Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 29, 2016 8:04 pm

7 — SAMUEL E SUA ESPOSA

No dia da representação, Valéria vestiu-se com um cuidado todo especial.
Frente ao grande espelho móvel, de pé, submetia a escrúpulos o exame cada pormenor de sua toalete, retocada em fase final por Marta e Elisa.
A Princesa desejava parecer linda e, pelo menos no exterior, apagar qualquer vestígio de sua infeliz fraqueza.
No decorrer desses últimos dias, variados sentimentos agitaram seu coração:
fundo desespero substituiu a cólera e o ciúme, mas foi também transformado em apaixonada ternura pelo seu marido.
Convencera-se até de que o Príncipe superava em tudo a Samuel, não somente por sua beleza física como ainda pelos dotes do coração e por uma distinção aprimorada, que é próprio apenas dos verdadeiros aristocratas.
O amor sincero e sem mácula de Raul indemnizá-la-ia do erro cometido por seu coração.
Haviam de invejá-lo, a ele as lindas e orgulhosas fidalgas que nem poderiam suportar sequer o judeu converso em seu salão.
Ocupavam-na pensamentos deste teor, contemplando no espelho sua formosa imagem, e enquanto as aias prendiam ao seu pescoço os cordões de pérolas, e afixavam em seus cabelos e na cintura
raminhos de rosas de tom desmaiado.
A Erguendo o reposteiro, neste instante, Raul entrou, apresentando um lindo ramalhete.
Achegou-se a Valéria, os olhos húmidos de admiração apaixonada, e a jovem, impelida por seus íntimos sentimentos, beijou-o, carinhosamente.
Deixou-se envolver, depois, na capa e na mantilha rendada.
Estava-se dando final ao prelúdio, quando o jovem par deu entrada no seu camarote, onde Rodolfo e sua esposa já estavam instalados.
Repleto, o teatro apresentava um aspecto brilhante:
o sumo o que Pesth podia apresentar de mulheres lindas e ricas, homens de filasse, estava aí reunido; entretanto, ainda nessa reunião de escol, causou sensação o aparecimento de Valéria.
Olhares curiosos, às Centenas, admiradores, fixaram-se na sua suave e bela fisionomia.
O pano de boca, erguendo-se, desviou as atenções, por instantes.
No instante mesmo em que a Patti acabava de surgir em cena e sua maravilhosa voz, de acentos mágicos, concentrava em si a atenção de toda a assistência, abriu-se a porta de um camarote ao do Príncipe, até aquele momento vazio.
Nele penetrou um casal tomou lugar, sem fazer ruído, lançando os olhos para os recém-vindos, Rodolfo mordeu os lábios, e, aos ouvidos da esposa, sussurrou qualquer coisa.
A Condessa mostrou-se sobressaltada, porém, não se voltou.
No instante seguinte, sob qualquer desculpa, baixou-se e de leve tocou a mão de Valéria, dizendo-lhe em voz baixa:
— Controla os teus nervos:
no camarote ao lado entraram agora Maier e sua esposa.
De todo dominada a sua atenção pela voz da inigualável artista, Valéria nem percebera a entrada dos vizinhos; ouvindo as palavras da amiga, seu coração por um momento cessou de bater; chamando em seu socorro, contudo, toda sua energia e orgulho, pode dominar o traiçoeiro carmim que lhe subia às faces; nenhum sinal denunciou a emoção abscôndita e suspendendo o binóculo, seguia com interesse, ao menos na aparência, a representação da cantora.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 29, 2016 8:05 pm

Menos afectada, Antonieta não conseguiu dominar a curiosidade e, sorrateiramente, dedicou-se a examinar o camarote do banqueiro com maior aptidão do que ao palco.
Seu arguto olhar firmou-se, no início, em Ruth e na sua indumentária:
vestia-se a jovem judia com gosto irrepreensível: vestido de cetim cor de ouro fosco, com aplicação de renda preta e enfeitado com fúcsias, dando realce à sua tez morena.
Estrelas de rubi e diamantes, emitindo cintilações em seus negros cabelos, exaltavam mais vivamente a sua beleza oriental, simples e elegante, como de hábito, Samuel trazia enfermiça palidez; suas inalteradas feições, contudo, não reflectiram qualquer emoção com a presença dos vizinhos.
Apoiando-se na borda camarote, preocupava-se, pelo menos aparentemente, com a representação, e não endereçava palavra ou olhar à jovem esposa, que, ao contrário, dificilmente parecia sustentar febril agitação.
Abrira e fechara, várias vezes, e com ruído, o leque de renda e seus lábios e narinas tremiam doentiamente; fixava seus grandes olhos negros como raios devoradores, no imutável rosto do marido que se esquecera, ao que tudo indicava, de sua presença.
Antonieta observou, depois, que não obstante sua fingida indiferença, o banqueiro fixara, em diversas oportunidades, os olhos e os anéis dos cabelos de ouro e no perfil formoso de Valéria e que, cercada uma dessas ocasiões sua fronte obscurecia-se com uma sombria nuvem.
No que dizia respeito à Princesa, esfumara-se todo interessa pelo espectáculo; seus pensamentos adejavam em outra parte; angustiava-a o desejo de contemplar Ruth; entretanto, vaga inquietação e temor de encontrar o olhar de Samuel, impedia o seu intento.
Não podendo conter-se mais, finalmente, enviou um furtivo olhar ao camarote vizinho.
O banqueiro examinava o palco com seu binóculo.
Tirando proveito do momento, Valéria, sofregamente, examinou a jovem judia, e seu coração encheu-se de ira e ciúme.
Tão bela jovem, toda ardor e paixão, como não haveria de conquistar o coração de um homem, ainda aquele que a tivesse desposado sem amor.
A ideia de que Samuel ousara escolher esposa tão bela queimava-lhe o sangue.
Intimamente ofendida, voltou-se e seu olhar encheu-se com a figura de Raul, que conversava com Rodolfo sobre assunto relativo a seu serviço militar, já que o pano vinha de cair sobre o palco cénico.
Novo e absoluto interesse despertou nela e examinou a pessoa esbelta e elegante do marido, cujo porte mais se realçava sob o uniforme, e também o rosto de beleza clássica e tão encantador por isso mesmo.
— É verdade — concluiu intimamente satisfeita.
Raul é também belo, Príncipe, perfeito fidalgo; tão superior é a este... judeu, que até faz dez vezes mais merecedor de meu afecto.
Despertava na alma de Valéria toda a astuciosa crueldade de um coração de mulher ferido pelo aguilhão do ciúme, sugerindo-lhe que Samuel não poderia ainda tê-la olvidado; que ela estava ainda de posse do poder de torturar seu coração e de fazê-lo pagar a ousada escolha.
Sob o domínio desse sentimento novo, tocou levemente com pequena mão o braço do marido, em sua voz vibrou uma indefinível expressão familiar e acariciadora, quando chamou, em tom suficientemente alto para se fazer ouvida pelo traidor:
— Raul!
O Príncipe voltou-se:
— Que desejas, querida?
— Queres dar uma volta pelos corredores?
Está tão quente aqui!
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 29, 2016 8:05 pm

— Prontamente; estou ao teu dispor — respondeu Raul pondo e de pé, aristocraticamente.
A modulação da voz, cheia de ternura, e o olhar da esposa o tumulavam de contentamento.
E, enquanto, no fundo do camarote, aconchegava com o pequeno mantelete de cetim, guarnecido de arminho, aproveitou a oportunidade para pousar seus lábios sobre os seus cabelos.
Nesse preciso momento, os olhos de Samuel encontraram-se com os de Valéria.
Em demasia superexcitada, Valéria não pestanejou ele mostrou-se inatingível, frio, e somente uma palidez mais acentuada e a quase imperceptível contracção dos supercílios mostrarem à novel Princesa que o atingira no ponto sensível.
Satisfeita, em seu íntimo, tomou o braço de Raul e saiu.
No entreacto seguinte, Raul obsequiou as damas com uma linda caixinha de doces, Valéria não cessava de rir e conversar, mostrando excessiva alegria; atendia com graça ideal as homenagens das pessoas que vinham cumprimentá-la, fazendo-se coquete com Raul.
Por fim, sua vivacidade e comunicativa alegria era de tal ordem, que Antonieta não reconhecia a amiga, mas se mostrava desconfiadas da verdadeira causa de tal euforia.
Raul degustava seu contentamento com justa calma, sem supo, sequer que sua esposa o estava usando como precioso ornato, utilizando-se dele como de uma arma para ferir o outro.
Alegre, agradecido, fitava Valéria com adoração, cumulando-a de mil insuspeitados agrados inspirados pelo amor.
Tudo decorreu bem até ao terceiro acto; no momento, porém, em que terminou a cena em que Edgard repele a noiva, que o traíra arrancando-lhe o anel do dedo, terrível angústia encheu de fel o coração da Princesa.
Aflita e emocionada, relembrou o dia passado em Rudenhof; era como se estivesse a ouvir, não na voz do artista mas a de Samuel, que, com tais acenos de cólera e desespero, lhe atirava em rosto a traição.
Levantou os olhos fitando Samuel involuntariamente, e este também, a fitava; contudo, ante a expressão de álgido desprezo, ironia e reprovação que fulgurava no olhar do banqueiro, Valéria tremeu e baixou a cabeça; instintivamente, sua mão procurou a do marido pois junto dele estavam a calma e o descanso:
lá, o Averno, o sofrimento.
Findo o espectáculo, Valéria, pelo braço do marido, dirigiu-se para a saída.
Grande era a multidão, e, num ápice, viram-se separados de Rodolfo.
Chegando ao vestíbulo, pararam, aguardando a aproximação da carruagem; no instante, porem, em que Raul se voltava para conversar com um conhecido, velho magnata, Valéria ouviu uma voz que bem conhecia sussurrar, com ironia.
— A indiferença de facto despreza os ardis, assim como o amor verdadeiro não necessita de demonstrações, que apenas poderia enganar a um... ingénuo.
A jovem estava petrificada; surpresa e raiva privavam-na quase da respiração.
Com que excessivo descaramento esse homem ousara insinuar que eia estava representando uma farsa, para encobrir o amor que ainda sentia por ele?
Atrevia-se a falar-lhe deste modo, taxar de ingénuo ao bondoso e compreensivo Raul!
Pudesse esmagar a Samuel, naquele instante, e não pensaria duas vezes.
Tumultuavam-lhe na cabeça mil projectos de desforra, e tal era a sua agitação íntima que, mal entrou em casa, arriou-se sobre uma cadeira e pôs-se a chorar sentidamente.
Surpreso, assustado, Raul nada entendeu, de início, do estranho desespero da esposa; conjecturou que talvez o calor, o barulho, e a soberba interpretação da Patti tivessem flagelado vivamente os nervos ainda doentes de Valéria; lançou contra si mesmo grandes invectivas por havê-la levado à Ópera, e, sentado ao seu lado, procurou serená-la com carícias.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 29, 2016 8:05 pm

