Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 8:38 pm

24 Otelo — Outra personagem de Shakespeare no drama do mesmo nome, em cinco actos.
Como general mouro (árabe) a serviço do Governo de Veneza, é a própria personificação do ciúme, assassinando Desdémona, sua amada, por sufocação, numa das suas crises, sob a instigação do terrível lago.


25 Tântalo — Rei da Lídia, segundo a mitologia grega.
Tendo recebido visita dos deuses, fez-lhes servir a carne do seu próprio filho, Pelópidas.
Como castigo, Zeus precipitou-o no Tártaro (Inferno), onde ficou condenado, para sempre, à sede e à fome.


26 Bratuchka — Forma popular, fraterna, que provém do termo brat (irmão).
Seu significado é algo parecido com “irmãozinho”, sendo empregada não com relação a parentes, mas com estranhos.
A distância no tempo e as grandes transformações sociais e culturais por que passou a Rússia dificultam a pesquisa, mas tudo leva a crer que seu uso tenha sido bem mais generalizado na Marinha.
Provavelmente, Rochester se refere aos últimos escalões da hierarquia naval.
Tal palavra está hoje totalmente em desuso.


27 Revue des Deux Mondes — Revista enciclopédica de tendências literárias, surgida na França em 1829, e que circulou até 1944, quando foi sucedida pela Revue:
literature, histoire, arts et sciences des deux mondes publicada até 1948.
Grandes vultos da literatura francesa, como Eriiest Renan, foram seus colaboradores.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 8:38 pm

Casamento em crise

Alguns dias depois da chegada, Tâmara soube por intermédio de Catarina que Nadina regressara e, após alguns dias de negociações, fora readmitida ao lar conjugal.
— Meus Deus! com que cara ela reapareceu perante Kulibine? — observara a moça.
— Ela não poderia estar muito orgulhosa, após todos aqueles contratempos no exterior — disse a Princesa rindo.
Ainda bem que Kulibine é um bom sujeito.
Parece, no entanto, que ele lhe impôs algumas condições.
— Que ela não vai cumprir...
— Certamente. Tão logo reassuma sua posição na sociedade...
No momento ela aceita tudo de cabeça baixa.
— Como foi, então, que terminou o caso com Rougemont?
— Quando ela chegou a Paris, o Conde acabara de partir para a Normandia, onde o casamento seria celebrado.
Ela foi atrás dele, mas até conseguir reunir todas as informações necessárias e saber do nome da propriedade do avô, ela perdeu três dias, fora o da viagem.
Quando chegou lá, o casamento acabara de realizar-se e a carruagem que a conduziu cruzou com a que transportava o jovem casal à estação para a viagem de núpcias.
Nadina desmaiou de raiva, mas acabou compreendendo que tinha pouca chance de sucesso, mesmo que continuasse a perseguição.
Teria voltado logo para aqui, se no trem em que viajou não ficasse conhecendo um jovem americano extremamente sedutor.
De que maneira esse encontro fortuito virou amor?
Não sei. Sei que eles viajaram juntos para Mónaco, onde o americano ganhou muito dinheiro no jogo.
Após uma festança que durou alguns meses, contudo, descobriu-se que ele era um aventureiro da pior espécie.
Foi acusado de trapaça e preso.
Nadina escapou por um triz da mesma sorte, somente graças à interferência do cônsul da Rússia, a quem ela recorreu.
Deixaram-na em paz e foi ainda o cônsul que lhe proporcionou condições para que voltasse para cá.
— Uma conduta tão leviana e inconsequente certamente teria merecido a prisão — exclamou Tâmara encolerizada.
Alguns dias mais tarde, ao ajudar a patroa a trocar de roupa, Fanny contou, de sua parte, que havia estado com a pequena Lisa e sua babá e que esta última lhe dissera que Madame voltou coberta de vergonha.
Que Monsieur se tornara muito severo e não lhe permitia mais sair tanto como antes.
Além disso, Nadina chorava muito ultimamente, pois ao fazer certas visitas, não fora recebida e apenas se comunicavam com ela por meio de cartas.
— Mas isso não é nada:
se eu tivesse coragem de contar o que se passou em casa da Princesa Fluresco, a Senhora Baronesa ficaria bem admirada — ajuntou Fanny muito afobada.
— Conta as grandes notícias - disse Tâmara, rindo.
Mas como é que você sabe do que se passa em casa de Nina Alexandrovna?
— É por causa de Macha, a irmã de Frederico, que é camareira da Princesa.
Somos amigas e ela me conta tudo.
Ah, muitas coisas acontecem ali que desagradam Macha, que é uma moça honesta.
Já há muito tempo ela teria pedido suas contas para ir embora, ainda mais que Madame é muito exigente e colérica, mas o ordenado é excelente e ela ganha presentes magníficos e, por isso, vai ficando.
— No entanto, Macha contou-lhe algo muito particular.
Eu acho, e a Senhora Baronesa vai ficar chocada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 8:38 pm

Primeiro, no fim do inverno, a Princesa ficou muito interessada num médico judeu, o senhor Windelbaum, que tratou dela.
Depois, foi um belo homem, um sábio!
Mas, durante sua temporada no campo, Madame ficou apaixonada por um actor que trabalhava no teatrinho de verão, cantando romanças e representando nas operetas.
Diziam que era francês, mas Macha pensa que ele era antes um boémio, um miserável homenzinho, moreno como um pão de mel, e ninguém entendeu o que havia nele para agradar a Princesa.
Pois bem, primeiro, ela corria a todas as representações em que ele figurava.
Mas, depois, o senhor Gastini veio visitar a Princesa e cear com ela.
— Que me diz, Fanny?
O actor foi cear e o Príncipe permitiu?
— Ele vinha sempre que o Príncipe estava ausente, o que é muito comum e por toda a noite, graças a Deus, porque quando ele fica em casa, Macha diz que é horrível — ele é intratável!
E depois, se ele estiver embriagado, é o fim do mundo — faz uma barulhada enorme, um verdadeiro escândalo e, às vezes, vomita sobre os móveis e nos tapetes.
— Arre! guarda para você mesma detalhes como esse — observou Tâmara com desgosto.
— Pois bem, naquele dia o Príncipe partira para uma excursão com alguns amigos e só deveria regressar no dia seguinte.
Ali pelas onze horas da noite, o cantor chegou e ficou com Madame no seu quarto de vestir.
“Eu estava com Bárbara, no guarda-roupa, contou-me Macha.
Depois me lembrei que faltava costurar de novo umas fitas no pegnoir da Princesa e fui ao quarto de dormir dela para procurá-lo...
Eu acabara de descosturar a peça de roupa na alcova, quando ouvi um ligeiro ruído.
Virei-me e fiquei como que petrificada:
vi o Príncipe passar pela porta entreaberta do quarto de vestir e, em seguida, fechá-la a chave, por fora.
Sem dúvida, ele não me vira, pois eu estava no fundo da alcova.
Dois minutos mais tarde, o senhor Gastini, pálido e desfeito, entrou apressadamente no quarto de dormir.
Ao encontrar fechada a porta do quarto de vestir, ele correu para a alcova e escondeu-se atrás da cama.
Eu o cobri com um tapete e depois, como ficara presa ali, deslizei até à porta do vestiário e dei uma espiada pela abertura do cortinado”.
Macha viu, então, o Príncipe sentado junto à escrivaninha de Madame, com as pernas cruzadas e sobre elas uma chibata atravessada.
Dessa vez ele não estava embriagado, mas seu olhar era tão duro e mau, que Macha sentiu um frio na espinha.
E sem dúvida a Princesa também se mostrava apavorada, pois tinha o rosto verde de tão lívido.
— Voltei num momento inoportuno, não é? — perguntou ele zombeteiro.
Pelo menos não me incomodei em vão.
Seu amante, o actor Gastini, está escondido no quarto ao lado.
Não tente negar: olhe o chapéu do patife!
E, com um golpe de chibata, atirou o chapéu da cadeira ao assoalho.
— Agora, vou açoitar o rato dos bastidores no seu esconderijo e dirigir-lhe a mais brilhante retirada de palco que ele jamais tenha conseguido.
Em seguida, é com você que irei conversar.
— Você não ousará me bater.
Irei à justiça se você me maltratar!
— Perfeitamente, você apelará mais tarde a quem quiser, mas, do que tem a receber, ninguém a livrará.
Ah, agora você tem medo, você treme.
(E aqui ele disse um palavrão que não posso repetir).
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 8:39 pm

Pois bem, vou oferecer-lhe uma porta de salvação:
assina já um cheque de vinte mil rublos de que estou precisando e eu apenas cuspirei em você.
Permito-lhe a escolha, o cheque ou a chibata e dou-lhe cinco minutos para pensar.
“A Princesa — disse Macha — deu um pulo só à sua escrivaninha, arrancou da gaveta o talão de cheques, escreveu algumas palavras num deles e estendeu-o ao Príncipe.
Ele apanhou-o, leu-o atentamente e disse:
“Este cheque não está nada elegante; tem muitos borrões de tinta, mas é melhor ter manchas do que estar em branco, não é isso, Senhora Princesa?
E agora, estamos entendidos:
cada vez que encontrar um de seus amantes na minha casa, vou castigá-la na bolsa ou vou espancá-la como a senhora merece.
A escolha é sua.
“Em seguida, colocou o cheque na carteira e saiu, cantarolando uma cançoneta...
Quanto ao senhor Gastini, ele estava tão apavorado, que escapou logo que resolveu deixar o esconderijo e não houve jeito de a Princesa retê-lo”.
Tâmara não fez comentário algum e, com um sinal, ordenou a Fanny que se retirasse.
O simples relato da camareira, com o seu inimitável toque de verdade, causara-lhe profunda e penosa emoção.
Que repugnante vida íntima acabara de revelar-se aos seus olhos!
Ela recordou-se do escândalo em casa de Catarina e estremeceu: assim eram, na intimidade, aqueles brilhantes heróis de salão!
Ela morreria de desgosto ou fugiria se tivesse que experimentar a convivência com um homem embriagado e brutal e, no entanto, como estivera à beira de um abismo daqueles!
Se a sorte não lhe tivesse bruscamente quebrado o encanto de seu coração ingénuo a respeito de Arsénio, cega e apaixonada, ela teria considerado uma felicidade tornar-se esposa dele e que horrenda decepção teria sido a sua!
Todos os instintos delicados da moça se rebelavam à ideia do que ela teria que suportar e, com um suspiro de alívio, agradeceu a Providência Divina por haver-lhe preservado do envolvimento com um dos jovens que lhe haviam proposto casamento e haver-lhe inspirado escolher Magnus, o bom e delicado, que jamais lhe causara o menor desagrado.
Sim, era feliz por haver seguido apenas a voz do coração, de estar à margem daquele mundo perverso pela força mesma de suas convicções.
Mas, apesar disso, o que acabara de ouvir a agitava e somente algumas horas mais tarde ela acabou adormecendo.
No dia seguinte, Tâmara estava no seu atelier com o marido, quando chegou o Príncipe.
Apesar da prudente reserva da moça e do copo d'água gelada que ela lhe fizera servir tão oportunamente, Ugarine continuava a ser um visitante cada vez mais assíduo.
Invencível fascinação o atraía ao círculo mágico daquela calma interior.
As mulheres ousadas e voluptuosas que o provocavam e disputavam seu amor se haviam tomado insípidas para ele.
Nenhuma delas despertava nele aquele sentimento embriagador, mesclado de paixão e de ciúme, que fazia bater seu coração na presença de Tâmara.
Ela o agradava muito, particularmente quando, enrodilhada em seu divã com Biju, no abandono confortável que se permitia na intimidade, dava livre curso à sua verve aguda, enquanto seus grandes olhos sorridentes fitavam os interlocutores com um encanto tão encorajador, que Arsénio se absorvia na sua contemplação, como que em transe e a ponto de arriscar uma confissão de amor.
Dominava-se com esforço.
Ele sabia muito bem que aqueles olhos fascinadores eram um atoleiro traidor e que pareciam prometer o céu, mas proporcionavam apenas um pouco de água fria.
— A senhora é como Circe28 - disse-lhe ele uma noite.
— Ah, não, primo, - respondeu Tâmara com um fino sorriso.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 8:39 pm

