MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 16, 2016 10:05 am

Capítulo 4 - Grande desilusão

O fim de ano estava próximo e a sobrecarga das tarefas universitárias deixava todos exaustos.
Naquele início de manhã, a claridade forte rasgou o quarto deixando a luz do sol ir directamente sobre as pálpebras fechadas de Vanessa, que se remexeu.
Incomodada, virou-se para o lado da parede e tentou cobrir a cabeça com a ponta do lençol.
Agitada, Leda, que havia aberto a janela, sentou-se ao seu lado e pediu sem qualquer delicadeza?
- Vam!... Acorda! -– vendo a amiga resmungar, insistiu:
Vai, acorda aí!
Com gestos preguiçosos, a amiga se virou espremendo os olhos para tentar encarar a outra e murmurou com voz rouca:
- O que foi? É tão cedo...
Que horas são? -– perguntou desorientada.
- Oito. Mas isso não importa.
Você precisa saber o que está acontecendo.
Senta e vê se acorda para prestar bem atenção.
Esfregando o rosto para despertar, Vanessa se sentou, cruzou as pernas e disse:
- Tomara que seja bem importante.
Fui dormir tão tarde e...
- Faz dois fins de semana que o Diogo não sai com você, não é mesmo?
- Como assim?
Do que é que você está falando?
- Hoje é sábado.
Vocês combinaram de sair e ir para algum lugar?
- Não. Ele disse alguma coisa sobre o irmão e...
Não sei direito o que ele disse, mas...
Puxa, Leda. Eu e o Diogo nos vemos a semana toda e...
- E já é o terceiro fim de semana que vocês não estão juntos, não é mesmo?
- Por que você está preocupada com isso?
- Hoje é o casamento da irmã dele.
Você sabia? Ele te convidou?
Foi convidada?
- Hoje?! -– perguntou e parecendo bem desperta naquele momento.
- Sim. Hoje.
A Cláudia, irmã mais velha do Diogo vai se casar hoje.
Vanessa não queria, mas precisava admitir que havia algo bem estranho.
Nos últimos tempos, no último mês, para ser mais exacta, percebeu um comportamento estranho no namorado.
Diogo parecia mais sério, mais pensativo, compenetrado.
Pouco conversava e, de facto, não estavam saindo como antes.
Ele não a levava mais para conhecer novos lugares.
Se bem que estavam sobrecarregados com as actividades do curso.
Dias antes, por um momento, até pensou que o rapaz estivesse envergonhado em apresentá-la ou levá-la para locais mais sofisticados, tendo em vista sua apresentação com roupas tão simples.
Lembrou-se de que, da última vez em que foram a uma balada, estava no boxe do banheiro feminino, quando duas colegas dele, que ela havia acabado de conhecer perto da pista de dança, entraram no toalete rindo e comentando a respeito do jeito que ela estava vestida.
Embora não fossem roupas feias, eram muito simples para aquele ambiente.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 16, 2016 10:05 am

Vanessa, envergonhada, ficou quieta no boxe do banheiro até as moças se retirarem.
Só então saiu e voltou para junto do namorado.
Porém sua noite estava acabada.
Não conseguiu mais ser espontânea nem se divertir, envergonhando-se totalmente.
Quando pôde, disse para Diogo que queria ir embora e, meio a contragosto, ele aceitou.
Naquele instante, pensou também que já estavam junto havia alguns meses.
Tempo suficiente para conhecer alguém da família.
- Então é isso -– Vanessa comentou.
O Diogo tem vergonha de mim.
Tem vergonha do meu jeito simples, das minhas roupas pobres, do...
- Não é vergonha não, Van.
Acho que é algo bem mais sério -– disse Leda em tom solene.
- Do que mais você está sabendo? -– perguntou a outra sentindo o coração apertado e batendo forte, descompassado.
Naqueles segundos de silêncio, Vanessa refez mentalmente seus passeios e encontros com Diogo.
No início do namoro, para conquistá-la, o rapaz era bem diferente.
Leda, por sua vez, sentia-se temerosa.
Porém, por mais que aquilo fosse doer, precisava contar.
Afinal de contas, era sua melhor amiga e, sem muitos rodeios, revelou:
- Ontem eu estava falando com o Almir fazendo os últimos artigos sobre aquele trabalho de Farmacologia e o Fabiano, que era pra chegar lá junto comigo, apareceu quando a gente estava terminando.
Pois bem, o Fabiano, você sabe, amigão do Diogo há tempos e, conversa vai, conversa vem... ele acabou falando com o Almir que o Diogo tava meio encrencado porque hoje era o casamento da irmã dele e...
- E? O que?!
Fala de uma vez!
- Disse que o Diogo vai ser padrinho junto com a noiva que chegou da Alemanha já faz três semanas.
- O quê?! -– perguntou exclamando com voz fraca, que quase não saiu.
- Você ouviu bem.
O Diogo, junto com a noiva, vai ser padrinho da Cláudia hoje.
- Não pode ser!
Isso não é verdade! -– a jovem quase se desesperou.
Remexeu-se e levantou da cama, caminhando em seguida pelo quarto, meio que sem rumo.
Vanessa elevou as mãos passando-as lentamente pelo rosto pálido e depois pelos cabelos longos, torcendo-os e jogando-os para trás da cabeça.
Incrédula, experimentando na alma uma dor sem igual, olhou para a amiga que ainda estava sentada em sua cama fitando-a com piedade.
Logo, pendeu com a cabeça negativamente, como se quisesse negar o que estava acontecendo.
- O Fabiano pode não estar falando a verdade, Leda.
Ele está enganado. Ele...
- O Fabiano tinha bebido sim.
Deu pra eu perceber isso por causa do cheiro, mas...
Depois que eu ouvi tudo, cheguei junto dele e o pressionei.
Ele acabou me contando tudo.
Em resumo, o que me contou foi que a noiva de Diogo trabalha na Alemanha em uma grande indústria farmacêutica.
Ela é brasileira e se chama Ceres.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 16, 2016 10:05 am

A ideia é o Diogo fazer Farmácia e, depois de formado, ir trabalhar com ela lá na Alemanha.
Eles estão juntos parece que há mais de três anos e têm planos de se casarem, por isso a Cláudia convidou, não só ele, mas também a noiva dele, para serem os padrinhos.
Breve pausa e reflectiu:
- Agora, pensa comigo, se o compromisso deles não fosse tão sério, a Ceres não seria chamada para ser madrinha, concorda?
Foi por isso que o Diogo não te falou nada sobre o casamento da irmã ser hoje.
Além disso, vocês não saem juntos há três fins de semana porque a noiva dele chegou da Alemanha.
Que desculpa ele daria pra ela se saísse com você?
Nova pausa e concluiu:
- Ele não a leva pra conhecer ninguém da família, porque tem compromisso sério com a outra e não pelo facto de você se arrumar bem ou mal.
Vanessa procurou a cama novamente e se sentou de modo mecânico.
Incrédula, machucada, sentindo muita dor na alma por tudo o que Diogo havia feito, murmurou enquanto lágrimas mornas desciam lentamente em sua face pálida.
- Estamos namorando há oito meses...
Tínhamos planos de, agora nas férias do fim de ano, irmos lá para ele conhecer meus avós... meus irmãos...
- Eu sei onde vai ser o casamento.
Quer ir lá hoje? -– propôs Leda.
- Na igreja?!
- Sim. Na igreja.
O Diogo foi muito cafajeste com você.
Ele precisa passar um pouco de apuro por causa do que aprontou.
Podemos ir à igreja e você se deixa ver e...
Se quiser, ainda podemos chegar junto dele e da noiva e você fala algumas coisas que ele precisa ouvir.
- Não sou de fazer barraco, Leda.
Você me conhece.
- Não estou falando para você fazer barraco. Não!
Mantendo a classe pode chegar perto dele e dizer algo do tipo...
“Nunca pensei que você fosse tão cafajeste a ponto de trair e enganar duas pessoas”.
Só isso e vire as costas.
Se a tal Ceres for esperta, vai entender ou então, vai prensar o cara à parede...
Não acho que isso tudo deveria passar em branco.
Vanessa estava atordoada.
Não conseguia organizar os pensamentos.
Era angustiante aquela sensação de nervosismo e decepção.
Gostaria de se esconder, fugir do mundo, mas não podia.
Leda, compreensiva, pegou em suas mãos frias e afirmou:
- Sou sua amiga.
Pode contar comigo para o que der e vier.
- Você acha que devo fazer alguma coisa?
Não seria melhor eu virar as costas e não conversar mais com ele sem dar explicações?
- E ficar eternamente com essa raiva toda atravessada na garganta?
Deixar o sujeito livre, sem qualquer punição pela cafajestagem que fez, sem mostrar para ele que você sabe o quanto ele é safado, cretino?...
Isso só vai deixar você mais contrariada no futuro, e ele mais safado e pronto pra aprontar de novo.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 16, 2016 10:05 am

