Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 09, 2016 9:44 pm

Veio depois Pfauenberg com um bilhete de Madame Raban, que se desculpava de não comparecer por causa de sua dor de cabeça.
O médium de Calchas mostrava-se servil e amável como sempre, fazendo seus mexericos decentemente, ao contar apenas o suficiente para distrair seus ouvintes com os fraquezas e dissabores do próximo.
Tudo era feito de maneira tão gentil, com tais olhares mansos de pomba que, por certo, ninguém via qualquer intenção maldosa por parte do excelente Eitel Franzovitch.
Havia já bastante gente, quando chegou o Príncipe Ugarine, entediado, rabugento e visivelmente irritado.
Enquanto ele saudava o dono da casa, Tâmara percebeu pela segunda vez, o olhar estranho de Pfauenberg sobre seu pai — compaixão e odiosa satisfação ali se misturavam, mas a impressão fora muito fugitiva para que Tâmara pudesse aprofundá-la melhor.
Um tanto admirada, procurou observá-lo mais atentamente e viu, em diferentes oportunidades, os olhos, habitualmente tão plácidos do jovem oficial, iluminados por uma cruel fagulha de zombaria fixados em sua madrasta, em Tarussoff e nela própria.
Uma vaga agonia, mista de cólera, apossou-se do coração da moça e, com uma sensação de hostilidade íntima, ouviu novo relato de Pfauenberg.
Este, uma vez que Arsénio BorissoVitch deixara o salão para ir sentar-se a uma mesinha de jogo, interpretou à sua maneira as causas do mau humor do Príncipe:
seria proveniente de um picante escândalo ocorrido entre ele e o marido da Sra. Helena.
O homem tivera um súbito ataque de ciúmes.
A esse dissabor amoroso juntara-se uma complicação a mais, pois o Príncipe havia sofrido uma grande perda no jogo.
Todos se riam e se divertiam com essa história, mas Tâmara sentiu-se profundamente desgostosa ante essas frívolas bisbilhotices.
Seriam onze e meia, quando um visitante retardado deu entrada no salão.
Era um velho senhor, hóspede frequente da casa.
Era corrector de valores na Bolsa e administrava os negócios de Ardatov.
Mostrava-se, naquele momento, visivelmente desfeito e agitado.
— Onde está o seu marido?
Preciso falar-lhe imediatamente — disse-lhe ele, saudando rapidamente a dona da casa.
— Está no salão verde jogando cartas. Vou chamá-lo...
— Não precisa.
Eu o encontrarei — respondeu o velho financista, passando precipitadamente à sala de jogos.
À sua vista, Ardatov levantou-se pálido e, concedendo-lhe apenas o tempo necessário para saudar os circunstantes, perguntou-lhe à meia voz;
— Que houve?
Vejo, pela sua aparência, que algo grave aconteceu.
— Sim, uma coisa horrível e inesperada.
Arustein deu um tiro na cabeça hoje às seis horas...
Falência total...
Mas, vamos até o seu gabinete.
Nicolai Vladimirovitch ouvira tudo de olhos desmesuradamente abertos.
Subitamente, seu rosto pálido cobriu-se de uma onda violácea, quis falar mas nem uma palavra saiu de seus lábios.
Um de seus braços agitou-se convulsivamente e, antes mesmo que seu interlocutor pudesse sustê-lo, abateu-se sobre o tapete como um fardo.
Fez-se um tumulto imediato; os jogadores deixaram suas mesas, algumas pessoas chegaram do salão.
Gritos e exclamações explodiram por toda a parte, até mesmo no toucador.
Tâmara sentiu uma comoção.
O prato de cristal e a laranja que ela descascava escaparam-se de suas mãos e, num abrir e fechar de olhos, ela se viu na sala de jogos.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 09, 2016 9:44 pm

A princípio, nada distinguiu senão a aglomeração agitada de homens e mulheres, mas logo abriu-se uma passagem e ela viu que o Almirante, ajudado por alguns senhores e dois lacaios, transportava seu pai como morto e de olhos fechados.
Cambaleante e com uma sensação de vertigem, a moça apoiou-se ao alizar de uma porta e viu, como que em sonho, Lúcia, presa de um acesso de histeria, desabar sobre uma poltrona e algumas damas acercarem-se dela com seus frascos de sais para fazê-la cheirar.
Algumas palavras ditas perto da moça arrancaram-na, contudo, de seu torpor:
— É verdade que foi a notícia do suicídio de Arustein que fulminou Ardatov?
Será possível que o banqueiro tenha perdido tudo? — perguntou um velho general reformado.
— Infelizmente é verdade.
Dizem que o último pânico na bolsa arrasou com ele.
Ardatov perdeu enorme importância e mais de um, além dele, há-de lembrar-se para sempre deste dia fatal.
Dizem que suas dívidas vão a mais de um milhão.
Sem ouvir mais nada, Tâmara precipitou-se no gabinete.
Incapaz de falar, ela caiu de joelhos ante o grande divã turco sobre o qual haviam colocado o corpo inerte de seu pai e ao pé do qual alguns senhores conversavam em voz baixa.
Um momento mais tarde, o Almirante e um médico aproximaram-se do divã.
Todos os presentes deixaram o gabinete, menos Tâmara que, com os lábios colados à mão rígida e fria, permaneceu ali, vencida pelo abatimento.
— Levante, minha querida filha, e deixe-nos — falou o Almirante, enlaçando-a paternalmente pela cintura e ajudando-a a pôr-se de pé.
— Deixa-me ficar, "tio” Sergei — murmurou ela.
Serei forte e ajudarei os senhores, mas não me mande embora.
— Prometo mandar chamar você tão logo seja possível.
Mas, agora, é preciso despi-lo e verificar que providências tomar.
Com andar incerto, Tâmara saiu do gabinete por uma porta que dava para o vestíbulo que estava cheio de gente, pois os convidados se dispersavam apressadamente e, entre eles, Ugarine, ao qual um lacaio estava justamente entregando o casaco.
Os olhos do Príncipe e os da moça se cruzaram, mas o olhar de Arsénio desviou-se logo.
Vestindo o gorro, ele a saudou e saiu precipitadamente.
Lentamente, cabeça baixa, Tâmara entrou no salão e se deixou cair sobre uma cadeira, junto de uma enorme jardineira.
Ninguém a notara e as poucas pessoas que ainda se encontravam na sala conversavam à meia-voz, em grupos.
Ouviam-se, num dos aposentos vizinhos, os soluços convulsivos e os gritos meio abafados de Lúcia.
A moça contemplou com um olhar fatigado a série de luxuosos aposentos, inundados de luz, mas vazios da turba enfeitada que os movimentava ainda há menos de uma hora.
Era, então, aquela a desgraça que ela havia pressentido, o véu negro e esmagador que, em sonho, baixara sobre ela.
A voz de von Pfauenberg, que se ouvia a distância, atraiu subitamente sua atenção.
De costas para ela, ele discorria ante algumas pessoas que ela não podia ver de onde estava sentada.
— Eu já sabia, ao vir para cá, que ele estourara os miolos.
O comissário do quarteirão, que conheço ligeiramente, me contou que o Conde Nemiroff, o General Zezepine e Ardatov são os principais credores.
Este último perde, segundo se diz, mais de 250 mil rublos.
Literalmente, nada lhe restará...
O final da frase perdeu-se na distância.
Pfauenberg e seus interlocutores haviam deixado o vestíbulo.
Aí estava, pois, a explicação dos estranhos olhares que ela havia surpreendido nele.
Um rubor ardente subiu ao rosto de Tâmara, ainda que não compreendesse em toda a sua extensão as causas do desastre.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 09, 2016 9:44 pm

A entrada de Lúcia e seu aspecto assustador arrancaram bruscamente a moça de suas reflexões.
O vestido de seda salmão de Madame Ardatov estava todo manchado de essências e vinagres com os quais haviam-na reanimado.
As rendas e os laços pendiam amarrotados; seus cabelos desgrenhados caíam em desordem e torrentes de lágrimas que haviam inundado seu rosto pintado produziram indescritível devastação.
Ela percorreu todo o salão com um olhar perdido e, em seguida, com ambas as mãos na cabeça, pôs-se a correr como uma louca daqui para ali, soltando verdadeiros uivos espasmódicos entrecortados de soluços.
— Pelo amor de Deus!
Controle-se, mamãe, e não chore dessa maneira perto do gabinete onde está meu pai — disse Tâmara, dirigindo-se a ela e arrastando-a à força para o toucador.
Sente-se ali. Vou apanhar um pouco de vinho para você.
Na sala de jantar a mesa estava intacta.
A luz do lustre e dos candelabros partia-se em mil reflexos por sobre a prataria, os cristais e as pirâmides de frutas e flores, mas todo aquele luxo contrastava lugubremente com os sentimentos da moça e os olhares ansiosos dos criados que, inactivos e assustados, comprimiam-se à porta.
Maquinalmente, Tâmara derramou um pouco de vinho num copo e retomou depressa para sua madrasta, estendida num divã em completa prostração.
Mas, depois de haver tomado alguns goles do vinho, recuperou-se um tanto e, de olhar fixo, pensava, sem parecer ver nem ouvir.
— Diga-me o que aconteceu? — perguntou Tâmara com voz incerta e tocando seu braço.
Como se o leve toque produzisse sobre ela o efeito de uma descarga eléctrica, Madame Ardatov saltou de pé com um grito selvagem.
— O que aconteceu — disse ela com uma voz sibilante — é que somos agora verdadeiros mendigos; que tudo o que você está vendo em tomo de nós será vendido; que a vergonha e a miséria nos aguardam.
Ah! aquele maldito Arustein! tomara que ele jamais encontre repouso no seu túmulo.
Como uma insensata, ela atirou-se sobre o divã, sapateando, mordendo as almofadas, misturando soluços com gargalhadas, numa torrente de injúrias endereçadas ao marido, cuja incúria e inépcia haviam produzido aquele desastre.
Pálida de espanto, Tâmara recuou — será que um acesso de loucura havia tomado conta de sua madrasta?
Ao ouvir, contudo, que ela injuriava seu pai, ficou rubra e um impulso de desprezo, misto de compaixão, brotou de seus olhos.
— Controle-se e suporte com dignidade a infelicidade que nos atinge — disse ela com a voz alterada.
Não tem vergonha de ainda acusar meu pai e de pensar na perda do dinheiro, no momento em que ele corre o risco de nos ser arrebatado?
Ah! se pelo menos ele for preservado, eu me curvarei humildemente à provação que Deus nos inflige. .
— Deus! Ele não existe — é o demónio que governa o universo e se diverte com os nossos sofrimentos — exclamou Lúcia com a voz sibilante.
— Não desafie o destino neste momento tão cruel e não blasfeme contra Deus para que ele não a abandone de uma vez — disse Tâmara com severidade.
Controle-se e procure acalmar- se, pois teremos necessidade de todas as forças para cuidar de meu pai, se ele sobreviver, e organizar nossa nova existência.
— Deixa-me descansar, sua maluca!
Você acha que a miséria é romântica?
É a vergonha, o desprezo, o abandono.
Ela deixou escapar uma gargalhada selvagem e, de punhos cerrados, apontou para os aposentos desertos e prosseguiu:
— Veja esses salões vazios — nunca mais se encherão de gente.
Nossos convidados fugiram como ratos de um navio condenado à destruição.
Todos nos darão as costas e o seu Anatole Pavlovitch será o primeiro.
Onde está ele?
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 09, 2016 9:45 pm

