MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Página 4 de 15 Anterior  1, 2, 3, 4, 5 ... 9 ... 15  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 12:27 pm

- Café puro ou com leite? -– perguntou a senhora.
- Com leite, por favor -– olhando para a mesa bem farta, perguntou.
Como a senhora adivinhou que eu adoro bolo de milho?
- Minha avó sabe ler o pensamento das pessoas, no que diz respeito à alimentação.
É impressionante.
Às vezes temos hóspedes e ela olha, depois diz que precisa preparar algo vegetariano, ou com pimenta, ou sem pimenta... porque a pessoa não gosta.
Dito e feito. Ela acerta todas! -– riu.
- Eu adoro de paixão, bolo de milho! -– falou enquanto cortava um pedaço.
– Dispenso qualquer coisa por isso!
- Eu também gosto de bolo de milho -– disse Rafael, sentado no colo da mãe, olhando atento cada movimento de Felipe e suas expressões.
O menino parecia adivinhar.
- É mais hoje você não comeu quase nada, não é? -– disse Vanessa.
- Então come um pedacinho agora.
Toma -– pediu o rapaz, dando-lhe uma fatia que menino aceitou e começou a mordiscar.
Sem se constranger, Felipe se fartou no café da manhã enquanto ouvia casos de hóspedes e outros acontecimentos agradáveis ou curiosos ocorridos na pousada.
Ao terminar, comentou:
- Estou ansioso para conhecer melhor este lugar.
- Então, vão.
O Rafael está bem-disposto hoje e pode ir com vocês, não é? -– sugeriu a senhora, parecendo querer livrar-se deles.
- É que minha avó está louca para ir cuidar do almoço -– revelou a neta, sorrindo ao se levantar.
- Então, vamos!
Você me mostra tudo, Rafael?
- Mostro sim, tio -– afirmou com voz doce, colocando-se ao lado do rapaz e lhe estendendo a mãozinha.
Ao olhar para Felipe, Vanessa viu seus olhos verdes, tão parecidos com os do garotinho, brilharem pela emoção que se fez, enquanto ele sentiu como se uma faca penetrasse lentamente em seu coração.
Ninguém havia pedido para Rafael chamá-lo de tio.
O garoto nada sabia.
Felipe tomou delicadamente a mãozinha entre a sua e se deixou conduzir até a varanda.
Lá, Vanessa perguntou:
- Você está bem, filho?
Vai dar para gente andar até o lago, lá embaixo?
Antes que o garoto respondesse, o rapaz propôs de um jeito divertido, abaixando-se:
- Rafael, tenho certeza de que você vai ficar do meu tamanho.
Quer saber como é olhar as coisas aqui de cima?
Quer montar nos meus ombros pra saber como vai ver tudo quando crescer?
Seu rostinho lindo se abriu em grande sorriso, olhando para a mãe como quem quer aprovação.
- Vai, filho. Aproveita -– incentivou ela.
- Eu quero, tio! -– animou-se e olhou com olhos brilhantes.
Felipe o segurou e o colocou sobre seus ombros.
Ao vê-los se afastando, ela foi logo atrás oferecendo:
- Ei! O boné!
Esqueceu o boné!
O menino o pegou, e o rapaz o balançou como em um trote, dizendo:
- Vamos! Agora vamos!
Um riso gostoso, que a mãe não ouvia havia tempos, soou espontâneo e Rafael segurou firme, enquanto o tio descia os poucos degraus da escada.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73027
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 12:27 pm

Capítulo 9 - A doença de Rafael

Caminharam pela estradinha em direcção ao lago.
Vanessa, sorridente, olhava a todo o momento para o garoto nos ombros de Felipe e parecia feliz ao observar o menino satisfeito, aproveitando cada segundo.
Ela nunca tinha experimentado aquela sensação de ver o filho tão feliz.
Talvez fantasiasse que Felipe era o pai de Rafael e, muito provavelmente, o menino fizesse o mesmo.
- Por favor -– pediu ela -, vamos por ali, pelas sombras das árvores.
Ele não deve ficar muito exposto ao sol.
- Então vamos para a sombra! -– brincou o rapaz, trotando novamente para agitá-lo.
Ao ouvi-lo rir gostosamente, perguntou:
- A visão daí é boa?
- É legal! -– respondeu alegre.
- Pois é assim que vai ver tudo quando crescer.
- Vou ficar do seu tamanho? -– tornou o garoto.
- Acredito que sim.
- Como pode saber, tio?
Vanessa procurou pelo olhar de Felipe e ambos sentiram a mesma sensação apreensiva, e o rapaz respondeu:
- Porque você já é um garoto grande.
Eu tinha o seu tamanho quando estava com a sua idade.
- O Rafael quer ser bem alto -– explicou a mãe.
- Minha mãe me falou que meu pai é alto, beeemmm alto! -– novamente trocaram olhares onde disseram palavras que não foram ouvidas.
O menino continuou:
- Tio, eu não conheço meu pai.
Minha mãe falou que ele mora muito longe.
Eu queria muito que ele viesse aqui, mas ela disse que não dá porque ele trabalha muito.
- Vamos parar aqui -– pediu Vanessa ao chegarem perto de um banco gracioso, sob uma árvore frondosa.
Ela não suportava mais aquela conversa, aquela situação.
Rafael parecia adivinhar quem Felipe era.
O rapaz ficou apreciando o gigantesco flamboyant, espectacularmente florido, que derramava um galho sobre o lago, quase tocando a água.
Sentaram-se e Rafael foi colocado entre eles.
Vanessa olhou para Felipe, que estava bem sério, virou-se para o filho e contou:
- O Rafael sempre quis saber sobre o pai dele.
Sempre me fez perguntas e, nos últimos tempos, tem feito mais ainda.
Mas nunca falou assim perto de outras pessoas.
Nunca falou do pai perto de estranhos.
- É que todos os meus colegas têm pai, menos eu.
- Você também tem um pai, só que ele mora muito longe, meu bem -– disse a mãe.
- Mas eu nunca vi o meu pai.
Ele nunca veio me ver.
Voltando-se para Felipe, revelou:
- O nome dele é Diogo.
- Filho, preste atenção -– interrompeu-o.
Eu nunca fui atrás do seu pai.
- Mas você disse que não sabia mais onde ele morava.
Disse que ele se mudou para longe.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73027
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 12:27 pm

- E não sei onde ele mora mesmo.
A mamãe não conhece onde ele mora.
Por isso eu procurei o tio Felipe.
Ele também morava longe e só agora voltou.
Dei sorte em encontrá-lo.
Ele é seu tio de verdade.
Ele é irmão de seu pai.
Rafael olhou rapidamente para Felipe, fitando-o por longo tempo.
Percebendo que Vanessa ficou nervosa e não sabia mais o que dizer, Felipe falou:
- Sou seu tio de verdade, Rafael, e digo mais, sou irmão gémeo do seu pai.
Nós dois somos idênticos.
- Verdade?! -– exclamou ao sorrir.
- Verdade. Tanto que... -– riu.
Faz muitos anos que sua mãe não vê seu pai e acabou me confundindo com ele.
- Na minha escola tem duas meninas gémeas, mas elas se parecem só um pouquinho.
Um instante e perguntou:
- Por que meu pai não veio com você?
- Foi bem difícil sua mãe encontrar onde eu moro -– disse, sem saber se isso era verdade.
Quando me achou eu quis conhecer você o quanto antes.
Eu não sabia que tinha um sobrinho e adorei a notícia.
Fiquei sabendo ontem.
Então vim para cá correndo para te conhecer.
Quanto a seu pai...
Olhou para Vanessa e, vendo que ela queria que continuasse, pois lhe fez um aceno positivo com a cabeça, prosseguiu:
- Ele mora muito longe.
Mora na Alemanha.
Você já ouviu falar na Alemanha.
- Fica muito longe, né?
- Fica sim -– confirmou o rapaz.
- Você não quis esperar meu pai chegar e me ver?
- Foi isso mesmo.
Até porque, na Europa toda..
Europa é o continente onde fica a Alemanha. Sabia?
O menino pendeu com a cabeça afirmando e Felipe continuou:
- Lá está nevando muito e, por causa disso, não tem voo para o Brasil e ele não vai poder vir para cá de imediato.
Só quando parar de nevar, o Diogo vai poder voltar para cá.
- Para me conhecer né tio?
Felipe olhou para Vanessa novamente, depois voltou-se para Rafael e respondeu:
- Isso mesmo. Tenho certeza de que ele vai ficar muito feliz por saber que você é um garoto esperto e muito bonito.
Rafael se levantou ligeiro, ficou na frente de Felipe e o abraçou inesperadamente.
O rapaz o tomou no colo e o envolveu, sentindo novamente vontade de chorar.
Vanessa experimentou as lágrimas aquecerem seus olhos e virou-se para o lado, fitando o bando de pássaros que voavam ao longe, para tentar se distrair e não chorar na frente do filho.
Naquele instante, passou por seus pensamentos o remorso por ter privado seu filho de conhecer o pai.
Mesmo que Diogo não quisesse assumi-lo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73027
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 12:28 pm