Também não acho legal fazer barraco, mas penso que vai te fazer bem dar uma liçãozinha no sujeito.
- Como ele pôde me enganar assim?
Que coragem!
- Que covardia, você quer dizer!
Ele não foi homem pra se decidir.
Ainda bem que descobriu tudo a tempo, não é mesmo? -– sem esperar que a outra respondesse, Leda afirmou:
- Agora, vamos lá! Tire esse pijama.
Tome um banho e vamos encontrar uma roupa muito legal para irmos a esse casamento.
Será às seis horas da noite e precisamos chegar cedo para garantir um bom lugar pra ver bem de perto.
Vanessa sentia-se mal com toda a revelação.
Não conseguia acompanhar, mentalmente, os planos da amiga deixando-se levar.
Ela continuou paralisada.
Testa franzida, pensando em tudo aquilo, lembrando os momentos que passou ao lado de Diogo que a enganava, traía-a sem qualquer remorso.
Agora sabia quem foi que o incentivou-o a fazer o curso de Farmácia e por quê.
De certo, a noiva era do mesmo nível social que ele.
Deveria saber se comportar, vestir-se, apresentar-se.
Ela, por sua vez, não passava de uma menina boba, ingénua, inocente, caipira do interior e fácil de ser enganada.
Sua avó tinha razão.
Aliás, tinha total razão.
As pessoas da cidade grande eram frias e insensíveis.
Vanessa, desanimada, abandonou-se.
Apenas a energia da amiga Leda a movia para que não ficasse deitada na cama, entregue à tristeza, à solidão, à dor da traição.
Arrumadas de acordo com a ocasião, Leda e Vanessa chegaram de táxi à bela igreja de um bairro nobre da capital e se misturaram em meio a alguns convidados.
Vanessa, visivelmente nervosa, trémula e com as mãos gélidas, segurava com força no braço da amiga, quase o apertando.
Ainda não era capaz de acreditar em tudo o que estava acontecendo.
Aquilo parecia mais um sonho, ou melhor, um pesadelo.
A espera dava a impressão de ser eterna.
Convidados bem vestidos, de forma elegante, acomodavam-se nos bancos cuja lateral central estava lindamente decorada com flores arranjadas por belos laços de fitas brancas, acetinadas, o que fazia a decoração leve e alegre.
A espera foi longa, embora todos já contassem com o clássico atraso da noiva, até que o tapete vermelho, aveludado, começou a ser pisado, logo após o início de uma bela melodia clássica.
Todos se levantaram quando casais bem trajados, de braços dados, sorridentes, entraram lentamente pelo corredor central.
Tratava-se dos padrinhos, logicamente.
Não demorou e elas puderam ver Diogo muito bem vestido, meio fraque, camisa branca e flor na lapela, ao lado de uma bela moça alta, loira, olhos claros, sorriso simples, bem vestida em um longo azul-marinho de um ombro só, segurando na mão uma pequena bolsa.
Caminhavam devagar e sorrindo com leveza enquanto cumprimentavam uma vez e outra, algum conhecido que estava em pé entre os bancos.
Até que, inesperadamente, o rosto de Vanessa surgiu entre os convidados para a surpresa de Diogo, que fechou o sorriso e parou por um instante.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 16, 2016 10:05 am

Sentindo-se gelar, ele olhou em seus olhos e ela retribuiu com postura firme, séria.
A jovem, ao lado do rapaz, que entrelaçava seu braço ao dele, sentiu-o parar e estranhou.
Naquele instante, Vanessa desviou o olhar para a mão de ambos e conseguiu ver as alianças de noivado e voltou a fitar os olhos de Diogo.
Ceres ofereceu um sorriso a ele quando, discretamente, puxou-o pelo braço para que continuassem.
Ao mesmo tempo, seguiu seu olhar e localizou Vanessa olhando-o duramente.
Diogo disfarçou.
Fitou a noiva, sorriu sem jeito e continuou caminhando ao seu lado, procurando não se demonstrar alterado pelo mal-estar.
A cena foi ligeira quase não percebida e quem reparou, esqueceu-se tão rapidamente quanto ocorreu.
Excepto por um rapaz alto, loiro, olhos verdes, barda da mesma cor dos cabelos.
Ele se encontrava no fundo da igreja, ocupando o lugar no último banco da fileira do lado oposto de Vanessa e Leda.
Era a imagem de Diogo, com excepção da barba bem aparada e recortada, e dos cabelos bem compridos, presos como um cabo de cavalo na altura do pescoço, lisos, escorrendo alinhados até o meio das costas.
Tratava-se de Felipe, que não queria ser notado.
Ele reparou o nervosismo da jovem alta e bonita cuja amiga afagou o braço enquanto murmurava alguma coisa.
Observou também quando ela olhou para cima, como se tentasse deter alguma lágrima teimosa.
Só que, não suportando, pediu licença e caminhou por entre os bancos e os outros convidados.
Foi para a lateral da igreja, depois para o fundo e após a entrada da noiva, saiu discretamente sem ser percebida.
Vanessa não se deu ao trabalho de esperar o fim da cerimónia para falar qualquer coisa a Diogo.
Achou que o que fez foi suficiente.
Chegando ao apartamento que dividia com as colegas, atirou-se sobre o sofá, abraçou-se a uma almofada e chorou muito.
Leda, interrogada por Cleia e Maria, contou o que tinha acontecido.
Quando Vanessa ofereceu uma trégua ao choro compulsivo, as amigas a consolaram com palavras de incentivo, condenando a atitude de Diogo, mas era difícil não sentir tamanha dor por toda aquela humilhação.
Na manhã de domingo, ao acordar, Vanessa tinha a cabeça pesa e dolorida.
Não acreditou imediatamente nas lembranças do dia anterior que lhe assaltavam a mente.
Tudo foi muito cruel.
Decepcionada, levantou sentindo o corpo dolorido.
Era como se precisasse se arrastar para fazer qualquer coisa.
Na sala, encontrou Cleia que lhe deu um bom-dia e perguntou:
- Tá melhor?
- Estou me sentindo um lixo -– respondeu, sentando-se no sofá.
Estava de pijama, descalça, com os cabelos totalmente desalinhados.
Olhos vermelhos e pálpebras inchadas de tanto que chorou.
A voz rouca, rosto pálido e cabisbaixa.
Curvou-se, esfregou o rosto, colocou os cotovelos sobre os joelhos e segurou a cabeça com as palmas das mãos, deixando os cabelos caírem e esconderem sua face descorada.
Vendo-a desanimada, Cleia argumentou:
- Não fique assim não.
Homem não presta mesmo.
São todos iguais: cafajestes e imbecis.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 17, 2016 10:40 am

- Não pensei que Diogo fosse desse tipo -– Vanessa falou com voz fraca.
- Ele te usou, né?
Você me critica, me condena, mas... pelo menos eu sou esperta e cobro pelo que faço, cobro por ser usada.
O que fez você se sentir mal é que o cara nem te pagou pra te usar.
- Ora, Cleia...
Por favor -– tornou sem energia.
A colega não se importou e continuou:
- Sabe, talvez, ele até tenha gostado de você.
Percebi isso nele.
Mas você não é do nível do cara. Não é rica.
Não tem roupas ou comportamento igual ao que as garotas ricas têm...
Vanessa sentiu seu coração encolher mais ainda diante daquelas palavras.
Embora muitas observações de Cleia já tivessem passado por suas ideias, ouvir aquilo a machucava mais ainda.
E tudo piorava por conta dos companheiros espirituais infelizes de Cleia que castigavam os pensamentos de Vanessa que precisaria, naquele instante, elevar-se a Deus e pedir protecção e força, sentindo-se amparada para, aí sim, ter em torno de algo como que um escudo energético, em forma de pensamento, para repelir tais espíritos.
E a outra continuou:
- Rapazes, como ele, gostam de garotas com os mesmos valores a respeito de todas as coisas.
Se quisesse segurar mesmo o cara, deveria ter investido em você.
Deveria ter se empenhado mais.
Por ter certeza de que a colega não era boa conselheira, num momento como aquele, Vanessa entendeu, por inspiração de seu mentor, que não era obrigada a continuar a ouvir aquilo tudo e reagiu:
- Chega, Cleia!!! Já chega!!!
Não pedi sua opinião.
O que quer é me ver como você, mas eu não vou me prostituir.
Não sou vagabunda!
Quando se está no erro, no lodo, na lama, gente fraca, como você, só quer que os outros entrem na mesma fria.
Em vez disso, por que não reúne forças para sair dessa droga de vida que leva?! -– gritou.
Duvido muito que alguém tão leviana, tão baixa, tão pobre espiritualmente quanto você durma tranquila depois de se sentir usada, depois de se vender para homens tão imundos, tão cafajestes, nojentos quanto você!
Duvido não ter nojo de si mesma!
Duvido não ter nojo daqueles caras com quem se deita!
Eles devem ser uns monstros para procurarem mulheres tão baixas assim e você também deve se sentir monstruosa depois que eles terminam.
Não queira me confundir!
Sou pobre, mas sou honesta!
Sou decente! Tenho consciência tranquila!
Se eu dormi com o Diogo, foi por ter um grande sentimento por ele, não foi por dinheiro nem por ambição de me unir a um cara rico.
Você está nessa vida porca, imunda, leviana porque quer.
Jamais uma mulher pode se dizer coitada e sem oportunidades quando se prostitui, pois ela sabe que poderia ter uma vida digna e decente, com a própria consciência, se se determinar a trabalhar e viver honestamente!
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 17, 2016 10:40 am

