Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 24, 2016 9:23 pm

Um sorriso de compreensão e satisfação brilhou nos lábios do ^padre Rothey.
Não era ele mau, mas sim fanático pela sua religião.
Desviar as almas do inferno da heresia e aumentar o círculo de sua 'beneficência, tais os fins a que dedicava a vida.
A perspectiva de uma conversão tão retumbante, como a do banqueiro milionário, lisonjeou-o grandemente, e o cálculo das grossas quantias que o zelo ^desse riquíssimo neófito lhe faria chegar às mãos, baniu os últimos escrúpulos.
— Sem dúvida, o que me dizeis, meu jovem amigo, altera em grande parte a minha opinião.
Naturalmente, não repelirei uma alma que busca salvar-se no seio da Santa Madre Igreja, reconhecendo os próprios erros.
Contai comigo, portanto; o lugar, porém, não é próprio para se tratar assuntos tão graves.
Procurai-me em minha casa, amanhã, após a missa, e trataremos seriamente do assunto.
Samuel agradeceu a boa-vontade do sacerdote e, após saudarem-se, um, benevolamente, outro, respeitoso, separaram-se os dois homens.
Ia alta a manhã, no dia seguinte a essa noite agitada, quando Valéria despertou de um sono pesado e febril.
Um fiapo de sol, passando pelas cortinas, brilhava sobre os ramos de miosótis, desenhados no tapete, e iluminava de suave meia-sombra essa alcova virginal, forrada de cetim branco e profusamente enfeitada de mil luxuosas quinquilharias.
Com um olhar cansado, a jovem fitou aqueles objectos tão seus conhecidos.
Tinha a cabeça oca, o coração opresso, e uma ligeira impressão de que se sentira mal durante a entrevista da véspera.
Com o viera ter à sua casa?
Não o sabia.
Com um gesto nervoso, levantou-se e abriu as cortinas do leito.
A sua cabeceira, parcialmente vestida , encolhida numa espreguiçadeira, pálida, abatida, Antonieta ressonava; a mantilha preta e o chalé rendado que levara na véspera, estava m sobre uma poltrona.
Com um longo suspiro, Valéria recaiu sobre os travesseiros.
— Pobre Antonieta! — pensou.
Como irmã, partilha todos os meus sofrimentos!
Triste sina, a minha!
Lágrimas ardentes desceram-lhe pelas faces.
Humilhara-se em vão.
O famigerado espectro da ruína continuava com a mão erguida, sobre os seres que ela amava pintou-se-lhe no espírito, com tintas impressionantemente reais, o escândalo de uma hasta pública, a desonra, que obrigaria seu pai e seu irmão a abandonarem os serviços oficiais e, por fim, os reparos das pessoas de suas reacções, olhares maldosos e zombeteiros das amigas invejosas, ciumentas de sua beleza e de seus triunfos sociais.
Rir-se-iam, porém, e caçoariam menos se ela desposasse um judeu?
De que maneira e sob que olhares seria recebida a Sra. Maier?
Da fronte de Valéria brotou um suor frio.
— Como proceder, meu Deus?
Que fazer? — repetia, aflitíssima.
Seu pensamento fixou-se em Samuel e, sem compreender por que, comparou-o com um velho general, avaro e gasto, que pretendera desposá-la, mas que, evidentemente, não poderia pagar as dívidas da sua família.
Ao lado desse velho fardado, rico de vícios, pretensões e egoísmo, o pálido e enérgico Samuel sobressaía de maneira singular.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 24, 2016 9:23 pm

Oh! Se o seu nascimento não lhe inspirasse tão invencível ojeriza!
— Senhor Jesus! Ajudai-me!
Esclarecei-me! — pediu, de mãos postas, os olhos molhados erguidos para o crucifixo, colocado no espaço entre o leito e a parede.
Antonieta, despertando, pôs fim aos angustiosos pensamentos de Valéria.
Cientificando-se de que sua amiga se achava mais disposta, a jovem de Eberstein fez servir ligeira refeição.
E só depois de vê-la fora do leito e instalada confortavelmente na espreguiçadeira de seu quarto, foi que Antonieta anuiu em descrever os pormenores do retorno à casa e em repetir as últimas palavras de Samuel, que lhe concedia oito dias de prazo para reflectir e tomar uma resolução definitiva.
— Põe-te calma, pois, recupera energias, e ora... quem sabe?
Pode dar-se que, nestes oito dias, Deus nos abra uma porta, uma saída — rematou Antonieta.
— Não nos deixemos embair por ilusões impossíveis. — acrescentou, tristemente, Valéria.
Tens razão, devo orar, contudo.
Apenas a religião esclarecer-me-á e me sustentará.
Irei confessar-me, amanhã, ao padre Rothey.
O desejo da jovem Condessa, no tocante a consultar o confessor, realizar-se-á mais cedo do que ela esperava, pois, cerca das três horas da tarde, foi-lhe anunciado que o padre Martinho de Rothey queria falar-lhe.
Intimamente satisfeita pelo inesperado acaso, mandou que o introduzissem imediatamente.
Valéria ignorava que o director espiritual já estava ganho para a causa do desprezado Samuel.
O padre Martinho, de fato, passara uma manhã agradável.
Encontrando Samuel em sua casa, quando voltou da missa, haviam conversado por mais de duas horas.
O espírito, as atitudes, as opiniões do jovem israelita, deram ao sacerdote a mais benigna impressão dele.
Quando, despedindo-se, Samuel desejara contribuir mantendo-se no anonimato, para uma instituição de caridade ao alvitre do padre, e lhe deixara uma carteira contendo 30.000 florins, o velho sacerdote
arrogou-se o dever de salvar uma alma cuja conversão seria tão benéfica à Igreja e aos pobres.
Vendo-o entrar, Valéria quis erguer-se; aproximando-se, porém, rapidamente, e sentando-se numa cadeira ao lado, ele disse com bondade:
— Deixai-vos ficar, minha cara filha; como vos encontrais pálida e mudada!
A ser sincero, eu vinha falar com vosso pai, mas, dizendo-me o criado que vós vos acháveis adoentada, subi, e disso me dou parabéns!
Vejo que vos tortura alguma dor amarga.
Quereis confiar-me o vosso segredo?
Quem o compreenderá melhor, senão aquele que vela pela vossa alma?
Confessai-vos, pois, claramente, e espero que o Senhor me inspirará para vos restituir a tranquilidade.
— Desde criança acostumada a desvendar ao confessor os recessos de sua alma casta e inocente, Valéria confessou sem peias, a verdade, silenciando, apenas, a sua aventura da véspera.
— Oh! senhor padre, — concluiu ela (e as lágrimas rolavam-lhe dos olhos em caudais).
Mostrai-me o que devo fazer.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 24, 2016 9:24 pm

Creio-me na obrigação de salvar meu pai e Rodolfo, mas, apesar disso, vacilo pelo temor de perder minha pobre alma, casando-me com um herético, visto que, apesar de prometer abandonar sua religião reprovada, ignoro qual pretende esse homem vil adoptar.
0 padre Martinho, correndo a mão pela cabeça pendida de Valéria, disse, com doçura e unção:
— Filha, bani de vosso coração toda inquietude.
Qual sacrifício agradaria mais ao Todo-Poderoso do que este, o de uma filha que oferece, para a salvaguarda do pai, a sua felicidade, a sua vida?
É preciso que vos esclareça, além do mais quão grande será o vosso merecimento no céu, por desviar uma alma das trevas e do Averno.
Esse jovem, conheço-o um pouco; tem boas prendas; faz a caridade se m ostentação, e acredito que lhe faltem tão-só as verdades de nossa santa religião, para que se torne elemento digno de estima e útil à sociedade e à Igreja.
Direi mais, para vos tranquilizar de todo, que o Sr. Samuel Maier, sabendo que sou o vosso confessor, já me procurou; o seu amor levou a me pedir que o inicie nas verdades de nossa santa doutrina; deseja ser baptizado pelas minhas mãos, e tudo quanto me disse, aprovei prontamente.
Não podemos aquilatar dos desígnios de Deus, que vos usa como instrumento para a salvação de mais uma alma, pois esta lição, tenho certeza, deterá vosso irmão no declive perigoso dos erros mundanos. Levantai, portanto, a cabeça, filha querida, porque quanto fizerdes não vos envergonhará, e constituirá, em vez disso, uma renúncia sublime, cuja recompensa estará na satisfação do cumprimento do dever.
Valéria abaixou a cabeça.
Jorrou-lhe dos olhos uma cascata de lágrimas.
— Seja tudo conforme Deus quer! — murmurou.
Dai-me a vossa bênção, padre, e pedi a Deus que me dê alento para consumar com dignidade o meu sacrifício.
— Nos fracos é que se manifesta a força do Senhor — ponderou o padre, erguendo-se e pousando a mão na cabeça inclinada da moça.
E agora, minha filha, irei á procura de vosso pai, a discutir com ele este grande problema.
Sozinha, Valéria abateu-se sobre as almofadas e cerrou os olhos; relativa tranquilidade sucedia à tempestade que a sobressaltara.
Tinha, ao menos, a consciência em paz; seu venerável confessor, no qual acreditava piamente, assegurara-lhe que ela realizava acção duas vezes meritória, salvando o pai e a alma do judeu; o terrível fantasma da ruína, da miséria, estava igualmente afastado, para sempre; a velhice calma do pai, o futuro de Rodolfo, assegurados; todo esse grande peso lhe saíra do coração.
Mas, que espécie de existência teria?
Qual a sua situação frente a esse noivo, e a esse esposo, no qual não pensara até então senão com injuriosa repulsa?
Nova luta acendia-se em seu coração, estranha e inexplicável:
o sacrifício parecia-lhe excessivo às suas forças, e, contudo, não o teria cedido, por preço algum, a outrem: em sua lembrança desfilava a entrevista da véspera.
Ao mesmo tempo que a humilhação sofrida pela recusa a enchia de ira e desgosto, invencível simpatia a atraía para esse homem belo, olhar ardente, cuja paixão tenaz a encantava.
Antonieta, chegando, interrompeu tão estranho combate interior.
As duas moças atiraram-se nos braços uma da outra.
— Tudo é findo! — murmurou Valéria, em pranto.
O bom padre Martinho inteirou-me do meu dever; o casamento é assunto liquidado.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 24, 2016 9:24 pm

