MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 10:02 am

- Eu não quero -– resmungou, falando quase com a boca fechada.
- Que pena –- lamentou o tio.
Se tomasse o leite e comesse... deixe-me ver... uns três bolinhos, nós iríamos lá ver o cavalinho.
O menino ficou pensativo e olhou para a caneca que a bisavó colocou a sua frente.
Felipe adoçou seu café e tomou um gole.
Pegou um bolinho e comeu.
Em seguida, virou-se para Vanessa, que estava sentada quase a sua frente adoçando o café e falou:
- Acho que vou embora daqui a pouco.
- Por que não deixa para amanhã? -– ela sugeriu.
- Seria bom combinarmos o quanto antes, o que vamos fazer quanto aos exames de compatibilidade, não acha? -– perguntou ele.
- Se quiser, posso ir com você amanhã, daqui directo para o hospital.
- Precisamos conversar sobre o hospital, sobre o plano de saúde... -– tornou ele.
- Não posso mudar de plano agora, Felipe.
Tenho de vender a pousada primeiro.
Tenho um negócio quase fechado...
- Não faça nada por enquanto.
Espere um pouco -– pediu ele, olhando-a firme.
Não estava muito à vontade para falar.
- Eu já disse para ela que a gente poderia vender esta fazenda aqui, em vez daquela pousada.
Lá o negócio é muito bom e mais lucrativo.
Aqui tudo é muito trabalhoso -– disse a senhora, que se aproximava, sentando-se à mesa.
Vanessa viu quando Felipe entregou um bolinho na mão de Rafael e o menino ficou olhando.
Depois, lentamente, levou-o à boca e começou a mordiscar.
Mas não disse nada e a conversa seguiu.
- Também acho que ela não deveria vender.
Pelo menos por enquanto -– opinou o rapaz.
A Vanessa e o Rafael não estão mais sozinhos nessa situação.
Se depender de mim...
- Seria melhor o pai de Rafael tomar conhecimento de tudo isso primeiro.
Pelo que eu entendi, o Diogo ainda nem sabe, não é mesmo? -– disse Henriette.
- Meu irmão vai saber.
Mas, até lá, devemos tomar algumas providências.
- Como, até lá?
Pensei que fosse chegar até a sua casa e contar para ele.
Não seria esse o certo, filho? -– tornou a senhora de fala mansa e ponderada, mas bem directa.
- Acho que essa não é uma notícia a ser dada por telefone.
Farei de tudo para que o Diogo venha ao Brasil e, aqui, será melhor saber pela Vanessa -– Felipe reforçou.
- Mas ele precisa vir o quanto antes.
Precisa fazer o exame para saber se existe compatibilidade para a doação -– insistiu Henriette.
- Sou gémeo dele, a senhora se esqueceu?! -– sorriu ao lembrar.
Gémeo idêntico. Vou fazer os exames para adiantar tudo.
O Diogo só vai saber, por telefone, se não tiver outro jeito, pois é um assunto bem importante e delicado.
Ou então... pensando bem, se não tiver jeito, vou até a Alemanha contar para ele.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 10:02 am

Rafael, silencioso, bebericava vagarosamente o chocolate cremoso e mordia bolinho a bolinho, parecendo alheio à conversa.
- Você não acha que o Diogo precisa saber disso o quanto antes, Vanessa? -– insistiu a senhora.
- Acho, vovó.
Só que o Felipe tem razão.
Não é assunto a ser tratado pelo telefone.
Existe uma esposa e um filho, e ele está longe.
Não vai dar para nós conversarmos direito.
- Acho que é a nossa neta que tem de decidir isso, Henriette -– opinou o senhor Dionísio parecendo descontente com a teimosia da mulher.
- É que... Penso que, se houver compatibilidade, o melhor seria o Diogo ser o doador.
Ele é o pai -– foi directa novamente.
Ela não escondia o que pensava.
- O melhor é decidirmos o que é mais rápido e saudável para o Rafael -– tornou Felipe, procurando não mostrar sua insatisfação pela insistência naquele assunto sobre o seu irmão.
Henriette não disse mais nada, embora, de alguma forma, parecesse contrariada.
- Meu pai vai vir me conhecer? -– perguntou Rafael chamando a atenção de todos.
- Vai. Ele virá te conhecer.
Eu te garanto isso -– afirmou Felipe, fazendo-lhe um carinho nos cabelos e beijando-o rapidamente na cabeça.
- Eu já expliquei para o Rafael que ele está doentinho.
O corpo dele não está funcionando direito como deveria.
Por isso ele está precisando ir tanto ao médico e hospital.
Ele é esperto e capaz de entender muito bem -– explicou Vanessa.
- É... E você disse que eu preciso de alguém pra doar para mim umas células que são a fabriquinha de sangue, porque a minha fabriquinha de sangue não está funcionando direito.
Então, né, vou fazer um tratamento até aparecer alguém que tem a fabriquinha igual a minha e vai me doar um pouco de células para minha fabriquinha funcionar melhor.
Aí meu corpo vai fabricar sangue novo e bom.
Aí não vou me sentir fraco como eu sinto.
- Isso mesmo.
A mamãe ainda explicou que isso só pode ser feito quanto tem alguém com essa fábrica igual a sua, do mesmo tipo.
E isso é mais fácil com algum parente -– tornou Vanessa.
- Então meu pai vai vir aqui para ver se ele tem essa fábrica de sangue igual a minha pra ele ser doador.
- Você é muito esperto, Rafael.
Parabéns! -– cumprimentou o tio.
- Eu comi tudo e tomei o chocolate.
Você vai me levar pra ver o cavalinho agora?
Novamente Vanessa fuzilou Felipe com os olhos.
Embaraçado o rapaz argumentou:
- Pelo facto de sua fabriquinha de sangue não funcionar direito, você está sensível, frágil e pode ficar doentinho com facilidade.
Por isso eu vou propor a sua mãe que deixe você ir ver o potrinho no meu colo, sem ir para o chão e sem chegar perto.
Se ela deixar, nós vamos. Certo?
- Deixa, mamãe, deixa!
Deixa, vai!
Ela sorriu e concordou.
Satisfeito, Felipe tomou Rafael nos braços e o levou para ver o cavalinho.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 10:02 am

Capítulo 11 - Em busca de um doador

Na manhã seguinte, bem cedinho, Felipe estava com as mãos espalmadas no peitoril da mureta da varanda, olhando a imensa e linda paisagem à sua frente.
Aquela vista era inebriante.
Apesar de ser verão, o ar puro e frio daquela hora do dia invadia seus pulmões deixando-o cada vez mais desperto, lúcido e atento.
Enquanto sentia a brisa fresca acariciar seu rosto liso pela barba bem feita, escanhoada naquela manhã, contemplou os animais, ao longe, em pasto reservado por cercas brancas, destacando-se na relva verde-esmeralda, cortada por um rio estreito que abastecia um lago represado e depois seguia o curso natural para além da planície e entre as montanhas, que também faziam parte daquelas terras.
Tudo era divinamente lindo.
Lembrou-se de Rafael e sorriu sem perceber.
Havia se afeiçoado muito rapidamente ao sobrinho.
Pensou em Vanessa e seu olhar brilhante se perdeu no horizonte.
Encantou-se por ela, sentiu algo que nunca havia experimentado.
- Bom dia! -– cumprimentou a voz doce e agradável de Vanessa às suas costas.
Virando-se rapidamente, ele sorriu respondendo:
- Bom dia.
- Dormiu bem?
- Muito bem. Obrigado.
Um segundo e comentou:
- O nascer do sol aqui é lindo!
- É mesmo. Nunca me canso de ver.
No inverno, o sol nasce um pouco mais ali -– apontou -, entre aquelas montanhas.
Seus raios passam entre as araucárias e uma fina camada de luz entremeia-se pela neblina tocando o gramado, os arbustos e o lago.
É simplesmente encantador!
- Imagino que sim!
Um momento, e o deixou olhar na direcção, acreditando que ele representava a cena deslumbrante na imaginação.
Depois o chamou:
- Vamos tomar o café da manhã?
- Sim, claro.
Será bom pegarmos a estrada o quanto antes, mas...
Tocando seu braço, pediu com carinho em voz baixa:
- Vem cá... -– tentou abraçá-la.
Delicadamente, Vanessa resistiu, falando com voz meiga:
- Felipe... Por favor.
Próximo, não insistiu no abraço, mas tocou em seu rosto e prendeu seu cabelo atrás da orelha.
Depois, com as costas da mão, acariciou levemente seu rosto, mas ela se afastou lentamente:
- Vamos entrar? -– Vanessa o chamou novamente.
- Vamos –- concordou.
Ao se sentarem à mesa, Henriette, que já o havia cumprimentado, perguntou:
- O que vocês decidiram sobre o hospital?
Eu os ouvi falando sobre isso ontem à noite.
- Não são muitos os hospitais que fazem esse tipo de transplante aqui no Brasil.
O Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais, onde estou levando o Rafael, é o que foi indicado a princípio.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 10:02 am

