MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 10:10 am

Caminharam pelo belo jardim e, assim que chegaram à sala de visitas da grande residência, uma empregada apareceu e ele pediu:
- Cida, por gentileza, leve para o escritório duas águas bem geladas e...
Virando-se para a moça que o acompanhava perguntou:
- Você prefere um café ou um suco?
- Só água. Obrigada -– decidiu sem rodeios.
- Duas águas e dois sucos.
Por favor, Cida.
Vanessa passava os olhos pela elegante sala bem decorada quando Felipe pediu:
- Vamos conversar no escritório, por favor.
Teremos mais privacidade.
É por aqui... -– indicou.
Seguiu e ela o acompanhou.
Ao entrarem, Felipe fechou a porta e, estendendo a mão, indicou uma poltrona para que se acomodasse.
Estantes altas e de madeira escura, envernizadas e forradas de livros, escondiam quase todas as paredes.
Ele foi até as janelas, abriu as vidraças e retornou, acomodando-se no sofá clássico de couro escuro, frente a ela.
Sem tentar ofendê-la, perguntou em tom cauteloso, pois, em meio ao nervosismo que surgiu tão rapidamente pela notícia anunciada, acreditou esquecer.
- Vanessa? Não é mesmo?
- Você está de brincadeira comigo, não é mesmo?! -– indagou parecendo zangada.
E sem dar uma trégua para ele se explicar, afirmou.
-– Temos um filho e o nome dele é Rafael e...
- Rafael?! -– interrompeu-a, ficando mais surpreso ainda.
- Sim. O nome dele é Rafael -– ela confirmou.
Sentindo-se gelar pelo efeito do choque, ele perguntou bem sério:
- Quantos anos ele tem?
- Vai fazer oito anos em julho.
- Meu Deus!... -– exclamou baixinho, perplexo, no momento em que levou as mãos unidas, como em prece, até a boca.
Levantando-se, caminhou alguns passos negligentes, meio estonteado, por lembrar que seu sobrinho falecido há poucos dias, filho do seu irmão Diogo, também se chamava Rafael.
Interrompeu-o dos pensamentos, Vanessa sugeriu:
- Como eu disse, faremos um exame de paternidade e...
- É lógico que esse exame vai provar que eu sou o pai do seu filho, mesmo sem nunca ter encostado um dedo em você, porque...
- Como se atreve?! -– indignou-se e se levantou.
- Eu sou o Felipe! -– disse firme, olhando-a nos olhos.
Não sou o Diogo! Sou o Felipe!
Somos gémeos idênticos e isso já nos causou...
Fez breve pausa. Respirou fundo e, mais calmo, contou:
- Somos gémeos. Certamente você nunca me viu.
O facto de sermos idênticos sempre foi motivo de muitas brincadeiras e confusões, mas...
- Gémeos? O Diogo tem um irmão gémeo?! -– aproximou-se um pouco e olhou-o de perto, tentando acreditar e procurando diferenças ou reparando semelhanças.
- Sim. Somos gémeos.
Ele nunca te disse?
- Disse que tinha duas irmãs e um irmão, mas nunca falou sobre serem gémeos.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 10:10 am

- É que há anos procuramos esquecer isso.
- Desculpe-me pelo que te falei, Felipe.
Eu... -– passou a mão pela testa suada e colocou os cabelos atrás da orelha, voltando para o lugar onde estava sentada.
Nesse instante, a empregada bateu à porta e entrou trazendo água e suco.
Vanessa aceitou e Felipe também.
Após a saída da mulher, ele pediu:
- Não fique constrangida por nos confundir.
Não tem problema.
Não é a primeira vez que alguém faz isso nem será a última.
Estou acostumado.
Eu ia dizer lá na rua, mas vi que o assunto que a trouxe aqui é bem sério mesmo.
Acomodando-se a sua frente, perguntou em tom generoso:
- Quer dizer que você e o Diogo têm um filho com sete anos e o nome dele é Rafael?
Vanessa o olhou longamente.
Era impressionante a semelhança.
A cor dos olhos, os cabelos agora curtos, a barba bem feita, escanhoada na pele alva, levemente bronzeada, a voz, o corpo atlético e forte...
Tudo era igual.
Até a covinha que se afundava somente no lado direito, quando ele sorria.
Embora aparentasse mais idade, logicamente, ela poderia jurar que estava na frente de Diogo.
Somente algo nos olhos de Felipe parecia diferente, mas não era possível notar isso de imediato.
Também não saberia dizer se os anos trouxeram a mesma energia opaca, quase triste, para os belos olhos verdes de Diogo.
- Sim, temos um filho -– respondeu agora bem calma, sentindo-se exausta e um tanto constrangida.
- O Diogo não sabe disso?
- Não. Nós namoramos por oito meses, no primeiro ano de faculdade, quando fazíamos Farmácia.
Só que, ao mesmo tempo, ele estava noivo e, quando eu soube, não acreditei.
Então, junto com uma amiga, fui ao casamento da irmã de vocês, a Cláudia.
- Sim! Claro! Você é a moça da igreja! -– sorriu ao recordar.
- Como assim?!
- Eu estava lá.
Tinha acabado de chegar de Londres.
Mandei a mala pra cá e fui directo para a igreja.
Eu quase não vinha para o casamento, mas...
Estava lá, no último banco da igreja.
Quando o Diogo e a Ceres entraram, vi quando ele deu uma paradinha e vocês trocaram olhares...
Em seguida, você saiu do lugar e foi para o fundo.
De facto estava com uma amiga e, depois que minha irmã entrou, foram embora.
- Você percebeu isso?
Pensei que ninguém tivesse visto -– admirou-se.
- Percebi sim. Porque, ao te ver, meu irmão ficou desconcentrado.
- Dali, depois da igreja, fui embora e nunca mais falei com ele.
No dia seguinte, voltei para a minha cidade.
Desisti do curso. Desisti de tudo.
Só depois descobri que estava grávida e decidi que o Diogo nunca saberia.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 10:10 am

- Nunca mais o viu? -– insistiu Felipe.
- Não. Nunca.
Inclusive, pedi para a minha melhor amiga, a Leda, que estava na igreja comigo e estudava com a gente na mesma turma, que não contasse para o Diogo que eu estava grávida.
Ela quis me convencer do contrário, mas eu não quis.
- Como assim, Vanessa?
Não achou que ele precisava saber?
Que seu filho merecia ter um pai?
- Que homem é esse que trai, engana, magoa senão um covarde?
Tive vergonha de dizer para o meu filho que o pai dele é um covarde.
Talvez você não tenha ideia, Felipe, do quanto dói ser enganado, traído.
- Ah! Tenho sim! -– desabafou num impulso, sem querer.
No mesmo instante, controlou-se e corrigiu:
- Imagino que foi bem difícil para você.
- Tive muito apoio dos meus avós.
Retomei minha vida. Refiz tudo.
Tive meu filho e cuido dele até hoje com muito orgulho.
Somos felizes. Temos um ao outro e uma vida óptima.
- Você se casou?
- Não. Mas eu soube que o Diogo sim.
A Leda, que continuou estudando com ele, contou que ele e a Ceres se casaram no último ano de faculdade.
- Foi mesmo. Mas... -– deteve-se.
Não sabia se deveria contar tudo o que aconteceu recentemente com a esposa do irmão e com o filhinho pequeno.
Precisava pensar. Disfarçou.
Precisava saber o que Vanessa queria.
-– Então? O que a trouxe aqui?
- O Rafael está muito doente e precisa de um transplante de medula óssea.
- Leucemia? -– perguntou com jeito preocupado, franzindo o semblante.
- É sim... -– emocionou-se.
Os médicos me disseram que entre familiares é mais fácil encontrar doador.
Se não conseguir...
- Meus Deus! -– exclamou baixinho, entristecido.
- Eu nunca iria procurar o Diogo se não fosse por isso.
Não quero incomodá-lo.
Sei que essa notícia vai abalar o casamento dele e depois...
Bem... depois acho que ficaremos ligados por causa do Rafael.
Isso tudo vai trazer muito desconforto, muito transtorno.
Vanessa prendeu seu olhar no dele e invadiu-lhe a alma.
Com um tom calmo, triste, quase implorando, argumentou ao ter uma ideia:
- A não ser...
- A não ser, o quê? -– perguntou curioso diante da pausa.
Mesmo sentada, ela ergueu o tronco como alguém que se anima.
Seu rosto quase se resplandeceu por causa da elaboração mental imediata.
Não queria se encontrar com Diogo novamente e, talvez, Felipe pudesse ajudá-la nisso.
Foi então que, em tom cauteloso para tentar convencê-lo disse:
- Veja, Felipe, não é justo que eu estrague o casamento do seu irmão.
Se eu aparecer com a notícia de que o Diogo tem um filho, o casamento deles nunca mais será o mesmo.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 10:11 am