Desapareceu como os 60.000 rublos que deveriam constituir o seu dote.
Somente naquele momento Tâmara lembrou-se de seu noivo e seu coração ficou pesado.
Era verdade — ele sumira naquela hora de aflição.
Não ficara perto dela nem para sustentá-la com uma palavra de afeição.
Eram, portanto, mentirosos os protestos de amor que lhe havia prodigalizado poucas horas antes.
Numa transposição de que ela nem se deu conta, a imagem de Magnus surgiu-lhe de súbito na mente super-excitada.
Ele também havia sido abandonado na desgraça e até mesmo sua noiva deixara-o só.
— Ah! Lúcia — exclamou ela com agonia — se verdadeiramente as pessoas são assim covardes e miseráveis, como você diz, vale a pena derramar lágrimas por havê-las perdido?
Aqueles que, de facto, gostam de nós virão ver-nos, a despeito de nossa pobreza.
Servir de distracção para uma turba de ociosos que se nutre, hoje aqui amanhã ali, de festas e de escândalos, realmente não vale um desgosto.
Nesse instante entrou o Almirante.
Olhando fixamente o rosto desfeito de Lúcia, disse à meia-voz:
— Foi um ataque de apoplexia que abateu Nicolai.
O lado direito está paralisado, mas ele vive e tem condições de viver, segundo o médico.
Venha vê-lo, mas tenha calma.
Qualquer emoção deve ser cuidadosamente evitada.
Sem dizer palavra, Lúcia virou-se e, quase correndo, foi para o seu quarto de dormir.
Com o coração apertado, Tâmara fitou o Almirante, que seguira com olhar sombrio aquela precipitada retirada.
Tomando a mão da moça, ele disse bruscamente: “Vem!”
O doente estava já deitado em sua cama.
Respirava penosamente, mas seus olhos abertos fitavam a porta.
Quando a filha curvou-se sobre ele e beijou-lhe a testa, ele esboçou um sorriso e com a mão esquerda apertou fracamente a de Tâmara.
— Estarei velando por você, caro papai — murmurou ela.
— E eu também.
Fique, pois, calmo e trate de dormir — acrescentou o Almirante com um sorriso encorajador.
Quando o médico partiu, prometendo voltar às dez horas da manhã, Tâmara correu para trocar seu vestido de noite por uma blusa confortável e, em seguida, veio sentar-se à cabeceira do doente, mergulhado em profundo abatimento.
Durante as longas e penosas horas dessa vigília, a moça procurou ordenar seus caóticos pensamentos, tentando entrever o futuro.
Sob uma nova luz, mas seus nervos superexcitados recusavam-se a qualquer trabalho coerente.
Friorenta e recusando tudo quanto dizia respeito ao mundo material, ela entregou- se a uma prece ardente, implorando a Deus, criador de todas as coisas, fé e coragem, pedindo-lhe como graça única a conservação de seu pai bem amado.
E esse desejo dirigido à força suprema, dispensadora dos tesouros da alma, não foi em vão:
uma calma submissão, uma profunda fé na protecção de Deus encheram-lhe a alma, proporcionando-lhe lucidez de espírito e a firmeza que a caracterizavam.
Um dia encoberto começava a amanhecer, quando um leve chamado arrancou a moça às suas reflexões.
Vinha de Fanny, sua camareira, que, com a cabeça na porta entreaberta, fazia-lhe sinais, chamando-a.
— Que quer você, Fanny?
Você está toda desfeita...
— Ah! senhorita, estamos com receio de que algo haja acontecido à Madame — disse Fanny arrastando a jovem rumo ao quarto de dormir de sua madrasta.
Em frente à porta dos aposentos de Lúcia estavam, pálidas e assustadas, a camareira e a babá de Olga.
— Que aconteceu?
Porque vocês não entram? — perguntou Tâmara, tomada de súbito pressentimento, ansiosamente atenta a um estertor abafado que vinha do quarto contíguo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 09, 2016 9:45 pm

— A porta está fechada por dentro e, também, a do outro lado, junto ao guarda-roupa — disse a babá.
Quando Madame entrou, ela nos dispensou, dizendo que não necessitava mais de nós e, por isso, ficamos conversando no quarto da governanta.
Mas vindo para o meu quarto, ouvi a pequena Olga chorando aflitivamente.
Quis entrar, mas não pude e faz bem uma hora que chamamos por Madame.
Ela nem responde, nem abre a porta e a criança também se calou, mas ainda geme, como a senhora pode ouvir.
— Por que vocês não entraram pelo meu gabinete? — perguntou Tâmara.
Lembrando-se, porém, de que ela mesma mandara fechar, já há algum tempo, a porta de comunicação entre o seu pequeno aposento e o de sua madrasta, acrescentou com vivacidade:
— Vamos. Vou abri-la.
Alguns minutos mais tarde, Tâmara, seguida das três mulheres, entrou no quarto de dormir de Lúcia.
Uma lâmpada de um abajur de seda alumiava o amplo cómodo com uma meia-luz avermelhada.
O pequeno leito de Olga, colocado logo à entrada, estava vazio.
Do lado oposto encontrava-se o grande leito de cortinas de cetim vermelho de Madame Ardatov, mas, ao primeiro olhar que dirigiram à cama intacta, um grito de horror escapou de todas as bocas:
pendurado pelo cordão de um perignoir, ao travessão superior do leito, pendia o corpo de Lúcia com o rosto hediondamente desfigurado.
Tomada de vertigem a jovem agarrou-se ao espaldar de uma cadeira — pois suas pernas trémulas recusavam-se a sustentá-la. Loucas de pavor, a camareira e a empregada saíram desabaladas do quarto.
Apenas Fanny se pôs a procurar a menina, que continuava a gemer e que acabou encontrando, em roupa de dormir, escondida sob o divã e presa de convulsões.
— Chame o Almirante — gritou Tâmara logo que conseguiu recuperar o uso da palavra.
Sergei Ivanovitch, contudo, já havia sido avisado por um dos empregados, ao qual a camareira e a empregada haviam transmitido a notícia no corredor e, no momento em que Fanny abria a porta do toucador para sair com Olga, ele apareceu, seguido de dois lacaios.
Lívido, mas decidido, o Almirante ordenou a um dos homens que fosse, rápido, buscar o médico; em seguida, ajudado pelo segundo, cortou o cordão e estendeu sobre o leito o corpo rígido e gelado que tombara pesadamente.
O médico, que chegou logo, pôde somente atestar a morte de Madame Ardatov.
— Já há cerca dê três horas ela deve ter expirado.
Como poder ver, o corpo está todo frio — acrescentou ele.
O Almirante fez o sinal da cruz.
— Que Deus tenha piedade de sua alma! — disse ele.
E o senhor, Doutor, não se recuse, por favor, a atestar que a infeliz morreu da ruptura de um aneurisma.
Poupe à família este novo escândalo e o dissabor com os padres, que suscitarão mil dificuldades para enterrá-la condignamente.
Ademais, me parece indispensável ocultar o acontecimento ao doente.
Isto o mataria.
Tâmara contemplara com indizível horror o rosto convulso de sua madrasta, que contrastava horrivelmente com o fino vestido e as jóias que ainda ornavam seus braços e seus cabelos.
Ao perceber que o médico e o Almirante se afastavam, ela assumiu uma atitude resoluta.
— Padrinho — disse ela, alcançando-os — é preciso pedir ao doutor para examinar Olga.
Fanny levou-a toda arroxeada e em convulsões... de pavor, sem dúvida.
Precipitadamente, passaram todos ao quarto das crianças, onde Olga estava deitada no divã, já um pouco mais calma ante os cuidados de sua babá e de Fanny.
O médico examinou a criança que tremia como se estivesse com febre alta e, havendo prescrito as providências a serem tomadas, voltou ao salão.
— Como está ela — perguntou o Almirante.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 09, 2016 9:45 pm

— Não há nenhum perigo imediato, mas não posso ainda me pronunciar sobre as possíveis consequências de tamanho abalo nervoso.
Devo dizer que Madame Ardatov demonstrou escasso amor maternal, fazendo sua filha testemunhar semelhante morte.
A menina poderia ter ficado completamente louca.
Vamos, agora, ver o doente outra vez.
Nicolai Wladimirovitch não estava dormindo e parecia presa de uma agitação febril.
— Onde está Lúcia? — murmurou ele assim que o médico curvou-se para examiná-lo.
— Ela vem logo, papai.
Acalme-se, por favor — disse Tâmara.
Mas o doente agitava-se entre as almofadas.
— Quero que ela venha imediatamente.
Tive um sonho, no qual ela estava tão horrível! — gemeu ele, agitando o braço válido.
— Esteja calmo, Nicolai.
Você deve compreender que qualquer emoção lhe é prejudicial — observou o Almirante.
Lúcia está indisposta em consequência de todos esses acontecimentos.
Ela virá mais tarde.
Por enquanto, você não está em condições de ouvir suas lamentações.
O doente pareceu acalmar-se e recaiu em pesado abatimento.
— Ê preciso colocar uma enfermeira junto dele — disse o médico ao sair.
A senhorita não pode dar conta de tudo e, no entanto, uma vigilância permanente se toma necessária.
Vou enviar-lhes uma irmã de caridade de meu conhecimento e com a qual podem contar.
Quando padrinho e afilhada se viram a sós, Tâmara sentou- se e levou as mãos à cabeça.
— Ah! "tio” Sergei. Que coisa horrível!
É verdade que ontem à noite Lúcia estava como louca e blasfemava contra Deus; contudo, jamais poderia pensar que um desenlace tão sacrílego fosse possível.
— Ela era uma escrava do impulso do momento — respondeu o Almirante com um suspiro.
A ruína destruíra para sempre a vida de luxo e de divertimento que era o seu elemento.
Isso tirou-lhe toda a capacidade de reflexão.
Preferiu a morte à pobreza e, para dizer a verdade, foi melhor assim. Lúcia não saberia curvar-se ante a necessidade.
Ela teria feito da vida de vocês um verdadeiro inferno.
Agora, minha querida, é preciso pensar no mais urgente — o enterro que convém abreviar o quanto possível.
Para começar:
onde ficará exposto corpo, de forma que seu pai não desconfie de nada?
— No toucador, acho eu.
Fechando todas as portas, nem a voz dos padres, nem o ruído chegarão aos ouvidos de meu pai.
O caixão poderá ser levado dali para o salão verde pela porta que se abre no corredor que leva ao vestíbulo.
Só que tenha a bondade, "tio” Sergei, de assumir você mesmo a direcção de tudo quanto for necessário aos funerais.
— Sem dúvida, minha filha; não se preocupe com coisa alguma.
Vai agora para junto do doente mas, quando a irmã de caridade chegar, deite-se e recupere um pouco as suas forças.
Há muita coisa a fazer.
— Eu sei e serei forte.
Muito obrigada por toda a sua bondade connosco.
O doente dormia.
Alquebrada, Tâmara atirou-se a uma cadeira à cabeceira do leito e fechou os olhos.
Parecia-lhe estar vivendo um pesadelo horrendo que a esmagava e paralisava seus membros.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 09, 2016 9:45 pm