Mas o Felipe me sugeriu outro em São Paulo e estou pensando.
Entramos na internet e fizemos algumas pesquisas.
- Hoje vamos lá e a Vanessa vai levar os exames do Rafael para termos mais orientação.
É sempre bom ter uma segunda ou terceira opinião.
Vendo-a com o semblante preocupado, Vanessa tranquilizou:
- Vovó, nós temos de escolher o melhor para o Rafael.
- Não tenho dúvidas disso.
Só penso que pai dele deveria saber o quanto antes e...
- Dona Henriette -– interrompeu Felipe, educado -, não vamos omitir nada disso do meu irmão, porém, esse assunto com ele pode esperar.
Enquanto isso, não vamos ficar parados de braços cruzados, aguardando o Diogo para tomar decisões e medidas que cabem a nós, agora, com urgência.
A senhora se contentou e não disse mais nada.
Terminaram o café.
Vanessa fez uma pequena mala.
Viajaram juntos para São Paulo, na Pick-up de Felipe.
O quanto antes, procuraram em conceituados hospitais especializados no procedimento de transplante de medula óssea o máximo de informações para o caso de Rafael.
Exausta, no fim do dia, em um restaurante, Vanessa estava sentada em frente a Felipe.
Naqueles minutos de silêncio, que aguardavam para serem servidos, ele a observou por longo tempo e ficou pensativo.
Não sabia se aquele era o momento de contar sobre a morte da esposa e do filho de Diogo que havia ocorrido poucos dias antes.
Por um instante ficou temeroso.
Gostaria de conquistá-la de qualquer forma e o quanto antes, mas...
E se Vanessa ainda gostasse de seu irmão e, ao tomar conhecimento daquela notícia, tivesse esperança de ficar com Diogo?
E se Diogo, ao saber que tinha um filho com ela, insistisse com Diogo?
Como agir?
Felipe não sabia o que fazer.
Achou que não havia lutado o suficiente por Ceres.
Deveria, de alguma forma, ter sido mais insistente na época.
E se isso voltasse a acontecer?
E se Diogo quisesse lutar por Vanessa?
O que ele deveria fazer?
Certamente não iria suportar.
Não pela segunda vez.
Embora a conhecesse havia tão pouco tempo, sentia-se apaixonado.
- Estou tão cansada... -– murmurou Vanessa, tirando-o daqueles pensamentos.
- Saindo daqui nós vamos para aquele hotel onde ficou.
Aí você toma um banho, relaxa...
- Você vai telefonar para o Diogo hoje?
- Vou. Assim que chegar à minha casa.
- Seria bom que sua mãe e suas irmãs não soubessem disso antes dele.
- Concordo. Vou ser cauteloso.
Jantaram e, pouco depois, já no quarto do mesmo hotel em que se hospedou da última vez, Vanessa se sentiu sem jeito pela companhia de Felipe, que se sentou na cama enquanto ela tirava os sapatos e arrastava a mala para perto de um sofá.
Olhando-a ternamente, Felipe murmurou com sua voz forte e calma:
- Vai dar tudo certo.
Vamos trazer o Rafael para cá e...
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 10:02 am

- Quando se demora muito para encontrar um doador, o caso se agrava.
E se você e mais ninguém de sua família puderem ser doadores, como vai ser?
- Não vamos pensar nisso.
Vamos encontrar um doador.
Convidaremos pessoas conhecidas, usaremos a internet, páginas de redes sociais.
Faremos tudo o que for preciso.
Agora é importante você descansar.
Amanhã teremos outro dia cheio e...
Eu tenho de ir.
- Você me liga assim que falar com o Diogo?
- Ligo sim. Não vou contar nada para ele por telefone.
Pode confiar em mim.
Também acho que é você quem deve falar tudo.
- Precisa encontrar um jeito de trazê-lo para o Brasil.
- Ainda não sei como vou fazer isso.
Nós dois não conversamos há muito tempo e...
- Vai conseguir.
Tenho certeza -– disse olhando-o como se Felipe fosse sua última esperança.
Seus olhos se imantaram por algum tempo.
Nenhuma palavra.
Ele se levantou, deu um suspiro e forçou um sorriso leve que foi correspondido no mesmo grau.
Procurou pelas chaves do carro e se aproximou, afagando-lhe rapidamente o rosto com as costas da mão ao dizer:
- Se cuida. Descansa.
Quando eu chegar à minha casa, te ligo.
- Vou esperar.
Felipe deu-lhe um beijo no rosto e se foi.
Conforme combinado, ao chegar a sua casa, ligou para Vanessa querendo se estava tudo bem.
Disse que, talvez ligasse para o irmão ao amanhecer por causa do fuso horário.
Bem mais tarde, após um banho demorado em que aproveitou para relaxar e reflectir, Felipe sentou-se em sua cama, pegou o telefone e ficou rodando-o de uma mão para outra.
Estava apreensivo.
Não conseguia se livrar da inquietude atroz, desumana, incontrolável.
Consultou o relógio, quase uma hora da manhã.
Calculou o fuso horário e viu que seriam quase seis da manhã, em Berlim, na Alemanha.
Uma ansiedade o angustiava.
Não sabia direito o que falar ao irmão, embora tivesse de fazê-lo.
Buscando na memória do aparelho, encontrou o número telefónico e não vacilou, confirmando para a ligação a ser contemplada.
Escutou chamar poucas vezes até que a voz do irmão atendeu, e Felipe o chamou:
- Diogo?
Silêncio total.
Ele sabia quem era.
Depois de tantos anos, depois de tanta ausência e em um momento delicado, ouvir a voz de Felipe foi uma grande emoção.
Por causa da demora aflitiva, o outro insistiu:
- Diogo, sou eu, o Felipe.
Ele estava sensível, deprimido.
Não conseguia suportar tamanha dor e o outro sentia.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 10:35 am

Felipe passou a escutar sua respiração forte misturada a soluços insistentes.
Naquele momento, percebeu que já deveria ter falado há muito tempo com seu irmão.
Deveria tê-lo procurado assim que soube do acontecido com sua mulher e filho.
Uma dor imensa, tanto quanto a do outro, apertou o peito de Felipe que, não resistiu e chorou junto.
Algum tempo e Felipe pediu com a voz entrecortada:
- Me perdoa, cara...
Me perdoa por não ter te procurado antes...
Eu sei... Eu sinto como está sendo difícil pra você, meu irmão...
Mas Diogo não dizia nada.
Só chorava e ouvia.
- Diogo? -– insistiu.
Diga alguma coisa, cara.
- O que eu posso dizer? -– perguntou com a voz rouca e trémula.
- A gente precisa conversar, meu.
Precisamos trocar um abraço, sentar e conversar...
Já deveríamos ter feito isso há muito anos.
- Tá sendo difícil para mim, meu irmão.
- Eu sei -– afirmou Felipe.
Você sabe que eu sei. Eu sinto.
- Meu filhinho...
Você nem chegou a conhecer o Raphael...
Felipe sentiu como se uma faca tivesse sido fincada em seu peito ao se dar conta de que o irmão nem imaginava que tinha outro filho e com o mesmo nome: Rafael.
Mesmo assim, respondeu:
- Eu o vi por fotos, pelos vídeos que você mandou pro pai...
- Não tá pra aguentar, Felipe.
É muito difícil.
- Diogo, presta atenção:
é o momento de você tirar umas férias e vir pra cá.
Precisa ficar com sua família.
- Não... Não quero ir para aí.
Estou sem ânimo, sem vontade...
E outra, eles estão aqui -– referiu-se a mulher e o filho enterrados na Alemanha.
- Você sabe tanto quanto eu que eles não estão aí.
Aproveite que o pai está aí e... volte com ele.
O pai vai voltar amanhã.
- Então aproveita a companhia dele e...
- A nevasca foi intensa este ano.
Os aeroportos estão com dificuldades.
Os voos estão lotados.
Não vou conseguir passagem e... ...também não quero voltar para Brasil.
- Seria bem importante para gente.
Precisamos conversar.
- Podemos continuar nos falando por telefone, pela internet...
Não podemos, Felipe?
- Claro que sim.
Só que, não é a mesma coisa. Você sabe.
- Por enquanto vamos deixar assim.
Estou tentando retomar minha vida, voltar ao trabalho.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 10:36 am

