Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 11, 2016 9:20 pm

Seus sentidos super-excitados pareciam ter adquirido extraordinária acuidade.
Ela ouvia, apesar da distância, que estava sendo avaliado um grupo de antiguidades.
Subitamente, estremeceu:
um golpe fraco, mas distinto, alcançara seu ouvido.
Era o anúncio de que mais um objecto acabava de passar a mãos estranhas e lhe parecia que aquele golpe se abatera sobre seu próprio coração para esmagá-lo.
Sacudida por um arrepio glacial, a moça tapou os ouvidos e apertou a cabeça contra o frio rebordo da janela:
parecia-lhe sufocar.
Tinha a impressão de que um véu negro turbilhonava diante dela com um surdo estrondo.
Em seguida, perdeu os sentidos.
Uma sensação de frio e a voz de Fanny, que gritava por ela desesperada, fizeram-na voltar a si.
Ao abrir os olhos, percebeu a criada toda desfeita em lágrimas, inundando de água de colónia seu rosto e suas mãos.
— Deus seja louvado, Senhorita! ei-la, enfim, de volta — exclamou Fanny com alegria.
Misericórdia! A senhora estava toda gelada; pensei que havia morrido e já ia chamar o Almirante.
Agora, beba, por favor, este copo de vinho. Isto vai reanimá-la.
Tâmara empertigou-se e bebeu maquinalmente.
Sentia-se triturada, a cabeça vazia e o lúgubre aspecto daquele quarto devastado e mal iluminado pela vela aumentava ainda mais sua opressão.
— Já terminou tudo? — perguntou ela.
— Tudo acabado, senhorita.
Estão entregando os objectos e a carruagem do Senhor Almirante está esperando na porta para levá-la.
Eu irei assim que fizer dois embrulhos de objectos que não foram vendidos e que levaremos para a casa nova.
Naquele instante, o Almirante entrou afogueado e visivelmente exausto, mas, ao primeiro olhar dirigido à sua afilhada, exclamou:
— Filha, que tem você?
Você confiou demais em suas forças.
Depressa, Fanny, vista-a.
É preciso partir, para que ela possa descansar.
Como num sonho, Tâmara deixou-se vestir e, apoiando-se no braço do padrinho, passou ao vestíbulo, onde a esperava um grupo de empregados despedidos na véspera que vinham dar o último adeus à jovem patroa.
Maquinalmente, ela procurou na bolsa, para retribuir-lhes a pequena manifestação, a tradicional gratificação, mas o Almirante, que a observava inquieto, apressou-se em tirar de seu próprio bolso uma nota, que entregou a um dos servidores para que a repartissem entre si.
Em seguida, desceu com Tâmara a escadaria.
Uma segunda gratificação foi depositada nas mãos do porteiro.
Estavam encerradas as formalidades da despedida e a portinhola da carruagem foi fechada.
A moça atirou um último olhar velado de lágrimas ao maciço portal iluminado e à habitação, onde vivera feliz.
Uma luz vacilante como um fogo fátuo passava naquele instante ao longo da imensa fila de janelas.
Era Fanny, sem dúvida, que a percorria toda.
Tâmara apoiou-se às almofadas da viatura.
Apesar de tudo, não esperava que aquela hora fosse tão penosa.
Levada rapidamente por dois cavalos de raça, a carruagem logo estacou diante da nova residência de Ardatov e foi com um sentimento de alívio e de bem estar que Tâmara entrou na pequena habitação aquecida e bem iluminada, onde Charlotte e as crianças receberam-na com grandes demonstrações de alegria.
— Aqui está algo para vocês — disse Sergei Ivanovitch, abraçando seus protegidos e entregando-lhes uma enorme caixa de bombons.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 11, 2016 9:21 pm

Enquanto as crianças se esmeravam em calorosos agradecimentos, Tâmara correu para o doente e, curvando-se sobre seu ouvido, murmurou:
— Tudo acabado, papai.
Não o deixarei mais.
A irmã de caridade retirou-se discretamente, quando o Almirante entrou.
— Muito bem, Nicolai, como se sente você? — perguntou apertando a mão de seu amigo.
— Muito bem, muito melhor do que mereço — respondeu o doente com voz fraca e o olhar de humilde reconhecimento fixado em Tâmara.
— Sim, ela é uma valente menina, da qual você pode orgulhar-se — respondeu Sergei Ivanovitch — mas você, minha filha, em lugar de ficar aqui a ouvir elogios, vai tomar um pouco de chá.
Mande trazer-me uma taça também, que vou tomar enquanto falo com seu pai.
Antes de partir, o Almirante entregou a Tâmara uma pasta de couro cheia de dinheiro em notas.
— Eis aqui os 1.800 rublos que restaram após o pagamento de todas as dívidas.
Guarda o dinheiro, minha querida, e em seguida vai repousar.
Você está precisando disso.
Depois de, amanhã trarei os recibos de quitação.
Declinando os agradecimentos da afilhada, o excelente homem apressou-se em partir e Tâmara, literalmente massacrada de corpo e alma, deixou-se conduzir ao leito pela sua fiel Fanny e logo adormeceu com um sono profundo como a morte.
Levantou-se tarde no dia seguinte.
Sentia-se fraca e inútil.
Queria velar pelo seu pai, mas a irmã de caridade informou-lhe que, segundo instruções do Almirante, ela ficaria ainda quinze dias.
Pediu-lhe a boa freira que ela permanecesse em completo repouso.
A moça retirou-se, então, para seu quarto e escreveu uma longa carta à sua maternal amiga, Madame Ericsson.
Havendo confiado ao seu coração fiel toda a extensa desgraça que se abatera sobre eles, todo o sofrimento e amargura que transbordavam de sua alma, sentiu-se algo aliviada.
“Agora, querida tia — escreveu ela — compreendo os objectivos da educação que você me proporcionou.
Seu coração afectuoso previa nossa ruína e não queria deixar-me desarmada para a vida.
Tratarei de me mostrar digna de suas lições, vou utilizar-me de meus conhecimentos e, pelo trabalho, restabelecerei o equilíbrio de meu espírito”.
Escreva-me logo, querida “tia” Eveline, dizendo se você está satisfeita comigo.
Tenho tanta necessidade do seu apoio!
E se a senhora realizar uma sessão, diga à mamãe que sou corajosa e que lhe peço para velar por nós e perdoar meu pai.
Ele é tão infeliz, e Deus já o puniu naquilo em que ele pecou”.
Pela manhã, alguns dias depois, a Baronesa veio, com o Almirante, visitar seus amigos.
Após conversarem com o doente, Tâmara levou Vera Petrovna a visitar a casa.
Introduzindo-a, em seguida, juntamente com seu padrinho, no salão, ela abordou o problema que mais a preocupava naquele momento, pedindo-lhes que lhe conseguissem um emprego, pois os modestos recursos de que dispunha não poderiam durar muito.
Os dois visitantes trocaram um olhar embaraçado.
— Mas, querida, que sabe você fazer? — perguntou, enfim, a Baronesa.
Leccionar é muito difícil e os trabalhos femininos, bordados, etc., são tão mal remunerados, que você se esgotará sem nenhum proveito.
— Não pensei nesse tipo de actividade — observou Tâmara com leve sorriso — mas posso trabalhar na redacção de textos, conheço a fundo quatro línguas:
francês, inglês, alemão e sueco e sou capaz de traduzir com facilidade artigos científicos e romances.
Além disso, vejam — disse ela, retirando de uma gaveta uma pequena sacola de cetim e um leque ornado com belíssima pintura — posso fazer objectos de luxo neste género para fábricas e lojas.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 11, 2016 9:21 pm

Enfim, um último recurso me resta:
sou uma pintora retratista e no inverno passado, em Estocolmo, ganhei uma medalha na exposição.
Mudos de espanto, a Baronesa e o Almirante ouviram tudo, e duvidando de seus próprios olhos, examinaram a sacola e o leque.
— Mas, minha filha, você é uma verdadeira artista — exclamou, afinal, Serguei Ivanovitch.
E porque você sorrateiramente escondeu seus talentos?
Pode mostrar-nos algum retrato que você tenha pintado?
Tâmara levou-os ao seu quarto e mostrou-lhes o retrato do pequeno Harald Ericsson.
— Mas é um quadro de mestre!
Que colorido! Que expressão! — exclamou a Baronesa, que entendia de arte.
Aquela cabeça de criança tem vida e, certamente, um talento desses vale ouro.
— Acho que poderei trabalhar no atelier de algum pintor, assim que papai estiver suficientemente recuperado para que eu possa deixá-lo, mas, para o momento, desejaria algo que eu pudesse fazer aqui mesmo em casa, a fim de poder cuidar dele.
Oito dias mais tarde o Almirante chegou radioso.
Uma fábrica de leques e objectos de luxo estava tão satisfeita com o trabalho de Tâmara, que concordou em adquirir tudo que ela pudesse produzir.
Dois dias depois chegou Vera Petrovna, não menos satisfeita.
Por intermédio de Magnus, havia conseguido para ela um trabalho de tradutora muito bem remunerado na redacção de uma revista mensal.
Trazia, também, uma saudação de parte do jovem e uma encantadora corbeille de flores raras que ele enviava a Tâmara, com a expressão de sua respeitosa simpatia.
A moça agradeceu calorosamente.
Desaparecia de seu coração um peso enorme ante a certeza de que poderia trabalhar.
Uma carta da Sra. Eveline, chegada no mesmo dia, acabou de consolar Tâmara e de torná-la quase feliz.
“Sofro com os seus sofrimentos, minha filha bem amada — escrevia Eveline — e, contudo, sinto-me feliz e orgulhosa ao ver que você suporta corajosamente a adversidade.
A força do seu espírito me prova que Deus me permitiu cumprir o mandato que sua falecida mãe me confiou, de fazê-la independente das pessoas e das circunstâncias.
Quanto às baixezas morais que se desvelaram diante de você, não se aflija, minha querida.
Assim é sempre a turba, cruel no seu egoísmo.
Não espere jamais dela qualquer nobreza de sentimentos, mas aprenda a escolher, entre aqueles que conhecer, os corações generosos e devotados como os de seu padrinho e da Baronesa.
Se eu não tivesse você sob a guarda desses dois nobres amigos, teria ido pessoalmente ajudá-la e sustentá-la”.
Um período de relativa calma começou ali, mais difícil, contudo, de suportar, pela sua monotonia angustiada, do que os trágicos acontecimentos que a superexcitação de todas as suas faculdades havia ajudado Tâmara a enfrentar.
Com ardor febril, ela se entregou ao trabalho e como a irmã de caridade partira, ela própria velava junto do pai.
Sentada atrás de uma cortina, pois nem sempre o doente aguentava a claridade, ela pintava ou escrevia, levantando-se apenas quando ele tinha necessidade de algo.
Somente pela madrugada ela acordava Fanny ou Charlotte, a fim de repousar por algumas horas.
Mais ainda do que essa vida extenuante, perturbava-lhe a contemplação de seu pai.
Ele percebia que mudos remorsos rugiam dentro dele.
Ele se extinguia a olhos vistos.
Cada vez que a campainha soava o doente estremecia e, com febril agitação, queria saber quem chegara.
Esperava ele que alguns daqueles que se diziam seus amigos viessem vê-lo?
O coração de Tâmara sangrava e um sentimento mais amargo e odioso contra o mundo, povoado de traidores e ingratos, invadia sua alma.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 11, 2016 9:21 pm