Uma série de quadros incoerentes desfilava pela sua imaginação, mas ela era incapaz de pensar, de examinar em maior profundidade sua situação.
Passado e presente fundiam-se para ela numa só ferida dolorosa e, quanto ao futuro, levantava- se ante seu espírito como um mistério sombrio e ameaçador.
Ela não poderia dizer quanto tempo ficou mergulhada naquela prostração, quando um ligeiro ruído fê-la abrir os olhos, diante dos quais estava o olhar plácido e doce da irmã de caridade que, julgando-a desmaiada' dobrava-se sobre ela.
Era uma mulher de idade mediana, cujas aparência e maneiras inspiraram confiança e simpatia imediatas em Tâmara.
Tendo transmitido à enfermeira as instruções do médico, a moça deixou o quarto de seu pai e passou ao das crianças.
Olga, pálida e esgotada, dormia profundamente no divã.
O pequeno Jorge, bem disposto e sorridente, fazia sua refeição matinal ao colo da criada e, logo que percebeu a presença da irmã, estendeu-lhe os bracinhos.
Tâmara abraçou-o e ordenou que o levassem para outro aposento, pois temia que, começando a chorar, Olga o assustasse.
Em seguida, mandou chamar Fanny e a camareira de sua mãe.
Era preciso cuidar da morta — disse ela — encontrar alguém para lavá-la e vestir-lhe o corpo.
— Será que vocês teriam medo de fazer isso? — perguntou ela.
— Está tudo pronto, senhorita — respondeu Fanny.
A governanta fez tudo o que era preciso.
O porteiro mandou duas mulheres, que se encontram nesse momento na câmara mortuária sob a fiscalização da Sra. Charlotte.
E vamos agora fazer a mortalha, se a senhorita não precisar de mim.
— Quero que você me traga um vestido preto, Fanny, e depois dê uma arrumação nos meus cabelos.
Ao entrar em seu quarto de dormir, Tâmara parou um instante diante do espelho e, com um olhar fatigado, contemplou sua imagem — laços cor de rosa ainda enfeitavam seus cabelos e um medalhão de diamantes pendia de seu pescoço, mas aquele rosto lívido e desfeito, aqueles olhos pisados, abrasados, eram bem diferentes do rostinho bonito, rosado e sorridente que aquele mesmo espelho reflectira algumas horas antes.
Mas, também, durante aquelas horas, toda a sua vida desmoronara.
Entregue a uma pegada apatia, deixou-se vestir com um vestido negro e arranjar com simplicidade seus belos cabelos.
Em seguida, estendeu-se numa poltrona. Fanny, que desaparecera como uma sombra, voltou logo, trazendo sobre uma pequena bandeja uma taça de chá, um copo de vinho ventielho e alguns biscoitos.
Vendo o. gesto negativo de sua patroa, a empregada exclamou quase em lágrimas:
— Pelo amor de Deus, tome alguma coisa, senhorita.
Lembre-se que desde ontem a senhora não comeu nada e já é uma hora da tarde!
A senhora precisa de forças.
Se ficar doente o que vai acontecer?
— Você tem razão, Fanny.
Tenho que permanecer de pé — respondeu Tâmara.
Com esforço, bebeu um pouco do chá e do vinho, mas sua garganta apertada recusava alimentos mais sólidos.
Um calor reconfortante, contudo, percorreu seus membros entorpecidos e, estendendo-se sobre as almofadas, tentou dormir.
Seus nervos, porém, estavam abalados demais para permitir que o sono viesse fechar as suas pálpebras e os mais penosos pensamentos a torturavam, quando a porta se abriu e Madame Raban entrou com vivacidade.
A emoção impedia-lhe de falar, mas, com um gesto maternal, estendeu os braços à moça que neles se atirou, deixando escapar um grito abafado.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 09, 2016 9:45 pm

Por muito tempo ficaram as duas abraçadas, enquanto uma torrente de lágrimas veio, enfim, aliviar a opressão que estrangulava Tâmara.
Em seguida, a velha senhora conduziu a moça até o divã e a beijou na fronte, murmurando:
— Minha pobre filha, não se desespere.
Restam-lhe dois amigos fiéis:
eu e o Almirante, e uma voz interior me sopra que Deus conduzirá você ao porto da paz e da felicidade.
Em contacto com aquela afeição sincera e generosa que vinha sustentá-la na hora da dor, Tâmara foi serenando aos poucos.
Falaram acerca dos pormenores do duplo acontecimento e, em seguida, a Baronesa pediu para ser conduzida até o doente.
Ardatov estava desperto e lúcido, sendo visível que se encontrava também consciente da sua situação e que mais sofria moral do que fisicamente.
Com a sua mão válida, apertou fracamente a da Baronesa e agradeceu a sua presença ali.
Somente ela viera pessoalmente; alguns conhecidos enviaram cartas, o que era, ainda, uma grande atenção a pessoas cuja ruína era notória. Logo depois, a Baronesa partiu, prometendo vir assistir à missa fúnebre e passar a noite com Tâmara, o que a moça agradeceu do fundo de sua alma.
Um instante mais tarde chegou o Almirante, muito fatigado pelas providências que tomara. Contou à sua afilhada que, em vista das excepcionais circunstâncias que desabaram sobre a família, havia conseguido das autoridades civis e religiosas permissão para enterrar ã morta no dia seguinte, o que era muito conveniente, tanto para o doente, como por causa das inúmeras e indispensáveis medidas ainda a serem tomadas.
Madame Raban voltou em breve, como prometera, logo após a chegada do padre.
Fechadas cuidadosamente todas as portas, passaram ao toucador, onde a morta já se encontrava estendida sobre uma mesa e rodeada de círios.
Tâmara fez o sinal da cruz e, ajoelhando-se, ficou a ouvir com atenção as graves e tocantes palavras do ritual fúnebre.
Tentou orar, mas parecia ter sobre todo o seu ser pesada massa de chumbo e não conseguia evitar que seu olhar voltasse a cada instante para o rosto contraído da morta.
Esta apresentava aspecto assustador, a face imóvel a reflectir uma expressão de sofrimento que parecia estender-se sobre o corpo inerte.
Um sentimento de pesar e de profunda compaixão apossou- se do coração da moça.
“Bom Deus! — pensou ela — como deve ser terrível o estado dessa desventurada alma!
Que sofrimento, que remorso não atraiu sobre si com a sua falta de submissão, ao procurar desembaraçar-se violentamente daquele corpo ao qual se ligara”.
Na onda de imensa piedade que a invadiu, extinguiu-se tudo o que havia separado Tâmara de sua madrasta.
A moça sacudiu seu estado de torpor moral e uma ardente invocação elevou-se de seu coração ao Pai de todas as coisas.
“Deus poderoso e misericordioso — murmurou ela — e vós, forças do bem, proporcionai a essa alma perturbada a coragem de retemperar-se na prece.
Fazei-a esquecer este mundo material que ela tanto amou e que passou como um turbilhão, legando-lhe apenas suas sombras e sua perfídia.
E você, pobre sofredora, ouve a minha promessa:
hei-de desempenhar junto ao doente e às crianças os deveres que você abandonou.
Possa este juramento acalmar a sua alma e tomar menos amargo o seu arrependimento”.
Cheia de generosa decisão, ela volveu os olhos húmidos para a morta e estremeceu:
seria uma ilusão?
Não — os traços contraídos haviam relaxado, assumindo aquela expressão grave e indefinível que a morte imprime à matéria abandonada pelo seu hóspede imortal.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 09, 2016 9:46 pm

— Tâmara — murmurou nesse instante a Baronesa — veja que estranha mudança se produziu no rosto de Lúcia:
o sofrimento horrível deu lugar a uma dolorosa resignação.
Não está aí uma prova admirável de que a alma vê e escuta e que nossas preces a aliviaram?
A moça inclinou a cabeça.
Não tinha dúvida alguma de que sua promessa havia sido ouvida pela morta e aceita por Deus.
E, com renovado fervor, absorveu-se na prece.
No dia seguinte, havendo terminado de vestir-se de luto, Tâmara passou ao toucador, onde um último serviço religioso deveria ter lugar, antes da retirada do corpo.
Ao atravessar o corredor, encontrou-se com dois empregados, que levavam belas guirlandas de flores, derradeira homenagem enviada à morta por antigos amigos.
Entre as cartas que vinham junto, havia uma do Príncipe Ugarine.
Um sorriso amargo e desdenhoso franziu-lhe os lábios.
“Pobre Lúcia — pensou ela — será que sua alma se alegra com esse pensamento último do mundo que você tanto prezou, deste adeus que lhe enviam, em lugar de uma prece e de sincero pesar sobre o seu triste fim?
De todos aqueles que tanto se divertiram em suas recepções, nem um só compareceu aqui.
Fugiram da mansão marcada pela desgraça, sem dúvida para não estragar as lembranças agradáveis.”
Terminada a missa de corpo presente, o caixão foi transportado sem ruído pelo corredor e pelo vestíbulo.
No momento em que uma serva apresentava a peliça a Tâmara, apareceu Tanissoff, pálido e carrancudo.
Ao vê-lo, ligeiro rubor subiu às faces de Tâmara e suas finas sobrancelhas se contraíram.
Desaparecera juntamente com a turba aquele noivo que tanto havia jurado amá-la, abandonando-a naquela hora terrível, quando tudo ruía em tomo dela.
Nem uma palavra afectuosa, nem um aperto de mão viera provar-lhe que ele sofria com ela.
Naquele mesmo momento, ele evitava o olhar perscrutador da noiva e, levando rapidamente aos lábios a mão enluvada da moça, ofereceu-lhe o braço.
Em seguida, sem trocar com ela uma palavra, desceu a escadaria.
— Venha na minha carruagem, Anatole Pavlovitch — disse o Almirante.
Na de Tâmara há apenas dois lugares.
Depois que as duas senhoras se instalaram, os homens tomaram a outra viatura e o cortejo se pôs em marcha.
Durante alguns minutos, Sergei Ivanovitch observou disfarçadamente seu companheiro que, visivelmente absorvido por pensamentos pouco agradáveis, mordiscava os bigodes.
— Sinto-me muito satisfeito pela oportunidade de falar-lhe mais à vontade, Anatole Pavlovitch — disse o Almirante, rompendo o silêncio.
A sua ajuda me será muito útil para resolver os penosos problemas criados pelo desastre, e com ela você poupará à pobre Tâmara horas bem amargas.
A presença do homem amado é um bálsamo para o coração que sofre.
Será preciso, contudo, adiar o casamento por alguns meses.
— Pergunto-me o que acontecerá com Ardatov e as crianças — observou Tarussoff corando bruscamente.
— Nicolai Wladimirovitch não resistirá mais de um mês, segundo os médicos.
Mas para não sobrecarregar o seu lar, decidimos, Vera Petrovna e eu, que ela ficasse com Jorge e eu com Olga, a fim de criá-los.
Desse modo, nem os cuidados nem as despesas com a educação das duas crianças serão encargos seus e, além disso, Tâmara poderá ficar tranquila quanto ao seu futuro.
— Tudo isso está muito bem, mas, em suma, o que resta a Tâmara?
— Nada, excepto sua juventude, sua beleza, sua virtude, em uma palavra, sua pessoa — respondeu laconicamente o Almirante.
Toda a fortuna, cerca de 300 mil rublos, está comprometida e creio que, para pagar as dívidas com fornecedores e outras obrigações, será preciso vender todo o mobiliário.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 09, 2016 9:46 pm