Falta-me o dom precioso de Circe:
o poder de transformar em quadrúpedes agradáveis e úteis os homens frívolos e libertinos que se encontram por toda a parte.
Tomado de surpresa, o Príncipe fixara nela um olhar faiscante.
— Esteja certa, prima, de que possui realmente o dom de Circe.
A senhora deixa bem claro aos imprudentes que a admiram a semelhança deles com os gentis animais que considera úteis.
Ah, a senhora tem um verdadeiro talento para surpreender as fraquezas do próximo e as ridiculariza com refinada crueldade.
Quanto a mim, conheço bem, pelas nuances e pela expressão toda especial dos seus olhos, que a senhora percebe a ausência da couraça (minha ou de um outro) e, com a machadinha fatal, cai sobre os desventurados!
As sereias também se parecem com a senhora: atraem o imprudente com os seus encantos fascinadores para destruí-los em seguida.
— Ora, ora! Acalme-se, primo.
O senhor é que está me perseguindo e me acusa injustamente e com raro exagero.
Ainda que eu fosse uma sereia, ainda não fiz vítima alguma.
Neste século prático em que vivemos, o ofício de sereia não pode ser exercido por uma mulher honesta, pois ela despreza o jogo frívolo e é inacessível às paixões vulgares.
Ela não inspira esse tipo de paixão.
Em todos os dramas que se desenrolam em nossos dias na vida desses homens que se arruínam, suicidam ou descem até o último degrau da escala social, é a cortesã que vamos encontrar, ser abjecto que se nutre da ruína moral e física, verdadeiro engenho destruidor que passa como um meteoro para extinguir-se na lama de onde provém.
É nessa categoria de mulheres que é preciso procurar as sereias contemporâneas.
Quanto a mim, sou apenas um inocente fogo-fátuo que assusta o viajante retardatário, mas extingue-se sem lhe causar dano.
Apesar das escaramuças desse género, Arsénio voltava sempre, e algo parecia faltar-lhe se ele não visse Tâmara.
No dia em que ele a encontrou no atelier, estava com um bom humor excepcional.
Entregou à moça uma bela caixa de bombons, preço de uma aposta que perdera, e sentou-se em frente dela, junto à grande janela que iluminava o atelier.
— Ali vai Nina Alexandrovna na sua carruagem com um senhor em trajes civis.
Quem será? — perguntou Tâmara que havia olhado pela janela.
— É o doutor Windelbaum e me admiro de que Emílio FelixoVitch permita à sua mulher arrastar esse cavalheiro por toda a parte tão ostensivamente.
Se não por ciúme, pelo menos para proteger sua honra, ele deveria proibir-lhe uma coisa dessas — disse Arsénio após uma olhadela na rua.
Ao ouvir o nome de Fluresco, surgiu no espírito da Baronesa toda a cena que Fanny lhe contara na véspera.
O desgosto e o desprezo suscitado pela narrativa vibravam na sua voz quando ela respondeu:
— É difícil proteger aquilo que não possuímos!
Arsénio fitou-a um tanto perplexo.
— Que dureza, prima, e que irritação nesse julgamento lacónico!
Pobre Emílio, se ele soubesse como a senhora o considera, ele que é tão altivo, tão desdenhoso, que mesmo entre seus camaradas sua pose e seu exclusivismo são censurados!
— É, sem dúvida, para provar que ele não é exclusivo em tudo que mostra tanta liberalidade em relação a Nina — retrucou Tâmara.
Arsénio riu-se gostosamente e Magnus, que trabalhava silenciosamente numa gravura em madeira, observou:
— Deixe, então, Fluresco para lá e não se irrite por causa dos problemas do seu lar.
Que nos importa isso?
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 8:39 pm

— Claro! Claro!, prima, deixemos o pobre Emílio, alvo predilecto de suas mágoas, eu sei.
Diga-me o que a senhora vai pintar naquela enorme tela que vejo em seu cavalete e por que tantos estudos esboçados ali sobre a mesa?
— Quero pintar um quadro para um altar, a cena da crucificação para uma modesta igreja na Finlândia.
Prometi-o ao velho pastor Malus, seu capelão, e que nos casou.
Pensei, de início, fazer uma simples cópia, mas estou tentada a compor eu mesma um quadro original.
Se não consegui-lo, poderei sempre retomar o projecto original.
— É um grande projecto e que apresenta dificuldades — disse o Príncipe com um sorriso.
Vai ser difícil arranjar modelos.
Para o Redentor a senhora ainda encontrará, mas quem desejará posar como modelo para os dois ladrões?
A encantadora face de Tâmara iluminou-se com um raio de infantil travessura.
— Já tenho os ladrões:
o senhor e Fluresco me servirão de modelos.
Conheço tão bem os traços de ambos, pois já pintei-lhes os retratos, que isso me poupará metade do trabalho.
E entre os dois, colocarei meu pobre Magnus que, tendo sofrido muito, ficou com essa expressão de doce resignação de que necessito para o Redentor.
O Príncipe deu uma gargalhada.
— Olhe que essa é muito forte, prima.
Ridicularizar-nos dessa maneira, a mim e a Fluresco!
Protesto solenemente e prevejo que o seu quadro não valerá nada.
Os ladrões terão um aspecto muito honesto e distinto e o Salvador estará de mau-humor. Veja!
(E piscou o olho na direcção de Magnus, que, preocupado e carrancudo, gravava com afinco).
Seu modelo, pelo menos neste momento, não me parece doce, nem resignado.
— Esteja descansado, primo, acerca do futuro de meu quadro.
Para pintar Magnus escolherei um de seus bons momentos e para explicar a distinção aristocrática dos ladrões, direi que é um ex-voto — respondeu Tâmara rindo e instalando-se diante de seu cavalete.
Corria o fim do mês de dezembro quando, uma noite, Tâmara foi à estação da estrada de ferro que vinha de Moscou para receber Madame Raban, que fora à segunda capital do império para assistir ao baptismo de um sobrinho e também para rever, na oportunidade, uma parente enferma que ela não via há mais de vinte anos.
A moça estava um pouco atrasada.
Quando alcançou a plataforma, o trem já chegara e ela avançava lentamente pela multidão, buscando com os olhos a velha amiga.
Subitamente, o tom conhecido de uma voz irritada, que dava diversas ordens, chegou-lhe aos ouvidos.
Ela virou-se e encontrou-se frente a frente com Tarussoff.
O oficial empalideceu e seus olhar pregou-se na elegante moça que o contemplava de alto a baixo, com indefinível desdém.
Em seguida, os grandes olhos cinzentos desfilaram com indiferença da pessoa de Anatole Pavlovitch para o grupo que o cercava — uma mulher de aspecto comum, rosto pálido e insignificante, supervisionando a saída, de um vagão de segunda classe, de sua numerosa família e não menos numerosos embrulhos.
A dama estava muito atarefada, os cabelos mostravam-se mal pintados sob um velho chapéu preto.
Tartamudeando e carregando tanto nos erres que mal se podia compreendê-la, ela dava ordens a duas criadas que carregavam, cada uma, uma criança, enquanto duas outras meninas de três e quatro anos agarravam-se à sua saia.
No momento em que o olhar de Tâmara recaiu sobre ela, gritou impacientemente a Tarussoff para que tomasse conta de uma das crianças, de modo que ela pudesse cuidar da bagagem.
Tâmara seguiu em frente, com um sorriso:
foi, portanto, para conquistar aquela beldade que seu antigo noivo se casara precipitadamente em Moscou, para onde fugira.
E isso dois meses apenas, após o seu rompimento com ela!
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 8:39 pm

A voz de Madame Raban, que acabara de encontrá-la, arrancou-a de tais reflexões.
Ela acompanhou a velha dama à sua residência, mas nada comentou acerca do seu inesperado encontro.
De volta a casa, encontrou lá o Almirante e Ugarine e, pouco depois, todos tomaram seus lugares à mesa do chá.
Enquanto Magnus e seus hóspedes discutiam uma questão de natureza política, Tâmara apoiada sobre a mesa, pensava em Tarussoff.
O encontro inopinado havia reavivado nela pálidas e esquecidas lembranças, e a comparação mental entre ela própria e a esposa tão pouco atraente que ele preferira trouxe-lhe um sorriso aos lábios.
— O que faz você pensar tão alegremente? — perguntou- lhe subitamente Magnus que, mesmo conversando, observava cuidadosamente sua mulher e o primo, cujo olhar deslizava para ela sem cessar.
Tâmara, que nada havia notado da activa vigilância dos dois cavalheiros, respondeu, rindo:
— Penso em Tarussoff, que encontrei hoje.
— Onde? Como? — perguntaram os homens admirados.
. Tâmara contou, com uma verve zombeteira, o encontro na estação.
— O pobre Anatole Pavlovitch tornou-se bem modesto, pois duvido que sua mulher satisfaça às inúmeras pretensões e exigências que ele me demonstrava.
Jamais me vestia, nem me penteava a seu gosto.
Minhas mãos não eram suficientemente bem cuidadas, nem minha postura bastante firme.
Ele achava também o que dizer de meus dentes.
Pois bem, o que vi do exterior, da toalete e da postura de Madame Tarussoff prova que ele reduziu singularmente suas pretensões.
Nada poderia eu dizer dos dentes, pois do jeito que aquela senhora fala, a gente pensaria que ela não os tem — concluiu, pilheriando.
— Ê verdade que ele não teria perdido nada sendo menos apressado — observou o Almirante.
Eu não lhe contei que, há algum tempo, me pediram para interceder por ele junto ao meu amigo General Dubrovski, a fim de conseguir, para um oficial que desejava, por questões de família, deixar o serviço activo, um posto vago na administração dos domínios imperiais?
O cargo era muito bom, mas reconheço que, ao saber que o candidato era Tarussoff, fui muito pouco cristão para recusar prontamente a minha ajuda.
Não posso esquecer sua revoltante conduta e, sobretudo, seus impertinentes discursos sobre a economia da cerveja e da graxa que ele seria obrigado a fazer, se desposasse Tâmara.
Ainda me admiro hoje como pude resistir à tentação de agarrá-lo pela gola e pô-lo para fora da carruagem.
— Não se irrite com essas velhas recordações, “tio” Sergei.
Apesar da cerveja e da graxa, que peço a Deus nunca lhe venham a faltar, aposto que você teria sido menos cruel se tivesse visto sua família: quatro filhas!
Misericórdia! Imagine se sua prole aumentar no mesmo ritmo daquele pai da opereta que tinha dez filhas para casar, então, nesse caso, um bom cargo é muito necessário.
— Você é mais caridosa do que eu.
— É que não sou ingrata e me lembro dos bons momentos de nosso noivado.
E com uma seriedade cómica ela contou a história da caixinha de Gomy-Dubniak e da gloriosa peça de roupa que ela continha.
Quando o riso homérico provocado pelo relato acalmou-se um pouco, Arsénio perguntou, enxugando os olhos:
— Gostaria bem de saber se Tarussoff ainda conserva aquelas ceroulas imortais.
— Sem dúvida. Como iria ele destruir uma relíquia que tem por obrigação legar aos seus filhos?
Tomado o chá, Magnus e o Almirante deram início a uma partida de damas, enquanto Tâmara instalou-se no seu pequeno divã a trabalhar na sua tapeçaria.
O Príncipe sentou-se diante dela e, após alguns momentos de silêncio, disse:
— Tâmara Nicolaevna, a senhora é uma esfinge.
Ao ouvi- la, há pouco, zombar tão impiedosamente de Tarussoff, me perguntava se algum dia a senhora amou, de verdade, aquele homem.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 8:40 pm

