Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 06, 2016 9:24 pm

Passado um quarto de hora, quando a jovem reabriu os olhos, seu primeiro olhar foi para Raul que, ajoelhado junto dela, dava-lhe a respirar essências enquanto Margot lhe friccionava os pequenos pés descalços.
Notando que a Princesa abria os olhos, a aia exclamou, contente:
— Bendito seja Deus!
Agora vou providenciar uma xícara de chá; isso reanimará completamente sua Alteza.
Valéria tentou dizer qualquer coisa; Raul, porém, antecipou-se-lhe e, tomando-as nos braços, sussurrou, apaixonadamente:
— Perdoa, olvida o passado, minha querida; podes ainda deixar de reconhecer a mão da Providência, que assim destrói o teu tecto, para reconduzir-te ao meu ?
Se m resposta, Valéria passou os braços em torno do pescoço do marido, descansou a cabeça em seu ombro, e desatou em soluços.
Raul, silenciosamente, apertou-a contra si; não desejava deter a torrente de lágrimas que, entendeu, devia trazer reacção salutar.
— Me u bondoso Raul, tu me salvaste a vida, sem se aborrecer com a rispidez como terepeli — murmurou, por fim, Valéria.
— Tens o que me perdoar, também:
ah! se compreendesses quanto tenho sofrido, sozinha, distante de ti e de nosso filho, sob o peso de imerecido opróbrio!
Não fosse eu cristã e ter-me-ia suicidado.
— Apaguemos esse passado, enevoado pela desconfiança e por injustificadas suspeitas — retrucou Raul, profundamente emocionado.
— Jamais toquemos nesse assunto!
A partir de hoje, uma nova existência, de amor e de confiança, se inicia para nós.
E agora, deixa contar-te o quem e alertou sobre a tua inocência.
O Príncipe sentou-se, então, perto dela e contou, pormenorizadamente, a sua conversão ao Espiritismo; as provas irrecusáveis de identidade fornecidas por sua mãe; disse enfim quanto sofrera com a certeza de ter sacrificado sua ventura por uma ilusão, o recrudescer de seu amor, a firme decisão de reconquistar sua Valéria e indemnizá-la de seus erros com duplicada afeição.
A jovem tudo escutara, com comoção sempre crescente:
— Ah! Raul, desejo compartilhar de tua crença! — exclamou, com os olhos fulgurando nessa exaltação que lhe era natural.
Quero esclarecer-me sobre essa nova ciência, que enche o abismo aberto pela morte, e que deu azo à tua santa mãe de vir inocentar-me, do além-túmulo!
— Eu te ensinarei, minha esposa bem-amada, e ajudados e iluminados pelos nossos caros invisíveis, não mais tropeçaremos nos caminhos da vida.
Agora, sugiro-te que vás abraçar a Amadeu, nosso pobre inocente, que temos desprezado, às vezes, e, entretanto, guardou com fidelidade, a nossa lembrança no seu coraçãozinho.
Minha Loreley — juntou ele, ternamente, acariciando os longos cabelos desfeitos de Valéria — concede ao pobre pecador, a quem devolves a felicidade e a vida calçar-te os pezinhos de fada...
Ela pôs-se a rir...
— Então...
Ainda permaneces nas meiguices românticas..
E eu que nem desconfiava, na minha indiferença, ter, como meu remador, a um belo Príncipe!
Pobre Loreley que eu era!
Pouco depois, o jovem casal curvava-se para o filho adormecido, os cabelos negros espalhados no travesseiro bordado.
À vista do menino, Valéria lembrou-se de seu encontro com o banqueiro e seu filho, cujos traços eram idênticos aos do Príncipe.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 06, 2016 9:25 pm

— Raul — disse, tomando o braço do marido, que se erguia, depois de ter abraçado Amadeu.
Vem. Preciso contar-te um facto extraordinário, que se passou no dia de minha partida para a Itália.
Ruborizada, fez o relato de seu encontro com Samuel, contou de sua comoção, ao verificar que o filho dele era a imagem viva de Raul, e a resposta que o banqueiro lhe dera.
Raul escutou-a perturbado e surpreso; estava, porém, muito distraído e, sobretudo, inteiramente contagiado, naquele instante, pela Ventura reconquistada, para pensar em novos conflitos.
Só a ideia de outra vez se emaranhar num inextricável labirinto de suspeitas, falsas aparências e insondáveis mistérios, lhe causava horror.
— Indubitavelmente, tão esquisita semelhança é maravilhosa e desagradável para Maier — disse sorrindo.
Deixemos, porém, tudo isso, Valéria.
O banqueiro está certo:
Deus, apenas, poderá explicar acasos tais, amemos nosso filho, moreno ou louro, que importa?
Sabemos que é nosso, e isso é o bastante.
Não é no instante em que a nossa felicidade se reergue, brilhante como este Sol nascente, que a devemos toldar com suspeitas tais.
Agora, minha adorada, vem descansar; eu irei saber notícias quanto ao que se apurou referente a tua pobre tia.
— Santo Deus!
Como pude esquecer-me dela no meu egoísmo! — exclamou Valéria, comovendo-se.
Irei contigo!
Dirigiram-se ambos ao gabinete do Príncipe e, tendo este tocado a campainha, Margot apareceu, toda contente.
Ela apressou-se em tranquilizar os amos, anunciando-lhes que os criados haviam retornado, trazendo a tia Adélia, felizmente salva, apesar de algumas queimaduras dolorosas e um ataque de nervos, que obrigara a velha dama a recolher-se prontamente.
Enquanto procediam a curativos em suas queimaduras, ela narrara que, obediente a um mau costume, tinha lido deitada; tendo dormido, o jornal, com certeza, incendiara-se e transmitira suas chamas às cortinas.
Os grasnidos do papagaio e o ladrar furioso do cão acordaram-na; percebendo-se cercada pelo fogo, perdera a calma.
Um só pensamento acudira-lhe ao cérebro: salvar os animais!
Pulando para fora da cama, segurara em uma das mãos a gaiola e, com a outra, o Bibi e, com lancinantes gritos, correra para fora.
Certamente, esses seus gritos deram o alarma na casa.
Não se lembrava do que fizera em seguida, e não teriam, facilmente, dado por ela no caramanchão afastado onde perdera os sentidos; os grasnidos aflitivos do papagaio atraíram, porém, a atenção do criado que a procurava e, se m demora, fora levada à quinta do Príncipe.
Sendo notificada, ao voltar de seu desmaio, que a Princesa e seus dois favoritos estavam salvos, a velha ama se reanimara; pedira chá e em seguida, adormecera.
Serenados e felizes, os esposos se afastaram, à busca igualmente de algum repouso.
Onze meses transcorridos, após essa reconciliação, um venturoso evento punha em festa o palácio do Príncipe de O""", em Pesth:
Valéria dava à luz um segundo filho; Antonieta cuidava da amiga, e o jovem pai estava esfuziante de alegria.
Em dada manhã, dez dias após o nascimento desse filho, Raul veio passar um a hora à cabeceira do leito de sua esposa.
Tirara o recém-nascido de seu berço, e não se cansava de o admirar e de beijar-lhe as mãozinhas.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 06, 2016 9:25 pm

— Como haveremos de chamar a esse filho de nossa verdadeira ventura, enfim reconquistada? — perguntou, subitamente.
— O filho de nossa felicidade há-de chamar-se Raul — foi a resposta de Valéria, fitando, com olhar húmido e carinhoso o lindo rosto do marido.
Rubor de alegria tomou as faces de Raul, e um brilho de amor e de gratidão lhe fulgurou nos olhos.
— Agradecido! — disse, levando aos lábios a pequena mão de Valéria.
E visto que meu nome equivale a sinónimo de felicidade, nada mais posso aspirar.
Peço, somente, a Deus que nos conserve, e que nos abençoe em sua infinita misericórdia.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 06, 2016 9:26 pm

6 — OS DEGRAUS DA ESCADA

O fortuito encontro na estação da estrada de ferro havia transtornado Hughes Maier; ainda mais que a Valéria.
Bem que percebera uma suspeita nos olhos dela, e a si próprio perguntava, aflito, se esse acaso não seria o passo primeiro à descoberta do crime, a qual lhe havia sido prevista.
Movido por essa inquietude, acabou por deixar Pesth dias depois e, com Egon, dirigiu-se à sua propriedade de Válden, onde se entretinha em reconstruir, conforme o plano primitivo, o velho castelo feudal, já em ruínas, do qual adquirira e usava o título.
Retirado, ali passou Hughes o fim do verão, respondendo com muita reserva às aproximações dos vizinhos, alguns dos quais tinham filhas a casar e os quais gostariam de ver seu brasão desbotado unir-se aos milhões do judeu baptizado, que passava por viúvo.
Duas vezes ou três, exclusivamente para liquidar negócios inadiáveis, o banqueiro dirigiu-se a Pesth.
E foi numa dessas viagens que descobriu, inesperadamente, através do barão de Kirchberg, que Raul e Valéria haviam se reconciliado.
Ao ter essa notícia, grande sofrimento desabou sobre seu coração:
o ciúme desenfreado machucava-lhe a pobre alma desesperada.
Desta vez, contudo, Hughes possuía o contrapeso que ajudava a vencer as paixões:
e orou, do fundo de seu ser, e sua prece não foi vã.
A convicção nova, que havia regenerado sua alma, o susteve nessa dolorosa prova moral, e então uma comunicação espontânea de seu pai reagiu, bastante poderosa, sobre a perturbação de seu pobre espírito.
"Envergonha-te, filho meu — escreveu Abraão — de te abandonares a um sentimento tão indigno, ao invés de te regozijares de que as consequências do teu crime diminuam e de que a mulher, inocente, haja reconquistado a paz e a estima perdida por tua culpa.
Na Terra não olvides de que tudo é transitório, que tudo o que possuis abandonarás no momento e m que fechares os olhos da matéria; que somente as boas obras, as vitórias sobre as paixões, serão o único capital que levarás ao Supremo Tribunal.
Lembra-te, filho meu, quando a ocasião se apresentar (e está breve), de que o perdão e a caridade enobrecem aquele que os exerce, e que a fé se transforma em letra estéril se não for vivificada pela acção."
Estas palavras, para a alma enérgica do banqueiro, tiveram bastante influência.
Abatido e tristonho, mas resolvido de uma vez a dominar sua louca paixão, regressou a Pesth, agora porém dedicando-se ao trabalho e à prática da caridade, sempre mais extensa, mas completamente oculta.
Em meados de novembro uma importante transacção financeira obrigou Hughes a tomar o rumo de Berlim.
Havia já três semanas que ali se encontrava quando certo dia, frente ao hotel onde se hospedava, ao descer da carruagem, sua atenção foi despertada pelos soluços de um a menina.
E então viu, espantado, o porteiro repreender raivosamente a pobre criança que tinha um braço ensanguentado.
A menina chorava alto, enquanto um rapazinho talvez com uns doze anos de idade, com um cesto de provisões, procurava defender e desculpar a garota.
Os sacos de garrafa e uma poça de leite derramado diante da porta do hotel demonstravam a causa do escândalo.
Com olhar de piedade, o banqueiro fixou a pobre criaturinha, de três anos de idade, não mais, cujas mãozinhas tremiam nervosamente.
As vestes já bem estragadas, os sapatinhos já furados, denotavam grande pobreza:
um lenço rendado e encardido, que lhe contornava a cabeça, tinha caído ao solo, e madeixas de longos cabelos castanhos espalhavam-se sobre suas espáduas.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 06, 2016 9:26 pm

