Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 01, 2016 7:59 pm

9 — 0 BAILE DE MÁSCARAS E SUAS CONSEQUÊNCIAS

Primórdios de janeiro. Em seu elegante toucador, Ruth, sentada frente à janela, brincava com o filhinho, posto sobre os seus joelhos.
Escapava-se da lareira viva claridade, dando aos móveis forrados de cetim ouro reflexos vermelhos, que se comunicavam também aos inúmeros bibelôs que atopetavam as mesas e aparadores, e à jovem mãe e seu filho.
Os negros olhos de Ruth cintilavam de maternal orgulho e de amor, fixando-se no pequeno Samuel, que ria esse riso ingénuo e claro da primeira idade, tentando apossar-se dos pretos anéis dos cabelos de sua mãe, que sempre os retirava, contrariando-o.
Esse orgulho da jovem mãe era visivelmente justificado, pela beleza do menino que mais parecia um querubim, de epiderme acarminada, longos cabelos louros e olhos negros de veludo.
A vista de um cãozinho espanhol veio repentinamente atrair a atenção do pequeno; quis descer do colo materno e pôs-se a brincar no tapete.
Vigiando-o com olhar atento, a jovem senhora imergiu em seus pensamentos, com toda certeza acres e tormentosos, já que suas feições se encheram de tristeza, sempre crescente, e, erguendo-se pôs-se a andar pelo aposento, agitadamente.
Ainda que o primeiro ardor de paixão de Ruth se amortecesse no ambiente de gelo que a cercava, guardava ciúmes do marido, com toda a impetuosidade de sua natureza, e julgava-se traída.
As assíduas saídas de Samuel, as inúmeras tardes que ele gastava fora do lar, pareciam suspeitas a ela, e bem erradamente desconfiava de alguma ligação clandestina.
Na verdade, Samuel não cogitava em nada semelhante.
Desde o famoso baile e os acontecimentos que se seguiram. Samuel enchera-se de calma, fazendo-se taciturno e arredio para com o belo sexo; não frequentava mais os salões aristocráticos (há dois anos quase não encontrava Valéria) dedicando-se completamente aos seus negócios, tão prósperos quanto nos dias de gestão do velho Abraão.
Somente, não se sentia livre, em seu íntimo, vivendo em posição falsa e constrangida em relação à esposa; preferia gastar as suas noites no clube ou nos teatros, em qualquer ambiente, enfim, mas que não fosse em seu lar.
Dissera à esposa, nesse dia mesmo, que jantaria fora, não voltando cedo.
Tal resolução acendeu em Ruth uma tempestade de desconfianças e de ira ciumenta.
De súbito, a jovem pareceu tomar uma decisão.
Fez soar a campainha e mandou a criada que levasse a criança.
— Essa situação não pode perdurar - murmurou, sozinha.
Está mais do que patente que ele me trai.
Entretanto, com quem?
Evidentemente, não o será com essa Princesa de O""", altiva, que o desprezou, conforme me contou Aarão.
Se me fosse dado penetrar em seu escritório, pode ser que ali descobrisse alguma indicação.
Ele estará afastado de casa todo o dia; vou tentar abrir com alguma chave a fechadura.
Não tivesse ele qualquer coisa a me esconder, não traria tão bem fechado esse aposento.
De posse de um molho de chaves, avolumado com as de outras portas, que ela reunia, Ruth encaminhou-se rapidamente ao quarto de Samuel e dali desceu ao escritório.
Inicialmente, seus esforços resultaram inúteis; contudo, finalmente, uma das chaves pareceu servir, a fechadura destravou-se e a porta foi aberta.
Entretanto, Ruth fechou-a cuidadosamente e lançou um olhar ávido nesse santuário do marido, onde poucas vezes penetrara.
Nada que lhe despertasse suspeitas caiu-lhe sob os olhos.
Junto à janela situava-se a grande secretária de ébano esculpido, com seu tinteiro de prata maciça, apresentando Rebeca no poço, peça que ela própria lhe ofertara no ano anterior.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 01, 2016 8:00 pm

Inutilmente levantou todos os pesos que prendiam os papéis, folheou cada folha solta, vasculhou mesmo os papéis amassados, atirados à cesta posta sob a secretária.
Não encontrou nada que a interessasse.
Impossível era abrir as gavetas; um segredo é que as fechava, sabia-o.
Desacorçoada, sempre mais apreensiva, Ruth dedicou-se ao exame das inúmeras caixinhas.
Avistou, em seguida, uma pequena caixa de laca, colocada próximo à secretária.
A caixeta não se achava fechada: mostrava, em profusão, bilhetes abertos, cartões de visita, envelopes com endereços, e anotações, e, no meio de tal confusão um envelope rosado, com bordas de ouro, sem nenhum endereço.
De olhos brilhantes, a jovem tomou-o e virou-o:
no alto do sinete, não corrompido, destacava-se um cupido, trazendo na mão esquerda um coração e, na direita, uma flecha, na disposição evidente de, com ela, atravessá-lo.
Intensamente ruborizada, Ruth retirou do envelope um bilhete cor-de-rosa, que exalava suave perfume, e leu, escritas com traços femininos, as seguintes linhas:
"Adorado,
"Recebi teu bilhete e não deixarei de comparecer, na noite de hoje ao baile de máscaras da Ópera; coloca tão-somente, uma rosa vermelha em teu vestuário, para que eu não me engane, se acaso encontre mais de um Mefistófeles no salão. Vestirei dominó preto, com um ramalhete de rosa-chá, atado ao ombro esquerdo por um laço cor de cereja.
Aguardar-te-ei à direita, junto ao quinto camarote, como me pedes. GEMA."
— Ah! — fez Ruth, a tombar quase sobre uma poltrona.
Então essa miserável actriz italiana é a minha rival?
Seu nome é Gema, eu o sei; e entre os seus inquilinos é que o Barão escolhe as suas amantes?
Bem prática é essa medida; contudo, desta vez, meu caro Samuel, fizeste os cálculos sem contar com o hóspede.
Tremendo, nervosamente sobreexcitada, fechou a caixeta e saiu do gabinete.
Verificou, impacientemente, que a chave não se ajustava agora.
— Seja, ele haverá de pensar que se esqueceu de fechar a porta ao retirar e guardar a chave - disse para si mesma, tomando, quase correndo, o rumo de seus aposentos.
Passado um quarto de hora em reflexões bastante agitadas, pareceu tomar uma decisão.
— Está decidido.
Hoje, signora Gema não comparecereis à entrevista — sussurrou ela.
Enviarei este bilhete amável ao vosso decrépito marido e, se o signore Giacomo, como dizem, é ciumento como um turco, tomará medidas para vos preparar um belo colóquio em casa, enquanto eu faço o vosso papel no baile!
Ah! traidor! enfim, poderei apanhar-te em flagrante, lançarei um olhar para trás de tua máscara de impassibilidade de gelo e escutarei como vibram as tuas palavras de amor!
Com o rosto abrasado, Ruth sentou-se frente à secretária e escreveu com letra diferente da sua:
"Caso prezais a vossa mulher, não deixeis que ela vá esta noite ao baile da Ópera.
O bilhete que junto a este vos demonstrará que o conselho parte de um amigo".
Fechando tudo em um envelope e escrevendo nele o endereço do signore Giacomo Torelli, Ruth entrou em seu dormitório, apanhou um bonito broche, encastoado de turquesas, que estava sobre o toucador, e, fazendo soar a campainha, chamou a criada particular.
— Lisete, queres ser-me fiel e jurar eterno silêncio para tudo quanto te ordenar esta noite?
Não hás de te arrepender.
A graciosa e esperta carinha da camareira iluminou-se de alegria; seus olhos perspicazes tinham percebido o broche na mão da patroa.
— Ah! Senhora Baronesa, acaso poreis dúvida quanto ao meu zelo em servir-vos?
Naturalmente, serei muda como uma tumba!
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 01, 2016 8:00 pm

— Bem, leva esta jóia pela tua boa vontade e escuta do que se trata.
Antes de tudo, deves, com habilidade, fazer com que esta carta chegue às mãos do signore Torelli; és capaz?
— Facilmente, porque seu criado particular e outro de seus servos são meu amigos.
— Sendo assim, procurarás depois um dominó preto bem elegante, e uma boa máscara.
Aí pelas onze horas, vestir-me-ei e tu me conduzirás até uma carruagem.
Estarás vigilante para que a portinhola do jardim esteja a noite aberta, por onde eu sairei, a fim de que tenha também desimpedido o caminho quando regresse.
Caso disponhas tudo conforme te peço, amanhã terás uma nova recompensa.
Com viva impaciência, Ruth aguardou a noite; gozava, já, em sua imaginação, o desengano que o marido experimentaria, quando descobrisse estar namorando a sua própria esposa.
Seu coração inflamava-se de satisfação com a esperança de inferiorizar, por fim, aquele cujo desprezo todo dia a estava ofendendo.
Infeliz Ruth!
Pudesse ela saber que Samuel, retornando de uma viagem matutina, havia tão-somente achado na escada o bilhete comprometedor, perdido por aquele que devia fazê-lo chegar a seu destino; pudesse ela ter visto o sorriso de mofa e de indiferença com que o banqueiro tinha se inteirado daqueles termos e atirado a carta na caixeta (com toda a certeza!) abandonaria tal propósito, que devia redundar nas mais graves consequências.
Entretanto, nada podendo prever do futuro, Ruth esmerou-se nos preparativos:
queria surgir em toda a sua beleza, quando tirasse a máscara. Com derradeiro olhar dirigido ao espelho, inteirou-se de que naquele vestido de cetim preto, ornado de rendas de Chantilly, cordões de pérolas ao pescoço e nos cabelos negros, estava maravilhosamente bela.
Vestiu o dominó, baixando o capuz sobre o rosto mascarado; Lisete prendeu-lhe o ramalhete ao ombro, com laço cereja.
Cobriu-se, depois, com pelicas e, seguida pela criada, penetrou no jardim.
O caminho que levava ao portãozinho estava sempre bem cuidado, também no inverno, porque os jardineiros serviam-se dele para o serviço da estufas.
Dessa maneira, as duas mulheres chegaram à viela sem encontrar obstáculos.
Na esquina, uma carruagem aguardava, tendo-a Lisete ajudado a subir nela, e, após alguns minutos, a viatura detinha-se frente à fachada luminosa da Ópera.
Meia-noite:
carruagens surgiam seguidamente, trazendo novos recém-vindos.
Com o coração a saltar-lhe, Ruth penetrou no salão inundado de luz:
pela vez primeira encontrava-se, e ainda mais, só, em meio a tal confusão.
O abafado vozerio de multidão requintada e alegre, que se apertava ao derredor as risadas, as chacotas que se cruzavam alguns chistes directos endereçados ao gracioso dominó, causaram-lhe num instante uma tontura; recobrando, porém, toda energia, abriu caminho para a posição convencionada e encostou-se a uma coluna.
Não foi preciso esperar demasiado.
Logo percebeu a alta e elegante figura de um Mefistófeles que abria alas entre o povo, caminhando na direcção dela.
Vestia com a fantasia tradicional, confeccionada em veludo vermelho, manto com capuz e, na testa, uma espécie de couro, com orifícios que se ajustavam perfeitamente nas angulosidades do rosto, recobrindo-o completamente.
Na cintura, onde uma guarnição, verdadeiro trabalho de ourivesaria, sustinha a espada do rei do Averno, uma rosa purpúrea balouçava-se.
Ruth foi sacudida por um tremor nervoso, supondo reconhecer Samuel.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 01, 2016 8:00 pm