— Ele não merecia tal sentimento.
Além do mais, não há amor que resista ao desprezo.
— Ah, a paixão não raciocina dessa maneira!
Mas será que nunca haverá um Pigmalião29 para acender esse fogo dominador que faz palpitar todas as fibras do ser e que modificaria um pouco essa fria razão que parece ser a única coisa viva na senhora?
Que não daria eu para ver, enfim, nos seus olhos, tão desesperadoramente calmos, não a chama fugidia que aí brilha, às vezes, mas o incêndio de uma verdadeira paixão!
Tâmara sustentou com impassibilidade o olhar faiscante e significativo que a fitava.
— O antigo Pigmalião era um entusiasta que acreditava ser o amor bastante potente para vivificar até mera pedra — disse ela com a voz um tanto velada.
Os Pigmaliões' modernos encaram as coisas de maneira diversa:
eles é que são feitos de pedra e somente a cintilação do ouro inspira-lhes interesse e lhes inocula um pouco de vida.
O senhor se esquece, além disso, Arsénio Borissovitch, que se o generoso sueco não me legasse sua imensa fortuna, ninguém se daria o trabalho de suscitar um incêndio em minha alma.
Sem dúvida, a convicção de que nada somos, que nada valemos e que, sendo pobres, não podemos despertar nenhuma paixão, não se adquire facilmente.
Mas no dia em que a última ilusão se extingue ante esmagadora realidade; no dia em que o noivo que fingia amar-nos apressa-se em abandonar a mulher sem dinheiro que lhe seria apenas um fardo, nesse dia, é atroz a luta entre o amor-próprio mortalmente ferido, a dignidade e o direito do ser humano à felicidade.
E, após essa tempestade de raiva e desespero, tudo se cala e, de certa forma, a gente perde a faculdade de sofrer.
Contudo, a alma humana é muito elástica:
cedo ou tarde ela desperta daquele torpor e, segundo sua têmpera, tomba no aviltamento, alquebrada e sem resistência ou, então, se põe de pé, encouraçada e invulnerável:
salva-se a dignidade, mas a ilusão morre.
Somente a razão pode guiar daí em diante o barquinho salvo do naufrágio.
Tarussoff é um farrapo de ilusão destruída.
Pertence ao passado como um dos sonhos embriagadores que nos logra à soleira da vida.
Mas os heróis desses sonhos fugitivos apagam-se logo.
Quanto mais de perto os vemos, mais nos desencantamos deles.
(Um sorriso malicioso errou pelos seus lábios.)
Assim é a vida, primo.
Para mim ela se revelou em toda a sua nudez e, contudo, sou uma privilegiada da sorte, pois ela me fez encontrar um homem que me ama pelo que eu sou.
— A senhora está certa de que nenhuma parcela de egoísmo está em jogo?
— Não. Eu vi as provas.
Por isso, tudo o que meu coração pode dar em assuntos de amor pertence a Magnus, e há amor suficiente para nos tomar a ambos felizes.
O Príncipe ouvira tudo silenciosamente, de cabeça baixa.
Ao cabo de um momento, ele se levantou e despediu-se, pretextando súbita dor de cabeça.
Sem incidentes graves, chegou o mês de fevereiro.
Tâmara reassumira sua vida meio mundana, meio monástica, como se dizia na sociedade.
Só que ela comparecia com maior frequência à Ópera, atraída por um conjunto excepcional de artistas de primeira ordem.
Ugarine continuava suas frequentes visitas, sem se convencer, evidentemente, da inutilidade de seus projectos íntimos.
Uma noite, Magnus e a esposa já haviam tomado o chá nos aposentos dela, quando chegou inesperadamente o Almirante.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 8:40 pm

O velho marujo estava visivelmente super-excitado e, atirando suas luvas e seu boné a uma cadeira, disse:
— Venho da casa de Nina.
Vocês sabem da desgraça que aconteceu a Fluresco?
— Não. Que desgraça?
Quando foi que aconteceu? — perguntaram a uma voz os esposos admirados e assustados.
— Eu pensei que Ugarine já lhes houvesse contado, pois ele vem correndo com todas as notícias.
Não importa! Foi anteontem que aconteceu a escandalosa história, que terminou tão mal para Emílio Felixovitch.
Apesar do frio intenso que fazia naquele dia — mais de 20 graus abaixo de zero — Fluresco, vários amigos e algumas prostitutas de luxo resolveram fazer uma excursão a Livádia.
Ali eles passaram uma noitada muito barulhenta e entregaram-se mesmo a tais extravagâncias, que o dono do hotel interveio, ameaçando mandar chamar a polícia se não acabassem com aquele escândalo.
Os amáveis farristas não encontraram nada melhor a fazer do que besuntar de caviar e de doces a cabeça do dono do restaurante e, após essa aventura, amontoaram-se nos seus trenós para voltar à cidade.
Estavam todos embriagados, inclusive os cocheiros, que haviam sido generosamente abastecidos.
A primeiro troika30 tomou a dianteira, enquanto a segunda, na qual se encontrava Fluresco, tombou numa depressão do terreno.
O Príncipe foi lançado um pouco mais longe e mergulhou na neve.
Como ele estava bêbado e trocando as pernas, teve dificuldade em levantar-se e, na escuridão, ninguém prestou atenção nele.
O resto da turma nem percebeu que faltava uma pessoa.
Subiram no trenó e partiram.
Fluresco gritou o quanto pôde, mas ninguém o ouviu e ele ficou ali, recém-saído de um ambiente bem aquecido e exposto, por mais de uma hora, àquele frio mortal.
Tentou caminhar, mas a neve era muito profunda e a brisa gelada que soprava do mar endureceu-lhe os membros.
Afinal o trenó de outro grupo, que se retardara, descobriu-o e, a seu pedido, o levou, mas ele estava horrivelmente enregelado.
Ao chegar a casa, sentiu-se muito mal e, pela manhã, foi acometido de um ataque de paralisia.
Foram atingidos um braço e uma perna e os médicos acham que seu estado é grave.
Mas o que me revolta é a indiferença de Nina.
Se o seu cão estivesse doente, creio que ela estaria mais preocupada.
O relato do Almirante foi interrompido pela entrada de Ugarine, que chegava, ele também, para dar a notícia.
— Acabamos de saber por Sergei Ivanovitch da triste aventura do Príncipe Emílio.
Seja como for, é um exemplo edificante para seus amigos — observou Tâmara.
Arsénio corou.
— Será que a senhora não tem um pensamento mais compassivo, prima, por um homem que já tem sido tão infeliz?
Ele está divagando e temem que seu cérebro tenha sido afectado.
Será que isso não é ainda castigo suficiente?
— Lamento o Príncipe e deploro que Deus o haja punido tão duramente, pois certamente sua mulher procurará desembaraçar-se dele, internando-o num manicómio.
— Ê verdade que ela parece muito calma; contudo, Nina Alexandrovna não ousará fazer isso.
Ela deve cuidar dele — é seu dever.
Emílio é marido dela é pronto! — disse Arsénio com arrebatamento.
Tâmara balançou a cabeça.
— No caso presente, isso é palavra morta.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 8:40 pm

Poderá haver alguma cogitação de dever a cumprir de parte de uma mulher que me disse no dia de seu noivado:
"Não tenho ilusão.
Emílio casa-se comigo apenas pelo meu dinheiro, mas eu quero ser Princesa"?
Uma união baseada em tais fundações é simplesmente um negócio.
Os esposos estarão nela mais separados do que se fossem estranhos.
Só o verdadeiro amor suporta tudo, sofre e vela sem descanso junto ao doente amado.
— É um infeliz acaso.
Nina Alexandrovna teria podido amar Fluresco — respondeu Arsénio com as sobrancelhas contraídas.
Obviamente ele tinha consciência de que sua vida desordenada, bem como sua felicidade conjugal, pareciam muito com as de seu amigo.
— Certamente Nina teria podido amá-lo e teria amado esse homem jovem e belo, se ele apenas se desse ao trabalho de conquistar seu coração ou, pelo menos, disfarçar o objectivo inteiramente prático a que visava com esse casamento.
Sob esse aspecto, ele foi de uma sem-cerimónia incrível.
E depois, que piedade poderia inspirar a Nina uma enfermidade contraída quando ele retomava de uma orgia?
Sem dúvida, ela devia perdoar tudo e esquecer para não pensar senão na desgraça que se abateu sobre o marido, mas tenho minhas dúvidas de que ela aja dessa maneira.
A previsão da moça cumpriu-se logo e sob forma ainda mais brutal do que a esperada.
Dois dias após essa conversa, Tâmara foi ao teatro em companhia do Almirante e de Madame Raban.
O primeiro ato estava começando, quando um camarote próximo abriu-se e Nina entrou, acompanhada de uma mulher de reputação um tanto duvidosa e de um oficial dos hussardos.
A Princesa estava com um vestido longo de veludo esmeraldo, guarnecido de camélias brancas e faiscava de diamantes.
Parecia no melhor bom humor e ouvia sorridente os comentários do jovem oficial que se sentara atrás dela.
— Vejam, Nina está ali! — murmurou Tâmara, tocando ligeiramente o braço do Almirante com o leque.
O velho marujo virou-se com vivacidade na direcção do camarote indicado e um sombrio rubor subiu até seus esparsos cabelos grisalhos.
— Essa é muito forte!
Ela tem realmente uma cara dura — murmurou ele.
Ter a ousadia de vir ao teatro com pessoas estranhas, quando seu marido está à morte!
Mas vou falar com ela e pô-la em brios por afrontar dessa maneira a opinião pública — acrescentou, levantando-se.
Tâmara sorriu, incrédula.
— A senhora acha que para uma mulher sem coração como essa adiantam as palavras? - disse ela, virando-se para Madame Raban que, igualmente revoltada, fitava curiosamente o camarote, no qual o Almirante acabava de entrar.
Logo o ar descontente e teimoso de Nina e o gesto de desafio com o qual levantara a cabeça demonstraram com bastante clareza que as censuras do seu antigo tutor desagradavam-na soberanamente.
Tâmara mergulhou em triste meditação.
Mais cedo do que pensara, a mão ávida de sua “última amante” agarrara Fluresco para não deixá-lo tão cedo.
Mas que Nina se despojasse tão ousadamente de todo sentimento de dever e de caridade, senão de afecto, isso a deixava perplexa, apesar de tudo, e um profundo sentimento de pesar e compaixão surgiu em seu coração pelo desventurado enfermo, tão pobre e tão solitário no meio de toda a sua riqueza.
O Almirante retornou furioso e irritado.
Quanto a Nina, ficou teimosamente até quase o fim da representação, mas evitou encontrar o olhar límpido, e severo de Tâmara, que lhe causava, a despeito de si mesma, desagradável sensação.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 8:32 pm