Mas não está fácil.
Tudo me lembra ela e o meu filho.
Aqui em casa, tudo me lembra o Raphael.
Fico com a impressão de que ele vai aparecer correndo a qualquer momento e...
Como se não bastasse, a Ceres está em todos os detalhes da casa, nós trabalhávamos juntos e lá na empresa eu só me lembro dela.
Continuaram conversando por longo tempo, mas Felipe não conseguiu convencer o irmão a retornar ao Brasil.
Ao terminar a ligação, Felipe consultou o relógio e viu que era muito tarde para ligar para Vanessa.
Talvez ela já estivesse dormindo.
Contaria tudo, pessoalmente pela manhã.
Tinham muita coisa a fazer e passariam outro dia juntos.
Precisavam cuidar da transferência do tratamento de Rafael para São Paulo.
Com o passar dos dias, mesmo se falando diariamente, Felipe não conseguiu convencer o irmão a voltar para o Brasil.
Em meio a isso, Rafael foi trazido para a capital e seu estado delicado exigiu internação, que Felipe providenciou.
O garotinho foi submetido à cirurgia para a retirada de tumores formados na garganta e axilas, o que fez todos sofrerem angustiados, junto com ele.
Mas a maior decepção foi saber, após um simples exame de sangue, que Felipe e Rafael não tinham compatibilidade para o transplante.
Vanessa não suportou e chorou muito ao ver sua maior esperança se desfazer.
Entoa veio um momento bastante delicado:
todo o resto da família do pai de Rafael precisava saber de tudo.
Embora Diogo teimasse em ficar na Alemanha, Felipe decidiu reunir todos e contar o que estava acontecendo.
O verão se despedia em um sábado muito chuvoso do mês de março.
Um dia em que Felipe pediu a família algo inédito:
uma reunião com os pais e as irmãs.
- O que seu filho vai aprontar agora? -– perguntou o senhor Weber à dona Elza, preocupado com aquela situação muito diferente.
- Você tem de parar de falar coisas desse tipo a respeito dele.
O Felipe afastou de nós porque apoiamos o namoro de Diogo com a Ceres.
Temos de admitir que foi um golpe muito duro para ele.
Nunca o chamamos e conversamos a respeito.
- Ele abandonou o trabalho.
Viajou por aí sem rumo...
Ficou anos sem dar notícias.
O que queria que eu fizesse?!
Nesses anos todos, não sabemos o que fez.
Voltou cheio de dinheiro e, nos últimos meses, não o vejo trabalhar e vive cheio de mistérios.
Nem parar em casa ele para, muito menos conversa com ele.
- Ele conversa com a Priscila -– a mulher contrapôs.
- Conversa tanto que ela sabe sobre ele menos do que nós -– falou em tom irónico.
- Se quer saber por onde ele andou ou o que fez, por que não pergunta para o seu filho?
Porque não conversa com ele?
Não houve resposta.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 10:36 am

Cláudia e Priscila, que estavam no quarto, chegaram à sala de estar e a filha mais velha perguntou:
- O Felipe ainda não chegou?
- Não –- respondeu o pai, parecendo insatisfeito.
- Eu tinha uma festa para ir hoje.
Ai que saco! -– reclamou Priscila pela demora.
Enquanto isso, descargas eléctricas caíam uma após outra, seguida de trovoes que explodiam no ar.
Dona Elza olhou e viu quando os faróis da camionete do filho passaram pelas vidraças da sala e anunciou:
- O Felipe chegou!
Não demorou e o rapaz abriu a porta da sala entrou, seguido por Vanessa.
A expectativa foi geral.
Com excepção da senhora, que a tinha visto uma vez, mas nem lembrava o seu nome, ninguém a conhecia, muito menos sabia quem era ou por que estava ali.
Silenciosos, não entendiam o que estava acontecendo.
- Oi, todo mundo! -– disse o rapaz sorrindo meio sem jeito pelo nervosismo que tentava disfarçar.
Não demorou e apresentou:
- Pessoa, esta é a Vanessa e...
Vanessa, estes são meus pais e minhas irmãs.
Embora, minha mãe, você já conhece.
Todos a cumprimentaram simpáticos e educados, mesmo com a curiosidade a correr pelas veias.
- Por favor, sente-se -– pediu a dona da casa, sempre atenciosa.
Nós já nos conhecemos, mas não conversamos muito.
Foi tão rápido.
- Sim. É -– confirmou ela bem nervosa, sentindo a voz tremer na garganta ressequida.
Um minuto de silêncio e, ao ver todos se entreolharem, aguardando ansiosos para saber do que se tratava, Felipe, acomodado ao lado da convidada, decidiu contar:
- Bem pessoa, o negócio é o seguinte...
Tempos atrás eu estava chegando aqui em casa e Vanessa estava no portão.
Ele revelou exactamente tudo o que aconteceu.
Diante da perplexidade, desfechou:
- Então é isso.
Só que o Diogo ainda não sabe de nada.
Estou tentando persuadi-lo a vir para o Brasil, pois essa não é uma notícia que se dê por telefone e...
- Mas o Diogo...
- Espera, Cláudia -– pediu o irmão espalmando a mão em sua direcção para que se calasse.
Não queria que nem ela nem ninguém fizesse qualquer revelação ainda.
Como eu ia dizendo...
Não é algo para se contar por telefone.
Acredito também -– enfatizou -– que o Diogo precisa conversar com a Vanessa pessoalmente e contar, explicar, falar... sei lá... tudo o que ele quiser.
Entenderam? -– deu ênfase novamente, junto com uma gesticulação onde fez com que todos entendessem que era Diogo quem deveria contar sobre a própria vida.
E tornou a ressaltar:
- Não sabemos o que ele quer expor, ou não, a ela e isso é entre eles. Certo?
- Não quero atrapalhar o casamento do Diogo.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 10:36 am

Ele deve viver bem com a mulher e o filho.
Por isso acho importante nós conversarmos e ele decidir o que contar à esposa.
- Também concordo com a Vanessa! -– tornou Felipe não dando trégua ao sentir o olhar de assombro de todos se virarem para ele.
Já haviam se espantado antes, quando ouviram o nome do menino ser pronunciado, mas ninguém falou nada.
Somente olharam para o rapaz que pediu calma e prosseguiu com o relato.
Naqueles poucos meses, antes de chegarem até ali, Felipe procurou auxiliar Vanessa e o sobrinho e, com isso, viu-se ainda mais apegado ao menino e apaixonado por ela.
Ajudou-a, não só pela necessidade, mas também pelo prazer de sua companhia.
Procurou estar sempre presente, confortá-la, ser seu braço forte, oferecendo o ombro amigo e mostrando-se alguém em que ela poderia confiar.
Com isso aos poucos, foi se aproximando e procurando conquistá-la.
Ainda muito perplexo com a notícia e também pela omissão que viu o filho fazer, o senhor Weber se levantou preocupado e, após alguns segundos em que foi seguido pelos olhares de todos, virou-se e perguntou:
- Então... Se o Felipe não é compatível, o Diogo também não é?
- Sim -– respondeu o rapaz de pronto.
- Mesmo ele sendo pai? -– tornou o homem.
- Somos gémeos idênticos, clones um do outro.
O senhor esqueceu?
Se eu não sou compatível, ele também não é.
- Então... -– o senhor pareceu ter alguma dúvida, mas não se manifestou e ficou olhando para Vanessa, detendo as palavras.
Esperta, entendendo o seu olhar, ela se pronunciou:
- Senhor Weber, estou disposta a um teste de paternidade, assim que o Diogo chegar ao Brasil.
Não quero que haja qualquer dúvida quanto à paternidade do meu filho.
- Eu não disse nada.
Só penso que o pai, talvez, seja o doador mais compatível.
Não acredito muito nessa história de... de... de clone, de algo tão idêntico em gémeos iguais.
Não sei. isso não entra na minha cabeça.
- Querendo o senhor ou não, geneticamente falando, eu sou cem por cento igual ao meu irmão.
Isso é a ciência quem diz, não eu.
Se eu não sou compatível para a doação de medula óssea ao Rafael, o pai dele também não é, apesar de ser o pai.
Até onde sei, a chance de encontrar um doador compatível de medula óssea é, em média, uma chance em mil.
Esse é um número muito alto.
As chances são poucas e pioram por conta do baixo número de pessoas candidatas à doação, tendo em vista o número de gente que há nesse país -– explicou o Felipe.
Nem sempre pai e mãe são compatíveis com o filho.
A compatibilidade ideal aumenta, com uma chance bem maior, entre irmãos do mesmo pai e da mesma mãe.
Essa chance sobe para 25%.
A compatibilidade para o transplante de medula óssea tem de ser total entre doador e receptor.
Caso contrário, haverá rejeição.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 10:36 am

