Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 17, 2016 8:33 pm

— Veja! Uma recordação de sua desesperada, mas, inútil defesa.
Tâmara nada disse.
Apanhou um pedaço de papel gomado e se pôs a colar as flores e as ervas ressecadas, mas suas mãos tremiam ligeiramente.
Piedade e desgosto pela Princesa lutavam nela.
Um silêncio bem longo se fez.
O Príncipe não deixava de fitá-la.
Parecia fascinado pela graça ondulante de seus movimento, o contorno clássico da pequena cabeça castanha que saía, tão delicada, tão rosada, da larga franja de rendas, a transparência admirável da pele que a emoção fazia empalidecer e corar alternadamente.
Arrancando-se com esforço à sua muda admiração, o Príncipe desejou dar novo rumo à conversa.
— A senhora tem aqui um verdadeiro jardim zoológico, prima — disse ele. Um periquito, um aquário, esse enorme viveiro e dois cães.
Eles devem fazer um barulho ensurdecedor.
— Oh, não. Vivo em boa paz nesta pequena comunidade.
Esses pobres seres, tão desprezados e maltratados pelos homens, são a minha paixão — respondeu Tâmara com um sorriso.
E veja como nos entendemos com poucas palavras.
Ela abriu uma gaveta da mesa e retirou alguns biscoitos.
Ante aquele barulhinho, sem dúvida bem conhecido, Biju saltou do divã e veio postar-se diante dela, sentadinho no chão.
Percival deixou seu posto junto da lareira e veio também exigir seu quinhão, apoiando a enorme cabeça no ombro de sua senhora.
Tâmara partilhou com eles os biscoitos, acarinhou Biju e apoiou sua cabeça encaracolada contra o peso espesso do Terra-Nova.
— Feliz animal! Quantos homens não invejariam sua existência — disse Arsénio, fitando o grupo encantador com um sorriso.
— Oh, ninguém, penso eu, concordaria em trocar sua dignidade humana pela existência animal de Percival.
— Eu seria o primeiro a trocar com ele, se algum mago consentisse em operar tal transformação. O que falta a esse felizardo cão?
Não tem a mínima preocupação, é amado e bajulado e come biscoitos da mão de sua senhora.
Como se tivesse compreendido o elogio à sua felicidade, o Terra-Nova, tomado de súbito impulso de ternura, levantou a cabeça e passou a sua enorme língua pelo rosto aveludado da moça, que o empurrou.
“Que é isso?” — disse ela, passando um lenço no rosto e ameaçando o cão com um dedo.
O Príncipe riu alegremente.
— Pois bem, prima, nesse instante, mais de que em qualquer outro, eu estaria pronto a tomar o lugar de Percival; bem entendido, com todos os direitos e privilégios de que ele desfruta junto da senhora e passar-lhe, em troca, minha pessoa, meu título e minha mulher.
Tâmara enrubesceu vivamente.
— O senhor perderia muito com uma transformação dessas.
— Isso é comigo, mas que diria a senhora, Tâmara Nicolaevna, se a alma de Percival entrasse em mim e a minha nele?
— Eu diria:
Deus me proteja de tal metamorfose!
Imagine só, Príncipe — e um sorriso malicioso iluminou o rosto dela — que insuportável animal se tornaria Percival se ele se embriagasse, por exemplo, ou herdasse outros maus hábitos próprios da perfeição humana e que sua inferioridade canina ainda não sabe apreciar?
— É verdadeiramente lisonjeiro.
A senhora prefere a alma de Percival à minha?
— Não, pelo amor de Deus!
Apenas protesto contra a transformação e acho que Catarina ficaria tão descontente como eu.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 17, 2016 8:33 pm

— Ah! isso é duvidoso!
Ainda que Percival lhe mostre os dentes, uma vez que ele a queira, penso que a Princesa preferiria a mim e ele, certamente, se daria melhor com ela.
É verdade.
Percival é um cão muito educado e grato, por instinto.
Ele não morderia a mão que o alimenta...
Ela se interrompeu, envergonhada de ter falado demais e seu olhar incerto fitou rapidamente o Príncipe que, com a mão insegura, sacudiu a cinza do cigarro.
À vista da sua palidez mortal e da expressão de sofrimento e de censura que se reflectia nos olhos negros que a fixavam, Tâmara sentiu vergonha e pesar pelas suas duras palavras.
— Muito bem, prima, por que se calou?
Suas palavras demonstram que a senhora me considera um ingrato em relação à mulher que tem o meu nome.
Desejaria a senhora acrescentar que esse homem desprezível que se vendeu, sabendo antecipadamente que uma mulher vulgar e depravada não lhe daria senão a vergonha, teria perdido, por isso, todo o direito de protestar contra a desonra?
Uma nervosa irritação vibrava na voz do Príncipe e deixava-se trair no gesto com o qual ele retorcia a corrente do relógio.
— Minhas palavras foram uma brincadeira.
Que direito tenho eu de me meter nos seus actos ou de julgá-lo mais severamente do que as centenas de homens que, como o senhor, contraem matrimónios por conveniência?
— Por favor, prima, não se esconda atrás de frases tão nebulosas.
Diga-me francamente a sua opinião.
Ela é dura, eu sei, mas estou já habituado a ser escalpelado pelas suas mãozinhas e experimento certo bem-estar com essa operação.
Li há pouco um livro extravagante, de um americano, que ele surrou o corpo espiritual de Alfred de Musset para livrá-lo dos resíduos de seus pecados e purificar-lhe.
Estou certo de que a senhora realiza comigo o mesmo gesto de caridade.
— Não, não. Jamais eu seria tão cruel com o senhor — disse Tâmara, rindo.
Além disso, de que serve ficar revolvendo o irreparável?
O senhor agiu sob a influência de circunstâncias que entendia como prioritárias e seria ridículo censurar-lhe por haver-se casado com uma mulher rica.
Mas o senhor escolheu essa esposa sem ter por ela nem amor, nem estima e nem mesmo amizade.
Eis aí a falta que recaiu cruelmente sobre o senhor mesmo.
Claro que a mulher que desceu tão baixo, a ponto de comprometer-se com um lacaio, merecia castigo.
Só que o senhor deveria tê-la feito sentir sua autoridade mais cedo.
Da primeira vez, quando o falatório social ligou, de modo suspeito, o nome do Príncipe circassiano ao de Catarina, quando se falou de um escândalo num restaurante fora da cidade, durante sua viagem a Moscou, o senhor deveria tê-la punido.
E, no entanto, calou-se na ocasião e, após toda uma série de insultos à sua honra, é tarde para reconduzir à razão a mulher infiel que era preciso ter sido contida desde sua primeira leviandade.
Ainda que sejam de ouro, as correntes que o prendem são pesadas, primo Arsénio, e isto se vê na sua face.
O senhor não tinha antes essa expressão de sofrimento e a desarmonia de sua alma aumentou, em vez de diminuir, com o desaparecimento das preocupações materiais.
É que o princípio divino desperta na sua intimidade e reclama seus direitos.
Essa flama vinda do Criador, que nos anima e nos religa a ele, não se deixa extinguir.
Por mais abafada que seja pelo gozo da matéria, ela vela em nós e nos faz lembrar nossa origem divina.
O senhor também a sente em seu coração, Arsénio Borissovitch, e é como uma Voz que lhe dissesse:
“Pare enquanto é tempo.
Não se deixe escorregar para o abismo.
Faça um esforço no sentido do bem, de uma nova vida!”
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 17, 2016 8:33 pm

O Príncipe ouvia com um ar sonhador.
O sentido do que ela lhe dizia parecia perpassar pelo seu ouvido sem deixar impressão mais profunda.
Estava muito atolado no lodaçal de suas paixões e sentia-se impotente para um esforço em busca de uma nova vida, mas embriagava-se com a harmonia da voz dela e o brilho quente e persuasivo de seus olhos.
Sentia-se bem naquela atmosfera pura e calma e teria querido permanecer assim sem contar as horas.
A entrada de um empregado, que levantara o cortinado para facilitar a passagem da cadeira de rodas de Magnus, pôs fim à conversação.
Enquanto os dois primos se cumprimentavam, Tâmara aproximou-se e, com um gesto carinhoso, que lhe era habitual, afastou os cabelos castanhos e bem cuidados de seu marido e colocou a mão em sua testa.
“Graças a Deus!
A febre passou de uma vez!” — disse ela alegremente, enquanto Magnus agradecia-lhe com um olhar afectuoso e reconhecido.
Um pungente sentimento de inveja e amargura estrangulou o coração de Arsénio:
ele também estava indisposto mas, sobre sua testa em fogo, nenhuma espécie de mãozinha compassiva viria pousar quando ele retornasse à sua rica mansão.
Torturado por um ciúme agudo, levantou-se.
Parecia sufocar agora e desejava afogar em qualquer excesso o suplício de Tântalo25 que se apossara dele.
Impetuoso e desenfreado, versátil em todos os seus impulsos, resolveu bruscamente ir à casa de sua actual amante.
Junto da provocante actriz e de suas não menos alegres amigas, ele esqueceria logo aquela insípida atmosfera de virtude e de simplória ternura, cuja visão o enervava.
— Onde o senhor vai?
Não vai tomar o chá connosco? — perguntou Tâmara admirada em vê-lo apanhar o seu gorro.
— Sem dúvida, fica! — acrescentou Magnus.
Para onde vai você com toda essa pressa, espírito atormentado, que em parte alguma encontra repouso?
— Vou para onde floresce, em acção, a divisa da minha vida:
“Mulheres, jogo e vinho” — respondeu o Príncipe, com um sorriso frívolo, apertando a mão do primo.
— Tenho a honra de saudá-la, Baronesa.
A estada de Nina em sua casa e seus contactos obrigatórios com tantas pessoas haviam colocado Tâmara em evidência.
Sua grande fortuna a expunha, naturalmente, a muita cobiça e não eram somente os frequentadores de bailes e jantares que se acreditavam lesados nos seus direitos pela fria reserva da jovem milionária.
As senhoras que patrocinavam as mais diversas entidades de assistência social e asilos, os infatigáveis organizadores de bazares, concertos, loterias ou espectáculos beneficentes, consideravam como ofensa pessoal suas constantes recusas em tomar-se um de seus membros.
Madame Raban, que se tornara membro de várias sociedades, forçada pela posição de seu marido, tentara persuadir Tâmara e esta ajudava generosamente a toda obra indicada pela velha amiga, mas não queria oficialmente envolver-se com nenhuma.
A moça havia experimentado pessoalmente a pobreza, vira de muito perto as misérias e humilhações dos deserdados da vida para apreciar no seu justo valor o zelo dos que se diziam benfeitores.
Habilmente disfarçados com as necessidades e misérias dos pobres, eles extorquiam das pessoas caridosas somas consideráveis e, sob o pretexto de administrar esse dinheiro, desfrutavam pessoalmente os recursos, atirando aos pobres apenas migalhas insuficientes para aliviá-los e minorar-lhes as aflições.
Uma noite, em casa de Madame Raban, Tâmara encontrou uma senhora muito conhecida por sua actividade filantrópica.
Infatigavelmente, ela andava a fazer colectas, extorquia seus conhecidos, discorria sobre o dever do cristão de ajudar seus semelhantes, mas as línguas maldosas diziam que essa grande pregadora só falava pelos outros; quanto à sua própria bolsa, ela a mantinha fechada com tanta energia quanto à que utilizava em abrir a alheia.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 17, 2016 8:33 pm

