Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 8:21 pm

Pela primeira vez, ela compreendia plenamente que Magnus lhe era muito mais caro do que qualquer outra pessoa e com a morte dele tudo ruía em tomo dela “Ah, volta — pensava ela — e hei-de dar-lhe todo
o meu coração.
Vencerei meu egoísmo, meu tolo orgulho, para mostrar-lhe sem restrição que o amo mais do que à vida”.
Nesse momento, o relógio bateu meia-noite.
Com um surdo gemido, a moça apertou a testa com as mãos: agora ela não podia mais duvidar de que tudo estava terminado.
Se Magnus ainda vivesse, já teria regressado à casa.
Incapaz de ficar sossegada, ela se pôs a caminhar de um lado para outro.
Cada minuto lhe parecia uma eternidade.
Subitamente, seu olhar fitou a porta aberta do quarto de dormir de Magnus, iluminado como de hábito por uma lâmpada suspensa ao tecto.
Via-se ao fundo um genuflexório, acima do qual havia um crucifixo de marfim.
Sentindo necessidade de orar, de buscar socorro e sustentação junto ao Todo-Poderoso dispensador de nossos destinos, Tâmara aproximou-se, ajoelhou-se e, com os olhos pregados na imagem do Redentor, rogou do fundo da alma, pedindo la misericórdia suprema de conservar para ela o ser amado, ou de a reunir a ele se ele houvesse perecido.
Magnus, contudo, estava são e salvo.
O fogo começara nos bastidores e havia, realmente, causado enormes danos aos acessórios altamente inflamáveis dos cenários, mas por um feliz acaso, as chamas não se propagaram ao salão.
O pânico, contudo, foi espantoso.
Vendo a turba apavorada precipitar-se para fora do salão, o Barão procurou cobertura num dos camarotes vazios e somente mais tarde saiu.
Em seguida, apanhando no vestiário saqueado às pressas um casado caído ao chão, vestiu-o e, com a ajuda de um bombeiro, retirou-se do edifício.
Do lado de fora o espectáculo do combate ao incêndio e as brilhantes manobras dos bombeiros cativaram por um momento sua atenção.
Em seguida, abriu, não sem dificuldade, caminho por entre a multidão compacta e se pôs a procurar sua carruagem.
Como era de esperar-se, sua busca foi em vão.
Furioso e aborrecido preparava-se para tomar uma carruagem de aluguel, quando alguém bateu-lhe no ombro.
— Enfim, ei-lo aqui, Magnus Oscarovitch.
Já estava perdendo as esperanças de cumprir minha promessa e levar você de volta, morto ou vivo.
— Ah, é o senhor, Sergei Ivanovitch?
Por que acaso e de quem recebeu o senhor a incumbência de encontrar minha pessoa ou meu cadáver? — perguntou o Barão com um sorriso.
— De quem? E de quem poderia ser?
De Tâmara, que atravessa agora um mau quarto de hora, a pobre menina!
Ela queria a todo custo vir pessoalmente procurar você.
Foi um custo dissuadi-la a arriscar-se dessa maneira.
Por isso eu jurei que revolveria eu mesmo todos os escombros se isso fosse necessário.
O idiota do seu cocheiro voltou para casa anunciando e incêndio e dizendo que você desaparecera.
— Não pensei que Tâmara enfrentasse com tal disposição a perspectiva de um perigo desses para mim — observou Magnus com certa amargura.
O Almirante pôs-se a rir.
Não creio que você seja tao vaidoso a ponto de exigir demonstrações apaixonadas.
No fundo, você sabe tão bem quanto eu que sua mulher o ama como convém a uma bela mulher amar a um homem que lhe agrada mais do que todos os outros.
Se há algum desentendimento entre vocês, não sei; seja como for, o momento é propício para fazerem as pazes e botarem as coisas no lugar certo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 8:22 pm

