.
Sem dúvida, você tem sofrido muito e, na vida, encontramos mais mal do que bem, mas condenar em bloco a humanidade é indigno de um espírito superior.
Entre a turba dos maus, encontramos muitos corações desinteressados e generosos que você confunde com ela na condenação geral.
Creia-me, não basta suportar condignamente a adversidade e caminhar corajosamente pelas trilhas estreitas do dever e da virtude — é preciso que, através da dor da provação, conservemos a pureza do coração, a mansidão e o amor ao próximo.
Procure julgar com mais indulgência os erros e as faltas dos nossos pobres irmãos em humanidade e o mal a chocará menos.
Você os lamentará em vez de condená-los.
Tâmara baixou a cabeça.
;— Você tem razão, “tia” Eveline.
Nosso Divino Salvador e nossos amigos do mundo espiritual nos ensinam essa lei do amor e do perdão e, certamente, eu seria mais feliz se pudesse elevar-me a essa serena mansuetude que nos torna invulneráveis às ofensas pessoais, mas não posso, pois minha alma doente odeia e desafia.
Tudo o que encontro, tudo o que vejo, me inspira desprezo e desgosto.
— Sim, minha querida, evidentemente, o meio no qual você vive é malsão para você, mas isso vai mudar.
Eis o que resolvemos com Ivar:
em primeiro lugar, vou levar comigo as duas crianças, pois é indispensável transplantá-las para um ambiente mais sadio.
Sem dúvida, Fanny e Charlotte são excelentes e fiéis criaturas, mas são sempre servas e notei que Olga tem ideias frequentemente muito falsas e que suas maneiras, como as de Jorge, deixam muito a desejar.
Você não pode cuidar deles pessoalmente por causa de seu trabalho e do seu estado de espírito.
Você é nervosa e irritável.
Ora, manter as pobres crianças como aves na gaiola é prejudicial.
Em minha casa eles ficarão mais à vontade e receberão uma educação racional.
Tâmara ouvira, muito pálida e comovida.
— Como!? — exclamou ela.
Você quer que eu fique sozinha aqui, deixando as crianças por sua conta?
— Não. Eu não deixarei você aqui, ainda que não possa levá-la logo, imediatamente — respondeu Eveline com um sorriso.
Após essa terrível doença, uma viagem tão longa em pleno inverno seria perigosa, mas em abril, penso eu, você poderá, sem inconvenientes, juntar-se a nós em Estocolmo e até mesmo ficar lá, uma vez que Ivar me escreveu que conseguiu para você ocupações bem rendosas no outono.
Você poderá também ajudá-lo no atelier, substituindo Eric, que vai estudar pintura na Alemanha e na Itália durante dois anos.
Viveremos todos juntos, como outrora, e, sob a influência de nossa afeição, seu coração ficará curado.
Demasiado emocionada para falar, Tâmara atirou-se aos braços da amiga maternal que havia tão sabiamente decidido e arranjado tudo.
Sim, naquele asilo de paz, ela reencontraria o equilíbrio da alma.
Lamentava bastante deixar seu padrinho, a Baronesa e...
Magnus, mas, de qualquer maneira, era melhor assim.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 13, 2016 8:35 pm

7 Juvenal — Décimus Junius Juvenalis, famoso satirista é poeta romano.
Seus dados biográficos são incertos e um tanto fantasiosos. Supõe-se que tenha nascido no ano 60 da nossa era.
Em 128 ainda vivia, havendo quem afirme que tenha morrido octogenário.
Consta ter desagradado com seus versos um amigo pessoal do Imperador Domiciano, do que lhe resultou ser deportado para o Egipto.
Foi o que se poderia chamar de um poeta engajado, pois discorria com veemência, em linguagem desabrida, sobre temas delicados, complexos e até escabrosos para a época, como a homossexualidade, problemas sociais, a condição da mulher, etc.
A espinha dorsal da famosa Sexta Sátira, livro II, por exemplo, é esta:
“Enquanto houver corda para enforcar-se, por que casar-se?”
Juvenal é um poeta genial, indignado, veemente, violento mesmo e dotado de extraordinário poder de comunicação.
“Odiava imparcialmente a tudo quanto via — diz a Britânica — não apenas o vício e a crueldade de seu tempo, mas sua luxúria, sua arte, sua poesia e até sua filosofia”.
Era, pois, um rebelde nato e escrevia exactamente o que pensava.
Alguns afirmam que ele teria reencarnado como Victor Hugo, o que não parece de todo incongruente.


8 São Petersburgo — Ao tempo em que se passa a história narrada neste livro, São Petersburgo (mais tarde Petrogrado e hoje Leningrado) era capital da Rússia Imperial, condição política que lhe coube durante duzentos anos, de 1712 a 1918, quando a capital foi transferida para Moscou.
Tinha, na época — final do século 19 — cerca de 1.300.000 habitantes, segundo censo realizado em 1897.
Mesmo com a sobriedade que lhe é própria, a Enciclopédia Britânica informa que “Leningrado é, arquitectonicamente, uma das mais belas cidades do mundo“, sendo hoje a mais importante da União Soviética, após Moscou.
A mudança de nome de São Petersburgo para Petrogrado, ordena da pelo Czar Nicolai II, foi apenas uma tradução do alemão para o russo.
O extenso artigo da Britânica menciona ainda o subúrbio de Peterfaof, hoje com o nome de Petrodeverts, onde a família Ardatov possuía uma casa de campo.


9 Whist — De uma palavra inglesa que significa silêncio.
Jogo de cartas disputado por quatro pessoas, duas contra duas.


10 Auto-de-fé — O auto foi, na Idade Média, uma teatralização de fundo moral com personagens usualmente alegóricas, como as virtudes, os pecados, etc.
O auto-de-fé era basicamente, na Espanha, uma dramatização para efeito moral da solene condenação de pessoas julgadas pela Inquisição por práticas consideradas anticristãs ou, mais precisamente, anticatólicas. A cerimónia começava com uma procissão, da qual participavam as autoridades do Santo Ofício (Inquisição), seus auxiliares e os condenados ou penitentes.
Em seguida, todos ouviam missa e o rei, bem como todos os seus auxiliares leigos, prestavam solene juramento de obediência à Inquisição.
Falava, então, o Grande Inquisidor, sendo, por último, lidas as sentenças de condenação ou, muito raramente, as de absolvição.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 13, 2016 8:36 pm