— Se isto é certo, vou confessar-te algo que tenho escondido, temerosa de que o meu egoísmo influenciasse tua decisão final.
Compreendes bem que a salvação de Rodolfo garante também a minha felicidade; em sua angústia, não pôde ele conter sua declaração de amor por mim.
Adivinhaste, com certeza, desde há muito, os meus próprios sentimentos a seu respeito: somos noivos.
Ligeiro rubor coloriu as faces pálidas de Valéria.
— Oh! aí está uma alegria inesperada que nasce do meu sacrifício e que lhe diminui o fel.
O sossego de meu pai, a tua ventura e a de Rodolfo não valem a destruição da minha vida?
No rosto expressivo da jovem Eberstein transparecia penosa emoção.
— Cara Valéria, por que rejeitas a possibilidade de um futuro venturoso?
Por que haveria Samuel, tornado cristão e teu marido, de fazer totalmente a tua infelicidade?
— Que pensas, pois?
Viver na intimidade desse ser que me causa asco; suportar sua ternura, seus beijos, e ser feliz...
A estas palavras, Valéria cobriu o rosto, estremecendo.
Antonieta balançou a cabeça, desaprovando.
— Exageras, fada, aumentas por conta própria o teu fardo.
Vi, ontem , o senhor Maier, e convenci-me de que errónea era a ideia que Adele fazia:
é um belo rapaz, que não revela nos traços o tipo asqueroso de sua raça; seus modos são perfeitos, sua linguagem polida.
Com o baptismo, deixa de ser judeu, torna-se um homem semelhante a todos os demais.
Estas observações de Antonieta acabaram por trazer a calma a Valéria e, após o jantar, servido às jovens no aposento desta última, e a alegre resolução desalojara o desespero anterior.
— Ruídos de passos, seguidos dos tinidos de esporas, sobressaltaram Valéria e a conversação foi interrompida.
— É papai e Rodolfo que chegam, finalmente — disse Valéria, enquanto se erguia, emocionada, e partia ao encontro do velho Conde que abatido, desfigurado, estacara na soleira da porta.
Era um homem de quase cinquenta anos de idade, de uma aparência aristocraticamente bela e muito bem conservada:
o seu cativante trato e a descuidada bonomia de grão-senhor, a esbanjar somas enormes, criaram inúmeros amigos ao Conde de M""" entre os seus pares.
Os filhos adoravam esse pai, afectuoso e cheio de indulgências, venerando-lhe mesmo os defeitos.
A situação calamitosa e os seus prazeres ruinosos haviam criado e o mau exemplo imitado por Rodolfo, seu filho, não conseguiram abalar esse amor recíproco; nunca se elevara, contra o pai adorado, um pensamento de censura.
Percebendo a emoção que descontrolava o futuro sogro, Antonieta aproximou-se de Rodolfo e conduziu-o a um quarto ao lado.
— Papai, papai, tudo correrá bem; não fique assim triste — exclamou Valéria, puxando-o para o divã, e fazendo-o sentar-se.
A voz não veio ao Conde de M""", que apertou em silêncio, a filha ao peito.
— Minha querida filha — murmurou, por fim — perdoará a um pai indigno que, olvidando suas obrigações e o futuro dos filhos, os levou a este desesperado extremo?
Erguendo-se, num gesto de carinho, Valéria passou as mãozinhas pelas faces e pelos cabelos grisalhos do pai, sempre bastos ondulantes; ingénua expressão admirativa e de orgulho filial brilhava em seus olhos azuis e belos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 24, 2016 9:24 pm

— Que tenho a perdoar a ti, o melhor, o mais extremoso do pais?
Se és dotado por Deus com a fortuna, é falta não poderes vive pobremente ao nível de qualquer burguês humilde?
Não, em nada cometes falta; a sorte é que tudo conduziu, a vontade de Deus induzindo-me a salvar uma alma.
O Conde estreitou-a nos braços, num gesto de ternura, e duas lágrimas amargas deslizaram-lhe pelas faces.
— Tua generosidade, minha filha, foi para mim mais acre punição do que uma censura; tenho, porém, o direito de aceitar tão grande sacrifício?
— Podes aceitá-lo, papai, porque o faço espontaneamente, visto que ele assegura o teu repouso e o futuro de Rodolfo; o céu me dará forças, e tudo será melhor do que supomos.
Restitui-nos, pois, o teu bom humor.
— Tudo te parece fácil, por agora, filha; que será de ti porém, quando se fizer necessário conviver e suportar a presença desse homem?
Devo avisar-te de que o teu martírio terá breve início: o padre Martinho, vindo ter comigo em casa, arrancou-me a permissão de trazer Maier, depois de amanhã, para jantar.
Isso será intróito aos esponsais, que só serão efectuados depois do baptismo que, segundo me disse o padre Martinho, se poderá realizar em quatro a cinco meses.
— Saberei ser enérgica, meu pai; é preferível, além do mais, fazer com presteza o que não se pode evitar.
E a febril agitação que a dominava tão facilmente começou a brilhar em seus olhos.
Em circunstâncias tais, desconhecia os obstáculos, e as dificuldades.
Enquanto tais efusões ocorriam entre pai e filha, não menos entrevista se dava entre Rodolfo e sua noiva.
Quando eles se viram a sós no gabinete, o jovem Conde passou o braço pela cintura e Antonieta e lhe deu um beijo apaixonado.
— Minha noiva, e muito breve minha mulher adorada, estamos salvos; que seria de mim, porém, sem teu auxílio, nesta terrível conjuntura? Repete-me, ainda, que me amas!
prontamente, Antonieta apoiou a cabeça no peito de Rodolfo.
De repente, contudo, afastou a fronte, os olhos brilhantes:
— Rodolfo, amo-te mil vezes mais que a própria vida; antes, porém, de por para todo o sempre a minha mão na tua, deves fazer -me uma promessa.
Queres fazê-la?
— Sim, naturalmente. Não tens o direito de exigir-me tudo?
— Pela tua honra e pelo nosso amor, jura-me, então, que jamais coitarás a pegar uma carta de jogo, nem te chegarás perto desse pano verde sobre o qual fizeste desabar, ao acaso, a nossa fortuna, nossa felicidade, a nossa vida.
O tremendo sacrifício que nossa infeliz Valéria e dispõe a consumar, pelas faltas de outrem, não deve ser em vão; a honra de nosso nome não deve mais estar dependente de uma aventura de jogo; não poderia viver, temendo sempre um abismo sob os teus és, para engolir-te.
Risquemos e esqueçamos o passado; porém, jura, que me pretendes por esposa, fazendo justiça, sempre, a essa ilimitada confiança que nos reuniu, não assinares jamais uma letra de câmbio e m a minha anuência; e, assim, em paz e felicidade, iniciaremos vida nova; bastante força e amor sinto em mim para te fazer estimar uma ida regrada, livre desses prazeres viciosos e daninhos.
Corado até a raiz dos cabelos, e surpreendido, Rodolfo ouviu até ao fim.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 25, 2016 9:00 pm

Magoara-se, de início; contudo, o tom de convicção, a estima sincera e profunda que brilhava nos olhos molhados de Antonieta, lograram seu objectivo; disse-lhe a consciência, mesmo, que a noiva estava com a razão; que uma vida pacata e ordenada era de preferir se ao inferno daqueles dias; o amor e o remorso, quanto a Valéria, encarregaram-se do resto.
O espírito tentador fez surgir, ainda uma última vez, na mente do jovem oficial, as emoções embriagadoras da sala de jogo, as falaces alegrias que devia abandonar.
Um esforço de vontade desvaneceu, porém, esse quadro tentador; seu olhar, guiado por generosa decisão, abismou-se no olhar da jovem, que acompanhara, ansiosa, as flutuações de sua fisionomia.
— Antonieta, minha bem-amada — disse, erguendo a mão, em gesto solene — juro, por minha honra e pelo nosso amor, que nunca mais pegarei numa carta de jogo; que não te esconderei jamais qualquer dos meus actos, como o fiz na hora de angústia e humilhação que nos reuniu.
Os nossos interesses serão comuns.
Fácil me será com o teu amor, começar uma vida diferente a teu lado, e, ainda que vacilasse, a recordação deste momento e o nome de Valéria seriam suficientes para me conduzir ao caminho da razão.
Antonieta atirou-se em seus braços:
— Creio em ti, Rodolfo, e entrego, com alegria, meu futuro em tuas mãos.
Quando, algum tempo depois, os dois jovens voltaram ao aposento contíguo, encontraram Valéria que se recostara nos braços do pai.
— Papai — exclamou Rodolfo — o céu nos oferta uma alegria nestes dias desventurados; vê, eu te trago uma filha e amiga, uma irmã à nossa desventurada Valéria.
A essas palavras, um clarão de felicidade brilhou no rosto abatido e triste do Conde.
— Querida filha, mil vezes sê benvinda, como se fora minha filha mesmo — disse, osculando-lhe a fronte.
Sê feliz e torna-te o anjo guardião de Rodolfo, para que não tenha de lamentar-se nunca dos desatinos e loucuras iguais às minhas.
— Prometeu-me ele corrigir-se, e sei que se emendará — disse Antonieta, levando aos lábios a mão do velho Conde.
Pai, vai iniciar-se para todos uma vida nova; vive-a totalmente connosco e nós te distrairemos, acalmaremos e te amaremos tanto, que não hás-de sentir vazio nem aborrecimento.
— Compreendo-te, filha — respondeu o velho, com um sorriso.
— Tens razão; não devo consagrar, senão aos meus filhos, os últimos anos de minha vida; Deus feriu-me com impiedosa lição, obrigando-me a aceitar o sacrifício do futuro de Valéria.
— Pai adorado, exageras tanto as tuas faltas quanto o meu valor — exclamou Valéria, abraçando Antonieta.
Como lastimar uma resolução que é fonte de tanto bem?
O facto de minha amiga tornar-se uma irmã é sublime consolo, e espero que tudo venha a findar-se melhor do que supomos.
Pela manhã do dia fixado para o noivado sigiloso de Valéria, velho Conde de M' dirigiu-se à residência do barão Maurício del Hoyeu, tutor de Antonieta, e apresentou-lhe de maneira formal o pedido de casamento de Rodolfo, e, velhos amigos e antigos companheiros de Colégio que eram, em breves palavras resolveram o assunto; contudo, observando-lhe o barão a respeito dos gastos abusivos do jovem oficial, o Conde redarguiu, com ar sombrio:
— Nada receies, Maurício; eu e meu filho abandonamos todas as loucuras; a ti, velho e fiel amigo, ao padrinho de Valéria, devo revelar toda a verdade.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 25, 2016 9:00 pm

