Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 7:51 pm

Se jamais uma nuvem me obscureceu a alma, o segredo desses pensamentos íntimos me pertencem exclusivamente.
Ninguém tem o direito de arrancar o véu que os cobre e ainda mais dessa maneira brutal.
E você me trata como a adultera que é preciso desmascarar.
Ah, bem que mereci esse insulto por haver acreditado em você, por havê-lo considerado um dos seres mais nobres e mais puros, para o qual fui decidida a permanecer sua fiel esposa, qualquer que fosse o futuro, de vencer e expulsar todas as sombras de minha alma.
Bem vãos eram os meus escrúpulos.
Você é um digno produto da sociedade na qual foi criado e no seio da qual viveu até que a desgraça o abateu.
No momento em que se pôs de pé, tomou-se incapaz de compreender até mesmo a honestidade.
Você pensa mesmo que se eu quisesse traí-lo teria necessidade de esperar pela sua cura?
Magnus suspirou e baixou a cabeça.
Compreendia que naquele momento Tâmara era intratável e cega e que não podia mais contar com a sua afectuosa indulgência de outrora.
A cruel satisfação com a qual ela o pisoteava provava sua raiva insensata.
— Acabemos com esta conversa e que seja como você quer.
Por enquanto, permaneceremos unidos aos olhos da sociedade e, na primavera próxima, decidiremos o resto.
Mas — acrescentou ele gravemente — deixa-me dizer-lhe, Tâmara, que seu orgulho desmesurado, esse orgulho que você transformou no seu próprio Deus, sempre há-de impedir sua felicidade, pois você sacrifica a ele todos os demais sentimentos.
Por orgulho, você nega o seu amor por Arsénio e, talvez a raiva de tê-lo tido por testemunha de sua fraqueza o tomará mesmo odioso aos seus olhos.
Se você me amasse, teria compreendido melhor minha intenção e não teria repelido como um insulto meu desejo de torná-la livre.
Enquanto não sacrificar seu orgulho ao verdadeiro amor, que tudo suporta e perdoa, você não será feliz.
Sem responder, a moça virou-lhe as costas, abriu a porta com violência e precipitou-se na direcção do terraço.
A cabeça parecia rodar, todos os seus nervos vibravam e uma sede terrível ressecava-lhe os lábios.
Magnus a seguira maquinalmente, e a viu apanhar um copo e enchê-lo com a água que estava numa garrafa colocada num balde de gelo sobre a mesa.
Rápido como um raio, ele correu para junto dela e segurou-lhe o braço.
Fora de si, a moça tentou afastar o copo do alcance dele.
— Que significa essa nova violência?
Em que deseja você se meter?
Você perdeu sobre mim todo o direito moral e o que faz a estranha que irá deixá-lo dentro de alguns meses não é da sua conta.
Com um movimento irresistível, Magnus tomou-lhe o copo e lançou o seu conteúdo por cima da balaustrada.
— Você se engana — disse, mergulhando seu olhar calmo e decidido nos olhos chamejantes de Tâmara.
Enquanto você viver sob meu tecto e assinar o meu nome, não lhe permitirei fazer loucuras.
Considero-me responsável por você perante Deus e você se esquece, além disso, que o consentimento para o divórcio ainda depende de mim.
Perante a lei e os homens, você me deve obediência.
— Ah! Eu lhe provarei logo a importância que dou às suas ordens — retrucou a moça, retorcendo nervosamente as rendas da sua écharpe.
Hoje mesmo partirei para Estocolmo e você não poderá proibir-me.
Ante essa revolta infantil e a súbita teimosia que se alternavam em seu rosto como um inferno de emoções desconhecidas, um fugitivo sorriso perpassou pelos lábios do Barão, apesar do temor que lhe inspirava a terrível super-excitação de Tâmara.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 7:52 pm

— Você não irá a parte alguma, senão ao seu quarto para acalmar-se e repousar.
Você é incapaz de raciocinar no estado em que se encontra — disse ele, amparando-a, pois ela cambaleava.
Tâmara, Tâmara, será que é você mesma que estou vendo?
A moça nada respondeu.
Estava mesmo no limite de suas forças, faltava-lhe o ar e mal respirava.
Nuvens negras passavam diante de seus olhos.
Com o passo incerto ela se dirigiu aos seus aposentos.
Magnus seguiu-a com um olhar ansioso.
Em seguida, atirando-se a uma poltrona de junco, afastou com as duas mãos seus espessos cabelos castanhos.
Também nele rugia a tempestade que provocara.
A paixão há tanto tempo contida, que lhe inspirava Tâmara, assumira proporções gigantescas após a cura.
Ele queria, com todas as fibras de sua alma, que aquela estranha e fascinante criatura lhe pertencesse e preferia renunciar a ela do que admitir que um só de seus pensamentos fosse dedicado a outro homem.
E, no entanto, apesar de tudo que acabara de ocorrer, um suspiro de alívio escapara-lhe do peito, ao verificar que a separação estaria adiada por um ano.
Quem sabe?
Durante essa longa trégua, talvez ele reconquistasse a felicidade.
A cólera de Tâmara não seria eterna.
A brusca entrada de Fanny veio interromper suas reflexões.
— Senhor Barão, venha depressa ver Madame — exclamou a fiel camareira, muito agitada.
Acabo de encontrá-la como morta na poltrona.
Ela não ouve e não se mexe.
O jovem saltou sobre os pés e precipitou-se desabaladamente rumo ao quarto de dormir de sua mulher.
Encontrou-a estendida, semi-inconsciente.
Sua frágil natureza rompera-se sob a pressão da tormenta e estava em completa prostração.
— É preciso deitar a Baronesa.
Depressa, Fanny!
Arrume a cama dela — disse ele friccionando vinagre aromático nas têmporas e nas mãos de Tâmara.
Em seguida, levantou-a como uma pluma e a colocou sobre o leito.
— Troque a roupa dela, enquanto vou apanhar um calmante.
Um momento após voltou com as gotas sedativas que usara durante sua enfermidade, quando estava muito nervoso.
A jovem estava deitada, com os belos cabelos desfeitos espalhados pelos travesseiros em mechas bem cuidadas.
O rosto estava agora revestido de uma palidez mortal e suas pequenas mãos repousavam sobre as cobertas.
Ao primeiro olhar, Magnus reconheceu que ela voltara a si, apesar de manter os olhos fechados.
Jamais a vira tão sedutora e seu coração batia violentamente quando se inclinou para ela e murmurou com ternura: “Tâmara!”.
Os longos cílios tremeram, mas as pálpebras permaneceram fechadas.
— Vamos, não seja teimosa!
Bebe! — disse o jovem, levantando-lhe a cabeça e aproximando a colher de seus lábios.
Ela abriu os olhos e bebeu, mas o olhar que lançou rapidamente a Magnus era sombrio e agressivo e, logo que pousou a cabeça no travesseiro, virou-se para um lado.
Pouco depois, Tâmara adormeceu e o estado de fraqueza produzido pela sua louca super-excitação era tal que, salvo uma única interrupção, dormiu até o dia seguinte e só foi acordar à tarde.
Sentia-se alquebrada de fadiga, mas completamente sóbria.
Levantou-se, vestiu um ligeiro peignoir e ordenou a Fanny que corresse as cortinas de seda azul que mergulharam o aposento em doce e calma penumbra.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 7:52 pm

Em seguida, estendeu-se comodamente numa cadeira de braços.
— Não deixe entrar ninguém, Fanny.
Não estou para quem quer que seja — disse ela, ajeitando-se sobre as almofadas.
— E se o senhor Barão quiser entrar?
Ele já veio umas cinco ou seis vezes desde ontem — disse a moça embaraçada, suspeitando de algo grave.
— Você me desculpará com Magnus Oscarovitch, dizendo-lhe que estou com uma forte enxaqueca e devo repousar.
Ficando só, ela fechou os olhos e se pôs a recapitular os acontecimentos.
Sua primeira sensação foi uma dor pungente:
de novo ela era arrancada à sua paz, entregue a um futuro desconhecido e condenada a longos meses de convivência com o homem que cessara de desempenhar na sua vida qualquer papel importante.
A segunda impressão foi a de profundo desprezo, enquanto a lembrança das cenas da véspera fez-lhe subir uma onda de sangue à face.
Como pudera abandonar-se daquela maneira à violência e demonstrar que a flecha envenenada a havia atingido, deixando escapar diante do Príncipe o reconhecimento de algo que ela jamais admitira, nem a si mesma?
A lembrança de Ugarine despertava nela apenas uma surda repulsa.
A humilhação sofrida em sua presença parecia tê-la curado radicalmente do sonho doentio, do qual a acusava Magnus.
Em verdade, o orgulho desempenhava papel preponderante na vida de Tâmara.
Durante os anos de miséria, servira-lhe de couraça e ajudara-lhe a riscar de uma hora para outra toda a lembrança do noivo desleal.
E fora ainda sua muralha contra todos os tipos de arrastamento; depois que se tomou rica.
Desiludida muito cedo, aquela alma orgulhosa e sensível recolhera- se sobre si mesma, observando, desafiadora e zombeteira, as pessoas que a cercavam.
Aquela cabeça, carregada de saber, subtilizada pelas mais diversas ciências, criara um mundo, com suas ideias à parte.
Ela julgava com rigor os defeitos, as fraquezas e as lacunas no saber alheio que se revelavam ao seu olhar crítico e nenhum dos homens que conhecera atingia ao ideal que ela desejava amar.
Somente Magnus resistira, pelo seu saber e pela subtileza de seu espírito.
Mas, como cavalheiro, ele não desempenhara nenhum papel junto dela.
E por muito que houvesse estudado o carácter dos outros, o de seu marido nada lhe dizia a esse respeito.
Era um homem bom, amável, doente e instruído, muito instruído, com a qual ela trabalhava e conversava à vontade.
Era como um bebé grande, que ela mimava e cujo apaixonado reconhecimento lhe era agradável.
Ela gostava daquela existência calma, isenta de emoções violentas, alegrada pelos vãos esforços que eram tentados para agradar-lhe.
Sem um mínimo de emoção, mas intimamente divertida, ela ministrara mais de uma ducha de água gelada e sua luta íntima com Arsénio não mais a inquietava.
Até à última cena entre eles, ela conduzira aquele jogo perigoso graciosamente, com um sorriso nos lábios, diante de Magnus, sem suspeitar jamais que o jovem sofria há longo tempo com seus ciúmes.
E, subitamente, seu carácter revelava-se num aspecto inteiramente novo.
Ela se encontrava agora desligada do seu passado, divorciada, de facto, e posta em presença de Arsénio, subitamente livre em consequência da mais inesperada das catástrofes, em vista da robusta saúde de Catarina.
E ele ousara provocar toda aquela confusão nela, ele, por quem a adoração cega era um dever!
Como o detestava naquele momento.
Algo se crispava nela à sua simples lembrança.
No dia seguinte, ela vestiu-se para jantar e apareceu no terraço, um tanto pálida, mas aparentemente calma.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 7:52 pm

