Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 04, 2016 8:56 pm

Proferidas estas palavras, a mesa moveu-se vivamente e, batendo um certo número de pancadas, dadas violentamente, os Espíritos solicitaram uma ardósia.
Apresentaram-na; apagou-se a luz.
No mesmo momento, Samuel sentiu que a mão do médium gelava-se e se retesava na sua; em seguida, o inglês se recostou na poltrona, com prolongado suspiro, e não se mexeu mais.
Os assistentes puderam então perceber feixes de centelhas que percorriam o corpo do médium, indo concentrar-se sobre o peito, formando nuvem fulgurante.
Indecisa, alongando-se, essa nuvem ergueu-se na direcção do meio da mesa e então se viu, no centro dela, uma rebrilhante mão, sobressaindo-se, nítida, de um fundo de brumas, mais escuro; ao mesmo tempo, a ardósia levantou-se na mesa e deteve-se à altura do rosto do banqueiro; a mão, aproximando-se, com o dedo em riste traçou sinais fosforescentes que o banqueiro logo percebeu tratar-se de caracteres hebraicos.
— Aí está uma coisa estranha — murmurou Samuel, sem o querer, tendo decifrado o nome de Abraão.
Ele estava seguro de que nenhum dos presentes, com excepção do médium, que não conhecia, sabia a língua hebraica.
Contudo, à proporção que prosseguia a leitura da insólita missiva, em complicadas letras que se apagavam assim que eles as terminava de ler, um a angústia, misto de espanto, assaltava-o, fazendo surgir em sua fronte um suor gelado.
Desajuizado — escrevera o dedo fosforescente.
Acreditas que aquilo que em ti pensa e sofre se destrua pela morte do corpo!
Tudo sei e lastimo-te!
Sou, verdadeiramente, Abraão, teu pai, e, para dar-te a prova de que o espírito, livre, continua vendo e ouvindo, esclareço-te que estou informado da troca das crianças."
Com um grito abafado, Samuel saltou da poltrona, abandonando a mão do médium.
Imediatamente a ardósia caiu na mesa, estrepitosamente, e a fosfórea mão retornou, como uma flecha, ao peito do Sr. que se contorceu, com abafado gemido.
— Que se passa convosco, Sr. de Válden, que não conseguis manter-vos calmo? — exclamou vivamente o conde de X..., muito descontente.
É cabível semelhante proceder em sessão como esta?
Podeis matar o médium: depressa, sentai-vos ainda, e retomemos a cadeia.
Assim que se restabeleceu de alguma forma a calma, o médium, adormecido, mandou, com voz sumida, ao conde de X..., que lhe ministrasse alguns passes magnéticos; em seguida, que todos permanecessem silenciosos até que ele despertasse e encerrassem a sessão.
Quando voltou a recuperar-se o Sr. H..., e a reunião já se passara para o salão principal, todos comprovaram a extrema palidez do banqueiro e o seu semblante mudado.
— Houve para ele alguma prova esmagadora — sussurrou a baronesa de Kirchberg ao ouvido do genro, quando os demais discutiam fervorosamente as sensações dessa formidável sessão.
— Estais com a razão, mamãe; notei na ardósia caracteres que me pareceram letras hebraicas e, indubitavelmente, a prova era de tal ordem que o banqueiro se viu obrigado a convencer-se.
Todos estavam enganados.
Samuel apenas se convencera de que o seu tremendo segredo, por um miserável acaso, estava em poder de um charlatão, que o exploraria, cobrando o seu silêncio a peso de ouro.
A escrita brilhante, para ele, não era senão um a introdução a chantagem, quiçá forjada por Marta e Estevão, os quais, não tendo coragem para tentá-la por si mesmos, haviam se unido a esse comparsa.
Com a raiva a corroê-lo interiormente, o olhar seco, Samuel aproximou-se do Sr. H... e indagou-lhe de improviso:
— Posso perguntar-vos se não haveis jamais visitado Nova York e Washington?
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 04, 2016 8:56 pm

— Ambas as cidades — foi a resposta pachorrenta do médium.
— Chega de dúvidas — pensou Samuel.
E, fixando os olhos em seu interlocutor, com expressivo olhar, ajuntou:
— Estarei sempre disposto a receber-vos, Sr. H...
Caso tenhais algo de importância a expor-me, podeis encontrar-me em minha casa, diariamente, das nove às onze horas.
O Sr. H... arregalou os olhos, com inexprimível espanto; vendo, contudo, o ar sombrio e compenetrado do banqueiro, inclinou-se em assentimento.
Não querendo aguardar pela ceia, Samuel desculpou-se com um a indisposição repentina, e despediu-se.
Completamente absorvido pelas suas impressões, o Barão de Kirchberg levou-o até a antecâmara, onde lhe perguntou, com olhar de triunfo:
— Então, ainda duvidas?
— Como jamais! — respondeu Samuel, com forçado sorriso.
Apenas, confesso, não me foi possível descobrir os truques do exímio mistificador.
Tendo chegado a sua casa, o banqueiro despediu o criado e trancou-se.
Afligido por inquietação mortal, caminhou pela extensão do quarto.
Enlouquecia quase ao só pensamento de que estava, de corpo e alma, à mercê desse charlatão e de que, a qualquer momento, podia vir à luz a descoberta que lhe tiraria a vingança e a vida.
Exaurido por essa luta íntima, atirou-se por fim ao leito e apagou a luz.
Quis dormir; entretanto, não lho permitiam os pensamentos atordoantes.
Não saberia dizer quanto tempo assim permaneceu deitado, quando batidas, bastante distintas, se fizeram ouvir na cabeceira do leito.
Alarmado, prestou atenção:
era u m ruído igual àquele que se ouvira na sala em que se realizara a sessão.
Após um breve intervalo, o barulho recomeçou, desta vez aos pés da cama, em seguida na mesa da cabeceira; um objecto pesado tombou sobre o assoalho, a corrente e ornamentos do relógio do banqueiro retiniram, como se remexidos por alguém e, quase no mesmo momento, fortes passadas ressoaram no quarto adjunto, cuja única saída também estava trancada.
Samuel sentou-se na cama, gotejando suor.
O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi o de que algum ladrão, penetrando no quarto e pensando que ele dormia, começava a roubar.
Estendeu a mão, para pegar os fósforos; entretanto, embora a procurasse muito, a caixa não estava mais ali.
Lembrava-se muito bem de que se servira da caixinha de fósforos, ao deitar-se, quando acendera um charuto; não sabia mais o que pensar, quando percebeu pousar-lhe algo sobre a cabeça; ergueu rapidamente a mão para ali e entre os dedos teve os desaparecidos fósforos.
Emocionadíssimo, riscou um e avistou prontamente o maciço castiçal de prata, que estivera antes perto dele e agora fora transportado à poltrona, junto à porta.
Correu para apanhá-lo e acendeu uma vela, examinando atentamente o aposento e o gabinete:
tudo estava deserto e quieto.
Sacudindo a cabeça, apanhou uma pistola que se encontrava sobre a secretária e voltou a deitar-se.
— Se torna a aparecer esse Sr. ladrão, mandar-lhe-ei um a bala e haveremos de pôr a limpo essa bulha espírita — pensou, deixando a arma ao alcance da mão.
Entanto, apenas voltou a obscuridade, recomeçaram o ruídos, com aumentada violência.
As batidas no assoalho faziam pular os móveis, os frisos estalavam e muitos objectos moviam-se ruidosamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 04, 2016 8:56 pm

Não obstante sua comprovada coragem, o banqueiro sentiu que o terror se apoderava dele e, no momento em que passos arrastados e pesados se encaminharam para a cama, agarrou a pistola, com mão insegura.
— Que m está aí? — pretendeu gritar.
Contudo, a voz prendeu-se-lhe na garganta, e seu coração deixou de bater; acabava de chicotear-lhe o rosto uma corrente de ar húmido, gelado e um ser vivo se inclinava para ele, que ouvia perfeitamente sua respiração forte e sibilante.
O roçar de uma barba pela sua face, arrancou Samuel de sua inacção; levantou a pistola e atirou.
Altamente espantado, não distinguiu nenhum grito, nem a queda de um corpo pesado.
O silêncio imperava outra vez.
Com tremores nas mãos, agitou o cordão da campainha, e pegou os fósforos.
A vela fora arrancada do castiçal e estava sobre a mesinha de cabeceira.
Samuel ergueu-se para abrir a porta, espancada pelo criado, mas a meio caminho constatou que todas as suas roupas estavam espalhadas pelo aposento e o castiçal balouçava-se pendurado na corrente da lâmpada suspensa do tecto.
— Deus misericordioso!
Senhor Barão, pensei que vos estivessem matando, devido a tais ruídos e pela detonação! — afirmou o criado, encarando, surpreso, o rosto alterado do patrão e a reviravolta do aposento.
— Acredito que um ladrão se tenha escondido aqui, pois o senti aproximar-se do leito e, no instante em que observava o meu sono, a barba desse tratante roçou-me pelo rosto — esclareceu Samuel.
Examinaram ambos o aposento; entretanto, depois de rigoroso exame nada encontraram.
— Aí está o milagre!
Tudo está em reviravolta, e o pulha fugiu! — exclamou o criado, erguendo a vela para afastar as cortinas.
Subitamente, exclamou:
— Olhai, Sr. Barão, a bala, penetrando no retrato do Sr. vosso finado pai, fez esse buraco redondo em sua barba; o projéctil deve estar cravado na parede.
Samuel nada acrescentou.
Recusava-se sua razão a entender por que a bala tomara tal rumo, diametralmente oposto ao que deveria seguir.
Voltou a recostar-se, então, mandando o criado que deixasse a lâmpada acesa por toda a noite, e se fosse.
Não conseguiu pregar os olhos.
Super-excitado, rememorava os incidentes extraordinários da noite; em sua casa, eles não se podiam produzir por meio de truques: dar-se-ia o caso de ser verdade que os mortos se manifestam aos vivos?
Arrepiado, lembrou-se de que o homem, que não se pode encontrar, e cuja barba roçara sua face, impregnava o ambiente com o odor, forte e penetrante, de um perfume que seu pai se habituara a usar.
Pelo espaço de três dias, verificaram-se outros factos estranhos, acompanhando o banqueiro, ainda mesmo à luz do dia.
Não podendo mais dominar-se, escreveu ao Barão Kirchberg, rogando-lhe viesse, com o médium H..., a fim de que realizassem uma sessão, nessa noite mesma, em sua residência, onde ocorriam factos extraordinários.
O Barão, em resposta, mostrou-se grandemente pesaroso de não poder levar, nessa mesma noite, o Sr. H... porque haviam sido convidados, desde antes, para outro lugar; contudo, compreendendo a impaciência do banqueiro, tudo acertara para o dia imediato e ambos se apresentariam, em hora um tanto mais avançada que o normal.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 04, 2016 8:56 pm