— Que fez esta criança para que se berre assim com a pobrezinha?
Se houve prejuízo, eu pagarei e tudo ficará em paz — disse o banqueiro, aproximando-se da criança.
Os olhares se voltaram para ele.
— Enxuga teus olhos, Ruth — disse o rapazinho antes que o porteiro abrisse a boca.
Este senhor, que é muito bom, te dará com que comprares uma garrafa nova de leite, e a estalajadeira não te dará mais pancadas.
A menina então ergueu a cabecinha e, através das lágrimas copiosas, seus dois grandes olhos negros e aveludados fixaram Hughes com uma expressão angustiosa, de esperança e súplica ao mesmo tempo.
O banqueiro estremeceu:
esse pequenino rosto, pálido e magro, estranhamente lhe recordava Egon.
— Sabes quem é esta menina ou a quem ela pertence? — perguntou ao porteiro.
— Não, Sr. Barão; mas ela por certo mora perto, porque eu a vejo passar muitas vezes por aqui.
— Eu sei onde ela mora — apressou-se o rapazinho a dizer.
— Eu vivo no mesmo patamar de Marta, a lavadeira, em cuja casa habita.
É um a mulher pobre e bastante doente; um a judia espanhola, segundo afirmam, e que se chama Carmen Netosu.
Ao ouvir este nome, o banqueiro tremeu e sentiu-se pálido.
Mas, com esforço, dominou-se e tirou, da carteira, alguns táleres (antiga moeda alemã) e os entregou ao rapazinho.
— Vai, menino, paga à patroa o leite perdido e diz à mulher doente que eu a irei visitar dentro de um a hora e lhe levarei a filha; o resto do dinheiro, guarda-o para ti, como paga pela tua informação.
— Meus agradecimentos, Senhor — disse o rapazinho, alegre.
— Mas não tendes necessidade em vos apressar para levar a menina, porque a Sra. Netosu é costureira e só chega e m casa as seis horas e meia.
Ruth costuma ficar sob a guarda da patroa, que é muito má:
maltrata-a e emprega-a em serviços de rua, apesar de sua pequena idade.
O endereço dela é... (e indicou a rua e casa).
— Vem, menina, comigo, e eu te darei biscoitos — acrescentou Hughes pegando a mãozinha da menina, que o acompanhou timidamente sem coragem de protestar.
O banqueiro a conduziu ao aposento que ocupava, tendo antes dado ordem que lhe enviassem uma das criadas do hotel.
Com ingénua curiosidade, a menina tudo examinava, muito espantada com o luxo que a cercava; mas rápido seus olhos, de súbito, se fixaram numa mesa, em cujo centro havia frutas, pastéis, etc.
Hughes sentou a menina em uma poltrona, disposto a cuidar dela, quando entrou a mulher que mandara vir.
Entregou a esta algum dinheiro pedindo-lhe comprasse, imediatamente, roupa branca para sua pequenina protegida.
— Frente ao hotel há um bom bazar; lá encontrarei tudo.
Dentro de meia hora cá estarei, Sr. Barão — respondeu a criada, cheia de respeito.
Novamente só, o banqueiro deu à menina um pastel, ofereceu-lhe frutas.
Depois, encostou-se à mesa e contemplou-a silenciosamente.
Não havia dúvida!
Essa menina era a irmã de Egon, o filho de Raul!
Mas por que Ruth, que havia levado consigo uma fortuna e tinha todo o direito ao auxílio do seu abastado amante, caíra em tamanha miséria, ao ponto de expor sua filha à caridade alheia?
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 06, 2016 9:26 pm

O regresso súbito da criada tirou Hughes da meditação.
— Levai agora a menina ao meu dormitório e ponde-lhe o vestuário.
E tu, Ruth, não tenhas medo de nada — acrescentou passando a mão pelos cabelos da menina, pois esta se aconchegava ansiosamente a ele.
Ao ver-se mais uma vez sozinho, Hughes pôs-se a andar de um lado para outro, bastante agitado.
Todo o passado revivia nele.
Como seria seu encontro com a mulher traidora?
Qual a decisão a tomar sobre o seu futuro e o da sua filha, a filha do rival quase integralmente feliz, a quem o destino de novo havia elevado ao máximo de ventura?
— Que bom se meu pai me aconselhasse e me mostrasse o caminho recto através do caos de meus sentimentos! — pensou ele.
E, sentando-se e m frente à secretária, pegou lápis e papel.
Ao terminar a prece, uma força misteriosa traçou estas palavras:
"Tens necessidade, filho meu, dos meus conselhos para compreenderes a voz de tua consciência?
Pode algum ressentimento existir contra um a pobre agonizante, terrivelmente punida pelo destino?
Meu filho: recolhe, em tua casa, aquela que a tua crueldade dali expulsou; a inocente criança também tem direito à tua caridade!
Aliás a generosidade que tu exerceres te dará direito à benevolência dos outros!
Lembra-te disso.
Quando, encantadora no seu novo vestido, a menina voltou acompanhada da criada, Hughes já havia readquirido a tranquilidade.
Com ela nos joelhos, Hughes começou um interrogatório sobre a sua vida e a da mãe, tendo antes despachado a criada.
Tímidas eram as respostas da menina.
Era um quadro doloroso e amargo de inúmeras provações.
Hughes sentiu na alma uma ardente compaixão.
— Pobre criança!
Juro que de hoje em diante não mais terás fome e nem frio; juro que mão alguma há-de maltratar-te! — pensou, tristemente.
Ao tentar recomeçar a conversação, percebeu que a criança tinha apoiado a cabeça em seu peito, e adormecera profundamente.
Às seis horas Hughes saiu com Ruth e tomou a direcção da casa que lhe havia sido indicada.
O caminho era próximo.
A menina sentia-se alegre em lhe servir de guia.
Frente a um casarão velho, fez Hughes parar.
Depois de atravessar o primeiro pátio, o segundo que era largo, subiram por um a escada tortuosa e escura, iluminada por u m candeeiro fumarento e sujo.
— "Meu Deus! Como pode uma doente subir uma tal escada" — perguntou Hughes parando, exausto, diante de uma porta entreaberta donde vinha um cheiro fétido de águas podres e cozimentos.
Acompanhado pela menina, entrou em um aposento meio escuro, onde diversas mulheres estavam ocupadas com grande trouxas de roupas.
— Já voltou Carmen Netosu? — perguntou o banqueiro tirando o lenço perfumado, pois grande era sua dificuldade em respirar aquela atmosfera.
Uma mulher alta, de olhar duro, levantou-se ao ver o banqueiro; mas, reconhecendo Ruth no seu novo e belo vestuário, teve espanto e desconfiança.
— A viúva Netosu ainda não regressou; mas chegará de um momento para outro.
Se o senhor deseja esperá-la, posso conduzi-lo ao seu aposento.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 06, 2016 9:27 pm