Queria dizer a Magnus que desejava ir embora de Ems, onde estava sujeita a encontrar-se com Arsénio, o que lhe era duplamente repugnante.
Não apenas sua presença se lhe tornara odiosa, como também ela não desejava fingir um bom entendimento com o marido, nem pôr o Príncipe a par de sua desinteligência com aquele.
Muito feliz por revê-la, Magnus aproximou-se vivamente e beijou-lhe a mão, mas ante seu olhar gelado, compreendeu que Tâmara sentia-se mais aborrecida e rancorosa do que nunca.
Após o jantar e antes de regressar aos seus aposentos, ela parou diante do Barão e lhe disse com a altiva indiferença que costumava testemunhar aos que a desagradavam:
— Desejaria propor-lhe deixar Ems, se nada o retém aqui, para passar o resto do verão na Finlândia.
Nesta cidade escaldante de praia, estamos expostos a encontros que não seriam agradáveis nem a você nem a mim.
— Nada me retém aqui.
Seu desejo é o meu.
Partiremos o mais cedo possível.
Mas, por que esse tom e esse olhar, Tâmara?
Diante de outras pessoas, não podemos mudar nada em nosso relacionamento habitual e eu esperava que, uma vez repousada, você assumisse uma atitude mais justa e conciliadora.
Um sorriso forçado passou pelos lábios de Tâmara.
— Creio ser conciliadora, conformando-me a todas as suas decisões de anteontem.
Quanto ao tom, é difícil para mim fazê-lo diferente daquele que empregam num salão duas pessoas da melhor sociedade forçadas a permanecer juntas por algum tempo.
Uma vez perdida a estima e a confiança recíprocas, não restam senão as aparências a um bom entendimento, a polidez.
Mas essas aparências é preciso conservar. Você tem razão.
Peço-lhe, pois, marcar o dia de nossa partida, para que eu tome minhas providências pessoais.
Com maldosa satisfação, Tâmara observou que profunda palidez cobria o rosto de Magnus.
Sorriu quando ele virou-lhe as costas e se dirigiu aos seus aposentos sem responder-lhe.
Mas, à noite, na hora do chá, ele disse rapidamente:
— Marquei a viagem para domingo à noite.
~ Tomarei as providências para que tudo esteja pronto conforme você ordena — respondeu Tâmara zombeteiramente.
No dia combinado, eles partiram.
Após a última cena, Magnus também se fechara na mais absoluta reserva e foi com essas disposições hostis que chegaram à Finlândia e se instalaram na mansão, onde haviam passado tantos dias calmos e felizes, e onde tudo estava tão cheio de recordações da afeição recíproca.
Agora tudo era diferente: os esposos evitavam-se.
As horas, que não mais se preenchiam com a conversação, pareciam intermináveis.
E como Magnus ocupava-se activamente da administração de sua propriedade, Tâmara ficou entregue a si mesma.
Ela procurava ler e pintar, como outrora, mas a tristeza e a distracção perturbavam até mesmo suas ocupações favoritas.
O futuro, o inevitável escândalo do divórcio, preocupavam-na e oprimiam-lhe o coração.
A ideia de que Magnus provocara, por causa de um miserável ciúme, toda aquela situação desagradável enchia-lhe de cólera.
E, contudo, a despeito desse rancor, ela não cessava de observar o marido com um interesse curioso.
Tudo nele parecia novo:
o passo ágil e firme, cuja aproximação inesperada lhe causava íntima emoção, o ligeiro bronzeado que substituíra a palidez doentia e emprestava um ar mais viril à sua face, enfim, a calma autoridade, com a qual havia retomado em suas mãos a direcção de tantos negócios que seu estado enfermo o forçara a confiar a Tâmara.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 7:52 pm

Com um interesse que ela nem mesmo saberia explicar, ela o observava todos os dias, da janela do seu quarto de vestir, que dava para o pátio, quando o Barão montava a cavalo para ir inspeccionar sua propriedade.
E, a cada vez, ela se perguntava se era mesmo o paralítico débil de outrora que dominava com tanta força e graça o fogoso garanhão árabe.
Tâmara adorava a equitação e era excelente amazona.
Retida, contudo, pelo seu mau humor, recusara sumariamente, quando Magnus viera propor-lhe um passeio.
Ele, por sua vez, não insistira mais.
Quanto a sair sozinha, por bravata, ela não conseguia ainda decidir-se.
Sob o peso de todas essas impressões, a moça compreendeu, pela primeira vez, que é possível a gente desejar fugir da sua própria casa e procurar fora, entre os estranhos, alguma distracção para esquecer o vazio que reina no lar conjugal.
As circunstâncias favoreceram esse novo desejo de Tâmara:
a miraculosa cura do Barão de Lilienstierna provocara verdadeira sensação por toda a parte.
Todos os proprietários vizinhos vieram felicitar o jovem, do qual todos gostavam muito e, por sua vez, o convidavam a ir à casa deles festejar sua ressurreição, como todos diziam a rir.
Para profunda surpresa do Barão, Tâmara, sem mesmo consultar-lhe, aceitou todos os convites e, tanto quanto evitara até então a sociedade e fugira das reuniões barulhentas, ela as buscava agora. Infatigavelmente visitava os vizinhos ou os recebia em sua casa, admitindo como dever indiscutível de seu marido acompanhá-la, satisfeito de desempenhar o papel de chefe da casa, nas festas improvisadas.
Magnus compreendeu o motivo pelo qual a moça se sentia atraída por esse febre de distracção e sofria por isso intimamente, mas, exteriormente, nada demonstrava, acompanhando a bela e extravagante esposa com imperturbável boa vontade.
Tais reuniões proporcionaram a Tâmara, inesperadamente, um espectáculo também novo para ela:
o êxito social de seu marido.
O belo e aristocrático senhor não podia deixar de atrair a atenção das mulheres, em sua maioria, depravadas e frívolas, que não demonstravam nenhum escrúpulo quanto a uma pequena ligação amorosa.
Por outro lado, os boatos de uma separação entre o Barão e sua esposa circulavam na surdina e as profetisas, entre as mamãs e as damas disponíveis, especulavam sobre a possibilidade do divórcio.
Uma jovem viúva, sobretudo, bela morena provocante e inteligente, atacou q Barão com a mais ousada sem-cerimónia e, a despeito de sua polida reserva, Magnus se via envolvido em toda a parte pela tentadora mulher.
Da primeira vez que Tâmara notou essas abordagens coquetes, ficou rubra de cólera e observou, disfarçadamente, como o marido reagia a essas inconvenientes provocações, irritando-se mesmo com o sorriso com o qual ele acolhia os avanços lisonjeiros da bela viúva.
— Sem dúvida, nada tenho com isso e, dentro de alguns meses, ele estará livre para ter quantas amantes quiser — tentava ela persuadir-se.
Mas enquanto o divórcio não é declarado, ele deveria ter a delicadeza de não se exibir e fazer essa desavergonhada entender que é um homem casado, obrigado ao decoro.
Tâmara não se dava conta de que era o sentimento de propriedade, subitamente despertado nela, que lhe causava aquele descontentamento.
Seja como for, antipatizou-se com a bela viúva e nunca se encontrava em casa quando esta vinha vê-la.
Magnus, que não perdia de vista sua esposa, observava todas essas pequenas peripécias e novas esperanças faziam bater seu coração.
Uma vez que nem todo o interesse por ele estava extinto, a felicidade poderia renascer, elevando-se das sólidas raízes criadas pelos anos de amor e confiança, bem como pela força do hábito.
Por essa época, chegou à sua propriedade Nina Alexandrovna, que veio logo fazer uma visita a Tâmara.
Esta procurou saber do Príncipe.
— Está aqui, comigo — respondeu a Princesa, mudando logo de assunto.
Algum tempo depois, Nina voltou, desta vez acompanhada pelo oficial dos hussardos que a Baronesa havia visto em seu camarote.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 7:52 pm

Vinha convidar o jovem casal para um grande baile campestre.
— É para inaugurar minha nova propriedade — acrescentou ela, rindo.
No ano anterior, Tâmara teria recusado, tanto mais que a presença do oficial, cuja posição junto da amiga ela adivinhava, chocava-a.
Mas, na sua nova disposição de espírito, aceitou o convite e compareceu no dia indicado.
Era o fim de julho, e o dia já escurecia, quando Tâmara e o marido chegaram e examinaram com interesse o aspecto feérico da casa e dos jardins iluminados.
A multidão de convidados era enorme, pois, além dos proprietários vizinhos, chegara muita gente de Petersburgo.
Nina, num vestido de crepe amarelo, com papoulas nos cabelos e ao peito, fazia as honras da casa, ajudada pelo fiel hussardo.
Estava numa alegria louca e dançava sem interrupção.
Tâmara também dançou, mas cansada do barulho e da multidão, aproveitou-se de um momento de pausa para escapar ao seu cavalheiro e pôs-se a caminhar por uma das alamedas menos frequentadas.
Por ali chegou de novo às proximidades da casa, mas pelo outro lado.
A mansão tinha dois pavimentos, construída sob forma de uma ferradura.
Diante da fachada principal estendia-se vasto gramado, transformado em salão de baile, enquanto o parque envolvia todo o restante do edifício.
Caminhando lentamente, a moça alcançou uma parte da casa mergulhada na escuridão.
Apenas a lua clareava docemente a areia da alameda e as sombrias árvores do parque.
Subitamente a Baronesa estremeceu e estacou:
parecia-lhe ter ouvido um gemido abafado.
Um instante depois, o mesmo som apagado repetiu-se.
Assustada, Tâmara examinou tudo em volta de si, com um olhar ansioso.
Estava diante de um pequeno terraço elevado, ao qual se subia por uma escada de três degraus.
Alguns arbustos plantados de ambos os lados projectavam suas sombras naquele recanto.
Ia já escapar, quando uma sombra negra saltou do terraço e, com um queixoso uivo, disparou para ela.
Profundamente surpresa, Tâmara reconheceu Tesouro, o terra-nova do Príncipe Emílio.
Curvou-se e acarinhou a cabeça do cão.
Com um latido alegre, o animal lambeu-lhe a mão e, em seguida, tomando-a pelo vestido, procurou arrastá-la na direcção do terraço, sacudindo a cauda e fitando nela os olhos súplices.
Nesse momento, o gemido se fez ouvir de novo e, sem hesitar mais, a moça subiu os degraus.
Havia ali um ser em sofrimento que talvez ela pudesse aliviar.
Por uma porta envidraçada, aberta de par em par, ela penetrou num pequeno quarto iluminado somente pela luz incerta de fora.
Nessa penumbra, percebeu, ao fundo, um leito sobre o qual agitava-se fracamente um ser de quem ela não podia distinguir os traços fisionómicos.
— Água! - murmurava uma voz rouca e entrecortada.
A Baronesa correu para uma mesa colocada junto à janela, onde podia ver uma garrafa, um copo, um jarro d’água e um candelabro de braços.
Encontrando, às apalpadelas, uma caixa de fósforos, a moça acendeu as velas e encheu rapidamente um copo de água, misturando-a com um pouco de vinho.
Sem hesitar, aproximou-se do leito, agora plenamente iluminado, mas, súbito, estacou trémula:
acabara de reconhecer o rosto, mudado, lívido e emagrecido do Príncipe Fluresco.
O doente também fitava com um olhar brilhante de febre a mulher vestida de branco e enfeitada de flores que ele não parecia reconhecer.
Trémula, como se também estivesse febril, Tâmara aproximou-se e, levantando a cabeça do moribundo, chegou-lhe o copo aos lábios ressequidos.
— Quem é a senhora?
Fique comigo.
Tenho medo, sozinho aqui — murmurou ele, após haver bebido.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 7:53 pm