Certa vez, seu pai perguntou-lhe:
— Tâmara, Anatole nunca vem aqui.
Será que ele se mostrou tão covarde como os outros? Diga-me...
— Não, papai.
Fui eu mesma que rompi nosso compromisso.
Seria impossível deixar você doente e abandonar a todos, você e as crianças, em mãos estranhas.
Muito sentido com a minha decisão, Anatole Pavlovitch conseguiu uma transferência e deixou Petersburgo.
Ardatov não respondeu a não ser por um suspiro e virou a cabeça para o lado da parede.
Seu olhar dizia claramente que ele suspeitava da piedosa mentira de sua filha, que estava tentando esconder-lhe uma nova afronta.
O Almirante tomara-se visitante assíduo e sempre sua vinda era um raio de sol na triste habitação.
Ele brincava com as crianças, cumulando-as de brinquedos e guloseimas, encorajava sua afilhada e procurava distrair o doente.
Vendo que Tâmara confinava-se obstinadamente na casa, exigiu que ela saísse a passeio com ele e, quando o dia estava bonito, a levava na sua carruagem para dar uma volta pela cidade.
Com frequência encontravam velhos conhecidos, mas a moça, nessas oportunidades, escondia-se no fundo da carruagem.
— Por que você se esconde e não responde aos cumprimentos? — perguntou-lhe certa vez o Almirante em tom de ligeira censura.
— Você se engana, “tio” Sergei.
Ê a você que eles cumprimentam.
Essa gente aí tem medo de me reconhecer , de minha parte, não quero nada com eles.
Sergei Ivanovitch sacudiu a cabeça tristemente.
Percebia a odiosa hostilidade que, cada vez mais, estendia suas sombras sobre o espírito de Tâmara.
Veio a primavera e, em seguida, o verão, sem que melhorasse o estado de saúde do doente, como esperava o médico.
As crianças sentiam-se completamente felizes.
Brincavam o dia inteiro no belo jardim de alamedas à sombra, sob o vigilância de Fanny ou de Charlotte, que continuavam a servir seus patrões arruinados com zelo e devotamento.
A cadeira de rodas do doente era trazida para a varanda coberta com um toldo, ou para o pequeno pavilhão cercado de moitas de lilases e jasmins, e, sempre doce, paciente e infatigável, Tâmara não o deixava, procurando distraí-lo com o leitura ou a conversação, levando-o a esquecer, tanto quanto possível, a penosa realidade.
Sentia-se muito só agora, pois o Almirante ausentara-se por causa de seus afazeres profissionais e a Baronesa partira para uma pequena propriedade sua em Curlande e somente retomaria no início de setembro.
O coração da moça apertava-se de agonia quando contemplava o rosto descamado de seu pai, que parecia ter envelhecido trinta anos em poucos meses.
A crescente fraqueza dele a enchia de sinistros pressentimentos.
Ela não sabia que, vendo-a escrever e pintar tanto, Ardatov suspeitava da verdade, mas sua língua recusava-se a formular a pergunta difícil:
“Você está trabalhando por dinheiro?”
Essa era, contudo, convicção que devorava suas últimas forças.
Numa tarde chuvosa tiveram que ficar no quarto e Ardatov, que mantivera longo silêncio a pensar, perguntou subitamente:
— Minha escrivaninha não foi vendida, não é?
Parece que eu a vi no seu quarto.
— Não, caro papai, ela era tão sólida e tão cómoda com as suas numerosas gavetas e fechaduras de segurança, que resolvi conservá-la.
Bem, atrás da gaveta do meio há um compartimento secreto.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 11, 2016 9:21 pm

Se você me levar até lá, talvez eu possa abri-lo.
— Isso deixará você exausto.
Diga-me apenas como abrir esse compartimento e o que devo fazer para trazer aqui o que você quer.
Graças às indicações do pai, ela conseguiu logo abrir o compartimento secreto que continha apenas um maço de cartas que reconheceu como sendo de sua mãe e uma pasta de couro vermelho que lhe entregou.
O doente retirou um maço de papéis, que folheou com a mão válida e, em seguida, com um gesto fatigado, passou-os a Tâmara.
— Toma isto e prenda-os novamente, Tâmara.
Talvez você possa utilizar um ou outro desses documentos e reaver uma parte do dinheiro que eles representam.
É dinheiro que me pertence e não tenho a menor obrigação de dá-lo de presente a essas pessoas.
A moça tomou o maço de papéis com curiosidade e o examinou.
Eram documentos timbrados e cartas assinadas por pessoas que ela conhecia muito bem.
Havia um bilhete datado de três anos, subscrito por um amável oficial, grande amigo da família, que pedia 1.000 rublos emprestados para saldar uma dívida de jogo, ao mesmo tempo em que se desculpava por não ter resgatado ainda os 500 rublos anteriormente solicitados.
Uma segunda carta, da mesma pessoa, continha nova desculpa por estar ainda em atraso e, enfim, uma terceira, escrita seis semanas apenas antes da catástrofe, prometia, sob palavra de honra, pagar tudo no decorrer dos próximos dois meses.
Outro amigo pedia a Ardatov que o ajudasse na compra de uma casa.
Para um terceiro, ele tinha dado o seu aval e, como sempre acontece, pagou compromissos do outro.
Promissórias vencidas a longo tempo garantiam tais empréstimos.
Em uma palavra, Tâmara se convenceu de que a muita gente seu pai havia prestado serviço, que os havia ajudado desinteressadamente e que, na hora da desgraça, todos eles viraram-lhe apressadamente as costas, temendo, talvez, alguma cobrança.
Ela dobrou novamente os papéis com desgosto.
— Uma vez que você assim quer, papai, mostrarei isto a Sergei Ivanovitch e, para uma extrema necessidade, conservarei estas provas da baixeza das pessoas às quais você fez tantos favores, mas, francamente, garanto-lhe que prefiro trabalhar do que manter qualquer contacto com esses homens sem honra e sem probidade.
Quando o outono chegou com as suas chuvas intermináveis, os dias encobertos e sua umidade glacial, o estado do doente piorou visivelmente.
Já não se levantava mais, tinha períodos de inconsciência, acessos de sufocação e violentas dores internas.
O médico sacudia a cabeça e respondia com evasivas, mas ao Almirante declarara que o fim se aproximava.
Assim decorreu o mês de setembro.
O jardim desnudo e as geadas que, pela manhã, cobriam o campo com um lençol de gelo intensificaram a lúgubre impressão que oprimia Tâmara.
O Almirante vinha agora diariamente e a Baronesa era também visitante assídua, mas, devorada pela dor, pressentindo a separação próxima, a moça mal ousava deixar seu pai e passava todas as noites à sua cabeceira.
O dia 2 de outubro foi particularmente penoso.
O doente parecia sofrer muito, mas, mergulhado em pesada prostração, não via nem ouvia os que o cercavam.
O Almirante, impedido de comparecer por um compromisso inadiável, enviara um bilhete, anunciando que viria no dia seguinte pela manhã e passaria o dia em casa do amigo.
À tarde, Ardatov reabriu os olhos:
estava plenamente consciente, mas tomado de extrema fraqueza e devorado por surda inquietação.
Recusou toda espécie de alimento.
Mandou chamar Jorge e Olga, abraçou-os longamente e os abençoou.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 11, 2016 9:21 pm

Engolindo as lágrimas, Tâmara instalou-se junto do leito e Charlotte fez questão de velar com ela.
O doente recaiu no seu mutismo; depois pareceu dormir.
Nunca as horas haviam parecido tão longas à moça.
Aquela noite terrível, com seu silêncio lúgubre e a agonia inominável que a oprimia, teria fim?
Pelas três e meia da madrugada, ela dispensou Charlotte.
Seu pai parecia dormir profundamente e a fiel servidora tinha necessidade de repouso.
Ficando só, Tâmara tentou orar, enquanto, ansiosamente, prestava atenção à respiração fraca e desigual do doente.
Cerca de uma hora havia decorrido, quando Ardatov fez um movimento brusco e chamou com a voz enfraquecida: “Tâmara!”
— Você está sozinha? — perguntou-lhe quando a moça inclinou-se sobre ele.
É bom você chamar alguém, minha filha.
Não se sabe o que poderá acontecer...
Tenho uma estranha sensação.
Acabo de ver sua mãe — é a morte que se aproxima.
Ah, como é penoso morrer nestas condições em que estou.
Um gelado tremor sacudiu a moça e seu coração parecia haver parado, mas, procurando vencer essa fraqueza, ajoelhou- se e, apertando nas suas a mão do agonizante, disse:
— Querido papai.
Espero que Deus nos poupe esta cruel separação, mas, se essa for sua vontade, é preciso lembrar-se que a morte é uma libertação, o repouso após o sofrimento.
E se você viu mamãe, é porque ela veio buscá-lo e você não ficará só ao deixar a terra.
Nicolai Wladimirovitch virou com dificuldade a cabeça na direcção da filha.
— Você não teme a morte, Tâmara, porque nada tem a censurar a si mesma, mas eu tenho muitos pecados.
Fui um pai sem consciência, malbaratei o futuro de meus filhos, provoquei a desgraça deles e minha alma não encontrará paz diante do Senhor.
— Não, não. Não há queixa alguma de você, pai querido.
A prece e o amor assistirão você no tribunal supremo, pois nós, os únicos que poderíamos murmurar, o abençoamos e oramos por você.
Nesta hora solene, juro-lhe que não lamento a fortuna perdida.
Sou jovem e forte, mais ricamente bem dotada do que muitos outros, posso trabalhar e Deus há-de me ajudar a desempenhar a tarefa que me impõe.
Não pense na morte como uma temível inimiga, mas como anjo consolador.
Oremos juntos pelo seu alívio.
Quer que eu leia o Evangelho?
Ele fez um sinal de assentimento. Tâmara levantou-se, afastou o cortinado de lã, de forma que pudessem ser vistas as imagens dos santos iluminados por uma lâmpada e acendeu uma vela.
Colocando-se de forma que a luz não incomodasse o doente, ela leu para ele, com a voz alterada e entrecortada pelas lágrimas, alguns versículos do Evangelho.
Quando ela voltou a ajoelhar-se junto ao leito, viu que uma grande alteração se produzira no estado do doente.
Uma calma profunda e uma piedosa resignação sucederam à inquietação e aos sofrimentos morais que o torturavam.
Com inefável expressão de amor, olhou a filha bem amada, cujos lábios trémulos murmuravam palavras de consolo, de paz e de esperança em uma existência melhor.
Invocava ela a bênção celestial sobre aquele que se preparava para abandonar o envoltório terrestre a fim de regressar à pátria eterna e prestar contas de seus actos.
Sob esse olhar vivificante de reconhecimento e de amor, Tâmara sentiu estranha sensação de quietude invadir sua alma atormentada.
Apesar da dor dilacerante que lhe causava a separação, do fundo mesmo de tal sofrimento, uma ardente invocação brotou de seu coração.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 11, 2016 9:22 pm