O banqueiro fez que sim.
A estalajadeira pegou então um lampião e o levou a uma próxima mansarda situada directamente sob o telhado e para a qual se subia através de inúmeros degraus.
Depois retirou-se, sempre desconfiada.
Com um simples olhar o banqueiro apreendeu toda a miséria do ambiente:
duas cadeiras de palha, um velha cómoda e uma cama com uma coberta imunda formavam toda a mobília da sua ex-esposa.
Então surgiu a sua memória o luxuoso gabinete de Ruth, o lindíssimo dormitório, tão elegante e confortável com suas tapeçarias de cetim, o leito com cortinas e travesseiros rendados.
Com o podia agora a desgraçada mulher viver em um tal chiqueiro?
Com o pudera cair em tal lamaçal?
Foi quando uma tosse seca soou no aposento da lavadeira.
Hughes estremeceu.
Uma voz fatigada, na penumbra, disse:
— Dizes, Marta, que um senhor deseja falar-me?
É engano: não conheço ninguém!
O banqueiro estremeceu e deu um passo atrás, colocando-se no escuro de maneira a não ser reconhecido imediatamente.
Ruth entrou vestida de preto, com o manto no braço.
— Mamãe, mamãe, — exclamou a menina, correndo alegremente para a mãe, enquanto esta encostava a porta.
Com os olhos, Ruth procurou o desconhecido.
Ao ver o marido, de pé, junto do imundo leito, estremeceu, aterrorizada e espantada.
Não lhe viu o olhar de compaixão, nem ouviu seu respirar forte, emocionado.
Mas Ruth, instintivamente, ergueu os braços como se tentasse afastar um espectro.
E, vacilante, teria caído ao solo se o banqueiro, rápido, não a amparasse e a colocasse numa cadeira.
A menina, se m nada compreender, tinha-se acocorado a um canto.
— Samuel! Tu! Homem cruel! — murmurou Ruth, ofegante.
Oh, por que não aceitei a bebida envenenada que me ofereceste naquele dia?
E um soluço rouco, acompanhado de tosse seca, a interrompeu.
Com o lenço nos lábios, Ruth chorava.
E o lenço tingiu-se de sangue!
— Pelo amor de Deus — disse Hughes — não me recordes o passado!
Vim aqui para reparar minha falta, minha crueldade, e para te reconduzir ao tecto que jamais deverias ter abandonado, se eu te houvesse julgado humanamente.
E Hughes, carinhoso, inclinou-se para Ruth e colocou a mão na sua fronte molhada e febril.
Ruth fixou o olhar espantado.
— Mas é a ti que ouço, Samuel?
Não estarei sonhando?
Mas não; vejo que estás transformado!
Que teu coração já conhece a misericórdia!
Então não recuses atender meu último pedido:
toma conta desta menina, esquece-lhe a origem e salva a coitadinha da miséria e da vergonha!
Por Deus, Samuel!
— Quero ter a ambas!
Tu, Ruth, hás de te restabelecer!
Deus nos concederá a paz e a felicidade! — replicou o banqueiro, emocionado.
Com um triste sorriso, Ruth meneou a cabeça, dizendo:
— Está tudo acabado para mim, Samuel.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 06, 2016 9:27 pm

Tenho os dias contados, bem sei. Deixa-me sozinha.
Que poderia eu fazer quase morta e desonrada, em tua brilhante casa?
Mas eu morrerei feliz sabendo que a menina está contigo.
— Tolices, minha Ruth.
Deus, nosso Pai, é o único juiz, e a ninguém tenho de dar satisfações:
tu me acompanharás a Pesth.
Ninguém saberá onde e como te encontrei.
Se deves morrer, há-de ser na casa de teu esposo.
Vou embora: tomarei já as providências necessárias e enviar-te-ei um novo vestuário.
Dentro de hora e meia virei buscar-te e à menina com tudo pronto!
E Hughes saiu.
Passando pelo quarto da estalajadeira, entregou a esta uma cédula bancária, em paga da mensalidade de Ruth.
Na rua, fez todas as compras necessárias e, no hotel, mandou preparar um aposento ao lado do seu.
Duas horas após, elegantemente vestida, instalava-se Ruth, com a menina, no confortável e belo aposento do hotel.
Sentia-se como que num sonho:
mas esse luxo, essas comodidades das quais havia tanto tempo sido privada, lhe causavam mal-estar.
Quando a criança adormeceu e o chá foi servido, os esposos, depois de tanto tempo separados, acharam-se enfim a sós.
Co m os cotovelos sobre a mesa, Hughes pensava; e Ruth, que o olhava ansiosamente, de súbito se desfez em lágrimas, segurando a mão do marido e levando-a contra os lábios.
— Como és bom, Samuel!
E quanto fui eu ingrata!
Quando um dia souberes tudo o que fiz após nossa separação, tu me desprezarás; e os meus parentes como me receberão?
Tremo de tornar a vê-los!
— Calma, minha Ruth; enquanto não estiveres completamente sã, nada eu quero ouvir de teu passado, pelo qual também sou responsável.
Se eu não fora tão cruel, tu não te degradarias tanto - disse o banqueiro com melancolia.
Perdoemos os nossos erros, assim como espero que Deus nos perdoará um dia.
Não temas teus parentes.
Teu pai está morto, tua mãe foi com os filhos para Lemberg tomar posse da herança do tio Eleazar, e por lá ficou.
Aarão casou-se e está estabelecido em Viena.
Sim, tu acharás grandes modificações em Pesth, e também na minha casa.
Sabes, eu e meu filho nos tornamos cristãos, e gostaria que também tu partilhasses agora da minha fé.
— Eu me tornarei cristã — disse Ruth, com os olhos brilhantes.
— Nenhum obstáculo deverá existir entre mim, meus filhos e meu querido benfeitor.
Poucas esperanças deram os médicos.
É certo que cuidados poderiam prolongar a vida de Ruth, mas curá-la de um mal com raízes, era difícil.
Três semanas após os acontecimentos que acabamos de narrar, fez Ruth sua entrada na casa que abandonara.
Agora, o homem que então a condenara à morte, a amparava com indulgência, mostrava lhe bondade e com ela tinha cuidados de um irmão.
Apesar de tudo, a emoção de Ruth, ao rever Egon, foi tanta que acabou por desmaiar.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 06, 2016 9:28 pm

A súbita volta da Baronesa, tão misteriosamente desaparecida, provocou em Pesth viva surpresa: diziam-se boatos, faziam-se conjecturas a respeito; mas Ruth não aparecia em parte alguma, e a reserva do banqueiro tornava incómoda qualquer pergunta a respeito:
e tudo se acalmou e, por fim, novos acontecimentos absorveram a atenção dos curiosos.
A princípio, a saúde de Ruth pareceu melhorar sob a influência séria do tratamento e sob a felicidade da nova atmosfera de bem estar, que antes lhe parecia perdida para sempre.
Deitada no divã de seu boudoir, observando os divertimentos dos filhos, que bem depressa se tornaram excelentes amigos, Ruth e m verdade sentia-se feliz, e essa felicidade restituía aos seus olhos o antigo brilho e iluminava suas faces magras com um reflexo da beleza de outrora.
Mas o médico preferiu não esconder do banqueiro que essa melhora não era senão fictícia.
Samuel, então, consagrou-se inteiramente à sua mulher, enchendo-a de atenções:
lia para distraí-la, conversava, iniciando-a gradativamente nos ensinamentos do Espiritismo, nessa filosofia tão consoladora quanto grandiosa que desvenda o futuro da alma e destrói o temor pela morte.
Também o padre Martinho a visitava constantemente, preparando-a para a fé cristã, que ela agora desejava abraçar:
e dois meses depois da sua volta, Ruth recebeu parte da felicidade que havia perdido.
Sim, a felicidade estava voltando!
Hughes nunca mais tornara a falar à mulher sobre a narrativa que esta lhe quisera fazer, apesar de desejar conhecer quais os acontecimentos que, em 36 meses, haviam podido destruir a saúde da infortunada e mergulhá-la na miséria.
Mas, certa noite, estando ambos sós, Hughes disse, apertando-lhe a mão:
— Boa amiga, queres contar-me os factos sobrevindos após nossa separação?
Disse-me Levi, naquele tempo, que tu havias partido em companhia de Gilberto Netosu, o homem de confiança do Príncipe.
Como te encontrei com o nome desse homem, parece-me que Levi não me enganou.
Mas gostaria de saber por ti mesma.
Se te é penoso me contares, peço-te que nada digas — acrescentou Hughes, afectuosamente.
— Há muito tempo eu ter-te-ia contado esse passado, se o teu silêncio não me tivesse feito supor que tudo desejarias ignorar — disse Ruth em voz sumida.
Tens razão de espanto por haveres encontrado mendiga aquela que te roubou um a fortuna.
O banqueiro, bruscamente, fez um sinal negativo, dizendo:
— Nada de acusações, Ruth; se tu levaste o que te pertencia!
— Não, não; deixa-me falar abertamente.
E não me condenes com severidade, depois da minha confissão.
Sei que pequei terrivelmente contra ti, mas saibas que também fui terrivelmente punida.
Sem ninguém, sem nome, entregue de corpo e alma à exploração de um miserável, suportei momentos atrozes em que a morte seria para mim um alívio.
O banqueiro soltou um longo suspiro; a voz da consciência acusava que ele, apenas ele, fora o causador das desgraças de Ruth; por sua fria indiferença tinha despertado nela o ciúme; e não fora esse ciúme que a lançara nos braços de um amante?
Que responderia no Além, quando lhe pedissem contas dessa vida destruída?
Descreveu Ruth, primeiramente, o que se havia passado quando o banqueiro saiu do aposento, após a gritaria:
"Fogo, Fogo!" que atraíra sua atenção.
O aparecimento de Gilberto Netosu, a quem ela acompanhara, e sua partida para Paris, com Nicolau Netosu.
— Fomos, eu e ele, para uma casa de terceira classe — prosseguiu Ruth, sempre em voz baixa.
No dia seguinte, Gilberto surgiu, dizendo que se faziam pesquisas para me encontrarem.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 06, 2016 9:28 pm