A moça disse-lhe o nome.
— Sem dúvida, o senhor não pode ficar aqui.
Vou chamar alguém — acrescentou.
Ela própria estava com medo, sozinha com aquele homem visivelmente agonizante.
— Ah! estou sozinho desde esta manhã.
Todos estão ocupados por aí.
Mas a senhora, fique comigo.
Não quero que me deixe aqui!
Com a mão descamada agarrou bruscamente a de Tâmara.
— Não me abandone.
Estou morrendo e tenho medo da morte! — murmurou o Príncipe com entonação tão desesperada de súplica, que o coração de Tâmara ficou oprimido de pesar e compaixão.
Decidida a não deixar o desventurado abandonado de todos, ela retirou as luvas, enxugou com o seu lenço o suor que inundava a testa dele e, inclinando-se sobre o moribundo, murmurou docemente, como se estivesse a falar a uma criança enferma:
— Não se desespere, Príncipe.
Se os homens são maus e sem coração, Deus nunca nos abandona.
— Ah!, mereci a severidade dele e temo sua justiça... — murmurou o moribundo.
E como continuasse a prender-lhe a mão, Tâmara arrastou uma cadeira para mais perto dele e sentou-se.
| — A morte do corpo é apenas um renascimento mais acima.
Ore e confie.
Não é perante um juiz implacável, mas perante um Pai misericordioso, que o senhor vai comparecer.
Sua indulgência infinita saberá desculpar as fraquezas às quais o senhor foi arrastado, pelos maus exemplos, a essa atmosfera de vício que destrói a alma e o corpo.
Uma expressão mais calma espalhou-se pelo rosto contraído do Príncipe.
Aquela voz consoladora, vinda de um coração inocente e generoso, actuava como bálsamo, como emanação da bem em seu coração ulcerado.
Mas, naquele momento, a música recomeçou a tocar, com grande barulho, os compassos de uma valsa alegre, enquanto o eco das danças chegava distintamente aos ouvidos do agonizante, que se retorcia sobre o leito.
— Ah, de novo essa música infernal, que mata em mim todas as minhas fibras — murmurou ele.
Nina, maldita seja! Maldita!
Tâmara também empalidecera.
O ruído daquela festa, que abafava os suspiros de sua agonia, deveria suscitar um inferno na alma do desventurado que ali se extinguia, sustentado por uma estranha, enquanto a esposa sem coração, que havia jurado diante de Deus partilhar com ele felicidade e desventura, dançava nos braços de um amante.
Ah!, se Fluresco pecara por avidez de prazeres, estava sendo terrivelmente punido.
Apesar do horror que oprimia seu próprio coração, Tâmara, inclinou-se vivamente e colocou sua mão livre sobre a testa umedecida do Príncipe.
— Nada de maldições, Emílio Felixovitch.
Nesta hora suprema, esteja em paz com todos e lembre-se da palavra do Senhor:
"Perdoemos aos nossos inimigos se desejamos ser perdoados."
Uma estranha contracção crispou a face de fluresco.
— Ore por mim — murmurou ele, tentando com os dedos incertos levar aos lábios a mão dela, que estava segurando.
— Não, oremos juntos — disse Tâmara.
E com a voz bem clara, ainda que velada pelas lágrimas, pôs-se a recitar a prece sublime que resume tão bem nossas necessidades, bem como os deveres do ser humano:
"Pai Nosso que estais nos céus..."
O Príncipe fechara os olhos e apenas o fraco tremor de seus dedos demonstrava que ele ainda vivia.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 7:53 pm

Como se compreendesse a solene gravidade do momento, o cão posara a cabeça inteligente sobre as cobertas e seus olhos não deixavam o dono.
Olhando-o por acaso, Tâmara viu duas gotas brilhantes rolarem dos olhos do fiel animal.
Aquele irmão inferior, tão desprezado e tão maltratado pelo ser humano, não era bem mais superior à mulher desmoralizada que não cuidava de conter suas paixões bestiais?
Trémula de agonia e piedade, a moça curvou-se e uma lágrima fervente, que pendia de seus cílios, caiu sobre a mão do Príncipe.
O agonizante abriu subitamente os olhos e com um olhar de indefinível reconhecimento fitou Tâmara:
— Muito obrigado. Fique com o cão.
Deixo-o para a senhora.
Ela o detesta! — murmurou ele com uma voz apenas audível.
— Eu lhe prometo — murmurou a Baronesa, com os olhos pregados à expressão estranhamente brilhante do moribundo.
Seria a radiação da alma semi-liberada que atravessava a matéria que começava a ser abandonada?
De repente, um tremor convulsivo sacudiu o corpo do Príncipe, um profundo suspiro elevou-lhe o peito e seus olhos se fecharam.
Tâmara estremeceu e sua testa ficou coberta de suor.
Um sopro gelado parecia subir até ela e o horror supersticioso que invade o coração humano na presença da matéria abandonada pelo princípio vital sacudiu seus membros.
Bruscamente, ela soltou seus dedos da mão gelada do morto, benzeu-se e, tomando o cão pela coleira, puxou-o para fora.
O animal resistiu, a princípio, mas, ante a ordem imperiosa dela, seguiu-a docilmente.
Caminhando rapidamente, a Baronesa desceu os degraus do terraço e se dirigiu à fachada principal da casa.
A música continuava a tocar barulhentamente, fazendo fremir o coração da moça de horror e de desgosto.
Será que não cairia um raio sobre aquela esposa sacrílega?
Será que uma voz de mais alto não iria pronunciar sua condenação?
Em todo o caso, Tâmara estava decidida a pôr um fim àquela festa abominável, sem consideração nem cautela pela dona da casa.
As emoções da hora precedente haviam superexcitado sua natureza impressionável.
De regresso ao gramado, claro como o dia, a moça tomou a alameda transversal que levava ao tablado dos músicos.
Parando diante do regente da orquestra, elevou a mão e exclamou com voz clara:
— Parem! O Príncipe Fluresco acaba de expirar!
O músico parou perplexo.
As palavras da Baronesa haviam sido ouvidas por vários membros da orquestra e, bruscamente, calou-se a música.
Os numerosos casais que rodopiavam sob a tenda improvisada também pararam e todas as cabeças voltaram-se curiosamente na direcção de Tâmara que se aproximava rapidamente, seguida pelo cão, que caminhava de cabeça baixa, com a cauda entre as pernas.
Ao ver que um enorme grupo de pessoas vinha ao seu encontro, a moça estacou.
Ela estava tão branca quanto seu vestido e sob a claridade cegante das lâmpadas eléctricas, seu rosto desfeito contrastava penosamente com sua elegante toalete de baile e com as borboletas de diamantes que prendiam seus cabelos ou com as flores que lhe ornavam o busto.
— Meu Deus! Baronesa, o que aconteceu?
A senhora está toda desfeita — perguntou-lhe um velho General, que primeiro chegou junto dela, logo após Nina pelo braço do hussardo.
— Aconteceu que o dono desta casa, o Príncipe Fluresco, acaba de expirar em minha presença, enquanto sua mulher dançava aqui e a música perturbava sua agonia! — respondeu Tâmara, elevando sua voz metálica que, clara como um sino, podia ser ouvida a distância.
— Onde está o morto?
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 7:53 pm

Como é que a senhora sabe disso? — perguntaram várias vozes agitadas.
— Ali, numa ala isolada — disse ela, designando a alameda que contornava a casa.
Atraída pelos gemidos, entrei no quarto, aberto ao vento, onde agonizava um ser humano, sozinho e abandonado, sem uma só mão caridosa para assisti-lo nessa hora suprema que nos espera a todos!
E o olhar chamejante de Tâmara fixou-se em Nina que, lívida e consternada, ouvia a dura acusação que, perante toda a sociedade, era tão ousadamente lançada em seu rosto.
Sem se preocupar com o silêncio e a perplexidade geral, Tâmara virou-se e, percebendo Magnus, que a buscava há muito tempo, correu para ele e passou a mão sob seu braço.
Por um momento, seus olhos se encontraram e, pela primeira vez, depois da querela, um clarão de amor apaixonado brilhou nos olhos do moço.
Nesse instante, aquele doce eflúvio lhe fez bem.
— Vamos! - murmurou ela, chegando-se mais a ele — e traga o Tesouro.
Ele o deixou para mim.
Magnus envolveu-a com a saída de baile, que trazia num dos braços, chamou o cão e, cinco minutos mais tarde, a carruagem os levava de volta à casa, juntamente com o terra-nova deitado a seus pés.
— Deus seja louvado!
Eis-nos longe daquela casa abominável — disse a moça com um suspiro de alívio.
— Você não quer contar-me os detalhes da morte trágica a que acaba de assistir?
— Sem dúvida — respondeu Tâmara.
E descreveu o triste quadro de miséria humana que acabara de presenciar.
Ambos ficaram absorvidos em sombrios e graves pensamentos.
Meditavam sobre as deploráveis consequências do desprezo a todo princípio moral, o louco arrastamento que faz do prazer um ídolo, o objectivo único da vida e sufoca todo e qualquer sentimento de dever.
E Nina não era a única.
Tinha milhares de imitadoras em todos os degraus da escala social.
E todas, como ela própria, viam no casamento apenas a liberdade garantida pela condição de mulher casada.
Com a cabeça ao vento, também se ligavam ao primeiro que aparecesse e, no turbilhão daquela vida desordenada, destruíam o esposo, tão frivolamente escolhido, ou morriam sob a mão de ferro de um tirano ou sob a punhalada de um ciumento brutal, besta humana coberta por uma fina camada de verniz social.
Silenciosamente chegaram em casa, mas, quando se separaram cada um para seu quarto de dormir, Magnus beijou-lhe a mão, enquanto seu olhar brilhante mergulhava fundo nos dela, com uma expressão toda particular.
Tâmara corou e baixou a cabeça.
Durante muitos dias a lembrança da lúgubre cena à qual havia assistido perseguiu a moça como um pesadelo, roubando-lhe o sono e tornando-a frágil e nervosa.
Por isso, recusou-se a comparecer aos funerais de Fluresco, para os quais Nina teve a coragem de convidá-los.
Magnus, de sua parte, entendeu ser de seu dever prestar suas últimas homenagens ao desventurado jovem que tão tristemente terminada uma vida que se anunciara tão brilhante e, como um negócio exigia sua presença em Petersburgo, ele partiu no mesmo trem que levava o corpo e o acompanhou até ao cemitério de Alexandre Nevski, onde foi sepultado.
— Bem, e Nina teve coragem de acompanhar o caixão? — perguntou Tâmara ao marido, que regressou no dia seguinte.
O Barão sorriu.
— Mas sem dúvida.
Estava toda de crepe e até mesmo desmaiou de dor.
Aparentemente ela acreditava estar liberada de qualquer mal praticado em relação ao defunto, em vista do magnífico enterro que lhe proporcionou.
Verdadeiramente, ela foi tão generosa com o morto, quanto fora miserável com o vivo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 7:53 pm