Tâmara achava-a antipática, hipócrita e beata e evitava, tanto quanto possível, tratar com ela qualquer questão filantrópica, mas a zelosa patrocinadora era tenaz e não deixava passar oportunidade alguma de tentar, ainda e sempre, um assalto.
Logo tratou de encaminhar a conversação para o seu tema predilecto e estendeu-se sobre grandes projectos que tinha em mente e que tinham por objectivo resolver definitivamente o problema da miséria e todos os males e vícios daí decorrentes.
— Desejo, sinceramente, Madame, o sucesso de seus planos, observou Tâmara.
Apenas duvido que eles produzam os frutos esperados.
Tive centenas de provas de que o exercício da caridade pública é pouco eficaz e que o gigantesco projecto de acabar com a pobreza, a vagabundagem e a embriaguez por uma acção colectiva é ainda irrealizável.
Enquanto os planos são elaborados nesse nível, todos passam, sem ver, ao lado de muitas dores.
— Na sua opinião, Baronesa, deveríamos, então, cruzar os braços e não tentar jamais um esforço para remediar os males da humanidade?
— Não, Madame.
Desejaria somente que não fosse negligenciado o possível por causa do impossível.
A desgraça e a privação não precisam ser vista em massa para serem aliviadas.
Basta levantar os olhos em torno de nós mesmos para descobrir muito mais do que podemos ajudar.
O sofrimento humano é uma arma de dois gumes:
ela é um teste à fé, à paciência, à energia daquele que o experimenta, mas também para o coração do que o identifica sem procurar atenuá-lo.
Mesmo que não houvesse na terra tanto egoísmo, avareza e dureza, seria bem difícil fazer todo mundo feliz.
Estou firmemente convencida de que lá em cima não seremos censurados por não havermos socorrido toda a humanidade, mas que Deus pedirá contas da sorte dos infelizes que foram colocados em nossos caminhos.
Sim, Deus me perguntará se pratiquei com eles a verdadeira caridade, que consiste em erguê-los moral e materialmente, de proporcionar-lhes coragem e alegria de viver por meio de um trabalho regular, o qual, como coroamento de seus esforços, traga-lhes a paz e o bem-estar.
Atirar a um infeliz um pedaço de pão que somente lhe prolonga a agonia, condená-lo ao desolador trabalho das instituições beneficentes, que não bastam nem mesmo para assegurar ao miserável o pão de cada dia, como se o desventurado não tivesse necessidade para viver, nem de roupas adequadas e quentes, nem de uma habitação sadia, nem de um pouco de esperança...
Isso é caridade?
Não e não, pois em lugar de praticar a caridade simples e objectiva, investimos importâncias imensas em construções pomposas, onde é instalada uma administração burocrática que assume a aparência de um órgão ministerial e cria intermináveis formalidades de rotina.
Se um necessitado, que não tem como enterrar um parente que acaba de perder, implora socorro que somente lhe será concedido seis meses depois, se um doente expira, enquanto espera que se discuta se vai ou não ser concedido o suficiente para ele comprar medicamento, é, a meu ver, uma cruel ironia, não um acto de caridade.
Por isso, tenho me recusado e continuarei a recusar sempre a tornar-me um membro de qualquer sociedade:
as rivalidades e as mesquinhas questões de amor- próprio desempenham em tais instituições um papel que me repugna.
Farei o bem tal como eu o entendo e não terei que procurar muito longe os irmãos em desgraça.
Com efeito, a mão de Tâmara e a de Magnus estavam sempre abertas para ajudar aos necessitados na medida de suas forças.
E como havia dito, socorria de uma forma que os necessitados iniciavam uma vida nova.
Além disso, numa ala de sua residência, várias pequenos aposentos confortáveis eram destinados, sem qualquer pagamento, às famílias pobres de classe média, viúvas e militares reformados com pensão insuficiente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 17, 2016 8:34 pm

Diariamente, vinte velhinhos e vinte velhinhas da classe média, das quais se cuidam bem menos do que dos pobres, recebiam, de sua parte, um jantar farto, que era levado a domicílio se estivessem doentes.
Aos asilos ela entregava anualmente uma soma que permitia a certo número de pobres que não pudessem pagar a taxa serem ali admitidos de graça.
Isto, na sua opinião, era útil e prático e decorria de sua própria iniciativa, dispensando-a dos discursos ociosos e dos debates intermináveis, que são a principal ocupação dos comités filantrópicos.
Algumas semanas haviam decorrido sem nenhum incidente.
Tâmara, fortemente gripada, ficara de cama e recebia apenas os amigos mais íntimos.
Quanto a Arsénio, não aparecera mais, desde aquela tarde, na qual se despedira tão inesperadamente.
O Almirante, dissera, contudo, que, mais do que nunca, ele cometia suas loucuras.
O jovem casal ficou muito admirado, certa manhã, quando lhe foi anunciada a presença de Ugarine.
O Príncipe estava bem mais humorado.
Declarou que vinha convidar sua bela prima para uma grande caçada, que estava promovendo em sua propriedade de Novgorod.
Muita gente tomaria parte e ele estava certo de que Magnus autorizaria sua mulher a acompanhá-los.
— Eu lhe ensinarei a atirar, Tâmara Nicolaevna, e tomarei conta da senhora como a menina de meus olhos — disse alegremente.
Nessa ocasião, permita-me, na qualidade de seu parente, oferecer-lhe a arma com a qual a senhora fará sua aprendizagem de caçadora.
Ao dizer isso, abriu uma caixa que trouxera consigo e retirou dela um pequeno fuzil, verdadeira jóia adamascada, incrustada e ornada com as iniciais de Tâmara.
A moça tomou a arma e examinou-a, enquanto Magnus declarava, com um sorriso, que a decisão ficava ao inteiro critério da Baronesa.
— Muito obrigada, meu caro primo, pelo seu magnífico presente.
Aceito, com gratidão, esta pequena maravilha de armaria, mas devo recusar seu convite.
A caça, veja bem, é um divertimento abominável, a meu ver.
A matança de seres inocentes e indefesos me revolta o coração.
É inconcebível, para mim, o prazer de persegui-los, atormentá-los e estropiá-los sem necessidade.
Já é bem triste que tenhamos que nos nutrir de seres vivos, que é necessário degolar para satisfazer o apetite.
Uma vez que não se pode agir de outra maneira, pelo menos por enquanto, não protesto.
Mas por que fazer dessa carnificina um prazer?
— Cara prima, deixe-me dizer-lhe que a senhora exagera demais.
Como se pode considerar tão tragicamente a morte de uma lebre ou de uma ave selvagem?
Quanto à casa por si mesma, é um divertimento nobre e cavalheiresco, que põe à prova a destreza e a coragem e que sempre foi cultivada, não somente pelos homens, mas também pelas mulheres mais distintas.
— No meu modo de entender, a caça é um resquício, do barbarismo, um hábito sanguinário que a civilização extinguirá pouco a pouco, como acabou com os combates de gladiadores, com o hábito de massacrar ou emparedar prisioneiros de guerra, de atirar os culpados às feras e muitas outras belas coisas dessa natureza que eram julgadas outrora como nobres divertimentos e façanhas cavalheirescas.
Enfim, o homem tornou-se feroz na guerra, essa nódoa da nossa época.
Ele tem o coração bastante duro para degolar o animal, da mesma forma que mata a sangue frio seu semelhante.
Mas quanto à coragem, duvido que seja necessária para matar uma lebre ou uma ave.
A arma assassina nas mãos de uma mulher é um espectáculo abjecto e repugnante.
É uma falta de instinto feminino e de delicadeza de coração abater por prazer uma criatura fraca e indefesa, contemplar friamente os sofrimentos e as convulsões de sua agonia, de vê- las às vezes ser dilaceradas pelos cães!
Eu não poderia suportar o olhar acusador de um pobre animal como se a implorar ao seu implacável assassino:
“Por que, com que direito você me rouba a vida?”
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Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 9:22 pm

E, certamente, se Deus nos permite atender as nossas necessidades com a carne animal, ele jamais aprovará que façamos de seus sofrimentos uma diversão.
Não, não, primo, não irei à caça.
Se eu pudesse, impediria todos os homens de praticar essa mania detestável de massacre! Jamais tomarei parte nisso!
— Eis uma dura condenação, contra a qual protestarão bem alto todos os caçadores, que consideram a caça um desporto dos mais aristocráticos — observou Arsénio.
— Não tenho a pretensão de fazê-los mudarem de ideia.
Há muitos caciques que se gabam do número de escalpos que levam à cinta — por que não se sentiriam orgulhosos os senhores caçadores por haverem abatido uns tantos veados ou raposas?
A diferença é que não me sinto abrigada a participar dessa admiração.
A menos que se tratasse de um combate contra um animal feroz, um urso ou um tigre, por exemplo.
Nesse caso, pelo menos, se poderia falar de coragem pessoal.
Pensativo e descontente, o Príncipe despediu-se.
Mas qual não foi a surpresa de Magnus e de sua mulher vendo-o chegar alguns dias mais tarde.
— De onde vem você?
Pensávamos que estivesse caçando — perguntou o Barão.
— A caça não se realizou, para grande desgosto de Catarina, que ficou positivamente furiosa — respondeu fleumaticamente o Príncipe.
Eu sofro de reumatismo e tive receio de me resfriar.
Além disso, não me sentia disposto a impor essas provocações desagradáveis às pobres lebres, raposas e aves e a destruir a felicidade de suas famílias.
Tâmara levantou vivamente a cabeça e um sorriso encantador iluminou-lhe o rosto.
— Caro primo, deixe-me agradecer ao seu sentimento, vindo em momento tão oportuno para impedir o massacre de tantos pobres animais — disse ela estendendo-lhe as duas mãos.
Arsénio levou-as aos lábios.
— Estou encantado com o seu elogio ao meu reumatismo e prefiro seu agradecimento ao das lebres, apesar da gratidão que elas me devem — disse ele a rir.
Tenho ainda uma novidade para contar-lhe, Tâmara Nicolaevna:
a senhorita Natália Zarubine acaba de ficar noiva.
— Até que enfim! De quem?
— Do ajudante-de-campo Polenov.
Eu os vi ontem.
Ela estava radiante e me disse que virá vê-los aqui, por estes dias.
— Graças a Deus! ei-la sossegada.
A pobre avó terá, enfim, paz e tranquilidade!
Tâmara não desejava estender-se perante o Príncipe sobre a opinião que tinha de Natália Zarubine, sua antiga companheira de colégio, mas pela qual sua afeição havia arrefecido consideravelmente depois que ela conseguira avaliá-la, bem como às outras companheiras, com os olhos bem abertos.
No entanto, ela tratava Natália com benevolência e esta mantinha tais relações, pois queria estar bem com a sua rica colega, considerando que aquela intimidade lhe proporcionava certo status.
O que sobretudo repugnava a Tâmara era a caça ao marido praticada por Natália, com cada homem que lhe testemunhasse a menor parcela de afabilidade, com uma sem-cerimónia, uma ousadia, uma tenacidade que revoltavam a moça.
Em verdade, a Senhorita Zarubine tinha uma ideia fixa, um só desejo:
casar-se, a qualquer preço, investir-se do título de mulher casada que lhe proporcionava a liberdade de acção, da qual desfrutavam Catarina e Nadina.
Mas a pobre Natália não tinha chance; apesar de seus inauditos esforços, suas idas a todas as festas, suas despesas com toaletes e seu sólido dote, não pudera, até então, encontrar marido.
Como que por um perverso acordo, os homens escolhiam suas esposas bem em frente aos olhos de Natália.
Ela sempre ficava profundamente irritada, mas nunca desistia de sua ridícula obstinação em casar-se de qualquer maneira.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 9:22 pm