Essa compatibilidade entre as células do doador e do receptor é determinada por um conjunto de genes localizados no cromossomo 6, que devem ser exactamente iguais.
Para isso, existem testes laboratoriais específicos a partir de uma simples amostra de sangue de ambos.
- É um exame chamado de Histocompatibilidade -– HLA -– completou Vanessa.
- Por isso é que precisamos de vocês.
Precisamos dos amigos, dos conhecidos e desconhecidos -– tornou Felipe.
Podemos encontrar um doador na família, mas também podemos encontrá-lo em qualquer outro lugar, longe ou perto, onde nem podemos imaginar.
- Por essa razão para os necessitados de um transplante de medula óssea, foi criado o REDOME -– Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea -– que hoje tem, no Brasil em torno de três milhões de pessoas cadastradas a candidatas para doação. Isso é muito pouco, tendo em vista as pequenas chances de se encontrar um doador que, como o Felipe lembrou, é de uma chance em cem mil. É preciso conscientizar as pessoas sobre a importância de se salvar uma vida, sobre a importância de se ser um doador voluntário.
- O que faz exactamente o REDOME? -– interessou-se Cláudia.
- Para ser doador voluntário, é preciso ter entre dezoito e a cinquenta e cinco anos de idade e ter boa saúde.
O candidato a doador deve procurar um hemocentro mais próximo de sua casa.
Lá será agendada uma entrevista para que ele se esclareça sobre a doação e tire todas as suas dúvidas.
Concordando em se candidatar para a possível doação, é preenchida uma ficha com todos os dados desse voluntário.
Logo, depois haverá a colecta de uma pequena quantidade de sangue, como um exame de sangue simples, em torno de cinco ou dez mililitros para se saber a tipagem de HLA, que é a Histocompatibilidade para se verificar e registar os genes do cromossomo 6 –- explicou Vanessa com voz doce e olhos ávidos.
Todas essas informações como o nome, o endereço, telefones e resultados dos exames, bem como as características genéticas do voluntário, vão ser arquivados no sistema informatizado do REDOME que fica instalado no INCA, que é o Instituto Nacional do Câncer, um órgão do Governo Federal.
Quando necessário, esse sistema informatizado cruza as informações genéticas entre o voluntário e o paciente que precisa do transplante e quando existe a abençoada compatibilidade, o doador é solicitado e consultado sobre a doação.
- Por tudo isso é muito importante o doador sempre actualizar seus dados como telefone e endereços nesse cadastro, em caso de mudança.
Nunca se sabe quando ele poderá salvar uma vida – contemplou Felipe.
- Eu tenho uma dúvida...
Será que, sendo doadora, eu não corro algum risco?
A medula óssea é a mesma que a medula espinhal?
Sei que, se eu quebrar a coluna espinhal, não ando mais.
Fico paraplégica ou tetraplégica -– indagou Cláudia com simplicidade.
Explicando ainda:
- Desculpe-me, mas... não tenho conhecimento.
Sou ignorante no assunto.
- Não se deve ter vergonha de perguntar o que não se sabe, Cláudia.
Você fez bem. Muita gente não sabe.
Eu mesmo tirei um monte de dúvidas antes de chegar aqui.
É o seguinte:
Não tem nada a ver uma coisa com a outra.
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Ave sem Ninho

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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 10:36 am

Até hoje, não se tem registos de quaisquer incidentes com doadores de medula óssea.
Não faz sentido prejudicar a saúde de um em favor de outro.
A medula óssea é um tecido líquido, meio gelatinoso, que se concentra na cavidade dos ossos.
É conhecida popularmente como tutano.
Aquele tutano que a gente vê no osso do boi, usado em cosméticos.
Ela é mais concentrada, mais activa no osso do quadril.
As células-mãe, que essencialmente compõem a medula óssea, são as responsáveis pela fabricação de vários elementos do sangue, como os glóbulos vermelhos, glóbulos brancos, plaquetas...
Já a medula espinhal é formada de tecido nervoso e ocupa o espaço dentro da coluna vertebral.
A partir do cérebro é a medula espinhal quem transmite os impulsos nervosos para todo o corpo.
Uma coisa é bem diferente da outra.
Ninguém vai tocar em sua medula espinhal caso você seja doadora de medula óssea.
- Ah... Entendi.
E... o que pode impedir uma pessoa de ser doadora?
- Aids, Hepatite C e câncer.
Aqueles que têm hepatite A e B, bem como, diabetes e pressão alta, entre outras doenças, podem se inscrever como doadores também.
Para esses, como para todos os voluntários, é necessário, quando aparecer um receptor precisando da doação, que o doador passe por uma bateria de exames a fim de assegurar suas funções orgânicas para ele não ter complicações e para que seja confirmado seu bom estado de saúde a fim de não colocar o receptor em risco -– explicou o irmão.
Ah! Além das condições clínicas, são verificadas as condições cardiovasculares do doador.
- Se eu for doadora e ajudar alguém e depois, se outra pessoa for compatível comigo e precisar da minha doação, eu posso ser doadora novamente? -– quis saber Priscila.
- Sem dúvida que pode.
A medula óssea é um transplante que se faz em vida e não se fica sem.
A retirada da medula para a doação é muito pequena.
Você doa menos de 15% de tudo o que tem.
Em duas semanas sua medula se reconstitui e estará inteiramente recomposta, recuperada totalmente e sem nenhum comprometimento na sua saúde -– respondeu Vanessa.
Interessada, com voz pausada e bem calma, dona Elza quis saber:
- Como é esse transplante?
- Existem dois tipos diferentes de procedimentos para se doar a medula óssea, que sempre são feitos em centro cirúrgicos.
O primeiro dura pouco tempo e é feito sob anestesia.
É realizada uma punção com agulha no osso da bacia onde é aspirada um pouco da medula.
O segundo é por punção de veia periférica, igual à doação de sangue.
Esse procedimento dura mais tempo em torno de cinco horas.
O sangue é filtrado e volta para o próprio doador.
Nessa filtragem são recolhidas somente as células-mãe e retirada uma quantidade pequena, porém valiosa para a doação.
Nos dois casos a medula, se regenera, totalmente, em quinze dias apenas -– respondeu o filho.
No procedimento onde é feita a punção no quadril, o doador pode sentir um incómodo, uma dorzinha, como se tivesse levado um tombo e isso pode durar até três dias.
Essa dor é amenizada com o uso de medicamentos simples, como analgésicos comuns.
- É bom lembrar que “para o doador é um incómodo passageiro, mas para o doente é a diferença entre a vida e a morte”.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 10:37 am

Isso é muito mencionado nas solicitações para a doação.
A doação é um gesto de amor.
Não basta a gente só se comover com as pessoas que precisam de um transplante de medula óssea, temos de tomar uma atitude e nos cadastrarmos para sermos possíveis doadores -– comentou Vanessa, alertando a todos.
- O que determina o tipo de procedimento para a doação é a gravidade do paciente.
Quando um necessitado leva muito tempo para encontrar um doador ideal, seu quadro se agrava e o médico recomenda que a doação seja feita pela punção no quadril.
É no osso do quadril que a medula óssea é mais activa, onde é mais encontrada -– tornou Felipe.
- Para o receptor, no caso do... Rafael... -– o senhor Weber sentiu-se abalado ao pronunciar o nome do neto.
Fez breve pausa e prosseguiu:
- Para Rafael, como será o transplante?
Vocês sabem?
- Ele vai ser submetido a um transplante em que, toda a sua medula óssea será destruída para atacar as células doentes.
Depois, ele vai receber a medula doada como se fosse receber uma transfusão de sangue.
Já na corrente sanguínea, a medula recebida, rica em células chamadas de progenitoras, circula normalmente até irem parar no lugar certo onde se desenvolvem.
Durante o tempo em que essa medula não é capaz de produzir os glóbulos vermelhos, os glóbulos brancos e as plaquetas na quantidade necessária dentro da normalidade, ele, assim como todo paciente que passa pela doação, fica vulnerável às hemorragias e infecções.
Por isso ele será internado em hospital próprio para isso e em regime de isolamento.
Vai necessitar de cuidados especiais, higiene...
Não terá contacto directo com ninguém...
Nem comigo... -– A voz de Vanessa embargou e ela não deteve as lágrimas nem o soluço que a fez parar de falar.
Felipe não suportou vê-la daquele jeito e colocou o braço sobre os seus ombros, puxando-a para que se recostasse nele.
Logo o rapaz finalizou:
- Esse período será longo...
Durará semanas....
Nesse tempo, apesar de todos os cuidados, o mal-estar, as febres vão acontecer.
Será uma fase bem difícil.
Secando o rosto com as mãos, Vanessa procurou se recompor e se afastou do abraço.
Comovida, Cláudia se levantou, sentou-se ao seu lado e afagou-lhe as costas suavemente, procurando consolar:
- Não fica assim.
Tenho certeza de que toda nossa família será voluntária e vamos encontrar um doador.
- Isso mesmo, Vanessa.
Você não está mais sozinha.
Estamos nessa luta juntos -– disse dona Elza com lágrimas correndo pela face.
- Quando podemos visitá-lo?
Onde estão instalados? -– quis saber o avô, comovido.
- Ele está internado.
Não esteve bem esses dias.
Por isso eu aluguei um apart-hotel para a Vanessa se instalar até... -– contou Felipe.
- Nem todos os que sofrem com leucemia precisam de transplante, mas no caso dele, é a única esperança -– tornou Vanessa.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 10:37 am