Eu preferiria não ter um curso universitário se dependesse de me vender para me sustentar.
Seria mais digno, mais honesto, mais elevado eu ser faxineira, colectora de lixo e analfabeta a ter de me vender!
Levantando-se, Vanessa não esperou o revide e foi para seu quarto, batendo a porta ao entrar.
Em menos de uma hora, estava de volta à sala com uma mochila nas costas, pronta para sair.
Ela olhou para Cleia, sentada no chão esmaltando as unhas dos pés e que não lhe deu atenção.
Sem dizer nada, saiu fechando a porta atrás de si.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 17, 2016 10:40 am

Capítulo 5 - Desistindo de tudo

Depois de muito esperar na rodoviária, Vanessa conseguiu embarcar em um ônibus para sua cidade.
Sentando-se em um lugar ao lado da janela, não inclinou a poltrona.
Ficou com olhar perdido, parecendo não enxergar a mudança da paisagem urbana para a rural à medida que o ônibus se afastava da metrópole.
Saindo da cidade, primeiro vieram as planícies onde se podiam contemplar as casas distantes de algum sítio ou fazenda, mas parecia não ver nada disso.
Aliás, ela nem percebeu quando os ruídos barulhentos da cidade, carregados de buzina, roncos de motores, sirenes, falatórios e sinais de advertências constantes na rodoviária foram se distanciando e, aos poucos, substituídos tão somente pelo som do motor do ônibus em movimento e a vibração leve dos pneus em contacto com a rodovia bem conservada.
Nem tampouco notou a subida da serra onde o transporte parecia se arrastar em meio à estrada estreita que serpenteava as montanhas de densos bosques em ambos os lados.
Mesmo nas eventuais paradas, ela não desceu nem para tomar um café.
Permaneceu ali, quieta, sentada em sua poltrona, olhando para o nada, perdendo-se em pensamentos tristes, ainda incrédula com tudo o que lhe acontecia.
Estava magoada, ferida.
Nunca imaginou que algo assim pudesse lhe acontecer.
A única coisa que desejava era nunca ter saído da sua cidade, da casa de seus avós.
Não deveria ter se metido a fazer faculdade, nem se afastado da protecção do seu lar.
À medida que se aproximava de São Bento do Sapucaí, uma neblina sonolenta caía, deixando a paisagem montanhosa bem opaca.
Um pouco mais e chegou.
Ali a serração cedeu um pouco.
Ao descer do ônibus olhou ao redor sentindo a cabeça dolorida e o coração encolhido.
Não sabia muito bem o que fazer.
Não havia se planejado para voltar, por isso não conseguia nem pensar direito.
Saiu caminhando sem saber para onde ir.
Nem olhava para os lados.
Calcando compassadamente, a rua de pedras, parecia não notar irregularidade.
Só via o chão.
Havia um vazio em seus pensamentos, mas, mesmo assim, devido sua postura moral e sua elevação, foi fácil seu mentor guiá-la para lugar seguro, onde encontrasse a paz profunda e organizar as ideias.
Caminhando sem perceber, subiu a longa ladeira e chegou à Praça da Matriz.
Lentamente, subiu os três degraus que a levaram ao pátio da Igreja da Matriz, caiada de branco e de graciosa arquitectura.
Entrou.
Em cada ante-sala que antecedia o corredor principal só viu, de cada lado, o altar com a imagem dos santos lindamente ornamentados e floridos.
Percorreu, vagarosamente, o corredor principal e, a cada passo, o silêncio abençoado se traduzia em paz.
Fechando os olhos, permaneceu em prece sentida no âmago de seu ser.
Em pensamento, pediu ao Pai orientação para saber o melhor a fazer.
A princípio, foi difícil não deixar que a dor da decepção se intercalasse naquele momento, mas procurou se harmonizar.
Era capaz de ouvir a voz de Leda contando-lhe sobre Ceres e Diogo, sobre o casamento.
Via, na memória, a cena do rapaz e sua noiva, entrando na igreja, deslizando pelo tapete vermelho.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 17, 2016 10:40 am

Lembrava, novamente em que olhou para a mão direita de cada um e notou a aliança de ouro, confirmando o compromisso de noivado.
Apesar de tanta angústia, aos poucos, foi buscando a paz e pedindo bênçãos a Deus para iluminar sua consciência, acalmar os pensamentos confusos, envolver seu coração tão apertado para, com clareza, ter discernimento e saber o que fazer com prudência.
Fechou os olhos e lá permaneceu quieta, em silêncio.
Não sabia precisar quanto tempo ficou ali meditando.
Em certo momento, abriu os olhos e respirou fundo.
Olhou novamente para o altar e sentiu-se mais serena, fortalecida, e decidida.
Levantou-se e caminhou pelo corredor principal rumo a saída.
Ao se encontrar novamente no pátio, frente à igreja, olhou para os lados, para as casas antigas cujas portas e janelas abriam directamente nas calçadas estreitas.
Não viu ninguém.
Observou a rua que se iniciava exactamente na frente da Praça da Matriz como se desse continuidade ao corredor central da igreja, que se alongava e, distante, descia directamente a uma colina verde-esmeralda que a natureza pareceu colocar especialmente ali, a fim de embelezar ainda mais a arquitectura da graciosa cidade interiorana.
Vanessa desceu os poucos degraus.
Caminhou pelo centro da praça e seguir ladeira abaixo.
Entrou em uma rua, depois em outra.
Ambas de pedras e calçadas estreitas.
Já era tarde e não sabia.
Não tinha pensado em como chegar à fazenda.
Precisaria de ajuda.
Foi quando uma senhora, uma amiga de sua avó, acompanhada pelo marido, um homem aposentado que ainda trabalhava no armazém da cidade e fazia entregas pela região, viu-a.
- Vanessa! Você por aqui!
Quanto tempo, menina?
Sem oferecer uma trégua, a mulher comentou:
- Sua avó me disse que está fazendo faculdade de Farmácia lá em São Paulo.
Ela está muito orgulhosa de você.
Veio a passeio?
- Vim, dona Florinda.
Estou com saudade e...
Nem avisei minha avó que estou aqui.
- Quis fazer uma surpresa, né? -– perguntou o homem que acompanhava a mulher.
- Quis sim, senhor Geraldo.
Só que o ônibus atrasou a saída lá na capital e cheguei bem tarde aqui.
Já está escurecendo e...
- Aaaaah!... Mas o Geraldo pode levar você até a fazenda.
Não pode, Geraldo?
- Se o senhor puder, eu agradeço muito.
- Então vamos lá, menina! -– animou-se o senhor bem simpático.
A camionete está logo ali.
Tenho mesmo de ir para aquelas bandas.
Tô com um monte de saco de ração pra entregar no rancho do José Cunha.
Caminharam até o veículo já bem usado, embora em boas condições e, após dona Florinda se acomodar, espremendo-se para junto do marido, que sentou atrás do volante, Vanessa sentou ao lado dela e fechou a porta, depois que ajeitou a mochila no colo.
A jovem sentia o coração bem opresso e procurava disfarçar a tensão que experimentava, ficando atenta às conversas do casal bem falante.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 17, 2016 10:41 am