Tanto ele quanto o garoto tinham direito de se conhecerem e não era ela quem deveria ter decidido isso.
Nunca pensou que pudesse sentir tamanho arrependimento.
Depois do abraço, Rafael continuou sentado sobre o joelho de Felipe e quis saber curioso.
- Tio, você é igualzinho, igualzinho ao meu pai?
- Sou -– respondeu sorridente.
- Tem a mesma altura dele?
Tem o mesmo cabelo?
- Temos. Somos iguaizinhos.
Às vezes não cortamos o cabelo do mesmo jeito.
Isso hoje em dia, quando crianças, sim.
Mesmo assim, as pessoas que não nos vêem com frequência, nos confundem.
E olha, quando tínhamos a sua idade, éramos muito parecidos com você.
Até no corte de cabelo.
- Verdade, tio?! -– sorriu, alegre com a notícia.
- Verdade verdadeira, e eu posso provar.
- Como?! -– animou-se o menino.
- Eu trouxe fotos minhas e de seu pai.
Estão lá no meu carro.
- Eu quero ver, tio!
Eu quero ver!
- Você fez isso?!
Trouxe fotos de vocês de vocês dois pra ele ver?! -– surpreendeu-se Vanessa em saber do interesse e preocupação de Felipe com Rafael antes de sequer conhecê-lo.
Achou curioso o rapaz ter pensado nisso antes de fazer aquela viagem tão inesperada.
- Achei que ele iria gostar de ver -– respondeu com simplicidade.
- Me mostra, tio! -– tornou o menino ansioso.
- Então, vamos lá! -– chamou Felipe, tirando-o de seu colo e levantando-se.
De mãos dadas, tio e sobrinho, juntos com a mãe do garoto que os acompanhava ao lado, fizeram o caminho de volta até a frente da casa principal.
O rapaz os deixou esperando próximos dos veículos e entrou apressado para pegar as chaves do carro, subindo as escadas a cada dois degraus.
Ao retornar, abriu a Pick-up e, no banco de trás, pegou um álbum de fotografias que estava jogado sobre o banco.
- Aqui está.
Vamos lá na mesa da varanda, pois vai ficar melhor para você ver.
Foram para a varanda e, mesmo tentando se esforçar, Rafael não foi capaz de subir as escadas a cada dois degraus, como viu o tio fazer.
Achando graça, Felipe segurou-o pelas axilas e, de costas, ergue-o para que conseguisse o feito.
Vanessa riu, mas não disse nada.
Na mesa redonda de madeira escura e rústica, encerada, rodeada por quatro cadeiras do mesmo estilo.
Rafael acomodou o álbum e se esgueirou entre a cadeira, sentando sobre as pernas dobradas para ficar em uma altura compatível que facilitasse sua visão.
O rapaz se acomodou ao lado e, ao vê-lo abrir o álbum, apontou:
- Veja aqui.
Sou e seu pai, bem pequenos ainda.
- São bebés!
- Sim. Éramos bebés aí.
Logo aqui... deixe-me ver... – procurou e leu –- tínhamos um mês.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73027
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 12:28 pm

- Quem é você e quem é meu pai?
- O bebé que tiver essa fitinha no pulso sou eu.
Eu nasci primeiro.
Então, para não sermos confundidos, desde o hospital, ganhei essa pulseirinha.
Vanessa, bem ao lado do filho, espiou as fotos e se admirou:
- Nossa! São idênticos mesmo!
É comum alguma diferença, mesmo entre gémeos idênticos, mas pelas fotos não dá para ver.
- Éramos iguais mesmo.
- Olha! Olha aqui, tio!
Felipe voltou sua atenção para o que o garotinho queria e logo explicou, ao ver que ele havia passado rápido por algumas folhas do álbum:
- Ah! Aqui tínhamos seis anos.
Veja essa, agora -– virou a página.
Aqui tínhamos a sua idade.
- Nossa! O que é isso?!
Vanessa se surpreendeu.
–- Como parece o Rafael!
- Olha, mamãe. Posso dizer que sou eu! -– riu o menino.
Olha! Olha!
- Até a covinha do mesmo lado, quando rimos -– disse Felipe sorrindo satisfeito ao perceber a emoção do menino que agora tinha a outra parte de sua parte genealógica completa.
Num impulso, Rafael se levantou, empurrou a cadeira, tomou o álbum e correu para dentro de casa, dizendo:
- Vou mostrar para vovó!
E antes de passar porta adentro, gritou apressando-se:
- Vovó! Vovó! -– e sua voz sumiu a entrar na casa.
Vanessa estava contendo as emoções, mas, ao encarar Felipe com olhos marejados, explicou-se, secando com a mão a lágrima teimosa que correu em sua face.
- Faz tempo que não vejo o meu filho assim, desse jeito, tão animado, tão disposto...
Eu não podia imaginar que conhecer o pai, saber do pai, fosse algo tão importante para ele.
- É lógico que é.
Acho que todos nós queremos saber de nossa origem.
Um instante e perguntou.
-– O que dizia para ele quando queria saber do pai?
- Eu disse que namorei o Diogo e que esse namoro não deu certo.
Que o pai dele foi embora, mudou-se para muito longe e não tive como avisá-lo sobre ele.
Que depois o Diogo se mudou de novo, se mudou e... ...ninguém sabia mais onde ele estava.
Mas que, um dia, se Deus achasse importante, o pai ia voltar, saber dele e conhecê-lo...
Ela chorou discretamente.
Secou o rosto com as mãos e contou:
- Sabe, Felipe, foi tão duro saber que eu fui enganada, traída... que fui idiota e passei por boba...
Na época, eu deveria ter desconfiado que não era do nível dele.
Afinal, como uma moça caipira, ingénua, do interior e que não sabia se arrumar direito poderia ser importante para um rapaz esperto, bonito, rico, da cidade grande?
Ele ficou calado, só observando, e ela continuou:
- Eu não tinha grana pra gastar com roupa fina.
Ficava constrangida por não me vestir na moda quando ele me levava para lugares finos, elegantes.
Só que isso não justifica o facto de o Diogo me enganar, de trair a mim e a noiva.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73027
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 12:28 pm

Quando eu soube, não acreditei. Mas eu vi.
Ele nem sequer pensou em me procurar para conversarmos e ele me dar uma satisfação depois.
Deve ter rido muito nas minhas costas.
Sentindo-se muito superior por...
Calou-se por um momento.
Depois revelou:
- Quando eu larguei tudo e vim pra cá, descobri que estava grávida.
Tomei um susto. Fiquei confusa.
Você não imagina como foi.
- Pensou em aborto?
- Não. Nunca. Sou contra o aborto.
Em nenhum momento pensei em matar meu filho.
Na verdade, eu não sabia se procurava ou não o Diogo para contar.
Tive medo de, por ser rico e moderno, ele me pedir para tirar o nené.
Isso eu não queria fazer. Nunca!
Então decidi ter meu filho sozinha.
Criá-lo do meu jeito.
Sem ter o Diogo contrariado pela existência dele e como uma sombra a nos perseguir.
Sim, porque ele teria seus direitos e deveres para com o Rafael, não é mesmo?
Nunca viveríamos em paz.
Por outro lado, o Diogo poderia levar a vida que escolheu.
Se eu fosse importante para ele, teria vindo atrás de mim quando eu sumi.
Ela ergueu os olhos, encontrou com os dele e forçou um sorris que se desfez tão rápido quanto se formou.
- O que não esperava era ter de procurar pelo Diogo por causa da doença do Rafael.
- Acho que ninguém espera por isso.
Como descobriu a doença. -– interessou-se Felipe, mais desgostoso do que calmo, ao perguntar.
- O Rafael foi muito activo, esperto desde... Desde sempre –- sorriu de modo brando, encarando os olhos de Felipe.
Desde os três anos de idade, quando o coloquei na escolinha, ele se destacava das outras crianças.
Com os anos até me acostumei com isso.
De repente, começou a ter um comportamento diferente.
Os bilhetes na agenda escolar, me que diziam sobre ele não ficar quieto, conversar demais, não ter limites, não obedecer, entre outras reclamações tão comuns, desapareceram.
Ele passou a ficar quieto, comportado.
Depois começou a perder o apetite.
Recusava-se a comer e emagreceu a olhos vistos, ao mesmo tempo em que sintomas como os de gripe surgiram.
Levei-o ao pediatra que me falou sobre virose, não dando nenhuma importância ao que eu falava.
Disse que a dor de cabeça que ele reclamava era sinusite e que a garganta inflamada iria melhorar com o medicamento que ele havia receitado.
Eu o trouxe para casa.
A febre cedia, mas voltava.
Aos poucos, o Rafael melhorou.
Mesmo assim, continuava abatido.
Retornei ao mesmo médico e ele me disse que não me preocupasse.
Aquilo era coisa de criança.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73027
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 12:28 pm