O testamento de Olaf

Alguns dias após seu retorno a Estocolmo, a senhora Ericson foi surpreendida com a visita do velho Justin, fiel camareiro de Olaf Cederstedt.
Entremeando suas palavras com lágrimas amargas, o ancião anunciou que seu patrão estava à morte.
Já há alguns meses suas forças vinham se extinguindo dia a dia.
Já não deixava mais o leito e era evidente que o último momento aproximava-se.
Na noite precedente, Justino, que velava o doente, vira-o agitar-se sob as cobertas e, em seguida, pronunciar o nome de Swanhild.
Julgando que ele sonhava, não ousara incomodá-lo, mas, pouco depois, seu patrão pareceu realmente despertar e lhe perguntou se sabia do endereço de Madame Ericson.
Ante uma resposta negativa, ordenara-lhe que logo pela manhã procurasse informar-se e fosse pedir a Madame Eveline que viesse vê-lo com urgência, pois tinha algo de grave a dizer-lhe.
Sem perda de um instante, Eveline, acompanhada de Justino, foi à residência do doente e seu coração se confrangeu dolorosamente, ao penetrar o aposento fracamente iluminado, onde morria o homem fiel de quem ela gostara como um parente e que, na sua lembrança, conservara-se jovem, belo e feliz.
— Muito obrigado por ter vindo.
Sinto-me feliz em vê-la antes de morrer, se bem que jamais pude decidir-me a reatar nossas relações de amizade — murmurou o doente apertando-lhe com a mão descamada a da visitante.
Não chore, Eveline — acrescentou, ao perceber que uma lágrima tombou sobre seus dedos — estou no fim, os sofrimentos são passados, perdoei e encontrei a paz.
Pobre Swanhild! foi punida mais do que merecia.
O diário dela, que a filha me trouxe, revelou-me um abismo de infelicidade e sofrimento.
Mas, deixemos disso, por enquanto:
- é sobre essa menina que desejo falar com a senhora.
Esta noite tive com ela um sonho ou uma visão muito estranha.
Digo sonho ou visão porque me é impossível precisar se foi em estado de vigília ou de sono que eu me encontrava, mas o que é certo é que vi Swanhild.
E continuou:
— Ela estava com o vestido branco e tinha ao pescoço o medalhão que trazia no dia do nosso noivado.
Estava jovem e bonita como naquele dia, só que mortalmente triste.
Inclinou-se sobre mim e com uma palavra súplice disse:
“Olaf, você prometeu ajuda e apoio à minha pobre Tâmara. Olhe!”
Estendeu a mão e um raio de luz se formou, como que saindo de seus dedos.
Na extremidade daquele raio de luz, vi desenhar-se um quarto simples e, sobre um leito, vi uma jovem tão pálida, tão abatida, que mal pude reconhecer Tâmara, a deslumbrante menina que me trouxe a paz e o consolo aos meus últimos dias.
Ainda uma vez, ela disse:
“Olaf, pense em Tâmara!”
Swanhild desapareceu e, com ela, a visão, mas estou convicto de que algo aconteceu à menina.
Diga-me o que é, se a senhora conservou com ela as relações de amizade.
— Certamente, o que Tâmara sofreu há de ter causado grande aflição a Swanhild, pobre alma!
E é ao senhor que ela veio implorar socorro para a filha — respondeu Eveline emocionada.
Em seguida, ela contou ao doente tudo o que aconteceu desde que Tâmara deixara a Suécia:
a ruína e a morte de Ardatov, a retractação de Anatole e, enfim, a luta corajosa da moça para manter-se com seu trabalho, bem como às crianças, luta exaustiva que lhe provocara a doença mortal, da qual escapara por milagre.
Cederstedt ouviu o relato com vivo interesse, misto de admiração e pesar.
— Pobre criança! honesta e digna, sim, tal como eu pensava.
Mas, por que não me escreveu ela?
Eu lhe disse que seria sempre seu melhor amigo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 13, 2016 8:36 pm

E a senhora, Eveline, porque não me contou isso?
Enfim; antes tarde do que nunca, e desde que a minha cara Swanhild veio interceder por ela, sei como agir.
Pedirei à senhora, cara amiga, para vir aqui amanhã, ali pelas onze horas da manhã, com seu marido, a fim de conversarmos sobre o assunto.
Após haver falado sobre o passado, Eveline, notando o cansaço do doente, retirou-se, mas seu coração estava cheio de alegria e de esperança.
Não havia dúvida de que Cederstedt haveria de assegurar o futuro da órfã.
Suas suposições confirmaram-se logo que, ao chegar em casa de Olaf com seu marido, encontrou reunidos à cabeceira da cama, um médico, um eclesiástico e um tabelião, que acabara de preparar um documento que, em seguida, foi lido em voz alta.
Era um testamento em boa forma jurídica, pelo qual Olaf Cederstedt legava a Tâmara Ardatov, filha de Nicolai Ardatov e de Swanhild Lowenskiold, toda a sua fortuna, no montante de um milhão e seiscentos mil rixdallers,11 em dinheiro, depositados em banco, bem como as duas propriedades e sua casa em Estocolmo, com tudo o que elas continham: móveis, prataria, enfeites e objectos de arte, avaliados em cerca de um milhão.
Seguiam-se diversas cláusulas, obrigando a herdeira universal a alguns legados e pensões, assim como presentes e lembranças a várias pessoas.
Ericson e sua mulher estavam estupefactos: não imaginavam que Cederstedt fosse tão rico.
Eveline observou timidamente que talvez o testamento lesasse direitos mais legítimos.
— Estou só no mundo, desde que morreu minha única irmã, e minha última vontade não prejudica direitos de ninguém — respondeu Cederstedt, assinando o documento.
Em seguida, assinaram duas testemunhas, preparou-se uma cópia do testamento e todos se retiraram, excepto Ericson e sua mulher.
Apesar de seu esgotamento, o doente mostrava-se alegre e animado.
— Dentro em breve direi a Swanhild que doei à sua filha todos os direitos que lhe teria doado se fosse minha própria filha.
Ah! por que não teve ela o carácter mais enérgico, a calma fria dessa estranha menina?
Não nos teríamos separado.
Somente duas vezes vi Tâmara, mas ela me inspirou uma profunda afeição.
— Veja, Eveline, os olhos do senhor Cederstedt...
São os de Tâmara, o mesmo olhar.
Você nunca o notara? — perguntou Ericson muito admirado.
— É verdade, seus olhos sempre me lembraram alguém, mas não podia precisar quem fosse.
— É uma estranha coincidência, mas é muito justo que a herdeira de meus olhos seja também a dos meus haveres — observou o doente com um sorriso.
Quando a senhora vai enviar a notícia da minha decisão?
— Acho que devo esperar que ela se fortaleça um pouco.
Temo que a notícia imprevista de uma mudança de situação como essa lhe cause emoção forte demais e lhe seja prejudicial.
— A senhora tem razão.
Deixemo-la restabelecer-se um pouco.
Como se a animação e a concentração da energia vital e da vontade de Olaf Cederstedt, por ocasião do testamento, houvessem consumido suas últimas forças, ele começou a extinguir-se logo no dia seguinte e, após uma agonia calma e sem dores que durou duas semanas, morreu pacificamente, cheio de fé e de esperança numa vida melhor no além-túmulo.
Foi enterrado, como de seu desejo, no parque do castelo, à beira do mar e, quinze dias após o funeral um pacote devidamente registado, contendo uma cópia do testamento, um bilhete de próprio punho do falecido e uma longa carta de Eveline seguiu para São Petersburgo.
Após a partida de Madame Ericson com as crianças, a saúde de Tâmara se refez rapidamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 13, 2016 8:36 pm