Aguardá-los foi duríssima provação para o banqueiro, impaciente.
Contava as horas, e, quando a noite se apresentou, ele próprio preparou, em seu gabinete, uma pequena mesa de forma redonda, ardósia e laudas de papel, por ele marcadas e numeradas rigorosamente.
Olhava, pela centésima vez, para o relógio quando, por fim, as pessoas tão ardentemente esperadas chegaram.
Samuel concedeu-lhes apenas o tempo necessário para um curto descanso, e não deu resposta às perguntas curiosas do Barão.
Levou-os para o gabinete, a repetir:
— Depois disso, contar-vos-ei.
Sentados em torno à mesa, estabeleceram a cadeia.
Assim que se fez notar um movimento, indagou-se se a reunião era eficiente, e se os Espíritos se dispunham a manifestar-se. Houve resposta afirmativa.
— Posso saber quem foi o que atirou sobre o retrato e para quem se endereçava a bala? — perguntou Samuel.
— Foste tu que atiraste, e contra mim, que sou teu pai — retrucou a mesa.
— A que m pertencia a barba que tocou meu rosto?
— Minha barba!
— Podes dizer-me o que pretendes de mim, pai, e, caso estejas verdadeiramente presente, novamente produzir o perfume que meu olfacto captou na ocasião? — perguntou o banqueiro, apenas respirando.
Após um breve silêncio, forte e pessoal odor invadiu o aposento.
— Ah! — exclamou o Barão de Kirchberg — aí temos o perfume indiano que vosso pai empregava preferentemente.
Bem o reconheço.
Quanto a vós, Samuel, ainda podeis duvidar?
Acima dessas últimas palavras ergueu-se um ruído duplo:
as portas de grande e reforçado armário de livros, preso à parede, tão abruptamente se abriram que os vidros tilintaram.
No mesmo instante, pesado e grosso volume tombou sobre a mesa.
Três golpes sonoros e algo alegres, sobre a parede, deram a conhecer que os desencarnados queriam luz.
Percebeu-se então, um grosso volume encadernado a couro, que Samuel, com enorme surpresa, reconheceu ser o Evangelho que o padre Rothey um dia lhe dera, e que talvez tivesse sido guardado por Estêvão no fundo da estante.
Na folha de papel, posta no centro da mesa, escrevera-se em grossos caracteres:
"Sacudi o volume".
Samuel apanhou o volume pelas duas capas e sacudiu-o:
dois pedaços de papel, que se via serem duas metades de uma folha inteira que se rasgara, tombaram sobre a mesa.
O banqueiro pegou-as; com um único olhar, porém, lançado sobre a escrita que nelas havia, fez-se mortalmente pálido:
reconhecera os caracteres escritos por seu pai à morte, pelos quais o ameaçava com a sua maldição, caso ele se tornasse cristão, papel este que Samuel rasgara completamente, minutos antes de sua tentativa de suicídio.
Quando, já restabelecido, se lembrara deste escrito e o andara buscando, não o conseguiu encontrar.
Concluíra, então, que o Rabino o apanhara e levara.
— Será que os Espíritos vos trouxeram algum misterioso hieróglifo, e por isso estais assim transtornado, Válden? — Indagou Kirchberg, que observava entre curioso e interessado o rosto expressivo do banqueiro.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 04, 2016 8:57 pm

— Tudo quanto ante meus olhos se passa está perfeito para expulsar o incrédulo que julgava assentar em terreno firme, e percebe finalmente que sob os pés apenas tinha areia movediça — foi a resposta de Samuel, enquanto enxugava a fronte molhada de suor.
Ser-me-á dado, entretanto, pedir a meu pai que diga o que deseja de mim, e se está satisfeito por eu ter-me conformado com os seus desejos expressos neste escrito?
Soaram três batidas afirmativas; após isso foi pedida obscuridade.
Os assistentes presenciaram, então, um magnífico espectáculo:
no meio da mesa formou-se um globo nebuloso, que aumentou, depois subiu um pouco, brilhando como luz fosforescente, tocha viva que iluminou, como raio lunar, o caderno e o lápis posto em cima dele.
E, debaixo dessa luz, o lápis trabalhou velozmente; quando a página estava repleta, o papel virava-se por si mesmo e o lápis continuava sua escrita.
Após algum tempo, o lápis caiu, a nuvem luminosa desapareceu e uma forte batida deu a conhecer que a resposta estava finda.
Com mãos trementes, Samuel aproximou da luz essa comunicação recebida do além, e com crescente emoção, leu:
"Meu filho. Após muitas e ardentes preces, alcancei a graça de poder entrar em contacto contigo, para te desiludir da crença errónea e malfazeja do Nada depois da morte, erro fatal, que angustiado, percebo que te arrasta para um caminho que conduz a enormes pesares na Terra e a horríveis sofrimentos no mundo dos Espíritos.
"Enceguecido pelas tentações da carne, durante a vida terrena, o homem olvida a realidade do mundo espiritual, sua real e eterna pátria.
Também eu, ignorante durante minha vida, cegando-me mesquinhos prejuízos impostos pela educação e pelo meio ambiente, acentuados ainda pelo ódio e desprezo com que se trata o povo judeu, fizera-me fanático, preso, com obstinação às práticas exteriores, e condenei-te pelo teu desejo de te fazeres cristão.
Morri; tão pronto se destacou do corpo inerte o eu indestrutível, foi-me dado conhecer meu novo estado, e perscrutar o pretérito, com o olhar desiludido do Espírito.
"Que vasto e maravilhoso horizonte se abriu diante de meu pensamento deslumbrado!
Quantas recordações me assaltaram!
Pude entender quanto é mesquinho e falaz tudo quanto, na terra, se nos assemelha importante e grave.
Na pluralidade de existências que Deus nos concede, para testar as nossas aptidões, temos, com alternâncias, amado o que havíamos desprezado e devotado ódio ao que antes adorávamos.
"E pude entender que, em sua inderrogável justiça, o Magnífico e Único Senhor do Universo criou todas as almas iguais, e todas destinadas a alcançar a perfeição com maior ou menor rapidez, conforme seu zelo e boa vontade.
No mundo espiritual, não há judeu, nem pagão desprezado, nem privilégios para os cristãos; nesse mundo apenas existem o virtuoso e o criminoso.
Por desconhecerem a lei do amor e da harmonia os homens criaram, por seu orgulho, ganância e ciúmes recíprocos, o ódio racial, crimes e perseguição, que, por fazer brotar no coração dos oprimidos todos os maus instintos deram nascimento a essas individuações odientas, animadas pelo desejo de vingança, que são ultrajadas sob o nome de judeu, não obstante se (acharem representadas em todas as seitas e nacionalidades.
No decorrer de minha vida, Samuel, ouvi-te deplorar acremente tua condição de judeu; mas, nessa época, tu estavas tão longe da realidade, quanto hoje; fizeste-te inflexível, sem piedade, ganancioso por princípio; serviste da desgraça alheia, por amor à vingança, não entendendo que o perdão das ofensas enobrece e repousa; que a caridade e a oração te fariam mais próximo de Deus e trariam calma à tua alma, ao passo que o ódio e a vingança te lançam no pélago das lutas e dores.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 05, 2016 8:17 pm

Esta condição moral pode estender-se por muitos séculos, pois vezes inúmeras retomamos um corpo mortal, aprisionados ao qual olvidamos o passado, e ignoramos que as dores do presente são merecida recompensa dos crimes pretéritos, e que Deus nos dá esse corpo para lutar, aprimorar nossas faculdades, elevar-nos no bem, e não para nos saciar nos prazeres materiais.
Também eu sofro e julgo, com acre desgosto, quanto desperdicei a minha última existência de provação.
"Numa outra vida, estive em posição de destaque, rico, mas esbanjador, orgulhoso, tendo em pouca conta o trabalho do meu semelhante, e, além do mais, intrigante.
Vencendo lutas infinitas, cuja descrição seria por demais longa, determinaram, para provar-me, que eu nascesse pobre, numa raça desprezada, e que conseguisse, pelo meu trabalho, modesto pecúlio, que não devia usar com egoísmo, mas no socorro aos meus semelhantes.
"Alcancei bom êxito.
Num trabalho constante e paciente, consegui a abastança; entretanto, não pude contentar-me com isso.
Meu espírito, atilado e astucioso, quis possuir sempre mais, persuadindo-me maneirosamente, de que esses cristãos, que nos desprezavam e maltratavam, mereciam ser despojados e que os de minha mesma raça, de quem explorava o espírito mais tacanho do que o meu, somente pagavam a taxa de uma aprendizagem obrigatória.
Desta forma, acumulei essa formidável fortuna, sobre a qual recaem muitas lágrimas e muitas maldições, e que a ti, também, filho, tem servido como fonte de tentações e infortúnios, porque te faz cheio de orgulho, o qual é uma horrível chaga da alma, na qual deteriora e morre qualquer boa intenção.
"Assim é, Samuel; fazendo-te orgulhoso de uma riqueza que deves à fortuna de teu nascimento feliz, não fazes caso de quem é mais pobre do que tu, ainda que seja um miserável judeu sem posses ou um cristão quase arruinado.
Pensa no futuro, filho; medita que ser pobre e esmolar em casa de rico é, quiçá, a mais terrível das provas para a alma orgulhosa do que pede, que, com esta humilhação, resgata o seu passado.
Figura-te no lugar do desgraçado e que, em vez de seres rico, és pobre e suplicas, com o coração opresso, a esse milionário (judeu ou cristão, o que seja), cuja impiedosa recusa vai lacerar teu coração e te atirar à miséria que julgas não merecer.
Insisto; medita sobre isto, e teu coração se ameigará, o ódio e o instinto de vingança se afastarão, e entenderás que valor ínfimo se deve dar ao ouro amealhado pelas nossas mãos mortais para a satisfação de nossa vaidade e incitar a inveja do próximo contra nós, ouro que devemos estar prontos a abandonar a qualquer instante, para tornar ao pó.
"Era minha intenção dizer-te muitas outras coisas, meu filho, mas nesta ocasião proíbem-me. Vens de adquirir convicção de que a alma sobrevive à morte do corpo e tens a certeza de que severa conta prestará de cada u m de teus actos. Fortalece e aprofunda esta crença.
Pelo esforço de tua própria vontade, deves expulsar da alma toda a escória que a fez submergir.
Em prece constante, velarei afervoradamente junto de ti, para que venças na áspera e trabalhosa batalha moral que te aguarda, porque tua alma, vaidosa e rebelde, deve ajoelhar-se, com fé, e humilde, diante de seu Criador, e o espírito de desforra deve ceder lugar à misericórdia e a o perdão".
Extraordinariamente excitado, Samuel dobrou a comunicação e a colocou no bolso do casaco.
— É-me permitido dirigir a meu pai uma indagação mental referente a um assunto de muita importância? — perguntou, hesitante.
Obtendo resposta afirmativa, logo que a luz se apagou, a mão fosforescente tornou a surgir e apanhou o lápis.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 05, 2016 8:17 pm