Depois pediu-me as jóias para as vender, pois que era indispensável abandonar Paris imediatamente.
E mostrou por mim uma intensa afeição, dizendo que se sentia feliz por poder ajudar-me.
Era tal o meu abatimento, Hughes, que ouvi com dificuldade as palavras dele; a única ideia que eu tinha era fugir, fugir, ocultar minha vergonha, escapar do escândalo público.
Dei-lhe as jóias e nunca mais as tornei a ver.
Três dias depois, Gilberto avisou-me que partiríamos para Madrid.
— Tenho lá uma parenta e algumas relações que nos poderão ser úteis — acrescentou ele.
Não obstante sentir-me pesaroso em perturbar o repouso de que tendes necessidade, devemos discutir sobre a vossa situação.
Para viverdes livre de suspeitas, é necessário terdes um estado civil.
Vós não tendes nome, nem papel algum que legitime a vossa situação.
Em tais condições, minha senhora, não se pode viver em parte alguma.
Mas, felizmente, eu possuo todos os papéis de minha mulher, falecida há alguns meses.
Era Carmen, espanhola, e o vosso porte se assemelha ao dela.
Se consentis em passar por minha mulher, creio poder garantir o vosso futuro com tranquilidade.
Atemorizada com essas complicações, fiquei; mas concordei com tudo.
Inexperiente, não compreendia que me havia entregue de pés e mãos atados.
— Que miserável — murmurou Hughes, atento.
— Sim, um miserável, como reconheci mais tarde.
Mas, nesses primeiros tempos, ele se mostrou bom e obsequioso.
Em Madrid, instalamo-nos em uma casinha bem modesta, situada num subúrbio.
Para me servir, Gilberto trouxe uma dama de companhia, que ele disse ser parenta da falecida Carmen, de quem eu tomara o nome.
Estela (esse era seu nome) não era moça nova; muito namoradeira, gulosa, colaborava com os planos de Gilberto, a quem explorava e de quem, eu soube mais tarde, extorquira grande som a de dinheiro.
Quanto a mim, nada vi, nem percebi:
vivia completamente isolada, cercada apenas de meus três guardas. Tinha a alma abatida, nem podia chorar.
O nascimento de Violeta, a pobrezinha criatura até então sem nome, sem futuro, aumentou meu sofrimento moral.
Mas minha natureza, moça e forte, resistiu a todas as emoções, e restabeleci-me completamente.
Era Estela minha única companhia, e ajudava-me a velar pela criança, pois Gilberto estava sempre fora.
Grandes eram as dificuldades em casa, pois dinheiro não havia.
U m dia e m que não havíamos nem sequer almoçado, Gilberto veio procurar-me e declarou que a quantia produzida pela venda das minhas jóias estava completamente esgotada com a moléstia do parto e com a nossa manutenção de três meses, pois tudo custara muito caro.
— Agora só podemos viver do nosso trabalho.
Não tenho perdido tempo, e consegui num teatro o lugar de caixa.
Vós, minha cara Carmen, podeis ganhar ainda mais que eu:
com a bela voz que tendes, com a excelente apresentação física...
Com a companhia de Estela aprendeste bem o espanhol e podeis representar papéis não muito complicados.
Falei de vós ao empresário e ele prometeu que virá examinar-vos a fim de combinar a estreia, caso ele fique satisfeito.
Senti-me fulminada: cantar no palco e por dinheiro pareceu superior às minhas forças.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 07, 2016 8:27 pm

— Não, nunca, — disse eu.
Sou incapaz de cantar diante do público; mas posso dar lições de línguas, de canto ou de música; eu me empregarei mesmo como costureira.
Inventai qualquer outro emprego, Gilberto, e eu trabalharei com alegria.
Ele sorriu e respondeu:
— Costureiras existem aos milhares.
Se viverdes dessa forma vossa filha por certo morrerá de fome.
Não vos obrigo a aceitar o teatro, mas se recusardes somos obrigados a separar-nos porque o que ganho não dá para sustentar todos.
Minha cabeça tonteou ao pensar que ficaria totalmente sozinha e sem qualquer recurso financeiro numa cidade para mim estranha.
Sim, era preciso trabalhar.
Contra minha vontade em aceitar o teatro, acabei aceitando.
No dia seguinte, veio em companhia de Gilberto um homem bastante desagradável.
Era afável, mas antipático.
Pediu-me cantasse alguns trechos.
Depois fez declamar u m monólogo.
— Excelente! — disse ele com entusiasmo.
Meu caro Netosu, eu respondo pelo êxito de vossa mulher!
Na próxima semana ela estreará!
Co m que emoção apareci no palco de um pequeno teatro de má fama, não poderia descrever.
Mas tive grande êxito: o teatro sempre ficava cheio quando o meu nome, isto é, o nome de Carmen aparecia no anúncio.
Os jovens boémios, que lotavam a plateia, cobriam-me de flores, logo que eu aparecia.
Entre os admiradores, havia um espanhol, de nom e D. César de Royas, que se distinguia por suas homenagens apaixonadas, seus aplausos frenéticos e pelos olhares ferventes com que me perseguia.
Com muito sofrimento, fugia desses humilhantes sucessos.
Tão logo meu papel terminava, deixava às escondidas o teatro, acompanhada por Nicolau.
Um dia, dois meses depois da estreia, Gilberto entrou, aflito, e, colérico, disse-me que graças a um intriga de bastidores, o empresário havia nos despedido a ambos, furioso.
Senti-me alegre e aliviada por não mais exibir-me diante do público, apesar das incertezas do futuro.
Mas, bem depressa, a miséria veio ter em casa.
E, para cúmulo da sorte, Violeta caiu doente.
Levei-a ao hospital, onde davam consultas gratuitas.
O médico deu-me receitas caras, o tratamento ficava dispendioso.
Gilberto foi logo me dizendo que não havia dinheiro para tratamento algum.
Que fazer?
Então resolvi vender minhas últimas roupas.
Gilberto proibiu-me, dizendo que talvez ele conseguisse colocação com uma família onde daria lições de francês e onde, mais tarde, me conduziria.
Com esta nova esperança, parti com Gilberto.
A nova casa ficava fora da cidade, cercada de grande jardim.
Com espanto meu, entramos por uma porta oculta, pequenina, através de alamedas sombrias de um parque, e nos dirigimos a uma vasta quinta, subindo os degraus de uma varanda enfeitada de flores.
Gilberto então parou e, com um sorriso, me disse:
— Olhai em torno, Carmen.
Se esta casa vos agrada, talvez possamos morar aqui.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 07, 2016 8:27 pm

Olhei sem entender.
Tomou-me a mão e me arrastou por uma série de luxuosos aposentos, porém todos desertos.
Saímos num pequeno salão, no meio do qual vi Estela com Violeta nos braços.
A menina estava toda enfeitada, e um belo berço, com cortinado bordado, estava colocado junto à parede.
Acreditei então sonhar.
— Gilberto! — exclamei estendendo as duas mãos.
Então, fostes vós que fizeste tudo isso.
Quanto vos sou agradecida!
Ele nada respondeu.
Mas eu me sentia felicíssima.
E de nada suspeitei.
Logo me instalei num dos belos aposentos, onde achei um guarda-roupa com vestuários ajustados ao meu talhe:
e me dediquei à minha filha, a quem o tratamento prescrito logo restabeleceu.
Duas semanas decorreram nessa feliz quietude, quando Gilberto, numa tarde, achegou-se a mim, no terraço, e me propôs um passeio para mostrar-me um pavilhão que ainda eu não conhecia.
Fomos. Próximo avistei um pavilhão gótico coberto de trepadeiras e rodeado de roseiras.
Pela pequena escada subimos e logo nos achamos numa antecâmara iluminada por delicada lâmpada rósea, suspensa no tecto.
Ao fundo, via-se uma porta estreita, ornada de lavores artísticos.
Gilberto abriu-a e, fazendo-me passar, disse:
— Agora, minha cara, agradeci dignamente àquele que vos oferece todas estas maravilhosas...
Mal eu havia passado o umbral, ouvi a chave ranger na fechadura.
E no mesmo instante dois braços me enlaçaram e lábios ardentes se comprimiram na minha boca e no meu pescoço.
Gritei, desesperada, e quis desembaraçar-me.
Sim, eu acabava de reconhecer D. César e acabava de compreender, tarde demais, que Netosu me havia vendido.
O que padeci, presa nessa casa, entregue a um homem a quem eu aborrecia, só Deus sabe!
Minha aversão ostensiva desgostava D. César.
Passado algum tempo, ele desapareceu, e Gilberto me avisou que ele tinha sido morto num duelo.
Pedi, implorei então ao perseguidor me deixasse abandonar aquela casa maldita, mas ele não me quis atender.
E depois para minha surpresa, eis que surgiu um sucessor de César, de nome D. Rodrigo.
Francamente, eu me teria suicidado se não fosse a sorte horrível e dolorosa, o destino tremendo que teria minha filha.
Tentei fugir, escapar daquele inferno com a minha Violeta.
Mas a casa estava bem guardada, além do mais, para onde eu iria, sem dinheiro e num a situação ilegal?
Eu também tinha resolvido afogar Violeta e em seguida suicidar-me, mas um acontecimento inesperado veio mudar tudo.
Sem dar explicações, Gilberto avisou-me que me preparasse, pois deixaríamos Madrid dentro de vinte e quatro horas.
Estela, que andava furiosa em consequência de uma discussão com ele, contou-me que a polícia andava atrás de Gilberto por causa de certas transacções escusas que ele fizera, arruinando rapazes de família.
Também me informou Estela que os dois irmãos eram jogadores e que Gilberto muitas vezes recebia, de pessoas desconhecidas, grandes quantias que despendia em prazeres.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 07, 2016 8:28 pm