- Não existe alternativa, para quem precisa do transplante? -– perguntou dona Elza desejosa de ouvir outra resposta.
- Lamentavelmente, não.
Para quem precisa de transplante a cura está em encontrar um doador compatível.
Como é o caso do Rafael -– disse Felipe em torno de lamento.
- E a quimioterapia?... A radioterapia?...
Não adiantam? -– tornou a senhora.
- Para ele, esse tipo de tratamento não soluciona.
Só permite um tempo maior de vida -– respondeu o filho.
A medula do Rafael é doente e precisa ser destruída para quem uma nova, saudável, seja transplantada.
Só isso poderá salvá-lo.
- É só ele receber a medula óssea compatível, passar pelo período de internação e isolamento? -– indagou Priscila.
- Não. O tratamento continua mesmo após a recuperação da medula.
Só que ele não precisa ficar internado, desde que tenha boas condições clínicas e nutricionais.
Ainda haverá riscos por conta de infecções e dos medicamentos quimioterápicos utilizados durante o tratamento.
Por serem de outro indivíduo, mesmo existindo a compatibilidade, as novas células crescem com uma nova memória e, por serem células de defesa, elas podem reconhecer alguns órgãos do corpo como estranhos e combatê-los.
Isso pode acontecer com intensidade variável e, na maioria dos casos, pode ser controlado com medicamentos -– explicou Felipe.
- Quer dizer que, mesmo depois de todo o trabalho de encontrar um doador, do tempo de se ficar internado e isolado, ainda pode haver rejeição?
Coitadinho! -– tornou a irmã caçula.
- A rejeição é rara, no caso de transplante de medula óssea, mas... pode acontecer -– afirmou o irmão.
Essa luta não é fácil.
- Amanhã bem cedo quero ir ao hospital.
- Claro, senhor Weber.
Quando o senhor quiser -– respondeu Vanessa.
- Todos iremos.
- E o quanto antes vamos fazer este teste de... de... -– o avô tentou se lembrar.
Sorrindo, Felipe ajudou:
- Teste de tipificação do sangue por exame de Histocompatibilidade ou teste HLA.
Mais conhecido como exame de compatibilidade.
- Isso mesmo -– tornou o senhor com um jeito inquieto, um misto de compaixão, surpresa e forte emoção.
- Obrigada por vocês entenderem a situação e se disponibilizar a ajudar.
Não imagina como estou animada e esperançosa.
Minha família é tão pequena...
Não tenho mais ninguém, além da família do pai do Rafael, que eu possa lembrar como parentes próximos a ele -– disse Vanessa emocionada.
- Terá toda ajuda possível.
Quanto ao Diogo... -– o senhor parou, reflectiu um pouco, depois concluiu:
Vamos trazê-lo para o Brasil.
A tempestade havia amenizado.
Somente uma chuva branda caía naquele momento.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 10:37 am

Sentindo o coração mais leve, Vanessa se levantou, olhou para todos e agradeceu:
- Mais uma vez, obrigada.
Agora, se me derem licença preciso ir.
- Não. Vamos fazer um lanche, comer uma pizza...- – convidou a mulher se levantando.
- Muito obrigada, dona Elza, mas não estou disposta.
Estou exausta. Essa semana foi bem difícil.
Passei dia e noite no hospital.
Só hoje à tarde minha avó pôde viajar e ficar com ele para eu descansar um pouco e vir falar com vocês.
- Então amanhã você almoça connosco.
Certo? -– insistiu a mulher.
- Sim! Depois que voltarmos do hospital -– reforçou o dono da casa.
- Pode ser. Não dei direito.
Pensou e se lembrou.
-– Minha avó...
Será muito cansativo para ela se tiver de ficar lá amanhã novamente.
- Amanhã, depois que formos apresentados para o Rafael, ele escolhe quem vai ficar lá a tarde toda no hospital e você vem pra cá.
Certo? -– propôs Cláudia animada.
- Pode ser -– concordou ela encabulada para satisfazê-los.
- Então vamos. Vou te levar.
Ainda bem que a tempestade passou -– disse Felipe.
O olhar dardejante de cobranças do senhor Weber para o filho foi inevitável.
Felipe percebeu que o pai queria respostas pelo facto de ele ter omitido de Vanessa que a esposa e filho de Diogo haviam falecido.
O rapaz disfarçou e fingiu não perceber.
Vanessa se despediu de todos e pediu a ele:
- Você me leva?
- Claro. Vamos lá.
Virando as costas, Felipe a conduziu para que saíssem.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 10:37 am

Capítulo 12 - O romance com Felipe

O caminho de volta ao apart-hotel foi feito em total quietude.
No veículo, em baixo volume, tocava uma música actual, tranquila, que era apreciada por ambos em silêncio.
Parado em um semáforo, Felipe ficou observando o pouco movimento de outros carros e repousou o olhar por algum momento nas luzes dos faróis reflectido no asfalto molhado.
Quando se deu conta, sentiu o olhar fixo de Vanessa tocá-lo.
Virando-se, ofereceu leve sorriso generoso, largou a mão do volante e a levou até o rosto de pele aveludada, acariciando-o.
Vanessa aceitou o carinho que lhe roçou agradavelmente a face.
Em seguida, beijou-lhe a mão, num gesto rápido, quando essa lhe passou pela boca.
Segurou-a colocou-a entre as suas, invadindo-lhe a alma com um olhar doce ao murmurar.
- Obrigada.
Felipe aumentou seu sorriso, mas não teve tempo de responder.
O semáforo abriu para que o trânsito da via onde ele estava fluísse.
Já no apartamento, ela entrou na frente, colocou sua bolsa sobre uma mesa, enquanto comentou:
- Estava tão nervosa lá na sua casa.
Você nem imagina.
Colocando as chaves do carro ao lado de sua carteira, sobre um aparador, ele a encarou dizendo:
- Imagino, sim.
Também estava ansioso.
Estou satisfeito por ter dado tudo certo.
- Por um momento achei que o seu pai duvidou sobre a paternidade do Rafael.
- Temos de encarar a realidade e admitir que essa desconfiança seja normal.
Ele nunca a viu, nunca ouviu falar de você e de repente...
- Eu entendo, mas...
É tão constrangedor.
- Eu sei -– falou com voz terna.
Aproximando-se, tirou-lhe o cabelo que estava parcialmente na frente do rosto como se lhe fizesse um carinho.
- Obrigada, Felipe.
Obrigada por me dar tanta força, por estar comigo.
Não sei como seria tudo isso se você não estivesse ao meu lado.
Já é tão difícil ter de ser forte e encarar o quadro do Rafael.
Você poderia cuidar da sua vida, de outras coisas, mas...
Está comigo, me ajudando em tudo, revezando no hospital, me ajudando financeiramente, animando meu filho...
- Não é nenhum incómodo para mim.
Fico triste pelas circunstâncias, lógico, mas...
Quero acompanhar você, ajudar a cuidar do Rafael.
Vanessa se viu tomada de forte e inexplicável emoção.
Impulsionada por um sentimento acima de sua compreensão, ela o abraçou com força recostando a cabeça em seu peito, como se quisesse se esconder dentro dele.
Felipe agasalhou-a no abraço, envolvendo-a com carinho, beijando-lhe suavemente o alto da cabeça.
Como era bom estar tão perto, tê-la em seus braços e poder confortá-la com seu carinho, com seu amor.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 10:37 am