Mentalmente, Samuel perguntou se se descobriria a troca das crianças, ainda no caso de renunciar à sua vingança e de educar o A pequeno Príncipe como seu próprio filho.
Retrucou o Espírito:
"Uma fatalidade, que tu não poderás evitar, ou melhor, a vontade de Deus fará com que tudo se descubra, em data bem próxima, porém que eu não posso determinar.
Por vontade própria e com conhecimento de causa, praticaste o crime; tem a coragem de aceitar, também voluntariamente, o teu castigo, que estará dependendo de resto, e em grande parte, do resultado de tua luta actual.
"A humildade, a caridade e o perdão podem suavizar o castigo; entretanto, não atentes contra tua existência, pois um terrível remorso, árdua punição seria tudo quanto lucrarias com isso.
Prepara-te, com fé e ânimo, para o instante que se aproxima.
"Pôr-me-ei e m comunicação contigo um a vez mais; tua própria mediunidade me servirá, então, de intermediário.
Até breve, e ânimo!
ABRAÃO".
Suor gelado perolava a fronte de Samuel, lendo estas linhas; contudo, contendo-se violentamente, ergueu-se e estendeu ambas as mãos ao médium:
— Não tenho expressões co m que agradecer-vos, caro senhor, prestastes-me um serviço tal, para o qual não existe paga — disse ele. — E também a vós, Sr. Barão de Kirchberg, muito agradecido!
Declaro-me vencido:
estava cego quando acreditava que só a matéria existia; a certeza, porém, da existência do além-túmulo feriu-me bom o golpe de malho.
— Acredito-vos, meu jovem amigo; uma tal transformação nas crenças não se opera facilmente — respondeu o Barão, fitando fraternalmente o rosto transtornado e sofrido do banqueiro.
— Eu e o Sr. H""" vamos despedir-nos; faz-se tarde e necessitais da solidão, para reler as vossas comunicações e ajustar os vossos pensamentos.
Assim, contudo, que estiverdes mais calmo, vinde procurar-me, e havemos de conversar.
Tendo acompanhado os visitantes, Samuel tornou ao gabinete deixou-se tombar pesadamente na poltrona, frente à escrivaninha.
Desdobrando as comunicações recebidas há pouco, releu-as diversas vezes, e uma convicção, sempre mais pertinaz, se arraigou em sua alma.
Esse homem, que não conhecia, que viera por acaso à sua casa, não podia conhecer, assim, os seus segredos, imitar a caligrafia do seu pai, reproduzir o perfume de sua preferência, produzir todos esses fenómenos maravilhosos.
Não, nunca! Era verdadeiramente o Espírito de seu pai que lhe falara.
Ansioso, como que moído por essas novas sensações, Samuel descansou nos cotovelos, as mãos enterra das nos cabelos.
Seu coração trabalhava afanosamente, o peito estava opresso, e essa — alguma coisa que pensava — sofria, angustiada, rebelava-se dentro dele: a alma, o eu imortal, que sobrevive à morte.
Como emergindo de embriaguez, examinou a pistola que estava e m cima da escrivaninha.
Com que, então, a bala contida no cano de acção não destruiria senão o corpo?
Dos escombros da matéria, o seu eu indestrutível se escaparia, para dar conta de seus actos; não podia encher-se de culpa, quanto quisesse, e depois dissolver-se tranquilamente nesse.
Nada; morte, encarada por ele como libertadora, para escapar à justiça dos homens, atirava nas garras de uma justiça a seu modo mais suspicaz e terrível!
E ali, sobre o papel, estava gravado, com todas as letras:
"Prepara-te para o instante da próxima descoberta".
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 05, 2016 8:17 pm

Abafado gemido se escapou dos lábios de Samuel; um acaso fatal conduzi-lo-ia à punição, à vergonha!
Ele, o orgulhoso milionário, seria arrastado ante os tribunais, condenado, apontado ao desprezo e ao sarcasmo de todos quantos o invejavam e odiavam.
Sufocado, se m poder dominar-se, o banqueiro se pôs de pé.
— Não, não, — gritou para si mesmo — antes uma bala no peito, e depois o castigo, preferível a esse abismo de desonra, desprezo e vergonha!
A partir desse dia, batalha realmente infernal acendeu-se em sua alma, absorvendo todos os seus pensamentos, fazendo-se surdo e cego para o mundo exterior.
E m Raul, piedoso, confiante e idealista, a nova fé operara como efeito de um calmante, sem dominar-lhe todo o ser; na alma ríspida, orgulhosa e apaixonada de Samuel, essa filosofia severa e magnificente levantou um a borrasca; a ideia de se rebaixar, de atirar ao vento, como inutilidades, todas as crenças sobre as quais erguera o edifício de seu futuro, custava à sua alma enérgica um combate mortal.
Por vezes, recriminava-se por ter assistido a essa sessão, que lhe roubara o sono e o descanso.
Co m angustiosa sofreguidão, imergiu-se na leitura dos livros que Cuidava m da doutrina espírita:
em cada página deparava com os preceitos de humildade, perdão, justiça irremovível, que seu pai expressara; no entanto, seu orgulho e cegueira eram tais, que continuava firmemente disposto a recorrer ao suicídio para escapar à vergonha da punição terrena.
Em troca, buscava ardorosamente, nas obras espíritas, tudo quanto dizia respeito ao estado da alma depois da separação do corpo e nessa leitura encontrava, também, a condenação ao suicídio:
os Espíritos mesmo s confessavam a seus irmãos encarnados que o corpo, violentamente destruído pela morte, em pleno vigor da mocidade, ficava preso ao corpo diáfano (invólucro da alma), por sólidos "aços eléctricos, pelo fluido vital ele que a matéria está intrinsecamente impregnada.
A alma do suicida, ligada por esse laço fluídico ao corpo em putrefacção, imobilizava-se de algum modo nas sensações vividas no instante criminoso, incessantemente voltando as angústias das torturas morais e dos sofrimentos físicos que tinham antecedido e Arguido a destruição d a matéria.
Dominado pela impressão atordoante dessas comunicações tão vivas, tão reais, Samuel comprimia a cabeça nas mãos, indagando a si próprio, pela centésima vez, se não era melhor sofrer alguns meses de prisão na terra, a sofrer as agonias infinitas de um a paralisarão junto a um corpo em deterioração, para, depois, reencarnar numa Condição miserável, coberta de vergonha.
Sob o domínio dessa luta absorvente, Samuel emagrecera sensivelmente; não comia, não bebia, olvidava-se dos negócios, que Relegava totalmente aos subordinados.
Os funcionários do Banco, não entendendo coisa alguma dos motivos de uma tal negligência, puseram-se a murmurar que o patrão tinha ensandecido em consequência de duas sessões espíritas, o que reafirmava a ideia de quanto era perigoso dar-se a essas práticas infernais, que Moisés proibira, assim também a Igreja.
Em certa noite, estava Samuel em seu dormitório, sozinho, mais do que jamais abatido e torturado por seus contraditórios pensamentos.
Cansado de ter passeado de um lado para outro, sentou-se numa espreguiçadeira, e estava meditando sobre certo artigo que lera pela manhã na "Revista Espírita".
0 escrito dizia respeito à força benéfica da prece, da calma e paz que derramava no coração mais ferido.
— Como se reza? — pensou Samuel.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 05, 2016 8:17 pm

Nunca mais rezei, desde menino e, no entanto, eu teria muita necessidade da consolação de u m esclarecimento do Alto; pode ser que o instante da descoberta esteja perto, e eu vacilo sempre, não podendo decidir entre a escolha da morte ou da desonra.
Pela vez primeira e m muito tempo, juntou as mãos e, apertando-as contra a fronte escaldante, sussurrou:
— Oh! meu Pai! afirmaste que estarias velando junto de mim em constante oração; deves, portanto, estar percebendo me u sofrimento.
Inspira-me: como precisarei orar, para encontrar a paz?
Como se esgotado por essa invocação, recostou-se ao espaldar do divã e ficou imóvel; seus pensamentos não mais se renovaram; pesado torpor caiu-lhe sobre os membros, incapacitando-o de mover a se ou falar, enquanto um calor estranho lhe corria pelo corpo.
Era ao crepúsculo, e o quarto estava imerso em quase completei obscuridade.
Nenhum dos fâmulos ousava trazer luz, porque, depois de uma data a esta parte, o banqueiro não permitia que o perturbassem, a não ser a chamado seu.
De súbito, o olhar do jovem foi irresistivelmente atraído para o meio do aposento, onde viu uma claridade sobressaindo-se na semi-escuridão ambiente.
Esse simulacro de estrela cresceu com rapidez, transformando-se e m largo raio de luz azulada, em cuja claridade Samuel percebe a forma de um homem, de joelhos, envolto em manto cinzento nublado. Tal aparição, u m pouco distante do banqueiro, erguia a mãos para um centro brilhante concentrado ao alto do raio de luz.
Naquele perfil destacado e pela longa barba branca, Samuel pôde reconhecer o pai.
Então, palavras como diluídas na distância, mas inteligíveis ainda ao seu ouvido, chegaram até ele:
"Forças do Bem — dizia esse som misterioso — fazei que meu filho compreenda que, enquanto não tiver escolhido sua rota, a luta prosseguirá; dai que bem depressa ele esqueça a crença que turbou sua alma, se ele não for capaz de distinguir o verdadeiro do falso; lhe faltar o ânimo para reconhecer o bem, para entender que a vitoria faz repousar...
Oh! meu filho! assim como essa vingança, que se as semelhava tão importante para ti, se desmanchou entre tuas mãos, assim também parecer-te-á, um dia, insignificante e mesquinha a opinião dos homens, a qual dás tanto apreço.
É ser desgraçado o criminoso que conta co m a impunidade, e recua diante do castigo e da justa recriminação dos homens.
Se desejas orar, faze-lo por actos; arrepende-te, enche-te de humilhação, e essa divina consoladora, a oração, encherá tua alma; o renitente, o orgulhoso, não precisa desse consolo de pobre deserdado.
A cabeça da aparição virou-se para Samuel e um olhar pleno de inexprimível expressão de amor, sofrimento e aflição, enfiou-se no seu.
Nesse preciso instante, acima do ancião, recortou-se um rosto profusamente iluminado por uma auréola dourada; dois grandes olhos, calmos e severos, fitaram Samuel e uma voz sonora e harmoniosa exclamou:
— Enquanto pensares achar a salvação no suicídio, não terás repouso.
Como acordando de um sonho, em sobressalto, o banqueiro ergueu-se:
— Que foi isto? — murmurou — Terei sonhado, ou tratava-se mesmo de uma visão?
Retirou do bolso os fósforos e acendeu um a vela, que estava próxima, em cima da mesa.
Seu primeiro olhar foi posto sobre uma folha branca, posta embaixo do castiçal.
Apanhou-a e leu, com o coração aos pulos, as mesmas palavras que acabara de escutar.
Abaixou a cabeça; repentina resolução firmara-se em seu íntimo; a ideia de suicidar-se foi relegada para sempre, e ardente oração se levantou de sua alma atribulada, para o Autor de todas as coisas.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 05, 2016 8:17 pm