O caminho para o hotel fazenda de Henriette e do senhor Dionísio parecia ter dobrado de tamanho.
À medida que se aproximava, a velocidade do veículo caía devido às curvas e os aclives.
- E então, já está de férias, Vanessinha? -– indagou dona Florinda
- Não. Ainda não.
Tenho, aproximadamente, mais um mês de aula pela frente.
- E veio pra cá no fim do domingo?
Não tem aula amanhã?
- Tenho, sim. Só que...
Estou precisando de uns documentos, sabe -– inventou.
E essa semana não terá aulas muito importantes.
Por isso vim.
A mulher, de rosto rechonchudo e expressão alegre, pareceu se contentar com a explicação.
Logo, o homem perguntou:
- Está gostando da faculdade?
- Estou. Apesar de... -– a jovem calou-se.
Não sabia direito o que responder.
Nem sabia por que havia começado uma frase que não conseguiria completar.
- Apesar do quê? -– interessou-se a mulher, olhando-a por cima do ombro.
- Estou em dúvida se estou fazendo o curso certo.
- Depois de quase um ano você quer desistir?
- Ora, Florinda.
Melhor agora do que se formar em uma profissão que não gosta.
Não é mesmo, menina?
Nesse ponto do caminho, o asfalto ficou mais estreito enquanto as araucárias se assemelhavam a imensas sombras gigantes à luz de um grande luar.
Iniciou-se a estrada de cascalho, em que ziguezaguearam por quilómetros antes de chegarem à primeira porteira, onde grande arco encoberto por graciosa primavera, carregada de flores de cor maravilha, embelezava a entrada da fazenda.
Escondendo a explosão de emoções que sentiu ao chegar ali, Vanessa pediu em tom moderado.
- Aqui está muito bom, senhor Geraldo.
Pode me deixar aqui mesmo.
Já estou em casa.
- Tem certeza? -– perguntou ele, parando o veículo e deixando o motor ligado.
- Tenho sim.
A neblina não está tão densa hoje e a lua está enorme, iluminando tudo.
Obrigada por me trazer.
Obrigada mesmo! -– enfatizou ao agradecer, abrindo a porta e saltando da camionete.
- Dê lembranças minhas à Henriette.
Na semana, eu venho aí para gente ver como vai ser a oficina de lã para o próximo inverno.
Estou com umas ideias novas e também tenho em vista a compra de novas máquinas industriais para as roupas de lã.
Apesar de que as roupas feitas à mão, nas agulhas –- riu gostoso, fazendo um gesto como se estivesse tricotando -, são mais bonitas e o povo gosta mais. E também...
- Deixa disso, mulher!
Pára de falar. A menina precisa ir.
Não é mesmo, Vanessa? -– riu o senhor que sabia que, se sua esposa começasse a conversar, demorariam muito por ali e ele tinha planos de ainda passar em outro sítio.
- Obrigada, novamente e...
Até a semana, dona Florinda.
Boa noite, senhor Geraldo.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 17, 2016 10:41 am

O casal se despediu.
O homem manobrou a camionete e a jovem ficou parada, olhando os faróis de o veículo invadirem a escuridão ao ser manobrado.
Depois viu as lanternas traseiras sumirem na estrada, onde o ruído dos pneus rodando sobre os cascalhos iam diminuindo à medida que se afastavam.
A lua, imensa e radiante, era a única fonte de luz.
Vanessa observou que as lâmpadas da porteira estavam queimadas ou desligadas por algum motivo.
Passando pelo portão pequeno que ficava ao lado da porteira, ela entrou nos limites da fazenda.
Sentia-se trémula dos pés à cabeça e uma angústia avassaladora dominava sua alma.
Enquanto calcava o chão de cascalho, ouvindo seus passos soarem compassadamente, ficou pensando no que diria para seus avós.
Uma brisa fresca agitou seus cabelos.
Uma coruja, pousada sobre um moerão no caminho, piava alto, pouco se importando com a passagem da jovem a cerca de poucos metros de onde pousara.
A caminhada foi longa, mas estava acostumada.
Cruzou a outra porteira e a casa de Henriette e Dionísio crescia conforme ela se aproximava.
As luzes da varanda se encontravam acesas e, da chaminé do fogão a lenha.
Vanessa, observou a fumaça subindo, dançando acima da casa.
Olhou em direcção ao vale onde, perto do lago, ficavam os chalés.
Viu dois com lâmpadas acesas.
Assim foi que soube terem duas hospedagens.
Frente a casa, ela parou e só pôde ouvir o coaxar das rãs e dos sapos que vinham do lago e o piado da coruja bem ao longe.
Nas escadas da varanda, segurou no corrimão e subiu cada um dos dois degraus, lentamente, sentindo o coração bater forte a cada lance.
Caminhou pela varanda de assoalho de madeira, provocando inevitável barulho com as pisadas.
Nesse momento, a porta de tela foi movida para fora e, pela brecha, Henriette enfiou a cabeça.
O olhar preocupado deu lugar a um largo sorriso que se abriu ao ver quem estava ali.
Demonstrando alegria, embora uma ponte de preocupação machucasse seu coração por ter a neta, ali, tão inesperadamente, a avó carinhosa saiu e a envolveu em caloroso abraço apertado.
- Vanessa! Que surpresa, filha!
- Oi, vovó... -– correspondeu ao carinho, deixando-se agasalhar naqueles braços mornos que sempre a protegeram.
Após longos minutos em que a embalou de um lado para outro com carinho, a senhora se afastou, segurou seu rosto com ambas as mãos e beijou-lhe a testa demoradamente.
Sobrepondo o braço em seu ombro e sentindo-se abraçada pela cintura, Henriette conduziu a neta para dentro de casa.
Ao vê-la sem ânimo, colocando a mochila sobre uma poltrona, a mulher perguntou em tom tranquilo, disfarçando as preocupações:
- Deve estar cansada, não está?
- Estou sim, vovó.
- Então, vá tomar um banho, ponha uma roupa mais larga e vem jantar.
Está com fome, não está?
- Não comi nada o dia todo.
Mesmo assim...
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 17, 2016 10:41 am

Quero só tomar um banho e dormir -– comentou desalentada.
- Não senhora! -– tornou a avó.
Sei que deve terá acontecido alguma coisa pra você estar aqui num domingo à noite, sem se preocupar que amanhã é segunda-feira.
Mas... Depois você vai me contar tudo, não é?
Aproximando-se, tocou em seus cabelos como a fazer um carinho, olhou-a com piedade e carinha cansada...
Depois tomamos uma sopa bem quentinha com queijo e pão. Certo?
Vanessa a encarou por alguns instantes com olhos nublados pelas lágrimas que não caíram e virou-se dizendo baixinho:
- Vou lá...
Já volto.
Ao vê-la se afastar para o fim do corredor, a avó murmurou baixinho:
- Alguma coisa séria aconteceu.
Oh, meu Deus...
A jovem tomou um banho demorado.
Deixou a água morna do chuveiro cair sobre a cabeça e escorregar pelas costas enquanto apoiou a testa no braço encostado na parede.
Durante este tempo todo, pensava no que dizer para os avós.
Sentia-se angustiada e sabia ter enfrentar a situação.
Mas o que a sua avó diria?
Justo ela que fez tantas recomendações.
Forçando-se, terminou o banho e foi para o quarto.
Vestiu um pijama e colocou um robe.
Passou a toalha pelos cabelos, mas não foi o suficiente para secá-los.
A contragosto motivado pelo desânimo, pegou um secador e secou ligeiramente os longos fios, escovando-os para trás.
Saiu do quarto e foi para a cozinha onde Henriette a aguardava.
- Venha, senta aqui -– pediu apontando para a cadeira de madeira grossa frente à pesada mesa de madeira nobre, bem reforçada, que ficava no centro da cozinha.
Sobre a toalha já estendida havia colheres de uma lado e guardanapos do outro, e os lugares vazios onde seria colocados os pratos.
O silêncio reinava absoluto.
Henriette pensou em perguntar o que estava acontecendo, mas, entendendo tratar-se de algo bem sério, acreditou que, se fizesse alguma pergunta naquele momento, a neta ficaria ainda mais triste e perderia completamente o apetite.
Melhor seria se Vanessa primeiro se alimentasse, mesmo que pouco, para depois conversar.
Ela havia dito que não havia comido nada o dia inteiro.
Após colocar os pratos fumegantes sobre a mesa, a mulher pegou a cestinha de pães e um recipiente com queijo tipo mozarela e colocou entre elas.
Contornando a mesa, sentou-se frente à neta e falou de um jeito amoroso:
- Toma a sopa, filha.
Põe uns cubinhos de queijo enquanto está quente pra eles derreterem.
Fica tão bem!
Já sentada, a jovem ergueu o tronco, obedecendo mecanicamente.
Bem devagar, começou assoprar o caldo na colher, antes de levá-lo à boca.
Estava tão quieta e reflexiva que parecia nem sentir o sabor agradável da comida.
Aliás, tudo, toda a sua vida, estava sem sabor.
Muito tempo depois, não sabendo o que dizer, perguntou:
- E o vovô? Já está dormindo? -– sabia que o avô se deitava bem cedo.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 17, 2016 10:41 am