- Do que está falando, Vanessa?
- Você é casado?
Vive com alguém ou tem algum compromisso?
- Não. Eu...
Acabei de sair de um relacionamento e...
Quando se pegou falando de assuntos íntimos que não importavam à moça, deteve-se e quis saber:
- Aonde quer chegar?
- Podemos tentar não estragar o casamento do seu irmão.
Vocês são gémeos idênticos, possuem a mesma genética e...
Se for compatível com o Rafael, você poderá salvar a vida dele.
Daí eu sumo. Desapareço.
O Diogo não precisa saber que tem um filho.
Ninguém precisa saber! -– falou como se implorasse.
Ele continuará vivendo bem com a mulher dele, e eu e o Rafael vamos seguir nossas vidas.
- Espera aí! Você está querendo me envolver nessa história e quer que eu saia dela sem mais sem menos?!
- A bem da verdade, sou uma estranha pra você, Felipe.
O Rafael também. Faça de conta que você procurou o banco de doação e se tornou um doador anónimo.
Perguntei se você era casado ou tinha algum compromisso sério para não te prejudicar, para não ter de esconder ou mentir para alguém com quem esteja ligado.
- E se eu não for compatível?
Encarando-o, ela murmurou:
- Aí sim. Vai ser preciso convocar os outros da sua família e então o Diogo vai ter de saber.
Felipe se levantou.
Caminhou até a mesa grande que havia no escritório e ficou pensativo.
Apreensiva, a moça não tirava os olhos dele.
Virando-se para encará-la, argumentou:
- Vanessa, eu não sei o que responder.
Tudo isso é muito louco!
Sei que eu sou a ovelha negra da família.
Tenho fama de inconsequente, mas...
Acho que isso, o que pede, é muito para mim.
- Você vai me ajudar. Vai salvar uma vida.
Ajudar seu irmão a preservar o casamento.
Pra que o Diogo precisa saber que tem um filho?
Ele vive bem com a mulher. Foi a ela que escolheu.
Eu e o Rafael vivemos bem! Tudo está certo como está.
Se a verdade vier à tona, só vai trazer abalo para todos.
A Ceres vai descobrir que o Diogo a traiu quando eram noivos.
Como ela vai reagir?
Pense nisso! -– exclamou com suavidade na voz aflita.
Indo para perto dele, pediu, parecendo implorar, ao tocar seu braço.
- Felipe, você tem a chance de deixar todo mundo viver em paz, se isso der certo.
Ele não se dava bem com seu irmão, mas Vanessa não sabia disso.
Havia anos que não conversavam.
Apesar do tempo, sentia-se magoado por tudo que o Diogo lhe fez.
Talvez aquele fosse o momento de se vingar dele.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 10:11 am

Por um instante, essa ideia lhe passou pela cabeça, mas em seguida, não achou justo.
Diogo precisava saber que tinha outro filho, principalmente agora, naquele período tão difícil que atravessava.
Felipe precisava pensar.
Vanessa quase o convencia.
Invadindo-lhe os olhos, ele entendeu sua alma aflita, mesmo sabendo que aquela proposta não era correta.
Em frente ao rapaz, sustentando seu olhar penetrante, ela explicou-se ainda:
- Felipe, por favor, entenda.
Foi muito difícil eu vir até aqui.
Se não fosse pelo amor que tenho por meu filho, se não fosse pela doença, o Diogo jamais teria notícias minhas.
Pense comigo:
eles não estavam casados quando ele me conheceu, mas eram noivos.
O Diogo me enganou e escolheu ficar com a Ceres.
Ela nunca soube da minha existência.
Por que estragar a vida dos dois?
Temos a chance de deixá-los bem.
Pense nisso!
- Por mais inconsequente que eu seja, Vanessa, esse assunto é muito sério.
- Caso seja compatível, você se negaria a salvar a vida de uma criança, se precisasse ser doador?
- Não. Eu nunca me negaria. Mas...
- Preste atenção -– interrompeu-o, ainda falando em tom doce e implorando -, vamos deixar Deus escolher.
- Como assim?! – ele indagou sem entender a pergunta.
- Você vem comigo. Faz os testes.
É só uma amostra do sangue.
Se não for compatível, então Deus decidiu que não só o Diogo, mas sim toda a sua família vai precisar saber da existência do Rafael.
- Não queira pôr Deus no meio disso! -– disse virando-se e afastou-se caminhando até as janelas.
Vanessa foi atrás dele.
Colocou a mão leve em seu ombro e pediu, quando ele se virou:
- Então pense.
Não conte nada de imediato.
Pense no casamento de seu irmão.
- Certo. Se eu for compatível, faço a doação e você some com o meu sobrinho e meu irmão nunca vai saber.
Como vou viver com isso depois?!
Felipe perguntou no instante em que suaves batidas à porta os fizeram fugir um dos olhos do outro e se viraram para ver quem entrava no escritório.
Ao ver uma mulher esguia, já senhora, usando um robe de seda, andando com dificuldade, Vanessa deu um passo atrás, afastando-se de Felipe.
- Desculpe-me interromper.
A Cida me disse que tínhamos visita.
Como não sabia quem era, decidi vim ver.
- Não deveria andar pela casa, mãe.
A senhora sabe que precisa repousar -– disse Felipe que, no mesmo instante, pensou rápido e apresentou:
- Vanessa, essa é minha mãe, dona Elza e...
Mãe, essa é a Vanessa, uma amiga da faculdade.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 10:11 am

A moça caminhou até a senhora, estendeu-lhe a mão delicada e a beijou suavemente no rosto.
- Olá. Prazer em conhecê-la.
- O prazer é todo meu, Vanessa.
Faz muito tempo que o Felipe não traz conhecidos aqui em casa e...
- Nós nos encontramos por acaso e eu pedi a ela que entrasse para conversarmos de negócios -– justificou o filho caminhando em direcção das duas.
Sorridente, olhou para a moça, deu uma piscadinha e concluiu:
- A Vanessa me contou que tem negócios na área de turismo e quer expandi-los.
Por ser minha área, eu a trouxe aqui para me inteirar e conversarmos mais à vontade.
Lá fora está um calor dos infernos.
Mas!... Já estávamos de saída.
Não é, Vanessa?
- Sim. É verdade. Estávamos mesmo.
Eu quero que Felipe veja a melhor forma de negociar com agências, os pacotes de férias para a minha pousada e outro meio de divulgação mais apropriado para meus negócios.
- Você tem pousada? -– quis saber a senhora.
- É dos meus avós.
Praticamente sou eu quem cuido de tudo.
Não tem mais ninguém para fazê-lo -– respondeu simpática.
- Onde fica? –- interessou-se a mulher.
A moça titubeou por um momento.
Não sabia se seria correto dizer o verdadeiro local, porém acreditou que não faria diferença.
Muito provavelmente, a senhora se esqueceria, inclusive do seu nome.
Então arriscou dizer a verdade:
- Fica em São Bento do Sapucaí.
Sou suspeita para dizer que o lugar é lindo!
Claro! -– riu com jeitinho meigo.
- Que bom! Eu conheço a região.
É uma cidade tão gostosa de passear -– expressou-se a senhora.
- Então vamos, Vanessa -– pediu Felipe apressado.
Outra hora poderão conversar melhor.
Agora vamos. À tarde eu tenho compromisso.
Precisamos nos apressar.
- Não repare eu não ir até lá fora com vocês.
Estou recém-operada e ainda ando com dificuldade, pois não tirei os pontos.
- Minha mãe retirou o útero por causa de um mioma -– explicou ele, encurtando a conversa, antes que o assunto se estendesse ainda mais.
- Puxa... Sinto muito -– lamentou a moça.
- Vamos, Vanessa! –- ele insistiu novamente.
Dessa vez, pegou em seu braço para apressá-la.
- Foi um prazer em conhecê-la, dona Elza.
Estimo suas melhoras.
- O prazer foi meu.
Apareça com mais tempo.
- Assim que eu puder. Obrigada.
Virando-se, saíram rapidamente.
Felipe temia que, no alongar de uma conversa entre Vanessa e sua mãe, dona Elza comentasse sobre a morte da mulher e do filho de Diogo, talvez, para justificar não ter ido para a Alemanha por causa cirurgia recente.
Ele não sabia bem o porquê, mas queria esconder esse facto de Vanessa até pensar direito no que fazer.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 10:11 am