Durante alguns dias, Fluresco foi de mal a pior e Madame Lilienstiema pensou, com razão, que a morte seria o maior dos benefícios para ele, mas o Príncipe não morreu; apenas um de seus braços e uma perna ficaram paralisados, enquanto seu lento e gradual definhamento fazia pressagiar um prognóstico fatal.
Cerca de seis semanas após esse triste incidente, Fanny contou um dia a Tâmara que soubera, por intermédio de Macha, da odiosa conduta de Nina Alexandrovna em relação ao marido doente.
— Ela é tão miserável em tudo quanto diz respeito a ele que lamenta até ser obrigada a pagar-lhe uma enfermeira.
Uma velha criada que já vinha dos tempos de seus pais foi incumbida de tomar conta dele e um lacaio a ajudava, mas o camareiro, que há dez anos servia o Príncipe, foi despedido.
Essa velha serva Neonila é insuportável, diz Macha.
Ê surda e bebe.
Quando dorme embriagada, ronca de fazer tremer as vidraças e o doente pode gritar até arrebentar os pulmões ou morrer de fome ou sede, sem que ninguém o socorra.
Além do mais, sob o pretexto de garantir-lhe a tranquilidade, ele foi colocado num aposento mais afastado.
E Fanny continuou:
— Recentemente, o enfermo queixou-se ao senhor Almirante e ao Príncipe Ugarine da maneira como vem sendo tratado e, por isso, esses senhores fizeram uma cena horrorosa com a Princesa e arrasaram-na com suas censuras.
Depois que eles partiram, Madame estava furiosa.
Correu ao marido e, tripudiando sobre ele, censurou-o em termos duríssimos por ter ousado queixar-se.
Ele estava doido ao imaginar que uma mulher jovem e bela como ela ficaria encerrada para cuidar de um debochado que estava apenas colhendo o que semeara, um mendigo enfermo que, aliás, já estava dando muita despesa.
Ante todos esses insultos, o Príncipe tomou-se furioso e, como a Princesa se aproximara de sua poltrona, apanhou-a com a mão válida e tentou bater-lhe.
Começaram uma verdadeira luta e Madame somente conseguiu livrar-se toda arranhada.
Depois disso, ela declarou que mandaria para a Finlândia aquele louco varrido.
Mas será que isso se fará?
E quando? Macha não sabe.
Um desgosto mesclado de horror apossou-se de Tâmara, ante o relato de sua camareira.
A imagem da cena abominável que se passara entre a mulher sem coração e o doente exasperado perseguiu-a durante vários dias como um pesadelo.
E lá estaria, sem dúvida, mais preocupada e mais envolvida com a sorte de Fluresco do que com seus afazeres pessoais se, finalmente, uma desagradável notícia vinda de Estocolmo não tivesse absorvido todos os seus pensamentos.
A preocupação lhe vinha de Magnus.
Há meses que o temperamento, outrora tão equilibrado e doce do jovem, sofria estranhas flutuações:
ora nervoso e irritável, ora triste, sonhador e misantropo, perdera completamente a serenidade que o caracterizava e Tâmara nada compreendia do olhar estranhamente velado e perscrutador que ele, às vezes, mergulhava no seu.
A Baronesa explicava a si mesma essas variações de humor como uma sequela da doença que o acometera, mas se esse mal-estar se prolongasse demais, será que não ocorreria uma recaída?
Nem passou pela cabeça de Tâmara que Magnus pudesse estar sofrendo uma crise de ciúmes.
E, no entanto, era esse o sentimento que rugia no coração do jovem.
Ele notara, especialmente após o retomo deles à cidade, a crescente paixão de Arsénio, e ainda que estimasse muito sua mulher para supor que ela pudesse falhar vulgarmente, temia que aquele sedutor consumado, favorecido pela sua bela aparência exterior e mais aquela meia-intimidade criada pelo parentesco, causasse alguma impressão sobre o coração de Tâmara.
Avidamente, ele buscava nos olhos da moça algum indício de que ela não estaria escondendo dele alguma emoção nova.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 8:33 pm

Sua própria paixão aumentava proporcionalmente no decorrer de todas essas lutas íntimas e o peso de sua enfermidade, o sentimento de impotência à qual estava condenado em face do perigoso rival que surgira, assim, tão junto dele, irritavam-no e desesperavam-no quase à loucura, às vezes.
Foi nesse ínterim que Tâmara recebeu uma carta de Madame Ericson, na qual sua maternal amiga anunciava que a doença interna, da qual sofria há cerca de um ano, havia piorado a ponto de uma séria operação se tornara necessária.
“Não sei se Deus me permitirá sobreviver a essa grande provação — escreveu Eveline — e gostaria de ver você antes de tudo, minha filha querida.
Se, contudo, não nos vermos mais, receba minha bênção e a certeza de meu afecto, tanto aqui, como no Além.
Quanto aos meus últimos conselhos e indicações relativas à educação de Olga e de Jorge, Ivar irá transmiti-los a você“..
Profundamente agitada, Tâmara resolveu imediatamente ir a Estocolmo.
Magnus aprovou a decisão e declarou que ele também viajaria para Nancy31 a fim de tentar ali um tratamento hipnótico, do qual ouvira falar e até mesmo lera sobre seus efeitos maravilhosos.
— Sim, sim, sem dúvida. Vai.
Talvez que Deus, pelo menos, alivie seu sofrimento.
Mas, nesse caso, vem comigo.
Uma vez que a operação vai ser realizada e a sorte de “tia“ Eveline está decidida, partiremos juntos para Nancy.
Magnus balançou a cabeça.
— Não, minha querida.
Prefiro estar sozinho nesta suprema tentativa de reconquistar o direito de voltar a ser um homem normal.
Minha razão me sussurra que essa esperança é uma loucura, pois já estou doente há muito tempo.
Não importa! Quero tentar.
Mas me será penoso ver você partilhando de todas as alternativas da expectativa e o desalento final.
Deixa-me partir com Frederico.
E você, vai onde o coração e o dever a chamam.
Após alguma hesitação, Tâmara acabou concordando.
A partida dos dois foi fixada para dali a três dias e um telegrama passado a Estocolmo anunciava a chegada da moça.
Na véspera da partida, Tâmara ocupava-se, no seu gabinete, de seus últimos preparativos com a bagagem.
Pusera de lado, para levar, alguns livros que ela gostaria de ler a Madame Ericson.
Estava guardando nas gavetas da escrivaninha algumas preciosas bagatelas que ornavam sua mesa, quando o criado veio anunciar-lhe a presença do Príncipe Ugarine.
Visivelmente perplexo, o Príncipe foi informado do significado dos preparativos de viagem.
Ao tomar conhecimento da ausência do casal durante semanas, talvez meses, e que eles partiam em direcções diferentes, corou fortemente.
Sua primeira impressão foi a de dolorosa angústia ao perceber que ficaria sem ver Tâmara.
A companhia da moça tomara-se para ele uma necessidade.
Mas logo um sorriso fugitivo deslizou pelos seus lábios:
“Aí está o que se parece diabolicamente como uma separação" pensou ele..
E atirando-se com a leviandade habitual às suposições mais arriscadas, aproximou-se vivamente dela e lhe disse com os olhos brilhantes:
— Sim, sim, prima. Vai.
É indispensável que a senhora desperte desse sonho doentio e irreal, desta vida anormal que leva há tanto tempo.
Por mais superior que seja a todas as mulheres, o instinto feminino, a voz da natureza deve estar despertando em seu coração, abrindo-o a um amor verdadeiro e sacudindo o torpor do dever que a mantém presa a um homem, bom e inteligente, sem dúvida, mas... afinal de contas, enfermo e pouco afeito a desempenhar um papel preponderante na vida de uma mulher jovem e bela.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 8:33 pm

Tâmara, que embrulhava num papel de seda um pequeno ídolo indiano de ouro incrustado de pedras, levantou os olhos, surpresa, e um ligeiro desgosto vibrava na voz quando ela respondeu:
— Não entendi nada do seu longo discurso, Príncipe.
De que realidade fala o senhor?
Não considero minha vida um sonho doentio, nem o dever que me inspira o coração um estado de entorpecimento.
A resposta era suficientemente clara, mas Arsénio não podia mais deter-se:
a paixão, há tanto tempo comprimida, transbordava, enfim, em fogoso impulso.
Seus grandes olhos negros emitiam chamas, seus lábios tremiam e, curvando-se tão bruscamente sobre ela que seu hálito afogueado alcançou as faces de Tâmara, murmurou com voz vibrante:
— Você não quer me compreender, Tâmara, mas não posso mais me calar; basta de dissimulação, devo confessar-lhe um sentimento que me sufoca:
amo-a, amo-a como um louco, mais do que a própria vida, mais que tudo!
Aceita meu amor, deixa-me partir com você para Estocolmo!
Parou por um momento, mas seus olhar transbordante de paixão, dominador e suplicante, envolvia a jovem como uma chama.
Tâmara fitou-o, pálida e fascinada:
seu coração batia a ponto de estourar e um desconhecido calafrio fazia tremer cada fibra de seu ser.
Subitamente, ela se lembrou do estranho sonho que tivera durante a convalescença:
a sala era aquela mesma, decorada de vermelho.
Ali, o grande espelho, no qual se reflectira fugidiamente a imagem de Magnus e, diante dela, Arsénio, que lhe falava de amor.
Fazendo com a mão um brusco gesto negativo, ela recuou e disse com a voz apagada pela emoção:
— Basta, Príncipe.
O senhor está divagando.
Um amor sem estima, sobre os escombros da honra e adquirido ao preço do adultério, não pode trazer felicidade a ninguém.
— Tâmara, Tâmara, pare com isso!
Não se entrincheire atrás de frases banais.
Não seja cruel neste momento decisivo que decide nossos destinos e nosso futuro.
Não nos sacrifique a ambos, a um ridículo preconceito, a uma vã ilusão de dever.
Tomou suas mãos e levou-as aos lábios.
— O coração também tem seus direitos, não os despreze.
Deixa-me amá-la.
Eu lhe darei toda a minha alma, serei seu escravo pelo resto da vida e, nos meus braços, você renascerá para uma vida nova, para a verdadeira felicidade.
Uma nuvem passou pelos olhos de Tâmara.
Sentia-se fraquejar sob aquele olhar de fogo.
Aquela voz vibrante, cheia de súplicas e de amor, causava-lhe estranha embriaguez, como jamais experimentara.
Ah, se aquelas palavras ele as tivesse pronunciado outrora!
Naquela época ele representava para ela o ideal sonhado e ela considerava seu amor o cúmulo da felicidade.
Se à menina ingénua, ou à moça batida pela desventura, traída e abandonada por seu noivo indigno; se, durante aqueles anos de provação, ele lhe houvesse dito:
“Eu a amo!”, com que impulso de amor e de reconhecimento ela não se teria atirado aos seus braços, aspirando a uma sincera afeição, no vazio de sua vida e de seu coração!
Agora, vinha ele dizer-lhas quando já era tarde demais.
E de repente, despertou nela, com violência, a lembrança da sua luta silenciosa contra o ciúme, contra o doloroso sentimento que lhe causava a indiferença do Príncipe, a recordação daquele processo espiritual que havia apagado a imagem de Arsénio como a de um ser que jamais poderia significar algo para ela.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 8:33 pm