4 — A CONFISSÃO

A partir deste dia, a calma retornou, pouco a pouco, ao espírito de Samuel.
Com sua característica força de vontade, encarou o futuro, disposto a enfrentar o que lhe estava reservado, e preparando-se intimamente para tal.
Mais ensimesmado e silencioso do que nunca, Samuel dedicou todo o seu tempo aos negócios, trabalhando com mais afinco do que qualquer funcionário.
Contudo, sua maneira de agir se transformara tão radicalmente, que Levi vivia a sacudir a cabeça, e concluiu, do mesmo modo que Silberstein igualmente insatisfeito, que, decididamente, o cérebro do banqueiro estava lesado e em descalabro próximo.
No decorrer da crise moral que viera de sofrer, Samuel descuidara-se do menino, cuja presença lhe era aborrecida; contudo, à proporção que a calma lhe voltava, renascia, estranha e absorvente, a afeição que lhe inspirava o menino, e quase todo o tempo em que ficava livre gastava-o a brincar com ele, a desenvolvê-lo e educá-lo.
U m incidente, aparentemente insignificante, ocorrido a esse tempo, veio dar um rumo totalmente diverso aos seus pensamentos.
Um dia, quando palestrava com o Rabino, que o visitava a negócios, foi por ele advertido de que se devia iniciar a educação religiosa do pequeno Samuel, que ia completar seus cinco anos, da qual sempre o banqueiro se descuidara, (ajuntou ele, frisando bem a palavra), e também de o conduzir à Sinagoga.
A o término da conversação, recomendou ao banqueiro um jovem levita, seu amigo, muito capacitado a incutir no menino, quase brincando, os preceitos da religião mosaica.
Samuel respondeu evasivamente; entretanto, o problema suscitado nessa palestra muito o preocupou.
A si mesmo indagou se, abandonando a sua vingança, tinha o direito de obrigar o menino a essa religião, que o separava mais ainda das pessoas de quem o havia raptado, e à qual teria que renunciar logo que os pais o tivessem recuperado?
Podia ele, honestamente, acrescentar esse conflito aos demais que haveriam de agitar o coração do menino?
E uma segunda pergunta, não menos aflitiva, acendeu-se e m seu espírito: quando se descobrisse a verdade, lhe devolveriam o filho renegado?
Com que sentimentos e esse filho, educado na fé cristã, capacitado já a compreender quanto tinha a perder, viria para a companhia do pai, de quem o separava um a religião que teria aprendido a desprezar?
E Samuel estava fadado a morar com esse filho, pois, ainda que fosse condenado a muito tempo de prisão, ambos teriam que reunir-se, ao final da pena.
— Não — pensou o banqueiro — já que não mais desejo vingar-me, devo, na medida de minhas forças, reparar o mal que fiz; educar a criança cristã na crença de seus pais, e encher, tanto quanto possa, o abismo que me afasta de meu filho renegado.
O que eu desejei fazer por amor de uma mulher infiel, posso agora realizar como primeiro ato de arrependimento.
Irei à casa do padre Rothey, pedir-lhe que me baptize e ao menino.
Como primeira consequência dessa decisão, Samuel entendeu-se com a ama do pequeno e deu-lhe ordem de lhe ensinar as preces cristãs e também as noções da vida de Jesus.
Não mais se avistara com o padre Rothey, nos últimos tempos, senão com longos intervalos, mas mantivera com regularidade a pensão que lhe estabelecera para os pobres, e suas relações continuaram amistosas.
O velho padre recebeu, assim, o banqueiro, com bondade.
Conhecendo o seu desejo de converter-se, infinda alegria brilhou em seu rosto.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 05, 2016 8:18 pm

— Oh! filho meu! tinha o pressentimento de que Deus me reservara essa graça! — exclamou, os olhos marejados de lágrimas.
Expressão de funda mágoa obscureceu o rosto de Samuel.
— Não vos contenteis com a minha conversão, padre, sem primeiro ouvir a minha confissão.
Não obstante dever fazê-la antes do baptismo, estou certo de que guardareis o inviolável segredo imposto ao vosso ministério.
Além do mais, certamente haveis de reprovar o motivo que me leva a fé em Deus e na eternidade da alma.
Julgareis de tudo.
Assim, Samuel expôs pormenorizadamente os fenómenos extraordinárias, as provas irrefutáveis que haviam batido a sua incredulidade.
— Estais em erro, meu filho — disse o velho padre, com gravidade.
— Não lanço minha condenação sobre essa crença que dizem ser nova, mas que é tão antiga quanto o mundo:
a Bíblia e o Evangelho guardaram ocorrências em tudo semelhantes às que vistes, como sejam a aparição de Samuel a Saul, a mão de fogo que traçou, na parede do próprio palácio, durante o festim, a condenação de Baltazar.
E as visões dos profetas, a aparição de anjos e santos, não demonstram a existência de seres bons e maus, invisíveis?
Também eu, meu filho, tive provas de relações extraterrenas, e, bem que não possa fazer sentir a todos a minha opinião sobre esse assunto, a vós digo o que penso, e não posso condenar a crença que vos subtraiu a perdição.
Três semanas decorridas após essa conferência, o padre Martinho declarou seu discípulo suficientemente apto, e marcou o baptismo para o domingo seguinte.
Samuel, nessa oportunidade, novamente manifestou-lhe seu desejo de lhe abrir o coração, antes da solene cerimónia, e rogou ao sacerdote que fixasse um dia e m que poderia dispor de algumas horas livres para essa secreta conferência.
— Hoje mesmo, meu filho, terei livre toda a tarde e irei ouvir-vos.
Será preciso repetir-vos que, seja de que espécie for a vossa revelação, a secreta úlcera de vossa alma que me mostrais, o segredo morrerá comigo?
À noite, Samuel foi para o quarto outrora destinado a Valéria, e poupado sobrenaturalmente ao fogo.
Os vestígios desse desastre há muito haviam desaparecido.
O palácio, reconstruído e guarnecido de novo, readquirira o aspecto habitual; apenas a disposição dos aposentos sofrera definitiva mudança.
Os escritórios e todas as seções do Banco foram instalados no malsinado primeiro andar, e o banqueiro fixara-se, de maneira definitiva, no pavimento térreo; o gabinete retomara sua posição ao lado dos misteriosos aposentos, que, contudo, permaneciam fechados e, havia mais de um ano, Samuel não tornara a entrar ali.
Expulsava com frequência as suas recordações; naquele dia, porém, pareceu-lhe que o único lugar apropriado para a sua angustiosa confissão era esse, preparado em outros tempos para a mulher que se transformara em tropeço na sua vida.
No aposento de veludo azul, com aplicações de prata, um retrato, velado sob cortina, estava posto sobre um cavalete.
Samuel acendeu as velas de dois castiçais colocados no beiral da chaminé, fez voltar-se o cavalete a claridade e descobriu o quadro:
Valéria, com o figura animada de vida, surgiu aos seus olhos, tal como a vira num instante inesquecível, com esse vestido branco e transparente, e o ramalhete de flores sobre os joelhos, e fulgurações de sol nos cabelos castanhos, sorrindo-lhe, formosa!
Longo suspiro escapou-se do peito do banqueiro.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 05, 2016 8:18 pm

— E tu também já não és o que foste — murmurou.
Que é feito dessa expressão de infantil confiança, da calma candura que reflectiam teus olhos azuis?
A vida e as paixões consumiram-na.
Entretanto, que crimes poderias ter cometido, para que teu marido te abandonasse?
Terias sido infiel a Raul, traindo, da mesma forma que me desiludiste e olvidaste?
Que borrasca passou sobre tua fronte, para transformar-te naquela sombra de ti própria, como ontem te encontrei?
No dia anterior, Samuel, na sua carruagem, encontrara-se com outra viatura, dentro da qual pode reconhecer Valéria, contudo tão mudada que não quis acreditar em seus próprios olhos.
Nuvem de tristeza ensombrava a fronte da jovem senhora, seus olhos brilhavam com sombrios fulgores, e uma crispação áspera e dura vincava sua pequena boca, outrora tão risonha.
Também ela o reconhecera, mas, com gesto meio espantado, algo raivosa, voltara a face e abaixara a sombrinha.
A recordação dessa prova de inimizade trouxe u m acentuado rubor às faces de Samuel; com gesto brusco, desceu a cortina e, virando-se, tomou um dos candelabros e o levou para o antigo dormitório; colocou-o sobre a mesa, aproximou duas poltronas e, retirando da alcova um crucifixo de marfim, colocou-o sobre o Evangelho.
Acabava de fazer tais arranjos, quando duas batidas discretas, à entrada do gabinete, preveniram-no de que alguém o buscava.
O Padre Rothey!
Samuel cerrou a porta do aposento, e levou o padre para o dormitório.
— Que magnífico retiro preparaste para vós, meu jovem amigo; um exacto ninho feminino — disse o velho, com um sorriso.
— Este retiro jamais foi destinado para mim, senão para aquela que foi minha noiva, e hoje é a Princesa Valéria de O""", — respondeu Samuel, indicando ao visitante uma poltrona.
— Arrastado pelo meu insensato e invencível amor, guardarei esta recordação de minha felicidade fugace; aqui, onde julguei poder viver feliz com a mulher que, pode-se dizer, me atirou ao caminho do mal, desejo, padre Martinho, pôr-vos a descoberto minha alma inteira.
Ante essa imagem simbólica do Redentor, cuja religião abraço (ele pôs a mão sobre o crucifixo), quero fazer-vos a confissão de minhas faltas, e esperar a sua misericórdia e o seu perdão.
— Falai, meu filho — disse o padre, fazendo o sinal da cruz.
A misericórdia do Pai é infinita e não há falta que não se possa remediar com um verdadeiro arrependimento.
Samuel apoiou-se nos cotovelos, por instantes, a fronte entre as mãos; vencendo, porém, a fugaz fraqueza, levantou-se e, e m voz sumida, se m nada ocultar, contudo, desenrolou aos olhos do confessor toda a sua vida: seus amores com Valéria, as angústias do ciúme que suportara antes com Ruth; finalmente, o insulto, que não merecera, que Raul lhe atirara no baile do Barão de Kirchberg, que fizera acender-se em sua alma um inferno de ira e louco anseio de vingança.
Narrou, então, o plano diabólico que lhe inspirara a gravidez simultânea das duas mulheres, a troca das crianças e sua decisão de ministrar ao filho do Príncipe a educação do verdadeiro judeu avarento, de transformá-lo num ente desprezível, com todos os defeitos que haviam, injustamente, atribuído a ele próprio, Samuel.
Não procurando desculpar de modo algum suas próprias iniquidades, contou de que maneira Ruth viera a ser amante do Príncipe, e confessou que, sem compaixão por sua falta e não obstante o estado da ré (grávida de um filho do Príncipe), a julgara com crueldade, e relatou mais o incêndio pelo qual Ruth acobertou a fuga e o roubo das jóias.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 05, 2016 8:18 pm