Ele afagou lenta e ternamente as costas de Vanessa que retribuiu o gesto.
Ficaram assim por longos minutos, enquanto uma sensação, um sentimento mais forte fluía de modo que não conseguiam deter.
Felipe se afastou um pouco e, invadindo sua alma com seus olhos, fez-lhe um carinho nos cabelos e depois no rosto.
Ela aceitou, fechando os olhos de forma tranquila, deixando-se levar.
Não se contendo, curvou-se lentamente e seus lábios procuraram os dela.
Ele a beijou com delicadeza, experimentando um sentimento puro que não sabia explicar.
Ela correspondeu ao beijo, permanecendo em seus braços fortes que a envolviam com carinho.
Levando a mão em seu rosto, acariciou-o com leveza, sentindo a aspereza de sua barba por fazer.
Envolvendo-a com mais força, enquanto suspirou fundo, ele beijou-lhe o rosto várias vezes e, com cuidado, roçou a barba em sua face como forma de carinho e, com a boca, procurou por seu ouvido sussurrando com voz morna, quase rouca:
- Esperei tanto por esse momento...
Te quero tanto...
Sentindo seu coração bater forte, junto a um misto de ansiedade e satisfação, primeiro ela apertou o abraço, depois, delicada, afastou-se um pouco.
Com voz forte e calma, ele quis saber:
- Tudo bem?
- Tudo bem.
Ela sorriu enquanto o fitava e lhe fez um afago no rosto em que ele, rápido, aproveitou e beijou-lhe a mão.
- Não tem como negar por mais tempo o que sentimos um pelo outro, Vanessa.
- Eu sei... No começo, quando eu conheci, eu... – deteve as palavras.
- ...ficou com medo de me confundir com o Diogo, que conheceu antes de mim – completou ao vê-la temerosa para confessar.
- Acho que foi isso mesmo. Mas...
Nesses últimos meses juntos, percebi, senti em você algo muito diferente.
- É tão bom ouvir isso – sorriu, aproximou-se e no envolvimento embalou-a nos braços, de um lado para outro.
- Felipe... Haverá muitas dificuldades.
Eu tenho o Rafael e...
- Nós temos o Rafael.
Eu o adoro. Lembre-se disso.
- Eu sei, mas...
E quando o Diogo voltar?
Como vou explicar para o meu filho que não vou ficar com o pai dele e sim com o tio?
E a sua família?
Como vamos nos apresentar a eles?
- Se a minha família foi capaz de entender e aceitar o Diogo com a Ceres, vai ter de entender e aceitar nós dois, que é um caso bem diferente.
Você não tinha qualquer compromisso quando eu a conheci.
Na época em que namoravam, o Diogo a enganou e fez uma escolha.
Ele não a procurou para dar uma satisfação sequer.
Quando você descobriu que foi enganada, meu irmão nunca quis saber o que sentiu, por que desistiu de tudo e sumiu.
Nunca foi atrás de você e, por conta disso, jamais soube do filho, preferindo ficar com a Ceres.
Foi uma escolha dele.
Um instante e opinou.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 10:38 am

– Penso que você não tem de dar explicações ao Diogo, nem eu tenho nada a esconder a meu irmão.
Embora eu vá fazê-lo na primeira oportunidade.
A respeito do Rafael...
Bem, eu creio que isso será fácil.
Ele gosta muito de mim –- sorriu satisfeito e confiante.
Somos ligados e, a bem da verdade, ele já está bastante acostumado a nos ver juntos.
Nos últimos tempos nem tem perguntado mais do pai. Percebeu?
- Justo agora que, depois de tantos anos, você e seu irmão voltaram a conversar e estão se dando bem, eu apareço e...
Como vai ser?
- Não vou fazer o mesmo que ele fez comigo.
Pretendo sentar e contar tudo o que aconteceu.
O Diogo foi covarde na época.
Nós éramos muito amigos, ligados, e ele esperou que a Ceres me contasse.
Nem teve peito de estar ao lado dela e me encarar.
- Quer que eu esteja com você quando falar com ele?
- Penso que não é necessário.
Você não tem qualquer compromisso com ele.
Não lhe deve satisfações da sua vida pessoal.
Breve pausa e lembrou:
- Se tivesse conhecido outra pessoa, namorado ou casado, não teria que lhe dar explicações.
Não é mesmo? Porque, por estar comigo, deveria fazê-lo?
Apesar de saber que ele estava com toda razão, ela se preocupou.
Afastando-se do envolvimento, andou alguns passos e foi até a janela do oitava andar olhar a rua, observando que ainda chovia.
Felipe se aproximou, abraçou-a pelas costas e curvando-se, apoiou-se o queixo em seu ombro.
Depois de algum tempo, ao vê-la reflexiva, ele sugeriu:
- Está cansada.
Toma um banho e põe uma roupa leve e descansa.
- É isso o que vou fazer.
Aproveitar que minha avó está no hospital hoje e...
Vanessa se virou e sorriu.
Ele retribuiu o sorriso e a beijou rápido, saindo da sua frente ao pedir:
- Importa-se eu ficar um pouco mais?
- Não. Claro que não.
Ligue a TV.
Senta aí que já volto.
O rapaz concordou.
Ao sair do banho, olhou para a cama e o viu deitado com a cabeça recostada sobre travesseiros, dormindo com a televisão ligada.
Aproximando-se, ela sorriu e correu os dedos pelos cabelos curtos e aloirados, teimosos que voltavam para o lugar.
Felipe suspirou e, assonorentado, ao vê-la, sorriu e a covinha apareceu em sua face.
Pegando em sua mão, puxou-a para que se sentasse ao seu lado e, para isso, afastou-se.
- Não está com fome ou quer beber alguma coisa? Um suco?
- Não. Obrigado.
Almoçamos tarde depois de deixarmos sua avó no hospital.
Vanessa acomodou-se melhor.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 10:38 am

Puxou uma mantilha sobre as pernas e recostou-se no peito de Felipe que a abraçou, aconchegando-a em si e fazendo carícias nos longos cabelos que corriam entre seus dedos.
Sabia o quando ela precisava de sua força, de seu carinho, de sua presença e protecção.
Mais ainda, precisava de descanso.
Não disseram nada e, sem demora, ele viu quando ela adormeceu tranquilamente.
A luz ténue do amanhecer a despertou com suavidade.
Vanessa se remexeu e, ao se virar, surpreendeu-se com Felipe que dormia profundamente ao seu lado.
Por um instante teve um lapso de memória.
Não sabia onde estava nem que dia era.
Não se lembrava do dia anterior, mas não demorou e recordou tudo.
Com delicadeza, sentou-se bem devagar para não acordá-lo.
Em seguida levantou-se e foi ao banheiro.
Ao retornar, não gostou da ideia de ele ter dormido ali, com ela, na mesma cama.
Não demorou e o rapaz acordou e sorriu ao vê-la.
- Bom dia -– murmurou ele com a voz rouca.
- Bom dia. Dormiu bem?
- Optimamente bem.
Foi tão bom ter você ao meu lado a noite toda.
Com suave sorriso e delicadeza, falou de modo brando para não magoá-lo:
- Você deveria ter ido embora. Não acha?
- Já dormi aqui antes.
Não foi? -– perguntou levantando-se e indo em sua direcção.
- Só que foi diferente -– sorriu com doçura.
Ele a beijou, afagou-lhe o rosto e respondeu com uma pergunta:
- Porque diferente?
- Porque você dormiu no sofá e éramos só amigos -– alargou o sorriso.
- Então, hoje, eu sou amigo e mais alguma coisa?
Sem obter resposta, entoando a voz de modo carinhoso, lembrou:
- Não aconteceu nada.
Você dormiu. Eu dormi. -– sorriu.
Estou até com a roupa de ontem e todo amarrotado! -– riu.
- Eu sei, mas...
O que os outros vão pensar?
- Ninguém vai pensar nada.
Não pretendo contar.
Ninguém precisa saber.
- Como vai chegar a sua casa assim, amassado?
- Ninguém vai ver.
Você se preocupa demais -– comentou em tom brincalhão, indo para o banheiro.
Vanessa procurou por uma roupa, esperou que ele fechasse a porta do banheiro e foi se trocar.
Ao vê-la arrumada, Felipe sugeriu:
- Após o café, vamos directo lá para casa, e depois, com meus pais, vamos para o hospital. O que acha?
- Prefiro ir para o hospital.
Que tal você pegar seus pais e levá-los para lá?
- Pode ser.
Ao vê-la arrumar a bolsa, Felipe se aproximou, sentou-se ao seu lado e olhou-a de um modo diferente.
Quando viu que o encarava, murmurou.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 10:38 am

– Vanessa, eu... -– não completou e só fixou-se nela.
- O quê? -– sussurrou franzindo levemente o semblante, parecendo preocupada.
- Tenho medo de que, quando você e o Diogo se encontrarem...
Ela parou com o que fazia e, séria, argumentou:
- Se fosse para o seu irmão e eu ficarmos juntos, isso teria acontecido há anos. Não acha?
Hoje ele tem uma vida plena, está casado, tem um filho...
O que podemos querer um do outro?
Da minha parte, nada.
- É isso...
- Isso o quê?
Não estou te entendendo.
- Tem algumas coisas sobre o meu irmão que você não sabe e...
- Felipe, eu não preciso saber mais nada sobre o Diogo.
Não preciso saber e não quero saber.
Que isso fique bem claro.
- Mas é que...
Eu preciso te contar sobre...
Novamente ela o interrompeu, não oferecendo qualquer chance de ele continuar:
- Pare, por favor.
O que eu precisava conhecer sobre seu irmão, já conheço.
A verdade é que sua família, seus pais, suas irmãs são mais importantes na minha vida e na vida do Rafael do que o Diogo.
- Espere. Se eu te contar isso, você...
- Felipe, pare, por favor.
A vida do seu irmão pertence a ele.
Não quero saber e parece que você não entendeu isso.
- Vanessa –- levantou-se ao perguntar, sem encará-la - se eu fosse compatível com o Rafael para fazer a doação de medula óssea e o transplante corresse bem, como seria?
Ela riu e foi bem-humorada, como havia muito não fazia.
- Ah!... Eu iria raptar você, te esconder lá naquela fazenda e nunca mais ninguém te encontraria.
O Rafael te adora, meus avós te adoram, eu te adoro...
O que mais eu poderia precisar?
- Você me adora? É?... -– falou algo romântico virando-se para ela.
- Adoro sim. -– Longa pausa e, mais séria, completou.
Apesar de brincar, não me sai da cabeça que você poderia ser o pai do Rafael e estar ao meu lado esses anos todos.
Às vezes, ainda penso que seu irmão não precisava saber de nada, mas...
Agora, depois de ontem com a sua família, não vai dar para esconder.
- A minha família é a grande chance do Rafael.
- É. Eu sei, então vamos deixar de conversa e tomar logo o café, pois quero ir para o hospital o quanto antes.
Chegando ao hospital, Vanessa foi para o quarto onde o filho estava higienizando-se antes de entrar.
Sua avó, com semblante cansado, acomodava-se em uma cadeira reclinável e sorriu ao vê-la porta adentro.
- Oi, filha!
E aí? Tudo bem?
- Oi, vovó. Estou bem.
E a senhora? Como foi a noite?
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 22, 2016 10:38 am