A decisão tomada e a perspectiva de regressar ao lar amigo que ela considerava como um abrigo de paz haviam restituído a quietude à sua alma atormentada e, com as forças, voltaram a energia e até mesmo a alegria um tanto cáustica que a caracterizava.
Falara mesmo em retomar seu trabalho no atelier, mas a Baronesa e o Almirante opuseram-se energicamente, exigindo que ela repousasse e se deixasse cuidar até que aqueles que lhe proporcionavam tais confortos lhe dessem permissão para voltar ao trabalho.
Tâmara repousava, pois, fazendo diariamente um passeio a pé ou de carruagem.
Reconquistara a graciosidade e a boa disposição.
A Baronesa propôs-lhe passar em sua casa algumas semanas, mas ela recusou.
Tinha necessidade de solidão e repouso e não se sentia encorajada a reencontrar-se com Magnus.
A signora Belzoni vinha muitas vezes visitá-la.
Uma noite em que a jovem senhora se encontrava de novo em casa de Tâmara, esta perguntou-lhe o que fora feito do retrato de Ugarine, se o haviam terminado a tempo.
— Ah, sem dúvida, meu marido acabou-o.
A senhora já havia trabalhado bastante e não havia muito a fazer.
Dois dias depois ele foi entregue.
Mas não lhe contei ainda que eu assisti ao casamento do Príncipe — o que foi uma proeza, pois eu não tinha convite para entrar na igreja.
Enfim, enchi-me de coragem e pedi um convite a ele mesmo — ele sorriu e me enviou três.
Foi soberbo!
A noiva estava com um vestido todo bordado de prata... e de diamantes!!!
Brilhava como um sol e, contudo, apesar dessa incomparável vestimenta, não estava bonita.
Quanto ao Príncipe, estava pálido, sombrio e distraído.
Nem parecia de forma alguma um noivo feliz.
Oito dias mais tarde ele partiu com sua jovem esposa para o exterior.
Depois que a signora Carlota saiu, Tâmara instalou-se numa cómoda poltrona ante a lareira.
Com os olhos fixos nas brasas que se extinguiam e cujo clarão avermelhado reflectia-se nos objectos em tomo, ela começou a meditar...
A imagem do Príncipe Arsénio projectava-se diante de seu espírito, evocando a lembrança de seu último encontro antes da doença e todos os incidentes ocorridos.
— Se eu fosse tão rica como Catarina, desejaria eu estar no lugar dela e desposá-lo? — perguntou-se involuntariamente.
Não e mil vezes não — murmurou, enquanto um sentimento áspero e quase odioso invadiu seu coração.
Ser desposada por causa da fortuna, por um homem que não se ama e ser traída sempre que ele esteja fora do alcance da vista e não ver na esposa senão um apêndice desagradável ao dote, que humilhação!
Pouco a pouco, o devaneio de Tâmara extinguiu-se em doce sonolência, seus olhos fecharam-se e ela adormeceu profundamente.
Teve, então, um estranho sonho.
Via-se num pequeno salão forrado de tecido púrpura e luxuosamente mobiliado.
Ela estava de pé junto de uma lareira de mármore, com as duas mãos apoiadas no encosto de uma cadeira e, presa de violenta emoção, fixava Ugarine que, com a face inflamada, os olhos afogueados pela paixão, lhe falava de seu amor, aproximando-se dela e tentando atraí-la para si.
Naquele momento, Tâmara julgou ver, num grande espelho que lhe ficava em frente, deslizar a imagem de Magnus.
Como que tomada de uma opressão, ela repeliu violentamente o Príncipe e... acordou.
Trémula, se recompôs e passou a mão pela testa.
“Que loucura! — murmurou ao cabo de um instante”
Que sonho estúpido, inspirado pela febre!
Evidentemente que ainda estou doente”.
Chamou Fanny e mandou-a acender a lâmpada.
Alguns dias mais tarde, pela manhã, após haver tomado o chá, Tâmara sentou-se à escrivaninha, disposta a escrever a Madame Ericson.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 13, 2016 8:36 pm

Antes de começar, arrancou, como sempre fazia, a folha do calendário.
Subitamente, estremeceu e empalideceu.
Como pudera esquecer que hoje era o aniversário da sua ruína, aquele dia terrível, dois anos antes, quando a desgraça desabara sobre sua casa?
Abateu-se sobre a mesa e lágrimas silenciosas correram-lhe pela face.
Mil lembranças pungentes surgiam-lhe à mente — a fuga dos convidados, a morte horrível de Lúcia, a venda dos bens e a longa cadeia de humilhações e sofrimentos que se seguira.
Um toque violento na campainha da porta da cozinha e a voz forte de um homem que falava com Fanny interromperam os pensamentos da moça.
Um instante depois, a camareira entrou, trazendo um caderno e um volumoso pacote lacrado.
— Senhorita, assine aqui, por favor, o recibo do pacote vindo de Estocolmo, sem dúvida de Madame Eveline.
Tâmara assinou e, sob a impressão de suas penosas lembranças, virou e revirou com inquieto nervosismo o volume imprevisto que lhe chegava naquele dia nefasto.
Seria o anúncio de alguma nova desgraça?
Com decisão febril, ela arrancou o envoltório, vários papéis caíram sobre a mesa e ela reconheceu a letra de “tia” Eveline numa das cartas.
Em duas outras, as letras lhe eram desconhecidas.
Havia também um documento oficial.
Muito admirada, a moça desdobrou-o, mas, à medida que lia, uma palidez lívida espalhava-se pelo seu rosto, o papel escapou-lhe das mãos trémulas e, como que ébria, apoiou-se ao espaldar da cadeira.
Girava-lhe a cabeça.
A prostração, contudo, não durou muito.
Passando as mãos sobre a fronte coberta de suor, Tâmara empertigou-se e tomou a carta de “tia” Eveline.
Leu, a seguir, o bilhete escrito por Cederstedt e a carta do notário, que a convidava a ir tomar posse da herança.
Pela segunda vez, desdobrou a cópia do testamento:
estava ali escrito, com todas as letras, que Olaf Cederstedt instituía como sua herdeira universal Tâmara Ardatov.
Seguia-se imponente inventário dos capitais, dos imóveis e tudo o que compunha a herança, bem como os donativos e outros compromissos que lhe eram solicitados e, enfim, as assinaturas de duas testemunhas.
Respirando a plenos pulmões, Tâmara afastou a cadeira e, com os olhos cintilantes, começou a caminhar nervosamente pelo quarto, para lá e para cá.
Decididamente, ela não estava sonhando mais — terminara a miséria, o trabalho assalariado, o abandono que a expunha à arrogância brutal do primeiro que aparecesse.
Estava rica, milionária, mais rica mesmo do que Catarina Migusov!
Um rubor ardente inundou sua face e um sorriso de orgulhosa satisfação entreabriu seus lábios:
possuía, agora, aquele encanto todo-poderoso que faz curvar todo o mundo, mesmo aos pés da pessoa indigna, que faz dobrarem-se até as costas mais inflexíveis.
Dispunha daquele metal fascinador que só ele dá valor ao ser humano, que iria trazer de volta aos seus pés a turba egoísta e volúvel e enfeitá-la com os encantos que passaram despercebidos, enquanto ela foi pobre.
Trémula de emoção continuou a caminhar pelo quarto.
Por um momento, o orgulho daquele poder que o destino colocava em suas mãos absorveu todo o seu ser, mas, pouco a pouco, a calma retornou e um traço sombrio desenhou-se em sua testa e um sentimento de tristeza a oprimiu.
“Por mais poderosa que seja a riqueza — murmurou ela — não poderá restituir minhas ilusões perdidas, eliminar a desconfiança e o desgosto que me inspiram as criaturas!”
Ficou, por alguns momentos, absorvida nesses pensamentos, depois sacudiu a cabeça como que a expulsar dali as negras ideias.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 13, 2016 8:37 pm