E, sem nada esconder, o Conde expôs os acontecimentos dos últimos dias, e o sacrifício espontâneo de Valéria, com o qual a jovem Condessa restabelecia a tranquilidade e a honra a toda a família.
— Hoje — concluiu — deve consumar-se essa vergonhosa transacção; o padre Martinho levará Maier a jantar connosco.
Ao só pensamento, entretanto, de que minha inocente filha porá sua mão na desse israelita avarento e asqueroso; de que, por minha culpa, descerá até essa lama de avareza, a essa sociedade infamante, nem sei de onde provinda, tudo em mim se revolta, e indago de mim próprio se não sou duas vezes infame, persistindo em viver para assistir a tal desgraça.
Suplico-te, pois, Maurício, venhas hoje jantar em minha casa; és o padrinho de Valéria; será um refrigério para mim e minha filha a tua presença.
O rosto alegre e cheio de bondade do Barão de Hoyeu assumiu aspecto sempre mais sério:
— Aí está uma história triste, meu pobre Egon; ainda que tenhas esbanjado tua fortuna de maneira quase indesculpável, não é o momento de fazer exprobrações.
Longe de tal.
Se me valessem os meios, tirar-te-ia sem mais tardar do aperto, pois é penoso, para um homem de tua idade e posição, ser obrigado a qualquer coisa; mas, ajuntarei sinceramente:
fora disso, não entendo porque esse casamento seja um infortúnio tão grande.
Conheço Samuel Maier, pois encontrei-o muitas vezes em casa do meu sobrinho (eles foram companheiros de Universidade):
é um jovem amável, absolutamente fidalgo; nele, nada nos lembra essa raça embrutecida e asquerosa que nos acostumamos a desprezar.
Não é, certamente, nobre o método de que ele se valeu, mas deve-se ter em consideração sua situação desfavorável:
um homem novo, apaixonadamente enamorado, comete as maiores loucuras para conquistar a mulher de seus desejos, e mais ainda quando ela é uma Valéria.
Cáspite! uma pérola sobretudo se um tolo preconceito o impede de se pôr entre os demais pretendentes.
— Tolo? — cortou o Conde. — uma Condessa de M""" e esse filho de um avarento?
— Não te apoquentes, Egon, e confessa:
a maior causa de tua revolta é ser Samuel judeu; desde que receba o baptismo, porém, deixa de o ser.
Sabes que, além do mais, de mim, não dou nenhum mérito a todas essas nugas das velhas religiões que, baseadas numa cosmogonia viciosa, cheias de ignorância e de lendas inverosímeis, devem ceder seu posto a uma crença única, liberal e filosófica.
— Sei bem que és ateu, Maurício, e deploro-te por isto!
— Escusa-me: creio que existe um Ser Absoluto, Criador dos Universos; esse Pai Eterno, porém, criou todos os seus filhos iguais, e não aprova, com toda a certeza, essa mesquinha guerra que se fazem entre si, sob o comando de homens cujo egoísmo se enfeita com o título de seus ministros.
Basta, entretanto, sobre o tema:
conheço as tuas convicções totalmente católicas e respeito-as.
Permite-me, porém, convencer-te de que um homem belo, espiritual, e suficientemente rico para comprar um principado (o que não se pode desprezar em nossos dias), não deve, de nenhuma maneira, fazer a infelicidade de minha afilhada, apenas por ser de origem judaica e os seus antepassados não terem durante as Cruzadas empunhado estandarte.
Essas duas jovens criaturas podem, sem dúvida, se amar e serem felizes.
— Por ora, ao menos, Valéria apenas sente por ele desprezo e aversão — disse o Conde, num suspiro.
té logo, meu caro Maurício; julgarás, ao jantar, se as tuas esperanças optimistas têm alguma possibilidade de se realizarem.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 25, 2016 9:00 pm

4 — 0 NOIVO JUDEU

— Escuta, fada, sacode a tua apatia; são quatro horas e o tempo mais do que necessário já para mudares de traje, — disse Antonieta que, vestida já para o jantar, se assentava num banquinho próximo ao divã, onde Valéria se recostava, pálida e de olhos fixos no vácuo.
A jovem ergueu-se, suspirando:
— É verdade, preciso ataviar-me para comemorar condignamente a minha felicidade; dize a Marta que me apronte um vestido preto e um véu de igual cor.
Nada mais justo que, no dia em que sepulto o meu nome, posição e ventura, me vista de luto.
A jovem Eberstein balançou a cabeça:
— Não podes, sinceramente, pensar em receber Samuel com essa afrontosa ironia; e se, ante esta afronta, ele recusasse o teu sacrifício, e procurasse vingar-se, que aconteceria?
— Não acredito seja o senhor Maier tão sensível; disse-lhe eu textualmente que me causava asco e... nem se abalou.
Não desejo, porém, arriscar a tua felicidade e a de Rodolfo por uma ninharia; escolhe, pois, tu mesma, meu vestuário.
— Assim sendo, sugiro-te este vestido branco, guarnecido de rendas, que há pouco te enviaram de Paris; também é luto o branco, não tão lúgubre, porém, e não dá muito na vista.
Com a mais fria indiferença, Valéria deixou-se vestir; quando a camareira, porém, ajudada por Antonieta, deu os últimos retoques, esta última julgou que jamais Valéria estivera tão fascinante; o traje, simples, vaporoso, parecia ter sido feito de encomenda para sua delicada e ideal beleza.
Antonieta desejou colocar-lhe algumas rosas viçosas na cintura e nos cabelos; Valéria afastou a mão da amiga e disse, com ferina ironia:
— Os espinhos sem as rosas, minha cara, seriam mais convenientes neste alegre noivado, ou melhor, se de todo são necessárias as flores, quais as predilectas do agradável povo ao qual está destinado o meu futuro?
O alho, creio...
— Credo! — exclamou Antonieta.
Como podes dizer tal sarcasmo?
Que é feito de teu bom coração e de teu ânimo?
Valéria nada retrucou, e as duas penetraram no aposento junto ao salão.
Deixando-se cair numa poltrona perto da janela, Valéria pôs-se a desfolhar, com nervosismo, as flores de lindo ramalhete, posto numa jardineirazinha de Sévres.
Observava-a Antonieta com tristeza e pena; escutando, porém, passos no salão, saiu.
Tratava-se do velho conde que, lúgubre, semelhante a pejada nuvem de tempestade, de sobrancelhas cerradas, andava agitado.
— Caríssimo pai, tende calma — disse a jovem de Eberstein, tomando com carinho o braço do futuro sogro.
O inevitável deve suportar-se.
Devemos, ao menos na aparência, para diminuir a tensão de Valéria, receber Samuel com boa-vontade, e tratá-lo como é de uso entre nós, com todas as pessoas de nosso meio; esses bons modos hão-de reflectir-se-nos dele, estimulando-o.
Ah! aí estão tio Maurício e Rodolfo, louvado seja Deus!
Chegaram primeiro que o padre Martinho!
A fisionomia de Rodolfo estava tão carregada quanto a do pai; seus dedos jogavam com os alamares da farda, ou retorciam o bigode, em gestos nervosos.
— Rodolfo, busca esconder um tanto tua cólera e asco — murmurou Antonieta, enquanto os dois velhos se cumprimentavam.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 25, 2016 9:01 pm

Se conservarem, teu pai e tu, esse ar sombrio, nossa atitude será insuportável para todos.
— Oh! se me fosse dado torcer o pescoço desse canalha de judeu, bem depressa me tornaria alegre — murmurou, raivosamente, o jovem oficial, cerrando os punhos.
— Que é de Valéria? — perguntou o barão de Hoyeu, finalizando esse diálogo, travado à parte.
Antonieta mostrou-lhe, silenciosa, a porta do aposento.
À vista da jovem que, descorada e de olhar fixo, persistia em sua obra destruidora, deteve-se o barão e balançou a cabeça.
O tapete e o vestido branco de Valéria estavam cobertos de pétalas de rosas, de cravos e de lírios; e ela ainda arrancava, sem piedade, flores e folhas que sua mãozinha alcançava.
— Oh! Oh! afilhada querida, que sentido tem essa execução?
Que culpa cabe a esse ramalhete? — perguntou o barão, em tom jovial.
Valéria ergueu com esforço os olhos; vendo o padrinho, procurou sorrir e ergueu-se; mas, inesperadamente, deteve-se, trémula, e, com a mão estendida, recaiu sem forças.
O rodar de um carro, que estacionava à porta, acabara de se fazer ouvir.
— É ele, com o padre Martinho! — anunciou Antonieta, que correra à janela.
Rodolfo consultou o relógio.
— Pontual, como um grão-senhor — disse, ironicamente.
— Seis horas menos cinco minutos.
Alguns momentos depois, faziam sua entrada no salão o padre Rothey e Samuel.
Receberam o banqueiro com cortesia os dois condes; uma glacial reserva, porém, fizera-se notar no toque fugitivo de seus dedos, quando as suas mãos tocaram as de Samuel.
Apenas o barão de Hoyeu adiantou-se, com um sorriso amigável e a mão estendida.
— Boa tarde, meu jovem amigo.
Recebei as minhas felicitações e os meus melhores votos pelo vosso futuro.
Amor e paciência tem já feito esquecer muitos preconceitos — ajuntou, em voz mais baixa.
- Fazei feliz a minha afilhada e o dia de hoje será perdoado e esquecido.
— Agradecido por estas boas palavras, Sr. Barão, são-me gratas duplamente, no dia de hoje, tão entremeado, para mim, de felicidade e desgosto.
Mas, onde está...
Samuel calou-se e seu olhar ardente e impaciente correu todo o salão.
— Ela encontra-se ali, naquele gabinete.
Vinde — respondeu o barão.
Também o sacerdote apercebera-se da ausência de Valéria e, a uma indicação do Conde, penetrara no gabinete.
Vendo a donzela de pé, perto de Antonieta, branca como o vestido que vestia e com ar de silencioso desespero nas faces, aproximou-se com presteza e murmurou, em tom recriminatório:
— É esta a fé, a alegre abnegação que eu esperava encontrar?
Erguei a cabeça, filha minha, e não olvideis que deveis ser minha aliada na obra santificadora de conduzir à Igreja uma alma que já está se impregnando da verdade; o baptismo, em breve, limpará neste jovem qualquer mácula, assim como nos redime do pecado original.
Interrompeu-se, avistando Samuel em companhia do barão, e chamou o primeiro com um aceno. Em seguida, segurando a mão fria de Valéria, pousou-a na do jovem e disse, com unção:
— Aceitai, minha filha, com inteira confiança, o esposo que o Senhor vos escolheu; que ele possa abençoar esta união, e dar, a mim, a alegria de a realizar brevemente.
Sob a influência das palavras do padre, ou então pelo silente desejo de Samuel, Valéria ergueu lentamente os olhos para o prometido, e deparou com um olhar tão cheio de amor e tristeza, que, enternecida e confusa, corou até a fronte, e, em voz baixa, convidou-o a sentar-se.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 25, 2016 9:01 pm

