Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 14, 2016 7:54 pm

No dia prefixado, Tâmara partiu para a Suécia, mas não ficou lá mais do que duas semanas, tempo necessário para preencher as formalidades indispensáveis e visitar o túmulo do seu benfeitor.
Passou um dia inteiro no pequeno castelo à beira-mar, onde Cederstedt fora sepultado.
Por longo tempo ela chorou e orou junto do túmulo do homem generoso que tão nobremente retribuíra a decepção com o bem.
Levava consigo, como preciosa lembrança, o medalhão contendo o retrato de Olaf, que ela própria lhe havia restituído da parte de sua mãe.
Foi um momento de calma felicidade aqueles dias passados ali com a família de seus amigos — a presença de Olga e Jorge encheu-a de alegria.
As crianças haviam mudado tanto para melhor, estavam tão sadias, de corpo e de espírito, que Tâmara concordou em deixá-los com Eveline por alguns anos mais.
Ao mesmo tempo, garantiu o futuro delas por meio de uma disposição especial.
Cederstedt, no seu testamento, as havia excluído dos direitos de sucessão, estipulando que, se Tâmara viesse a morrer sem filhos, a fortuna reverteria em favor de instituições de caridade.
A moça resolveu, pois, fazer-lhes uma dotação, retirada exclusivamente dos rendimentos que, acumulados até a maioridade delas, lhes asseguraria uma fortuna independente, sem desrespeitar a expressa vontade de Olaf.
Concluídos esses arranjos, ela partiu com Eveline para Paris e para a Alemanha e, ao final de junho, regressou a São Petersburgo, de onde telegrafou a Magnus, com o qual mantivera activa correspondência durante todo o tempo, informando-lhe que dentro de quatro dias, ou seja, a 28 de junho, chegaria com seus amigos em casa dele, para celebrar o casamento.

11 Rixdalers — Ao pé da letra, “dólar do reino”.
Assim se chamavam as moedas de prata, hoje obsoletas, da Alemanha, Holanda e Escandinávia, valendo, aproximadamente, um dólar americano na década de 50.
À palavra dólar, por sua vez, vem do holandês daler e alemão traler, moeda cunhada pela primeira vez em 1519, no Vale (thal, em alemão) de S. Joaquim, na Boémia, ou seja, aquela “moeda do vale”.


12 Machiavel ou, mais precisamente, Niccoló Machiavelli, estadista e historiador italiano nascido em Florença, em 1469, viveu até 1527.
Exerceu cargo hoje correspondente ao de Ministro das Relações Exteriores e desempenhou inúmeras missões diplomáticas.
Tomando-se suspeito aos Médicis, retirou-se da política e expôs suas ideias com franqueza e precisão em "O Príncipe”, publicado em 1513, obra que ainda hoje é lida com interesse.
Sua tese básica foi á de que, em política, era preciso concentrar-se nos objectivos finais a alcançar, sem nenhuma preocupação com os escrúpulos e preconceitos morais.
Escreveu outros livros, de história, ficção e poesia.


13 Rubinstein — Anton Grigorievitch Rubinstein, pianista e compositor russo, nascido em 1829, morreu em 1894.
Não seria, pois, muito jovem, quando deu o recital mencionado no livro de Rochester, cuja acção se passa, como sabemos, a partir de 1875.
Teria, talvez, seus 50 anos de idade.
Além de sua mãe, teve apenas um professor de piano — Alexander Villoing.
Embora tenha deixado importantes composições, Rubinstein tomou-se realmente famoso como pianista, sendo considerado por muitos superior até mesmo a Franz Liszt.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 14, 2016 7:55 pm

A jovem Baronesa

Bem perto do admirável parque do velho Petenhof encontrava-se uma grande e soberba vila em estilo russo, com a fachada esculpida e pintada de cores vivas, cercada por um jardim vasto e sombrio.
Essa magnífica residência de verão fora construída pelo rico comerciante Migusov, que a doara à sua filha, a Princesa Ugarine.
Num belo entardecer de junho, numerosos convidados estavam reunidos na vila.
Numa área arenosa em frente ao terraço, cavalheiros e damas jogavam ruidosamente o criket,14 enquanto outros conversavam em grupos junto de um elegante balanço e uma bancada de tiro ao alvo.
Apenas dois cavalheiros, comodamente instalados em cadeiras de balanço, entregavam-se ao dolce jar niente, junto de uma mesa carregada de vinhos, frutas e bombons.
A conversa arrastava-se lenta, pois era evidente que cada um deles estava concentrado em seus próprios pensamentos.
Um deles era o Príncipe Fluresco.
Com as longas pernas estendidas, ele fumava, acompanhando com o olhar as espirais, que lançava artisticamente para o ar.
O segundo era o dono da casa.
Esquecido de seu companheiro, ele fitava com o olhar fatigado e descontente os jogadores de criket e, sobretudo, sua mulher, que, com os braços cruzados às costas, discutia em altos brados com um oficial dos hussardos15 que, a seu ver, havia jogado mal.
Um observador atento teria surpreendido nos olhos do Príncipe Arsénio um desdém quase rancoroso, sempre que seu olhar pousava em Catarina, cuja aparência vulgar e maneiras levianas chocavam-no cada vez mais.
Naquele momento mesmo, apesar de sua elegante toalete de seda guarnecida de rendas, com sua pose ousada, o cigarro entre os dentes, o que torcia sua boca numa careta pouco agradável, tinha ela uma aparência de tamanho mau gosto, que o Príncipe fechou os olhos para não vê-la.
Nos primeiros tempos de seu casamento, absorvido pelo turbilhão mundano, as impressões sucessivas da viagem e embriagado pela riqueza, enfim conquistada, Arsénio vivera em agradável estado de aturdimento.
A fruição daquele luxo todo, que envolvia seu título e sua pessoa com o brilho que lhe convinha, levara-o, de certa maneira, a esquecer Catarina.
Mas, à medida que o hábito enfraquecia tal sentimento, a esposa, na qual tudo desagradava-lhe, excepto a riqueza, se lhe tornava cada vez mais uma carga.
Sua vulgaridade, sua escassa inteligência, sua suspeita moralidade inspiravam-lhe aversão sempre crescente, que ele dissimulava habilmente.
Um lacaio, que lhe apresentou uma carta, arrancou Ugarine de seus pensamentos.
— Alguma notícia desagradável? — perguntou Fluresco, notando que seu amigo ficara enrubescido ao ler.
— Não. A carta é de Lilienstiema, que me convida a comparecer depois de amanhã para assistir ao seu casamento com a jovem milionária tola.
— Eis aí uma diabinha que em verdade teve mais oportunidade do que merecia — observou Fluresco. Arre!
Ê incrível até que ponto essa moça é venenosa e orgulhosa!
Sua língua é uma verdadeira navalha e o retrato que ela fez de mim não o esquecerei tão cedo!
— Ah, sim, eu também sei de algo a respeito disso, pois andei experimentando seu orgulho e sua língua.
Estávamos um tanto em guerra e será muito engraçado encontrarmo-nos, agora, como primos.
Contudo, esse casamento é um enigma para mim.
Por que ela se liga ao paralítico e porque Magnus, que é um rapaz inteligente, arrisca-se a uma imbecilidade dessas? Mistério!
— Quanto às intenções do Barão, não compreendo nada, mas as dela são claras.
Na minha opinião, é antes de tudo uma desforra e um escárnio atirados a todos os que não lhe deram valor, no tempo devido.
Em segundo lugar, isso para ela será a liberdade ilimitada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 14, 2016 7:55 pm

Rica como é, abrirá seus salões, receberá toda a Petersburgo e escolherá livremente um amante, sem ferir direitos de ninguém.
— Meu Deus! Magnus não pode ser ciumento sem tornar-se ridículo, e ainda que ela seja uma excêntrica, é claro que, mais cedo ou mais tarde, ela se cansará dessa marido idealista.
Ambos riram animadamente.
— Partirei amanhã pela manhã e estarei de volta do dia 29 — acrescentou Arsénio.
Venha à tarde e eu lhe contarei o que houver visto e observado.
— Emílio Felixovitch, chega por hoje de repousar — exclamou naquele momento Catarina.
Venha, vamos iniciar uma partida de ténis e Olga Petrovna morre de tédio sem você.
Fluresco apanhou o boné e desceu ao jardim.
Arsénio seguiu-o, mas, evitando os convidados, enveredou por uma passagem sombria e, alcançando um pequeno bosque isolado, atirou-se a um banco.
A lembrança de Tâmara ressurgiu nele com todo o vigor.
Sua face delicada e encantadora projectava-se ante seu espírito envolvida em estranha e sedutora auréola e foi para pensar nela sem ser perturbado que ele procurara a solidão.
Interessava-lhe aquele tipo de mulher que ele vira desenvolver-se e amadurecer sob seus olhos, e que, em tantos aspectos, diferia da turba de criaturas insignificantes que conhecera.
Lembrou-se das primeiras entrevistas com Tâmara.
Ela estava despertando para a vida e a primeira aspiração de amor daquele pequeno coração ingénuo e confiante fora ele quem despertara.
Ela não conseguiu nem mesmo disfarçá-lo.
Sem temor e sem falso pudor, o olhar puro e límpido da moça reflectira claramente seus sentimentos.
Algo que ele ignorava extinguira subitamente ou velara aquele amor ingénuo.
Como noiva de Tarussoff, ela pareceu-lhe uma mulher amorosa e doce, cheia de confiança e boa vontade, mas isenta de paixão.
Em seguida, veio a desgraça e, dos escombros de sua existência desmoronada, emergiu uma mulher enérgica, activa que, sustentada pela sua altivez, só contava com o apoio de seu talento, inabordável sob a camada de gelo que a envolvia.
E, no entanto — estranho é o coração feminino! — no fundo da geleira, abrigava-se a aspiração ao verdadeiro amor.
Que profundo reconhecimento não deveria suscitar no coração de Tâmara o amor desinteressado de Magnus, seu desejo de colocá-la ao abrigo de necessidades e humilhações, a ponto de ela tomar a iniciativa de escolhê-lo entre todos os demais para dedicar a vida àquele doente e pagar-lhe, assim, sua dívida de gratidão!
Que a tarefa estaria acima de suas forças era facto indiscutível para Arsénio, mas constituía fenómeno digno de estudo semelhante sacrifício.
No dia seguinte, ao saltar na estação, a seis verstas16 da qual ficava a propriedade de Magnus, Arsénio Borissovitch encontrou uma carruagem à sua espera.
— A noiva já chegou? — perguntou ele ao lacaio que o ajudava a. subir.
— Não, Alteza.
Ela somente chegará amanhã pelo trem das quatro horas e às sete terá lugar a cerimónia de casamento.
O Almirante Koltovski, a Baronesa de Raban e Madame Ericson lhe farão companhia.
Magnus recebeu o primo com bastante cordialidade e, após a troca das primeiras saudações, disse-lhe com um sorriso:
— Sem dúvida que meu convite o surpreendeu.
Claro! Você nunca imaginou assistir ao meu casamento!
— É!... — disse Arsénio, cruzando as pernas e mordiscando as pontas do bigode com ar pensativo.
Francamente, Magnus, não imaginava que você se arriscaria a uma coisa dessas.
Em todo o caso, você tirou a sorte grande:
Tâmara Nicolaevna é uma mulher excepcional.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 14, 2016 7:55 pm