Portanto, meu rapaz, apanha minha carruagem e voa para a sua casa, a fim de tranquilizar Tâmara.
Ela ainda está algo enfraquecida e pode ter algum problema com toda esta excitação.
Magnus corou e baixou a cabeça, mas seu coração batia como nunca.
— Muito obrigado, Sergei Ivanovitch, pelo seu interesse e... por tudo o que acaba de me dizer — comentou ele, apertando fortemente a mão do velho marujo.
Só que o senhor não deve ficar sem sua carruagem.
Estou vendo ali um trenó com um excelente cavalo.
Ele me levará mais depressa.
Sem mesmo esperar pela resposta, o Barão correu para o trenó e dizendo seu endereço ao cocheiro ordenou-o não poupar o cavalo.
Apesar da rapidez da corrida, parecia-lhe que jamais chegaria ao seu destino.
Estava impaciente por tranquilizar a jovem esposa e, contudo, a ideia de que ela temia por ele, enchia-o de alegria e esperança.
Como haveria de bendizer aquele incidente devido à tolice de seu cocheiro, se aquilo se tomasse a base de uma reconciliação definitiva, se pusesse fim a uma situação que, às vezes, lhe parecia tão intolerável...
O porteiro e dois dos lacaios estavam de pé no portão, discutindo a ausência prolongada do senhor e observando as carruagens que passavam.
Ao reconhecerem o Barão, lançaram-se na sua direcção, ajudando-o a descer do trenó.
— Louvado seja Deus, Barão, por termos o senhor são e salvo novamente.
Já nos lamentávamos aqui por não vê-lo de volta — disse o porteiro.
— Estou igualmente muito satisfeito que vocês se tenham lamentado inutilmente — disse o jovem de bom humor, subindo a toda pressa a escadaria.
— Onde está a Baronesa? — perguntou a Frederico que acorreu todo feliz ao seu encontro.
— No gabinete, Senhor, na sua inquietação a Baronesa não deixou a janela.
Com um passo lento, Magnus penetrou no gabinete e estacou indeciso.
Tâmara não estava lá.
Dirigiu-se, em seguida, ao quarto de dormir e percebeu logo que ela estava ajoelhada a orar, com a testa apoiada às mãos postas.
O espesso tapete abafava seus passos e a concentração de Tâmara era tão profunda que não ouviu a aproximação do marido.
“Ela ora por mim! Ah! se afinal ela concordasse em admitir que me ama!” — pensou o jovem, fitando-a apaixonadamente.
Ele inclinou-se e murmurou:
“Tâmara!”
A moça empertigou-se subitamente e, percebendo que era o marido, deixou escapar um grito de alegria e, num só impulso, atirou-se em seus braços.
Tanta felicidade e tanto amor vibravam naquele som e naquele gesto que valiam uma confissão mais explícita.
— Enfim, malvada, você se esquece do rancor — disse Magnus apertando-a de encontro ao coração.
Mas será mesmo que ficaram encerrados os mal-entendidos e as nuvens que obscureciam nossa felicidade?
Você quer reconhecer que me ama?
A moça correspondeu francamente ao seu beijo e se deixou conduzir ao divã sobre o qual sentaram-se ambos.
— Sim, Magnus, eu o amo, mas só nestas últimas horas pude compreender que, sem você, não valeria a pena viver.
Jamais me esquecerei da dor horrível que senti em pensar que você estava morto.
Ocorreu-me o pensamento de que Deus subtraía você de mim para punir meu orgulho e meu egoísmo e eu jurei que, se você vivesse, haveria de procurar proporcionar-lhe toda a felicidade que depender de mim assegurar-lhe.
Mas você não está ferido, meu bem amado?
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 8:22 pm

O que aconteceu, afinal? — acrescentou ela, apalpando-o ansiosamente.
— Estou são e salvo e deveria recompensar ao estúpido António que me ajudou a reconquistar a felicidade.
Se ele não houvesse assustado você dessa maneira. . .
A seguir, ele narrou os detalhes do incêndio e acrescentou:
— Agradeçamos a Deus, que tão milagrosamente nos conduziu através dos infortúnios e das provações à paz e à felicidade.
Tendo estado tão perto de nos perdermos mutuamente, haveremos de nos apreciar melhor doravante.
— Você tem razão, Magnus.
Estivemos perto de soçobrar, como tantos outros, e a sociedade frívola e maldosa teria amargurado meu coração.
Na verdade, detesto esta Babilónia moderna, onde tudo se vende e tudo se compra, onde o egoísmo e a brutal luta pela existência envenenam e desfiguram todas as boas aspirações.
Mas, por mais arrependida que esteja dos meus pecados de orgulho e de egoísmo, em nossa grande querela você é que estava errado — ajuntou Tâmara travessamente.
Ah, fiquei tão zangada com a sua perfídia, que tive vontade de dar-lhe uma surra. ..
Magnus deu uma gargalhada.
— Ah, as mulheres! As mulheres!...
Têm que ser sempre as vítimas!
Mas por que você não se vinga, puxando-me as orelhas?
As ofensas foram de parte a parte e eu não teria esperado tanto para perdoar-lhe.
Esquece, pois, os meus erros passados, mas não me retrato das palavras de então e assumo a responsabilidade de minhas falhas.
— Não quero faltar-lhe com a generosidade.
Servirei uma xícara de chá em lugar de arrancar-lhe as orelhas.
Venha. Você deve estar com fome, meu pobre Magnus, após tantas emoções — disse alegremente Tâmara passando a mão sob o braço do marido e conduzindo-o à sala de refeições.

Petersburgo, 26 de abril de 1892.
J. W. Rochester
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 8:22 pm

36 Observações FinaisEmbora a visão doutrinária das personagens do livro seja bastante lúcida e ampla, como vimos ao longo da história, certas práticas seriam questionáveis ou formalmente condenadas em nosso contexto, pois ao mesmo tempo que se dizem espíritas, elas se benzem e oram diante das imagens dos santos (ícones) em pequenos altares ou oratórios domésticos, bem como realizam cerimónias religiosas em casamentos e enterros.
O facto é que o Espiritismo não chegou a organizar-se ali como movimento e nunca teve uma estrutura que coordenasse os esforços de todos e eliminasse certas práticas formalmente condenadas pela Doutrina.
Infelizmente, isso não chegou a acontecer porque, umas poucas décadas mais tarde, a Rússia dobrou à esquerda, optando por uma filosofia global rigidamente materialista.
Observamos ainda que o tratamento da obsessão de que foi vítima a jovem Tâmara Nicolaevna seria hoje, com os conhecimentos e recursos de que dispomos, tarefa atribuída a um grupo mediúnico especificamente organizado com essa finalidade.
É preciso considerar, contudo, que resultados positivos podem ser eventualmente obtidos, como no caso de Tâmara, por meio de preces e passes magnéticos ministrados por uma pessoa de boa condição espiritual e dotada de óbvias virtudes, como o bondoso velhinho que tratou dela.
Ele certamente impôs sua autoridade moral ao espírito que atormentava a moça, conseguindo afastá-lo com a ajuda de seus amigos espirituais.
Insistimos, porém, em afirmar que tal prática deve ser considerada como excepção e não como norma.
A literatura espirita especializada é rica e objectiva, a partir de O Livro dos Espíritos e de O Livro dos Médiuns, na caracterização e no tratamento adequado dessas questões.


§.§.§- O-canto-da-ave
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