Aproximou-se, então, o Barão, abraçou a afilhada e tomou assento perto dos noivos, iniciando uma conversação variada.
Rodolfo e Antonieta uniram-se a eles, indo o sacerdote Rothey para junto do velho Conde, que ficara no salão.
Quando se anunciou que o jantar estava servido, sentiram-se todos aliviados.
O barão ergueu-se, rápido; seguiram-no, apressados, Antonieta e Rodolfo; os noivos ficaram a sós, por um instante.
Samuel, cerimonioso, oferecera o braço à sua noiva; subjugado, porém, pela emoção, segurou-lhe a mão e levou-a aos lábios ardentes.
— Valéria, perdoai-me esta hora — sussurrou, com voz rouca.
— Confiai em mim; a minha vida inteira hei-de consagrá-la a vos patentear o meu amor, buscando tornar-vos venturosa.
A jovem suspirou com dificuldade.
— Aguardemos, senhor, que o futuro redima a angustiante dor que hoje me impondes:
vosso amor persistente e impiedoso destruiu todas as resistências.
Espero que isto será para a nossa ventura, e implorarei a Deus tudo seja dirigido para o bem.
— Sensibiliza-me a vossa boa vontade; é a primeira e será a última vez que terei sido cruel para convosco, Valéria; torno-me, pela nossa união, vosso escravo, mas... (ele curvou-se, o seu olhar ardente afundou-se no de sua noiva) ... poderia transformar-me num ser feroz e criminoso se vos perdesse.
Após estes tristes e estranhos esponsais, o tempo transcorreu bem vagaroso.
Samuel percebia quanto penosa era sua presença junto à família do Conde.
Em face de tal desagrado, a duras penas encoberto, outro qualquer talvez renunciasse a esse matrimónio e sacrificasse ao orgulho o amor; com a tenacidade própria de seu povo, porém, Samuel persistia.
Com uma natural delicadeza, herdada de uma vida passada e formada de modo bastante diverso, evidenciava-se o menos possível, rejeitava qualquer convite que o detivesse por dilatado tempo em casa do Conde de M , ou que pudesse levantar suspeitas acerca do segredo que devia permanecer oculto até a época determinada.
Em cada dois ou três dias, apenas, vinha passar uma hora, pela tardinha, junto de sua noiva, quando, então, com sua palestra interessante, espiritual e apesar disso, discreta, buscava agradá-la.
Aos poucos, Valéria foi-se acostumando; notando que o banqueiro se dava a mais respeitosa deferência, que nunca reclamava nenhum privilégio de noivo, nem falava dos sentimentos apaixonados que, às vezes, lhe queimavam os grandes olhos negros, a jovem retomou a calma de antes e os ares naturais, e principiou a conversar com ele; sem embaraço.
Certa feita, encontrando-a Samuel ao piano, pediu-lhe ela que, por sua vez, tocasse alguma coisa.
Ele prontificou-se com a melhor boa vontade.
Tomando por assunto a ária que ela acabava de cantar, Samuel teceu variações dignas do perfeito musicista que era; o primeiro sorriso, realmente sincero e amigo de Valéria, foi seu prémio.
Esse predicado de bom gosto agiu de modo favorável sobre todos os que partilhavam do segredo:
Rodolfo abandonou o ar de hostilidade; o velho Conde murmurou de bom humor:
— Ele tem mais finura do que eu ousaria crer.
O padre Martinho não cessava de elogiar o zelo e as boas qualidades do seu aluno em religião.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 25, 2016 9:01 pm

No tocante a Antonieta, impregnada até certo ponto das ideias liberais de seu tutor, deixara-se tomar de sincera simpatia pelo banqueiro.
De igual maneira, quando se capa citou de que a amiga estava menos angustiada, e que, quando se aproximava a hora da visita de Samuel, seus olhos buscavam impacientes o relógio, e que o ruído dos passos do jovem trazia inesperado rubor às faces de Valéria, Antonieta alegrou-se, francamente, e passou a acreditar que os cálculos do tio Maurício poderiam bem ser exactos.
O mês de maio estando a findar-se, resolveu a família do Conde M""" ir em demanda do campo, onde os estranhos não a incomodariam tanto.
Como era Samuel o vizinho mais próximo, Valéria achou-se na obrigação de dizer-lhe que, no campo, contava com sua presença mais demoradamente e mais frequente em sua casa.
Feliz e sensibilizado por estas boas palavras, o noivo afiançou-lhe que se aproveitaria da permissão.
Os dias que se seguiram foram alegres e bastante animados; todos os preparativos eram feitos para o enlace de Rodolfo e Antonieta, marcado para os princípios de julho, e da mesma forma preparava-se o enxoval de Valéria, cujas bodas deviam celebrar-se a vinte e cinco de setembro, logo após o baptismo de Samuel, que o padre Martinho, completamente devotado ao aluno, desejava apressar o mais possível.
A futura Condessa de M""" e o barão Maurício convieram em ser os padrinhos do novel cristão.
Em uma linda tarde da segunda metade de junho, estavam ambas as noivas sentadas num caramanchão, trabalhando afincadamente em uma cobertura para o altar da Igreja dos Missionários, quando Samuel, chegando, lhes interrompeu a ocupação.
Após os primeiros cumprimentos, o jovem sacou do bolso belo volume em veludo azul, douradas as bordas, e o colocou diante de Valéria, com gentil sorriso.
Antonieta, curvada sobre a amiga, curiosa de conhecer o título da obra expandiu-se em larga risada.
— Que brincadeira é esta? — indagou ela, sempre a rir-se.
— Um calendário encadernado em veludo e ouro!
Tamanha honra para livro de tão fugaz valor!
— Não adivinham por que o trouxe?
— Não — responderam, a uma voz, as duas jovens.
— Pois bem, senhoritas, é meu desejo pedir-vos que busqueis, neste calendário, o nome cristão que melhor pareça à minha futura esposa e à minha madrinha, para substitui-lo ao malquistado nome de Samuel, tão antipático, bem sei, à Srta. Valéria.
— Jamais afirmei isto — retrucou Valéria, corando.
Confesso, contudo, que não é dos mais bonitos.
E ambas, aplicadamente, puseram-se a escolher e a discutir o nome mais lindo e mais condizente com a personalidade de Samuel, mas não chegaram a um acordo.
Finalmente, Valéria fechou o livro, e informou que ela mesma procederia à escolha, não de supetão, mas num instante de calma e solitude.
— Aí nos vem papai, com sua fisionomia bem mais animada — acrescentou a jovem.
Aposto como traz alguma novidade...
— Caríssimas filhas — disse o velho nobre, após saudar o futuro genro com maior apreço que o de hábito — venho informar-vos que todos os nossos projectos para o enlace matrimonial de Rodolfo precisam ser alterados.
Venho de receber carta de tua tia, a Princesa O""".
Aqui tens outra carta, que veio junto a esta, e dirigida a ti, Antonieta.
Informa-me a Princesa de que a fraqueza e as dores que ainda sente nas pernas, impedem-na de vir aqui, e de que a ideia de não presenciar o enlace de sua sobrinha lhe desagrada tanto, que me suplica ir, com todos os nossos, realizar as vossas núpcias na sua propriedade, e repousar ali algumas semanas.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 25, 2016 9:01 pm

— E que resolvestes, pai? — inquiriu Valéria, endereçando um olhar oblíquo ao rosto abatido de Samuel.
— Dados os termos do convite nenhuma recusa seria cabível, a qual, por fim, nenhuma razão tem de aparecer.
Travei relações de amizade com a Princesa, antes de sua viuvez:
era uma extraordinária mulher e como, além disso, é tua parenta próxima, Antonieta, sinto-me feliz em renovar as antigas relações.
Na minha resposta direi que aceitamos e partiremos, assim, daqui, no dia 2 ou 3 de julho.
E, sem mais, até a vista; deixo-vos à vontade em vossa conversação.
Tendo já o Conde se afastado, e enquanto Antonieta se entregava à leitura da carta de sua tia, Valéria aproximou-se de Samuel que, amuado e pensativo, encostara-se à mesa.
— O novo projecto de papai parece a vós pouco agradável — disse ela, a meia voz.
O jovem suspirou.
— Uma separação de tantas semanas, e o vosso comparecimento a festas das quais a minha falsa, espúria e abjecta condição não me permite participar, não me podem ser agradáveis.
Quem é essa Princesa de O"""?
— É a irmã do pai de Antonieta, desde há muito tempo viúva.
Vive afastada em sua propriedade da Estíria, doente. Jamais a vi, mas ouço falar muito bem dela.
— Não me negueis uma compensação pelo imprevisto pesar — ajuntou o banqueiro, após uma pausa de instantes.
Vinde, e todos os vossos, passar um dia em minha quinta, no lugar mesmo onde, pela primeira vez, tive a graça de vos ver.
— Prometo — disse Valéria — antes de nossa partida, passarmos um dia em vossa casa.
Com facilidade obteve a donzela a anuência do Conde, melhor disposto e mais satisfeito do que nunca, e foi resolvido por todos que, um dia antes da partida, estando todas as coisas arrumadas, o barão de Hoyeu e o Conde com seus filhos, atenderiam ao convite de Samuel.
Amanhecera esplendoroso o dia marcado para essa visita:
o calor sufocava, mas não se percebia, na azul abóbada celeste, nenhuma nuvem.
Com um sorriso de malícia, Antonieta observou que a amiga se enfeitara com um cuidado especial: o vestido branco, que vestira no dia do noivado, e que se lhe tornara antipático pois se recusara a usá-lo novamente, desde aquela época, pedira-lho agora, completando sua toalete apenas com um lindo chapéu de palha branca, adornado de botões de rosas.
Ao meio-dia todos se puseram a caminho.
Os homens montavam cavalos, enquanto as duas jovens iam numa elegante e pequena carruagem, tirada por póneis, que Antonieta dirigia, presente que lhe fizera Rodolfo dessa vivaz e excelente parelha.
A residência de verão de Samuel, Rudenhof, era um pequeno castelo, em estilo Renascença, com torrinhas nos flancos, enfeitado de balaustradas esculpidas e cinzeladas, rodeado de vastos jardins.
A habitação, senhoril no seu todo, ostentava a marca da riqueza e do bom gosto.
Quando atravessavam a avenida, que levava ao castelo e à qual os carvalhos sombreavam, Antonieta sussurrou, sorrindo:
— Repara que lindo edifício, Valéria!
Acredito que possas viver nele muito bem, e que um Conde não te poderá ofertar nada de mais fino...
Valéria não deu resposta; seus olhos estavam fitos, não no palácio, nem naquilo que a rodeava, mas sim na esbelta e elegante postura do seu jovem proprietário, que esperava, para receber os seus convidados, em pé, no último degrau da escada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 25, 2016 9:02 pm