Até falou como se zombasse, brincando comigo:
“O maior problema dos filhos são as mães super-protectoras.
Elas se preocupam com tudo e sempre acham que tem algo errado com o filho.
Vá pra casa e descansa, mãe.
Você está muito stressada”.
Foi isso o que eu ouvi.
- Que médico imprudente -– comentou Felipe contrariado.
- Foi mesmo. Mas você nem sabe o que fiz depois.
Parou por um instante, tomou fôlego e continuou:
- Apesar de ter ouvido do pediatra, eu fiquei de olho nele.
Conversei com a professora, que também estranhava o comportamento do Rafael.
Ele começou a reclamar de dores na barriga, nos joelhos e cotovelo.
Era o maior sacrifício fazê-lo comer alguma coisa, comecei a observá-lo dormindo e vi que suava muito.
Junto a isso, vieram os vómitos.
Ele reclamava de falta de ar.
Nessa altura, não tive dúvidas, voltei ao médico.
- No mesmo?
- Não. Em outro.
Parecendo revoltada, ficou com os olhos marejados ao dizer:
- Contei tudo o que acontecia e o... o irresponsável disse que concordava com o colega.
Falou que as dores na barriga deveriam ser vermes.
Algo muito comum em crianças criadas no interior, em sítios ou fazendas.
As dores nos joelhos deveriam ser dores do crescimento.
Ele não deu a menor importância, Felipe!
Não pediu exame nenhum!
- E o que você fez?
- Na semana seguinte, levei o Rafael até a cidade de Taubaté, onde tinham me indicado um pediatra muito bom.
- Antes desse, você o levava a hospital público?
- Não. Sempre o levei a hospitais e médicos indicados pelo plano de saúde.
Breve pausa e prosseguiu:
- Naquela semana, o Rafael começou a ter sangramento nasal espontâneo.
Não queria sair da cama...
Tudo o que ele fazia era muito difícil.
Havia emagrecido demais...
Ele sempre foi bem forte e activo.
Assim que o médico particular o examinou e me ouviu, fez uma série de perguntas e eu respondi.
Então ele decidiu pedir exames de sangue e biópsia da medula óssea.
Levei um choque.
Sabia para que servia o exame de biópsia da medula óssea.
Mesmo assim, perguntei do que ele suspeitava e respondeu:
- “São só suspeitas, mãe.
Vamos eliminar todas as dúvidas para cuidar bem direitinho desse garotão”.
Alguns minutos e deixou o olhar perdido ao longe para aliviar a sensação ruim que sentiu ao se lembrar, tão vivamente, da experiência dolorosa e falou:
- Perdi o chão. Não queria acreditar que aquilo pudesse acontecer.
Não com o meu filho. Era uma suspeita.
Só que uma suspeita bem séria, tendo me vistas os sintomas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73027
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 12:28 pm

Devo confessar que aquilo já tinha passado pela minha cabeça, quando o Rafael apresentou os quadros de infecções seguidos, febre e vómitos, que se assomaram aos primeiros sintomas.
- Que foi a perda do ânimo e do apetite.
- Exactamente.
- Você foi sozinha ao médico com ele?
- Fui. Eu, o Rafael e Deus.
Você não pode imaginar como nessa hora, faz falta um pai, um companheiro, alguém com quem você possa dividir.
Alguém para te dar forças.
Eu me vi sozinha. Eu estava sozinha! -– enfatizou.
E tinha de ser forte, ficar firme, além de prestar muita atenção em tudo.
Eu não queria que meu filho sofresse.
Acreditava que deveria ser eu no lugar dele. Entende?
O rapaz acenou positivamente com a cabeça, confirmando:
- Entendo. Entendo sim.
Mas... Por que, nessa hora, não procurou pelo Diogo?
- Pensei nisso.
Só que eu era sozinha para fazer tanta coisa para o Rafael que...
Não podia perder tempo.
O assunto com o Diogo era bem importante, mas, com o Rafael, era urgente.
Decidi fazer os exames.
Precisava ter certeza sobre o que o meu filho tinha.
Isso deu trabalho. Foi uma luta.
Tive problemas com o plano de saúde porque queria aquele médico e o médico não era credenciado pelo convénio para pedir exames a serem feitos em laboratório do plano de saúde...
Aí, precisava marcar com médico do plano para ele pedir os exames e as consultas demoravam muito...
Nem te conto. Então, por fim, o Rafael fez os exames e o pior foi confirmado.
Pensei que eu fosse morrer quando soube do resultado.
Chorei tanto... -– expressou-se em tom exausto e triste, mas calmo, brando.
Pedi a Deus que me desse forças para saber como cuidar do meu filho, para encontrar os melhores médicos e tudo o que fosse bom para ele.
Suspirou, encarou-o e revelou:
- Depois disso, veio muito trabalho a ser feito, incluindo o de encontrar o Diogo para os testes de doação de medula óssea, que deve dar continuidade ao tratamento.
Eu não quis perder tempo.
Por isso apareci lá, na sua casa, tão repentinamente.
- Eu ouvi falar pouco de leucemia.
Sei que se trata de câncer no sangue, mas não sei exactamente o que é, como é, qual o tratamento adequado.
Sou totalmente leigo.
- Bem... é mais ou menos assim:
nós temos, em nosso sangue, várias células circulantes.
Entre elas os glóbulos brancos, chamadas de leucócitos; os glóbulos vermelhos, chamados de hemácias e as plaquetas.
A leucemia é a neoplasia maligna, ou seja, é o câncer dos glóbulos brancos.
Os glóbulos brancos ou leucócitos são as células que compõem o sistema de defesa do nosso organismo contra invasores.
O nome leucemia foi dado porque o câncer é nos leucócitos, leukos, em grego, significa branco,– glóbulos brancos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73027
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 12:29 pm

Embora a leucemia seja uma doença praticamente dos leucócitos, é possível ter leucemia, da série mieloide, que afecta as plaquetas e as hemácias.
- Entendo. E...
De repente, nosso sangue começa a ter glóbulos brancos com câncer?
Como é isso?
- É assim: nós temos a medula óssea, que é o tutano, mais popularmente conhecido, aquela coisa meio gelatinosa dentro do osso.
Os glóbulos brancos, ou leucócitos, são células produzidas na medula óssea a partir de células mães, chamadas de células-tronco.
Os leucócitos estão presentes no sangue, no fígado, no baço, no sistema linfático...
São esses glóbulos brancos que defendem nosso organismo de invasores, produzindo anticorpos ou atacando-os directamente.
Eles são os responsáveis por grande parte do nosso sistema imunológico.
Uma medula óssea normalmente produz cerca de cem milhões de leucócitos, os glóbulos brancos, por dia.
Esses leucócitos nascem e morrem diariamente.
Por isso a medida normal de leucócitos em cada mililitro de sangue pode variar de 4.000 a 11.000.
Nosso corpo passa a produzir mais leucócitos quando ocorre algum tipo de infecção e isso é puramente normal para o nosso sistema imunológico.
Nas leucemias, os glóbulos brancos ou leucócitos são produzidos inapropriados ou excessivamente.
Em outras palavras começa a acontecer a produção em demasia de leucócitos defeituosos, ultrapassando muito, mas muito a medida normal.
Se o normal é 4.000 a 11.000 por mililitro, a alteração, em alguns casos, ultrapassa a 100.000 por mililitro de sangue.
Esses leucócitos cancerígenos, ou glóbulos brancos cancerígenos, são produzidos excessivamente e se proliferam, a princípio, na medula óssea, prejudicando e impedindo a produção de outras células.
Por exemplo, com a produção em abundancia de leucócitos malignos, a medula óssea não consegue mais produzir hemácias, ou glóbulos vermelhos, adequados e saudáveis, resultando em anemia.
O mesmo acontece com as plaquetas que, não produzidas, facilitam a ocorrência de sangramento e dificuldade de cicatrização.
Como a medula óssea não consegue produzir outros tipos de leucócitos, o sistema imunológico fica deficiente e o organismo desprotegido contra infecções.
Por isso a ocorrência de quadros de febre.
- Eu não sabia disso -– ele comentou um tanto decepcionado.
- Nem eu. Os primeiros médicos que procurei, aqueles dois pediatras, falharam quando não pediram um simples hemograma para verificar alguma irregularidade que levasse a suspeitas e...
Eles fizeram um diagnóstico equivocado, sem base, infundado e, por isso, errado.
- Já vi muitos pais reclamarem de médicos cuidadosos que pedem exames clínicos.
Os pais ou cuidadores pensam que os filhos só precisam de um antibiótico ou anti-inflamatório, pois acham que é um quadro bacteriano ou de inflamação, sei lá.
Os exames são muito importantes.
- Exactamente. Todo e qualquer sintoma, principalmente os que se repetem sem justificativas confirmadas, deve ser investigado.
Quando a medula óssea deixa de produzir células sanguíneas normais, geralmente, os primeiros sinais aparecem e, normalmente, um exame de hemograma acusará algo errado que deverá ser investigado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73027
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 12:29 pm