Sempre mais agitado por essas recordações, narrou sua vida miserável, inócua, ferida até em sua sede de vingança pelo incompreensível afecto que dedicava à criança raptada; sua determinação de escapar, pelo suicídio, a toda responsabilidade humana, e o repouso que encontrara na crença desse nada após a morte.
— E precisamente quando me julgava certo de ser apenas matéria, a voz de meu pai se ergueu do túmulo, a provar que a personalidade sobrevive e sofre o castigo de seus actos — concluiu o banqueiro.
É, portanto, para oferecer uma reparação parcial ao mal que pratiquei, que me faço cristão, meu padre.
Dou à criança raptada a religião de seus pais, e não estarei afastado de meu filho por outra fé.
Aceitará Deus o meu arrependimento e me dará, no instante decisivo, a força para vencer a tentação do suicídio?
O futuro o demonstrará!...
Calou-se. Baixou a cabeça, vencido.
Altamente horrorizado, cheio de espanto e piedade, o velho sacerdote ouvira a longa narrativa do banqueiro; com mão trémula, persignou-se outra vez.
Depois, curvado para Samuel, disse, emocionado:
— Horríveis são os abismos que nas almas dos homens cavam as paixões desabridas:
vós as sofrestes, me u filho, renegando todos os sentimentos da natureza.
Na vossa cegueira, pudestes sacrificar à desforra a inocente criatura que vos deve a existência.
Qual será o destino dessa infeliz criatura, se a verdade se patentear, caso cumprais o ímpio projecto, e o tornardes duplamente órfão?
Não, não; não quero acreditar que desejeis juntar mais este fardo ao vosso crime, o qual já deu tristes frutos, e fez a desgraçada Valéria pagar tremendamente a sua falta de fé para convosco.
É verdade, meu filho.
Preciso dizer-vos que há bastante tempo um surdo ciúme refervia no coração do Príncipe; um acaso fatal fez que ele percebesse a extraordinária parecença que existe entre vós e o menino a quem dá o nome de filho, e que não apresenta nenhum traço de seus supostos pais.
Trouxe, então, Valéria sob a suspeita da mais vergonhosa traição, e para cúmulo do infortúnio dela, encontrou, num medalhão que ela, imprudente, sempre trazia, o vosso retrato ainda escondido sob o dele.
Com essa prova irretorquível, o Príncipe acusou-a diante do pai e de Rodolfo, de tê-lo traído e acobertado sob o seu nome de esposa o fruto do adultério.
Deixou-a, e apenas os rogos de sua mãe, na agonia, puderam evitar um processo ruidoso.
Seus parentes ainda crêem e também eu por muito tempo o cri, em relações criminosas entre vós ambos, pois a semelhança de Amadeu é muito estranha, e não poderia, evidentemente, adivinhar a verdadeira explicação do mistério.
Samuel saltou da cadeira, branco e agitado.
— Ah! desgraçada mulher!
Sem desejá-lo, de ti foi que me vinguei infernalmente — clamou, a cabeça entre as mãos.
E m razão de meu crime, uma nódoa degradante maculou tua honra pura!
Isso, não! Não era isso o que eu desejava!
— Possa este acontecimento, meu filho, demonstrar-vos, ainda uma vez, quanto é cega e fraca a vontade do homem; humilhai-vos diante dos insondáveis caminhos da Providência, que autoriza, em certos casos, o crime, para fazê-lo servir à prova e à regeneração de suas criaturas.
Observai de que maneira a mão do Senhor usou as vossas próprias paixões para vos recambiar a Ele, regenerado!
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 05, 2016 8:18 pm

Fostes encaminhado à religião cristã pelo arrependimento, e vossa alma foi salva dos abismos do ateísmo.
O louco orgulho de Raul, que o fazia julgar-se acima dos demais por direito de estirpe, Deus castigou, permitindo sua criminosa ligação com a mulher do homem a quem, injustamente, insultara; e Valéria, por faltar-lhe a coragem de confirmar a palavra dada ao homem de sua preferência, teve a sua honra injustamente maculada.
— No entanto, só o pensar que fui eu quem lhe causou esse mal irreparável me angustia terrivelmente! — murmurou Samuel.
O velho sacerdote sacudiu a cabeça, com um suspiro:
— Esse é sempre o resultado da acção má.
Entretanto, permiti-me dizer-vos, meu filho, que é por actos, e nunca por inócuos lamentos, que deveis pagar os vossos erros.
Dedicai ao menino raptado amor profundo e realmente paterno; tornai-o em um homem honesto, piedoso; caritativo, que saiba empregar em obras de bem, dignamente, e m favor de seus semelhantes, a incalculável fortuna que lhe deixardes, e tereis reparado uma grande parte da vossa falta para com ele, visto como não são o nome nem a estirpe que fazem o homem venturoso e o tornam honrado diante do Senhor.
No que me diz respeito, rogarei ardentemente para que a bondade divina relegue ao olvido o vosso crime; que ajude Raul e Valéria a cumprirem, honestamente, as suas obrigações para com o pequeno Amadeu, e em vosso coração, filho meu, esparza calma, submissão e a força de cumprir o vosso dever.
O banqueiro pretendia fazer o menor alarde possível à sua conversão.
Desagradava-o o pensamento de novas bisbilhotices em torno de sua decisão.
Resolvera, outrossim, que a cerimónia se realizasse sem nenhum aparato, na igrejinha privativa do padre Martinho, após a missa, e em presença apenas das necessárias testemunhas.
O Barão de Kirchberg, o único dos cristãos de seu conhecimento que lhe inspirava simpatia, estava ausente; contudo, graças ao abade de Rothey, os componentes de uma honrada família de sua paróquia, concordaram e m servir de padrinhos e madrinhas ao milionário e ao seu filho.
Tratava-se de velho oficial reformado, que vivia, com a exígua pensão que lhe propiciava a patente, com a mulher e uma filha casada com um funcionário público de modesta categoria.
Piedosos e bons, eles deram aos neófitos a mais benévola e cordial acolhida, e logo se tomaram de arraigado carinho pelo lindo menino.
Por fim, chegou o dia do baptismo.
Samuel, concentrado e emocionado, aparentava, entretanto, uma calma que, há tempos já, não conhecia.
Foi com intraduzível sentimento e amor que, finda a cerimónia, levantou nos braços o pequeno Egon e aproximou dos lábios sua boca rosada e seus cabelos castanhos.
Tinha a sensação de haver-lhe devolvido uma parte do que lhe subtraíra.
Com essa intenção, escolhera para o menino o nome de seu avó materno; ele mesmo adoptara o de seu padrinho, Hughes, nome com que o designaremos doravante.
Os assistentes encaminharam-se, todos, da Igreja à casa do banqueiro, onde os aguardava um delicado almoço, servido em franca alegria; o padre de Rothey dava a impressão de que esquecera a confissão de Samuel:
seu venerável rosto expandia-se radiante, sua alegria e bom humor não pareciam esgotar-se nunca.
Reunidos que foram no salão, Hughes obsequiou as duas senhoras, com o recordação desse dia, para ele tão significativo, com as duas jóias, que outrora Antonieta e Valéria lhe haviam devolvido e que, para essa humilde família, significava a fortuna.
As senhoras ficaram extasiadas, e a mais jovem, tão gentil quanto simplória, indagou de pronto ao seu afilhado se ele não se zangaria que ela trocasse, em casa de algum joalheiro, esses magníficos diamantes por uma quantia equivalente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 05, 2016 8:19 pm

O banqueiro retorquiu, sorrindo, que ela era absolutamente independente para fazer de seu presente o uso que melhor lhe conviesse, e ajuntou, beijando-lhe a mão:
— Caso venhais a ser mãe, minha encantadora madrinha, devo esperar que consintais em que eu tenha uma compensação, e seja o padrinho de vosso filho, mas um padrinho de verdade, que o auxilie a vencer as dificuldades da vida.
Após a partida de seus convidados, o banqueiro insulou-se em seu quarto de dormir com o novo cristãozinho, cuja alegria, já de si grande, atingiu o clímax ante uma mesa repleta de brinquedos que o aguardava.
Seguindo com os olhos as brincadeiras barulhentas do menino, e dando pacientes respostas às suas infindáveis perguntas, Hughes meditou sobre o futuro e fez o juramento, ainda um a vez, de consagrar todos os seus cuidados à educação desse filho por sua própria vontade adquirido.
A amizade de Egon tornava mais fácil a tarefa, porque, ainda que fosse indócil, voluntarioso e de natureza arrebatada, era, por outro lado, muito amoroso, e apenas um olhar severo do pai, que ele idolatrava, fora sempre suficiente, até essa data para reencaminhá-lo à obediência.
Entretanto, em pouco tempo, o pensamento de Hughes se voltou todo para Valéria, cuja figura, há alguns dias já, retomara novo domínio e m seu coração.
A certeza de que não fora completamente esquecido, de que ela guardava a sua foto e a remirava, talvez, recordando as palavras de amor outrora sussurrada aos seus ouvidos, deslumbrava-o, torturando-o também, porque essa silenciosa fidelidade, ele a pagara fazendo recair sobre a jovem a mácula de uma suspeita infundada.
— Oh! Valéria! pudesse o destino oferecer-me a oportunidade de sacrificar minha existência para devolver-te a felicidade, quão feliz seria! — murmurou.
Desligar-me da vida, sem cometer um crime, que poderia mais aspirar?
O menino, tendo ido dormir, o banqueiro ficou só e absorveu-se na leitura do Evangelho.
E escutou, subitamente, três pancadas distintas, percutidas na parede.
— É meu pai — pensou, estremecendo.
Estás satisfeito comigo, e queres falar-me? — indagou, emocionado.
A resposta veio afirmativa.
Apressou-se, então, a trazer papel e uma prancheta na qual afixou um lápis; pós as mãos sobre ela, absorvendo-se num a prece mental.
Após alguns minutos, recebeu a mensagem que se segue, a qual o fez muito feliz:
"Os bons impulsos, o arrependimento, constituem o real baptismo do espírito.
Prossegue purificando teu coração, com actos; sê humilde e crente; o sossego, a tranquilidade da alma constituirão tua recompensa.
Rezo por ti; quando houver necessidade, dar-te-ei novas mensagens".
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 05, 2016 8:19 pm

5 — A RECONCILIAÇÃO

Depois que regressou de Paris, Antonieta pensou seriamente em reconciliar Valéria com Raul.
Nas inúmeras cartas que endereçava à cunhada, o Príncipe lhe rogava que nada esquecesse para conseguir tal aproximação.
A doença do velho Conde de M""", que inesperadamente se agravou, a um ponto tal que o médico avisou a família de que não alimentava nenhum a esperança de cura, foi para Valéria o primeiro passo para a reconciliação com os seus.
Ante essa notícia da infelicidade que os atingia, Antonieta escreveu à cunhada uma carta afectuosa, mas algo severa, em que lhe demonstrava quanto seria criminoso guardar ódio a um enfermo, à cabeceira do qual a chamava o dever filial, sobretudo porque, ela mesma estando doente (Antonieta aguardava o nascimento próximo do terceiro filho), não lhe era possível velar junto do Conde tão constantemente quanto era recomendado.
Num pós-escrito, que juntou a essa carta, o velho Conde escrevera, com letras inseguras:
"Minha querida Valéria, percebo a proximidade de meu desenlace, e desejo, com toda alma, rever-te; perdoa, minha querida, a teu pai agonizante, e consente que, ainda uma derradeira vez te abrace e te abençoe!"
Essas linhas, e o pensamento de perder o pai, tiraram Valéria de seu alheamento; sobressaltada, lamentando acremente a enorme distância, seguiu no mesmo dia para Pesth, e, constatada a terrível mudança registada em seu pai, terminou por destruir a camada de gelo que lhe cobria o coração, ardente e carinhoso.
Debulhada em lágrimas, atirou-se nos braços do Conde, que a beijou inúmeras vezes, repetindo:
— Perdoa-me, filha querida, a minha injustificada suspeita:
como foi possível que eu acreditasse piamente que tu, a imagem viva da tua mãe, de celestial pureza, pudesse rebaixar-te a tanto?
— Não há nada a perdoar-te, meu pai — murmurou Valéria, trazendo aos lábios a mão ressecada do Conde.
Acaso és culpado de que todas as aparências me acusem?
Mais uma vez, pela minha salvação eterna, juro-te que apenas em pensamento fui infiel a Raul; nunca, entre mim e o banqueiro, houve relações criminosas, e o facto de Amadeu parecer-se admiravelmente com ele é para mim um insondável mistério.
— Bem o creio, minha filha, e dou-te a minha bênção por tudo quanto tens feito e sacrificado por amor de teu pai.
Após essa reconciliação, Valéria fez-se a enfermeira do pai, com um devotamento quase febril.
Velava, noite e dia, desprezando até o descanso necessário.
O horrível remorso de ter, por longo tempo, sacrificado o dever de filha ao seu ressentimento, afligia-a; cada momento dessa existência que se finava, era para ela como um tesouro que merecera perder e, quando julgava estar o enfermo dormindo, entregava-se totalmente ao seu desespero.
A doença do Conde piorava tão rapidamente, que ele manifestou desejo de preparar-se para a morte, e recebeu os sacramentos.
Na noite imediata a essa triste cerimónia, o agonizante parecia dormindo, pois estava em extrema fraqueza, e, o rosto escondido no travesseiro, Valéria chorava silenciosamente quando sentiu a mão do pai descansar em sua cabeça.
— Não chores, filha; tuas lágrimas me partem o coração — disse.
Meus padecimentos e a morte que os seguirá, nada mais são do que justo castigo aos excessos de que me fiz culpado, e que arrasaram a minha fortuna e destruíram minha vida.
Essas dissipações e desvarios, foste tu quem os resgataste, minha querida filha, e, por essa razão, o remorso envenena meus derradeiros instantes.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 05, 2016 8:20 pm