Restará apenas uma insignificante parcela, indispensável para cuidar-se do doente, que será muito dispendioso, mas não irá muito longe.
Tarussoff endireitou-se subitamente.
Seus olhos azuis brilhavam maldosamente e seu lábio inferior tremia visivelmente sob os bigodes.
— Perdão, Sergei Ivanovitch — disse ele como se profundamente ofendido — mas devo observar-lhe que, quando pedi a Ardatov a mão de sua filha, ele me mostrou documentos que representavam 65.000 rublos depositados em nome de Tâmara com o banqueiro Arustein.
Como aquela importância não poderia ainda ser retirada, Nicolai Wladimirovitch me garantiu uma renda anual de 3.000 rublos, até que eu pudesse entrar na posse do capital.
Estava certo de desposar uma jovem em condições de prover com seu próprio dinheiro os hábitos dispendiosos segundo os quais foi criada.
Meus recursos pessoais não me permitem sustentar uma família.
Não faço do casamento uma especulação; contento-me com um dote que garanta a manutenção da minha mulher, mas não posso tomá-la sob minha inteira responsabilidade e, a despeito de toda a minha afeição por Tâmara, tenho que renunciar a ela.
O Almirante ficou rubro e fixou sobre o jovem oficial um olhar de indisfarçável desprezo.
— Sua decisão é digna do senhor.
O senhor quer casar-se com uma mulher que tenha recursos para viver sem ser uma carga para seu marido, que tenha do que o alimentar, talvez?
Esse é o ponto culminante da afeição da qual o senhor é capaz...
Ainda uma vez, eu o felicito e admiro!
— Almirante, com que direito o senhor me dirige tais palavras? — exclamou Anatole com as faces em fogo.
Considero impecável minha conduta.
Obedeci, com minha escolha, apenas a voz do coração, mas condenar-me a mil privações, casando-me com uma mulher sem um tostão e habituada ao luxo, não posso.
De que maneira, além disso, poderia fazer minhas economias?
Cortando a cerveja e a graxa para as minhas botas?
Isso não seria suficiente nem para as luvas de Tâmara — acrescentou ele cinicamente.
Para evitar, assim, comentários supérfluos, já tomei minhas providências para ser transferido para o Cáucaso e, ao retornar do enterro, eu mesmo falarei com Tâmara Nicolaevna e lhe explicarei as razões de força maior que me impõem tal decisão.
— O senhor terá coragem de expor-lhe todas as suas miseráveis especulações?
Da sua parte, aliás, nada me surpreende mais — retrucou o Almirante com desdém.
Por que, então, esse fingimento da sua presença aqui hoje e o incómodo tão inútil de uma mudança de residência?
Nossa excelente sociedade prova hoje, pela sua ausência, o que vale e, sem dúvida, aprovará suas louváveis e práticas decisões.
Anatole replicou e continuou por algum tempo ainda a perorar, mas como não obteve mais nenhum comentário do Almirante, que lhe virara as costas, acabou calando-se.
Durante a última cerimónia fúnebre, o Almirante conseguiu transmitir sucintamente à Baronesa o que acabava de acontecer e pedir-lhe que preparasse a moça para este novo golpe da sorte.
Dessa maneira, de regresso do enterro, logo que as duas senhoras se encontraram a sós na carruagem, Madame Raban, com todos os cuidados que lhe inspirava sua afeição, informou a Tâmara da traição de seu noivo, implorando-lhe para ser forte e restituir a liberdade àquele homem indigno de um pesar.
Sem responder, Tâmara recostou-se às almofadas do veículo.
Uma tempestade rugia em sua alma orgulhosa.
Sem dúvida que estava desencantada em relação a Anatole e sua falta de coragem no momento da catástrofe havia já arrefecido seus sentimentos por ele.
No entanto, a convicção de que sua pessoa não tinha nenhum valor aos olhos do homem que tantas vezes lhe jurara amor e fidelidade, e que somente a aceitava como um acessório à sua própria fortuna; a convicção de que ela havia sido uma tola ingénua, acreditando-se amada, inspirava-lhe súbita cólera.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 10, 2016 8:53 pm

Por coisa alguma no mundo ela permitiria que o covarde que procurava desfazer-se dela percebesse a dor e a amargura daquela hora de decepção.
O sangue orgulhoso e rebelde de sua mãe fervia nela, despertando em seu coração uma estranha e gelada crueldade, mesmo contra ela própria.
Algo se perdera nela; a Tâmara que havia sido até aquele dia parecia ter-se desvanecido, fundida num passado longínquo.
Triste e ansiosa, a Baronesa observava a mudança que, pouco a pouco, se operava no rosto móvel da moça, o traço duro e amargo em seus lábios fortemente contraídos, a nuvem sombria que se estendera sobre seus olhos, outrora tão sorridentes.
Instintivamente, Vera Petrovna sentiu que Tâmara estava dando combate e destruindo todas as suas fraquezas e que dessa luta silenciosa surgiria um novo ser.
Quando a carruagem estacou, a Baronesa tomou a mão da moça e murmurou algo inquieta:
— Não se deixe abater, minha querida. Seja forte.
Um pálido sorriso perpassou pelos lábios de Tâmara.
— Não tenha receio, Vera Petrovna.
Eu sou forte e a essa covardia oporei apenas o meu desprezo.
Obrigada por me haver prevenido.
O Almirante e Tarussoff não haviam trocado uma só palavra durante todo o trajecto de volta.
Ainda em silêncio, subiram todos a escadaria, mas quando retiraram os agasalhos, Anatole, com voz incerta, pediu à noiva que lhe concedesse alguns momentos.
A moça fez um sinal de assentimento e o conduziu, sem dizer palavra, até o pequeno salão, onde, dois dias antes, ele lhe prodigalizara tantas juras de amor.
— O senhor pode falar — disse ela, designando-lhe uma cadeira, mas permanecendo ela própria de pé.
Foi-lhe impossível tratá-lo com o você familiar.
— Querida Tâmara, não interprete minhas palavras como falta de amor — começou Anatole com hesitação.
Juro que sofro infinitamente pelo que devo dizer-lhe, mas, minha posição...
Se eu fosse rico...
Interrompeu-se e fitou o olhar da moça que, gelado e afiado, parecia ler até às profundezas de sua alma.
Silenciosa, ela esperava, sem dizer palavra, a sua covarde declaração.
Ela queria saber com precisão em que termos ele iria desembaraçar-se dela.
Sob o peso daquele lúcido olhar e do silêncio, cuja intenção ele percebia, Anatole se perturbava cada vez mais, entremeando frases incoerentes e palavras desordenadas.
Por fim, irritado e levado aos limites, quase que gritando, falou:
— Nosso casamento não pode mais ser realizado — não tenho recursos para sustentar uma mulher e, a despeito de todo o meu amor, devo renunciar a você.
— Basta de palavras, senhor, e por favor deixe de profanar a palavra amor, aplicando-a à transacção comercial que o senhor negociou com meu pai — disse Tâmara.
E sem parecer notar o espanto de Anatole, que estremecera ao ouvir aquele tom metálico tão diferente na voz outrora harmoniosa, ela continuou;
— Eu mesma, senhor Tarussoff, desejava dizer-lhe que um casamento entre nós é impossível, por causa dos imprevistos ocorridos.
Não posso e não quero abandonar meu pai doente e as crianças.
Esperava apenas conseguir desembaraçar-me um pouco deste caos de providências, para falar-lhe, sem imaginar que o senhor tinha tamanha pressa em livrar-se de uma noiva que empobreceu.
Lamento vivamente não ter ainda ontem restituído sua liberdade e posto fim aos seus temores.
Tirando de seu dedo o anel de noivado, colocou-o diante de Anatole.
— O senhor está livre, meu senhor.
Desejo-lhe boa viagem, melhor sorte e escolha mais segura por ocasião de seu próximo noivado.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 10, 2016 8:53 pm

Estupefacto, Anatole fixou o rosto de arrebatadora beleza, sobre o qual somente uma palidez diferente traía o sofrimento íntimo, e, subitamente, um pungente pesar cresceu em seu coração frívolo e ressequido.
— Tâmara, não diga palavras tão duras.
Separemo-nos como amigos — exclamou ele, estendendo-lhe a mão.
Quem sabe o futuro não nos proporcionará ainda uma oportunidade mais favorável?
A moça recuou como se diante de um réptil pronto a atacá-la.
Um orgulho inabordável mostrava-se em seus lábios, quando respondeu:
— Meu senhor, não temos mais nada a dizer-nos.
Os presentes que o senhor me fez lhe serão restituídos hoje mesmo.
E agora não o retenho mais.
Tenho muito que fazer.
Sob o olhar flamejante e hostil que o mirava, Anatole estacou indeciso.
Acabara de compreender que se algum dia Tâmara o amara, tal sentimento havia sido substituído por indizível desprezo.
O vermelho ardente da vergonha subiu ao seu rosto.
De cabeça baixa, ele se virou e retirou-se.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 10, 2016 8:53 pm

Solidão e morte

Por alguns momentos, Tâmara ficou ali a contemplar a porta que acabava de fechar-se; em seguida, virou-se e dirigiu-se lentamente ao seu quarto, onde se encerrou.
Esgotada, deixou-se cair sobre uma cadeira e cobriu a rosto com as mãos:
tamanho era o caos de pensamentos e emoções que se agitava nela, que lhe era impossível formular uma ideia clara — tudo se fundia em um sofrimento inominável que triturava o seu ser.
Naquele instante, a morte lhe teria sido um benefício e, de repente, ela entendeu o desespero sem saída que havia levado Lúcia à sua decisão fatal.
De novo, por uma estranha reacção, o rosto calmo e pálido de Magnus desenhou-se ante seu espírito.
— O suicídio é o recurso dos covardes; é preciso mais coragem para viver do que para morrer — parecia-lhe dizer aquele irmão em sofrimento, que encontrara força de vencer a desgraça.
Lágrimas amargas começaram a filtrar-se entre seus dedos e soluços estrangulados sacudiam-lhe o peito oprimido.
Subitamente, um ruído seguido da queda de um objecto fê-la estremecer e levantar a cabeça:
um grande medalhão contendo uma miniatura de sua mãe, suspenso por um cadarço junto às imagens dos santos, acabava de desprender-se e tombar no chão.
“Seria aquilo uma advertência que minha mãe me transmite, lembrando-me de que é na prece que devo procurar socorro e apoio?
Mas serei capaz de orar num momento de aflição, quando todo o meu ser se rebela, ou terei perdido a fé e a confiança ao contemplar os abismos do coração humano?“
Como um relâmpago todos esses pensamentos atravessaram o cérebro de Tâmara, enquanto ela apanhou a miniatura e a levou aos lábios abrasados:
“Mãe querida, se você presencia meu sofrimento, assiste-me e me aconselha“.
“Ore; da prece você obterá a calma e a resignação“ — parecia murmurar ao seu ouvido uma voz harmoniosa e bem conhecida.
Com um passo incerto ela se dirigiu ao canto onde se encontravam as imagens e, caindo de joelhos, juntou as mãos em muda súplica, mas em vão seu olhar obscurecido levantou-se para as severas cabeças bizantinas que a fitavam, rígidas sob suas auréolas de pedrarias — seu pensamento embrutecido não conseguia formular nenhuma prece.
O mesmo sussurro melodioso elevou-se novamente junto ao seu ouvido.
— Pai Nosso que estais no céu, seja feita a vossa vontade — dizia a voz — e dai-me forças para cumprir o que me cabe, tal como me está sendo imposto e não como eu o desejaria.
Com os lábios trémulas, Tâmara repetiu tais palavras.
Em seguida, tomada de estranha fraqueza, apoiou-se à parede e fechou os olhos.
Uma brisa refrescante parecia perpassar sobre sua testa fervente, acariciar seus cabelos e espalhar-se como uma corrente tépida e renovadora sobre todo o seu corpo.
Alguns minutos se passaram assim.
Em seguida, ela endireitou-se.
Seu olhar havia readquirido a claridade habitual, o desfalecimento moral cedera lugar a uma calma resignação.
Ela aproximou-se da mesa de trabalho, desejando sentar-se e repousar um pouco, quando seus olhos deram com um caderno aberto no meio da mesa.
Como não se lembrava de havê-lo posto ali, inclinou-se e leu admirada uma comunicação mediúnica recebida há algum tempo por Eveline Ericsson e que ela havia copiado.
“Retoma a coragem“ — dizia o escrito.
“Por mais cruel que seja o sofrimento, ele dura apenas um instante, como tudo na vida.
A dor, como a alegria, passa sem deixar sinais.
O tempo apaga até a lembrança delas.
Rápido como a nuvem que foge ao vento, assim se passa a nossa vida, sonho confuso do qual a morte é o despertar, mas cuja lembrança se inscreve nos arquivos infinitos do destino humano, degraus por onde a alma escala a perfeição“.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 10, 2016 8:53 pm