- Não. Não sei.
Ele foi para Minas Gerais fazer a compra de alguns cavalos bons para pôr aqui na pousada.
Foi ele e o Januário -– referiu-se a um empregado.
Aproveitando a oportunidade, Henriette quis saber:
- Já estava escuro quando chegou.
Não tinha mais ônibus que corre no asfalto -– falou sobre o transporte que chegava perto da fazenda que não circulava após às dezoito horas.
Como chegou aqui?
- Encontrei com a dona Florinda e o marido.
Ela pediu para o senhor Geraldo me trazer.
Ele disse que estava com alguns sacos de ração para entregar no rancho do senhor José Cunha.
Então, aproveitou a viagem.
- Que bom.
Se você tivesse telefonado para pedir pro seu avô ou pro Januário ir te buscar... -– não contemplou.
- É... Ainda bem que encontrei com eles.
Henriette aproveitou a pausa para observar melhor a neta e viu que Vanessa não erguia o olhar, alimentava-se pouco e lentamente.
Aquele, certamente, também não era o momento para perguntas.
Foi por isso que, para distraí-la, começou a contar.
- O José Cunha, nosso vizinho, pôs um preço absurdo nos cavalos que o seu avô se interessou.
Então, o Januário viu os cavalos da fazenda do Aristides -– falou do outro vizinho.
São cavalos manga-larga, fortes, bonitos e que o Aristides comprou lá em Minas pela metade do preço que o José Cunha oferecida.
Tínhamos de ser espertos para investir o dinheiro que economizamos, por tanto tempo, para comprar esses cavalos; afinal, os hóspedes gastam bem para passear com eles.
Então, seu avô não pensou duas vezes.
Ele e o Januário foram lá depois de pegar o endereço e telefonar para ver se ainda tinham animais pra vender.
Ontem seu avô ligou para cá e disse que, mesmo pagando o caminhão apropriado para trazer dez cavalos, a compra e o transporte saíram por um preço bem menor do que o avarento do José Cunha pediu.
Além disso, seu avô disse que a qualidade dos animais é bem melhor.
- Quando ele chega?
- Acho que depois de amanhã.
O transporte tem que ser um pouco devagar para não machucar os bichinhos, mesmo sendo um caminhão apropriado para isso.
- Sei... -– respondeu sem se estender.
Parando de comer, empurrou o prato e continuou cabisbaixa.
- Está sem fome, filha?
Você nem terminou a sopa -– falou de modo doce, maternal.
- Não quero mais não. Obrigada.
- Aconteceu alguma coisa, Vanessa?
A jovem fez uma pausa, depois respondeu:
- Aconteceu, vovó.
Lembra que eu contei pra senhora que estava namorando?
- Lembro. Lembro sim.
- Descobri que o Diogo é o maior cafajeste do mundo.
A avó nada disse e aguardou a neta continuar.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 17, 2016 10:41 am

Não quero mais vê-lo...
Não quero mais continuar a faculdade.
Nesse momento, Henriette se manifestou:
- E vai deixar uma briguinha de namorado parar sua vida?
Ora, Vanessa! Seja sensata.
- A senhora não sabe o que aconteceu.
Não foi uma briguinha.
Nós nem conversamos!
Um momento e continuou:
- Depois de dois fins de semana que a gente não saiu, apesar de termos nos visto na faculdade, a Leda me acordou e disse que...
Vanessa contou exactamente tudo sobre o ocorrido.
A avó contornou a mesa, puxou uma cadeira e sentou-se junto a ela.
Ouviu-a atentamente e a afagou nos momentos em que a neta se emocionou.
No fim, a senhora opinou:
- Filha, você não pode parar sua vida por causa desse rapaz.
Já estamos no fim do ano e, se não voltar, não completar o curso, não estiver lá nos dias de prova, vai perder tudo pelo que lutou até agora.
- Não me importo. Não quero saber.
Se eu voltar, vou encontrar aquele canalha.
- Vanessinha, é sua primeira desilusão.
É natural se sentir ferida, magoada, machucada.
O Diogo errou. E errou feio.
Mas não pode deixar que isso interfira na sua vida, no seu futuro.
Você queria tanto fazer esse curso.
Estudou muito para entrar nessa tal de USP, pra agora, na primeira dificuldade, desanimar desse jeito.
Ora, menina! Isso vai passar.
Tudo na vida passa.
Aproveite a oportunidade para enfrentar a situação, encarar o Diogo e...
Se não quiser falar com ele, não fale. Seja firme!
Mas continue com os seus propósitos.
Não desista de seus planos.
Vai encontrar alguém que goste de você, que te respeite e te ame como merece.
Vai se esquecer desse moço e sua vida será outra.
Olhando-a nos olhos, Vanessa pediu em tom melancólico:
- Não quero voltar nunca mais para aquela cidade.
Não me force a isso, vovó. Por favor.
Lá as pessoas são frias.
Não se importam umas com as outras.
As pessoas usam umas as outras sem se importarem se elas têm sentimentos, têm uma alma, têm um coração.
- Eu sei que não foi fácil entrar neste curso com tantos concorrentes e, por causa de um cara sem carácter, você vai jogar fora tudo o que conseguiu, Vanessa?
- Não importa.
Sei que tem outras coisas que posso fazer.
Quero viver aqui. Quero ficar aqui.
Henriette a olhou com piedade e coração partido.
Pensou que Vanessa fosse mais madura para lidar com situações delicadas e desilusões.
Mas não. Ela era sensível.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 17, 2016 10:42 am

Talvez precisasse ainda de seu colo, de sua protecção para amadurecer.
O que mais importava, agora, não eram os objectivos materiais e sim que a neta se sentisse segura e acolhida para se recompor, criar forças e, novamente, ir à luta, em busca de bons objectivos.
Por outro lado, quem sabe, tudo estava muito recente e ela mudaria de ideia, a avó pensou.
O jeito era aguardar.
Longe dali, sentada no sofá, de lado sobre as pernas, Ceres passava os dedos nos cabelos macios do noivo ao seu lado.
Ela fazia comentários sobre a grande empresa farmacêutica onde trabalhava, na Alemanha, e, embora o rapaz a olhasse directamente, ele não a ouvia.
Em dado momento, sentindo-o distante, perguntou:
- O que foi, Diogo?
Você está tão... distraído.
Pegando sua mão, levando-a à boca, ele a beijou demoradamente.
Depois lhe fez um afago no braço e comentou:
- Eu vejo você falando do serviço, da indústria e...
Parece que está tão longe de eu ir pra lá também.
- Vai passar logo. Vai ver.
E valerá a pena. Para você será fácil.
Fala alemão desde o berço, conhece bem a Alemanha e...
- Falando assim, você tem visto os meus tios, meus primos?...
- Nos últimos meses, não.
Como falei, fui para Munique, depois para Amsterdão.
Não fiquei em Berlim nem fui para Friedrischshain, onde moram.
Eles não vieram para o casamento da Cláudia, né? Que pena!
- Meus primos sempre foram distantes e minha tia nunca está bem para viajar.
É mais fácil nos encontrarmos casualmente.
- Foi um casamento lindo! -– ela exclamou, sustentando suave sorriso.
Em seguida, não conseguindo mais esconder a curiosidade, Ceres quis saber:
- Quem era aquela moça, ontem lá na igreja?
- Moça? -– tentou disfarçar.
Remexendo-se no lugar para se sentar direito, Diogo experimentou uma sensação de nervosismo inquietante que acelerou seu coração.
- Vamos ser sinceros, Diogo? -– falou olhando-o firme nos olhos, sentindo que havia alguma coisa errada.
Ontem, no meio corredor, você parou e, como se tivesse visto um fantasma, ficou olhando para aquela moça bem do seu lado, em pé em frente ao banco.
Ela te olhou de modo duro, como se... - Ceres deteve as palavras.
Falava calmamente e aguardou longos minutos.
Ele não se pronunciou.
Diante de tanta demora, vendo-o com olhar baixo, chamou-o:
- Diogo... Olha pra mim.
Quando ele a encarou, perguntou novamente:
- Quem é aquela moça?
O noivo sentiu-se acuado.
Gostava imensamente de Ceres.
Lembrou-se de tudo o que precisou para enfrentar para que ficassem juntos.
Queria ficar com ela. Estava decidido.
Tinha planos de se formar, casar-se e ir com ela para o exterior.
Praticamente já tinha um excelente emprego em vista.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 17, 2016 10:42 am

Como explicar aquele sentimento forte que o atraiu à Vanessa?
Era uma sensação estranha a de admitir gostar de duas pessoas ao mesmo tempo.
Só que seria mais estranho ainda, entender e explicar esse gostar para alguém.
Ali, ao lado de Ceres, tinha certeza de que era ela quem queria ao seu lado, mas não conseguia esquecer Vanessa e, quando estava com Vanessa, queria ficar com ela e não esquecia Ceres.
Se ousasse contar e explicar tudo aquilo para a noiva, certamente, ela não aceitaria e com razão.
Gostava de Vanessa, admitia.
Mas aquele era um momento de escolha e precisaria reunir todas as forças para disfarçar bem a fim de que Ceres deixasse passar aquela situação sem dar muita importância.
Aquele deslize com Vanessa foi um erro. Um grande erro.
Ele era comprometido, e isso bastava.
Achou-se um cafajeste, um canalha sem moral, da última categoria por enganar e trair duas pessoas tão boas, tão sinceras e que não mereciam a dor de uma traição.
Imaginava o quanto Vanessa estava sofrendo e isso já bastava.
Não queria que Ceres padecesse igualmente.
Naquele instante, diante de tanta angústia e arrependimento que experimentava, Diogo jurou, a si mesmo, nunca mais enganar ou trair e ser leal à própria consciência.
Olhando nos olhos de Ceres, ele suspirou fundo e disse:
- Aquelas eram duas colegas de classe.
Não convidei para o casamento da Cláudia.
Aliás, só convidei o Fabiano. Mais ninguém.
Não sei como apareceram lá e...
Acho que estão chateadas por causa disso.
Fiquei surpreso ao vê-las. Só isso.
- Você tem muita amizade com elas?
- Olha... Você estudou no mesmo curso e sabe que, período integral, depois de quase um ano passando o dia com um grupo, a gente já bebe água na mesma garrafa e morde o mesmo sanduíche, ou seja, a gente se une como irmão.
Eu tinha comentado que minha irmã iria se casar, mas não disse quando.
Nem convidei. Acredito que, depois de estarmos sempre juntos, elas pensavam que eu iria convidá-las.
Talvez seja isso.
Fiquei chateado por não ter podido convidar e não achei que elas fossem saber.
Agora estou pensando no que vou dizer quando encontrá-las.
- Foi só isso mesmo, Diogo? -– perguntou firme e calma.
- Amo você, Ceres.
Não é por estar longe que eu iria te esquecer.
Dizendo isso, ele se aproximou e envolveu-a com carinho, beijando-a com amor, mas sentia o coração esmagado por tudo o que tinha feito.
Em seguida, ele se afastou, segurou seu rosto com ambas as mãos, beijou-lhe a testa e resolveu:
- Agora eu preciso ir.
Um segundo e a noiva quis saber.
- Eu não queria perguntar, mas...
E o Felipe?
- Não conversamos.
Aliás, ele mal conversa com qualquer pessoa lá em casa, com excepção da Priscila, é claro.
- Pensei que ele não viesse para o casamento.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 17, 2016 10:42 am