— Com qualquer outra, minha decisão teria sido uma loucura, porém, por mais indigno que eu seja da felicidade que me coube, não tive coragem de rejeitá-la.
É preciso conhecer, como conheço, toda a riqueza da alma de Tâmara, as qualidades incomparáveis de seu coração e de seu espírito para compreender toda a felicidade de viver na sua intimidade.
— Sim, eu sei de longa data que os gostos de ambos se harmonizam e que ela sempre defendeu você com um calor que fazia supor que ela previa o casamento de vocês — disse Arsénio, rindo.
Notei que você mandou fazer belas reformas na sua vila.
— Fiz algumas restaurações e arranjos para receber o meu bom anjo.
Você quer ver seus aposentos, lá do outro lado do salão?
— Certamente, se você me autoriza.
— Então, tenha a bondade de chamar Frederico.
— Por quê? Eu mesmo empurrarei sua cadeira.
Os dois jovens atravessaram o salão e Magnus mostrou ao primo um amplo gabinete, onde funcionava a biblioteca e um belo toucador decorado com seda branca, flores e obras de arte, destinado à sua futura esposa.
— É encantador, mas ali, além daquela porta, está, sem dúvida o santuário de Psique.17
Pode-se ver, também, ou a entrada é proibida aos profanos?
— A ordem não é tão severa.
Pode ver, se você quiser — respondeu Magnus com um sorriso.
Arsénio levantou curiosamente o cortinado e examinou o aposento contíguo, que era o quarto de dormir.
Estava todo decorado de seda rosa entremeada de musselina branca.
Cortinas de renda cercavam o leito e a penteadeira.
Era um recanto maravilhoso, mas o Príncipe pensou, em seu foro íntimo, que cores sombrias conviriam melhor à jovem Baronesa, para sonhar ali seu estranho sonho de amor, do que aquele ninho cor de rosa e perfumado.
No dia seguinte, Arsénio dormiu até tarde.
Notando, em seguida, que Magnus parecia pouco disposto a conversar, mandou selar um cavalo e deu um longo passeio.
Pretendia estar de volta ali pelas quatro horas, mas tendo atrasado um pouco, soube que a noiva já chegara com os amigos.
O Príncipe apressou-se em arrumar-se e apresentou-se ao primo, que já estava pronto e conversava com alguns senhores que lhe apresentou:
eram um velho médico das vizinhanças, o pastor protestante e um proprietário vizinho.
A cerimónia deveria ter lugar numa capela junto à residência.
A mãe do proprietário anterior, tendo sido ortodoxa,18 a havia construído e Magnus a mandara restaurar especialmente para seu casamento com Tâmara.
Quando todos se reuniram na capela, Arsénio ficou com os olhos pregados na porta, pela qual deveria entrar Tâmara.
Ele não a vira mais desde o dia em que ela desmaiara no atelier do signor Belzoni e não poucas alterações haviam ocorrido desde então!
Dentro em breve, ela surgiu pelo braço do Almirante, pensativa, os olhos baixos, mas encantadora no seu vestido simples de noiva.
Com um interesse que ele próprio não tentou explicar-se, Arsénio não deixava de contemplar os noivos, perscrutando avidamente cada traço na face deles.
Tâmara estava grave e calma.
Acompanhava com recolhimento solene a sagrada cerimónia.
Quanto a Magnus, sua emoção era extrema.
Estava pálido como um defunto e quando passou o anel para o dedo da noiva, sua mão tremia tão visivelmente que Tâmara percebeu.
Virou a cabeça para ele e mergulhou um olhar tão bom, tão cheio de confiança e afeição nos seus olhos, que ele recuperou instantaneamente o sangue frio e o controle.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 14, 2016 7:55 pm

Por fim, a comovedora prédica do pastor, que em seguida abençoou a união, deixou-o calmo.
Terminada a cerimónia, Magnus apresentou a esposa aos convidados que ela ainda não conhecia.
Quando Arsénio aproximou-se e os felicitou, o Barão observou com um sorriso:
— Sei que vocês se conhecem, mas ignoro se um bom entendimento existe entre vocês.
Rogo, pois, aos dois que cultivem, um pelo outro, a benevolência que deve prevalecer entre parentes próximos.
— Sem dúvida alguma, os amigos de meu marido são também os meus, - respondeu Tâmara graciosamente, enquanto o Príncipe beijava-lhe a pequena mão.
Após o jantar, que foi animado pela mais franca alegria; reuniram-se todos no salão e foi organizada uma partida de whist, na qual somente Tâmara e o Príncipe não tomaram parte.
Sentada perto do marido, a moça conversava, acompanhando o jogo, quando Magnus, virando-se para seu primo, lhe disse:
— Arsénio, você não queria mostrar o parque a Tâmara e fazer com ela um pequeno passeio no lago?
A tarde está tão bonita e não queria que ela ficasse entediada no primeiro dia que passa sob meu tecto — ajuntou ele com um olhar afectuoso à esposa.
— Certamente!
Sentir-me-ei feliz em acompanhar a Baronesa e tratarei de distraí-la, se, porém ela me aceitar como cavalheiro — respondeu o Príncipe, levantando-se vivamente para impedir a resposta negativa que Tâmara já tinha nos lábios.
Sem desejar provocar explicações, ela inclinou simplesmente a cabeça.
— Se o senhor Príncipe não se importa com o incómodo, aceito-o de boa vontade como cicerone no meu novo reino.
Ela se levantou e chamou: “Percival".
O grande terra-nova do Barão saltou da sua esteira e veio postar-se junto dela todo feliz.
— Veja, a bela castelã estará sob a protecção de dois fiéis amigos — disse Arsénio com um sorriso algo constrangido.
Silenciosamente, eles desceram os degraus da escadaria do terraço.
Tâmara recusara o braço do Príncipe e, apanhando numa das mãos a longa cauda do vestido, caminhava ao seu lado.
Arsénio foi quem quebrou o silêncio.
— Se a senhora me permite, vou levá-la primeira à casa rústica do lado de lá do aviário, às laranjeiras, à criação de faisões, etc.
Cada vez mais palrador e decidido, fazendo-lhe as honras, como se a propriedade fosse dele, Arsénio conduziu a jovem por toda a parte, mostrando-lhe as mais belas vistas e contando-lhe a história de cada lugar.
Chegaram, enfim, ao lago e, com uma exclamação de espanto e prazer, Tâmara estacou, examinando, arrebatada, a admirável paisagem.
Diante deles estendia-se uma vasta superfície de água polida como um espelho, colorida pelo sol poente, de reflexos púrpura e dourados.
Colinas arborizadas, cortadas aqui e ali por rochas abruptas, viam-se ao longe, nos limites da propriedade.
Mais abaixo, ao cabo de uma elegante descida, balançava um bonito barco pintado de branco com uma faixa vermelha.
Em letras douradas, lia-se nele o nome de Tâmara.
Um barqueiro vestido de marinheiro esperava os dois.
— Como é bonito isto aqui! — disse a moça aceitando a mão de Arsénio para subir ao barco e instalando-se diante dele.
— Sim, muito bonito e desejo que seus novos domínios lhe agradem — respondeu o Príncipe, observando com um misto de interesse e de curiosidade o rosto da jovem esposa que se calara, com os olhos fixos a distância e aspecto sonhador.
O barco deslizava docemente pela superfície polida do lago e nem a mais leve brisa fazia-se sentir.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 14, 2016 7:56 pm

O ar estava doce e perfumado e o rosto encantador de Tâmara harmonizava-se com aquela calma da natureza.
Havia recuperado toda a sua boa aparência, a transparente brancura da sua pele e aquela quietude contemplativa que a caracterizavam outrora.
A dureza amarga, o olhar hostil e desafiador que o Príncipe notara durante as sessões de pintura no atelier haviam desaparecido completamente.
Os grandes olhos brilhantes e límpidos reflectiam profunda calma, isenta de paixões e de desejos, e somente a expressão de energia permanecera na pequena boca voluntariosa para provar que ela não era mais a ingénua menina de outros tempos.
Arsénio não interrompeu o silêncio que se estabelecera.
Não sabia como retomar o tom de uma conversa frívola e animada, mas não tirava os olhos de sua companheira e, sem se dar conta, embriagava-se na contemplação do estranho encanto que envolvia a moça.
Sob o peso dessa impressão, o barco aproximou-se da margem e eles retomaram lentamente o caminho da casa.
Caíra a noite, uma dessas noites diáfanas, cuja doce claridade envolve tudo como que num véu prateado.
Com o coração oprimido, cheio de vaga inquietação, o Príncipe caminhava ao lado de Tâmara, ouvindo atentamente o ruído de seu vestido de seda e acompanhando com o olhar cada um de seus movimentos leves e graciosos.
Jamais a presença de Catarina suscitara nele aquele sentimento pungente e emocionado que fazia bater seu coração.
Foi ela quem rompeu o silêncio dessa vez:
— O senhor costuma passear bastante em Peterhof? — perguntou levantando para ele os olhos.
Ao encontrar, porém, o olhar ardente que a fitava, uma nuvem passou pela sua face.
— Sim, sempre que posso.
A senhora sabe que Catarina adora festas e a nossa casa está sempre cheia de gente — respondeu Arsénio, desviando o olhar.
A propósito, tenho umas felicitações a transmitir-lhe.
Receio, apenas, que a senhora atribua a elas pouco valor, visto que vem de uma personagem que lhe é antipática.
— Porquê?
Os bons votos são sempre agradáveis.
Mas quem lhe pediu para transmiti-los a mim?
Não creio ter alguém em Petersburgo que se interesse pela minha sorte.
— É o Príncipe Fluresco.
Ele estava presente quando recebi e carta de Magnus convidando-me para o casamento.
Encarregou-me, então, de cumprimentá-la até que possa apresentar-lhe pessoalmente seus votos, após seu retorno à cidade.
— Verdade? — disse Tâmara com ironia.
— Vejo que a senhora o julga mal e interpreta falsamente suas intenções — disse com vivacidade o Príncipe.
Asseguro-lhe Tâmara Nicolaevna, que não há nisso nenhuma segunda intenção.
— Sem dúvida, estou convencida de que, na sua sociedade, todos agem com uma franqueza ingénua, para dizer o mínimo, e que, segundo as circunstâncias, todos são de uma tocante sem-cerimónia, tanto na polidez, como no seu oposto.
— Minha sociedade?
Mas é tanto da senhora quanto minha! — retrucou Arsénio, reagindo ao tom sarcástico da moça.
Estavam chegando à área diante do terraço, no meio da qual um jacto de água se elevava do centro de um vasto chafariz.
A moça parou e contemplou com uma expressão pensativa o feixe prateado que se reflectia na claridade mágica como feito de poeira de diamantes.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 14, 2016 7:56 pm