Essas palavras, tão maravilhosamente apropriadas à sua situação, produziram em Tâmara profunda impressão.
Mais forte e ainda mais decidida, ela empertigou-se, fechou o caderno e levantou-se para banhar com água fria o rosto afogueado.
Em seguida, tomou o copo de leite depositado sobre, a mesa desde a manhã e tocou a campainha chamando Fanny.
Segundo ordens que lhe foram dadas, a camareira reuniu em um só volume todos os presentes que ela recebera de Tarussoff e, mandando chamar um lacaio, ordenou-lhe que levasse o pacote imediatamente à residência do oficial.
Concluída a tarefa, Tâmara passou ao quarto de seu pai.
O doente cochilava, mas a enfermeira lhe disse em voz baixa que a Baronesa, não podendo esperar mais, regressara à sua casa, prometendo voltar no dia seguinte.
No gabinete de Ardatov, o Almirante sentara-se à escrivaninha da qual três gavetas estavam abertas.
Preocupado e de cenhos contraídos, ele estava lendo e classificando cartas e papéis.
Sergei Ivanovitch concentrara-se de tal maneira no trabalho, que nem percebeu a entrada da afilhada.
Somente quando ela pousou a mão em seu ombro, ele levantou a cabeça e fitou-a surpreendido.
Esperava ver Tâmara toda debulhada em lágrimas, incapaz de falar razoavelmente e, no entanto, seu olhar calmo e lúcido o desconcertou.
— Você já falou com Anatole Pavlovitch? — perguntou ele.
— Sim. Tudo está terminado entre nós.
Nenhuma obrigação me impede de cuidar exclusivamente dos nossos problemas.
Papai dorme e, por isso, vim ajudar você, padrinho, se você me permite, a botar ordem nesses papéis.
Antes de tomar nossas decisões, é preciso saber, com precisão, que débitos pesam sobre nós.
Com sincera admiração, o excelente homem atraiu a si a moça e a beijou na testa.
— Você é uma menina digna e corajosa.
O Senhor não a abandonará.
Esperava-a em lágrimas, mas desde que você está calma e forte, ajude-me.
Há muito que arrumar aqui e, quanto antes, melhor.
Um desdenhoso sorriso passou rápido pelos lábios de Tâmara.
— Lágrimas, “tio*’ Sergei? Não.
As lágrimas são o suor do coração.
Guardo-as para algo mais digno delas do que aquele mesquinho especulador.
E, agora, mãos à obra!
Até noite fechada, o Almirante e sua companheira ocuparam-se de ler, classificar e triar os documentos acumulados na escrivaninha em muitas pastas.
Grande parte das cartas era de cobrança, dos mais diferentes fornecedores, sobretudo casas de modas.
Havia certa quantidade de promissórias e uma longa série de dívidas particulares contraídas por Lúcia.
Depois de tudo revisto e somado, Tâmara perguntou preocupada:
— Você acha, “tio” Sergei, que a venda dos móveis, da prataria e de tudo o mais será suficiente para cobrir essas dívidas?
Talvez possamos arrancar à liquidação dos negócios de Arustein algum resíduo da nossa fortuna.
O Almirante sacudiu a cabeça.
— Não se salvará ali nem um kopeck.5
Todos os nossos recursos se encontram aqui, mas espero que a venda dos objectos de maior valor e, sobretudo, a prataria e os diamantes produza até mesmo um excedente bastante considerável, a fim de poupar você de qualquer dificuldade maior durante um ano ou dois, vivendo modestamente, é verdade.
Até lá, veremos o que fazer.
— Sem dúvida, é preciso procurar uma casa pequena, na qual seja assegurado, porém, o conforto do doente.
Vamos também despedir os empregados supérfluos.
Mas quando faremos essa venda e como?
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 10, 2016 8:53 pm

— Temos que vender em leilão o que for mais vantajoso e isso dentro de oito dias, uma vez que, por um feliz acaso, o contrato da mansão expira a l.° de março e estamos a 18 de fevereiro.
Além disso, tenho uma ideia:
amanhã, após tomar algumas informações, falarei com você.
Agora, minha filha, vai dormir.
Trabalhamos bastante hoje e você precisa de forças.
O dia seguinte pareceu muito longo a Tâmara.
Somente ali pelas seis horas da tarde chegou o Almirante, cansadíssimo, mas visivelmente satisfeito.
— Venho propor-lhe algo que me parece cómodo e vantajoso — disse ele logo que se sentaram no gabinete.
O médico me disse que o ar puro do campo é indispensável ao seu pai.
Pois bem! conheço um negociante que possui, saindo pela porta de Narva, no caminho para Ligovo, uma sólida e confortável casa de campo.
Sua família residia ali uma grande parte do ano, porque ela fica perto da cidade, mas depois que ele comprou uma vila, em Oranianbone, resolveu alugar a outra.
Hoje, pela manhã, fui, portanto, à casa do velho Nazarov e visitei, com ele, a casa.
Ela é quente e sólida e tem boas lareiras, janelas duplas e seis quartos.
No verão será muito agradável, pois tem uma varanda e um grande jardim.
O aluguel é de 300 rublos por ano, sem os móveis, bem entendido, mas se você resolver ir morar lá, acho que podemos transportar para ali os móveis da casa de campo de vocês em Peterhof, bem como os objectos que você conservar.
— Estou perfeitamente de acordo com você e peço-lhe, “tio” Sergei, que conclua o negócio com esse senhor.
Já amanhã enviarei Charlotte a Peterhof a fim de tomar providências para a mudança.
— Não. Espera um pouco ainda.
Serão necessários dois dias para fazer uma limpeza na casa, atapetar novamente uma parte dos quartos, calafetar cuidadosamente portas e janelas, enfim, deixar tudo em ordem.
Mas vou escrever imediatamente a Nazarov para dizer-lhe quê alugo a mansão e pedir-lhe que mande logo os operários,
— Enquanto esperamos, prepararemos tudo para a venda, faremos as listas e o resto.
— Sim, minha filha, mas assim que a casa estiver pronta, levaremos o doente e as crianças e, então, poderemos dar continuidade aos últimos preparativos para a venda.
— Mais uma coisa, padrinho:
temos lá onde comprar provisões, medicamentos, etc.?
— Há uma casa de negócio não muito longe.
Por outro lado, a condução que vai até a fábrica de Putilov passa em frente à casa.
Portanto, Charlotte poderá ir à cidade com toda a facilidade.
Além do mais, conto ir visitar vocês com muita frequência e levarei o que lhes faltar.
— Tenho a intenção de dispensar todos no dia do leilão.
Charlotte e Fanny irão embora logo que estivermos instalados lá.
Ficarei com uma única empregada.
— £ indispensável conservar um homem para cuidar de seu pai.
Quanto ao resto, teremos oportunidade de falar mais tarde.
Agora, vai buscar as jóias de sua mãe.
Quero mandar fazer uma avaliação por um joalheiro de confiança.
Após a partida do Almirante, Tâmara voltou ao seu quarto e chamou Fanny.
Em poucas palavras, explicou à jovem camareira quanto às decisões tomadas e acrescentou para terminar:
— Não fique triste, minha boa Fanny, de ser obrigada a deixar-me.
Pagarei as despesas de sua volta a Estocolmo e lhe darei uma carta de recomendação para Madame Ericsson, onde você encontrará um bom lugar para ficar.
Contudo, somente liberarei você quando estivermos todos acomodados na casa de campo, pois precisaremos de você nesta mudança.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 10, 2016 8:54 pm

Ora pálida, ora rubra, Fanny ouvira sua jovem patroa.
De repente, desfez-se em lágrimas e, caindo de joelhos diante de Tâmara, cobriu as mãos da moça de beijos.
— Senhorita, não me despeça — murmurou com a voz entrecortada de soluços.
Que diria minha mãe da minha ingratidão?
E eu a amo tanto, minha benfeitora, a senhora que me salvou da miséria e da desonra, que nos desafogou!
E agora que a desgraça a atinge, a senhora quer ficar com uma mulher comum que não saberá servi-la?
Suplico-lhe, fique comigo:
a senhora acha que não sei fazer de tudo?
Sou capaz de preparar um jantar tão bem quanto outra qualquer e lhe servirei fielmente.
Profundamente comovida, Tâmara pousou a mão sobre a cabeça pendida da moça.
— Minha boa Fanny.
Está bem, não a mando embora.
Se você quer ficar connosco na desgraça, sua fidelidade me faz feliz, pois reconheço que ter junto de mim uma mulher estranha me seria bem penoso.
Muito feliz, Fanny levantou-se de um salto:
— Muito obrigada, muito obrigada...
A senhorita vai ver como vamos nos arranjar bem!
Só tem que ordenar o que devo fazer.
A moça explicou-lhe, então, que era necessário levantar um inventário detalhado de tudo quanto houvesse nos guarda-roupas, roupas de cama, etc. e preparar para venda aquilo que não fossem conservar com eles.
Em seguida, mandou chamar Charlotte, a governanta, para transmitir-lhe suas ordens.
Charlotte Malengreen era uma mulher de cinquenta anos, saudável e jovial, a despeito de ligeiramente gordinha, tão alerta e activa que não lhe dariam mais do que quarenta anos.
Há vinte e quatro anos servia à casa de Ardatov, para a qual fora trazida pela primeira esposa de seu patrão.
Após a morte de Swanhild e o segundo casamento de Nicolai Wladimirovitch, ela havia pensado em partir, mas o hábito e sua afeição pela filha da patroa levaram-na a desistir do projecto e mesmo Lúcia havia apreciado e desejado conservar a activa governanta, cuja probidade exemplar e bom carácter tornavam-na duplamente valiosa.
Sempre vestida de escuro, um avental e uma touca de brancura impecável, o molho de chaves à cintura, ela estava em toda a parte, vigiando severamente os interesses de seus patrões, impedindo e denunciando implacavelmente a menor malversação.
Ao ser informada de que a despediam, que tudo na casa seria leiloado e que todos aqueles objectos que ela amava como seus seriam dispersados aos quatro ventos, o rosto redondo e rosado da boa mulher cobriu-se de uma palidez cadavérica.
Esquecida de todo o respeito, deixou-se cair sobre, uma cadeira.
— Ah! por que tinha eu que viver para ver uma coisa tão horrível após vinte e quatro anos? — disse ela e, cobrindo o rosto com o avental, explodiu em soluços.
— Minha boa Charlotte, não chore.
Você acha que é fácil para mim suportar uma desgraça dessas? — disse Tâmara profundamente comovida.
E, depois, não tenha receio de ficar desempregada.
A Baronesa de Raban certamente encontrará para você uma boa colocação.
A governanta levantou bruscamente a cabeça.
— Uma posição? — fez ela desdenhosamente.
Espero que, após vinte e quatro anos de serviço, a senhora não vá me expulsar, senhorita Tâmara, mas me autorize a repousar em sua casa.
— Meus recursos não me permitiriam remunerá-la, Charlotte, ainda que eu desejasse conservar você comigo, tanto quanto Fanny, que não quer me deixar.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 10, 2016 8:54 pm