- Foi bem.
Após beijá-la e lhe oferecer confortante abraço, Vanessa foi até a cama, debruçou-se na grade, curvou-se sobre ela até alcançar o filho, que beijou com carinho.
- Ele dormiu a noite toda? -– sussurrou.
- Teve um pouco de febre, mas eu chamei a enfermeira.
Muito atenciosa essas moças daqui.
Ela veio, mediu a temperatura, depois foi embora e logo voltou com um remedinho que aplicou no soro que ficou na mãozinha dele por pouco tempo.
Assim que acabou, eu toquei a campainha e ela veio e tirou na hora.
- Ele está tão fraquinho...
Não é vovó?
- Ele vai se recuperar.
Um instante e interessou-se.
- E como foi lá com os pais do Diogo?
A neta se afastou da cama, sentando-se em uma cadeira e com a avó a sua frente, contou tudo:
- Eles estão vindo para cá?
- Sim, vovó. Devem chegar daqui a pouco.
Uma inquietação incomodava Vanessa.
Precisava falar o quanto antes e revelou num impulso.
-– Vovó... É que...
Sabe, desde quando conheci o Felipe, ele vem nos ajudando muito, me dando a maior força...
A senhora, mais do que ninguém, está acompanhando tudo o que ele tem feito...
Eu nunca tive ao lado alguém que fizesse por mim o que ele faz e...
E isso desde que o Rafael nasceu e...
- Está gostando dele, Vanessa? -– foi directa.
Não escondia o que pensava.
A moça respirou fundo e confessou:
- Estou. Estou gostando muito dele.
Senti algo pelo Felipe desde quando o conheci.
- Não está confundindo esse moço com o irmão dele, o pai do Rafael?
Sim, porque ele disse que é idêntico ao irmão.
- Não. Agora tenho certeza de que não.
No começo cheguei a pensar isso.
Só que agora tenho certeza.
Ele é uma pessoa completamente diferente o Diogo.
- E por que você está me contando isso?
- Porque ontem eu não suportei mais e...
Revelamos um ao outro o que sentimos.
Ele também gosta de mim, vovó.
- Vocês estão namorando? -– perguntou para facilitar para a neta.
- É... -– riu sem jeito.
Acho que estamos.
- E como vai ser quando o irmão dele chegar?
- O Diogo está casado.
Não se importou comigo lá atrás, quando me traiu, me enganou, e não vai se importar agora.
Além disso...
- Mamãe... -– chamou a voz fraca do filho, que acordou.
Num impulso, a mãe se levantou rápido e foi para junto dele.
- Oi, meu amor. A mamãe está aqui -– acariciou-o e o beijou.
Você dormiu bem, meu filhote?
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Ave sem Ninho

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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 23, 2016 10:32 am

O garotinho não se sentia bem.
O corpinho dolorido, o estado febril, a garganta ressequida...
Tudo o incomodava, por isso, sem conseguir expressar direito o que sentia, começou a chorar fraquinho.
Um chorinho impertinente, ranheta.
Sem se alterar, Vanessa puxou a cadeira para perto, abaixou um pouco a grade e, afagando-o com ternura, começou a conversar com o filho.
Pegando o seu celular, ela decidiu animá-lo e distraí-lo.
- Toma. Pega e liga para o tio Felipe.
Vamos ver o que é que ele vai inventar hoje.
Rafael não estava muito animado para brincar, embora gostasse daquela brincadeira em que, normalmente, quando telefonava para o celular do tio, Felipe dizia que não era ele e quem falava era algum nome de personagem de desenho animado ou de filmes de super-heróis ou de gibis.
O garotinho parou de chorar, pegou o telefone, ligou e perguntou com voz fraca, após ouvir o alô.
- Tio... É você?
- Não. Quem está falando? -– brincou o rapaz.
- Sou eu, tio Felipe. O Rafael.
- Aqui não é o tio Felipe.
Quem é o tio Felipe?
O menino ofereceu um sorriso fraco e respondeu:
- É sim... Conheço a sua voz.
- Não é o tio Felipe.
Aqui é o Homem de Ferro -– referiu-se ao personagem dos desenhos animados e de filmes.
- Não é não, tio. É você.
- Sou o Homem de Ferro, sim.
Rafael sorriu tímido.
Não estava disposto para brincar naquele dia.
- Quem é filho?
O Homem-Aranha?
- Não é Homem-Aranha... Tó -– e entregou o celular a ela.
- Alô? Felipe?
- Oi, sou eu -– respondeu.
- Onde você está?
- Esperando o elevador. Vamos subir.
E... Já vi que o Rafael não está muito bem.
O Homem de Ferro é o favorito dele.
Eu até comprei o filme mais recente para ele assistir.
- É... Hoje está difícil para ele -– ela comentou.
- Já estou entrando no elevador. Tchau.
- Tchau.
Despediram-se e, pouco tempo depois, o senhor Weber e dona Elza, acompanhado de Felipe, entraram no quarto, vagarosamente, com ar preocupado e olhar atento.
Vanessa os apresentou para sua avó e logo em seguida para o filho.
Embora Rafael estivesse bastante abatido e sem os seus lindos cabelos loiros, os avós se surpreenderam com a semelhança dele com o pai e o tio, quando pequenos.
O garotinho pelos incómodos sentidos e os medicamentos que tomava, não deu muita importância às apresentações.
Todos repararam quando o menino olhou para Felipe e lhe estendeu os bracinhos, querendo seu colo.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 23, 2016 10:32 am

- Vem com o titio, vem -– disse amorosamente, tomando-o para si.
E então, Rafa!
Gostou de conhecer sua avó e seu avô?
Ele acenou positivamente com a cabeça e o tio explicou:
- Eles são os meus pias e pais do seu pai.
- E o meu pai? -– perguntou o menino.
- Ele virá logo –- respondeu Felipe, afagando-o nas costas.
Em seguida, ao vê-lo recostar em seu ombro, beijou-lhe a cabeça.
O garotinho debruçou em seu ombro e não disse mais nada.
Todos perceberam que ele acariciava as costas do tio, apesar de segurar a girafa de brinquedo em suas mãos.
Ficaram ali bastante tempo, tentando animá-lo e puxando conversa.
Cláudia e o marido, junto com Priscila, chegaram.
Rafael pareceu simpatizar bem com a tia mais nova, que se encantou por ele.
A hora do almoço se aproximava quando decidiram ir.
Nesse momento, Rafael parecia bem mais à vontade e se acostumou bem com todos.
Priscila teve a iniciativa de dizer que ficaria ali com ele no hospital, para que Vanessa e dona Henriette fossem almoçar em sua casa.
Era preciso que se conhecessem melhor.
O almoço foi bem tranquilo.
Falaram mais sobre a doença de Rafael e a dificuldade de transplantes por conta da falta de doador compatível.
Ao terminarem, Vanessa e Henriette ficaram ali por mais um tempo e depois se foram.
Em alguns momentos, os familiares de Felipe perceberam uma troca de olhar, um sorriso ou um gesto carinhoso entre ele e Vanessa, mas ninguém disse nada.
Mais tarde, ao ver o filho em seu quarto, o senhor Weber deu poucas batidas à porta e perguntou:
- Posso entrar?
- Claro pai. Chega aí.
O homem deu uma passada de vistas no recinto e comentou:
- O caso do Rafael é bem sério, bem preocupante.
- É sim. Eu sei.
- Está acompanhando Vanessa em tudo, não é?
- Estou. Desde que soube.
- Felipe, por que não contou a ela que a esposa de seu irmão e o filho dele morreram recentemente?
- Quando ela me procurou, já sabia que o Diogo havia se casado.
Então me perguntou se eles tinham filhos e respondi que sim.
Aí, quando eu fui contar, a própria Vanessa me pediu para não dizer mais nada sobre ele.
Não estava interessada na vida do Diogo.
Hoje mesmo, pela manhã, eu disse novamente que tinha algo sobre o Diogo que precisava dizer a ela e fui interrompido, pois não quis saber.
- Não o vi chegar ontem à noite.
Fiquei te esperando para conversarmos e...
Dormiu no apart. junto com ela? - o pai perguntou bem directo, parecendo insatisfeito.
- Sim. dormi no apart.
O junto com ela... é por sua conta.
- Essa moça tem um filho do seu irmão.
O Diogo está viúvo e...
- Ei! Espere aí!
O Diogo não quis a Vanessa.
Ele a abandonou grávida!
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 23, 2016 10:32 am