— Não — disse ela, após um momento de silêncio.
Eu não pertenço à sociedade da qual acabo de falar e não pertencerei a ela no futuro, porque ela me excluiu e me esqueceu.
No dia em que todos fugiram de nossa casa batida pela ruína, perdi a fé e a estima por essas pessoas sem coração e jurei não mais misturar-me com elas.
Arsénio mordeu os lábios.
Ele também fugira da mansão, onde a desgraça acabava de plantar sua bandeira.
Subitamente surgiu em sua lembrança o pequeno rosto pálido e decomposto de Tâmara no vestíbulo e à qual, como todos os demais, ele também dera as costas.
— A senhora não pensa, então, em abrir os seus salões para a temporada de inverno?
— Vamos viver para nós e não para a turba egoísta, a cuja amizade atribuímos o justo valor.
Nós nos bastamos, Magnus e eu.
Para que precisamos de estranhos?
É por isso que duvido que o Príncipe Fluresco tenha jamais oportunidade de me transmitir pessoalmente suas felicitações.
— Compreendo o seu ostracismo, no que diz respeito a Fluresco.
A senhora o detesta por sua falta de polidez e sei que a uma falta dessa natureza a senhora jamais perdoa!
— Detestá-lo?
Seria muita honra — respondeu Tâmara com desdém.
E dirigindo-se para o terraço, parou no primeiro degrau e prosseguiu:
— O senhor se engana, Arsénio Borissovitch, ao explicar minhas palavras, atribuindo-as ao rancor.
Apenas atribuo a esse cavalheiro o seu justo valor, mas tal julgamento já foi feito há muito tempo.
Toda a sua alma está à mostra na grosseria descarada com a qual tratou uma pobre moça que, por necessidade, fazia seu retrato.
Esse Príncipe Fluresco é uma dessas nulidades que para nada servem na vida:
nem trabalho sério, nem dever de qualquer espécie ocupam-no.
Homem de salão, elegante decoração dos bailes e das recepções mundanas, ele dedica sua existência a essas futilidades.
Um dia desaparecerá como um fantasma, para ser substituído por outros inúteis da mesma espécie.
Não acho que estou sendo severa demais, pois tenho ouvido falar de muitos vícios e loucuras do Príncipe Fluresco, mas nunca ouvi falar de nenhuma de suas virtudes.
Partindo desse ponto de vista, sua conduta em relação a mim não me surpreende:
quando eu era pobre, ele me desprezou e me tratou com arrogância; depois que fiquei rica, ele me mostra sua deferência.
Está na ordem das coisas.
Um vivo rubor queimava a face do Príncipe.
Mais de uma palavra daquele discurso poderia perfeitamente ajustar-se a ele e, contudo, uma invencível fascinação o atraía para a moça que, tão esbelta e diáfana, na sua toalete branca iluminada fracamente pela lua que acabava de nascer, se postava diante dele como uma visão tentadora.
— E, no entanto, muitos virão forçar a sua porta, Madame.
Apesar da sua repugnância, vão abrir caminho até a senhora, para ver a mulher sedutora, bela e inteligente que sacrifica sua mocidade para velar um esposo paralítico.
É um quadro ideal, bem raro em nossa época.
Sua voz vibrava estranhamente e, inclinando-se para ela, mergulhou nos seus olhos límpidos um olhar de fogo.
Tâmara não se impressionou com o olhar apaixonado.
Limitou-se a sorrir e, sob a indefinível expressão daquele sorriso, Arsénio recuou um passo.
— Talvez o senhor tenha razão, Príncipe.
Admito haver-me tornado agora capaz de despertar tais paixões.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 14, 2016 7:56 pm

A mulher alheia — dizem — é sempre mais desejável e há um encanto todo especial em seduzir e corromper uma mulher que, livre e pobre, ninguém havia notado.
Se, apesar da minha repugnância, forçarem-me a porta, ficarão todos decepcionados e abandonarão os efémeros projectos, porque em nosso lar conjugal velarão duas fiéis sentinelas: o amor e o dever.
Arsénio nada respondeu.
Compreendera a digna resposta que o prevenia quanto ao resultado de suas galantes investidas.
— Vamos entrar — disse a moça estendendo-lhe a mão.
Permita-me agradecer-lhe pela sua amável companhia e pela paciência com a qual, durante toda a tarde, o senhor colocou-se à minha disposição como cavalheiro cicerone.
O Príncipe beijou-lhe a mão e a reteve na sua.
— Prima Tâmara, estarei eu exilado como os estranhos que, vilmente, fugiram de sua casa paterna?
Estarei banido da sua casa?
Não haverá graça nem perdão para o culpado que se arrepende?
Isso não será cristão e nem espírita...
— O que está o senhor pensando, primo? — respondeu Tâmara com um sorriso alegre.
O senhor é nosso parente e será sempre bem-vindo, podendo contar com a amizade da mulher de Magnus.
Amo bastante o meu marido para não partilhar com ele todos os seus sentimentos, e ele lhe tem amizade.
E agora, vamos entrar!
Ela subiu com vivacidade a escadaria e desapareceu no salão iluminado.
Arsénio seguiu-a, mas, em vez de entrar, atirou- se a um dos bancos do terraço e passou um lenço sobre o rosto inflamado.
— Mulher sedutora e perigosa! — murmurou ele.
Só hoje compreendi que se chegarmos muito perto dela, podemos rolar no abismo.
Sabe você que quanto mais nos rejeita, mais você nos tenta?
Permanecerá você sempre assim impassível, e esse pálido fantasma, que você chama de seu marido, bastará ele para preencher sua vida?
Não, o coração deve despertar e se ele despertar, será por mim, eu o quero e o tentarei.
— Primo Arsénio, venha jantar — disse, nesse instante, a voz clara de Tâmara.
O que está o senhor aí pensando à luz da lua?
Será que se tomou um sonâmbulo?
— Eis-me aqui — respondeu o Príncipe, fitando seu olhar ardente na esbelta silhueta da jovem esposa de seu primo.

14 Cricket — Jogo ao ar livre com um bastão em forma de bengala, uma bola e outros petrechos, disputado usualmente por 22 jogadores, 11 de cada lado

15 Hussardos (do húngaro huszar) — Soldados de cavalaria ligeira criada no século 17.
Trajavam uniforme inspirado em vestimenta semelhante à usada pelas tropas húngaras. Daí o nome.


16 Versta — Medida russa de extensão, correspondente a cerca de um quilómetro ou, mais precisamente, a 1.067 metros.

17 Psique — Na mitologia grega, era uma jovem de grande beleza, amada por Eros.
Este conduziu-a a um palácio, onde vinha encontrar-se com ela todas as noites, prometendo-lhe amor eterno, desde que ela não procurasse ver-lhe o rosto.
Certa noite, ela acercou-se dele com uma lamparina e o viu, enquanto ele dormia, mas uma gota de óleo que tombou sobre ele despertou-o e ele fugiu.
Após numerosas peripécias, Psique conseguiu reencontrar-se com Eros.
O mito de Psique tem sido interpretado como símbolo da trajectória da alma decaída que, após inúmeras provações (e, certamente, encarnações), une-se, para sempre, ao amor divino.


18 Ortodoxa — de orthos — direito, correcto, certo e doxa (doxein) — opinião.
Chamam-se ortodoxas as igrejas cristãs orientais — principalmente a grega e a russa — que se separaram de Roma em 1054.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 14, 2016 7:56 pm

SEGUNDA PARTE

O assédio do Príncipe


Pelo meado de outubro, Tâmara e o marido regressaram à capital e foram residir na casa do Cais do Almirantado, que ela havia adquirido e montado a seu gosto.
Os jovens esposos se sentiam completamente felizes.
Numa atmosfera de constante afeição, cercados dos mil e um pequenos cuidados que só a pessoa amada sabe criar, Magnus sentia-se reviver e, do fundo da alma, agradecia ao Pai Celeste, cuja bondade havia tão miraculosamente suavizado a pesada prova à qual ele se submetera.
Quanto a Tâmara, harmonizava-se perfeitamente com ele, bastando-se ambos tão completamente um ao outro, que até a ideia de ter entre eles alguma pessoa estranha lhes era desagradável.
A Baronesa e o Almirante vinham sempre visitá-los, sendo que este sentia-se tão bem naquele ambiente calmo e luxuoso que, às vezes, passava com eles o dia todo.
O outono trouxera de volta as famílias que frequentavam a residência da Baronesa, toda aquela gente que conhecia Tâmara e julgava-se com direitos indiscutíveis a manter com ela relações de amizade.
Os salões foram se abrindo, uns após outros, mas a jovem Baronesa não aparecia em lugar algum e em vão esperava-se pela sua visita.
Tal reserva despertou ainda mais a curiosidade.
Às perguntas discretas que lhes eram endereçadas, o Almirante e a Baronesa respondiam, sorrindo, que Lilienstiema e sua mulher estavam bem, mas se sentia tão satisfeitos no seu retiro, que não buscavam a sociedade e suas reuniões.
Tâmara manteve-se, pois, invisível e, às vezes, ao longo do cais ou pelas ruas menos movimentadas passava a carruagem, na qual a jovem Baronesa e o marido enfermo faziam seu passeio diário.
Quando Nadina voltou do interior, já bem tarde, pois havia cuidado em sua propriedade de uma cunhada doente, foi visitar Tâmara, que a recebeu cordialmente, pois a moça não se esquecera que, de todas as suas amigas, só ela testemunhara-lhe algum interesse durante os anos de desgraça.
Madame Kulibine voltou da visita deslumbrada e encantada e, em peregrinação pela residência de seus conhecidos, atiçou ainda mais, pelos seus relatos, a curiosidade daquela sociedade fútil e enfastiada que nada encontra de melhor a fazer da sua própria ociosidade do que interessar-se pela vida alheia.
Algumas senhoras mais decididas que as outras resolveram que, uma vez que Madame de Lilienstiema descuidava de seus deveres de polidez, era preciso intimar-lhe a cumpri-los, tomando a iniciativa de visitá-la. Em consequência, num dia previamente combinado entre elas, foram todas à casa da moça, mas para grande decepção do grupo, o porteiro declarou que, estando o Barão doente, Madame não estava recebendo ninguém. Alguns dias mais tarde, os jovens esposos escreveram a todos os que os haviam visitado e a coisa ficou nesse pé.
Mas, desta vez, a atitude deles foi levada a mal e comentários muito venenosos começaram a circular sobre eles.
Estavam as coisas nesse ponto quando, no começo de dezembro, Ugarine regressou da Crimeia, onde fora em companhia de seu chefe.
Sua mulher fora com ele e, juntos, fizeram um tratamento à base de uvas.
O Príncipe foi logo informado da inqualificável conduta de Tâmara e de todas as queixas que a sociedade tinha contra ela.
Só os miseráveis — diziam — isolam-se daquela maneira por avareza, a fim de não receberem ninguém.
Lamentavam até uma taça de chá servida a alguém e viviam de pão preto numa esplêndida mansão decorada apenas por vaidade.
Essa era, principalmente, a opinião das senhoras.
Quanto aos cavalheiros, suas suspeitas concentravam-se na ideia de que o monstro paralítico era ciumento como um tigre, ou melhor, como um cão acovardado, e emparedava sua jovem esposa da maneira mais odiosa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 14, 2016 7:56 pm