— Mas não há problema algum de salário.
Eu estou pedindo à senhora que me deixe repousar em sua casa!
Tenho necessidade de um lugar para ficar e, graças a Deus, consegui realizar minhas economias!
Só que, como não posso viver sem alguma ocupação, cuidarei da cozinha.
Cozinhar para quatro pessoas é uma brincadeira que não vale nem a pena falar.
Além do mais, terei a alegria de ficar com os meus patrões.
Foi a sua mãe, que está no céu, que me trouxe para aqui há vinte e quatro anos, e quando a senhora nasceu, senhorita Tâmara, fui eu a primeira que a tomei nos braços, mesmo antes de seu pai.
Como poderia partir agora, deixando-a na tristeza com um doente em casa que mais precisa agora de uma refeição bem preparada?
Lágrimas ardentes correram sobre as faces de Tâmara.
— Minha querida Charlotte, como poderia eu rejeitar a sua fidelidade, a afeição que você me testemunha neste momento penoso?
E se você não teme partilhar da nossa pobreza, está bera, ficarei muito feliz em ter junto de mim dois corações fiéis no exílio para onde vamos.
— Temor? Não, fico feliz em ficar com os meus bons patrões a quem amo.
E não chore, minha querida Senhorita Tâmara, a velha Charlotte suportará tudo com a criança que embalou ao colo.
Sinto que Deus conduzirá tudo para o que for melhor.
Ela queria beijar a mão da moça, mas esta atraiu-a para si e a abraçou.
— Ficaremos juntas, então.
Mas agora, minha cara Charlotte, precisamos cuidar do que temos a fazer.
Amanhã pela manhã, reúna toda a prataria, as porcelanas, os cristais, tudo.
É preciso vender tudo, conservando apenas o que nos for indispensável.
A estas palavras, o rosto da governanta voltou a toldar-se.
— Sim, se ainda tivéssemos a prataria!
Mesmo a da sua falecida mãe, isto é, a sua, foi vendida e substituída por prata folheada.
E isso não dará bom preço.
Tâmara empalideceu.
Ela estava contando certo com a prataria.
— Quando foi feito isso? — perguntou ela.
— Sem nenhuma razão especial.
O senhor e a senhora decidiram que era preciso vender e eis tudo.
— Nada há, portanto, a fazer quanto a isso.
Só lhe peço, Charlotte, escolher e separar para nós o que for indispensável a uma pequena casa, no que diz respeito a talheres, toalhas de mesa, bateria de cozinha, etc.
Esses objectos e outros que eu escolherei serão enviados por estes dias à casa de campo e, enquanto nos desfazemos dos cavalos e da pequena carreta, é preciso tirar tudo dos móveis e armários e fazer a lista para a venda.
Ficando sozinha, Tâmara meditou longamente.
Apesar da amargura do futuro que a aguardava, sentia-se calma.
A fidelidade de Fanny e Charlotte lhe havia feito um bem enorme.
Sua boa acção foi logo recompensada. e como aquelas duas pobres servidoras, na simplicidade de seus corações amorosos e devotados, eram superiores aos supostos amigos de sua sociedade, e àquele noivo traiçoeiro que tão rapidamente tivera que desfazer-se dela!
Desgostosa, ela mudou o rumo dos pensamentos.
No dia seguinte, todos estavam de pé logo cedo e uma actividade febril reinava em toda a casa.
Enquanto Charlotte ocupava-se da cozinha, Tâmara, ajudada por Fanny e a camareira de Lúcia, deu início ao inventário dos guarda-roupas.
Verdadeiro pavor tomou conta dela quando viu sair dos vastos armários verdadeiras montanhas de roupas.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 10, 2016 8:54 pm

Compreendeu que uma fortuna fora aplicada naqueles inúmeros vestidos e roupas de baile, usados uma só vez, bem como em casaquinhos e lenços decorados, rendas e flores a perder de conta.
Ali estavam a saúde e a vida de seu pai, seu próprio futuro e o das crianças, sacrificadas àqueles farrapos coloridos que mal haviam sido usados, em sua maior parte!
Tâmara escolheu naquele amontoado alguns vestidos de seda e lã, chapéus e mantos que distribuiu a Charlotte, a Fanny e à camareira.
Em seguida, mandou separar para um lado, numa caixa, peças de tecidos ainda intactas, rendas e outras miudezas caríssimas e que serviriam a ela e às crianças, mas que, se oferecidas à venda, alcançariam preço vil.
Todo o restante foi contado e numerado para ser vendido.
Terminada a tarefa, a moça passou à biblioteca.
Ali se encontrava o que mais lamentou.
Tencionava conservar pelo menos as obras mais interessantes e solicitou a Fanny que lhe fosse trazendo os livros em cestas para fazer a escolha e, em seguida, organizar o catálogo.
Uma parede inteira estava ocupada por imenso armário de ébano, em estilo gótico, que continha a biblioteca particular de Lúcia.
Na parte da frente das estantes havia fileiras de volumes ricamente encadernados, obras ilustradas, na sua maioria, mas insignificantes.
Tâmara resolveu conservar apenas um dicionário enciclopédico.
Atrás desses volumes de exibição, contudo, ela encontrou uma quantidade enorme de brochuras amontoadas, consideravelmente desfeitas e que, evidentemente, haviam sido lidas activamente, tanto quanto os primeiros permaneceram intactos.
Com crescente espanto, a moça leu os títulos e folheou os volumes multicoloridos.
Ficou chocada:
eram os nomes dos autores que Madame Ericsson havia indicado como perniciosos a qualquer mulher, que macularia sua alma e seus olhos como aquela leitura obscena:
literatura criminosa que, sob o pretexto do naturalismo, remexe toda a lama que se acumula no submundo da humanidade.
Ali estava uma literatura que expõe e justifica todos os vícios, pretendendo estudar psicologia e que não abandona seu leitor senão quando, desmoralizado e excitado nas suas paixões mais bestiais, envilecido em seu coração, ele se entrega, afinal, aos instintos, vegetando sem princípios, sem Deus e sem ideal.
Assim fora Lúcia, que se nutrira daquela literatura nefasta:
má esposa e mãe, desprovida de toda sustentação moral, perecera tão logo atingida na seu bem-estar egoísta.
Com desgosto, a moça atirou à cesta aqueles livros que a repugnavam e mandou jogá-los fora.
Durante os dias que se seguiram, Tâmara ficou de tal maneira absorvida pelos seus afazeres, que mal teve tempo de pensar.
Foi ainda calma que ela ficou sabendo, pelo Almirante, de nova decepção:
grande parte das pedras eram falsas, mas da parte de Lúcia, nada mais a espantava.
O vaivém dentro da casa era contínuo.
Charlotte, Fanny e Ivan, o empregado que fora conservado, desenvolviam a maior actividade.
No final da semana, Fanny, muito satisfeita, veio anunciar à sua jovem patroa que tudo estava pronto na nova residência e que podiam mudar-se para lá a qualquer momento.
Tâmara resolveu ir imediatamente conhecer a casa, antes de levar o doente, e, ao mesmo tempo, instalar ali as crianças, que estavam entristecidas e aturdidas no meio daquela desordem.
Olga, principalmente, ainda fraca e pálida após o terrível abalo nervoso que sofrera, tinha imperiosa necessidade de calma e repouso.
Mandou, pois, preparar a carruagem, colocar sobre o banco uma grande caixa com as roupas das crianças e, acompanhada destas, de Fanny e da babá de Jorge, que ficara por mais alguns dias, foi ver a sua futura residência.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 10, 2016 8:54 pm

Tâmara jamais visitara aquela parte dos arredores da cidade.
Contemplava cansada e com uma indizível tristeza a paisagem monótona, mais sombria ainda sob o lençol de neve, as casas cada vez mais pobres e desarranjadas, que se estendiam às margens das calçadas.
— Veja, senhorita!
É aqui! — exclamou Fanny apontando-lhe à esquerda um grande jardim cercado de uma grade.
Entre os arbustos desnudos via-se uma construção bastante ampla.
A carruagem dobrou pelo caminho estreito e estacionou ante um portal de colunas de madeira.
Com o coração apertado, Tâmara entrou com as crianças num pequeno vestíbulo, onde Ivan os ajudou a se livrarem dos agasalhos.
No mesmo instante surgiu Charlotte, que os levou a visitar a habitação.
Com agradável surpresa, a moça verificou que tudo era confortável e até mesmo elegante.
Os móveis trazidos de Peterhof não eram de pelúcia e cetim, sem dúvida, mas o salão, decorado com damasco de lã vermelha, com seus cortinados brancos, tinha bom aspecto, enquanto o quarto dela, decorado com um tecido cor de rosa, era encantador.
— Há quatro quartos lá em baixo e, aqui em cima, três, que arrumei para nós e para as crianças, para que eles não incomodem o doente — disse Charlotte.
Não está tudo bem arrumadinho?
Não falta nada, nem mesmo tapetes — acrescentou ela com orgulho.
Visitando a cozinha, em cujas prateleiras brilhavam como ouro as peças de cobre, Tâmara procurou saber se havia despensa ou um lugar qualquer para guardar as provisões.
— Sim, sem dúvida.
Há uma excelente despensa, da qual a chave já está comigo.
É aqui, no final do corredor, veja, há um cómodo maior que serve de despensa.
Está cheio como um ovo, pois já trouxe da cidade tudo o que restou de provisões e de vinho.
— Você trouxe tudo isso?
— Sem dúvida.
Não venderíamos farinha, sêmola, confeitos, conservas, salgados, etc.
Quanto aos vinhos, dos quais os lacaios começavam já a se apossar, aproveitando a confusão, impus a minha proibição e estão todos aqui.
Tâmara sorriu e seguiu a fiel governanta ao andar superior.
Ali também tudo estava alegre e agradável.
Com o coração menos oprimido, ela voltou ao primeiro piso.
Sem dúvida era bem simples e bem menor, comparada aos vastos e soberbos aposentos aos quais ela estava habituada.
Mas a casa de Madame Ericsson também era simples e como ela havia sido feliz e tranquila naquele lar modesto!
Assaltou-a verdadeiro desejo de já estar ali naquela casa a fim de repousar, longe do ruído e das pessoas, de tantos abalos morais, de tanto tumulto, desordem e canseira que prometia o horrível dia da venda.
— Agora, venha beber uma taça de chá quente e comer um pedaço de bolo que assei especialmente para comemorar a sua chegada — pediu Charlotte, levando a moça à sala de refeições, onde ardia um fogo vivo que iluminava com seu confortável clarão uma mesa coberta com uma toalha de deslumbrante brancura e elegantemente posta.
Para não desgostar a mulher, completamente absorvida pelas tarefas do novo lar e cujo olhar bondoso e jovial brilhava de entusiasmo e satisfação, Tâmara tomou alguns goles de chá e comeu, com algum esforço, um pedaço de bolo.
Repugnava-lhe qualquer tipo de alimento, mas as crianças, com a facilidade que lhes é própria de se sentirem bem em qualquer lugar onde exista alguma novidade, estavam no melhor bom humor.
Riam-se e tagarelavam, fazendo honras ao bolo de Charlotte.
— Já é tempo de ir-me embora — disse Tâmara, levantando-se.
Uma vez mais, muito obrigada, minha boa Charlotte.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 10, 2016 8:55 pm