- Todo mundo achou que ele não viria.
A Cláudia ligou.
Mandou um convite, mas ele não disse nada para ela.
Falou que ia ver.
Diogo suspirou fundo como um lamento e se levantou, dizendo.
Agora tenho de ir. Já é bem tarde.
Preciso acordar cedo.
Erguendo-se para acompanhá-lo até o portão, Ceres comentou:
- Acho que meus pais já foram dormir.
O rapaz sorriu e nada disse.
Logo ela propôs:
- Eu queria ir um dia até a USP com você. Posso?
Diogo sentiu-se gelar.
Não esperava por aquilo.
Atordoado, respondeu:
- Pode... Deixa passar esse período de provas, apresentações de trabalho...
Vamos combinar sim -– disse isso para não deixá-la preocupada, mas sua intenção era que a noiva esquecesse o assunto e o ano terminasse sem precisar levá-la lá.
Em seguida, despediram-se e ele se foi.
No dia seguinte, munido de óculos de protecção, luvas e jaleco.
Diogo reclamava sozinho ao esbarrar em alguns tubos de ensaios no laboratório e vê-los ir ao chão.
Não conseguia se concentrar.
Estava nervoso, pensando em como seria encontrar Vanessa naquela manhã.
Sentia falta dela que já deveria ter chegado.
O som de um salto de sapato pisando duramente, atraiu sua atenção.
O rapaz olhou por sobre o ombro e viu Leda se aproximando.
Séria, semblante sisudo, a amiga chegou bem perto e disse em tom moderado:
- Que sujeira você fez com a Vanessa.
Pensei que você fosse um homem e não um moleque.
- Onde está a Vanessa?
- Pra que quer saber?
O que fez antes de ontem não foi o suficiente?!
Ter usado, humilhado, pisado nela não bastou?!
Ainda quer mais?! -– perguntou irónica.
- Não é nada disso, Leda.
- Qual é, Diogo?!
Você foi um canalha!
Cretino! A Van é uma garota muito legal.
Chega a ser ingénua e inocente, para você ter feito isso com ela.
Olhou-o de cima a baixo como se sentisse nojo e perguntou:
- Que tipo de pessoa é capaz de fazer o que você fez?
- Onde ela está?! -– foi firme, não se importando com o que ouvia.
- Não sei. Ela sumiu desde ontem cedo.
Procurei em tudo quanto foi lugar.
Só não liguei para avó dela porque...
Se eu ligar e ela não estiver lá... Já viu.
Tô esperando ver se ela aparece.
- Precisamos saber onde ela está.
- Precisamos uma vírgula!
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 17, 2016 10:42 am

Você precisa é tomar vergonha na cara.
Covarde! -– ofendeu, virando-lhe as costas e saindo do laboratório pisando firme, sem esperar o revide.
Naquele dia quente e ensolarado, Leda procurou um telefone público e ligou para a amiga.
Não suportou a preocupação.
Percebeu que Vanessa levou algumas roupas, documentos, pertences pessoais e a mochila que sempre usava para viajar, mas não tinha certeza para onde a amiga tinha ido.
Ao ser atendida pela voz serena da avó da colega, ficou temerosa.
- Oi dona Henriette, aqui é a Leda.
Como vai a senhora?
- Bem. E você?
Faz tempo que não aparece aqui, menina.
- Estou bem. Mas...
Não tá dando tempo de ir aí.
Minha mãe reclama da mesma coisa. aqui está muito puxado -– respondeu com voz trémula.
Um instante e começou a se explicar.
-– Desculpa eu ligar assim...
É que... Bem..
Interrompendo-a para pôr um fim àquela angústia que sentiu na jovem, a mulher, experiente, antecipou-se:
- Quer saber da Vanessa, não é?
Ela está aqui, sim.
- Ufa! – expressou- se aliviada. -– Ela está bem?
- Está sim. Na medida do possível...
Agora ela está deitada.
Minha neta me contou tudo.
Por conta do que aconteceu, ela quer desistir da faculdade.
Não quer ir mais para São Paulo.
Disse que está decidida.
Fala até em fazer outro curso.
Acho que se decepcionou, mesmo.
Nem sei o que fazer.
- Ah, não! Que absurdo!
A Van não pode fazer isso!
- Eu sei. Falei com ela, Leda, mas...
Acho que minha neta sofreu um choque muito grande.
- Mais tarde, ela vai se arrepender se fizer isso, dona Henriette.
Eu queria falar com ela, mas...
Estou em telefone público.
- Liga mais tarde, Leda.
Liga a cobrar.
- Vou fazer melhor.
No próximo fim de semana, posso passar aí?
- Já é minha convidada, filha.
Venha sim. Você é sempre bem-vinda.
- Obrigada, dona Henriette.
Sábado de manhã estarei aí.
- Fico te aguardando. Fica com Deus.
Despediram-se.
Leda, preocupada, caminhou mecanicamente de volta ao laboratório.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 17, 2016 10:42 am

Outros colegas, que faziam o mesmo curso, já estavam no local.
A distância, ela ofereceu um olhar fuzilante para Diogo que imantou seus olhos ao dela e experimentou uma sensação enervante, tão amarga que o fez se sentir mal.
Por toda manhã, até aquela hora, o rapaz não conseguia se concentrar.
Isso era nítido.
Antes do almoço, quando ia saindo do laboratório.
Diogo fez questão de passar perto da colega e perguntar.
Não suportando mais aquela inquietação angustiante.
- Leda -– ao vê-la encará-lo, completou -– você soube da Vanessa.
- Soube sim. Liguei para a avó.
Coisa que você deveria ter feito.
Breve pausa e informou:
- Ela está lá em São Bento do Sapucaí.
Voltou para casa e... graças a você -– falou irónica -– a Vanessa vai deixar a faculdade.
- Como assim?
- A avó me disse que ela não quer vir mais pra São Paulo.
Que está desistindo do curso porque se decepcionou muito com você.
- Eu preciso falar com ela -– murmurou ele.
- Falar o que, Diogo?!
Quer magoá-la ainda mais?
Ou... por acaso vai terminar tudo com a noivinha pra ficar com a garota sem graça e pobre do interior?
- Não diga isso, Leda.
- Não dizer o quê? A verdade?!
- Eu gostei da Vanessa...
É difícil explicar, eu...
- Ora, Diogo! Me poupe das suas falsidades!
Acha que ainda pode me enganar com suas mentiras?
Sem esperar, desfechou:
- Agora me dê licença, vai!
Leda afastou-se alguns passos e, para desafiá-lo, pois sabia ser impossível que o colega aceitasse, propôs ao se virar:
- Sábado próximo, cedinho, eu estou indo pra São Bento do Sapucaí para conversar com minha amiga e pedir par não jogar fora a vida e tudo o que conquistou.
Se quiser, poderá ir comigo.
O que me diz?
Diogo sentiu-se ainda pior.
Não sabia o que responder.
Por um instante, ficou dividido.
Pensou em Ceres e no compromisso sério que tinha com ela, além de se lembrar de como foi difícil ficarem juntos e assumirem um sentimento que contrariou a muitos.
Seus olhos ficaram vermelhos e aquecidos ao umedecer.
Sentiu que poderia chorar e, num simples impulso, abaixou a cabeça e virou o rosto para fugir daquele olhar dardejante que o esgotava, que expunha suas fraquezas, sua indecisão, seus conflitos.
Ao ver sua postura, Leda comentou com voz de desprezo:
- Eu sabia! -– e se virou, deixando-o só.
Aquela semana foi péssima para Diogo.
Ceres, desconfiada por vê-lo com um comportamento bastante diferente, perguntou várias vezes o que estava acontecendo, mas o noivo negava ter qualquer problema e disfarçava, sofrendo calado.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 17, 2016 10:43 am