Cheia de vergonha, ela enxugou as lágrimas, e murmurou, enlaçando-se ao pescoço do marido:
— É exacto, tenho ainda os nervos irritados; isto, contudo, há-de passar.
Desejo estar completamente sadia, para que não tenhas por que te afligires.
Porque eu te amo muito, Raul, nem tu avalias quanto te amo, querido...
— Anjo meu, não descreio disso, e sou tão feliz quanto pode um homem ser na Terra.
Samuel e Ruth, cada qual de seu lado na carruagem, tomaram o caminho da casa.
Durante todo o caminho, não trocaram entre eles nenhuma palavra, e, depois de inexpressiva saudação, cada um rumou para seu quarto.
Achando-se por fim só, o banqueiro deixou tombar a cara e dera expansão livre ao ciúme e à paixão que o consumiam.
A proximidade de Valéria, seu afectuoso tratamento para com o esposo, exacerbaram-Ihe os sentimentos; banhado em suor frio, mal podendo respirar, caminhou pelo aposento, esquecido totalmente de sua pobre esposa que, com a cabeça enterrada entre as almofadas, vertia copioso pranto.
Samuel casara contra sua vontade, apenas para satisfazer a um compromisso, feito impensadamente; desejara, porém, e intentara fazer-se amigo da jovem esposa, tratando-a com carinho.
Transcorreram assim bastante sossegados os primeiros dias de seu matrimónio.
De sua parte, ele mostrava-se entediado e cheio de constrangimento; Ruth, tristonha, desiludida; a franca desinteligência e aversão declarada eram recentes, nasceram no dia anterior a este, como epílogo de uma cena assaz dolorosa, que entre ambos interpusera um abismo.
Para que bem se compreendam tais circunstâncias, necessário se torna voltar um pouco no tempo e prosseguir a narração desde o instante em que Samuel, depois de seu banho no tanque, voltava a si.
Burlando toda previsão, esse banho aloucado não redundou, no tocante a sua saúde, senão em extrema fraqueza, que durou oito dias; por outro lado, funda e perniciosa transformação operara-se em sua alma.
Samuel recebera educação de uma cristã, filha de arruinado comerciante, que fora convidado por Abraão Maier, que desejava dar-se importância, como também em recordação de velhas relações de amizade com seu pai, a dirigir os negócios de sua casa e a velar pelo filho, então com dois anos.
Essa senhora, de natureza agradável e devota, dedicara-se inteiramente à bela criança, graciosa e cheia de bondade, e, tendo em respeito as convicções religiosas herdadas por seu discípulo, incutira-lhe sabiamente absoluta fé no Criador dos Universos e uma devoção abstraída de qualquer preconceito dogmático.
Influências diversas, assim como a morte da preceptora, pouco a pouco enfraqueceram essas impressões de infância e os brilhantes sofismas científicos das doutrinas materialistas fizeram o encanto do adolescente, tendência esta que aumentara de sobejo pela repugnância íntima que sentia pelo povo de que provinha.
Da Universidade, Samuel regressara quase descrente e negativista.
O amor que lhe despertou Valéria impelira-o de súbito para as crenças da infância.
Sob a repousante influência da paixão que o subjugava inteiramente, tinha posto de parte esse materialismo rígido e nu, que nada dá ao coração.
Ansiava por crer e orar, fazendo-se igual à mulher que adorava; resolvera voltar, de boa fé, à crença em Deus e estudar as bases da religião cristã; contudo após a repentina e total destruição de sua ventura, e fé no porvir, fez em sua alma uma noite profunda.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 29, 2016 8:05 pm

Os sofismas ateístas e materialistas readquiriram todo o seu prestígio sobre ele; com o apaixonado ardor que punha em todos os seus actos, convenceu-se de que a fé em uma Providência justiceira e cheia de misericórdia era insensata e tola, e que, na verdade, o homem se constitui de uma aglomeração de matéria, reunida pelo acaso e por uma lei cega destruída.
Enquanto a alma de Samuel passava por essa nova transformação, visitavam-no com frequência Silberstein e seu filho.
Temiam eles que lhes escapasse esse riquíssimo marido para Ruth.
Nada lhe perguntaram, nem censuraram, sobre sua segunda tentativa de matar-se; numa boa oportunidade, porém, o corrector fez sentir que era preciso ultimarem o casamento, visto como Samuel ostensivamente era noivo de sua filha, e não se devia comprometê-la.
O banqueiro não deu resposta; no outro dia, contudo, dirigiu um bilhete ao futuro sogro, fixando a data dos esponsais.
No decorrer de uma noite insone, após lutar quase com ódio contra a lembrança de Valéria, Samuel acabara convencendo-se de que lhe seria bem útil uma absoluta mudança de vida; era necessária em sua casa a presença de uma mulher e que, para essa função, Ruth lhe convinha suficientemente; recebera esmerada educação, tinha excelentes maneiras, e, por ter sido criada pobremente, a bem dizer, teria, para compensar da falta de amor, o luxo de que se veria rodeada em casa do marido.
A intensa paixão que a jovem demonstrava sentir por ele, pouco o perturbou.
Tais ilusões de romance bem depressa se esvaneceriam.
Celebrou-se o casamento, e ambos sentiram um repentino desencanto.
Ruth, amando apaixonadamente seu marido, julgou-se ofendida e medrosa ante a frígida indiferença dele; nada compreendia dessa reserva, do expresso desejo que mostrava o homem, que a escolhera para esposa, de isolar-se e evitar sua presença, e quando pela primeira vez, tentou uma carícia e algumas palavras de amor, o olhar tétrico e espantado com que Samuel a medira, foi uma pedra de gelo em seu coração.
Desta forma, repelida, emudeceu; contudo, excessivamente impetuosa e apaixonada, torturou seu espírito para encontrar a chave do mistério.
No respeitante ao banqueiro, lamentava-se com amargura o ter-se deixado prender nos laços do hábil Silberstein.
Sentiu-se limitado em sua liberdade; constrangia o olhar de fogo de Ruth; a ostensiva paixão que ela alimentava por ele, causava-lhe repulsa; instintivamente, estabelecia paralelo entre a beleza ardente e satânica da jovem judia, seus arrebatados sentimentos, com a frágil e doce Valéria, de beleza suave e claro olhar.
Finda a comparação, estava convencido de que sua incurável paixão a tudo sobrevivera.
Sentiu desprezo por si mesmo, por essa fraqueza, mas deixou de a combater, procurando amargo consolo nas lembranças de sua falaz felicidade.
Desta maneira, (antes do casamento) fechara, sem tocar em coisa alguma, três aposentos que tinha preparado para Valéria.
Na sala que os antecedia, fizera o seu escritório e, como sentinela, velava ali, absorvendo-se no quadro de Valéria, que ele próprio pintara, confessando que uma palavra, um sorriso, ternos, da sedutora, seriam bastantes para recambiá-lo a seus pés.
Estavam as coisas neste pé, quando, decorridos quatro dias do seu casamento, Samuel recebeu uma missiva do padre Rothey, o qual lhe comunicava que, adoecendo gravemente em Roma, estivera preso muito tempo além do fixado; de regresso a Pesth, há uma semana, tivera conhecimento, com grande aflição, dos factos ocorridos durante sua ausência.
Desejava ardentemente uma entrevista com o banqueiro, pedindo que ele para tanto marcasse dia e hora, caso não encontrasse inconveniente em sua visita.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 30, 2016 8:13 pm

Samuel deu-se pressa em responder que receberia com imenso prazer Sua Reverendíssima no dia seguinte, de manhã, manifestando, por sua vez, grande desejo de palestrar com ele.
À hora fixada, apresentou-se o velho sacerdote, e Samuel o recebeu no mesmo salão pequeno, onde haviam ambos estudado a religião cristã, e onde se passara a terrível cena com o Grande Rabino de Pesth.
Profundamente emocionados, apertaram-se as mãos.
— Alegro-me sobremaneira por rever-vos, Reverendíssimo Padre — disse Samuel, aproximando uma poltrona ao venerando visitante.
— Sou-vos grato por esta visita que não será a última, espero, ainda que vosso intuito secreto — a esperança de fazer-me voltar, apesar de tudo, ao Cristianismo, não tenha nenhuma garantia de chegar a bom termo — ajuntou, com um sorriso triste.
— Então! como o sabeis? — admirou-se o padre.
É certo, confesso; éreis o meu mais dedicado discípulo, e estáveis tão bem no caminho da graça, que não chego a entender como o fato de perderdes uma só mulher vos afaste em definitivo da estrada da salvação.
— Dizei, vós mesmo, que me é difícil acreditar que uma doutrina de tão escasso poder sobre os seus crentes, ainda que fervorosos, que nem à palavra dada sabe inspirar-lhes o menor respeito, seja a única que assegure a salvação da alma.
Não é falaz ter por fé a humildade, a caridade e o amor do próximo, e praticar o orgulho ostensivo, a falsa fé, o desprezo do seu semelhante?
Estai seguro, entretanto, padre Martinho:
não repilo tão-só a crença dos católicos; renego do mesmo modo, outra qualquer fé a principiar pela minha.
A traição que me fez sofrer a Condessa de M"" desintoxicou-me, trazendo-me de volta a ideias sadias.
Por longo tempo, a luz da ciência tem se baseado em lendas abstrusas, eivadas de erros, que a fé simplória e a ignorância de nossos avós nos legaram.
Tenho respeito por vossas ideias meu Padre, mas devo ceder também à evidência todos os dias confirmada por maravilhosas descobertas.
Acredito portanto, e com firmeza, que não existe nem Deus, nem Providência, nem céu ou inferno, punição ou prémio.
Tanto Jesus, como Moisés foram filósofos cheios de ideal, que tiveram seu período.
O que é certo é que nada existe senão a matéria, guiada por leis imutáveis; criou-nos, ao azar, uma sucessão de átomos; a morte desintegra-nos no seio da matéria primitiva, aquela que serviu à nossa feitura.
Isso, a que dais o nome de alma, que em nós raciocina e age é movimento puramente físico; o pensamento é uma secreção do cérebro, como as lágrimas o são da glândula lacrimal.
— Calai-vos! — interpôs o padre Martinho, que, sempre mais agitado, tudo ouvira.
A caridade, o devotamento, o amor, não seriam portanto senão secreções, o produto de uma função parecida à do estômago?
É ilógica tal teoria.
— De maneira alguma, meu Padre; a fatal paixão que me abrasa é, ao contrário, prova do que lhe digo.
Tivesse origem na alma, e tantos ultrajes e minha vontade tê-la-iam destruído.
Não posso dar-lhe a morte, porque é doença de meu próprio organismo, da qual ainda não conseguiu a Ciência achar-lhe as raízes, e que tão-só o renovar-se dos átomos que compõem meu corpo afastará, paulatinamente.
O velho padre ergueu os braços, cheio de horror.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 30, 2016 8:13 pm