Evidentemente, a roupa colante, que exibia as formas perfeitas do mancebo, mudava sobremaneira o seta exterior, tornando-o de relance mais alto:
contudo, a mão fina, de longos dedos, desenhados pela luva branca, era inegavelmente a sua; e não poderia enganar-se também sobre a identidade daqueles olhos negros que brilhavam nos orifícios da máscara.
No instante em que Mefisto, esbarrando levemente, passou junto dela, Ruth percebeu que ele depunha em sua mão um papel e que, sem virar-se, mergulhava na multidão.
Ruth procurou um recanto isolado, abriu o bilhete e, bastante admirada, leu estas linhas apressadas, rascunhadas a lápis:
"Rodolfo concebe suspeitas quanto a nosso encontro, e nos vigia.
Convém que nos retiremos; espera-me embaixo, junto a escada grande; ali me reunirei a ti, muito breve".
— Certamente, algum outro amante, do qual o Sr. Maier teme o ciúme — raciocinou Ruth, amassando o papel na mão e encaminhando-se para a salda.
No meio da escada, Mefisto reuniu-se outra vez a ela.
Em silêncio a jovem aceitou o braço, permitiu que ele lhe vestisse a capa, e partiu com o companheiro, que a conduziu a uma sege estacionada perto dali.
Ajudando-a a tomar assento e sentando se junto deia, Mefisto meteu a cabeça pela portinhola e deu um endereço ao condutor.
Ruth foi tomada de sobressalto: essa voz soava-lhe com um timbre que lhe pareceu estranho.
— Disfarça-o, por prudência — explicou a si mesma, tentando manter-se calma.
Nesse instante, o companheiro abraçou-a e sussurrou em tom carinhoso:
— Gema, meu amor!
Sensação desagradável, despeito e mal-estar a um só tempo, tomou posse da jovem; tão diferente apresentava-se esse Samuel daquele que ela conhecia!
Contudo, não lhe foi dado reflectir muito tempo; conduzida a galope, a carruagem deteve-se junto a um pequeno poial, ao lado de enorme casa, cuja frente estava sobejamente iluminada.
Mefisto desceu, e, antes mesmo que accionasse a campainha, a porta se abriu, denunciando uma escada recoberta de tapete e engalanada com flores:
um criado, de gravata nevada, apressara-se em ajudar Ruth a descer do carro.
Em voz baixa dando algumas ordens ao lacaio, Mefisto deu o braço à jovem e levou-a a um diminuto aposento, dividido em sala e gabinete, mas ambos mobiliados com grande luxo.
Enquanto se desembaraçavam de suas máscaras, o criado apresentou-lhes uma refeição gelada; depois, servindo ainda frutas, pastéis e vinho, afastou-se discretamente.
— Eis que é chegado o instante da revelação — pensou Ruth, sentando-se e analisando cheia de curiosidade a Mefisto, que, de pé em frente ao espelho, desembaraçara-se da espada e estava a tirar a máscara.
Neste propósito, retirou a viseira de couro que lhe guardava o rosto e surgiu, para os olhos espantados de Ruth, um rosto absolutamente estranho, coroado de espessos cabelos louros e encaracolados.
Com um grito rouco, Ruth ergueu-se:
aquele que ela julgara ser Samuel era um homem que não conhecia, com quem se metera numa casa de prostituição.
Ouvindo tal exclamação surpreso, Raul (era ele, pois) virou-se, surpreso.
— Minha adorada Gema, mostras-te bastante sensível hoje; por que te assustas? — indagou, sorrindo.
Será que te amedronto?
— Senhor! — exclamou, desesperada, Ruth.
Peço-vos, deixai-me ir; fui vítima de execrável erro; estou enganada e julguei que fósseis outra pessoa!
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 01, 2016 8:00 pm

Sempre mais surpreso, o Príncipe fitou o rosto, ainda coberto pela máscara, da companheira.
— Pois este é um erro que me alegra, disse, entre risonho e irado.
Não calculais o que me exigis, Senhora.
Seguistes-me, de moto próprio, atendestes ao nome de Gema, ostentais sinal combinado; impossível, portanto, que se trate de um erro.
Enfim, minha linda, encerrai esses maus gracejos, e vamos à ceia.
Pegou as mãos da jovem e pôs-se a tirar-lhe as luvas.
— Senhor, enchei-vos de generosidade e não procureis deter-me — suplicou a jovem senhora, intentando fugir-lhe.
Juro-vos que não sou Gema Torelli, e supus acompanhar outro, e não vós.
— Senhora, bem idiota me mostraria desprezando a sorte que o acaso me manda! — disse, num galanteio, Raul.
Sois, estou bem certo, mais linda do que Gema Torelli.
Sou discreto, e conformar-me-ei em vos amar sem identificar-vos.
Antes que terminemos a ceia esta porta não será aberta.
— Não tendes piedade, senhor — balbuciou Ruth, com voz sufocada.
Contudo, se finalmente me prometeis não tentar ver meu rosto, e não me deter depois, cearei convosco.
— Agradeço-vos esta primeira concessão, linda desconhecida, assentemo-nos, então.
Como deverei chamar-vos? — perguntou Raul, evitando uma resposta franca.
— Chamai-me por Gema, já que este foi o nome infeliz que nos reuniu aqui.
Enquanto servia a sua dama, conquistando-a pouco a pouco com uma dessas palestras agradáveis e ligeiras, nas quais era exímio, Raul observava-a, sempre mais curioso.
O enorme valor das pérolas que lhe vestiam o pescoço e os cabelos, deu-lhe a conhecer que estava em presença de mulher rica; seus modos e conversação mostravam-lhe pessoa de alta categoria; tudo quanto indicava sua figura era mocidade e beleza. Quem seria?
Por seu lado, não obstante a desagradável emoção, Ruth estava enlevada pelo encanto da conversação; essa galanteria cavalheiresca, as finas lisonjas, o olhar quente e fascinante, buscando sofregamente
o seu, eram prazeres novos para a jovem reclusa e amesquinhada, que se via, na casa do marido, apenas tolerada.
Sempre mais condescendente, fitava o formoso rapaz sentado junto dela, estabelecendo, sem o sentir, paralelo entre o reservado e frio Samuel e esse fascinante cavalheiro, do qual, em cada palavra ou gesto, parecia estar recebendo uma homenagem à sua beleza, entretanto meio oculta.
Tomada desses sentimentos, suas respostas animavam-se a mais e mais, e os olhos tornavam-se mais brilhantes.
A esse ponto, porém, a impaciência e curiosidade de Raul chegavam ao extremo limite:
não mais podendo reprimir-se, inclinou-se de improviso e, com gesto ousado, ergueu-lhe a máscara.
Intenso rubor, como sangue, tomou todo o rosto de Ruth.
— O procedimento que acabais de ter, senhor, é dos mais indignos — exclamou, com os olhos despedindo chispas.
Aturdido e arrebatado pela beleza encantadora e provocante da jovem judia, Raul quedou-se um momento em silêncio.
Ajoelhando-se, depois, tomou-lhe a mão, apertando-a contra os lábios.
— Senhora, estou de joelhos a implorar-vos que me perdoe.
Não devo, contudo, lamentar meu acto ousado, visto que a ele devo o supremo prazer de admirar a vossa divina formosura.
Bem se percebe que sois patrícia de Gema Torelli; entretanto, ela é apenas uma mesquinha sombra em comparando a vós, maravilhosa encarnação da Armida sonhada por Tasso!
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 01, 2016 8:01 pm

A esta altura, o Príncipe já se esquecera absolutamente da suave e loura Valéria; todos os seus sentidos estavam dominados por essa estupenda e voluptuosa beleza, que o nervosismo tornava ainda mais atraente.
Não podia ele mesmo entender a inflexão carinhosa e doce que havia em sua voz, a ardente súplica de seus olhos, no momento em que insistia, enchendo-lhe as mãos de beijos, pedindo-lhe que não se fosse, e lhe concedesse ainda uma hora de conversação.
— Posso perdoar-vos, senhor, e permanecerei ainda um pouco; contudo, fazei-me o favor de erguer-vos e jurai-me que não procurareis identificar-me — pediu Ruth, sentando-se cansada na poltrona.
Nova e especial disposição de espírito dominava a jovem.
Debaixo da ardência do olhar admirativo de Ruth, sua vaidade feminina, a certeza de ousar que sua beleza lhe dava, despertavam então violentamente.
Ela era capaz, via bem, de inspirar amor; seus favores eram solicitados como graças; esse homem, assim belo, amável, que implorava de rastos a suprema ventura de estar ainda por mais uma hora a seu lado, eram prova insofismável.
Tomou-lhe o cérebro uma onda de orgulhosa satisfação, que a entonteceu; o desconhecimento dos perigos da vida, alimentado pelo exílio ao qual Samuel a relegara, embriagou-a com essa vitória que, na verdade, era mesquinha e degradante.
Afrontadoramente, um sentimento perverso, eivado de ressentimento e mágoa, ergueu-se contra o marido e, no instante mesmo em que Raul ainda sussurrava a seus ouvidos palavras apaixonadas, frente à sua vista espiritual descortinavam-se, caleidoscopicamente, os três anos decorridos de sua existência conjugal, vida insípida, destituída de carinho, ao lado do homem frio e casmurro, que a abandonava e desprezava o seu amor.
Algumas lágrimas quentes escapavam-se de seus olhos e desciam por suas faces pálidas.
— Deus do Céu!
Por que chorais, senhora? — exclamou Raul, fixando seus olhos admirados no semblante mudado da mó.
Então! sede sincera; explicai-me qual a intenção que vos trouxe a este baile e vos levou a tal situação, que, pelo visto, vos causa sofrimento.
— É verdade, conduziu-me até aqui a fatalidade; contudo, senhor, deposito confiança em vossa promessa: não busqueis nunca saber quem sou, já que sou casada e, ainda que meu marido ame a outra e eu viva desventurada e infeliz, não desejo outro consolo senão a presença do meu filho.
Uma nuvem de tristeza ensombrou as faces de Raul, suas sobrancelhas uniram-se.
— Tão formosa e desprezada! — sussurrou.
Ajuntou, então, pesaroso:
— Sabeis muito bem, senhora, que apenas uma fatalidade nos uniu hoje neste aposento.
Também eu amei com toda energia de minha alma, e fui traído; preferiram-me, além de tudo, por... miserável! (Raul fechou os punhos).
Entretanto creio entender de modo diferente a sorte que nos enviou um para o outro.
Estamos, os dois, abandonados; nossos desprezados corações encontrarão consolo, sustentando-se mutuamente; deixai-me que vos inflame com meu amor; jamais repito, tentarei descobrir quem sois; contudo, para vos provar quanto sou sincero, não farei segredo, de meu nome:
chamo-me Raul, Príncipe de 0""". Concedei-me um pouco de vosso amor, e olvidemos, amando-nos, as feridas que sangram em nossos corações!
Ruth tudo escutara de cabeça baixa.
A carícia dessa voz o olhar atraente que sentia posto sobre ela, agiam em seu organismo como sedativo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 01, 2016 8:01 pm

