Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 8:24 pm

Depois do chá, uma parte dos convidados se dispunha a ocupar as mesas de jogo, quando um visitante retardatário deu entrada no salão.
Era um oficial de baixa estatura, feições bastante agradáveis, mas inexpressivas, uma parcimoniosa cabeleira loura, cuidadosamente arranjada, partida ao meio da testa; os grandes olhos azuis eram insondáveis na sua calma beata e um sorriso invariavelmente amável parecia congelado em seus lábios.
— Ei-lo aqui, afinal, Eitel Franzovitch —- exclamou a Baronesa — eu pensava que você não viria mais.
Algum amigo o reteve ou talvez o trabalho?
O jovem, que já havia cumprimentado todos os presentes, aproximou-se com vivacidade e beijou a mão de Madame Raban com respeitoso zelo.
— Atrasei-me bem contra, a minha vontade, Vera Petrovna — respondeu ele com a voz insinuante.
A senhora sabe que jantei hoje em casa do embaixador da China, mas às nove horas eu estava justamente de saída para aqui quando o Conde D. — a senhora sabe, o cônsul da Itália — me reteve e tive que tomar com ele uma taça de chá, no café francês.
Tâmara duvidou prontamente que o recém-chegado fosse Páris reencarnado.
Com esforço dominou o desejo de rir — somente um sorriso brincava em seus lábios rosados, quando a Baronesa apresentou-a a Eitel von Pfauenberg.
Ao primeiro olhar que trocou com o jovem oficial, um sentimento desagradável de quase repulsa a tomou.
A sensibilidade da moça pressentia a máscara do impostor naquela personalidade servil e obsequiosa, um espírito frio e astucioso, e não pode evitar que essa impressão se reflectisse na reserva um tanto fria com a qual o acolheu.
A Baronesa e a maior parte dos convidados tomaram seus lugares às mesas de jogo, mas Pfauenberg assentou-se no salão menor perto de Tâmara e de duas velhas senhoras que ele se esforçava por distrair à sua maneira mais agradável.
Nessa conversa, contudo, o assunto principal era ele mesmo, suas relações aristocráticas e os trabalhos sérios a que se entregava como colaborador de várias publicações militares.
Tâmara ouvia atentamente, mas aquela parolagem toda nada lhe dizia de especial.
Na sua ingénua honestidade, ela não imaginava que lhe cabia mostrar-se impressionada com aquela exibição de nomes ilustres.
Achava natural que um elegante jovem como aquele frequentasse as altas rodas e a convicção de que ele trabalhava e escrevia bastante inspirava-lhe certa estima.
Isso e mais a amável deferência com as senhoras idosas desfizeram a impressão desagradável que ela experimentara de início e, ao fim da noite, ela se persuadiu de que a Baronesa bem que podia ter razão quanto ao elevado conceito em que tinha o jovem oficial.
Foi de muita alegria aqueles tempos.
Rapidamente a capital se reanimava e, se ainda não havia grandes festas, as pequenas reuniões eram frequentes e os teatros haviam já aberto suas portas.
Tâmara deixava-se arrastar pelo turbilhão dos prazeres e as frequentes visitas do príncipe Arsénio enchiam seu coração de secreta satisfação.
O primeiro grande baile ao qual deveria comparecer aconteceu em meados de outubro.
A esposa de um senador, muito amiga de Madame Ardatov, havia decidido festejar com toda a pompa suas bodas de prata e a moça deixou absorver-se completamente pela tarefa de escolher sua toalete.
Dois dias antes da solenidade, Ugarine veio tomar chá em casa dos Ardatov.
Falou-se da festa que, no momento, preocupava com exclusividade o pensamento de Tâmara.
— A senhora tem ainda alguma dança livre que possa me conceder? — perguntou galantemente o Príncipe.
— Mas sem dúvida... estão todas livres, excepto uma valsa e uma quadrilha que me foram solicitadas pelo Sr. Tarussoff — respondeu ela corando de prazer — e com toda satisfação concederei as danças que o senhor desejar.
— Quando foi que Tarussoff teve oportunidade de convidá-la? — perguntou Lúcia.
— Ontem, quando ele veio com a sua tia.
Enquanto você conversava com Nadeshda Ivanova, falamos do baile e ele me convidou.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 8:24 pm

A personagem em questão era um jovem oficial da guarda que, visivelmente, se interessava por Tâmara e começava a cortejá-la abertamente.
— Não posso me deixar suplantar por ele e lhe peço que me conceda três danças — disse Ugarine, mergulhando seu olhar penetrante nos olhos ingénuos da moça e sorrindo ante a alegria e a admiração indisfarçadas que ali se reflectiam.
Pouco depois, Lúcia convidou o Príncipe a vir jantar com eles no dia do baile.
— O Almirante virá também.
Em seguida, o senhor poderá repousar ou jogar uma partida de cartas, como quiser, enquanto nos vestimos.
Depois disso iremos todos juntos à casa dos Patanov — acrescentou ela rindo.
O coração da moça bateu violentamente, quando Ugarine declarou aceitar a sugestão.
A esperança de conquistar aquele a quem unicamente desejava agradar consolidava-se nela cada vez mais.
Com alegre satisfação, Tâmara contemplou sua sedutora imagem, que se reflectia no grande espelho do seu quarto de dormir, enquanto Fanny e uma segunda camareira davam os retorques finais na sua toalete.
Era um vestido vaporoso de gase cor de rosa, guarnecido de ramos de espinheiro branco, entremeado com jasmins, também brancos.
Um punhado das mesmas flores ornava seus lindos cabelos castanhos.
Mal foi colocado o último alfinete, ela apanhou as luvas e o leque de plumas cor de rosa e, impacientemente, correu ao gabinete de seu pai para mostrar-se a ele, mas Nicolai Wladimirovitch estava ainda na sala de banhos e ela encontrou ali apenas o Almirante e o Príncipe, que jogavam damas e que ela pensava estarem no salão.
Por um instante parou confusa, mas sua alegria era tão viva, que ela não se deixou perturbar por muito tempo.
— Olhe para mim, padrinho.
Você acha que escolhi bem minha toalete? — perguntou ela caminhando com vivacidade para ele.
O Almirante colocou os óculos e examinou a afilhada com óbvia satisfação.
— Você é muito bonita e desejo que agrade a todos tanto quanto a mim — respondeu ele sorrindo.
O Príncipe também se levantara e um brilho de admiração iluminou seus olhos à vista daquela adorável jovem, verdadeira personificação da juventude e da inocência, com as formas frágeis e esbeltas, a pele deslumbrante de frescor e o olhar límpido e puro.
Alguns instantes mais tarde, entraram Ardatov e Lúcia, extremamente enfeitada e coberta de diamantes.
Como eram dez e meia, resolveram partir.
Enquanto o grupo atravessava os diversos aposentos para chegar ao hall de entrada, Ugarine inclinou-se para Tâmara e murmurou:
— A senhora conquistará muitos corações hoje, mas quem será bastante feliz para ter o privilégio de merecer a sua preferência?
— O senhor está brincando comigo, Arsénio Borissovitch — respondeu ela corando.
Não conheço quase ninguém ainda e não é tão depressa assim que se desperta o interesse.
— Muito pelo contrário — basta frequentemente um olhar para conquistar um coração ou para dar o próprio.
É preciso acrescentar que, infelizmente, o amor é, com mais frequência, um fogo de palha — disse o Príncipe com um estranho sorriso.
— Fogo de palha? — repetiu Tâmara espantada.
Acho que o amor que se tem por aquele que se toma o companheiro de nossa vida é um sentimento único, inextinguível.
Amar é esquecer? Isso é impossível!
— Assim lhe parece, Tâmara Nicolaevna.
É precisamente a vida conjugal que extingue, segundo se diz, todas as ilusões e, então, cada um procura ressuscitar alhures o coração apagado e preencher o vazio deixado pelos sonhos perdidos.
— Não, não!
Quem ama de verdade nada tem a temer quanto a esse desencanto.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 8:24 pm

— O futuro provará quem de nós tem razão — respondeu o Príncipe, envolvendo Tâmara no seu casaquinho forrado de penas de cisne, enquanto a fitava com um olhar que fez bater com violência o coração da moça.
Nesse momento, o olhar de Lúcia caiu sobre eles.
— O que está o senhor cochichando aí com a minha filha? — perguntou ela ameaçando-o com o dedo.
E o que diria Helena, vendo-o tão galante ao lado de uma violeta?
Arsénio endireitou-se, com um riso seco, que causou aos ouvidos de Tâmara o efeito de uma dissonância, mas ela não teve tempo de perguntar-se quem poderia ser Helena e nenhuma suspeita teria lugar em seu cândido coração.
O senador Patanov era imensamente rico.
O luxo, o gosto refinado de suas festas eram proverbiais.
Por isso, Tâmara sentiu-se transportada a um reino de fadas no momento em que pôs os pés na escadaria.
Como homenagem à data que se comemorava, o branco e a prata dominavam em todos os arranjos e, sob a luz intensa das lâmpadas eléctricas dentro de cálices de lírioa de cristal, o imenso salão, tão logo a pequena multidão o encheu, passou a apresentar um aspecto verdadeiramente feérico.
A entrada de Ardatov e sua família causou sensação e muitos olhares admirativos se fixaram na bela moça.
Ela foi logo cercada pelos jovens dançarinos que se apressaram em vir à sua presença e, em breve, seu carné de baile ficou completamente tomado.
A baronesa de Raban, que vira seus amigos, veio sentar-se perto de Lúcia e lhe prometeu olhar Tâmara, já que a amiga, apaixonada pela dança, queria aproveitar bem o seu tempo.
A moça, que demonstrava grande afeição pela velha senhora, colocou-se ao seu lado, procurando informar-se acerca dos presentes que lhe suscitassem algum interesse.
É verdade que seus cavalheiros lhe deixavam poucos momentos para conversar.
O Príncipe Arsénio também aproximou-se dela e a valsa que dançaram deixou-a extasiada.
Ele a amava e disso ela não podia duvidar:
seus olhares, os cumprimentos, que havia murmurado enquanto dançavam, o provavam.
Por isso sua face ardia, quando Ugarine a acompanhou ao seu lugar e o olhar que ela dirigiu a ele traiu claramente seus pensamentos e suas emoções.
A Baronesa percebeu o olhar e seu rosto se tomou algo sombrio.
Após um momento de reflexão, ela se levantou.
— Você está com calor, minha querida.
É bom repousar um pouco.
Venha comigo para o aposento ali perto da estufa, que julgo estar vazio.
Tâmara levantou-se prontamente e as duas damas atravessaram lentamente o salão cada vez mais cheio de gente.
Chegavam já ao outro lado, quando viram Ugarine que levava pelo braço uma jovem de deslumbrante beleza.
Um vestido cor de fogo realçava-lhe a tez pálida, a cabeleira de ébano e o brilho dos grandes olhos aveludados.
Os dois conversavam com animação e o Príncipe inclinava-se sobre sua companheira, tão absorto, que passou junto de Madame Raban e de Tâmara sem percebê-las.
A moça empalideceu.
Pungente sentimento, como jamais havia experimentado, invadiu seu coração e maquinalmente ela seguiu a Baronesa até o pequeno salão vazio no momento, onde acomodaram-se num divã que ficava a um canto, atrás de um arranjo de plantas exóticas.
A velha senhora, que havia percebido com tristeza a violenta emoção da jovem, apertou-lhe carinhosamente a mão.
— Tâmara, minha querida, foi para dizer-lhe algumas palavras bem sérias que trouxe você aqui e creia-me que é uma afeição muito maternal que me inspira tais palavras.
Conheci sua mãe, de quem muito gostava, e sou uma velha amiga de seu pai.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 8:24 pm