“Boba que sou!
Para que lamentar por ter tido meus olhos abertos?
Teria sido melhor se eu fosse o joguete desprezível de um mundo mentiroso?
Não, não. Bebi até à última gota essa beberagem amarga chamada desgraça, miséria, abandono, desdém e agradeço a Deus por ter visto os homens na nudez de suas condições morais, quando fugiam da deserdada, da qual pensavam não ter jamais necessidade.
Além disso, “tia” Eveline tem razão:
mesmo nessa turba há corações generosos”.
Sentou-se à escrivaninha e apanhou uma folha de papel que releu atentamente — era o pedido de casamento de Magnus.
Um sorriso bom e alegre transitou pelos seus lábios:
“Ê preciso um pouco de paciência ainda, meu pobre Magnus”, murmurou ela, tornando a dobrar a carta.
Deixe-me divertir um pouco, sondar a baixeza das pessoas sob um novo ponto de vista.
Depois disso, sem pesar, virarei as costas a todos”.
Tâmara apoiou-se sobre a mesa e abismou-se em tamanho caos de pensamentos e de projectos futuros, que nem ouviu a campainha e não percebeu a entrada de seu padrinho senão quando ele lhe tocou o ombro.
— Que tem você, Tâmara?
Está indisposta? - perguntou o Almirante, fitando inquieto o rosto afogueado da moça.
— Não, “tio” Sergei.
É de alegria a minha emoção.
Veja, leia isto! - e ela pôs-lhe nas mãos o testamento e a carta de Cederstedt.
Sergei Ivanovitch leu, esfregou os olhos, leu de novo e, em seguida, atirando o documento sobre a mesa, abraçou Tâmara e exclamou:
— Arre! Minha filha, eis aí uma verdadeira história das Mil e Uma Noites.
Eu a felicito e que Deus proporcione a paz dos eleitos a esse bravo e generoso Cederstedt, que fez de você a princesa de um conto de fadas.
Sentaram-se ambos ao divã e conversaram o melhor que podiam.
A emoção era muito grande e o Almirante, sobretudo, não conseguia superar seu estado de surpresa.
— Aí está uma história que vai fazer tagarelar toda a cidade de Petersburgo!
Levarei a novidade fresquinha esta noite ao baile da Marinha e vou me divertir com o espanto e a inveja daquela gente.
Um clarão brilhou subitamente nos olhos de Tâmara.
— Você vai ao baile esta noite, “tio” Sergei?
Então, eu lhe peço, me leva...
— Você quer ir ao baile, você que detesta toda espécie de reunião? — perguntou o Almirante admirado.
Claro que levarei você, com prazer.
Só que não compreendo nada quanto às suas intenções.
— Veja bem — disse ela — estas são as últimas horas durante as quais vou desfrutar o privilégio de ser pobre e de ver as caras sem as máscaras.
Quero aproveitar a oportunidade para encontrar-me, como deserdada da sorte, com meus conhecidos, frequentadores do salão da Baronesa.
Será a primeira vez que me verão após a doença e estou muito curiosa por saber como serei recebida.
Um sorriso estranho errou sobre seus lábios.
O Almirante balançou a cabeça.
— Você, às vezes, é um verdadeiro Machiavel.12
E outra coisa — você tem um vestido apropriado?
— Vou vestir-me com a maior simplicidade.
Não se esqueça de que é a pobre Tâmara que vai ao baile (Sorriu maliciosamente).
Além disso, peço-lhe que me dê algum dinheiro.
Não foi menor a surpresa de Fanny ao ver sua jovem patroa regressar de uma ida à cidade.
Trazia uma grande caixa de papelão e vários embrulhos menores, mas a surpresa virou inquietação quando Tâmara mandou-lhe acender as velas na parede entre as janelas e declarou que iria ao baile.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 13, 2016 8:37 pm

— Será que a senhorita teve uma recaída? — confidenciou ela a Charlotte.
Ela quer ir ao baile!
— É verdade, senhorita Tâmara, que a senhora quer ir ao baile?
Mas isso é um milagre! — observou a fiel governanta.
E, enquanto falava e pensava, ia examinando curiosamente o vestido de seda branca, os buquês de flores e as longas luvas que Fanny ia retirando das caixas.
Tâmara contemplou as faces desconfiadas e explodiu numa descontraída gargalhada.
— Sim, minha boa Charlotte, vou ao baile.
Estou alegre, porque uma grande felicidade me aconteceu, disse pousando as mãos aos ombros da velha servidora.
Os bons tempos estão de volta.
Você vai dirigir novamente uma riquíssima mansão e Fanny será a camareira de uma dama elegante.
O pacote que chegou hoje de manhã de Estocolmo me trouxe a notícia de uma herança.
O senhor Olaf Cederstedt me fez sua herdeira universal.
Fanny ficou muda de estupefacção, mas Charlotte deixou escapar um grito e, deixando-se cair sobre uma cadeira, juntou as mãos acima da cabeça:
— O senhor Olaf, o mais rico armador de Gotenburg, o noivo da senhorita Swanhild! — balbuciou ela atónita.
E ele deixou tudo para a senhora?
As casas em Estocolmo e em Falkenas, e tudo o mais?
— Tudo, tudo, a casa, Falkenas, o castelo junto ao mar e mais de um milhão, em dinheiro vivo — respondeu alegremente Tâmara.
Com um grito de alegria, Fanny atirou-se aos pés da patroa e cobriu suas mãos de beijos.
Em seguido, agarrando-se a Charlotte, começou a rodopiar com ela por todo o quarto.
— Largue-me, sua doida!
Como pode você fazer uma coisa dessas na presença da senhorita? — exclamou a governanta sem fôlego.
Vai. Está na hora de Tâmara Nicolaevna vestir-se.
Ao pentearem e vestirem a moça, as duas fiéis servidoras foram-se informando dos pormenores do miraculoso evento.
Em seguida, puseram-se a contemplar extasiadas a boa aparência e a elegância da jovem senhora.
Efectivamente, Tâmara estava encantadora no seu simples vestido branco ornado de fitas de veludo negro e com um raminho de flores à cintura.
Com uma estranha sensação de quietude, ela tomou seu lugar na carruagem ao lado do Almirante e, enquanto a condução rodava rapidamente rumo à Escola de Cadetes da Marinha, a moça devaneava.
O primeiro baile, ao qual comparecera ao regressar da Suécia, lhe veio à memória.
Como se sentia feliz, ingénua e confiante naquele tempo! Ugarine, o ideal de seus sonhos, sentara-se em frente dela.
A vida, o futuro, se lhe apresentavam como uma perpétua festa.
Que abismo a separava desse passado que, no entanto, estava a apenas dois anos e meio!
O ideal ficara irremediavelmente desbotado, a confiança desaparecera e a vida, na sua crua nudez, destruíra brutalmente ingenuidade e ilusões.
E, claro, nada seria mais diferente da entusiasta e risonha Tâmara de então, do que a mulher fria e enérgica que, cheia de zombeteira satisfação, estava preparando uma armadilha à baixeza humana.
Ela sabia que, naquele baile, numerosas alfinetadas viriam ferir seu amor próprio, mas daquela vez ela se sentia invulnerável.
Não estava ela protegida por uma dupla couraça — o orgulho e o ouro?
O ouro, esse mago que, em poucas horas, transformaria os insolentes em admiradores, os indiferentes em amigos devotados?...
Os salões regurgitavam de gente, quando Tâmara entrou pelo braço do Almirante.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 13, 2016 8:38 pm