Foi uma prece autêntica, que nada tem de pessoal, que apenas sente e implora pelo ser amado, alcançando e colhendo forças e renovação na própria fonte desse fogo celeste que, por mais que esteja coberto de sombras e vacilante, arde em todos os corações humanos.
A fervorosa prece de Tâmara dissipou os últimos alentos impuros, reaqueceu e levantou as forças da alma sofredora do agonizante, mostrando-lhe um caminho rumo ao mundo invisível, à soleira do qual ela permanecia ansiosa.
Subitamente a moça estremeceu:
com uma força de que ela não o acreditava capaz, o moribundo acabava de sentar-se no leito.
Com os olhos desmesuradamente abertos, fitava fixamente o vazio, enquanto sua mão se estendia na direcção de algo invisível à sua frente:
"Swanhild, é você, meu pai...
Vocês vêm me buscar!
Ah! graças, já vou” — murmurou ele, tombando sobre os travesseiros, com o rosto transfigurado de extática alegria.
Tâmara fitava-o, muda e trémula, julgando que tudo terminara, mas, no mesmo instante, seu pai reabriu os olhos, apertou-lhe fracamente a mão e disse:
— Minha filha bem amada.
Abençoada seja você pelo seu amor e devotamento filial e que Deus, o pai supremo dos órfãos, guie e sustente o seu espírito.
Quanto a mim, confio na misericórdia celeste, da qual minha mulher e meu pai são os mensageiros.
E agora — esboçou o sinal da cruz — que tua vontade seja feita, Senhor.
Nas tuas mãos entrego minha alma.
As últimas palavras foram apenas um sopro nos lábios arroxeados.
Um estremecimento percorreu-lhe todo o corpo, que se relaxou, pois tudo terminara.
Como que esmagada, Tâmara permaneceu ajoelhada, ainda segurando entre as suas a mão fria do morto.
Suas lágrimas pareciam ter secado, enquanto um pesado torpor envolveu seus membros.
Logo os olhos se fecharam e sua cabeça abateu-se sobre a beirada do leito — ela perdera consciência da assustadora realidade.
Seriam umas sete horas da manhã e tudo estava em silêncio na casa.
Fatigados das vigílias, todos se levantaram mais tarde e apenas Ivan, ainda sonolento, preparava preguiçosamente o samovar na cozinha, quando a carruagem do Almirante entrou desabalada como um furacão pelo caminho e estacou diante da porta de entrada.
Muito espantado, o empregado correu, enquanto o oficial entrava apressadamente, perguntando:
— Como vai o patrão?
Ivan respondeu que, naturalmente, ele estava dormindo, pois a senhorita não havia ainda chamado ninguém.
Apesar de sua visível inquietação, Sergei Ivanovitch não ousou entrar directamente, àquela hora, num quarto onde reinava tão profundo silêncio.
Um estranho incidente havia trazido o Almirante tão cedo.
Eram cinco horas e meia — conforme ele verificou mais tarde — quando a sensação de uma mão fria, que pousava em seu rosto, despertou-o sobressaltado.
À luz da lamparina, ele percebeu que havia um homem de pé ao lado do seu leito, mas qual não foi a sua surpresa quando reconheceu Ardatov, que o fitava com estranha fixidez e que, saudando-o com a mão, desapareceu por trás da cabeceira.
O Almirante chamou-o, acendeu uma vela e o procurou, mas estava tudo vazio e silencioso.
Além do mais, como é que aquele agonizante, que mal se mexia, poderia ter vindo à cidade durante a noite?
Sergei Ivanovitch era um homem de natureza sadia e prosaica; nunca presenciara nada de sobrenatural, mas não havia como duvidar — um fantasma havia-lhe aparecido e, tomado da súbita convicção de que seu amigo morrera ou agonizava, levantou-se, mandou atrelar os cavalos e partiu a toda pressa para verificar o que se passava.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 11, 2016 9:22 pm

Enquanto ele se aquecia um pouco no salão, chegou Charlotte, desolada por haver-se abandonado daquela maneira ao seu cansaço, e os dois entraram em silêncio no quarto do doente.
A vela, prestes a extinguir-se, e a lâmpada diante das imagens dos santos clareavam suficientemente um grupo silencioso e imóvel:
sobre os travesseiros, a face rígida do morto, reflectindo aquela gravidade solene que a alma imprime à matéria que abandona, e Tâmara abatida à beira do leito.
Com um grito abafado, Charlotte cobriu o rosto, mas o Almirante fez o sinal da cruz, com os olhos húmidos.
Seu desventurado amigo terminara sua vida de sofrimentos e não estivera só naquele momento supremo — um coração inocente e generoso, cheio de devotamento e de amor filial, sustentara-o na sua agonia.
Murmurando uma prece, aproximou-se de Tâmara e, com a ajuda da governanta, levou-a para o quarto contíguo, onde ela voltou a si.
— Minha pobre filha, como lamento ter-me deixado reter, fazendo com que ficasse sozinha neste terrível momento! — disse o Almirante, beijando-lhe a testa.
Explodindo em soluços, Tâmara aconchegou a cabeça ao peito do padrinho, que deixou que suas lágrimas corressem livremente.
— Chore, minha querida — disse ele — suas lágrimas são legítimas, mas chore sem amargura, pois você cumpriu fielmente sua pesada e sublime tarefa e a bênção daquele que não mais existe estará presente em sua vida.
Depois que a moça conseguiu ficar mais calma, o Almirante contou-lhe a estranha visão que o havia despertado pela manhã; em seguida, pediu-lhe que fosse repousar e despreocupar-se de tudo, que ele desejava incumbir-se de todas as despesas e das dificuldades do enterro.
— Não precisa sacudir a cabeça, eu também tenho alguns direitos aqui e os gastos são uma bagatela, uma vez que vocês possuem um jazigo perpétuo.
— Não acho que é orgulho impróprio que me inspira, “tio” Sergei, mas desejava que o enterro de papai fosse feito com o dinheiro ganho por mim.
Isto será um doce consolo, por ter trabalhado para atender às suas últimas necessidades.
Além disso, sinto que essa contribuição será mais doce à sua alma, partindo de minhas mãos, do que mesmo das mãos de seu melhor amigo.
Sergei Ivanovitch não se opôs mais, porém, à tarde, trouxe uma carta da Baronesa contendo uma proposta que ele aprovava.
A velha senhora, atormentada por violento reumatismo, estava impossibilitada de sair, mas convidava Tâmara a deixar imediatamente a casa mortuária e, juntamente com as crianças, passar algumas semanas com ela.
— No meu-entender, como seu padrinho, é indispensável minha querida, que você retome à cidade.
Pelo seu trabalho e pelas crianças, é melhor que esteja mais perto de nós e você não pode recusar à velha amiga a satisfação de ficar com ela enquanto se faz a mudança, ao mesmo tempo que repousa e refaz as forças de que tem tanta necessidade.
Apreciando a amizade e os conselhos da Baronesa, Tâmara aceitou com gratidão a hospitalidade da sua fiel amiga.
Na verdade, aquela habitação, da qual cada canto trazia à sua memória lembranças pungentes, repugnava-a naquele momento.
Informou apenas que não iria à residência da Baronesa senão após o enterro.
— Nem eu nem as crianças deixaremos os restos do nosso querido morto, enquanto tivermos a triste satisfação de poder velar e orar perto dele.
E as crianças devem habituar-se a não ter medo dessa passagem que inevitavelmente espera por todos nós!
Na manhã do dia do enterro, muitas caixas chegaram à pequena vila no caminho de Ligovo:
uma delas continha um simples mas elegantes vestido de luto, presente do Almirante; em mais duas caixas, uma guirlanda enviada pela Baronesa e outra, ainda mais rica, acompanhada de uma grande corbeille arranjada com as mais belas flores.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 11, 2016 9:22 pm

Esta última vinha com uma carta do Barão Magnus Lilienstierna.
O dia estava húmido e brumoso.
Nevava e chovia ao mesmo tempo, quando, após uma curta missa de corpo presente, o pequeno cortejo deixou a casa.
Duas carruagens apenas acompanhavam o caixão:
a do Almirante, ocupada por ele e Tâmara, e uma de aluguel, na qual seguiam Fanny e Charlotte com as crianças.
Ainda que Sergei Ivanovitch houvesse publicado na imprensa, a pedido de sua afilhada, um anúncio da morte de Ardatov, nenhum de seus antigos camaradas, amigos de outrora, apresentou-se para conduzi-lo à sua última morada.
O jazigo da família Ardatov ficava no cemitério do convento de Alexandre Nevski.
Era um amplo recinto ornado com uma pequena capela de mármore branco e vários monumentos, cuja riqueza contrastava estranhamente com a pobreza do séquito que trazia àquela esplêndida sepultura o novo hóspede.
Bem ao lado do túmulo dos Ardatov via-se uma sepultura recentemente aberta, em tomo da qual se comprimia uma turba compacta que ocupava toda a alameda e que teve de abrir passagem ao caixão de Nicolai Vladimirovitch.
O morto que acabara de ser baixada à cova e sobre cujo caixão eram atiradas guirlandas e braçadas de flores, antes do clássico e simbólico punhado de terra, era um antigo empregado da intendência, cujas malversações haviam-lhe proporcionado imensa fortuna.
Aquele homem vicioso e perverso não faltavam amigos que deploravam amargamente sua perda diante da rica viúva.
Entre a turba que se esmerava em atenções, via-se uma grande parte dos antigos convivas da casa de Ardatoy.
Ao reconhecê-los, Tâmara estremeceu e virou bruscamente a cabeça — tremiam e se rebelavam todas as fibras de seu ser.
Um sentimento não menos desagradável apossara-se daqueles que um malicioso acaso havia colocado inesperadamente em situação de presenciar o enterro do homem que haviam tão cruelmente ultrajado.
Mas a visão de um caixão de defunto é, às vezes, mais eloquente do que um sermão:
um sentimento de vergonha comoveu aqueles corações empedernidos e frívolos ou seria a presença do Almirante que lhes impusera algum respeito?
Seja como for, a maior parte dos presentes benzeu-se devotamente e um pequeno grupo juntou-se ao séquito para estacionar dez passos adiante, junto ao túmulo aberto dos Ardatov.
Ignorando os cumprimentos que lhe endereçavam, Tâmara atravessou o grupo e, apoiando-se a um dos monumentos, tentou em vão orar.
O tumulto que se agitava em seu espírito quase sufocava naquele momento a dor da sua perda e foi de olhos secos, que assistiu à descida do caixão à sepultura.
Era feliz seu pai, por livrar-se de seus sofrimentos.
Se havia pecado, havia também expiado seus erros e, por certo, não seriam aqueles que tripudiaram sobre ele e agora faziam hipocritamente o sinal da cruz os que teriam o direito de julgá-lo.
Eram piores do que ele, que fora generoso, hospitaleiro e serviçal com todos.
Uma conhecida voz que a interpelava fez a moça levantar a cabeça e, com surpresa, ela reconheceu Eitel Franzovitch que, meloso e beato, mas bem menos obsequioso do que habitualmente, trazia-lhe suas condolências.
Tâmara atirou-lhe um olhar indefinível num tom de desprezo não disfarçado e de glacial ironia, que nem mesmo o topete do oficial conseguiu sustentar.
— Veja bem que imprevisto acaso me proporciona o prazer de encontrá-lo, Senhor von Pfauenbrg — disse ela, sem olhar para a mão que ele lhe estendia.
É apenas lamentável que meu pai não possa mais partilhar comigo sua atenção.
E sem olhar seu interlocutor desconcertado nem mesmo com um olhar, virou-se e retomou a sua prece.
O Almirante arrancou-a de seus pensamentos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 11, 2016 9:22 pm