Sem o revelar a si própria, a jovem Condessa deixara de lastimar o seu sacrifício; a presença de Samuel era-lhe agora motivo de satisfação, que ela esperava com impaciência e (sem nenhuma dúvida!) não renunciaria a esse noivo, ainda mesmo que um pretendente mais vantajoso se apresentasse.
Samuel esmerou-se em proporcionar-lhes a mais afectuosa e amável hospitalidade:
excelente almoço, passeio nos jardins uma visita pelo castelo, visto em todas as suas minúcias, e ao museu de telas e antiguidades que ele adquirira em suas viagens, tomaram toda a manhã; à tarde, estava programado um passeio de barco num grande lago, famoso pela pitoresca beleza de suas margens.
Após o jantar, o velho Conde e o Barão retiraram-se para o terraço, com o fito de saborearem ali o café, tragar seus finos charutos e darem-se a uma digestão agradável; reuniram-se os jovens num salão ao lado, e Valéria, que notara já um piano de concertos e uma estante repleta de músicas, pediu a Samuel que executasse algum trecho.
Com sua característica boa vontade, o jovem acudiu imediatamente a esse desejo.
Sua maestria, talvez, jamais fora tão admirável, ardorosa e expressiva, mas também cheia de caprichos: ora vivaz e triunfante, ora tímida e de inominável tristeza, a melodia parecia acompanhar docilmente os sentimentos do artista.
Perdida que ficou a última nota, frenéticos aplausos elevaram-se do salão e do terraço.
Encostada ao piano, Valéria foi a única que ouvira com emoção sempre maior e nada disse de elogioso; contudo, quando Samuel pretendeu abandonar o piano, ela levantou os olhos e sussurrou:
— Oh! não, eu gostaria de ouvir-vos ainda; cantai alguma coisa.
O banqueiro interrompeu-se um instante e seu olhar ardente penetrou os olhos de Valéria; depois sua voz alçou-se límpida e sonora:
cantava a partida de Edgard, de "Lúcia de Lammemoor", no trecho em que o noivo, traído, derrama sobre a infiel o seu desespero e suas recriminações.
O coração de Valéria pôs-se a bater, dolorosamente; esses acordes penetrante, vibrantes de paixão às vezes, plenos de dolorida tristeza, pesavam sobre ela, como oprimindo-a; agitou-a um tremor nervoso, assemelhava-se-lhe que a ela mesma é que se recriminava.
— Cantais tão bem quanto um artista consumado — disse, quando ele terminou.
Por que preferistes este trecho?
Samuel tomou-lhe a mão e levou-a aos lábios. Percebendo-a trémula, inclinou-se profundamente:
— Escusai-me; estais muito pálida.
Nem eu mesmo sei o que me levou a cantar esta ária; ressarcirei minha falta, mais tarde, escolhereis o que vos seja agradável ouvir.
Após ter colhido novos elogios, Samuel propôs que se dirigissem todos ao lago; a ideia, porém, pareceu agradar bem pouco aos dois velhos fidalgos.
— Caríssimos amigos — disse o Barão de Hoyeu — ainda que tal convite seja bem sedutor, acredito bem preferível um repouso contemplativo neste terraço, após a canícula do dia e das canseiras de um jantar de Lúculus; penso, portanto, que exprimo o mesmo ideal do meu amigo Egon, ao propor-vos, senhoras, que realizeis esta viagem aquática sob a protecção de vossos futuros esposos; podeis, até, imaginar que navegais sobre o mar da vida, o que para os enamorados, não só é poético, como aconselhável.
— No resguardo de tua indolência, és sempre bastante engenhoso — exclamou Antonieta a rir-se.
Olvidas, apenas que, para que a ilusão de um passeio no mar da vida seja completa, far-nos-á falta a tempestade.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 25, 2016 9:02 pm

— Quem pode garantir?
Quem sabe se, para pôr à prova nossa coragem comum, o céu nos conceda uma tempestade — disse Valéria.
— tão sufocante o calor, e quer me parecer mesmo que nuvens suspeitas surgem no horizonte!
— Que disparate! O céu está límpido; nada faz supor uma borrasca; dêmo-nos pressa em gozar a frescura; deve estar maravilhosa no lago!
E a trêfega Antonieta tomou o chapéu e a sombrinha, agarrou o braço de Rodolfo e, correndo desceu os degraus do terraço.
Acompanhou-os Samuel, seguido de Valéria, e guiou os hóspedes pelas aleias sombrias do parque, até o lago.
Abaixo de uma rampa de pedra estava ancorada uma dezena de embarcações, dos mais variados tipos e tamanhos e, no meio delas, uma grande barca enfeitada com flores e tapetes, certamente preparada para o passeio.
Rodolfo dirigiu um olhar descontente aos dois remadores postados na barca.
— Meu caro Samuel, aí estão preparativos que fazem pouca justiça à vossa imaginação; confesso não me ser agradável um passeio com estes dois sujeitos, e já que o tio e papai tiveram a boa ideia de ficar em casa, proponho tomarmos estes dois pequenos ioles, que parecem ter sido feitos para dois passageiros, e conduzamos cada um a sua dama.
O certo é que o jovem Conde pouca importância dava à conversa um tanto inconsequente da irmã, e do futuro cunhado, e desejava estar a sós com Antonieta.
— A ideia será aceita com alegria, se a Condessa Valéria a secundar - respondeu o banqueiro.
A jovem não se opôs de modo algum.
A impressão produzida pelo cantar de Samuel perdurava nela, os sons profundos e penetrantes de sua voz repercutiam ainda em seus ouvidos e ela aspirava uma hora de calma conversação.
Tomaram, portanto, assento os dois pares, e os cavalheiros, tomando os remos, afastaram-se, prometendo regressar ao mesmo ponto, em duas horas.
Rodolfo seguiu pela esquerda, para acompanhar as margens; Samuel remou para o meio do lago, de onde se podia avistar, ao longe, pequena ilha povoada de árvores.
Nem a mais leve aragem, enrugava a superfície do vasto lençol de água, límpido e polido como um espelho; remando com movimentos vagarosos, Samuel não conseguia desviar seus olhos da sua acompanhante, que, em seu vaporoso vestido branco e os longos cabelos loiros, se assemelhava à deusa do lago, subida à tona para se admirar nas águas translúcidas.
O coração do moço batia com violência; possuía-o a íntima certeza de que a aversão da jovem Condessa se substituíra um sentimento de que nem ela própria suspeitava:
a expressão que se espelhava com frequência em seus olhos azuis, tão puros, não era mais, com certeza, a da revolta; apesar disso, porém, ele sentia o inalienável anseio de ouvir, enfim, de seus lábios, qualquer palavra de encorajamento.
Descansando os remos, inclinou-se para a companheira, que se mantinha silenciosa, meditando.
— Valéria — disse — permiti-me que vos agradeça a visita de hoje.
Sinto-me imensamente venturoso por ter recebido em minha casa aquela que, muito próximo, será ali rainha e senhora.
— Oh! esta visita eu a fiz com a maior boa-vontade; percebi quanto a nossa separação vos inquietava.
— Agradeço-vos por estas palavras, e mais por terdes aquiescido em fazer comigo este passeio no lago; é a primeira oportunidade em que nos achamos a sós, isolados de maneira absoluta, afastados dos homens e dos vis preconceitos, e não me posso furtar ao desejo de vos dirigir uma pergunta:
Dizei-me, Valéria, poderei estar seguro de que não sentireis por mim esta aversão que me faz sofrer um inferno no íntimo, e me inspira, às vezes, a vontade de vos restituir a liberdade e, noutras, incita-me a vos prender a mim por laços eternos?
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 25, 2016 9:02 pm