Ao ouvir de Fluresco todas essas suposições, Arsénio declarou a rir:
— Isso nada tem de verdadeiro.
É de boa fé que eles evitam ver as pessoas, mas, espera, irei vê-los e quebrarei o gelo.
Acho que eles não ousarão botar o primo pela porta afora.
Cerca de oito dias após essa conversa, a carruagem do Príncipe Ugarine estacionou diante dos portões do pequeno palácio no Cais do Almirantado, onde morava Tâmara. “Arre!
E se, a despeito de tudo, ela não me receber?
Ela é bem capaz disso!” — pensou Arsénio, enquanto o porteiro levava seu cartão.
Logo, porém, acorreu um criado, para anunciar que o Barão o receberia e, após ajudar o visitante a tirar o casaco, convidou-o a subir ao primeiro piso.
O Príncipe galgou rapidamente a escadaria coberta com uma passadeira.
Uma profusão de plantas exóticas e de estátuas de bronze providas de lâmpadas davam àquela entrada a aparência de uma estufa.
Um criado vestido de “libré” o introduziu numa antecâmara, onde já o esperava Frederico, o camareiro de Magnus.
— Queira seguir-me, Alteza — disse ele respeitosamente.
A senhora Baronesa pede ao senhor que aguarde aqui na biblioteca.
O senhor Barão está ocupado com o intendente e pede desculpas.
Estará aqui dentro de um quarto de hora.
Arsénio acompanhou o servidor, mas ao penetrar no amplo salão estacou por um instante, admirado:
apesar da riqueza de sua própria residência, o luxo severo e harmonioso daquela sala surpreendia-o.
Um tecido castanho de ramos dourados cobria as paredes e sobre esse fundo algo sombrio e, contudo, de admirável suavidade de tom, destacavam-se vigorosamente alguns quadros de mestres e estátuas antigas cercadas de flores raras em vasos japoneses.
Os móveis eram harmoniosos e sobre as mesas e aparadores havia uma infinidade de objectos raros é preciosos que lhe excitavam a curiosidade.
O Príncipe comparou intimamente aquele arranjo de bom gosto e estilo com a pesada magnificência e mau gosto que ele devia ao seu sogro e o descontentamento íntimo que se apossava dele agravou-se ainda mais, à medida que atravessava os outros aposentos, todos tão originais quanto elegantes e como pequenos museus de obras-primas de todos os quadrantes e de todas as épocas.
Por fim, o servo levantou um cortinado e o fez entrar num corredor bastante espaçoso, revestido de lambris de carvalho e de abóbadas arqueadas, ao fira do qual se via uma porta gótica entalhada, cuja fechadura era de metal trabalhado.
Ao abrir essa porta, Arsénio acreditou-se, por um instante, transportado ao gabinete do Dr. Fausto:19 a grande sala de paredes cobertas de madeira entalhada era iluminada por duas altas janelas com vitrais coloridos.
Os reflexos multicores da luz brilhavam no assoalho de carvalho e sobre uma grande mesa no meio da sala, rodeada de cadeiras em estilo gótico.
Três grandes estantes trabalhadas, com uma talha rendilhada e muitos armários menores de portas de vidro, estavam cheias de livros, brochuras e publicações.
Pesadas cortinas de veludo grená ocultavam as portas, vendo-se bordados nelas, em relevo, o brasão dos Lilienstiema.
Por um momento, pareceu ao Príncipe que a peça estava vazia, mas um ligeiro ruído atraiu sua atenção para uma das janelas, junto à qual ele viu sobre um tablado uma dessas cadeiras estreitas de espaldar alto e dossel de madeira que, na Idade Média, chamavam-se cátedras e que são vistas nas miniaturas de Cristina de Pisano.20
Sobre uma mesa em forma de carteira estava aberto um grande e espesso volume mas, em lugar do velho mago, uma graciosa moça folheava o alfarrábio, a qual agora caminhava na sua direcção, sorridente, com a mão estendida.
O Príncipe beijou os dedos afilados e cumprimentou Tâmara pela sua nova residência.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 15, 2016 9:43 pm

Em seguida, ocupando a cadeira que ela lhe indicara, examinou curiosamente a moça, que ficara ainda mais bela desde a última vez que a vira.
A felicidade e a riqueza haviam emprestado à sua face encantadora uma expressão suave e agradável que lhe assentava tão bem quanto o vestido de pelúcia violeta, de gola alta, tipo Médicis, que realçava o incomparável frescor e a transparência de sua pele.
Após haver-se informado da saúde do Príncipe e de sua esposa, Tâmara pediu desculpas pela ausência de Magnus.
— Ele está ocupado com o intendente, pois deixei a ele todos os cuidados maçantes com a movimentação da minha fortuna — disse ela, rindo.
— Mas, claro, é perfeitamente justo que os negócios maçantes sejam de responsabilidade do marido.
— Foi o que pensei.
Mesmo porque Magnus, com a sua paciência e experiência de negócios, é muito mais competente do que eu.
Mas, me conte, Arsénio Borissovitch, como passa o seu tempo com Catarina e o que acontece no mundo de onde vem o senhor?
— Mundo? Ele está ofendido e furioso contra a senhora, Baronesa — disse o Príncipe, rindo.
A senhora não recebe ninguém e se isola no seu delicioso claustro, quando todos ardem de desejo de penetrar aqui!
— Por que fazê-lo?
Não pretendo dar festas, porque detesto salões cheios, onde a gente sufoca.
Ficaria com a impressão de que a desgraça se introduz no meu lar juntamente com essa turba ociosa e maldosa.
Não, não. Jamais irei a tais festas e receberei apenas os bons amigos e as pessoas simpáticas.
Ademais, não me sobra tempo para me entediar.
Veja que boa e numerosa companhia temos aqui reunida.
E apontou as estantes carregadas de volumes.
— E isso lhe basta?
— Sim. Os livros são os mais dignos companheiros dos seres humanos.
Eles elevam o espírito, cultivam o saber, expulsam qualquer pensamento ocioso e são escudo contra o tédio.
Queira desculpar-me um instante, primo.
Vou ver por que Magnus se demora tanto.
Ficando só, o Príncipe pôs-se a examinar mais detalhadamente o que o cercava, a folhear publicações e ler os títulos dos volumes.
À medida que avançava nessa inspecção, seu espanto crescia.
Em primeiro lugar, aproximara-se da carteira para ver o que Tâmara estava lendo quando ele chegou.
Vendo o título — “A Magia entre os Antigos Caldeus e suas Ligações com a Cabala Hebraica” — abanou a cabeça e encaminhou-se para uma das estantes.
Ali acumulavam-se livros sobre arqueologia, a Assíria, o Egipto, a Fenícia, etc.
Havia obras ilustradas sobre as escavações de Tróia por Schliemann21 e no Peru, tratados sobre a arte e a astronomia na antiguidade, estudos sobre os Vedas e as ciências ocultas, inumeráveis livros de viagem, de memórias e, enfim, tudo o que a ciência moderna podia dizer sobre magnetismo, hipnotismo, Espiritismo e Teosofia.
Uma das estantes fora especialmente reservada aos clássicos de todas as nações — havia ali de tudo, excepto romances modernos.
— Meu Deus! Baronesa; minha cabeça gira só de ler todos esses títulos científicos — explicou o Príncipe vendo Tâmara de volta.
É esse o alimento para a alma de uma jovem e bela mulher?
Nem um romance, literalmente nem um, para refrescar a cabeça!
Acho que eu ficaria louco aqui, sob essa poeira do passado.
Renunciar completamente ao presente, mesmo neste poético retiro, digno de Fausto, ultrapassaria minhas forças.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 15, 2016 9:44 pm

Tâmara apoiou-se no espaldar de uma das cadeiras esculpidas e seu olhar calmo e sorridente errou sobre as filas de livros.
— Sim, primo, é aqui, no reino das ideias, que me sinto bem.
Além disso, naquele armário à esquerda e no meu gabinete há uma colecção de romances modernos, menos as produções naturalistas.
— Mas de onde a senhora tira a paciência para ler todos esses tratados abstractos?
Que interesse pode inspirar-lhe os resíduos de um passado distante?
— Tais questões deixam de ser abstractas quando habituamos o espírito ao alimento vivificante que nos proporcionam.
Ê um favor da sorte recorrer sem receio aos tesouros de sabedoria e de erudição penosamente acumulados por uma elite de homens que sacrificaram uma vida inteira de labor para conquistá-los.
E que estudo emocionante esse do passado!
Seguir, de relance, a marcha imponente da humanidade, as quedas e os progressos por meio dos quais ela caminha rumo ao objectivo longínquo e desconhecido!
E como a voz austera da História nos faz lembrar a nossa fragilidade! Que somos nós, átomos efémeros, se raças inteiras, civilizações colossais desapareceram sem deixar traços?
Em que profundezas mergulha nosso olhar deslumbrado, quando se pensa que ali mesmo, onde floresceram cidades mortas desses povos extintos, dos quais até os nomes foram esquecidos, hoje crescem florestas virgens!
Sentia-se animada ao falar e um colorido rosado inundava suas faces, enquanto os grandes olhos brilhantes fixavam o Príncipe com uma convicção persuasiva.
— Creia-me, Arsénio Borissovitch, se nossa sociedade encontrasse mais atractivo em uma leitura séria e instrutiva que ocupasse a mente e elevasse o pensamento, seria menos frívola, os laços de família estariam menos frouxos e as chagas sociais menos infectadas.
O tédio, o vazio do coração e do pensamento, empurram homens e mulheres a essa caçada desenfreada ao prazer a qualquer preço.
Foge-se do lar, ao qual nenhum valor é atribuído, onde os deveres são todos uma carga incómoda, onde o tédio e a preguiça reinam absolutos.
Somente se sente bem no meio dos estranhos, no turbilhão que arrasta e sufoca, para só deixar suas vítimas à beira do túmulo.
E se algumas vezes, por falta de outra coisa qualquer, alguém toma um livro nas mãos, é uma dessas obras abomináveis que, renegando ou ridicularizando todo sentimento honesto, remexendo à vontade toda a lama que reduz o homem ao nível do animal, aniquila o pudor e a virtude, doura e embeleza o vício e, como a gangrena, devora o espírito e o corpo.
Contemplando um gosto, assim pervertido, sistematicamente depravado, é de admirar-se a decadência dos costumes?
— Mas, prima, a senhora está sendo muito severa e muito dura — observou Arsénio, que ouvira tudo um tanto desconcertado.
Não se pode acusar de depravadas todas as criaturas que não lêem livros como os seus.
Cada um os escolhe conforme seu saber.
Eu não leio nada, a não ser, às vezes, um romance moderno. O mundo e a minha carreira não me deixam tempo.
No entanto, não me considero um desocupado, nem um viciado.
— Os presentes são sempre excluídos — respondeu Tâmara com um sorriso.
Contudo, não creio enganar-me, supondo que a carreira militar seja uma ocupação rotineira, necessária à existência, mas que bem pouco alimenta o espírito.
E, agora, basta deste assunto.
Vamos almoçar.
Ali está Ivan, que anuncia que a refeição está à nossa espera.
Sem dúvida Magnus foi levado directamente à sala de almoço.
O Príncipe seguiu silenciosamente a moça.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 15, 2016 9:44 pm