Toma conta das crianças que deixo com você.
Amanhã, pela manhã, papai virá para aqui e depois de amanhã, à noite, espero poder vir também.
Levo Fanny comigo, pois precisarei dela.
Olga e Jorge, meus queridos, comportem-se bem.
Tâmara voltou à cidade menos abatida, mas uma nova preocupação a incomodava:
cumpria-lhe o penoso dever de prevenir seu pai.
Com o coração oprimido, ela se dirigiu ao quarto do doente e, sob um pretexto plausível, afastou a irmã de caridade.
Quando ficaram a sós, Tâmara, com todas as cautelas que lhe inspiravam seu amor filial, expôs-lhe as decisões tomadas por ela e pelo Almirante e a necessidade de deixar no dia seguinte a casa.
Um suspiro rouco foi toda a resposta de Ardatov.
— Pai querido, não se aborreça.
Uma vez todos juntos, seremos felizes em qualquer lugar — disse a moça, beijando-lhe ternamente a testa.
Sem dúvida, nossa nova habitação é menos rica do que esta, mas você encontrará condições de repouso lá.
Não terá mais esta luta diária, esta espada de Dâmocles,6 a ruína, sempre suspensa sobre sua cabeça.
Você terá uma vida tranquila e ninguém amaldiçoará você, pois todas as dívidas serão pagas e ainda nos restará o suficiente para viver tranquilamente.
Livre dessa inquietação, que perturbava o seu repouso e o seu sono, que embranqueceu antes do tempo os seus cabelos, você recuperará a saúde.
Somente agora compreendo seu estado de espírito, que me era inexplicável.
Lágrimas ferventes corriam pelo rosto de Ardatov.
— Sou indigno de uma filha como você, Tâmara — murmurou ele.
Pai sem consciência, dissipador miserável, sacrifiquei ao luxo desenfreado de uma pérfida mulher o futuro de meus filhos.
Preso agora ao leito, não posso nem mesmo ajudá-la.
Sobre você, pobre filha, cai o peso esmagador de minhas culpas...
A emoção cortou-lhe a palavra.
— Papai, não se acuse tanto!
Vive para mim e tudo estará bem.
Faço com a maior espontaneidade aquilo que posso!
Se você soubesse como é bom lá, como é tranquilo!
Já mandei as crianças para lá e a boa Charlotte, que não quer deixar-nos, toma conta deles.
De lágrimas nos olhos, ela inclinou-se e colocou a mão sobre a testa escaldante do doente.
— Você está com muita febre.
Será que estará em condições de ser levado à casa de campo amanhã?
— Sim, sim, quero sair daqui, quanto mais depressa melhor — exclamou o doente.
Em seguida, tomando bruscamente a mão de Tâmara, acrescentou com a voz entrecortada:
— Diga-me, onde está Lúcia?
Diga-me a verdade.
Sinto que ela está morta.
Com as suas próprias mãos criminosas que nos empurraram para o abismo, ela pôs fim à vida, não é?
— Ê verdade, pai, mas não a condene.
Cabe ao nosso Criador e Juiz supremo pedir conta de seus actos.
Para nós, a sua morte pode ter sido um alívio, porque ela não suportaria pacientemente a pobreza e só nos faria ainda mais infelizes.
No dia seguinte pela manhã, Ardatov, enrolado em mantas e cobertores, foi com todas as precauções, transportado na carruagem grande, onde uma espécie de leito havia sido improvisado para ele.
O Almirante e a irmã sentaram-se perto dele.
Impossível seria descrever o estado de espírito do doente, quando atravessou, para nunca mais voltar, a soleira daquela casa que tanto tempo lhe servira de morada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 10, 2016 8:55 pm

Só, abandonado pela turba de amigos e conhecidos que antes se comprimiam sob seu tecto hospitaleiro, partiu, como cadáver vivo, para extinguir-se na miséria e no esquecimento.
Essa desgraça ele próprio chamara sobre si, tudo sacrificando à mulher egoísta e ingrata que o explorara e traíra.
Com os olhos fechados, um inferno de raiva impotente no coração, jazia inerte sobre as almofadas.
O Almirante apertou-lhe a mão silenciosamente.
Com pesar e piedade lera, nos traços descompostos de seu desventurado amigo, os sentimentos que lhe dilaceravam a alma.
Após a partida do pai, Tâmara retomou o trabalho, completando as listas, classificando e arrumando os objectos amontoados no salão e nos quartos vizinhos para a venda do dia seguinte.
A vasta mansão apresentava agora um aspecto desolador e caótico:
as portas desprovidas dos cortinados, as janelas desnudas, as jardineiras vazias.
Os tapetes, enrolados, amontoavam-se a um canto como fardos, enquanto sobre mesas, consoles e estantes viam-se, desordenadamente, estátuas, vasos de alto preço, lustres, quadros, porcelanas, os mil e um objectos que haviam integrado o arranjo da luxuosa residência.
No meio daquele verdadeiro bazar, Tâmara, ainda mais pálida no seu vestido de luto, ia e vinha, dando ordens e tomando notas.
O ruído de um vestido de seda fez-lhe virar-se:
admirada, viu que era Nadina que, muito comovida, atirou-se ao seu pescoço.
Por um momento, as duas amigas permaneceram abraçadas em silêncio; em seguida, Madame Kulibine exclamou:
— Minha pobre Tâmara, onde você consegue forças para suportar tanta desgraça?
E como você mudou!
Diga-me, posso ajudá-la em alguma coisa?
— Obrigada, minha boa Nadina, pela sua visita, que me prova a sua afeição, mas tudo está pronto e não estou só:
meu padrinho me ajuda em tudo.
Quanto à força — sorriu tristemente — conseguimos retirá-la da própria desgraça e da necessidade de agir.
— Diga-me, é verdade o que se diz, que o seu casamento foi desfeito? — perguntou Nadina, algo hesitante.
— Sim, é verdade.
— Anatole Pavlovitch retractou-se? Que miserável!
— Meu Deus, o que ele fez é tão natural!
Tal como a maioria dos jovens actualmente ele considera o casamento como uma transacção comercial, uma associação de fundos disponíveis.
Quando uma das partes deixa de cumprir o que foi combinado, a outra se retira.
Isto é simples como dizer “Bom dia“, e se eu fui bastante ingénua para crer no amor, a culpa é só minha.
Mas deixemos isso de lado — uma expressão glacial passou pelos seus lábios.
De todas as perdas que sofri, a de Anatole Pavlovitch é a que menos me afecta:
vale a pena lamentar o que não se estima?
Nadina olhou-a fixamente, incrédula e perplexa.
Depois disso, conversou ainda alguns minutos e despediu-se, pois tinha uma visita indispensável a fazer.
Naquele mesmo dia, Madame Majarovski, amiga íntima de Lúcia Ardatov, celebrava seu aniversário natalício.
Era uma bela mulher, muito desinibida que, desdenhando escrúpulos supérfluos, aproveitava da vida tudo o que esta lhe pudesse oferecer de sedutor.
Sua beleza provocante proporcionava-lhe facilmente os triunfos que ela ambicionava, e apenas as orelhas, de um tamanho incrível, prestavam-se às troças e aos invejosos comentários das suas rivais.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 10, 2016 8:55 pm

O salão regurgitava de gente e a conversa, muito animada, girava exclusivamente em tomo do momentoso assunto — a ruína dos Ardatov.
— A culpa é dele mesmo e eu lhe predisse que tudo acabaria dessa maneira — dizia um velho General.
Ê preciso ser um doido para arriscar especulações tão ousadas e confiar cegamente num financista como Arustein.
— Quem, senão um homem assim, estaria pagando juros tão exorbitantes, e quem, honestamente, poderia enganar daquela maneira? — observou um jovem empregado do Ministério das Finanças.
Uma loucura, porém, arrasta outra.
Quando se permite o luxo de tal mansão, com aquelas carruagens e um padrão de vida principesco, sem ter os recursos necessários, o fim é sempre a mendicidade.
— E tudo por causa daquela princesa de bastidores, na qual havia transformado sua mulher que nos forçava a visitar — intercalou uma velha solteirona murcha e enfeitada, famosa pela sua língua maldosa.
O que aquela criatura gastava com roupa é inacreditável!
Mas, por mais que ela se enfeitasse, a actriz sempre se mostrava.
E quando se pensa que foi por uma mulher daquelas que ele atormentou até à morte a primeira esposa!
Esta, sim, era a mais arrebatadora e a mais virtuosa pessoa que jamais vi! — ajuntou ela elevando os olhos ao céu.
— Certamente! ela deve ser uma santa, uma vez que você lhe faz tal oração fúnebre, você que é tão severa com todos, Rosália Antonovna — retrucou uma senhorita de meia idade.
Mas, a propósito, vocês sabem que Tarussoff desmanchou o noivado?
Imagino só o desespero de Tâmara — ele é um homem tão belo!
— É uma boa lição para aquela presunçosa que sempre me foi antipática pela sua arrogância e seus ares de santinha hipócrita. — disse a dona da casa.
Agora terá que sujeitar-se a dar aulas, ser governanta ou dama de companhia.
Assim terá que perder a pose.
Mas onde está hoje Eitel Franzovitch?
Ele certamente conhece todas as circunstâncias do rompimento e também da morte de Lúcia que...
Ah! enfim, ali está o esperado.
Vamos saber de tudo.
Frisado, besuntado de cremes, perfumado, empoado, respirando, como sempre, uma satisfação beata, Pfauenberg saudava a dona da casa e distribuía apertos de mão com alguns presentes, caprichando finamente nas diversas saudações.
Estas iam desde a movimentação das largas costas flexíveis, que se curvavam respeitosamente ante os poderosos da terra, até o bom dia negligente que bastava para os seus iguais.
Enfim, ele se sentou, mas, sem responder às questões que o assaltavam, pediu permissão para fumar e, acendendo o cigarro, observou com um sorriso a impaciência do seu público.
— Vamos, não nos castigue, Eitel Franzovitch — exclamou Madame Majarovski.
Tenho certeza de que o senhor sabe de que maneira morreu Lúcia Ardatov.
Já ouvi vinte versões diferentes.
É verdade que ela se suicidou?
— Perfeitamente.
Ela pendurou-se ao travessão do leito.
— Que horror! Eis aí um género de morte que eu jamais escolheria.
A gente deve ficar horrivelmente desfigurada.
— Que quer a senhora?
A pobre mulher não teve tempo nem de escolher.
Tinha tantas dívidas na loja Louvre!.
Quando as contas de modistas e fornecedores começarem a dançar diante de seu espírito, ela não pensou noutra coisa senão subtrair-se às suas reclamações.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 10, 2016 8:55 pm