O temor de vos perder desencadeia em mim uma tempestade de sentimentos frios e maus.
As faces de Valéria cobriram-se de forte rubor; intentou responder, mas incontrolável pejo lhe oprimiu a garganta, e nos seus olhos os sentimentos que a conturbavam afloravam tão vivos, que um suspiro de alívio e de alegria escapou-se do peito de Samuel.
— Não é meu objectivo forçar nenhuma confissão, Valéria, e nem me julgo com direito a tal, visto ainda não ser cristão; quando, porém, o baptismo tiver afastado o derradeiro obstáculo que nos separa, oh! então, afirmai-me se podereis sentir, algum dia, por aquele que será vosso esposo, uma parte do amor que lhe inspirais!
Um rouco ribombar de trovão cortou-lhes a conversação; olharam ambos para o céu, onde nuvens cinzentas se acumulavam, surgidas sabe Deus de onde, e moviam-se com rapidez vertiginosa; fresca aragem soprou, levantando ondas pequenas e balançando o barquinho.
Samuel agarrou os remos.
— Vai desencadear-se a tempestade — afirmou ele. — necessário alcançarmos a ilha, já que nos distanciamos muito da margem.
Pôs-se a remar decididamente, rumo à ilhota que já se avistava perfeitamente; adiantou-se, porém, a borrasca; fazia-se mais escuro de momento a momento; relâmpagos rasgavam o céu enegrecido; o vento soprava violento, agitando a leve embarcação, e impedindo que ela avançasse.
Quase não se podia mais suster a donzela, e a cada instante temia desequilibrar-se e cair no lago.
— Ajoelhai-vos no fundo do barco, Valéria — pediu Samuel, que se via impossibilitado de auxiliá-la, pois tinha as mãos ocupadas.
Rápido! prendei-vos a mim, não vos movimenteis, senão soçobraremos.
A jovem atendeu, sem delongas; abatida, porém quieta, seguia os pormenores da luta entre Samuel e os elementos.
Afinal, chegaram à ilha; nova dificuldade, entretanto, apresentou-se ali: quebrando-se de encontro à margem, as ondas raivosas e espumantes, refluindo, afastavam o barco, leve, repelindo-o com violência, impossibilitando aos dois ocupantes saltarem em terra.
Ante o perigo presente, o jovem tomou repentina decisão: ergueu Valéria nos braços, deu um salto ágil e vigoroso, e pisou a terra felizmente.
A jovem soltou um grito de medo.
— Nada receeis; estamos salvos - disse Samuel, enxugando a testa porejada de suor.
— Mas, e o nosso barco?
Como retornaremos?
Vede! exclamou a moça, apontando-lhe a embarcação que, arrastada pelas ondas, como casca de noz, dançava sobre a crista das vagas e já se perdia na cerração.
— Não nos hão-de esquecer na ilha deserta; procurar-nos-ão quando cesse a tempestade.
Ofuscante clarão rasgou o céu e o obumbrar de trovão, que fez tremer a ilha, apagou com seus estampidos as derradeiras palavras do banqueiro.
No mesmo tempo, gotas rotundas de chuva começaram a cair.
— Vinde! Sei de um lugar, aqui, onde vos podereis abrigar disse Samuel, arrastando a companheira, que a ele se prendia, tremendo em todo o corpo.
Em poucos instantes, chegaram a um grupo de rochas cinzentas, das quais uma se adiantava, à maneira de cobertura, e formando o conjunto uma espécie de grutazinha, aberta, com um banco de musgo no fundo.
Chuva torrencial principiou, tão-só Valéria se abrigara.
— Por que ficais aí à chuva?
Ficareis encharcado de água! — exclamou, puxando o noivo para o banco a seu lado.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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— Haveis de ficar mal acomodada; há tão pequeno espaço!
Perdeu-se no barulho da tempestade a voz de Samuel.
Desencadeava-se a tormenta em toda a sua violência; relâmpagos e estrondosos trovões repetiam-se quase ininterruptamente; catadupas de chuva caiam com fragor atordoante sobre as rochas.
O estrépito das ondas crescia, e tudo se conjugava num caos soberbo, mas apavorante.
Sem o pressentir, Samuel passara o braço em torno da cintura de sua companheira, que não se opôs de modo algum e descansou a cabeça em seu ombro.
Quietos e calados, permaneceram assim encostados um ao outro.
Desgostos, preconceitos, Valéria esquecera-os totalmente, e estranho sentimento de paz e ventura lhe enchia a alma.
Quanto tempo assim se deixaram ficar, não o poderiam dizer.
A borrasca afastou-se; o fragor do trovão sumiu-se ao longe; as nuvens esgarçaram-se, e os raios da Lua, prateados, iluminaram a superfície acalmada do lago.
— Santo Deus! Já a Lua?
Que horas serão e que terá sucedido a Rodolfo e Antonieta? — exclamou Valéria, erguendo-se.
Samuel sacou do bolso o relógio:
— Dez horas — anunciou.
E depois de um instante de atenção:
— Os que nos buscam vão chegar e, no tocante a Rodolfo, nada receeis; ele velejou pela margem, e nenhum risco correu; estais pálida, porém, Valéria.
Tivestes medo?
Balançou a cabeça e endereçou a Samuel um olhar húmido, brilhante:
— Nenhum temor sinto debaixo de vossa protecção; conheço, agora, que força e coragem tendes bastante para salvar das borrascas da vida aquela que em vós confiar.
E agora, Samuel, posso dar a resposta à pergunta que me fizestes no barquinho:
anseio, sem dúvida, pelo vosso baptismo, do qual nascerá para nós uma existência nova; mas, desde este instante, eu vos amo; prendestes meu coração, pouco a pouco, vencendo sobre a antipatia e o preconceito; a hora que passa clareou meus sentimentos e é de moto próprio que me entrego a vós.
Samuel atraiu-a ao peito, fremente de felicidade e, pela vez primeira, pousou-lhe nos lábios apaixonado beijo.
— Este momento faz esquecer todos os pesares, desprezos e desdéns que suportei — sussurrou ele:
— Hoje, somente, realizaram-se os nossos esponsais, Valéria, e penso que não vos negareis a atender a uma súplica.
— Claro! Se eu o puder fazer.
— Desde há muito tempo tenho comigo os nossos anéis de noivado , e a eles atribuo poder mágico; troquemo-los nesta hora de ventura.
Após o meu baptismo, benzê-los-á o padre Rothey; estarei mais sossegado, contudo, sabendo que levais o meu anel.
Ides viajar amanhã, por três semanas, o que significa uma eternidade; mau agouro persegue-me, fazendo-me temer que tal viagem seja aziaga e que não nos vejamos mais.
— Aqui tendes minha mão, Samuel, não forçada a isso, mas por anseio de meu coração; é com contentamento que levarei o vosso anel, demonstração evidente de nossa palavra empenhada.
Tirando com presteza a carteira, o jovem retirou dela dois anéis, guardados em papel de seda e depois colocou o menor deles, após levá-lo aos lábios, no dedo de Valéria.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 25, 2016 9:02 pm

— Por este anel, sinal da eternidade, ligai-vos a mim para todo o sempre — afirmou ele, com voz cava, e lúgubre expressão lhe fulgurou no olhar.
Quereis-lho de moto próprio; infortúnio caia sobre vós se me trairdes algum dia e perjurardes!
— Samuel! Por que me ofendeis com tais suspeitas?
Exijo, também, o mesmo juramento.
Sorriso cordial de ironia pairou nos lábios do moço.
— Para assegurar a minha fidelidade, nada receeis, Valéria; o meu amor extinguir-se-á com a vida.
— Por que motivo, pois, duvidais do meu?
Hoje estás com o humor inclinado à guerra, Samuel; para início, fizestes-me ouvir uma parenga pouco agradável a uma noiva; e duvidais, agora, de minha palavra?
— Certamente, sou um alienado e um ingrato, e bem mereço a vossa censura, fada; há dois dias que ando nervoso, agitado, perseguido por sombrios pressentimentos; tudo começou depois de um sonho, o qual era destituído de senso comum e que me aturdiu, sem dúvida, de modo incomum.
— Dizei-me como foi esse sonho, Samuel, já que não deveis ter mais segredos para mim.
O banqueiro premiu-a contra o coração.
— Ouvi, pois, rainha e severa senhora minha.
Quarta-feira, à noite, voltando de vossa casa, com a melhor disposição, deitei-me e adormeci, na contemplação de vossa fotografia, erguendo castelos para o futuro.
Sonhando, achei-me convosco, num magnífico prado, coberto de flores; andávamos, despreocupados, felizes, em direcção de uma igreja que, próxima, se fazia visível.
À porta do templo, que se achava totalmente aberta, abandonei vossa mão e disse:
"Até vista, Valéria; vou fazer-me baptizar nessa grande pia que vedes no centro da nave; aguardai-me frente à porta.
"A um vosso sinal de aquiescência, entrei; chegando-me à pia, porém, notei, com assombro, que ela não tinha água e que, em lugar de um sacerdote, ao lado se achava um jovem oficial de notável formosura:
loiro, como vós mesma, e seus olhos negros pousavam em mim com frio desdém.
Com ar displicente, deixava tombar na pia como que uma cascata de moedas de ouro, e, mostrando-me essa áurea chuva, disse, com desprezo:
— "Baptizai-vos nisso!
"Conturbado, sem nada entender do que ocorria, saí da igreja, com o fito de vos pedir uma explicação; tudo se transformara, porém; à minha frente, alargava-se uma avenida totalmente tomada pelo povo, cujos limites finavam-se numa espécie de arena, do mesmo modo lotada de gente.
Não sei porque, eu me encontrava num carro dourado, em pé, junto ao homem fardado; desta vez, contudo, ele trajava uma toga e levava na cabeça uma coroa de louros, à moda dos heróis romanos.
Vestia-me da mesma forma, com uma enorme espada, e bradava a toda força:
"Morte aos cristãos!".
Produziu-se um tumulto e no seu transcurso, matei a muitos homens, mulheres e crianças; e, no meio delas, encontrei-vos, inesperadamente, Valéria:
ajoelhada, os cabelos livres, o olhar baço, ergueis, unidas, as mãos para mim, mãos que seguravam uma cruz.
Bêbado pelo sangue e pela ira, clamei:
"Morre!", e levantei a espada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 25, 2016 9:03 pm

O oficial correu para vós, no mesmo instante, levantou-vos, e com tal rudeza me afastou que tombei de costas.
Ao erguer-me, conturbado, achava-me no jardim de minha casa de bairro, em Pesth, junto ao grande lago; contudo, senti-me doente:
de lado, constatei sangrenta chaga, que ardia como se fosse de fogo.
Diante de mim, com vestido de noiva, vós, Valéria, e eu apenas sabia que não vos casáveis comigo, porém com o homem louro, o que vestia farda.
A angústia estampava-se em vosso rosto e faláveis, sem que eu vos pudesse entender.
Acendia-se em meu imo desarrazoado ódio, e uma voz motejadora cantava, em qualquer lugar, a ária da Lúcia, que me ouvistes hoje.
Tanto me martirizava a ferida, que julguei enlouquecer; e, agarrando-vos, joguei-me convosco ao lago.
Ao mesmo instante, a voz de Rodolfo clamou:
"Ah! traidor! Assassino!"
"Assim despertei, num sobressalto; cobria-me todo o corpo suor gelado, e tão exacta se fazia a impressão do sonho, que julguei ainda vibrar a voz de Rodolfo e levei, mesmo, sem o querer, a mão ao lado, onde dor aguda me agoniava.
Após curto instante, recobrei de todo a razão, e entendi que havia sido burlado por um sonho; não consegui, porém, fechar os olhos pelo resto da noite."
A um tempo curiosa e impressionada, Valéria escutara-o.
— Trata-se de um pesadelo — afirmou, após breve silêncio.
Não alimentemos superstições. Deus nos guarda.
Ouviram-se, então, no lago os repetidos chamados de várias vozes, e um barco surgiu ao longe.
— Vêm para nos buscar — disse Samuel, estremecendo.
— Adeus, portanto, Valéria; permiti que me despeça de vós, agora; amanhã, seremos como estranhos, sob o olhar glacial de vosso pai.
— Não. Devemos ver-nos ainda uma vez.
Amanhã cedo, Samuel, vinde entre onze horas e meio-dia.
Estarei esperando-vos no pequeno bosque de Flora, junto à portinhola que dá saída para o campo. Lá conversaremos e podemos despedir-nos sem testemunhas.
Cheio de alegria e grato, o moço apertou-a contra o peito; então, alteando a voz, respondeu ao apelos.
Depois de alguns instantes, o barco, no qual se encontrava Rodolfo, atracou, e puderam retomar o caminho para casa. Próximos à rampa, o Conde, o Barão e Antonieta aguardavam, ansiosos.
— Acalmai-vos: eis aqui os náufragos sãos e salvos — gritou, alegre, Rodolfo, assim que os avistou.
Valéria saltou nos degraus e atirou-se nos braços do pai:
— Papai querido, se aqui me tens viva, tu o deves à coragem e à presença de espírito de Samuel — exclamou.
O velho Conde, no seu contentamento absorvente, não deu atenção alguma ao ar arrebatado de sua caçula, nem ao tratamento familiar dado por ela, honorificamente, aquele que, em seu entender, ela suportava com dificuldade; Rodolfo, porém, torceu as pontas do bigode e fixou sobre a irmã um olhar pejado de desconfianças.
No dia imediato a essa visita, Valéria acordou cedo e espreguiçou-se, num alegre bem-estar, nas almofadas de seda.
Há tempos não se sentia tão inteiramente feliz.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 25, 2016 9:03 pm