Dia após dia agradeço a Deus por ter propiciado a Rodolfo a força de se deter na ladeira fatal, e de encontrar a ventura no amor de sua esposa e de seus filhos.
— Não te recrimines, pai; não procuraste senão fazer-me feliz; entretanto, o pensamento de separar-me de ti me é horroroso.
Deus castigou minha recalcitrância, e estarei sozinha, completamente isolada, porque nem mesmo meu filho pode servir-me de consolo.
Sua presença me oprime o coração em e torna péssima mãe.
— Não digas tal, Valéria; tens um irmão e uma irmã que te querem bem; um marido que anseia por fazer as pazes contigo; apenas deves abrir teu coração ao perdão e ao esquecimento, e não ficarás sozinha.
A jovem senhora fez, arrebatadamente, um gesto negativo.
— Nunca, meu pai...
Não conseguirei esquecer que Raul, deixando-me, lançou uma mancha à minha honra.
Será inútil toda reconciliação, porque Amadeu estaria sempre entre nós, como ameaçador enigma, e eu não posso coabitar com o homem que levanta contra mim a suspeita de infâmia, e declarou que entre nós se abriu um abismo!
— Não dês guarida à injustiça, minha filha — aconselhou o doente, erguendo a mão com gravidade.
Tal reunião de circunstâncias suspeitas com razão exasperaria um homem de carácter impulsivo e apaixonado; entretanto, Raul está muito mudado:
seu amor, e o que é mais, sua confiança em ti, acabaram derrotando-o, e isso ele o prova pelo carinho que dedica ao menino.
Não desprezes, pelo teu orgulho, a felicidade e a paz, e promete-me que procurarás controlar-te, e não expulsar a Raul.
A vossa reconciliação me fará feliz no outro mundo.
Recorda-te de que este é o derradeiro pedido que te faço!
— Eu procurarei obedecer-te, pai, com o tempo — murmurou Valéria, debulhando-se em lágrimas.
Alguns dias decorridos após esse diálogo, o Conde faleceu, e Valéria, esgotada pelas vigílias e pelos prantos, caiu enferma.
Assim que se julgou um pouco melhor, mostrou desejo de retornar à sua propriedade isolada; no entanto, o irmão e a cunhada, assim como o médico, mostraram tenaz oposição a esse desejo.
O médico exigiu que a jovem percorresse, por alguns meses, a Itália, para retemperar os nervos abalados, e banir as tristes impressões dos últimos tempos, num ambiente todo novo.
Ainda que um tanto ressentida, Valéria acabou por concordar.
Contudo, disse:
— Preparai tudo, porque não cuidarei de coisa alguma; não posso entender porque tu e Rodolfo vos intrometeis tão frequentemente na minha vida.
Nisso apenas enxergo puro egoísmo, pois minha existência não tem finalidades, nem obrigações, nem futuro!
— Envergonha-te destas palavras ímpias — disse Antonieta.
Um ser moço, saudável, e mãe, não teria um a finalidade na vida?
Não preciso referir-me a uma segunda pessoa, que tem direito ao teu perdão e ao teu amor, já que juraste suportar todas as dificuldades com ela; lembra-te, contudo, de que és cristã.
E, depois, estejas de acordo ou não, nós aquelaremos tudo, sem teu concurso.
A partir dessa decisão, estabeleceu-se mais frequente a troca de missivas entre Raul e a Condessa, a qual anunciou a partida de Valéria, aconselhando valer-se da oportunidade para reaproximar-se dela.
O Príncipe, cheio de entusiasmo, aceitou a sugestão e participou imediatamente a Antonieta que, servindo-se de um homem de sua confiança, alugara, nas margens do lago de Como, duas quintas vizinhas uma da outra.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 05, 2016 8:20 pm

Reservara a menor para Valéria; na outra, ele próprio queria habitar, para aguardar a jovem, ainda que à revelia dela, e para aguardar o momento de reconciliar-se com ela.
Como o estado de Antonieta não lhe permitisse acompanhar a cunhada, Raul solicitava-lhe, somente, que desse a Valéria uma companheira de viagem eficiente e discreta, a quem pudesse confiar seu plano e a qual se fizesse sua aliada.
Esta outra parte da trama alcançou êxito tão completo quanto a primeira:
uma velha parenta, conhecida por Valéria desde sua meninice a quem queria muito bem, ofereceu-se espontaneamente a seguir Valéria.
A tia Adélia, como todos a nomeavam, era o tipo acabado dessas óptimas solteironas, cuja alma sem ódio algum parecia ter sido criada apenas para ser útil aos outros, tanto era serviçal, alegre, conversadora (não indiscreta), querida por todos; vivia por etapas em casa das incontáveis famílias de sua parentela.
Tão logo Antonieta a pós a par da intenção do Príncipe, entusiasmou-se.
Tinha paixão casamenteira, e desgostava-se com as brigas de casais.
Jurou, assim, valer-se de todos os seus recursos para reunir os jovens esposos.
Não tendo a mais leve suspeita da trama que se enredava à sua volta, Valéria ainda chorava a morte do progenitor.
Indiferente e desanimada, condescendia com todos os arranjos, deixando-se transportar para as margens do lago de Como com indiferença igual a de um fardo que fosse mandado para a China.
No dia anterior ao marcado para a partida, ambas as jovens estavam reunidas no quarto de vestir da Condessa, a qual, demasiadamente incomodada pela gravidez já adiantada, não se levantara desde há alguns dias da espreguiçadeira.
Acomodada junto dela, Valéria meditava, quieta, os olhos fixos num quadro que a mostrava de braço com Raul.
Essa tela, executada no primeiro ano de casamento, era um presente do Príncipe ao cunhado.
Não estando a observá-la, Antonieta quebrou de súbito o silêncio.
— A propósito, Fada, tenho a contar-te umas coisas interessantes, que me transmitiu o padre de Rothey.
Há tempos desejava confiar-te essas novidades, mas o falecimento de papai com todas as suas consequências fizeram-me esquecer.
— Que querias contar-me? bem sabes quão pouco me interessam as novidades.
— Teu interesse condiciona-se ao valor da novidade — disse Antonieta, a rir-se — bem poderia atirar tua língua aos cães, antes que adivinhasses o seguinte:
Samuel Maier, ou melhor Hughes, que é seu actual nome, fez-se baptizar, com o filho.
— Não é possível! — exclamou Valéria, num sobressalto.
— E, contudo, nada mais exacto:
o próprio padre Martinho foi quem realizou a cerimónia, de resto muito simples.
Não obstante o banqueiro cuidar de que tudo se fizesse sem estardalhaço, sua conversão deu o que falar, e seus ex-irmãos e m Moisés ficaram doentes com ela.
Não tinha eu razão, portanto, quando sempre dizia que esse Samuel... ou melhor, Hughes, não era um judeu igual aos outros?
— Seja como for, está muito transformado — murmurou Valéria.
— Dei com ele no dia de minha chegada a Pesth.
Fez-se pálido, reconhecendo-me; no que m e diz respeito, porém, reforcei minha convicção de que Amadeu é sua imagem viva; qualquer coisa se revoltou em meu íntimo; acredito que lhe tive ódio naquele momento; e quem poderá assegurar que Raul não tenha razão em suspeitar de uma infâmia no fato inexplicável dessa forte semelhança?
Percebendo a irritação da amiga, a Condessa deu-se pressa em mudar o rumo da conversação.
No dia imediato, Rodolfo, por estar de serviço, não pôde acompanhar a irmã, e aumentando a indisposição de Antonieta, Valéria fez suas despedidas no palácio de M""", e dirigiu-se para o local do embarque, seguida apenas por tia Adélia, uma camareira e um criado, tendo-a precedido, dias antes, alguns criados.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 05, 2016 8:21 pm

A jovem, que evitava todo agrupamento humano, desde o início de sua infelicidade, partira cedo para tomar lugar em um carro antes que a massa dos viajantes se ajuntasse. Contudo, não calculara com exactidão o tempo e, logo que sua carruagem se deteve diante da escada de acesso, ela viu regurgitante multidão descendo os de graus, e espraiando-se por todos os lados.
Acabava de chegar um trem.
Resolvida a esperar que a multidão se dispersasse, Valéria caminhava devagar; mas a tia Adélia, que se fizera acompanhar pelo papagaio, um cãozinho reumático, e sobrecarregara a camareira com uma imensidão de sacos e caixas, mostrava-se impaciente com essa demora.
A Princesa convenceu-se, então, a tomar o carro tão velozmente quanto ela o queria.
Animada pela vivacidade incansável da velha dama, Valéria, a sorrir, atravessou a sala de espera, quase deserta; porém, na porta, esbarrou inesperadamente com um senhor que entrava, levando um menino pela mão.
— Escusai-me, Senhora — disse ele, afastando-se delicadamente para desimpedir-lhe o caminho.
À vibração daquela voz, Valéria ergueu vivamente a cabeça, e seus olhos encontraram o olhar ardente do banqueiro, que a fitava com intraduzível expressão.
Assaltada por súbita opressão, a jovem voltou-se, buscando com os olhos o menino, que ela jamais vira; no mesmo momento, porém, soltou um grito rouco e apoiou-se, indecisa, no batente da porta.
Aqueles grandes olhos de veludo, e a boca caprichosa, e os cabelos castanhos, eram os de Raul; esse menino que a mirava.
entre divertido e curioso, era a figura viva do Príncipe.
Ao grito da jovem, forte lividez se imprimia nas faces de Hughes; pretendeu afastar-se, porém no mesmo instante Valéria se recuperou, segurando com a mão o seu braço, disse, com os olhos chamejantes:
— Elucidai esse mistério que deu ao rosto de vosso filho os trancos de meu marido, e ao de meu filho os vossos.
A palidez que vos transfigura mostra que conheceis a verdade!
Os negros supercílios do banqueiro tremeram, e seus olhos inundaram-se com u m clarão interior.
— Senhora Princesa, rogai a Deus e às forças da natureza que vos explique e esse malfadado acaso:
nada vos posso dizer!
A Ditas estas palavras, saudou-a rapidamente, e afastou-se, levando o menino.
Como que embriagada, Valéria penetrou no carro.
Esse encontro livrara-a de seu torpor, e no decorrer daquele dia os mais desencontrados pensamentos se combateram no seu cérebro; não queria admitir uma coincidência que mais parecia cruel ironia.
Dar-se-ia o caso de que o seu pensamento, preocupado por Samuel, agisse sobre o filho em gestação, dando-lhe as feições do homem amado...
Com o podia, entretanto, o filho do banqueiro e de Ruth ser o retrato de Raul?
Não encontrava solução para essa pergunta e, acalmando-se da emoção, convencia-se de que Samuel também podia estar tão nocente quanto ela própria, dessa fatalidade que o condenava amar e educar a imagem fiel do rival; que aquela lividez talvez fosse «proveniente da emoção do encontro e não de um sentimento de culpa; enfim, que se Deus a ambos determinava essa provação, deviam necessariamente submeter-se, sem se darem a suspeitas ociosas.
A Tranquilizada por estas reflexões, Valéria decidiu esquecer aquele encontro, afastar todo pensamento de desconfiança, e procurar tão-somente na oração o esquecimento e o descanso.
Com essas disposições, chegou à quinta, cuja bela localização e arrumação simples, mas elegante, agradaram-lhe enormemente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 05, 2016 8:21 pm