Capítulo 7 - Planos de viagem

Atravessando o jardim a passos apressados, sem dar atenção à graciosidade do lugar, Vanessa, seguida por Felipe, chegou rapidamente até o portão.
Nem mesmo viu quando o rapaz fez um gesto para o cão se afastar, e o animal obedeceu.
Aguardando que o moço abrisse o portão, ela parou em frente às grades altas e olhou para cima, tentando disfarçar a tensão.
Mexia, discretamente, a perna em que não se apoiava, em sinal de inquietação e nervosismo.
- Você ficou tensa -– o rapaz comentou.
- Lógico. E...
Obrigada por não dizer nada na frente da sua mãe.
- Ela está passando por um momento um tanto delicado.
Ficou stressada com a cirurgia.
Entrou em depressão, síndrome do pânico e não sei mais o quê.
Não achei um bom momento para saber que tem um neto com sete anos, que não conhece nem nunca ouviu falar e, ainda por cima, que o menino está doente -– não disse, mas lembrou que, além disso, havia acabado de perder outro neto e a nora.
- Então você decidiu me ajudar e ajudar o Rafael sem que ninguém saiba?
- Eu não disse isso, Vanessa.
Pensou por um instante, depois falou:
- Acho que quero conhecer o Rafael. Isso é possível?
Vanessa sentiu-se temerosa.
Qualquer aproximação de Felipe com seu filho poderia gerar apegos e sentimentos que criariam afeição, dificultando uma separação depois.
Mas, se precisava da ajuda tão valiosa do tio de Rafael, era necessário ceder ao pedido.
Com o semblante cansado, baixando o olhar e com a voz suave, respondeu:
- Claro. Pode conhecê-lo sim.
- Óptimo. Gosto de criança e... -– sorriu.
Vendo-a parada e sem se manifestar, quis detalhes:
- Onde ele está? Internado?
Faz algum tratamento?
- Está em casa.
Na fazenda, na pousada onde moramos.
- Então você tem, de verdade, uma pousada? -– sorriu ao saber.
- Temos duas.
Uma é um hotel fazenda, em São Bento do Sapucaí e outra em Campos do Jordão, pousada que abri há pouco tempo.
Ambas são chamadas, hoje, de hotel fazenda pelo tamanho, acomodações e ofertas de lazer.
- Lá dentro pensei que tivesse só dando continuidade a desculpa que eu inventei à minha mãe, quando falou que tinha pousada.
Minha área é turismo, mesmo.
- Não. Não menti -– sorriu levemente, iluminando seu rosto bonito e generoso pela primeira vez.
Você acertou em cheio.
- Como podemos combinar para eu ir conhecer o Rafael?
Vendo-a sem resposta, perguntou.
-– O que vai fazer agora?
Para onde vai?
Para a casa de algum conhecido, parente?
- Pretendo me refazer um pouco antes de pegar a estrada de volta.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 10:11 am

O dia está muito quente.
A viagem foi cansativa e...
Preciso comer alguma coisa.
- Não está instalada em hotel ou...
- Não. Cheguei e vim directo pra cá.
Nem sei onde ficar.
Preciso de um lugar só por poucas horas.
Quero voltar ainda hoje.
Abrindo o portão, conduzindo-a com a mão e tocando levemente suas costas, Felipe disse ao chegarem à calçada:
- Poderíamos entrar, comer alguma coisa para que ficasse mais algumas horas descansando.
É quase a hora do almoço, mas não seria conveniente por causa da minha mãe.
Ela iria te encher de perguntas e, possivelmente, faria comentários sobre você depois.
- Eu entendo. Lógico.
Isso não é o que queremos.
Felipe olhou para o relógio, depois para os lados.
Pensou um pouco e sugeriu:
- Posso ir, hoje, com você conhecer o Rafael, não é?
Muito surpresa, ela murmurou quase indecisa:
- Pode, mas...
- Tem um hotel aqui perto onde você poderá ficar por algumas horas pra se refazer.
Tomar um banho, almoçar relaxar e descansar um pouco antes de pegar a estrada.
Afinal, acho que terá, não menos, do que umas cinco horas de viagem pela frente.
- Mais ou menos isso.
- Esse hotel é um lugar muito bom.
Se quiser, podemos combinar assim:
eu a levo lá, depois venho aqui, pego algumas roupas e volto.
De lá do hotel, nós vamos para sua cidade.
Vanessa se sentiu insegura.
Não sabia direito se fazia a coisa certa.
Estava cansada. Exausta, na verdade.
O calor era intenso e precisava descansar antes de pegar a estrada de volta.
- Tudo bem. Você me leva até esse hotel?
- Claro. É só seguir meu carro.
- Obrigada, Felipe.
Ele deu generoso e amigável sorriso e não disse nada.
Cada um pegou seu carro, e a moça o seguiu.
Chegando ao hotel, ele fez o caminho de volta para sua casa.
No quarto, a primeira coisa que fez foi tirar os sapatos, ligar o ar condicionado e encher a hidromassagem.
Depois de um banho demorado, ela ligou para a recepção e pediu o almoço.
Enquanto aguardava, ligou na TV no canal do jornal do meio-dia.
Sentia-se mais leve.
Não totalmente aliviada do cansaço, mas bem melhor do que quando chegou.
Foi até o frigobar e pegou uma garrafa de água.
Abriu-a e bebeu no próprio gargalo.
Recostou-se na cama e seus olhos se fechavam automaticamente, por mais que quisesse prestar atenção ao que se passava na televisão.
Levou um susto quando o interfone tocou.
Ficou mais surpresa ainda quando anunciaram que Felipe estava ali e queria subir.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 10:12 am

Um jacto de adrenalina caiu em suas veias, despertando-a definitivamente.
Levantou-se.
Não sabia o que responder.
Não havia se alimentado nem descansado direito.
Não houve tempo e ele sabia disso.
Será que Felipe estava sendo ousado em querer ficar ali com ela ou agia com simplicidade e amigavelmente?
Novamente, não sabia responder.
Mas precisava dele.
Não poderia maltratá-lo.
Autorizou que o rapaz subisse.
Aguardava inquieta, com pensamentos acelerados, imaginando como ele se comportaria.
Até que olhou para si e se viu usando roupas de baixo e somente uma camiseta por cima.
Deu um pulo e correu até a mala, revirando-a à procura de outra peça.
Pegou uma calça jeans e vestiu enquanto a campainha soava.
- Já vai! -– gritou, pulando dentro da roupa.
Rindo de si mesma ao se notar atrapalhada.
Abotoou a calça e foi abrir a porta.
-– Oi! -– disse meio ofegante, com leve sorriso ao vê-lo e segurando a porta de modo a impedir a passagem, com meio corpo na abertura.
- Oi... – respondeu desconfiado.
Percebendo-a sem jeito, perguntou:
- Posso entrar?
- Ah, sim! Claro! Entre -– ela pediu, parecendo desconcertada.
Ao entrar, Felipe correu o olho pelo quarto e observou a pequena mala aberta com algumas roupas para fora, sobre a beirada da cama.
Logo, procurou um lugar para se sentar.
Puxou uma das cadeiras que estava junto à mesa, próxima da janela, que dava para um pequeno jardim em um fosso.
- Nem peguei o número do seu celular e, como não combinamos um horário para sair daqui, pensei em vir agora e almoçar com você.
Na verdade, ficou com medo de que Vanessa viajasse sem ele e não soubesse, depois como encontrá-la.
- Claro! -– respondeu sem jeito, num suspiro.
Só que eu já pedi o almoço.
- Já almoçou?
- Não. Ainda não chegou -– ela respondeu um tanto atrapalhada.
- Você se importa se eu fizer o pedido pra mim? -– perguntou o rapaz.
- Não. Por favor.
Fique à vontade.
Ele pegou o cardápio sobre a mesa, deu uma rápida olhada e fez a escolha.
Com o menu na mão, levantou-se, pegou o telefone e fez o pedido, solicitando para que as refeições fossem entregues juntas.
Vanessa sentia-se desconcertada, pouco à vontade, não sabia como agir e ele percebeu.
Indo até o frigobar, abriu-o, viu o que tinha e apanhou duas latas de refrigerante.
Voltou para perto da cadeira onde estava, olhou para ela, enquanto colocava as latas sobre a mesa e pediu, desvirando dois copos:
- Senta aí -– indicando com os olhos para a outra cadeira à sua frente.
Vanessa estava em pé com as mãos nos bolsos de trás do jeans, contorcendo levemente o corpo.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 18, 2016 10:12 am