Uma áspera amargura inundou sua alma e toda a dureza cruel, própria da mulher pelo homem que amou e que a afrontou com a sua indiferença, surgiu nela.
Arrancando suas mãos das dele, recuou novamente e mediu-o com um olhar hostil.
Seus lábios, desdenhosamente retorcidos, tremiam nervosamente.
A mesma hostilidade vibrava na voz quando lhe disse:
— O senhor prometeu muito, Príncipe Ugarine, mas, examinando isso de perto, o que pode proporcionar à mulher assim tão apaixonadamente amada, o senhor, o homem casado, à esposa de outro homem?
Esses dons preciosos são, em primeiro lugar, a vergonha e a desonra, bem como o desprezo e o esquecimento após, quando, cansado dela, o senhor abandoná-la na lama para a qual a atraiu.
Na verdade, o senhor é incapaz de amar qualquer coisa sem aviltá-la.
Que vergonha, Arsénio Borissovitch, tentar, com tamanha tenacidade, seduzir a mulher de seu desventurado primo, sabendo que ele é doente e não pode exigir-lhe uma reparação por esse ultraje!
Fez uma pausa e continuou no mesmo tom:
— Não quero nem mesmo negar aquilo que os olhos da ingénua menina de colégio tão abertamente traíram para o senhor.
Sim, houve um tempo em que eu o amei, em que o senhor foi o herói de meus sonhos.
O senhor sabia disso e bastava estender a mão para levar-me como sua esposa, pois éramos ambos livres.
Mas, desdenhoso e indiferente, o senhor passou ao largo da moça pobre demais, na sua opinião, para merecer seu coração.
Foi procurar a companheira de sua vida, onde a riqueza o atraía, expondo-se, sem corar, como mercadoria nessa vergonhosa feira, à mulher que lhe interessava.
Há muito tempo expulsei-o de meu coração e não é agora que iria trair Magnus para proporcionar-lhe uma nova distracção.
Não mais o amo, Príncipe, e desse amor real e novo, do qual o senhor me falava há pouco, nunca o amarei, pois não o estimo!
Ela se deixara arrebatar cada vez mais.
Toda a amargura do passado, toda a cruel satisfação de dizer-lhe, enfim, a verdade, face a face, fuzilava nos seus grandes olhos cinzentos.
Ugarine recuou um passo, como se tivesse recebido uma bofetada e, deixando-se cair sobre uma poltrona, cobriu o rosto com as mãos.
Estabeleceu-se um silêncio mortal, quebrado apenas pelo tic-tac do relógio.
A excitação de Tâmara extinguira-se subitamente.
A palidez mortal de Arsénio, o mudo desespero do olhar que fitou nela, haviam dissipado a cólera e o desespero da moça.
Ela sentia agora apenas pesar e compaixão pelo Príncipe.
Não lhe ocorreu que ela acabara de vingar-se, alcançou raro triunfo, fazendo curvar aos seus pés o homem que a desdenhara e a cobrira de desprezo.
O espírito honesto e generoso de Tâmara estava acima de satisfações desse tipo.
Sentia apenas uma coisa:
ferira dolorosamente Arsénio e desejava atenuar aquela penosa impressão.
Tentando emprestar à voz a entonação de amável brincadeira, que lhe era habitual, disse:
— Levante a cabeça, primo, e esqueçamos esta conversa vã.
Ambos fomos trágicos demais e cobrimos à vontade de sombras nossa última entrevista antes de uma separação de várias semanas.
Prometo-lhe esquecer isto.
Faça o mesmo e, quando nos reencontrarmos, o senhor terá esquecido essas loucuras e reconquistado o equilíbrio de seu espírito.
Ugarine levantou-se.
Continuava pálido e seu olhar velado buscou Tâmara, mas ela baixou os olhos.
— Adeus! — disse ele, virando-se.
Mas, parou à porta.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 8:33 pm

— A senhora foi dura e cruel além dos limites, atirando-me ao rosto a minha própria miséria moral, pois sou um inimigo desarmado.
Adeus, portanto, e que Deus a proteja!
A moça, que não se movera, aproximou-se vivamente.
— Lamento ter-lhe causado tanto sofrimento.
A virtude é sempre dura, quando se recusa a ceder.
Não tenho, porém, nenhum rancor, juro.
Ame-me como amiga, uma parenta próxima e o senhor verá que tal sentimento honesto e puro lhe proporcionará mais satisfação do que uma paixão fútil e passageira.
E, sobretudo, cuide de reformar-se.
Abandone essa vida desordenada e lembre-se de Fluresco.
Seu exemplo não lhe causa nenhum temor?
Levantara para ele seus olhos límpidos, nos quais lutavam mil sentimentos contraditórios e pusera a mão em seu braço.
Um rubor febril coloria suas faces e uma muda expectativa se pintava em toda a sua pessoa.
Esperaria ela uma promessa de que ele estaria disposto a começar uma vida nova?
Pensaria ela que a força mágica de seu poder sobre aquele que a amava seria bastante para arrancá-lo à sua existência frívola e dissipada, à desgraça, talvez?
Quem poderia sondar o abismo do coração humano, conhecer os múltiplos sentimentos que o fazem vibrar?
Arsénio fitava-a com um olhar pesado e sombrio.
— Obrigado pela sua boa vontade, mas que vale minha vida perdida?
A miséria de minha alma deverá tragar-me, pois me falta o talismã que me sustentaria num caminho melhor — disse com voz aguda.
— O talismã, está no senhor mesmo, Arsénio Borissovitch.
Chama-se vontade.
Faça um esforço no sentido do bem e conquistará a paz de espírito e a estima de si mesmo.
Sua voz, porém, era incerta e uma vaga opressão pesava-lhe sobre o coração, que parecia dilacerado.
Não podia despregar o olhar dos olhos do Príncipe, nos quais acabava de acender-se de novo a louca paixão que o devorava.
Algo desconhecido despertou nela, fazendo vibrar sensações que jamais experimentara.
Como uma beberagem embriagadora, as chamas daquele amor desatado que cresciam nela aturdiam-na e escureciam sua vista.
Pálida e trémula, recuou e levou a mão à testa.
Mas já Arsénio curvava-se sobre ela, murmurando com voz entrecortada:
— Você mente, Tâmara, e engana a nós dois.
A voz da natureza, a voz do coração, traem suas palavras, a despeito de você mesma.
Você me ama; fui o primeiro sonho de sua alma virginal, que despertava para a vida.
Louco e cego, passei ao lado da felicidade, correndo atrás de fantasmas.
Mas ainda se pode corrigir tudo isso.
Todo um futuro de felicidade nos espera!
Sem poder mais controlar-se e esquecido de tudo, atraiu-a bruscamente para seus braços, procurando seus lábios com um beijo.
Como que despertando sobressaltada, Tâmara empurrou-o com violência e, arrancando-se dele, recuou até à lareira;
Pálida como morta, respirando penosamente, apoiou-se a uma cadeira e disse com voz entrecortada:
— Insolente, que retribui a amizade e a indulgência com uma violência dessas!
Seu olhar fuzilante mediu de alto a baixo a Arsénio que, estremecendo de raiva e de paixão, mal se continha.
Mas, com. esse poder de auto-domínio que as mulheres possuem em tão alto nível, a moça acrescentou com sangue frio:
— Adeus, Príncipe.
Caia em si.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 8:33 pm

Terminemos esta cena.
Saudando-a ligeiramente com a mão, ele virou-se e saiu.
Num dos aposentos contíguos ela ficou parada junto à janela e pousou a fronte em fogo na vidraça.
Alguns minutos mais tarde, o barulho ritmado de uma carruagem que partia fê-la estremecer.
Levantou a cabeça e viu a carruagem do Príncipe passar a toda velocidade.
Havia deixado a casa.
Lentamente a moça passou ao seu quarto de dormir e fechou a porta.
Queria estar só, consigo mesma e com o estranho caos de emoções que aquele homem havia suscitado nela.
Um vazio imenso, algo pungente que ela não seria capaz de definir, ficou em lugar da sua superexcitação.
A imagem de Arsénio, adornada com o encanto sedutor que a aureolava outrora, flutuava em sua mente.
As sensações esquecidas da primeira juventude despertavam nela e, com elas, o surdo ciúme, a amargura daqueles tempos, nos quais a felicidade se lhe tomara inacessível, aquela felicidade que a sorte irónica vinha oferecer-lhe quando já era tarde demais!
Esgotada, Tâmara estendeu-se numa poltrona e fechou os olhos.
Que se passava com ela?
Poderia lamentar de haver resistido à sedução, de haver permanecido fiel ao dever, à honra?
O homem que a desdenhara e que, agora, estendia para ela sua mão criminosa era um ideal desbotado, murcho, há muito caído do pedestal que ela, em sua ingenuidade, construíra para ele.
Mas, e agora, por que seu coração estava tão pesado?
Por que o futuro lhe parecia um deserto?
Por que aspirava ela a algo que não conseguia definir?
Não estava compreendendo que tudo empalidecera porque, pela primeira vez em sua vida calma e severa, ela se ferira ao tocar a essência inflamável da paixão desordenada mais forte do que tudo pela atracção do fruto proibido.
Essa nova atmosfera provocara nela uma espécie de embriaguez.
As queimaduras invisíveis faziam-na sofrer, reavivando um passado extinto e esquecido, enfeitando de cores enganadoras um fantasma outrora amado.
Subitamente oprimida pelo seu isolamento e pelo silêncio que a cercava, a moça levantou-se e foi até o quarto de vestir.
Seu primeiro olhar caiu sobre o grande retrato de Magnus que ela mesma pintara nos primeiros meses do casamento.
Com estranho sentimento, ela contemplou a bela face pálida e os grandes olhos profundos e melancólicos que a fixavam como que vivos.
Certamente, não tinha que corar diante dele.
Fora escrupulosamente fiel a ele e, contudo, uma espécie de remorso apossara-se dela.
Parecia-lhe uma traição ocultar ao seu marido o que acabara de acontecer.
— Sim, sim — murmurou ela.
Eu lhe direi tudo.
Poderia existir entre Arsénio e eu um segredo que você ignorasse?
Bruscamente, como se temesse arrepender-se da decisão, ela se dirigiu ao quarto de Magnus.
O Barão estava sentado à escrivaninha, organizando numa pasta algumas cartas e papéis que queria levar consigo.
Ante a brusca entrada de sua mulher, levantou a cabeça e, ao primeiro olhar que lançou no alterado rosto dela e no brilho febril de seus olhos, compreendeu que algo insólito se passara.
Quanto a Tâmara, toda absorvida em si mesma, não via nada.
Atirando-se a uma cadeira, contou-lhe à queima-roupa o incidente, truncando ligeiramente os episódios mais tórridos, a declaração de amor e a cena agitada que se passara entre ela e Arsénio.
À medida que ela falava, profundo vinco desenhou-se na testa de Magnus.
Apesar da prova de afeição e de confiança que o relato lhe proporcionava, uma surda tempestade de ciúme rugia nele.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 8:34 pm