A despeito de si mesmo, suas palavras haviam-no impressionado e ele reconhecia que ela dissera a verdade.
Todos se entediavam no seu ambiente social, onde o pensamento, sempre ocioso, procurava preencher com distracções e vícios o vazio interior.
Era verdade que nada o prendia, nem à sua mulher, nem às pessoas de suas relações, que nenhuma afeição o atraía às mulheres que ele cortejava, que, no fundo, ele as desprezava, mas que elas, como seus amigos, serviam para matar o tempo e preencher o vazio de que ele tinha verdadeiro horror.
No momento em que eles entravam na sala de refeições, a cadeira de rodas de Magnus surgia pela porta oposta.
Os dois primos abraçaram-se cordialmente e, em seguida, todos se sentaram à mesa.
Entabulou-se animada conversa sobre as notícias do dia, mas enquanto ria e brincava com seus hospedeiros, Arsénio observava-os atentamente e, por mais incrível que parecesse, os olhares brilhantes e afectuosos de Tâmara, a atenção amorosa com a qual velava pelas necessidades de Magnus, inspiraram ao Príncipe a convicção de que a jovem excêntrica amava de facto o marido enfermo.
Terminada a refeição, a Baronesa declarou que era preciso passarem ao gabinete de Magnus, de vez que na biblioteca o Príncipe sofria de vertigem à vista de tantos livros a exalarem a poeira do passado.
No melhor bom humor, passaram os três ao gabinete, vasta peça muito clara e ainda mais alegrada por um fogo que crepitava na lareira.
Instalaram-se junto de uma mesinha baixa, carregada de álbuns e de gravuras e, vendo Tâmara a esmerar-se em toda sorte de pequenos cuidados, quanto à comodidade de seu marido, o Príncipe observou com um sorriso:
— A senhora está mimando esse menino grande como um verdadeiro bebé, Tâmara Nicolaevna.
Vai estragá-lo de mimos!
— Ele é o meu grande bebé e é tão sábio que se pode estragá-lo à vontade — respondeu a moça.
E, com um gesto carinhoso, passou os dedos afilados pelos cachos espessos da cabeleira de Magnus.
Este tomou a mão dela é beijou-a.
A pequena cena de familiaridade causou em Arsénio uma impressão das mais desagradáveis.
— E agora, Príncipe, diga-me quem está mais aborrecido por não poder satisfazer sua curiosidade a meu respeito? — perguntou Tâmara, sentando-se numa cadeira, ao lado do marido.
— Ah! Baronesa, a senhora me faz uma pergunta muito difícil!
O que é certo é que a senhora alcançou seu objectivo e aborreceu muita gente.
Mas, diga-me, a senhora ainda se ocupa com a pintura?
— Sem dúvida.
Nesse verão mesmo, Tâmara pintou meu retrato.
Ele está em seu gabinete de trabalho e você verá que beleza de trabalho! — respondeu o Barão.
Nesse momento, Tâmara explodiu numa risada alegre e perguntou maliciosamente;
— O senhor não sabe, primo Arsénio, o que aconteceu com o meu caro modelo, o Príncipe Emílio Fluresco?
Há alguns dias encontrei-o com uma faixa negra sobre o rosto.
Será que ele assistiu a algum massacre ou lhe machucaram o olho?
Que pena que ele não estivesse assim quando pintei o retrato dele!
Magnus balançou a cabeça em desaprovação.
— Como você pode rejubilar-se com a desgraça alheia?
— A desgraça não é grande e acho que já passou — fez Arsénio com um sorriso.
Quanto às causas daquele olho pisado, permanecem em mistério.
As más línguas contam toda uma novela.
Dizem que foi um bofetão.
Mas a senhora não deve lamentar pelo retrato de Emílio — tal como está, trata-se de uma obra-prima de malícia.
— Que quer o senhor?
É sempre perigoso atritar-se com o pincel de um pintor ou com a pena de um escritor.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 15, 2016 9:44 pm

E, a propósito, ainda uma coisa:
o Príncipe conversava muito animadamente com uma bela mulher morena, que desconheço.
Será uma nova estrela no firmamento da alegre Petersburgo?
— É uma de tipo oriental?
— Sim, sim! Ê essa.
— Então é Madame Olenine, verdadeira estrela que compete no coração de Fluresco com Madame Majarovski.
Essa Madame Olenine é uma mulher de um engenheiro de minas, cuja actividade o retém na província de Perm, durante cerca de nove meses por ano.
Ê um velho imbecil, muito rico, que teve a fantasia de casar-se com uma jovem cantora de opereta, apesar de seu tempestuoso passado.
Ela é recebida em toda a parte, ainda que o seu presente não seja muito diferente do passado.
— Eis aí uma das razões pelas quais minha casa permanece obstinadamente fechada.
Não quero ser obrigada a receber uma mulher dessa espécie e de encontrar-me com elas.
O que me parece inconcebível é que tais pessoas de má reputação sejam admitidas às casas mais honradas.
— Nada se pode fazer quanto a isso — respondeu Arsénio.
Se todos resolvessem ser assim exclusivistas, os salões ficariam vazios.
Uma vez excluídas as mulheres de má reputação, os homens que só comparecem para ver as que lhes interessam não iriam também.
Pois, pode crer, Tâmara Nicolaevna, eles não conhecem nada mais tedioso do que as mulheres honestas.
. — Francamente! Felicito os homens que consideram assim tão elevadas suas esposas, suas mães e irmãs — disse desdenhosamente Tâmara.
Em todo caso, agradeço-lhe a gentileza.
— A senhora sabe, prima, que os presentes são sempre excluídos.
Somente falei em geral.
— Não importa!
É dessa generalidade que decorre a desmoralização que minou e afrouxou todos os laços de família — disse Tâmara, corada de indignação.
A mulher honesta, ridicularizada e qualificada de tola, é apenas tolerada.
É a cortesã que reina na família e nos salões.
Somente a ela se proporciona o que outrora pertencia à mulher virtuosa:
a estima e o coração dos homens.
Mas, também, que homens esse estado de coisas produziu!
Para comprová-lo, basta observar, nos salões, esses jovens envelhecidos, desgastados, enfarados, gangrenados pela sociedade depravada na qual cresceram.
Sem coração e sem honra, eles se vendem e vendem suas esposas e, decrépitos, idiotas, acabam por extinguir-se abandonados por todos.
E que dizer das mulheres que não aspiram a nada mais elevado do que macaquear a cortesã, esse ídolo do século, que decreta a moda e dá o tom?
Pois eu manterei minha casa ao abrigo de tais intrusos e não receberei semelhantes damas, ainda que venham acobertadas com o título de mulheres casadas.
Observando que Tâmara se empolgava demais, Magnus apertou na sua a pequena mão dela que repousava sobre o braço de sua cadeira.
— Não se deixe arrebatar, minha querida.
Você se inflama como um palito de fósforo, quando se aventura nesse terreno.
— Magnus tem razão.
A senhora é intratável, Baronesa — observou Arsénio, que empalideceu à menção de homens sem coração, nem honra, que se vendem.
Contudo, eu lhe asseguro que as cortesãs não são ainda as piores — há mulheres altamente colocadas na sociedade cuja moral é deplorável e que não podemos evitar.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 15, 2016 9:44 pm

— Tanto pior para aqueles que não têm coragem de fechar-lhes as portas e provar a essas damas que nenhuma posição social as preserva do desprezo das pessoas honestas.
Mas, deixemos esse tema, que sempre me arrasta à cólera.
A conversa mudou de rumo, voltou a ser leve e alegre e foi com pesar que o Príncipe levantou-se, ao cabo de uma hora, para despedir-se.
— Devo ir-me — disse ele, dando uma olhada no relógio.
Hoje é nosso dia de recepção.
— Espero que você venha sempre e sem cerimónia — disse Magnus cordialmente.
— Até breve, primo.
Dê um abraço, de minha parte, em Catarina — acrescentou Tâmara, apertando-lhe a mão.
Em estranho estado de espírito o Príncipe desceu e tomou sua condução.
Estava com dor de cabeça e um caos de impressões diversas chocava-se em sua mente.
Quando entrou no salão de recepção, já encontrou ali muita gente.
O segundo salão e o toucador estavam igualmente cheios de gente e o burburinho das vozes ouvia-se desde o vestíbulo.
Todos conversavam, sentados em grupos, rindo e intrigando.
Alguns fumavam e as mulheres, enfeitadas e cobertas de jóias, utilizavam-se visivelmente de todos os recursos do coquetismo.
À vista do dono da casa, todos se voltaram, trocando com ele saudações e acenos.
Arsénio abriu passagem até a sala de refeições, onde se entronizara sua mulher a uma mesa de chá.
Mas o ruído, o aroma atordoante dos perfumes, mesclado ao do fumo, o sussurro e o barulho da turba fizeram degenerar em verdadeira enxaqueca sua dor de cabeça nervosa.
A vasta sala de refeições estava literalmente negra de fumaça.
Como que através de uma névoa azulada e densa, o Príncipe percebeu sua mulher no meio de numeroso grupo de homens e mulheres, em torno da mesa, conversando ruidosamente.
No momento em que Arsénio Borissovitch entrou, estavam todos torcendo-se de rir de uma piada bastante apimentada de Fluresco.
O Príncipe experimentou verdadeira repulsa ao fitar Catarina:
usando um vestido azul-pálido que não assentava à sua pele, naquele momento inflamada e manchada, em gargalhadas, o cigarro sempre preso entre os dentes, os olhos piscando, ela pareceu-lhe horrenda.
Contudo, aproximou-se dela e beijou-lhe galantemente a mão, mas sufocado pela fumaça disse:
— Querida Catarina, não poderíamos passar para o outro salão, enquanto abrem as janelas aqui?
A fumaça positivamente sufoca e enceguece as pessoas.
— Antes disso, toma uma taça de chá — respondeu a princesa, bem humorada.
Ela apanhou a chaleira que repousava sobre o grande samovar de prata maciça, encheu uma taça e passou-a ao marido que, irritado e indisposto, tomara lugar entre as senhoras sem notar os olhares travessos que se fixavam nele.
Descontente e distraído, levou a taça aos lábios.
— Que chá é esse, frio e desagradável? — disse ele rejeitando a taça prontamente.
Uma explosão de gargalhadas acolheu suas palavras.
— O que você acha, Príncipe?
Ê champanhe! — exclamou Fluresco.
Arre! que está acontecendo, senhoras e senhores, que ele não reconhece o elixir da vida?
Arsénio nada respondeu.
Era evidente que a brincadeira desagradara-lhe.
— Tenho a transmitir-lhe os cumprimentos de Magnus e de sua mulher — disse ele, depositando a xícara sobre a mesa.
— Obrigado. Você os viu?
Então conte-nos o que fazem e como vivem aqueles dois excêntricos.
— Vivem muito bem, num verdadeiro palácio e, quanto à harmonia e à afeição, que visivelmente os une, poderiam fazer inveja a muitos lares.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 15, 2016 9:44 pm

— Essa Baronesa de Lilienstiema é certamente uma psicopata, se é que ela está mesmo apaixonada por um paralítico! — comentou uma dama a sorrir.
E um fogo cruzado de sarcasmos e de comentários maldosos acerca de Tâmara lhe fez coro.
O Príncipe reclinou-se em silêncio, no encosto de sua cadeira.
Jamais lhe pareceram tão pesados o vazio e a tempestuosa dissonância de sua casa.
Com estranha sensação de inveja, lembrou-se da silenciosa e calma residência, onde acabara de passar algumas horas.
Tudo ali era impregnado do apurado gosto e do perfume delicado de uma mulher amável e instruída.
Naquela momento, ele, positivamente, ansiava por aquela atmosfera de quietude intelectual e o contraste com o ruído que o cercava sufocava-o.
— Julgando, afinal, conveniente deixar a mesa, Catarina liderou o grupo todo rumo ao salão maior, mas, na disposição de espírito em que se encontrava, Arsénio não estava disposto a conversar.
Sua casa parecia uma feira.
Não era um grupo de amigos, mas uma turba que ali comparecia como a um lugar de reunião, pouco se importando com os donos, desde que os houvesse apenas cumprimentado.
Cada um se divertia à sua maneira, iniciando novas relações, tramando intrigas e, sempre que possível, vangloriando-se em ter entre seus conhecidos personalidades ilustres e altamente colocadas, pois ali se reuniam pessoas de todas as condições sociais, mas, sobretudo, os que ocupavam os cimos da escala social.
— Que faz você aí, sombrio como Hamlet?22 — perguntou Fluresco aproximando-se dele e tocando-lhe o ombro.
— Estou com dor de cabeça e cansado.
Vamos aos meus aposentos, que quero descansar um pouco — respondeu Arsénio com um toque nervoso.
Os dois atravessaram o toucador da princesa e, por um corredor, alcançaram o aposento de Ugarine.
O ar ali estava puro e o silêncio agradável.
— Uff! — exclamou Fluresco.
É verdade que aqui se respira melhor do que lá, naquela tabacaria.
O que a sua mulher fuma é inacreditável!
Você deveria proibir-lhe esse mau hábito.
— Quando você tiver uma mulher que tenha desposado nas mesmas condições que eu, tente proibir-lhe alguma coisa! — respondeu Arsénio, atirando-se a uma poltrona.
— Você fala como um ingrato.
Quem ouvisse isto, pensaria que você é infeliz no seu casamento e, na verdade, o que lhe falta?
Você nada em ouro e Catarina Carpovna é uma mulher encantadora e inteligente.
Sua ideia de servir-nos hoje champanhe no samovar foi soberba. - e, honra seja feita, ela não é ciumenta!
— Isso é o que parece, mas não é verdade.
Apenas seu ciúme está momentaneamente abafado por coquetismos com o Príncipe circassiano.23
— Ah! aquele montanhês cabeludo não é um rival perigoso — respondeu Fluresco a rir.
Mas, agora que estamos sós, diga-me a verdade sobre Tâmara Nicolaevna.
Foi apenas para irritar sua mulher que você cantou o elogio da sua vida idílica, ou será que ela continua a representar, de facto, sua comédia amorosa junto ao paralítico?
— Por que haveria ela de fingir?
Não é próprio do carácter de Tâmara Nicolaevna e não teria razão de ser.
Para que a comédia, se ela evita todo mundo?
— Tudo isso é uma bobagem muito grande!
Espera e você verá como ela vai abrir seus salões.
Além disso, por que, diabo, não nos receberia depois que passados os seus caprichos?
— Porque ela nos despreza.
Se você duvida, vá vê-la e ela mesma lhe dirá. — retrucou Arsénio com irritação e cerrando os olhos.
— Mas isso será muito excitante e uma agradável novidade no programa desgastado dos requebros coquetes — disse Fluresco, rindo com entusiasmo.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 15, 2016 9:45 pm