O caixão de metal, os cânticos, o túmulo, tudo era de primeira classe.
— E ela não se sentia envergonhada perante aquela gente?
Uma grande parte da sociedade, sem dúvida, estava presente à Cerimónia, não estava?
Magnus deu alguns passos no cómodo de lá para cá.
Em seguida, estacando diante de Tâmara, disse com amarga ironia:
— Por que teria ela se sentido envergonhada quando aqueles mesmos que dançavam alegremente a dança macabra pelo pobre Príncipe, apressavam-se em apresentar-lhe, sem pestanejar, suas condolências e seu pesar à vista da terrível perda que se abateu sobre a pobre Princesa?
Esquece-se você do passado para ignorar quanta lama o bezerro de ouro pisoteia com seus cascos?
Você acha que um só daqueles homens, tomados pelo agudo desejo de gozo, e que não vêem em Nina senão a sua fortuna, se deixará desencorajar pelo exemplo de Fluresco? Nunca.
Na sua enfarada depravação, todos se acreditam bem mais irresistíveis, mais enérgicos, mais aptos a dominarem aquela mulher do que o pobre Emílio.
No final, ficarão presos ao mesmo visgo, para perecerem como ele, mais ou menos depressa.
Ah, mil vezes feliz quem puder permanecer longe de tais baixezas.
— Você tem razão — murmurou a moça, baixando a cabeça.
E quando Magnus, sentado junto dela, com o gesto familiar e carinhoso de outrora, tomou-lhe as mãos e as beijou, ela não protestou.
A partir desse dia, as relações dos jovens esposos se tornaram mais ternas e, como o malfadado baile que havia de novo desgostado Tâmara quanto à sociedade e às festas, Magnus tentou reconstituir a camaradagem de antes.
Retomaram as leituras em comum, as discussões científicas, o trabalho a dois no atelier e conseguia levá-la consigo sempre que saia nas longas cavalgadas para inspeccionar os campos e as florestas ou as fazendas mais distantes.
Como por encanto, o tédio de Tâmara desapareceu e, como não saíam nunca de um terreno mais neutro, evitando qualquer questão mais espinhosa, a moça esquecia a dissensão profunda que os separava, mas somente por alguns momentos, pois, apesar do bom entendimento exterior, a falsa nota ali estava sempre.
Um futuro borrascoso pesava sobre eles.
Frequentemente Tâmara se sentia mal e, ao fitar inopinadamente um olhar de seu marido, mais cálido ou mais triste do que de hábito, ela corava e se perturbava.
Contudo, a despeita dessa pequena dissonância, a simpatia criada pela estima e pelo convívio tomara forças suficientes para cobrir com um véu indulgente de caridade os desacertos de Magnus e a ideia do divórcio causava-lhe penosa opressão no coração. Como ele era bom, honesto e cavalheiresco, comparado aos outros, salvo uma só vez em que ele parecia como que um possesso!
Uma carta recebida, naquela ocasião, de Madame Raban fez ainda mais prender a balança em favor de seu marido.
A Baronesa, que se achava em Nice, contou-lhe que se havia encontrado com Ugarine e que lhe fez um sermão sobre a maneira pela qual ele se exibia por toda a parte com uma húngara muito conhecida entre aqueles que somente cuidam de se divertirem, sob o nome de a “Bela Ilona”.
Essa pessoa, com a qual havia percorrido toda a Itália, custava-lhe uma fortuna e ainda o arrastava ao jogo.
A carta produziu em Tâmara a mais penosa impressão e feriu seu susceptível orgulho.
Apesar da esperança que poderia despertar nele o incidente, no qual ela traíra sua fraqueza, aquele homem frívolo não poderia sujeitar-se a esperar condignamente e em silêncio, que tudo terminasse entre ela e Magnus.
A grande paixão não o impedia de tornar públicas as suas homenagens a uma cortesã e de se arruinar por causa dela.
Desprezo e cólera tomaram de novo a alma da moça e o divórcio pareceu-lhe ainda mais repugnante.
Ela se surpreendeu mesmo a pensar que Magnus deveria pedir-lhe perdão pela sua conduta indigna.
Foi com essa disposição de espírito que os jovens esposos retomaram à cidade, no fim de setembro.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 7:53 pm

Tâmara saia pouco. Apesar de tudo que pesava sobre seu coração, era novamente na intimidade dos seus pensamentos que ela se sentia melhor.
Pouco após o seu regresso, recebeu a visita de Nadina.
Apesar de uma acolhida um tanto fria, Madame Kulibine não se deixou desconcertar.
A princípio, pelas lágrimas, nascidas do arrependimento de não haver seguido seus conselhos, depois, pela meiguice, conseguiu demolir a dureza de Tâmara, que acabou proporcionando algum consolo à sua inconsequente amiga.
Uma vez rompida essa primeira camada de gelo, Nadina retomou logo seu entusiasmo habitual e começou a narrar as notícias recolhidas durante o verão.
Num desses episódios, Natália e Pfauenberg desempenhavam importante papel.
Madame Kulibine ocupara uma vila em Peterhoff, próxima da que possuía a viúva Polenov e as duas amigas se viam com frequência.
Hóspede não menos frequente era Pfauenberg, e Nadina contou que ele cortejava abertamente Natália e que esta o havia encorajado tão francamente, que todos já admitiam como certo o casamento dos dois, logo que terminasse o período de luto.
Mas surgira recentemente um rival inesperado na pessoa de um Barão alemão, grande e robusto oficial de cavalaria, que projectava uma sombra considerável sobre o pequeno Eitel Franzovitch.
Após ter-se rido dessa desventura do elegante caçador de dotes, Nadina informou que a glória mediúnica de Pfauenberg estava sempre em expansão, enriquecida agora com os atributos de um mago e que Calchas, tendo sido, ele próprio, um grande iniciado, instruía seu discípulo em todos os segredos da magia e escrevia por intermédio dele um tratado explicativo sobre a Cabala.33
Essa obra, no dizer de Pfauenberg, deveria, por sua erudição, ultrapassar de longe os ensaios de Eliphas Levi ou de Fabre d’Olivet e fazer dele próprio um mago, ao pé do qual Apolónio de Tiana34 seria apenas um anão.
Tâmara riu descontraidamente dessas gabolices.
Ela ignorava que os mexericos de Nadina tinham um fundo de verdade.
O excelente Eitel Franzovitch entregara-se mesmo às ciências ocultas.
A magia negra, com todo o seu poder malfazejo, tentava o homenzinho rancoroso e sonso, que nunca se vingara abertamente de uma ofensa verdadeira ou imaginária, mas que seria certamente capaz de empregar um enfeitiçamento para destruir alguém que lhe desagradasse ou prejudicasse.
Por isso, estudava assiduamente os livros ocultistas que tratavam de magia e se absorvia na leitura da “Iniciação”.
O estudo do hipnotismo também o atraía.
Dispor daquela força perigosa que sujeita a alma de outrem, fazer desta, cera macia nas mãos do dominador, era o objectivo de seus sonhos.
Com essa intenção, aplicou-se à tarefa de desenvolver a vontade e de exercê-la segundo os métodos indicados nos livros de ocultismo.
Por isso, bebia assiduamente a infusão daquela erva maravilhosa que lhe prescrevera Calchas e que deveria estimular nele todas as forças misteriosas de que dispõe a alma humana.
Apaixonou-se especialmente por um dos relatos publicados na “Iniciação”.35
A “brûler” era um verdadeiro tratado, que ensinava como desprender o corpo astral de seu grosseiro envoltório carnal e a utilizá-lo à vontade, concentrado no corpo impalpável para o qual não existem obstáculos materiais, produzindo actos perfeitamente sensíveis.
Sem dúvida, Pfauenberg tinha em mente resultados menos trágicos do que o herói do Senhor Lermina e desejava utilizar-se da faculdade de desdobramento de maneira prática.
Não obstante, ele trabalhara com tenacidade para produzir o fenómeno desejado, e quando conseguiu fazer-se ver a distância por alguns sensitivos, a glória subiu-lhe à cabeça.
Acreditava-se um verdadeiro mago, capaz de moldar o destino à vontade e achou que se não tinha nas mãos as chaves do céu, certamente tinha as do inferno.
Esquecia-se, apenas, de que para manipular tais forças ocultas, tanto do bem, como do mal, é preciso renunciar a si mesmo e sujeitar-se a um regime especial, se é que não desejamos expor-nos a perigos desconhecidos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 7:54 pm

Mas o regime era bastante desagradável para ser aceite por Pfauenberg e ele simplesmente deixou de lado indicações muito precisas dadas nesse sentido pelo autor de “A Brûler”.
Pfauenberg desejava experimentar seus novos poderes para chegar a bom termo num projecto que há muito perseguia: o de fazer um casamento rico.
Até então, uma fatalidade havia sempre feito falhar suas especulações matrimoniais.
Ou a herdeira não reconhecia a felicidade que ele lhe oferecia, ou ele mesmo recusava-a no último instante, não encontrando mais na sua eleita as perfeições que exigia na sua esposa.
Agora, as coisas iriam mudar e a escolha dependia apenas dele — não era ele um grande mago, que podia desdobrar-se para ditar sua vontade e prescrever a resposta que deveriam enviar-lhe?
Sua escolha definitiva repousou em Natália Polenov, cuja fortuna acabava de ser ampliada com a herança inesperada de uma tia.
Tudo muito bem pensado, ele achou que a vila em Peterhof era magnífica, bem como a propriedade perto de Poltava, que a casa na cidade precisava de um dono e que as carruagens assim como o padrão de conforto da casa representavam um status desejável.
Pfauenberg passou a demonstrar, assim, o maior devotamento à jovem viúva e deu-lhe todo o apoio, não apenas do seu braço, quando ela desmaiou no enterro do marido, como, ainda, moralmente.
Com engenhosa ternura, ele esforçou-se por recuperar aquela flor amassada e tudo caminhava maravilhosamente, quando surgiu o desastrado Barão, que procurava descaradamente suplantar Eitel Franzovitch e consolar a inconsolável.
Profunda cólera tomou o coração de Pfauenberg, mas ele não desanimou.
Esperava apenas o momento adequado para pôr em acção sua misteriosa ciência e vencer seu rival por um procedimento de que este último jamais suspeitaria.
Resolveu agir sem perda de tempo e, uma noite em que sabia encontrar-se Nadina só em casa, fechou-se no seu quarto e preparou-se para a grande tarefa.
Para estimular suas forças ocultas, tomou uma injecção de vitamina, novo remédio muito famoso.
Em seguida, preparou uma chaleira completa de infusão da erva Damiani, da qual bebeu duas xícaras.
Um calor intenso envolveu-lhe o corpo e o rosto ficou rubro.
Tomado de irresistível impulso de vontade pegou uma folha de papel e escreveu um pedido de casamento.
Pousou depois a mão sobre a carta aberta e magnetizou-a como olhar e o pensamento, impregnando todas as palavras com a vibração de sua vontade.
Depois de envelopar e endereçar a carta, chamou seu empregado e mandou-o levá-la à casa de Madame Polenov.
Assim que o homem saiu, Eitel Franzovitch tomou uma segunda folha de papel e escreveu, pronunciando palavra por palavra, em voz alta:
“Poderia o senhor duvidar da minha simpatia?
Aceito seu pedido e me sentirei feliz em ser sua esposa, a) Natália”.
Magnetizou aquele segundo bilhete ainda com maior cuidado do que o primeiro.
Mentalizou a jovem viúva e procurou impregnar seu cérebro com um jacto de sua vontade, transmitindo-lhe o texto que ela deveria escrever.
Esgotado, com o suor a descer-lhe pela testa, deixou-se, enfim, cair sobre o espaldar da poltrona, mas o estado de fraqueza durou pouco.
Levantou-se e tomou mais uma xícara da erva Damiani.
Faltava cumprir a segunda parte de sua tarefa.
Era preciso agora desdobrar-se e transportar sua personalidade astral para controlar a execução da sua vontade.
Sentando-se comodamente, concentrou-se, fixando como os faquires a ponta do nariz.
Pouco a pouco uma palidez cadavérica foi substituindo o corado vivo de sua face, seus membros tornaram-se rígidos e todo o seu corpo assumiu a imobilidade da morte.
Natália estava só no seu gabinete.
Estava lendo, enquanto aplicava compressas quentes sobre um joelho inflamado por causa de uma luxação, quando lhe entregaram a carta de Pfauenberg.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 7:54 pm