Ela nem era muito exigente na escolha de seus amores.
Seu coração, bastante flexível, suspirava pelos mais disparatados heróis.
Eram jovens da sociedade, o administrador de suas casas, um burguês de origens bem modestas, até um frei búlgaro, enquanto estavam em voga e... por mais horrível que seja, até mesmo um bratuchka,26 haviam recusado sua longa e magra figura que os jovens ridicularizavam pelas costas e, zombeteiramente, diziam ser um farol a emitir sinais com um dote.
Para Tâmara, com seu invencível orgulho e sua sensibilidade, uma conduta daquelas parecia odiosa e no íntimo ela se admirava de que Polenov, um jovem tão brilhante, muito bem visto nos salões, houvesse escolhido Natália, que já conhecia há anos, mas nunca distinguira com qualquer interesse pessoal.
Tal como anunciara Ugarine, Natália veio logo visitar a Baronesa e participar-lhe o casamento que deveria celebrar-se dentro de três semanas, suplicando-lhe que aceitasse ser sua madrinha.
Tâmara tentou recusar, mas a colega de escola insistiu tanto que ela acabou concordando.
Cáustica e observadora, a moça divertiu-se com a exaltação apaixonada de Natália, que não pensava e não falava a não ser sobre seu futuro, o amor, a ternura recíproca e seus planos.
Ela se perguntava se Natália representava uma comédia ou se estava se iludindo com os sentimentos do ajudante-de-campo.
No dia do casamento, Tâmara chegou cedo à casa de sua amiga.
Prometera-lhe supervisionar as tarefas da toalete.
Já preparada para a cerimónia, chegou e foi recebida pela avó de Natália, velha dama doce e simples, de quem ela gostava e a quem muito respeitava.
A noiva ainda estava com uma vestimenta caseira, embora muito chique.
Duas camareiras ocupavam-se dela, uma cuidava de calçá-la e outra aprontava o vestido do casamento e outras vestimentas que se estendiam sobre o divã.
Natália atirou-se ao pescoço da Baronesa, abraçou-a, como se ainda fosse a menina do colégio, tagarelando sem parar.
Em seguida, chegou o cabeleireiro, com o qual debateram qual o penteado que melhor assentaria à noiva e de que maneira seriam colocadas as flores.
Ocupada com essa conversa, Tâmara não havia percebido que já há um quarto de hora a velha senhora saíra, depois que uma criada viera chamá-la, quando a mesma empregada voltou, pedindo, da parte de Olga Petrovna, que Tâmara fosse ter com ela, com urgência, no gabinete.
Pálida e desfeita, com as mãos e os lábios trémulos, a velha dama estava sentada numa cadeira.
— Meu Deus!, Madame, a senhora está indisposta ou algo grave aconteceu? - perguntou a moça com interesse.
— Sim, algo totalmente inesperado, e é sobre isso que desejo pedir-lhe um conselho, Tâmara Nicolaevha — disse Madame Zarubine com a voz entrecortada pela emoção.
Imagine que Polenov chegou e me declarou, categoricamente, que se eu não lhe entregar, antes da cerimónia, os papéis correspondentes ao capital investido no dote, ele se recusará a ir à igreja.
Que devo fazer, meu Deus?
Os documentos estão no banco e, se eu não conseguir retirá-los, será um escândalo tão terrível diante de tanta gente que nem ouso pensar nisso.
Mesmo que me submeta à exigência inaudita desse homem, tortura-me o medo de prejudicar minha neta.
Ele não ama Natália, uma vez que é capaz de fazer tais exigências.
Ela cobriu os olhos com as mãos, enquanto as lágrimas desciam pelas faces enrugadas.
Súbito rubor subiu às faces de Tâmara.
— Recuse, Madame, e ponha pela porta afora essa patife desavergonhado que vem dizer à senhora:
“A bolsa ou o escândalo! — disse ela impetuosamente.
É preciso declarar abertamente aos convidados os motivos que levam a senhora a um rompimento algumas horas antes do casamento e o miserável ficará tão conhecido que todas as portas se fecharão a ele.
— Fale mais baixo, querida filha.
Ele está no salão e eu sei que Natália não concordaria em romper.
— Como ela não quer romper?
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 9:22 pm

Depois de uma afronta, uma humilhação dessas, como é possível casar-se?
Vamos logo falar com ela.
Estou convencida de que ela desejará lançar pessoalmente a sua recusa no rosto desse infame mercenário.
— Vai, Tâmara Nicolaevna, e tente persuadi-la a renunciar a essa homem indigno. Eu não posso.
A jovem retornou prontamente ao quarto de dormir.
Observando que o cabeleireiro terminara sua tarefa, ela dispensou as servas e, tomando as mãos de Natália, que a contemplava admirada, disse com firmeza:
— Devo dar-lhe ciência de um grave e penoso incidente, mas espero que você seja bastante forte, neste momento decisivo, uma vez que ele diz respeito à sua honra.
— Misericórdia!
Que medo você me faz!
Será que se trata do meu noivo?
— Justamente.
Esse honrado senhor recusa-se a ir para a igreja, se antes da cerimónia não lhe forem pagos os 60.000 rublos que compõem o capital disponível de seu dote.
É botar um preço muito alto na sua miserável pessoa, e suponho que você compreenda logo o que ordena a sua dignidade de mulher.
Natália ouvira tudo com o rosto vermelho, os olhos estatelados.
Subitamente ela agarrou a cabeça com as mãos e se pôs a dizer com a voz aguda, entrecortada de soluços:
“Vovó! Vovó!”
Trémula de emoção, a velha senhora apareceu e deixou-se cair sobre uma cadeira.
Natália precipitou-se para ela e, caindo de joelhos, balbuciou, torcendo as mãos:
— Paga-lhe, vovó, não me deixe comprometer.
Pelo amor do Cristo! Não me faça infeliz.
Eu não conseguiria sobreviver ao golpe de perdê-lo!
Como que petrificada, Tâmara contemplava aquela moça sem brio nem dignidade que, com gritos e lágrimas, suplicava pagar a um insolente para que ele a desposasse.
Todo o orgulho da moça rebelava-se e a custo era contido.
Ela tomou o braço de Natália e disse com voz vibrante:
— Que vergonha você demonstrar uma covardia dessas!
Será que você é tão desprovida de um mínimo de dignidade, de respeito por si mesma e por sua avó, que concorda em ceder a uma exigência tão cínica?
Não compreende todo o desprezo que esse homem atira ao seu rosto?
Não quer ele dizer, com isso, que só deseja o seu dinheiro?
E após esse cruel insulto, você ainda quer casar-se com ele, viver com ele, sabendo que será apenas tolerada?
Caia em si, enxugue essas lágrimas indignas e devolva-lhe afronta por afronta!
— Sim, meu anjo querido, ele não vai fazê-la feliz — murmurou a avó.
Mas Natália nada ouvia.
Apavorada ante a perspectiva de perder o marido que ela considerava ter, enfim, conseguido, ela repetia:
— Paga-lhe, vovó. Dê-lhe a soma que exige.
Vão rir-se de mim, se houver um rompimento.
Além disso, meu vestido de noiva, meu enxoval, tudo estará perdido!
— Mas você pode encontrar outro marido, minha querida — observou timidamente a velha senhora.
Ante essas palavras, Natália foi tomada por uma crise nervosa.
Com suspiros e gargalhadas convulsivas, rolou tombada ao tapete, repetindo como uma doida:
— Não, não, não outros, é ele que eu quero!
Contemplando aquele espectáculo, a pobre avó levantou-se assustada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 9:23 pm

— Acalme-se, pelo amor de Deus, acalme-se!
O casamento será realizado.
Vou agora mesmo ao banco e farei tudo o que estiver ao meu alcance para ter em mãos os papéis.
Macha! Donia! dêem-me meu chapéu, meu casaco e mandem atrelar os cavalos imediatamente!
Tâmara procurou sustentá-la e a conduziu ao gabinete contíguo.
— Não se agite dessa maneira, Olga Petrovna; é uma dor inútil.
Mas, diga-me, em que banco foram colocados os seus recursos?
A velha citou o nome do estabelecimento.
— Felizmente eles estão nesse banco.
O director é amigo de Magnus.
Vou enviar-lhe uma mensagem, pedindo que ele mande liberar, com urgência, os papéis.
Ê um homem prestativo e bom, que facilitará as coisas.
Por outro lado, para não perder tempo, tome minha carruagem que está aí em baixo.
A senhora me autoriza a utilizar a sua, caso necessário?
— Obrigada, obrigada, querida Tâmara Nicolaevna.
Que Deus a abençoe pela sua energia e presença de espírito.
Logo que partiu a velha senhora, Tâmara retornou ao quarto de dormir para apanhar sua saída de baile, as luvas e o leque.
Decidira partir imediatamente.
Por nenhum preço, queria servir de madrinha àquela criatura sem brio, e apertar a mão daquele especulador.
Fingir uma amizade sincera por aquele casal abjecto, ultrapassava os limites de suas forças.
Natália estava sentada ao assoalho, sustentada por uma camareira que lhe fazia respirar um frasco de sais.
Todo o seu corpo se sacudia num solução convulsivo, e sua face inchada estava coberta de placas vermelhas.
Dos olhos intumescidos escorriam, ainda, grossas lágrimas.
A moça contemplou-a por um momento com desgosto e horror.
Não sentia nem uma sombra de piedade por aquela miserável criatura que preferia deixar-se pisotear na lama, do que perder um marido.
Sem responder, nem mesmo prestar atenção ao que lhe dizia Natália, Tâmara apanhou suas luvas, o casaco e deixou o aposento.
Para chegar ao vestíbulo era preciso atravessar o salão, no qual se encontrava Polenov.
Lá estava ele, com os braços cruzados, uma expressão de brutal certeza no rosto, já com o seu uniforme de gala, a caminhar de um lado para outro.
—. Ah! já está preparando para ser comprado — pensou Tâmara, atravessando a sala. como se estivesse vazia.
O jovem oficial avançou com vivacidade para ela, e disse:
— Como? Já vai embora, Baronesa?
Mas a senhora é a madrinha da noiva — disse, estendendo-lhe a mão.
Tâmara parecia não ter visto o gesto.
Mediu o jovem oficial com um glacial olhar de desprezo.
— Sim, vou-me embora.
Aliás, não está ainda decidido se o casamento vai ou não se realizar.
Uma expressão indecisa e desapontada perpassou, por um instante, o rosto de Polenov, mas, recuperando-se logo, disse com convicção:
— Esteja certa de que se realizará.
O sangue orgulhoso de Tâmara recomeçou a ferver.
Toda a dureza acerba que lhe era própria em tais momentos vibrava na sua voz e fuzilava em seus olhos, quando ela respondeu.
— Tem razão. O senhor será pago.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 9:23 pm