Peço-lhe, Arsénio, na primeira vez que você estiver com a Baronesa, obtenha dela permissão de fazer-lhe uma visita.
Agora, voltarei ao salão; do contrário Catarina Carpovna vai me fazer uma verdadeira cena.
— Bem, bem, vai.
E se perguntarem por mim, peça-lhes desculpas.
Diga-lhes que estou com uma violenta dor de cabeça.
Ficando só, o Príncipe estendeu-se no divã e ficou a pensar.
Algo de que ele não se dava ainda conta o atormentava.
A imagem graciosa e sedutora da mulher de Magnus lhe vinha incessantemente à mente.
Tudo nela agradava-lhe, suas observações cáusticas, os súbitos clarões de seus grandes olhos cinzentos, e até mesmo o desprezo mordaz que ela demonstrava abertamente pelos vícios, que ele próprio reconhecia ter quase todos.
Com não menor dose de tenacidade, ele voltava sempre ao exercício de comparar seu lar com aquele que acabara de deixar.
Lá, os dois se bastavam completamente.
Ele não desejaria jamais um diálogo com a sua mulher, cujo inevitável cigarro lhe inspirava constante desprazer.
Jamais ele se sentia bem em sua companhia.
Ainda que demonstrando à sua mulher uma deferência polida, Arsénio nunca se dera ao trabalho de fingir paixão por ela.
Apaixonada e ciumenta, Catarina havia, a princípio, feito com o marido algumas cenas das mais desagradáveis, vigiando-o e o atormentando com suas suspeitas e suas exigências.
Convencida, no entanto, de que aquelas tempestades conjugais não levavam a nada, a Princesa acalmara-se e começara a buscar alhures o que não encontrava em seu marido.
Esse gelo entre eles havia aumentado ainda mais depois que retornaram da Crimeia e cada um dos esposos entregou-se à tendência de retomar os hábitos de seus dias de liberdade.
Arsénio, como fazia desde rapaz, ia a bailes e jantares sem sua mulher, a qual, por sua vez, divertia-se sem se importar mais com ele.
Ela era princesa e bastante rica para exibir o título em toda a sua importância, e podia seguir suas inclinações sem nenhuma cerimónia.
Era-lhe até cómodo, sob esse ponto de vista, que Arsénio tivesse distracções de toda espécie alhures e se ele metia a mão na bolsa de sua mulher para divertir-se com as suas amantes como um grande senhor, isso pouco a afectava.
Mas, naquele momento, o Príncipe não pensava nas suas amantes — pensava em Tâmara e num jeito qualquer de conquistá-la.
Criado num meio depravado, estragado desde cedo pelas mulheres que se apaixonavam pela sua rara beleza física, Arsénio jamais encontrara resistência e estava acostumado a pensar que lhe bastava estender a mão para ter tudo quanto desejasse.
Jamais amara com amor puro e profundo a mulher alguma entre as desonestas que sacrificavam seus deveres aos caprichos dele.
Tais paixões vulgares e passageiras, no fundo das quais estava o desprezo, extinguiam-se como fogo de palha.
E agora, chegado a uma completa saciedade, surgia em seu caminho um mulher de outra têmpera que, escudada em seu orgulho, intocável na sua virtude, mordaz e inteligente, tentava-o tanto pela sua frieza como pela sua beleza.
Um irresistível desejo de seduzir precisamente aquela mulher excepcional se apossou dele, mas conseguiria ele inspirar-lhe paixão?
Esquecido de sua dor de cabeça, o Príncipe saltou do divã e se pôs diante do espelho a contemplar sua imagem com olhar crítico.
Ainda era belo, apesar da palidez e da expressão cansada dos grandes olhos negros.
Com um sorriso de convencimento enfarado, aprumou o corpo esbelto e correu os dedos bem cuidados pela vasta cabeleira cacheada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 15, 2016 9:45 pm

Certamente, ele era ainda bastante sedutor para agradar à caprichosa mulher cujo coraçãozinho, outrora, palpitava só em vê-lo.
E não seria Magnus, aquele marido-fantasma, que lhe barraria o caminho.
Não era difícil vencer um rival daqueles.
“Veremos — murmurou ele reajustando seu uniforme e retomando o caminho do salão.
A tarefa de conquistar a mulher que ele cobiçava era, contudo, bem mais difícil do que o Príncipe suspeitava.
Em primeiro lugar, porque Tâmara jamais estivera tão inacessível a uma paixão ilícita:
satisfeita em todos os seus gostos, tanto quanto em seu orgulho, ela saboreava em toda a extensão uma felicidade tranquila, isenta de ciúmes, de temores e de desejos.
Sabia que era amada, com um amor profundo e desinteressado e nenhuma sombra viera ainda obscurecer a harmonia de seu relacionamento com o marido, que a compreendia como ninguém mais.
Entre esse presente feliz e o passado, ao qual votava apenas uma piedosa recordação, não havia lugar para qualquer sentimento novo.
Quanto a Magnus, era um poder difícil de desalojar e o Príncipe enganava-se redondamente, considerando obstáculo sem importância aquele que ele qualificava desdenhosamente como “o marido-fantasma".
Mais ardentemente enamorado de sua encantadora esposa do que ele pretendia demonstrar, o jovem soubera conquistar sua ilimitada confiança.
Insensivelmente, habituara Tâmara a, tudo confiar-lhe, a revelar, como ao seu melhor amigo, cada pensamento, cada pequenina dobra de sua alma e era capaz de ler a sua mensagem como num livro aberto.
Ele sabia, ao mesmo tempo, suscitar seu interesse e orientar sua actividade mantendo sempre desperto aquele espírito dinâmico.
A visita de Ugarine realmente abriu uma brecha na muralha chinesa que circundava Tâmara.
Alguns dias após seu marido, veio Catarina e, com a liberdade que lhe conferia sua dupla qualidade de parente e de antiga colega de escola, simplesmente exigiu que a amiga a visitasse.
Relações amigáveis, ainda que não frequentes, estabeleceram-se, assim, entre a Princesa e Tâmara e provocaram um intercâmbio de visitas com algumas senhoras que as relações de parentesco e suas posições tornavam difícil de evitar.
Nadina também vinha constantemente visitar sua amiga que, sob o pretexto da doença de seu marido, recebia mais em sua casa do que saía.
Um dia, ali pelas duas horas da tarde, Madame Kilibine chegou inesperadamente à casa de Tâmara, algo surpresa ante uma visita tão cedo.
— Venho por uma questão de caridade — começou Nadina muito afobada.
Catarina também estará aqui a qualquer momento.
Precisamos conversar e, em seguida, iremos à exposição de quadros que acaba de inaugurar-se.
— Diga-me de que se trata e, se puder contribuir para alguma obra de caridade, hei-de fazê-lo com prazer.
— Ah! é uma história horrível a que vou contar-lhe.
Você se lembra de Xénia Kersine, nossa colega de colégio?
Ê dela que se trata.
Depois que saímos do colégio, mantive, inicialmente, uma correspondência com ela.
Foi assim que fiquei sabendo que perdeu o pai e a mãe e que havia sido recolhida por uma tia.
Em seguida, ela me comunicou que se casara com um oficial de Marinha por nome Hapius que estava de partida para Odessa.
Ficou lá três anos e eu a perdi de vista, mas, por acaso, soube recentemente por minha cunhada a verdadeira história desse casamento.
Fez uma pausa e continuou:
— Xénia fazia-se passar por uma moça rica.
Espalhou-se a notícia de que ela receberia um dote de 60.000 rublos e, ainda, que ela possuía, como herança de uma tia, um belo cofre de jóias.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 15, 2016 9:45 pm

Hapius, que contava apenas com seus vencimentos e uma pequena propriedade na Bessarábia, foi atraído por um partido tão bom e, como era um homem muito bonito, agradou-se de Xénia e ela dele.
Só que, enquanto Hapius se preparava brilhantemente para receber sua rica esposa, esta perdeu, em virtude da falência de uma firma comercial, o pequeno capital que possuía.
Você bem compreende que os 60.000 rublos eram uma mistificação para atrair os caçadores de dote.
Na realidade, ela possuía apenas 10.000, que se perderam.
Daí, em lugar de contar a verdade ao seu noivo, deixou-se persuadir pela tia de que era preciso vender os diamantes.
Estes foram substituídos por pedras falsas e o dinheiro assim obtido foi empregado na aquisição de um magnífico enxoval.
“Quando Hapius soube, após o casamento, que fora assim ludibriado, seu furor — dizem — foi sem limites.
E, de facto, ele tinha seus motivos.
Estava coberto de dívidas por causa da montagem da casa e caíra num lamentável ridículo, anunciando, por toda a parte, que se casaria com um mulher tão rica...
E, subitamente, o escândalo explodiu.
Os dez meses que viveram juntos foram terríveis.
Conta-se que ele batia nela e a maltratava mais que a um cão e, quando partiu para uma longa viagem, abandonou-a à sua sorte, pois com o que ele lhe deixara não tinha condições de sustentar-se.
Foi assim que Xénia, que era bonita, como você sabe, ligou-se a um inglês, capitão de marinha mercante e, sem dúvida, foi embora com ele, pois desapareceu de Odessa.
Ignoro suas aventuras posteriores, mas certamente o inglês também a abandonou, pois ela voltou para cá, com o filho, na mais terrível miséria e, no seu desespero, envenenou-se, deixando uma carta, na qual entrega a criança à caridade pública”.
— Meu Deus! — exclamou Tâmara, que ouvira tudo perplexa.
E a desventurada morreu?
— Imagine que não.
Houve quem descobrisse a tempo a tentativa de suicídio e ela foi salva.
Soube de toda essa história por intermédio da minha camareira, cuja irmã trabalha no conjunto de quantos mobiliados onde Xénia foi morar.
Já falei com Catarina e decidimos vir à sua casa, pois é nosso dever ajudar nosso antiga companheira.
— Também acho.
É preciso descobrir onde se encontra Hapius.
— Catarina já tomou informações a respeito e descobriu que Hapius morreu de febre amarela em águas do Oriente.
Seja como for, aí está Catarina.
— Muito bem. Você já contou a Tâmara as aventuras de Xénia? — perguntou a Princesa após abraçar as amigas.
— Nadina acaba de me contar em que situação horrível se encontra essa infeliz.
— Infeliz por sua própria culpa.
Como se pode enganar assim as pessoas?
No entanto, não podemos deixá-la morrer de fome.
Vou dizer o que eu pensei fazer.
Amanhã à noite haverá em minha casa uma grande reunião.
Contarei aos meus convidados a lamentável história e farei uma colecta que garantirá suas necessidades, enquanto ela estiver doente.
Depois disso, conseguiremos para ela um emprego de camareira.
Quanto ao menino, que ela não pode criar mesmo, será colocado num asilo.
O conde D. conseguirá isso para mim.
Ante essas palavras, uma ruga se fez na testa de Tâmara.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 15, 2016 9:45 pm