Samuel, seu filho, sua família, tudo se obscureceu diante do desejo irrefreável de tentar essa ventura de sentir-se amada, de esquecer a tudo o mais para vibrar na atmosfera de paixão que jamais conhecera e que a prendia, como o abismo atrai o insensato que se inclina para ele.
Ouvindo o nome do Príncipe, teve um sobressalto, e nasceram em seu cérebro, em turbilhão, mil pensamentos novos.
Na verdade, a sorte era mais irónica do que o supusera Raul, pois arrastava aos pés de Ruth o marido de sua rival, aquela loura traidora que lhe roubara o coração de Samuel.
O destino punha em suas mãos uma requintada vingança, e quão tola seria se deixasse escapar aquele ensejo.
Assim, quando Raul a abraçou, não opôs nenhuma resistência e aceitou sem queixa o beijo ardente que ele lhe depôs nos lábios.
Uma hora decorrida, quando se separou de Raul, prometera notícias a respeito de um endereço secreto, que ele lhe indicou.
Parecendo até embriagada, deixou-se colocar num carro e penetrou em casa, onde sua ausência por ninguém fora notada.
No outro dia, quando despertou, recobrara o uso da razão, e tudo quanto sucedera na noite anterior surgia-lhe na memória como um sonho fabuloso; estranho sentimento, a um tempo vergonha, desgosto e orgulhosa satisfação, nasceu-lhe no íntimo.
Chamou a camareira, que lhe informou ser muito tarde.
Samuel almoçara sozinho, descendo ao escritório, com o aviso de que só voltaria a noite, com algumas pessoas para o jantar.
Sentindo a cabeça pesada, Ruth ergueu-se e mandou que lhe trouxessem o menino; contudo, quando o viu, com esforço susteve um grito:
era a figura viva do Príncipe que lhe estendia os bracinhos!
Por que singular acaso o filho de Samuel trazia impressas as feições do seu rival?
E que horrível tentação para Ruth ver, a todo instante, o negro-aveludado desses olhos, os cabelos louros e o sorriso cheio de sedução que traziam para diante dela a imagem viva daquele que ela prometera a si mesma apagar da lembrança! Com o coração angustiado, Ruth apertou contra o seio o menino.
Viveu aquele dia em agoniada ansiedade e, à noite, vendo novamente Samuel, distante e glacial, como sempre se mostrara, confrangeu-se-lhe o coração mais doloridamente do que nunca.
Entretanto, seus bons propósitos não sofreram alteração e, após ardente prece, deitou-se, disposta, a fugir da tentação e permanecer sempre fiel às suas obrigações.
Dois dias passados após o baile de máscaras, no instante em que terminavam o almoço, Samuel depôs sobre a mesa o jornal, sobre o qual passara ligeiramente os olhos, e disse, voltando-se para a esposa:
— Minha cara Ruth, notícias que acabo de receber de Paris, forçam-me a ir para lá, imediatamente; seguirei no trem das quatro; tem, portanto, a fineza de mandar preparar minhas malas, e fazer que o jantar seja posto às três e meia, exactamente.
— E quando regressarás? — indagou Ruth.
— É coisa que não posso marcar.
Estarei de volta, talvez, dentro de seis semanas; entretanto, posso ser retido ali por dois meses ou mais.
Ruth fez-se pálida; por longos meses, quem sabe?, estaria entregue ao tédio e aos pensamentos tentadores.
— Samuel — murmurou, a voz sumida e trémula — leva-me contigo nesta viagem; há tanto desejo visitar Paris, e aqui é tudo tão sem expressão sem ti!
Samuel fitou-a com olhar de surpresa e descontentamento.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 01, 2016 8:01 pm

— Que absurda ideia!
Não me dirijo a Paris com o fito de divertir-me, mas chamado por negócios urgentes, que me tomarão todo o tempo.
Como vê, não posso embaraçar-me com ónus de família, criadagem, etc., além do que não acredito que queiras deixar aqui o menino sob a orientação das criadas.
Ademais, estás esquecida de que uma casa qual a que temos não pode ficar sem vigilância.
No que tange às despesas, já está Levi com as instruções e porá à tua
disposição tanto dinheiro quanto necessitares.
Terminado o jantar, abraçou com ternura o filho, ao qual dava mostras de amar loucamente; com um beijo indiferente na testa de Ruth, partiu.
Tendo ao colo o pequeno Samuel, a jovem senhora acercou-se da janela, e viu o marido entrar para a carruagem.
Ele não se voltou e, instantes depois, a elegante caleça sumiu-se na esquina.
Ruth devolveu o menino à ama, e fechou-se no dormitório.
Desfez-se em lágrimas; surda ira, em que se misturavam raiva, mágoa e orgulho, refervia dentro dela.
— Ah! — desabafou — a ti, Samuel, verdadeiramente não passo de uma despenseira mais do que as outras elegantes; peça da mobília de teu palácio; não precisas coisa alguma da minha afeição.
Desejei conservar-me honesta; tu és quem me obrigas, de forma rude, a buscar em outra parte o amor que me negas, e há-de ser com o homem que te arrebatou aquela a quem amas que te trairei.
Com as faces em fogo, sentou-se à secretária, e rascunhou, com mão insegura:
"Se estais desejoso de tornar a ver Gema, encontrá-la-eis amanhã, às onze horas, no Rinque Inglês".
Deu ao bilhete o endereço que lhe havia indicado Raul.
Chamou, depois, a Lisete e ordenou que a acompanhasse à morada de uma velhinha pobre, à qual socorria de quando em quando.
Transcorridos dez minutos, as duas saíam a pé, e Ruth encontrou ensejo de atirar a carta numa caixa de correio, sem ser notada.
Dirigiu-se, no dia seguinte, ao lugar do encontro.
Devido à hora matinal, poucos eram os patinadores; contudo, ao primeiro golpe dos olhos, pode distinguir entre eles o Príncipe que, olhar inflamado e brilhante, cumprimentou-a assim que ela surgiu.
— Feiticeira — sussurrou Raul, acercando-se — de que modo agradecerei esta entrevista?
Diante de tantos olhares curiosos não posso palestrar convosco.
Tenho escrito um bilhete onde apresento um plano que nos permitirá conversarmos sem testemunhas.
Gema idolatrada, deixai cair a vossa luva e, quando eu a erguer, colocarei dentro dela o bilhete e, se consentirdes, amanhã estarei aos vossos pés.
De regresso à casa, Ruth abriu sofregamente o bilhete que encontrou na, luva, e leu:
"Minha adorada
Para nossa segurança, mas sobretudo para manter o vosso incógnito, que, uma vez mais, juro respeitar, sempre, é imprescindível que as nossas relações se abriguem em impenetrável mistério.
Rogo-vos, assim, concordeis com o seguinte:
possuo, num bairro distante, uma casa, habitada tão-somente por dois homens que me são totalmente dedicados, e mudos como tumbas.
Um desses homens, de nome Nicolau Netosu, depois de amanhã irá esperar-vos com uma carruagem, às duas horas, à esquina do Dome, onde vai dar também uma das saídas da grande loja "Economia Racional".
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 01, 2016 8:01 pm

Entrareis pelo lado oposto desta loja e aí deixareis quem vos acompanhe e, atravessando o grande bazar, ireis sair à rua indicada.
Logo percebereis Nicolau pela libré preta, com tope azul no chapéu.
Ao passardes junto dele, dirá:
"Senhora Gema" ao que vós respondereis:
"Rosa Vermelha".
- Tomai, em seguida, o coche com absoluta confiança, e estareis rapidamente junto daquele que deseja tão-só estar aos vossos pés e aguarda ansioso esse instante".
Meticulosamente, Ruth queimou essa carta, disposta a seguir, ponto por ponto, as indicações de Raul.
No dia aprazado, encaminhou-se à loja, onde também fazia habitualmente compras, atravessou-a e alcançou a rua determinada; ninguém demorou sua atenção sobre a jovem que, precavidamente, vestira um vestido preto bastante simples e, no instante de deixar o magazine cobrira a cabeça com um véu espesso.
Momentos depois entrava em uma carruagem fechada, que a transportou a toda brida.
Esquisito sentimento, apaixonada esperança e remorso a um tempo, atormentava o coração de Ruth; com olhar indagador e sobressaltado, observava a estrada pela qual a levavam.
Abandonando as ruas mais concorridas, a carruagem chegou a um arrabalde, enveredou por uma avenida ladeada de árvores, fez a curva para outra avenida ainda mais deserta, após ter renteado um muro alto, por trás do qual se percebiam as árvores desfolhadas de um jardim e a estreita frontaria de uma pequena e vetusta casa de persianas fechadas, a sege penetrou através de vasto portão e fez alto e m um grande pátio calçado, no limite do qual já se encontrava outro carro parado.
O condutor saltou do coxim e abriu a portinhola a Ruth; nesse instante a porta da casa abriu-se e um senhor de meia-idade, com ar de elegância e dignidade, dando-lhe a mão, ajudou-a a subir uma escada estreita, não obstante atapetada e engalanada de flores.
Felicíssimo, de olhos cintilantes, Raul saiu ao seu encontro.
Desembaraçou-a do véu e, osculando-lhe a mão, disse:
— Muito grato por terdes vindo; oh! minha adorada, estais toda gelada; antes de qualquer coisa, convém reconfortar-vos um pouco.
E, voltando-se para o criado: — Gilberto, estará pronto o chocolate?
— Vou servir-vos, Alteza — retrucou o serviçal, afastando-se.
Interessada e cheia de admiração, Ruth pôs-se a observar a encantadora salinha onde o Príncipe a introduzira.
Todas as coisas, a contar das tapeçarias e cetim até a mobília e os quadros faziam ressaltar um gosto garrido e voluptuoso; o salão comunicava-se, por um lado, com o refeitório; de outra parte, dava para um toucador e dormitório, do qual apenas se percebia certo móvel, que uma toalha enfeitada de rendas cobria, e encimado por grande espelho sustentado por dois Cupidos.
Grossas sanefas deixavam ocultas todas as janelas; candelabros sobrecarregavam-se com inúmeras velas que despejavam por toda parte cataratas de luz.
O sinal de que o chocolate estava servido interrompeu a palestra dos dois amantes.
Nem o Príncipe, nem sua companheira perceberam o estranho fulgor que brotou nos olhos amarelos tostados de Gilberto quando os fixou em Ruth.
— Estais absolutamente seguro da circunspecção destes dois homens , Raul? — perguntou Ruth, pondo-se à mesa.
— Como de minha discrição mesma, — afirmou o Príncipe, servindo-lhe pastéis.
Gilberto e Nicolau Netosu são pessoas de esmerada educação; os percalços da vida levaram-lhes a fortuna e, visto como eu os ajudo a refazê-la mostram-se cegamente devotados aos meus interesses.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 01, 2016 8:01 pm