Saída da Espanha, mudamo-nos para Paris.
Logo Gilberto achou, para mim, trabalho num teatro de subúrbio; porém ele e Nicolau nada faziam.
Gilberto me tratava friamente, como se eu fosse sua propriedade legal.
Vivia às minhas custas.
Tomava-me tudo o que eu ganhava, recusando-me até mesmo o indispensável; roubava e vendia meus objectos, voltava para casa embriagado, maltratava-me sem mais nem menos.
Algumas vezes vinha com os bolsos repletos de dinheiro, mas donde vinha tal dinheiro eu nunca soube.
Desejava eu fugir desse monstro, a quem odiava; mas eu era impotente, e ele não queria separar-se de mim.
Um ano se havia passado.
Certa noite, trouxeram Gilberto com um ferimento na cabeça, ferimento mortal.
Eu soube que, numa espelunca, ele furtara no jogo.
Numa briga sanguinolenta, feroz, ele fora ferido.
No dia seguinte, morria.
Respirei mais livremente:
perante a lei eu era sua viúva, e podia, agora, viver à minha vontade.
Nicolau, que tinha um coração muito melhor, costumes menos depravados, pareceu ficar muito impressionado com essa morte:
ele já andava enfermo, e escarrava sangue com frequência.
Todas essas razoes o levaram a mudar de vida; declarou-me que pretendia trabalhar honestamente e ajudar-me do melhor modo possível; escreveu várias cartas e, ao fim de três semanas, comunicou-me estar tudo resolvido:
um parente seu afastado, que vivia em Berlim, lhe havia obtido colocação em um escritório, e um velho benfeitor lhe havia concedido auxílio pecuniário que cobria todas as despesas de viagem e instalação.
E assim, partimos para Berlim.
Tudo foi bem no começo, mas, de repente, a moléstia de Nicolau se agravou e ele não mais pode sair do quarto de dormir.
Em seis semanas uma tuberculose galopante o levou para o túmulo, e creio que foi tratando dele que adquiri a moléstia que me mata.
Descobri, nos papéis de Nicolau, o nome do benfeitor desconhecido:
era o príncipe de O""", que sempre velara pela menina e por mim.
Ficando sozinha, não sabia o que fazer.
Minhas roupas estavam estragadas demais para que pudesse dar lições.
Acabei costureira depois de muito procurar emprego.
Mas ganhava tão pouco, que muitas vezes dormi em jejum.
Violeta, pelo menos, se alimentava.
Eu, pouco me importava.
Eu sentia que a doença piorava, que meu fim se aproximava, de modo que, prevendo a morte, preparei uma carta para Raul, pedindo-lhe tomasse conta da minha filha.
Enquanto, porém, eu vivesse, a ninguém pediria nada.
Havia quatro meses que morava na água-furtada onde me encontraste e onde eu esperava morrer.
Deus, contudo, tinha transformado teu coração; e tornaste a me acolher e à menina.
Só me resta bendizer a misericórdia de Deus e a tua!
Exausta pela longa narrativa, Ruth deixou-se repousar nas almofadas e por um instante fechou os olhos.
Um a palidez acentuada tinha invadido o rosto do banqueiro:
ouvia, aflito, a história do martírio moral e físico de Ruth.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 07, 2016 8:28 pm

E sua consciência lhe gritava:
"Tu és o único responsável por esta existência perdida.
Por tua culpa, ela faliu, e tu a condenaste impiedosamente, entregando-a mercê de um miserável!
És o culpado, és o culpado!
— Ruth, — disse o banqueiro, em voz alta e trémula — a tua narrativa é a minha condenação:
eu, só eu, é que sou o culpado, e Deus me pedirá contas da tua vida arruinada por mim.
Tinhas todo o direito de exigir de mim senão um amor apaixonado, pelo menos amizade e indulgência!
E fui cruel, cego que estava no meu amor louco por uma mulher que me desprezou e esqueceu.
— Não te acuses, Hughes:
a ofensa que fiz te atingiu profundamente e muito bem podia exasperar um homem violento e orgulhoso; mas tu reparaste o mal, retomando-me, tratando com afeição paternal a filha daquele que te arrebatou a mulher amada.
Para uma grande culpada como eu, o destino foi misericordioso:
morro reconciliada contigo, cercada de todos os cuidados, consolada quanto é possível, e segura do futuro de Violeta.
Minha morte trará libertação para nós dois:
pois poderia eu tornar a ser tua mulher, não obstante teu perdão?
Poderias suportar-me, se m repugnância, depois de todo o meu passado vergonhoso e odioso, que me manchou e rebaixou?
Não, não, mil vezes não; Deus sabe o que faz, e te perdoa pelo teu arrependimento.
Ele te dará a liberdade.
Tu és moço ainda, Hughes, e me esquecerás e farás uma nova escolha que te dará a felicidade tranquila e, para as crianças, um a dedicada mãe.
O banqueiro meneou a cabeça, pensativo.
E exclamou:
— Não, Ruth; eu não quero mais assumir responsabilidade do futuro de uma alma.
O trabalho e os filhos devem bastar-me nesta vida!
Depois desta entrevista dolorosa para ambos, Hughes duplicou ainda mais os cuidados para com Ruth, procurando adivinhar-lhe todos os desejos, distraí-la em todos os momentos de que dispunha.
E, afinal, chegou a primavera; mas, esse despertar da natureza, que parece derramar nas criaturas uma vida nova, não teve nenhuma influência benéfica; nos seus olhos já brilhava esse fogo estranho que parece irradiar da alma que se vai, reflexo da pátria na qual deve reentrar.
Em determinada manhã, ao penetrar no aposento da esposa, o banqueiro percebeu que ela andava pensativa, inquieta.
Suas mãos pequenas e descarnadas, revolviam maquinalmente algumas cartas velhas, amarrotadas e amarelecidas.
— Que coisa te preocupa, minha pobre amiga? — perguntou Hughes sentando-se junto dela.
Diz-me tudo e, se estiver ao meu alcance, hei-de satisfazer teu desejo.
— Pareces ler meu pensamento — respondeu Ruth, corando.
Sim, tenho um desejo, talvez o derradeiro nesta vida... temo ofender-te, dizendo-o.
— Tranquiliza-te:
nada, vindo de ti, pode ofender-me, e com alegria realizarei teus desejos, todos, todos!
Mesmo que me imponhas um sacrifício. Fala, pois.
— Eu desejaria... — começou Ruth, com voz incerta — desejaria tornar a ver, uma vez ainda, o príncipe de O""".
Não penses, porém, Hughes, que me guie um sentimento criminoso.
Voltei ao meu primeiro amor e tu serás meu último pensamento (Ela trouxe aos lábios a mão do marido).
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 07, 2016 8:28 pm

Mas, vê tu!
Ontem, encontrei-o durante o meu passeio, e esta manhã reli parte das cartas que enviou aos irmãos Netosu:
uma constante bondade por mim, e receio e inquietude pelo destino da menina aí se pintam; ele sempre deu dinheiro à larga, e não é responsável pelos crimes de Gilberto.
Pois bem, Hughes, eu gostaria de agradecer ao príncipe a generosidade, tranquilizá-lo sobre o futuro de Violeta.
Vendo que o rosto de Hughes ficava ruborizado, Ruth interrompeu-se, tímida, com lágrimas nos olhos.
— Eu desejaria realizar teu desejo, minha pobre Ruth, se isso dependesse exclusivamente de mim.
Não sei, porém, se o príncipe quererá ver-te.
Não sabes que, algum tempo depois de tua partida, o Sr. de O""" brigou com a mulher; a separação durou mais de um ano, mas agora reconciliaram-se e, talvez no auge de sua nova felicidade, tenha escrúpulos...
— Em tornar a ver uma antiga amante? — murmurou Ruth.
Nesse caso, não; será melhor que renuncie ao meu desejo; deixemo-lo na sua nova felicidade.
— Não te emociones tanto e inutilmente; teu desejo é legítimo fica pois certa de que se for possível, eu conseguirei realizá-lo.
Voltando ao seu gabinete; Hughes pôs-se a andar de um lado para outro, agitado.
O imaginar ver Raul transpor a soleira da sua casa lhe repugnava; por outro lado, pensou que o orgulhoso fidalgo merecia ser chamado à recordação da sua péssima conduta.
Mas o banqueiro decidiu-se.
E, tomando da pena, escreveu:
"Príncipe
"A mulher que outrora seduzistes está morrendo de tuberculose; estão contadas as suas horas.
Com o ela sabe que a socorrestes nas suas necessidades e nas de vossa filha, ela gostaria de ver-vos ainda uma vez e mostrar-vos a filha.
Se, pois, Senhor Príncipe, achais possível atender a este desejo de uma pobre agonizante, encontrá-las-eis em minha residência.
HUGHES MAIER."
Ao chegar esta carta às mãos de Raul, provocou-lhe um a consternação, misturada de espanto e piedade; Ruth, a morrer, achava-se na casa do marido, do implacável juiz que a tinha condenado à morte!
Ele não compreendia nada dessa mudança espantosa.
Sim, de boa vontade tornaria a ver a infeliz Ruth, que por certo tinha razões para essa suprema entrevista; mas como ocultar de Valéria essa visita?
Inquieto, Raul apoiou a cabeça entre as mãos e ficou absorto.
Um delicado beijo na face arrancou-o da meditação.
— És tu, Valéria minha? — disse, estremecendo.
— Em que pensas, Raul? Mas, meu Deus! Pareces transtornado.
Alguma coisa te aflige, amor?
— Sim, querida.
O remorso e o passado me afligem e muito.
— E esse passado tem algum segredo que não possas confiar-me? — perguntou Valéria, empalidecendo.
— Não, não há segredos e nem mistérios entre nós! — exclamou energicamente Raul.
Vou contar-te tudo, por mais dolorosa que seja a confissão; depois julga-me, pune e aconselha-me.
Levou a esposa para o divã ao lado e contou como, pela sua frieza, buscara distracções fáceis no mundo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 07, 2016 8:28 pm