Parecia sem acção.
Nesse instante parou.
Sorrindo, aceitou o convite.
Sentou-se em frente a ele que deslizou, sobre a mesa, o copo cheio até o meio e a lata de refrigerante.
- Obrigada -– agradeceu enquanto o observava, quase sem piscar, bebericando no copo.
Sentindo o olhar dela como a tocar-lhe a pele, Felipe sorriu.
Sem encará-la, perguntou:
- Acha estranho estar na minha frente e saber que não sou o Diogo, não é?
- É... Apesar de fazer tantos anos, percebo que há muita semelhança.
Parece que estou com ele.
- Todo mundo diz isso.
É algo que chegou a me incomodar muito, no passado.
- É que... é incrível!
Vocês são tão iguais -– sorriu.
- Quando éramos pequenos, nunca gostei da minha mãe nos vestir iguais.
Tinha de ser a mesma roupa dele, o mesmo sapato, o mesmo corte de cabelo...
Os brinquedos eram iguais.
Ganhávamos as mesmas coisas.
Eu não tinha minha individualidade, não tinha minha vida.
Tudo, exactamente tudo, era igual ao do Diogo.
Não podia ser diferente -– expressou-se em tom de queixa.
- E por que não reclamou?
- E adiantava?!
A resposta era: vocês são gémeos idênticos, iguaizinhos.
Tem que ser assim! -– arremedou, contorcendo a boca, insatisfeito.
Quem disse que precisa ser assim?!
Já bastava sermos iguaizinhos, termos a mesma voz...
Um momento e comentou:
- Uma coisa era legal -– sorriu oferecendo pausa.
- O quê? -– perguntou curiosa, não aguentando esperar.
- Eu adorava ver a expressão das pessoas quando me passava por ele e vice-versa -– riu.
Pregamos boas peças em todo mundo.
- Inclusive em seus pais?
- Lógico! -– ele riu gostoso.
- Eles não percebiam alguma diferença?
- Quando tranquilos, sim.
Mas... quem disse que eles ficavam calmos com nós dois por perto? -– falou rindo.
Na correria do dia a dia, na pressa, muitas vezes não sabiam quem era quem.
A semelhança era e é muito grande.
Na escola, trocávamos de sala, enganávamos os colegas, fazíamos provas um pelo outro...
- Enganavam as garotas!... -– completou ela.
Felipe fechou o sorriso ao murmurar:
- Também.
Erguendo o olhar, encarou-a com rosto sério e continuou:
- Era engraçado.
Nós fingíamos brigar quando ele se passava por mim ou eu por ele perto de alguma namoradinha, principalmente quando a garota não sabia que tinha um gémeo e ela ficava olhando espantada.
Só que éramos leais um ao outro.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 10:13 am

Sempre fomos bem unidos.
Fizemos cursos juntos, faculdade de Administração.
Trabalhamos juntos com nosso pai e nos dávamos bem, inclusive, nos negócios.
Até que conheci uma moça pela qual me apaixonei perdidamente.
O namoro era sério. Ficamos noivos.
Quando estávamos procurando igreja para marcar o casamento, ela começou a ficar diferente e eu percebi.
Fui conversar. Queria saber o que estava acontecendo.
Então eu soube que, por conta de alguma brincadeira de meu irmão, que se fez passar por mim, eles se aproximaram e se apaixonaram.
- Sua noiva e o Diogo?! -– surpreendeu-se, exclamando perplexa.
- Sim. A Ceres e o Diogo -– revelou, olhando-a firme e observando sua reacção.
Vanessa, com uma mão cobrindo a outra, tapou a boca, ao mesmo tempo em que deu um suspiro de assombro, arregalando os olhos em uma expressão assustada, ao erguer as sobrancelhas.
Em seguida, sussurrou ao indagar incrédula:
- A Ceres?!
Que ele traiu, quando me traiu também?!
Com quem ele se casou?
- Ela mesma -– afirmou bem calmo, sentindo seus olhos presos ao dela.
As refeições foram entregues nesse momento.
Depois de colocá-las sobre a mesa, Felipe foi até o frigobar, novamente, apanhou outro refrigerante e perguntou:
- Quer mais um?
- Quero água, por favor.
Ele pegou, levou até a mesa e se acomodou;
Sem conseguir esperar, Vanessa indagou curiosa:
- E você? O que fez?
- Quando a Ceres me contou...
Ela chorou. Pediu desculpas.
Jurou que não tinha acontecido nada entre eles, só que estava apaixonada por meu irmão.
Disse que eles conversaram muito a respeito, que não queriam me magoar, mas também não queriam me enganar.
Estavam só esperando um momento certo, ou não aguentarem mais para dizer.
Eu pensei que não fosse aguentar.
Quase enlouqueci.
Senti-me pequeno, traído...
Se a Ceres me rejeitasse para ficar com outro cara seria difícil, mas para ficar com o Diogo...
Isso foi a morte para mim.
- E daí? O que fez? -– quis saber diante da longa pausa.
- Falei muita coisa para ela. Xinguei, ofendi e...
Quando chegue à minha casa, naquela noite, arranquei o Diogo da cama aos socos.
Brigamos feio e...
Eu só não o matei porque meu pai me impediu.
O senhor Weber me levou para o quarto e me trancou lá.
Esmurrei, dei ombreadas na porta e acabei me machucando.
Lembro que, em certo momento, fiquei tonto, perdi as forças e sentei na cama...
Parou e silenciou um tempo, enquanto ela fitava ansiosa, querendo saber mais.
Felipe tomou outro gole do refrigerante, pegou o garfo e, com a ponta, mexeu levemente a comida, lembrando a briga pela milésima vez demonstrando ainda sentir grande dor por tudo o que experimentou.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 10:13 am

- E depois?
Vocês conseguiram conversar mais calmamente? -– tornou ela, querendo saber.
- Não. Nunca mais nos falamos.
Foi muito difícil para eu encarar tudo aquilo e admitir que fui enganado, traído por meu próprio irmão.
Foi horrível, sabe?
Na semana seguinte, peguei meus documentos, fiz uma mochila e fui viajar, sem saber para onde ir.
Peguei o carro e, sem perceber, cheguei à casa de praia que meus pais tem em Bertioga.
Fiquei lá por uns dias. Enchi a cara.
Quase me afoguei no mar porque, bêbado, fui pra água...
Depois voltei e só larguei o carro em casa.
Peguei um avião e fui para a Europa.
Em Londres, algum tempo depois, encontrei um amigo da faculdade que trabalhava em uma considerável rede hoteleira, especializada em turismo.
Almoçamos juntos.
Trocamos ideias e ele me chamou para preencher uma vaga na empresa.
Afinal, eu dominava três idiomas, além do português, e isso é óptimo no turismo.
Aceitei e comecei a trabalhar lá.
- Não avisou ninguém em sua casa?
Não sabiam onde estava?
Felipe sorriu de boca fechada, deixando a covinha aparecer.
Após engolir, contou:
- Depois de uns três anos, eu acho.
Avisei sim.
- Deixou seus pais, sua família, três anos sem notícias suas?!
Ele demorou um pouco e respondeu:
- Deixei. Liguei para a Priscila, minha irmã caçula.
Queria saber como ela estava e acabei falando de mim.
- Nesse tempo todo morou em hotéis ou se fixou em algum lugar?
- Morei em um resort da própria empresa.
Era óptimo. Não pagava pela moradia e tinha descontos especiais na alimentação, lavandaria e outros serviços prestados.
Não senti falta de nada.
- Não sentiu falta nem de sua família? -– perguntou ela, após longa pausa.
- No começo não. Estava com muita raiva.
Depois com o passar do tempo...
Sosseguei quando falei com minha irmã.
Aí não me senti bem, novamente porque ela me contou que o Diogo e a Ceres estavam noivos.
Disse que, no começou, meus pais acharam estranho, mas depois aceitaram.
A Ceres o incentivou a fazer Farmácia, pois ela tinha um óptimo emprego em uma grande indústria farmacêutica alemã e havia recebido um convite para ir para Berlim, o melhor lugar do mundo para ela.
Não sei por quê.
- Ela era formada em Farmácia?
- Era sim. Para o Diogo, fazer Farmácia era o ideal, óptimo.
Formado em Administração e entendendo de farmacologia, juntaria as duas coisas para trabalhar naquela empresa com versatilidade e não somente em laboratório.
Além disso, ele também domina alemão, inglês e italiano como eu, além do português.
- Lembro que ele me disse que falava alemão.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 10:13 am