— Não prossiga, senhor!
Esse tema é insidioso e me dá asco.
Durante toda minha existência cri em Deus, e não se dará que o renegue, na senectude, diante de concepções tão banais.
Oh! os sábios e sua maldita ciência!
Ela torna criminosos aos homens, matando qualquer bom e novo ideal, fazendo-os olvidar-se da justiça divina, até que ela os atinja.
E dado que ela vem do diabo, abster-me-ei de duvidar de sua existência, vendo até que ponto estais nas mãos dele (o padre fez o sinal da cruz, benzendo-se por ouvir a gargalhada de Samuel pontilhar-lhe estas últimas palavras).
Tratemos de coisa diferente, meu jovem amigo; permiti-me felicitar-vos pela obtenção do título de barão.
Quê? Isso não vos traz mais alegria?
Pois bem, vossos filhos é que se orgulharão disso.
A propósito, dizei-me, porém, uma coisa (se não achardes a pergunta indiscreta):
por que, cheio de amor ainda a Valéria, contraístes matrimónio, vos unistes a uma mulher, à qual deveis mostrar afeição insincera?
Samuel firmou os cotovelos sobre a mesa.
— De fato, padre Martinho — afirmou, decorrido um instante de silêncio.
Esse matrimónio é uma sandice de que amargamente me arrependo.
Ah! se vos encontrásseis em Pesth, após a minha tentativa de matar-me, a caridade conduzir-vos-ia, com toda certeza, à minha cabeceira, e isso não teria ocorrido.
Encontrava-me sozinho, sem ninguém e, por este momento de fraqueza, dois homens astuciosos me iludiram, sagazmente.
Enfim, o feito está feito, e é preciso aturar junto a mim essa mulher a quem jamais poderei amar...
Meu coração está seco.
Ela viverá em meu lar, dar-me-á inúmeros filhos, os quais centuplicarão os meus milhões; não teremos vivido, ambos, inutilmente, pois.
O rumor de um corpo pesado que cala junto à porta, fez com que os dois homens voltassem a cabeça.
— Que se passa?
Acho que nos espionam! — exclamou Samuel, erguendo-se, corado a mais não ser.
Com um salto estava junto à porta, erguendo o cortinado.
Dando com Ruth, tombada, num desmaio, sobre o tapete, estacou, num espanto.
Então, dirigindo-se para o padre Martinho, que viera nos seus passos, informou ironicamente:
— Não se trata de nenhum criado, espionando: é minha esposa.
Com certeza ouviu as minhas palavras, o que é lamentável; contudo, pode acontecer que essa confissão involuntária torne, clara, para ela, a conduta que lhe cabe.
O velho padre arranjou os óculos, e procedeu a cuidadoso e curioso exame no rosto pálido da desfalecida.
— Muito linda, e direi, meu jovem amigo, que não se deve usar de crueldade.
Bateu no ombro do banqueiro, acrescentando:
— Que culpa tem eia das intrigas dos parentes e da insídia de Valéria, e vossas palavras tê-la-ão magoado bem profundamente, tanto é que desmaiou.
Deveis transportá-la aos seus aposentos, com o que se cortarão comentários e a bisbilhotice dos fâmulos, que não têm nenhuma precisão de conhecer as vossas discórdias.
Sem palavra, o banqueiro abaixou-se, tomou Ruth nos braços e levou-a para o aposento dela.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 30, 2016 8:13 pm

Voltando, deu com o padre Martinho de pé, perto da janela, tendo com os dedos nas vidraças, semblante de preocupação.
— Então, ela despertou? — indagou, virando-se.
— Não: a camareira, entretanto, está cuidando dela.
Sentai-vos; voltemos à nossa palestra.
Interrompeu-me, este insólito acontecimento, no instante mesmo em que ia dirigir-vos um pedido.
— Estarei atento, meu filho.
— Venho de explicar-vos que nem sou judeu, nem cristão; que nem acredito em Deus, menos ainda no diabo, e que não moveria um dedo para ser agradável a qualquer deles; contudo, lamento as infelizes criaturas que o azar do berço destina à miséria.
Aceitai, portanto, rogo-vos, mensalmente uma quantia que destino aos pobres, aos aleijados e aos órfãos, esses que vós conheceis em numero infinito.
Se vos causa nojo o ouro de um judeu incréu, podeis lavá-lo com água benzida - concluiu Samuel, com alguma malícia.
O padre balançou a cabeça.
— Vossas palavras, inspiradas pelo Espírito do maligno, causaram-me arrepios; vossos actos, contudo, testemunham que Deus ainda não vos deixou inteiramente, e eu me sentiria totalmente culpado se não aceitasse aquilo que poderá enxugar o pranto de muitos desgraçados.
Portanto, aceito, jovem amigo, e o vosso ouro eu o receberei sem lavar em minha pia, já que a obra mesma lavará quaisquer mal ligado a esse ouro.
É hora, entretanto, de partir; permiti-me, porém, dizer-vos que lamento ter perdido em vossa pessoa um cristão exemplar, uma alegria para os meus dias de senectude.
Samuel deixou descair a cabeça, emocionado estranhamente.
Simpatizava-se com esse velho padre.
Meditou no passado e sentiu reconfortado o coração.
— Bem, Padre, podeis visitar-me, e converter-me; dizem que, com paciência, se consegue tudo.
Não é conveniente entretanto, que eu aquiesça muito prontamente, pois gozarei, deste modo, o prazer e continuar a ver-vos.
Riu-se o Padre.
— Certo; a cada mês, virei buscar a esmola; contudo, caro Samuel , dai-me a vossa palavra de que, se o diabo vos deixar, e sentirdes necessidade de rezar e fazer-vos cristão, a mim é que buscareis para baptizar-vos.
Diz-me uma voz, no meu íntimo, que isso se dará ainda.
— Seguramente, claro; eu vos prometo — respondeu o banqueiro a rir-se.
E, após apertarem-se amigavelmente as mãos, os dois homens separaram-se.
A sós, Samuel encaminhou-se para o seu gabinete e tomou de um livro; em lugar de ler, porém, rememorava a sua palestra com o padre, meditando na explicação que, impreterivelmente o aguardava com a esposa.
Uma pancada, que se repetia, na porta, prendeu, por fim, a sua atenção.
— Quem bate? — perguntou, irritado por ver-se interrompido.
— Sou eu, abra! — ecoou a voz de Ruth.
Descorada como cadáver, no rosto da jovem somente os olhos tinham expressão, flamejantes e cheios de ira, fixando-se no marido, que a olhava de alto a baixo, impassível.
— Noto que já te recuperaste — disse, com frieza, o banqueiro, chegando até ela uma cadeira e tomando assento frente à sua secretária.
É de esperar-se que esta primeira experiência possa curar e dos teus hábitos gentis.
Apenas aos lacaios se perdoa o acto de espreitar às portas.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 30, 2016 8:14 pm

Ruth pôs-se de pé, apoiando-se de leve à secretária, e, com voz rouca e agitada pelo excesso de emoção, disse:
— Essa experiência foi necessária para me ensinar que sou mais amesquinhada, sob o teu tecto, do que qualquer dos servos a que te referes.
Não estava a par das tramas de Aarão e de meu pai.
Com toda paixão, amei-te.
Desconhecia mesmo quanto desprezas e fazes pouco de tua própria raça, ainda que te repelisse, com asco, uma cristã.
Entanto, porque de tudo me inteirei, por fim não permanecerei mais aqui e venho para cientificar-te que te desembaraço completamente da mulher que, com sacrifício, suportas junto a ti.
Retorno à casa de meu pai.
Faz saber a todos que me expulsaste, faz-me ré de todos os crimes, eu os carregarei em minhas costas, contanto que me livres de tua presença, e não te veja.
Permite-me que parta!
Samuel estava repentinamente rubro, e o espanto lhe tapava a boca.
A esposa tinha a ousadia de fazer-lhe uma cena, censurar-Ihe as palavras, ameaçá-lo com um escândalo!...
No momento, porém, em que Ruth se calou, emocionada a sufocar-se, Samuel cruzou os braços e disse, mordaz:
— Com efeito! Pretendes partir carregada de todos os crimes!
Apenas isso?
— Sim, desejo! — explodiu a jovem, fora de si, comprimindo a cabeça nas mãos.
Pois não ouvi eu mesma, com meus próprios ouvidos, que me rebaixas ao nível de um animal, apenas necessários para a reprodução de uma descendência que será detestada pelo próprio pai?...
Não queiras desafiar-me, pois poderei acusar-te ao meu pai e diante do Rabino.
Veremos se terás a ousadia de repetir, na frente deles, as confissões que fizeste a esse padre católico.
O banqueiro fez-se pálido, cheio de ira; levantou-se, e deu um passo para a mulher.
Uma dureza, gélida e sem piedade, fulgurava-lhe nos olhos e ecoava na voz, quando falou, inclinando-se para ela:
— Acabaste?
Ouve-me, agora, e atende as minhas determinações, é o que te aconselho:
tu não irás a lugar algum; porque eu te proíbo saíres desta casa.
Ser-me-á indiferente o que contares a teu pai; no que toca ao Rabino, sequer te ouvirá, pois teme que eu me faça baptizar.
Acredito que não soubeste cousa alguma das tramas de teus familiares; quanto a te fiares do meu amor, entretanto, é mentira.
Bem percebeste quanto fui reservado e frio, até os derradeiros limites da delicadeza.
Pensa bem, antes de te dirigires à Sinagoga:
jamais suportaria um escândalo que toda a sociedade comente.
Tu te esqueces que a mim é que cabe o direito de te repudiar, e não tu a mim.
Não somos dois estalajadeiros judeus, em um burgo obscuro do interior, cuja vida de casados a ninguém interessa:
és a esposa do banqueiro Maier, Barão de Válden, e seguirás sendo, porque esse é o meu desejo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 30, 2016 8:14 pm