Na vibração da voz de Tâmara, no tremor nervoso de seus lábios, nas múltiplas emoções que revelavam seus olhos, o jovem marido lia toda a impressão produzida e sentia que sua mulher experimentava sensações das quais ela não se dava conta e não compreendia o alcance.
Cólera e desprezo ferviam nele em relação ao ladrão que, frivolamente, punha assim em desordem aquela alma serena e queria arrancar dele, o deserdado da sorte, seu único tesouro.
Um eco dessa tempestade vibrava no timbre velado e amargo de sua voz, quando ele falou:
— Não vejo nada estranho nessa atitude de Arsénio.
Um libertino e um homem sem princípios como ele, não pode ver uma mulher sem se apaixonar.
As declarações apaixonadas são a sua especialidade e ele as recita como um bom actor.
Controle, pois, a sua indignação, uma vez que você lhe disse o que pensa dele, isso basta.
O fogo de palha vai extinguir-se e quando vocês se reverem, ele nem pensará mais nessa loucura.
Tâmara levantou para ele seus olhos perplexos.
Sentia-se melindrada com aquela resposta.
Esperava outro acolhimento ao seu relato.
Procurou o olhar do marido, mas os olhos do Barão estavam obstinadamente fixados nos papéis que ele folheava maquinalmente.
Ela viu apenas a sombria nuvem que pousara sobre sua testa e a expressão estranhamente dura e fria dos seus lábios.
A moça levantou-se.
Pela primeira vez, um sentimento de desencanto e frieza deslizou entre ela e Magnus.
Sem dizer uma palavra, deixou o aposento.
Foi sob o peso dessa desagradável sensação que os dois esposos se separaram no dia seguinte.
A viagem, as emoções do reencontro com os antigos amigos, bem como com Olga e Jorge, absorveram, contudo, a atenção de Tâmara e os receios que lhe inspirava o perigoso estado de saúde de sua amiga maternal apagaram momentaneamente a imagem de Arsénio e a penosa atitude de Magnus.
Aquele estado de tensão manteve-se durante todo o tempo que precedeu e que se seguiu à operação e a mais calma, a mais resignada e a mais alegre pessoa na casa era a própria doente, que sustentava com toda a sua coragem os corações ansiosos que a cercavam.
Somente quando os médicos declararam que ela estava fora de perigo e que Eveline se encontrava em plena recuperação, Tâmara, como os outros, suspirou aliviada.
Velando pela convalescente com o cuidado e a ternura de uma filha, a jovem retomou pouco a pouco o ritmo normal de sua vida íntima e, com ela, o penoso conflito de sentimentos diversos que a doença de sua fiel amiga havia interrompido.
Durante esse triste lapso de tempo, ela encontrou fiel colaboração em Xénia que, de todo o seu coração, se ligara a Madame Ericson e cuja sorte sofrera feliz modificação.
Em casa de seus novos amigos, Madame Hapius ficara conhecendo o amigo de um dos filhos do casal, professor de matemática num dos ginásios de Estocolmo.
O jovem sueco interessou-se pela estrangeira, da qual conhecia, em parte, a triste história e alguns meses antes pedira-a em casamento.
Xénia aceitou e Tâmara, informada por Madame Ericson, instituiu alegremente um dote para sua antiga colega de escola e. assegurou ao seu filho um pequeno capital independente.
Os jovens esposos sentiram o calor da gratidão e da amizade pela generosa moça que eliminara muitas preocupações quanto ao futuro e, uma vez que o estado de saúde de Eveline permitia à sua fiel enfermeira ausentar-se, Xénia exigiu que sua benfeitora fosse hóspede frequente em sua residência.
Tâmara sentia-se bem naquele agradável e modesto lar.
Verificava, com alegria, que Xénia, curada de alma e de corpo, cumpria com felicidade seus deveres de esposa e mãe.
E, contudo, justamente na companhia do jovem casal, vendo-os rir e brincar com o menino, a moça se sentiu triste e oprimida.
Surpreendia-se a comparar a vida deles com sua própria e um sentimento de vazio, o desejo de algo que ela não podia definir, apossava-se de novo dela, tomando-a melancólica e sonhadora.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 8:34 pm

A imagem de Arsénio também fizera sua reaparição.
A lembrança suscitava nela, com fidelidade, sua bela face desfeita quando, tão duramente, ela o repelira.
A apaixonada declaração do Príncipe soava-lhe de novo aos ouvidos fazendo bater-lhe o coração, enquanto uma voz insidiosa soprava-lhe que a frivolidade e a imoralidade de Ugarine resultavam de sua educação, que ele não amara seriamente a ninguém, que jamais uma mulher adorada tentara detê-lo no caminho do vício e guiá-lo docemente no sentido do bem.
Parecia-lhe que justamente ela, com a subtileza de seu espírito, seu saber, sua virtude, sua energia, teria tido a têmpera necessária para aplicar- se a ele e dominá-lo.
Tâmara ocupava de novo o mesmo quarto onde vivera durante os seus quatro anos de permanência na Suécia e, um dia, remexendo as gavetas de sua antiga escrivaninha, encontrou um dos inúmeros retratos de Arsénio que então desenhara, segundo a fotografia retirada do álbum de sua madrasta.
Violentamente emocionada, atirou-se a uma poltrona e se pôs a examinar a imagem daquele que, pela segunda vez, vinha trazer desordem ao seu coração.
Em primeiro lugar, verificou como o Príncipe mudara consideravelmente.
Em seguida, seu pensamento, violentamente atraído para o passado, evocou uma a uma as lembranças de seus primeiros encontros com Ugarine, o desdém que ele lhe demonstrara e a sua fuga vergonhosa após a ruína da família dela, e até a covarde insinuação que a induzira a recusar o pedido de casamento de Magnus.
Juntamente com tais lembranças, despertou nela todo o áspero sentimento de desprezo que as humilhações e a infelicidade haviam acumulado em seu coração.
Bruscamente, amarrotou o retrato e o rasgou, lançando os pedaços na lareira e murmurando:
“Ele é igual aos outros: cúpido e convencido.
Não vale nem um pensamento”.
A reacção inesperada rompeu algo do encantamento que havia canalizado seus pensamentos para o Príncipe e os conduziu ao marido, com o qual mantinha uma correspondência bastante activa, marcada, porém, de um tom particular que diferia do clima habitual de abandono e confiança absoluta que até então sempre caracterizara o relacionamento entre eles.
Como por mudo consentimento, cada um falava o menos possível de si mesmo.
Era da doença de Madame Ericson que mais se ocupavam em detalhe.
Tâmara acrescentava laconicamente que estava bem.
Quanto a Magnus, respondera evasivamente à sua pergunta sobre o andamento do tratamento a que se submetia.
Um silêncio desses, outrora, numa questão tão séria, teria inquietado e contrariado Tâmara, mas a perniciosa influência exercida por Arsénio cobrira de sombra e de confusão sua alma.
O contacto de sua impura paixão desviara-a da vida calma e ideal que a satisfizera até então.
E, contudo, seu supremo desejo era o de reconquistar aquela quietude serena e retomar o seu papel de fiel enfermeira.
Por outro lado, a possibilidade de um restabelecimento de Magnus causava-lhe desagradável apreensão.
Forçosamente, nesse caso, ela deveria arrancar-se aos seus mais caros hábitos, ao seu papel de heróica abnegação, à auréola de isto lhe proporcionava e tudo isso para descer a uma existência vulgar, que em nada a atraía.
Por outro lado, a perspectiva de tal mudança punha sombrias nuvens no rosto da moça.
Madame Ericson conhecia muito bem sua protegida para deixar de notar que profunda desarmonia invadira sua alma.
Assim que sua convalescença proporcionou longas horas de conversação, ela a observou mais atentamente e, certa manhã que Tâmara lia para ela alguma coisa, mas obviamente pensava em algo diferente, Eveline tomou-lhe o livro das mãos e disse afectuosamente:
— Prefiro conversar com você, minha filha.
Graças a Deus, sinto-me bastante forte para enfrentar um assunto que há muito me inquieta.
Você mudou, Tâmara, e há confusão e irritação na sua alma.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 8:34 pm