À primeira entrevista seguiram-se outras, resguardadas com a mesma prudência e sempre mais ansiadas pelos amantes.
Raul estava arrebatado pela sua linda desconhecida, e Ruth, totalmente inebriada, apenas existia em razão deste amor, para o qual confluíam, enfim, todos os impulsos de sua constituição ardente e apaixonada, há tanto comprimidos na fria atmosfera de sua vida conjugal.
Correram assim quase dois meses.
Samuel ainda estava ausente e afirmava, em suas raras cartas, não poder determinar ainda a data de sua volta.
Ruth, que somente se lembrava do marido com ira e nojo, desejava que a ausência se prolongasse ainda mais.
À presença do marido, cerceando a sua liberdade, enchia-se de medo, porque viver sem o amante, longe da atmosfera quente de seu amor, assemelhava-se-lhe pior do que a morte.
Infeliz Ruth!
Ignorava que tempestade ainda mais perigosa do que o regresso de Samuel se formava sobre a sua cabeça, e que um inimigo já se apossara de seu segredo.
De uma feita, quando a moça subia para o carro, caiu-lhe uma bolsinha que levava na mão.
Disse a Netosu, antes que ele terminasse de fechar a portinhola, pedindo-lhe que a erguesse.
No instante em que o rapaz se curvou, um homem, passando, oculto em espesso cachené, deteve-se, admirado, e lançou curioso e surpreso olhar para dentro do carro.
Ruth e seu condutor de nada se aperceberam; contudo, Josué Levi (pois o homem era o corrector do banqueiro) sussurrou, abanando a cabeça:
— Aí está uma senhorinha que se parece, de modo estranho, tanto na voz como no porte, com a esposa do patrão.
Hum! Hum! Faz-se necessário que eu a vigie um pouco, pois já me pareceu que ela sai demasiado.
A partir desse dia, uma invisível porém rigorosa vigilância se processou em torno da jovem.
Com a sagacidade e constância naturais do israelita, Levi seguiu a pista e verificou que Ruth, abandonando sua carruagem abertamente na porta de alguma passagem ou loja de saída dupla, alojava-se numa caleça desconhecida e entrava em misteriosa e reservada casa, onde se demorava uma ou duas horas.
O acaso colocou-o no caminho da verdade, e veio aferrar-lhe o ardor: em uma manhã encaminhara-se para o teatro, a fim de munir-se de bilhetes para a mulher e sua filha, e, por que muita gente esperasse frente à bilheteria, Levi postou-se junto da parede, aguardando o instante em que uma brecha se abrisse.
Perscrutando em volta de si com o olhar vivo, notou, a alguns passos, o jovem que acompanhava Ruth nas suas visitas misteriosas, o qual, naquele preciso instante, conversava a meia-voz com um oficial que lhe voltava, parcialmente, as costas.
Cheio de curiosidade o judeu acercou-se e pôde escutar as palavras:
— "Diz a...
Seu espanto, porém, não conheceu limites quando, no oficial, reconheceu o Príncipe de O"" a quem devotava ódio mortal desde a perda do filho, Baruch, da qual o sabia responsável.
Espicaçado pela vingança e esperançoso de acender a ira de Samuel contra o odiento fidalgo o israelita aumentou seu zelo.
Em pouco tempo estava no domínio de todas as teias da intriga e aguardou, com febril impaciência, o regresso do seu patrão.
Contudo, mais um mês se passou e Samuel não tornava; o vingativo judeu já temia que se esfumasse o capricho do Príncipe para com Ruth, e sua própria represália não se executasse, por faltarem provas.
A nova de que a Baronesa engravidara, trazida por Lisete aos criados, o decidiu e, sem demorar-se mais, rumou para Paris.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 02, 2016 8:16 pm

Samuel habitava, num dos mais distintos hotéis, magnífico apartamento, onde dava audiência a um reduzido número de escolhidos financistas e literatos, procrastinando de dia para dia a hora do regresso.
Nessa atmosfera diferente, afastado do angustioso constrangimento que lhe ia no íntimo, ele respirava mais desafogado, e o único motivo que, às vezes, o fazia ansiar pela volta era (coisa esquisita de se conceber), o menino, em cujas veias não corria sequer uma gota de seu sangue, que tinha a fisionomia de seu rival e ao qual, apesar de tudo, amava com entranhado afecto, misto de ressentimento e ciúme, que, frequentemente, o fazia desgostar das carícias prodigalizadas pela esposa à criança.
Uma tarde, lendo junto da janela, terminando um charuto, o camareiro anunciou-lhe que o seu agente de negócios chegava de Pesth e desejava falar-lhe sem tardança.
Surpreso e inquieto, Samuel ordenou que o fizesse entrar.
— Que motivo te traz aqui, Levi?
Sucedeu algo de grave ao meu pequeno, algum transtorno nos negócios? — indagou, designando uma cadeira ao empregado.
— Não se trata disso, Sr. Barão, tudo corre bem; contudo, a minha fidelidade, a minha obrigação para com um chefe da vossa têmpera, obrigaram-me a vir dizer-vos que.. enfim, para pôr-vos ao corrente de um facto...
Calou-se, hesitante, sem saber por onde principiar a exposição.
— Que querem dizer essas reticências? — exclamou Samuel, cheio de impaciência.
Vejamos, Levi, deixa de torturar essa cadeira e diga-me com clareza do que se trata.
— Trata-se de uma traição, e sois vós a vítima, razão por que minha consciência não quer que me cale por mais tempo — explicou, resoluto, o corrector.
— E quem me traiu?
Mediste bem as consequências de tal acusação? — inquiriu o banqueiro, fazendo-se pálido.
— Estou de posse de todas as provas, pois de outra forma nem teria vindo — contestou Levi, de olhos flamejantes.
Vossa esposa vos trai, senhor Maier; mantém escandalosas relações com o Príncipe de 0"", com o qual se encontra secretamente numa mansão afastada, e, para encher as medidas, está grávida!
O banqueiro deu um salto da cadeira, terrivelmente pálido.
— Ah! eis o que passa todos os limites — murmurou entre dentes.
As provas? E as provas, Levi?
Contai-me tudo:
o desgraçado atreve-se a penetrar no meu palácio?
— Não, tudo se passa muito sigilosamente, e tenho razões para acreditar que o Príncipe desconhece o nome real de sua amante.
Permiti que vos exponha todos os factos na ordem...
E Levi narrou, de forma sucinta, mas sem omitir coisa alguma, toda a história de sua descoberta.
— Agora, Sr. Maier, diz respeito a vós o apanhar em flagrante os traidores:
sei qual é a casa onde eles se encontram, e poderei conduzir-vos até lá, devendo apenas a sua chegada a Pesth manter-se em segredo.
Oh! Convém ser prudente nestas coisas!
Os irmãos Netosu, que guardam o refúgio do Príncipe, são canalhas insubornáveis; contudo, consegui que o cocheiro desse com a língua nos dentes, e soube que a Baronesa se faz passar por Gema, uma italiana.
Apoiado ao cotovelo, a cabeça na mão, Samuel escutara, em silêncio, a narrativa de Levi e, num violento esforço sobre si mesmo, recuperou a calma necessária.
Quando o velho judeu terminou, ele ergueu-se com a tranquilidade costumada.
Apenas a lividez funérea de seu rosto demonstrava que uma borrasca estrugia no seu íntimo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 02, 2016 8:16 pm

— Estou reconhecido, Levi, à tua fidelidade e não me esquecerei de mostrar-te a minha gratidão.
Estou decidido a partir no primeiro trem; estarás comigo e me levarás à casa isolada assim que houveres concebido o instante azado.
Minha esposa de nada poderá desconfiar, porque, ainda ontem lhe escrevi uma carta na qual estabeleço improrrogavelmente o regresso para 10 de junho e ainda estamos no dia 18 de maio.
Certamente, estará segura de que não me apresentarei antes disso.
Agora, não te prendo mais, podes ir aos teus negócios.
Na estação nos veremos.
Adquire as passagens e aluga um carro.
Tendo Levi saído, Samuel chamou o criado particular, dando-lhe ordens no sentido de arrumar alguns objectos mais necessários na maleta de mão, já que viajaria só, dentro de poucas horas.
O fâmulo ficaria em Paris encarregado de saldar as contas, aquelar a roupa e seguir o patrão no prazo de vinte e quatro horas.
E mais: ordenou-Ihe expressamente que se dirigisse directamente para sua quinta, com todas as malas, e não arredasse pé dali até ordem em contrário.
A noite já se fechara quando o banqueiro chegou a Pesth, alojando-se em modesto hotel, bastante retirado de seu palácio.
Só, deitou-se e pôs-se a pensar, como fazia sem cessar, desde que saíra de Paris.
Seus pensamentos estavam mais e mais envenenados, ásperos e agressivos contra Ruth.
Mostrava sentir pouco caso pela jovem que, não obstante, o amara com toda paixão.
Que fossem suficientes apenas quatro meses e meio para fazê-lo olvidar, pouco o impressionava; contudo, que ela se tivesse atrevido a traí-lo com o inimigo mortal, ao qual ele odiava, a esse pensamento agitava-se algo dentro dele, arrebatando-lhe o sono e o descanso.
Não que tivesse ciúmes de Ruth, mas o bastardo filho daquele que lhe atirara a pecha de usurário, desprezando bater-se com ele, depois de o ter gratuitamente insultado, evidentemente não haveria de suportá-lo debaixo de seu tecto.
Perto já das duas horas da tarde, Levi deu-se pressa em comunicar-lhe que Ruth vinha de tomar assento no carro suspeito.
Samuel entrou rapidamente numa caleça e encaminhou-se para sua habitação.
Sem se importar com o espanto estupidificado do guarda-portão, o banqueiro deu ordens a um servo que, admirado, caminhava ao seu encontro, fizesse atrelar de pronto uma carruagem.
Encaminhou-se depois aos aposentos da esposa.
A uma ordem sua, Lisete compareceu, cheia de susto.
Samuel trancou a porta a chave e, apertando asperamente o braço da camareira, disse-lhe com olhar que a fez estremecer:
— Agora mesmo hás-de confessar tudo quanto conheces dos assuntos da tua patroa. Hei-de gratificar tua franqueza, mas não perdoarei sequer uma reticência.
Lívida de terror, Lisete narrou a história da carta mandada ao Sr. Giacomo, a ida ao baile de máscaras e, por fim, confessou que a patroa saía amiudadas vezes, mas sem lhe confiar onde passava tantas horas, e também que recebia cartas, as quais queimava com todo cuidado.
— Muito bem; vai-te, e faze com que venham aqui a ama e o menino — disse Samuel, que a ouvira com atenção.
Depois de abraçar ternamente a criança, que emitia gritos de entusiasmo pela sua presença, deu ordens à camareira e à aia de que se munissem dos objectos mais necessários ao menino, e partis sem prontamente para sua casa do subúrbio. Depois, entrou no gabinete, rascunhou uma carta, e, seguido por Levi, saiu de casa, e dirigiu-se, num fiacre alugado, ao local da entrevista amorosa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 02, 2016 8:16 pm