Uma breve pausa e continuou:
- Então... Entre muitos detalhes, sei que existem vários tipos de leucemias.
Além disso, existe a classificação entre leucemias agudas e leucemias crónicas.
As agudas são as mais rápidas, as mais agressivas, as que progridem mais rápido, causadas pela produção anormal e excessiva de leucócitos jovens, imaturos.
Nas leucemias agudas, os sintomas aparecem rapidamente e pioram mais rápido ainda.
A pessoa se sente doente, mas não sabe exactamente o que sente.
Nas leucemias crónicas, o câncer ocorre em leucócitos maduros e esses se acumulam.
Nesse caso, os sintomas aparecem gradualmente e não são tão severos como nas leucemias agudas.
As leucemias crónicas são, normalmente, diagnosticadas em exames de sangue de rotina, antes que os sintomas apareçam e, quando esses aparecem, eles são brandos, a princípio, e pioram gradualmente.
Os sintomas aparecem dependendo de onde os leucócitos doentes se acumulam: rins, pulmões, fígado, nódulos linfáticos, articulações, ossos, trato digestivo...
Por isso a pessoa apresenta fadiga, falta de ar, vómito, perda de controle muscular, convulsão, confusão mental, quando chega a atingir o sistema nervoso e o cérebro...
Além de outros sintomas.
Um momento e Vanessa explicou ainda:
- Entre elas, sei que existe a leucemia mieloide aguda, que é agressiva e pode ocorrer em qualquer idade, embora seja mais comum em pessoas de sessenta anos.
Ela é mais favorecida àquela que se expuseram à radiação, produtos tóxicos, cigarro e outras substâncias.
Tem também a leucemia mieloide crónica, que demora mais para ser diagnosticada, só que, se passar de cinco anos para se ter conhecimento e tratamento, torna-se tão agressiva quanto a aguda, dificultando o tratamento.
Ela é rara em crianças e mais comum entre pessoas de trinta a cinquenta anos.
A leucemia linfocítica crónica é mais comum entre pessoas acima de cinquenta anos.
Sua evolução é mais lenta.
Já a leucemia linfocítica aguda apresenta grande produção de linfócitos imaturos, chamados de linfoblastos.
Embora acometa adultos, é mais comum em crianças.
Ela é diagnosticada assertivamente pela biópsia da medula óssea.
O tratamento desse tipo de leucemia é dividido em até três etapa, normalmente.
- É a que o Rafael tem?
- Sim, é -– respondeu em tom de lamento.
Depois prosseguiu:
- Para a leucemia linfocítica aguda ou leucemia linfóide aguda, primeiro devem-se eliminar todas as células cancerígenas da circulação sanguínea.
Para isso, entra-se com a quimioterapia e os corticóides.
Essa primeira fase é chamada de indução da remissão.
Depois, vem a segunda fase, a de consolidação, que serve para impedir o retorno das células doentes após a indução, então... -– a voz de Vanessa embargava e lágrimas corriam em sua face.
Dependendo do caso... ou... pode-se repetir o mesmo processo da indução, ou seja, doses menores de quimioterapia... ou tentar com o transplante de medula óssea, caso se encontre um doador...
Mas, se não encontrar... não se sabe até onde se pode... pode continuar com a quimio... -– chorou.
- Vem cá... Não fica assim.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73027
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 12:29 pm

Felipe arrastou sua cadeira para perto dela e a envolveu com um abraço, afagando-lhe os cabelos.
Vanessa chorou, mas procurou se recompor.
Ainda recostada em seu peito, disse:
- Depois tem a fase de manutenção... aí se prolonga por mais dois anos o tratamento quimioterápico para não se ter células doentes, que possam existir sem sequer aparecer nos exames, mas se...
Vanessa não suportou e pareceu desmoronar.
Chorando junto, Felipe a abraçou forte, debruçando-se nela.
O caso era comovente.
Tratava-se de seu sobrinho, mas ele não sabia por que aquilo o deixava tão fragilizado, tão emotivo.
- Vai dar tudo certo, Vanessa.
O Rafael é forte. Ele vai conseguir.
Vai encontrar um doador perfeito.
Entre soluções, ela se ergueu e contou, invadindo seus olhos verdes banhados de lágrimas.
- Tenho medo de algo galopante, que não lhe dê chance de encontrar um doador.
Por isso fui tão desesperada atrás do Diogo.
Antes de ontem foi detectado tumoração palpável nas axilas, na garganta... -– chorou ainda.
- Não... -– murmurou contrariado, com lágrimas grossas a correr em seu rosto.
Felipe, incrédulo, olhava-a sem saber o que dizer.
Envolveu-a novamente, encostando-a em seu peito.
Balançava-a suavemente, tentando aplacar aquela dor.
- Não contei pra ninguém –- falou abafando a voz no abraço.
Não consegui...
Longos minutos de pausa e ela se recompôs.
Endireitou-se e encarou-o, desabafando-o:
- Estou sem forças, Felipe. Não sei se vou aguentar.
Sinto um desespero, uma dor...
O médico falou que ia estudar o caso, mas...
A princípio, o ideal, no entendimento dele, é fazer o tratamento da leucemia primeiro, com sessões de quimio bem significativas e, para não perder tempo, encontrar um doador, com o máximo de compatibilidade, para fazer o transplante de medula óssea para minimizar as complicações.
Um minuto e desabafou:
- Estou com medo, assustada e, às vezes, sem força, e essa luta nem começou.
- Nós vamos lutar juntos, Vanessa! -– incentivou ele, exclamando num sussurro.
Estou nessa com você e com o Rafael.
Vocês não estão sozinhos.
Não vou abandoná-los de jeito nenhum, tá?
- Está sendo bem difícil para mim, Felipe.
Meus irmãos moram longe e...
Desde quando tive o Rafael, eles ficaram mais distantes ainda, entende?
Só tenho meus avós e eles já têm idade...
- Agora tem a mim -– afirmou sério, tocando-a na alma através de seus olhos.
- Estou confusa ainda.
Passei por um alto nível de stresse que, não sei se diminuiu, apesar de admitir que já foi pior.
Na época, assim que descobri, voltei ao hospital onde levei o Rafael pelas primeiras vezes e procurei o médico que o acompanhou.
Disse horrores para ele.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73027
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 12:29 pm

Nisso, apareceu o outro pediatra que também ouviu tudo o que eu tinha para dizer.
Falei que a complicação no caso do meu filho era por culpa deles que economizaram os pedidos de exames e que agora eles teriam de viver com essa culpa...
Um segurança teve de me levar para fora do hospital.
Foi um vexame...
- Você precisou desabafar.
Eles erraram, não resta dúvida.
Não vamos perder mais um minuto sequer.
Vai dar tudo certo.
Tomara que eu seja compatível, para não perdermos mais tempo.
- Eu e meus avós já fizemos os exames para ver a compatibilidade, mas... Nada.
- Eu vou.
Vai dar certo. Vai ver.
Vanessa o encarou, mais esperançosa do que confiante e desejou:
- Deus queira que sim!...
- Você sabe que, eu sendo compatível ou não, vai ter de contar ao Diogo que ele tem um filho, não sabe?
- Sei. Descobri isso quando vi o Rafael tão animado conversando com você.
Não o via assim fazia tempos -– emocionou-se e represou as lágrimas nos olhos, fitando o alto.
Percebi como é importante para ele conhecer o pai.
Sou uma idiota!
Não tinha entendido isso antes e...
- Não faz mal. Já passou.
- Quando o vi conversando com você eu... ...pensei que poderia ser com o pai dele e, talvez, estivesse mais animado ainda.
- É provável que a recuperação de Rafael seja mais fácil se ele conhecer o Diogo.
Factores psicológicos influenciam muito na recuperação de qualquer pessoa.
- Eu sei -– ela murmurou, parecendo sofrer pelo remorso.
Com pena ao encará-la, Felipe afagou-lhe o rosto com carinho.
Aproximou-se e beijou-lhe a testa.
Nesse instante, Rafael apareceu à porta e chamou:
- Mamãe, tio...
A vovó disse que o almoço tá pronto.
Vanessa virou-se e respondeu, levantando-se:
- Já estamos indo, meu amor.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73027
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 12:29 pm

Capítulo 10 - Planos do destino

Quis o destino que Vanessa encontrasse Felipe somente no decorrer daquela experiência.
A mais difícil e dolorosa de sua vida, quando uma terrível sensação de medo bateu-lhe à porta, chamando-a para lutar pelo que fosse preciso para salvar seu filho, mesmo sentindo-se impotente ou puramente humana.
E foi o que ela se propôs a fazer: enfrentar tudo.
Um instante depois de ouvir Felipe dizer que estaria ao lado deles, que não estariam sozinhos, que agora o tinham, ela sentiu uma força imensa brotar em sua alma, uma esperança, uma fé que não sabia explicar e isso a impulsionou.
Teria de encarar Diogo, que talvez não ficasse satisfeito por, até então, não saber que tinha um filho.
Além disso, sua esposa a odiaria por ter aparecido com menino.
Vanessa pensava.
Agora não importava.
Buscaria o melhor para a recuperação de Rafael.
O almoço foi servido, mas o garotinho não quis comer o que tinha e provou poucas colheradas de uma sopa de legumes batida no liquidificador que a bisavó tinha feito especialmente para ele, pois se encontrava abatido e indisposto.
Após comer foi se deitar.
Depois de levá-lo ao quarto e se certificar de que Rafael estava bem, Vanessa disfarçou o que sentia e procurou dar atenção a Felipe.
- Ele dormiu -– contou, sentando-se à mesa.
- Até que hoje ele está bem-disposto -– disse Henriette sorridente.
O rapaz ficou com o olhar perdido em algum ponto, sem parecer ouvir o que elas comentavam.
Mergulhado nos próprios pensamentos.
Com voz doce, Vanessa o despertou, falando baixinho:
- Felipe?... Felipe, tudo bem?
- Oi! -– surpreendeu-se e sorriu.
Desculpe-me, eu... -– olhou-as novamente e confessou:
- Sei que podem achar estranho, mas...
Eu me comovi demais com o Rafael, com seu estado.
É como se eu o conhecesse.
Não pensei que fosse ser assim ao vê-lo.
Tenho outros sobrinhos e, para ser sincero, não tenho tanta afinidade com eles.
- É que, pra você, o Rafael é como filho.
Você me disse que é gémeo idêntico do seu irmão, se são idênticos têm o mesmo DNA, a mesma genética.
Está se sentindo tio e pai ao mesmo tempo.
- Vovó!... -– chamou a neta, repreendendo-a em tom brando.
- O Diogo teve outro filho e eu não o conheci e...
Em seu íntimo, pensou que nunca viu o outro filho de seu irmão e nunca o veria.
Ele está morto.
Uma espécie de remorso inevitável o deixava triste e talvez, por isso queria ajudar esse sobrinho que conhecia agora.
Mas não foi isso o que disse.
-– Acho que a dona Henriette tem razão.
Conhecendo o Rafael, senti algo muito diferente por ele.
Não vejo a hora de poder ajudar, de fazer algo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73027
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 12:30 pm