— Vem, minha filha, todos já se foram e você não precisa mais temer certos encontros desagradáveis — disse ele, oferecendo-lhe o braço.
Silenciosamente, dirigiram-se à residência da Baronesa.
As crianças, que iam com eles, impunham-lhes alguma reserva.
Fanny e CharJote regressaram à casa do subúrbio para providenciar a embalagem dos objectos e preparar a mudança, pois já havia sido conseguida outra casa.
Madame Raban recebeu seus convidados com afeição maternal.
De lágrimas nos olhos, ela aconchegou ao peito a pálida moça e os pequenos órgãos assustados.
— Venha, minha querida — disse ela enlaçando Tâmara pela cintura e conduzindo-a ao pequeno salão, contíguo.
Alguém que lhe oferece a mais sincera amizade espera por você ali.
Conversa um pouco com ele, enquanto eu levo as crianças para junto da minha velha Henriette, que cuidará de alegrá-los um pouco.
Tâmara circulou pelo pequeno salão o olhar fatigado, mas percebendo o Barão Magnus, aproximou-se dele, com vivacidade, e estendeu-lhe a mão que ele levou aos lábios.
Uma compaixão tão afectuosa e calorosa desenhava-se nos olhos límpidos do jovem, que o seu olhar reagiu como um bálsamo na alma ferida da moça.
E as lágrimas que ela tão corajosamente sufocara diante dos outros começaram a correr abundantemente agora.
Magnus retinha a mão dela na sua e a atraiu para uma cadeira ao lado dele.
— Compreendo a sua dor e toda a amargura pela perda que acaba de sofrer, Tâmara Nicolaevna — disse ele afectuosamente — mas a consciência do dever bem cumprido é um bálsamo para as chagas da sua alma.
Seu amor filial amenizou os últimos dias de seu pai e velou sobre sua agonia.
Acredite-me, virá um tempo em que a convicção de haver gloriosamente sofrido uma provação como esta será uma de suas mais preciosas lembranças.
Tâmara apoiara a cabeça no espaldar da cadeira e ouvira em silêncio.
A voz sonora e harmoniosa do jovem reagia sobre ela como um calmante.
Pouco a pouco suas lágrimas cessaram e ela cedeu à solicitação de Magnus, narrando-lhe os últimos instantes de seu pai e a visão que ele havia tido.
Enquanto conversavam, a Baronesa havia conduzido Olga e Jorge ao quarto já preparado para eles e onde os esperava uma mesa carregada de brinquedos e gulodices.
Henriette, a velha camareira de Madame Raban, que adorava crianças, incumbira- se de tomar conta deles por alguns dias.
Olga e o irmão estavam bem tristes e um tanto constrangidos naquela nova morada, mas uma grande caixa cheia de soldados de chumbo, canhões e viaturas, representando um verdadeiro exército, bem como uma elegante boneca, acompanhada de uma máquina de costura, ajudaram as crianças a se familiarizar com a casa e com a criada que tomava conta deles.
Suas pequenas faces sombrias descontraíram-se e, em breve, o riso alegre enchia o aposento de ruído.
Convicta de que seus pequenos protegidos estavam bem, Vera Petrovna voltou à presença do Almirante e os dois se dirigiram ao pequeno salão, onde ficaram surpresos ao encontrar Tâmara conversando razoavelmente bem com Magnus.
A conversa generalizou-se e Sergei Ivanovitch contou à Baronesa o incidente ocorrido no cemitério.
— Sim, o pobre do Sr. von Pfauenberg estava em deplorável situação — observou Tâmara com acerba ironia.
Imaginem: ante o olhar crítico do Conde de Metloff e da família Zamarine, encontrar-se com tão indesejável conhecida e não poder ignorá-la completamente, em vista da incómoda presença do Almirante!
Mas, também, com que prudência ele mediu a sua saudação, equilibrando-a habilmente entre a deferência de outrora e a afabilidade protectora devida à minha actual miséria.
Ah! ele foi sublime no seu género!
— Não; aquilo foi uma impertinência pela qual eu o repreenderei severamente na primeira vez que me encontrar com ele.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 11, 2016 9:23 pm

Fique tranquila, minha filha, eu lhe direi francamente o que penso de sua conduta perante você.
— Por mais franca que a senhora seja, Vera Petrovna, aposto que não terá a franqueza de Tâmara — disse rindo o Almirante.
Arre! fiquei petrificado ao observar as chamas que saltavam dos seus olhos e do ar de desprezo com o qual ela o fulminou.
Até mesmo a volubilidade daquela verdadeira fonte de eloquência que se chama Eitel Franzovitch secou na hora, sob o fogo daquele olhar.
Quanto ao mais, minha filha, os homens continuam sendo homens, o interesse os comanda e o exemplo os arrasta.
Não se pode exigir deles mais do que podem dar.
— Mas eu os detesto e os desprezo e não me incomodo de dizer-lhes o que penso — exclamou a moça com os olhos fuzilando.
- O que pretende empreender, senhorita, é uma batalha contra moinhos de vento.
Combater o vício, o egoísmo, a pusilanimidade, armada apenas da virtude e do dever, é derrotar-se antecipadamente — observou Magnus — e nunca — acrescentou com um sorriso — a senhora provará o acre prazer do desprezo enquanto odiar as criaturas.
Odiá-las é ainda interessar-se por elas, é também abrir a alma a uma chama nefasta que tudo consome, não deixando de pé senão as ruínas enegrecidas das ilusões destroçadas.
O desprezo é a torrente de água que extingue o fogo, mas é água amarga como fel e não nos traz a paz.
Falo com experiência própria.
Abatido pela enfermidade, pelo abandono e penosas humilhações, sofri o que a senhora está sofrendo actualmente, mas o ódio feroz que me enchia o coração agravava ainda mais o meu estado.
Louco, exasperado, desejei desprezar, mas esse áspero sentimento de desafio amargou minha existência, roubou todo o encanto de meu trabalho e, como um véu negro, estendeu-se entre mim e o mundo externo, levando-me a estremecer ante o menor contacto com os homens.
Relativamente, sem dúvida, isso já era o repouso após as torturas do ódio insatisfeito contra a ingratidão e o abandono e, contudo, até mesmo esse tipo de repouso me deixava arrasado.
Pouco a pouco fui compreendendo que somente a indiferença e a concentração em mim mesmo devolveriam a paz à alma.
Foi preciso lutar duramente para conseguir esse objectivo, mas isso é possível e a senhora deve fazê-lo Tâmara Nicolaevna, se é que deseja recuperar sua nobre independência de espírito.
Quando a senhora conseguir alcançar essa indiferença, substituir o ódio e o desprezo pela morna indulgência, em relação ao mal que a cerca, estará revestida de uma couraça invulnerável.
Nada esperando e não contando com os homens, a baixeza alheia não a ferirá mais e a senhora rirá da sociedade, tendo em si mesma todos os elementos necessários para substituí-la.
Creia-me, trabalhe para conseguir viver sem as criaturas e julgá-las com comiseração e indulgência, mas renuncie à luta contra o egoísmo delas.
Ninguém a compreenderia, todos se ririam das aspirações de seu coração, dos sonhos generosos de uma alma inocente e seu ideal se cobriria de lama, dado que ninguém pratica senão um culto:
a adoração do bezerro de ouro até a aniquilação da dignidade humana.
Magnus se deixara arrastar e animar à medida que falava.
Seus grandes olhos, usualmente plácidos, haviam assumido as cores e o brilho do aço.
Em cada uma de suas palavras vibrava uma convicção, mas também o eco de todos os tumultuados sentimentos que havia experimentado.
Tâmara ouvira tudo com crescente interesse.
Preparava-se para responder quando o Almirante a preveniu:
— Há alguma verdade no que o senhor diz, Magnus Oscarovitch — observou ele tocando amavelmente o ombro do jovem — só que o senhor não percebe que esses dois elementos destruidores — o ódio e o desprezo — ainda estão no fundo da sua resignação.
Na minha opinião, o ideal para o qual todos devemos tender, o único que verdadeiramente nos proporcionará a paz, não é a indiferença, mas a indulgência afectuosa, a verdadeira caridade pregada pelo nosso Salvador, que lamenta o pecador, sem deixar de ver nele, não o inimigo, mas o irmão que ele ama como a si mesmo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 11, 2016 9:23 pm

Reconheço que estamos longe disso, mas esse objectivo é o único válido.
Quanto a essa venenosa nulidade, o Pfauenberg, ele não é digno nem do desprezo.
Não pense mais nele, Tâmara.
— Ora, ora, o senhor é muito radical, Sergei Ivanovitch — disse a Baronesa.
Reconheço que Pfauenberg portou-se mal, mas por leviandade, estou certa.
Ele é mundano e dissipado, eis tudo.
Poderia um médium desses interpretar tão sublime espírito se fosse malvado?
— Grande médium, ele?
Esse farsante que mente cada vez que abre a boca! — retrucou vivamente o Almirante.
Isto não é conhecido nas casas que ele frequenta, mas me contaram que no seu regimento é sabido que ele falta à verdade nove vezes em dez, tanto quanto se zomba de sua vaidade, seja quando ele diz que visita embaixadores, seja quando diz escrever eruditos artigos que outros corrigem anonimamente.
Não. Não me fale desse patife que, conhecendo sua ideia fixa pelo fenómeno espírita, procura lisonjear a senhora com as suas sublimes comunicações.
— O senhor é que está com a ideia fixa na incredulidade preconcebida — respondeu Madame Raban com bom humor.
Acredite ou não, à vontade, mas repito-lhe que há comunicações que não podem vir senão de uma inteligência celestial, e Calchas é um desses espíritos.
— Deixe-o, então, com o seu médium celestial e não percamos nosso tempo a discutir coisas tão impalpáveis — respondeu a rir o incorrigível Almirante.

5 Kopeck — Moeda russa equivalente à centésima parte do rublo.
Ao tempo em que decorre a acção do livro de Rochester, o dinheiro tinha ali alto poder de compra, de vez que um dote de 80 mil rublos era considerado uma pequena fortuna, ao passo que uma boa casa de campo, provida de todo o conforto da época, alugava-se por 300 rublos por ano, ou seja, 25 por mês.

6 Dâmocles — Viveu na corte de Diniz, o Antigo (Século IV antes de Cristo).
Para fazê-lo compreender como é precária a felicidade dos tiranos, Diniz mandou suspender durante um banquete, sobre a cabeça de Dâmocles, uma pesada espada por um fio de crina de cavalo.
Diniz foi tirano de Siracusa, na Grécia.
No sentido primitivo, tirano era apenas o soberano investido de poder absoluto.
Só posteriormente passou a significar pessoa — soberano ou não — despótica, injusta e cruel.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 11, 2016 9:23 pm

A operária do pincel

Quando a mudança terminou e Tâmara instalou-se numa pequena casa situada à Rua Torgóvia, não longe da residência do Almirante, ela cuidou de dedicar-se ao trabalho.
Seus amigos lhe haviam aconselhado a repousar um mês ou dois, mas ela declarou-se completamente restabelecida e solicitou-lhes apenas que a ajudassem a conseguir uma ocupação como pintora de retratos, o que estava mais de acordo com seu gosto e seria bem mais lucrativo do que as traduções e a decoração de leques.
A Baronesa e o Almirante puseram-se em campo, mas sem êxito.
Dificuldades imprevistas surgiam de toda parte.
Inocentemente, Tâmara e seus protectores imaginavam que bastaria o talento para garantir o sucesso.
Ainda teriam de aprender, à custa de uma série de duros desgostos, que é a fama, merecida ou não, mais do que o talento, que traz o pão e a glória.
Tâmara começava já a desanimar, quando uma tarde Madame Raban lhe disse com visível desgosto:
— Minha querida, devo fazer-lhe uma proposta que me repugna, mas que julgo de meu dever submeter à sua apreciação.
Você sabe das dificuldades que temos encontrado em conseguir-lhe encomendas de retratos.
É que seu nome é desconhecido e toda uma falange de pintores medíocres, mas que já lançaram raízes e formaram clientela, bloqueiam o seu caminho.
A divulgação é necessária.
Pois bem, há sempre pessoas de senso prático que não se envergonham de aproveitar-se das dificuldades de um artista iniciante para conseguir, a bom preço, uma obra de arte.
— Compreendo. Trata-se de alguém que deseja que eu pinte apenas para divulgar o meu nome? — perguntou Tâmara com amarga ironia.
— Justamente; é isso.
Sempre encontro em casa da minha cunhada uma certa Madame Elaponine, esposa de um riquíssimo engenheiro de minas.
Essa pessoa não me agrada sob nenhum aspecto, mas é uma verdadeira matraca e o que ela conhece de gente é uma enormidade!
Ontem à tarde, ao ver o seu trabalho, ela concordou em servir-lhe de modelo.
“Se a senhorita Ardatov desejar fazer meu retrato — acrescentou ela — eu a recomendarei e a autorizarei a expor seu trabalho no próximo salão.
Naturalmente não posso remunerá-la; já basta que me arrisque a confiar numa artista completamente desconhecida, mas fornecerei a tela e pagarei suas despesas de transporte.
É uma impertinência, eu sei, e no entanto, minha querida, quase a aconselho a aceitar, uma vez que você poderá colocar na exposição o retrato de uma pessoa conhecida e o seu nome, que será divulgado, se beneficiará da publicidade que lhe falta e sem a qual nada se fará.
Após um momento de reflexão, Tâmara aceitou.
Ela não rejeitaria esse tipo de trabalho se conseguisse criar para si mesma certa renome e a independência.
Todo o resto foi ajustado por intermédio da Baronesa e, no dia combinado para a primeira sessão de trabalho, Tâmara apresentou-se na casa de sua cliente.
A caixa de tintas e outros acessórios haviam sido enviados para ali durante a tarde.
Madame Adélia Elaponine ocupava à Rua Liteinaia uma vasta habitação luxuosamente decorada.
Era uma grande e robusta alemã, próxima dos quarenta anos, feia e vulgar, mas cheia de pretensão.
Recebeu Tâmara ainda em trajes caseiros e a conduziu logo ao pequeno salão que iria servir de atelier.
Sobre um pequeno tablado coberto com um tapete estava posta uma cadeira e junto de uma larga janela, tipo veneziano, desembaraçada das suas cortinas e das flores que a obstruíam, encontrava-se um cavalete.
A moça observou, com desagradável surpresa, a enorme tela colocada sobre o cavalete.
— Essa tela é grande demais para um retrato comum — disse ela:
Para ocupá-la toda, teria que pintar a senhora em tamanho natural até os joelhos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 11, 2016 9:23 pm