Tendo o veículo parado, o banqueiro observou, com torvo olhar, o arruinado e quieto edifício; deu, depois, suas determinações a Levi, que desceu e fez soar várias pancadas na porta principal, hermeticamente trancada.
Após um período de tempo bastante longo, um diminuto postigo gradeado se abriu, e surgiu a cabeça ardilosa de Nicolau Netosu.
— Quem sois vós e como vos atreveis a fazer tanto barulho à minha porta? — indagou.
— Aqui está uma carta de muita importância, que vos rogo fazer chegar sem demora às mãos do Príncipe de O""".
— Não se encontra aqui o Príncipe e não posso entender de nenhuma maneira o vosso pedido — redarguiu Netosu, suspeitoso.
— Chamais sobre vós, então, toda a responsabilidade, privando vosso amo de um aviso muito grave.
A despudorada firmeza do judeu pareceu convencer o rapaz; aceitou a carta e cerrou de novo a portinhola.
Nem de longe imaginando o que se passava, Ruth e o Príncipe encontravam-se no toucador.
Felizes, e à vontade, falavam de seu amor.
Reclinada ao ombro do amante, a jovem o fitava apaixonadamente, sorvendo com avidez cada uma de suas palavras.
Raul mostrava-se jovial e galante, pois, ainda que e m grande parte diminuída, sua fantasia não se extinguira completamente.
Um leve toque na porta pôs em sobressalto os dois amantes.
Com o rosto lívido e preocupado, Gilberto assomou entre as dobras do cortinado.
— Perdoai-me, Alteza, mas acontece algo de incompreensível:
um homem que não conhecemos trouxe esta carta para vós, e afirma ser assunto de muita gravidade.
Corado até a raiz dos cabelos, Raul tomou a missiva.
— Quem haveria de saber que me encontrava aqui? — exclamou, abrindo o envelope, com despeito.
De repente, palidez mortal lhe assomou ao rosto e os olhos, saltados, leram as linhas que se seguem:
"Senhor Príncipe
"Julguei fosseis coerente na antipatia que devotais a tudo o que é judeu e usurário, e tão cuidadoso na escolha das vossas amantes, quanto sois na de vossos reptadores.
Venho de me dar conta agora de que sabeis desprezar um judeu no campo da honra, e não desdenhais, contudo, em ser amante de sua mulher, nem vos enoja receber sob aquele nome maldito a vossa bastarda progénie...
Considerareis justo, assim o espero, que proteste contra essa partilha e que dareis esta entrevista por derradeira.
SAMUEL MAIER".
— Santo Deus!
Raul, que vens de saber? — exclamou Ruth, que atentara, com crescente ansiedade, a inusitada prostração do Príncipe.
Para grande espanto seu, o rapaz voltou-se nos calcanhares, e tinha os olhos flamejantes; inexprimível expressão de ira, desprezo e amargura lhe desfigurava a fisionomia.
— Confessa!
És, ou não, a esposa do judeu Samuel Maier? — perguntou com voz tremente e rouca de emoção.
— Sim, sou... mas quem to disse?...
Raul! Raul! assim me fazes medo — lamentou-se, procurando tomar-lhe as mãos, mas ele a repeliu, violento.
— Falsa, traidora, que me fizeste acreditar seres italiana!
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 02, 2016 8:17 pm

Pois saiba, mulher detestável, que me angustio de pesar ao só pensamento de me haver poluído ao contacto de tua raça desprezível, a quem devoto ódio...
Ah! diabólico destino, que me fizeste amar uma judia, a mulher do desgraçado que roubou a minha felicidade!
Sentindo-se mais morta do que viva, Ruth escutara essa explosão de ira para a qual, em sua ligação com Raul nada a preparara.
Pondo-se de joelhos, ergueu para ele as mãos postas:
— Raul, oh! Raul, não me condenes pelo entranhado amor que me inspiraste, e ao qual fui impelida pela fatalidade!
Ao meu marido é que eu procurava no baile a fantasia e, quando percebi meu engano, implorei-te que me deixasses partir.
Vilipendiada e desprezada sempre por Samuel, liguei-me a ti; o temor de perder o teu amor, que é toda a minha vida, é que me impediu de te revelar a verdade; contudo, terei a culpa por ter nascido judia?
Por um crime semelhante é que mereço ser expulsa sem uma palavra de adeus?
Sua voz morreu em soluços opressos.
Como recuperando-se de seu torpor, Raul correu a mão pela fronte banhada em suor.
Cheio de pejo e desgosto, acercou-se com presteza da jovem e fê-la levantar-se.
— Tens razão, desgraçada mulher.
Sou culpado tanto quanto o és.
Colocando-te na minha rota, quis Deus punir-me tremendamente pelo meu ódio arraigado contra o teu povo e pela minha frívola dissipação.
Não nos encontraremos mais; recorda-te, porém, de que se a vingança de teu marido deixar-te na precisão de algum auxílio material, hás-de encontrar em mim um amigo que proverá o teu futuro, tanto quanto ao de teu filho. Adeus!
Apertou-lhe a mão, e partiu.
Arrasada, Ruth tombou sobre uma cadeira.
Após alguns instantes de desânimo, porém, ergueu-se, apanhou nervosamente o chapéu e o manto de seda jogados numa cadeira e saiu, com passos incertos.
Semblante turvo, e silencioso, o Príncipe enfiara-se no seu cupê; passando, porem, pelo portão, deu com o banqueiro, que caminhava a passadas largas junto de sua carruagem, junto da calçada.
Com rápido movimento, Raul fez sinal ao cocheiro e, saltando da carruagem para o chão, encaminhou-se pálido e com o sobrecenho carregado para Samuel, que se detivera ao vê-lo.
Por um instante, os lábios trémulos de Raul, nervosamente, como que lhe recusaram os movimentos; entretanto, recuperando toda sua energia, disse, em voz baixa e rouca, mas audível:
— Senhor Maier, estou pronto a conceder-vos satisfação plena; deixo-vos a escolha das armas, e aguardarei pelas vossas testemunhas.
O olhar fremindo de ódio e desprezo que lhe lançou Samuel pareceu conformar-se às feições alteradas do seu inimigo.
— Senhor Príncipe — redarguiu, com expressão de amarga ironia — o vosso semblante, o esforço que a vossa afronta deve ao orgulho, mostra-me bastante bem que já estou vingado; vossa paixão por uma judia é para mim como uma satisfação completa e, agora, eu sou quem desdenha bater-me convosco.
Não desejo — ajuntou — comprometer vosso nome num escândalo público, do qual o aspecto mais insuportável pesaria sobre a vossa inocente esposa, da qual bem pouco digno vos mostrais!
Voltou-lhe as costas, e, fazendo seguir seus passos pela carruagem, adiantou-se até Ruth, que vinha de surgir na soleira da porta principal:
com um gesto, intimou-a a sentar-se no carro e ele sentou-se junto dela.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 02, 2016 8:17 pm

Fizeram todo o trajecto em silêncio.
Qualquer coisa havia no aspecto do marido e no seu olhar que gelava de medo o coração de Ruth.
Com gestos mecânicos, como etilizada, deixou-se levar para os seus aposentos, e apenas quando Samuel se retirou e ela ouviu as duas voltas dadas à fechadura, caiu pesadamente sobre uma poltrona, as mãos cobrindo o rosto.
A realidade apresentou-se à sua razão, em toda a sua nudez angustiante, e o sonho extasiante desses quatro meses, em que se inebriara nos braços de Raul estava findo, e cruel era o acordar.
Que decisão tomaria a seu respeito o juiz implacável, cuja honra maculara, ofendendo duplamente, por entregar-se ao rival que ele odiava, por haver-lhe conquistado a noiva?
Concluiu que de nenhuma maneira Samuel toleraria em sua casa o filho do Príncipe e jamais lhe daria o seu nome.
Se fosse repudiada por ele, com escândalo, que seria dela?
Como a receberiam em casa de seus pais, à mulher sem honra, que lançara injúria as leis de seu povo, adulterando com um cristão?
Angustiada, pensou no pai, inflexível e fanático israelita ferrenho inimigo dos goys.
Aflição e medo apertavam-lhe o coração como num torniquete.
Oh! com que ansiedade maldizia o seu fatídico ciúme, que a impelira a buscar no escritório de Samuel as provas de sua traição, e o irónico acaso que pusera em suas mãos o malfadado bilhete, que a levara à estrada da vergonha e da infelicidade!
Sensação física de íntimo mal-estar, seguido de sede abrasadora, tirou por fim a jovem daquelas cismas desalentadoras.
Olhou em torno de si com ar cansado e inquieto.
Caia a noite; havia muitas horas, portanto, encontrava-se ali, sem que Samuel tivesse voltado.
Ergueu-se, adentrou o dormitório e fez soar algumas pancadas na porta do quarto de vestir, que se achava fechado.
Ao seu chamado, ninguém atendeu; tudo estava, ao seu redor, vazio e quieto.
Não se atreveu a tocar a campainha; amedrontou-se, porém, nessa escuridão e abandono; o ar pareceu-lhe que a sufocava, e atirou-se para a porta de uma varanda que dava para o jardim, abrindo de par em par.
O ar puro e o perfume dos lilases em flor penetraram no aposento, acalmando-a.
Apanhou, depois, os fósforos de cima da mesinha de cabeceira e acendeu lâmpadas e velas; acercando-se, então, de um armariozinho esculpido, nele apanhou uma garrafinha de vinho e um cálice e bebeu sofregamente.
Sentiu-se reanimada, e conseguiu acalmar-se por momentos.
Depressa, contudo, a inquietação voltou a acutilar-lhe a alma:
que significava aquela reclusão?
Oh! pudesse tão-somente ter junto de si o filho, tudo sofreria; essa imagem fiel do homem que, não obstante tudo, ela idolatrava, lhe incutiria força e resignação.
O tombar de um objecto atirado pela janela da varanda, aberta, e que caiu junto aos seus pés, cortou o agitado passeio; abaixando-se levantou do soalho uma pedra onde estava preso um pedaço de papel.
De sobressalto em sobressalto, desdobrou o papel e leu:
"Senhora
"Encontro-me debaixo da sacada, e caso venhais a precisar de algum auxílio contra atitudes excessivamente duras de vosso marido, estou pronto a servir-vos.
GILBERTO NETOSU"..
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 02, 2016 8:18 pm