Admirada de uma carta tão tardia — eram quase onze horas — a moça abriu o envelope e leu, mas longe de cumprir a ordem invisível e acolher com alegria o pedido de casamento, atirou a carta para um lado com desprezo.
— Que ideia tola essa de me importunar a essa hora da noite com o seu pedido despropositado!
Decididamente, prefiro o Barão, um homem soberbo e dono de um título.
Vou escrever a Eitel Franzovitch que estou ainda magoada com a perda horrível que sofri, para pensar em novo casamento.
Sentou-se à escrivaninha e preparou-se para escrever.
— Quero ser Baronesa, como Tâmara — murmurou ela com um sorriso satisfeito.
Subitamente sentiu uma dor de cabeça aguda.
Dir-se-ia que uma força invisível agarrava-se aos seus cabelos, levantava-os e os puxava como se quisesse arrancá-los.
Uma desconhecida sensação fazia-lhe estremecer como se algo de impalpável, mas pesado e pegajoso, a envolvesse.
Um poder desconhecido mantinha a pena na sua mão, forçando-a a escrever que ela aceitava Pfauenberg como esposo.
Mal havia assinado, a pena escapou-se-lhe da mão e seus grandes olhos abertos fixaram-se numa aparição que, quase a roçar-se nela, pairava ali no ar:
era Pfauenberg, cujos olhos fixos, fulgurantes, pareciam trespassarem-na.
Mas era só o busto dele que aparecia à altura da escrivaninha, transparente e acinzentado.
Na penumbra projectada pelo grande abajur, nada havia senão o vazio no lugar onde deveriam estar pousados os pés dele.
Com um grito de desesperado horror, Natália recuou e desabou desacordada sobre o tapete.
Pfauenberg foi encontrado estendido na poltrona como que adormecido, mas era o sono da morte.
Que misteriosa causa teria partido o fio de sua existência?
A boca muda nada revelava.
Quanto à ciência oficial, declarou a causa da morte como rompimento de um aneurisma.
Ninguém duvidou da afirmativa, apenas algumas raras pessoas cépticas acharam que as sessões mediúnicas e a famosa erva foram a causa do desastre.
Calchas e seu médium desapareceram, assim, da cena e, com sua ingratidão habitual, a sociedade logo os esqueceu:
eles não mais serviam de distracção e somente a verdadeira afeição é capaz de lembrar-se daquele que desapareceu.
Tâmara também sentiu aquela morte súbita que durante oito dias ocupou os ociosos, mas outro acontecimento que a tocava mais de perto levou-a igualmente a esquecer esse episódio.

33 Cabala — [i]Não é fácil a tarefa de condensar em um exíguo texto uma noção aceitável acerca da Cabala, de vez que a matéria é ampla e não poucas as controvérsias sobre ela.
O termo em si significa “doutrina recebida por tradição”.
Os textos originários remontam ao século XI ou XII, mas, obviamente, reportam-se a conceitos antiquíssimos.
Basicamente, a Cabala é uma tentativa de interpretação mística do Antigo Testamento, uma espécie de teosofia hebraica.
Spencer Lewis chama a atenção para o fato de que esses textos, muito discutíveis em si mesmos, são rejeitados pelos próprios judeus, que os consideram com sérias reservas.
A Enciclopédia Britânica, contudo, esclarece que, embora verdadeiro que a atitude dos eruditos judeus tenha sido mais para a rejeição da obra, é igualmente certo que nos últimos tempos a posição seja bem mais aberta, procurando “estudar a Cabala em vez de condená-la”.
Como é comum em sistemas de carácter místico, a Cabala tem seus exageros e extravagâncias, mas resta-lhe importante conteúdo digno de exame.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 7:54 pm

Como tantas obras de fundo esotérico, a Cabala prestou-se a inúmeras explorações, nem sempre bem intencionadas, quanto à utilização de conceitos ocultistas, mas nenhum corpo doutrinário ou filosófico pode ser condenado pelo mau uso que dele se faça.[/i]

34 Apolónio de Tiana — Filósofo neopitagórico, moralista e mago, nascido em Tiana (Capadócia, na Ásia Menor), e falecido no ano 97 da nossa era.
Foi, portanto, contemporâneo do Cristo e educou-se em Tarso, cidade natal de Paulo.
Tornou-se tão lendária sua figura, que a sua biografia, escrita por Damis e reproduzida por Filostrato, parece mais uma obra de ficção.
Viveu até cerca de 100 anos de idade.
Era dotado de bem desenvolvidas faculdades mediúnicas, especialmente do dom da profecia.


35 initiation — Conforme dados obtidos junto à Bibliothèque Nationale, de Paris, Initiation — Revue philosophique indépendante des hautes études: hypnotisme, théosophie — circulou mensalmente de outubro 1888 a setembro 1912.
“A brûler”, artigo de Jules Lermina, citado por Rochester, foi publicado em capítulos nos seus sete primeiros números, ou seja, de outubro 1888 a abril 1889.
Aquela biblioteca ainda dispõe de uma colecção da revista, em regular estado de conservação.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 7:55 pm

Obsessão e libertação

A partida de Lilienstierna e sua mulher de Ems fora para Arsénio desagradável surpresa, mas com sua leviandade habitual ele se consolou com a esperança de que, chegados à Rússia, eles se separariam sem ruído e, em seguida, providenciariam o divórcio.
Para ocupar o tempo da espera e distrair a paixão fogosa e tenaz que fervia nele, viajou e divertiu-se, mas discretamente.
Em seguida, uma entrevista com seu sogro absorveu-o e o pôs no pior dos humores.
Com a aguda rapacidade e rudeza do camponês enriquecido, o velho Migusov havia-lhe declarado que, tendo Catarina morrido sem deixar filhos e não havendo testamento a seu favor, ele não poderia entregar-lhe o dote de um milhão.
Depois de uma cena violenta e penosa, acabaram chegando a um acordo, segundo o qual o Príncipe receberia, da parte de seu sogro, um rendimento anual de quinze mil rublos e conservaria até à morte a residência que ocupara com sua mulher que, então, voltaria a ser propriedade do velho comerciante.
É fácil compreender que tal redução de seus rendimentos deteriorou fortemente o humor de Arsénio.
E para cúmulo de sua raiva, ele soube, por essa época, que em lugar de se divorciarem, Magnus e Tâmara viviam tranquilamente na Finlândia, divertindo-se e visitando os vizinhos.
Um ciúme feroz tomou conta do coração do Príncipe.
Aquele bom humor e as constantes saídas do casal pareciam-lhe indicar uma reconciliação completa, e só de pensar em tal triunfo do primo sobre ele fazia-lhe subir todo o sangue à cabeça.
Fogoso e indisciplinado como era Arsénio atirou-se a todos os excessos para esquecer a derrota amorosa e as decepções pecuniárias.
O resultado de alguns meses de orgia foi um desarranjo completo em suas finanças.
Crivado de dívidas, regressou a Petersburgo, mas em lugar de cuidar de livrar-se, de qualquer maneira, daquela situação, meteu-se em novas loucuras.
Sua paixão insatisfeita não se deixava vencer por nenhum excesso e, além do mais, aquela vida dissipada e febril, que não lhe deixava tempo nem para pensar, tornara-se-lhe uma segunda natureza.
Ainda que Tâmara já estivesse de volta à cidade, ele não se decidiu logo a ir vê-la.
Quanto ao divórcio, nada transpirara ainda e a convicção de que, decididamente, ele perdera a partida, agrilhoava-o como uma ofensa pessoal.
Foi após uma noite de orgia, meio ébrio e acossado pela necessidade de pagar uma dívida de jogo que Arsénio deixou-se convencer a assinar duas promissórias em nome de seu sogro.
Quando ele, de alguma sorte, tomou consciência do crime que cometera, este já era irreparável.
E, no entanto, tal era a inconsequência desse homem, que ele próprio disse:
— Tenho seis semanas pela frente.
Daqui até lá, tomarei minhas providências.
E foi somente quando se encontrou diante do insolúvel problema de pagar ou ficar desonrado que compreendeu a seriedade da situação.
Por isso, naquela brumosa tarde de dezembro ele estava a sós no seu gabinete.
Caminhava de um lado para o outro, a face lívida, profundas olheiras, o olhar febril deixando, às vezes, escapar algumas frases soltas:
— Ele, aquele “casca-grossa” não me ajudará!
E, depois, confessar...
Não, jamais... e pedir socorro a ela, antes a morte!
Uma expressão de raiva e desespero contraía seus traços e, afastando as mechas de cabelos que se lhe colavam à testa, acrescentou:
— Bem, decididamente está tudo perdido, até mesmo a honra.
Só me resta uma salvação.
Tocou a campainha.
— Traga-me duas garrafas de champanhe gelado! — ordenou ao servidor.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 8:19 pm

Quando a ordem foi cumprida e o vinho colocado dentro de um balde de gelo sobre a mesa junto ao divã, o Príncipe proibiu que alguém viesse incomodar-lhe e, retirando de uma caixa um revólver, carregou-o cuidadosamente.
Depositando a arma diante dele, apoiou os cotovelos à mesa e se pôs a meditar:
aquele tubo de metal que continha a morte era seu libertador e ele estava decidido a usar esse recurso supremo.
Mas, a despeito da sombria resolução, a vida que se agitava no seu corpo jovem e forte revoltava-se contra a destruição, e a alma estremecia, assustada, à soleira do nada desconhecido, no qual iria rolar.
Ah, se ele pudesse sondar o Além!
Seria o sono sem sonhos do Nirvana, o aniquilamento da matéria pensante, ao mesmo tempo que o do corpo, como afirmavam os materialistas?
Procurava lembrar-se de tudo quanto lera sobre o assunto, todos os subtis sofismas que reduzem o homem a uma engenhosa máquina.
Certamente, se os sábios tinham razão, seria uma verdadeira felicidade, mas e a outra hipótese, aquela que proclamam todas as religiões desde as origens do mundo, e que o Espiritismo veio confirmar com os factos?
Se, após a morte, a alma continuasse consciente e individual, responsável por seus actos, perante essa justiça imutável que se manifesta em leis que não desafiamos impunemente e que punem cada um segundo seu pecado?
— Mas não posso viver degradado, desonrado! — exclamava exasperado, como se estivesse já perante o tribunal da justiça eterna que lhe pedia contas da sua vida destruída.
Como um turbilhão, repassou diante de sua visão espiritual toda a existência, votada somente ao prazer, a uma busca desenfreada de gozo e desprovida de todo dever, de qualquer aspiração mais elevada.
A imagem de Tâmara surgiu de novo em sua mente.
Abriu bruscamente uma gaveta secreta de sua escrivaninha, de onde retirou uma caixa oblonga, da qual ele fez funcionar a mola.
Um retrato de mulher, emoldurado em veludo vermelho, apareceu:
era o de Tâmara, pintado em miniatura, que ela dera a Catarina e que o Príncipe subtraíra de sua mulher.
Absorveu-se na contemplação da fina e saudável face, que exalava tão estranho encanto.
Ela sorria, como se estivesse viva; a pequena boca orgulhosa e zombeteira; os grandes olhos, a brilharem com um fulgor metálico, fixavam-no, límpidos e sonhadores.
As pupilas cinzentas, com um toque azul, insondáveis na sua calma pureza, fizeram-no pensar nos pequenos lagos da Escócia e da Finlândia, que pareciam adormecidos a sonhar engastados numa cercadura de rochas e de sombria verdura e que ora reflectiam o azul do céu, ora as nuvens tempestuosas a despedirem raios.
— Tâmara! Tâmara! — murmurou ele, apaixonadamente — por que, louco cego, não entendi em tempo que a felicidade era você e que ao passar, ingrato e ávido de ouro, junto ao génio do bem, assinei minha própria condenação?
A você, que amei e apreciei tarde demais, pertence meu último pensamento, meu derradeiro adeus!
Tomou uma pena e, com mão febril, escreveu:
“Quando esta carta chegar às suas mãos, Tâmara, aquele que traça estas linhas terá comparecido perante Deus, que o criou, para dar conta a esse Pai e Juiz Celeste de uma vida ociosa, viciosa e criminalmente destruída.
Incessantemente me vêm à memória as palavras de desprezo, mas merecidas, que você me disse uma vez:
“Essa mão principesca tem vergonha de trabalhar, mas não de vender-se”.
Você ainda não sabe, Tâmara, que essa mesma mão não estremeceu ao assinar com um nome falso uma promissória e que, dentro de uma hora, ela irá levantar a arma que porá fim a uma vida miserável, por meio dessa miserável covardia, o suicídio.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 8:19 pm