- Nosso pai é alemão.
Aprendemos em casa.
Falamos italiano também por causa da nossa mãe, que é italiana.
Além do inglês e do português, lógico, pois nascemos aqui no Brasil e...
Alguns segundos e Vanessa perguntou:
- Você voltava sempre ao Brasil?
- Não. Fiquei lá por mais de... -– pensou -– ...acho que três anos ou um pouco mais.
Depois disso, vim para o casamento da Cláudia.
- Sabia que ele e a Ceres seriam os padrinhos?
- Sabia. A Priscila me contou.
Por isso quase não vinha.
Achei uma afronta a Cláudia convidá-los.
Depois pensei e acabei vindo de última hora.
Houve um atraso no voo e quase não cheguei a tempo para o casamento.
Fui directo para a igreja.
Fiquei no fundo e, depois acabei vendo a cena entre você e meu irmão.
- Não te vi na igreja, senão... -– riu suavemente.
Era capaz de confundir os dois.
Você é tão igual a ele.
- Não naquela época.
Eu estava bem diferente.
Meu cabelo estava comprido, no meio das costas e eu o usava preso num rabo de cavalo.
Também usava barba aparada.
Não iria nos confundir.
Um instante e comentou:
- Naquele dia, na hora em que vi aquela cena entre vocês dois, lá na igreja, senti uma coisa.
Passou pela minha cabeça que houve algo entre você e o Diogo e foi exactamente naquele momento que o flagrou, que pegou os dois juntos.
Eu sabia.
- Entendo -– disse simplesmente, abaixando o olhar.
- Não acredita?
Não acredita nas sensações entre os gémeos?
Nesse sexto sentido?
Como alguns chamam.
- Acredito sim -– afirmou, olhando-o nos olhos.
Penso que essas sensações, como você diz, são manifestações mediúnicas.
Só que entre os gémeos ela é bem mais forte, em alguns casos, por uma série de razões.
- Que bom que acredita! -– admirou-se.
É difícil encontrar alguém com a mente aberta para essas coisas.
Vanessa ofereceu doce e generoso sorriso, depois desviou o olhar.
Após tomar um gole de água e secar os lábios delicadamente com o guardanapo, ela perguntou:
- Vocês dois sempre tiveram essas manifestações?
Sempre um sentiu o que o outro sentia?
- Isso sempre foi extremamente comum entre nós dois.
Desde muito cedo. Nem sei dizer.
Tenho muitas histórias para contar... -– sorriu levemente, prendendo o olhar em um canto como se, naquele instante, retornasse ao passado.
Ela analisou sua feição durante a pausa e diria que aquela foi uma expressão de saudade.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 10:13 am

Felipe piscou mais longamente, deu leve suspiro e ergueu o rosto, encontrando os olhos dela brilhando e seus lábios sorrindo docemente.
- O que foi, Vanessa?
Está achando graça?
- Estou achando curioso.
Nunca tive a oportunidade de conhecer, tão perto, gémeos idênticos e... -– riu.
Não consigo tirar os olhos de você nem parar de lembrar de seu irmão.
Só que... É estranho para mim.
Ao mesmo tempo em que são tão parecidos, são completamente diferentes.
E isso é legal.
- Ainda bem que você está enxergando essa diferença!
Algum tempo e quis mudar de assunto.
- Agora me fale de você.
Já me conhece o suficiente.
- Falar de mim?...
O que eu diria de mim?
- Já sei que você tem um filho e que, mesmo que eu não me lembre de você, o exame de DNA vai confirmar que sou pai do seu filho... -– expressou-se rindo, para brincar.
Ao vê-la sorriu encabulada, pediu, tocando-lhe com a mão o braço que estava sobre a pequena mesa que os separavam:
- Desculpe-me. Só quis brincar e...
Não pensei direito no que dizia e...
- Não tem problema.
O que disse é verdade mesmo, apesar de esquisito.
- Então... Você cuida dos hotéis fazenda?
Fez faculdade de Hotelaria?
- Fiz sim. minha avó cuidou do Rafael para mim e fui para o Rio de Janeiro estudar.
- Você só falou dos seus avós.
Não tem pais?
- Não. Meus pais faleceram quando eu tinha três anos.
Foi em um acidente -– e contou tudo.
- Depois do que viveu, você foi forte para encontrar uma maneira de seguir em frente.
Acho que a pior parte foi a de ser enganada pelo Diogo, não foi?
- Sem dúvida.
A traição é uma marca que crava uma dor muito profunda na alma.
Quem nunca experimentou essa angústia, não pode imaginar como dói, como é triste.
Agora eu sei que você sabe, muito bem, o que estou falando.
Ficaram se olhando longamente.
Em seus semblantes sérios, os olhos brilhantes falavam sem linguagem.
Longo tempo e, não suportando, Vanessa disfarçou olhando para o lado e forçou um sorriso triste.
Levantando-se, ela pediu com voz baixa, antes de ir para o banheiro.
- Com licença.
Felipe a seguiu com os olhos e nada disse.
Algum tempo depois, quando ela retornou, o rapaz perguntou:
- Tem escovas de dente descartáveis aí?
Se não, terei de ir até o carro para pegar.
- Tem sim.
Ele se levantou e foi par o banheiro.
Ao retornar, viu-a na cama, recostada nos travesseiros altos, com o controle remoto da TV nas mãos.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 10:14 am

Seus olhos estavam fechados, os lábios entreabertos, os cabelos esparramados sobre as fronhas e o corpo totalmente largado sobre a cama.
Imaginou o quanto Vanessa se sentia stressada com tudo o que acontecia.
Além de bem cansada também.
Cuidadosamente, ele tirou o controle remoto de suas mãos e ela se remexeu um pouco.
Observando melhor, reparou bem de perto o quanto ela era bonita.
Traços suaves no rosto oval, muito angelical.
Os lábios carnudos e seus olhos marcados chamavam atenção.
Reparou nas mãos finas e frágeis.
Unhas levemente compridas e benfeitas, esmaltadas delicadamente com uma cor rose, quase transparente.
Alta, corpo esguio, magro e bem acinturado.
Quadris levemente destacados e chamativos.
Embora estivesse calor e o ar condicionado ligado, ele decidiu pegar o lençol que estava dobrado nos pés da cama.
Abrindo-o, cobriu-a com cuidado.
Talvez para não admirá-la tanto.
Nesse instante, algo mexeu com Felipe, que se sentiu atraído por Vanessa.
Mal a conhecia, como isso poderia acontecer?
Mesmo contra a vontade, pegou-se olhando para ela.
Teve o impulso de lhe fazer um carinho.
Tocar-lhe o rosto bonito.
Escorregar os dedos por seus cabelos.
Sentir bem de perto o seu perfume e abraçá-la junto a si.
Indo para um canto, estirou-se no pequeno sofá, onde largou o corpo, deixando um pé no chão, com o joelho dobrado e a outra perna estirada no sofá.
Olhou novamente para ela que havia se virado de lado, de costas para ele, como se quisesse provocá-lo ainda mais.
O rapaz respirou fundo e, para afastar qualquer pensamento inconveniente naquele momento, procurou prestar atenção na TV que estava ligada, mas sem som.
- Felipe. Felipe. Acorda! -– chamou a voz doce, despertando-o com suavidade.
Ao seu lado, Vanessa estava em pé, tocando-o com leveza no ombro.
Surpreso, como se não soubesse onde estava nem a reconhecesse, no primeiro momento.
Ele a olhou de modo estranho, mas, em seguida, sorriu:
Sentou-se direito e disse:
- Nossa. Acho que dormi mesmo.
- Já são quatro horas da tarde.
Seria bom irmos.
Eu também dormi demais. Passei da hora.
Não queria sair daqui tão tarde.
Pretendo ir pra lá passando por Campos do Jordão, fica mais perto da fazenda.
A estrada é muito boa, só que estreita, completamente escura e, na maior parte do percurso, não tem acostamento.
- Vamos sim. Deixe-me só passar uma água no rosto para acordar.
Quando retornou, ele a viu pronta, esperando em pé, com uma bolsa grande, de alça comprida no ombro e, ao lado, a alça da mala de rodinhas esticada, perto da porta.
Vanessa sorriu, parecendo mais bonita.
Reparando-a melhor, percebeu leve maquiagem que ressaltou seus mais expressivos traços e seus belos olhos castanhos.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 10:14 am

Devolvendo o sorriso, disse:
- Como vamos fazer?
Eu a sigo na estrada e...
Espera -– pegando o celular, pediu:
- Qual é o seu número?
Ela disse e também agendou o número do celular dele.
- Nas paradas, nos falamos certo? -– ela propôs satisfeita.
Qualquer coisa, se nos perdemos ou nos afastarmos muito, um liga para o outro.
- Combinado!
Sobrepondo a mão em suas costas, ele pegou a mala e a arrastou.
- Deixa que eu levo -– ela pediu com jeitinho meigo.
- Não. Sou um cavalheiro -– expressou-se sorrindo.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 10:14 am