— Porquê, Catarina, você quer expor ante todas essas pessoas estranhas a desgraça e a vergonha de nossa amiga comum e acrescentar aos seus sofrimentos a humilhação de saber que foi feita uma colecta em seu favor?
Ela precisa é de socorro imediato.
— Também ontem à noite mandei-lhe dez rublos por intermédio da minha camareira.
— E eu cinco rublos pela empregada — acrescentou Nadina.
Tâmara sacudiu a cabeça.
— E alguma de vocês foi vê-la?
— Que você está dizendo? — perguntou Nadina, fazendo uma careta.
Eu me sentiria mal naquele cubículo, com a enferma, que deve estar com uma aparência horrível.
— Eu não sou tão sensível e não temo desmaiar — observou Catarina a rir.
Só que não tenho, mesmo, tempo para visitas dessa espécie.
— E eu que imaginava que você não fazia nada! — disse ironicamente Tâmara.
— Seja como for, tenho mais que fazer do que você neste seu claustro.
Nunca me deito antes de quatro horas da madrugada e me levanto à uma hora da tarde.
Quando termino a primeira refeição e minhas entrevistas com a costureira, a modista, a governanta, etc., já é mais que tempo de me vestir para fazer minhas visitas ou recebê-las.
Em seguida, é o jantar, são os teatros, as festas!
Fico, às vezes, no limite das minhas forças.
Aliás, neste momento, estou duplamente atarefada, pois estamos organizando um grupo espírita para fazer sessões regularmente.
Dizem que é tão divertido!
Espero que você se torne um de nossos membros, Tâmara.
Já convidei Nadina.
— Obrigada. Não posso assumir compromissos.
Você sabe que o estado de saúde de Magnus me impede de dispor livremente de meu tempo, mas se vocês conseguirem algo, irei com prazer assistir a uma de suas sessões — respondeu Tâmara com um sorriso.
E, agora, voltemos a Xénia.
— Com relação a ela, acho que meu plano é o que há de melhor.
Contudo, se você tiver outra ideia, escreva-me ou venha me ver e nós discutiremos o assunto.
Agora temos que ir, se é que queremos chegar a tempo à Academia, onde aposto que o conde de Rougemont já está à nossa espera — ajuntou ela com um sorriso significativo dirigido a Nadina.
— Como está Arsénio Borissovitch?
Cumprimente-o, da minha parte, por favor — disse Tâmara, abraçando as amigas.
— Suponho que ele esteja bem e divertindo-se por aí.
Onde? não sei, pois nos vemos pouco ultimamente.
Mas, a propósito dele, vou contar a você algo muito engraçado.
Imagine que ontem ele veio para casa embriagado, mas embriagado de verdade.
Tomada de verdadeiro acesso de riso, Catarina atirou-se a uma cadeira.
— Não fique com essa cara tão consternada, Tâmara.
Foi tão engraçado!
Então, escuta — lá pelas seis horas da tarde, voltava eu da casa de meu pai que está indisposto, quando vejo a carruagem de Arsénio estacionada diante da entrada menor que leva directamente aos seus aposentos.
Algumas pessoas o estavam retirando da condução como um fardo.
Pensando que alguma desgraça acontecera, corri até lá.
Ao primeiro olhar ao meu senhor e mestre, compreendi que ele não estava morto e seu camareiro me garantiu que não.
“Não se preocupe, Madame — disse ele.
Isso não é nada.
Sua alteza jantou em casa do Príncipe Fluresco, que está comemorando seu aniversário e sentiu-se um pouco mal, ao voltar”.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 15, 2016 9:45 pm

Tâmara não fez comentário algum e reconduziu suas amigas à porta.
Um tremor de desgosto apossou-se dela ante o relato de Catarina.
Assim era, portanto, na intimidade, o belo e sedutor cavalheiro que, outrora, lhe parecera o ideal de todas as perfeições.
Sob o peso dessa triste impressão, Tâmara foi para junto de Magnus e contou-lhe o que acabara de saber.
— Eis aí o resultado dessas uniões baseadas apenas no interesse — disse o Barão com tristeza.
Se Hapius tivesse um pouco de afeição por sua mulher, lhe teria, por certo, perdoado pela derrocada de suas esperanças.
Jamais teria recorrido a uma brutalidade que impeliu a infeliz à vergonha e à desgraça.
— Xénia sempre foi de natureza fraca.
Talvez tenha amado esse homem sem coração e o receio de perdê-lo, ao confessar a verdade, levou-a a esses desenganos.
Enfim, ela pagou tão duramente a culpa, que seria cruel condená-la.
— Sem dúvida, nosso dever é ajudá-la, não julgá-la, e você deve fazê-lo generosamente, a fim de que esse socorro seja um bálsamo para a sua alma.
Que isso seja uma ajuda verdadeira e não um prolongamento da agonia.
— Sim, sim.
Eu o compreendo e hoje mesmo irei ver Xénia — respondeu Tâmara com os olhos brilhantes e abraçando o marido afectuosamente.
Logo após o jantar, a moça mandou atrelar os cavalos à carruagem e seguiu para o endereço indicado por Nadina.
No quarto piso, uma empregada pesadona e muito desarrumada abriu a porta, mas à vista de uma dama elegante, acompanhada de um lacaio, assumiu um ar obsequioso e ofereceu-se para conduzi-la ao aposento da senhora Hapius.
— Há alguém cuidando da doente? — perguntou Tâmara, enquanto caminhava pelo longo e sombrio corredor.
— Não, Madame.
Apenas a pequena Nástia, filha da cozinheira, toma conta do menino, que é muito chorão.
Quanto à doente, está bem melhor e o médico do quarteirão, que veio hoje, disse que ela está fora de perigo.
Mas aí está o número 15.
Ela abriu a porta e fez entrar a Baronesa num cómodo comprido e estreito, mal iluminado por uma janela que dava para um pátio meio oculto por uma parede.
A mobília era pobre e em ruínas; um biombo feito de cretone ocultava o leito e não longe da porta, junto de uma mesa iluminada por uma lâmpada com um abajur de papel verde, estava sentada uma menina de uns doze anos, tendo ao colo um menino de cerca de dois anos, cuja face pálida e os grandes olhos apáticos demonstravam estar ele doente.
— Quem chegou aí? — perguntou uma voz frágil que partia do leito.
— Vai com a criança para o corredor.
Preciso faiar com a senhora — disse Tâmara em voz baixa à menina.
E logo que ela saiu, Tâmara afastou o biombo e aproximou-se do leito, sobre o qual estava estendida uma jovem pálida como morta, exausta e magra como um espectro.
Com um olhar assustado, a doente fitou sua visitante, que se inclinava sobre ela com um sorriso afectuoso.
— Xénia, você não reconhece sua colega de colégio?
Sou Tâmara Ardatov.
Um clarão de alegria mesclada de incredulidade acedeu-se no olhar apagado de Xénia.
Ela queria falar mas não pôde.
Apertou convulsivamente a mão da Baronesa e, com uma voz entrecortada, exclamou:
— Você, só você vem me ver em vez de mandar uma esmola por meio de uma empregada!
Soluços convulsivos impediram-na de continuar.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 15, 2016 9:46 pm

Era um grito de aflição, no qual vibrava todo o sofrimento, toda a humilhação experimentada pela desventurada criatura.
Com lágrimas nos olhos, Tâmara atraiu para si a infeliz companheira e a beijou na testa.
— Não é esmola, mas apoio e amizade que trago a você.
Não fique tão agitada, Xénia.
Pensa no seu filho. Por ele, você deve voltar à vida e à saúde.
— Não, não. Não quero viver.
Não tenho mais forças para suportar a miséria e a vergonha. Quero morrer.
É apenas por um requinte de crueldade que me fizeram voltar à vida.
— E você não treme à ideia de abandonar tão covardemente seu infeliz filho?
— Talvez Deus o protegerá.
Quanto a mim, Ele me abandonou e me condenou pelas minhas culpas.
— Não blasfeme, Xénia, o Pai Celeste não abandona nenhum de seus filhos e quanto maior a nossa desgraça, mais a sua misericórdia vela por nós.
E, agora, acalme-se.
Ninguém humilhará mais você e depois conversaremos.
Antes de tudo, quero tirar você deste quarto sombrio e húmido, onde você deve estar sufocada.
Tâmara mandou chamar a dona da casa e perguntou-lhe se não tinha um cómodo melhor.
Dois grandes e bonitos quartos que davam para a rua estavam vagos e a Baronesa os alugou imediatamente, pagando um mês de aluguel antecipado, bem como todos os atrasados devidos por sua amiga.
Mandou chamar uma enfermeira e uma babá para a criança e, vinte minutos mais tarde, a enferma já estava instalada nos seus novos aposentos.
Uma bolsa bem provida de recursos fizera maravilhas — encheu todo o mundo de atenções e criou um interesse pleno de cuidados e de pesares pela pobre locatária, desprezada e apenas tolerada algumas horas antes.
Os olhos de Xénia brilhavam de alegria e de reconhecimento, quando Tâmara sentou-se junto de seu leito.
— Quando você restabelecer-se conversaremos sobre o passado e sobre o futuro.
Por enquanto, não se preocupe com coisa alguma e conte comigo.
Há algo, porém, que devemos providenciar logo.
Sei que Catarina e Nadina fizeram-lhe remessas pouco generosas e ainda menos delicadas; é preciso devolver-lhes esse dinheiro e, para evitar qualquer intromissão posterior delas, comunicar-lhes que um dos seus parentes, sabedor de sua situação, colocou à sua disposição amplos recursos e que, dentro de alguns dias, você vai deixar a capital.
Darei ordens aqui para dizerem que você foi embora.
Será que você tem coragem de escrever essas duas cartas?
Eu o faria de bom grado por você, mas não quero que suspeitem da minha intervenção no caso.
Apesar do seu esgotamento, a enferma declarou que escreveria as cartas.
A satisfação e a alegria lhe emprestavam forças.
Expedidas as cartas, Tâmara entregou à sua amiga uma importância em dinheiro que a punha ao abrigo de qualquer preocupação financeira e prometeu enviar frutas e vinhos, enfim, tudo o que fosse necessário para uma convalescente.
Em seguida, despediu-se, prometendo nova visita em breve.
De volta à sua casa, Tâmara correu logo para o marido, a quem contou, com pormenores, tudo o que acabara de fazer.
— Ah! Magnus, nunca senti tanto como hoje, a alegria de ser rica e todo o poder benfazejo que existe numa grande fortuna! — disse ela com emoção.
Poder aliviar o sofrimento é, verdadeiramente, antecipar na terra as alegrias do céu.
Como lamento a pobre Xénia, duplamente desgraçada, pois ela sucumbe de miséria e remorso, por ter sido ela própria a criadora de seu infortúnio.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 15, 2016 9:46 pm