Em seguida narrou seu encontro com Ruth, a descoberta de sua ligação, seu ódio ao saber quem era a mulher que seduzira, a crueldade brutal do banqueiro, a fuga da jovem judia e, por fim, a surpresa que acaba de lhe causar a carta de Hughes, que lhe estendeu.
— Lê a carta e diz-me o que devo fazer — acrescentou em conclusão.
Empalidecendo e corando, Valéria havia ouvido a confissão do marido.
Os mais estranhos sentimentos a agitavam.
Mas os bons sentimentos que formavam seu carácter, dominaram qualquer outro impulso menos digno.
— Deves visitar essa pobre mulher, Raul, e hoje mesmo! — disse Valéria.
Considera bem quantas injustiças cometeste com ela!
Talvez ela tenha algum pedido a fazer-te no que diz respeito à filha.
Como tu, também eu não compreendo a súbita mudança do banqueiro.
Mas se Hughes perdoou a mulher, ele não tem obrigação de educar a menina, que é filha ilegítima.
Vai, querido; e cumpre tua obrigação de cristão, de bom espírita.
Nada tenho a perdoar-te.
Essa infeliz está duramente punida.
— Obrigado! — exclamou o príncipe, trazendo aos lábios as mãos de Valéria.
Irei e direi a Maier que depois da morte de sua mulher eu o desembaraçarei da menina.
A repugnância que me causa de ir ter a essa casa me serve como expiação da minha falta.
Mas penso que deveria escrever ao banqueiro a fim de lhe pedir uma entrevista.
— Para que a pobre doente morra antes da tua chegada?
Com doentes do peito nunca se está seguro da hora da morte.
Se chegares tarde, com que remorsos ficarás?
Não! Vai sem preparar nenhum a entrevista.
Vai, antes que seja tarde!
Essas palavras de Valéria convenceram Raul.
Pronto o carro, seguiu à direcção da casa do banqueiro.
Valéria, por trás da janela, viu o marido partir.
Absorvida em profundas reflexões, não percebeu a carruagem de Antonieta parar frente à porta, nem mesmo a entrada da fiel amiga, senão quando Antonieta lhe pôs a mão no ombro.
— Diz-me, fada, que se passa?
Brigaste com Raul? — perguntou a Condessa.
Ele ainda há pouco passou perto de mim, fitou-me, mas pareceu não me reconhecer.
E agora te encontro em estado de sonambulismo!
É o excesso de felicidade ou alguma briga com Raul que vos virou a cabeça?
Valéria sorriu. E disse:
— Somos felizes e estamos em completa harmonia.
É o passado, este passado fatal, surgido de não sei onde, que nos perturbou.
Vem aos meus aposentos e tudo te contarei, Antonieta.
Não tenho segredos para ti, querida irmã.
— Ora, aí está uma história fantástica! — disse a Condessa depois de ouvir a longa narrativa de Valéria.
É uma fatalidade o facto de Raul, entre centenas e centenas de mulheres, seduzir justamente a esposa de Maier.
Imagino o ódio de Samuel, quando descobriu toda a trama, verdadeira zombaria do destino.
E Samuel que sempre foi tão orgulhoso!
Mas é miraculoso como ele recolheu a esposa, a filha, e teve coragem, depois de tudo, para escrever essa carta pedindo a Raul que reveja a ex-amante! Incrível!
— Talvez queira desembaraçar-se da menina!
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 07, 2016 8:28 pm

— Não creio:
naturezas como a de Maier nunca fazem nada pela metade; se ele perdoou a mulher, venceu a repugnância pela filha ilegítima a ponto de aceitar ambas em casa, por certo ele agora não pensa em libertar-se da menina.
De tua parte, desejarias tomar a pequena para educá-la com Amadeu?
— Não pensas no que dizes, Antonieta — retorquiu a princesa.
— Então poderia ser possível tal coisa?
Não; mas nós podemos colocá-la numa casa honrada e lhe assegurarmos o futuro.
— Isso o próprio banqueiro poderá fazer.
É bastante rico para deter-se ante uma questão de dinheiro.
E, segundo o que penso, ele nunca aceitará a oferta de Raul; tu deverias saber isso melhor do que eu, aliás.
Valéria tornou-se pensativa.
Em sua mente, descortinava-se um passado já distante, com as peripécias do seu amor por Samuel.
A fronte pálida, porém enérgica do banqueiro, desenhava-se ante ela, como se estivesse ali mesmo, viva; o olhar fascinador e ardente mergulhava-se nos olhos dela; suas palavras apaixonadas lhe vibravam aos ouvidos.
Em verdade, este passado estava esquecido:
ela não o amava mais, entretanto, a simples lembrança desse homem bastava para despertar em sua alma uma vaga angústia, um pungente sentimento, que ela própria não podia qualificar.
E acabou suspirando.
Segurando-lhe a mão, Antonieta inclinou-se e disse:
— Não evoques em tua memória o olhar demoníaco que quase destruiu tua felicidade conjugal.
Não tens força para enfrentar a influência fascinadora que esse homem exerce sobre ti.
Para cumprir teu dever, que é amar Raul sem qualquer restrição, e seres assim feliz, deves banir de uma vez a sua lembrança e a sua imagem.
— Tens razão — disse Valéria passando a mão pela fronte.
Devo expulsar esses ociosos pensamentos.
Raul, só Raul é o meu futuro, futuro claro e radioso.
Samuel é uma visão das trevas, um abismo ameaçador.
— Bravos! — disse Antonieta, rindo.
Agora deixa-me contar-te porque estou aqui.
Quero levar a todos para passar o resto do dia em minha casa.
O meu pequeno Jorge caiu e machucou o pé; o médico ordenou ficasse ele deitado, e eu então lhe prometi levar seu amiguinho Amadeu.
Esperarei a volta de Raul, e partiremos todos juntos.
Nesse ínterim, Raul havia chegado à casa do banqueiro.
A ideia de transpor os portais do banqueiro deixava-o na mais desagradável situação.
— Anunciai-me à Senhora Baronesa — disse, enquanto entregava ao empregado seu cartão de visitas.
— A Senhora não recebe absolutamente ninguém — respondeu o empregado, um tanto embaraçado, ao mesmo tempo em que retirava a capa dos ombros de Raul.
Aqui está o Sr. Barão; tende a bondade de vos dirigir a ele.
Com efeito, nesse momento uma porta do vestíbulo abria-se à direita.
O banqueiro entrou.
E m presença de Raul, ele o cumprimentou com uma reserva assaz polida.
— Queira entrar, Senhor Príncipe.
Minha esposa não o esperava hoje; mas vou imediatamente avisá-la.
E m seguida vos conduzirei para junto da enferma.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 07, 2016 8:29 pm

A presença inesperada de Hughes foi para Raul desagradabilíssima; contudo, a presença dos empregados da casa o auxiliou a não demonstrar seus íntimos sentimentos.
— Eu me felicito de vos encontrar, Sr. Maier.
Tenho o ensejo de discutir e regular convosco um a questão indispensável, que eu desejaria, ardentemente, ver terminada antes de me apresentar à Baronesa.
— Se assim é, Senhor Príncipe, passai ao meu gabinete — respondeu o banqueiro, com um ligeiro espanto ao mesmo tempo em que convidava Raul a segui-lo.
Puxando uma cadeira para Raul, Hughes sentou-se.
— Eis-me às vossas ordens, Alteza, se bem que não compreenda que coisas tenhamos a ajustar.
É com Ruth que talvez tenhais de regularizar um assunto de aspecto moral.
Nervoso, Raul torceu o bigode.
— Esqueceis que há um a criancinha sobre a qual precisamos entender-nos.
Ruth tem uma filha, e para com ela o senhor não tem nenhuma obrigação.
A mim, sim, é que compete o futuro dela.
Devo, portanto, dizer-vos, que se a mãe dela vier a morrer, eu a tomarei para educá-la convenientemente.
Hughes, admirado, ergueu para Raul um olhar profundo e atento.
— Quereis tornar vossa filha:
mas a Senhora Princesa está informada da existência dessa menina?
E a Princesa consente em admiti-la e m casa?
Raul corou fortemente, sentindo as faces ardentes.
— Não, não posso exigir que minha esposa eduque uma filha ilegítima, ainda que eu e ela não tenhamos segredos um para com o outro.
Eu desejo colocar a criança em casa de uma família honesta e assim velar pelo seu futuro.
Um sorriso amargo e ao mesmo tempo desdenhoso passou pelos lábios do banqueiro.
E disse:
— Reconheço vossas intenções, Príncipe.
Mas esses cuidados são inúteis; porque eu mesmo fico com a menina, que posso tomar como filha minha.
Isto assegura a Violeta um a fortuna e um a boa situação social.
Perdoei minha mulher, sem nenhuma restrição, e não desonrarei jamais, sua memória, recusando a menina.
E agora, Alteza, vou prevenir Ruth da vossa vinda — acrescentou Hughes, levantando-se.
Sozinho, Raul percorreu nervosamente o gabinete.
Havia em si um grande descontentamento, uma surda raiva contra Hughes.
Afastavam-no, então, com desdenhosa indiferença, a ele, Raul, que tanto havia sofrido por causa desse judeu estranho...
De súbito, porém, Raul estacou e m frente a uma grande mesa colocada no canto do gabinete, onde se viam jornais, livros, e sobre a qual estava um belo busto, ricamente esculpido.
Raul estremeceu.
Sim, o busto era de Allan Kardec, igual ao que enfeitava sua própria secretária; esses livros e jornais e revistas eram publicações espíritas.
Ali estava a chave do enigma; estava explicada a mudança radical do carácter do banqueiro.
Ele se tornara espírita!
A compreensão dos deveres espíritas havia levado o banqueiro a vencer, a dominar o ódio e a vingança, tornando-o misericordioso e caritativo!
A voz de Hughes, convidando-o a ir ao aposento da enferma tirou Raul dessas meditações.
Como que metamorfoseado, Raul voltou-se e, com uma cordialidade franca, disse:
— Sr. Maier, confesso que estava profundamente admirado da vossa mudança de agir e pensar.
Mas acabei de compreender a razão: sois espírita!
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 07, 2016 8:29 pm