“Ele foi duplamente indigno:
só amou a impureza e tremeu ante a responsabilidade de seus actos!” — dirá você.
E terá razão, Tâmara.
Eu não sou digno nem da bala que vai alojar-se em meu coração e, contudo, sendo como sou, não tenho outra saída.
Por que tudo aconteceu assim?
Pergunto-me nesta hora suprema e, sem desejar nada desculpar de meus erros, parece-me que não sou o único culpado.
Quando me lembro de minha infância árida, vazia de amor, entre aquele pai sempre ocupado com seus negócios e com os prazeres e os empregados assalariados que me lisonjeavam e negligenciavam minha adolescência; quando me lembro de minha vida já envenenada pelos livros obscenos e pelas mulheres sem princípios que estimulavam todos os meus maus instintos, digo a mim mesmo que nossa sociedade produz à vontade seres como eu.
“Talvez me tenha faltado a mão de um mulher verdadeiramente pura e amorosa que me tivesse retido à beira do abismo, a sua sobretudo, a quem amei como jamais amara a pessoa alguma.
Mas, talvez, até mesmo o seu poder fosse impotente para me regenerar.
O homem é um animal ingrato, que ataca sobretudo aquilo que ele não pode possuir.
O problema, porém, é ocioso, pois tudo está terminado.
|Adeus, Tâmara. Seja feliz.
Intercede por mim perante o Supremo Tribunal e não recuse meu derradeiro pedido:
venha ver-me, quando eu não mais existir, e conceda ao morto aquele beijo que você recusou rigorosamente ao vivo.
Parece-me que o toque dos seus lábios puros lavará uma parte das impurezas do meu passado.
E Magnus não pode ter ciúmes desse favor, ele que fica com você para o resto da vida.
Ainda uma vez, adeus!
Meu último pensamento será para você e se, verdadeiramente, a alma sobrevive ao corpo, a minha voará para você para dizer-lhe que não mais existo!*’
Depois de assinada e posta a carta no envelope, ele chamou seu camareiro e ordenou-lhe que fosse levá-la dentro de uma hora à Baronesa de Lilienstiema.
Ficando só, de novo, retomou a caminhada dentro do cómodo, esvaziando copo atrás de copo para afogar em vinho capitoso seus últimos escrúpulos de consciência, a última revolta da carne contra a destruição.,
Seriam três horas da tarde, mas um denso crepúsculo envolvia já a vasta capital do Norte e aquela meia-luz baça enchia de densas sombras o aposento decorado de vermelho, onde Tâmara se achava sozinha. Magnus, que acabara de chegar da cidade, estava em seus aposentos e a moça, atormentada por uma inquietação incompreensível, atirara-se a uma poltrona.
Desde cedo, aquele mal-estar inexplicável a perseguia, oprimindo seu coração com uma estranha agonia e fazendo-a lembrar, a todo momento, de Arsénio e das conversas que tivera com ele.
Enfim, recolheu-se ao divã, recomendou que não acendessem a luz e fechou os olhos.
De novo a imagem do Príncipe a perseguiu:
ela podia ver seu belo rosto, ouvir as palavras de amor que lhe dissera ali mesmo naquele aposento.
Em vão procurava repelir essas lembranças inoportunas, quando, subitamente, estremeceu — uma corrente de ar glacial acabava de atingir seu rosto, envolvendo-a da cabeça aos pés, com uma névoa húmida.
Ao mesmo tempo, uma respiração arquejante se fez ouvir e passos, abafados pelo tapete, aproximaram-se rapidamente.
Tâmara sentou-se bruscamente, mas seu coração parecia ter parado de bater quando viu Arsénio que, de repente, inclinava-se para ela e tocava levemente sua face com os lábios gelados.
A moça queria levantar-se e gritar, mas parecia paralisada e somente seu olhar apavorado errava pela figura do Príncipe, cujos olhos parados e estranhos pareciam pregados nela.
Ele estava lívido, a boca descorada mostrava os dentes cerrados e, através do uniforme entreaberto, via-se, do lado esquerdo, uma chaga que ele mostrava com a mão e de onde escorria sangue num reduzido filete.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 8:20 pm

Com um grito de pavor, a moça saltou do divã e atirou-se ao seu encontro, mas, subitamente, o espectro desapareceu. O grito desesperado chegou aos ouvidos de Magnus.
Atirando para um lado o jornal que estava lendo, precipitou-se na direcção dos aposentos de sua mulher e, vendo-a de pé, as duas mãos estendidas, os olhos dilatados, perguntou ansiosamente:
— Que é isso?
— Arsénio! — exclamou Tâmara com a voz rouca.
Um rubor vivo inundou a face do Barão.
— Você está sonhando em pleno dia — disse ele bruscamente.
Arsénio não veio para cá, ao que eu saiba!
A moça aproximou-se dele.
Estava pálida como um fantasma e seus lábios trémulos recusavam-se a obedecer à sua vontade.
— Não estou sonhando.
Arsénio veio aqui, porém, morto! — murmurou com esforço.
Ele matou-se:
eu vi a chaga no peito dele!
Compreendendo que algo de extraordinário acabava de acontecer, Magnus aproximou-se vivamente da esposa, conduziu-a até um assento e procurou acalmá-la afectuosamente, tentando persuadi-la de que fora vítima de uma ilusão dos sentidos.
Como que aturdida, Tâmara apoiara a cabeça nos seus ombros e fechou os olhos.
O Barão, muito preocupado, dispunha-se a ir buscar os sais aromáticos, quando seu camareiro, pálido e agitado, apareceu à porta e, à meia-voz, rogou-lhe que viesse imediatamente ao seu gabinete, pois havia alguém que desejava falar-lhe de algo muito urgente.
Movido por um triste pressentimento, o jovem encaminhou-se a toda pressa para os seus aposentos e o pressentimento tornou-se certeza, quando reconheceu o camareiro de Arsénio que, muito agitado, apresentou-lhe uma carta endereçada à sua mulher.
— Uma desgraça nos aconteceu, senhor Barão — disse o homem com a voz entrecortada.
Sua Alteza me havia entregue esta carta, ordenando-me que a levasse ao seu destino dentro de uma hora, mas eu me demorei um pouco e, de repente, ouvi no seu gabinete um tiro de pistola.
Assustado, atirei-me contra a porta que se encontrava trancada.
Chamei, mas Sua Alteza não respondeu.
Então, em minha agonia, chamei mais gente e corri à casa do Conde de Winter, do batalhão de Guardas, que mora no mesmo pavimento.
Ele veio logo com um policial e a porta foi arrombada.
O Príncipe estava atirado a uma poltrona diante de sua escrivaninha.
A pistola jazia ao lado dele.
Havia disparado um tiro do lado do coração.
Enquanto procuravam um médico, corri para aqui.
Talvez a carta contenha alguma indicação.
Peço-lhe, Senhor Barão, venha; não sabemos o que fazer e Carpa Michailovitch está em Samara.
— Irei imediatamente.
Frederico, mande atrelar os cavalos — disse o jovem, retomando o caminho do aposento de Tâmara.
Ela estava de pé à soleira da porta, lívida e trémula.
— É da casa de Ugarine que vieram? — perguntou ela.
— É. Na verdade, ele está mesmo ferido — respondeu Magnus.
— Não. Ele está morto! — murmurou a jovem tombando inconsciente.
Pálido e comovido, o jovem levantou-a e a levou ao quarto de dormir, onde a deixou aos cuidados de Fanny, enquanto ele se dirigia rapidamente à residência do primo.
Tumulto e desordem reinavam na vasta habitação.
Curiosos vindos sabe Deus de onde comprimiam-se no vestíbulo e as pessoas corriam atarefadas de um lado para outro, enquanto dois médicos conversavam com o Conde de Winter no salão.
— Bem, é grave? — perguntou Magnus com voz inquista.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 8:20 pm

— Tudo está acabado.
A bala atravessou-lhe o coração e tivemos apenas que confirmar a morte do Príncipe — respondeu um dos médicos.
Com o coração oprimido, o Barão entrou no gabinete.
O corpo achava-se estendido no grande divã turco.
O uniforme estava desabotoado, a camisa aberta e, ao lado esquerdo, via-se um lenço dobrado encharcado de sangue.
Magnus inclinou-se sobre o morto e contemplou com emoção o belo rosto imóvel:
dor e pesar e outro sentimento que ele se sentia envergonhado de admitir a si mesmo lutavam nele.
Mas, rejeitando aquele sentimento egoísta que, por um momento, não lhe permitira ver no infeliz primo mais que um rival destruído, ele orou de todo o seu coração pelo repouso de sua alma e, em seguida, beijou-o na testa e saiu.
Após dar os ordens e haver tomado as providências necessárias ante o triste incidente, retomou o caminho de casa.
Durante todo o trajecto, pensou no futuro e naquela que representava para ele o que de mais precioso tinha: Tâmara.
A morte de Arsénio resolvera, de um só golpe, o problema em seu favor.
O túmulo é um rival pouco perigoso. Havendo reconquistado o equilíbrio, o coração da moça voltaria certamente a ele.
Era preciso apenas esperar pacientemente que se desenrolasse aquela crise suprema e ele prometeu a si mesmo velar como um irmão um amigo indulgente por aquela alma enferma, e curá-la à força de afeição.
Com a carta do Príncipe na mão, Magnus dirigiu-se ao quarto de sua mulher.
Pálida e desfeita, Tâmara caminhava de um lado para outro no quarto de vestir, agora iluminado por uma lâmpada.
À entrada do marido, ela parou perto da mesa e fitou-o com muita ansiedade.
— Sua terrível visão não foi ilusória.
Só nos resta orar pela alma sofredora de nosso desventurado parente — disse Magnus com tristeza.
Mas aqui está uma carta que ele deixou para você.
Tome-a, minha cara, e seja forte — acrescentou ele, colocando a carta sobre a mesa.
Às primeiras palavras do marido, a moça sentara-se trémula, mas, notando que ele se voltava para sair, tomou-lhe o braço.
— Fica, Magnus, e leia a carta para mim.
— Você quer que eu leia para você o supremo adeus de Arsénio? — perguntou o jovem empalidecendo.
— Por que não?
Nada existe entre o Príncipe e eu que você deva ignorar.
Peço-te, leia-me a carta.
Com a mão ligeiramente trémula, o Barão rasgou o envelope e leu as linhas dirigidas pelo seu antigo rival à mulher amada.
Tâmara apoiara os cotovelos à mesa e lágrimas escaldantes, que ela não procurava nem mesmo dissimular, filtravam-se através dos seus dedos,
— Agradeço a prova de confiança e de afeição que você acaba de me dar — disse o Barão com a voz velada pela emoção, ao pousar a carta sobre a mesa.
Tâmara levantou bruscamente a cabeça e fitou o marido com um olhar brilhante através das lágrimas.
— Não pense que choro Arsénio por causa de um amor culposo — choro seu fim miserável...
Morrer só, sem um gesto amigo que o impedisse naquela fatal decisão!. . .
Magnus tomou a pequena mão que ela lhe estendia e a levou aos lábios.
— Eu acredito, Tâmara.
Por sua vez, não me considere mesquinho a ponto de sentir ciúmes de algumas lágrimas de pesar que você concede a um morto.
Uma mulher de bom coração poderia ver, sem compaixão, perecer tão tristemente o homem que a amou?
E agora, até logo, minha querida.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 8:20 pm