Com um grito de alegria, Ruth voltou para a varanda:
— Encontrai-vos aí, Sr. Netosu? — sussurrou.
— Sim, de todo o coração às vossas ordens.
Explicai-me apenas como, em se fazendo necessário, poderei chegar até vós — respondeu a voz, partindo de um bosquete.
— Ignoro quais sejam, no momento, as decisões de Samuel: ele me enclausurou.
No tocante a chegares até aqui, não é fácil; o quarto de vestir está fechado a chave; contudo, à direita, na parte ocupada pelos locatários, habitualmente está uma escada; podeis...
O barulho da fechadura da porta do quarto de vestir interrompeu-a e, tremendo, tornou a passar ao dormitório.
Assaltada por repentina fraqueza, sentou-se junto à mesa.
• • •
Para que se entenda a presença do inesperado aliado, que oferecia seus préstimos a Ruth, convém que digamos algumas palavras a respeito de Gilberto Netosu.
Homem habilidoso, inescrupuloso e ousado, ambicioso de prazer e de ouro, esbanjara em negociatas aventurosas o restrito pecúlio que lhe coubera em herança e ao seu irmão mais novo, Nicolau, contando então dez anos.
Obrigado a viver de expedientes, passara por todas as ocupações desonestas; a sorte o colocara no caminho de Raul, a quem explorava, e a pequena casa afastada (um bueno retiro, que ele idealizara), e os visitantes que a frequentavam, propiciavam-lhe fortes somas.
Desde há muito, Gilberto conhecia a identidade da suposta Gema; contudo, conhecendo da aversão que sentia o Príncipe pelos judeus, abstivera-se de o magoar, contando-lhe a verdade.
Indemnizou-se, porém, colhendo as pormenorizadas informações sobre o banqueiro e sua esposa, ligara-se a um servo despedido da casa, e, por seu intermédio, arranjara um plano topográfico bem pormenorizado da residência, e precisas informações dos hábitos do casal.
Bem podia ser que tudo isso lhe viesse a servir um dia...
O imprevisto escândalo da manhã apanhara-o um tanto desprevenido.
No entanto Gilberto era homem de grandes resoluções; após ter trocado ideias com o irmão, decidiu entrar em comunicação com a jovem ré, levá-la a escapar-se para evitar a represália do marido e carregar com seus diamantes, que, bem o sabia, representavam uma fortuna.
Tendo em mente este projecto, introduziram-se os dois irmãos no jardim do palácio; entanto, tendo de aguardar a noitinha, a dificuldade de comunicar-se com Ruth, sem que os vissem, contribuiu que perdessem, horas inestimáveis e as tentativas foram encetadas muito tarde.
Vendo a fuga precipitada da jovem, Gilberto induziu que chegara o marido e ela o ouvira, e, sem perda de um segundo, ordenou a Nicolau que se postasse embaixo, entre a vegetação, enquanto ele galgava, com felina agilidade, a uma grande árvore plantada diante da varanda.
Totalmente oculto entre a espessa folhagem, achava-se postado com vantagem para ver e ouvir tudo o que acontecesse.
Encontrando vazio o camarim, Samuel encaminhou-se, com firmes passadas, para o dormitório.
Estava branco como espectro, os grandes olhos melancólicos rodeados por um círculo escuro.
Um traço impiedoso e severo lhe repuxava os lábios.
A pouca distância da mulher, deteve-se e, com voz surda, disse:
— Eis-me aqui para ouvir de tua própria boca a razão pela qual te fizeste amante do Príncipe de O""".
Ruth ergueu-se e, tentando segurar-lhe a mão, sussurrou, com olhar súplice:
— Oh! Samuel! tem piedade; evita-me recordar o que se passou, dá-me tua palavra de perdão!
Ele afastou um passo, num gesto de enfado:
— Basta de comédias.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 02, 2016 8:18 pm

Vim para falar-te sobre o assunto, e não presenciar cenas; mulher ignóbil, confessa os menores passos de tua vergonhosa ligação.
Atingida por esse gesto expressivo e essas gélidas, incisivas palavras, intenso rubor coloriu imediatamente o rosto branco de Ruth:
qualquer coisa se rebelou nela contra esse homem que, sem a ter amado jamais, julgava-a, sem piedade.
— Pois bem! — exclamou com os olhos brilhantes.
Exporei a verdade; mas, primeiramente, direi algo de ti, o culpado e motivo de meu rebaixamento.
Porquê, se a outra amavas, te casaste comigo?
Quando pude entender, oito dias depois das bodas, que, em tua casa, estava destinada ao papel de animal, pedi-te que me permitisses partir e que me desses a liberdade.
Negaste, retendo-me ao teu lado, dando-me, em troca do imenso amor que a ti votava, não obstante, abandono e desprezo, repelindo-me asperamente toda vez que buscava aproximar-me de ti.
Sozinha sempre, relegada ao tédio, louco ciúme nasceu em meu coração.
"Tuas constantes saídas de casa fizeram-me suspeitar que frequentasses outra mulher e, angustiada por essa suspeita, busquei em teu escritório as provas dessa ligação e o acaso fatal fez que eu encontrasse o bilhete perdido por Gema Toreli.
Pensei surpreender-te, e fui a esse baile a fantasia; a estatura semelhante, os olhos negros do Mefisto, levaram-me ao erro e julgando que, enfim, ia desmascarar-te, acompanhei até a um reservado de restaurante.
"Ao descobrir que me enganava, implorei ao Príncipe, sem me dar a conhecer a ele, que me permitisse partir e voltar ao teu palácio, pois o Príncipe é um homem de bem e deu-se por satisfeito com a promessa de que o chamaria, se me sentisse muito infeliz.
Jurei intimamente que não o faria, jamais; era meu desejo conservar-me honesta e, quando me comunicaste tua ida a Paris, supliquei que me levasses, temendo esse período de solidão, e os pensamentos tentadores.
Negaste, impiedosamente, o meu pedido, como se ele fosse quase uma ofensa.
Tua esposa era sempre coisa de menos em tua vida.
Não te ocorreu jamais que essa desgraçada criatura pudesse desejar coisa diversa do papel de despenseira; que ela sentia pulsar um coração, e tinha sentimentos que fizeste nascer nela, mas que nunca os satisfizeste; que tinhas, para com ela, deveres de esposo, e, já que lhe recusas amor, podias, pelo menos, conceder-lhe amizade.
"Dominada pelo despeito, ofendida em meu orgulho, tornei a ver o Príncipe; seu amor me envaideceu e me dominou e todos esses sentimentos dos quais eu não podia fugir, prenderam-me a ele.
Desonrada e perdida, eu o estou, bem sei; contudo, estaria caída tão baixo, se aquele que, diante de Deus, jurara amar-me e proteger-me, me tivesse guiado e protegido, ao contrário de abandonar-me e desprezar-me."
"Não tenho a ajuntar mais nada; tua consciência mesma dirá se te cabe o direito de ser juiz implacável".
Quase sem voz pela comoção, Ruth silenciou e caiu na cadeira; à proporção que ela discorria, palidez sempre mais forte coloria as faces de Samuel; cada acusação dela, ele a sentia como punhalada; uma voz insubornável lhe dizia:
"Tudo isso é verdade!"
Entretanto, como se atrevia ela a tomar desforra, escolhendo para amante o homem a quem ele votava ódio mortal?
Tão forte era a ira interior do banqueiro, que o cegou, matando todo sentimento de justiça e compaixão.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 02, 2016 8:18 pm

Esgar de piedosa ironia lhe arreganhou os lábios.
— Admirável é a astuciosa táctica feminina que volta contra mim o cano da arma, e que faz da acusada uma acusadora.
Indubitavelmente, para te eximir de culpa, devo considerar-me culpado; eu fui quem te conduziu a caíres tão vilmente; eu quem te incutiu o pensamento de tomares um amante e de me dotares com um bastardo.
Infortunadamente, não posso considerar-me tão culpado; dei-te todas as coisas que ambicionavas, exceptuando o meu amor; contudo, muitas são as mulheres que em toda a vida, jamais o encontram.
Tantas são as esposas que buscam e vêem, em suas obrigações de mãe e de dona de casa, o único objectivo para suas vidas!
Possuías um filho, e podias ter outro; o educá-lo em ambiente de quietude e de riqueza, penso eu, fora um equivalente às tuas romanescas fantasias.
Agora, basta de passado, pois aqui estou para falar-te do futuro.
Reconheces o teu adultério com um cristão; estás grávida e Levi pode testemunhar que te apanhei no local do teu crime.
Poderia repudiar-te e devolver-te a teu pai, mas, tanto como para ti, a mim também o escândalo seria desastroso, e estou absolutamente disposto a não me tornar motivo de risos a todo o país.
A vergonha não deve transpor o limite destas paredes.
Apresento-te um meio mais digno, que usarás, se contudo não estiver morto em ti todo sentimento de dignidade e de pudor.
Indo até o quarto de vestir, voltou com uma folha de papel, pena e tinta; depois, tornou a encher o cálice de vinho há pouco esvaziado pela esposa, derrubou dentro dele um pó branco, que estava guardado em um papel que ele retirou da carteira, e o repôs sobre a mesa.
Aterrorizada e cheia de angústia, Ruth observava os actos do marido.
— Agora, toma da pena e escreve aquilo que eu te disser.
— Não posso, não te entendo — exclamou Ruth, afastando-se.
— Escreve, ordeno-te — tornou Samuel, e os lábios tremiam-lhe, ao segurar o braço de Ruth, a ponto de o magoar.
Mecanicamente, como hipnotizada, escreveu as linhas que se seguem, e ditadas por ele:
"Por razões diversas, não mais desejo viver; Deus e os meus parentes saibam perdoar minha resolução, a ninguém acusando pela minha morte, pois abandono voluntariamente a vida".
Ruth Maier
O banqueiro leu o que fora escrito, enfiou-o no bolso do paletó, e, erguendo o cálice para junto da mulher, arrasada e silenciosa, disse glacialmente:
— Agora, senhora, bebei-o, com a mesma coragem de que te valeste para me trair e aviltar.
Com um grito surdo, Ruth ergueu-se e pôs as mãos à cabeça:
— Queres matar-me; porém... não é possível, queres apenas assustar-me.
Ainda que eu fosse a pior criminosa, não tens esse direito!...
Tombando subitamente de joelhos, agarrou-se às pernas do esposo:
— Samuel! Samuel!
Piedade! repudia-me, expulsa-me! deixarei a cidade, não voltarei jamais a surgir diante de teus olhos, nada reclamarei de ti; concede-me somente a vida!
— Com efeito! tu me deixarás para correr ao Príncipe, pedindo-lhe ajuda e amparo — retrucou Samuel, com voz rouca.
Por momentos, era como se a tempestade íntima pudesse romper os diques de calma que ele se propusera; ajoelhada mesmo, impeliu-a, arrastando-a para junto da mesa:
— Bebe, criatura tão desprezível, quanto imunda não compreendeste que não poderás sair viva deste quarto?
Eis que o bastardo deve desaparecer contigo?
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 02, 2016 8:18 pm

— Não, oh! não! não quero morrer!
Tenho horror à morte! — soluçou Ruth, a debater-se e recuando, os braços estendidos até junto da penteadeira.
— Tu és um grande exemplo, tanto de heroísmo, quanto de virtude — acentuou Samuel, com feroz sarcasmo; contudo, faz-se necessário que te mostres corajosa por esta vez, contra tua vontade; precisas apenas de um pouco de descanso; concedo-te, portanto, meia-hora para que encomendes tua alma a Deus.
Sentou-se, tirou o relógio e o pós sobre a mesa.
Ruth nada retrucou.
No olhar cintilante do marido, lera uma inflexível condenação.
Cansada, ensandecida de terror, fixava, com olhar feroz, aquele copo que continha a morte.
Apavorava-a esse fim, e no seu organismo moço, pleno de vida, tudo se rebelava contra a destruição e em sua fronte apareciam, como pérolas, gotas de glacial suor.
Cheio de espanto e piedade, Gilberto Netosu seguira todas as nuances dessa tremenda cena; a determinação que se estampava no rosto pálido e insensível do banqueiro extirpou qualquer dúvida que pudesse alimentar quanto ao desfecho, que arrasava com seus planos de lucros.
— Ah! cão danado, canalha judeu! — sussurrou, com raiva.
Se não me ocorrer nenhum recurso, ele terminará por assassinar a mulherzinha, e, com isto, adeus diamantes!
Entretanto, que fazer?
Os minutos estão marcados!
Gastou alguns instantes em fundas cismas; então, descendo da árvore, sumiu na sombra, deslizando ao longo da habitação.
A fim de que o leitor possa compreender o atrevido plano do aventureiro, faz-se mister dizer aqui algumas palavras a respeito da localização dos quartos.
Na imensa casa do banqueiro, a metade anterior, do andar térreo ao primeiro andar, ocupava-a o proprietário; a posterior, tanto como o terceiro e quarto andares, a que se chegava por entradas separadas, (excepto um grande aposento do primeiro que dava para o patamar da escada, ligando-os aos do banqueiro), estavam tomados por inquilinos.
O velho Abrão habitara o primeiro andar; havia, porém, instalado o filho cujos costumes diferiam muito dos seus e levava vida doméstica a parte, no andar térreo.
Por ocasião do seu projectado casamento com Valéria, Samuel aumentara e adaptara às novas contingências a sua casa de solteiro, à qual ele dava preferência sobre os aposentos do andar superior, muito luxuosos; contudo, quando o destino pôs por terra todos os seus planos, e deu ao jovem banqueiro uma outra noiva, terceira reforma fora efectuada.
A ex-residência do pai fora remodelada para os jovens esposos; encontravam-se aí os dormitórios, guarda-roupas, os salões de recepções, e do andar inferior Samuel fizera gabinete de trabalho, antepondo-o, como fiel sentinela, a três aposentos trancados a qualquer olhar indiscreto, nos quais guardava todas as lembranças do seu desgraçado amor, isto é, a mobília e os presentes outrora destinados à mulher amada.
Pequeno salão de leitura localizava-se junto ao gabinete, e estava unido ao dormitório do banqueiro por uma escada em caracol.
O que restava do apartamento, ocupavam-no uma biblioteca, uma sala destinada à colecção de quadros e mimos chineses, uma enorme estufa que dava para o famoso terraço, o "atelier", etc.
Este, no qual se achava mais distanciado da mulher e mais próximo de suas lembranças, era o retiro preferido de Samuel, sobretudo no verão.
Gilberto estava perfeitamente a par de todas essas minúcias; assim, caminhando, passo a passo, rente à parede da casa, seus olhos buscavam sofregamente alguma janela iluminada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 02, 2016 8:18 pm