E, na verdade, em vista do elevadíssimo valor que Natália atribui à sua honrada pessoa, o senhor foi muito modesto.
Por que não exigiu o dobro?
Talvez Olga Petrovna concordasse, mesmo sangrando até a última gota de seu sangue.
Quanto a mim, vou-me embora, sim.
Repugna-me assistir a essa lúgubre comédia e servir de madrinha a uma mulher que não tem sequer dignidade suficiente para botá-lo porta afora.
Ainda que provido de um rosto duro como de bronze, Polenov corou e se perturbou ante o insulto.
Tâmara percebeu-o e sentiu íntima satisfação.
Virando-se bruscamente, saiu e se fez conduzir à casa de Nadina, à qual contou o que acabava de acontecer.
— Por favor, Nadiucha, vai lá e me substitui.
Não impeça que tal felicidade aconteça.
Você tem os nervos mais fortes — eu sou incapaz disso.
Aquelas duas personagens me inspiram tal desgosto, que não posso me constranger nem mesmo a demonstrar-lhes certa polidez.
Nadina riu de chorar.
— Ah! Tatá, você é mesmo de uma ingenuidade incorrigível.
Uma coisa tão simples, que se faz todo dia, põe você fora de si!
Agora, acalme-se.
Eu vou substituí-la, pois não podemos deixar na mão a nossa pobre Natália.
Magnus ficou perplexo, ao ver chegar sua mulher tão cedo e tão alvoroçada, mas ao tomar conhecimento das razões de sua volta para casa e de suas emoções, disse com um sorriso:
— Nadina tem razão.
É em vão que você se aflige, minha querida, e faz tanto barulho por causa de uma bagatela.
Não é nenhuma novidade que as mulheres costumem ficar tão pressionadas para se porem ao abrigo de um nome, que lhes assegure, com um pouco de prudência, absoluta liberdade de acção.
E é não menos sabido que os homens vendem caro sua liberdade... nominal.
No verdade, eles não se incomodam, nem antes e nem depois do casamento.
Quanto a Polenov, sou capaz de dizer-lhe as razões de sua indelicada insistência.
Ele tem uma amante que sustenta há muitos anos.
Tendo sido informada que ele ia casar-se, essa pessoa ameaçou-o com um escândalo público, se ele não lhe pagasse 10.000 rublos antes do casamento.
O ajudante-de-campo está crivado de dívidas e teve a má sorte de perder vários excelentes partidos. Que fazer?
Conhecendo Natália e, convencido de que ela não o deixaria jamais, exigiu o pagamento do dote.
Poderá, assim, indemnizar a amante e ainda ficar com um capital bastante sólido, com o qual possa pagar suas dívidas e endireitar sua vida.
— Mas como você sabe disso tudo? — perguntou Tâmara perplexa.
_- Foi Arsénio quem me contou.
Ele sabe de todas essas histórias escandalosas, mesmo porque presenciou, por acaso, uma rixa entre Polenov e sua beldade, que é uma ex-costureira.
E agora, não pensemos mais nessa gente.
Vai mudar sua roupa, minha querida, pois vou ler para você um artigo muito interessante que encontrei no último número da “Revista dos Dois Mundos”.27
Mas a natureza impressionável de Tâmara havia sofrido um choque violento demais para que ela pudesse recuperar logo em seguida o sangue frio.
O dia todo seu pensamento e suas palavras revolveram em torno do incidente ocorrido pela manhã e, mesmo à noite, já deitada para dormir, a lembrança de Natália e Polenov perseguia-a como um pesadelo.
Inquieta e sem poder dormir, apanhou um livro de viagem que o Conde de Rougement lhe trouxera na véspera e se pôs a ler.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 9:23 pm

Ao virar uma página, uma folha de papel escorregou de dentro do volume.
Julgando tratar-se de um marcador de páginas, Tâmara fez menção de recolocá-lo no lugar, quando algumas linhas, manuscritas em letra que lhe era familiar, chamaram sua atenção.
Ela as percorreu maquinalmente e um vivo rubor subiu-lhe às faces.
O bilhete era de Nadina, assinado com todas as letras, e o tom, bem como o conteúdo da missiva, não deixavam dúvida alguma sobre a natureza das relações de Madame Kulibine com o jovem diplomata.
O Conde de Rougemont se tomara visitante assíduo à casa de Magnus.
Tâmara notou logo que era ela mesma o ímã que atraía o jovem.
A barreira intransponível que ela sabia erguer em tomo de si, ainda que com as melhores demonstrações de amizade, forçava o Conde a uma prudência reservada, mas, cansado de todas as mulheres tolas e frívolas que só sabiam falar de amor ou difamar o próximo, procurava avidamente a companhia de Tâmara e sua conversação brilhante, variada, inteligente, que lhe fazia esquecer as horas.
A Baronesa também gostava de conversar com Rougemont e o considerava um amável e galante cavalheiro e, segura de si mesma, divertia-se com o interesse que lhe inspirava.
A negligência com a qual ele deixava circular uma carta tão comprometedora desagradou-lhe e ela resolveu dar-lhe uma pequena lição de discrição.
A primeira vez que o Conde a visitou e que se encontraram a sós no gabinete, Tâmara estendeu-lhe o livro e disse com um sorriso significativo:
— O senhor é muito imprudente, Conde, e empresta seus livros um tanto precipitadamente.
Este aqui contém uma carta que li por acaso, pois estava aberta, e que está assinada por Nadina.
Confesso que tinha melhor impressão a respeito de sua discrição para com as mulheres casadas que confiam em sua honra.
O Conde corou fortemente.
— Queira perdoar-me, Baronesa.
Reconheço-me culpado de inqualificável negligência, mas somente perante a senhora, cuja severidade puritana deve ter ficado chocada com a leitura desse bilhete.
Outras leitoras, a começar por Madame Kulibine, teriam ficado deliciadas.
Além do mais... — continuou alçando os ombros — a senhora não imagina de que fúria de escrever são possuídas as damas.
A gente acaba por esquecer que fim levaram as inúmeras cartas, mais ou menos francas, com as. quais elas nos assediam.
— Eu o compreendo, Conde, e, na minha opinião, trata-se aqui menos de cautela em relação a uma mulher que se estima, do que pelo marido que sempre acolheu o senhor com amizade e confiança.
Não seja tão desdenhoso, senhor Rougemont, em relação a essas desventuras conjugais — acrescentou ela com um sorriso.
Quando o senhor casar-se, também abrirá sua casa aos bons amigos, que poderão dizer de sua esposa o mesmo que o senhor acaba de dizer da esposa do Coronel Kulibine.
O senhor não estará mais garantido do que qualquer outro de um dia também ser traído pela sua mulher.
Como o senhor sabe, o rei Francisco I disse:
“A mulher muito varia; bem tolo é aquele que nela se fia".
O rubor do Conde mudou para um tom púrpura.
— A senhora é cruel nas suas previsões, Madame, mas não aconselho ninguém a atritar-se comigo dessa maneira, se for o caso — disse ele um tanto irritado.
— Com que direito o senhor acredita escapar à pena de talião?
E o senhor será impotente ante o homem sem fé que lhe apertará a mão, enquanto o engana e zomba do senhor.
Mas por que não atentamos para tais coisas senão quando elas se aplicam a nós mesmos?
Por que não desejamos admitir antecipadamente que o amigo infiel que estende a mão criminosa na direcção da alma do lar, a esposa, a mãe, deprava essa mulher e destrói a paz e a honra da família, que comete um roubo pior do que o de uma bolsa, que infiltra o veneno da depravação e da discórdia e, com frequência, empurra definitivamente uma alma pelo caminho da perdição.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 9:23 pm

— Eu nunca me casarei, em parte, para evitar esses inconvenientes, mas, principalmente, porque a mulher que amo, a única cujo estranho encanto e espírito subtil poderiam actuar sobre meu temperamento e transformá-lo, não quer nada comigo!
Ele inclinou-se e seu olhar inflamado mergulhou nos olhos da moça, com uma expressão que, mais claramente do que as palavras, dizia a quem se referia ele.
Tâmara enrubesceu, mas seu olhar límpido sustentou o de seu interlocutor.
— Se o senhor ama a uma jovem cujo coração, esteja livre, sempre há esperança de conquistá-la, e estaria errado se não o fizesse, pois somente a vida em família, a afeição unida à estima lhe proporcionaria o repouso que a vida desordenada jamais poderá oferecer.
Mas se a mulher que lhe parece tão desejável está separada do senhor por um obstáculo de natureza moral, mesmo sua posse não lhe trará felicidade duradoura.
No momento em que ela sucumbisse à tentação, perderia o estranho encanto que o fascina.
Juntamente com a estima, extingue-se a auréola de que fala o senhor e ela não seria mais do que uma vulgar amante, que lhe encheria de tédio, como essas damas que o assediam com as cartas.
Se verdadeiramente essa dama tem o espírito subtil que o senhor lhe atribui, ela não quererá, certamente, descer do seu pedestal — concluiu ela com um fino sorriso.
Interrompida por alguém que chegava, a conversa ficou nesse pé.
Mas, alguns dias mais tarde, o Conde voltou e anunciou a Tâmara, com um sorriso, que vinha despedir-se.
— Suas palavras me impressionaram, Baronesa, e desejo experimentar se, de facto, o amor honesto e legítimo é capaz de proporcionar felicidade.
Minha família criou uma órfã, nossa parenta.
Eu a conheço desde a infância e sei que é uma menina pura e piedosa, que promete ser uma esposa perfeita.
Ela me ama, e é desejo ardente de meus parentes próximos ver-nos unidos, mas sempre me recusei a realizar tal projecto.
Agora, consegui uma licença e estou de volta a Paris.
Se eu chegar a simpatizar-me com Bérangère, e se ela ainda me amar, eu a desposarei.
— Aí está uma boa e sábia decisão e desejo firmemente que sejam felizes — respondeu Tâmara, apertando-lhe a mão.
Conte com a minha amizade e mande-me notícias.
Cerca de um mês após a partida do Conde, ela recebeu uma carta, na qual ele participava-lhe seu noivado.
“Sinto-me verdadeiramente feliz e calmo” — escrevia ele.
"O amor tímido e casto de Bérangère me reanima como o ar puro, após a permanência numa estufa.
Ela me faz lembrar outra mulher, igualmente pura, porém mais enérgica, que jamais esquecerei, e que me impeliu a essa novo caminho.
Nosso casamento será celebrado logo e, conforme desejo de meu avô, deixo definitivamente a carreira, para viver em minhas terras, como um nobre rural.”
Quinze dias após haver recebido essa carta, Tâmara preparava-se para ir à casa de Madame Raban, que estava indisposta, quando chegou, inesperadamente, Nadina com a pequena Lisa.
As faces afogueadas, a boca crispada, a super-excitação nervosa da moça levaram a Baronesa a compreender, ao primeiro olhar, que algo extraordinário acontecera.
Sem dizer palavra, conduziu a visitante ao seu gabinete e fechou a porta.
— Que aconteceu, Nadina?
Que aspecto tem você!
— Venho pedir-lhe um favor, Tâmara, e se você tem por mim uma parcela de amizade, você me dará imediatamente mil rublos, que me são necessários.
A Baronesa pensou, a princípio, que Nadina contraíra de novo uma dívida junto a algum fornecedor, situação embaraçosa, da qual já a livrara anteriormente, mas, subitamente, outra suspeita ocorreu-lhe.
— Por que você quer mil rublos?
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 9:23 pm

— Para ir-me embora daqui.
Esteja tranquila; eu lhe devolverei esse dinheiro, mas preciso dele imediatamente.
— Se eu conhecer o objectivo de sua viagem, certamente não lhe recusarei essa pequena importância.
Para onde você quer ir e por que seu marido não lhe dá o dinheiro?
— É preciso que eu vá a Paris. E não direi nem mais uma
palavra sobre isto a você! — exclamou Nadina exasperada e explodindo em soluços convulsivos.
— Então, sou eu quem vai dizer o resto, bem como a finalidade de sua viagem.
Você vai correr atrás do Conde de Rougemont que, cansado de suas loucuras, vai casar-se!
Nadina saltou do divã.
Com a face descomposta, o chapéu atravessado, os olhos injectados de sangue, tinha a aparência de uma doida.
— Sim, o miserável traidor escapou, pretextando problemas de família! exclamou ela com uma voz sibilante.
Soube hoje que ele está renunciando à sua carreira para casar-se.
Mas, espera! eu saberei como impedir que isso acontece.
Quero ver se ele se atreve a casar-se em minha presença.
Tenho mais direitos sobre ele do que essa hipócrita!
— Você não tem direito algum.
Esse homem é livre e você é uma mulher casada e mãe de família — disse Tâmara, severamente.
Será que você não tem nenhum sentimento de vergonha, para pensar em um escândalo público, fugindo de casa para correr atrás de um homem que não quer saber mais de você e que, simplesmente, porá você portas afora?
Ele deixou bem claro que seu amor tornou-se para ele uma carga da qual ele deseja desembaraçar-se...
E você ainda quer levar mais outro contra?
Nadina atirou-se de novo ao divã e, mergulhando a cabeça nas almofadas, recomeçou a soluçar.
A pequena Lisa, assustada e intimidada, pôs-se a chorar também.
Tâmara acalmou-a.
Em seguida, voltando-se para a sua antiga colega de escola, tentou persuadi-la.
— Acalme-se, Nadina, e seja razoável.
Você não pode ser ingrata dessa maneira com seu marido, que a desposou honestamente, sem nenhum interesse material, para sacrificá-lo a um homem frívolo, que jogou com a sua honra!
Apaga da sua lembrança essa página vergonhosa da sua vida.
Retorne aos seus deveres e esqueça o Conde, que tão cruelmente a humilhou e que não mais a ama, como você pode verificar por esta carta que recebi há poucos dias.
Madame Kulibine empertigou-se, como que movida por uma mola, e, arrancando a carta das mãos da amiga, concentrou-se na leitura.
Raiva e ciúme devoravam-na e tornavam seu rosto crispado, irreconhecível.
— Não, quero ir ao encontro dele e hei-de ir, custe o que custar — exclamou ela com os olhos faiscantes e tomando a mão de Lisa, que resistia aos gritos.
— Nadina, pelo amor de Deus!
Você não sabe o que está fazendo e vai arrepender-se dessa impetuosidade.
É fácil deixar o lar conjugal, mas é bem difícil retomar a ele.
— Eu não quero retomar ao lar.
Quero rever Roger, mesmo que tenha, diante do altar, de me atirar entre ele e essa moça que ousa roubá-lo de mim!
— Então, deixa, ao menos, a criança! — disse Tâmara indignada e assustada.
Jamais vira, sob aspecto tão hediondo, um ser dominado por suas desordenadas paixões.
Em verdade, Nadina perdera, por completo, o controle de si mesma.
Era a primeira vez que colhia a amarga decepção que habitualmente resulta do adultério.
Mas, por sua natureza, sem princípios, inebriado pelo gozo e incapaz de renunciar àquele que lhe agradava, ela obstinava-se contra o inevitável com uma teimosia cega.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 9:24 pm