Não posso me conter ao ver o risco que você corre sem preveni-la do perigo.
Tâmara olhou-a com espanto.
— Não estou compreendendo, Vera Petrovna, mas esteja certa de que acolherei o seu conselho com o respeito e a gratidão que ele merece.
— Devo ser franca e falar de coisas sobre as quais teria preferido calar-me, mas creio de meu dever abrir os seus olhos.
O Príncipe Ugarine agrada a você... Não o negue.
Os seus olhos ingénuos traem os seus sentimentos a todos que querem ver.
Arsénio Borissovitch é suficientemente belo para cativar o coração de uma jovem.
Se o julgasse capaz de um amor puro e se houvesse nisso a menor esperança de vê-lo pedir a sua mão, eu não a desiludiria, mas, minha pobre filha, esse homem nunca se casará com você.
Para ele não existem senão duas categorias de mulheres:
a amante — cortesã ou esposa alheia — e a noiva, bastante rica para devolver o brilho do ouro ao seu brasão esmaecido.
Indiferente, jogador, dado ao vício e ao deboche, não se casará com você porque você não é bastante rica para ele.
Ainda há pouco encontramo-lo com uma mulher que parecia interessar-lhe muito.
Pois bem, há três anos essa mesma pessoa era uma jovem sem fortuna que o amava perdidamente.
Ugarine cortejou-a, mas, como é esperar-se, não quis desposá-la.
Somente depois que ela se casou com um velho dignitário muito rico, ele voltou a distingui-la e é um segredo de polichinelo que ela é a sua actual amante.
Será que o marido é cego?
Ou tolerante demais para provocar um escândalo? Não se sabe.
O facto é que ele se cala.
Portanto, minha querida, não se deixe arrastar e guarde o seu coração honesto para alguém mais digno.
Tâmara havia tudo ouvido, pálida e respirando penosamente.
Após um instante em silêncio, apertou a mão da Baronesa e murmurou:
— Obrigada, Vera Petrovna, por me haver aberto os olhos.
Esteja certa de que não foi em vão que a senhora falou.
Peço-lhe apenas, por favor, que me deixe aqui um pouco a sós.
Logo vou ter com a senhora novamente.
Queria arrumar melhor meus pensamentos, antes de reaparecer no salão.
— Fique, minha filha.
Ouço passos, creio que vem alguém.
Se for algum conhecido meu, eu o levarei para algum lugar, a fim de deixar com você um pouco de solidão.
Quando Tâmara ouviu que as vozes se afastavam, apoiou a cabeça no espaldar do divã e fechou os olhos.
Parecia-lhe que um peso enorme havia descido sobre ela, sepultando sobre uma verdadeira montanha de granito o futuro de felicidade que ela havia sonhado e cuja realização lhe parecia tão próxima.
Como um golpe de martelo, cada palavra da Baronesa havia destruído uma ilusão, mostrando-lhe em toda a nudez moral o herói fantástico criado pela sua imaginação — aquele homem tão belo, tão sedutor, era um ser sem princípios, um libertino de coração vazio que mantinha uma ligação escandalosa com uma mulher casada, que ele próprio recusara, quando livre, porque ela era pobre.
Penosa claridade se projectava agora no espírito de Tâmara.
Ela se lembrava de muitas das suas conversas com o príncipe e agora compreendia o que antes lhe escapara — o sentido imoral das opiniões que ela expressara.
Ainda hoje mesmo, antes do baile, o que lhe dissera das ilusões do casamento e das consolações que eram buscadas alhures não era também uma frívola alusão?
E a um homem desses ela havia revelado abertamente o interesse que ele lhe inspirava!
Uma onda de sangue inundou sua face pálida.
A esse humilhante pensamento, todo o seu inato orgulho levantou-se nela e lhe restituiu o sangue frio.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 07, 2016 8:24 pm

Atrelar-se ao carro do triunfo daquele homem que somente queria da mulher a fortuna, e sobre o qual nem o espírito, nem a beleza, nem a virtude ofereciam qualquer atractivo?
“Jamais — murmurou ela.
Ainda que eu tivesse bastante dinheiro para abrir o seu coração, não usaria uma chave tão desprezível.
Quero e devo esquecer este sonho doentio“.
A despeito dessa corajosa resolução, um profundo suspiro a sacudiu e uma lágrima assomou junto dos longos cílios de seus belos olhos.
— Onde a senhora se escondeu, Tâmara Nicolaevna?
Procurei-a por toda a parte! — disse naquele momento a voz um tanto descontente do príncipe Arsénio.
A moça endireitou-se com um estremecimento e seu olhar sobressaltado fixou-se como uma espécie de agonia no seu interlocutor, procurando ler no seu rosto a confirmação das acusações da Baronesa.
— Bom Deus! lágrimas e um rosto todo desfeito!
O que aconteceu? — perguntou Ugarine admirado.
E, sentando-se ao lado dela, sua voz e seu olhar exprimiam o mais afectuoso interesse.
Subitamente uma ideia lhe ocorreu:
"Ela me viu com Helena e está com ciúmes.
Um sorriso irónico perpassou fugitivamente por seus lábios.
Tâmara percebeu a expressão e compreendeu.
Como que atingida por uma chibatada, ela se recompôs.
— Estou bem, príncipe, e lamento haver obrigado o senhor a me procurar.
O orgulho ferido fazia tremer os seus lábios.
"Você se engana — pensou ela com amargura e cólera — você não é digno do meu ciúme.
É a sua perversidade que chorei, mas essa lágrima é a primeira e também a última que você me custa".
Silenciosamente, ela se deixou conduzir ao salão e, terminada a dança, trocou com o seu par um frio cumprimento.
O Príncipe, que a havia observado, retirou-se cada vez mais divertido.
"Quem haveria de pensar que a santinha fosse tão ciumenta?" — murmurou ele, rindo e torcendo os bigodes.
Tâmara, a seu turno, esforçou-se em não deixar transparecer a emoção que acabava de experimentar e, quando o capitão Tarussoff veio convidá-la, acolheu graciosamente as gentilezas do jovem oficial.
Pela primeira, vez, ela o examinou atentamente e o comparou com o Príncipe que, naquele momento, inspirava-lhe uma espécie de aversão.
Anatole Pavlovitch Tarussoff era um moço bastante bonito, de trinta e dois anos, grande e robusto, cabelos e suíças castanhos e grandes olhos de um azul claro e duro.
Seus traços nada tinham da beleza clássica, nem o charme fascinante do príncipe Arsénio.
Suas maneiras não revelavam também aquela aristocrática distinção, mas era alegre, amável e bastante garboso no seu elegante uniforme para causar boa impressão à moça, especialmente naquele momento.
Durante o resto do baile, Tâmara procurou evitar Ugarine, mas ainda uma vez o viu junto de uma dama que ele parecia cortejar e na qual reconheceu, com surpresa, Catarina Migusov.
As duas amigas cumprimentaram-se amavelmente, mas no coração de Tâmara a estima pelo Príncipe baixou ainda mais.
De volta a casa, ela se fez trocar de roupa apressadamente, mas não conseguia dormir.
A lembrança da primeira decepção, do primeiro sofrimento que lhe causara o contacto com os homens, ocupava-lhe todos os pensamentos.
Durante quatro anos ela havia adorado a imagem do Príncipe, cercando-a de uma auréola e atribuindo-lhe à alma a sua beleza exterior.
Ficara cega ante sua galanteria constante.
Pensava, na sua ingenuidade, que um homem que demonstra abertamente a uma mulher que ela lhe agrada não pode pensar senão em casamento.
Acabara-se o sonho de -amor, dissipara-se a ilusão.
Do herói de seus sonhos nada restara senão um homem prático e frívolo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 08, 2016 9:42 pm

— Devo esquecê-lo, fazendo um apelo à minha razão e à minha dignidade de mulher — repetia Tâmara a si mesma.
Estou perdendo apenas uma ilusão... e, afinal, posso amá-lo quando não sou capaz de estimá-lo?
Sim, lutarei, mas sem Deus, sem o conselho dos amigos espirituais, não poderei contar com vitórias.
Saltou do leito ao chão e ajoelhou-se diante das várias imagens colocadas num dos cantos do aposento.
A luz de uma lâmpada suspensa a uma corrente, iluminava vagamente o rosto sombrio e severo dos santos e fazia cintilar as pedrarias que ornamentavam a auréola em tomo da cabeça deles.
A jovem juntou as mãos em prece, e seu olhar fixou-se com fé e amor na imagem da Virgem.
“Santa Mãe do Salvador, protectora de todos os sofredores, sustenta-me nas minhas fraquezas, ajuda-me, protege-me“ — murmurou ela com fervor.
“E vós, forças do bem, mãe querida, amigos do espaço, levai minha prece ao meu Pai celeste; rogai a Ele que me dê forças para amar apenas o bem, de nunca condenar o meu próximo, mas de me guardar do amor fatal e sem finalidade“.
Após essa ardente invocação, ergueu-se tranquilizada e logo adormeceu, mergulhando em sono calmo e profundo.
Essa calma íntima perdurou.
Tâmara, contudo, tornara-se mais grave, observava melhor as coisas e se sentia, às vezes, desencantada e chocada, habituada que estava ao procedimento digno e reservado de Eveline, às suas opiniões severas acerca da virtude e da sociedade.
Tâmara não podia habituar-se à frívola sem-cerimónia, à desenfreada coqueteria e ao sumário recato de sua madrasta e da maior parte das senhoras de seu círculo social.
Apesar das brilhantes posições, dos nomes ilustres, das rendas e dos diamantes que as cobriam, aquelas mulheres de maneiras vulgares, absorvidas pelos interesses mesquinhos, odientas e ciumentas entre si, desagradavam enormemente à moça.
Quanto aos homens, ela se tornara ainda mais prudente com respeito a eles, acolhendo com reserva as gentilezas de Anatole Tarussoff e evitando Ugarine na medida do possível.
O Príncipe havia, a princípio, tentado demolir a muralha de gelo que o surpreendia mas, não o conseguindo, impôs a si mesmo uma fria polidez.
As relações de Tâmara com suas antigas amigas eram igualmente banais.
Faltava a simpatia íntima e era com dificuldade que ela aceitava seus convites, sem ousar recusá-los.
Um dia, Catarina, que havia torcido o pé, convidou suas amigas para lhe fazerem companhia durante uma daquelas noites de reclusão forçada.
Tâmara entendeu ser de seu dever visitar a antiga companheira e testemunhar-lhe o interesse que tomava pelo seu acidente.
Mas, para grande surpresa sua, encontrou a doente no melhor bom humor, fumando como uma chaminé e discutindo tão ruidosamente com Nadina e Natália, que se podia ouvir a sua voz através de vários aposentos.
Cartas espalhadas sobre a mesa demonstravam que as damas já há algum tempo se divertiam como se numa verdadeira reunião social.
Interrompida momentaneamente pela chegada de Tâmara, a conversa foi retomada com o mesmo entusiasmo.
Tratavam do casamento de uma das amigas comuns do internato, Xénia, que esposaria um oficial de marinha e partiria em seguida para Odessa.
Demonstraram, na ocasião, um profundo conhecimento dos problemas da família da noiva e criticaram à vontade os futuros esposos.
Em seguida, passaram em revista, com a mesma falta de caridade, a uma quantidade, de pessoas e Tâmara, que havia presenciado em várias oportunidades as amabilidades que todas testemunhavam àquelas mesmas pessoas, formulou um juízo bem seguro da falsidade de suas companheiras.
Esgotado o tema tão interessante das virtudes do próximo, passaram elas a assuntos mais íntimos e Nadina relatou com satisfação que conhecera recentemente um jovem diplomata, o visconde Roger de Rougement, a quem não poupou elogios.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 08, 2016 9:42 pm