Deu logo com uma faixa de luz, filtrando-se através das cortinas abaixadas e projectando-se sobre uma folhagem de moita; pouco mais além, contudo, de uma larga janela saiam torrentes de claridade.
Com infindos cuidados, Gilberto alçou-se ao peitoril dessa janela e lançou rápido olhar para o interior:
tratava-se do pequeno salão pegado ao gabinete, cuja porta estava trancada.
Esse salão estava deserto, tendo, sobre uma pequena mesa, aceso, um candelabro de cinco velas, que ressaltava o chapéu e as luvas do banqueiro, assim como um monte de jornais e papéis diversos.
Ágil como um gato, sem um rumor, Gilberto saltou para dentro; apanhando o candelabro ateou fogo aos papéis, ao pano que recobria a mesa, e às cortinas; depondo sobre o assoalho o candelabro, saltou, então, outra vez ao jardim.
Unindo-se ao irmão, sempre escondido na moita, disse-lhe em poucas palavras, em voz baixa:
— Vem comigo, ajuda-me a trazer uma escada que está escondida aqui perto; pô-la-ei contra a sacada e tu a firmarás, enquanto que eu desço a judia e os seus tesouros.
Minutos depois, Gilberto postara-se no seu observatório e certificava-se de que nada sucedera durante sua ausência:
Ruth, curvada sobre o braço da poltrona nada parecia ver ou ouvir; Samuel, lívido, sobrecenho franzino, firme resolução estampada no rosto, encostava-se à mesa, seguindo maquinalmente o andar dos ponteiros de seu relógio.
Transcorreram ainda em silêncio alguns minutos, até que grande barulho pareceu ecoar pela casa; escutaram-se gritos distantes, e um cheiro característico de incêndio e de fumaça entrou pelo aposento.
Samuel ergueu os olhos, espantado; nesse instante, contudo, produziu-se como que um tumulto e várias vozes fizeram-se ouvir, a gritar distintamente:
— Fogo! Fogo!
Está ardendo o gabinete do Barão!
O banqueiro saltou, como por um choque eléctrico.
Fogo em seu gabinete!... e o retrato de Valéria, os tesouros de suas recordações, achavam-se ali, juntamente com papéis e documentos de grande importância, fechados na secretária.
Olvidando tudo, atirou-se para fora do aposento.
Segundos depois, Gilberto surgiu na varanda.
Correndo para Ruth, que permanecera imóvel, sacudiu-a brutalmente:
— Despertai, Senhora, — disse ele — se desejais salvar a vida.
Não há um só momento a perder.
Rápido, juntai os vossos diamantes, tudo quanto possuís de precioso.
Vou correr o trinco da porta.
Como acordada de um sonho mau, Ruth ergueu-se, respirando desafogada.
Instintivamente, tomou o cálice e despejou o conteúdo; dirigindo-se, depois, à secretária, dela retirou vários maços de notas bancárias e, de um compartimento secreto, a chave de seu cofre de jóias.
Gilberto, que seguia todos os seus gestos, havia retirado uma fronha da almofada do leito e nela, como em saco improvisado, ambos iam guardando os escrínios e outras jóias menores.
Depois, o aventureiro jogou sobre os ombros de Ruth o mantelete que ela estivera usando pela manhã e, levantando-a por sobre o peitoril da janela, colocou-a na escada.
— Senhora, descei — disse.
Mais um momento, e vos seguirei.
Voltou apressadamente ao gabinete e, tomando de sobre a secretária um pequeno lampião de porcelana, atirou-o para a outra extremidade do quarto.
O grosso tapete abafou o ruído do reservatório que se partia, mas o petróleo incendiou-se e se espalhou como um rastilho de fogo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 02, 2016 8:19 pm

Um minuto mais e Gilberto reunia-se aos seus comparsas, dirigindo-se todos os três precipitadamente para a saída.
Foram obrigados a passar por aleias distantes, pois todos os serviçais estavam atarefados, e o jardim lotado de gente assustada e lívida, correndo sem saber que rumo preferir.
Momentos depois, ouviam a voz forte de Samuel, acalmando o tumulto, dando instruções aos fâmulos.
Amedrontada, Ruth esticou os passos.
Em pouco, atingiram sem obstáculos a ruela, à esquina da qual um veículo os esperava, e, quinze minutos decorridos, encontravam-se abrigados na casa de arrabalde do Príncipe de O""".
Com quantas emoções Ruth se encontrou de novo nesse paraíso de seus amores com Raul, onde em cada objecto moravam recordações!
Um pensamento novo, o medo de que alguma coisa tivesse acontecido ao filho, vinha sobrecarregar suas torturas morais; percebera o incêndio que inundava o jardim com seu sanguíneo clarão.
Caso o menino morresse nas chamas, qual o preço por que salvara a própria vida?
Com surdo gemido, tombou sobre o divã e enterrou a cabeça nas almofadas.
Gilberto não permitiu que ela se entregasse por muito tempo à sua angústia.
— Senhora — disse, tocando-a de leve no ombro — sinto não poder permitir-lhe gozar o descanso de que tanto necessitais; contudo, o perigo que nos ameaça, assim como a vós, tão próximo está de nós, que nenhum instante podemos desperdiçar.
Faz-se necessário que abandoneis Pesth pelo trem da meia-noite.
Estamos às onze horas.
Comei alguma coisa; preparei uma refeição ligeira e já instalei vossos diamantes e as coisas mais necessárias nesta maleta que vedes. Seguireis, junto com Nicolau, para Paris, onde irei encontrar-vos, por que eu vou seguir amanhã, pois urge tomar, ainda em nosso comum interesse, algumas medidas.
Esgotada pelo cansaço, incapaz de raciocinar e tomar deliberações, Ruth aceitou em silêncio todas as disposições de Gilberto e, uma hora depois, conduziu-a um trem, velozmente, em direcção a um ignoto futuro, não obstante tão sombrio que, se tivesse podido adivinhá-lo, talvez preferisse o veneno que o esposo lhe havia destinado.
O sol, nascendo, iluminou, com seus raios, em toda a sua crueza, a horrível desolação que ia pelo interior e no exterior da casa do banqueiro; o telhado destruído, as paredes enegrecidas, janelas quebradas, mostravam os estragos do incêndio.
A rua atravancava-se de móveis, montes de coisas e tomada pelos curiosos, que cercavam grupos diversos de infelizes que, transtornados, em desespero, contemplavam os restos de seus pertences.
O fogo, voraz, ateado por Gilberto em dois lugares diversos, causara tremendos estragos, e tinham sido necessários todos os corpos dos bombeiros, unindo seus esforços, para circunscrever o incêndio e terminar por debelá-lo.
Circunstância feliz e tanto quanto incompreensível:
os quartos destinados outrora a Valéria permaneceram incólumes; em contraposição, o fogo atingira os andares superiores, os dos inquilinos, onde causara enormes prejuízos.
Verificara-se, de pronto, a morte de três pessoas; um menino, que procurava descer pela janela, morrera, caindo; um criado de Samuel ferira-se mortalmente, quando uma escada se desprendeu; por fim, nos aposentos do primeiro andar, achara-se um cadáver de mulher, carbonizado e irreconhecível, que logo se conjecturou ser o da Baronesa.
Entretanto, a voz do povo, que estica sempre os acontecimentos, não se dava por satisfeita com essas vítimas e, mal raiava a manhã, os mais desencontrados boatos percorriam a cidade.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 02, 2016 8:19 pm

Samuel batalhara como qualquer dos bombeiros; viram-no, destemeroso dos perigos, nos lugares mais arriscados, e, sem cuidar de sua pessoa, empregar todas as suas forças para salvar seus locatários.
Extinto o perigo, finalmente, substituído por relativa tranquilidade, o Comissário policial do bairro convidou o banqueiro a proceder, juntamente com ele, a uma inspecção na casa devastada, com o propósito de constatar os prejuízos para, então, lavrar o auto de verificação da ocorrência.
Com lentas passadas, detendo-se a todo instante para tomar apontamentos, ambos percorreram os aposentos, tão sumptuosos e tranquilos ainda no dia anterior e que, agora, com as paredes nuas e denegridas, inundados de água e fuligem, o chão atravancado de destroços de vasos e estilhaços de estátuas, apresentavam o aspecto de ruínas informes.
No dormitório de Ruth, mais castigado que o resto da casa, o banqueiro deparou o cofre de jóias, o qual, à prova de fogo e preso ao assoalho, pudera resistir às chamas; no entanto, para sua profunda admiração, a chave (que ele sabia dever encontrar-se em uma gaveta secreta da escrivaninha) estava na fechadura.
Com rápido movimento, abriu o pequeno móvel e constatou, empalidecido, uma nova prova às suas suspeitas:
haviam sumido todos os porta-jóias.
Ruth fugira, portanto, carregando suas jóias!
Seus comparsas, fossem quais fossem, tinham protegido a fuga provocando o incêndio.
— Tendes algum roubo a denunciar, Sr. Barão? — indagou o Comissário.
A coisa é bastante provável, pois se confirma, ainda mais, a minha convicção de que mão criminosa provocou este incêndio.
— Não, não — retrucou Samuel, a voz surda.
Apenas minha mulher poderia abrir este cofre de segredo, e com toda certeza a demora provocada pela sofreguidão em salvar suas jóias lhe motivou a morte.
Quanto a mim, não alimento nenhuma suspeita sobre o motivo do sinistro, e estou por demais absorvido pela infelicidade que me atinge, para poder pensar em coisa diferente; tanto assim, Sr. Comissário, que vos rogarei de prosseguir sozinho a vossa inspecção, ou que vos façais apanhar por Levi.
Tenho inadiável necessidade de algumas horas de repouso.
— Hum, pobre moço; estou quase a pensar que é uma tragédia familiar que se esconde sob estes destroços — pensou o Comissário, quando se viu só.
Deixando suas instruções a Levi, o banqueiro tomou sua carruagem e mandou tocar para a quinta.
Encontrava-se, de facto, esgotado e, cabeça vazia, coração opresso, recostou-se nas almofadas do coche.
Adentrando o jardim da vila, viu o pequeno Samuel que, cavalgando um cavalo de pau, brincava no terraço; descobrindo o pai, o menino abandonou o brinquedo e correu-lhe ao encontro com a rapidez máxima permitida por suas perninhas.
Um sorriso de contentamento abria-se em seu rosto infantil, os louros cabelos ao vento, como auréola dourada.
Com sentimento indefinido, misto de amor e profunda mágoa, Samuel ergueu-o nos braços e o apertou contra o peito.
— Como hoje estás sujo e desarrumado, papai! papai! — disse o menino, revolvendo com ambas as mãos os cabelos do banqueiro, com o pretexto de alisá-los.
Tuas mãos estão negras e arranhadas.
Sentes alguma dor? — ajuntou, encostando ao rosto pálido de Samuel sua face rosada.
— Santo Deus!
Senhor Barão, que aconteceu? — indagou a aia, que se havia aproximado e fitava, penalizada, as roupas amarfanhadas e o ar sombrio do patrão.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 02, 2016 8:19 pm