Arrancando com violência a criança das mãos de Tâmara, saiu como um furacão.
Trémula e aturdida, a moça deixou-se cair numa cadeira, mas, ao cabo de um instante, sacudiu de si aquela prostração e correu a ver Magnus, que estava escrevendo umas cartas.
Ao ver entrar impetuosamente sua mulher, o Barão deixou a pena sobre a mesa e ouviu atentamente sua narrativa, um pouco incoerente, que ela encerrou pedindo-lhe um conselho para impedir o escândalo.
— O que você quer que se faça para deter uma doida enraivecida como essa?
Fechá-la a chave é muito difícil.
Ela não conhece freio moral; casou-se para ter título e conforto.
Os filhos são para ela apenas um mal inevitável.
Com o que você poderá prender uma mulher desse tipo, uma vez que ela não cedeu à persuasão?
— É necessário, então, escrever imediatamente ao Coronel e prevenir-lhe do escândalo que se prepara.
Ele tomará as providências que julgar necessárias.
Magnus tentou dissuadi-la do projecto, que considerava inútil, mas, notando a irritação da Tâmara, cedeu e logo expediu-se uma carta ao Ministério, onde trabalhava Kulibine.
— Pelo menos ele não lhe permitirá levar a criança que ela arrasta consigo não sei por que — observou Tâmara com satisfação.
Um fino sorriso perpassou pelos lábios do Barão.
— Quem sabe?
Ela tem, sem dúvida, razões bem graves para levar Lisa.
A menina representa, talvez, o principal argumento para vencer a revolta do Conde.
Tâmara, que o fitava perplexa, enrubesceu fortemente e, sem nada dizer, deixou o gabinete.
Cerca de sete horas da noite, o Coronel Kulibine apresentou-se e foi recebido pelos jovens esposos com o mais cordial interesse.
— Agradeço-lhe a boa e leal intenção de me prevenir — disse ele, beijando a mão de Tâmara.
Infelizmente seu aviso chegou tarde demais.
Habitualmente encontro-me no Ministério até às cinco horas, mas hoje saí às três horas, para despachar em sua casa, com o meu chefe, que está de cama.
Sua carta foi enviada à minha casa, onde a encontrei ao chegar, e, ao mesmo tempo, fiquei sabendo que minha mulher partira no trem das cinco horas, levando Lisa com ela.
— Talvez fosse possível telegrafar para detê-la na fronteira — arriscou Tâmara.
Não, não — respondeu o Coronel com um gesto brusco.
Que ela se vá, com a graça de Deus.
Há muito tempo estou cansado do inferno que essa mulher criou para mim, sempre pressionada para sair, sempre arrumada para os estranhos e constantemente suja e desleixada para mim.
Há muito que está rompida qualquer ligação moral entre nós.
Suas despesas, suas loucuras, sua culposa indiferença acerca das crianças, minaram minha paciência.
Sou-lhe quase reconhecido por haver-me livrado de sua presença.
Estarei mais tranquilo e as crianças só teriam a lucrar, se ela me tivesse deixado Lisa.
O que me magoa é que ela tenha levado a filhinha para arrastá-la ao imprevisto de suas aventuras.
Ele calou-se e cobriu os olhos com a mão.
Dor e amargura reflectiam-se em sua face pálida e desfeita.
Com tristeza e compaixão, o jovem casal contemplava o desventurado homem que, atormentado e levado aos limites de sua resistência, nem mesmo chorava sobre os destroços daquele lar que constituíra, sem cálculo nem interesse, esperando somente encontrar ali um abrigo calmo e a afeição da família.
O Coronel era um homem de meia idade, calvo e um tanto obeso.
Faltavam-lhe, sem dúvida, a beleza provocante e a elegância de Rougemont, mas seu porte marcial, a franca lealdade de suas maneiras e a extrema bondade que se identificava em seus grandes olhos castanhos tornavam-no
simpático.
O penoso silêncio que então se fez foi interrompido por um criado, anunciando que um homem precisava falar urgentemente com a Baronesa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 9:24 pm

Ao entrar no vestíbulo, Tâmara notou, com espanto, um mensageiro que trazia uma carta na mão e uma criança adormecida nos braços.
Muito agitada, ela abriu a carta, que continha as seguintes palavras:
“Devolva Lisa ao pai dela.
Mudei de ideia e não desejo arrastar comigo esse fardo inútil. Nadina”. -
Depois de gratificar generosamente o mensageiro, a moça tomou a criança que acordara e, muito feliz, envolvera o pescoço de Tâmara com seus bracinhos.
Em seguida, Tâmara voltou rapidamente ao salão.
— Levante a cabeça, Pitr Michailovitch — exclamou ela, alegremente.
Veja! trago-lhe sua pequena Lisa.
Graças a Deus, ela se tornou um fardo muito embaraçoso para sua mãe.
Eis sua carta! ..
Kulibine empertigou-se vivamente e, sem mesmo olhar para a carta, agarrou a menina e cobriu-lhe de beijos, mas uma lágrima silenciosa, que rolou pela sua barba, provava que seu coração estava cheio de amargura. Após uma hora de conversa, o Coronel despediu-se, Tâmara e o marido permaneceram sob o peso daquela triste impressão e a moça não podia pensar em nada mais senão naquele pobre homem e no pungente sentimento com o qual ele deveria ter entrado na casa vazia, abandonada pela esposa indigna, que deveria ser ali a alma e o ornamento.
No dia seguinte, à noite, enquanto se preparava para dormir, Fanny contou a sua patroa que a camareira de Madame Kulibine, que ela conhecia, viera vê-la e saber se podia arranjar-lhe emprego, pois o Coronel resolvera despedi-la no fim daquele mês.
Contara também que a fuga de Nadina já era conhecida de todos.
Ela entrara em casa, como que alucinada, depois de uma ida à cidade, e mandara sua camareira penhorar várias jóias, suas imagens de santos, ornadas de pedrarias, seu abrigo e o casaco de peles.
Além disso, havia conseguido 100 rublos com o porteiro e 75 com a cozinheira.
Não era segredo para ninguém que ela ia atrás do Conde de Rougemont.
A narrativa encheu Tâmara de desgosto, ao mesmo tempo em que estava curiosa e inquieta por saber como terminaria tudo aquilo para Nadina e para o Conde.
O incidente causara uma impressão tão penosa na moça, que durante oito dias ficou em casa, sem desejar ver ninguém.
Ao receber, porém, um bilhete de Catarina, que dizia estar indisposta e a convidava a vir vê-la, ela resolveu ir à casa da amiga na manhã seguinte.
A Princesa ainda estava deitada e Tâmara ficou chocada ante a grande mudança que se operara nela e que nunca notara até aquele momento.
Parecia ter envelhecido, a pele amarelada, a fisionomia descorada, os olhos ternos marcados pelas olheiras.
Profundo esgotamento parecia haver tomado conta de todo o seu ser.
À vista de Tâmara, deixou cair sobre o leito um livro de capa amarela, cujo título indicava ser um dos mais picantes romances naturalistas da época.
— Obrigada por ter vindo, mas não olhe Zola assim de soslaio.
Ele pinta bem as pessoas, segundo a natureza — disse atraindo Tâmara a si e abraçando-a fortemente.
Esta nada disse e sentou-se junto ao leito.
Começaram a conversar e, muito naturalmente, o tema foi Nadina e sua escandalosa escapada.
— Não sei realmente o que desejar numa situação dessas — disse a Baronesa com um suspiro.
Lamento pelo Conde, se ela conseguir destruir o seu casamento, tornando-o infeliz, tanto quanto sua inocente noiva.
Por outro lado, se Nadina não conseguir colocar-se junto dele como amante, ou a fazer-se desposar, caso Kulibine se divorcie, o que será feito dela?
Ela cortou suas amarras e sua vida tornou-se impossível aqui.
— Rougemont não se deixará recapturar, mesmo que seu casamento seja desfeito.
Ele estava desgostoso de Nadina e, com uma mulher que não mais ama, o homem é impiedoso.
Quanto a mim, penso que ela retornará ao seu marido.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 9:24 pm

— Será que ela vai ousar fazer isso?
Ele vai expulsá-la!
— Ah, não.
Kulibine é um bom homem e não é o primeiro e nem será o último a deixar-se comover pela arrependida.
Além disso, será um acto cristão.
Ela será considerada com certas reservas pela sociedade, mas até isso, com o tempo, será esquecido, se ela tiver a coragem de ignorar as afrontas que lhe farão, de início.
Ah, a vida... a vida...!
Se soubéssemos o que ela nos reserva, seria preferível enforcarmo-nos.
Você se lembra, Tâmara, da véspera de nossa saída do colégio?
Como discutimos o futuro!
Cada uma de nós o imaginava de uma forma, sonhava-o todo cor de rosa.
Pois nove anos se passaram desde então e quantas mudanças, quantas decepções!
— Que amargura, Catarina!
Será você mesma que estou ouvindo, você que se sentia tão segura de que armada com a riqueza e considerando a vida do ponto de vista impiedosamente prático, seríamos invulneráveis? — perguntou Tâmara perplexa.
A Princesa deixou-se abater sobre as almofadas e fitou sua antiga companheira com um demorado olhar fatigado.
— A julgar pelos resultados, minha teoria não valia nada.
Por você, a idealista, o tempo passa sem deixar sinais.
Apesar dos desgostos que você teve, ninguém lhe daria mais que dezoito anos, com essa pele deliciosa e esse frescor juvenil que emana de todo o seu ser.
Nós, as de espírito prático, estamos envelhecidas, desgastadas, enfaradas de tudo.
E, no entanto, temos a mesma idade que você.
Juro-lhe, a vida é abominável, quando a nada se ama e a nada se estima, quando o futuro somente promete a saciedade e que nos faltam forças até mesmo para inventar meios de matar o tempo e esquecer esse vazio sem fim.
Mas, você não me compreende, você não pode me compreender ...
— Você se engana, Catarina.
Eu a compreendo e lamento.
O aspecto juvenil que conserva minha aparência exterior devo-o à paz, à harmonia que sempre reinou em mim.
São as paixões, mais do que os anos decorridos, que reagem sobre nosso organismo — as paixões usam, corroem e devoram antes do tempo.
O equilíbrio da alma, mesmo sob condições desfavoráveis, sustenta e conserva nossas forças físicas e morais.
Mas, diga-me uma coisa: se você compreendeu a falsidade de suas teorias e o vazio de sua existência, por que não procura mudar as coisas?
Você é mais velha do que eu apenas um ano, logo, tem vinte e seis anos.
Não é tarde para tomar um caminho novo!
A Princesa ficou em silêncio por alguns momentos e, depois, com um ar desanimado, deixou-se cair novamente sobre os travesseiros.
— Minha vida ficou tão radicalmente estragada que não vale nem a pena tentar refazê-la.
Estou acorrentada a Arsénio, que não me ama.
Ele seria capaz de fazer até a mulher menos exigente desgostar-se do casamento.
Tão galante e amável em sociedade, ele é rude, extravagante e abominável na vida íntima.
Botei a corda ao pescoço com este casamento.
Você deu, de facto, demonstração de rara sabedoria ao desposar um paralítico.
— Posso entrar sem perturbá-las, Madames?
As senhoras estão tratando de algum problema de estado? — perguntou, nesse momento, uma voz, enquanto a face sorridente de Nina Alexandrovna apareceu à porta entreaberta.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 9:24 pm