Pois bem, se você ainda tem pela sua velha e maternal amiga a afeição e a confiança de outrora, conte-me o que a oprime.
Talvez nós duas juntas possamos dissipar as sombras que pesam sobre seu coração.
Tâmara enrubesceu vivamente e, tomando a mão de Eveline, levou-a nervosamente aos lábios.
— Ah, se você pudesse me esclarecer acerca do caos de minhas emoções!
Mas será que eu própria seria capaz de fazê-la compreender o que me atormenta?
Madame Ericson atraiu-a para si.
— Sente-se aqui, como outrora, e abre-me seu coração.
O amor inspirará, talvez, o que é preciso fazer para acalmá-la.
— Ouve, então, tia Eveline, e eu lhe ficarei devendo mais um benefício se você me esclarecer, pois sempre gostei de clareza nos meus sentimentos, e eles estão em tumulto, apesar de meu temperamento frio.
Essa lucidez eu a perdi.
Uma imagem proibida me assombra e me persegue e me parece que minha vida é falha, que a construí em cima de um erro, até mesmo de um sentimento egoísta e mau.
Fez uma pausa e prosseguiu:
— Você sabe que a desgraça me tornou cruel e dura comigo mesma e com os outros.
A humilhação, as mil picadas que me fez sofrer a sociedade frívola e impiedosa, com a qual fui conviver, acumularam em meu coração muitos rancores.
A riqueza que subitamente me foi concedida acordou em mim uma áspera satisfação:
até que, afinal, eu ia poder devolver ferimento por ferimento!
O desejo de verificar pela última vez a arrogância dos covardes que logo se curvariam diante de mim levou-me ao baile com o Almirante, para saborear a rejeição como homenagem, da qual eu não teria mais o prazer de gozar.
Nova e breve pausa se fez, mas ela continuou:
— Em seguida, representei durante mais de dois meses uma comédia pérfida, encorajando as homenagens, fingindo interessada em todos, para repeli-las, depois, com desprezo e divertir-me ante o desapontamento e a raiva dos que não me haviam nem notado quando eu era pobre.
Acho que nisso pequei pelo coração e também contra a caridade, mas eu estava super-excitada e não era dona absoluta de mim mesmo.
Meu noivado com Magnus foi, receio eu, o acto final de um jogo perigoso, que resumirei na dura palavra que eu sabiá iria divulgar-se:
“Preferi um estropiado do corpo a um estropiado da alma!”
Procurei, assim, um modus vivendi, um acordo com a sociedade e pensava encontrá-lo nesse casamento.
Coloca-se aqui um problema de natureza moral que somente foi surgindo aos poucos; mas que me atormenta profundamente.
Quase às vésperas da minha doença, Magnus me pedira em casamento e eu teria aceitado com alegria sua generosa oferta, pois estava no limite das minhas forças, aspirava a um repouso qualquer e o pretendente me inspirava a mais afectuosa simpatia.
Contudo, recusei sumariamente, bem decidida a não casar-me com ele jamais.
E isso apenas porque um homem que, no entanto, eu desprezava me fizera uma insinuação insultante que o casamento teria confirmado.
Nesse ponto, ela contou sua conversa com Arsénio naquele dia.
Pouco depois, retomou o fio da sua narrativa, que começava com uma pergunta.
— Diga-me você, que tem profundo conhecimento do coração humano, se eu teria agido assim se de facto amasse Magnus.
Se algumas palavras, desconhecidas de todos, teriam podido influenciar-me a esse ponto e se, ao escolhê-lo, mais tarde, não estava eu apenas obedecendo ao meu egoísmo.
E, antes da resposta, continuou.
— É verdade que procurei ser para ele uma enfermeira devotada.
Ele me é caro, sua morte causaria um vazio em minha vida e, contudo, desde, uma cena que tive com Ugarine, na véspera de minha partida para aqui, a imagem do Príncipe me persegue como uma obsessão.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 8:34 pm

Com as faces afogueadas por um rubor febril, ela contou tudo o que se passou naquele dia.
— Desde aquele momento, veja você, não mais sosseguei.
Não adianta dizer a mim mesma que Arsénio é um frívolo libertino, lembrar-me de todas as justas mágoas que tenho dele:
a lembrança de suas apaixonadas declarações de amor; de seu olhar, de seu desespero, me perseguem e vivo a sonhar de olhos abertos com um homem que nada significa e nada pode significar para mim.
Contei a Magnus o que se passara, mas aquilo não era mais um impulso do coração como outrora.
Algo entre nós se modificara.
Eu me sentia apenas orgulhosa demais para suportar um segredo entre o Príncipe e eu.
Magnus, por sua vez, recebeu de maneira muito singular minha leal confidência.
Ele não é mais para mim o que era, e admito que até a ideia de que ele possa ficar curado me é desagradável e me atormenta.
Não quero mudar nada em minha vida e me parece que por um marido é preciso ter outros sentimentos e não os que estou tendo por Magnus.
Ela calou-se e, com um gesto nervoso, encostou a cabeça aos ombros de sua fiel amiga.
Madame Ericson ouvira atentamente a longa confissão de Tâmara.
- Uma vez que você gosta das coisas bem claras, minha filha, e deseja que eu analise suas emoções, devo dizer-lhe que você está seguindo por um caminho perigoso.
Nada de mais pérfido do que os sofismas inspirados pelas nossas fraquezas, se não tivermos a coragem de sondá-los e de identificá-los para voltar ao caminho recto.
Suas reflexões e seus escrúpulos sobre os motivos que a levaram a desposar o Barão não passam de sofismas, por meio dos quais você tenta legitimar perante si mesma a fraqueza de deixar-se dominar pela imagem de outro homem.
O Príncipe, no seu atentado à sua paz de espírito, é duplamente criminoso, como você mesma disse.
Apesar disso, o fluido impuro de sua paixão infiltrou-se na sua alma e, de tal maneira já desviou você dos seus verdadeiros sentimentos e da caridade cristã, que a cura impossível de seu marido parece-lhe repugnante.
O único conselho que posso dar-lhe, minha querida, é o de sacudir energicamente esses devaneios doentios.
Se você quer mesmo recuperar a paz, reassuma seus deveres, a afeição pura e legítima que lhe inspira seu marido e aceita o futuro tal como Deus o fará.
Quanto ao Príncipe, você deve evitá-lo, e será útil e razoável que, por um ano ou dois, você e Magnus venham residir em Estocolmo.
Tâmara ouvira tudo, ora corada, ora empalidecendo.
— Diga-me, “tia” Eveline, você acredita, em sã consciência, que eu amasse Magnus ao desposá-lo, apesar das circunstâncias da época?
— Essa é a minha convicção.
Você baseou sua união no mais puro e mais honesto sentimento que possa unir um casal:
a estima e a convicção de ser amada com um amor desinteressado.
As mais fogosas paixões extinguem-se, a beleza passa como um sonho, mas a estima e afeição nos sustentam até o túmulo.
Tâmara nada mais disse.
Abraçou silenciosamente a amiga e, em seguida, retirou-se para o seu quarto, mas desde aquele dia ficou mais calma e muitas conversas sobre o mesmo assunto conseguiram, pouco a pouco, restabelecer o equilíbrio de sua alma abalada.
No começo de junho, Tâmara recebeu do marido uma carta mais curta do que as antecedentes, na qual lhe comunicava que os médicos o haviam mandado ir para Ems,32 onde ele pedia que sua mulher fosse ao seu encontro, o mais breve possível.
Sobre a cura ou o resultado do tratamento, nem uma palavra e, por causa disso, bem como pelo tom triste e evasivo da carta, ela concluiu que nenhuma alteração importante ocorrera no estado do doente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 8:35 pm

Apesar de todas as boas resoluções suscitadas por suas longas conversas com Eveline, a moça sentiu verdadeiro alívio:
a ideia de ir ao encontro de um apaixonado amoroso no marido curado não lhe agradava, mas, de todo o coração, estava pronta a reassumir seu posto de enfermeira devotada.
Telegrafou, pois, imediatamente, para informar-lhe que partiria dentro de três dias juntamente com Fanny.

28 Circe — Na lenda grega, famosa feiticeira, filha de Hélios e da ninfa marinha Perse.
Tinha a faculdade de transformar seres humanos em animais, ministrando-lhes drogas e encantamentos. Seu palácio era guardado por essas criaturas.
Quando Odisseu a visitou na sua ilha, ela transformou seus companheiros em porcos, mas ele não apenas escapou ao feitiço por meio de. uma erva, como obrigou-a a devolver seus homens à condição humana.


29 Pigmalião — Lendário escultor de Chipre.
Apaixonou-se por Galateia, uma de suas estátuas, e conseguiu que a deusa Afrodite a transformasse numa mulher viva, com a qual se casou.
O dramaturgo inglês Bernard Shaw utilizou-se do tema, numa de suas famosas peças, para contar a história de um homem que resolve educar uma rude jovem para casar-se com ela.
O musical My Fair Lady, produzido com enorme sucesso no teatro e no cinema, também se aproveitou do tema.


30 Troika - Diz-se, na Rússia, de um grupo de três cavalos atrelados com a finalidade de puxarem uma carruagem ou um trenó.

31 Nancy — Funcionava, na época em que se passa a história narrada por Rochester, uma famosa clínica em Nancy, sob a direcção de dois médicos eminentes, o Dr. Liébault e o Dr. Bernheim, que obtiveram curas fantásticas mediante utilização da hipnose.
A Escola de Nancy desenvolveu métodos diferentes dos que se utilizava o Dr. Charcot na não menos famosa Salprêtrière, em Paris.


32 Ems — Cidade dotada de fontes termais, perto de Coblenz, na Alemanha Ocidental.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 8:35 pm

A cura e o confronto

Era meio-dia quando o trem, avançando lentamente ao longo da plataforma cheia de gente, chegou a Ems e parou.
Tâmara deixou o seu vagão e, sem afastar-se, começou a procurar, na multidão, Frederico, que deveria estar por ali à sua espera.
Mas, subitamente, empalideceu e seu coração disparou a bater como se fosse arrebentar-lhe o peito, enquanto uma nuvem cobria-lhe o olhar:
como que paralisada, incapaz de um movimento, fitava um homem de elevada estatura que, acompanhado de Frederico, caminhava em sua direcção com vivacidade.
Era o belo rosto um pouco pálido de Magnus, mas aquele passo firme e ágil poderia pertencer ao paralítico?
Olhou-o como se estivesse a ver um fantasma e, somente quando ele tomou sua mão, ela exclamou com a voz entrecortada.
— Magnus, você está curado!
Será que ele esperava outro tipo de alegria?
Ou sentia uma desarmonia na vibração da voz amada?
Seja como for, uma pequena ruga desenhou-se na testa do Barão, quando levou aos lábios a pequena mão enluvada e murmurou de voz baixa:
— Perdoa-me por havê-la assustado dessa maneira.
Eu deveria tê-la prevenido quanto à minha cura.
Tâmara sentiu a censura, percebeu o nervoso tremor nos lábios do marido e procurou uma palavra afectuosa, mas, na sua confusão, nada encontrou para dizer-lhe, e já o Barão se voltara para transmitir algumas ordens a Frederico, quando à bagagem.
Em seguida, ofereceu o braço à esposa e a conduziu rapidamente rumo ao portão de saída.
A jovem acompanhava-o como num sonho e foi somente depois de instalada numa elegante carruagem que conseguiu falar.
— Você foi muito mau, Magnus, por me ocultar sua cura — disse com a voz incerta e seu olhar, sempre tão franco, fugiu quando o jovem inclinou-se para ela e seus olhos procuraram os seus.
— Eu temia que, uma vez sabendo que eu estava curado, você não quisesse mais vir — respondeu ele com certa amargura.
— O que você está dizendo, e em que basear tal suspeita? — perguntou a moça com um tom de censura.
— Será que me enganei, Tâmara?
Serei muito feliz se isso acontecer.
— Mas claro!
Nesse momento a carruagem virou, atravessou um portão de grade, aberto, e foi estacionar aos pés da escadaria de uma elegante vila cercada de jardins.
Um criado, que os esperava, acorreu à entrada para ajudá-los a descer.
— Sua Alteza já chegou a está esperando no terraço — disse o lacaio, enquanto o Barão oferecia sua mão à esposa.
— Está bem — disse ele, voltando-se para Tâmara que, absorta em seus tumultuados pensamentos, não prestara atenção alguma a essas palavras, e acrescentou:
— Sem dúvida, você vai querer repousar e mudar de roupa.
Permita-me levá-la até seus aposentos.
Ele a conduziu através de uma fileira de aposentos luxuosos, até um encantador quarto de vestir, junto ao qual havia um vasto quarto de dormir.
— Se você precisar de uma criada até à chegada de Fanny, ou se quiser vestir-se logo, bastará tocar aquela campainha e uma camareira estará à sua disposição — disse o Barão, virando-se para sair.
Mas a moça fê-lo parar.
— Magnus, por que você foge?
Não o estou compreendendo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 8:35 pm