— Como! A senhora pensava em fazer apenas minha cabeça em proporções reduzidas? — disse Madame Adélia, enquanto um vermelho ardente lhe cobria as faces.
Pois escolhi um vestido de cetim e uma tela bem grande para proporcionar-lhe a oportunidade de mostrar a sua técnica na reprodução dos tecidos!
Mas para isso é preciso que se veja uma parte da sala.
Além do mais, um quadro grande é sempre mais notado.
Cheia de íntimo desgosto, a moça não fez outras objecções e interrompeu a torrente de palavras pedindo ao seu modelo para começar o trabalho.
Muito alegre, Madame Adélia desapareceu após prometer, com as afectações de uma moça, estar pronta dentro de meia hora.
Sombria e silenciosa, Tâmara atirou-se a uma cadeira e se absorveu em seus pensamentos, nada alegres.
O ruído de passos e o tilintar de esporas no salão contíguo arrancaram-na de suas reflexões.
Ela virou-se e viu, pela porta aberta, um oficial que caminhava de um lado para outro, parando diante de cada espelho para ajeitar algo em seu uniforme ou cofiar a barba.
Ao cabo de alguns minutos ele entrou no aposento onde Tâmara estava sentada ante o cavalete e, sem a mínima preocupação com a jovem artista, deixou-se cair sobre uma cadeira e estirou comodamente as pernas.
Essa ostensiva ausência da mais elementar polidez fez o coração da moça bater violentamente e uma súbita palidez estendeu-se sobre seu belo rosto.
Ela tomou uma revista ilustrada que se encontrava ao alcance da sua mão e fingiu ler mas a despeito de si mesma, seu olhar a todo momento se fixava num espelho, no qual se reflectia a imagem do recém-chegado.
Era um homem alto e jovem, muito magro e de tipo oriental.
O rosto, longo e pálido, estava enquadrado numa pequena barba pontuda de cor castanha.
Nada se via dos cabelos, pois a cabeça fora raspada até à pele.
Os olhos negros, pequenos e oblongos, reflectiam uma gelada presunção e a mesma expressão de desdenhosa altivez emprestava um aspecto desagradável a toda a sua pessoa.
As mãos que ele cruzara sobre o peito eram ossudas e mal cuidadas, mas os pés, calçados de botas luzentes, eram pequenos e aristocráticos e era óbvio que representavam para o seu proprietário inestinguível objecto de orgulho e admiração.
Em suma, era um belo homem, mas aquela indefinível expressão de enfarado orgulho, os traços um tanto desbotados precocemente, esmoreciam a impressão favorável.
A seu turno, o oficial espiava disfarçadamente e com curiosidade a jovem senhora de luto, cuja face impassível e toda a sua pessoa compunham uma aparência de suprema distinção.
Madame Elaponine lhe dissera que deixaria pintar por filantropia, para socorrer uma pobre artista e ajudá-la a tomar-se conhecida.
Não mencionara o nome de Tâmara e deixara bem claro que a beneficiada era a moça, da qual ela explorava descaradamente o abandono e a necessidade de lançar o nome.
O ruído de um vestido de seda e uma exclamação puseram fim ao silêncio que reinava no atelier improvisado.
— Ah! caro príncipe, como o senhor é amável em ser tão pontuai — disse ela.
Com as duas mãos estendidas, Madame Adélia dirigiu-se ao oficial que não parecia prestar atenção alguma a sua euforia, e que beijou negligentemente uma das mãos que ela lhe oferecia.
— Eis-me à sua disposição, senhorita.
Acho, porém, que vocês ainda não se conhecem.
O Príncipe Emílio Felixovitch Fluresco.
Senhorita Tâmara Ardatov.
O príncipe fez uma ligeira saudação, Tâmara inclinou a cabeça e sentou-se.
O nome Fluresco lhe era desconhecido, mas o príncipe dissimulou ligeira surpresa.
Ele conhecia o nome e a história de Ardatov e havia encontrado várias vezes em sociedade o rico financista.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 11, 2016 9:23 pm

“Ah! eis, então a sua filha — pensou ele — que agora precisa transformar em ganha-pão um talento recreativo.”.
Enquanto isso, Madame Adélia instalara-se em sua cadeira, revirando-se cheia de maneirismos, mas quando a fitou para fazer um primeiro esboço, a moça sentiu um estremecimento interior:
todas as fibras de sua alma de artista se rebelavam contra aquele modelo, cuja feiura e mau gosto melhor se prestavam a uma caricatura.
Madame Elaponine trazia um vestido de cetim verde-esmeralda, cujo tom se chocava brutalmente com sua pele cor de oliva e mais as bolsas sob a tez rugosa, que se mostravam apesar dos cremes e pinturas.
A parte superior do vestido, decotado até os extremos limites da decência, descobria um busto maciço e costas encurvadas, aprisionados num espartilho apertado a ponto de dificultar até a respiração.
Uma guirlanda de flores aquáticas que, descendo das espáduas, cortava obliquamente a blusa, acrescentava novas dimensões ao busto já de si tão opulento.
De um laço de fita representando uma manga saíam grossos braços nus, marcados de veias e manchas vermelhas e terminadas em mãos grandes e vulgares de dedos nodosos.
Em um vestido simples e austero, a feiura daquela mulher poderia ter sido decente.
Naquela pretensiosa vestimenta de baile, contudo, ela era simplesmente repugnante.
Mas Madame Adélia nem suspeitava da desarmonia berrante de sua pessoa; ao contrário, estava consciente de seu fascínio.
Com um profundo suspiro, Tâmara pôs mão à obra enquanto seu modelo entabulava animada conversação com o Príncipe Emílio, que se pusera um pouco à distância.
Concentrada inteiramente no seu trabalho, ela não prestou atenção, de início, à conversação cada vez mais barulhenta, mas logo lhe foi impossível ignorar o que eles diziam tão alto e um rubor de vergonha começou a mostrar-se em seu rosto.
Discutiam, com uma franqueza digna de Juvenal,7 a crónica escandalosa da cidade.
Os relatos descarados, temperados de brincadeiras cínicas, desfiliavam sem interrupção e foi com verdadeiro alívio que Tâmara pôs fim à sessão de pintura e apressou-se em se despedir.
A moça esperava que, no futuro, Madame Adélia estivesse sozinha, mas em vão — o príncipe Fluresco apresentava-se fielmente para fazer-lhe companhia e frequentemente Tâmara sentia-se tentada a jogar fora seus pincéis e abandonar o trabalho que se lhe tornava odioso.
O provocante coquetismo de Madame Adélia e a desinibição galante do príncipe levaram-na, a despeito de si mesma, a compreender que tipo de relacionamento havia entre eles.
Não davam a mínima importância à sua presença e chegavam até a esquecer a pobre artista que, absorvida no seu trabalho, parecia não ver, nem ouvir, jamais se metendo na conversa.
Tâmara, contudo, sofria quase que fisicamente ao contacto de toda aquela mal disfarçada lama.
Às vezes ela se perguntava, contemplando o príncipe, por que espécie de aberração dos sentidos e do coração aquele homem jovem e belo, tão precocemente desgastado, fora amar aquela mulher feia e vulgar, mais idosa do que ele e cujos lábios jamais pronunciavam uma só palavra inteligente, cuja moral, como o físico, chocavam-se contra todos os sentimentos estéticos.
E, no entanto, era evidente que sua companhia o agradava, pois passavam horas a conversar, rivalizando-se em cinismo e exibindo prazerosamente sua imoralidade.
Jamais conhecera tipos como aqueles, autênticos produtos da podridão social a que se dá o nome de alta sociedade:
ela, vã, sensual, sem princípios, só admitindo na vida um objectivo — o prazer; e ele, enfastiado de tudo, depravado, em busca do vício, única coisa que ainda o distraía.
Nem seu título, nem sua origem haviam podido preservar-lhe a nobreza do espírito, e se ele se encontrasse a sós com Tâmara, evitava o olhar puro e digno da moça e sua inspiração parecia secar-se à fonte.
Com ela, faltavam-lhe assuntos para a conversa.
Frequentemente, ao fitar seu modelo, cuja face exprimia sentimentos brutais, ela a comparava a uma bacante e, com o talento que lhe era próprio, fixou na tela e personificou de alguma forma a alma de sua cliente naquele retrato.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 12, 2016 9:16 pm

Não obstante, tudo foi feito com tamanha discrição, que a sátira não saltava aos olhos, embora não escapasse ao bom observador.
Tâmara sentiu verdadeiro alívio quando o retrato ficou pronto, mas ela não se livraria tão cedo de Madame Elaponine, que, não compreendendo o quanto havia sido duramente caracterizada, estava maravilhada com o retrato.
O cetim fulgurava, as flores pareciam vivas e ela considerava adorável o sorriso provocante, a expressão apaixonada do olhar.
No impulso desse primitivo entusiasmo, ela decidiu que Tâmara deveria pintar também o retrato de Fluresco.
Ela recusou, mas Madame Adélia tinha um jeito tão irresistível de persuadir as pessoas e, a não ser por um gesto de aberta grosseria, Tâmara tinha que ceder.
— Está bem — disse ela, enfim.
Pintarei o príncipe, já que a senhora tanto o deseja, mas com uma condição:
a de que ambos escolham em minha presença outros temas para conversação e não me obriguem a corar de vergonha.
Madame Elaponine explodiu numa enorme gargalhada.
— Meu Deus, Tâmara Nicolaevna!
Que pudor excessivo!
Hoje em dia se fala dessa maneira em toda a sociedade; todas as moças lêem Zola e se deliciam com os autores naturalistas.
Não é nem mesmo de bom gosto fazer o papel de ingénua, mas não importa, desde que você assim quer, falaremos, daqui por diante, como duas crianças.
— Eu lhes serei muito reconhecida — respondeu a moça com um sorriso.
De má vontade, assim, Tâmara começou o retrato do príncipe, que lhe era antipático e, outra vez, intencionalmente, emprestou à sua face uma expressão satírica e cheia de convencimento que lhe era própria quando ele tagarelava com Adélia.
Conseguiu até fixar no canto de seus lábios uma fugitiva contracção produzida por um tique nervoso do qual ele sofria.
Terminados os dois quadros, a Baronesa e o Almirante vieram vê-los.
Espantados, examinaram longamente os retratos e, em seguida, trocaram um sorriso.
Naquela tarde, porém, durante o chá em casa de Madame Raban, Sergei Ivanovitch observou a rir:
— Ah! Tâmara, você é uma grande pintora, mas tem um génio bem perverso...
(E riu gostosamente).
Você pintou um par formado de um sátiro e uma bacante.
Até o tique nervoso do príncipe covê encontrou jeito de fixar na face desdenhosa dele.
Quando os seus grandes modelos perceberem, contudo, como você os interpretou tão bem, não ficarão nada satisfeitos.
— Meu Deus! “tio” Sergei, não fui eu, foi meu pincel, revoltado ante modelos como aqueles, que assim os caracterizou — respondeu Tâmara sem partilhar da hilaridade de seu padrinho.
Reconheço, porém, que criar um nome artístico a um preço desses é mais penoso do que ser uma operária ou lavar louça.
Com efeito, a moça estava preocupada e cansada.
O grande trabalho que havia concluído trouxera-lhe apenas acréscimo de dificuldades, pois, para não perder completamente o tempo e atender às despesas da casa, ela se via forçada a sacrificar suas tardes e frequentemente uma parte da noite para trabalhar nas traduções.
O retrato do príncipe, é verdade, lhe seria pago, mas um acaso fatal impediu Tâmara de embolsar os 150 rublos do preço combinado.
É que, quando o príncipe trouxe o dinheiro a Madame Adélia para que ela o entregasse a Tâmara, a, intermediária estava com um pequeno problema financeiro — sua modista exigia imperiosamente pagamento, pelo menos parcial, de uma dívida; do contrária se recusaria a incumbir-se da confecção de um novo vestido de que sua cliente tinha necessidade para um baile de máscaras dali a poucos dias.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 12, 2016 9:16 pm