Pouco se dançava, por causa da multidão, e somente dentro de um círculo de privilegiados, formado por cadeiras, os eleitos do baile giravam alegremente, sob a admiração da turba de curiosos que se comprimiam em torno.
O Almirante e sua afilhada atravessaram os salões, trocando saudações com numerosos conhecidos, mas intimamente divertida Tâmara observou como os jovens que frequentavam a casa da Baronesa escorregavam diplomaticamente ao lado deles, saudando-os apressadamente ou, fingindo-se muito ocupados, perdiam-se na multidão sem demonstrar tê-los notado.
Evidentemente todos tinham receio de ser obrigados a convidar Tâmara e perderem tempo inutilmente, quando tantas damas mais úteis esperavam por sua iniciativa.
Ninguém se interessou sequer por informar-se de sua saúde: é claro que ela estava muito bem, do contrário não teria vindo ao baile.
Contrariando, o Almirante, por várias vezes, demonstrara seu desgosto, mas, sempre que seu olhar rápido fitava o rosto de sua companheira e o indefinível sorriso que perpassava pelos seus lábios, ele sentia tranquilizar-se.
Já há cerca de uma hora desfilavam assim pelos salões, quando o Almirante avistou um elevado dignitário, ao qual ele desejava falar:
-- Espera-me cinco minutos aqui perto destas plantas, pois tenho que dizer algo ao General iVineter — disse ele, deixando o braço da afilhada.
Tâmara fez menção de aproximar-se do arranjo de flores exóticas para não ficar na passagem, por onde circulavam as pessoas.
Subitamente alguém chocou-se tão violentamente com ela, que quase perdeu o equilíbrio.
Virou-se e fitou com um olhar fulminante o cavalheiro que, sem a menor cerimónia, lhe obstruía o caminho.
Era Pfauenberg, que conduzia pelo braço uma dama já bem madura, coberta de diamantes, e em cuja conversa ele parecia totalmente concentrado.
Parecia, pois Tâmara percebeu o olhar malicioso que ele deixou escorregar até ela, provando que o encontrão havia sido proposital.
— "Tio” Sergei, quero ir embora para casa.
]á me diverti bastante por hoje — comentou ela com um sorriso, quando seu padrinho voltou para perto dela.
— Acho também que será melhor você ir.
Essa balbúrdia e este calor são prejudiciais aos seus nervos, ainda enfraquecidos — respondeu Sergei Ivanovitch, tomando-lhe o braço e caminhando na direcção dos vestiários.
Após instalar Tâmara na sua carruagem, o Almirante retomou à festa e se dirigiu ao buffet.
Ardia de vontade de lançar agora a grande notícia da herança.
Logo avistou Pfauenberg, que servia um prato destinado, sem dúvida, a uma dama, com frutas e bombons.
Ao virar-se, ele também notou a presença do Almirante e, vendo-o sozinho, aproximou-se com vivacidade.
Os dois homens trocaram algumas palavras e, em seguida, Sergei Ivanovitch observou:
— Que pena não havermos nos encontrado antes!
Eu estava com Tâmara e você poderia tê-la felicitado.
— Pela sua recuperação?
— Por isso e por outra coisa.
Ela acaba de receber magnífica herança.
Um parente de sua mãe deixou-lhe um legado de mais de dois milhões...
Pfauenberg ficou mudo por um momento, com o prato a tremer-lhe nas mãos, enquanto os olhos dilatados exprimiam um misto cómico de espanto, de consternação e de raiva íntima.
Por um esforço de vontade, Eitel Franzovitch tentou mascarar aquela derrota que ele sabia muito bem ter ficado visível demais.
— Será possível? — exclamou ele subitamente com veemência.
Sinto-me verdadeiramente feliz por aquela encantadora e inteligente moça.
Amanhã mesmo estarei em sua casa para expressar-lhe tudo o que significa para mim esse feliz evento.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 13, 2016 8:38 pm