O futuro não lhe causava temores, mas sorria-lhe.
Toda corada, analisou o anel que Samuel lhe colocara no dedo, no dia anterior.
Que tolo preconceito pudera inspirar-lhe um sentimento de repulsa por esse homem tão belo, tão talentoso?
A hora cruciante que passara em seu jardim, voltou-lhe à mente, quando lhe exigira que lhe devolvesse a liberdade.
Para sua sorte, ele se negara a tal e, agora, um sorriso de ventura dançava-lhe nos lábios nacarados.
Aguardavam-na outros momentos mais agradáveis nesse jardim; passearia, ali, a sós, com Samuel, nas alamedas cheias de sombra, e sua voz sonora e harmoniosa, a cujas inflexões vibrantes e cheias de paixão tocavam-lhe cada fibra do coração, lhe sussurraria aos ouvidos palavras de amor, iguais as que ouvira na véspera.
Oh! quanto vinha em má hora essa viagem!
Longas, quão longas, sem ele, seriam essas três semanas!
Graças a Deus ela lhe marcara uma entrevista para esta manhã...
Tantas coisas ainda a dizerem-se um ao outro!
Num movimento rápido, empurrando as cobertas para o lado, fez soar a campainha, chamando a camareira.
A moça ataviou-se com especial cuidado; envergou um vestido de seda azul e um xale de rendas, que ressaltava a alvura nacarada de sua cútis; nos cabelos claros, passou um laço de fita, igualmente azul, deixando-os pender em duas tranças compridas; muniu-se, depois, do pequeno guarda-sol, não sem antes comprovar ao espelho que estava encantadora nesse traje simples e sem maiores preocupações; e correu ao local marcado para o encontro prometido.
Impaciente, pôs-se a passear pelo pequeno bosque, consultando o relógio (dez horas e meia da manhã, somente) e, decidindo-se, abriu, de improviso, a portinhola por onde devia passar Samuel e saiu.
À sua frente, alongava-se, a perder de vista, um terreno levemente montuoso, coberto de trigo, cujos pendões ondulavam à brisa.
A direita, imersa na distância, estava a estrada que conduzia a Rudenhof; torcicolando mais adiante, um caminho irregular, posto em péssimo estado pelas chuvas e pelas carroças, cheias de feixes de trigo, que passavam por ele durante o ano inteiro.
Valéria pôs-se a percorrer o caminho acidentado, colhendo centáureas e papoulas em sua passagem; chegada que foi a uma grande árvore, porém, cujos ramos davam sombra ao atalho, sentou-se em suas raízes, e pôs-se a trançar uma grinalda com as centáureas.
O portão de entrada do parque e também o caminho de Rudenhof, eram vistos por ela daquele abrigo, ficando, contudo, oculta inteiramente pela sombra dos ramos e pelas moitas de trigo.
Estava terminando a grinalda e prendia-a aos cabelos, quando, olhando para a estrada, viu que um cavaleiro chegava a toda brida.
Chegado ao muro, pulou com agilidade para o solo, prendeu a montaria, e procurou abrir a portinhola.
— Samuel! — chamou em alta voz.
O jovem voltou-se, de todo surpreendido; não vendo ninguém, entretanto, ia prosseguir.
Valéria repetiu, então, o nome e ele, guiando-se pela direcção da voz, encaminhou-se para o atalho.
De pronto, divisou Valéria, alegre, com um feixe de flores sobre os joelhos, parecendo, ela mesma, uma centáurea.
— Oh! como estás encantadora, minha querida — exclamou Samuel, sentando-se junto dela e com um beijo cortando as suas saudações.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 25, 2016 9:03 pm

— Sou grandemente feliz — ajuntou ele, em seguida - por achar-vos aqui, esperando-me; durante toda a manhã receei que, reflectindo melhor, vosso orgulho não aprovasse a nossa noite de ontem, e faltásseis agora.
A moça corou.
— Que juízo formais de mim?
Que orgulho agora nos separará, quando tudo está claro como o sol de julho?
Tão só uma dor me punge:
é que nos devemos separar.
Oh! por que ainda não sois baptizado?
Iríamos juntos...
Um clarão de felicidade chispou nos olhos de Samuel.
— Não demorará, minha querida, que eu seja, de corpo e alma, vosso e então nada nos poderá separar; se quiserdes, porém, fazer-me todo venturoso, tratai-me por tu, aqui, onde sós nos encontramos.
Este monossílabo íntimo, partindo dos vossos lábios, será para mim como um talismã.
— Desde ontem, mostrai-vos bastante exigente e nem um pouco tímido.
Não estivesse eu de viagem e responderia: não.
Hoje, porém, nada te quero recusar — murmurou Valéria toda confusa.
— Grato! Mil vezes agradecido!
Teu coração sentiu quão necessitado de socorro eu me encontro, mais do que nunca!
São três semanas que eu terei de passar num inferno de ciúmes.
Pensar que te encontrarás em uma sociedade estranha, cercada de homens jovens e brilhantes, que não poderão deixar de consagrar-te suas homenagens!
Tão formosa e encantadora, quem há que te veja e não te ame?
Nem saberão, esses homens, que estás comprometida com outro — alguém cujo nome ninguém dirá.
A medida que falava, Samuel entristecia-se, e um acento de profundo pesar vibrava-lhe na voz, enquanto em seus olhos negros brilhava estranho fulgor.
— Samuel, não sejas ciumento; bem sabes que te amo; quem poderá, portanto, vencer-te? — disse Valéria.
Percebendo, porém, que Samuel, triste, engolfava-se em pensamentos, ela, com um gesto carinhoso, inclinou-se e roçou-lhe a face, de leve, com a rosa que tinha na mão.
Com um suspiro arrancado do fundo do peito, Samuel disse, com tristeza:
— Querida Valéria, tenho sofrido, mais do que tu, a prepotência fatal dos preconceitos do mundo; tu mesma, enquanto não sabias de minha origem israelita, dispensaste-me benevolência, à qual Rodolfo pôs termo com uma palavra.
— Por que me torturas, Samuel, nesta hora que eu supunha passarmos totalmente felizes?
Descubro que guardas resquícios de ira pelo passado, quando o meu orgulho me inspirou as más palavras, — nas quais te estribas para suspeitar-me infiel!
Esqueces-te, contudo, malvado, que em tuas mãos, está a honra dos meus?
Não teria nunca podido amar-te, se não me tivesses feito guerra, e obrigado, por todas as formas, a sujeitar-me à tua lei.
A tua prisioneira, apesar de tudo, fez-se tua aliada!
— Não me relembres, nunca, estes factos, Valéria — pediu o mancebo, com a respiração opressa.
Ligar-se a uma mulher pela ameaça, sentir-se dominado pela paixão e saber-se desprezado e aborrecido; jamais conseguirei apagar da memória o cruel insulto que me atiraste em rosto, quando disseste que a minha origem despertava em ti insuperável aversão, desgosto tão vivo que nenhum baptismo apagaria.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 26, 2016 8:32 pm

Temendo que estes preconceitos, o teu natural orgulho te façam duvidar e corar da escolha que fizeste, posso ser considerado louco?
A sociedade não saberá que, no início, apenas quiseste remir tua família com teu sacrifício; não obstante isso, porém, continuarás decidida e fiel, quando te cercarem de honras e um aristocrata depuser a teus pés o seu amor e um nome digno de ti?
Se, apesar das tentações, jurares permanecer fiel e não te envergonhares de minha descendência, tudo farei para tranquilizar-me, sufocarei esse demoníaco sentimento que é o ciúme.
— Santo Deus!
Que espécie de jura exiges, então, Samuel? — inquiriu Valéria, envergonhada e como que conturbada.
Ele levantou os olhos para o sol, cujos raios esparziam cintilações na relva a seus pés.
— Este astro luminoso que tu vês, que a todos alumia, sem distinção de raça e crenças, foi criado por um Deus que é nosso, vosso, e que somente a humanidade relapsa, orgulhosa e ciumenta, dividiu com seu ódio fratricida, para mais facilmente destruir a harmonia do Universo, dirigida por uma única vontade.
Pois bem:
é a esse Deus soberano, Valéria, que eu invoco por testemunha do teu juramento e, se abjurares, que a vista desse sol, que brilha sobre nós neste momento, seja para sempre um remorso vivo, uma acusação ao teu ato de infidelidade!
A jovem escutara a tudo, descorada e os lábios a tremerem.
— Não tens piedade, Samuel, pois me atormentas assim; juro, porém, que te serei fiel, e não corarei de ti e que, se à minha palavra faltar, não quero nunca mais ver o Sol.
Estas últimas palavras foram sufocadas por soluços convulsivos.
As lágrimas da mulher amada venceram e amedrontaram o banqueiro, que se fez pálido e, caindo aos pés de Valéria, cobriu-lhe as mãos de beijos, suplicando-lhe o perdoasse, censurando-se por se deixar arrastar pelos seus maus pressentimentos, a ponto de ofendê-la.
— Preferes que fique? Direi que me acho doente e não comparecerei a essas núpcias, se com isso te acalmas — disse ela, de repente.
— Oh, não; peço-te, agora, que vás a esta festa, e não te lembre s de meu ciúme doentio; e, como prova de que me perdoas completamente, quero que leves isto.
Samuel, retirando do bolso do casaco uma pequena carteira de marroquim encarnado, depô-la na mão da noiva.
— Que quer isto dizer?
Que contém esta carteira? — indagou a moça, perturbando-se.
— É meu desejo que, nesta festa, estejas tranquila, alegre, livre de qualquer pensamento doloroso, com respeito a teu pai e teu irmão.
Em tuas mãos deponho todos os títulos de dívida.
Não me fazem falta mais documentos, já que me deste o teu coração...
— Guarda-os, suplico-te, e entregas a meu pai, na data conveniente, como foi acertado — pediu Valéria, extremamente pálida.
— Não; não tem o amor necessidade de vínculos visíveis, e causa-me horror apenas pensar que ainda estás sob o jugo de um sacrifício.
Juraste-me fidelidade, e eu acredito em ti, tanto quanto creio em mim mesmo.
Que serventia, para mim, têm esses documentos?
A ti, apenas, querida, é que eu quis, e jamais desejei a miséria dos teus; hei de me sentir mais tranquilo e forte, quando não puder opor-te outra arma senão meu amor; quando, com outra garantia não
contar, senão com teu coração honesto!
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 26, 2016 8:32 pm