— Venha, venha e seja bem-vinda, mas por que razão você está aqui a essa hora da manhã? — perguntou Catarina.
— Por uma razão muito séria:
Emílio está doente e repousa em casa — respondeu Nina, instalando-se numa cadeira.
— Sua razão não parece muito importante, cara Nina, mas onde está seu marido? — observou Tâmara.
Madame Fluresco enrubesceu fortemente e franziu as sobrancelhas.
— Vejo que você me condena, Tâmara Nieolaevna.
Que quer você?
Nem todos têm a força de ser o dever personificado — respondeu ela com mal contida violência.
Mas você seria mais indulgente se soubesse como esse homem é insuportável, quando fica em casa, doente, sofrendo de suas dores de cabeça ou do reumatismo das pernas.
É um inferno e meu único recurso é fugir.
Agora reconheço que você tinha razão, ao tentar demover-me desse casamento e que eu estava loucamente teimosa, mas, pelo menos, deixo-o esbravejar sozinho.
Já me basta o esforço de fazê-lo acalmar-se, quando está embriagado e não tenho como escapar.
— Eu simplesmente me fecho, quando Arsénio está de mau humor e ele é suficientemente razoável, deixando-me dormir em paz, contentando-se em atormentar Basílio e Taranti, seus dois camareiros — disse Catarina, rindo.
Nina suspirou.
— Meu tesouro é menos acomodado.
Se não está meio embriagado, o que acontece com mais frequência quando volta de algum almoço ou jantar, começa a lamentar amargamente sua sorte miserável.
Depois me injuria, dizendo que tem uma mulher cheia de defeitos, sem coração, que o deixa sem dinheiro, não paga suas dívidas, não compartilha seus sofrimentos...
Suas lamentações terminam com a resolução de suicidar-se.
Então, ele sai procurando um revólver, mas, por um feliz acaso, nunca apanha um que esteja carregado...
Houve uma explosão de risos e uma vez serenada a hilaridade, Nina recomeçou com bom humor:
— De outras vezes, Emílio é menos trágico.
Tem então um ataque musical.
Como vocês sabem, ele tem uma bela voz e canta com gosto mas, nesses momentos, desafina que é um horror, com as suas intermináveis queixas, e eu tenho que acompanhá-lo.
— Você devia deixá-lo sozinho!
— Isso é fácil de dizer.
Ele é feroz e não me deixa dar um passo.
Mas, o que é mais triste é imaginar o futuro.
Às vezes, ele fica de tal maneira enfraquecido que, literalmente, não se aguenta das pernas e, então, toma injecções de morfina.
Por um breve espaço de tempo fica como que metamorfoseado, retoma sua alegria e vigor, mas, a longo prazo, não sei o que farei dele se esse envenenamento continua.
Tâmara observou, com espanto, que, ao ouvir essas palavras, Catarina enrubesceu como um camarão e mudou bruscamente de assunto.
— Quando você está pensando ir para o campo? — perguntou ela a Tâmara.
— Logo em seguida à Páscoa Magnus está sempre doente já há algum tempo e o médico espera que o ar puro o fará recuperar-se.
— A propósito, você sabe que eu vou ser sua vizinha, Tâmara Nicolaevna?
Estou negociando a aquisição de uma propriedade na Finlândia, que limita com a do Barão — exclamou Nina.
Observando que as duas amigas absorviam-se na discussão das belezas pitorescas e no conforto do castelo que a Princesa se propunha comprar, Catarina sugeriu que passassem ao salão, pois ela queria levantar-se.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 9:24 pm

— Catarina está com mau aspecto e parece esgotada! — observou Tâmara, já no aposento contíguo.
—— Dentro de meia hora ela estará connosco, fresca como uma rosa e alegre como um passarinho.
Não se admire, Baronesa.
Aqui entre nós: ela também toma injecções de morfina e está de tal maneira habituada que. sem esse veneno, a vida parece extinta nela.
— Mas que horror!
— Sim, mas não há o que consiga convencê-la do contrário.
Quando Madame Ugarine entrou, cerca de meia hora mais tarde, o brilho febril nos seus olhos e a brusca animação de seus gestos e de suas palavras não deixaram dúvida alguma em Tâmara sobre a verdade da confidência de Nina.
Oito dias após essa conversa, Catarina encontrava-se, de novo, e mais gravemente, indisposta.
Informado pelo médico de que a doença de sua mulher, ainda que dolorosa, não era grave, pois sofria de um abcesso na axila, Arsénio foi visitá-la.
Mas a face macilenta e desfeita, os cabelos desgrenhados e os surdos gemidos que ela deixava escapar, apoiada nos travesseiros, tudo aquilo
pareceu ao Príncipe tão pouco estético que ele se retirou mais depressa do que tinha vindo.
Até a sua própria casa parecia-lhe, então, odiosa e ele resolveu ir à casa de Magnus, ainda mais que era portador de uma notícia que sabia ser de interesse de Tâmara.
Ugarine foi levado a um pequeno gabinete contíguo ao quarto de dormir da Baronesa, onde seu primo conversava com o Almirante.
— Onde está Tâmara Nicolaevna? — perguntou ele, logo após os primeiros cumprimentos.
— Ela está indisposta em seu quarto, onde Madame Raban lhe faz companhia — respondeu Magnus.
— Nada perigoso, espero eu.
A Baronesa está de cama?
— Não. Ela resfriou-se no cemitério, onde ficou durante muito tempo a arrumar a sepultura de seu pai e há dois dias eu estava bastante preocupado com ela, mas hoje está bem, graças a Deus!
Só que está muito enfraquecida e o médico aconselhou-a a repousar e, por isso, está descansando no leito.
O Príncipe sentou-se com um ar distraído, tentando ouvir o que se passava no quarto contíguo.
Ouvindo o riso argentino de Tâmara, aproximou-se da porta e exclamou, através do cortinado:
— Saudações às senhoras!
— Bom dia, Arsénio Borissovitch — responderam alegremente.
— Não se pode cumprimentar a bela doente?
— Se Magnus permitir, porque não? — disse Tâmara, rindo.
— Você ouviu! — disse o Príncipe, voltando-se para o primo.
Recorro, pois, à sua complacência e solicito sua autorização para saudar a Baronesa e distraí-la um pouco, uma vez que você e o Almirante abandonaram-na!
Um sorriso de indefinível ironia errou pelos lábios do Barão.
— Vai, vai.
Sei que depois que você conheceu minha mulher, minha companhia perdeu todo o valor para você.
— Ora! Que insinuação!
Dar com uma das mãos e retirar com a outra não é nada bonito! — respondeu o Príncipe, desaparecendo atrás do cortinado.
Com estranha emoção, Arsénio penetrou no santuário íntimo da adorável moça pela qual, sem se dar conta, era cada vez mais perigoso o seu interesse.
Era um vasto aposento decorado de seda azul-safira, mobiliado com divãs e poltronas baixas, macias, convidativas ao repouso.
Sobre a penteadeira, toda decorada de rendas, via-se um grande espelho com moldura de prata, encimado pelo brasão entalhado dos Lilienstierna.
Os retratos de Ardatov e de Cederstedt adornavam as paredes.
Uma grande lâmpada com abajur branco estava sobre a mesa, de modo a não incomodar a doente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 9:25 pm

Uma doce luminosidade clareava os objectos mais próximos, mergulhando o resto do cómodo em misteriosa penumbra.
A moça estava estendida no leito, vestida com um amplo peignoir de cambraia, guarnecido de rendas, e recostada em almofadas bordadas.
Havia desfeito os cabelos, cujos cachos bem cuidados lhe caíam até os joelhos.
Arsénio aproximou-se vivamente e beijou a pequena mão que ela lhe estendeu.
Bastou-lhe um olhar para convencer-se de que Tâmara estava bem e que somente uma pontinha de febre acrescentava ainda um brilho diferente aos seus olhos.
Jamais a vira tão sedutora e seu coração batia violentamente quando, após saudar Madame Raban, instalou-se numa cadeira ao pé do leito, de onde podia contemplá-la à vontade.
Tâmara sentiu, mas do que viu, o olhar em fogo que ele fixara nela.
— Conte-me algo, primo, o senhor que está sempre bem informado sobre as novidades — disse a jovem para divertir-se de seu ligeiro mal-estar íntimo.
— Tenho, sim, uma novidade a contar-lhe, aliás, muito interessante, mas temo causar-lhe alguma emoção prejudicial.
— Bah! fale sempre, eu não sou impressionável.
— Na verdade, trata-se de uma pessoa pela qual a senhora nutre profundo rancor.
O ajudante-de-campo Polenov foi morto hoje de manhã em duelo.
— Misericórdia! — exclamou Tâmara surpreendida, a despeito de si mesma, enquanto Madame Raban deixava escapar um grito.
— Que horrores vem o senhor contar às senhoras, Príncipe, para fazê-las gritar desse modo? — perguntou, rindo, o Almirante.
— Padrinho, Magnus, venham cá e ouçam essa notícia inesperada — exclamou Tâmara.
Depois que todos se reuniram e que Arsénio repetiu que Natália Polenov enviuvara, Madame Raban desejou saber se eram conhecidas as causas do duelo.
— Publicamente, não — respondeu o Príncipe — mas eu posso dar-lhe, a respeito, informações perfeitamente autênticas.
No inverno passado, Polenov cortejava com muita assiduidade a senhorita Baeff, todos sabem, aquela loura espectacular que tanto sucesso fez em nosso baile à fantasia.
Pensava-se, mesmo, que eles estivessem noivos, mas a moça não era rica — tudo o que ela possuía estava investido em imóveis e somente se podia tocar no que eles rendessem.
Seja por isso, ou por . outra razão qualquer, nada se definiu e, no verão, a senhorita Baeff viajou para o exterior com a sua avó, que reside em Meran.
No outono, Polenov despediu-se e também partiu.
Sem dúvida, a bela jovem agradava-lhe bastante, pois ele foi ao encontro dela em Meran, acompanhou as duas damas a uma excursão ao Lago Maior e encontrou meios de seduzir a moça.
Após essa patifaria, ele regressou à Rússia e tratou de apressar seu casamento com Natália Antonovna, cuja fortuna era sólida e, o que era mais importante para ele, estava em disponibilidade.
Todos aqui sabem como ele se arranjou.
Tendo pago sua amante e suas dívidas, ele pensou encontrar-se em pleno paraíso.
Estava casado e, portanto, livre de qualquer compromisso anterior, mas a coisa saiu diferente.
Ao saber que seu sedutor desposara Natália Antonovna, a senhorita Baeff contou a verdade aos seus irmãos e estes, indignados pelo insulto, provocaram Polenov.
Haviam feito um acordo entre si de se baterem consecutivamente à medida que os primeiros tombassem mortos.
Polenov não podia recusar o duelo sem ficar estigmatizado como um covarde.
O duelo, por conseguinte, foi esta manhã.
Foi o irmão mais velho que, apesar de casado, bateu-se primeiro e, ainda que gravemente ferido, alojou sua bala no ventre do traidor.
O ferimento foi mortal; após duas horas de atroz sofrimento, Polenov expirou e o cadáver foi levado à sua mulher que, dizem, está como louca.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 9:25 pm