Sem reflectir mais longamente, Madame Elaponine entregou à modista o dinheiro destinado a Tâmara, dizendo a esta que lhe pagaria logo que o marido lhe entregasse a quota habitual para suas despesas pessoais...
Não havia mal algum, na sua opinião, em que a artista esperasse algumas semanas.
Infelizmente, quando recebeu sua mesada trimestral, Madame Adélia teve tantas despesas novas que lhe pareceu impossível parar a dívida.
Depois disso, ela simplesmente esqueceu o assunto e Tâmara, muito orgulhosa para mendigar o que lhe cabia por direito, renunciou aos seus honorários e às despesas com as tintas.
Nenhuma outra encomenda aparecia, por enquanto, mas o Almirante e a Baronesa nutriam suas esperanças quanto à exposição que estava para abrir-se, e que deveria atrair a atenção do público para o brilhante talento da moça.
Tais esperanças não se concretizaram.
A exposição, que se inaugurou pouco depois, não produziu os resultados esperados.
Alguns conhecedores admiravam o belo trabalho de Tâmara; um jornal mais modesto concedeu-lhe algumas linhas benevolentes e foi tudo. O nome da jovem artista, contudo, fora mencionado e ela recebeu algumas encomendas.
Ela imaginara coisa bem diferente, mas talvez somente o começo fosse assim tão difícil.
Seguiu-se um período relativamente calmo.
Tâmara pintava com resignação toda uma série de retratos da família de um rico comerciante.
Passava sempre duas tardes por semana na residência da Baronesa, mas recusava-se sistematicamente a comparecer às suas recepções, desculpando-se com o seu luto.
Preferia as horas agradáveis de conversação que passava em companhia de Vera Petrovna e de Magnus, que vinha sempre fazer companhia às duas senhoras quando estas se achavam a sós.
A Baronesa saía pouco naquele inverno, por estar sofrendo de violento reumatismo em uma das pernas.
À excepção do dia em que dava suas recepções, passava todas as tardes no seu próprio círculo ou em casa de amigos e sentia-se muito feliz na companhia de seus dois protegidos, alegrando-se com a inesgotável tagarelice deles, ainda que às vezes lhe fosse algo difícil segui-los nas profundezas metafísicas das questões que eles debatiam.
A órfã e o barão se tornavam cada vez mais amigos.
Atingidos ambos pela desgraça no limiar da vida, simpatizavam- se um com o outro e a semelhança de gostos e opiniões os aproximava ainda mais.
Às vezes, acontecia, ainda, a Tâmara encontrar Pfauenberg, que visitava frequentemente Madame Raban.
O oficial havia reassumido, junto da moça, sua insinuante polidez, mas ela o evitava com uma gelada reserva.
Apesar da vida recolhida que ela levava, ele ficou sabendo que algumas boas almas haviam transmitido fielmente à moça as observações maldosas que ele fizera publicamente ao relatar o ridículo amor que ela teria confessado por Anatole Tarussoff, imputando-lhe tamanha humilhação ante o homem que ela desprezava.
Essa intenção maldosa de feri-la no seu amor próprio, e isso num momento de tamanha desgraça, despertara na alma orgulhosa de Tâmara um sentimento que raiava pelo ódio.
Ela o teria perdoado, como a outros, de haver fugido dela no momento do infortúnio, mas a lembrança das humilhantes calúnias propagadas por Eitel Franzovitch tornaram odiosa sua presença.
Com a Baronesa ela não mencionava jamais esse assunto — ela sabia que sentimos bem menos as ofensas a outrem, ainda que sejam nossos melhores amigos.
Além disso, ela conhecia bem a preferência de que gozava Pfauenberg junto dela por causa das suas faculdades mediúnicas.
Vera Petrovna, contudo, percebia a aversão que inspirava a moça o médium de Calchas e procurava, de toda forma, desculpá-lo.
Um dia, após um desses encontros fortuitos, Madame Raban observou:
— Querida Tâmara, observo com pesar que você guarda impiedoso rancor de Pfauenberg.
Isso não é bom, minha filha.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 12, 2016 9:16 pm

Sem dúvida ele agiu mal com você, mas isso se deve à leviandade de seu carácter.
Já há muito tempo ele reconheceu seus erros e os deplora.
Como cristãos e espíritas, é de nosso dever sermos indulgentes e a Eitel Franzovitch pode-se perdoar muita coisa em vista das suas admiráveis faculdades mediúnicas.
— Ele esconde tão cuidadosamente sua condição de espírita e se envergonha tanto de ser médium, que não me sinto no dever de o considerar como um irmão de crença.
Por outro lado, esse Calchas não me inspira confiança...
— É porque você se prende às prevenções que te inspiram o médium e está sendo parcial, minha filha.
Calchas é um espírito de extraordinária sabedoria; ele trata melhor do que um médico.
Recentemente ele me prescreveu para beber uma cocção dessa herbae Damiani que Pfauenberg também toma por sua ordem e em poucos dias fiquei quase boa das minhas enxaquecas.
Quanto a ele, desde que começou a tomar essa erva maravilhosa, suas faculdades ocultas decuplicaram e Calchas passou a materializar-se completamente.
— A senhora já o viu?
— Sim, claro, mas não eu apenas.
— Quem mais, então?
Pfauenberg, contudo, esconde cuidadosamente sua condição de médium.
— Isso foi antes.
Agora, Eitel Franzovitch superou completamente essa fraqueza e propaga nossa crença com zelo dos mais louváveis...
Não sorria tão sarcasticamente — ele participa de vários grupos e há pouco tempo convidaram-no para as sessões de um grupo tão distinto, que ele me confiou a notícia sob o maior sigilo.
(A Baronesa curvou-se e murmurou algumas palavras com ar misterioso ao ouvido de Tâmara).
Pois bem, mesmo essas personalidades estão maravilhadas quanto às suas faculdades e às manifestações de Calchas.
Tâmara levantara a cabeça um pouco surpresa, mas logo retomou seu tom ligeiramente irónico.
— Que quer a senhora, Vera Petrovna?
Apesar de tudo o que a senhora me diz, não creio na sinceridade do senhor Von Pfauenberg.
Tudo o que conheço acerca de seus princípios choca-se com os princípios do Espiritismo.
Sua maneira de estimar ou desprezar as pessoas, não pelo mérito de cada uma, mas segundo sua fortuna ou posição social, seu ardente desejo de casar-se bem...
A senhora mesma me disse que ele não faz questão de beleza nem virtude em sua futura esposa, mas de um rico dote.
Tudo isso é indigno de um divulgador da verdade, de um adepto dessa ciência que escolheu por divisa — “Fora da caridade não há salvação“.
Não, não, Vera Petrovna, esse súbito interesse esconde outras razões.
A vaidade e o desejo de projectar-se podem também levar alguém a desejar exibir o título de médium, mesmo que ainda um tanto ridicularizado, se essa condição abrir portas que o simples Eitel von Pfauenberg, sem Calchas, jamais cruzaria.
— Você é incorrigível, Tâmara, e encontra argumentos difíceis de refutar.
Mantenho, contudo, minha opinião e, com o tempo, você abandonará suas injustas suspeitas.
Uma nova provação para o orgulho de Tâmara foi a de ser convidada para fazer o retrato de uma jovem que ela conhecera outrora na sociedade e com a qual mantivera relações bastante amistosas.
A senhorita Eugénia Stakov era uma bela moça de cerca de vinte e cinco anos, muito vaidosa, pouco desenvolvida intelectualmente, mas não maldosa.
Acolheu Tâmara com afabilidade e a tratou como a amiga de antes, confiando-lhe com toda franqueza seus segredos, suas decepções e suas esperanças.
Tais confidências, aliás, giravam em torno de um único assunto:
os múltiplos amores de Eugénia.
Estava sempre apaixonada e seus numerosos projectos de casamento sempre se desfaziam por um infeliz acaso.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 12, 2016 9:17 pm

No seu foro íntimo, Tâmara admirava-se daquela flexibilidade de coração.
Ela não podia compreender que se pudesse amar vinte vezes, sempre com o mesmo vigor, o mesmo calor e, em breve, ela admirou-se ainda mais:
Eugénia parecia ter resolvido o enigma de amar a três homens de uma só vez.
Ainda que isso parecesse inverosímil, era preciso crer ao observar o tratamento igualmente caloroso e expansivo que a senhorita Stakov prodigalizava a três adoradores que ela manobrava habilmente, a fim de não tê-los todos juntos ao mesmo tempo.
Um desses pretendentes era Pfauenberg, que habitualmente partia quando Tâmara chegava.
O olhar claro e incisivo da moça lhe era visivelmente desagradável.
O segundo, um oficial de marinha, que vinha de Cronstadt duas vezes por semana e, finalmente, um jovem professor de canto e de música ligado ao Conservatório e que leccionava a Eugénia.
Este era o mais simpático e também o mais sinceramente apaixonado, o que não impedia que fosse o menos favorecido dos três, apesar das atenções e dos olhares langorosos que ela lhe prodigalizava.
A diferença era sensível para quem assistia às entrevistas da moça com Pfauenberg e o oficial.
Tâmara divertia-se, a princípio silenciosamente, com essa tríplice intriga, mas uma inesperada complicação veio estragar-lhe o bom humor:
o pai de Eugénia começou a frequentar as sessões de pintura e a testemunhar um interesse vivo demais pela jovem artista.
O senhor Stakov era um homem de cerca de 60 anos e passava por ser muito rico, possuindo a soberba mansão na qual vivia e, ainda, uma grande propriedade numa das províncias do interior.
Mas sua reputação de “boa vida” não era menos solidamente estabelecida e a insipidez açucarada de suas maneiras, o cinismo libertino que pairava no seu olhar, tomavam-no detestável aos olhos de Tâmara.
Apesar da fria reserva desta, ele se fazia cada vez mais galante e um dia, ao chegar, ela já o encontrara no atelier.
Eugénia, que terminava sua lição de canto, estava ainda no outro salão.
Silenciosamente a moça o cumprimentou e começou a arrumar seus pincéis e sua palheta.
De repente, ela sentiu que um braço a tomava pela cintura e uma voz apaixonada murmurava ao seu ouvido:
— Tâmara Nicolaevna, mulher adorável, permita-me amá-la e você não terá necessidade de trabalhar.
Tudo o que o ouro e o amor podem criar de satisfações eu o colocarei aos seus pés.
Como que impulsionada por uma mola, Tâmara virou-se no mesmo instante e viu a cabeça de Eugénia desaparecer atrás de uma porta.
Rubra de cólera, ela mediu com um olhar fulminante o velho aventureiro que, sem respeitar seus próprios cabelos brancos, a fixava como um jovem de vinte anos.
A resposta que ele leu nos olhos de Tâmara não necessitava de palavras para ser compreendida — desprezo e desgosto dali transbordavam.
Perturbado e com o rosto manchado de marcas vermelhas, o muito amadurecido Don Juan balbuciou algo e desapareceu.
Alguns minutos depois, Eugénia entrou, com as faces em fogo e ocupou seu lugar.
Tâmara, igualmente agitada, tomou seus pincéis e começou a trabalhar.
Nem uma palavra foi trocada, mas ao fim da sessão ela observou, enquanto arrumava as tintas:
— Não poderei vir concluir o seu retrato, Eugénia Stakov.
Como ainda precisamos de algumas sessões, talvez a senhora concorde em ir à casa da Baronesa de Raban.
Eugénia veio abraçá-la contrafeita.
— Querida Tâmara Nicolaevna, não leve a sério o procedimento do papai — ele é incorrigível e não pode ver com indiferença uma mulher tão bonita como você.
Além disso, ele não a importunará mais, pois parte amanhã para Tuia.
Sua presença é necessária em nossa propriedade e ele só voltará daqui a quinze dias.
Ainda que contrafeita, Tâmara consentiu, dessa maneira, em terminar o retrato ali mesmo em casa de Eugénia e apressou o seu trabalho tanto quanto possível.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 12, 2016 9:17 pm