Tâmara, que quase não tomava parte na conversa, admirava-se intimamente do desmensurado interesse por parte de uma mulher casada por um homem que mal conhecia e da frequência das visitas, das quais Nadina se vangloriava.
Logo, porém, Natália, que parecia muito bem informada e de melhor humor do que habitualmente, interrompeu a jovem.
— Sabemos que não lhe faltam adoradores e que o seu Piotr Michailovitch é á pérola dos maridos.
Escute, porém, o que vou dizer-lhe e espero que em breve você me felicitará por isso.
E contou que um oficial, cujo nome mencionou, a cortejava abertamente e manifestara intenções sérias a seu respeito.
Contava mesmo, em breve, com um pedido formal e que sua avó se declarava muito satisfeita com esse partido.
Catarina, que ouvira atentamente, balançou a cabeça.
— Aconselho-a a ficar atenta, a fim de que Lisa Bugaiev não lhe subtraia o pretendente bem na frente de seu nariz.
Eu os tenho visto ultimamente juntos no Teatro Michel e asseguro-lhe que as mãos dele estavam bem ocupadas.
— Aquela feiosa? — indagou Natália com despeito.
Pensava que Pfauenberg, Maurov e o cônsul alemão estivessem, na sua lista de vítimas em potencial...
— Risque os dois últimos, pois, sem dúvida, eles foram informados da sua peruca e se retiraram discretamente.
— Mas Catarina, como pode Você falar dessa maneira? — exclamou Tâmara.
Eu vi a Senhorita Bugaiev.
Ela tem cabelos muito lindos!
— Postiços, minha cara, postiços!
Sua cabeça é nua como um joelho e ela está sempre de peruca, o que, afinal de contas, não espanta os tolos, uma vez que ela tem, segundo se diz, 100 mil rublos de dote.
E voltando ao seu problema, Natália, acredite no que lhe digo:
Pfauenberg e seu ajudante-de-campo têm suas chances.
Seu belo senhor faz jogo duplo e tem melhores chances porque é o melhor dos dois.
Sem dúvida, Eitel Franzovitch não se renderá sem luta, se bem que ele não seja totalmente desprovido de recursos, pois é bem forte em aritmética e adora a multiplicação.
Uma gargalhada das três marcou a observação e, em seguida, Catarina perguntou, ainda rindo e acendendo novo cigarro:
— Discutimos com franqueza na sua presença, santa Tâmara, mas você está sempre calada e se faz de sonsa.
Vamos, diga, quem tombou vitimado pelos seus belos olhos e pelo odor de virtude que exala de você?
— Ninguém, respondeu Tâmara, sorrindo.
Na sociedade de vocês, parece-me que o cheiro do ouro é que embriaga e faz suas vítimas.
Além disso...
— Como, ninguém?
E Tarussoff, que está doido por você? — interrompeu Natália.
— Se você tivesse me deixado concluir, eu teria dito que que nada sei sobre o valor que me foi atribuído.
Meu pai nada me disse.
Talvez Anatole Pavlovitch esteja iludido a esse respeito e se desencantará num belo dia destes — concluiu ela não sem ligeira amargura.
— Seu pai não deixaria de confiar a pessoas de sua confiança uma coisa tão importante — observou Catarina.
— Que fazer? Alegre-se de que o seu é mais prático e que não escondeu o seu milhão.
E por falar nisso, você ainda quer ser uma princesa?
— Mais do que nunca, e prevejo mesmo que, com o tempo, serei a princesa Ugarine.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 08, 2016 9:42 pm

— Ugarine? — repetiu Tâmara, corando ligeiramente.
Acho que ele gosta de outra...
— O amor é coisa frágil.
Enfim, quem viver verá!
Digo apenas que, se tudo correr bem, estou disposta a trocar meu milhão pelos olhos negros do belo Arsénio.
Ele me agrada e é chegado o tempo de me casar.
A entrada de várias senhoras veio mudar o curso da conversa, mas na alma de Tâmara aquela tarde deixou uma desagradável marca — a frivolidade e o cinismo sem véus desgostavam-na profundamente.
Em geral, a despeito do turbilhão mundano, no qual ela fora apanhada e que mal lhe deixava tempo para o indispensável repouso, a moça sentia um vazio interior, invencível sentimento de isolamento e tristeza que, às vezes, lhe fazia parecer odiosa a sociedade que a cercava.
Pouco via seu pai, sempre absorvido pelos negócios e em frequentes viagens.
Tâmara observava que alguma preocupação oculta o incomodava visivelmente.
Quanto à sua madrasta, começava a sentir por ela verdadeira antipatia.
Sua insaciável avidez pelos prazeres, o mau gosto que transparecia em suas maneiras e, enfim, a indiferença pelo marido, que não se dava ao trabalho de disfarçar, tudo aquilo revoltava a moça.
Mas o que levou ao cúmulo a sua aversão foram as visitas muito frequentes de um senhor, ao qual sua madrasta falava num tom que a desagradava profundamente.
Não que ela suspeitasse de Lúcia, mas seu instinto feminino lhe inspirava antipatia pelo hóspede assíduo demais.
Pelas crianças Tâmara sentia profunda compaixão.
O pobre Jorge estava sempre abandonado à sua babá.
Em compensação, arrastavam Olga ao circo e ao teatro.
Quando havia convidados em casa, ela não deixava o salão e ia dormir às duas ou três horas da madrugada, se antes não houvesse adormecido de fadiga em alguma poltrona.
Sua mãe a mimava abominavelmente, lisonjeando seu gosto pelas roupas e sua precoce vaidade.
Havia-lhe ensinado a cantar algumas canções e árias de operetas, que a criança exibia com uma verve e uma compreensão inesperadas na sua idade.
Tâmara tentou ocupar-se um pouco dela, de vez que a criada alemã que tomava conta dela não tinha autoridade alguma sobre ela.
A menina, porém, mostrou-se tão cheia de vontades, preguiçosa e impertinente, que ela perdeu logo a paciência.
Comentou, contudo, com a sua madrasta, certa vez, que, na sua opinião, era impossível descuidar-se por mais tempo de Olga de maneira tão imperdoável.
— É preciso dar-lhe uma governanta instruída e experiente que a eduque divertindo-a, que se ocupe o tempo todo dela e a oriente para uma vida normal.
Madame Ardatov mostrou-se irritada com a observação da enteada.
— Olga é muito nova ainda para estudar com seriedade.
Seria supérfluo dar-lhe uma boa governanta, que custaria muito dinheiro.
Na verdade, minha cara, não dispomos de recursos para despesas inúteis.
Tâmara olhou-a espantada.
— Não há meios? — exclamou ela.
Mas gastamos importâncias enormes em toaletes e em recepções e não sobra nada para pagar uma governanta para a menina?
Ele está sempre abandonada em mãos das empregadas, quando saímos, e, às vezes, nem a vemos durante o dia todo.
— Deixemos isso e poupe-me, por favor, as censuras — respondeu com dureza madame Ardatov.
Quando tiver seus filhos,* você os educará segundo os seus métodos pessoais.
Eu tenho os meus, que não estão sujeitos à sua crítica.
Tâmara calou-se.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 08, 2016 9:43 pm

Não queria importunar seu pai.
Ele parecia irritado e, às vezes, tão triste, tão abatido, que seu coração ficava pesado, ainda que ela ignorasse as causas daquela secreta aflição.
Depois daquela conversa, contudo, a moça tornou-se mais reservada com a madrasta.
As eternas saídas que faziam juntas aborreciam-na e ela começou a sentir falta de seus pincéis e de seus livros, nos quais não tocava desde que regressara de Estocolmo.
Em compensação, desenvolvera profunda afeição pela Baronesa.
A advertência maternal que ela lhe fizera durante aquele baile a enchia de gratidão e Tâmara considerava uma festa passar algumas horas de sossego com a velha dama, para falar de Espiritismo e outras questões de seu interesse.
Um dia que Madame Raban a convidara para o jantar, ela chegou muito cedo e, acomodadas no gabinete de trabalho da Baronesa, as duas conversavam sobre o tema predilecto de ambas.
Pela primeira vez, Tâmara contou à sua velha amiga as interessantes sessões de que havia participado em casa dos Ericsson e terminou por confiar-lhe a maravilhosa visão de sua mãe.
— Sim, eu a vi e a reconheci e ela me deu uma rosa, testemunho precioso de seu amor que superou a barreira da morte — concluiu a moça com os olhos brilhantes.
Nunca lhe falei dessa incomparável aparição em nossa casa, porque não temos ali tempo para cogitar de coisas sérias.
Levo uma vida de verdadeira preguiçosa e, contudo, me sinto fatigada de tanto me vestir e desvestir quatro ou cinco vezes por dia, de correr aos bailes e de fazer visitas.
Cansava-me menos quando trabalhava.
A entrada de um servo, que apresentou à Baronesa um livro e um jornal, a interrompeu.
— Diga que agradeço muito ao senhor Barão e que o espero, como estava combinado — respondeu Madame Raban tomando os dois objectos.
Enquanto ela procurava seus óculos, Tâmara leu o título do livro e atirou um rápido olhar ao jornal.
— São publicações espíritas e que me parecem muito interessantes — disse ela.
Gostaria também de lê-las.
— Penso que o seu proprietário terá prazer em dá-los a você.
É um espírita convicto, meu iniciador em nossa sublime crença.
É a ele que devo o facto de haver compreendido com clareza a finalidade da Yida e, ainda que Deus não me tenha concedido uma graça suprema como a sua, Tâmara, que viu a sua mãe, sou-lhe profundamente reconhecida pela luz com a qual iluminou minha alma.
— E quem é esse senhor? — perguntou Tâmara com curiosidade.
— É um jovem que mora no mesmo piso que nós, na porta em frente.
Aquela varanda ali é dele...
Ah! uma criatura bem infeliz!
Aos vinte e oito anos está paralítico de ambas as pernas.
— Meu Deus!
Como foi acontecer-lhe tal desgraça? — perguntou a moça compassivamente.
Foi consequência de um acidente de caçada.
Era o outono, ele perdeu-se e caiu num pantanal, do qual não pôde desembaraçar-se pois a lama o cobriu até o peito.
Somente pela madrugada conseguiram retirá-lo, meio inconsciente.
Uma infecção instalou-se e ele esteve a um passo da morte.
Conseguiu, contudo, salvar-se, mas as duas pernas ficaram paralisadas.
Tinha vinte, e quatro anos e você pode imaginar como essa desgraça o tornou quase louco.
Em Paris, contudo, onde ele foi consultar os médicos, encontrou por acaso um espírita que o convenceu, esclareceu e acalmou a tempestade que rugia na sua alma.
Quando o conheci, há um ano e meio, fiquei emocionada pela sua doce e inalterada resignação.
Sem dúvida, o pobre rapaz ficou, de certa forma, à margem da sociedade e recebe muito pouco, mas criou para si mesmo uma vida toda intelectualizada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 08, 2016 9:43 pm