Quem me contou isso foi uma das testemunhas.
— Foi um covarde que recebeu o que mereceu — disse o Almirante.
— Ele, sim, mas a pobre Natália é de lamentar-se.
Ficar viúva três meses após o casamento, é horrível! — acrescentou a Baronesa de Raban.
Tâmara calou-se.
Na sua opinião, a conduta de Polenov era tão abominável, sob todos os aspectos, que seu coração orgulhoso se rebelava só de pensar que ela estava chorando por um marido que, algumas semanas antes do casamento, seduzira e abandonara outra mulher.
De outro lado, porém, seu coração era bastante generoso para não sentir profunda compaixão pela sua antiga companheira de colégio.
Apesar do desentendimento que tiveram, ela mantivera amistosas relações com a velha Madame Zarubine e resolveu enviar às duas senhoras uma carta de pêsames.
A avó respondeu logo, rogando-lhe que não guardasse nenhum rancor de Natália, apesar da desaprovação ao que havia testemunhado.
“Ela se sente tão infeliz e tão desesperada, que estou sem saber o que fazer” — dizia a velha dama, no final da carta.
Na véspera do enterro, Tâmara compareceu à casa mortuária.
Sabedora do temperamento exaltado de Natália e de sua absoluta ausência de dignidade, ela já esperava extravagâncias, mas o que viu ultrapassou todas as expectativas.
Já ao entrar no salão, no meio do qual se encontrava o caixão, ela ouviu os gritos, os soluços entremeados de verdadeiros urros.
A moça estremeceu:
seria possível que Natália fizesse tamanha algazarra?
Tomada de repugnância, ela se deteve e desejou orar pelo morto, cuja face crispada parecia conservar um reflexo dos sofrimentos de seus últimos momentos.
Mal fizera o sinal da cruz, quando a porta abriu-se bruscamente e Natália, perdida em nuvens de crepe e seguida de duas velhas senhoras de aspecto choroso, atirou-se ao caixão.
Debruçando-se sobre o morto começou a chamá-lo pelos nomes mais temos.
Em seguida, como que presa de mal-estar, ela se abateu sobre os degraus do estrado.
As duas velhas, que eram parentes pobres, esposas de modestos servidores, levantaram-na e, sustentando-a nos braços, levaram-na de volta à sala contígua.
— Que Deus me perdoe de condenar o próximo — pensou Tâmara, acompanhando a triste procissão para ir ao encontro de Madame Zarubine — mas um excesso de desespero como este, por um marido morto pelos motivos que foi, é, certamente, tão ridículo como fora de propósito.
Toda desfeita e lacrimosa, à velha dama apertou a mão de Tâmara.
— Veja — disse ela, chorando.
Há três dias que é isso, de manhã à noite.
Sempre que quer vê-lo, ela se solta das mãos das minhas pobres primas e é preciso acompanhá-la à sala.
Lá chegando, porém, não pode suportar a contemplação do defunto e sofre uma crise histérica e nada se pode fazer para acalmá-la.
Nem mesmo durante a noite, não há um minuto de repouso.
Desde que esse golpe não a mate, ainda bem!
— Não, não.
Não tenha receio disso, Olga Petrovna.
Dores violentas assim esgotam-se rapidamente.
Esteja certa de que Natália vai acalmar-se e tornar-se razoável.
Deixe apenas que as tristes cerimónias se encerrem.
Enquanto as senhoras conversavam, chegou o sacerdote para a missa de corpo presente e todos se acercaram.
Ao regressar à sala maior, Tâmara notou entre os presentes Ugarine, Fluresco e Pfauenberg.
Este último colocou-se ao lado da inconsolável viúva, precipitando-se para apanhar um copo d’água ou apresentando-lhe o frasco de sais sempre que ela perdia os sentidos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 8:37 pm

Com a mais afectuosa compaixão, ele a sustinha, quando Natália desfalecia em seus braços, e a conduzia, acompanhado por algumas senhoras.
— Veja que tocante devotamento! — murmurou Arsénio, inclinando-se para Tâmara, junto da qual se instalara, bem como Fluresco.
Começo a crer que Pfauenberg deseja consolar Natália Antonovna e herdar o que restar dos 50 mil rublos, a mansão em Peterhoff e a propriedade perto de Poltava, que o pobre do Polenov teve de abandonar tão inesperadamente.
— É bem possível, pois uma viúva tão desesperada é algo raro em nossos dias e o bom Eitel Franzovitch deve sentir-se tentado a ser chorado um dia da mesma maneira.
Dizem que ele sofre de uma lesão interna — retrucou Tâmara também em voz baixa.
E um clarão de zombaria iluminou seus olhos.
— Ah, muita coisa dizem do pobre Eitel.
Ainda há pouco, surpreendi a conversa de duas velhas gordas ali à esquerda dos cantores.
Pois bem, elas lamentavam a morte de Polenov, um homem tão belo, mesmo no caixão, e acusavam a sorte injusta que não ajudara aquele desventurado como protegera a Pfauenberg em situação semelhante.
Segundo aquelas senhoras, Pfauenberg provocara um pai ofendido, cuja filha ele cortejara e abandonara.
No entanto, o duelo foi impedido pelas autoridades.
"Foram os espíritos que avisaram o comandante e foi por amor ao protegido deles que não houve duelo — pois Eitel Franzovitch é um grande espírita e pode evocar os médiuns à vontade".
Foi esse o comentário daquela boa alma, com uma convicção tão profunda quanto pouco esclarecida.
A Baronesa dominou, com esforço, a sua vontade de rir.
— Cale-se, Príncipe.
O senhor me induz a cair em tentação.
Em vez de contar essas bobagens, melhor seria se orasse comigo por esse pobre morto, cuja alma deve estar bastante atormentada.
Duas semanas mais tarde, Tâmara e o marido deixaram Petersburgo para passarem algum tempo na propriedade da Finlândia, onde retomaram aquela vida calma de que ambos tanto gostavam, com os longos passeios na charrete conduzida por Magnus.
Apenas alguns hóspedes movimentavam ocasionalmente aquela solidão, pois os vizinhos raramente eram vistos.
A princípio, Nina e o marido vieram visitar a nova propriedade que haviam adquirido e ali passaram alguns dias.
Em seguida, chegou o Almirante e, mais tarde, Madame Raban, que antes de partirem, um para Vichy e a outra para Gostein, ficaram alguns dias com os amigos.
Nos primeiros dias de agosto, a quietude foi perturbada por uma grave doença de Magnus.
A saúde do jovem, sempre vacilante nos últimos meses de inverno, parecia consolidar-se no ambiente campestre, mas, depois, sem causa aparente, a doença que se escondia nele manifestou-se com violência.
O médico chamado declarou que o Barão sofria de uma febre nervosa das mais perigosas, cujo prognóstico era-lhe impossível pronunciar.
Tâmara velava o marido, com absoluto devotamento, não deixando sua cabeceira, lutando desesperadamente contra a morte, que queria arrebatá-lo.
Jamais fora mais viva e mais profunda sua afeição por Magnus do que durante aquelas horas cruéis, quando ela julgava perdê-lo para sempre.
Os melhores médicos da capital foram chamados, mas, apesar dos tratamentos mais enérgicos, o estado do doente não melhorava e sua fraqueza, sempre crescente, pressagiava um fim fatal.
Já há quinze dias o Barão estava doente, quando Ugarine, vindo à cidade, soube da notícia por um dos médicos que, juntamente com alguns colegas, havia sido chamado à Finlândia por Tâmara.
O Príncipe resolveu visitar logo seu primo.
Ele não percebia que, maior do que seu interesse por Magnus, era o desejo de rever Tâmara, para a qual arrastava um sentimento cada vez mais poderoso.
Foi o que lhe inspirou a decisão de ir.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 8:37 pm

Seriam umas sete horas da manhã quando ele chegou à estação, onde devia desembarcar e, à falta de condução, que não lhe fora enviada, pois ignorava-se sua vinda, alugou uma das pequenas carruagens locais e chegou cedo à mansão, silenciosa como se estivesse abandonada.
Um servo introduziu o Príncipe no salão, onde encontrou Frederico, o camareiro que levava uma bandeja carregada de frascos de remédios e um prato cheio de gelo.
— Ah, senhor Príncipe, a coisa vai mal! — disse o fiel servidor com lágrimas aos olhos.
Mas o doutor falou que hoje algo deve decidir-se e que, sem dúvida, o Barão voltará a si.
— Onde está a Baronesa?
— Ela está lá no quarto com a irmã de caridade.
Queira seguir-me, Alteza.
Quando Arsénio levantou o cortinado do quarto de dormir, a obscuridade impediu-lhe, a princípio, de ver algo, mas a irmã de caridade, que preparava algumas compressas', notou sua presença e, aproximando-se, disse-lhe:
— A Baronesa está cochilando.
Ela está no limite de suas forças.
Nesse momento o Príncipe percebeu uma sombra esbranquiçada estendida com a cabeça pendida numa grande poltrona, junto à cabeceira do leito.
À luz de uma lamparina, que lhe iluminava fracamente o rosto, reconheceu Tâmara.
Como que despertada pelo olhar que a fixava, a moça abriu os olhos e, reconhecendo o Príncipe, levantou-se logo e veio apertar-lhe a mão.
— Obrigado por ter vindo, primo, mas vamos ali para a varanda.
Aqui não se pode conversar, porque ele está dormindo e, além disso, essa escuridão é tão penosa Caminhando à frente dele, ela o conduziu para o vasto terraço coberto por uma lona listrada e sentou-se numa cadeira de balanço, de junco, convidando-o a fazer o mesmo.
O Príncipe declarou que descansara durante a noite inteira e ficou apoiado ao balaústre.
Falaram da doença e, ao informar como era precário o estado de saúde de Magnus, um véu húmido sombreou os olhos de Tâmara e algumas lágrimas desceram pelas suas faces pálidas.
A luz do dia, podia-se ver como estava esgotada e emagrecida.
Com um gesto fatigado, ela descansou a cabeça no espaldar da cadeira e ficou a pensar, com os olhos perdidos no vazio.
O Príncipe a olhava, agitado pelas mais diversas emoções.
Perplexo e despeitado, ele se perguntava se Tâmara amava realmente aquele paralítico, do qual trazia o sobrenome, ou se apenas um exagerado sentimento de dever a mantinha presa tão fielmente à sua cabeceira e a fazia chorar ante o mero pensamento de perdê-lo.
Aquela frágil e diáfana criatura, de rosto ainda algo infantil, cujo corpo de sílfide se desenhava sob as dobras do pegnoir, estaria isenta das fraquezas próprias de sua condição de mulher?
Será que ela não percebia a paixão que inspirava nele, o perigoso dominador de corações femininos, o sedutor consumado, que jamais encontrara resistência quando desejava triunfar?
Que era adulado, procurado pelas mulheres que buscavam suas boas graças?
E aqui, um paralítico, um fantasma masculino, era seu rival e ele não conseguia vencê-lo!
E que inexplicável sentimento a mantinha a ele como que pregado àquela balaustrada, reservado e silencioso?
Teria preferido, cem vezes, um entendimento pessoal e inesperado com a mulher que o fascinava, para dizer-lhe do seu amor ou, com a mão ousada, atraí-la a seus braços.
Ali, no entanto, um abismo parecia separá-lo daquela que ele poderia, contudo, alcançar simplesmente estendendo a mão.
É que, sem se dar conta, ele temia o olhar límpido e severo da moça, que parecia ler até os mais profundos refolhos da sua alma, que tinha horror ao vício e era honesta até às profundezas de seu coração.
Estava intimamente convencido de que à menor temeridade que ele se arriscasse a praticar, seria expulso do paraíso e seu bom relacionamento com Tâmara estaria destruído.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 8:37 pm