Poucos dias depois ela percebeu que uma profunda agitação se apossara da moça — ela se mostrava nervosa, preocupada, inquieta e parecia estar na expectativa de algum acontecimento sobre o qual, contrariamente aos seus hábitos, nada lhe falou.
Certa manha, chegando à hora combinada, Tâmara não encontrou Eugénia.
Havia saído inesperadamente, segundo lhe disse uma velha cozinheira, pobre ser oprimido que funcionava na casa também como uma espécie de governanta, pois o dono da casa era viúvo.
Sem comentário, Tâmara se pôs ao trabalho, dando os últimos retoques nos acessórios.
Pouco depois Eugénia chegou afogueada, super-excitada e visivelmente furiosa.
Disse não poder posar naquele dia, mas suplicou à moça que ficasse, pois tinha um pedido a fazer-lhe mais tarde.
Cerca de meia hora depois, chegou o oficial de marinha e foi prontamente levado por Eugénia aos seus aposentos particulares para uma conversa misteriosa que durou longo tempo e foi das mais tempestuosas, pois as vozes se elevavam, às vezes, a tons muito altos.
Em seguida, o oficial retirou-se extremamente agitado e Eugénia teve um acesso de histeria que Tâmara e a pobre cozinheira fizeram o possível para acalmar.
Seus esforços foram coroados de êxito mais depressa do que esperavam, pois subitamente a doente empertigou-se, enxugou as lágrimas e foi mirar-se num espelho, diante do qual começou a reparar activamente a desordem provocada nos cabelos e nas roupas.
— Meu professor de canto vem aí e tenho que estar pronta para a aula — declarou ela às duas mulheres estupefactas.
Mais do que nunca desejosa de desfazer-se daquele retrato, Tâmara se pôs ao trabalho, mas aquela tarde lhe reservava ainda uma surpresa — em lugar de cantar, Eugénia conversou com o seu professor e, logo, surgiu dando-lhe o braço e o apresentou a Tâmara como seu noivo.
Confiou-lhe que os dois se amavam há muito tempo, mas que seu pai se opunha à união e ela desejava aproveitar-se da ausência dele para fazer um casamento secreto.
De lágrimas nos olhos, suplicou à jovem artista que lhe servisse de testemunha.
Esta recusou firme; de modo algum desejava meter-se em tal complicação.
Eugénia mostrou-se magoada e naquela mesma tarde mandou levar em casa dela o preço do retrato.
Tâmara soube, contudo, mais tarde que o casamento se realizara mesmo.
Cerca de três semanas após esse incidente, ela encontrou-se na Gostinnoidvor com Madame Kulibine, que não cessara de testemunhar-lhe sua amizade, fazendo questão de manter seu bom relacionamento com a antiga companheira de colégio.
Após haver reclamado de Tâmara sua exagerada reserva e suas raras visitas, ela declarou que a levaria para jantar de qualquer modo, e a moça acabou cedendo.
Terminada a refeição, a conversa recaiu por acaso em Eugénia Stakov e seu casamento.
— Você sabe dos detalhes do casamento? — perguntou Nadina, rindo como uma doida.
Não? Então ouça, que isto é um clássico.
Em primeiro lugar, os Stakov estão arruinados.
O pai, que é um dos mais descarados libertinos que existe, pôs tudo fora.
A casa estava gravada por hipotecas, bem como a propriedade rural.
Será que Eugénia soube ou previu a ruína que se aproximava?
Seja como for, foi ela que decidiu casar-se de qualquer maneira antes que a verdade se tomasse conhecida.
Manobrou, assim, Pfauenberg, o oficial de marinha e o músico, decidida a tomar, em última instância, aquele que se declarasse primeiro.
Só que ela ignorava que Pfauenberg e o oficial haviam de algum modo, pressentido a tramóia e não pensavam senão em escapar.
Como ela descobriu que seu pai estava sorrateiramente vendendo tudo, não o sei.
Ela resolveu apressar a decisão final.
Certa manhã, foi à casa de Eitel Franzovitch, esperando, talvez, forçá-lo a uma decisão por meio de um escândio.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 12, 2016 9:17 pm

Não posso contar-lhe o que se passou entre eles, pois ignoro, mas Pfauenberg agiu com energia.
De volta à sua casa, ela teve um entendimento com o oficial, que havia mandado chamar, prevendo já o seu insucesso junto a Pfauenberg, mas ele também recusou-se a morder a isca.
Foi por isso que ela se abateu sobre o professor, que se deixou prender.
Sem dúvida ela contou-lhe a história da carochinha de que seu pai se opunha ao casamento que, por isso, teria que ser secreto em Pavlovsk.
Já era tempo, pois oito dias mais tarde o caro papai escapava-se para o exterior com os restos da sua fortuna e uma cantora de opereta.
— Mas como é que você sabe de tudo isso! — perguntou Tâmara que a tudo ouvia muda de espanto.
— Você se lembra de Lisa Negri?
Ela estava numa classe paralela à nossa e nos dávamos bem.
Ela está hoje casada com um primo de Eugénia e foi ela que me contou tudo isso.
— Meu Deus! que trama abjecta!
Que falta de dignidade! — observou Tâmara suspirando.
Essas compras e vendas me dão a impressão de um mercado de escravos moderno: o pobre mendiga, oferecendo-se à venda, enquanto o rico o avalia, como se num leilão.
E é sobre tais bases que se estabelece a união tão séria e sagrada que somente o amor deveria reger!
Mas essa louca da Eugénia não se preocupa com o que dirá o marido enganado?
— Que importa o que dirá ele se ela já está casada?
O que se sabe é que ela pôs de lado tudo que pôde.
Quanto ao mais, Tâmara, se todos fossem assim tão pouco práticos como você, haveria muito poucos casamentos.
— Que Deus me livre de realizar um dessa maneira!
Prefiro trabalhar até o fim de meus dias e permanecer independente — respondeu a moça levantando orgulhosamente sua bela cabeça.
Esse incidente causou a Tâmara uma impressão profundamente desagradável.
Toda sua actividade artística, sobre a qual depositara tão grandes esperanças, tomava-se cada vez mais penosa.
O que sobretudo lhe pesava era a necessidade de ir às mais diferentes famílias e experimentar tratamento que a revoltava — uns a consideravam como simples operária; outros supunham que uma jovem bela e pobre deveria, necessariamente, romper com todos os seus escrúpulos e considerar bons todos os meios de ganhar dinheiro.
Nesse ínterim o verão chegou, dispersando como aves migratórias os habitantes da capital.
A Baronesa, que observava com inquietação e pena a palidez doentia que substituíra as cores rosadas no rosto de Tâmara, exigiu que ela fosse com as crianças passar alguns meses junto dela na sua propriedade nas proximidades de Revail.
A moça concordou e partiram em meados de junho para retornar somente no final de agosto.
Ela precisava trabalhar, mas os retratos se tomaram tão odiosos, que ela decidiu retomar os leques e as traduções.
Um acaso feliz, contudo, proporcionou-lhe uma ocupação permanente e suficientemente bem remunerada para garantir-lhe a modesta existência.
Vivia em Petersburgo8 um jovem artista italiano que conseguira como pintor retratista uma brilhante reputação.
Ercole Belzoni era um belo homem, cujos grandes olhos negros e cabelos escuros cacheados haviam contribuído de maneira considerável para a sua celebridade.
Entre as damas, tomara-se verdadeiro encantamento deixar-se pintar por ele e o entusiasmo que inspirava às suas elegantes clientes era tão excêntrico e tão apaixonado, que o Signor Ercole achou conveniente fazer uma viagem à sua terra, a fim de trazer sua jovem esposa, a quem ele amava sinceramente.
A chegada da senhora Belzoni desconcertou, à primeira vista, as admiradoras do pintor, mas sua reputação estava já feita e ele continuou belo, galante e interessante.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 12, 2016 9:17 pm

Sua mulher foi, pois, esquecida e continuou o fluxo constante ao seu atelier.
Em breve, a clientela tomou-se tão grande, que o artista não consegui mais dar conta de todo o trabalho.
Sua mulher, que, também pintava bem e o ajudava, trabalhando nos acessórios e incumbindo-se das encomendas de menor responsabilidade, mas os conhecimentos da senhora Carlota eram insuficientes e seu marido pensava em fazer vir de Roma um pintor amigo seu quando a Baronesa, que o conhecia, o encontrou e, sabedora de seu projecto, propôs-lhe experimentar Tâmara..
A proposta agradou ao jovem italiano.
Ele temia, no fundo, fazer vir o seu compatriota que, com a cobertura de seu nome poderia acabar construindo sua própria reputação e passasse a competir com ele, fundando seu próprio atelier.
Concordou com o oferecimento da Baronesa e, após ter visto o trabalho de Tâmara, não hesitou mais.
Propôs-lhe imediatamente admiti-la como colaboradora.
Ela deveria pintar todos os quadros que ele lhe indicasse, para os quais ele forneceria as telas e as tintas, repartindo o preço, metade para cada um.
Tâmara aceitou com alegria.
Não teria mais necessidade de correr de casa em casa e, mesmo ficando apenas com a metade do preço (elevado) que Belzoni cobrava pelos quadros produzidos em seu atelier, ela ganharia mais do que com suas encomendas ocasionais.
A signora Carlota e seu marido tomaram-se logo de verdadeira afeição pela amável e modesta moça, cujas maneiras requintadas e infatigável actividade lhes encantavam.
Esforçavam-se, por outro lado, com diversas atenções, em aliviar sua situação, pois, sabedores de sua história, compreendiam como lhe era penoso trabalhar para ganhar seu sustento.
O atelier, que era amplo, foi, assim, repartido ao fundo por uma cortina, atrás da qual Tâmara podia trabalhar sem ser importunada pelos olhares curiosos dos visitantes.
Além disso, ela era indicada de preferência para retractar crianças e senhoras de idade, de modo a poupá-la do contacto com os homens.
Tâmara ficou profundamente reconhecida por essa delicadeza espontânea e, em breve, estabeleceu o melhor relacionamento com o jovem casal e mais a irmã do pintor, a boa Stella, que administrava a casa.
Relativa serenidade implantara-se na alma atormentada da moça:
seu trabalho não mais a repugnava e, liberada da necessidade de fazer traduções, tinha agora as noites livres, permitindo-se mesmo, às vezes, a distracção de um concerto, ou tomando um chá em casa da Baronesa, onde frequentemente encontrava Magnus, que nunca deixava de trazer-lhe para distraí-la um livro raro de história ou de arqueologia, suas leituras predilectas.
Muito feliz, Tâmara absorvia-se nesses estudos interessantes, sem notar o olhar estranhamente brilhante e a indefinível expressão que iluminava furtivamente os olhos do jovem, enquanto, senhora do assunto, ela discutia algum aspecto mais complexo do tema ou, de lápis na mão, reconstruía, com a intuição do génio, uma cena viva e animada de algum baixo relevo de Tebas ou da Assíria.
Observando-a mais calma e mais alegre, Madame Raban convidou-a a comparecer às suas recepções e, apesar de Tâmara haver solicitado reiteradamente que fosse dispensada de tais reuniões, que lhe eram penosas, a Baronesa insistiu.
— Eu gosto de você e a considero como uma filha e é nessa qualidade que lhe peço ajudar-me a fazer as honras da casa.
Na minha idade, isso já vai se tornando exaustivo, pois adoro ver e ouvir os jovens conversarem e se distraírem.
Uma vida reclusa como a que você leva é prejudicial ao espírito e à saúde.
A moça achou que não tinha o direito de teimar por causa de coisa tão fútil e, conformando-se de boa vontade ao desejo da velha amiga, passou a vir regularmente às reuniões de segunda-feira.
Continuava a usar luto, o que também a levava a economizar com suas roupas e quando, amável e sorridente, circulava entre os convidados, era de crer-se que ela estava consolada ante a perda de sua fortuna e a necessidade de trabalhar para viver.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 12, 2016 9:17 pm