— Como o senhor pode ir lá, Pfauenberg? — disse o Almirante sem poder controlar o riso.
— Como? Não cabe aos amigos antigos o direito de serem os primeiros a apresentar seus votos de felicidades?
Pois estou impaciente por me informar pessoalmente da saúde de Tâmara Nicolaevna, se bem que Madame Raban me haja assegurado que ela vai bem.
— Certamente, pois ela veio ao baile!
— Foi uma pena que eu não a tenha visto.
Mas, perdão, Excelência, devo voltar para junto de Madame L.
Na manhã seguinte, Tâmara foi à casa da Baronesa para lhe falar da sua felicidade.
Encontrou a velha senhora vestida para sair, com um agasalho e colocando um xale de lã à cabeça.
— A senhora está de saída, Vera Petrovna, e não quero incomodá-la.
— Nada disso. Vou por um quarto de hora à casa de Lilienstienna, que está doente há vários dias.
Quero ver como ele está.
Espere-me aí um pouco, minha filha.
— Vera Petrovna, se a senhora não acha inconveniente, deixe-me ir também, pois o Barão demonstrou tanto interesse durante minha doença.
— Claro! Venha.
Quem poderia objectar a isso? - disse a Baronesa muito divertida ante o rubor e a hesitação de Tâmara.
Em seguida, ajuntou;
— Pobre rapaz.
Ficará muito feliz ao ver em sua casa o seu ideal feminino, como ele costuma chamá-la na sua ausência.
— Antes disso, eu queria contar-lhe algo...
E a moça narrou o acontecimento que fizera dela uma herdeira.
A Baronesa deixou escapar um grito de surpresa e, em seguida, impaciente por transmitir a Magnus a incrível aventura, pegou Tâmara pela mão e saíram.
Foi com um estranho sentimento que a moça cruzou a soleira da casa daquele homem generoso que, somente ele, a havia amado por ela mesma e havia desejado protegê-la das misérias da vida.
Informada pelo lacaio de que o barão estava em seu gabinete de trabalho, Madame Raban, que conhecia bem a disposição da casa, entrou no salão.
Com curiosidade, Tâmara examinou o vasto aposento ricamente mobiliado e adornado de flores e de obras de arte, mas subitamente um grande quadro atraiu sua atenção.
Era um retrato de Magnus de pé, em uniforme de gala.
Com estranho interesse, Tâmara contemplou a imagem do brilhante oficial, tão diferente do pálido e calmo sábio que ela conhecia.
— Foi para sua noiva que ele se fez pintar — murmurou a Baronesa.
O jovem doente estava estendido sobre uma poltrona, apoiado em almofadas.
Ouvindo os passos bem conhecidos de sua vizinha, empertigou-se como pôde, mas um súbito rubor cobriu-lhe a face — acabara de notar a presença de Tâmara que, perturbada e indecisa, estacara à soleira da porta.
— Veja quem lhe trago — disse a velha senhora com bom humor.
Mas, aproxime-se, Tâmara!
Eis aí dois ingénuos!
O senhor era tímido assim quando vestia o uniforme, Barão?
A moça aproximou-se vivamente e estendeu as duas mãos a Magnus, que as levou aos lábios, sem perceber o olhar estranho e brilhante que ela fixou nele.
Mal se sentaram, a Baronesa começou a contar a grande novidade.
Extrema palidez cobriu a face de Magnus, quando soube da súbita fortuna de Tâmara.
Dominando-se com esforço, ele a felicitou.
A jovem percebeu sua perturbação, mas continuou a falar alegremente e, com o relato bem humorado da sua ida ao baile, fez rir até às lágrimas os seus ouvintes.
Após uma hora de conversação, elas se foram.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 14, 2016 7:53 pm

No mesmo dia foi decidido que Tâmara se instalaria por dois ou três meses em casa da Baronesa e iria, em seguida, à Suécia tomar posse de sua herança.
Foi concedida uma licença a Charlotte para ir a Upsala visitar uma irmã que ela não via há trinta anos.
Depois de acomodar-se em casa de sua velha amiga, uma vida que fazia começar a de outrora começou para Tâmara.
Tomara-se o centro da sociedade que frequentava a mansão de Madame Raban, e as adulações mais solícitas cercavam a jovem e bela herdeira.
Até mesmo a moça severa e sedentária parecia transformada:
aceitava com invariável afabilidade os convites, parecia encantada com o carinho que lhe prodigalizavam as mamãs que tinham filhos casadouros e, quanto aos jovens que assediavam continuamente seu coração e seu dote, ela utilizava-se de uma táctica dissimulada que, positivamente, intrigava a Baronesa.
Acolhendo a todos com o mais gracioso e encorajador sorriso, ela distribuía tão habilmente seus favores, que todos os adoradores se deixavam iludir ante a esperança de serem o preferido de sua escolha.
Alguns, impacientes demais em ver capitular a bela fortaleza dourada, arriscaram-se a um pedido formal e foram rechaçados.
Ante a primeira palavra de amor, o sorriso sedutor de Tâmara empalidecia e uma indefinível expressão brilhava em seus grandes olhos cinzentos.
Ela parecia divertir-se com o despeito daqueles homens que a haviam conhecido pobre, quando nenhum deles manifestara o menor interesse por ela.
Pfauenberg apresentou-se à casa da Baronesa com o seu descaramento habitual, mas, ante suas sentidas felicitações, a moça respondera com um desdém e um sarcasmo tão pouco dissimulados, que Eitel Franzovitch compreendeu, incontinenti, a inutilidade de suas demonstrações de amizade e, ainda que fervendo de raiva íntima, voltou ao seu papel de um ocasional conhecido.
Não obstante, ele ia com frequência à residência da Baronesa, principalmente pela manhã e, entrando uma vez inopinadamente no gabinete, Tâmara viu, perplexa, Madame Raban pálida, de olhos cerrados, sentada numa cadeira, enquanto Pfauenberg com as mãos estendidas sobre a cabeça dela, a magnetizava.
Ele estava rubro, com as veias da fronte estufadas e tão absorvido na concentração de sua vontade, que não percebeu de pronto a presença da moça.
Mas, como se sentisse o olhar perscrutador que ela fixava nele, o oficial virou-se bruscamente e seus olhares se encontraram.
Um clarão de disfarçada maldade brilhou nos olhos azuis de Pfauenberg, mas, dissimulando sua cólera, ele fez alguns passes sobre a cabeça da Baronesa e, após uma breve conversação, desculpou-se com outros compromissos e retirou-se.
— Meu Deus!
Vera Petrovna, por que a senhora permite que esse homem a magnetize?
— Mas, minha querida filha, é Calchas que mandou, para aliviar minhas dores de cabeça e me sinto muito bem; ele trata de mim.
— Não posso crer que o tratamento desse hipócrita lhe seja salutar, e que significa esse cheiro acre e desagradável que enche o aposento?
— É o aroma especial de Calchas e que ele exala ao me magnetizar incorporado ao seu médium.
Eu o considero muito agradável, mas já sei que você o condena, na sua aversão, por tudo o que provém desse pobre Eitel Franzovitch.
O Almirante também veio à noite e Tâmara contou-lhe a cena presenciada pela manhã.
— Não compreendo a finalidade dessa comédia, pois não acredito no seu poder curador — acrescentou ela.
— Quem sabe?
Talvez ele seja um hipnotizador e queira sugerir a Vera Petrovna que o faça seu herdeiro.
Ela é rica e não tem filhos — respondeu Sergei Ivanovitch com um sorriso.
Era o fim de abril e Tâmara mencionou sua partida para a Suécia, que esperava concretizar no princípio de maio.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 14, 2016 7:54 pm