— Por que o senhor me olha tanto, primo? — perguntou ela subitamente.
— Vejo com pesar que a senhora tem uma aparência doentia.
A senhora se fatiga demais — respondeu ele, desviando o olhar.
— É verdade, estou muito cansada por causa das vigílias.
Mas, não quer fazer sua refeição matinal, primo?
A viagem deve ter-lhe despertado o apetite e eu também, creio, já há dois dias nada como.
O senhor me faria companhia.
Ela levantou-se e, tendo expedido as ordens necessárias, pediu licença para ver como estava o doente.
Arsénio seguiu-a com um demorado olhar, depois ficou a caminhar de um lado para outro no aposento.
Se Magnus morresse — e isso era provável — aquela fascinante mulher ficaria livre.
Ah! então, ele tentaria tudo para conquistá-la.
Iria divorciar-se de Catarina e, desembaraçado dela, reconquistaria o coração que batera por ele, nas emoções do primeiro amor.
Mas será que Tâmara o aceitaria, após o escândalo do divórcio?
Ele conhecia seus escrúpulos e sua exagerada delicadeza.
Furioso e despeitado, ante esse pensamento, estacou em frente à janela e, com um gesto nervoso, arrancou alguns cravos que desabrochavam num vaso de cristal.
— Por que é tão severo, Arsénio Borissovitch, e o que lhe fizeram minhas pobres flores para que o senhor as decapite dessa maneira? — perguntou, nesse momento, Tâmara, com ligeira ironia.
— É porque elas desabrocham com uma satisfação tão impertinente no vaso de água, enquanto a mim faltam tantas coisas que desejo — respondeu o Príncipe, a rir.
Tomaram seus lugares à mesa e Tâmara serviu o visitante de patê e vinho.
Quanto a ela, comeu com esforço um pouco de galinha fria.
O Príncipe não tirava os olhos dela.
Seu temperamento indisciplinado levava-o a romper aquela contrariedade insuportável para dar livre curso ao sentimento que excitava todos os seus sentidos.
Quando Tâmara passou-lhe alguma coisa, ele reteve sua mão na sua e a levou aos lábios.
A moça fitou-o, perplexa, e enrubesceu ante o seu olhar.
Um duro e penetrante brilho escapou de seus olhos.
E, contudo, não tentou recolher a mão que Arsénio retinha.
Limitou-se a chamar com a voz um tanto velada:
— Antoine!
O criado, ocupado junto ao bufê, voltou-se prontamente.
— Um copo d'água para o Príncipe!
Ugarine deixou bruscamente a mão dela.
Suas palavras agiram sobre ele como uma ducha fria.
— Obrigado, Baronesa, mas não tenho sede — disse ele, irritado.
— É mesmo verdade que o senhor não tem sede?
Então o senhor está, certamente, muito encalorado — respondeu a moça tranquilamente.
O Príncipe inclinou-se para ela, com os olhos faiscantes:
— Sua atitude não é racional, Baronesa.
O frio muito intenso causa queimaduras tanto quanto o fogo, e a senhora tem à sua disposição tal geleira que essa água que a senhora me prescreveu me parecerá morna.
Ele tomou o copo d’água que o criado lhe apresentava e bebeu alguns goles.
Estabelecera-se entre eles um longo silêncio, mas quando a Baronesa apresentou ao seu hóspede uma xícara de chá, o Príncipe novamente inclinou-se para ela e disse:
— A senhora está aborrecida comigo e vai me exilar, eu o sinto...
A moça sacudiu a cabeça com um sorriso melancólico.
— Não, por quê? Fique.
Se Magnus voltar a si, há-de sentir-se feliz em vê-lo.
Não se esqueça, contudo, de que se encontra em casa de um parente que luta contra a morte.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 8:37 pm

Terminada a refeição, Tâmara levantou-se.
— Devo retomar para junto de meu doente e o senhor, primo, sem dúvida, está cansado.
Seu aposento deve estar pronto. Até logo.
Ao aproximar-se da porta, contudo, ela sentiu-se subitamente mal e cambaleou, levando a mão à testa.
O Príncipe lançou-se em sua direcção e a susteve, mas ela estremeceu àquele contacto e empertigou-se com esforço.
Tâmara não queria, de forma alguma, desmaiar nos braços do Príncipe, cujos sentimentos eram óbvios:
com o olhar velado, ela procurou o botão da campainha eléctrica e apertou-o.
Logo acorreram Fanny e um criado, enquanto o Príncipe, sombrio e de semblante carregado, ajudou a camareira a transportar a moça desmaiada aos seus aposentos.
Já no seu apartamento, o Príncipe despediu o camareiro e, fervendo de irritação, atirou-se a um divã.
“Não se pode conquistar essa mulher porque ela não deseja ser conquistada.
Mas será que não existe algum meio de quebrar-lhe a resistência, perigosa criatura?” — murmurou com raiva.
Ele era tão depravado, que nem mesmo chegava a entender tudo o que havia de abominável no seu desejo de seduzir a mulher de um moribundo e somente sentia uma coisa:
uma resistência que jamais encontrara em mulher alguma e que o excitava até à loucura.
Ainda que Tâmara fosse uma hipócrita rude ou uma dessas inabordáveis beldades, cuja majestosa presunção faz prever uma derrota!
Mas nela tudo o atraía: desde sua saudável e provocante beleza, até seu espírito cáustico, amável, sempre pronto à réplica.
No entanto, cuidado quem se deixasse prender ali!
As palavras que Magnus lhe dissera um dia volveram à sua mente:
“São os princípios de uma mulher e não os olhos do marido que velam sobre sua honra”.
O Barão tinha razão.
O áspero orgulho de Tâmara era sua fiel sentinela, tanto na pobreza como na riqueza.
Ela sentia por Magnus uma afeição toda especial.
O nome que ele lhe confiara representava, aos seus olhos, um mandato de honra, que ela não trairia por preço algum.
Além disso, bem no fundo de seu coração, ela conservava muito do gelado desprezo que cultivara durante os anos de desventura.
Por isso, sentia pelos homens uma profunda sensação de desconfiança.
O mau humor do Príncipe era tão forte, que lhe causou dor de cabeça.
Além disso, ao saber que Tâmara, ao recuperar-se do desmaio, tivera que recolher-se ao leito, por ordens médicas, ele mandou servir sua refeição ali mesmo no seu aposento e, em seguida, deitou-se e adormeceu.
Eram cerca de oito horas quando despertou.
A noite estava soberba e, desejoso de respirar o ar fresco, o Príncipe desceu ao jardim.
Estava tudo deserto e silencioso e a escuridão descia rapidamente, mas o ar tépido e perfumado convidava a uma caminhada.
Com as mãos cruzadas atrás das costas, Arsénio caminhava lentamente, seguindo por uma das alamedas que ficava ao longo da casa, quando subitamente estremeceu e estacou: acabara de ouvir a voz de Tâmara.
Estava diante de duas janelas totalmente abertas, mas veladas pelas cortinas descidas, através das quais filtrava-se um raio de luz.
— É o quarto de Magnus e ela já voltou para junto dele — pensou o Príncipe.
E, movido por uma curiosidade mesclada de despeito, deslizou até à janela e, subindo à cimalha, ampliou, com todo o cuidado a abertura da cortina e espiou para dentro.
Uma lâmpada velada por um abajur alumiava suficientemente o aposento. Sentada à beira do leito, Tâmara mudava uma compressa na testa do marido.
— A febre diminuiu, graças a Deus!
E a fraqueza é consequência natural da enfermidade. Um pouco mais de coragem e tudo estará bem — disse a moça em tom encorajador.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 8:38 pm

— Será a vontade de Deus e a sua afeição que me tomarão doce a morte — respondeu ele fracamente.
— Quem está aqui falando de morrer?
Que farei eu sem você?
Minha vida se tornaria vazia, sem objectivo — disse a jovem esposa agoniada.
— Você está se esgotando completamente, minha pobre Tâmara, para conservar uma existência que não passa de um fardo para mim e para você.
Seu generoso sacrifício já durou demais.
— Magnus, como pode você me afligir dessa maneira e falar de sacrifício, quando somente o amor me guia!
Eu sei que a sua existência é bem penosa, mas continue a viver por mim.
Nós a levaremos juntos, tal como ela é.
Sua voz perdeu-se nas lágrimas, mas, recuperando-se subitamente, ela ajunto com energia:
— Não quero que você morra e ; se a vontade humana é tão poderosa como dizem as ciências ocultas, eu prenderei você à terra por laços inquebrantáveis.
Ela curvou-se sobre ele e o abraçou.
— Eu ficarei de boa vontade, prenda-me, se você puder - murmurou o doente com indefinível expressão de amor e de gratidão, mas tão fracamente que Arsénio, com dificuldade, conseguiu captar-lhe as palavras.
Já ouvira, contudo, o suficiente.
Com o sobrolho carregado, deixou o seu posto de observação e enveredou por uma das alamedas do jardim.
Certamente, Tâmara não poderia ter previsto que ele estava ouvindo sua conversa com Magnus.
Seu apego a este era, então, autêntico e seu desventurado primo era mais rico, mais feliz e mais amado do que ele, o belo e brilhante cavalheiro.
A riqueza e os prazeres que ele considerava como os únicos objectivos da sua vida não lhe proporcionavam, afinal de contas, nada mais do que a saciedade e o vazio de coração.
Atormentado por uma áspera crise de ciúmes, ele se atirou a um banco e cobriu os olhos com as mãos.
A cólera e o pesar lutavam nele.
Aquela felicidade, que ora ele invejava em Magnus, teria sido sua com o simples gesto de estender a mão, mas, enceguecido pela presunção e pela ganância, havia passado ao lado do tesouro que a sorte lhe oferecia sem havê-lo notado.
Literalmente um tesouro, sim, pois a riqueza teria chegado bem depressa para recompensar seu desinteresse.
Mas continuara obstinadamente cego e agora cabia-lhe arrastar por toda a parte a bola de ferro que voluntariamente escolhera, viver naquela atmosfera de indiferença e de vício, abandonado em sua própria casa aos criados, se algum dia caísse doente, pois, certamente, Catarina não se faria o sacrifício de velar junto dele.
Longo tempo passou ele a revolver esses tormentosos pensamentos.
Eram já onze horas, quando o Príncipe retornou pretendendo subir directamente para os seus aposentos, mas um criado informou-lhe que a Baronesa estava tomando chá com o médico e havia mandado preveni-lo, logo que entrasse, que estava à sua espera.
Encontrou a jovem no melhor humor.
O médico declarara que o sono tranquilo no qual recaíra o doente, bem como a ausência de febre, eram sinais certos de uma reacção favorável.
Conversaram alegremente e mesmo Arsénio acabou se descontraindo pouco a pouco, pois lhe era irresistível o sorriso de Tâmara e suas travessas brincadeiras.
No dia seguinte, após uma entrevista com o primo, muito reconhecido de sua visita, o Príncipe partiu de volta a Petersburgo.
Quanto à convalescença de Magnus, foi rápida.
Como se aquela sacudidela tivesse reagido de maneira positiva sobre o organismo do jovem, ele parecia haver-se tornado mais robusto e mais sadio e, em meados de outubro, os esposos retornaram à cidade.
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