Tâmara era muito bonita e muito inteligente para passar despercebida num salão.
Sua conversa interessante, seu raro saber, suas observações um tanto cáusticas e mordazes, mas sempre justas, provocavam alegria e interesse.
Homens e mulheres, jovens e velhos, reuniam-se espontaneamente em tomo dela e para cada um deles tinha um sorriso amável e um assunto que lhes era agradável.
Essa polidez, aliás, era a mesma para todos.
Seria impossível perceber-se a mais leve preferência pelos jovens que se aproximavam dela.
Ela conversava com todos com o mesmo entusiasmo, mas desde que a conversação cessasse ela parecia esquecer seu interlocutor e sua aparência de abandono cobria-se de uma glacial reserva ante a qual eram mantidos a distância mesmo os mais ousados.
Nunca procurava também encontrar-se alhures com os conhecidos de Madame Raban.
Aceitava-lhes os convites com um sorriso de quase reconhecimento, mas jamais comparecia.
Um dia que Tâmara se encontrava com a Baronesa numa das suas crises de reumatismo e para a qual havia escrito algumas cartas, a velha dama lhe disse:
— Preciso repreendê-la, Tâmara.
Há muito tempo venho pensando em fazê-lo.
— Por que, cara Vera Petrovna?
A senhora está descontente comigo? — perguntou apoiando a cabeça no ombro da velha senhora.
Esta deu-lhe uma palmadinha no rosto e lhe disse:
— Sim, estou descontente com você.
Você é muito pouco vaidosa e não tem o menor interesse em agradar aos homens que fica conhecendo em minha casa.
Há entre eles alguns partidos bem aceitáveis, alguns mesmo excelentes e preciso pensar em conseguir uma situação definida para você.
A moça enrubesceu bruscamente.
— Situação definida para mim?
Em outras palavras:
procurar vender-me a qualquer preço, mendigar um casamento, expondo-me às inevitáveis recusas, pois sou pobre.
— Você exagera, como sempre.
Sem dúvida, um bom dote atrai muitos homens, mas nem todos.
Centenas de moças pobres se casam e inúmeros homens também se casam, sem nenhum interesse, com mulheres até menos recomendáveis, somente porque se amam.
Por que você não conquistaria também um coração?
— Porque me faltam absolutamente os encantos que, somente eles, podem agradar a um homem de nossa sociedade actual — disse Tâmara, enquanto uma expressão dura e desdenhosa marcava seus lábios.
Já se foram, Vera Petrovna, os tempos em que a mulher reinava pela beleza, a inteligência e a virtude — hoje, ela reina somente pelo dinheiro e pela perversidade.
Só o vício pode competir com o dinheiro.
Se a mulher não tenta o homem pela riqueza, ela deve distraí-lo de seu tédio enfastiado por sua depravação.
Que ela seja feia ou ignorante não importa!
Quanto mais provocante e sem escrúpulos, quanto mais sua monstruosidade moral supera sua monstruosidade física, mais ela agrada. Quanto a mim, sou sem graça e nula.
Não sou nem bastante desmoralizada, nem suficientemente rica para inspirar o amor a um desses cavalheiros.
Armada somente com a dignidade, o dever e o trabalho, como poderei encontrar o caminho que leva a um coração?
Por isso renunciei de uma vez por todas ao inútil incómodo de fazer uma conquista e o faço sem pesar, porque ninguém me agrada.
Parecem-me todos iguais, na sua mesquinha mediocridade, avidez e falta de sentimentos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 12, 2016 9:18 pm

Madame Raban ouvira tudo admirada e consternada.
— Minha filha, você me surpreende.
Para dizer a verdade, eu pensava que Liveski e Wemer agradavam-na.
Você está sempre tão animada quando conversa com eles...
— Ah! Vera Petrovna, meu sorriso é uma mentira dos lábios, na qual a alma não toma parte.
Não posso agir de outra maneira em sua casa, mas alguma vez procurei esses cavalheiros fora daqui?
Claro, eles riem de boa vontade ante uma brincadeira, gostam de conversar entre duas partidas de whist9 ou durante um jantar.
Talvez até aceitassem com benevolência um pequeno mexerico, mas casarem-se comigo, isso não.
Iriam rir-se na cara de quem lhes propusesse tal coisa.
Sei disso tudo, mas não posso mostrar-lhes abertamente como eu os conheço e o quanto os desprezo — eu criaria inimigos; cada um deles julga que vivo a suspirar por eles, sem nenhuma esperança, mas nenhum deles me perdoaria a indiferença.
Que acreditem, portanto, que nutro a esperança de agradar-lhes — isso é como um escudo que me defende da maldade deles.
— Tâmara, Tâmara, você está errada, minha filha — exclamou a Baronesa com desaprovação.
Você se embala num orgulho ilimitado, envolvendo numa condenação geral o culpado e o inocente, tentando manchar e negar o sentimento mais profundo e mais legítimo da alma humana.
O amor de uma jovem, ainda que infeliz e endereçado a um homem indigno, é um sentimento natural, que aquece e enobrece.
A odiosa dureza que invade seu coração é anormal e lhe acarretará tormentos futuros.
Uma indefinível expressão de amargura sombreou o rosto de Tâmara.
— A senhora teria razão, Vera Petrovna, se eu ainda acreditasse no amor como numa verdade vivificadora, mas por toda a parte só vejo interesses e sentimentos que se vendem a peso de ouro.
Trabalhando agora junto de muitas famílias, pertencentes a várias classes sociais, tenho contemplado tais abismos.
Esses casais unidos, pelo interesse não se amam nem se estimam um ao outro — parecem-me dois escravos a arrastarem os grilhões da hipocrisia até que algum escândalo os separe, ou que a indiferença se converta em ódio, fazendo um suplício de suas vidas em comum.
Não quero nem falar das infelizes crianças, testemunhas de tais discórdias:
desmoralizadas desde tenra idade, elas também integram essa sociedade sem princípio e sem coração que, petrificada no egoísmo, se rejubila com a desgraça alheia, não pensando senão em explorá-la.
— Meu Deus! filha querida, você vê tudo tão negro, que é difícil discutir com você.
Sem dúvida, é do espírito de nosso tempo pôr em tudo certa dose de interesse.
Vivemos num século prático; além disso, nosso clima frio reage sobre a natureza humana e faz nossos cavalheiros menos exaltados e seus cérebros menos ardentes que nos povos do sul.
— Ah! minha excelente amiga, seus argumentos são de uma deplorável fragilidade — disse Tâmara rindo.
Será o clima que impede ou que incita as pessoas a serem egoístas e a traficar com os sentimentos mais sagrados?
Veja! — ajuntou ela — como se exaltam assim que farejam algum interesse ou um dote considerável.
Que paixões africanas não se acendem nessa hora!
E, com isso, nenhum escrúpulo, nenhum sentimento de afeição ou de estima que imponha certo freio aos instintos brutais.
Sua melhor amiga não hesitará em roubar o amor de seu marido, se ele agradar-lhe e, se a oportunidade a favorecer, ela o pilhará e lhe deixará no abandono.
E os homens!
O amigo do marido não é frequentemente o amante da esposa?
O marido não se vale da bolsa da mulher para pagar suas próprias orgias?
Não, não, Vera Petrovna, deixemos essa lama que se oculta sob as aparências da honestidade, mas à qual não se pode tocar sem despenhar-se num atoleiro de abominações.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 12, 2016 9:18 pm

Se me deixe levar a falar de tais coisas, foi para assegurar-lhe de que não aspiro, de forma alguma, ao casamento, que nada quero desses homens cujo coração corrupto não pode proporcionar felicidade a ninguém, que contaminam o que tocam, que estão de tal forma desabituados da companhia de mulheres honestas, que fogem delas.
Prefiro trabalhar para o meu sustento e o das crianças do que ligar-me a um esposo, que deve ser odioso na intimidade para uma mulher de sentimentos delicados.
A Baronesa balançou a cabeça, mas deixou extinguir-se o assunto.
Estava entristecida e lhe parecia que a sua amiga favorita cavara um abismo entre ela e o mundo real, que é preciso ser encarado tal qual é.
Por outro lado, ela estava estupefacta ante a flexibilidade e a dissimulação da moça que, com a amargura e o desprezo na alma, sabia sorrir tão alegremente e tão descuidadamente fazer brilhar seu espírito e levar cada um a crer que lhe era particularmente simpático.
E na verdade, Tâmara era fria e julgava impiedosamente os jovens que se aproximavam dela.
Seu jovem coração, estrangulado no desabrochar da vida pela mão gelada do destino, estava coberto por uma camada de gelo que até aquele momento não conseguira derreter-se.
Eram os últimos dias de novembro.
Como de hábito, Tâmara trabalhava no atelier, dando os retoques finais no retrato de um bebé para entregá-lo no dia seguinte, quando o tilintar de esporas e o tom sonoro de uma voz, que lhe parecia familiar, atraíram sua atenção.
— Não posso esperar, senhor Belzoni.
Preciso que o retrato esteja pronto o mais cedo possível — é um presente que prometi à minha noiva.
— Estou desolado, senhor Príncipe, mas aceitei encomendas que não poderei cumprir.
Há, porém, um meio de conciliar tudo.
Dê-me a honra, Alteza, de examinar este retrato do General Ratmiroff.
Satisfaz-lhe a execução?
— Sim. Ele me parece muito bem feito e a semelhança é impressionante.
— Foi feito por uma jovem artista, minha colaboradora.
Ela está terminando hoje um trabalho e pode começar o seu retrato logo em seguida, se o Senhor Príncipe concordar.
— Perfeitamente.
— Então, Alteza, passemos ao atelier contíguo.
Profunda palidez cobriu o rosto de Tâmara — ela acabara de reconhecer a voz de quem falava — era o Príncipe Arsénio.
A sorte não lhe poupava nem mesmo aquela humilhação:
aquele a quem, mais do que qualquer outro, ela desejava evitar, tinha agora que pintar por dinheiro.
Ela não vira mais o Príncipe desde a sua desgraça.
No ano anterior, sua vida fora muito reclusa e ela sabia que naquele inverno ele estaria ausente, em vista de ter acompanhado seu chefe à Crimeia.
Deveria ter voltado há pouco, mas quem seria sua noiva?
Todos esses pensamentos haviam passado como um relâmpago pela mente da moça.
No mesmo instante, o italiano levantou a cortina, fazendo entrar Arsénio Borissovitch, que estacou, espantado.
— Senhorita Ardatov, peço-lhe o obséquio de tratar agora o retrato do Príncipe Ugarine.
A senhora deve discutir com Sua Alteza as condições do retrato.
Voltarei dentro de um momento — disse Belzoni retirando-se, com caprichadas mesuras.
Ligeiro rubor passou rápido pelas faces do Príncipe e seu olhar ficou pregado na moça que, de pé, junto ao cavalete, também o fitava.
Na sua simples e severa roupa de luto, ela parecia maior e, da larga faixa crepe que envolvia seu pescoço, destacava-se vigorosamente sua bela cabeça de cabelos encaracolados, mas, no rosto pálido e imóvel, somente os olhos pareciam vivos e o olhar que cintilava sob os cílios um tanta abaixados era cortante e duro como uma lâmina de aço.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Feira dos Casamentos / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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