Vencida, sem forças para recusar, diante da fé absoluta e da ternura ilimitada que se reflectia nos olhos do noivo, Valéria rodeou-lhe o pescoço com o braço e murmurou, emocionada:
— Aceito, Samuel; não darei nenhum fim a estes papéis, senão que os guardarei sempre, por toda a minha vida, como recordação dessa hora em que revidas às nossas injúrias e ao nosso desprezo com a mais generosa confiança.
— Que dizes? Ofensas? Tudo está olvidado, extinguido por este instante de suave ventura — respondeu Samuel, cingindo-a contra o peito, e osculando-lhe os cabelos perfumados.
Seguiu-se curto momento de silêncio; julgavam ambos terem atingido a perfeita ventura, essa fatamorgana'1' do inexperto coração do homem, que acredita estar de posse do que sua vista percebe e que, na realidade, é tão-só uma sombra falaz.
Percebendo que a noiva se fazia trémula pela emoção, Samuel controlou de pronto seus próprios sentimentos e, sentando-se outra vez, disse, jovialmente:
— Após o teu retorno, devemos, propositadamente, encontrar-nos neste mesmo sítio.
Jamais passou pela minha imaginação que esse caminho escavado me inspiraria veneração; deste momento em diante, sempre que for a Rudenhof, não me esquecerei de visitá-lo.
Oferta-me, por lembrança, essa coroa de centáureas que te assenta tão maravilhosamente; ou, antes, espera alguns instantes, ainda.
Será melhor.
Tirou do bolso um livrinho em branco e lápis; rogou-lhe que ficasse sem se mover, e, após alguns instantes, deu-lhe a ver um esboço acabado com rara perfeição.
— Por este esboço, pintarei o teu retrato a óleo — disse, rindo.
— O tempo correrá mais depressa, quando tiver, diante de meus olhos, teu formoso rosto.
— Ah! que óptima ideia!
Quanto está parecido o croquis! — exclamou Valéria, batendo as mãos pequeninas.
És sem favor, o mais gentil e galante dos noivos que se possa sonhar.
É tempo, porém, de nos despedirmos.
Posso garantir que Antonieta e minha camareira me buscam por todos os cantos.
Terei tão-somente o tempo de fazer minha toalete de viagem.
Quanto a ti, vai à procura de papai, e fica para nos acompanhares à estação; desejo ver-te até o último instante.
— A senhora fada será obedecida!
Montarei a cavalo e vou chegar muito nobremente pela grande avenida — respondeu Samuel, rindo, e saudando-a com extremada mesura.
— Adeus. Mandarei que te levem a grinalda.
No momento em que Valéria, corada e feliz, penetrou no seu quarto, anunciou-lhe a criada que Antonieta a procurava pelo jardim, já de toalete pronta.
— Fui a colher flores e atrasei-me um pouco.
Rápido, Marta, dá-me o vestido para a viagem e deixa-me.
Tenho de escrever, ainda, uma carta, urgentemente!
Trancou a pequena carteira vermelha na sua mala de viagem, e aprontou-se às pressas.
Ficando sozinha, correu ao aposento do irmão, tomou de sobre a secretária um porta-retrato de marfim com sua própria fotografia em tamanho pequeno, feita na Itália e, numa caixinha, fechou o retrato, assim como a grinalda, e juntou uma cruz de ouro, presa em fina corrente, e acrescentou um bilhete, nestes termos:
"Esta cruz recebi-a no dia da minha primeira comunhão:
quero que seja a cruz de teu baptismo.
Escreve-me para o endereço de Rodolfo e manda-me tua fotografia; minha resposta será dada pelo mesmo portador."
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 26, 2016 8:32 pm

Fez soar, logo depois, a campainha, chamando Marta.
— À tarde, desejo que esta caixinha seja enviada ao senhor Maier; é o valor de uma aposta que ele ganhou; faça com que, depois de partirmos, a levem a Rudenhof.
Guardou, em seguida, no bolso, a chave da caixinha, para dá-la a Samuel, e correu para o salão, onde era aguardada com geral impaciência.
No decorrer do almoço, foi anunciado a Samuel, por um criado, que um lacaio, acabava de trazer pacote destinado a ele.
O banqueiro pediu que o pusessem no salão ao lado.
Quando se ergueu da mesa, e já se tinha retirado os criados, abriu o pacotinho, dele retirando dois escrínios para jóias.
Chegando-se para junto das duas jovens, disse, corando:
— Nunca me foi dado, até agora, oferecer a cada uma de vós qualquer mimo.
— Pois sim!
Que são, pois, os confeitos e as flores, em caixinhas e jarras, que são outras obras de arte? — cortou, rindo, Antonieta.
— Flores e confeitos permite-se a qualquer pessoa oferecê-los; por ocasião, porém, de vosso matrimónio, senhorita Antonieta, suplico-vos aceiteis esta pequenina lembrança, na qualidade de minha futura madrinha e parenta.
Vós me destes sempre tantas mostras de benevolência e amizade, que me ferireis não aceitando.
No tocante a vós, senhorita Valéria, não haveis de recusar a primeira oferenda que ousa ofertar-vos o vosso noivo.
Antonieta, cheia de curiosidade, abriu o seu escrínio e, à vista de magnífica guarnição de rubis de estilo antiga, estendeu a mão a Samuel, dizendo:
— É deveras bela! Aceito.
Admiração geral conquistou a guarnição de Valéria:
tratava-se de uma grinalda de margaridas trabalhadas em diamante.
Tão admiráveis eram a selecção das pedras e o labor de arte, que, incapaz de sufocar a alegria, Valéria desejou experimentar o efeito do adereço, no mesmo instante.
Samuel, com apaixonado olhar, fê-la compreender que a jóia assentara-lhe de modo maravilhoso.
A conversação interrompeu-se ao anúncio de que as carruagens estavam prontas.
Antonieta correu a acomodar os escrínios, Rodolfo, o velho Conde e o Barão de Hoyeu saíram para os derradeiros aprestos.
Os noivos ficaram sós, por instantes.
— Toma esta chave:
com ela, abrirás uma caixinha que, à tarde, te levarão.
— Adeus, Valéria, regressa breve, e não me esqueças demais — sussurrou Samuel, com penosa emoção.
— Jamais! Para ti será o meu primeiro pensamento, de manhã; à noite, o último — respondeu ela, atirando-se em seus braços.
Nesse instante, Antonieta ergueu o reposteiro e, vendo esse beijo de despedida, afastou-se, com um gesto de espanto.
Passados dez minutos, estavam todos nas carruagens, e encaminhavam-se para a Estação, onde apenas chegaram a tempo de tomar o trem.
Trocou-se uma última saudação com Samuel, na gare, em pé; depois, a locomotiva pôs-se em andamento, conduzindo seus passageiros.
Cabeça caída ao peito, o coração saltitante, Samuel aboletou-se na sua carruagem e buscou a estrada para Rudenhof.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 26, 2016 8:33 pm

Tudo semelhava vazio e obscuro.
O resto do dia, passou recostado no terraço.
À tarde, a caixinha que lhe trouxeram, devolveu-lhe um tanto o equilíbrio; leu várias vezes o bilhete de Valéria, beijou a cruz de ouro, e, tendo diante de si a pequena foto, ensimesmou-se na contemplação do formoso rosto da noiva.
Olvidando temores, desavenças, ciúmes, arquitectou e sonhou una longo futuro de venturas.
Infeliz Samuel!
Ignorava quanto seria curto seu sonho, e o áspero acordar produziria sombras em muitas épocas de sua existência.

1 Fatamorgana - Em italiano, este termo se refere à ilusão visual do oásis, fenómeno óptico que ocorre aos que se internam no deserto (N. do T.)
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 26, 2016 8:33 pm

5 — NOVO SACRIFÍCIO PELA HONRA DO NOME

Reinou silêncio no vagão, logo que o trem que transportava o Conde de M""" e sua família deixou a estação.
Valéria afundara-se nas almofadas, cerrando os olhos; estava triste, e mais dolorosa do que desejara dar a entender, era a separação de Samuel.
O Conde de M""" imergia na leitura de um jornal; os noivos, contudo, tranquilos no seu sossego, deram início a uma conversa que terminou por despertar a curiosidade da jovem Condessa.
Falavam da princesa de O""" e de seu filho único Raul.
— Estou sobremodo curiosa por rever meu primo — dizia Antonieta, no instante em que Valéria passou a prestar atenção.
Não o vejo há cerca de oito anos, pois quando passei, há quatro anos, um período de férias em casa de tia Odila, ele encontrava-se em Nice, com seu aio; tu, Rodolfo, viste-o contudo no Regimento: Como está?
Dava-nos a esperança de se tornar extraordinariamente belo!
— Pois ele satisfez plenamente essa esperança.
É um precioso modelo para Apolo ou Adónis!
Destoa apenas em que é bastante franzino, e de aspecto doentio.
Apenas alguns meses serviu no Regimento (estavas, então, com Valéria na Itália); depois, concederam-lhe, por motivo de saúde, licença de oito meses, a qual vem de terminar.
Contudo, fez-se prezar pelos companheiros.
É amável, de uma ingenuidade de menina, apesar de suas vinte e uma primaveras; não bebe, não joga, evita toda sociedade e, de modo algum, não é um desiludido, o que me parece milagre, pois as mulheres o assediam com frequência.
Fará muitas conquistas, porém, no dia em que aquilatar o poder que sua aparência e posição lhe conferem; e sou muito venturoso, por não ter tido tempo de se tornar meu rival.
Antonieta de Eberstein riu-se.
— És deveras modesto, meu Rodolfo.
Um rapazola, como o é Raul, não poderia tornar-se perigoso; estou, contudo, contente por se ter tornado um homem bem comportado e simpático.
É a única riqueza de sua mãe: infeliz tia Odila! quase enlouqueceu com a perda do marido.
Abandonou tudo, depois, e apesar de sua beleza, juventude e fabulosa fortuna, enclausurou-se nas suas propriedades da Estíria, e vive dedicada exclusivamente ao filho, que é o seu ídolo.
Aos poucos, Valéria voltava à sua apatia.
"Algum insípido mimado!
Não pretendo sequer confrontá-lo com Samuel, tão belo, tão autoritário e tão talentoso!" — pensou ela.
E cerrou os olhos.
Passadas algumas horas, chegaram os nossos viajantes à estação de destino, onde deviam permanecer até que se dirigissem, de carruagem, ao castelo da Princesa.
Desceram todos.
De repente, Rodolfo mostrou, a rir, um oficial que passava junto deles, em meio à multidão, procurando-os.
— Aqui estamos, Príncipe!
O jovem voltou-se rapidamente e cumprimentou os seus hóspedes com cordialidade.
Era de facto um jovem atraente o príncipe Raul do O""".
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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