Ele tem uma soberba biblioteca, recebe montes de livros e jornais e se ocupa de traduções e até mesmo de trabalhos literários.
Além disso, tornou-se gravador em madeira e suas obras são excelentes.
— Em verdade, gostaria de conhecer essa interessante personagem.
— Ele virá hoje tomar chá comigo e, se você estiver livre, será um prazer apresentá-la ao meu pobre enfermo.
Ele também ficará muito feliz de conversar com você.
— Querida Vera Petrovna, se a senhora me promete enviar alguém à minha casa para prevenir minha madrasta, ficarei aqui.
— Com muito gosto, minha filha, mas você não estava para ir ao teatro?
Por que privar-se desse prazer?
— Já vi uma vez esse ballet.
Por outro lado, minha madrasta convidou para o seu camarote Madame Majarovsky, que me é antipática com a sua postura de mau gosto e suas grandes orelhas de um asno.
Ficarei feliz de me livrar de sua companhia.
Após o jantar, apresentou-se uma das numerosas protegidas de Madame Raban, que tinha um pedido a fazer-lhe.
Tâmara apanhou o livro enviado pelo vizinho paralítico e retirou-se discretamente para o quarto de vestir da Baronesa, onde a leitura logo a absorveu completamente e foi com pesar que ouviu que a chamavam.
— Tâmara, onde você se meteu?
Venha, minha querida, quero apresentar-lhe meu iniciador.
A moça levantou-se prontamente e seguiu a velha amiga até o pequeno salão, onde viu logo a cadeira de rodas do enfermo junto à mesa.
Tâmara contemplou admirada o rosto do paralítico, vivamente iluminado pela lâmpada.
Ela o imaginara completamente diferente.
Era um belo rosto, fino e magro, de uma brancura mate e doentia.
Mechas castanhas, espessas, mas curtas, caíam sobre sua ampla testa, sede visível de uma vasta inteligência; um fino bigode sombreava-lhe a boca severa e bem desenhada e uma pequena barba bem cuidada emoldurava-lhe o rosto.
Os pés estavam agasalhados sob um manto de pelúcia estriada.
— Permita-me apresentar-lhe o barão Magnus Lilienstierna, meu amigo e iniciador no Espiritismo — disse a Baronesa.
Tâmara aproximou-se vivamente e estendeu a mão ao jovem, que fixou nela um olhar profundo e perscrutador.
Tinha os olhos grandes, de um cinzento azulado como aço, franjados de longos cílios negros.
Uma límpida calma parecia reflectir sua vitória absoluta sobre as paixões humanas.
Ao primeiro olhar que trocaram, uma viva e profunda simpatia tomou conta do coração da moça.
Sem se dar conta, ela teve a sensação de reencontrar um velho amigo e quando o Barão lhe disse que se sentia feliz em conhecer a moça de que tanto lhe falara a Baronesa, ela respondeu com um sorriso franco e aberto.
— Madame Raban é muito condescendente comigo.
Julga-me muito acima de meus méritos, mas ela me disse que o senhor partilha de nossas convicções espíritas e que a iniciou nos princípios dessa consoladora doutrina.
— Ficaria muito feliz se pudesse partilhar com todas as criaturas a convicção que me proporcionou serenidade à alma e me sustentou nas mais penosas horas da minha vida.
Tâmara fitou-o com um olhar de tépida e sincera compaixão.
— Sei que uma terrível provação o abateu, senhor, e considero um privilégio da sorte conhecer um homem que me demonstra, na prática, a realidade de sua fé.
Quando estamos em gozo da plena saúde e felizes, é fácil crer e admirar os princípios divinos!
É a adversidade que dá a medida de nossa submissão e de nossa fé.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 08, 2016 9:43 pm

Um clarão iluminou os olhos de Magnus.
— Sim — disse ele com a voz vibrante — a fé é o sustentáculo dos deserdados, o farol luminoso a brilhar sobre o oceano do futuro, o dique que defende o coração trémulo e desesperado do homem contra as vagas tumultuosas da revolta, da dúvida e da ânsia pelo nada.
— Compreendo.
É necessário mais coragem para viver do que para morrer — respondeu Tâmara em voz baixa.
Além disso, o suicídio é o recurso do covarde que espera escapar à luta desertando o campo, de batalha.
Mas o senhor, pelo que diz a Baronesa, soube vencer o destino e criar uma vida intelectual.
— Sim, a arte e a ciência alegram minha solidão e não me deixam sentir o meu isolamento.
— Por que, Senhor Lilienstiema, o senhor se isola tanto?
O senhor poderia frequentar um círculo mais íntimo, alegrar-se com a conversação.
Não tem em Petersburgo parentes, nem amigos?
— Suas palavras me deixam muito feliz, senhorita, e me demonstram que a senhora, pelo menos, encontraria prazer em minha companhia, mas a maior parte dos felizes do mundo me voltariam as costas, esteja certa disso.
— Há muito tempo que Ugarine veio vê-lo? — perguntou a Baronesa.
— Faz bem umas três semanas que o vi.
— Como? O senhor conhece o Príncipe? — perguntou Tâmara admirada.
— Ele é meu primo, pois sua mãe, irmã de meu pai, era uma Lilienstierna.
— Um parente tão próximo e, no entanto, ele nunca me falou do senhor!
Um sorriso misto de ironia e de amargura marcou os lábios do Barão.
— Sem dúvida, que poderia ele dizer de mim?
Arsénio vive no mundo e para o mundo, do qual fui excluído por minha enfermidade e a sociedade, senhorita, não tolera senão os membros úteis, ou seja, aqueles que a divertem ou lhes servem para qualquer coisa.
Sei disso por experiência própria.
Houve um tempo em que o abandono de todos os que eu considerava amigos tomou-me profundamente infeliz.
Mas depois que aprendi a substituir o mundo pelo trabalho intelectual, não se sinto mais isolado e reconheço até que ganhei na troca.
— Qualquer que seja a utilidade dessa experiência da vida, ela me parece bastante dura de ser adquirida — suspirou Tâmara.
O senhor me inspira medo dos homens.
Será que somente o interesse egoísta pode uni-los?
Quando se vive num ambiente tão animado como o meu, é bem triste pensar que toda aquela benevolência, aquela aparente amizade, não se dirige a nenhum de nós, pessoalmente, mas depende da nossa utilidade ou inutilidade e que, ao primeiro sinal de desgraça, somos abandonados!
— Não se deixe entristecer por minhas palavras, senhorita.
Espero que Deus a poupará de toda desgraça e, além do mais, há entre os seres humanos pessoas de bem, fiéis e generosas como a senhora Baronesa.
Faço votos para que a senhora encontre pessoas assim — quanto a mim, sou um misantropo e vejo o mundo com tonalidade um tanto negra.
— Nada disso.
O senhor adquiriu uma amável serenidade e a força de não se deixar ferir pelo mundo.
Mas, quem sabe — murmurou Tâmara subitamente entristecida — o que me reserva o destino?
— Se você deseja conhecer o futuro, minha querida Tâmara, peça ao Barão para fazer o seu horóscopo, ou dar uma olhadela nas linhas da sua mão — disse rindo a baronesa de Raban.
— Ê um segundo Nostradamus e o destino não tem segredos para ele.
— Ah! meu senhor, por favor, diga-me o que me reserva o futuro - exclamou a moça com entusiasmo.
Magnus havia corado ligeiramente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 08, 2016 9:43 pm

— Se Nostradamus pudesse ouvir a Baronesa, ficaria, por certo, muito escandalizado com a comparação, mas é verdade que estudei quiromancia e se a senhorita quiser me dar sua mão, tentarei ler os decretos do destino.
Tâmara aproximou-se vivamente da sua cadeira e estendeu-lhe a pequenina mão, que o Barão examinou minuciosamente, observando seu elegante contorno e os dedos afilados.
— Mão de raça, mão de artista.
Que arte cultiva senhora? — perguntou, sorrindo.
— A pintura — respondeu ela, corando sob o olhar brilhante com o qual ele a contemplava.
Magnus retornou à mão e estudou longamente as diversas linhas que se cruzavam na palma rosada e delicada.
— O senhor vê algo de mau?
Noto que seu rosto se tornou sombrio.
Por favor, não me esconda nada. . .
— As linhas da sua mão são muito complicadas e difíceis de decifrar; contudo, posso dizer-lhe que uma mudança dc fortuna a aguarda e que a senhora enfrentará lutas e grandes emoções, mas sairá vitoriosa desse combate e viverá calma e feliz.
Não vejo mais nada — concluiu Magnus com um sorriso.
Tentando minimizar a penosa impressão, Magnus e a Baronesa mudaram o rumo da conversação e quando, por acaso, deram com um assunto de geral agrado, a conversa foi se tornando cada vez mais animada.
O Barão verificou, com surpresa crescente, os extensos conhecimentos de Tâmara em história, arqueologia, literatura, botânica e ciência espírita.
Vivamente interessado, o jovem abandonou-se a um debate cada vez mais profundo acerca dessas árduas questões.
A Baronesa se contentava usualmente com o seu papel de ouvinte, observando com alegre bonomia a animação de seus convidados.
Após o chá, Magnus retirou-se, acometido de súbita dor de cabeça nervosa, e, logo que as damas se encontraram a sós, Tâmara exclamou, de olhos brilhantes:
— Ah! Vera Petrovna, que homem encantador e simpático o barão Lilienstiema!
Como é erudito e, contudo, simples e amável!
Ele suporta com dignidade sua desgraça e a gente pode ler em seus olhos que as paixões não dominam a sua alma.
A Baronesa fitou-a sorridente:
— Sim, é um carácter fortemente temperado, que soube mesmo vencer ou recalcar suas paixões.
No entanto, minha filha, o Barão não foi sempre assim tranquilo e desligado do mundo, como parece agora.
Ele serviu na arma de cavalaria, que não é exactamente uma escola de virtudes e, naquele tempo, vivia com a rédea solta, sendo um fervoroso adorador das mulheres.
Alguns meses antes do acidente, tomou-se noivo de uma jovem belíssima, mas mediocremente rica.
O casamento deveria realizar-se dentro de poucas semanas, quando a desgraça abateu-se sobre ele.
Sua terrível enfermidade deixou-o paralisado e à beira da ruína.
Quando a noiva se convenceu de tais circunstâncias, abandonou-o sem cerimónia!
— Ah, que criatura indigna!
Abandonar um homem que se ama em tal momento! — exclamou Tâmara revoltada.
— Ela o amava belo e sadio, não doente incurável.
Não foi generoso, mas foi humano.
Seis semanas mais tarde, ela casou-se com outro.
Quanto a Magnus, pensou-se que ele perderia a razão, pelo que me contou Ugarine.
Foi nessa época que o mandaram a Paris.
Ao regressar, veio irreconhecível e tinha a calma resignação que você acaba de verificar.
Começou a regular seus negócios, em terrível desordem.
Diz-se mesmo que a esse tempo ele mal ganhava para manter-se, com o seu trabalho literário e artístico.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 08, 2016 9:44 pm