Pois bem; deixai-me dizer-vos que também eu o sou, e diante desse busto do admirável filósofo e cientista, que nós ambos veneramos confesso que vos tenho julgado mal:
sois um homem generoso e correto, e eu, julgando-o mal, cometi um grande erro...
(Interrompeu-se por algum momento)...
— De me haverdes julgado um usurário? — perguntou Hughes com um sorriso melancólico.
— Também isso, — concordou Raul — mas deploro todos os maus pensamentos meus dirigidos ao senhor — acrescentou Raul estendendo a mão para o banqueiro.
— Se sois como eu um espírita, compreendereis que faço o meu dever, e compreendereis que existe uma estranha interpretação de nossos destinos, cujas raízes vamos encontrar no passado longínquo.
Como uma ocasião como esta jamais há de se apresentar (o olhar de Hughes tornou-se cintilante), espero que também ponhais em prática, com relação a mim, o lema da nossa Doutrina:
"Fora da caridade não há salvação".
À porta do aposento de Ruth, o banqueiro retirou-se; e Raul entrou sozinho.
Ruth estava deitada num divã, amparada sua cabeça sobre diversas almofadas.
Um roupão de pelúcia vermelha realçava um pouco sua palidez mortal.
Num tamborete Violeta brincava com uma valiosa boneca, tão grande quanto ela.
Raul parou por um instante, espantado e comovido; essa mulher tão pálida, semimorta, seria realmente a Ruth de outrora, soberba e bela que subjugara seus sentidos?
Violeta, porém, ali estava para tal atestar.
Sem dúvida, essa linda criaturinha, de cabelos castanhos, era realmente sua filha, sua viva imagem.
- Ah, Senhora! Devia eu encontrar-vos assim? — disse o Príncipe caminhando rapidamente e levando aos lábios a mão que se lhe estendia.
Ruth ergueu para Raul os olhos brilhantes de febre e indicando a menina, exclamou:
— Eis aí Violeta!
Raul atraiu para si a menina e abraçou-a.
A menina, a princípio intimidada, agora animou-se com o Príncipe, o qual lhe fez algumas carícias.
Violeta, mostrando-lhe a boneca, disse:
— Não é linda a minha boneca?
Papai deu-ma ontem.
O nome dela é Huguete.
— És uma filhinha muito feliz — disse o Príncipe acariciando a cabeça de Violeta.
E dirigindo-se a Ruth:
— Vosso esposo nada mais me deixou oferecer a esta menina, senão o meu afecto e em relação a vós sou impotente para reparar as faltas cometidas.
— Oh! eu é que tenho ainda de agradecer-vos a generosidade constante para comigo.
Quanto a Violeta, o vosso beijo trará felicidade.
Também vos agradeço por terdes vindo.
Netosu abusou muito da vossa generosidade, mas eu só soube das suas extorsões depois da morte dos dois irmãos.
A resposta de Raul foi interrompida pela menina que, da janela, disse:
— Papai está no jardim; posso ir para juntinho dele?
E, sem esperar resposta, saiu correndo, e logo depois sua voz, muito brilhante, se ouviu fora.
Curioso, o Príncipe dirigiu-se até a janela, e viu, perto do tanque, de onde jorrava um repuxo, o banqueiro que falava ao jardineiro; viu a criança ir para eles a correr e segurar o casaco de Hughes.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 07, 2016 8:29 pm

Este abaixou-se, suspendeu a menina e a rodopiou, fazendo-a rir alto.
Raul, silencioso, observava tudo.
Voltando para junto da enferma, Raul sentou-se numa cadeira próxima e, apertando-lhe a mão, disse:
— Vosso marido é um homem muito bom para a menina; mas, Ruth, falai-me de vós, das tristes e amargas experiências que estragaram vossa saúde; dizei-me de algum desejo que eu possa cumprir e, se agora, vos julgais feliz.
— Sim, sou feliz, muito!
Tenho tudo quanto poderia almejar, morro feliz junto de meu esposo, coberta de bondades, tranquila quanto ao futuro de Violeta, dos filhos, esclarecida, graças a Deus, sobre os destinos da alma pela consoladora fé no Espiritismo, aproximando-me, rapidamente, de um filho ao qual aspiro, porque estou muito cansada: eu sofri tanto!
E Ruth contou alguns episódios do passado, os quais bem mostravam quem era Netosu, sem mencionar todavia as vergonhas a que ele a sujeitara; e, devido a uma súbita fraqueza, Ruth fechou os olhos e tombou nos travesseiros.
Raul, assustado com o imprevisto, apanhou na mesa um frasco de sais e a fez aspirá-lo; Ruth imediatamente reergueu-se.
— Não é nada, obrigada — disse com um sorriso. — emoção e a nossa conversa me extenuaram.
Adeus, Raul para esta vida; e até à vista no mundo dos Espíritos!
Agradecida, ainda uma vez, por tudo quanto fizeste em minha intenção.
Guardai de mim uma imagem indulgente, e orai pelo alívio de minha pobre alma, assim como eu hei-de orar pela vossa felicidade e pela de vossa esposa.
Ofereceu-lhe ambas as mãos, descarnadas.
Raul as pegou, e com lágrimas a correr pelas faces, comprimiu-as várias vezes.
— Perdoai-me, Ruth!
Eu sacrifiquei, com minha leviandade, o vosso futuro.
Todos os dias, eu juro, rezarei por vós.
E Raul, emocionado, nada mais pôde dizer.
Erguendo-se, bruscamente, saiu do aposento sem olhar para trás, e, sem se despedir do banqueiro, entrou na carruagem.
Em seu palácio, Raul soube que a sua esposa estava com a cunhada.
Aflito, sem nada poder contar para Antonieta, pelo menos naquele instante, meteu-se em seu gabinete.
Vergonha, pesar, remorso, o oprimiam, angustiavam-no.
Não podia repelir da memória a imagem dessa semimorta, tão oposta à bela mulher de outrora, tão cheia de vida, de esplendor, que um dia encontrara num baile da Ópera.
A voz de Valéria, pedindo-lhe que abrisse a porta, tirou-o das reflexões.
E, debaixo de impressão desagradável, Raul contou detalhadamente para Valéria tudo o que acontecera, inclusive sua conversa com o banqueiro.
Com o coração palpitando, Valéria ouviu-o.
Antonieta tinha razão:
Hughes recusara a proposta, ficaria com a criança.
A pálida imagem do banqueiro despertou-lhe no coração uma estranha fascinação.
Mas Valéria afugentou a imagem.
Enlaçando o pescoço de Raul, Valéria beijou-o na boca.
— Basta de tristeza; não falemos mais do passado, que é melhor esquecer.
Nós nos amamos, nos pertencemos, e isso é quanto nos basta.
E agora vem, meu amor: Antonieta nos espera.
A saúde de Ruth decaía rapidamente; desde a entrevista com Raul, grande era sua fraqueza, e agora já não podia abandonar o leito.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 07, 2016 8:29 pm

Não obstante, sua fé em Deus persistia, tinha uma calma profunda, que não a abandonava jamais.
Vendo seu fim próximo, suspirava, alegre.
Certa tarde, Ruth estendeu a mão para o marido, que se encontrava ao pé do leito, e disse:
— Vem sentar-te ao meu lado.
Sou muito feliz quando te vejo perto de mim.
Minhas pálpebras estão tão pesadas, que mal posso abri-las, quanto mais mantê-las levantadas...
O banqueiro nada respondeu.
Puxou uma poltrona, sentou-se e apertou na sua a mão fria de Ruth.
Seu coração estava cheio de amargura:
o médico lhe dissera que Ruth não passaria daquela noite.
Após breve silêncio, Ruth abriu os olhos.
— Todo o passado parece reviver hoje em mim — murmurou num suspiro, sorrindo.
E vejo que pouco, quase nada, tenho avaliado a felicidade que Deus me concedeu.
Ainda há pouco recordei o dia em que se seguiu ao nascimento do nosso Egon.
E como se eu despertasse, te vi inclinado para mim, aflito e afectuoso.
Então uma felicidade inundou meu coração!
E creio, Hughes, que se eu tivesse procurado conquistar pacientemente teu coração, eu teria saído vitoriosa.
O banqueiro estremeceu.
E uma palidez cobriu suas faces.
Recordou-se da hora em que se inclinara sobre essa pobre mãe, acariciando-a com falso amor, para espreitar o momento em que derramaria o narcótico, e assim aproveitar o seu sono para lhe arrebatar o filho!
— Que tens, Hughes?
Não quis fazer-te sofrer, evocando o passado — disse Ruth num fio de voz, agitando as mãos febris sobre as cobertas.
— Pobre mulher, que meu egoísmo sacrificou, perdoa-me, e pede por mim, no Espaço, quando puderes compreender que sou tão criminoso para contigo...
— Sempre rogarei ao Alto por ti.
E agora, Hughes, meu derradeiro pedido:
abraça-me ainda uma vez mais antes do fim; parece-me que teu beijo lavará os sofrimentos que suportei, e selará nossa reconciliação.
Chorando, o banqueiro comprimiu delicadamente em seus lábios os da enferma.
Com força imprevista, talvez as últimas, Ruth levantou-se e enlaçou o pescoço do marido; e seus grandes olhos negros se tornaram brilhantes, uma alegria radiante a envolveu, suas faces pálidas subitamente se tornaram rosadas, e por um instante toda sua beleza de outrora se lhe estampou no rosto.
Mas foi por pouco:
um súbito abalo lhe agitou o corpo, seus braços se desprenderam do marido, um longo suspiro profundo lhe saiu do peito arquejante, em seguida sua cabeça tombou:
Ruth estava morta.
Um calafrio percorreu o banqueiro.
Atónito, repousou o cadáver nos travesseiros, colocou-lhe um crucifixo ao peito, beijou-lhe a fronte pálida, e saiu.
Depois de dar instruções aos empregados da casa, refugiou-se em seus aposentos.
Sentia-se alquebrado; uma horrível sensação de vácuo lhe oprimia o peito.
Acostumara-se, durante esses meses de cuidados, com Ruth.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 07, 2016 8:30 pm

Ligara-se a essa morta-viva, para quem, outrora, não tivera um simples olhar, quando ela, tão amorosa e cheia de vida, convivera consigo.
E ...
— Oh! — exclamou apertando a mão na fronte ardente — por que desprezei, meu Deus, a situação em que me colocou o meu nascimento, e aspirei a essa mulher orgulhosa e má, da qual me separava um milhão de abismos de preconceitos?
A paz, a felicidade, o meu filho legítimo, tudo abandonei, repeli, para ficar só, sem amar a nada, senão essas duas crianças estranhas das quais uma há-de amaldiçoar-me um dia!
Na manhã do enterro, feito sem qualquer pompa, um enviado trouxe, da parte de doador desconhecido, uma bela grinalda de rosas e camélias.
Hughes, por sua vez, suspeitou quem enviara esse adeus mudo à pobre morta, vitima das violências do próprio marido.
E foi com uma dolorosa mágoa, que colocou, no esquife, as flores.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 07, 2016 8:30 pm