Ofendeu-te o que eu disse de meus sucessores; é preciso que te lembre, portanto, que a Lei Mosaica dá a mulher, por missão especial, a de ser mãe...
— Não quero filhos teus; eu os odiaria! — interrompeu Ruth, toda nervosa.
Sem dar sinal de a ter escutado, Samuel alongou a entrevista.
— De ti apenas depende criar uma vida suportável.
Quando não quiseres ouvir coisas que te magoem, não ponhas o ouvido às portas!
E mais: seja esta a primeira e última vez que te atrevas a pedir conta de meus actos e palavras.
Agora, torna aos teus aposentos, pois necessito trabalhar, suficiente a cena, por hoje!
— E para nunca mais, isso sei muito bem! — sussurrou a jovem senhora, surdamente.
Apenas a porta foi fechada, Samuel sentou-se outra vez, e, de sobrolhos franzidos, apoiou os cotovelos na secretária.
Resultava em novo desgosto o que vinha de lhe acontecer.
Julgara fosse Ruth mais tímida e grosseira, e se sentisse satisfeita com tudo quanto ele lhe dava.
Eis que, de repente, porém, ela se revoltava, dedo em riste, ameaçadora.
Em seu cego egoísmo, nem sequer lhe ocorrera os direitos que a jovem esposa adquirira sobre ele, a repelia com brutalidade cruel, o que não teria ousado jamais com respeito a Valéria, não obstante as ofensas que aquela lhe fizera.
— Ah, essa maldita mulher dar-me-á ainda muito trabalho! — foi a conclusão a que chegou.
Enganava-se, porém.
Ruth traçara, pelo que demonstrava, uma regra de conduta, da qual não se afastou:
mantinha-se tão inflexivelmente silenciosa, que nem sequer lhe respondia.
Quando, na tarde do mesmo dia, durante o jantar, Samuel informou-lhe que iriam juntos à Ópera, ela apenas inclinou a cabeça.
Com o passar dos dias, não adveio mudança alguma na situação:
Ruth conservava-se muda e fria, evitando, deliberadamente, a presença do marido; conformava-se, sem palavra, com as suas ordens referentes à vida em família; e se a convidava para acompanhá-lo a alguma festa ou ao teatro, achava-a pronta à hora, vestida convenientemente, mas muda como boneca mecânica.
No princípio Samuel encheu-se de admiração; bem depressa, contudo, acostumou-se a esse modo de viver, e deu-se mesmo por bastante satisfeito.
Não desejava a conversação de sua esposa, e não se sentia mais constrangido com a sua presença.
Tornou, deste modo, um a um, aos costumes de solteiro, indo desacompanhado às casas de suas relações, gastando noites inteiras no clube e levando Ruth em sua companhia, tão-só quando não a podia dispensar.
Transcorreram nessa situação quase dois meses, quando Samuel recebeu aceitando, o convite do Barão Richard de Kirchberg, para assistir a um magnífico baile que oferecia ao ensejo da passagem do vigésimo quinto aniversário de seu casamento.
Aristocrata da linha tradicional, fabulosamente rico, o Barão tinha um palacete que ocupava singular posto na alta sociedade de Pesth.
Para dar a entender a todos o que se costumava chamar "as esquisitices do velho senhor" é preciso dizer-se algo do passado de sua família.
O pai do Barão Richard, brilhante cavalheiro, fora entanto muito dissipador e, após um período passado em Viena num Regimento aristocrático, quase esbanjara totalmente suas imensas propriedades.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 30, 2016 8:14 pm

Precisou abandonar o serviço das armas e afastar-se da sociedade; contudo, apenas se estava esquecendo esse escândalo, quando novo acontecimento deu o que fazer às línguas de Pesth:
o Barão de Kirchberg desposara uma jovem judia, nascida de um comerciante obscuro, que levava vida modesta no bairro dos judeus, mas que se revelou suficientemente rico para fazer à filha o dote de um milhão.
Os parentes do Barão puseram-se enfurecidos, augurando todas as desgraças para a sua vida conjugal.
Estavam enganados, contudo.
A união foi das mais venturosas; dotada de espírito e critério, a jovem baronesa soube atrair a si muitas simpatias e, o que era mais ingrata tarefa, conservar as boas graças do marido.
Em lugar de se indispor, desprezando-os, com os filhos de seu povo, protegeu-os, chegando a franquear sua casa àqueles que desse favor se mostrassem dignos, pela educação.
O único filho desse casal feliz foi educado no mais largo espirito liberal, de grande instrução e espirituoso, o jovem Barão não podia admitir qualquer prejuízo de linhagem ou de crença; casou-se, ele próprio, com uma filha de aristocratas, por amor, e fez de uma de suas filhas a esposa de conhecido magnata, abençoando, sem vacilar, o casamento de outra com um moço arquitecto da mais humilde condição.
Sua casa estava franqueada sempre às pessoas de classe, sem cogitações de origens, e, por esse motivo, Samuel era ali recebido sem dificuldade.
Sendo, pois, magníficas as suas festas e bem conhecida a hospitalidade, a alta sociedade a elas acorria, não obstante ter de se acotovelar com uma classe que se olhava por sobre o ombro.
Pertencendo à família dos senhores de M""" a baronesa de Kirchberg, o Conde Egon e seus filhos visitavam a casa muitas vezes.
Raul apenas contra a vontade ali comparecia.
Criado pela Princesa Odila nos horizontes de exclusivista aristocracismo, ele mostrava-se, a esse respeito, ainda mais rígido do que sua mãe:
execrava toda reunião mista e tinha, com especialidade, inata antipatia pelos judeus.
A contragosto, e para não ferir, abertamente, a hospitalidade de um parente de sua esposa, em ocasião tão solene, ele aceitara o convite.
Chegada a noite do monumental baile, luzida e engalanada multidão tomava todos os salões, onde a mais pura nobreza se achava reunida.
Jovens magnatas com suas ricas vestimentas, militares com suas graduações, dignitários com o peito cheio de condecorações; entre tais figurões, contudo, havia mais de um simples artista, jornalistas e demais pessoas de classes inferiores, assim como alguns financeiros israelitas com suas mulheres, abundantes de pedras preciosas.
O príncipe de O""" e esposa chegaram bem tarde.
Quando deram entrada no salão, fixaram-se neles todos os olhares.
Talvez nunca, como nessa noite, a beleza deslumbrante de Valéria causasse tão absoluto encanto, e seu vestido excitasse tanta inveja a todas as senhoras.
Um vestido de cetim branco, cauda longa, totalmente coberto de antigo ponto brabantino, rendas que também guarneciam o corpinho, circundando o qual se podia ver um cordão de diamantes, formando plastrão sobre o peito; a cintura estava também rodeada por uma corrente das mesmas pedrarias, prendendo o leque; no pescoço, o ornato de largo colar, e nos louros cabelos pequena grinalda principesca, cintilando.
Para que melhor se destacasse o penteado, tinha o cabeleireiro feito pender, pela parte posterior, na nuca, finas madeixas sedosas e espessas, costas abaixo, e apenas uma rosa vermelha, aplicada num ombro, destoava da brancura imaculada do vestuário.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 30, 2016 8:14 pm

"A fada das neves!
A deusa Ondina!" — eram exclamações que se ouviam à passagem da Princesa, e olhares entusiasmados e cheios de admiração fitavam seu rosto.
Feliz, um sorriso de orgulho satisfeito nos lábios, Raul levou-a a uma cadeira; Valéria, contudo, viu-se logo rodeada por uma chusma de cavalheiros, e o turbilhão do baile empolgou-a.
Dando mostras de cansaço, Valéria dirigiu-se para o aposento destinado às senhoras.
Descansada, assentadas algumas ligeiras desordens no seu vestuário, encaminhou-se então para o salão do baile, que era bastante grande; entretanto, numa sala vazia, que antecipava o salão, onde nesse instante se dançava, ela viu o Barão que caminhava, palestrando com um homem vestido em trajes civis.
O anfitrião avistou-a imediatamente.
— Então! A rainha do baile não está participando das danças, fugindo dos seus vassalos? - disse ele, em tom galante.
Permiti, sra. Princesa, - prosseguiu, sem ao menos atender à alteração que se produzia nas faces de Valéria, reconhecera logo Samuel, — que eu vos apresente meu particular amigo, o Sr. Barão de Válden, excelente bailarino que se vê favorecido pela fortuna, visto que lhe propicia a oportunidade de aproximar-se da rainha da festa.
Quereis, atendendo a uma solicitação minha, conceder-lhe uma valsa?
A jovem Princesa respondeu com ligeira inclinação de cabeça à profunda curvatura do banqueiro.
Não podia escusar-se de dançar com um conviva apresentado pelo anfitrião; o coração, porém, batia-Ihe com violência e, no mesmo momento, subiu-lhe à fronte suor frio.
Viu Raul que entrava, procurando-a.
— Ah! aqui te encontro, mas não danças? — perguntou ele, aproximando-se.
— A Princesa vem de conceder uma valsa ao Sr. Barão de Válden — disse Kirchberg. — ainda não vos apresentei, acredito:
o Barão de Válden, o Príncipe de O""".
Cumprimentaram-se ambos, com cerimónia.
Depois, Samuel, cujo olhar pesquisador compreendera a indisposição de Valéria, conduziu-a para o salão das danças e, passando o seu braço pela cintura dela, conduziu-a numa valsa impetuosa.
Aparentemente, o banqueiro estava absolutamente calmo; contudo, Valéria percebia os movimentos agitados do seu coração.
Como se sonhasse, deixava-se levar no tumulto da dança, não se atrevendo a levantar os olhos para seu par, do qual, por instinto secreto, sentia o olhar ardente cravado nela.
Tendo girado todo o salão, Samuel deteve-se.
Encontrava-se na entrada de grande estufa, que convidava ao descanso pela agradável frescura e meia obscuridade.
Dando o braço à sua dama, levou-a para aí, e a confusão dela era extrema:
palidez e rubor substituíam-se em seu rosto, e a mão, posta de leve sobre o braço do banqueiro, tremia como folha ao vento.
Bem sabia ela que tal emoção era indesculpável e vergonhosa fraqueza, no que dizia respeito a esse homem, tão perfeitamente dono de si, e cujo aspecto nada revelava, a não ser uma gélida e respeitosa cortesia.
Um criado passava levando vasta bandeja repleta de refrescos.
Para dar-se ares de valorosa, a Princesa fê-lo aproximar-se, e pegou um copo de limonada gelada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 30, 2016 8:14 pm