Virando-se para a neta, a senhora quis saber:
- E quanto ao pai do Rafael?
Quando é que você vai avisá-lo?
- Ele mora na Alemanha, vovó.
Vou avisá-lo sim.
Preciso contar tudo de uma vez.
Hoje percebi o quanto o Rafael deseja conhecê-lo.
Olhando para Felipe, disse:
- Vou precisar que me ajude a fazer contacto com o Diogo.
- Lógico!
Quando disse isso, o rapaz sentiu o coração esmagado e não entendeu a razão.
- Minha ideia é que o Diogo venha para o Brasil e aqui eu converse com ele, pessoalmente, longe de todos.
Sei que vocês dois não se falam há algum tempo, mas...
Não tenho com quem contar.
Só você vai poder fazer isso para mim -– explicou a moça.
- Não conversa com seu irmão, Felipe? -– perguntou a senhora bem directa.
- Não. Tivemos um problema bem sério e...
Olhando para Vanessa, pediu.
-– Conta você.
- Vovó, lembra quando eu disse que o Diogo estava noivo de uma moça que morava na Alemanha, enquanto namorava comigo?
- Lembro sim.
- Pois bem, essa moça foi noiva do Felipe, antes de se casar com o irmão dele.
Estavam marcando casamento quando ela decidiu revelar que havia se apaixonado pelo Diogo depois que, brincando, passou-se pelo Felipe, o que gerou uma aproximação entre ambos.
- Meu Deus... -– murmurou a senhora em tom de lamento.
- Desde então não se falaram mais.
O Felipe foi morar em Londres.
O Diogo ficou aqui até se casar e ir para a Alemanha.
Isso faz anos.
- Vocês se davam bem antes disso tudo acontecer? -– tornou a mulher olhando-o comovida.
- Muitíssimo bem. Éramos muito ligados.
Fazíamos tudo juntos.
Eu só não gostava quando nossos pais queriam que eu tivesse a mesma personalidade do meu irmão.
O Diogo sempre foi mais extrovertido, mais peralta...
Eu o acompanhava, porém, era mais quieto, mais reservado.
Não gostava de ser comparado, ser obrigado a usar as mesmas coisas, roupas, por exemplo.
Eu gostava de um tipo de brinquedo e ele de outro.
Só que ganhávamos o mesmo brinquedo que, sempre, era o que o meu irmão queria.
Meu problema não era com ele, era com as pessoas que não respeitavam a minha individualidade.
Conversavam enquanto almoçavam e dona Henrietter opinou:
- É que, talvez, por vocês serem muito idênticos, seus pais não conseguiam separar suas personalidades.
- Os gémeos idênticos, também chamados de gémeos univitelinos ou monozigóticos, têm o mesmo genoma, o mesmo DNA.
São clones perfeitos um do outro.
A única coisa que diferencia um gémeo idêntico do outro é que eles não têm a mesma impressão digital.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73027
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 20, 2016 12:30 pm

- Não têm a mesma digital?!
Eu não sabia disso -– surpreendeu-se Vanessa.
- Não. Não tem –- tornou o rapaz que sorriu.
Parecia esperar por aquela reacção.
Minha individualidade física está aí.
De resto... Somos clones perfeitos.
É por isso que, em caso de crime cometido por uma pessoa que tem um gémeo univitelino, a perícia leva em consideração a impressão digital e não o exame de DNA.
O teste de DNA não distingue, não separa um gémeo idêntico do outro.
-É algo curioso.
Os gémeos idênticos são formados quando um único óvulo, fecundado por um espermatozóide, divide-se completamente.
Esses gémeos sempre têm o mesmo sexo e o mesmo DNA.
Como necessariamente têm a mesma carga genética, eles deveriam ser completamente idênticos.
Eu penso que, por isso, deveriam ser idênticos também nas impressões digitais.
Não deveriam? -– perguntou Vanessa curiosa.
- Sim, e a princípio, são.
Mas, no ambiente intra-uterino os fetos tacteiam,, movem-se e têm posições ligeiramente diferentes.
Alguns chupam os dedos...
Esses contactos com partes diferentes no ambiente Utra uterino proporcionam variações nas digitais, por isso elas são únicas.
Diferentes, mesmo em gémeos univitelinos.
- Gémeos sempre mexem com a curiosidade de todo mundo, principalmente quando iguaizinhos -– comentou Henriette, enquanto servia a sobremesa.
- Podem ser iguais na aparência.
Semelhante em alguns aspectos comportamentais, na inteligência verbal, na aptidão matemática, porque o cérebro tem funcionamento igual, mas a personalidade deles não é igual e, sem medo, digo que é bem diferente.
- Já vi gémeos univitelinos que têm alguma coisa que os diferenciam:
no tamanho, peso, detalhes quase insignificantes.
Porém, já vi gémeos univitelinos completamente idênticos, não só fisicamente, como no jeito, no falar, nas atitudes...
Se são idênticos, por que será que alguns se diferenciam mais e outros menos? -– interessou-se Henriette.
- As mais recentes pesquisas, principalmente na área psicológica, a respeito de gémeos idênticos, revelam que aqueles gémeos univitelinos que foram separados ao nascer ou pouco tempo depois e criados longe, principalmente quando um não sabe da existência do outro, têm personalidades mais semelhantes do que os que foram criados juntos, o que isso nem sempre acontece.
Se eles vivem juntos e são criados e um é mais extrovertido do que o outro, com o tempo e, aos poucos, essa extroversão aumenta, a ponto que a introversão do outro também se acentua.
É sempre é assim, alguma diferença do outro também se acentua.
Na maioria dos casos, os gémeos univitelinos criados juntos têm a tendência de darem ênfase às suas diferenças de personalidade para se diferenciarem um do outro. Em contrapartida, os gémeos idênticos, criados separadamente, não têm essa preocupação, por isso são mais parecidos, não só fisicamente, mas em termos de personalidade.
Isso leva os pesquisadores a crer que as semelhanças ou diferenças físicas entre eles podem ocorrer por factores psicológicos, ou seja, inconscientemente eles querem ter sua individualidade.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73027
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 9:59 am

- Você e seu irmão são muito parecidos fisicamente? -– perguntou a senhora.
- Incrivelmente parecidos.
Até eu me surpreendo.
Embora eu sempre quisesse ser reconhecido de forma diferente, somos, impressionantemente iguais.
Acho que é carma -– sorriu.
O que me divertia, quando pequeno e na adolescência, principalmente, eram as brincadeiras.
Isso era muito legal.
Mas, fora isso, eu não achava muito bom ter um irmão gémeo.
Breve pausa e comentou:
- Já ouvi falar de casos extraordinários entre gémeos idênticos e tive experiências nesse sentido também.
- Do que ouviu falar que foi tão extraordinário assim? -– quis saber Vanessa sorridente, esperando algo surpreendente.
- Um caso bem famoso foi nos Estados Unidos, em Ohio, onde dois irmãos gémeos, separados ao nascer, foram adoptados por famílias que não sabiam da existência um do outro.
Uma família chamou um filho de Jim, e a outro também de Jim.
Quando eles eram meninos, crianças, os dois tiveram cachorros e colocaram o nome de Toy.
Eles roíam as unhas.
Após os dezoitos anos passaram a ter síndrome de cefaleia, um misto de enxaqueca e tensão.
Ambos se casaram duas vezes e o impressionante foi que suas mulheres se chamaram Linda e Betty.
Um deu o nome ao filho de Alan e outro de Allen.
Em suas casas, eles fizeram um banco circular ao redor de uma árvore que havia em seus jardins.
Trabalharam em postos de gasolina e depois como xerifes.
Fumavam cigarros da mesma marca e tomavam a mesma marca de cerveja.
Os dois tinham o costume de espalhar bilhetes de amor para suas esposas pela casa.
Todos os anos, um sem saber do outro, iam com a família em seus carros da mesma marca, da cor azul-claro, com placa de Ohio, para a praia em St. Petersburgo, na Flórida, durante as férias de verão.
Eles tinham vozes, gestos e maneirismos idênticos.
Só foram reunidos aos trinta e nove anos de idade.
- Que incrível! -– disse a senhora.
- E é mesmo.
Outro caso foi dos gémeos idênticos Jack e Oskar, de Trinidad.
Separados ainda bebés e reunidos aos quarenta e seis anos.
Por causa do divórcio dos pais, um foi criado pela mãe, na Checoslováquia, ocupada pelos nazistas, e o outro pelo pai, em Trinidad, vivendo em Kibbutz, em Israel, por algum tempo.
Os dois gostavam de usar óculos do mesmo modelo, tipo aviador.
A cor preferida de camiseta era azul, desportiva e com aberturas nos ombros.
Eles usavam pequeno bigode aparado.
Gostavam de bebidas doces.
Normalmente estavam com elásticos nos pulsos, liam revistas e livros de trás para a frente e adoravam embeber suas torradas com manteiga no café.
Tinha o hábito de dar descarga no banheiro antes e depois de usá-los.
Quando estavam em elevadores, espirravam de forma ruidosa, escandalosa para chamar a atenção e assustar os outros passageiros.
Uma forma de brincar, apesar de ser uma brincadeira de mau gosto.
Ambos gostavam de dormir com a televisão ligada.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73027
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 10:00 am