Tenho várias providências a tomar.
Tâmara reteve sua mão e levantou para ele um olhar suplicante.
— Magnus, resgata essa odiosa promissória.
Não podemos deixar manchar-se o nome desse pobre morto.
Que a sociedade ignore os motivos de seu suicídio.
O jovem concordou com o pedido.
— Você adivinhou meu pensamento.
Tudo será feito como você deseja, só que esteja prevenida de uma coisa:
a importância deverá ser um tanto alta.
— Não importa.
Vamos pagá-la, qualquer que seja a soma.
Temos nossas economias provindas de rendimentos e somos tão ricos!
Magnus sorriu.
— Você é que é rica!
Ela sacudiu vivamente a cabeça.
— Não, não.
Nós vamos pagar juntos e, mais tarde, se for preciso, serei tão económica, que você há-de ver.
Ficando só, a moça atirou-se ao divã e deu livre curso às lágrimas.
— Arsénio! Arsénio! — murmurou ela — por que não posso eu contribuir para você senão com um pouco de ouro, esse vil metal que você preferiu ao verdadeiro amor?
No dia seguinte, pela manhã, Magnus ocupou-se activamente dos preparativos para o enterro.
Mas, após o jantar, propôs a Tâmara acompanhá-la à residência de Ugarine, a fim de assistir à missa de corpo presente e dizer adeus ao defunto, antes que> chegasse os estranhos.
Profundamente comovida, a moça entrou na esplêndida habitação, tão rápida e inopinadamente abandonada pelos dois jovens cheios de vida que ali viveram.
Magnus a conduziu até à porta da sala, onde o corpo estava exposto, mas, tomada de súbita ansiedade, ela estacou & soleira e, com um gesto incerto, reteve a mão do marido.
Este inclinou-se para ela com um olhar de encorajamento.
— Você teria medo de orar sozinha junto do corpo e conceder-lhe o adeus que foi seu último pedido?
— Não, não.
Um dia estaremos todos naquela condição ali — respondeu a moça, penetrando na sala mortuária.
Sobre o catafalco cercado de círios estavam os despojos mortais do Príncipe já vestido com o seu uniforme e pronto para ser posto no caixão.
Com o coração palpitante, Tâmara aproximou-se e levantou o véu de gaze que lhe cobria o rosto.
Apesar da palidez da morte, a cabeça de Arsénio era ainda bela e o sorriso zombeteiro e desdenhoso que lhe era próprio parecia fixado em seus lábios.
Com os olhos velados pelas lágrimas, a moça pousou sobre o peito do morto o buquê de flores que trouxera e, juntando as mãos, orou ardentemente, rogando ao Pai de todas as coisas que julgasse com indulgência as faltas da alma vacilante e culpada que acabava de regressar à pátria eterna.
Tendo terminado a oração, ela inclinou-se e contemplou longamente os traços empalidecidos que queria gravar na sua memória.
Estranha sensação agitava-a intimamente:
não era amor, mas imensa compaixão e pungente pesar por aquele ser destruído.
Com profundo suspiro, benzeu-se, deu um beijo na testa gelada do morto e, depois, na imagem colocada junto ao peito dele.
Em seguida, recolocou-lhe a gaze sobre o rosto e deixou a sala.
No aposento contíguo, Magnus conversava com o velho médico militar, amigo de Arsénio, que já chegara para a missa fúnebre.
Após haver cumprimentado a Baronesa, ele também se dirigiu à câmara mortuária.
Os olhos de Tâmara, que erravam distraidamente, fixaram-se subitamente no rosto de Arsénio que ela tão bem conhecia:
era o que ela pintara outrora.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 8:20 pm

Teria ela acreditado que tudo terminaria daquela maneira?
Que o destino faria uma milionária da pobre artista e destruiria tão brevemente uma existência que se anunciava tão brilhante?
— Desejaria muito conservar aquele retrato, se ninguém o reclamar — disse ela, designando o quadro.
— Quem poderia querê-lo?
Mandarei levá-lo para casa amanhã — disse o Barão.
Depois desse dia, uma estranha atitude de devaneio apossou-se de Tâmara.
Não era mais a dor — apesar da profunda impressão produzida nela pela morte trágica do Príncipe, ela não o chorava.
Não era nem mesmo tristeza, mas uma prostração apática e fatigada informe e sem objectivo determinado que a envolvesse num véu.
Abatida sobre sua poltrona durante horas inteiras, perdida em vagas meditações, o mundo exterior parecia pouco interessar-lhe.
Mandou colocar o retrato de Arsénio num de seus salões, não no seu toucador, como pensara Magnus, e, com a mesma indiferença, recebeu do marido as duas promissórias falsificadas pedindo que as jogasse no fogo.
Esse estado de espírito complicou-se, pouco a pouco, com sensações estranhas e incompreensíveis.
Enquanto fitava o nada com o olhar vazio, ouvia pesados passos à sua volta, sentia no rosto lufadas de ar frio e, às vezes, como se dedos gelados lhe apertassem a mão.
Sentia, então, a respiração em dificuldade e um peso de chumbo paralisar seus membros.
Um vapor morno e espesso a envolvia, causando-lhe uma sensação de asfixia e, subitamente, o rosto dê Arsénio surgia, como se feito de uma névoa acinzentada, fitando-a com os olhos parados, mas cheios de selvagem paixão.
E a face apavorante aproximava-se:
um sopro húmido e glacial tocava seus lábios, algo invisível parecia abraçá-la e, tomada de louco terror, ela tentava em vão desprender-se daquilo, gritar, ou mesmo mexer com um dedo:
impossível, até que, subitamente, o fantasma empalidecia e fundia-se em pleno ar.
Como que despertada em sobressalto, a moça empertigava- se na poltrona. Um suor frio cobria-lhe todo o corpo e um estado de fraqueza e de total lassidão sucedia a essas estranhas crises.
— É um pesadelo, um sonho provocado pelos meus nervos — tentava Tâmara persuadir a si mesma.
Mas, em lugar de desaparecer, o pesadelo intensificava-se diariamente.
Ela começou a temer ficar só em seus aposentos:
uma voz que conhecia muito bem pelo timbre murmurava-lhe aos ouvidos palavras de amor pronunciadas outrora naquele mesmo cómodo por uma boca viva, ou cantava as romanças de sua preferência.
E se seu olhar ansioso fitava a cadeira onde, habitualmente, se sentava Arsénio, ela o via distintamente.
Sua bela mão brincava com a corrente do relógio e seu olhar ardente parecia atravessá-las, mas se ela se aproximasse a visão desaparecia.
Em vão Tâmara procurava ler, orar e repelir com todo o poder de sua vontade aquela imagem e a recordação do homem que projectara uma sombra em sua alma.
Ela o eliminara do coração e agora ele começava a tornar-se-lhe odioso.
Na sua agonia, ela pensava em confiar tudo a Magnus, mas não o ousava e percebia que as feições do marido estavam cada vez mais entristecidas e seu olhar a fixava com sombria desconfiança.
Como confessar-lhe que o detestado rival surgia do túmulo para persegui-la com a sua culposa paixão, que mesmo a morte parecia não ter conseguido destruir?
— Será que ele deseja matar-me? — pensou Tâmara, sentindo-se cada vez mais fraca.
Mesmo à noite não tinha repouso.
O espectro a perseguia, parecendo absorver-lhe a força vital.
Em vão ela fazia Fanny dormir no seu quarto — a fiel camareira via somente que síncopes estranhas apoderavam-se de sua patroa, síncopes das quais ela despertava abatida, e a ouvia gemer e chorar surdamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 8:20 pm

Na verdade, um agudo ciúme atazanava o coração de Magnus.
Ele via Tâmara definhar, consumir-se, e compreendia que algo grave e insólito se passava e, involuntariamente, suspeitava do seu amor por Arsénio que, estimulado por sua trágica morte, a minava daquela maneira.
Vendo-a a cada manhã aparecer mais transparente e mais pálida, com os grandes olhos febris que evitavam os seus, uma amargura mesclada de raiva apossava-se do coração do jovem e, às vezes, lhe era bem difícil dominar-se para evitar uma explosão.
Um dia, após o segundo almoço, os dois encontravam-se no salão, onde ficara o retrato do Príncipe.
Magnus passeava de um lado para outro, dominando com esforço a cólera que rugia nele, pois já várias vezes surpreendera o olhar de Tâmara buscando a imagem do rival que, do Além, ainda perturbava a sua vida.
— Porque você não mandou colocar esse retrato no seu vestiário, em lugar de deixá-lo exilado aqui? — perguntou ele.
Toda a irritação que ele mal conseguia dominar vibrava na sua voz.
— Muito pelo contrário.
Quero pedir-lhe que mande retirar esse quadro de nossa casa.
Não suporto mais vê-lo — respondeu Tâmara com um tom fatigado.
Magnus estacou e fitou a mulher com espanto:
ela estava de pé, pálida e nervosa, com os olhos fixos no retrato, com uma estranha expressão de horror.
Subitamente, ela recuou, o rosto decomposto e abateu-se sobre uma poltrona, comprimindo o peito com as duas mãos como se sufocasse.
Inexplicável sensação de angústia e de temor supersticioso fez Magnus estremecer.
Ele nada via, mas a sensação de algo invisível, gelado, como um golpe de ar de uma janela aberta a seu lado, impunha-se a ele invencivelmente.
Tâmara parecia haver perdido a consciência — com o olhar vidrado, os lábios entreabertos, estava largada sobre a poltrona.
Como de hábito, trazia um vestido caseiro de lã branca e, subitamente, o jovem julgou ver sobre aquele fundo claro desenhar-se uma silhueta humana.
Tomado de um calafrio, benzeu-se e, no mesmo instante, a moça reagiu com um longo suspiro e passou a mão trémula pela testa coberta de suor gelado.
— Tâmara, pelo amor de Deus, diga-me o que se passa com você — exclamou Magnus, aproximando-se vivamente dela.
Conte-me tudo — repetiu ele em tom imperativo.
Ela levantou para ele o olhar perturbado e ansioso.
— Ah, se eu pudesse explicar o que se passa!
Eu sei que você suspeita de que penso nele, e as aparências são contra mim, mas juro-lhe, Magnus, que ele me é odioso, que a sua imagem e sua lembrança me espantam.
O Barão arrastou uma cadeira para junto dela e apertou-lhe afectuosamente a mão.
— Que suspeita poderia eu conservar ao vê-la sofrendo?
Fale-me francamente, diga-me tudo como a um irmão, ao seu melhor amigo.
Com a voz entrecortada pelas lágrimas, a moça descreveu as terríveis visões que a assombrava, o pavor que lhe causava aquela perseguição de um espectro, a prostração que se seguia às aparições que estavam minando sua vida.
— Sei que ele quer matar-me — acrescentou ela, respirando penosamente.
Às vezes me sinto arrastada à janela e me vem o invencível desejo de me atirar à rua.
Outras vezes, vejo-me inopinadamente com uma arma na mão e a tentação do suicídio me invade novamente.
Até o presente, tenho resistido, mas será que poderei fazê-lo por muito tempo?
Ah, Magnus, salva-me dele e de mim mesma!
E começou a soluçar, enquanto colocava a cabeça nos ombros do marido.
Um suor frio cobriu a testa do Barão.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 8:21 pm