Tão frágil e tão pouco armada para a luta, ficou muito exposta à maldade humana.
Quando penso nesse Hapius, ainda que morto, alguma coisa se agita em mim:
não tinha ele coração, nem consciência, esse bruto, ao abandonar a pobre mulher, após demonstrar desavergonhadamente que estava apenas atrás de seu dote?
O que é realmente repugnante nos homens atuais é a avidez pelo dinheiro que eles exibem com a maior falta de vergonha. Especulam sobre o destino de dois seres humanos, como se fossem dois sacos de farinha.
E se mais tarde se descobre que um dos sacos está vazio, ele é jogado fora o mais rapidamente possível.
Se a patifaria é recíproca, cada um escapa pelo seu lado. Ê terrível!
Magnus puxou-a para si, com um sorriso.
— Pobre amiga.
Vê-se bem quanto seu coração desejava um amor verdadeiro, pois você preferiu um infeliz paralítico, que nada pode dar-lhe, além de sua afeição, a todos os homens belos, sadios e destinados a um esplêndido futuro, que aspiravam à sua mão.
— Diga antes que eles aspiravam aos milhões que a sorte atirou em minhas mãos.
E porque você se deprecia tanto? — acrescentou ela com bom humor.
Não tem você todas as qualidades de coração e de espírito que fazem feliz uma mulher?
Eu sei que você me ama tal como sou, com minhas qualidades e meus defeitos, e que me julga com indulgência, quando os demónios do orgulho e do rancor me invadem e me tomam maldosa.
— Seria bem ingrato se lhe faltasse com a indulgência, tanto mais que esses dois demónios nunca me atacam — respondeu Magnus com alegria.
Depois desse dia, Tâmara visitou frequentemente sua antiga colega, cuja convalescença consolidava-se rapidamente.
Nas longas conversas que mantinha com ela, procurava incutir-lhe uma noção mais séria da vida e levá-la a compreender a verdadeira dignidade feminina.
Nadina e a Princesa não se interessaram mais pela sua protegida, qualificando-a mesmo de ingrata.
—r, Você acredita que Xénia me devolveu o dinheiro que eu lhe dei? — perguntou a Princesa. — Uma tia, parece, teve piedade dela, mas isso não impede que sua impertinência tenha excedido os
limites. Ela sofreu o que merecia, essa mentirosa que quis comprar um marido com diamantes falsos!
— Mas ela não foi a única que fez uma compra dessas. As outras tiveram apenas melhor oportunidade e puderam pagar pelos maridos com diamantes verdadeiros e cheques bem sólidos — observou Tâmara maliciosamente.
Catarina levantou o dedo.
— Peço-lhe não afiar a sua língua maldosa em suas amigas.
Nós não criticamos o seu gosto e, contudo, Magnus é bem singular!
Nas suas conversas, Xénia manifestava sempre a Tâmara o desejo de sair de Petersburgo, que se lhe tomara odiosa.
— Gostaria de encontrar um emprego no interior — repetia ela sempre.
Preferiria dirigir um lar em uma dessas propriedades, se tivesse os contactos necessários, do que leccionar.
Não tenho paciência para instruir crianças, mas a nossa formação é tão insuficiente, que não nos proporciona outro recurso, em caso de pobreza, que o pão seco e amargo de uma professora.
Tais palavras não foram perdidas para Tâmara que, após consultar seu marido, lhe disse um dia:
— Uma vez que você deseja viver no interior, minha cara Xénia, eis o que lhe proponho.
A propriedade que possuo perto de Estocolmo foi acrescida de uma grande fazenda-modelo, onde se cuida da criação de galinhas e da fabricação de lacticínios e queijos diversos.
Se isso lhe convém, é lá que você pode realizar seu treinamento de gerência de uma casa, sob a orientação de “tia” Eveline, e logo que você esteja em condições de dirigir um estabelecimento, você poderá tomar-se minha sócia com direito a uma parte dos lucros.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 15, 2016 9:46 pm

Ou então, eu a ajudarei a adquirir uma fazenda do mesmo tipo, na Suécia ou aqui:
quero que você seja independente e não tema pelo seu futuro e nem pelo de Jorginho.
Tomada de total felicidade, Xénia atirou-se ao pescoço da sua benfeitora e só sabia agradecer-lhe com as suas lágrimas.
Ficou combinado, então, que para acabar de curar-se da sua enfermidade e aprender a língua sueca, a moça passaria alguns meses como hóspede na casa de Madame Ericson.
Naquela mesma noite, Tâmara escreveu à sua maternal amiga.
— Tudo está arranjado, querida “tia”, e em breve nossa pobre necessitada espiritual estará sob seu tecto hospitaleiro.
Ela bem que tem necessidade de ser guiada e sustentada em novos caminhos e você tem exactamente a indulgência e a mansidão indispensáveis para reconstruir uma alma.
Eu sou incapaz de fazê-lo; minha amargura, meu coração ainda envolto em gelo e meu orgulho feroz, como você o classifica, cavaria um abismo entre Xénia e os demais seres humanos.
Sempre fui de temperamento frio e muito independente de espírito para poder desafiar abertamente o mundo, mas Xénia é de outra têmpera.
Acredita você que ela ainda chora seu marido e sente falta dele, apesar da sua brutalidade?
Se um patife desses caísse sobre mim, eu o odiaria mesmo depois de morto e para ele não existiria graça nem perdão.
Na véspera da partida da jovem convalescente, as duas amigas tiveram uma última e longa conversa.
Tâmara falou-lhe de Madame Ericson, da educação que havia recebido dela e de seu profundo reconhecimento pela mulher de elite que havia feito dela o que ela era.
— Você vai entrar num mundo novo, Xénia.
Naquele agradável ambiente, você repousará a alma e o corpo, tomará gosto pelo trabalho, uma verdadeira actividade que não deixa tempo ao tédio e aos pensamentos frívolos, mas nos eleva, proporcionando-nos a independência e a consciência de nossa força.
Bastar-se a si mesma, ser independente dos homens, de sua falsa amizade, de seu amor hipócrita, eis a verdadeira riqueza.
Sei disso por experiência própria.
Quando a ruína nos abateu e eu fiquei sem recursos, com um pai agonizante e duas crianças para cuidar, todos aqueles que se diziam nossos amigos me viraram as costas e, por um momento, senti vertigem, ao contemplar o abismo que se oculta no coração humano.
— Ah! você tem razão.
É sobretudo ante o pobre que se exibe toda a miséria da alma do rico, pois este não tem necessidade de lisonjeá-lo — exclamou Xénia com amargor.
— Mais uma razão para que nos esforcemos, para nos bastar a nós mesmas, e foi o que fiz.
Utilizei todo o meu saber e pude subsistir sem nada dever a ninguém.
Sob esse ponto de vista, a desgraça é a nossa melhor mestra — ela representa para nós o que é o exame para o aluno:
a oportunidade de experimentar o que ele sabe.
Você é fraca de carácter, minha pobre amiga, mas você recebeu uma lição tão rude, que deveria cuidar de aproveitá-la bem.
Procure impregnar-se dos conselhos e exemplo de “tia” Eveline e espero que você há-de adquirir suficiente força de alma e precisão no critério para julgar os homens e não mais naufragar na vida.
— Prometo-lhe que tudo farei para educar minha alma e desenvolver meu espírito.
Creio que não poderia melhor resgatar minha dívida de reconhecimento com você — respondeu Madame Hapius, com emoção.
Alguns dias após a partida de Xénia para Estocolmo, Tâmara foi, pela manhã, visitar Catarina que, segundo soube, estava indisposta.
Encontrou lá Nadina, que também viera ver sua amiga.
A Princesa sofria de forte resfriado, mas estava no melhor bom humor e, assim que Tâmara chegou, falou-se com animação das reuniões mediúnicas, que gozavam da maior popularidade e, positivamente, apaixonavam as senhoras.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 15, 2016 9:46 pm

O assunto era tão interessante, que foi retomado logo após as primeiras saudações.
— Sua teimosia fez você perder muita coisa — disse Catarina.
Ao recusar ser membro de nosso círculo, você se privou de grandes alegrias espirituais.
O que estamos obtendo é positivamente admirável!
— E os espíritos são tão alegres, tão cáusticos e, às vezes, tão galantes, que por nós nem os deixaríamos partir! — exclamou Nadina, levantando os olhos com entusiasmo.
O que não impede que haja, às vezes, cenas bem patéticas, como a da pobre Anuschka — acrescentou com um suspiro.
— Mas eu apenas me recusei ser um membro permanente e isso por motivo de força maior — disse Tâmara, defendendo-se.
Quanto a me interessar, não há dúvida:
contem-me, por favor, o que vocês têm conseguido.
— Maravilhas... Temos materializações, transportes, efeitos luminosos, escrita directa, levitações, enfim, tudo o que se pode obter num grupo tão bem organizado como o nosso.
Olha! veja aqui o que eles nos trouxeram na última vez.
Catarina foi rapidamente até um pequeno móvel e retirou uma caixinha que abriu:
um pepino, um punhado de favas secas e uma rosa meio despetalada estavam ali depositadas num pouco de algodão.
Tâmara acreditava em transportes, pois ela mesma conservava uma flor, vinda miraculosamente do espaço para suas mãos.
Seu interesse despertou.
— E quem são os médiuns?
Que espíritos se manifestam? — perguntou ela.
— Temos muitos médiuns.
Em primeiro lugar, Pfauenberg, que é um poderoso médium de materialização; em seguida, o senhor Angoieff, que é muito bom para os fenómenos de transporte e, afinal, uma moça e um jovem que dispõem igualmente de boas faculdades, mas o que é melhor de tudo é que para dirigir as sessões, como controle terreno, como o chamamos, temos um homem muito experimentado nesse assunto, o Coronel Kurtz.
— Em que arma serve ele? — perguntou Tâmara.
— Nos dragões.
A Baronesa havia formulado a pergunta para certificar-se de que essa personagem era a mesma que ela havia conhecido outrora em casa de Madame Elaponine.
Não havia mais dúvida, pois era, de facto, um Coronel dos dragões, cuja desfaçatez pouco amável havia deixado nela uma sensação de repulsa.
— E que espíritos se manifestam? — perguntou ela sem dizer que conhecia o Coronel.
— Em primeiro lugar, Calchas, que é o guia, depois, um monge dominicano, um presidiário, que não dá o seu nome, mas chora sempre de cortar o coração, por causa de seus pecados, o espírito de Anuschka, que Nadina mencionou, e vários outros.
— Você se esquece de Pulquéria com o seu machado — intercalou Madame Kulibine.
Percebendo o espanto de Tâmara, a Princesa disse, rindo:
— Sim, sim, é um espírito perverso que persegue o pobre Kurtz e se coloca atrás dele com um machado levantado como se estivesse somente à espera do momento de massacrá-lo.
Calchas dominou, pouco a pouco, esse monstro e agora ela nem se mexe durante a reunião.
— E como ela é horrorosa, essa Pulchéria, com uma cara toda negra e um nariz enorme que brilha como uma brasa! — disse Nadina.
— Você a viu?
— Não, mas outras pessoas viram-na — respondeu honestamente, ainda que com pesar, Madame Kulibine.
— Admiro-me de que, com uma criatura dessas às suas costas, o Coronel Kurtz ainda queira frequentar as sessões — observou Tâmara.
— Ah! ele é tão entusiasmado e convicto, que nada o faz recuar.
Só que ele não tem muita escolha:
imagine que em outro círculo um espírito queria, a toda força, casar-se com ele.
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