Eram impacientes e sensíveis a germes.
Se procurarmos, teremos diversos casos incríveis entre gémeos, principalmente os univitelinos.
- E com você e o Diogo?
Qual tipo de ligação ou caso bem interessante que vocês tiveram? -– tornou Vanessa.
- Era muito comum eu sentir dor quando meu irmão se machucava e vice-versa.
Uma vez aconteceu assim -– sorriu ao se lembrar:
- Eu não fui à escola porque minha mãe me levou ao dentista.
Enquanto o Diogo foi normalmente.
Eu e minha mãe estávamos, há algum tempo, esperando no consultório odontológico quando, de repente, senti uma dor terrível no meu braço esquerdo.
Tínhamos sete anos.
Comecei a chorar - riu.
Não demorei e não suportei.
Nem fui atendido pelo dentista.
Desesperada, minha mãe voltou comigo para casa e, quando chegamos tinha o recado de uma ligação pedindo para ela ir à escola, pois meu irmão havia caído e quebrado o braço esquerdo! -– enfatizou.
Passados dois dias, minha mãe levou meu irmão ao médico para ver se haviam engessado correctamente, pois a escola o socorreu em um hospital que ela não tinha confiança.
Fiquei em casa sozinho.
Como fazia sempre, sentei no corrimão de madeira da escada para descer escorregando só que caí e quebrei o braço esquerdo! -– ressaltou e riu gostoso, provocando o riso das duas.
Senti a mesma dor que tinha experimentado dois dias antes.
Enquanto isso meu irmão que estava lá no médico com minha mãe, começou a chorar, dizendo que o braço doía muito.
Fizeram exames, radiografias, mas não acharam nada estranho, para um braço já quebrado.
Então o medicaram e liberaram.
Quando minha mãe chegou a nossa casa, eu não estava.
A empregada havia telefonado para o meu pai, que largou o serviço e tinha ido me socorrer.
- Já ouvi contar casos de gémeos que tiveram, na mesma época, problemas de vesícula, apendicite e outros.
- Tem gémeos que fazem questão de serem parecidos em tudo -– riu Vanessa.
- Nunca fiz questão disso, embora meu irmão sim.
Ouvi falar que um irmão gémeo começou a sentir fortes dores de cabeça.
Foi ao médico, fez exames, mas não apareceu nada.
Então ele convenceu seu gémeo idêntico a procurar um médico e fazer os mesmos exames, apesar de o irmão não sentir nada.
Para surpresa de todos, no gémeo que não sentia nada, foi descoberto um tumor na cabeça, que foi tratado com sucesso por ser descoberto muito antes de qualquer agravamento.
Eu e o Diogo experimentamos inúmeras situações onde uma espécie de ligação, muito forte, podia ser confirmada.
Nós captávamos as vibrações, as energias um do outro.
Eu sentia angústia e era ele quem passava por uma experiência ruim.
Ele se sentia alegre, sem qualquer razão específica, e era eu quem estava em uma situação legal.
Não sabíamos o porquê dessa ligação tão forte que não encontrava obstáculos nem dificuldades pela distância.
- Depois que tiveram problemas por causa da Ceres, discutiram e se separaram, isso continuou? -– perguntou Vanessa, observando-o.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73027
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 10:00 am

Um semblante triste pairou nebuloso no belo rosto de Felipe que, mesmo se forçando a um sorriso, não disfarçou o que sentia.
- Depois que brigamos e nos distanciamos, essa ligação, essa força maior que nos une além da matéria, nunca desapareceu.
Sei quando ele está triste.
Ele sabe quando estou angustiado.
Não dá para esquecer um do outro.
Sabemos, ou melhor, sentimos quando existe alegria, ansiedade, felicidade...
A única diferença é que não nos telefonamos mais para perguntar o que está acontecendo.
Por isso posso te afirmar que, quando brigamos foi difícil para mim tanto quanto para ele e...
Longo silêncio, depois contou:
- Quando eu levei a Ceres para conhecer minha família e a apresentei ao meu irmão, lá no fundo, naquele exacto momento, senti que não ficaria com ela.
Só não quis acreditar no meu pressentimento.
O silêncio foi absoluto.
Alguns instantes e foi quebrado pela voz normalmente rouca do senhor Dionísio, avô de Vanessa, que entrou alegre pela porta.
- Oh! Demorei, mas cheguei!
- Estava vendo a hora do nosso convidado ir embora sem conhecer você, homem! -– reclamou Henriette, levantando-se.
Acabamos de almoçar e já é hora de jantar! -– brincou de modo simpático.
- Oh, rapaz!...
Não vou te cumprimentar não -– disse a certa distância.
Vou me lavar e já volto.
Hoje, desde cedo, estou acompanhando o nascimento de um potrinho.
- Não tem problema.
Daqui a pouco nos cumprimentamos direito.
- Nasceu, Dionísio?
- Nasceu! Tá lá! -– sorriu satisfeito.
Voltando-se para o visitante, disse:
- Espere aí que já venho conversar direito.
Se eu entrar na cozinha desse jeito a mulher me mata. Com licença!
- À vontade, senhor Dionísio! -– expressou-se o rapaz sorridente.
- Mais um pedaço de pudim, Felipe?
- Não. Muito obrigado, dona Henriette.
Comi por uma semana inteira -– riu.
- Um cafezinho? -– propôs a senhora com jeitinho mimoso.
- Ah... Um café eu aceito -– respondeu satisfeito.
- Vou passar um fresquinho para nós.
- Quer ir lá fora, na varanda, Felipe?
Quando o café estiver pronto, minha avó chama e eu venho buscar.
- Vamos, sim –- concordou.
Levantaram-se, porém, ao chegar à sala. Vanessa se preocupou:
- Deixe-me dar uma espiadinha no Rafael para ver como ele está.
O rapaz a acompanhou e, juntos entraram no quarto.
Rafael, abatido, aspecto frágil, dormia profundamente com a boquinha entreaberta.
Carinhosamente a mãe o cobriu com uma mantilha leve, curvou-se e o beijou com doçura, afagando-lhe os cabelos com ternura.
Comovido, Felipe acariciou com leveza as costas de Vanessa que, sobre o ombro, olhou-o de modo indefinido.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73027
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 10:00 am

Fixando-se nele, ela imaginou Diogo ao seu lado e do filho.
Como sua vida e a de Rafael seriam diferentes se ele estivesse, desde o princípio, sempre presente.
Quantas noites em claro e sem ninguém para dividir os medos, as dúvidas, as inseguranças.
Quantos momentos alegres, em que se surpreendia com tantas novidades do filho pequeno e sem o pai para compartilhar.
Será que o Diogo não teria ficado com ela se soubesse da gravidez?
Será que preferiu a outra por conta de um compromisso que causou muito conflito no início?
Como Diogo poderia abandonar Ceres se a tirou do irmão?
Isso não seria justo.
Por outro lado, não poderia forçar uma ligação entre eles por causa de um filho que não planearam.
Jurou, a si mesma, nunca procurar pelo pai de Rafael, mas não foi esse o plano do destino, que a fez desesperada para encontrá-lo.
Só que deparou com Felipe que a soube compreender e estava disposto a ajudar, além de estar encantado por Rafael que, tecnicamente, a ciência afirmaria ser seu filho.
Que ironia do destino.
Antes, temia não encontrar mais Diogo, caso a família houvesse se mudado daquela residência.
O médico lhe falou tanto sobre a importância do pai e dos familiares paternos naquele momento, mas agora, tecnicamente falando, Rafael não tinha um e sim dois pais.
Mesmo assim, seu medo de não achar um doador para o filho a deixava aflita.
Com a mente trabalhando acelerada, não se deu conta de quanto tempo fitou Felipe sem perceber os olhos dele imantados aos seus.
Apesar de idênticos, ele era diferente de Diogo, até onde ela se lembrava.
Conhecia-o havia tão somente um dia, mas percebeu que Felipe era mais atencioso, mais interessado, amoroso, talvez.
Pelo menos, foi isso o que notou quando o viu dando atenção a Rafael.
Mesmo com a notícia repentina de ter um sobrinho e de ter decidido por uma viagem de última hora, ele se lembrou de trazer um álbum de fotografias para o menino ver.
Quem pensaria nisso?
Será que Diogo seria tão atencioso assim?
Talvez se conhecesse Felipe em vez de Diogo, sua vida fosse diferente.
Se ele fosse pai de seu filho, naquele momento, tudo seria bem mais fácil.
Bem que isso poderia ser verdade.
Enquanto ela pensava tudo isso, Felipe, por sua vez, imaginava o quanto seu irmão errou ao enganá-la.
Vanessa não merecia isso.
Acreditou que Diogo tivesse aprendido a não trair mais ninguém.
O irmão já havia sido covarde o suficiente quando se envolveu entre ele e sua noiva.
Porém não foi o bastante.
Ainda traiu Ceres e enganou Vanessa ao mesmo tempo.
Rafael era encantador.
Apaixonou-se por ele.
Diogo não merecia encontrá-lo nem mesmo saber que ele existia.
Ele daria mais atenção e carinho ao menino do que o próprio pai, sem ter a interferência dele.
Bem que poderia ser seu filho.
Não só biologicamente falando, mas seu filho de facto, filho de alma.
Felipe também não deixou de notar a docilidade, a responsabilidade, a dedicação e o amor de Vanessa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73027
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 10:00 am