Do terraço todo um panorama se descortinava para o lago e suas margens sugestivas; toda a natureza respirava tranquilidade.
— Ah! aqui me sentirei optimamente... — disse Valéria.
Neste terraço distrair-me-ei com leituras, ou palestrarei convosco, tia Adélia!
Olhai: esta rede e este divã como que foram construídos para a meditação.
— Deita-te, pois, num ou noutro, e medita quanto queiras, preguiçosa — respondeu a velha dama, rindo-se.
Providenciarei os arranjos da casa.
Estando sozinha, Valéria apoiou os cotovelos sobre o parapeito e perscrutou os arredores:
à sua frente, estendia-se o lago, para o qual se ia, descendo uma pequena escada de pedra.
À esquerda erguia-se, a um a bem considerável distância, uma quinta de que apenas se viam os telhados, entrevistos nos vãos deixados pela verdura de vasto jardim.
Na frente dessa linda casa, construída sobre pequena península, que adentrava no lago, aparecia um terraço de colunatas, enfeitado com grandes arbustos.
Valéria não desconfiava, detendo os olhos indiferentes nessa habitação, a si mesma indagando se ela era habitada ou não, que ela própria estava sendo objecto de ardente admiração:
nesse terraço, encontrava-se, de pé, Raul.
Tendo vindo alguns dias antes, com um binóculo na mão, oculto por detrás das laranjeiras, ele tudo observava do que ocorria na outra quinta, com o interesse de um apaixonado (e, de facto, ele o estava tanto quanto nos primeiros dias de seu casamento).
A prolongada separação, a que se juntava a inesperada resistência de Valéria, avivaram-lhe os sentimentos; a presença da esposa arrematara a vitória.
Nunca, como então, ela lhe parecera tão encantadora e apetecível.
Antonieta estava com razão:
Valéria fizera-se ainda mais linda, e o vinco enérgico que lhe conformara a boca, e o brilho sombrio dos olhos, emprestavam-lhe à aparência um carácter e um encanto completamente originais.
Com um gesto, demonstrativo de sua apaixonada impaciência, Raul fechou os olhos.
— Preciso fazer as pazes, vencer a sua obstinação de qualquer modo — sussurrou.
Acabarei enlouquecendo, se permanecer aqui por mais tempo, a admirá-la de longe.
Urge que me aviste com a tia Adélia!
Essa vontade devia satisfazer-se mais cedo do que supunha; no dia imediato, apenas se levantara, quando lhe vieram anunciar que uma senhora queria falar-lhe.
Entusiasmado por alegre pressentimento, mandou que a introduzissem prontamente e, assim que ela levantou o véu, reconheceu tia Adélia.
A velha senhora contou-lhe, muito agitada, que, na noite passada, Valéria se mostrara maravilhada com o aspecto encantador da natureza e manifestara vontade de dar todas as noites, se o permitisse o tempo, um passeio de barco.
Dera-se pressa, portanto, enquanto a moça dormia ainda, em vir prevenir o Príncipe dessa intenção, do qual ele tiraria partido, talvez, a fim de preparar um encontro casual.
— Óptimo! Fico-lhe grato pelo aviso, tia Adélia — disse Raul osculando-lhe a mão.
Esta tarde um barco e um remador de confiança estarão à disposição da linda cismadora — ajuntou com um sorriso feliz.
A noite, Valéria, que descansara todo o dia, recebeu uma agradável surpresa, quando o criado lhe anunciou que o barco pedido pela Senhora Princesa a esperava junto a escada.
— Oh! quanto és bondosa, tia!
Com tanta rapidez concretizaste uma fantasia de que eu mesma me esquecera! — exclamou Valéria, abraçando a boa mulher que, por mais de uma vez, a acalentara ao colo.
E com uma alegria que fazia lembrar o passado, pediu a mantilha, muniu-se de um leque, e desceu, tão entusiasmada, que a tia Adélia sentiu dificuldade e m segui-la.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 06, 2016 9:23 pm

No barco, amarrado à escada, estava sentado um homem alto e magro, com as vestes de barqueiro, a cabeça metida em enorme chapéu de palha que lhe ocultava o rosto.
Valéria saltou para dentro do barco, se m lançar os olhos para o remador; não notou o gesto admirado da tia, quando o homem a ajudou a instalar-se.
— Hum ! É necessária, indubitavelmente, toda a minha dedicação por ti, para que m e disponha a acompanhar-te — disse a velha senhora.
Um passeio assim, nocturno, é talvez poético para um a jovem romântica; entretanto, na idade em que estou, prefere-se sonhar na cama, a arriscar-se a um banho nestas ondas negras.
Geralmente, detesto navegar.
E deverias dar um passeio a pé.
É melhor para a saúde e é a única maneira de conhecer pormenorizadamente esta região maravilhosa.
— Não te faças resmungona, tia.
Bem sabes que eu, quando era feliz, gostava de andar a pé; agora, estou sempre muito cansada disse Valéria, com um suspiro.
Para satisfazer-te, prometo que todos os dias darei um passeio a pé; porém, em troca, tolerarás as digressões embarcadas, que são totalmente inofensivas — ajuntou, rindo-se — pois não é possível que naufraguemos nesta água polida como a superfície de um espelho.
Após u m passeio, que durou um a hora e pareceu maravilhoso a Valéria, retornaram; entretanto, essa divagação ao luar, o suave balouçar-se sobre a superfície prateada do lago, de tal maneira agradaram, que ela ordenou ao remador que se mantivesse à sua disposição, todos os dias, à mesma hora.
Nos dias seguintes, Valéria cumpriu o que prometera: deu passeios a pé, pela manhã e à tarde; de noite, passeava de barco.
Esse tratamento influiu beneficamente sobre a sua saúde: leve rubor lhe tingia as faces, e todo o seu físico readquiria o viço e a elasticidade que perdera, desde a grave enfermidade.
Seis dias depois de sua chegada, somente após o jantar é que as duas senhoras saíram para o seu passeio.
Pela manhã fizera um calor enervante, e a Princesa passara o tempo a escrever cartas aos seus parentes.
Mostrava bom humor, e o passeio alongou-se mais do que se propusera.
Improvisadamente, tia Adélia percebeu que o céu se enfarruscava.
Procuraram logo o rumo de volta; a tempestade, porém, tomava-lhes a dianteira; relâmpagos cortavam o céu e gotas de chuva começaram a tombar.
— Socorre-te de todas as tuas forças, tia, e corramos o mais depressa que pudermos; a não ser assim, ficaremos encharcadas — disse Valéria, arrastando a velha senhora que, não podendo andar mais depressa devido à sua gordura, suava em bicas para poder segui-la.
— Ali, naquela habitação, abrigar-nos-emos; é, penso eu, a mesma que se vê de nosso terraço — prosseguiu a jovem, fazendo tinir a campainha.
Tia Adélia, fatigada, sem fôlego, quis dizer algo, mas não o conseguiu e Valéria estava procurando, inutilmente, um significado para os misteriosos sinais telegráficos da velha parenta, que agitava os braços, quando a porta foi aberta, e lacaio agaloado surgiu no liminar.
— Sua Alteza o Senhor Príncipe ausentou-se — informou ele, com um a reverência.
— Não pretendemos incomodar vosso amo — esclareceu Valéria, carregando a tia para o peristilo.
Apenas desejamos um abrigo enquanto durar a borrasca e gostaríamos de poder enviar uma pessoa, que recompensarei largamente, para trazer até aqui a minha carruagem — ajuntou ela, pondo uma moeda de ouro (um ducado) na mão do lacaio.
Percebeu este imediatamente que estava tratando com uma nobre dama de alta linhagem, não obstante a singeleza extrema de seu traje de luto.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 06, 2016 9:23 pm

Sem dar resposta, curvou-se com humildade, levou as duas senhoras para um salão pegado a uma galeria envidraçada, que dava para o jardim.
Depois, tendo anotado o endereço da quinta de onde devia mandar vir a carruagem, afastou-se.
Desassossegada e triste, tia Adélia estava junto a uma janela, batendo com os dedos na vidraça uma marcha acelerada.
Valéria, que nada entendia desse mau humor, e estava fatigada demais, sentou-se numa poltrona, dando-se por feliz por haver se abrigado da chuva violenta, que, estrondosamente, desabava lá fora, sobre a coberta de ferro da galeria envidraçada.
Em dado momento, duas pessoas, que vinham correndo do jardim, surgiram na entrada da galeria; um menino, que sacudia, rindo-se, o chapéu, fazendo escorrer a água que nele se acumulara, e uma dama, de indefinível idade, que procurava contê-lo repetindo:
— Amadeu, Amadeu, deixa que te enxugue; não corras desta maneira!
O menino fugiu-lhe, soltando agudas risadas, e em três pulos penetrava no salão.
Diante de senhoras que lhe eram estranhas, parou.
Sem saber como proceder, fitando Valéria, que se erguera, emitindo rouca exclamação:
— Amadeu!
No rosto expressivo do menino, a princípio, se reflectiu enorme espanto, e em seguida imensa alegria:
a memória avivara-se-lhe.
— Mamãe, mamãe querida, vejo-te, por fim!
E atirou-se ao pescoço de Valéria, abraçando-a tão ardorosamente, que quase a sufocou.
A essa exclamação feliz, nascida do imo da alma da criança que ela renegara; a esses mimos, que lhe demonstravam que sua ausência deixara na existência dessa criaturinha um vazio que ninguém preenchera; todos os sentimentos maternos, há tanto sufocados no coração da Princesa, vibraram subitamente.
Tremendo como uma folha, tombou sobre a poltrona e, o rosto banhado de lágrimas, encheu o menino de beijos e carícias ardentes.
Imensamente emocionada, tia Adélia, fazendo um sinal à ama, retirou-se com ela para um quarto pegado, deixando mãe e filho em suas expansões.
Amadeu recompôs-se logo de sua emoção; entretanto, sua verbosidade não tinha mais fim.
Como se quisesse recuperar o tempo perdido, narrava à mãe tudo quanto despertara seu interesse infantil:
seus jogos com o pai, seus ensaios de equitação num jumento de mansidão ideal; fazia a descrição de brinquedos, de seus divertimentos, a trágica morte de u m coelho de estimação, e assim por diante.
Notando que as lágrimas de Valéria não tinham cessado de correr, ele interrompeu:
— Por que estás chorando, mamãe?
Agora que te reencontramos, tudo está certo; hás-de ficar comigo e com papai.
Santo Deus! quanto ele ficará radiante de satisfação ao te encontrar aqui!
A qualquer momento, chegará.
Estas palavras ingénuas trouxeram de pronto Valéria à realidade; ergueu-se de repente.
— Me u adorado filho, não m e é possível ficar aqui, devo partir imediatamente; mas virás ver-me muitas vezes; estou morando bem perto daqui, e então hás-de ver quanto nos divertiremos!
Acentuado rubor tingiu o rosto de Amadeu, e seus olhos negros flamejaram.
— Pensas, então, que te deixarei partir?
Não creias isso!
(Prendeu fortemente as duas mãos de Valéria)
Eu te encontrei e te guardo; e quando papai chegar, proibirá que partas.
O criado, que entrava para anunciar que a carruagem já viera, impediu, com sua presença, a resposta de Valéria.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 06, 2016 9:24 pm