A brisa soprava suavemente as folhas das árvores perto do belo lago, tremeluzindo também a água que, prateada, reflectia as montanhas que havia no fundo como lindo cenário.
Leda e Vanessa caminhavam lado a lado e amiga discordava:
- Você não pode abandonar tudo por causa dele, Van!
- Como voltar e encarar o Diogo depois dessa cachorrada que ele fez?!
- Sabia que você pode ir à polícia dar queixa do cara e mover uma acção por ele ter te enganado?
- Ora, Leda! Não vou fazer isso, né?
Um momento e desabafou:
- Estou tão magoada, tão sofrida...
- Não é para menos.
Mas não deve abandonar tudo.
Pense em você.
- Estou pensando.
Fui para o curso errado, para a cidade errada, confiei na pessoa errada...
- Você gosta dele, não é?
Leda perguntou, mas Vanessa não respondeu.
Parou. Olhou para o lago e seus olhos se encheram de lágrimas.
Não a deixando quieta, a amiga perguntou:
- O que pretende fazer agora?
Vanessa passou as mãos pelos cabelos, fez um rabo, torceu para o lado, sobre o ombro, deixando-o cair, desmanchando-se sozinho.
Respirou fundo.
Parecia não ter resposta, mesmo assim, pensou antes de comentar.
- Acho que, para ficar por aqui, vivendo aqui como eu quero, junto com meus avós, o melhor seria eu fazer algo na área de hotelaria.
Gosto muito desta pousada.
Tenho ideias para melhorá-la, mas não sei exactamente como pô-las em prática.
Precisamos investir em propagandas, divulgar mais os serviços...
Tenho ideias de fazer, aqui dentro, lojas de artesanato e de roupas de inverno, com diversos tipos de confecções, principalmente as feitas à mão.
- Acha que vai se dar bem com isso?
- Só me dei mal quando saí daqui, não foi?
Olhando-a nos olhos, Leda inquiriu:
- Tem certeza disso?
- Tenho -– foi firme.
Estou só me acostumando com os novos planos.
Vou começar a procurar por cursos e...
Vou me dar bem.
- Se é mesmo o que quer...
Leda disse isso com dor no coração.
Não queria se separar da amiga.
Vanessa ofereceu olhar generoso no rosto angelical.
Sorriu levemente e sugeriu:
- Vamos voltar?
O almoço deve estar pronto.
- Estou morrendo de fome!
Mostrando-se animada, Leda entrelaçou seu braço ao da amiga e começou a falar enquanto retornavam.
- Precisamos combinar para você ir à minha casa quando eu estiver lá.
Quero manter contacto.
- Lógico. Não vou me afastar.
Gosto muito de você, amiga! -– sorriu.
Seguiram lado a lado, tecendo planos e procurando falar de assuntos mais alegres.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 10:09 am

Capítulo 6 - Felipe

Alguns anos depois...
Em luxuoso apartamento cujo pé direito, de considerável altura e paredes largas, ostentava enormes vidraças onde cortinas clássicas se recortavam fechadas e imóveis, uma lareira aquecia o ambiente.
As chamas dançavam firmes, ao mesmo tempo, suaves, proporcionando luz bruxuleante que turvava a visão.
Ali, naquela sala, sentado em confortável sofá, calado, rodeando nas mãos um copo de uísque, Diogo bebericava, tentando afogar os sentimentos angustiantes e uma dor inominável.
A empregada uniformizada devidamente, que falava não mais do que o idioma alemão, interrompeu seus pensamentos tristes, anunciando visita.
Mesmo assim, ele continuou imóvel.
Olhar perdido nos desenhos octogonais da luz âmbar reflectidos pelo cristal do copo que colocou sobre a mesa.
Continuou como se nada tivesse ouvido.
O senhor Weber entrou logo atrás da empregada.
Tirou as luvas, o cachecol e o sobretudo denso que o protegiam do frio intenso.
Entregou-os à funcionária e agradeceu.
Logo se voltou para o filho e exclamou indo à sua direcção:
- Nossa! Como está frio!
Como vai, Diogo? -– perguntou, inclinando-se junto a ele.
Beijou-lhe o rosto e puxou-o para um abraço, forçando-o a se levantar.
Após o gesto mecânico, Diogo se sentou imediatamente.
Erguendo o olhar pesado, na face séria, praticamente carrancuda, respondeu com uma pergunta.
- Como acha que estou indo?
Apiedando-se, o senhor alto, grisalho e corpulento, sentou-se ao seu lado e afagou-lhe as costas, dizendo:
- Desculpe-me por só ter conseguindo vir hoje.
A nevasca fechou os aeroportos.
Os voos foram cancelados e...
Não teve como eu chegar a tempo. Você deve saber.
O filho não disse nada.
Parecia anestesiado.
Em seguida, o pai perguntou:
- Por que não quis transladar os corpos para o Brasil?
- Eu já explique isso aos pais dela e a você por telefone.
A Ceres gostava demais daqui.
Ela, simplesmente, amava essa cidade.
Fez questão que o nosso filho nascesse aqui.
E... eu lembrei que, uma vez, por brincadeira, talvez, ela mencionou:
“já que não nasci aqui, espero ser enterrada em Berlim”.
Foi por isso... -– calou-se por uns minutos.
Depois continuou:
- Foi por isso que eu decidi que fosse aqui.
Também não poderia deixá-la separada de nosso filho, já que eles morreram juntos, abraçados...
Total silêncio.
Algum tempo, sem saber exactamente que assunto puxar, o senhor arriscou:
- Não sei se os pais dela conseguiram voo para cá.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 10:09 am

Está tudo lotado, congestionado...
Precisei fazer quatro escalas e...
Eles reclamaram muito.
Queriam que o corpo da filha fosse para o Brasil.
- Que se danem eles!!! .– gritou revoltado.
Eu decidi pelo que ela queria!!! Já está feito!
- Calma, Diogo. Não precisa se alterar.
Ninguém o está criticando nem...
- Pai!... O senhor não sabe como eu estou.
Perdi minha mulher, meu filho!...
Minha vida acabou. Nada faz sentindo.
Daqui a dois meses o Raphael iria completar dois anos.
Eu sou capaz de escutar seus gritinhos, seus passos, o barulho dos brinquedos...
Ouço os desenhos animados que ele assistia, sem que a TV esteja ligada e, quando vou lá...
Tudo acaba. Não tem nada ligado.
Toda noite eu entro no quarto dele e tenho a impressão de que ele está deitadinho, dormindo... mas, quando olho direito para a cama...
Diogo tinha lágrimas incessantes correndo pelo rosto quando um soluço embargou sua voz.
-– Como se não bastasse...
Vou me deitar e ainda sinto o perfume da Ceres que está no travesseiro, no nosso quarto, nas nossas roupas, na cama toda...
Eu a procuro, mas não a encontro do meu lado.
Às vezes acordo e acho que foi tudo um pesadelo, só que quando a procuro, ela não está.
Parecendo atordoado, silenciou por uns instante.
Depois, mais brando, contou:
- Ontem eu cheguei aqui e escutei um barulho vindo lá do meu quarto.
Pensei que fosse ela.
Aliás, havia me esquecido que não estavam mais aqui e...
Corri lá para dentro.
Ouvi algo no banheiro e...
Parecia que o banheiro estava quente, húmido...
O aroma dos seus cremes, o cheiro do sabonete...
Era como se a Ceres tivesse acabado de sair de lá.
Aproveitando-se da pausa, o senhor Weber procurou consolar:
- Filho, faz somente dez dias.
Ainda é cedo e...
- Nunca é cedo. Nunca será tarde, pai.
Hoje vejo que deveria ter aproveitado mais cada momento junto deles.
Breve instante e recordou:
- Nós nos casamos quando eu estava no último ano de faculdade porque não aguentávamos mais ficar longe um do outro.
Íamos fazer cinco anos de casados daqui a alguns meses...
Agora vejo que fiquei muito tempo trabalhando, viajando a serviço, preocupado em ter bastante dinheiro, luxo, casas bonitas, carro ideal, conforto e conforto, e mais conforto.
Acho que não dei o principal a eles:
minha presença, meu carinho constante, meu toque, contacto...
Se eu pudesse voltar o tempo, se eu pudesse...
Calou-se e tomou, em um único gole, o restante do uísque, colocando o copo sobre a mesa, batendo-o de forma abrupta.
Jogou-se para trás deixando o corpo largado.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 10:09 am