A Baronesa, contudo, a persuadiu a não se apressar, por causa de uma brilhante união em vista, que a velha dama desejava ardentemente ver concluída.
O pretendente privilegiado era um jovem Conde de Metlov, brilhante cavalheiro, cujo padrão de vida principesco e os inúmeros golpes de sorte eram tema predilecto dos mexericos de toda a cidade.
Era um homem muito belo, sedutor em suas maneiras e parecia muito apaixonado por Tâmara.
Uma velha tia dele, antiga companheira de colégio de Madame Raban, promovia mil investidas junto à moça, suplicando a Vera Petrovna empregar toda a sua influência para arranjar as coisas.
Por isso, as duas velhas damas ficaram profundamente aborrecidas, quando Tâmara recusou, com toda a franqueza, o pedido de casamento do Conde e permaneceu inabalável ante toda e qualquer tentativa de persuasão.
Pela primeira vez, a Baronesa fez uma cena com a sua amiga favorita, censurando-a pelo rancor anti-cristão que a tomava desagradável a todo homem que se aproximava dela, acrescentando que o orgulho e o dinheiro viraram a cabeça dela e, por fim, declarou que, como todas as jovens exigentes demais na escolha, acabaria solteirona.
Tâmara aguentou a borrasca com a maior fleuma e somente respondeu com um sorriso e um beijo ao mau-humor da velha amiga.
À noite daquele dia tempestuoso, Magnus foi visitá-las.
Ele era agora hóspede muito raro e desde que a moça se instalara em casa de Madame Raban ele evitava claramente vê-la com frequência.
Temendo, evidentemente, encontrar alguns dos numerosos visitantes que frequentavam com assiduidade o salão da Baronesa, ele chegou cedo.
Mas, como Vera Petrovna tinha uma carta urgente a escrever a seu marido, ausente a serviço, pediu licença aos dois jovens, que ficaram sós.
Estabeleceu-se um silêncio, pois as conversas entre eles agora não tinham a animação de outrora.
De repente, Tâmara atirou seu bordado para um lado, arrastou o tamborete para junto da cadeira do Barão e, após um momento de hesitação, disse visivelmente constrangida:
— Eu... eu quero fazer-lhe um pedido, senhor Lilienstierna.
— A mim? — perguntou Magnus, levantando a cabeça admirado.
Notando, porém, a perturbação da moça e o rubor que lhe subiu ao rosto, acrescentou vivamente:
— Disponha de mim.
A senhora sabe que me sentirei muito feliz em poder ser-lhe agradável.
Tâmara ergueu a cabeça, num gesto brusco e decidido que lhe era peculiar, e seus olhos voltaram a brilhar intensamente.
— Pois bem, devolva-me aquele bilhete que lhe enviei quando fiquei doente ou, melhor ainda, destrua-o.
Foi a vez de Magnus enrubescer.
— Bem, se é isso que a senhora deseja... respondeu ele com voz incerta.
— Isso não é tudo.
Esqueça as palavras injustas escritas sob a impressão de uma baixa insinuação que me havia sido feita.
O que vou dizer-lhe é a minha verdadeira resposta.
Ela inclinou-se e seu olhar velado e afectuoso mergulhou nos olhos do seu interlocutor.
— Aceito a sua oferta generosa, Magnus, e a protecção do seu amor e do seu nome.
Quero ser sua mulher e amá-lo com toda a minha alma.
Intensa coloração inundou a pálida face do jovem.
— Que está dizendo, Tâmara?
Devo aceitar seu sacrifício?
Ligar a senhora a um incurável enfermo?
Não e não. Quis, naquela ocasião, oferecer-lhe um abrigo contra a maldade humana; agora tudo está mudado.
Muitos homens belos e sadios põem o amor a seus pés!
Qualquer deles pode proporcionar-lhe uma vida feliz e brilhante.
Por que a senhora os recusa?
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 14, 2016 7:54 pm

Não é natural que me prefira a eles.
— £ natural porque estou convicta de que somente o senhor, Magnus, me ama pelo que eu sou — disse firmemente Tâmara.
Todos esses homens que me têm pedido em casamento só me inspiram desconfiança e antipatia.
A maioria deles me conheceu ainda enquanto meu pai vivia e ninguém me deu a menor importância, ninguém gostou de mim, enquanto eu fui pobre.
Não me tornei nem mais bela e nem mais inteligente, nem mais virtuosa agora.
Está bastante claro, portanto, que os milhões que me vieram ter às mãos e não a minha pessoa é que despertaram tanta cobiça.
Antes de tomar uma decisão, quis testar a mim mesma e lhe juro que meu coração permaneceu frio.
Nem um dos pretendentes me agradou, e a raiva e o despeito que minha recusa provocou me divertiram e me encheram de desprezo.
Ê somente ao senhor, Magnus, que desejo esposar.
— Ah, isso é impossível.
A vida é longa, Tâmara, e pode chegar um tempo em que você venha a maldizer seu generoso arrebatamento — murmurou Magnus, apertando a cabeça entre as mãos.
Ligar o seu futuro radioso a um paralítico, condená-la ao papel de uma permanente enfermeira, é o mesmo que desafiar a Deus.
Tâmara ouvira tudo com espanto.
Subitamente as lágrimas saltaram de seus olhos e ela exclamou com uma voz vibrante e entrecortada:
— O senhor me recusa, Magnus. O senhor!
Estou, portanto, mais pobre do que nunca, pois o único homem que me amou pelo que eu sou não me quer mais!
Assustado ante a sua violência, subjugado pelas suas lágrimas, o jovem tomou-lhe as mãos.
— Tâmara, como pode explicar assim minhas apreensões?
Não chore, minha bem amada.
Claro, eu a aceito como um presente do céu, como um raio de sol nas trevas de minha vida, e que Deus nos abençoe e nos proteja, para que a senhora jamais lamente a hora que nos uniu!
— Jamais, estou certa, terei coisa alguma a lamentar — respondeu Tâmara sorrindo por entre as lágrimas.
Magnus atraiu-a para si e levou apaixonadamente aos lábios as pequeninas mãos que tinha entre as suas.
Nesse instante, a Baronesa surgiu à soleira da porta e estacou como que petrificada.
Se ela não estava com uma perturbação na vista, o que estaria acontecendo ali?
Tâmara, que tudo percebeu ao levantar a cabeça, correu para ela e abraçou-a efusivamente.
— Querida Vera Petrovna, felicite-me:
acabo de ficar-noiva de Magnus.
Meu amor por ele é a explicação da recusa aos outros pretendentes... e não serei uma solteirona, como a senhora me predisse hoje pela manhã — acrescentou ela rindo.
A velha senhora parecia um tanto aturdida; contudo, felicitou cordialmente o Barão e, finalmente, deixou-se levar pela animada conversação dos dois jovens.
Após o chá, a moça, cujo entusiasmo e alegria pareciam inesgotáveis, expôs seus planos futuros.
— Espero partir dentro de dez dias para tomar posse da herança — disse ela — e, terminadas as formalidades, irei ao exterior com “tia” Eveline.
Ela já concordou.
Em Paris comprarei meu enxoval e, na volta, passarei por Nuremberg, que há muito tenho vontade de conhecer.
Lá desejo, também, encomendar alguns móveis em estilo gótico e renascentista.
Adoro esses velhos móveis entalhados e as janelas de vitrais coloridos.
— Vejo que você tem inclinações à prodigalidade — observou Magnus com um sorriso.
Ela sacudiu a cabeça, rindo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 14, 2016 7:54 pm