Seja como for, liquidou todas as suas dívidas e restabeleceu o equilíbrio financeiro.
Como se a fortuna estivesse apenas à espera desse momento para mostrar-lhe seu favor, concedeu-lhe no ano passado uma herança considerável.
Um primo morto subitamente deixou-lhe magnífica propriedade perto de Viborg, onde ele passou o último verão.
Ê mais rico agora do que jamais tenha sido, mas continua a viver com simplicidade e dá generosamente aos pobres.
Sei algo a respeito disto.
Muito satisfeita de seu dia, Tâmara regressou à casa de seu pai.
Parecia-lhe que um sopro de ar fresco havia momentaneamente dissipado a atmosfera sufocante na qual vivia.
Sua conversação séria e interessante com Magnus refrescara-lhe a alma.
A lembrança do jovem Barão a seguia por toda a parte.
Lembrava-se do seu olhar calmo e puro, do sorriso triste e resignado e do bem-estar que havia sentido em sua presença, bem como da profunda sensação de paz que parecia desprender-se dele.
A vida dissipada que a arrastava sem trégua enfraqueceu, com o tempo, essa impressão, mas ela reavivou-se poucos dias depois, durante um grande jantar, no qual se a encontrou sentada ao lado de Ugarine.
O Príncipe, como vimos, tomara-se muito reservado em relação a Tâmara.
Enquanto conversava animadamente com sua vizinha da direita, a moça pôs-se a examiná-lo disfarçadamente.
Encontrava nele traços de família que lembravam Magnus mas, de comparação, toda a vantagem foi favorável ao jovem paralítico.
Que brilhante inteligência fulgurava nos seus olhos cinzentos, iluminando o rosto pálido com uma expressão sempre renovada!
E quanto saber, finura espiritual e, não obstante, modéstia denotava cada uma de suas palavras.
Com um olhar crítico, ela fitou o Príncipe — ele também era pálido e a fadiga do homem enfastiado parecia pesar sobre todo o seu ser.
Uma expressão zombeteira e orgulhosa pendia sempre de seus lábios, enquanto nos olhos negros semicerrados não se lia outra coisa senão a arrogância e o convencimento.
Decididamente o herói de seus sonhos desaparecera — restava um homem, incontestavelmente belo, mas vão, egoísta, frívolo, uma nulidade brilhante, cuja alma vazia não mais se ocultava sob a máscara sedutora.
Nesse instante, o Príncipe virou-se e deu surpreendido com o olhar perscrutador da moça.
Desconcertada ao se ver assim apanhada e desejando fazer uma brincadeira, Tâmara lhe disse:
— Sabe o senhor, Arsénio Borissovitch, que domingo passado, em casa da baronesa de Raban, fiquei conhecendo seu primo, o Barão Lilienstiema?
É uma pessoa muito amável...
— A senhora viu Magnus?
É um terrível excêntrico, que se fecha como um mocho, quando poderia levar uma vida conveniente e alegre.
— Eis o que me parece difícil para um enfermo.
— Muito pelo contrário.
Já é bastante enfadonho ser paralítico, sem precisar sequestrar-se como ele o faz.
Nada o impede de receber em sua casa e de se fazer transportar ao teatro ou a um banquete.
Sua garganta, graças a Deus, é bastante saudável para deixar passar o champanhe e suas mãos para segurar as cartas do baralho.
Tâmara ouviu tais palavras com indizível espanto, e um sentimento de desaprovação mal disfarçado vibrava na sua voz quando respondeu:
— Acho que a falta de caridade dos que o cercam forçou o Barão a passar a vida no isolamento e, por certo, ele só tem a ganhar ao abandonar esta sociedade egoísta que lhe virou as costas no momento em que mais precisava de afeição.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 08, 2016 9:44 pm

A Baronesa me disse que ele teve também um período de revés financeiro...
Felizmente, porque, se ele fosse rico, a sociedade não o haveria abandonado e o transformaria numa caricatura.
O sofrimento e o isolamento abriram seus olhos quanto à fragilidade dos favores mundanos.
O trabalho espiritual e a meditação fizeram do Sr. Lilienstiema o homem verdadeiramente superior com o qual tive o prazer de passar uma tarde tão agradável, a mais interessante, reconheço, que tive desde meu retomo de Estocolmo.
— Em todo caso, Magnus pode sentir-se orgulhoso de haver merecido tantos elogios de uma boca tão linda.
Para um paralítico, é duplamente lisonjeiro — observou o Príncipe com ligeira ironia.
— Não mencione sua enfermidade; sua conversa brilhante e interessante absorve toda a atenção e o encanto do espírito é bem superior à beleza do corpo.
Nem tudo que brilha é ouro! — acrescentou ela com um imperceptível sorriso.
Súbito rubor cobriu o rosto do Príncipe.
Apesar do olhar doce e claro da moça, ele suspeitava nas suas palavras uma leve crítica à sua pessoa e sua fatuidade se encontrava melindrada.
Será que ele, o cavalheiro brilhante, iria empalidecer aos olhos da moça ante o infeliz enfermo?
— Não duvido mais de que a conversa com Magnus lhe haja encantado.
Ignorava, contudo, Tâmara Nicolaevna, que a senhora fosse tão versada nas áridas ciências que meu primo cultiva:
história, arqueologia, geologia, astronomia, botânica, ocultismo, magnetismo, espiritismo...
Sem poder, de repente, lembrar-se de outros termos eruditos, acrescentou um etecetera para concluir.
Tâmara sorriu.
— Vejo que o senhor também é versado em tais matérias, Arsénio Borissovitch, e, no entanto, nunca procurou levar a conversação para esse terreno.
Sim, eu me interesso pelas questões que instruem o espírito e ampliam nossos horizontes.
Toda a natureza, sob esse aspecto, é nossa instrutora e não devemos nós desejar aprofundar o estudo do que escapa aos nossos olhos, do que fica além da estreita realidade terrena?
Em todas as direcções, o espírito humano encontra maravilhosos enigmas.
Ao contemplarmos o firmamento, com seus milhares de sistemas solares, seus mundos infinitos que são como poeira dourada no espaço sem limites, podemos deixar de aspirar a conhecer as leis que regem esses astros e lhes permitem vogar no espaço com maior precisão do que o mecanismo de um relógio, ao mesmo tempo em que nos enviam seus raios luminosos como uma saudação fraternal, através de distâncias incomensuráveis?
E a moça continuou:
— Nossos pés esmagam descuidadamente as plantas do caminho, e cada uma delas não é um mundo?
O reino vegetal, com suas leis, suas forças desconhecidas, não é digno de nossa atenção, tanto quanto o reino animal, tão próximo de nós?
E, enfim, como deixar de contemplar o éter que nos envolve, tão transparente, tão impalpável e que, no entanto, é véu impenetrável que nos oculta os mistérios do invisível...
O invisível! pátria eterna, povoada de miríades de seres que já habitaram a terra e que são nossos mortos queridos, nossos amigos desaparecidos!
Sim, tudo o que nos chega à visão, tudo o que tocamos com as mãos, tudo o que é acessível aos nossos sentidos é ciência que uma só vida humana não basta para estudar em profundidade.
Mais feliz é aquele que sabe compreender que uma cadeia ininterrupta liga todos os seres, dos abismos do caos aos cumes luminosos da perfeição, e que nessa longa escalada, somos chamados a proteger aquele que nos é inferior e obrigados a obedecer ao que nos é superior.
Animara-se ao falar e o Príncipe a ouvia espantado, contemplando complacentemente seus olhos irradiantes de inteligência, seus traços finos e móveis que nunca lhe pareceram mais belos.
Em poucas palavras, Tâmara lhe demonstrara que não fazia mera exibição de saber acima de sua idade, mas que havia muito lido e meditado.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 08, 2016 9:44 pm

Magnus, ele bem sabia, era quase um sábio, e evidentemente as questões sérias e científicas discutidas entre ele e a moça haviam tomado sua companhia muito agradável a ela.
Mais interessado do que nunca, Ugarine assumiu sua atitude normal, enquanto um sorriso de zombeteira bonomia iluminou seu olhar.
— Inclino-me ante a profundeza de sua resposta e estou convicto de que a senhora experimentou grande prazer na companhia de meu primo, mas penso, ao mesmo tempo, que deve julgar ignorantes os que jamais lhe disseram algo razoável.
Por isso, não me admiro de havê-la visto, com tanta frequência, pensativa e sonhadora nas reuniões sociais, das quais o único interesse está nas banalidades do momento.
Que quer a senhora, Tâmara Nicolaevna, nós outros, pobres leigos, temos horror à ciência porque o tempo é pouco para nos preocuparmos com o que faz o universo, o que não impede que amemos, à nossa maneira, todos os produtos dá natureza.
Eu, por exemplo, adoro o firmamento, quando as estrelas se reúnem, assim, no peito de alguém — e indicou, com um rápido olhar, um velho dignitário decorado com inúmeras condecorações — a uva é um vegetal que estudo assiduamente, sobretudo quando transformada em vinho de muitas qualidades.
O mesmo diria dos animais, quando assados.
Quanto aos metais, também estimulam meu espírito e meu bom humor, uma vez transformados em dinheiro e tilintando no meu bolso, ou quando brilham alegremente em meus
dedos — e fez cintilar o soberbo solitário que trazia no dedo mínimo.
Enfim, quando estou embriagado, mergulho a cabeça no caos, para subir pelo éter — vulgarmente conhecido como ar fresco — que me restitui a sobriedade.
Vibrava na sua voz um tom de tal forma jocoso e tão franco bom humor brilhava no olhar do Príncipe, que Tâmara não pôde conter um riso.
— Meu Deus! que tolices diz o senhor, Arsénio Borissovitch.
Mas, francamente, o senhor não encontra nenhum prazer na leitura séria que alimente a alma?
— Asseguro-lhe que não tenho tempo para entregar-me a prolongadas leituras, mas, por instinto, duvido de tudo e proporciono à minha alma alimento suficiente:
confesso-me todos os anos e tomo os sacramentos devidos, fazendo penitência pelos meus pecados e me privando de fumar, durante a primeira e a última semanas da quaresma.
É justo dizer que fico de um mau humor insuportável durante os dias de penitência e, então, eu os abrevio, praticando certas caridades entre aqueles que me cercam.
Além disso, sou espírita, graças a Magnus, que me converteu.
Só que tenho um medo pavoroso de obsessões e dos maus espíritos que poderiam me atacar...
Ê verdade — disse ele ao perceber o olhar incrédulo de Tâmara.
— Nesse caso — respondeu a moça com um sorriso malicioso — o senhor deveria evitar a si mesmo, porque agora que o senhor me confessou todas as suas virtudes, parece-me que as forças do mal, que o senhor tanto teme, são um tanto da sua intimidade.
O Príncipe deu uma boa gargalhada.
— Palavra de honra, isso é possível.
Uma noite, ao entrar em casa, vi o diabo num espelho.
Era horroroso!
— Talvez o senhor tenha estado a estudar com muito empenho as forças misteriosas da uva — disse Tâmara, rindo — e a visão apenas confirma minha sugestão de que o senhor deve evitar a si mesmo.
Meio alegre, meio agastado, o Príncipe mergulhou seu olhar nos olhos divertidos da sua vizinha de mesa e disse:
— Veja que língua perversa tem a senhora, Tâmara Nicolaevna.
Está insinuando, nada mais nada menos, que tomei minha própria imagem pelo demónio.
Não houve tempo para Tâmara responder, porque o jantar terminara e todos se levantavam da mesa, a fim de passarem ao salão.
Além disso, o capitão Tarussoff aproveitou-se da oportunidade para aproximar-se da moça e entabular uma conversa muito do seu interesse.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Já há algumas semanas, o relacionamento entre eles era dos mais cordiais, pois Anatole Pavlovitch, que se interessava vivamente pelo Espiritismo, deixara-se converter por Tâmara, que, muito feliz de haver feito um prosélito, não perdia oportunidade de falar sobre o assunto, de orientar seu neófito ao longo do novo caminho e de fazê-lo ler publicações espíritas, da sua própria biblioteca ou da que pertencia ao Barão.
Tarussoff, que parecia apaixonado por Tâmara, estava encantado ante a excelente oportunidade de lhe fazer a corte, de falar livremente com ela e ganhar sua amizade.
Como Nicolai Wladimirovitch obviamente via com bons olhos a assiduidade do jovem oficial, certa intimidade cordial se estabelecera entre eles.
Naquele dia, Tarussoff apressou-se em dizer à sua iniciadora que sua tentativa de desenvolver nele próprio a mediunidade psicográfica havia sido coroada de inesperado êxito, além de sua expectativa.
Por muito tempo, não conseguira ele senão linhas, traços e círculos ou algumas letras isoladas, mas na noite anterior, o lápis começara a escrever correctamente e, com rapidez sempre crescente, respondera a todas as suas perguntas.
— Imagine a minha alegria, Tâmara Nicolaevna, quando compreendi que era meu guia que se manifestava.
— E quem é ele?
— Ele se diz ser o cavalheiro de Saint-Just, guilhotinado durante a Revolução Francesa.
É meu amigo de muitos séculos.
Contou-me, sobre sua última existência, pormenores extremamente curiosos e que vou verificar — respondeu Tarussoff com animação.
E se pôs a contar tudo quanto lhe havia sido comunicado.
Pouco depois disso, Tâmara teve uma tarde livre.
Sua madrasta sofria de violenta dor de cabeça, após uma conversa um tanto agitada com o marido.
Fechou-se nos seus aposentos, declarando que passaria o dia todo em casa, e a moça, feliz por livrar-se de uma série de visitas e de um jantar altamente tedioso, tomou a carruagem e foi para a residência da Baronesa.
Encontrava-se esta no seu gabinete de trabalho com uma jovem pálida e de fisionomia desfeita, na qual as pálpebras inchadas e vermelhas atestavam que muitas lágrimas haviam sido vertidas.
Vera Petrovna parecia igualmente agitada.
Abraçou Tâmara e, após haver apresentado as duas jovens uma à outra, acrescentou:
— Minha querida, Lilienstiema está ali no salão ao lado.
Tive que deixá-lo sozinho para conversar com a minha afilhada
Você não queria fazer-lhe um pouco de companhia?
Irei daqui mais um pouco.
— Certamente, com todo o gosto — respondeu Tâmara com vivacidade — e, saudando as duas senhoras, passou ao salão.
Junto de uma das janelas estava sentado o enfermo, com um jornal nas mãos, mas, em vez de ler, ele parecia meditar e, sem dúvida, eram pensamentos pouco agradáveis, pois seu rosto estava contraído.
À vista de Tâmara, ele mudou prontamente sua postura e, sorrindo, apertou a mão que ela lhe estendia.
Em breve uma animada conversação se estabeleceu entre eles — a moça contou seu diálogo com Ugarine.
Magnus riu com gosto e agradeceu-lhe por tê-lo defendido tão calorosamente.
Em seguida, falaram de Espiritismo e a jovem manifestou sua satisfação por ter conseguido converter Tarussoff, que se tomara, não apenas um adepto convicto, mas, também, excelente médium.
— Que tristeza ter o Espiritismo entre nós tão poucos adeptos! — disse ela com um suspiro.
Ê uma crença tão enobrecedora, de moral tão elevada, que poderia, com enorme proveito, actuar sobre os seres humanos!
E, no entanto, mal se ouve falar dele.
A maioria das pessoas não tem ideia do que seja isso, enquanto outras até se riem à simples menção da palavra Espiritismo.
— Que quer a senhora?
Não é sempre o belo e o útil que agradam aos homens — respondeu Magnus, com um sorriso.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 08, 2016 9:44 pm