No instante em que se dispunha a leva-lo aos lábios, Samuel segurou-lhe a mão, e, arrebatando-lhe o copo, que devolveu a bandeja, disse, em tom polido:
— Ah! senhora, que haveria de dizer o Príncipe, vendo-vos, tão afogueada pelas danças, ingerir essa bebida gelada?
Valéria emudeceu, cheia de admiração e de ira.
— Como ousais? — murmurou.
Sois bem insolente!
O banqueiro encarou-a, o olhar sarcástico:
— Sou um homem que não guarda rancores, Senhora Princesa; não permiti que pudésseis contrair alguma enfermidade fatal, pois que não valho isso, nem tampouco a valsa que tanto significou para vós, pelo facto de a haverdes dançado com um judeu.
Entretanto, Alteza, dar-me-ei pressa em providenciar para vós uma chávena de chá.
Com leve mesura, saiu.
A jovem Princesa, a sufocar de emoção, buscou abrigo no mais escuro lugar da sala de estufa, e prostrou-se sobre um banco de veludo que arbustos em flor disfarçavam.
Como se atrevia ele a afrontá-la?
Ironizá-la? Não a amava mais?
Mas, por que esse temor pela sua saúde, pois?
Lágrimas amargas rolaram-lhe pelo rosto, tudo nela era revolta, num grau inexprimível.
Nesse instante, uma voz que ela conhecia bastante, disse:
— Está aqui.
E ela percebeu Samuel, que vinha à frente de um criado, trazendo a chávena de chá.
O olhar perscrutador do banqueiro encontrara de pronto o seu refúgio.
A jovem, num átimo, limpou as faces húmidas com o lenço, e ergueu-se; suas lindas feições adquiriram expressão fria e cheia de desdém.
Erguendo, direita, com expressão orgulhosa, a cabeça coroada de diamantes, passou rente ao banqueiro, sem dignar-se dar-lhe um olhar apenas.
Quando o mordomo cheio de espanto, se afastou, Samuel sentou-se no banco que ela deixara, e deparou, no chão, o lenço que Valéria deixara cair ao levantar-se.
Ergueu-o, sentindo que o fino tecido, bordado de rendas delicadas, estava todo húmido de lágrimas.
— Valéria, Valéria!
Ainda me queres, pois verteste lágrimas pelo nosso encontro! — murmurou ele, levando o lenço aos lábios.
Guardou-o, depois, no peito e, reclinado sobre o encosto do banco, sonhou com o passado.
Enquanto se passava tal cena, Raul, atacado por dor de cabeça nervosa, não dançava; afastando-se do Barão de Kirchberg, procurando um momento de sossego, abrigara-se no profundo vão de uma escada, onde fofa poltrona era um convite ao descanso.
Grosso cortinado isolava-o da saleta contígua.
Passara alguns minutos neste retiro, quando ouviu passos e, do outro lado do reposteiro, uma voz dizer:
— Tomemos assento aqui, Henrique, para sorver nosso chá e tomar algum descanso.
— De acordo; mas prosseguirei no que vinha dizendo:
reparaste, Carlos, que a Princesa de O""" concedeu dançar com o banqueiro Maier, o Barão de Válden, há pouco surgido?
É uma obsessão quase, entre os descendentes de Israel, vestirem-se de títulos de nobreza.
Contudo, quem teve a ousadia de apresentá-lo à Princesa?
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 30, 2016 8:15 pm

É bem aborrecido que Kirchberg tenha a mania de convidar tal espécie de gente e mais; impor esse judeu para cavalheiro de uma dama de alta hierarquia, como a linda Valéria, é alta impertinência, no meu conceito.
O que respondia pelo nome de Carlos fez-se soar um risinho de mofa.
— Ouve: vou confiar-lhe coisa mais picante.
Ninguém desconhece que os haveres da família de M""" estavam numa degringolada, e bem próximo estava a total ruína, quando o banqueiro Maier se tomou de paixão, sabe-se lá como, pela Condessa Valéria.
Prevendo a repulsa da família, que não o aceitaria, monopolizou o total das dívidas dos dois Condes e foi apoiado nestes papéis selados que fez seu pedido.
Supõe-se, portanto, que foi aceito, já que, com assiduidade, apresentou-se em casa dos M""", durante algum tempo e mesmo estes o visitaram em sua propriedade de Rudenhof.
Além do mais, ele era visitado por um sacerdote, que o devia baptizar; nesse meio tempo, porém, surgiu o príncipe de O""", e tudo se transformou.
Pagaram e despediram o judeu.
— Espere: de que fonte recebeste tais informações?
De oficial, nada se propalou sobre esses esponsais.
— Não é motivo de espanto, nem razão havia para disso se gabarem.
No que respeita às minhas informações, provém de fonte, digna.
Meu pai veio a conhecer um corrector que vendeu letras de câmbio do Conde a Levi, o agente principal da Casa Maier, o qual as andou buscando por toda parte.
Ademais, a esposa desse Levi de que te falo é dona de uma casa de modas, e uma de suas empregadas faz serviços, há alguns anos, para minha mãe e irmãs, e essa moça é tão curiosa como indiscreta, chegando a conhecer das novidades por uma sobrinha da senhora Levi, com a qual mantém amizade.
Por via de sua curiosidade é que viemos a saber das visitas de Maier, do seu premeditado baptismo e da sua tentativa de matar-se, que se verificou por ocasião mesmo do noivado do Príncipe com a então Condessa.
Foi um gozo para mim, assistir a linda Princesa dançar com o noivo demissionário.
Ela mostrava-se deveras agitada.
Talvez, quem sabe, lhe tenha agradado...
Não está andando mal, esse judeu!
— Eis aí uma fábula!
Escuta, porém:
é a música que recomeça:
é hora de buscarmos nossas damas.
Raul a tudo ouvira, e seu interesse e raiva cresciam sempre; percebendo que os dois faladores se tinham afastado, procurou analisá-los por entre uma fresta das dobras da cortina:
um deles era um oficial de Infantaria; o outro, que não conhecia, um rapaz vestido à paisana.
Extremamente agitado, o Príncipe voltou a sentar-se; acre desconfiança apossara-se de seu coração.
Era aquele, portanto, o homem a quem Valéria fora destinada!
Inegavelmente, era belo e sua aparência e maneiras nada mostravam da baixeza de sua raça.
E se, de facto, apesar de tudo, ele pudesse ter agradado?
Num frenesi de suspeita, Raul lembrou e ligou todas as circunstâncias, para ele incompreensíveis, que se sucederam desde os esponsais:
a tristeza profunda e estranha da moça, a inesperada viagem a Nápoles, os nervos sempre tensos de Valéria, a indisposição no dia do casamento.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 30, 2016 8:15 pm

O sangue ferveu-lhe na cabeça.
Teria passado por idiota, preterido por um... judeu?
Pôs-se a recordar, então, da bondade de Valéria, da amizade que ela lhe mostrava, do seu cristalino e puro olhar, e afastou para bem longe de si qualquer suspeita de traição.
Sua ira concentrou-se toda em Samuel e Kirchberg:
contra o primeiro, porque ousara introduzir-se numa sociedade acima de sua classe; contra o segundo, porque ousara apresentar sua esposa a tal espécie de homem.
— Aí está o que se tem por violar os preceitos tradicionais — resmungou ele, pondo-se de pé.
Não tivesse eu trazido Valéria a uma reunião onde se está ameaçado sempre de acotovelar com a gentalha, evitar-se-iam todos esses cancãs peçonhentos.
Tomado de intensa raiva, partiu em busca do dono da casa, porque desejava representar-lhe fosse mais escrupuloso na selecção dos convidados que apresentasse a Valéria.
Tendo-o encontrado, pediu-lhe alguns momentos de atenção e, para estar de todo à vontade, levou-o até a estufa.
Junto a um pequeno bosque, estacaram, não desconfiando ambos que do outro lado estava ainda Samuel sentado, e que tão próximo, tinham uma testemunha tão interessada.
— Que é que vos agita, Príncipe?
Mostrai-vos bastante nervoso — quis saber o Barão, aturdido com essa secreta conferência.
— Meu caro Barão, venho de saber agora quem é a pessoa que há pouco me impuseste com o nome de Barão de Válden, e ouvi os comentários de conhecidos meus que se mostravam surpresos por verem-no dançar com a Princesa.
Acato as vossas opiniões; não posso, contudo, desprezar aquelas nas quais fui educado.
Portanto, conformo-me em topar com judeus em vossos salões, mas vos encaro a necessidade de evitar seu contacto à minha esposa.
Sinto invencível antipatia por raça de avarentos que se apossam de títulos de nobreza para os emporcalhar.
Vergonha e descontentamento mesclavam-se na expressão fisionómica do Barão; mas não teve oportunidade de responder.
Vinha de surgir da obscuridade uma inesperada aparição.
Era o banqueiro que, pálido a mais não ser, se deteve diante de Raul.
— Não me julgo usurário, Príncipe! — exclamou com voz agitada, mas contendo-se.
Exijo que me deis satisfação por esse insulto!
Deixo-vos a escolha das armas!
Raul olhou-o de alto a baixo, com olhar inexprimível; mostrava, aparentemente, ter recuperado toda a sua calma.
A sua bela fisionomia retratava uma sobrançaria cheia de orgulho, e os olhos tão aprazíveis e normalmente tão ternos, queimavam de desprezo e infinito orgulho.
— Sinto muito, Sr. Maier, não ser possível satisfazê-lo — frisou, medindo as palavras, friamente — mas não me bato senão com os de minha condição, isto é, com os aristocratas por nascimento.
O que ouvistes de mim, entretanto, não poderá ofender-vos:
sois israelita e a opinião sobre essa raça é bem conhecida, e indiscutível.
Tive notícia de um homem de vosso povo que, perdido de paixão por uma donzela de casta nobre, traficou com a ruína dos parentes dela, tornando-se único possuidor de todas as suas acções e lançou a intimação à jovem de escolher entre a sua pessoa e a desonra dos seus.
Tal proceder parece-me pior ainda que a usura, como também é o que pensam todos os fidalgos.
Fitando Samuel com derradeiro olhar de frio desprezo, o Príncipe fez meia-volta e partiu.
Vivo rubor cobriu as faces de Samuel que, lívido, cambaleou, como se o atingisse uma bofetada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 30, 2016 8:15 pm

— Coragem, meu jovem amigo, recobrai ânimo — disse o Barão, segurando-lhe as mãos.
Farei com que esse demente torne à razão, e tudo estará em breve reconciliado, prometo.
Não poderei permitir que um de meus convivas seja insultado, debaixo de meu tecto.
— Sinto, igualmente, que mesquinha ofensa tenha sido a mim dirigida em vossa residência hospitaleira — replicou Samuel, procurando acalmar-se.
Peço-vos, entretanto, Sr. Barão, que não prolongueis de nenhuma forma esse incidente.
Todos os vossos parentes teriam que dar razão ao Príncipe; como escândalo, basta o que se passou até aqui.
Concedei, entretanto, que me retire; bem podeis compreender que não me sinto capaz de prosseguir, por mais tempo, gozando o prazer deste baile.
Sensibilizado e furioso, o Barão levou o banqueiro até ao saguão, jurando a si próprio mostrar, com frequentes visitas, quanta estima lhe inspirava o moço israelita.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 30, 2016 8:16 pm