E além disso... — e uma maldosa zombaria vibrava na voz de Pfauenberg — B. não lhe foi certamente fiel.
Em suma, ela precisava morrer o mais depressa possível...
— Queria Deus Tâmara não faça o mesmo após a retirada precipitada de Tarussoff — observou um jovem oficial.
Sem dúvida, ele agiu bem e deve agradecer a Deus por não ter a falência ocorrido seis semanas mais tarde.
Seja como for, porém, sua posição é constrangedora.
— De modo algum.
Eu o vi hoje e ele me contou que esclareceu tudo energicamente, no mesmo dia do enterro, declarando que não mais se casaria.
E, cá entre nós, ela nunca foi bom partido para um homem como ele, e ele seria louco de assumir a responsabilidade de uma casa daquelas.
Sem dúvida, a moça me causou muita pena e minha entrevista com ela me deixou bastante impressionado.
Pfauenberg calou-se e pareceu mergulhar em melancólica meditação.
— O senhor esteve com ela?
Quando? O que lhe disse? — perguntaram várias vozes.
— Estou vindo directamente da casa de Ardatov.
Ela não é mais a sombra de si mesma.
De início, ela me agradeceu, em lágrimas, o facto de ter ido vê-la.
Depois falamos de Tarussoff.
Absolutamente desesperada, ela me suplicou para levar Anatole Pavlovitch de volta a ela, pois não poderá viver sem ele.
Fiquei muito abalado e prometi, para acalmá-la, fazer o que me pedia, mas tudo está irrevogavelmente encerrado.
Anatole não quer nem ouvir falar dela.
Ele requereu sua transferência e, enquanto espera, foi a Moscou, onde tem alguns parentes.
Após essas últimas palavras, a conversa generalizou-se.
Observações maldosas ou frases de hipócrita compaixão cruzaram- se, mas não se ouviu uma só expressão de sincero pesar pelo homem desventurado ou pela inocente moça, tão duramente atingida.
Cada um dos presentes se sentia com direito a criticar impiedosamente a vida, os actos, o passado de Ardatov e de sua família.
Ninguém lembrou-se dos favores que ele prestara, das horas agradáveis passadas em sua hospitaleira residência.
Ninguém pensou que precisamente o desejo de distraí-los e de os obsequiar havia contribuído largamente para aquela ruína que ora se censurava em Ardatov como um crime.
Ele tombara para nunca mais levantar-se; de nada mais servia agora, e a matilha feroz que saía à caça do prazer passava por ele, pisoteando-o.
A entrada de Madame Kulibine interrompeu a interessante palestra.
A moça estava tão visivelmente agitada, que a dona da casa desejou saber das razões da sua emoção.
— É verdade.
Estou abalada até o fundo da alma, mas como não estar?
Venho da casa de Tâmara! — exclamou a moça.
Um movimento de curiosidade foi prontamente suscitado na plateia.
— Sem dúvida, a pobre criatura despejou também sobre você suas lágrimas e sua súplica para conseguir sua reconciliação com Anatole Pavlovitch, não é? — perguntou Madame Majarovsky.
— É isso que a senhora acha?
Acabo de passar mais de uma hora com Tâmara e não vi uma só lágrima correr de seus olhos.
Ela suporta sua desgraça como um homem:
Calma e digna, ela própria dirige os preparativos para a venda de todos os haveres.
O pai e as crianças já foram levados para uma casa fora da cidade.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Tâmara é uma heroína.
Quando me referi a Anatole Pavlovitch, ela me respondeu com um olhar que me gelou o coração:
“E a gente lamenta o que despreza?”
Eu lhes digo que foi uma tragédia!
Apesar da ênfase cómica da última frase, vibrava nas palavras de Nadina um tom de tal sinceridade e admiração, que ninguém duvidou da autenticidade de seu relato.
Olhares maliciosos começaram logo a buscar Pfauenberg, mas ele já desaparecera, o que provocou discreto mais generalizado riso.
O excelente Eitel Franzovitch era conhecido como descarado mentiroso, mas ser assim apanhado em flagrante delito, era sempre algo terrível para aquele assíduo frequentador de salões, infatigável mensageiro de notícias, verdadeiras ou falsas, desde que pudesse com elas divertir à custa do próximo seu frívolo auditório.
Quando se acalmou a animação provocada pelo cómico incidente, várias senhoras decidiram fazer uma visita a Tâmara, para certificarem-se com seus próprios olhos de seu estado de espírito.
Dessa maneira, a moça, totalmente absorvida pelos seus afazeres, ficou grandemente surpresa ao verificar o grande número de pessoas que pedia para vê-la.
Ela mandou dizer-lhes que a desculpassem, mas que estava muito atarefada para receber quem quer que fosse.
Foi-lhe então enviada uma carta, na qual as tenazes visitantes declaravam que várias senhoras haviam decidido comparecer para comprar algo.
Revoltada por essa indelicadeza, pois ela compreendia que somente uma indiscreta curiosidade atraía aquelas mulheres, da qual nenhuma viera visitar o desventurado doente, Tâmara mandou responder que o leilão estava marcado para o dia seguinte, quando qualquer pessoa poderia apresentar-se para fazer suas compras.
A moça seguiu com olhar de desprezo as carruagens que se afastavam.
Ocorreu-lhe que aquelas senhoras desejavam apenas divertir-se com o efeito que sobre ela causara o abandono de seu noivo.
Apesar da cólera que fervia nela, experimentou naquele momento profunda satisfação:
nem uma fibra vibrava mais em seu coração pelo homem que havia amado.
O ferimento que ele lhe causara tornara-a insensível, por um orgulho desmensurado, muito próximo da crueldade.
Da mesma maneira que havia sido despreocupada e feliz com a agradável família dos Ericsson, como na casa paterna, onde vivia cercada de homenagens, aquele sentimento permanecera em estado latente, mas chegados os dias da desgraça, do abandono e do ultraje, ele se levantara, de repente, como um gigante, invadindo todo o seu ser.
Aquele orgulho desenfreado, duro até a crueldade, impregnara a alma da moça de uma energia quase viril.
Calma e decidida, ela assumira a direcção do lar em ruínas.
Todas as suas ordens revelavam uma lógica e uma clarividência acima de sua idade.
Em alguns dias, a menina indolente, sonhadora, indecisa, tomara-se uma mulher cheia de decisão e vontade.
Por isso, dominou logo a irritação provocada pela vinda intempestiva das suas antigas conhecidas e, retomando seus afazeres, acertou definitivamente as contas de todos os criados e os despediu.
Em seguida, havendo combinado com o Almirante algumas providências de última hora, este se retirou, prometendo vir logo cedo na manhã do dia seguinte.
Tâmara e Fanny ficaram a sós na vasta habitação.
A Baronesa bem que convidara a moça para ir passar com ela aquela noite penosa, mas ela recusara o convite, sentindo-se incapaz de fitar por enquanto o rosto de qualquer pessoa estranha.
Era já noite alta quando a moça e sua fiel camareira fecharam os últimos pacotes destinados à casa nova e os transportaram para o antigo quarto de dormir de Tâmara.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 10, 2016 8:56 pm

Alquebrada pelo cansaço físico e moral, esta mandou Fanny dormir num divã e acomodou-se, ela própria, numa poltrona profunda e confortável para passar a noite, mas o sono fugia obstinadamente de seus olhos.
Uma grande lâmpada coberta com abajur clareava vagamente o emaranhado de objectos diversos acumulados em torno dela, era desordem somente comparável aos pensamentos da moça.
Tudo, tudo estava, pois, terminado, desvanecera-se a existência de quietude, de ilusões, de felicidade.
Futuro, posição, fortuna, tudo escorria-lhe por entre os dedos e diante dela estendia-se como um abismo sem fundo um futuro de miséria, humilhação e sofrimento.
Um suspiro semelhante a um gemido escapou de seu peito e um tremor nervoso sacudiu suas pequenas mãos fortemente contraídas.
Tinha medo da vida, na qual começava a entrar e que lhe parecia uma via dolorosa, eriçada de cardos e espinhos:
“Deus todo-poderoso — murmurou ela com fervor — dá-me forças para suportar o que me impõe e de permanecer fiel ao meu dever“.
Naquele instante, apresentou-se claramente à sua lembrança um incidente fútil de seu passado junto aos Ericsson:
uma tarde, nos aposentos do avô, foram lidas umas páginas que descreviam as ruínas de Pompeia e havia ali menção ao esqueleto de um soldado romano encontrado na sua guarita, onde, fiel ao seu posto, sacrificara a vida ao dever.
Aos ouvintes extasiados ante a força moral daquele simples herói que nem a morte, nem a destruição que o cercava levaram-no a fugir, o velho sábio observou com voz grave e doce:
— Os arqueólogos modernos negam a veracidade desse facto, da mesma forma que se empenham em destruir historicamente os mais belos exemplos de abnegação e heroísmo que o passado nos legou.
Quanto a mim, eu creio, pois não são raros na antiguidade exemplos de simples guerreiros fiéis ao seu dever, a ponto de esquecerem-se de si mesmos e, mais que qualquer outra, nossa época, egoísta e utilitária, tem necessidade de tais exemplos sublimes para elevar-se moralmente.
Quantos homens poderíamos encontrar hoje que permanecem fiéis ao seu posto e ao seu dever, quando a desgraça os atinge?
— E eu me desespero, desanimo antes mesmo que comece a luta — pensou Tâmara singularmente acalmada ante essa recordação.
Não; que pelo menos para mim não fique perdida a lembrança de bravura legada à posteridade por tantos heróis anónimos!
Posso trabalhar, conseguir minha independência, desprezar os homens e seus favores.
E quando me sentir deprimida, hei-de me lembrar do soldado romano morto na sua guarita, tanto faz tenham-no encontrado ali realmente ou não.
No dia seguinte, às dez horas, chegaram o Almirante e, pouco depois, o Oficial de Justiça e o avaliador oficial.
Tâmara retirou-se para o seu antigo quarto de dormir, agora vazio e desnudo.
Uma velha poltrona carunchada, com o tecido desbotado, resto de algum aposento da criadagem, e que ela nunca vira, estava colocada junto à janela.
Pelo chão espalhavam-se os pacotes que Fanny deveria levar numa carruagem e, sobre uma mesa de madeira, estavam seu casaco, seu chapéu e uma vela num castiçal de folha de flandres.
Tomada de sombria agonia, a moça aproximou-se da janela e encostou a testa na vidraça.
Seguiu, a princípio com o olhar apático, o vaivém dos cocheiros e das carruagens.
Notou, a seguir, que numerosos fiacres estacionavam em frente à sua casa.
Vinham, em seguida, as viaturas de aluguel e, afinal, as carroças de transporte.
Ao mesmo tempo, um murmúrio de vozes e passos de numerosa turba alcançava seus ouvidos.
Respirando penosamente, Tâmara deixou a janela e, cobrindo o rosto com as mãos, deixou-se cair sobre a cadeira.
Tudo nela tremia e se revolvia e, contudo, com um ardor febril e inconsciente, ela procurava perceber o que se passava ali, naquela sala, onde se consumava a sua ruína.
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