— Tivemos a combater um incêndio na casa.
Confio em que, a contar de hoje, Bárbara, vos desvelareis mais pelo menino, porque sua mãe morreu nas chamas — respondeu, em voz sumida, o banqueiro.
Após o banho, Samuel deitou-se, e seu esgotamento era de tal ordem, que dormiu por muitas horas um sono de chumbo.
Despertando, sentiu-se retemperado fisicamente; a tremenda superexcitação de nervos que trabalhara sobre o seu espírito, desde que partira de Paris, cedera o passo a um raciocínio mais ordenado.
Como emergindo de um pesadelo, correu a mão pela fronte.
A condenação de Ruth, e o impiedoso intermediário que lhe salvara a vida, surgiram-lhe à mente sob novo prisma e, angustiado por íntima tribulação, ergueu-se e penetrou no escritório.
O olhar do banqueiro fixou-se, por primeiro, sobre uma maleta aberta, de onde seu criado particular, vindo de Paris, retirava vários objectos, dispondo-os sobre a secretária.
À vista de dois cofrezinhos de jóias de uma caixeta destinados a Ruth exacerbou a sensação desagradável que o angustiava.
Não, não se mostrava assaz severo: a infiel, a ladra, a incendiária era digna apenas da morte!
Essa súbita mudança de seus sentimentos soou-lhe na voz, quando exclamou, abruptamente:
—Tirai esses escrínios, essa caixa e esse cartão cheio de quinquilharias, e que nunca mais os torne a ver!
O fâmulo, atarantado, obedeceu e, percebendo o mau humor do patrão, afastou-se prudentemente.
Samuel abancou-se frente à secretária, examinando e dispondo em ordem seus papéis.
Por último, desfez um pacote de livros e os folheou:
O LIVRO DOS ESPÍRITOS, de Allan Kardec — leu ele em um alentado volume, em encadernação a cor verde.
— Ah! trata-se do livro desse original sectário, de quem tanto tem me falado o Sr. Valdez! — murmurou.
Já não me lembrava de que mo enviara.
Contudo, vejamos: estou hoje com aptidão a distrair-me, apesar de tudo.
Leu atentamente algumas folhas do livro e, gradativamente, uma expressão de feroz escárnio e desprezo lhe arreganhou os lábios.
— A imortalidade da alma! Objectivo máximo da existência: a perfeição!
A reencarnação (isto é, a metempsicose)!
Intercâmbio entre vivos e mortos! — murmurou, com ironia.
Tudo isto são mitos da antiguidade, adaptados ao gosto hodierno...
ah! ah! a realidade desfaz tais visões e seria necessário que, com a própria mão, o meu defunto pai viesse escrever que tudo isto é real, para que me desse por convencido.
Expulsemos tais fantasias!
Afastou o volume, e fez soar a campainha.
— Procure Bárbara e manda-lhe que conduza aqui o menino — ordenou ao servo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 02, 2016 8:19 pm

SEGUNDA PARTE

O HOMEM PROPÕE E DEUS DISPÕE

1 — TRIBUNAL FAMILIAR


Raul tornara à sua casa no mais deplorável estado de espírito:
envergonhado, a humilhação, ira contra si mesmo e o desgosto da impensada ligação na qual se envolvera, tudo lhe refervia no íntimo.
Apenas com dificuldade, pôde conter-se suficientemente para comparece r ao jantar.
Imediatamente depois, recolheu-se aos seus aposentos particulares, desculpando-se com uma indisposição, e proibiu que o fossem perturbar, sob qualquer motivo.
A noite propiciou-lhe calma bastante para que pudesse apresentar-se ao almoço com sua expressão de todos os dias, e como a manhã se mostrasse esplêndida, a Princesa mandara que a refeição fosse servida em uma varanda enfeitada de flores e sombreada por árvores centenárias que se erguiam no jardim.
Correndo os olhos pelo jornal, Raul disfarçadamente observava a esposa , que, meditativa e distraída, remordia, mais que comia, um biscoito.
Valéria estava mais linda que nunca; entretanto, funda melancolia, resignação desalentada debruavam visível sombra no rosto encantador.
— Em quem estará pensando? em mim não o será com certeza; nem sequer percebeu que eu estava agitado ontem, nem que a admiro hoje — pensou Raul, com amargura e despeito, amarrotando £o jornal que tinha na mão.
A presença da aia, trazendo o menino, deu rumo diverso ao silencioso colóquio dos jovens esposos.
— Bom dia, meu filho! — exclamou o Príncipe, chamando a si o menino e pondo-o sentado sobre os joelhos, antes mesmo que ele se aproximasse da mãe.
Podeis ir-vos, Henriqueta — ajuntou, falando à ama — porque logo em seguida vos levarei Amadeu.
Valéria estava mais animada, e fitava com ternura o filho, que, com seriedade infantil, molhava um biscoito na xícara do pai e dividia o irmãmente com o grande terra-nova de Raul.
Extraordinariamente belo era o principezinho Amadeu; traço algum em sua fisionomia porém, se parecia com os dos pais; a tez pálido-trigueira, bastos cabelos ondulados, de um negro quase azulado, emolduravam-lhe a fronte larga e convexa; olhos grandes e pretos, melancólicos e brilhantes, que nada guardavam do encanto e da suavidade dos olhos de Raul.
Este, que o mirava sorrindo, de súbito estremeceu.
Acabava de cortar-lhe o cérebro um pensamento diabólico:
os traços que distinguia no filho, não os contemplara na véspera, em outro rosto?
Essa fronte e os olhos não eram os de Samuel Maier?
E essa boca pequena, vermelha e sensual, o nariz um tanto aquilino, de narinas inflantes, não lembravam dolorosamente os de Gema, sua amante judia?
Raul sentiu que seu coração se apertava como num torno; que podia significar tão estranhas semelhanças?
E o irónico sorriso do judeu, negando-se ao duelo, a sua carinhosa solicitude pelo sossego da Princesa, não esconderiam uma causa secreta, mais verdadeira do que a generosidade?
Se Valéria o relegara ao esquecimento, tanto quanto procedera Gema de sua parte, já que se supunha ter aquela amado o judeu, o sardónico destino levara os dois homens a permutarem bastardos, e Raul apenas tomara uma desforra!
Escura nuvem obscureceu a vista de Raul; toda a sua ira, apenas dormida, renasceu-lhe e subiu-lhe ao cérebro.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 02, 2016 8:20 pm

Com um gesto intempestivo, afastou a criança, que caiu e pôs-se a gritar.
Valéria correu para ela e levantou-a:
— Estás plenamente em teu juízo, Raul, para assim tratares uma criança? — disse, tentando acalmar Amadeu e cobrindo-o de carícias.
Toda a ira, já dificilmente dissimulada pelo fidalgo, explodiu nesse instante.
— Causa-me asco, — disse, com aspereza — acarinhar um menino que, sendo meu filho, tem, entretanto, não os meus traços, nem os teus, mas os do judeu Maier.
Pode ser que estejas mais informada do que eu o estou da razão deste insolente acaso, que faz nascer bem equívocas suposições!
Por instantes, a jovem ficou como petrificada.
Perfilou-se, tão branca como o penhoar de baptista que vestia, e seus grandes olhos azuis enevoaram-se e adquiriram tonalidade de aço.
— Provas! — retrucou, com voz presa.
Que provas trazes, para me atirares em face este inconcebível insulto?...
Diante dessa terrível comoção, a natural e generosa bondade de Raul reapareceu; arrependeu-se do insulto, talvez imerecido.
— Perdoa-me, Valéria — escusou-se, aproximando-se com vivacidade.
Não pôde prosseguir, porque se fez ouvir a voz de Antonieta, na sala ao lado e, quase ao mesmo tempo, trazendo o filho mais velho e seguida por uma aia, penetrou na varanda.
— Bom dia, Antonieta.
Que te traz tão cedo? — disse Raul, saudando a cunhada, enquanto Valéria não se movia, contendo as lágrimas.
A Condessa entendera, com rápido olhar, que qualquer coisa desagradável sucedera; contudo, sem nada demonstrar, contestou cordialmente.
— Venho buscar com Valéria um pequeno conselho e, por esse motivo, furto-a por meia hora, Raul.
Quanto a vós, senhorita, cuidai, vos peço, dos dois meninos e levai-os ao jardim.
Estavam as duas jovens prestes a sair quando entrou um criado e disse, apresentando a Raul algumas cartas:
— Alteza, apresentou-se no palácio um homem desconhecido, que roga a Vossa Alteza lhe dispense alguns momentos de atenção para negócio urgente.
— Quem poderá ser esse homem e que coisa deseja de mim? — murmurou Raul, impaciente.
— Declarou-me chamar-se Gilberto; contudo, julgo tratar-se de um dos infelizes prejudicados no incêndio desta noite, que pretende conseguir a esmola de um socorro da muito conhecida caridade de Vossa Alteza.
Escutando pronunciar o nome de Gilberto, rubor fugaz coloriu as faces do Príncipe.
— Conduza o homem ao meu gabinete; lá irei ter num instante.
De que incêndio se trata?
— Esta noite, Alteza, o incêndio manifestou-se no palácio do rico banqueiro Maier, barão de Válden.
O sinistro, pelo que ouço, foi pavoroso:
quase toda a residência foi destruída, e o proprietário assim como sua esposa pereceram nas chamas.
Atordoado, Raul despediu bruscamente o criado; por, um pequeno grito emitido por Antonieta desviou o curso de seus pensamentos e correndo ao toucador, deparou com a esposa prostrada numa poltrona, sem sentidos.
— Foi indubitavelmente, a morte do Sr. Maier que reagiu sobre Valéria de maneira tão fulminante — disse Raul, ruborizado até a fronte.
Faz-lhe saber, Antonieta, quando torne a si, que seu desmaio com a notícia do acidente sofrido por esse digno banqueiro, seu ex-noivo, é uma das provas que ela me exigia há pouco.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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