Você mudou completamente todo o seu ser, - disse com a voz ligeiramente trémula.
O moço parou e seu olhar mergulhou como uma chama no de Tâmara.
— Eu lhe direi tudo depois.
Agora estou sendo esperado, pois temos um hóspede para o almoço.
Até logo. Dentro de uma hora virei buscá-la.
Atraiu-a para si, deu-lhe um beijo nos lábios e saiu.
Num estado de espírito difícil de descrever, Tâmara atirou-se a um divã e somente a entrada de sua fiel camareira arrancou-a de suas reflexões.
— Fanny, arranja-me depressa um vestidinho leve, pois está fazendo calor e o Barão espera alguém para jantar — disse ela distraidamente.
— Não há necessidade, Senhora Baronesa.
Gertrudes, a segunda Camareira, acaba de me entregar uma série de caixas vindas de Paris.
Elas contém toaletes de verão, brancas na maior parte, como a senhora gosta.
Só falta escolher. -
— Não tenho tempo.
Dê-me o mais simples deles e depressa — respondeu a moça, emocionada com a atenção de seu marido.
Fanny colocava o último alfinete numa encantadora toalete de musselina branca quando Magnus chegou.
Silencioso e preocupado, ele conduziu sua jovem esposa a um vasto terraço que se abria sobre o jardim e no qual se via uma mesa posta com todo o esmero.
Subitamente Tâmara estacou e um fugitivo rubor coloriu sua face:
no visitante vestido de preto, que se levantava, visivelmente perturbado, para saudá-la, acabava de reconhecer Ugarine.
Se ela tivesse olhado para o marido naquele instante, teria percebido o olhar penetrante com o qual ele observava os dois, mas tinha outra coisa em mente.
— O senhor aqui, Príncipe?
Que surpresa! — observou Tâmara, enquanto Ugarine beijava-lhe as mãos.
Em seguida, como tinha sede, aproximou-se da mesa e serviu-se de um copo de água.
— Teria imaginado qualquer outra pessoa, menos o senhor aqui em casa de meu marido — disse ela, virando-se com um sorriso um tanto forçado.
— Foi um acaso bem triste que trouxe Arsénio — disse Magnus com a voz velada.
A morte súbita de Catarina forçou-o a vir.
Ante essas palavras, um calafrio nervoso sacudiu a moça.
Tão branca quanto seu vestido, apoiou-se à mesa e reencontrou o olhar fogoso de Arsénio:
o copo escapou-se-lhe da mão trémula e quebrou-se com estrépito sobre as lajes.
Diante dessa muda confissão, os dois homens empalideceram mortalmente, só que o coração de Arsénio saltava de alegria, enquanto o de Magnus parava como que apanhado por um torno.
Apesar de sua tremenda emoção, Tâmara notou e compreendeu o que se passava com os dois homens, cujos olhos se mediam como duas espadas no campo da luta.
Ela viu bem, tanto o brilho de triunfo em um, como o ódio desesperado no outro, e, com um esforço quase sobre-humano, mas incapaz de falar, fez um gesto ao criado, que viera servir um prato, para apanhar os cacos do copo.
Em seguida, tomou seu lugar entre os dois senhores e serviu-se maquinalmente de uma asa de galinha.
Os dois homens imitaram-na em silêncio e apenas o tilintar de facas e garfos, bem como os passos dos criados que serviam a refeição, perturbavam o lúgubre silêncio daquele almoço.
Tâmara pensava sufocar.
Compreendia agora em toda a sua extensão a pérfida cilada que Magnus lhe preparara, ocultando-lhe sua cura e colocando-a inesperadamente em presença de Arsénio para anunciar-lhe que ele estava livre.
E promovera isso após a leal confissão que lhe fizera de tudo quanto se passara entre ela e o Príncipe.
Todo o seu orgulho se revoltava ante o pensamento de que Magnus tentara penetrar de surpresa no santuário dos seus mais íntimos pensamentos e a havia tratado daquela maneira diante de Arsénio, o que explicava seu espanto e sua emoção de maneira inteiramente diversa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 8:35 pm

Jamais teria esperado tal procedimento da parte do homem que ela conhecera fraco e sofredor, que a havia idolatrado e mostrado um reconhecimento apaixonado pelo seu devotamento e seus cuidados com ele.
Agora que ele estava de pé, tornara-se completamente diferente do paralítico e tamanha cólera fervia nela, por ele, que a custo se continha.
Apenas uma vez seu olhar cruzara com o do marido, mas foi o suficiente para que ele pudesse sentir que havia liberado desconhecidos demónios.
Jamais os grandes olhos cor de aço haviam dardejado sobre ele tal centelha de cólera e de desprezo.
Arsénio também observava sua jovem hospedeira e, à vista de sua palidez mortal, do tremor nervoso de suas mãos e do olhar sombrio e hostil que surpreendeu nela, o Príncipe não tinha dúvidas de que uma terrível tempestade desabava do céu conjugal de seu primo.
O temperamento orgulhoso e violento de Tâmara levava mesmo a supor que ela destruiria e atiraria para longe de si tudo o que até então lhe fora tão caro.
Tanto melhor!
Dos escombros do passado, seria construída, talvez, sua felicidade e, certamente, Magnus cometera, por causa de seu surdo ciúme, uma grave imprudência, provocando aquela espécie de confrontação e convidando-o, logo a ele, por ocasião da chegada da esposa.
É fácil de entender que os convivas desse penoso repasto tivessem pressa em terminá-lo e somente a presença dos criados manteve até o fim o decoro tradicional.
Afinal, a última iguaria foi recolhida.
Levantaram-se os três e, após haver conscienciosamente agradecido à dona da casa, o Príncipe retirou-se.
Seu olhar fuzilante buscou o da moça, mas ela havia baixado os olhos respondendo à sua saudação com uma ligeira inclinação da cabeça.
— Não importa — pensou ele.
Você me pertence!
Você se traiu e ele, o tolo idealista, concederá sua liberdade.
Depois de haver acompanhado o primo, Magnus dirigiu-se ao seu gabinete e mandou um criado dizer à Baronesa que rogava sua presença nos seus aposentos.
Tâmara esperava apenas esse momento para dar, enfim, livre curso a tudo quanto fervia no seu íntimo.
Atravessou quase a correr o salão e penetrou no gabinete, do qual Magnus fechou a porta logo que ela entrou.
O casal estava a sós.
O Barão apoiou-se à escrivaninha.
Estava pálido, mas calmo e apenas uma veia púrpura que marcava sua testa demonstrava sua emoção e desmentia um pouco a fria decisão que se notava em sua face fina e aristocrática.
— É indispensável que nos expliquemos, Tâmara — disse ele.
— Sim — disse ela, não mais se contendo.
Quero uma explicação sobre a estranha recepção que você me preparou aqui.
O que significa tudo isso?
As sobrancelhas de Magnus se contraíram e um sombrio fulgor brilhou nos seus olhos.
— Isto significa que eu precisava saber, afinal, qual de nós dois você prefere — eu ou Arsénio, que se tomou livre.
A esta altura, a dúvida me é permitida mais do que nunca:
a lisonjeira impressão causada pela minha cura e a cena no terraço provam melhor do que as palavras, que você ama o Príncipe.
Que seja! Seu papel de enfermeira está encerrado.
Concederei, portanto, sua liberdade com o divórcio.
A diferença de religião tomará mais fácil nossa separação.
Dentro de alguns dias, partirei para Petersburgo, a fim de dar início ao processo, mas em todo o caso, assumo a responsabilidade de todos os erros.
Petrificada, com os olhos dilatados, Tâmara ouvia tais palavras que a atingiam como golpes de clava.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 8:35 pm

Por um momento, pensou desmaiar, mas o orgulho e a indignação sustentaram-na de pé.
— Com que direito tais insultos e essas covardes acusações? — exclamou ela, sem fôlego e fora de si.
Com que direito você quer atirar essas infâmias ao rosto da mulher da qual você procura desembaraçar-se?
Que dirá a sociedade de um divórcio iniciado pelo marido, logo que ficou curado?
Você quer assumir a responsabilidade pelos erros?
Zomba de mim, sem dúvida, com essa farsa de generosidade, pois não tenho nada de que acusá-lo.
Apenas você se engana:
não permitirei que minha honra seja convertida em lama.
Não me deixarei ser expulsa pela porta afora, como um objecto que se tomou supérfluo, está ouvindo? Exijo...
Ela deu um passo na direcção dele.
— Exijo que durante um ano ainda fiquemos unidos aos olhos da sociedade.
Na próxima primavera você estará livre para ir para onde quiser.
Não digo isso para cercear sua liberdade.
Divirta-se à vontade e recupere o tempo perdido.
Sou eu, agora, que não quero continuar sendo sua mulher.
Saiba que jamais me casarei com o Príncipe Ugarine, mas o seu procedimento é inqualificável!
Faltou-lhe a voz.
As lágrimas sufocavam-na e, tremendo nervosamente, ela se apoiou a uma poltrona.
Magnus corara e seu olhar se pregara com estranha expressão na face transtornada da moça.
Sofria em ver a mulher que ele idolatrava presa da luta moral que ele próprio provocara e, ante sua super-excitação e a dor aguda que apertava seu próprio coração, lamentou, por um instante, haver evocado o fantasma.
Mas não, ele não queria fazer sofrer aquela que lhe era mais cara do que a vida e em cujo coração reinava outra imagem.
— Acalme-se, Tâmara — disse, aproximando-se vivamente e tomando-lhe as mãos.
Longe de mim o pensamento de magoá-la.
Desejo apenas sua felicidade, ainda que, na irritação do momento, eu me tenha expressado mal.
Você ama Arsénio, ainda que o negue.
Em mim, você amava o paralítico.
Uma vez curado, não quero impor-lhe minha presença.
Profunda amargura vibrava na sua voz.
Tâmara puxou suas mãos com violência.
O que ela sentia naquele momento era indescritível:
as palavras não bastavam à sua cólera.
Parecia-lhe que, se ela pudesse entregar-se a uma agressão física sobre o marido, teria sentido algum alívio.
— As provas! As provas! — exclamou trémula.
Você não pode provar nada do que alega, pois jamais faltei a dever algum com você.
Tenho sido escrupulosamente fiel.
Jamais concedi a nenhum homem um olhar ou uma palavra encorajadora.
Mas você quis, maldosamente, humilhar-me perante o Príncipe.
Um homem que ama de verdade e se sacrifica por amor, não faz uma coisa dessas em público.
Ele confia na honra da mulher e pode, quando muito, suspeitar de uma fraqueza do coração, não de uma vulgar infidelidade.
— Tâmara, você deturpa à vontade minhas intenções.
Jamais suspeitei de sua fidelidade, mas conheço o seu orgulho.
Você teria preferido morrer do que admiti-lo.
Se eu quisesse saber, tinha que apanhar você de surpresa.
— Você querer saber... o quê, e com que direito?
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Ave sem Ninho

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