E, francamente, creio que por muito tempo ainda o verdadeiro Espiritismo, ou seja, a aplicação do ensinamento dos espíritos, será partilhado apenas por um restrito número de seres em condições de entendê-lo e de apreciá-lo.
Para a maioria, ele é odioso e repulsivo por causa do desagradável problema da morte que ele colocou em pauta.
Uma vez provada a sobrevivência da alma por factos irrecusáveis, a responsabilidade de nossos actos se torna inegável, e a teoria, tão cómoda, do nada após a morte desaba em ruínas.
Como pode a perspectiva de ter que prestar contas da existência agradar a uma sociedade desmoralizada, egoísta e insaciável ante os prazeres?
Essa doutrina bem que tomou algum impulso, de início, mas são grandes suas dificuldades em vista da frivolidade com a qual todos procedem usualmente.
Há alguns anos os fenómenos eram a diversão da moda e todo salão social que aspirasse a algum status organizava suas sessões.
Havia mesmo certa rivalidade entre eles, e as reuniões que obtinham as melhores manifestações se orgulhavam disso.
Os médiuns eram disputados como raridades, com lisonjas e bajulações.
Todo o mundo era espírita sem o menor preparo — era um prodígio, mas... nada além disso, infelizmente O Espiritismo era uma distracção, como qualquer fantasia do momento; acreditava-se por prazer e não faltaram farsantes, interesseiros ou não, que se intitulavam médiuns e fabricavam manifestações, entusiasticamente aceitas como verdadeiras, pois o que se queria era divertir-se a qualquer preço e a meia-luz favorecia as mais vis trapaças, tanto quanto a circulação de bilhetinhos amorosos.
Em vão protestavam os adeptos sérios contra essa vergonhosa profanação — suas vozes se perdiam no caos impuro da frivolidade generalizada.
Depois, a moda passou e tudo se extinguiu.
Mas a senhora compreende que uma causa aviltada dessa maneira desperta o desdém e a desconfiança.
— Como tudo isso é triste!
Eu mesma já me convenci de que...
Tâmara interrompeu o que dizia ante o som de soluços abafados que vinha distintamente do aposento vizinho.
Penoso silêncio estabeleceu-se entre eles.
— A vida trás tantas decepções, impõe provações tão diversas, que as lágrimas são um tributo natural de nossa fraqueza — disse Magnus em resposta ao olhar indagador e entristecido de Tâmara.
De novo se calaram e, alguns momentos depois, entrou a Baronesa, agitadíssima, e se deixou cair sobre uma poltrona.
— Essa história asquerosa me perturbou completamente os nervos.
Deus seja louvado!
Amanhã Melanie parte, enfim — disse ela com mau humor.
— Cara Vera Petrovna, não se agite dessa maneira.
Aquela pobre moça parecia tão infeliz.
Seria indiscrição perguntar-lhe o que a aflige?
— A necessidade de ceder seu noivo à sua querida mãezinha, que prefere desposá-lo, ela própria — disse a Baronesa laconicamente.
— O que diz a senhora? — perguntou Tâmara julgando não haver entendido.
— Não creia que me entendeu mal — o que acabo de dizer é um facto que bem caracteriza nossos atuais costumes.
Eis a história, em poucas palavras:
a mãe de Mélanie foi uma jovem pobre que, por feliz circunstância, casou-se com um homem muito rico, que morreu dois anos mais tarde, deixando-lhe toda a sua fortuna.
De um segundo matrimónio, ela teve uma única filha, minha afilhada, que vocês ficaram conhecendo.
Muito envolvida com a sociedade e dissipada, a mãe cuidou pouco dessa criança que foi educada numa escola pública e, após a morte do segundo marido, a Sra. Odinecoff fixou residência no exterior.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 08, 2016 9:45 pm

Quando Melanie saiu do colégio, foi para a casa de uma parenta e, pouco depois, ficou noiva de um modesto empregado, belo rapaz, mas pobre.
Infelizmente, a mãe foi tomada de súbito acesso de ternura por ela e regressou à Rússia para organizar o enxoval e casar a moça.
Tendo visto, porém, o futuro marido de sua filha, ela o achou muito de seu gosto e lhe deu a entender que sua própria fortuna era bem superior à que Malanie herdara de seu pai.
Tramou tudo tão bem que, em breve, o jovem — um indivíduo prático e ambicioso — rompeu com a filha e ficou noivo da mãe!
Melanie ficou fora de si, pois ela ama aquele miserável.
Os derretimentos amorosos de seu ex-noivo com a sua mãe a exasperavam e acho que no dia do casamento ela fará alguma loucura — tratei, por isso, de preparar com urgência sua partida para Nice, onde ela tem uma parenta.
— Meu Deus! que trama de horrores! — exclamou Tâmara vermelha de indignação.
E será que esses dois desavergonhados ousarão encarar os outros e apresentarem-se na sociedade?
— Ora, por que não?
Você sabe o que me disse a mãe quando eu a interpelei?
"Estou desolada ante a conduta extravagante de Melanie.
Mas não seria ridículo sacrificar a felicidade de duas pessoas à fantasia de uma jovem?
Esses amores de criança não duram mais do que um resfriado.
Somente a afeição ardente de uma mulher que conhece a vida pode proporcionar felicidade duradoura.
Piotr compreendeu isso e sua paixão por mim e a harmonia de nossas almas não lhe permitem mais contentar-se com uma fingida de dezassete anos”.
Ela tem quarenta e nove e ele vinte e oito anos, mas essas palavras demonstram claramente que ela não vai deixar de fazer suas visitas habituais.
— E a senhora a receberá em sua casa?
— Minha querida Tâmara — disse a Baronesa com um sorriso — se eu recebesse apenas pessoas irrepreensíveis, bem restrito seria o meu círculo de amizades.
Como diz o provérbio, um exército não se faz com um único soldado.
Posso eu fazê-lo sozinha?
Além do mais a sociedade em que vivemos é de extrema liberalidade ante o vício, ao qual se dobra.
— Pois bem, quanto a mim, não hei-de tolerar em minha casa pessoas de reputação duvidosa e não estenderei minha mão às que eu desprezo — disse energicamente Tâmara.
— E a caridade cristã e a indulgência do espírita para as fraquezas do próximo? — perguntou Magnus com um sorriso.
— Não se trata de caridade, mas de indulgência culposa em face dos horrores que a sociedade não deve tolerar.
E quem sabe se fizéssemos sentir às pessoas de mais idade como essas paixões extemporâneas as fazem ridículas, talvez se emendassem.
— Não seja tão belicosa, Tâmara.
Parece-me ouvir sua mãe.
Ê preciso aceitar o mundo como ele é.
Salvo raras excepções, todos pecam e não existe idade na qual, voluntariamente, se renuncie ao prazer e ao desejo de seduzir.
Homens e mulheres são hábeis na arte “de pintar e enfeitar a face, a fim de apagar o ultraje irreparável dos anos”.
Além disso, é bem difícil parar quando, desde a primeira juventude, se é atirado ao turbilhão das paixões.
Como um elemento desencadeado, tais paixões arrastam o infeliz, afogando honra e dever, saúde e vida sob vagalhões tumultuosos.
Enceguecidos por essa bacanal desenfreada que se chama gozo material, os homens não têm tempo de pensar no futuro ou de perscrutar o passado, até que a morte os surpreenda.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 08, 2016 9:45 pm

Mas não somos nós que faremos deter a avalanche e nosso único cuidado, se tivermos algumas vezes de apertar a mão do vício, consiste em não nos macular ao seu contacto.
— Não. Eu não admitirei tais compromissos e quero pelo menos ter o direito de desprezar abertamente àqueles que o merecerem — retrucou Tâmara com a face em fogo.

3 Calchas — Adivinhe grego que acompanhou Agamenon durante o assédio à cidade de Tróia.
Ordenou o sacrifício de Ifigénia e sugeriu a construção do famoso cavalo de madeira, dentro do qual foi possível fazer entrar na cidade uma tropa de choque, que acabou quebrando a resistência de seus heróicos defensores.
Daí a expressão “presente de grego” ou “cavalo de Tróia” para caracterizar um bem urdido artifício para enganar alguém.