Capítulo 8 - Montanhas sombreadas

Ao chegarem à recepção, Vanessa foi até o balcão, onde um funcionário, de costas para ela, prendia a atenção em um jogo no qual a selecção brasileira enfrentava uma rival e, por isso não a via.
- Vai! Vai! Vai! -– torcia o rapaz magrela.
Ela olhou para Felipe, deu uma risadinha e voltou-se para o balcão.
Para ser notada, tossiu forçadamente e murmurou:
- Com licença...
Como se levasse um choque, o recepcionista se virou e parecia sem jeito ao encará-la.
Ela prosseguiu.
-– Aqui está as chaves.
- Espero que tenha apreciado a estada.
Quando quiser, estaremos à disposição.
Desejamos uma boa viagem -– o rapaz praticamente recitou, tendo decorado as normas da empresa.
- É que... Preciso acertar as contas. Por favor.
- O rapaz ali -– apontou para Felipe -, já acertou o quarto.
Só falta o consumo das refeições e do frigobar.
Vanessa olhou para Felipe que contorcia um sorriso engraçado e pegava na carteira um cartão bancário que colocou sobre o balcão, fingindo não se importar com ela.
- Está certo -– ela concordou, mesmo a contragosto, e sorriu.
Já no carro, após guardar a mala e a bolsa, ela se acomodou no banco do motorista e ele fechou a porta, ficando curvado perto da janela com a cabeça quase dentro do carro.
Esperou-a pôr o cinto e perguntou:
- Você vai pela outra? -– referiu-se à rodovia.
- Não. Vamos seguir pela Marginal Tietê.
Depois pela Rodovia Ayrton Senna e seguir em frente pela Rodovia Governador Carvalho Pinto.
Não gosto da Dutra.
Felipe se lembrou de ela ter contado sobre seus pais haverem morrido na Rodovia Presidente Dutra.
Talvez por isso ela não gostasse daquela estrada.
- Perfeito. Estou naquela Pick-up preta ali -– mostrou.
Vou seguindo você e, quando quiser parar, é só fazer um sinal.
Ela sorriu concordando.
Inesperadamente, o rapaz colocou a cabeça para dentro do carro, segurou o rosto de Vanessa com leveza e deu-lhe um beijo rápido na face alva, dizendo:
- Boa viagem para nós dois! Vamos com Deus!
Surpresa, não teve tempo de responder em voz alta e Felipe não ouviu quando murmurou atrasada:
- Boa viagem...
Durante o trajecto, Vanessa perdia-se nos próprios pensamentos, chegando a inventar, para si mesma, uma história fabulosa de que Felipe poderia ser Diogo, tentando se passar pelo irmão.
Riu de si mesma e pensava no quanto eles eram semelhantes, porém muito diferentes.
Poderiam ser iguais, mais em nada se igualavam no modo de falar, expressar, agir.
Felipe parecia mais ousado, tinha iniciativa.
Talvez fosse isso que a assustasse.
Não pensou que ele concordasse em conhecer Rafael tão rapidamente e se interessasse pelo caso.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 10:15 am

Felipe dava a impressão de ser mais corajoso do que Diogo.
Mais aventureiro, talvez.
O que ela faria quando chegasse à fazenda?
Como iria apresentá-lo para seus avós?
E para o filho então?
Rafael tinha sete anos e era muito inteligente, esperto.
Perguntou sempre do pai que ela dizia não saber onde estava.
Não sabia como encontrá-lo.
Agora levaria para casa um sujeito totalmente estranho e teria de dizer que era seu tio.
Não só isso, que aquele tio era a cópia fiel de seu pai.
Como o menino poderia entender tudo isso?
Como iria reagir?
Seria bem provável que ele perguntasse como ela o encontrou se sempre disse que não sabia onde Diogo morava.
Um nervosismo tomou conta de Vanessa que, a todo instante olhava pelo retrovisor confirmando que Felipe continuava exactamente atrás dela.
Mais de uma hora depois, fizeram uma parada.
Embora fosse quase seis horas da noite, ainda estava bem quente e o sol brilhava forte, por causa do horário de verão.
Durante a parada, Vanessa conversou um pouco sobre seus negócios e como queria investir na divulgação, e ele prestava atenção.
Não só isso, Felipe ficou imantado nela.
Quase não conseguia deter a admiração.
Depois do café e de uma água, seguiram viagem.
Já estava noite quando subiram a serra e ziguezaguearam por entre as belas montanhas sombreadas e majestosas araucárias imponentes.
Os faróis do veículo de Felipe não se afastavam do carro de Vanessa, apenas mantinha uma distância segura.
Após rodarem bastante, ele percebeu que ela diminuiu muito a velocidade e sinalizou uma entrada à direita.
O rapaz a seguiu.
O asfalto terminou e sentiu a estrada de cascalho por seu ruído típico nos pneus.
A lua enorme brilhava no alto.
Sabendo da beleza nocturna do lugar, Vanessa parou e apagou os faróis.
Desceram e Felipe perguntou ao vê-la ao seu lado:
- Você está me sequestrando, não é mesmo?
Depois de um riso cristalino e gostoso, ela respondeu:
- É que... Aqui é lindo me noite de lua cheia.
Desligue os faróis.
Ele obedeceu, e ela explicou.
- Seus olhos vão acostumar.
Tudo vai ficar prateado e em tons de marinho.
É lindo! Vai ver.
O silêncio era uma bênção, quebrada especialmente pelo canto de algum pássaro nocturno que dava um toque encantador ao lugar.
- Por causa da serra, aqui, geralmente, tem muita neblina à noite.
Não é sempre que temos oportunidade de ver esta paisagem como hoje.
Amanhã, talvez...
Mas ainda não sei se você estará aqui.
- É muito bonito mesmo!
O cheiro do mato!...
Adoro isso! -– falou de modo prazeroso.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 10:15 am

- Mesmo?!
- Mesmo. Estamos longe de casa?
- Não. Pouco mais de um quilómetro pela frente.
Bem perto da casa, veremos outro lago muito maior que esse.
Os chalés foram construídos com vista para ele.
A essa hora é muito bonito olhar o prateado da lua reflectida na água.
Mesmo quando não temos luar assim, é muito bonito contemplar a neblina sobre a água ou a evaporação em dias bem frios.
Gosto daqui, especialmente deste ponto da fazenda porque não tem luz eléctrica para atrapalhar.
Lá na frente, depois da porteira, por causa das luzes ao longe, tudo perde um pouco a magia.
- Aqui deve ser bem frio.
- É. Muito!
- Gosto de lugar frio -– contou ele com ar de satisfação.
- Acha que podemos ir sem acendermos os faróis? -– ela perguntou sorrindo lindamente.
- Se você consegue, eu consigo.
- Não vai bater na minha Pajero, hein!
É novinha! -– brincou indo para o carro.
- Meu seguro cobre! -– gritou e riu ao entrar na Pick-up.
Seguiram devagar, e o rapaz continuou apreciando a beleza do lugar enquanto dirigia.
Um pouco mais e chegaram perto da casa, estacionando um ao lado do outro.
Do lado de fora, na varanda, as luzes estavam acesas e eles desceram.
Cada qual pegou sua mala e Felipe a alcançou perto dos degraus da escada.
Ao caminharem lentamente na varanda de assoalho de madeira, seus passos ecoaram baixinho.
O ranger da dobradiça da porta de tela que ela abriu, fez o rapaz achar graça, mas nada comentou.
Só ficou no pensamento de Felipe a lembrança de um filme de terror onde aquele ruído seria motivo de suspense:
Vanessa abriu a porta e convidou, falando baixo:
- Entre. Seja bem-vindo!
Ao entrar na sala, Felipe passou os olhos por todo o lugar.
Mobílias, tapetes e cortinas combinavam perfeitamente com o estilo da fazenda.
A lareira grande, pretejada em seu interior, estava arranjada com lenhas sem uso como e estivesse pronta para ser acesa.
Tinha ao lado charmosa porta-lenha de madeiras bem arrumadas.
Tudo chamava graciosamente a atenção.
- Acho que todos estão dormindo, não é mesmo?
- Meu avô costuma dormir bem cedo. Com as galinhas.
O Rafael também.
Para eles, dez horas da noite é madrugada.
Meu avô faz isso pelo costume.
Meu filho, por estar doentinho.
Mas minha avó não.
Ela é a última a fechar os olhos.
Vanessa não terminou de falar e Henriette apareceu vestida com um penhoar com um xale largo sobre as costas, que ela segurou à frente.
A senhora acendeu outras luzes restantes e sorriu simpática para o rapaz que a neta apresentou:
- Vovó, esse é o Felipe.
Felipe, essa é a minha avó.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 10:15 am