7 - NÃO SE APROVEITA UM BEM MAL ADQUIRIDO

Lancemos agora um olhar retrospectivo, antes de prosseguirmos em nossa narrativa, a fim de que o leitor conheça a sorte de duas personagens secundárias de nossa história.
Trata-se de Estevão, o antigo criado do banqueiro, e de Marta, a infiel camareira da princesa de O...
Conseguindo grande soma em dinheiro, provinda de sua péssima acção, ambos se mudaram para Viena e dali embarcaram para o Novo Mundo.
Sentiam-se felizes.
O dinheiro lhes abafava o sentimento de remorso.
Apenas viam o futuro esplendoroso que os esperava.
Mas Estêvão não mais se contentava com o que já possuía. Queria mais.
Pensava tornar-se milionário como Samuel Maier.
Durante a viagem, expôs à sua companheira os planos para centuplicar-lhes a fortuna.
No Novo Mundo faria especulações, conseguiria muito dinheiro.
E assim, desembarcaram em Nova York, onde procuraram imediatamente Cristóvão Wachtel, um tio materno de Marta que emigrara havia três lustros e a quem desejavam perguntar o modo mais fácil de especular e de se estabelecer no Novo Mundo.
Mas ficaram desapontados:
em casa de um fabricante de cerveja ficaram sabendo que o tio de Marta havia deixado a cidade havia mais de um quinquénio:
mudara para uma das províncias do Sul onde se tinham descoberto terrenos auríferos.
Tempos depois, Estêvão acabou por empolgar-se com a ideia de também tornar-se possuidor de um terreno capaz de ter ouro.
Mas, para isso, era necessário ter certeza de que o tio de Marta ainda vivia e, se vivesse, lhe daria bons conselhos a fim de que pudesse comprar um terreno propício... e não fazer um negócio desvantajoso:
e tratou de enviar uma carta!
O tio de Marta a recebeu.
E respondeu, prontamente.
Acolhia com entusiasmo a ideia do novo sobrinho.
E informava que, ele próprio, possuía um imenso terreno contendo, segundo pesquisas, uma considerável mina de ouro; porém os recursos lhe eram tão pequenos que foi obrigado a parar com as escavações.
Além do mais, não tendo filhos e sua mulher já morta, acabara provisoriamente abandonando os trabalhos e aberto um albergue, onde vivia com André Smith, um sobrinho de sua falecida mulher.
Muito feliz por poder rever um dos parentes, Cristóvão Wachtel fazia a Marta e ao marido a seguinte proposta:
concordava em lhes ceder, por preço acessível, o terreno que possuía mas para si reservava apenas a décima parte dos lucros.
"Sei que não é muito, dizia ele na carta, e acredito que não regatearei ao vosso parente esta pequenina parte dos milhões que vireis a possuir.
E, em compensação, André e eu trabalharemos arduamente com Estêvão, e assim não tomaremos operários estranhos, o que sempre é perigoso neste serviço".
Esta carta deslumbrou o espírito de Estêvão, o qual já sonhava com os milhões preditos.
E, sonhando, via-se de volta a Pesth mais rico que seu antigo patrão.
Estava impaciente para pôr mãos à obra.
E, assim, comprou tudo que poderia ser necessário: e partiram.
Foram recebidos de braços abertos pelo tio Cristóvão.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 07, 2016 8:30 pm

Este, que vendera o albergue, veio instalar-se com o sobrinho.
O velho Wachtel era ambicioso, trabalhador e bonachão, que se tinha deixado subjugar por André, rapaz folgazão, gozador, de vinte e cinco anos de idade, astuto, sonso, e enérgico.
Tinha um exterior agradável.
Parecia inofensivo, mas só na aparência o era.
Marta provocou no ambiente uma impressão profunda.
Era bela, elegante, conservava os modos de uma camareira da alta sociedade.
Impressionava bem, seu porte altivo.
E André logo sentiu uma afeição especial pela jovem.
Mas dissimulou seus sentimentos, mostrando-se para Marta como um parente apenas dedicado, e assim foi adquirindo, pouco a pouco, certa intimidade.
As viagens, a instalação e outros afazeres, tinham absorvido quase um ano.
Quando, porém, os homens começaram enfim o trabalho das escavações, Marta balançava, nos joelhos, um filhinho ao qual só chamava, rindo, "o futuro milionário".
Marta sentia-se muito feliz:
tudo lhe era agradável na elegante casinha, aliás toda rodeada por um belo jardim; uma forte preta a ajudava nos trabalhos domésticos; e havia ainda dinheiro de sobra para compras, etc.
E mais de doze meses se passaram no trabalho das escavações; mas este trabalho se mostrava inútil.
Nenhuma mina aparecia.
Um longo túnel já fora escavado, mas ouro mesmo, nada: só pedras.
Estêvão começava a impacientar-se, e ruminava a ideia de escrever a Samuel para extorquir-lhe uma nova soma a fim de comprar o terreno vizinho e começar imediatamente a escavá-lo.
Mas nada contou a Marta sobre esse novo projecto, pois ela detestava lembrar a origem de sua fortuna.
Desde que se tornara mãe, de vez em quando o remorso lhe picava o coração:
contribuíra, afinal, para privar outra progenitora do seu primeiro filho?
Aliás, ainda ignorava totalmente as consequências que seu crime trouxera a Valéria.
Ao fim de certo tempo, Marta tornou a ser mãe, desta vez de uma menina.
E longe ela estava de saber que a punição se aproximava.
Certa tarde, Marta esperava a volta dos trabalhadores, pois o almoço já estava servido.
Na varanda, ela então viu, correndo, André, que gritava por socorro.
Acontecera alguma desgraça?
Ao chegar perto, André, aterrorizado, comunicou à jovem que o tio e ele próprio se aprestavam para abandonar a mina quando, no fundo do túnel, se ouviu um grito acompanhado de um baque surdo.
Desabara uma parte do túnel e Estêvão fora sepultado.
Como louca, Marta correu à mina.
O corpo de Estêvão já havia sido retirado, num dos carrinhos que servem para transportar terra.
Maria ficou desesperada após o enterro.
Que seria dela, sozinha, num país estranho, com dois filhos pequeninos?
Melhor voltar para a Europa, mas essa ideia lhe repugnava.
E resolveu mudar-se para a cidade vizinha.
O tio lhe aprovou a atitude e lhe vendeu, pela metade do preço recebido, o terreno e a casa.
Maria ficou satisfeita com a transacção.
E mudou-se, nunca mais recebendo nem visitando ninguém.
Passou a viver exclusivamente para os filhos.
André era o único que vinha vê de vez em quando, mostrando-lhe uma amizade constante.
Aliás, Marta precisava de amigo, porque a desgraça não parava de persegui-la:
o filhinho, a quem adorava, fora atingido pela escarlatina, que assolara a cidade, e dessa doença veio a sucumbir.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 07, 2016 8:30 pm

Logo depois André veio contar-lhe que o tio Cristóvão, ao fazer um conserto no telhado, perdera o equilíbrio e caíra.
Resultado:
com a forte queda ficara mudo e idiota.
As visitas de André continuavam.
E, certo dia, propôs a Maria casamento.
Confessou-lhe que a amava desde o começo, mas que havia sufocado esse sentimento por respeito a Estêvão.
Agora, todavia, ela não tinha marido, podia pois lhe declarar amor.
Marta aceitou imediatamente a proposta.
Sentia-se desolada e infeliz.
E André lhe parecia muito simpático.
Quem sabe ele não lhe devolveria a antiga felicidade?
E ambos se casaram.
Logo depois André pensou em dirigir-se para Nova Orleães e ali abrir um elegante hotel; mas, pouco depois, mudou de pensamento e resolveu voltar à sua antiga residência e recomeçar as escavações.
Marta, porém, opôs-se tenazmente.
Detestava esse lugar que lhe custara tanta dor.
Mas André ficou firme no seu projecto e ela acabou por concordar.
Passado algum tempo após a reinstalação, Cristóvão Wachtel veio a morrer.
E André trabalhou sozinho na mina.
Uma tarde, veio ele contar à esposa que seus esforços enfim haviam sido coroados.
Descobrira o ouro!
Alegre e admirada, Marta o acompanhou à mina.
E, no fundo do túnel, alumiado por uma fraca lanterna, apontou-lhe o marido os pedaços de terra palhetados de ouro, com os quais desejava encher um saco.
Era espessa e sufocante a atmosfera desse lugar sinistro e fatal.
Atacada de um mal súbito, Marta, vacilante, apoiou-se à parede:
um frio glacial a fazia tremer, a cabeça lhe rodava; pareceu-lhe de repente ouvir um grito lancinante dado por André.
Depois tudo sumiu diante de seus olhos.
Quando despertou, pôde reconhecer, à luz da lanterna, que o saco, cheio de terra misturado ao ouro, continuava ali.
Mas André havia sumido.
Admirada e aborrecida com o facto, regressou à casa.
Por que André a abandonara desmaiada no fundo do túnel?
E onde ele se encontrava agora?
Somente à meia-noite André apareceu em casa.
Voltou pálido, com os olhos espantados.
Comeu, silencioso, um pouco de alimento e, sem nada dizer à mulher chorosa, deitou-se e pareceu cochilar.
Este estranho proceder de André continuou pelos dias seguintes:
desaparecia toda madrugada, só regressava à noite, parecia desconfiar de todos, até mesmo de sua mulher.
Mas, ao fim de quinze dias, pareceu melhorar.
Ficava em casa, e resolveu recomeçar os trabalhos.
Marta não ousava perguntar-lhe nada, pois percebeu que cada vez que aludia à mina, André ficava louco, irritado.
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