Imaginou o quanto foi difícil criar um filho sozinha, depois de tamanha desilusão.
Bem que o destino deveria tê-la posto antes em seu caminho.
Se encontrasse uma pessoa como ela, saberia agir, proteger, ajudar, amar...
Ela era tão meiga, tão forte e frágil ao mesmo tempo.
Levando as costas da mão ao rosto de Vanessa e roçando-o suavemente, penetrou sua alma com o olhar.
Não demorou e afagou-lhe os cabelos macios, ela abaixou o olhar.
Felipe a puxou para si, agasalhando-a ao peito.
Sentiu o aroma de perfume gostoso em seus cabelos ao beijar-lhe a cabeça algumas vezes.
Envolvendo-o pela cintura e recostando-se nele, sentiu-se protegida e amparada.
Há muito não sabia o que era isso.
Aliás, não sabia o que era ter alguém para dividir os sentimentos, falar de sua dor, ansiar por esperança.
Entendia que Felipe não era Diogo.
Embora fossem idênticos.
Podia diferenciá-los, acreditava.
Apertando-a contra o próprio peito, ele murmurou com voz calma e forte.
- Tudo vai dar certo.
- Obrigada por estar comigo -– sussurrou com voz doce, abafada em seu peito.
Afastando-a levemente de si, procurou seus olhos e afirmou:
- Não vou te abandonar.
Novamente aquela afirmação a fez se sentir mais forte, mais confiante.
Que estranha força era aquela?
Que atracção incontida e incontrolável era aquela?
Felipe afagou seu rosto com carinho e em seguida seus cabelos e logo parou.
Frente a frente, nenhum dos dois se movia.
Sentiam o bater forte de seus corações e a respiração alterada.
Uma sensação estranhamente nervosa fazia-os estremecer.
Quando ele foi tocar em seu rosto novamente, Vanessa perguntou baixinho, virando a face levemente e olhando para o lado:
- O que está acontecendo?
Tentando disfarçar uma forte emoção genuína, Felipe engoliu seco e pediu em tom brando:
- Vamos conversar em outro lugar, por favor.
Por um momento, Vanessa olhou assustada para o filho que dormia.
Depois se virou para o lado e, sem dizer nada, foi à direcção da porta, seguida por ele.
Henriette os viu passar pela sala apressadamente, com andar firme e algo nervoso no ar.
Nem a ouviram dizer que o café estava pronto.
A senhora trocou olhares com o marido, sentado à mesa almoçando.
Ergueu as sobrancelhas, envergando para baixo a boca fechada, expressando não entender o que se passava.
- Nem conheci o moço direito -– falou o senhor Dionísio de modo simples.
- Alguma coisa aconteceu -– opinou a mulher.
Vanessa e Felipe caminharam lado a lado, silenciosamente, em ritmo mais suave, até o lago.
Seguiram por uma rua cascalhada, graciosamente ladeada por pequena cerquinha branca fincada em gramado verde.
Foram em direcção ao bosque.
Calados, entraram em uma estradinha que passava por entre o bosque de árvores frondosas, altaneiras, usada para cavalgadas.
Foram além.
Ele, quieto ao seu lado, não sabia para onde iam.
Observava a beleza do lugar ao mesmo tempo em que tentava imaginar o que diriam um para o outro.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73027
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 10:00 am

Pássaros silvestres cantavam, infindavelmente, belas melodias agradáveis.
Enquanto caminhavam podiam ouvir o farfalhar das folhas que pisavam ou arrastavam nos pés e, à medida que se distanciavam da estrada cascalhada, escutavam o murmurinho de água vindo de uma cachoeirinha que seguia para um ribeirão.
Mais adiante o caminho se estreitou.
Seguiram por uma trilha que se fechava como um túnel pelas copas das árvores centenárias.
Algo magnífico.
De repente, chegaram a uma espécie de clareira, onde a mata se abria em forma de grande círculo e o chão era forrado de belíssimo tapete de grama verde.
No centro, uma árvore de porte médio, que a natureza, caprichosamente, arredondou e enfeitou com delicadas flores amarelas, servia de tecto para dois bancos de jardim, pintados de branco e postos um de cada lado do tronco.
Cabisbaixa, Vanessa se aproximou e Felipe a seguiu.
O rapaz contemplou a beleza do local, percebendo que, ali, o barulho da água aumentava.
- Aqui não vão nos interromper.
Nem mesmo os hóspedes, pois a mata está um pouco alta devido às chuvas e eles não costumam pegar a trilha quando está assim.
- É um lugar muito bonito! -– admirou-se ele ainda com o olhar preso à paisagem.
Longa pausa até que ela perguntou:
- O que aconteceu entre nós, Felipe?
- Eu também não sei explicar -– respondeu aproximando-se e parando em frente a ela.
- Nós nos conhecemos ontem e...
- ...e aconteceu, oras!
Não sei dizer como, mas...
Senti algo muito especial quando a conheci e que vem se intensificando a cada momento que fico perto de você.
- Isso é loucura!
Nós nos conhecemos ontem! -– exclamou sussurrando, como se estivesse inconformada e nervosa.
Dando-lhe as costas, olhou para o outro lado, balançando suave e negativamente a cabeça, ainda incrédula.
Aproximando-se um pouco mais, Felipe parou e tentou envolvê-la, mas Vanessa virou-se e pediu, segurando com leveza o seu braço.
- Por favor não...
Estou confusa e...
O rapaz pôde sentir o toque trémulo de sua mão ao segurá-lo.
Impostando a voz firme de um modo calmo e suave, perguntou:
- Sentiu algo forte e inexplicável por mim também, não foi?
- Eu já tenho preocupações demais, Felipe.
- Eu me sinto atraído por você.
Senti isso desde ontem quando a vi pela primeira vez...
É uma atracção inexplicável.
Quando a vi dormindo quase te beijei! -– confessou com ênfase no tom brando de voz.
Eu queria ter você nos meus braços.
Foi uma coisa forte. Difícil de controlar.
Nunca senti isso por ninguém.
- Tenho um filho do seu irmão! -– enfatizou olhando em seus olhos.
- E daí?! Você não está com o meu irmão.
Não se vêem mais há anos.
- Mal nos conhecemos.
Preciso cuidar do Rafael e preciso da sua ajuda.
Um envolvimento entre nós não vai dar certo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73027
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 10:01 am

- Porquê Vanessa?
Como pode afirmar isso?! -– diante do silêncio, perguntou novamente em tom calmo, quase triste.
–Porquê? Você tem alguém?
- Não. Ninguém.
- Então por quê? -– quis saber mostrando-se calmo e carinhoso.
- Não sei responder. Estou confusa.
Tenho medo de me precipitar.
Talvez eu esteja carente, precisando de alguém forte do meu lado e...
- Então vai ter que deixar acontecer para saber, para tirar suas dúvidas.
Ela continuou calada, olhar baixo, fitando algum lugar no chão.
Diante do silêncio, o rapaz se aproximou, tocou seu rosto com suavidade e a fez olhar, dizendo:
- Não sei como aconteceu, mas aconteceu...
Um sentimento forte e recíproco, que não dá pra explicar.
É como se já a conhecesse, como se a esperasse...
Juro por Deus. Quando vi você pela primeira vez, senti que a conhecia, mas nossa conversa sobre o Rafael tirou minha atenção disso e...
Quando eu soube do caso dele e, principalmente, depois que o conheci, eu desejei que ele fosse meu filho.
Gostaria que tivesse me procurado para dar a notícia de que eu tinha o Rafael.
Nunca pensei em ter um filho antes.
Acho que essa ideia nunca me passou pela cabeça.
Quando a deixei no hotel e fui pegar algumas coisas para viajar com você, fiquei fantasiando isso...
Senti inveja do meu irmão como nunca senti antes.
- Também devo te confessar que, por um momento, desejei que você fosse o pai do Rafael.
Por sua atenção, por seu jeito carinhoso -– sorriu.
Até que se preocupou em trazer um álbum de fotografias para ele ver e conhecer o pai.
Quem pensaria nisso no meio de tanta surpresa?
- Para nosso bem, vamos deixar as coisas acontecerem.
- Não é bem assim.
Como eu vou chegar à casa da minha avó e dizer para ela e para o Rafael que nós dois estamos...
Aliás, nós dois estamos o quê mesmo?
Nós nos conhecemos ontem, Felipe?
- Então espere até amanhã ou até semana que vem para dizer que estamos juntos, que namoramos, que...
Sei lá! Diga o que quiser que eu confirmo.
Só deixe bem claro que eu vou estar sempre do seu lado de hoje em diante.
Além disso, vou te ajudar e cuidar do Rafael junto com você.
- Ainda tem o Diogo.
- Você está preocupada com ele, porquê? -– perguntou rápido e friamente, olhando-a nos olhos.
Tem esperanças?
- Não! Lógico que não.
Ele tem direitos sobre o Rafael que eu não vou poder negar.
Por isso vai estar sempre presente em nossas vidas. Sabe disso.
- Sei. Disso sei.
Jamais vou impedir o Rafael de ver o pai ou implicar com meu irmão por causa dos seus direitos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73027
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 10:01 am