4 Páris — Figura mitológica grega, segundo filho de Príamo e Hécuba, marido de Enona, raptor de Helena, esposa de Menelau.
Incumbido de premiar a mais bela das três deusas, Hera, Atenas e Afrodite, concedeu a maçã (pomo) à última, que lhe havia prometido o amor de Helena de Esparta.
Sua fuga com Helena provocou a guerra de Tróia.
Daí, também, a expressão “pomo de discórdia” para caracterizar o motivo central de uma desavença.
É digno de nota nestes dois exemplos — o de Calchas e o de Páris — o cuidado com que Rochester escolhe figuras simbólicas para marcar com precisão o que deseja expressar.
Calchas foi um mago envolvido em artes ocultas, enquanto a personalidade mitológica de Páris assenta como uma luva à figura de Pfauenberg, o falso médium.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 08, 2016 9:45 pm

A ruína

Após aquela conversa Tâmara começou a observar com alguma dose de suspeita as pessoas que encontrava.
A maioria lhe parecia formada de gente tão boa e amável, que ela começou a achar que a Baronesa estava exagerando.
Pouco antes do Natal, contudo, algo aconteceu que imprimiu novo rumo a todos os seus pensamentos.
Certa manhã, seu pai mandou chamá-la ao seu gabinete e, com palavras afectuosas, anunciou-lhe que o capitão Tarussoff lhe pedia em casamento e que, julgando-o partido favorável e adequado, havia, de sua parte, acolhido com indulgência o pedido, reservando, contudo, a decisão final à filha.
— Mas, papai, creio que não amo o senhor Tarussoff o suficiente para desposá-lo — respondeu Tâmara, corando, embaraçada.
— Ah, minha querida, não são sempre as uniões nas grandes paixões que resultam em felicidade — comentou Ardatov com amargura.
Uma afeição calma e sólida, baseada na estima e na harmonia de convicções, é a melhor garantia.
Pareceu-me que você se simpatizava bastante com Anatole Pavlovitch.
Daí ao amor vai apenas um passo.
Ele é um homem belo e amável, de reputação inatacável e, se não é rico, pelo menos, remediado.
Ele ama você como raramente se ama hoje.
Que poderia eu desejar de melhor para você?
Reflicta, porém, que há tempo.
Não será senão às sete horas da noite que Tarussoff virá saber da sua resposta.
De volta aos seus aposentos, Tâmara meditou longamente.
Anatole a amava; ela sabia disso há muito tempo e não o repelia.
Ele agradava-lhe pela sua aparência, suas maneiras, suas opiniões compatíveis com as suas próprias.
Enfim, os estudos em, comum sobre o Espiritismo haviam feito nascer entre eles profunda simpatia, mas seria tudo aquilo suficiente para mantê-los unidos por toda uma existência?
Por um instante, a imagem do Príncipe Ugarine surgiu diante de seu espírito, mas ela o repeliu com desdém — aquele enfarado boa-vida, frívolo perseguidor de mulheres, era indigno de um só pensamento.
Como se sentia reconhecida à Madame Raban por lhe haver aberto os olhos.
Tâmara era um ser complexo — duas qualidades contraditórias e aparentemente incompatíveis disputavam nela a primazia:
viva, generosa, muito impressionável, a moça parecia frágil e facilmente dominada pelo amor.
Mas aqui começava o enigma — tanto era quente a cabeça, pronta a encolerizar-se, quanto o coração, frio e reflectido.
Só lentamente ele se aquecia e uma brusca desilusão poderia ser suficiente para acabar com o envolvimento.
Era o que acontecera com relação a Ugarine — o sentimento nutrido durante quatro anos, e que esteve a ponto de dominar o coração da jovem, extinguira-se sem deixar traço, a partir do momento em que o ideal ilusório ficou desmascarado em toda a sua nudez moral.
Prontamente seu pensamento reverteu a Anatole.
Ela se lembrava, com rubor, de pequenos incidentes que demonstravam o amor profundo e apaixonado que inspirava nele.
Por que não corresponder a esse sentimento?
Seu pai tinha razão:
uma afeição lentamente desabrochada, baseada na estima e na simpatia, era mais sólida do que as grandes paixões.
Ademais, a vida na casa paterna arrastava-se penosamente para Tâmara — aquele turbilhão contínuo e a desenfreada necessidade de divertimento a cansavam, a sociedade que sua madrasta frequentava, tudo tomara-se positivamente odioso, depois que uma suspeita lhe nasceu quanto à natureza de seu relacionamento com um visitante assíduo da mansão.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 09, 2016 9:43 pm

Que felicidade seria a de retomar, na sua própria intimidade, uma vida calma, embelezada pelos prazeres simples do intelecto.
Em suma, em decorrência de todas essas reflexões, Tâmara colocou sua mão nas de Tarussoff, naquela noite, aceitando-o como futuro esposo.
O noivado foi comemorado com uma grande festa e o casamento marcado para a Páscoa, pois o enxoval não poderia ficar pronto, na opinião de Lúcia, antes do princípio da quaresma.
A partir desse dia, Anatole Pavlovitch tomou-se visitante diário à residência de Ardatov e Tâmara, envolvida pela sua nova condição, ligou cada vez mais seu coração honesto e confiante ao homem que havia escolhido e cujo amor expansivo lhe parecia garantir um futuro feliz.
Durante as primeiras semanas nada perturbou a felicidade dos noivos, mas à medida que a intimidade se aprofundava surgiam circunstâncias e traços de carácter que haviam permanecido completamente mascarados durante as relações puramente mundanas e pequenas nuvens começaram a aparecer.
O que, assim visto mais de perto, desgostou Tâmara logo de início foi a família de seu futuro marido:
Anatole Pavlovitch vivia em casa de um tio, velho Coronel reformado e semi-paralítico.
A esposa deste, de cerca de trinta e oito anos, era jovem em comparação com o marido e extremamente vaidosa, a despeito da sua aparência pouco agradável, a pele escura e empapuçada, os pequenos olhos negros crepitantes de malícia e sua grande boca tagarela.
Nadeschda Ivanovna Tarussoff era originária de uma pequena cidade provincial, perto da qual seu marido possuía uma bela propriedade.
O desejo de escapar a mediocridade a levara a casar-se com o velho meio enfermo que, ademais, ela soubera dominar e submeter à sua vontade, mas ficara-lhe a atitude de arrogância vulgar própria das pessoas que entram na posse de inesperada fortuna e, já a essa época, agravara toda a rudeza de sua natureza.
Vendo-a apenas ocasionalmente, Tâmara não prestara atenção alguma ao carácter de Madame Tarussoff, mas passando a frequentar-lhe a casa, na condição de futura parenta, logo percebeu, pela maneira que Anatole era tratado pelo tio e pela tia, que algo sério deveria passar-se entre eles.
Tal pensamento chocou-a mas ela era ainda bastante inexperiente para aprofundar a situação.
Fora do círculo dos seus parentes, Anatole levava a vida de uma pessoa de recursos e Tâmara, desinteressada do assunto, pouco sabia do poder esmagador do dinheiro, para compreender que os sentimentos humanos estão igualmente submetidos a altos e baixos, e que as batidas do coração são reguladas pela especulação, tanto quanto outros recursos materiais.
Uma segunda descoberta, revelada nas longas conversas de coração aberto, foi a de que Anatole Pavlovitch não era lá esse brilho e que, além das limitações de homem mundano, estendia-se uma inteligência estreita, pesada, rotineira e acoplada a uma fatuidade mesquinha e de uma sólida dose de teimosia.
Tarussoff, que nem suspeitava do quanto o espírito de Tâmara era penetrante, sútil e observador, deixou-se conduzir mais e mais, exibindo imprudentemente ao olhar crítico e cáustico de sua noiva suas fraquezas e defeitos.
Um dia que jantara com sua madrasta em casa dos Tarussoff, Tâmara deixou-se conduzir, após a refeição, ao gabinete de trabalho de seu noivo, que ele desejava mostrar-lhe.
A moça contemplou curiosamente as fotografias, as armas e outros objectos e, em seguida, aproximou-se de uma grande estante e examinou os volumes que a ocupavam.
Eram, em sua maior parte, obras clássicas ou científicas, entre as quais a colecção de uma revista especializada em astronomia.
— Ah, você também se interessa por esta ciência, Anatole?
Como me sinto feliz pelo facto de nossos gostos coincidirem dessa maneira! — disse ela, apanhando vários cadernos e sentando-se com eles perto da escrivaninha para folheá-los.
No meio da mesa, aliás, sob um peso de papel, encontrava-se o último número da mesma revista, mas qual não foi sua surpresa ao verificar que a maioria das páginas não haviam sido nem mesmo cortadas!
— Você não lê com muita frequência — disse ela.
— Ah! esse assunto é tão árido, os artigos publicados são tão maçantes, que há muito deixei de lê-los.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 09, 2016 9:43 pm

— Mas, nesse caso, não compreendo por que você continua como assinante da revista.
— Para impressionar meus camaradas, minha querida, e os visitantes em geral — respondeu Anatole sorrindo.
Isso me proporciona a reputação de ser uma pessoa dedicada a estudos sérios e, no regimento, sou tido como um verdadeiro sábio.
Tâmara corou ligeiramente:
sentia-se envergonhada, pelo noivo, de semelhante mesquinharia.
Afastou de si a revista astronómica e, avistando a um canto da mesa um grosso caderno provido de uma pequena fechadura, ela perguntou, para mudar de conversa:
— Que é aquilo?
O rosto do oficial assumiu, incontinenti, uma expressão de solene gravidade e, colocando a mão sobre o caderno, disse enfaticamente:
— Isto é o meu diário.
Durante a campanha da Turquia, anotei nestas páginas todos os graves acontecimentos dos quais participei, tanto quanto minhas impressões, meus sentimentos e os pensamentos que me foram inspirados pela proximidade da morte, da qual só escapei por milagre.
— Como deve ser interessante!
Você poderia ler para mim alguns trechos?
Eu lhe seria infinitamente grata.
— Certamente, se você assim quer.
Para você, minha bem- amada, a metade de minha alma, meu bom anjo, não tenho segredos — respondeu Anatole radiante.
Só que não vale a pena começar hoje:
um dia destes levarei o diário e lerei todas as anotações escritas sobre a campanha.
Naquela noite Tâmara meditou longamente sobre os incidentes ocorridos.
A destinação prática dada pelo seu noivo à revista sobre astronomia provocava-lhe o riso e, ao mesmo tempo, a irritava.
"Será que me enganei a respeito dele?" - perguntou-se ela.
"Não. Ele é bom e todas essas pequenas fraquezas desaparecerão.
Estou valorizando demais uma brincadeira inocente.
A Baronesa tem razão em dizer que sou demasiadamente exigente.
Minha educação tomou difícil para mim a escolha de um marido.
Uma vez unidos, haverá uma influência recíproca entre nós e eu terei a ganhar de seu espírito prático e ele, do meu idealismo".
Conforme prometera, Anatole Pavlovitch trouxe seu diário, mas as circunstâncias lhe foram desfavoráveis:
sempre aparecia um convidado inesperado que vinha perturbá-los e cerca de duas semanas decorreram até que ele pudesse, afinal, abrir, uma noite, seu volumoso caderno e dar início à leitura.
Sentada em frente dele e trabalhando em seu bordado, Tâmara ouvia atentamente, procurando no relato a intimidade do homem, que sempre se reflecte no que escreve, mas o que ela buscava e esperava não vinha.
Num estilo pesado e monótono, Anatole Pavlovitch narrava a partida de seu regimento e suas primeiras impressões de viagem, anotando cuidadosamente os donativos em dinheiro e outros presentes que recebera ao despedir-se de parentes próximos e amigos, absorvendo-se nos mais mesquinhos interesses.
Tâmara, que detestava tudo aquilo e que se entusiasmava ante qualquer sentimento generoso, não podia compreender que um homem que, pela primeira vez, ia enfrentar os terríveis perigos da guerra, não estivesse animado de um impulso patriótico, nem de alguma resignação séria e cheia de fé que o levasse a encarar a possibilidade da morte com calma, tão comuns no simples soldado.
Havia ali uma submissão maquinal a uma ordem, da qual era impossível escapar, de mistura com um temor íntimo.
Era o que transparecia de cada página.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 09, 2016 9:43 pm