Estendendo a mão com satisfação, a mulher disse:
- Prazer! Meu nome é Henriette.
Seja bem-vindo à minha casa!
- Obrigado. O prazer é todo meu, dona Henriette.
- Fizeram uma boa viagem? -– tornou ela.
- Fizemos sim, vovó.
Correu tudo bem.
- Não devem ter comido nada, não é mesmo? -– interessou-se a avó.
- Em uma parada tomamos um café e comemos um salgado -– respondeu à avó.
- Café não é comida, minha filha.
Virando-se para Felipe, a senhora indicou:
- Ali, ó... Tem um banheiro.
Lave as mãos, o rosto e vem aqui pra cozinha que vou esquentar algo bem gostoso pra vocês.
Ele sorriu. Nada disse e foi para o local indicado.
Fazendo um sinal para que a neta a seguisse, a mulher se dirigiu à cozinha e atrás dela Vanessa, que teria de encontrar boa explicação para aquilo tudo.
Ao se ver a sós com a moça, falou baixinho enquanto ajeitava os recipientes com a comida sobre a mesa.
- Explique rápido.
Não entendi direito quando falou comigo por telefone.
Ele vai ser doador de medula para o Rafael?
Como é que pode afirmar isso?
- Eu disse que ele pode ser um doador em potencial, ou melhor, ele tem grandes chances de ser um doador, tanto quanto o pai do Rafael.
- Mas você saiu daqui para ir atrás do pai do seu filho! -– exclamou baixinho ao interrompê-la.
Você já conhecia esse moço?
Como pode ter tanta certeza?
Vanessa sorriu.
Teria mesmo, muito o que explicar.
- Eu nunca tinha visto o Felipe na minha vida.
Quando eu ia tocar o interfone na casa do Diogo, o Felipe apareceu e perguntou o que eu queria.
Então... -– contou, em rápidas palavras, o que pôde.
Antes que terminasse a história, o rapaz chegou e ouviu o final.
- Então você é tio do Rafael? -– falou a senhora admirada.
- Tio e clone do pai dele.
Então, geneticamente falando, sou pai do Rafael e... -– não completou o que ia dizer, ao olhar para Vanessa, viu-a fechando a cara em sinal de reprovação àquele assunto.
- Ele pode ser doador tanto quanto o Diogo -– disse a moça.
- E onde está o seu irmão? -– perguntou a senhora.
- Na Europa. Meu irmão mora na Alemanha.
Interrompendo-o, completou:
- Ele está casado, vovó.
Eu acho melhor deixarmos o Diogo quieto, levando a vida dele.
Não quero atrapalhar seu casamento.
Se a mulher dele souber...
Virando-se para o rapaz, perguntou:
- Eles tiveram filhos?
- Sim. Um menino, mas...
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 10:15 am

Vanessa o interrompeu, não queria saber sobre a vida do outro e contrapôs:
- Tudo bem, Felipe.
Não quero saber da vida do Diogo.
Só estou rezando para você ser compatível com o Rafael. Só isso.
Imagine abalar um casamento com um filho.
Ele se calou e abaixou o olhar, demonstrando preocupação.
- Sente-se aqui, filho -– pediu Henriette, apontando-lhe um lugar.
Posso fazer seu prato ou você mesmo faz?
- Se não for incómodo, prefiro que a senhora faça.
- Você come de tudo ou é daquelas pessoas que... -– riu com um jeito engraçado.
- Opa! Como de tudo! Se o ensopado de pedras estiver bem temperado... Pra mim está óptimo! – riu ao brincar.
- Com licença.
- Não vai jantar comigo? – ele perguntou ao ver que Vanessa ia se retirar.
- Volto já. Só um momento.
Vendo-se a sós com a senhora, para puxar conversa enquanto comia, quis saber:
- Dona Henriette, qual a origem desse nome?
Ele não é comum. Pelo menos, aqui no Brasil não.
- Poucas pessoas têm essa curiosidade -– riu.
Depois explicou.
-– Henriette é um nome, uma variante feminina de Henrique e tem influência do latim: Henrietta e do francês, mas foi introduzido na Inglaterra, no século VIII e XI pela esposa de Carlos Magno.
Meu pai era inglês.
Um comerciante que veio para o Brasil e se apaixonou por minha mãe.
Quando foi embora, após se casarem aqui, levou-a para Londres.
Quatro anos depois eu nasci.
- A senhora é inglesa?
- Sim, eu sou.
Só que quando eu tinha cinco anos, meu pai faleceu.
Lá em Londres, minha mãe se sentiu sozinha.
Sem família, decidiu vender tudo o que tinha e voltar para o Brasil.
Aqui, comprou essas terras e abriu um comércio de roupas na cidade.
- Ela tinha parentes aqui?
- Dois irmãos que moravam na cidade.
Os pais dela já tinham morrido.
Pelo menos, não se sentia sem família, por ter os irmãos por perto.
- Ela nunca se casou novamente?
Afinal, deveria ser uma mulher jovem ainda.
- Minha mãe dizia que amava meu pai e não conseguia pôr outro homem em seu lugar.
E... Lá no fundo, eu não queria que ela fizesse isso, apesar de nunca ter dito nada.
Cresci e a ajudei nos negócios e me tornei esperta no assunto.
Com o tempo, um outro comerciante veio para cá e se intrometeu na minha área.
Isso foi uma afronta!
Minhas confecções eram todas artesanais, à mão, e ia para as cidades de toda região, principalmente para o comércio de malhas de Campos do Jordão, Gonçalves, Pindamonhangaba e outros lugares.
Bem... ele era de São Paulo, esperto, ambicioso e, do dia para a noite, tornou-se meu concorrente.
Meus negócios estremeceram, acredita?
Ele quase acabou comigo?
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Ave sem Ninho

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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 10:15 am

- E o que a senhora fez?
Mudou de ramo e abriu a pousada?
- Que nada, menino!
Fui mais esperta!
Muito mais esperta!
Me casei com ele!
Ambos riram gostoso e o rapaz admirou o bom humor da simpática senhora.
- Há quanto tempo são casados?
- Estamos casados há cinquenta anos -– sorriu satisfeita em dizer.
Cinquenta longos anos de harmonia, amor, felicidade, amizade, cumplicidade...
- E as brigas? Elas existem?
- Não. Nunca brigamos.
Temos orgulho disso.
Nós sempre conversamos muito, muito mesmo.
Nunca deixamos qualquer divergência inclinar para um bate-boca.
Nunca o ofendi nem ele a mim.
Já discordamos muito um do outro.
Isso acontece sempre, mas com respeito, paciência e tolerância.
- É que eles são inimigos poderosos!
Se brigarem, vão iniciar a 3ª Guerra Mundial, por isso nem se provocam -– disse Vanessa que retornava à cozinha.
A senhora riu e se levantou para arrumar o prato da neta.
- Não, vovó. Não se incomode.
Vou por um pedaço de frango no pão e... para mim é o suficiente.
- A comida está boa, Felipe?
- Uma delícia, dona Henriette!
Uma delícia! -– falou de boca cheia, como modos simples.
Há muito tempo eu não como uma refeição tão gostosa como essa.
- Foi feita em fogão a lenha.
- Logo vi! Está óptima!
Alguns segundos e ele contou:
- Morei em Londres e do que mais senti falta do Brasil foi da comida.
Aqui temos a mais saborosa e completa alimentação do mundo.
O nosso arroz com feijão não se compara a qualquer outra combinação lá fora.
As mais diversas frutas, verduras, hortaliças, carnes... encontramos aqui.
Somos o país mais rico na diversidade alimentar.
Sabe que, nos primeiros meses morando lá fora, eu me sentia fraco, com sono, irritado.
A comida de lá não me satisfazia, demorou para eu perceber que era isso.
Foram outros brasileiros que me alertaram sobre o facto.
- Sou suspeita para falar, mas...
Minha avó cozinha muito bem -– ressaltou Vanessa.
- Não é suspeita, não.
Está dizendo a verdade.
Sou testemunha –- tornou ele.
- Obrigada. Bondade de vocês.
Aprendi a cozinhar com minha mãe -– Silenciaram.
Depois de observá-lo, demoradamente, a senhora comentou:
- Como você se parece com meu neto!
Até a covinha funda do lado direito do rosto quando vocês riem... o formato do rosto, os olhos com cílios compridos...
Ninguém diria que não é o pai dele.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 10:16 am