- Seu irmão não sabia que ela estava grávida! -– defendeu.
- Não soube porque não foi procurá-la!
Felipe reagiu irritado.
Ele a enganou, a traiu!
Como traiu a Ceres -– riu irónico. -, depois de toda a sujeira que aprontou comigo.
Uma breve pausa e voltou ao assunto:
- Foi covarde e não procurou a Vanessa depois do que fez a ela.
Não quis saber como ela estava.
Se sofria, se estava magoada, se estava grávida. sim, porque ele sabia dos riscos quando transou com ela sem se proteger, sem perguntar se ela fazia uso de algum contraceptivo... sei lá!...
- Me respeita, moleque!
- Por que acha que estou lhe faltando com respeito?
Não entendi -– falou mais brando.
Estou falando a verdade.
O Diogo foi um irresponsável.
- Ela também.
- Sim, claro! Sem dúvida!
Os dois foram irresponsáveis.
Só que foi a Vanessa que arcou com todo o peso da responsabilidade que caberia aos dois!
Se ela errou, ele também.
Só que o Diogo não quis saber se tudo o que fizeram trouxe alguma consequência.
A Vanessa tinha dezanove anos, na época, e ele vinte e cinco.
Ele era do interior e ele de uma metrópole.
Ela jovem, romântica, inexperiente, e ele?...
Oras! Sem comentários.
Quem era o mais instruído e espertinho nessa história?
- Mas você não tinha que se envolver com ela agora!
- Ah! Não! Por que não?
Até onde sei, ela não é comprometida com ninguém, muito menos com o meu irmão.
Tiveram um filho. Tá! E daí?!
Um breve instante de silêncio e perguntou em tom moderado:
- Por que o defende tanto?
Por que nunca nos tratou igual?
- Não estou defendendo o seu irmão.
Do que é que você está falando?
- Pai, quando o Diogo deu em cima da minha noiva e me traiu, o senhor nunca falou nada.
- Claro que não! Você largou tudo.
Foi pra praia, encheu a cara, quebrou toda a casa, largando tudo lá...
Voltou, deixou seu carro aí, no meio do caminho –- referiu-se à ruazinha que havia do portão até a garagem dos carros.
Eu precisei chamar o guincho do seguro para tirá-lo daí, pois levou as chaves.
Eu não podia entrar com meu carro nem sua mãe sair com o dela.
Limpou seu dinheiro do banco.
Pegou um avião e foi para a Europa.
Depois de algum tempo, seu tio o viu.
Estava mal-arrumado, barbudo, cabeludo, andando em uma rua em Amsterdão.
Depois te viram em Madrid.
Ninguém sabia ao certo onde você estava. Sumiu!
Não deu notícias e só telefonou para a Priscila três anos depois!
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 23, 2016 10:33 am

Não sei o que fez nem por onde andou.
Daí apareceu no casamento da sua irmã e eu só soube porque os empregados daqui me contaram, pois, quando voltamos, já tinha ido embora.
- Porquê, pai? – perguntou calmo.
- Porquê, o quê?
- Porque não soube de mim?
- Porque você sumiu, oras!
- Não. Antes disso.
No dia em que cheguei aqui, furioso por tudo o que a Ceres me contou sobre ela e meu irmão, perdi a cabeça, fui até o quarto dele e brigamos.
O senhor nos separou e me prendeu no quarto e... ficou com o Diogo como se ele fosse a vítima naquela sujeira toda!
O senhor e a mãe passaram a noite com ele, no quarto, conversando enquanto eu esmurrei essa porta aí -– apontou -– para sair daqui.
Tentei até sair pela janela, mas não consegui.
Se eu pulasse, iria me arrebentar mais ainda.
Quando parei e fiquei em silêncio, pude ouvir vocês conversando.
E eu? Eu estava sozinho.
Sozinho com as minhas mágoas, com as minhas dores, com os meus conflitos.
Fiquei sozinho! Me sentindo enganado, traído, abandonado.
Não só por ele, mas também pelo senhor e pela mãe.
Na manhã seguinte, quando vi que a porta do meu quarto estava destravada, saí e não tinha ninguém.
Vi que o Diogo não estava.
Ninguém falava comigo.
O senhor não falou comigo.
Passou por mim, aqui em cima, no corredor e só me olhou.
Ficou na minha frente, à mesa, e não me olhou nem perguntou nada.
Eu lembro que não toquei em nada na mesa.
Não comi e o senhor e a mãe não falaram nem perguntara eu estava.
Levantei, fui pra cozinha e a empregada perguntou se eu estava bem -– riu de modo irónico.
A empregada...
Em seguida, encontrei a Priscila e ela perguntou como eu estava.
Me deu um abraço e...
Depois fiquei sabendo, por ela, que o senhor aconselhou o Diogo a viajar nem sei pra onde.
Breve pausa.
O que acha que senti com tudo isso, se não o maior desprezo do mundo?!
Ninguém se importou comigo!
A impressão que eu tive foi a de que o Diogo e a Ceres já estavam se entendendo!
Todos vocês sabiam e só eu era o enganado, o traído!
- Você perdeu a cabeça.
Ficou transtornado, furioso.
Chegou aqui e socou o seu irmão. Berrou...
- E o que queria que eu fizesse?!
- Não dava para conversar com você.
- Por que não tentou?
Coloque-se em meu lugar!
- Não consegui pensar nisso.
Em seguida você viajou e...
- Viajei para a praia uma semana depois.
Até lá o senhor não falou comigo. Nem a mãe.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 23, 2016 10:33 am

Foi por isso que não soube nada do que ia fazer:
porque não me procurou para conversar, para saber da história por mim, com a minha versão, para saber o que eu sentia, o que eu pensava...
Achei que eu era tão insignificante que...
Decidi ir viajar. Sumir.
Ninguém se importava comigo, para que eu iria dizer alguma coisa?
- Você também não se importou com a gente.
Sumiu. Não deu notícias.
- Fiquei muito atrapalhado, de verdade.
Até dormi nas ruas.
Não me importava nem comigo, que dirá com vocês.
- Veja se isso era vida!
- O senhor só me critica. Nunca me ouve.
Nunca quer saber de mim. Ouça o meu lado.
- Tenho até medo de saber o que fez e por onde andou.
- Medo?! –- sorriu. -– A verdade foi que eu comecei a desistir de mim.
Achei que nunca tive valor, que ninguém se importava comigo, como já falei.
Andei por aí sem eira nem beira.
Dormi nas ruas, em bancos de praça.
Fui acordado pela polícia, pois, em alguns países, é proibido dormir nos bancos -– riu.
Um dia, peguei um ônibus em Londres e uma senhora, mal-vestida, com jeito de mendiga, murmurou que estava com fome.
Ela falou sozinha, sem olhar para mim.
Foi engraçado, aquele lugar ao lado dela estava sozinho.
Ninguém queria sentar ali.
Então eu me virei e perguntei a ela: quer descer?
Eu te pago um cachorro quente.
Ela respondeu que não podia.
Não teria dinheiro para pegar outro ônibus.
Eu disse: vem comigo.
Você come o lanche e depois eu te pago outra condução.
Estranhamente ela aceitou. Descemos.
Fomos até um homem que vendia cachorro quente.
Ele nos olhou estranhamente -– riu novamente.
Não sei quem cheirava mais mal, eu ou ela -– gargalhou.
- Felipe!...
- Foi verdade. -– falou sorrindo.
Comprei dois lanches e saímos caminhando.
Ela devorou o sanduíche e eu lhe dei o resto do meu.
Ela comeu. Depois olhou para mim de modo estranho, demorado.
Foi então que eu reparei como ela era enrugada, sofrida, acabada.
Com a voz rouca, essa mulher me disse mais ou menos assim:
“Menino, não desperdice seus talentos.
Esteja pronto para quando encontrar a pessoa certa, no momento certo de sua vida.
Vai ter que lutar, mas no fim do tudo, vai dar tudo certo e vocês serão felizes.
Não se acabe, não. Não se destrua.
Esteja preparado”.
Perguntei por que estava me falando aquilo?
Ela riu, um sorriso sem dentes e respondeu:
“Você é um bom homem, uma boa alma.
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