- Diogo, meu filho...
Não sei muito bem o que dizer num momento como esse.
Aliás, ninguém sabe.
Perdas como essas provocam grande dor, principalmente quando, de uma vez só, duas criaturas tão queridas vão embora.
Mas se Deus quis assim...
Sentando-se direito, virou-se para o senhor e inquiriu em tom revoltado:
- Que Deus é esse pai?! Hein?!
Que Deus é esse que arrancou a vida da minha mulher, jovem, bonita, saudável, produtiva, alegre?!...
E do meu filho, tão pequeno, que nem tinha começado a viver!
Quando aquele desgraçado desgovernou o carro e atropelou os dois, por que eu não morri junto?!
Eu estava do lado, pai! Do lado!
Chorou. Olhando para as próprias mãos, como se procurasse uma resposta, contou:
- Eu peguei os dois nos meus braços e... Nada!
Nem um suspiro, nem...
A Ceres tinha a cabeça sangrando e, mesmo tão agasalhada, ela...
O Raphael parecia dormir.
Olhou para o pai e, chorando, continuou de modo dramático, gesticulando com as mãos e entoando a voz em tom amargo:
- Ela estava com ele no colo quando o carro os pegou.
Ofereceu longa pausa, e o pai nada disse.
Foi então que, mais calmo, contou:
- Naquela manhã o Raphael não queria sair.
Não queria pôr roupa mais quente nem as botas e correu pela casa.
Eu estava com pressa e fiquei insatisfeito.
A Ceres me chamou a atenção para irmos lá falar da “super-roupa”.
Então me forcei.
Peguei o suéter, o casaco e as botas, fui atrás do Raphael e falei que aquela era a “super-roupa”, que somente os homens do espaço, os guardiões da Terra usavam.
Isso sempre funcionava, e tinha de ser eu a fazer.
A mãe não conseguia convencê-lo.
Ele veio, e eu o vesti.
Ela sorriu e me beijou.
A Ceres o pegou e nós saímos.
Não usamos o carro.
Íamos de metrô e... ele não quis vir no meu colo, queria que eu ficasse ao lado para brincarmos junto com aquele foguete espacial que o senhor deu, e eu aceitei.
Eu estava brincando, distraído...
Estávamos na calçada e...
Não vi... Tudo aconteceu rápido demais.
Diogo começou a chorar compulsivamente e o pai o abraçou forte por longo tempo.
Não havia o que dizer para consolá-lo.
Olhando por sobre o ombro do filho, o senhor Weber passou os olhos pelo ambiente, reparando as fotos alegres que se espalhavam com os porta-retratos sobre os móveis, exibindo, em algumas delas, o casal sorrindo, abraçado e o filho no meio.
Outras, mostravam somente Raphael, ou pai e o filho ou ainda a mãe e o pequeno garotinho sempre sorridente, de lindos olhos azuis e cabelos loiros, cacheados como os de um anjinho.
O senhor se emocionou e sentiu os olhos marejados.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 10:10 am

Imaginou como deveria ser aquela tristeza inominável aquela perda irreparável.
Ninguém deveria viver mais do que o próprio filho. Ninguém.
Esse tipo de tragédia aconteceu e ainda ia acontecer.
Diogo precisava ser forte para recuperar-se o quanto antes e não se fragilizar ainda mais.
O filho decidiu se afastar do abraço.
Secou o rosto com as mãos e respirou fundo.
Nessa hora, o senhor Weber perguntou:
- Você já voltou ao trabalho?
- Estou tentando, mas ainda não está dando.
Eu me sinto perturbado.
Não consegui me concentrar em nada.
- O ideal, filho, é reagir.
Abra essas cortinas. Acenda as luzes.
Faça a barba. Procure-se ocupar.
Saia um pouco.
O filho não se animava, mas nem por isso o senhor desistiu de convencê-lo.
Era um momento delicado e triste em que Diogo precisava de muito apoio.
Não demorou e a campainha soou.
Eram os pais de Ceres que chegavam e procuravam pelo genro.
Longe dali, no Brasil, na cidade São Paulo, o dia estava muito quente.
Do asfalto escaldante, podia-se ver a onda de calor tremeluzir acima do chão, provocando um reflexo destorcido.
Em uma Pajero estacionada em uma rua tranquila, uma mulher bonita, de cabelos lisos, cortados pouco abaixo dos ombros, tamborilava os dedos no volante exibindo-se ansiosa.
Mantinha um olhar dardejante para o portão da luxuosa residência que estava exactamente como quando ela viu, há mais de oito anos.
Muros altos, brancos, só que agora acrescidos cerca eléctrica.
Um jardim estreito na calçada, onde arbustos bem aparados ornamentavam com graça e leveza.
Nenhuma movimentação atrás dos portões de grades, excepto de um cão pastor alemão que, às vezes, aparecia brincando com um pedaço de corda com um nó.
O rádio do carro estava ligado na esperança de se distrair e não ficar tão nervosa.
Já estava ali há cerca de duas horas observando o movimento, criando coragem para chamar e se anunciar.
Mas como faria isso?
Tratava-se de Vanessa.
Mais adulta, muito mais madura e segura de si.
Bem diferente daquela moça simples e ingénua que chegou à metrópole tempos atrás.
Ela desligou o rádio, desceu do jipe e puxou a bolsa que alçou no ombro.
Bem vestida, exibia bom gosto e sua postura mostrava confiança.
Ajeitou a roupa e puxou a blusa em que passou a mão para ter uma boa aparência.
Tinha feito uma longa viagem onde fez somente duas paradas.
Bateu a porta do veículo e atravessou a rua olhando bem dos lados, apesar da tranquilidade do lugar.
Sentia o coração acelerado e batendo forte.
Pensou em nunca mais ter de estar ali.
Mas não. O destino lhe reservou aquela experiência.
Frente ao portão, Vanessa ficou olhando o cachorro que a encarou quieto e tão sério quanto ela.
Quando ia levar a mão ao interfone, do carro que parou, silenciosamente, na rua às suas costas, um homem abaixou o vidro e perguntou:
- Precisa de ajuda?
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 10:10 am

Ao se virar, Vanessa sentiu-se gelar.
Perdeu a fala ao encará-lo.
Ele observou um comportamento, no mínimo, estranho, diferente e desceu do carro.
Fechou a porta e percebeu o quanto as mãos finas e delicadas da moça estava trémulas, tentando segurar a alça da bolsa.
- Oi... -– frente a ele, murmurou com receio.
- Oi. Tudo bem com você?
Felipe perguntou sem saber de quem se tratava.
Ao perceber sua indiferença, Vanessa experimentou um sentimento de indignação corroendo-a por dentro, enquanto uma expressão insatisfeita estampou-se em seu rosto.
- Acho que não se lembra de mim. Não é mesmo?
- Desculpe-me, mas...
Acho que não lembro mesmo -– tornou ele com simplicidade, oferecendo leve sorriso desconfiado, fazendo aparecer a mesma covinha do lado direito do rosto.
Nesse instante, pensamentos acelerados percorreram a mente de Vanessa.
Como Diogo foi capaz de esquecê-la?
É certo que ele deve ter tido outras.
Enganado outras como a enganou.
Mas ele seria tão irresponsável assim a ponto de não se importar nem de se lembrar que, um dia, se fez de namorado dela?
Que a enganou?
Que a fez sofrer a ponto de largar a faculdade?
Com voz trémula, quase ofegante, ela disse aparentando estar calma:
- Já faz muitos anos, eu sei...
Mas... Sabe... o que me trouxe até aqui é um motivo muito sério.
Vendo-o ainda olhá-la como uma total estranha, procurou recordá-lo para facilitá-lo.
Sou a Vanessa. Não se lembra de mim?
Acostumado a ser confundido com seu irmão, o rapaz deu novamente um sorriso, achando graça pelo engano.
Mas ela não entendeu e ele respondeu, tentando brincar:
- Desculpe-me, mas...
Eu deveria lembrar de você?
Nesse instante, a indignação tomou conta de Vanessa que, sentindo-se ofendida, ferida, magoada e acreditando ser humilhada, respondeu firme, com lágrimas brotando nos olhos.
- Ora, seu...
Saiba, se não fosse por nosso filho, eu não estaria aqui! Você...
- Ei! Espera! Calma aí!
Você está me confundindo com...
- Confundindo coisa nenhuma! – interrompeu-o.
Está querendo insinuar que eu não sei quem é o pai do meu filho?!
Saiba que não vim aqui atrás de um nome, muito menos atrás do seu dinheiro!
Não precisamos disso!
Mas se quiser um teste de paternidade, estou pronta para fazê-lo o quanto antes.
Aproximando-se, segurando-a com leveza em seu braço, percebendo-a bem nervosa, o rapaz pediu sério, mas com voz forte e em baixo tom:
- Calma. Já vi que o assunto é bem sério e não deve ser discutido aqui fora.
Vamos entrar e esclarecer tudo lá dentro.
Vendo-a em silêncio e com a respiração quase ofegante, Felipe se aproximou do portão, abriu-o e deu um comando ao cachorro que se afastou.
Depois propôs, educado e em tom solene, tocando-lhe levemente o ombro com a ponta dos dedos:
- Entre, por favor.
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