8 —

Não se poderá descrever o estado emocional de Samuel, no instante em que reentrou em sua casa.
No seu cérebro inflamado, agitavam-se a raiva, o desespero, o orgulho ferido e o desejo de vingar-se.
Como um tigre ferido, rolou em seu leito, e somente quando o dia raiava, um sono febril e denso veio trazer-lhe alguma paz aos nervos tensos.
Alguns dias passados, acalmou-se, aparentemente; entretanto, enraizara-se em seu peito um ódio imenso contra o Príncipe, ódio de tal modo absoluto que abrangia às vezes também a Valéria.
Para se desforrar do maldito que lhe roubara a mulher amada; que lhe atirara a pecha de usurário; que o tinha tratado com tanto desprezo e recusado satisfação de seus agravos, ele ousaria sacrificar mesmo a própria vida.
Não o deixava um momento em paz esse pensamento, e tanto dominava mais a sua alma, quanto se lhe afigurava difícil de realizar o seu intuito.
Horas inteiras caminhava pelo gabinete, torturando o cérebro a buscar um meio de magoar, no coração mesmo, aquele homem que se assemelhava invulnerável, debaixo da tríplice couraça que formavam seu superior nascimento, imensa fortuna e vida irreprochável.
Samuel tornou-se pálido e magro sob o império daquele pensamento que não o abandonava.
Desanimava, às vezes, sem esperança de concretizar vitoriosamente a sua desforra; outras, com redobrado vigor, buscava idealizar um plano de chegar ao seu fim.
Entende-se que, agitado por tal estado de espírito, nada significasse para ele a notícia de que Ruth dentro em breve seria mãe; entretanto, esse acontecimento provocou certa aproximação entre os esposos.
Samuel julgou parte de suas obrigações o dirigir à esposa algumas frases de carinho, as quais fizeram com que a infeliz Ruth, cujo coração, ferido, ansiava por uma reconciliação, renunciasse ao seu obstinado silêncio, quebrando o voto que fizera, e relações mais íntimas estabeleceram-se entre eles.
Um mero acaso teve o condão de reacender as iras de vingança no coração do banqueiro, e encaminhá-lo a um rumo decisivo.
Em dada manhã, o padre Martinho, que cumpria a sua promessa de visitar todos os meses o seu antigo discípulo, após cumprimentá-lo, perguntou-lhe:
— Estais doente, Sr. de Válden?
Dei de enontro com o médico que deixava a vossa casa.
— Trata-se de minha mulher, que se encontra indisposta, pois a gestação para ela é deveras penosa.
— Ah! vós sereis pai!
Permiti que vos cumprimente, meu jovem amigo, e devemos esperar que este feliz evento faça desaparecer os últimos rastos de um passado infeliz.
A Princesa Valéria também está aguardando o nascimento de seu herdeiro.
— E para quando? — indagou o banqueiro, disfarçando a emoção que lhe ia na alma com um ar de indiferença.
— Para os últimos dias de junho.
Samuel tremeu: uma ideia diabólica, soprada talvez por algum espírito das trevas, passara-lhe repentinamente pelo cérebro.
Aguardou impacientemente que o Padre se retirasse. Fechou-se, depois, em seu quarto, para melhor pensar no seu novo intento.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 30, 2016 8:16 pm

Ruth também esperava para fins de junho o nascimento de seu filho; se fosse possível a ele trocar as duas crianças (dois filhos, de preferência), tornar-se-ia possuidor de uma arma que, mais tarde, poderia ferir de morte o homem a quem votava um ódio que lhe vinha das entranhas da alma.
De fato, esse orgulhoso aristocrata, que só admitia relações com os de sua classe, educaria, dispensaria seus carinhos e teria por seu herdeiro uma criança da raça amesquinhada, enquanto o verdadeiro Príncipe se faria um judeu.
Imprimiria em sua mente, desde os primeiros anos, ódio a tudo quanto dissesse respeito aos cristãos; haveria de torná-lo, não um novo Samuel, mas um judeu asqueroso e fanático, um autêntico avaro; e, no momento propício, revelaria a verdade, rindo-se da vergonha, da ira sem forças do Príncipe, porque ele, Samuel, se subtrairia à justiça humana com um tiro de pistola.
Haveria de calcular, desta vez com maior cuidado a pontaria, e terminaria seus dias com alegria, sabendo que sua morte seria dupla vingança contra seu inimigo.
Tal projecto deixava-o ébrio e, ao pensamento apenas de que o azar podia pôr todos os seus planos por água abaixo, dando às mães filhos de sexo diferente, ou com diferença muito grande no nascimento de ambos, ilimitada ira se apossava dele.
O tempo da espera, que ele não podia encurtar, foi por ele empregado em amadurecer o seu projecto, em ajustar todos os detalhes e todas as eventualidades.
Na cegueira de seu ódio vingativo, não cogitou de quanto era odioso o plano premeditado e que estava jogando, de modo criminoso, com o destino de seu próprio filho.
Um acontecimento inesperado, que teve lugar na primavera, veio reforçar o seu ódio e a sua resolução.
Seu corrector, Josué Levi, veio, com abundantes lágrimas nos olhos, solicitar-lhe alguns dias de licença, porque precisava enterrar o seu segundo filho com nove anos.
— Qual a causa da morte da criança? — indagou, interessado, Samuel.
— Morreu, miseravelmente, afogado.
Oh! esses goys dos infernos! — bramiu Levi, levantando os braços aos céus.
— Que tem a ver os goys com a morte de vosso filho?
— Poderia ter sido salvo por um deles, que não se deu a esse trabalho, porque se tratava de um judeu que morria!
Que Jeová fira e destrua esse Príncipe de O""", fera desentranhada!
O banqueiro acurou a atenção, cheio de espanto.
— Tomai assento nesta poltrona, Levi, e narrai-me, pausadamente, tudo quanto se passou.
— O meu menino fora, no dia de ontem, em companhia de nossa velha criada Noémia, visitar uma parenta que reside na outra margem do rio - principiou Levi, limpando as lágrimas.
A distância era longa, próximo da ilha Margarida.
Lá pelas sete horas, Noémia e o menino retornavam, numa pequena lancha e, já perto da praia, divisaram inúmeras senhoras e dois oficiais que aguardavam a chegada do barco para nele se passarem a Ofen.
O Príncipe de O""" era um dos oficiais, e o outro era um antigo oficial, coronel de croatas, que não conhecemos.
No instante exacto antes de o barco aproar, Baruch, cheio de vivacidade como era, pretendeu saltar para cima da pequena ponte; contudo, errou no salto e mergulhou na água.
Percebendo que a criança se afogava, o Príncipe de O""", rapidamente, começou a despir-se, e Noémia, que aflitivamente emitia gritos agudos, concebeu alguma esperança vendo esse gesto, quando, inesperadamente, o Príncipe susteve-se:
— Com efeito!
Parece-me que é uma judia!
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 30, 2016 8:17 pm

— Ah! Ah! Ah! exactamente, e causa-me espanto que vos deis ao risco de um banho frio por semelhante gentalha - exclamou o Croata.
O Príncipe estava fortemente pálido; seu olhar fez-se rancoroso, abotoou a farda e afastou-se.
Pouco depois, um barqueiro retirou da água o menino... mas, já estava sem vida!
Após prodigalizar-lhe o melhor possível algum conforto, Samuel despediu o desventurado pai.
Todos os seus sentimentos estavam frementes e revoltados.
— Desgraçado! — sibilou entre os dentes cerrados — permites que se afogue um ser humano, porque ele integra o povo que persegues com ódio cego; espera, porém; a Némesis bem próxima está, quem sabe?
Na noite desse dia mesmo, Samuel disse ao seu criado de quarto, que o ajudava a despir-se:
— Bem sabes Estêvão quão arraigado foi o interesse que, há tempos, senti por aquela que hoje é a Princesa de O"".
Não devo ser, por isso, absolutamente indiferente às coisas que dizem respeito a ela, e pretendo conhecer em que época ela dará a luz e qual o seu estado de saúde.
Acredito que tens amizades no palácio de O""".
Recompensar-te-ei amplamente, se me informares de quanto se passa ali, e com brevidade, especialmente, do referido evento.
— Bem fácil será, pois que a camareira-mor da Princesa, de nome Marta, é minha noiva; pode o senhor Barão estar seguro de todo o meu zelo em servi-lo — foi a resposta do criado, cuja face lisa se iluminou com o clarão de cúpida alegria.
Estava-se nos últimos dias de junho, numa tarde esplendorosa.
No terraço que se comunicava com o jardim, Samuel Maier, só.
Recostado a meio numa cadeira de junco, fitava, distraidamente, o repuxo da fonte, cujo jacto de água desfazendo-se em borrifos, tinha, aos raios do sol desmaiado, fulgurações de milhares de diamantes.
Naquela circunstância, contudo, nem a beleza, nem o sossego da natureza exerciam qualquer influência sobre a alma inquieta do banqueiro, em cujas feições expressivas se estampava íntima preocupação, quase desespero febril.
Há dois dias, Ruth lhe dera um filho; entretanto, notícia alguma lhe viera de Valéria.
A preocupação de que esta trouxesse ao mundo uma menina, desfazendo em fumaça todos os seus planos de vingança, era tal que lhe tirava todo repouso.
Um discreto raspar de garganta, que se ouviu atrás dele, cortou a trajectória de seus pensamentos.
Voltando-se, encontrou Estêvão.
— Que queres?
— Sr. Barão - o criado achegou-se com expressão de mistério — soube, há pouco, que a sra. Princesa Valéria, na noite passada, deu a luz a um filho.
Marta não pôde pôr-me mais cedo ao corrente do facto, porque sua patroa está se sentindo bem mal, e toda a casa está em polvorosa.
Samuel pôs-se de pé, como se o movesse invisível mola.
Rubor de fogo tomou, em seu rosto, o lugar da palidez que de chofre o invadira.
Os olhos coruscavam, com uma alegria quase inumana.
— Vem comigo, Estêvão.
Preciso falar-te.
Chegados ao gabinete de trabalho, e após ter cerrado as portas com meticuloso cuidado, Samuel disse a queima-roupa:
— Queres enriquecer, fazer-te independente, e prontamente desposar essa que é tua noiva?
Em resumo:
queres ganhar uma fortuna, em paga de um serviço que tu e Marta poderão me prestar?
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 30, 2016 8:17 pm