- Vovó, ele não é o pai do Rafael -– expressou-se firme, séria, parecendo insatisfeita.
- Eu sei e não disse isso.
Deixa de ser nervosinha.
Aliás! Como é que pretende apresentar o Felipe ao Rafael?
Vai dizer o quê?
- Eu... -– titubeou.
Sentindo-se esfriar, Vanessa procurou pelos olhos de Felipe como se quisesse ser socorrida.
Encarando-a com firmeza no semblante sereno, demonstrando-se seguro, ele disse:
- Vai dizer a verdade.
Tem dizer que sou o tio dele.
Que o Diogo é meu irmão gémeo.
Que somos idênticos e que o pai dele mora na Europa.
Que não conseguiu entrar em contacto com ele, mas que vou te ajudar a fazer isso.
Vanessa abaixou o olhar como se tivesse sido derrotada.
Planeava que o filho nunca conhecesse o pai, pois não queria que Diogo soubesse da sua existência.
Nesse minuto, percebeu o quanto estava sendo egoísta e decepcionou-se consigo mesma.
Com o filho, esquivava-se do assunto sempre que podia, mas não conseguiu evitar o inesperado:
a doença que forçava a necessidade de Diogo voltar à sua vida.
- Ele tem toda razão, Vanessa -– opinou a avó.
- Eu sei -– ela murmurou.
Dona Henriette puxou outro assunto para fugir daquela conversa tensa.
Falaram sobre a pousada.
Como ela e o marido começaram o negócio.
Não demorou e estava tarde o suficiente para todos irem dormir.
- Acho melhor eu ficar em um chalé, não é mesmo -– indagou Felipe.
- De jeito nenhum.
É meu convidado, e o seu quarto já está arrumado -– disse Vanessa sorrindo generosamente.
Nesse momento, ele olhou para seu rosto bonito e angelical, que tinha um aspecto suave, e ficou preso a ele.
Percebendo algo incomum, ela disse parecendo despertá-lo:
- Já levei até sua mala lá para dentro.
- Nossa! Estou surpreso -– disse levantando-se.
Ao ver que Henriette decidiu ficar na cozinha, o rapaz agradeceu o jantar, deu boa noite e acompanhou Vanessa indo logo atrás.
Caminharam por um corredor largo onde havia, pelo menos seis portas.
A casa era grande.
Abrindo a porta de um quarto, ela disse:
- Garanto que o colchão é muito bom.
- Você sabe que isso é primordial para um hóspede, não sabe?
- Sei. Tenho certeza -– concordou satisfeita.
Ali fica o banheiro -– apontou para uma porta dentro do quarto.
A água quente, nos registos deste quarto, em especial, é ao contrário do resto da casa, fica do lado esquerdo.
Um probleminha de hidráulica na época em que foi feito e ficou desse jeito.
- Entendo.
- As toalhas estão ali dentro.
Um roupão, chinelos...
A cama já está com um edredom.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 10:16 am

Apesar de verão, aqui, costuma fazer frio de madrugada.
Não creio que vá precisar de mais coberta.
Em todo caso... -– caminhando até um armário, mostrou:
- Aqui tem mais.
- Pare, Vanessa. Já estou me sentindo sem qualquer necessidade.
É como se eu estivesse em casa .– riram.
Sua avó é muito simpática e você muito hospitaleira.
Obrigado por tudo.
Procurando seu olhar, retribuiu:
- Obrigada, por você estar aqui disposto a me ajudar.
- Estou ansioso para conhecer o Rafael.
Ela ofereceu largo sorriso que iluminou seu rosto e só disse:
- Agora ele está dormindo.
Espero que não se incomode de deixarmos para amanhã.
- Lógico que não. Não quero incomodá-lo, de forma alguma.
- Até amanhã. Tenha uma boa noite.
Se precisar de algo, meu quarto é o do lado.
- Obrigado. Mas acho que aqui terei tudo.
Vou tomar um banho e dormir. Obrigado.
Na manhã seguinte, Felipe acordou com o canto de vários pássaros e o relinchar de cavalos.
Havia dormido tão bem que não sabia onde estava.
Remexeu-se na cama e viu a claridade forte entrando pelas frestas da janela reflectindo nas cortinas.
Sorriu ao se lembrar de tudo e preocupou-se ao olhar no relógio.
Levantou. Tomou um banho rápido só para despertar.
Vestiu-se e saiu do quarto à procura de alguém.
No corredor, o cheiro de café fresco perfumava o ar.
Aproximando-se da cozinha, sentiu o aroma de bolo e era de milho, ele sabia.
Era o que mais gostava.
Ao chegar à cozinha, viu a cena de Vanessa sentada à mesa, em frente à avó.
Por não ter sido visto, parou e ficou apreciando por alguns instantes.
Era uma imagem estranhamente familiar.
Parecia que tinha visto isso antes, mas não sabia onde.
À sua mente, veio a lembrança de Vanessa quebrando ao meio, com as mãos, uma rosquinha de leite e colocando um pedaço na boca.
Depois, pegando a xícara, não pela alça, mas do outro lado, como se quisesse aquecer a mão, levando-a directamente até a boca.
E foi exactamente isso o que aconteceu.
- Quem é você?
Felipe tomou grande susto quando a voz de Rafael soou, inesperadamente às suas costas, perguntando de modo infantil em tom fraco.
- Oh! Bom dia.
Eu sou o Felipe. E você?
- Sou o Rafael.
O rapaz sentiu uma emoção que nunca experimentou antes.
Um ardor nos olhos.
Um nó na garganta.
Um aperto no peito.
Abaixou-se diante do menino para vê-lo melhor.
Passou a mão nos seus cabelos loiros que voltaram imediatamente para o mesmo lugar.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 19, 2016 10:16 am

Segurou-o com leveza por ambos os braços, observando seus olhos verdes e o contorno delicado de sua feição.
Sorriu enquanto o contemplava, dizendo:
- Você é bem mais alto do que imaginava, Rafael.
E muito bonito também.
- Vou fazer oito anos! -– sorriu.
- Nossa! Já?! -– devolveu o sorriso e reparou a covinha que se fez com facilidade do lado direito do rosto do sobrinho.
Emocionando-se pediu:
- Pode me dar um abraço?
O garoto o abraçou apertado, com toda força que tinha para se mostrar forte.
Felipe beijou-lhe a face e o envolveu com carinho, escondendo o rosto em suas costinhas.
Fechou os olhos, deixando que as lágrimas mornas, de uma emoção desconhecida, riscassem seu rosto.
Seu coração, cheio de compaixão, foi esmagado por sentimentos que não sabia ter nem explicar.
- Viu que abraço apertado? -– perguntou o menino, querendo se afastar.
- Vi. Você é forte mesmo -– respondeu disfarçando e secando o rosto para que o garoto não visse.
Felipe nem percebeu que Vanessa e Henriette, paradas, observavam-no.
Não sabia dizer porque seus olhos estavam repletos de sentimentos e sua boca cheia de palavras que não podia manifestar.
- Felipe, que é você? -– tornou Rafael insistente.
- A mamãe trouxe o Felipe para conhecer você.
Agora vamos deixá-lo tomar café e depois mostrar a fazenda para ele, certo? -– disse ao filho.
O rapaz se levantou.
Respirou fundo e não conseguiu encarar Vanessa, sem saber o por quê.
Cumprimentou-as com jeito encabulado e simples:
- Bom dia.
- Bom dia. Dormiu bem? -– perguntou a senhora.
- Optimamente bem, dona Henriette.
Até perdi a hora.
- Não é tão tarde assim –- tornou a mulher.
- É sim, vovó.
A senhora disse que ele tinha perdido a hora -– interrompeu-se o garoto.
- Rafael... -– advertiu a mãe em torno brando.
- Ele disse a verdade -– tornou a avó.
Eu falei mesmo que você se cansou com a viagem, foi dormir bem tarde e acabou perdendo a hora.
O rapaz sorriu, consultou o relógio e concordou:
- A senhora tem toda razão.
Já são nove horas!
- Venha. Venha tomar café.
Não ligue para horas.
É costume levantar bem cedo quando se mora no campo.
Tem trabalho que é feito especialmente pela manhã, principalmente quando se tem animais para cuidar. Venha.
Foi acompanhado até à cozinha e, ao sentar, comentou:
- Você tem razão, Vanessa.
O colchão é óptimo.
Isso me ajudou a perder a hora -– falou de um jeito agradável, elogiando a acomodação.
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Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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