Com as palavras mais afectuosas, procurou acalmá-la, consolá-la, e quando a jovem terminou por desmaiar de lassidão, ele ficou ali a velar por ela, entregue a penosas reflexões.
Já lera o suficiente sobre a vida oculta e as relações com o além-túmulo para duvidar por um só instante de que Tâmara estava sendo vitimada por terrível obsessão, mas como libertá-la daquilo?
E era preciso apressar-se.
Nunca o abatimento e o terrível definhamento da moça haviam-no chocado tanto quanto naquele momento.
À noite veio o Almirante visitá-los e o moço confiou-lhe o estranho estado de sofrimento e as visões de Tâmara.
Mas às suas primeiras palavras de obsessão que ele acreditava ser a causa da enfermidade, o velho marujo, que ouvia tudo com atenção, saltou como que mordido por uma serpente.
— E numa coisa tão grave como essas, você vai dar crédito a essas fantasias, Magnus Oscarovitch, e esperar que os espíritos venham curar sua mulher? — exclamou ele vermelho como um camarão.
Essa menina está doente e é preciso consultar os médicos.
Por favor, deixe de lado o Espiritismo e vamos recorrer à ciência que é a única competente na questão.
— Acalme-se, Sergei IvanoYitch.
Sem dúvida, consultaremos os médicos, mas se minha suposição é verdadeira, temo que eles serão incapazes de nos ajudar.
A partir do dia seguinte, os médicos mais famosos foram chamados para junto da enferma, muitas consultas foram realizadas e as opiniões dividiam-se:
uns só admitiam que aquilo eram alucinações; outros explicavam tudo por uma perturbação cerebral proveniente de um desarranjo nervoso e os demais afirmavam mesmo que eram evidentes os sintomas da loucura.
Quanto ao tratamento prescrito, continuou tão ineficaz quanto possível.
As crises intensificavam-se em grau e frequência.
O esgotamento atingira tal ponto, que a doente só caminhava agora com enorme esforço.
A ciência era impotente perante o misterioso mal que não conseguia sondar, mas nenhum dos médicos duvidava mais de que o juízo da moça estivesse inteiramente sadio e que nada, mesmo no seu estado físico, poderia motivar as estranhas síncopes durante as quais algo se passava sem que olhos humanos o percebessem.
Madame Raban e o Almirante estavam desolados.
Quanto a Magnus, estava positivamente desesperado.
A boa Fanny e mais Charlotte velavam a jovem senhora com o maior devotamento, chorando todas as lágrimas de suas almas ante a ideia de perdê-la.
O Barão ficou consideravelmente espantado quando, uma noite, a fiel camareira veio aos seus aposentos e contou-lhe com certo embaraço que ouvira falar num maravilhoso médium curador que devolvera a saúde a muitos doentes desenganados pela ciência oficial.
— Dizem que ele é tão bom e caridoso, que trata os doentes pela prece e pela imposição de mãos.
Talvez ele possa ajudar também à Senhora Baronesa, que os médicos acabarão enterrando com suas misturas — concluiu a boa mulher enxugando as lágrimas com a ponta do avental.
— Certamente, não me esquecerei do seu conselho, minha boa Charlote.
Em nossa desesperada situação, é preciso tentar tudo e confiar em Deus.
No dia seguinte, Magnus procurou informar-se melhor e descobriu, com alegria e admiração, que a pessoa da qual lhe falara a governanta era um célebre magnetizador, muito conhecido e estimado em São Petersburgo.
O coração do jovem bateu de alegria.
Se havia algo que pudesse ser útil a Tâmara seria o magnetismo, aquela força poderosa e tão invisível aos olhos como a doença que seria chamado a combater.
Sem perda de um instante, ele dirigiu-se à casa do senhor Giuseppe Tani e, naquela mesma noite, o famoso curador apresentou-se à residência dos Lilienstierna.
Madame Raban e o Almirante estavam presentes para assistir àquela suprema tentativa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 8:21 pm

A Baronesa, cheia de esperanças, e Sergei Ivanovitch, triste e desafiador; mas sua prevenção diminuiu sensivelmente à vista do Sr. Tani, um belo velho de barbas brancas, com um ar calmo e doce, o olhar puro e límpido que inspiravam invencível simpatia.
Depois de conversarem sobre a doença e os estranhos sintomas que a acompanhavam, o velho pediu para ver a enferma.
A Baronesa dispunha-se a conduzi-lo ao quarto dela, quando Fanny entrou correndo para dizer que a jovem Baronesa estava em nova crise.
Apressaram-se todos rumo ao quarto de Tâmara, mas aos primeiros passes que lhe deu o magnetizador, algo inesperado aconteceu:
a moça foi acometida de convulsões e, em seguida, de completa prostração.
Magnus e seus amigos estavam mortalmente inquietos, mas o Sr. Tani lhes fez sinal para não se aproximarem e, após uma hora de magnetização, Tâmara dormiu um sono profundo e reconfortante.
— Creio poder assegurar-lhes que o pior já passou e que as crises e outros sintomas alarmantes não voltarão a incomodá-la.
Só que é preciso ainda magnetizá-la várias vezes — declarou o velho despedindo-se.
A predição realizou-se com precisão.
No dia seguinte, Tâmara acordou com uma sensação de bem-estar e paz que há muito não experimentava.
Dir-se-ia que se esquecera das visões que a atormentavam, pois não falou mais do assunto.
A partir daquele dia, começou a recuperar-se com impressionante rapidez do terrível abalo que quase lhe custara a vida.
Magnus queimou, ele próprio, na lareira, o retrato de Ugarine que se tornara odioso à esposa. 36
Recuperando dia a dia seu bom humor e o rosado de sua tez, Tâmara deixava-se animar pelos que a cercavam, mas à medida que sua saúde foi se consolidando, uma incómoda sensação de mal-estar interpôs-se entre ela e o marido.
Não que Magnus houvesse mudado algo em sua conduta afectuosa e reservada — é que ela sentia que algo entre eles permanecia inexplicado e que o problema suscitado pela querela que tiveram não estava definitivamente elucidado e encerrado.
Por que, então, Magnus não expunha tudo com franqueza?
Era inadmissível que ele desejasse o divórcio e ela era bastante mulher para perceber que o moço era apaixonado por ela.
Esperava, pois, que ele tomasse a iniciativa de dizer-lhe:
“Eu a amo e não quero deixá-la”.
A uma solução dessas opunha-se o rígido' orgulho e teimosia da jovem.
Sem dúvida, divorciar-se agora que Arsénio estava morto e tudo mudara em volta dela teria sido supinamente ridículo, mas era Magnus que errara e a ofendera e maltratara.
Era ele que deveria pedir perdão e implorar uma paz definitiva que ela estava decidida a conceder.
Sob a impressão de tais sentimentos contraditórios, Tâmara sentia-se pouco à vontade em presença do marido, corando ante seu olhar e, perturbada, não sabia que responder às múltiplas e afectuosas atenções com as quais ele a envolvia.
Magnus, a seu turno, percebia bem claramente o aborrecimento e a preocupação da esposa e também especulava sobre as causas desses desacertos e, se estivesse certo de que Tâmara desejava mesmo uma reconciliação definitiva, nenhum escrúpulo de amor próprio o deteria.
Sem a menor hesitação, teria percebido o que ela pretendia e teria pedido perdão de todos os seus pecados verdadeiros e imaginários.
Mas ele temia dar um passo em falso, ao arriscar uma palavra decisiva diante da qual o coração da mulher que adorava pudesse reconquistar totalmente seu equilíbrio e reconciliar-se com ele de bom grado.
Quase um mês decorrera após a cura de Tâmara.
Uma noite o Almirante veio tomar chá e fazer companhia à sua afilhada porque Magnus iria ao teatro ouvir uma cantora famosa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 8:21 pm

A moça ainda não estava, suportando bem o ruído e a confusão de uma representação teatral e preferia ficar em casa.
Seriam umas dez e meia e já haviam acabado de tomar o chá e se preparavam para voltar aos aposentos de Tâmara, quando Frederico, pálido e agitado, apareceu na sala de refeição.
— Madame, - balbuciou ele — a carruagem acaba de entrar no pátio sem o senhor Barão.
O cocheiro diz que o teatro pegou fogo.
Tâmara levantou-se, pálida como morta.
— Que você está dizendo, Frederico?
Mas é impossível!
— Faça subir o cocheiro imediatamente.
Quero eu mesmo interrogá-lo — interrompeu o Almirante.
E você, minha filha, não se agite dessa maneira.
Há, sem dúvida, um mal-entendido nisso tudo — acrescentou ele, forçando a moça, toda desfeita, a sentar-se de novo.
O cocheiro declarou que, segundo o que ouvira dizer, o teatro estava todo em chamas por dentro, que o tumulto era terrível e que os bombeiros haviam resolvido retirar-se.
Os cavalos, apavorados pela confusão, começaram a empinar e, temendo esmagar alguém naquela multidão desvairada que corria em todas as direcções, ele resolvera voltar para casa sem ter visto o Barão.
— Padrinho! Depressa, vamos lá!
Talvez ainda haja tempo de salvá-lo — murmurou Tâmara, mal podendo sustentar-se.
— Não, não, minha filha.
Você não pode ir.
Que iria você fazer naquele tumulto infernal e como poderia encontrar seu marido na multidão?
— Não posso ficar aqui inactiva.
Talvez ele esteja ferido, ou até morto.
Tenho que saber! — exclamou ela desesperada.
— Não. A imaginação das mulheres é algo incrível!
Dou o meu dedo ao cutelo que Magnus está são e salvo e vai chegar aqui, a qualquer momento.
Talvez também a balbúrdia o esteja impedindo de sair, ou quem sabe está procurando em vão a sua carruagem?
Mas para tranquilizar você, vou partir imediatamente para o local do desastre e prometo trazer seu marido, vivo ou morto.
Só que, pelo amor de Deus, acalme-se! Você pode ter uma recaída.
Após a partida do Almirante, a moça deixou-se cair sobre uma cadeira, como que aniquilada e, em seguida, dirigiu-se rapidamente para o gabinete de Magnus, o qual tinha uma janela que dava para a esquina, por onde ela podia ver ao longe o cais, direcção que o Barão deveria vir.
Sentada junto à janela, a testa colada à vidraça, ela fitava a rua com o olhar febril, estremecendo à aproximação de cada carruagem, imaginando ver por toda a parte o cadáver de Magnus que lhe estava sendo trazido.
Na sua super-excitação nervosa, as mais horríveis suposições a perseguiam:
Magnus poderia morrer sufocado pela fumaça, poderia ter desmaiado e ter sido presa das chamas, ou ser esmagado e pisoteado pela multidão espavorida em busca de uma saída.
Seria retirado dos escombros, talvez já completamente carbonizado e ela jamais o veria novamente, nem ouviria sua voz, não apertaria aquela mão leal que a sustentara nos bons, como nos momentos adversos.
E ela, Tâmara, recusara seu amor àquele homem fiel e dedicado!
Por um miserável escrúpulo de amor próprio, prolongara a situação penosa e incerta que o fazia sofrer tanto...
Ela sabia, pois recordava-se de mil incidentes fúteis que demonstravam quanto era penoso para Magnus dissimular e dominar os impulsos de amor que experimentava por ela.
Agora era tarde demais e ela não podia mais corrigir o passado.
Lágrimas ardentes rolavam-lhe pelas faces e uma agonia inominável oprimia seu coração.
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