A fisionomia calculista do serviçal iluminou-se.
— Óh! Senhor Barão, naturalmente.
Executaremos todas as coisas que nos mandardes, pois bem conhecemos quanto sabeis recompensar...
Menos morte — rematou, baixo e hesitante.
— Idiota! Julgas que te pediria um crime de morte?
Trata-se apenas de uma troca; quero que seja meu o filho da Princesa de O""", ao passo que o meu filho deve ocupar o berço do principezinho.
Parva admiração reflectiu-se no rosto do criado.
— Eu... não entendo, porque desejais afastar-vos de vosso filho! — disse, a balbuciar.
— Os motivos que me movem, não devem tomar parte em tuas preocupações; é bastante que saibas que desejo consumar troca dos dois meninos e que, se convenceres Marta a te ajudar nesta empresa, estareis ricos.
— Rogo ao Sr. Barão que me desculpe a minha estulta exclamação — pediu Estevão, que recobrara o seu sangue-frio.
Julgo que Marta terá bem assentado o siso para não deixar passar esta oportunidade, sacrificando a própria ventura, e imediatamente vou procurá-la para acertarmos os meios de alcançar nosso fim.
— Vai, mas regressa o quanto antes, porque a troca tem de se operar ainda esta noite.
Estando só, o banqueiro passeou pelo gabinete, com passadas impacientes.
Parecia-lhe o espaço de um século cada instante dessa espera febril.
Já se passara quase hora e meia, quando Estevão retornou, finalmente.
Trazia um ar de animação na fisionomia, e os olhos astutos brilhavam de contentamento.
— Está tudo preparado, Sr. Barão; não foi sem dificuldade, entretanto — esclareceu ele, limpando o suor da fronte.
Na verdade, no princípio, a estúpida Marta não queria aderir; mas, empreguei todos os meios em convencê-la e, agora, ela concorda plenamente; a ocasião é, também muito propícia:
o Príncipe e a Condessa, que estiveram ao pé da doente durante toda a noite e o dia todo, acabaram de retirar-se para descansar algumas horas.
O menino e a ama encontram-se num dos quartos próximos, mas essa camponesa não nos oporá entraves.
O que está preocupando Marta é a maneira como afastar a parteira, que vigia junto ao leito da Princesa qual um Árgus, e a todo instante entra também no quarto onde está o menino.
Samuel, que a tudo ouvira silenciosamente, caminhou até um armário junto da parede, abriu, e dele retirou um minúsculo vaso, cheio de um líquido incolor.
— Dá a Marta este vidrinho; com cinco ou seis gotas do seu conteúdo derramadas na bebida da ama de leite e da parteira, estarão adormecidas por três horas mais ou menos.
Apressa-te, pois, vai.
Aguardarás que estas providências estejam tomadas e virás prevenir-me.
Logicamente, irás de carro, mas o farás de modo a que o cocheiro não possa suspeitar de onde vens, nem para onde te diriges.
— Assim já procedi, Sr. Barão.
Podeis estar seguro da minha prudência.
O criado já chegara à porta, quando Samuel o chamou:
— Um momento, ainda não me esclareceste onde e como se fará a troca.
— Coisa bem fácil:
o aposento da Princesa está no primeiro andar; as janelas do dormitório e do quarto pegado dão para o jardim; do gabinete desce uma escada, em espiral, indo ter a um terraço, pequeno, enfeitado de arbustos, formando bosquete.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 01, 2016 7:58 pm

A portinhola do fundo já foi aberta por Marta, para mim, aquela por onde passam os jardineiros.
Entrarei por essa passagem, deslizando para o terraço.
Ela aguardará no alto da escada e, a um sinal já dela conhecido, trará o pequeno Príncipe.
— Está bem. Apressa-te, vai!
Depois que Estêvão partiu, Samuel retirou do armário, que ainda permanecia aberto, outro frasco idêntico ao primeiro, meteu-o no bolso do colete, e encaminhou-se aos aposentos de Ruth.
Num compartimento que antecedia o quarto de dormir, topou com a enfermeira, gorda, de aspecto simplório, a qual, posta diante de uma cafeteira e de uma cesta de pastéis, já enchera a xícara de café, estando pronta a prová-lo.
Ante a presença do senhor da casa, ela se levantou, constrangida, e explicou, como a desculpar-se:
— A Sra. Baronesa e o pequeno estão dormindo e, para não acontecer que os perturbe com algum barulho e estar perto para qualquer chamado, venho tomar meu café aqui.
— Bebei, bebei, minha boa senhora Saurer; precisais concentrar todas as forças para bem vigiar — disse Samuel, com ar benevolente.
— Venho a procura de uma carteira pequena, que hoje, pela manhã, esqueci sobre o toucador; contudo, para não perturbar o repouso de minha mulher que descansa, não entrarei:
tende a bondade de ir buscá-la e trazer-ma.
É a de marroquim encarnado, os ângulos de prata.
A mulher saiu, rapidamente, e, nem bem passara por detrás do reposteiro, Samuel abriu o frasquinho e fez cair, num átimo, algumas gotas do sedativo na xícara de café.
— Escusai-me, Sr. Barão, porém não consegui encontrar essa carteira — esclareceu a enfermeira, retornando um tanto perplexa.
— Bem, bem, é preciso que eu próprio cuide disso; guardo nela papéis de que não me posso apartar — respondeu Samuel, penetrando, nas pontas dos pés no dormitório, mal iluminado por uma lamparina.
Assim que puderam seus olhos habituar-se com a meia obscuridade, encaminhou-se cuidadosamente para o leito, junto ao qual estava posto um berço, rodeado de cortinados de seda.
Ruth ressonava, descorada e visivelmente esgotada, e sobre a mesa posta à cabeceira uma xícara cheia de tisana.
Samuel suspendeu-a e derramou nela, também, algumas gotas do soporífero.
Teve apenas o tempo suficiente para baixá-la sobre a mesa e esconder o vidrinho no punho fechado, porque Ruth acordou, e seus grandes olhos de veludo negro, espantados, puseram-se sobre ele.
O banqueiro curvou-se para ela, aparentando calma, e indagou:
— Como passas, Ruth?
Mostravas-te tão esgotada esta manhã, que me afligi.
Um clarão de alegria deslumbrou as faces da jovem judia.
— Oh! Samuel! Se houvesse sinceridade no que dizes, bastaria isso para me devolver a saúde (tomou a mão do marido e cobriu-a Ide beijos); se pudésseis amar-me, como eu dedicaria toda minha vida em fazer-te feliz!
A semi-escuridão reinante obstaculou a que Ruth pudesse discernir o sorriso forçado que brincava nos lábios do banqueiro; entre tanto, curvou-se, beijou a esposa e, sentando-se depois, na borda do leito, disse afectuoso:
— Esteja tranquila, Ruth:
estás muito nervosa.
Queres que te dê de beber?
A um gesto de consentimento, ergueu a jovem e fez com que ela tomasse alguns goles do líquido.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 01, 2016 7:59 pm

— Agora, dorme — rematou, correndo a mão pela fronte dela, num gesto carinhoso.
— Agradecida.
Sinto-me de todo bem — sussurrou Ruth, com um sorriso de agradecimento e cerrando os olhos, lentamente.
Regressando, de passagem pelo gabinete, Samuel viu a enfermeira sorver uma segunda xícara de café.
— Por algumas horas me verei livre de sua vigilância — murmurou, satisfeito, reentrando no seu escritório.
Vinte vezes tinha o banqueiro consultado o seu relógio, com impaciência, quase em delírio, quando Estêvão por fim reapareceu.
— Rápido, Sr. Barão, dai-me o menino, pois tudo está pronto e não podemos perder sequer um instante.
Olhai! (desalojou de sob o casaco um pacote, que abriu, espalhando seu conteúdo sobre a escrivaninha).
Camisa, touca e cueiros com o brasão do Príncipe, coisas que Marta enviou, porque é necessário vestir o menino com estas roupas; temo, porém, que a Condessa Antonieta entre, por acaso, no aposento!
— Bem, vou eu mesmo; arranja-me, entretanto, um manto, enquanto vou buscar o menino.
No gabinete, Samuel viu a enfermeira, escarranchada sobre a cadeira, totalmente adormecida; Ruth dormia, também.
Correndo, então, a chave na porta que dava acesso ao dormitório, Samuel aproximou-se do berço e retirou o menino, cuidadosamente.
Ajudado por Estevão, vestiu a inocente criança com as roupinhas trazidas pelo criado, cobriu-a com ligeira coberta, e, ocultando-a sob a capa, afastou-se com Estêvão, saindo pela porta secreta do jardim.
Era de tal ordem a cegueira de vingança do banqueiro, que sua consciência não se rebelou; fibra alguma de seu coração foi tocada, no instante mesmo de concluir a criminosa trama, e atirar ao azar de um futuro incerto o pequeno ser que a ele devia o estar vivo.
Alcançada a primeira esquina de rua, tomou um coche e, sem contratempos, penetraram os dois homens no jardim do Príncipe.
Escura era a noite sem lua.
Enchendo-se de infinitas precauções, caminharam por alamedas desertas e, chegados ao terraço, Estevão tossiu, discretamente.
Transcorridos alguns instantes de espera, um passo precavido e suave se fez ouvir na escada de caracol e, então, Marta, sem cor, tremendo surgiu, trazendo o menino nos braços.
Em silêncio, processou-se a troca; imediatamente, a camareira sumiu, como sombra, na escada, e os dois homens, de corrida chegaram à porta de saída do jardim.
De regresso ao seu gabinete, Samuel preparou-se para vestir a criança com a roupa de seu filho; entretanto, quando a capa foi levantada, e ele observou, pela vez primeira, o filho daquela que o traíra e do rival execrado, ignoto sentimento, a um tempo ciúme, desespero e ódio, apertou-lhe o coração, que tão frio se mostrara ao separar-se de seu próprio filho.
O delicado rosto da criança não guardava nenhum traço de semelhança com Valéria, mas era o filho dela que, nesse preciso instante, acordava e chorava debilmente.
Ouvindo o fraco choro, a ira vingativa do banqueiro mesclava-se a doloroso sentimento, misto de amor e piedade; passou a acalentar a criança, que em pouco tempo adormeceu.
— Aguarda-me aqui e dar-te-ei a recompensa que prometi — disse a Estevão.
Ruth e a enfermeira ainda dormiam e, pouco depois, o Principezinho deserdado ressonava no berço onde acordaria judeu milionário.
De volta ao seu escritório, Samuel abriu a secretária, destacou duas folhas de um talão de cheques e, após nelas escrever algumas linhas, entregou a Estevão.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 01, 2016 7:59 pm