— Não, mas é preciso organizar-se com gosto e, como não daremos bailes, nem festins, recuperaremos o dinheiro gasto.
Espero adquirir uma casa situada no cais do Almirantado e que Sergei Ivanovitch me aconselhe a comprar.
Mas, voltemos aos planos: do exterior, irei directamente à sua propriedade, para onde você irá, sem dúvida, e lá nos casaremos na presença das testemunhas apenas indispensáveis.
Aí pelo meado de outubro, nossa residência estará pronta, acho eu, e então poderemos instalar-nos nela.
Agora, diga-me, meu futuro senhor e mestre, se meus projectos lhe convêm e se o senhor lhes concede sua elevada aprovação.
— Sem dúvida, concordo com tudo e agradeço-lhe particularmente a delicada lembrança de celebrar nossa união em minha casa no campo e na mais estrita intimidade.
Você adivinhou e expressou meu desejo secreto.
Quando Magnus se retirou, Tâmara queria continuar conversando com sua velha amiga, mas, notando-a desconfiada e pouco comunicativa, levantou-se para despedir-se.
— Fica, minha filha.
Quero falar seriamente com você, como o faria sua mãe se fosse viva, ainda que me seja penoso abordar o assunto.
— A senhora desaprova meu noivado, eu sinto.
— Sim, estou convencida de que cometeu hoje uma deplorável loucura, não que eu tenha qualquer coisa a dizer do carácter ou da posição de Lilienstierna — ele é um perfeito cavalheiro, mas não é marido para uma moça de vinte e três anos.
É uma união anormal e ser enfermeira a vida toda não é fácil.
Tâmara enrubesceu vivamente.
— Há três anos eu não teria compreendido a senhora, Vera Petrovna.
Hoje, meus olhos estão abertos acerca de muitas coisas.
A língua das pessoas é solta nos salões e na presença de uma pobre moça assalariada, que vai pintá-las, as pessoas se preocupam ainda menos.
Compreendo, portanto, que a senhora temesse que eu fosse arrastada no futuro a alguma paixão vulgar.
— Por que paixão vulgar e não a lei natural do instinto, à qual você está submetida como qualquer mulher?
Você é capaz de prever como será tentada na vida, e se o destino não lhe fará encontrar um homem que despertará paixão no seu coração, uma verdadeira paixão, não a morna afeição que Magnus lhe inspira?
— Não tenho temperamento apaixonado, Vera Petrovna, e considero o dever e a afeição dois sólidos sustentáculos.
Sei que me tentarão — e os olhos rebrilharam.
É uma brincadeira tão desejável a mulher do próximo, especialmente a mulher de um enfermo!
Nossos cavalheiros demonstram mesmo manifesta predilecção por essas ligações cómodas que a nada os obrigam.
Que importa a alguém levar a desunião e a desgraça ao lar do seu semelhante, desde que se satisfaça a vaidade?
Além do mais, logo que se aborreçam da mulher, ela é jogada fora como uma luva já muito usada!
Só que, quanto a mim, não me entusiasmarei por um homem que venha me oferecer a vergonha e o adultério.
O nome e a honra que Magnus me confia hei-de guardá-los intactos e espero firmemente ser feliz com ele, pois considero o casamento de um ponto de vista completamente diferente.
Para mim é, antes de tudo, a união das almas, a semelhança de gostos e tendências, a harmonia de temperamentos, a estima e a confiança recíprocas, enfim, suficiente amor para suportar pacientemente os pequenos defeitos que todos nós temos, bem como as flutuações do humor, as fúteis divergências, inevitáveis na vida em comum.
Eis a base sólida de uma união feliz:
essas condições nós as temos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 14, 2016 7:54 pm

Em que pode isso mudar com a doença de Magnus?
Eu a deploro por ele, pois, na sua idade, é duro estar acorrentado a uma cadeira de rodas.
Para mim, é uma razão a mais para amá-lo duplamente, pois serei tudo para ele, e os caprichos de um doente são mais agradáveis de suportar do que as pretensões, as infidelidades e, com muita frequência, os maus tratos de um homem sadio.
— Percebo pelas suas palavras que sua decisão é irrevogável.
Deus permita que você nunca se arrependa, - observou a Baronesa suspirando.
O Almirante também ficou muito admirado, mas considerou a coisa pelo seu lado bom e respondeu rindo às apreensões de Vera Petrovna.
— Porque a senhora se atormenta?
Tâmara é uma mulher de boa cabeça e coração firme.
Teve muitas e boas lições na vida para saber o que está fazendo e, certamente, Magnus Oscarovitch vale mais sem os pés do que Tarussoff, o patife, com quatro patas.
A Baronesa riu e levantou os ombros.
A notícia do noivado da senhorita Ardatov com o Barão paralítico espalhou-se por toda a cidade como rastilho de pólvora, suscitando as mais diferentes apreciações e um mexerico generalizado.
Os candidatos rejeitados encaravam a escolha como uma pilhéria de mau gosto e um insulto pessoal.
As tias e as mamãs furiosas, ao verem seus queridos meninos mimados preteridos por um enfermo que ninguém havia considerado como rival, não pouparam à moça expressões venenosas.
Enfim, todo o mundo estava descontente, ainda que, em realidade, o casamento não afectasse a ninguém.
Tâmara não ignorava as disposições hostis da sociedade, mas não lhes prestava a menor atenção.
Saía muito, divertindo-se deliciosamente com os olhares atravessados, os sorrisos constrangidos e o despeito mal dissimulado com o qual a felicitavam.
Dois dias antes da partida para Estocolmo, ela quis assistir com a Baronesa a um concerto em favor de uma instituição de caridade e no qual tomaria parte Rubinstein13.
Ao tomar o seu lugar, percebeu que tinha ao seu lado a senhorita Petronella de Prjeclovska, tia de um jovem Conde.
Trocaram apenas um cumprimento ligeiro, pois o jovem artista acabava de sentar-se diante do piano e toda a atenção se concentrou nele, mas no intervalo elas conversaram e, como um velho General aproximou-se e felicitou Tâmara, a velha senhorita viu-se obrigada a dizer, também, qualquer coisa.
— Permita-me, senhorita, expressar-lhe igualmente meus votos — disse ela num tom desagradável.
Só que confesso não saber muito bem o que posso desejar-lhe:
a escolha de um paralítico por uma moça bela e rica é tão estranha, que as felicitações, num caso desses, soam como nota falsa.
Tâmara mediu com o olhar frio e zombeteiro o rosto bilioso e irritado de sua interlocutora e respondeu:
— Muito obrigada, senhorita, a despeito do tom um pouco ambíguo das felicitações que me transmite.
Sou muito sensível ao interesse que minha escolha inspira, mas, na verdade, sua emoção é supérflua.
Não obrigo ninguém a imitar minha atitude.
É de meu gosto preferir um estropiado do corpo do que um estropiado da alma, desposar um homem encantador e inteligente que me ama pelo que eu sou, em lugar de qualquer libertino arruinado que me corteja apenas por causa do meu dote.
A velha dama ficou rubra de cólera sob a espessa camada de cosméticos.
— Oh! não desejo contestar que esse bravo jovem seja menos interessante do que todos os outros homens.
Ele sabe bem da dificuldade de interessar uma mulher pela sua pessoa.
— Eu lhe pediria, senhorita, não se esquecer de que o bravo rapaz de quem a senhora fala é meu noivo — observou Tâmara com um sorriso.
Aliás, nem o senhor Lilienstiema nem eu temos que dar satisfações alguma de nossos actos e nenhuma obrigação de declarar à sociedade os motivos que nos levam ao casamento.
A Baronesa, que ouvira essa pequena altercação, interferiu na conversa, dando-lhe outro rumo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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