— Sê razoável, meu filho querido!
Estás vendo?
Vieram buscar-me; mas te prometo que voltarei — disse, procurando soltar-se das mãos do menino.
Entretanto, Amadeu não queria admitir nenhum argumento; fazia pouco das mais estupefacientes promessas.
Inflexível a qualquer persuasão, agarrava-se às saias da mãe, chorando, aos gritos, e foi preciso usar quase a violência para que a ama o levantasse e levasse, não obstante sua desesperada oposição.
Nervosa a mais não poder, Valéria correu para a carruagem.
Retornou à quinta sem dar uma palavra a tia Adélia, que imergia em seus secretos pensamentos.
Na hora habitual, no dia imediato, fizeram saber à Princesa que a embarcação estava pronta.
Sua primeira intenção foi recusar; no entanto, mudando de opinião, disse:
— Está bem; desço já.
Esperava que esse costumado passeio lhe devolvesse o equilíbrio e lhe desse bastante calma para escrever a Raul, e rogar-lhe que enviasse algumas vezes o menino, pois que ainda estava decidida seriamente a não mais avistar-se com o Príncipe.
— Forçar-te-ei a ires hoje sozinha, se não preferires que te acompanhe a camareira — esclareceu tia Adélia, quando Valéria apanhou o xale.
Sinto-me de tal maneira cansada, devido à nossa desatinada carreira de ontem, que preciso recostar-me, pois não me sinto com forças para acompanhar-te.
Valéria não ergueu nenhuma objecção: queria estar só, e a ideia de ser observada por um a criada causava-lhe repugnância, visto que o remador nada representava a seus olhos.
À proporção que avançava no lago, sua intensa agitação cedera lugar a uma agradável melancolia.
Seus olhos detiveram-se na quinta que o Príncipe habitava:
a claridade jorrava de algumas janelas.
Lá se encontrava também o filho.
Apenas coincidência, ou fora premeditadamente que Raul viera morar tão perto dela?
Dava ele curso ao seu intento de reconciliação?
Contudo, se o amor pelo filho e a confiança nela estavam restabelecidas, como explicar essa transformação?...
Recordou-se do pranto e da aflição da criança, e seu coração apertou-se; desceram-lhe pela face algumas lágrimas.
— Oh! Por que as coisas são assim?
Absorvida em suas cismas, não percebera que a marcha da canoa diminuía sempre, até deter-se completamente.
Não se apercebera tampouco de que uma ponta de sua mantilha escorregara pela borda e pendia n'água.
O remador curvou-se, então, e, retirando a ponta molhada, deixou-a sobre o banco.
Sem o querer, os olhos de Valéria fitaram essa mão, e seu coração deixou de pulsar; aristocrática, branca, fina, era essa mão, em cujo dedo mínimo brilhava, ao claro da lua, um anel que ela bem conhecia; seu possuidor, também muito perturbado, esquecera-se, desta feita, de voltar o engaste para baixo, do lado da palma.
Com surda exclamação, ela inclinou-se para a frente e deu com o olhar carinhoso de Raul, que tirara o chapéu e lhe estendia ambas as mãos.
Necessariamente, o vestuário e a barba, que ele deixara crescer, tinham-no mudado muito; mas, ela estivera cega?...
À atitude do marido, Valéria recuou bruscamente, e um a onda de sangue subiu-lhe às faces.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 06, 2016 9:24 pm

— Fui vendida e atraiçoada — exclamou.
— Quanto à traição, nada deves temer, a não ser o meu pedido para perdoares e olvidares o passado! — foi a resposta de Raul.
Sim, vim aqui apenas para te rever.
Fiquei sabendo, hoje, que estiveste, por fortuito acaso, em minha quinta, e dispus-me a resolver esse impasse.
Bendigo este acaso que te trouxe, sozinha, para esta embarcação, e agora, rogo-te, torna aos meus braços; permite-me reparar o passado e destruir, com meu amor, a injusta desconfiança co m que te maculei.
— Julgas possível que um abismo como o que abriste entre nós desapareça com algumas palavras carinhosas? — exclamou Valéria, amarga.
É-me possível olvidar o terrível instante em que me apontaste diante do tribunal de família, lançando-me acusação de adultério, e afirmando que apenas o pedido de uma morta querida me livraria de um a vergonha pública?
Não, não; me u coração angustia-se a essa recordação.
Não quiseste crer em minhas juras de inocência, e pelo mais insignificante motivo outra vez m e calcarias aos pés!
Raul fez-se pálido.
— Valéria, fui um homem cego, como todos os homens, e todas as aparências acusavam-te.
Contudo, se repeles deste modo a minha rogativa, é porque jamais m e amaste.
Não sentiste desejos de me rever?
Não compreendeste nunca que Amadeu necessita de uma mãe?
És intangível às lágrimas de nosso único filho?
— Tu é quem nunca me tiveste amor, isso o compreendi quando me abandonaste, quase agonizante, ao escárnio do público; um amor arraigado e sincero é o único a acreditar na inocência, apesar das aparências, e as mesmas aparências de outrora ainda hoje existem.
Conseguiste alguma prova que me inocenta?
— Sim, um milagre foi a prova de tua inocência; só abrirei meu coração, porém, quando voltares para mim. Espero que isso se dê brevemente, que o carinho vença o orgulho, e que as cruéis palavras que acabo de ouvir não sejam as de tua definitiva decisão.
— Não m e atormentes, Raul!
Futuramente, talvez m e seja possível tudo olvidar; nesta ocasião, entretanto, minha ferida ainda está aberta; não posso ser tua.
Agora, por favor, leva-me daqui; estas emoções são superiores às minhas forças.
O Príncipe nada disse.
Com um gesto irritado, tomou os remos e fez o leve barco deslizar rumo à praia.
Chegado junto à escada, saltou para os degraus e auxiliou Valéria a sair.
Cruzaram-se os olhares de ambos:
tanta recriminação e dor se espelhavam nos olhos de Raul, que Valéria se deteve, conservando a mão na dele; o coração batia-lhe com violência:
lembrara-se naquele instante do último pedido de seu pai.
— Escusa-me, Raul, pois a tua presença me descontrolou — murmurou.
Prometo pensar nas tuas palavras e tudo empreender por esquecer; neste instante, contudo, não m e é possível decidir.
Levemente apertou a mão do marido e afastou-se.
Triste, deprimido, nervoso, Raul pulou para o barco e tomou o rumo de sua casa; porém, bem depressa deixou de remar, e deitando-se de costas no fundo do barco, entregou-se às suas meditações amargas e agitadas.
Quanto tempo esteve assim pensando?
Não o saberia dizer.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 06, 2016 9:24 pm

Cansado, a cabeça pesada, levantou-se e lançou u m olhar desconsolado para a quinta para onde o atraía poderosamente a sua paixão renascente; porém, no mesmo momento, tremeu:
rolos de fumaça se avolumavam sobre a quinta, banhada em cheio pela Lua e, de uma banda da fachada, as labaredas lambiam já as paredes até o telhado.
Olvidando tudo, tomou os remos: um incêndio eclodira e a vida de sua esposa estava e m perigo; esse pensamento dominava e m seu cérebro.
À proporção que se ia aproximando, percebia pessoas que corriam, atarantadas; gritos e o crepitar do fogo chegaram-lhe aos ouvidos; num átimo, Raul encontrou-se no terraço.
— Onde se encontra a Princesa? — indagou a uma mulher quase despida, que corria, a cabeça tonta, carregando nos braços dois vasos de flores.
A mulher não deu resposta e pretendia continuar correndo.
Raul segurou-a pelo braço, contudo e a sacudiu com violência, tornando a fazer-lhe a mesma pergunta.
Acordando, sobressaltada, de sua abstracção, fitou-o e balbuciou:
— Está em cima, acredito eu; entretanto, a fumaça é tão densa que não se pode atingir seu aposento.
— E onde é o aposento da Princesa?
— No sobrado, sobre o da Baronesa, onde o fogo teve início.
Com o ensandecido, Raul atirou-se para a casa e escalou a escada, de tal modo atingida pelas chamas que não se podia apoiar no corrimão; a fumaça era tão densa e irritante, que cegava e dificultava o respirar.
— Valéria! — gritou, com esforço.
Não obteve resposta; no mesmo momento, porém, seu pé tropeçou nu m corpo estendido no solo.
Inclinando-se, reconheceu a mulher, em vestes de dormir.
Com toda certeza, ela pretendera escapar e, sufocada pelo fumo, desmaiara.
Levantando-a nos braços, o Príncipe recuou. Em tempo!
As chamas surgiram de todos os lados; Raul mesmo, mal podia respirar, sufocado; a cabeça girava-lhe; com um derradeiro alento, porém, chegou ao terraço com sua preciosa carga.
O ar puro devolveu-lhe toda a calma.
Levantou Valéria para o barco que amarrou firmemente, e retornou para o meio da multidão, cada vez maior, de curiosos e auxiliares voluntários, desejoso de conhecer o destino de tia Adélia.
Ninguém podia informar nada de certo; uns pensavam ter ouvido os gritos da velha dama; outros adiantavam tê-la visto a correr pelo aposento, em meio às chamas, e depois tombar.
Uma coisa apenas se positivara:
o fogo principiara no quarto de tia Adélia e, no momento, lá não se podia entrar, a fim de conhecer se ela havia ou não escapado à morte.
Tomando por empréstimo, de uma das mulheres presentes, um grande lenço de lã para cobrir Valéria, o Príncipe retornou rapidamente, para o barco.
Envolveu amorosamente a jovem, ainda sem sentidos, e, com o coração esquisitamente perturbado, reempreendeu o caminho de sua casa.
No meio do lago, topou com grande embarcação lotada de gente que tinha visto, também, o incêndio e dava-se pressa e m oferecer ajuda.
Raul pediu-lhes que o pusessem a par, a todo custo, do acontecido co m tia Adélia, e apressou-se depois e m retornar para casa, a fim de prestar socorros a Valéria.
Quando encostou o barco ao lado de sua quinta, encontrou todo o mulherio da casa agrupado na margem e comentando o sinistro.
— Margot, vinde e auxiliai-me a levar a Princesa — gritou ele, para a antiga aia de Amadeu, que ainda o servia.
E, seguido dessa mulher, muito assustada, carregou Valéria para o dormitório, onde a estendeu num divã.
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