"Isso ainda virá.
Evidentemente as mil dificuldades da partida e a emoção dos adeuses anularam nele qualquer outro sentimento — tentou persuadir-se a moça — mas, uma vez chegado ao teatro da luta, sob a influência de um perigo permanente de ser morto, sua alma despertará".
Mas o acaso não lhe permitiu conhecer ainda naquele dia a continuação do relato, pois a chegada de Madame Kulibine, que vinha passar a tarde com sua amiga, interrompeu Anatole Pavlovitch.
Percebendo o profundo desapontamento de seu noivo, Tâmara aproveitou um instante para tomar-lhe a mão e lhe murmurar:
— Não se aborreça, meu amigo.
Um dia destes irei tomar chá com a sua tia e então terminaremos com tranquilidade essa interessante leitura.
De acordo com a promessa, que havia agrado Anatole Pavlovitch, Tâmara veio alguns dias depois jantar em casa de Madame Tarussoff.
Em seguida, passaram alegremente ao gabinete de trabalho do jovem oficial, contíguo ao pequeno salão.
Sobre a mesa estava já preparado o volumoso diário, mas antes de retomar a leitura, Anatole disse com um sorriso:
— O que vou dizer-lhe hoje, minha bem-amada, me faz pensar sempre sobre a fragilidade da vida humana — diz respeito ao combate no qual fui ferido e onde somente graças à bondade do Todo-Poderoso fui poupado de morte certa.
— Ê por esse episódio que você foi condecorado?
— Justamente.
E conservei daquele dia terrível uma lembrança que vou mostrar a você.
Ele se dirigiu a uma pequena mesa dobrável sobre a qual repousava uma grande caixa com cantoneiras de cobre.
Tâmara, que o seguira cheia de curiosidade, viu que sobre a tampa estava escrito em letras do mesmo metal:
"Gomy-Dubniak, 12 de outubro de 1877".
Tomando de uma chave na gaveta da escrivaninha, Anatole abriu a caixa e dali retirou um objecto, cuja finalidade Tâmara não foi capaz dc compreender, de início — era, evidentemente, uma peça de roupa, mas imunda e endurecida como se houvesse sido mergulhada numa espécie de xarope.
Um odor nauseabundo exalava tão fortemente da peça, que a moça recuou e levou ao rosto um lenço perfumado.
— Eu vestia isto quando fui ferido.
O buraco feito pela bala ainda se vê e essa rigidez foi provocada pelo sangue que correu abundantemente.
— Mas onde, então, você foi ferido?
Não consigo saber se foi na espádua ou no peito — disse Tâmara, imaginando que a imunda vestimenta, que ele continuava a desdobrar, representava um sobretudo.
— Não — respondeu gravemente Tarussoff — é aqui.
Nesse momento, a relíquia de guerra desdobrou-se, afinal, estendendo como braços em aflição dois farrapos negros.
Anatole virou a peça íntima e mostrou um buraco redondo, na altura da coxa, no ponto onde, como se diz vulgarmente, as costas mudam de nome:
o projéctil atravessara as carnes moles, ocasionando um desses ferimentos que não podem ser admitidos como heróicos.
Compreendendo, afinal, Tâmara dominou com esforço um desejo louco de rir, mas seus olhos brilhavam de malícia, quando ela observou:
— Acho, meu amigo, que esse ferimento não pode ter sido muito perigoso e foi um acaso bem maldoso que orientou essa bala — alguém que não o conheça poderia crer que ela correu atrás de você e não você para ela.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 09, 2016 9:43 pm

Tarussoff, que se absorvera nas lembranças e na contemplação do troféu de sua bravura, levantou os olhos e, surpreendendo o sorriso traidor que ainda errava pelos lábios rosados da noiva, disse com descontentamento e cerrando o cenho:
— Tâmara, acho, e que Deus me perdoe — que você está rindo...
E isto é coisa muito séria.
Outra noiva teria chorado à lembrança do perigo mortal que correu o homem que ama e você se diverte à vista do objecto encharcado pelo meu sangue!
— Não, sou incapaz de me divertir com os sofrimentos que você suportou, mas aqui, meu caro Anatole, me parece que você leva as coisas de maneira trágica demais.
No seu lugar, eu não mostraria a ninguém esse sujo pedaço de pano, que somente serve para pôr em dúvida sua coragem, ou melhor ainda, eu o destruiria — não teria você um testemunho mais digno e nobre da sua bravura no cadarço que orna o punho de seu sabre?
— Você deve gostar bem pouco de mim para expressar-se dessa maneira — respondeu Tarussof, voltando a dobrar cuidadosamente a preciosa peça e restituindo-a à caixa, que fechou.
Ante a seriedade que ele demonstrava e a cólera concentrada que fervia nele, Tâmara foi retomada pelo violento desejo de rir, mas seu coração era bom demais para isso e ela se esforçou por serenar o amor próprio melindrado de seu noivo.
Apertou ternamente sua mão e, mergulhando um olhar travesso nos sombrios olhos dele, disse-lhe:
— Desculpe-me, Anatole, se minhas palavras o desagradaram.
Você não vai acreditar que eu desejei, a sério, ofendê-lo.
Vamos deixar a questão por ora e leia-me um pouco mais do relato da batalha na qual você se feriu.
Quero conhecer todos os detalhes desse triste acontecimento.
Ainda que um tanto carrancudo e aborrecido, Tarussoff cedeu e, tendo obtido de sua noiva um beijo de reconciliação, retomou a leitura de seu manuscrito.
Dessa vez, saiu, enfim, o relato minucioso do combate que terminara, para ele, com o famoso ferimento.
Mesmo aí, contudo, o carácter de Anatole mostrava-se sob aspecto ainda mais desfavorável:
ele nem percebia que os sentimentos e os pensamentos que expressava eram os de um covarde intimamente esmagado pela apreensão ante a dor física ou a morte.
O brutal instinto de conservação tomara conta dele completamente, deixando-o sem espaço interior para um só pensamento ou compaixão pelos companheiros que tombavam à sua volta.
Quando a bala o atingiu, a única coisa que seus olhos aflitos procuraram ver foi um abrigo, onde pudesse esconder-se para evitar outro projéctil que poderia atingi-lo novamente, ainda que um soldado ferido na espádua, mas esquecido de si mesmo, o ajudasse, caíra morto, atingido em pleno peito.
Finalmente, dois outros soldados, igualmente feridos, conseguiram removê-lo para um lugar seguro, bem como a uma bela carabina turca que ele havia apanhado como lembrança...
Assim que o perigo passou, ocorreu-lhe essa ideia.
Tudo o que se seguiu só serviu para evidenciar ainda mais o vazio da alma e o egoísmo do autor do diário.
Tâmara não o ouvia mais:
a voz lenta, enfática e monótona de Anatole Pavlovitch perpassava pelos seus ouvidos como um murmúrio vago.
Um sentimento de tristeza e mal-estar tomara conta dela.
Nem sabia mais o que pensar do homem que, cheio de convencimento e beata satisfação, lia aquela humilhante confissão que o situava muito abaixo de milhares de heróis obscuros, os quais, certos de cumprirem apenas o dever, realizam milagres de coragem, de devotamento e de abnegação.
Uma pungente suspeita insinuou-se no seu espírito.
Aquele egoísta bem que poderia abandoná-la também num momento de aflição ou desgraça, e que a esposa, uma vez feia, pobre ou doente, lhe seria apenas um peso odioso...
Que vida humana está garantida contra tais possibilidades?
O silêncio que subitamente se fez sentir provocou-lhe um estremecimento e ela voltou à realidade.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 09, 2016 9:44 pm

Rubro de cólera, com o lábio inferior a tremer e projectado como o de uma criança mimada, Anatole olhava firme para ela e, pela primeira vez, Tâmara viu seus olhos, de um azul claro e duro, fuzilarem de maldade e de vaidade ofendida.
— Por que você parou de ler?
É muito comovente — tentou ela dizer com um sorriso constrangido.
Em resposta ele fechou estrepitosamente o caderno e levantou-se.
— O visível interesse com o qual você acompanha minha leitura é tão lisonjeiro, que creio ser de meu dever fazê-la cessar.
Estou amplamente convencido da sua participação naquilo que me toca.
Passemos ao salão.
Não quero entediá-la mais.
Sem dizer uma palavra, Tâmara seguiu-o e, como estivesse também descontente e magoada.
A situação permaneceu tensa e ela apressou-se em despedir-se.
No dia seguinte, triste e preocupada, Tâmara meditava, sobre o desentendimento ocorrido, examinando em seu espírito a possibilidade de um rompimento, quando lhe chegou uma carta de Anatole.
A mensagem era das mais ternas, implorava-lhe esquecer o tolo incidente da véspera e anunciava que à noite ele viria dissipar-lhe o mal-entendido.
Essa explicação resultou em plena e total reconciliação.
Anatole Pavlovitch era todo ternura e arrependimento.
Assegurou a Tâmara, nos termos mais cavalheirescos, do amor apaixonado que sentia por ela.
- Sei — repetia ele — que sou cheio de defeitos, mas pelo menos um mérito eu tenho - O de reconhecê-lo.
Repreenda-me à vontade, minha bem-amada, mas não me guarde nenhum rancor e, sobretudo, ame-me bastante, pois o meu amor é todo fogo e tenho necessidade da mesma flama para ser aquecido e ter forças para me corrigir.
Dois dias após essa reconciliação houve a recepção costumeira na mansão dos Ardatov.
Anatole Pavlovitch, mais amoroso e mais terno do que nunca, jantara com eles e, à noite, quando os convidados começaram a chegar, ficou a sós com a noiva no salão menor.
— Você está indisposta, Tâmara? — perguntou Tarussoff afectuosamente, após haver observado que a moça estava pálida e nervosa, torcia e retorcia maquinalmente a borda de sua écharpe de rendas.
— Não, meu amigo, estou bem.
No entanto, algo que não sou capaz de definir me preocupa, uma vaga inquietação me persegue, cada ruído me faz estremecer e me parece que uma desgraça vai abater-se sobre mim.
Sinto isso desde a manhã.
Esta noite sonhei que estava num campo coberto de flores e batido pelo sol.
Subitamente o céu ficou negro e começou .a descer sobre mim, como um véu de chumbo.
Sufocada e esmagada, debatia-me, julgando morrer sob a pressão daquele peso enorme, quando acordei coberta de suor frio.
— Foi um pesadelo, minha querida, ao qual você não deve dar a menor importância.
Você está nervosa e isso lhe acarreta ideias sombrias.
Se Deus quiser, dentro em breve estaremos unidos.
E então, meu amor, meus constante cuidados com você farão desaparecer esse estado doentio.
Nenhuma desgraça é esperada, mas se, pela vontade de Deus, qualquer aflição atingir você, ali estarei para ajudar-lhe a suportá-la.
E como não haveria eu de conseguir com o meu ardente amor um bálsamo para acalmar as suas dores?
Você não sabe como eu a amo, Tâmara!
Você é a metade da minha alma, a metade melhor, e a vida sem você me pareceria mais árida do que um deserto.
Com um gesto apaixonado, atraiu-a para si e abraçou-a.
Muda e reconhecida, Tâmara correspondeu com espontaneidade ao seu beijo.
Naquele momento, a campainha anunciou o primeiro convidado — era o Almirante, seguido logo após de duas senhoras.
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