— Destes cheques, um é para ti, outro para Marta.
Tão logo apresenteis estes cheques no Banco do Estado, em Viena, pagar-vos-ão a quantia neles discriminada.
Farei apenas um reparo:
uma fortuna tão repentina haverá de despertar suspeitas contra vós, e procedereis prudentemente abandonando o país.
Lançando um olhar aos papéis, o criado fez-se pálido embasbacado pelo elevado da soma.
— Oh! Sr. Barão! sois generoso tanto quanto um rei — balbuciou, tentando prender a mão do banqueiro para beijá-la.
No que se refere a abandonar o país, já o tínhamos deliberado.
Que prazer havíamos de usufruir de nossa riqueza, vivendo numa terra onde somos conhecidos por criados?
Marta tem um tio residindo na América do Norte, e para lá iremos logo que nos casarmos.
Estando só, finalmente, Samuel recolheu-se ao leito, aturdido por diversos sentimentos.
Consumado estava o passo inicial para a sua vingança, e o porvir lhe propiciaria triunfo ainda mais brilhante:
o desdenhoso aristocrata, que não reconhecia direitos de humanidade senão para os de seu nível, havia de acariciar e educar um filho da raça odiada, que levaria o nome orgulhoso dos Príncipes de O""", enquanto o real herdeiro da antiga e ilustre hierarquia se faria judeu usurário, intransigente inimigo de tudo o que se refere a cristão, e se tornaria incapaz de ocupar a posição que um dia seria obrigado a retomar.
— Com efeito, se o diabo tem existência real, há-de estar aliado comigo nessa empresa — sussurrou o banqueiro, com maligna satisfação.
Ainda as pessoas, minhas únicas comparsas, cuja presença bem poderia incomodar-me, abandonarão a Europa por tempo ilimitado!
Teremos, agora, de saltar sobre um hiato de vinte e quatro meses avançando para o passado um olhar rememorativo dos eventos que se deram durante esse lapso de tempo, em ambas as famílias.
Depois que Ruth se refez, Samuel viu-se constrangido, ainda que indo contra a sua vontade, a prosseguir desempenhando o papel ao qual se sujeitara quando a jovem esposa, abrindo os olhos, o surpreendera junto de seu leito, segundos depois que ele entornara o narcótico.
Dera mostras, então, de ternura e afecto e de indulgência; entanto Ruth, que arrebatadamente o amava, bem depressa se inteirara de que toda expansão muito ostensiva desse amor desagradava ao marido e que sua amistosa bondade apenas encobria a mais absoluta indiferença.
Desesperando-se, a jovem senhora chorou; convencida, porém, de que seus acessos de choro apenas contribuiriam para afastar Samuel do lar, fizera-se introspectiva, procurando abrigo e consolo junto ao filho que idolatrava.
Não obstante, o temperamento da jovem judia era muito arrebatado, e não era de se esperar que se submetesse passivamente; ultrajada em todos os seus sentimentos, permitiu que seu amor tomasse outros rumos, com o correr dos dias, fazendo-se envolver por ciúme doentio, desconfiado.
Assaltada por suspeitas, cheia de cólera, vigiava as constantes saídas do marido, e acabou convencendo-se de que as tardes sem conta que ele passava fora eram consagradas a alguma rival preferida, enquanto deixava a esposa em degradante abandono, não lhe confiando senão a função de boa dona de casa.
A união de Raul com Valéria, da mesma forma, estava longe de ser venturosa.
As imprudentes palavras que ele ouvira, no dia do magnífico baile na residência do Barão de Kirchberg, caíram como camada de gelo em seu coração juvenil e ingénuo.
Concebeu suspeitas de que muitas das extravagâncias no modo de proceder de Valéria explicavam-se por um amor dissimulado pelo banqueiro judeu e, só com pensar tal coisa, tudo se agitava, como um vulcão, dentro dele.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 01, 2016 7:59 pm

Raul era generoso, por natureza amoroso e bom.
Contudo, a desmedida adulação em que o criara sua mãe; os elogios e favores de todos os que se acercavam do belo e rico Príncipe, fizeram nascer nele graves prejuízos.
Acostumara-se em ver satisfeitas todas as suas vontades, a julgar como homenagem a que tinha direito a admiração geral; a preferência que mostrava por alguém, tinha-a na conta de favor excepcional.
Naturalmente, tais pretensões e exigências estavam bem ocultas sob maneiras delicadas, vestidas de irresistível encanto pela sua natural bondade.
Entretanto, temeroso de que o coração de sua esposa não lhe pertencesse totalmente, de modo exclusivo; de que ela fosse capaz de, por um instante sequer, pôr na mesma linha o Príncipe de O"" e esse avaro enriquecido, em seu íntimo operou-se uma revolução.
Todo o orgulho de sua linhagem, o exclusivismo aristocrata que a sua educação lhe impingira, desenvolveu-se em seu ser com insuspeitada firmeza.
Sem dúvida, a Princesa Odila era sobremodo exclusivista, pois abominava e repelia as reuniões mistas; Raul, ainda mais, excedendo-a, afirmava taxativamente que apenas frequentaria casas onde pudesse assegurar-se de não emparelhar-se com adventícios enriquecidos.
Sua ira maior recaiu sobre a raça dos judeus, que ele personificava em Samuel Maier, o desaforado que ousara oferecer a mão a Valéria.
Moveu surda perseguição aos israelitas em toda parte onde os encontrou e todos os que desempenhavam qualquer cargo em suas propriedades foram postos na rua, sem compaixão.
Atendendo ainda a esse mesmo sentimento, permitiu que o inocentinho Baruch morresse, ele, que socorreria um cão a afogar-se.
Entanto, perseguia-o o remorso dessa má acção, inexoravelmente.
Vivia malquistado consigo mesmo, e seu estado reflectia-se em todo mundo, até mesmo em sua esposa, a quem o fazia sentir.
Valéria sofria muito com esse estado de coisas; no seu íntimo, sentia que alguns resquícios do passado adentraram os ouvidos do marido, o que o mantinha afastado dela; entretanto, a deslumbrante beleza da jovem Princesa dominava ainda o coração do Príncipe e parecia, às vezes, que todo o seu amor se reavivava.
Ao nascimento do primogénito, venturosa mudança pareceu dar-se nele; pai, aos vinte e dois anos, inebriou-se de felicidade e orgulho, quando Antonieta lhe pôs sobre os braços um filho, herdeiro de seu nome; cercou a esposa de atenções e amor; pareceu renascer toda a sua paixão, e a paz teria imperado por todo o sempre, se um episódio inesperado não viesse confundir tudo, e reacender as desconfianças de Raul.
Quase dois meses depois do nascimento do primogénito, Valéria retocava a sua toalete, e o Príncipe acercou-se para lhe perguntar qualquer coisa.
Palestrando, absolutamente à vontade, pegou de sobre a mesa um medalhão que a esposa usava sempre e que trazia o retrato dele, tinha a certeza.
Abriu-o e mirou-se na miniatura; contudo, levantando a vista para a esposa, teve a impressão de que a agitava íntima emoção.
— Dá-me esse medalhão, desejo colocá-lo ao pescoço — exclamou Valéria, alongando vivamente a mão.
A suspeita dormida de Raul despertava outra vez com violência.
Afastou-se e falou, analisando minuciosamente a jóia:
— Eu to devolverei no prazo de uma hora.
— Que despropósito!
Tenho sempre comigo esse medalhão; acostumei-me com isso, e não desejo abster-me dele!
— Não obstante essa boa razão, ele fica comigo.
Mandei preparar a minha miniatura e desejo colocá-la aqui. — retorquiu Raul, fitando com olhar sombrio e suspeitoso o rosto fortemente corado de Valéria.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 01, 2016 7:59 pm

Rubor ardente cobriu num átimo o rosto da jovem que, adiantando-se para o marido, agarrou a fina corrente de ouro do medalhão, tentando arrebatá-lo das mãos do Príncipe.
— O retrato que me ofertaste, quando éramos noivos, é sagrado; não consinto que toques nele — exclamou, com voz mudada.
— Se o consideras sagrado — repôs Raul com sorriso acre e irónico — quero estar seguro de que o medo de perder semelhante tesouro foi o principal motivo que tanto, e visivelmente, te constrangeu, quando me viu tocar nesta jóia; ou, quem sabe, descobrir se ela contém algo de mais valor ainda.
Se minha desconfiança não for justificada, estou pronto a implorar-te perdão, de joelhos.
A entrada de uma criada pôs termo à discussão.
— Alteza, uma ordenança acaba de chegar, trazendo comunicado urgente - anunciou a rapariga, dobrando-se numa reverência.
Sem dignar-se lançar um olhar à esposa, Raul saiu imediatamente, levando o medalhão.
Descorada e desfalecida, Valéria deixou-se tombar sobre uma poltrona.
Pejo e temor lhe roubavam a respiração.
Por ocasião de sua viagem a Nápoles, sem que Antonieta o soubesse, e acreditando Samuel morto, havia mandado inserir, sob o retrato do Príncipe, o do banqueiro, querendo guardar essa recordação, para mirar, de tempos a tempos, as feições daquele que, por ela, deixara-se arrastar ao acto extremo, suicidando-se.
Não obstante todos os eventos posteriores, Valéria guardara essa miniatura; nesse instante, porém, recriminava-se acremente por cometer tal inconveniência, que lhe podia trazer fatais consequências.
Ao pensamento de que Raul encontraria a miniatura de Samuel, e a teria na conta de mulher sem honra, levantou-se, febrilmente vivaz, correu ao toucador e, pela escada de espiral, desceu ao jardim.
No andar térreo, que também se comunicava por uma varanda ao jardim, situava-se o escritório de trabalho do Príncipe; foi por essa parte que Valéria se introduziu.
As janelas estavam todas abertas, e ela pôde inteirar-se de que Raul não se encontrava no gabinete.
No aposento ao lado, fazendo às vezes de cada sala de recepção, sua voz sonora fazia-se ouvir, perfeitamente, falando com a ordenança.
Valéria saltou pela sacada.
Um olhar dirigido para o interior fê-la descobrir o maldito medalhão sobre a secretária.
Apanhá-lo e sumir-se como sombra, foi acto de segundos apenas.
Empreendeu, depois, numa corrida, o caminho do terraço; passando, porém, perto de um grande tanque incrustado de pequenas conchas, em cujo centro um tritão, firmado sobre rochas amontoadas, fazia jorrar, de sua trombeta, um esguicho de água, atirou o medalhão ao meio dos rochedos, onde ele desapareceu.
— Ninguém o procurará ali — pensou, aliviada.
E penetrou, às escondidas, em seu aposento.
Ilimitada raiva apossou-se de Raul, quando deu pelo desaparecimento misterioso do medalhão, e ainda que não se positivasse prova alguma da culpabilidade da esposa, esse inexplicável acontecimento lhe deixou no coração um sentimento quase que de ódio contra Valéria.
Álgida reserva-se estabeleceu em suas relações; o Príncipe fez-se indiferente e começou a buscar fora de sua casa prazeres que se lhe ofereciam facilmente.
Sua beleza e fortuna faziam-no desejado em qualquer parte; as mulheres tinham por ele adoração, enchendo-o de atenções.
Não tardou muito a murmurar-se a boca pequena, que O Príncipe de O"" alcançava êxitos retumbantes.
Rodolfo e Antonieta, cuja união era das mais venturosas, com funda tristeza observavam a vida, sempre mais dissipada, de Raul.
A Condessa fazia amiudadas visitas à amiga, e esta suportava, com infinita paciência, em silêncio, o afastamento do marido, dando-se com exclusividade ao cuidado do filho, a quem amava perdidamente, afeição, por outro lado, partilhada pelo Príncipe, envaidecido pelo herdeiro.
Esta a situação que se nos apresenta, quando retomamos o fio de nossa narrativa.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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