Porém, ele não vai poder dizer uma palavra sequer a respeito de nós dois, do nosso relacionamento nem dos meus direitos também com o Rafael.
Sorriu ao completar:
- Porque, de certa forma, tecnicamente falando, sou pai do Rafael.
A ciência prova isso.
- Felipe! Cuidado para não confundir a cabeça do meu filho.
Ele ainda não é capaz de entender isso -– pediu com jeito doce, mas preocupado.
- Estou brincando... só estou brincando quanto à parte técnica. -– sorriu.
Vendo ainda um semblante tenso em seu rosto delicado, aproximou-se, tirou-lhe a mecha de cabelo e o alçou atrás da orelha, pedindo com voz suave:
- Relaxa. Vou estar com você.
Ela ergueu o olhar e o encarou.
Felipe afagou-lhe o rosto e os cabelos.
Nesse instante, sentiram seus corações batendo forte, junto a um misto de ansiedade com satisfação.
Ela se afastou um pouco mais, fugindo ao carinho, e ele perguntou com voz forte e calma:
- Você está bem?
- Estou.
Distanciando-se um pouco, ele sorriu.
Saberia esperar.
Procurando descontrair, perguntou:
- Este lugar é lindo.
Estou escutando um barulho de água.
Dá para ver melhor de onde vem?
- Claro –- sorriu, satisfeita sorridente.
Vem por aqui -– puxou-o pela mão e o levou para a direcção das pedras, até uma pequena cachoeirinha de água cristalina.
Lá contou sobre seus planos de melhorar aquele santuário da natureza para dar acesso às pessoas que quisessem ali relaxar e aproveitar.
Felipe a ouviu com extrema atenção.
Afinal, havia trabalhado por muito tempo em grande rede hoteleira.
Sabia ter ampla visão a respeito do assunto.
O caminho de volta foi feito de forma diferente.
Ela, animada, relatava seus planos e ideias para ampliar as acomodações e o lazer, além da divulgação do hotel fazenda.
No entanto, uma revelação surpreendeu Felipe:
- Há cerca de três anos eu adquiri outra pousada em Campos do Jordão como já disse.
Menor do que esta, claro, mas bem mais frequentada.
Lá temos dezanove chalés, com acomodações para cinco pessoas, cinco para oito e quatro clássicos para casais em lua de mel ou passeios especialmente românticos...
Piscina aquecida, restaurante típico, sauna...
Todos os chalés têm lareira, TV por assinatura, hidromassagem, óptimos colchões...
Só que... eu coloquei à venda.
- Como assim?!
Vai vender essa pousada?!
- Sim. Já está a venda.
Embora ela seja muito mais lucrativa do que esta, mais estruturada e com uma locação excelente, coloquei à venda.
- Mas, por quê?!
- Por causa do tratamento do Rafael.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73027
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 10:01 am

Um instante e explicou melhor.
Não poderia me desfazer daqui.
Primeiro porque pertence aos meus avós.
Apesar de eles terem sugerido a venda deste lugar, não acho justo nem certo.
Aqui é nosso lar e não somente um hotel fazenda.
Precisamos deste porto seguro.
- Talvez nem precise vender, pois...
Não o deixando terminar e, já sabendo o que ele iria sugerir interrompeu-o:
- Não quero dinheiro do Diogo nem o seu.
- Calma, Vanessa.
Não fique assim na defensiva.
Lembre-se de que não está sozinha agora.
Meu irmão tem dinheiro e eu posso ajudar.
- Ainda não estou a par de como nem de quanto vai ser esse tratamento.
Não sei até onde o plano de saúde cobre.
Mas sei que vou fazer de tudo para ajudar meu filho.
Você não sabe como me senti depois que descobri o que ele tinha, quando me lembrei daqueles dois médicos que fizeram o maior descaso e ficaram indiferentes ao caso do meu filho.
Eles não deram importância.
Preferiram seguir as normas do plano de saúde, economizaram exames e diagnosticaram o que era imprescindível.
Fiquei revoltada e tudo isso por causa de dinheiro, da falta de um plano melhor.
- Imagino. Também fiquei revoltado.
Parando, olhando-o nos olhos e esboçando suave sorriso, ela continuou:
- O Rafael terá o melhor que eu puder dar.
Aquela pousada tem um valor considerável, porém meu filho é mais importante.
Felipe nada disse.
Acreditou que não era um bom momento para insistir no assunto de dinheiro.
Vanessa parecia decidida.
Talvez, mais tarde, mudasse de opinião.
Conversaram mais um pouco e chegaram perto da casa principal, onde o senhor Dionísio estava sentado em um dos degraus da escada da varanda e, ao vê-los, se levantou dizendo:
- Vocês sumiram!
Nem conheci o moço direito -– comentou sorridente, estendendo a mão ao rapaz.
- Fui mostrar uma parte da fazenda ao Felipe.
- Prazer, senhor Dionísio! -– cumprimentou correspondendo ao aperto de mão firme.
- O prazer é todo meu.
Foram até o estábulo?
O potrinho já tá lá, esperto que só vendo! -– falou animado.
- Não. Fomos até o rio, até a cachoeirinha -– respondeu a neta.
- Lá é bonito, não é? -– perguntou o senhor.
- É sim. Adorei o lugar -– comentou Felipe.
Aliás, estão de parabéns.
Tudo aqui é muito bonito.
Muito bem cuidado.
- É dá um trabalhão!
Você nem queira saber! -– tornou o senhor.
- Imagino.
- Com licença -– pediu Vanessa.
Preciso entrar e ver como o Rafael está.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73027
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 21, 2016 10:01 am

- Vou com você.
- Vamos todos entrar.
Quem sabe a Henriette faz um café fresquinho para nós! -– animou o senhor.
Subiram as escadas, percorreram a varanda até a porta da sala e entraram.
Vanessa foi directo para o quarto do filho, onde o encontrou sentado, tentando desenrolar uma girafa de pano, um brinquedo comprido, que havia se prendido na grade da cama.
- Deixa que a mamãe tira daí para você, filhote.
Rafael parecia insatisfeito, meio irritado, pois havia acabado de acordar.
Coisa normal em crianças.
A mãe lhe entregou o brinquedo e, para puxar conversa, Felipe perguntou:
- E aí, garotão? Dormiu bem?
O menino pendeu com a cabeça dizendo que sim, e o tio quis saber:
- Quer ir lá ver o potrinho que nasceu?
Seu avô disse que ele é esperto que só vendo!
- Não... -– sussurrou Vanessa.
Melhor ele não ir ao estábulo. A imunidade...
- Ah... Eu não sabia... -– murmurou o rapaz.
- Eu quero ver o potro. Eu quero...
Contrariada, apesar de meio sorriso, Vanessa lançou um olhar dardejante para Felipe, que sentiu alvo atingido.
Pensando rapidamente, ele sugeriu, tentando fazer o sobrinho esquecer a ideia:
- Vem com o tio -– estendeu os braços para pegá-lo e o levantou, junto com a girafa de pano.
Vamos lá ver o que sua avó fez de gostoso.
- Eu não quero comer nada –- falou resmungando.
- Eu disse que vamos ver e não que vamos comer.
De qualquer forma, o garotinho frágil, com a impressão de não estar satisfeito, não disse mais nada e, nos braços de Felipe, saiu do quarto seguido pela mãe que ofereceu meio sorriso.
Chegaram à cozinha ampla com armários de madeira envelhecidos, típico de fazenda, é claro, gastos pelo tempo e pelo uso.
Felipe olhou para a mesa, que parecia sempre posta, com uma toalha grande de estampas de cestos com frutas e pires com xícaras.
Sobre ela, Henriette já havia posto uma travessa com bolinhos de chuva polvilhados com açúcar e canela, um bule com leite e outro com café.
Além de um cestinho com biscoitos de nata.
- Sente-se, Felipe.
Acabei de passar o café.
Quer puro ou com leite?
- Puro, por favor.
O rapaz se sentou e acomodou o sobrinho na perna, dizendo.
-– Esses bolinhos devem estar uma delícia!
- Não quero.
- Os bolinhos do Rafael estão aqui.
Ele não gosta de canela -– disse a avó, colocando outro cestinho com os bolinhos de chuva polvilhados somente com açúcar.
Em seguida, ela colocou café na xícara do rapaz e o açucareiro próximo, completando:
- Acho que você prefere açúcar.
- Claro. Obrigado.
- A vovó fez para você leite com chocolate cremoso.
Do jeito que você gosta, Rafael.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73027
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: MINHA IMAGEM - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 4 de 15 Anterior  1, 2, 3, 4, 5 ... 9 ... 15  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum