Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 08, 2016 7:43 pm

Mas admirou-se quando, certa manhã, André disse:
— Vem comigo até a mina; precisamos conduzir o saco.
Tu pegarás a lanterna. Não fiques tão espantada.
Tenho razões para fazer o que faço — acrescentou, taciturno.
Silenciosa, Marta obedeceu.
No fundo da mina, pôs num monte de terra a lanterna e ajudou o esposo a colocar as pedras no saco.
Nesse instante, porém, sua vista turvou-se, a cabeça tonteou.
Um grito estranho e lúgubre, medonho, tirou-a desse torpor e seu olhar espavorido caiu sobre André, o qual havia tombado sobre o chão, a espumar, convulsivo.
Desesperada, Marta fugiu a buscar socorro.
E logo voltou à mina, acompanhada pela criada.
André continuava sem sentidos.
As duas mulheres, com dificuldades, o levaram para casa.
Ao abrir os olhos, sem reconhecer nada, teve delírio furioso:
gritava e soltava blasfémias.
Marta resolveu chamar um médico.
O dia passou-se lento.
À noite, André pareceu melhorar:
e adormeceu; ao lado, Marta velava.
Cansada, também cochilou.
Uma viva claridade, porém, a despertou.
E Marta viu, horrorizada, que André, de olhar vidrado, erguia a lamparina e punha fogo nas cortinas da janela.
As chamas já lambiam o tecto e a fumaça, cada vez mais espessa, enchia o quarto.
Marta jogou-se de encontro ao marido, tentando arrancar-lhe das mãos a lamparina e conduzi-lo para fora.
Mas André gritava, com voz rouca:
— Larga-me, criatura estúpida!
Não compreendes que é a obscuridade nesta amaldiçoada mina que favorece o miserável?
Agora, com tanta claridade, ele deixará de disputar comigo o ouro!
Marta tentou ainda arrastar o marido.
Mas o delírio lhe dava uma forca hercúlea.
De súbito, Marta lembrou-se de Estefânia, seu único tesouro, que dormia no aposento superior.
Correu para lá e, enfrentando o fogo, salvou a menina, já meio asfixiada pela fumaça.
André, graças à coragem da robusta preta, também foi salvo, mas em seu corpo havia terríveis queimaduras.
A casa ardeu inteiramente, e quando pela madrugada veio o médico, tudo estava em ruínas.
André foi colocado sob um telheiro, ao fim da horta.
Seu delírio sumira, agora uma prostração intensa o dominava.
O médico achou seu estado desesperador.
Além do mais não havia remédios pela redondeza.
Muda e aniquilada, Marta não deixou um só instante o marido, aplicando-lhe compressas.
À noitinha, André pareceu voltar de seu torpor.
Abriu os olhos.
Ao avistar sua mulher, chamou-a com um sinal.
— Marta, eu morro — disse, apertando-lhe frouxamente a mão.
— Antes de minha morte, preciso aliviar minha consciência culpada.
Sim, existe uma justiça divina.
Um gemido rouco escapou dos lábios de Marta.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 08, 2016 7:43 pm

— Ouve, — continuou o doente — desde que te vi apaixonei-me intensamente, mas ao saber que amavas teu marido, escondi meus sentimentos.
Tínhamos vendido o terreno porque eu e o tio Cristóvão já havíamos escavado mais de cinco dezenas de meses sem nada encontrar, a não ser pedras.
Entretanto, tio Cristóvão com receio de que tu e o teu marido pudessem encontrar ouro, resolvemos, de antemão, matar o Estêvão.
Quando eu te vi, minhas ideias mudaram.
Mas eu continuava a odiar o Estêvão, porque era teu marido e eu te amava.
Mas foi Estêvão quem primeiro descobriu o ouro da mina.
E eu não me contive.
Joguei-me sobre ele, dei-lhe uma violenta pancada na nuca e depois o cobri de terra.
Em seguida corri a avistar-te com mentiras que tu já conheces.
Essa confissão inesperada deixou Marta atordoada, confusa.
A jovem deu um grito e escondeu o rosto.
— Perdoa-me, Marta, e deixa-me prosseguir.
Tu estás vendo de que modo Deus me castigou — disse o moribundo, estorcendo-se na cama improvisada.
E prosseguiu, agora com a voz mais baixa e rouca:
— Eu tinha meu plano:
desejava desembaraçar-me também do tio Cristóvão.
E ficar assim o único possuidor da riqueza e do segredo.
"E aconteceu que um dia, vi meu tio trabalhando nas traves da casa.
Por detrás dele, sem que me visse, dei-lhe uma violenta pancada na cabeça e atirei-o lá de cima.
Pensei que houvesse morrido.
Mas não. O choque e o susto o deixaram mudo e idiota.
Deixei-o viver e então te esposei.
Foi quando a mão de Deus já me esperava...
Quanto ao que aconteceu na mina de ouro, vou também te contar.
Quando eu quis apossar-me do ouro, vi, apavorado, o Estêvão.
Era o espírito dele!
Vi pálido, com os olhos vidrados, erguer-se junto a mim.
As suas mãos, crispadas, estavam fortemente agarradas ao saco de ouro, tentando tirá-lo de mim.
Fugi como um louco; mas depois acreditei que tudo não passou de uma alucinação, e voltei novamente à mina, em tua companhia.
"E eis que de novo o espírito de Estêvão apareceu e agarrou o saco; e eu mais uma vez tombei ao solo.
Eu te vi fugir, mas não pude acompanhar-te porque os olhos de Estêvão me pregavam ao solo.
E Estêvão então se aproximou de mim; um hálito desagradável, frio como gelo, nauseabundo, um odor de podridão me sufocavam.
Uma chama azulado-escura parecia oscilar em torno à sua face cadavérica e pálida.
E eu o ouvi dizer:
— Tu estarás amanhã comigo e junto vigiaremos e repartiremos o ouro.
Em seguida perdi os sentidos".
Após a narração de André, Marta, cheia de horror, quis erguer se e fugir; mas lhe faltaram as forças e ela desfaleceu.
Graças aos bons cuidados da preta, logo Marta voltou a si:
mas André já estava morto.
Marta abandonou precipitadamente o local da desgraça, logo após o sepultamento.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 08, 2016 7:44 pm

E voltou à cidade onde tinha habitado antes do seu segundo casamento.
Seus pensamentos eram torturantes.
Marta começava a temer o dinheiro recebido do banqueiro.
Fora a mulher do assassino de Estêvão, e isso lhe provocava arrepios.
Era o remorso que Marta sentia. Remorso e pavor.
Nas infelicidades que a feriram, Marta passou a ver o castigo de Deus.
Era horrível o sofrimento.
Sem saber o que fazer, vendeu tudo e tomou o caminho de Nova York.
Lá, acreditava ela, distante das desgraças deste maldito lugar, viveria para a filha e voltaria a adquirir a calma.
Na segunda noite de viagem, aconteceu nova desgraça:
outro navio, vindo de rumo oposto, chocou-se com violência no que se encontrava Marta.
Mas com tal violência, que este soçobrou em poucos minutos.
Poucas pessoas se salvaram, inclusive Marta; mas sua filhinha sucumbiu afogada.
De todos os seus pertences, apenas lhe restava um pequeno saco de couro, que, por instinto, passara ao pescoço, no instante do naufrágio.
Nele estavam os seus papéis de identificação, bem como o dinheiro para a viagem e algumas jóias que recebera de Valéria, durante o período em que trabalhara para ela e como lembrança de despedida.
Moralmente vencida e doente, Marta apanhara um perigoso resfriado na noite horrível do naufrágio.
Foi internada num hospital, tão pronto chegou a Nova York; foi constatada inflamação nos pulmões e nos intestinos.
Não morreu, mas ficou com a saúde abalada.
Uma fraqueza invencível, acompanhada de estupor, lhe minava rapidamente a vida.
Perseguida pelos remorsos, Marta solicitou a presença de um sacerdote, tudo confessando a ele.
O padre, áspero e da classe dos fanáticos, ficou tomado de horror, apenas à ideia de que uma criança cristã tinha sido entregue à perdição espiritual, às mãos infiéis de um judeu, e pôs diante de Marta, com suas ameaças, as chamas do inferno, e o castigo eterno, se ela não pagasse o seu crime com uma confissão aos pais da criança, e resolveu-se a dar lhe a absolvição só depois que ela jurou, diante da cruz, que seguiria imediatamente para Pesth.
O sacerdote mesmo lhe propiciou o dinheiro de que ela precisava, instalou-a no navio e, ainda que ela objectasse, dirigiu uma carta ao Padre Rothey, de quem Marta falara, na qual, aludindo ao segredo, pedia que inquirisse a criminosa e lhe arrancasse a confissão de um crime odioso e inconcebível.
Marta desembarcou em Bremen, com a alma e corpo quebrantados.
Sem perda de um instante, seguiu para Pesth.
Ela ansiava agora por receber todo castigo humano, para evitar a perdição eterna de sua alma.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 08, 2016 7:44 pm

8 — NEMESE, A DEUSA DA VINGANÇA E DA PUNIÇÃO
(Segundo a mitologia)

Começos de maio.
Manhã bela; os raios de sol, descendo sobre as roseiras floridas, colocadas nos degraus do terraço próximo ao aposento da princesa de O""", lançavam seus clarões caprichosos sobre as duas jovens que, descansando num divã protegido por um toldo de seda listrada, conversavam animadamente.
Antonieta, apreciadora dos passeios matinais, vinha visitar sua amiga.
Sabia que ela estava só, pois Raul, desde a reconciliação, tinha retomado seu lugar no Regimento e de lá só regressava depois da uma hora da tarde.
— E tu não temes deixar os filhos no campo durante dois dias? — perguntou Valéria.
Rodolfo não esperava tua volta, porque ainda ontem de manhã me disse que contava esperar hoje a sua licença e reunir-se a ti, na quinta-feira.
— Eu mesma venho buscar o meu dono e senhor para que nenhum amigo o retenha —- disse Antonieta em tom de pilhéria.
Quanto aos meus filhos, não tenho do que me preocupar:
a Srta. Ribot é óptima criatura, sabe guardá-los como eu própria o faria; vim, pois passar o dia ao teu lado.
Rodolfo virá aqui, almoçaremos todos juntos e, à tarde, partiremos para o campo, sozinhos, como noivos recém-casados...
Neste momento entrou a aia, trazendo o pequeno Raul.
Era um menino adorável, alvo e muito rosado.
Os olhos grandes e pretos pareciam aveludados.
Os cabelos castanhos eram espessos.
Antonieta tomou ao colo enquanto Valéria perguntava:
— Sabes, Margot, se Amadeu está estudando as lições?
— Está. O principezinho e seu mestre estão no pavilhão gótico; quem levou os cadernos e os livros de Sua Alteza foi o João.
Valéria pegou da mesa uma cesta de cerejas, e disse:
— Leva esta cesta ao pavilhão, Margot, e diz ao Sr. Landri e a meu filho que lhas envio de presente a fim de comerem no intervalo das lições.
Margot, com a cesta à mão, acompanhada de Raul, afastou-se.
— Essa criança alva e corada, uma fotografia; em miniatura, de Raul — disse Antonieta, rindo.
Vê bem, minha Valéria, que agora amas apenas a teu marido, e que teus pensamentos não estavam em outra parte quando o menino veio ao mundo.
Valéria sentiu corar-se fortemente.
— Louvado seja Deus! — respondeu ela.
Francamente, eu não saberia verdadeiramente por qual crime é que todos os representantes do nome dos príncipes de O""" seriam condenados a ter o tipo judeu; já não é bastante que Amadeu degenerasse?
— Não te irrites, fada.
Degenerasse, não...
Não te tornes injusta.
Amadeu é soberbo, sim, e tornar-se-á tão belo e perigoso quanto o original, de que é uma verdadeira cópia; mas, Valéria, sabias que ainda anteontem encontrei o Maier?
Tive a impressão de que ele ia para Rudenhof.
Cumprimentamo-nos.
Eu o saudei primeiro para provar-lhe que o estimo.
Achei-o abatido, mudado, triste, muito fatigado.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 08, 2016 7:44 pm

E pálido.
— Pobre Samuel.
Sem desejar, envenenei-lhe a vida! — exclamou Valéria, com aceno triste.
E a conversa desviou-se para o passado.
Evocaram as duas amigas muitas passagens um tanto esquecidas das quais Samuel fora o herói.
Passos ligeiros e pesados, acompanhados de tilintar de esporas, interrompeu as duas jovens.
— Bom dia, senhoras.
Um acaso, aliás feliz, me desobrigou mais depressa do que imaginava — disse Raul, beijando gentilmente a mão da cunhada.
Em seguida sentou-se próximo à esposa e abraçou-a, delicado.
— Ainda em roupas de serviço!
Espada, pistola e outros engenhos destruidores! — Disse Valéria, rindo.
E tirou o boné do esposo e passou-lhe a mão nos cabelos umedecidos que o suor havia colado à testa.
— É que eu tinha muita pressa em te ver.
Rodolfo me acompanha e o esperaremos para almoçar.
— Óptimo! — responderam as duas jovens.
Outra coisa! — prosseguiu Raul.
Imaginem que eu, ao descer do carro, vi certa mulher de luto discutir com o porteiro.
Ao me ver, ela veio até mim e me suplicou concedesse entrevista particular.
Disse-me ela que se tratava de um segredo importante.
A princípio, nada entendi e quis dar-lhe uma esmola.
Então, ela me declarou que se chamava Marta, a tua antiga camareira.
Não queria socorro, mas apenas uma entrevista.
Tinha a fazer uma grave revelação.
Mandei que a levassem para o meu gabinete, onde me espera.
Venham, pois, ouvi-la. Não querem?
— Marta, essa fiel criatura, que tão bem me serviu, e que me deixou para se casar, que terá para nos dizer? — exclamou a princesa, sem nada entender.
— Pois vamos ouvi-la — disse Raul, levantando-se.
Ela me parece ter passado por crises nervosas.
Deve estar muito doente.
Quando, acompanhadas do príncipe, entraram no gabinete, Marta veio respeitosamente saudar as suas antigas patroas. Parecia extenuada, exausta.
— Minha pobre Marta, que foi que aconteceu contigo? — disse Valéria, estendendo-lhe a mão e a fitando com expressão de piedade.
— Sou, minha senhora, uma morta-viva, multo indigna da vossa bondade, princesa.
Enfim, Deus permitiu que vivesse o necessário para confessar minha culpa e aliviar minha consciência.
— Ela nos roubou alguma coisa — pensou Raul, sentando-se perto da escrivaninha.
Fala, boa mulher, e sem receios, o que pesa em tua consciência — acrescentou em voz alta, tirando a pistola suspensa do cinto, e colocando-a perto.
Marta quis falar.
Seus lábios trémulos apenas se moveram, em sons incompreensíveis.
As pernas fraquejaram, cambaleou.
— Senta-te aqui e fica calma — disse Raul, bondosamente.
Seja o que for que nos tiveres a contar, julgaremos com indulgência.
E saberemos guardar o segredo.
Fala, portanto, com a maior franqueza; talvez mesmo tua falta não seja tão importante quanto julgas!
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 08, 2016 7:44 pm

Houve uma pequena pausa.
As duas jovens fixaram atentamente Marta.
Raul, aborrecido com a demora, tomou da escrivaninha a pistola e pôs-se a examiná-la.
Marta enxugou os olhos e, com dificuldades, começou a falar.
— Meu finado marido, Estêvão, era criado grave na casa do banqueiro Samuel Maier.
Nesse tempo, não tínhamos meios de nos estabelecermos.
Mas uma boa proposta do banqueiro nos mostrou que havia possibilidades de termos um futuro independente.
Os três ouvintes trocaram um olhar de surpresa.
Por que nessa confissão estava o nome de Samuel?
— Proposta odiosa a do senhor Maier! mas ele nos pagava em moeda de ouro! — continuou Marta.
Grande era a tentação em ganharmos o dinheiro, e acabamos por concordar com o senhor Maier.
Mas Deus é justo, e agora sou uma triste mendiga, na agonia, que aqui vem confessar o seu crime horroroso...
E a voz de Marta se perdeu num grande soluço.
— Mas continua, desgraçada; que afinal tramaste com o danado judeu? — perguntou Raul, impetuoso.
Os três ouvintes já não duvidavam da importância da revelação; uma agitação febril se apoderou de todos.
Que iriam saber?
— Na véspera do dia em que a senhora Princesa deu à luz o filho mais velho — prosseguiu Marta, perfilando-se — a Baronesa Maier também se tornava mãe de um filho.
Não sei o motivo, mas o banqueiro desejava trocar as crianças.
Uma tarde, eu estava sozinha velando Sua Alteza, quando o banqueiro, com seu filho, no terraço, me chamou.
E eu lhe entreguei em troca o Principezinho, cujo lugar foi tomado pelo pequeno judeu.
Um momento de sinistro e sufocante silêncio se fez.
Raul sufocava.
Desenrolava-se, em seu espírito, a lembrança das grandes torturas morais que se seguiram à traição; suas acusações injustas contra Valéria; e seu filho herdeiro roubado por uma miserável, enquanto que ele educava e acariciava o judeu!...
Raul sentiu uma onda de sangue subir-lhe ao cérebro, escurecendo-lhe a vista.
— Ladra! Infame!
Morre como deve morrer um cão! — foram as palavras que lhe escaparam.
E, erguendo a pistola que tinha à mão, fez fogo contra o peito de Marta.
Na superexcitação em que todos estavam, ninguém ouvira os passos de uma criança, que vinha do aposento vizinho.
Nem havia notado que Amadeu levantava o reposteiro e gritava alegremente:
— Papai, eu acabei!
Quando Marta viu o cano apontado contra seu peito, afastou-se instintivamente para o lado direito e a bala fora penetrar no peito do menino.
Amadeu tombou sem soltar um gemido.
O Príncipe, lívido, ergueu-se; o menino, num mar de sangue, se agitava fracamente.
Nesse instante, Raul esqueceu tudo o que ouvira; via apenas o pequenino ser, que se habituara a amar e acariciar com orgulho paternal.
Jogando no solo a arma, ainda fumegante, atirou-se para o menino, ergueu-o e apertou-o convulsivamente contra o peito, repetindo entre lágrimas.
— Amadeu, meu querido! Acorda!
Deus de misericórdia!
Eu não poderia matá-lo!
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 08, 2016 7:44 pm

Após o momento de espanto, Antonieta, com esforço, levantou-se, enquanto sua amiga continuava desmaiada.
O estampido alarmou o palácio; o gabinete começava a encher-se de criados, todos atónitos.
Com medo que a criadagem viesse a saber a verdade sobre o terrível facto, a Condessa, num abrir e fechar de olhos ordenou à criadagem que saísse.
Valéria foi conduzida aos seus aposentos; Marta, que se acocorara toda trémula e espantada, foi confiada a Elisa, serva fiel da Princesa.
Depois, aproximando-se de Raul, Antonieta o convenceu, delicadamente, a levar o menino para o dormitório, onde poderiam examinar o ferimento.
Para evitar perguntas, Antonieta explicou ao criado grave do Príncipe que, por infeliz acaso, a pistola disparara no momento em que Raul a examinava.
E ordenou-lhe, em seguida, fosse imediatamente chamar o Dr. Walter, e pedisse no velho amigo da família que não demorasse.
E que, em seguida, também chamasse o padre Rothey.
Feito isto, Antonieta voltou para junto do leito do menino.
Raul, numa poltrona, estava triste e desesperado.
A jovem despiu o menino, lavou-lhe a ferida.
Aplicou-lhe um pano molhado.
Quando acabou de colocar a primeira atadura, surgiu à porta Rodolfo, pálido e espantado.
— Grande Deus! Que houve?
Não entendo coisa nenhuma do que me dizem os criados — exclamou o Conde, caminhando aflito para a mulher.
— Silêncio! — disse Antonieta.
Vem comigo ao aposento vizinho e contarei o que se passou.
— Infeliz Raul! — murmurou o Conde, acompanhando a esposa.
Ao saber da confissão de Marta e do que se seguira, o Conde fechou o punho e disse, entre os dentes:
— E vives dizendo que o judeu não é sempre um canalha!
Ah? traidor ladrão de crianças!
Hás-de pagar caro tua traição! Pobre Raul!
Eu também teria feito o mesmo.
Mas é triste que a criança é que tenha sofrido...
Coitado do Raul.
Depois de sete anos, considera esse menino como filho...
É horrível tudo isso!
Com a chegada do Dr. Walter, terminou a conferência do casal.
Ao saber toda a verdade, o médico profundamente emocionado, aproximou-se da vítima inocente.
Rodolfo, por sua vez, aproximou-se de Raul e apertou-lhe fortemente a mão.
— Meu pobre amigo, meu irmão, tem coragem que ainda tudo não está perdido.
O menino vive, há-de salvar-se.
Mas não deves assistir ao curativo.
Vem comigo para perto de Valéria.
Não deves abandoná-la neste momento.
O Príncipe deixou-se levar, maquinalmente, aos aposentos da Princesa.
Valéria continuava desacordada.
E Raul, agora possuído por um acesso de desespero, atirou-se a um divã e chorou, convulsivamente.
No aposento ao lado apareceu Elisa, desfigurada.
Auxiliando o Conde, contou-lhe que Marta, mal chegara ao quarto, tivera uma síncope:
e ao tornar a si, disse que se sentia morrer.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 08, 2016 7:45 pm

O camareiro Francisco chegara enfim com o Padre Rothey.
E nesse mesmo instante foi ver, acompanhado do sacerdote, a pobre moribunda.
O Dr. Walter continuava examinando o menino.
Uma ruga profunda denunciou-lhe a preocupação.
— Então, doutor? — perguntou Antonieta, com o coração opresso.
Este sacudiu a cabeça, negativamente.
— Na minha opinião, o caso está perdido.
Não posso dar nenhuma esperança.
No entanto, não darei a última palavra, sem primeiro saber a opinião de um cirurgião.
Chamem, já, imediatamente, na minha residência, o meu genro, o Dr. Stocker, que é especialista em cirurgia. Com urgência!
Chorando, Antonieta ordenou a um criado fosse o mais rápido possível.
Depois voltou para junto do leito no qual a criança continuava prostrada.
De vez em quando tinha-se a impressão de que estava morta:
a respiração parecia parar.
— Pobre Amadeu — sussurrou ela, beijando a fronte húmida e a mãozinha da criança.
Porque deverias tu sofrer inocente que és?
Mas as lágrimas não a deixaram continuar.
O médico, porém, disse, franzindo as sobrancelhas:
— É de esperar-se que o verdadeiro criminoso não escape á punição que merece.
Esse pai desnaturado há-de encontrar em um presídio a oportunidade de reflectir na sua odiosa acção!
— Ele bem que o merece.
Mas eu o lastimo — disse a Condessa.
Conheço bem Maier, sei que ele é impulsivo, mas não mau.
O que não posso compreender é a finalidade da sua terrível acção.
Logo depois chegava o Dr. Stocker.
Examinou o pequeno ferido e, após breve conferência com o sogro, declarou que o ferimento era mortal; mas, para dar ao doente algum alívio, era necessário extrair a bala.
Com sua coragem peculiar, Antonieta declarou que desejava ser assistente dos dois médicos.
Assim, sem hesitar um só instante, susteve o pequeno ferido e ofereceu a atadura aos médicos; mas quando a criança saiu do torpor, gemeu torcendo-se:
e seu olhar pousado em Antonieta parecia perguntar a razão pela qual ele estava sofrendo tanto.
De repente, Antonieta exclamou:
— Está morto!
E se lançou para Amadeu, que de olhos cerrados e lábios entreabertos tombara nos travesseiros.
O médico, porém, disse, calmo:
— Não, minha Senhora, ele está apenas desmaiado e creio que viverá até a noite.
E o Dr. Walter levou a Condessa para longe do leito.
— Ele dormirá e isso vai aliviá-lo das dores.
E agora, minha Senhora, será bom que também descanse.
Meu genro velará pelo doente.
Eu volto para junto do Príncipe e de sua mulher.
Pobres criaturas!
Que desgraça os atingiu!...
Abatida de corpo e alma, mas compreendendo que devia mostrar-se enérgica e corajosa, Antonieta dirigiu-se ao gabinete de Raul a fim de repousar.
Foi quando viu, ainda no solo, a arma maldita.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 08, 2016 7:45 pm

Com horror, pegou-a e colocou-a num canto escuro.
— Não quero que Raul torne a ver essa maldita arma — murmurou ela, deitando-se em um divã.
A entrada do esposo a tirou da modorra.
Ele entrou desfigurado.
Sentou-se junto da mulher, desabotoou o uniforme.
— Que tens, Rodolfo?
Algo aconteceu a Valéria?
— Não. Valéria já voltou a si.
E sua primeira palavra foi: Raul!
Depois pediu notícias de Amadeu.
Deixei-a nos braços do marido e ambos estão sob os cuidados de Walter.
Esta história me deixa com a cabeça zonza!
É uma fatalidade a morte de Amadeu.
Mas é preciso promover uma acusação contra Maier! E prendê-lo.
Ah! eis que chega o padre Rothey!
Bom dia, meu padre!
Vinde tomar parte em nossa discussão.
Naturalmente já sabeis da tragédia de que esta casa acaba de ser o palco.
O velho sacerdote sacudiu a cabeça afirmativamente e deixou-se cair numa poltrona.
Enxugou a fronte com a mão trémula.
E informou que Marta acabava de expirar.
— Morreu. Quanto a vós, pensais em reclamar a criança raptada?
— Creio que sim, padre.
Não deixarei sem punição uma tal infâmia!
Esta tarde mesmo darei queixa e exigirei que Maier seja preso!
Quero ver esse judeu insolente preso, num cárcere!
Seus cúmplices libertaram-se pela morte; mas Maier pagará por todos!
O sacerdote, com voz baixa, respondeu:
— Vosso ódio e desejo de vingança de nada adiantam e não ficam bem para um cristão.
Há muito tempo eu já sabia da troca da criança, de tudo que motivou tal ódio vosso.
Mas não participarei do julgamento em um tribunal dos homens.
Essa súbita revelação do padre fez o conde saltar na ponta dos pés.
Seus olhos chamejavam.
— Soubestes de tudo, há tempos, e vos calastes sobre tamanho sacrilégio?
Maier então vos revelou tudo e nada me dissestes?
E vos recusais depor contra o judeu, vós, um sacerdote cristão?
Mas não importa, padre; eu acusarei o infame!
Minha mulher é testemunha e outras testemunhas acharei...
— Não compete a vós ensinar-me os meus deveres - respondeu o padre, calmamente.
Se eu pregasse o ódio e a vingança então eu falaria.
Estais exausto, conde.
Mas ouvi meu conselho: recuperai o senso, antes de tomar qualquer decisão, pesai bem as consequências:
perseguindo o banqueiro, é uma espada de dois gumes que tirais da bainha.
Além do mais, não esqueçais que, promovendo o processo contra Maier, estais ao mesmo tempo pondo o vosso passado à tona.
Assuntos mais íntimos, o humilhante compromisso com Maier, tudo se desenrolará diante dos olhos curiosos do povo.
O vosso nome e o de Raul, a memória de vosso pai, a honra de Valéria, tudo se contaminará com tal processo...
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 08, 2016 7:45 pm

Ante tais palavras do sacerdote, Rodolfo empalidecera.
Sentara-se de novo e agora sua fronte estava banhada de suor.
Sim, o sacerdote tinha razão.
Não deviam vir à publicidade certos assuntos particulares...
Compreendendo que Rodolfo meditava, o padre suspirou, aliviado.
— Percebo, com alegria, meu filho, que a vossa calma retorna — disse ele apertando a mão do conde.
Mas há ainda outro aspecto da questão.
A morte do menino Amadeu agravou mais a situação de Raul.
Por mais criminoso que seja o banqueiro, ele pode devolver o filho de Raul, são e salvo; porém não podeis restituir ao banqueiro senão um cadáver...
A entrada do Dr. Walter interrompeu a conversa.
— Prossegui, padre, o doutor sabe de tudo — disse impacientemente Rodolfo.
E vós, meu caro Walter, podeis calar ante um crime qual o do Maier?
O padre Martinho voltou a falar.
Recapitulou o que acabara de dizer e terminou por frisar que esse processo seria um escândalo para as duas famílias.
O doutor ouvira tudo com atenção acurada.
Voltou-se para Rodolfo e, em voz pausada, aparteou gravemente:
— Aceito totalmente a opinião do sacerdote. Está justa.
O Príncipe tem um segundo filho.
Poderão, se quiserem, ter mais. São jovens.
O caso de extinção da raça está portanto excluído.
Quanto ao menino raptado, é barão de Válden, milionário, e nada há-de perder senão o vosso título, porque nada representa no sentimentalismo dos parentes que jamais o viram.
Antonieta, pálida e trémula, tudo ouvia sem apartear.
Apenas seguia com o olhar o marido, que estava irrequieto, andando de um lado para outro.
De repente, ele deteve-se e disse:
— Há uma coisa na qual nenhum de vós pensastes!
Acreditando que eu concorde com todos vós, podeis supor que Raul consinta em sacrificar o filho, seu primogénito, para o abandonar a esse homem perverso, que o roubou, talvez, para nele vingar as ofensas de outrem?
— Não, não — gritaram a Condessa e o padre Martinho, ao mesmo tempo.
E o padre então acrescentou, energicamente:
— Sob minha palavra de honra, eu vos afirmo que Egon é feliz, está rodeado de amor e cuidados; ele ama o banqueiro como a um pai.
Maier, coitado, deixou-se arrastar, por suas paixões, a um crime que deplora e procura corrigir.
Não sei se sabeis que Raul seduziu a mulher do banqueiro, e que uma filha foi produto desta ligação.
Maier porém retomou a mulher, a quem antes tinha repudiado, perdoou-a e acabou por adoptar a filha, a quem agora educa como sua filha!
Só mesmo uma natureza generosa pode assim proceder!
Enquanto o debate violento prosseguia, o Príncipe e Valéria velavam à cabeceira de Amadeu.
O doloroso desespero de Raul tinha perturbado Valéria.
E nunca os corações de ambos estiveram tão unidos, entrelaçados, como nessa hora amarga de provação.
— Ah! como poderei viver com o remorso de ter matado um inocente? — dizia o Príncipe, amargurado.
— Querido meu, Deus bem sabe que não era essa a tua intenção, - respondeu Valéria.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 08, 2016 7:45 pm

E agora, vamos para junto de Amadeu; não o deixemos só.
E ambos se colocaram à cabeceira do leito.
Amadeu continuava com os olhos meio fechados, a respiração opressa, difícil.
Raul e Valéria acompanhavam cada suspiro do menino, cujo rosto, contraído pela dor, já reflectia os sinais da morte.
Valéria e o Príncipe já não pensavam fosse Amadeu um estranho, o filho do homem que lhes causara tanto mal; esqueciam até que o seu verdadeiro filho estava são e salvo, em uma outra residência.
Seu amor e pensamento concentravam-se apenas no menino doente, que eles tratavam como verdadeiros pais.
E as longas e exaustivas horas de vigília bem demonstravam que a afeição recíproca, entre o menino e eles, era bem mais sólida que, talvez, entre seres com o mesmo sangue...
Às seis horas da tarde Amadeu pareceu despertar da letargia...
— Papai! — murmurou ele olhando o Príncipe, mas com um olhar cheio de inquietação e sofrimento.
Esse olhar, como um apelo, feriu o coração de Raul qual um afiadíssimo punhal.
— Aqui estou, adorado filho meu — disse, inclinando-se ainda mais.
E duas grossas lágrimas ardentes lhe desceram pelo rosto, vindo a molhar a fronte do menino.
— Choras, papai? não, não chores.
Tu não o fizeste de propósito.
E acariciou com a mãozinha a face do Príncipe.
Incapaz de responder, Raul chegou os lábios à face do menino.
— Tu, também, mamãe, não chores — disse Amadeu, estendendo a outra mão para Valéria.
Isto não me faz tanto mal assim.
Quando eu sarar, prometo não mais entrar na sala sem antes bater.
Abafando os soluços, Valéria o abraçou, ternamente.
— Sim, tu hás-de sarar, meu querido, e seremos todos felizes; mas como estás quente!
Não tens sede?
Depois de beber, o menino tornou a cair no torpor; mas esse repouso foi curto.
— Papai, papai, eu sufoco! — gemeu ele, agitando-se.
Rápido, Raul reabriu as cortinas e empurrou as venezianas; e o ar puro penetrou, e o raios de sol inundaram o aposento.
— Leva-me para junto da janela, pai; quero respirar mais ar e ver o jardim — disse o menino, estendendo os bracinhos para o pai.
Valéria procurou auxiliar.
Raul levantou o ferido e o levou, cuidadoso, para a janela.
Amadeu contemplou a verdura, mas seu olhar fatigou-se rapidamente.
Os olhos, muito abertos, exprimiam terror, e suas mãos agarraram as vestes do Príncipe.
— Mamãe, papai, ajudai-me, tenho medo!...
Tudo está ficando escuro — exclamou com voz sumida.
E uma convulsão lhe agitou o corpinho; a cabeça tornou a pender, os olhos se fecharam, as mãos perderam a força e afrouxaram totalmente: estava morto!
Como um embriagado, Raul, cambaleando, depôs o menino no divã, junto do qual Valéria caiu ajoelhada, chorando alto.
— O médico! — gritou Raul.
Mas apenas dera alguns passos e tudo se obscureceu e Raul tombou desmaiado, sobre o tapete.
Duas horas depois, todos os componentes da família (fora Valéria, que o médico conduzira para o seu aposento) estavam reunidos no aposento mortuário.
Sentados numa poltrona, Raul estava pálido, profundamente abatido.
— Então, definitivamente, resolveste não promover um processo?
Não reclamarás teu filho? — perguntou Rodolfo com uma expressão de pesar e piedade.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 08, 2016 7:45 pm

— Sim. Minha decisão é irrevogável por diversos motivos:
jamais levarei o nome de minha inocente esposa perante os tribunais; mas entre todos os motivos, há um imperioso:
repugna-me fazer deste pequeno cadáver o objecto de um escândalo.
Pobre Amadeu!
Pagou com a vida o pouco tempo em que usufruiu, sem o saber, a nossa afeição e o nosso nome.
Não tenho coragem, agora, para renegar a criança que no momento de agonia me chamou de pai; que, no seu imenso amor infantil, encontrou essa sublime frase para me perdoar:
"Papai, tu não o fizeste de propósito!"
Apenas com o pai indigno que repeliu o próprio filho, devo ter explicações!
Quero perguntar a Maier qual o fim da sua odiosa acção e mostrar-lhe os funestos resultados.
Padre Martinho, escrevei-lhe, eu vos peço, e convidai-o já a vir aqui.
Mas não mencionai os motivos do convite.
O padre concordou.
E disse:
— Quando ele chegar, eu o introduzirei pela segunda porta do jardim, que por mim será aberta e onde aguardarei sua chegada.
Ao receber o lacónico bilhete, um pressentimento mau se apoderou de Hughes.
Que significaria tal convite, numa hora já tão avançada e por um caminho tão oculto?
Pondo o chapéu e a capa, o banqueiro saiu, a pé, para o palácio de O""".
Quando estacou diante da pequeno porta do jardim, encostou-se à parede e enxugou a fronte banhada de suor.
Estava sobressaltado.
Passara anos antes por aquele mesmo sítio, no dia tremendo da troca das crianças.
Tudo agora se reavivava na sua memória.
A pequena porta estava encostada.
Com um leve impulso a abriu.
Atravessou-a e se internou por uma alameda sombria, que aparecia deserta.
De repente, um homem surgiu e, com surpresa, reconheceu Rodolfo.
— Acompanhai-me, Senhor — disse o Conde, em tom rápido.
E ambos caminharam para a casa, sem trocarem palavra.
Hughes não duvidava que uma terrível expiação o esperava.
Subiram as escadas, atravessaram uma série de aposentos solitários, fracamente iluminados.
Finalmente, o Conde estacou diante de um reposteiro.
— Entrai!
Agitado e pálido, o banqueiro obedeceu:
estava agora num grande aposento, no fundo do qual se via um leito com dossel e sobre o leito, na parede, um grande crucifixo de prata.
Na cabeceira, Raul, de pé e tendo atrás de si o padre Rothey e Rodolfo, que acabava de aproximar-se.
O banqueiro deu alguns passos para o Príncipe e parou:
os dois olhares se encontraram com uma indefinível expressão.
Ambos respiraram penosamente.
Sobre o leito, uma coberta alva parecia cobrir um pequeno corpo.
De um golpe, Raul inclinou-se e levantou a coberta, dizendo:
— Vede o vosso filho e agora dizei-me se estais satisfeito com o resultado de vossa vingança, homem desnaturado?
Hughes, olhos arregalados, contemplou, espavorido, o menino, do qual a camisa, entreaberta, descobria o peito ferido.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 08, 2016 7:46 pm

Um grande horror se apoderou do banqueiro, fazendo-lhe o corpo tremer:
o pequeno rosto lívido do filho renegado era o retrato do seu.
A cabeça lhe tonteou:
o sangue zumbia nos ouvidos, obscurecendo-lhe os olhos.
Dando um surdo gemido, caiu de joelhos junto ao leito e sua cabeça se inclinou pesadamente sobre a mão gelada do menino.
Raul contemplou o banqueiro com um estranho sentimento de horror e compaixão.
Via no banqueiro um inferno de remorsos; e convencera-se, mais uma vez, que a mão implacável da Justiça Divina sabe atingir o orgulhoso pecador e, chegado o momento, abatê-lo no pó, qual carvalho derrubado pela tempestade.
"Não faças aos outros o que não desejas que te façam", disse o grande Missionário, que tão bem sabia conhecer o coração humano.
E Raul lembrou, nessa ocasião, a sua entrevista com Hughes, diante do busto de Allan Kardec.
Sim, compreendia, agora, as suas palavras de então.
Não seria agora o momento de provar que o trabalho do grande Codificador do Espiritismo não tinha sido inútil, que pelo menos dois de seus discípulos dominavam as paixões baixas, para proceder de acordo com a maravilhosa Doutrina dos Espíritos?
— "Fora da caridade não há salvação!"
Esta, máxima saiu de seus lábios quase involuntariamente.
O banqueiro a ouviu e, como se fora movido por uma mola, ergueu-se passando as mãos pela espessa cabeleira.
Seus olhos estavam cintilantes.
Deu dois passos para Raul e, com a voz sofreada, porém firme, disse:
— Não mereço e nem quero a vossa caridade, Príncipe.
Prefiro a prisão e a desonra à vossa generosidade para com o judeu odiado.
Quereis perdoar-me simplesmente porque temeis a publicidade em torno ao crime, tendes vergonha de mostrar ao público as misérias e as loucuras de uma família aristocrática.
Entregai-me já à justiça dos homens, senão eu mesmo me apresentarei para sofrer as punições de meu crime.
Não fosse a certeza da vida do Além e eu daria fim à minha vida:
um tiro no ouvido!
E o banqueiro prosseguiu:
— Chamastes minha vingança de insensata e incompreensível; porém devo a vós, que me inspirastes o crime, uma explicação.
Pois bem! Naquela hora fatal em que me insultastes, não me destes uma explicação porque em mim só vistes um judeu.
Sim, acháveis que um judeu não merece nem mesmo a menor consideração.
E eu então jurei vingar-me!
Antes, eu murmurava, apesar de me haverdes roubado tudo:
a felicidade, a mulher adorada, que comprastes, tal qual eu, pagando as dívidas dos condes de M...
Pois bem! Ao teu orgulho de raça e ao desprezo que me lançastes ao rosto, eu desejei responder de uma maneira brutal:
desejei responder de modo a despedaçar o vosso coração e o vosso orgulho.
Furtei vosso filho para fazer dele um autêntico judeu, usurário, sórdido, sem religião, para em seguida o entregar-vos, dizendo:
"Olha, eis o vosso filho verdadeiro:
é ou não um verdadeiro judeu?"
"Depois disso eu desejava... (o banqueiro riu sardonicamente).
Mas de que vale a vontade de um homem diante das decisões do Destino?
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 08, 2016 7:46 pm

E o meu sonho de vingança foi-se desfazendo, pouco a pouco, deixando-me apenas o remorso.
Abatido pela sorte, resignei-me e aqui estou para pagar minha dívida à vindicta humana.
Agora, que me expliquei, pergunto:
Que significa esse cadáver, essa ferida horrenda?
Que fizestes do meu filho?
O vosso, eu o tenho amado e cuidado, belo e forte; podeis retomá-lo; a mim podeis acusar e castigar, mas contra a vida desta criança inocente não tínheis nenhum direito de atentar.
Sufocado pela emoção, Hughes parou...
Raul, com um misto de horror e admiração ouvira tudo.
As últimas palavras do banqueiro o deixaram com o rosto pálido.
Passando a mão pela testa, esforçando-se para ficar calmo, Raul respondeu:
— Deploro vivamente tudo o que aconteceu.
Tu, Maier, bem sabes que eu o amava como a um filho.
A bala era destinada a Marta, tua cúmplice miserável que acabava então de revelar a verdade.
Um acaso fatal trouxe a criança para a porta no momento em que eu disparava a arma.
Amadeu expirou em meus braços e sua última palavra foi:
"Papai".
E o pensamento de que ele morreu por minhas mãos despedaça-me a alma!
"Já não tenho orgulho de raça, conforme me acusaste ainda há pouco.
Só me ficou a afecto pelo menino, que sempre considerei como filho.
Quanto a ti, não irei denunciar-te porque não tens o direito de manchar a memória do pai daquela que outrora amaste e de quem tua vingança quase destruiu a vida e a honra, pois eu acreditei que Valéria me havia traído:
só os rogos de minha mãe agonizante salvaram a inocente de um divórcio escandaloso.
Se queres pagar o crime, podes fazer aqui mesmo no mundo, melhor ainda que numa prisão:
dedica-te à criança, dá-lhe todo afecto, fazei do príncipe de O..., sob o titulo de barão de Válden, um homem generoso, de bem, de honra, um homem de coração, faze dele um ser caritativo e útil à sociedade, e assim terá pago a tua dívida à justiça celeste e também a nós.
— Deus acaba de vos inspirar! — exclamou alegremente o padre Rothey.
Ambos acabais de experimentar a que excessos conduzem as paixões não dominadas; sabeis quantas lágrimas e sofrimentos infligistes ambos à mulher amada.
Aproveitai, meus queridos filhos, para terminar de uma vez as vossas contendas.
Perante esta inocente vítima, que é Amadeu, dai-vos as mãos e perdoai-vos mutuamente do fundo do coração.
O padre não esperou resposta e segurou as mãos dos homens e as uniu por um instante em cima do peito gelado do morto.
Nem o banqueiro e nem Raul resistiram:
ambos estavam fatigados de tanto ódio e desejavam o repouso, a paz, a tranquilidade.
Raul inclinou-se para Amadeu e lhe beijou a pálida fronte.
Depois deu lugar para Hughes que, com o coração sufocado, colou os lábios na pequenina boca.
Era a primeira e última carícia que faria ao filho.
Em seguida o banqueiro ergueu-se e aproximou-se de Raul, que conversava baixinho com Rodolfo e a esposa deste.
— Reconheço, Príncipe, a tua generosidade e a agradeço - disse emocionado.
E tu, Conde, perdoa-me, também, se na irritação do momento disse alguma coisa que pudesse ofender-te.
Rodolfo inclinou-se, silenciosamente; quanto a Antonieta lhe estendeu as duas mãos.
— E agora deixai-me retirar pelo jardim, como vim.
Estou agitado e não desejo encontrar algum dos vossos empregados.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 08, 2016 7:46 pm

— Vinde, meu filho, — disse o padre Rothey.
Eu vos conduzirei.
Ambos saíram do aposento mortuário.
No jardim, o banqueiro disse:
— Daqui irei sozinho, padre Martinho; conheço o caminho.
E Hughes se despediu do sacerdote.
Com o coração opresso, o banqueiro aproximou-se do terraço, cheio de recordações.
Mas, de repente, Hughes sobressaltou-se:
à claridade da lua acabava ele de avistar um vulto feminino encostado à balaustrada, com a cabeça entre as mãos.
Seus cabelos louros e compridos espalhavam-se sobre um roupão branco e uma compressa lhe contornava a fronte.
— Valéria — exclamou quase involuntariamente.
A jovem ergueu-se, espantada, à presença de seu antigo noivo.
— Tu?! Que imprudência!
E se Raul te vir?
— Tranquiliza-te.
Não somos mais inimigos.
Teu marido te contará tudo.
E já que o acaso me põe diante de ti, Valéria (ele se aproximou e seu olhar enérgico mergulhou no da princesa) diz se podes perdoar-me todo o mal que te tenho feito com a minha raiva cega.
Valéria ergueu seus belos olhos azuis para o rosto pálido do banqueiro; a piedade e o pesar lhe apertavam a alma.
— Que Deus te perdoe como eu o faço do fundo do meu coração — disse, estendendo-lhe a mão.
Se Raul pode fazer contigo as pazes, que posso eu dizer, eu, a culpada, cuja fraqueza te impeliu para o mal?
Pedirei a Deus, todos os dias, que te dê força, paz e felicidade e que me perdoe o ter-te feito infeliz.
— Obrigado, Valéria — murmurou o banqueiro apertando a mão da jovem contra os lábios.
Oh! Se eu pudesse ainda pagar com a vida a tua felicidade, não hesitaria!
Voltou, de súbito e, febrilmente agitado, tomou o caminho da alameda que levava à pequena porta.
Mal sabia ele que o Destino lhe reservava a ocasião de cumprir a promessa.
Valéria debruçou-se de novo na balaustrada; a lembrança de Hughes a perseguia; os seus grandes olhos sombrios e ardentes, essa voz cujo timbre velado tinha o dom de fazer vibrar todas as fibras do seu coração!...
Valéria tinha consciência de amar Raul, entretanto, só o nome do banqueiro lhe causava uma angústia indescritível!
— Deus meu!
Quando a paz se fará em minha alma?
Quando gozarei de um amor sem mescla de semelhantes sentimentos?
Cerrou os olhos e encostou a fronte contra um vaso de mármore.
Era tão profunda sua abstracção, que não percebeu os passos do Príncipe.
Somente quando ele a abraçou é que ergueu a cabeça.
— És tu, Raul?
Como estás pálido, meu querido.
Tranquiliza-te, eu te peço: deves conservar tua saúde para mim e para nosso filho.
Tu és inocente da desgraça que nos fere.
Quem poderia censurar-te?
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 8:35 pm

— A minha consciência.
Manchei minhas mãos com um homicídio.
— Não! Deus julga as intenções.
Tu sempre foste para Amadeu o melhor dos pais, apesar da sua estranha fisionomia.
— Minha Valéria, o remorso da minha injusta acusação contra ti me inspirou a indulgência para com Maier.
Reconciliamo-nos.
Esforça-te também tu, para perdoá-lo.
— Já o perdoei, Raul, acabo de ver o banqueiro, que passou por aqui.
Pediu-me perdão.
Percebia-se nele o remorso.
Contou-me que fez as pazes contigo.
— É verdade.
E o Príncipe contou para Valéria todos os pormenores e as decisões tomadas.
— Mas... Que dizes? — exclamou Valéria.
Renunciar ao nosso filho?
Ele então ficará com Maier e nunca saberá quem somos?
— É melhor proceder assim, minha querida.
Temos de salvar a honra de teu falecido pai e de Rodolfo, também.
Para reclamarmos Egon e reconhecê-lo, oficialmente, como filho verdadeiro, seria preciso intentar um processo, que além de manchar nosso nome, destruiria Maier.
Queres isso? Sei que não.
Além do mais, Egon ama, segundo me dizem de todo o seu coração, o homem que julga ser seu pai.
Nós, a quem jamais viu, somos alguma coisa para ele?
Ele é muito pequenino para compreender toda a tragédia.
Não pode reflectir.
Sentir-se-ia feliz se afastássemos Maier de perto de si?
Não, pelo contrário, sofreria muito.
Curvemo-nos diante da decisão da sorte e busquemos a felicidade em Raul, o filho que possuímos.
Nada respondeu Valéria; com a cabeça encostada ao peito do esposo, chorou sobre esse último e doloroso sacrifício imposto ao seu coração de mãe.
*•* *•* *•*
O fatal acontecimento que sofrera a família de O... movimentou toda a cidade de Pesth.
Mas ninguém suspeitava da verdade.
E os habitantes lamentavam com sinceridade o infeliz pai, transformado agora em matador do próprio filho...
Compacta multidão compareceu ao enterro.
O povo enchia as ruas.
E todos os olhares caiam sobre o Príncipe, lamentando-o.
Este, pálido qual um morto, caminhava atrás do esquife.
Valéria, que se apoiava em seu braço, muito abatida, esforçava-se por não chorar.
No palácio do banqueiro, num pequeno salão, um homem desfigurado e agitado se conservava próximo de uma janela de cortinas descidas.
Seu olhar em febre vagueava pela rua cheia de curiosos em ver o enterro.
Quando o cortejo aproximou-se, um tremor nervoso sacudiu o corpo de Hughes, o qual se agarrou convulsivamente nas cortinas de veludo: e seus olhos procuraram, através da veneziana, o pequenino esquife, quase mergulhado sobre as flores que cobriam seu filho renegado.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 8:35 pm

Não viu que, numa das sacadas, a aia, desejosa de também ver o funeral imponente, tinha trazido para ali Egon e Violeta, os quais, trepados numa cadeira, olhavam curiosos a multidão e faziam para a aia um milhão de perguntas.
Foi o acaso ou uma lembrança qualquer que fez Valéria levantar a cabeça ao passar perto da casa do banqueiro?
Seu olhar, que vagueava pela fila de janelas, se deteve ao ver duas cabecinhas numa sacada.
— Olha, Raul! — exclamou baixinho, apertando o braço do esposo.
— Olha naquela sacada!
O nosso filho! É o teu retrato vivo!
Raul ergueu os olhos e fixou com tristeza profunda o belo menino, o seu adorado tesouro:
e em seguida desviou o olhar sentindo que a garganta se lhe comprimia.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 8:35 pm

9 — 0 PAGAMENTO DA DÍVIDA

Passaram-se dois meses depois da morte do menino Amadeu.
Após o enterro, Raul conseguira uma licença de seis meses e, com a família, se estabelecera na quinta do cunhado, convidados que foram por Antonieta e Rodolfo, os quais procuravam suavizar as dores da desgraça vivida há pouco.
O abalo moral sofrido por Raul deixara traços mais dolorosos do que de início se pensara.
Desde o fatal acontecimento, uma inquietação estranha, um nervosismo febril lhe amargurava a existência.
Nada o interessava mais; vivia agora entregue à meditação, solitário.
Em vão Valéria e Rodolfo faziam esforços para distraí-lo e tirá-lo assim desse estado apático.
Mas nem mesmo a compra de alguns cavalos, que o Príncipe tanto apreciava e gostava de amansar, ele próprio, conseguira trazer Raul ao estado normal, embora com o desporto melhorasse bastante.
Também o banqueiro estava morando em Rudenhof, junto às crianças; sua vida também era tão solitária, que não o haviam encontrado senão uma ou duas vezes, apenas:
um simples cumprimento, rápido, de ambos os lados, tinha sido sinal de boa vizinhança. E nada mais.
Em certa manhã de julho, Raul ordenou atrelassem dois dos novos cavalos num pequeno cabriole; e, solitário, partiu para um breve passeio.
Desejava, ainda uma vez mais, amansar a irrequieta parelha antes de a oferecer a Valéria.
Já estava bastante afastado da casa e pensava na volta, quando do fosso que margeava a estrada surgiu, de súbito, um mendigo.
Devia ser surdo-mudo, porque, gritando palavras inarticuladas, atirou-se contra a equipagem, agitando o chapéu.
Os cavalos espantados lançaram-se para o lado e, com velocidade espantosa, atravessaram o campo.
Sem esperar, Raul deixou escapar uma das rédeas e não pôde mais segurá-la.
O perigo era iminente.
Mas se equilibrando, Raul tentava parar o carro. Mas em vão.
Ao sentindo a mão do condutor, os animais estavam desorientados.
Corriam a bel-prazer, agora em linha recta para o lago perto de Rudenhof, grande lago de águas argênteas, que já aparecia, ao longe, por entre as árvores.
Raul decidiu-se:
se os animais não se detivessem, jogar-se-ia fora do cabriole com o risco de quebrar as pernas e os braços.
Por sua vez, o banqueiro, aproveitando-se da frescura da manhã, também saíra para um passeio, a pé.
Pensativo, andava por um atalho que costeava o grande lago.
Adorava esses lugares e muitas vezes visitava a ilhota onde aliás passara as melhores horas de sua vida.
Alguns gritos de terror, vindos de perto, o atraíram:
voltou-se e então viu, com espanto, um cabriole quebrado, que dois cavalos, espumantes, arrastavam para o lago.
Sobre o cabriole, estava um homem fardado, aguardando, naturalmente, o melhor momento para jogar-se ao chão.
Imediatamente Hughes reconheceu o Príncipe e, instintivamente, lembrou-se da última entrevista com Valéria, sua promessa em defender-lhe a felicidade até mesmo com custo de sua própria vida.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 8:35 pm

Chegara o momento de cumprir a promessa.
Raul corria um perigo mortal; o seu dever era tentar salvá-lo, sacrificando, se necessário fosse, a própria vida, a qual, aliás, era agora vazia e sem finalidade: um fardo.
Sem reflectir mais, procurou a estrada e atirou-se de encontro aos animais:
com o chapéu que trazia a mão, bateu nos olhos de um, e em seguida agarrou-se às crinas do outro.
Sem esperar esse obstáculo, os animais pararam e empinaram-se; um deles caiu, derrubando o cabriole.
Raul foi violentamente jogado fora: e perdeu os sentidos.
E o banqueiro, atingido na cabeça por uma ferradura, também caiu estendido.
Quis levantar-se, mas perdeu o equilíbrio e rolou pelo fosso.
Felizmente, alguns camponeses tinham visto, de longe, o desastre.
Correram e desatrelaram os animais.
Depois ergueram os feridos.
O primeiro que voltou a si, foi Raul.
Sentia dores internas e deitava muito sangue pela boca.
Ao reconhecer em Hughes seu salvador, sentiu uma estranha emoção.
Mandou imediatamente dois camponeses levarem o banqueiro à sua residência e solicitarem em Rudenhof um veículo para ele, Raul.
O facto de Hughes não dar sinal de vida deixava o Príncipe assaz assustado.
Grande foi o espanto de Valéria e Antonieta, quando Raul, que de novo desmaiara, foi retirado do veículo, todo manchado de sangue.
Criados imediatamente foram enviados a Pesth em busca de Rodolfo e de médicos.
Após acurado exame, os médicos menearam a cabeça:
e avisaram a Rodolfo que, se a lesão interna se confirmasse, a vida do Príncipe estaria comprometida.
Valéria velou noite e dia o leito do esposo.
Sentia-se esmagada por mil aflições.
Seu amor e seu devotamento pareciam estar no apogeu.
Seu pensamento só as vezes se transportava para Hughes, o qual arriscara a vida para salvar-lhe a felicidade, conforme prometera; e agora ele sofria só e abandonado.
Valéria sabia que o banqueiro estava gravemente enfermo, ferido no ombro e na cabeça, e que depois de um desfalecimento que durara quatorze horas, Hughes caíra em febre alta e se encontrava entre a vida e a morte.
Valéria sempre tinha notícias de Hughes, pois o Conde enviava todos os dias, um mensageiro a Rudenhof a fim de trazer notícias.
Na aparência, Raul restabelecia-se.
Conseguira deixar o leito e caminhar.
Mas sempre sentia que algum órgão interno fora atingido.
As dores no peito e nas costas não o deixavam.
E o sangue, por intervalos, reaparecia:
e uma insónia desagradável não o abandonava, extenuando-o.
Também o Príncipe tinha o mais vivo interesse pelo estado do banqueiro.
— Não fosse a sua dedicação generosa, meus amigos, e eu não teria a felicidade de vos tornar a ver! — costumava dizer.
Rodolfo sempre se dirigia a Rudenhof; mas o delírio não deixava o banqueiro reconhecer ninguém.
Mas também ele acabou por melhorar.
A razão já se lhe voltara, a cura completa parecia não demorar.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 8:36 pm

Quando Rodolfo tornou a preparar-se para fazer uma nova visita a Hughes, Antonieta declarou que também desejava ir e manifestar, ela própria, toda gratidão da família para com o banqueiro.
Hughes dormitava, quando o Conde e a Condessa foram introduzidos no aposento.
Mas o banqueiro logo acordou, quando a jovem aproximou-se do leito.
Ao ver os visitantes, ficou constrangido: detestava receber a condescendência de aristocratas orgulhosos.
Mas Antonieta lhe deu a mão, dizendo:
— Louvado seja Deus!
Estais fora de perigo, Senhor Maier!
Soube das vossas melhoras e quis acompanhar Rodolfo para agradecer-vos o imenso serviço que nos prestastes.
Havia tanta simpatia e interesse no olhar da Condessa, que Hughes imediatamente sentiu-se desarmado.
— Muito obrigado!
Que o Conde aceite também o meu agradecimento.
Mas que ninguém veja em mim nenhum mérito.
Que coisa pode perder na vida um homem inútil, como eu, que no fundo se acha um criminoso?
Não fosse eu um espírita e já teria dado cabo desta minha vida vazia, sem alvo!
Mas morrer salvando um homem útil e amado, como o Príncipe, seria um suicídio assaz agradável para Deus.
Mas Deus não o quis, assim mesmo me sinto feliz por haver conservado o Príncipe para o amor da esposa e dos parentes amados.
— Ah! — exclamou de súbito Antonieta, enxugando as lágrimas.
— Mas a vossa acção heróica não poderá nos evitar uma infelicidade:
todos os médicos crêem que Raul, ao cair, sofreu uma lesão interna, muito grave, que mais cedo ou mais tarde será fatal!
O banqueiro sentiu que um leve rubor coloriu subitamente seu rosto.
— E como a Princesa recebeu a notícia de tal desgraça? É horrível!
— Ela nada sabe — disse Rodolfo.
Aliás o próprio Raul ainda ignora seu verdadeiro estado.
Creio porém que ele suspeita.
Anda muito abatido e pensativo.
Coitado! É ainda tão moço, é feliz, e breve há-de morrer...
Sem dúvida, é horrível!...
Hughes, tendo uma natureza vigorosa, bem depressa entrou em convalescença.
Rodolfo continuava a visitá-lo sempre:
e juntos passavam horas a conversar.
E assim, o Conde pode observar como o banqueiro e as crianças de seu rival se amavam profunda e sinceramente:
como pai e filhos.
Admirava-se Rodolfo da inesgotável paciência com que o banqueiro atendia às menores brincadeiras das crianças, aos seus mais insignificantes desejos.
Aliás, o próprio Rodolfo mudara bastante: nele já não existia nenhum traço do rapazola endividado e cheio de sonhos loucos.
O Coronel, conde de M..., era homem de trinta e três anos de idade, muito metódico, sólido e pai de quatro filhos.
A benéfica influência da vida doméstica, familiar, ao lado de uma esposa honesta, havia reagido nele de modo salutar, extirpando mais de um defeito e até os preconceitos que, ao jovem oficial de outrora, pareciam factos de profunda importância.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 8:36 pm

Graças a essa radical mudança interior, estava agora Rodolfo apto a analisar o banqueiro, com imparcialidade:
vendo todos os seus defeitos, admitia porém as suas apreciáveis qualidades.
E, assim, um dia, lhe disse:
— Reconheço que tenho sido injusto para convosco, Válden; mas jamais é tarde para reconhecer os erros.
Sois, sem vida, um homem bastante generoso, enquanto o vosso sangue oriental não vos prega uma peça; e o vosso interesse para com Raul, assim como a dedicação extremosa com as criança, estão acima de todo e qualquer elogio!
Hughes não respondeu.
Mas sorriu e meneou lentamente a cabeça.
Ao contrário de Hughes o estado de Raul vinha piorando de dia para dia.
Após diversas conferências, os médicos decidiram que o doente devia partir para Nice, onde ficaria todo o inverno.
— Mas dizei-me, senhores, toda a verdade sobre minha situação! — pediu firmemente Raul.
Sou um soldado, não temo a morte.
Mas recordai-vos de que tenho interesses, situações a resolver, assuntos importantes que precisam ser esclarecidos.
Dizei-me, portanto, sem restrições, se achais a minha cura possível...
— Alteza, — respondeu um velho médico — já que assim exigis, confesso que o vosso estado é muito grave.
É difícil, bastante difícil a cura.
Mas a Natureza tem recursos assombrosos na vossa idade privilegiada.
Acho que um clima ameno poderá fazer um milagre.
A essa resposta, Raul respondeu com um sorriso triste.
Ao ficar a sós com Rodolfo, disse:
— É chegado o tempo, meu irmão, que me prepare para uma viagem bem mais longa do que a Nice.
Espero que me ajudarás a arranjar tudo, sem despertar a curiosidade e a atenção de Valéria. Pobrezinha!
Sei que é difícil tirar-lhe a esperança, desde já.
Convém também avisares a Maier a visitar-me, junto com as crianças.
Gostaria de abraçá-lo e agradecer-lhe, assim como rever, ainda uma vez, a Egon.
Comovido, Rodolfo, imediatamente, prometeu fazê-lo.
Chegou, enfim, o dia da partida.
Tristonho, o Príncipe sentara-se no terraço:
aguardava a chegada de Hughes e das crianças.
Raul havia emagrecido a olhos vistos e estava multo mudado; uma palidez acentuada e enferma lhe cobria as feições e seus grandes olhos pretos tinham agora um brilho febril.
Valéria estava ocupada com os últimos preparativos para a viagem, quando um carro parou defronte à escada.
O banqueiro desceu, com as crianças, e foi acolhido por Antonieta.
E passaram todos para o terraço.
Antonieta puxou as crianças a fim de que os dois homens pudessem conversar mais livremente.
Raul levantou-se e, estendendo-lhe as mãos, disse:
— Grato pela tua dedicação.
Com alegria vejo que estás restabelecido e que a tua nobre acção não resultou em consequências desagradáveis.
— Príncipe! — disse Hughes, vivamente emocionado.
Não mereço agradecimentos.
Paguei uma parcela de gratidão ao bondoso salvador de minha honra.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 8:36 pm

Mas, ai de mim! que não pude evitar-te uma desagradável enfermidade.
— A morte, isso sim — respondeu Raul, sacudindo a cabeça.
Mas este facto jamais diminui o teu mérito.
O homem apenas tem vontade, mas a verdade é que Deus é quem dispõe dos nossos destinos!
— Para que pensamentos tão sinistros, Príncipe?
Tenho certeza de que hás de te restabelecer.
— Não; bem sei que sou condenado à morte.
Os médicos disseram.
Mas seria eu um espírita se temesse a passagem que me, levará aos meus amigos do Espaço?
Felizmente ainda tenho tempo para preparar-me para tal viagem.
Agora, Barão, diz-me se trouxeste:
Egon!
— Sim, trouxe, e também a Violeta.
Vou conduzi-los aqui, já.
— Obrigado! Mas não te parece uma pesada obrigação a de amar e educar essas duas crianças estranhas e de lhes servir de pai por toda a vida?
— Nunca, Príncipe — respondeu, veemente, Hughes.
Para mim, essas duas crianças representam uma nova estrada aberta pela, Providência a fim de que eu possa reparar e resgatar as minhas faltas, que não são poucas.
Escapei da morte, e isso reforça esta minha convicção.
E, se em verdade vieres a morrer, lá no Espaço o teu espírito há-de ver e julgará os meus actos, caso eu falte à minha promessa.
Minha afeição, tudo quanto possuo pertence a essas crianças. Tudo!
Raul, sem nada responder apertou-lhe a mão; depois o banqueiro saiu a trazer Egon e Violeta, que brincavam com os filhos de Antonieta.
Trouxe-os para o terraço.
— Vês este Senhor, Egon? — disse carinhosamente Samuel ao menino.
É meu amigo e a quem tu deves respeito e afeição.
Vai pois beijar-lhe a mão e não fiques envergonhado.
O menino aproximou-se e, com seus olhos aveludados, fixou Raul.
Lembrando-se da recomendação do pai, segurou a mão do Príncipe e beijou-a.
Raul, emocionado, puxou o menino para si e beijou-lhe a fronte.
Sim, era bem seu filho, sua imagem em miniatura, traço por traço.
Agora emocionadíssimo e agitado, o Príncipe passou a mão pelos cabelos claros de Egon e fixou-o com o olhar embaciado pelas lágrimas.
O menino percebeu os olhos húmidos de Raul.
Enlaçando-o pelo pescoço, perguntou de súbito:
— Por que choras e estás tão triste?
Nesse momento surgiu Valéria, vestida com roupa de viagem.
Estava bela, encantadora, com seu chapéu de veludo que salientava sua tez nacarada.
Sua presença fez o banqueiro recuar:
o olhar de amor ansioso que Valéria lançara ao marido causou no banqueiro uma espécie de opressão.
— Olha! Eis aqui Egon! — exclamou Raul impelindo o menino para ela.
Valéria esqueceu tudo: atirando-se para o menino, cobriu-o de ternuras.
Depois ajoelhou-se diante dele, o distanciou um passo e o encarou vivamente emocionada.
Egon não estava se sentindo bem; essa brusca afeição o intimidava.
Libertou-se das mãos da Princesa e correu para o banqueiro, enlaçando-o nos seus bracinhos.
O ciúme materno comprimiu o coração de Valéria.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 8:36 pm

Reprimindo tal sentimento, estendeu as duas mãos para Hughes e perguntou:
— Como poderei agradecer por me haveres conservado Raul?
E Valéria nada mais disse:
sentia-se corada, era-lhe bastante penoso falar em presença do marido com o homem a quem outrora amara.
O banqueiro fez que não percebeu as duas mãos estendidas da Princesa.
Deu um passo atrás e apenas inclinou-se, respeitoso.
Depois respondeu:
— Nada mais fiz que meu dever, Princesa, conservando a felicidade junto a teu lado.
O Príncipe já me manifestou uma gratidão que está muito acima dos meus pobres méritos.
A voz de Hughes era áspera, hostil.
Valéria levantou os olhos, admirada.
Sem nada dizer, atravessou o terraço e desapareceu pela porta.
Raul havia observado bem a cena.
Havia agora um silêncio embaraçoso.
O Príncipe então disse:
— Adeus, Sr. Maier, para esta vida!
Adeus e esqueçamos os nossos erros recíprocos!
— Nada de adeus para a vida, Príncipe!
O senhor ainda ficará curado! — respondeu Hughes com agitação febril.
— Por que foste áspero para com Valéria?
Ainda nada ela sabe sobre o meu estado e não pode compreender que foi a futura viúva do Príncipe de O""" que mostraste esse acre ressentimento do passado!
Francamente, eu acreditava que ela veria em ti um bom amigo.
Um sorriso desapercebido passou pelos lábios de Raul ao pronunciar estas últimas palavras.
— Príncipe! — exclamou o banqueiro perdendo o domínio sobre si mesmo.
Restabelece-te e volta da viagem feliz!
Posso considerar-me teu amigo e de tua esposa.
Mas perante a viúva do Príncipe de O""" não poderei lembrar-me senão de uma coisa:
é que arrisquei minha vida para conservar-lhe o marido adorado, a sua felicidade, como ela acaba de dizer-me.
E sem aguardar uma resposta, o banqueiro saiu precipitadamente.
— Cabeça de ferro! — murmurou Raul.
Certamente, este ressentimento não é apenas o da indiferença...
Voltando a Rudenhof, Maier encerrou-se em seu gabinete.
Uma inexprimível perturbação, mil pensamentos tumultuosos lhe agitavam a alma.
A ideia de que Valéria ficaria viúva, completamente livre, fez com que seu rosto se colorisse levemente.
Fechou os olhos:
e a bela imagem sedutora de Valéria surgiu:
a bela fada que lhe havia enfeitiçado a alma e que também o tinha amado.
Mas agora o coração de Valéria pertencia ao marido.
Então não vira o olhar terno e amoroso que ela lançara ao esposo?
Essa lembrança deixou o coração do banqueiro oprimido, como que debaixo de um compressor.
— Louco que sou, meu Deus! — murmurou de súbito.
Invejo a última alegria de um pobre moribundo!
Após oito anos de torturas, ainda meu coração sofre por essa mulher que me traiu e esqueceu.
Muitos erros pratiquei com Valéria; porém ela achou paz e felicidade.
Ela ama e é amada!
E eu tenho a vida destruída, arrasto uma existência sem rumo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 8:36 pm

Não, não! Longe de mim, fantasma do passado!
A viúva do Príncipe de O" deve ser morta para mim, tal qual o foi a esposa!
E o banqueiro, excitado, puxou para si, diante da secretária, os papéis espalhados e passou a trabalhar febrilmente a fim de esquecer...
Em Nice, a saúde pareceu melhor.
Mas foi ilusão, melhora momentânea.
Um fato alegrava o Príncipe, todavia:
é que já não tinha dúvidas de que havia conquistado inteiramente Valéria.
Todos os pensamentos dela, todos os sentimentos se concentravam nele; ela o tratava com um cuidado excessivo:
velava todas as noites, sempre solícita.
Uma tarde, estando a passeio, Raul teve uma viva alegria:
encontrou o coronel B..., que fora seu iniciador no Espiritismo.
O velho militar trouxera a Nice sua esposa enferma e a filha.
Depois de rápidos cumprimentos, o coronel acabou por convidar o Príncipe e Valéria para um chá.
E desde esse dia as duas famílias mantiveram amistosas relações, muito confortantes para Raul.
O coronel e os seus ficaram impressionados com a dolorosa mudança exterior de Raul, e o médico lhes confirmou que realmente a morte do Príncipe era esperada para breve.
Todavia, a família do coronel dissimulava a triste verdade:
procurava-se, portanto, distrair o doente por todos os meios possíveis.
Recomeçara Raul as suas palestras sobre Espiritismo, agora com um novo ardor.
E, a seu pedido, a Sra. Bertin o pusera em comunicação com o Espírito de sua mãe, a princesa de O"""
A amável médium prestava-se, com muita paciência, aos desejos do enfermo, uma vez que todas essas conversações o reconfortavam moral e fisicamente.
Certa noite, havia-se evocado novamente o Espírito da princesa Odila, enquanto Valéria jogava uma partida de xadrez com o Coronel.
Raul perguntou, mentalmente, à sua mãe se seus pressentimentos eram certos.
E se também devia preparar-se para uma desencarnação breve.
Após breves momentos, o Espírito escreveu:
"Sim, filho meu.
Tua libertação está próxima.
Virás reunir-te a mim para repousar e para seres feliz.
Então terás a convicção de que tua provação não foi inútil".
Raul ficou mudo e absorto; mas depois inclinou-se para o lápis e disse a meia voz:
— Obrigado, minha mãe, pela tua resposta franca.
Agora poderás explicar-me os acontecimentos tão estranhos de minha vida, os quais parecem tanto expiação como provação?
Acontecimentos que tem, tão estranhamente, interpretado o destino de Valéria?
Sabes, mãe querida, não é apenas curiosidade minha e sim a desejo ardente de me esclarecer.
— Posso responder-te, filho.
E verás que tudo quanto te parece estranho é apenas a justa consequência dos actos de tuas vidas anteriores.
Sempre ajustamos uma dívida em cada existência, e as pessoas que nos devotam ódio ou amor são viandantes que o simples acaso nos faz encontrar.
Só a harmonia nos dá calma e felicidade; dela, da harmonia, nasce a perfeição e desta a compreensão de Deus.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 8:37 pm

Quando atingimos este grau de conhecimento, tudo se nos afigura claridade, todas as forças do Bem, que vivem dentro de nós trabalham sob a inspiração divina.
Mas, filho meu, para atingir esse alvo sublime, necessário é lutar muito, aprender a governar-se a si mesmo, perdoar os erros alheios, etc.
"Tu, meu querido Raul, Maier e Valéria, sois velhos conhecidos.
Um passado longínquo que se perde na noite do tempo vos liga.
Tu e Maier fostes irredutíveis inimigos:
muitos crimes e muito sangue vos ligam. E em quase todos em crimes Valéria representou o mesmo papel:
sendo vacilante, volúvel, nunca ela soube qual dos dois preferir, e assim sempre envenenou a ambos.
"Em uma dessas existências, ambos viviam em Roma, ao tempo de Diocleciano.
Nessa época que já vai longe, Maier era um pagão fanático e, sendo pretor, perseguia os cristãos, inclusive tu, porque tinhas seduzido a mulher dele, Valéria.
Porém a existência que mais influenciou a vida actual de Maier, ele a viveu há quatro séculos, na Suábia.
Nesse tempo perseguia-se ferozmente os judeus.
Nessa perseguição ninguém foi mais sanguinário que o conde de Siegfried de Charfeustein e seu primo Válter:
tu, filho meu, era Válter; Siegfried, ele.
Matar um israelita, desonrar uma mulher judia, pisar com patas de cavalo um pobre velho ou uma criancinha judia era um passatempo favorito.
Certo dia, porém, haviam invadido e saqueado certa região onde os judeus abundavam.
Siegfried topou com uma linda donzela, chamada Judite.
Era bela, esta judia.
Siegfried ficou loucamente apaixonado.
Levando-a para o castelo, o jovem pensou em desposá-la.
Mas esses projectos foram destruídos por ti:
te fizeste amar por Judite e a raptaste.
Furioso, Siegfried conseguiu matar-te.
Retomou Judite e, por ciúme, apunhalou-a.
"Agora já podes compreender a tua vida actual.
Sim, é uma expiação, uma provação.
Siegfried reencarnou judeu a fim de que pudesse sentir a injustiça que cometeu matando os inocentes judeus.
"Quanto a ti, tornaste a encontrá-lo (e graças sejam louvadas ao Senhor!).
Com esta nova existência tudo porém mudou.
A oportunidade que Deus concedeu a ambos foi bem aproveitada.
Ambos sofreram as paixões, compreenderam os erros que vinham cometendo.
Ele quis até sacrificar a vida pela tua.
Chegou a perdoar Ruth, fez-se mesmo um pai dedicado para as duas crianças que não são filhas dele.
Em verdade, meu filho, muito progredistes nesta vida!"
Esta bela comunicação deixou Raul impressionadíssimo.
Meditou longamente e aos poucos foi adquirindo uma serenidade confortante; uma submissão à vontade do Criador acabou por iluminar-lhe a alma.
Mas a saúde do Príncipe continuava a pior: os vómitos agora eram sanguíneos.
E uma fraqueza invencível lhe tirava a vontade até de falar.
Percebia-se, claramente, que sua morte estava próxima.
Apenas Valéria parecia não compreender o breve desfecho.
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