Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 8:37 pm

Acreditava no restabelecimento do esposo.
Em certa noite, Valéria sentou-se perto do enfermo e fez planos para o futuro.
Falava com meiguice. Raul tudo ouvia.
E, com um sorriso melancólico, beijou-a na fronte e respondeu:
— Minha querida para que me falas em esperanças quando os médicos não as têm?
Não seria melhor nos prepararmos para a separação que pressentimos?
Valéria abraçou a Raul e gemeu baixinho.
— Raul, não fales assim!
Não posso acreditar em tal:
és moço, és forte, hás-de viver!
O destino não pode ser tão cruel quando mal conquistamos a felicidade!
E a voz de Valéria se abafou nas lágrimas abundantes.
— Tudo quanto Deus faz é bem feito, Valéria!
Além do mais, querida Valéria, a morte do corpo representa apenas uma separação provisória:
os invisíveis, tu bem o sabes, não estão ausentes!
Nada Valéria respondeu:
com a cabeça encostada ao peito do esposo, chorava convulsivamente.
Raul deixou-a desabafar, mas também chorava em silencio.
— Não me aflijas, querida! — disse Raul, dominando-se.
— Nenhum de nós poderá fugir da morte.
E não te esqueças que te deixo um filho a ser educado.
A ele deves a tua vida, por ele tens o dever de zelar a tua saúde preciosa.
— Se uma desgraça horrível me ferir, eu te juro, meu Raul, seguirei o exemplo de tua mãe e me consagrarei ao nosso filho o resto de meus dias.
O Príncipe sacudiu a cabeça, dizendo:
— Não quero aceitar tal promessa.
Não posso exigir luto eterno.
Considero sacrilégio contra a natureza um ser que através de um juramento fica preso a um túmulo.
Ficarás livre, minha Valéria.
Viverás como mandar teu coração.
E já que abordamos assunto tão desagradável, quero fazer-te um pedido.
Na gaveta esquerda da minha secretária existe uma carta, selada e lacrada, dirigida a ti.
Vai buscá-la e conserva-a contigo, mas sem abri-la.
Se Deus me chamar, vinte e quatro meses depois poderás abri-la.
Antes dessa data, não, te peço.
As linhas que escrevi te provarão que o meu amor vela por ti tanto quanto hoje, querida.
Emocionada, Valéria buscou a carta, beijou-a e em seguida guardou-a numa bolsinha que a acompanhava sempre.
— Tudo quanto vem de ti, querido, é para mim sagrado.
Mas espero que fiques curado e assim hei-de devolver-te a carta, sem a ler jamais.
Passaram-se algumas semanas.
Raul enfraquecia a olhos vistos.
Desalentado, pediu a presença de Rodolfo e Antonieta.
Valéria telegrafou para ambos.
Quando soube que o conde e a esposa chegariam naquela manhã, Raul se fez conduzir até ao terraço, agora envidraçado.
— Como te sentes hoje? — perguntou Valéria, enquanto arranjava melhor os travesseiros.
— Bem melhor mas estou sentindo uma estranha sonolência.
Se baixares as cortinas, creio que dormirei um pouco até os nossos parentes chegarem.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 8:37 pm

Assim fez Valéria.
Depois puxou uma poltrona e sentou-se ao lado do esposo, que sorria feliz, dormindo em seguida.
Também Valéria adormeceu, tão cansada se sentia.
E adormeceu tão profundamente, que nem sequer percebeu o suspiro rouco que ergueu o peito do Príncipe; não sentiu o tremor convulsivo que sacudiu o corpo de Raul; nem mesmo o rodar da carruagem que acabava de parar diante da escada.
Mas os passos fortes que ressoaram no terraço a fizeram abrir os olhos.
De pé, colocou um dedo sobre os lábios, pedindo silêncio, e abraçou o irmão e a cunhada.
— Ele dorme — disse Valéria.
Seu sono é precioso.
Vai sentir-se bastante alegre quando despertar, e vê-los!
Rodolfo aproximou-se nas pontas dos pés; ao olhar Raul de perto, o conde empalideceu.
Fazendo um sinal imperceptível a Antonieta, pediu que afastasse Valéria do terraço.
Mal ambas saíram do aposento, Rodolfo chamou um criado e ordenou-lhe chamasse um médico.
Este veio correndo, mas com um simples olhar compreendeu que tudo se findara:
o Príncipe de O""" estava morto.
Embora Antonieta procurasse reter Valéria, a Princesa fez questão de voltar ao terraço.
— Talvez o meu Raul já esteja acordado.
Preciso estar ao seu lado.
E caminhou para o terraço.
Ao ver o médico, um mau pressentimento agitou-lhe o corpo.
— Raul! — gritou e precipitou-se para o divã.
Rodolfo procurou detê-la.
— Coragem, minha irmã!
Coragem, que Raul deixou de sofrer!
Valéria gemeu alto e caiu para trás, desmaiando nos braços do irmão.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 8:37 pm

10 — A VIUVEZ

A morte de Raul deixou Valéria num profundo desespero.
O esgotamento nervoso, provocado pelas longas vigílias, resultou numa doença que a obrigou a ficar em Nice, por diversas semanas.
Antonieta, sempre solícita, a tratou com dedicação especial, aliás ajudada pela simpática Sra. Bertin, que sentia por Valéria sincera simpatia.
Durante a convalescença, certo dia Valéria pediu à Sra. Bertin que evocasse o Espírito da princesa Odila.
Ela concordou; mas grande foi a surpresa: ao invés da princesa, quem se manifestou foi Raul!
Mas de modo tão convincente, que Valéria não teve dúvidas: e seu coração sentiu alívio profundo.
Fora em meados de setembro que Raul morrera.
Somente um mês depois a Princesa regressou a Pesth, acompanhando o corpo embalsamado do esposo.
Após a inumação Valéria instalou-se no palácio, agora deserto, jamais fazendo ou recebendo visitas.
Seu desespero, aos poucos, foi transformando-se em calma resignação; mas a tristeza a tornou indiferente a tudo que não dissesse respeito ao culto de suas recordações.
Contemplava durante horas o retrato de Raul, convencendo-se de que sua alma não a deixava:
e assim evocava na memória o timbre da voz do esposo, seu olhar aveludado, buscando desta forma encher o vácuo que a oprimia.
Quantas vezes não pensou em abrir a carta que Raul lhe deixara!
Mas o marido lhe dissera:
"Não antes de 24 meses"!
E Valéria, suspirando, beijava a carta e tornava a guardá-la.
E o inverno passou.
Valéria nunca viu o banqueiro.
Evitava mesmo pronunciar seu nome.
Desde a última vez que o viu, um sentimento amargo, quase de raiva, lhe havia invadido o coração.
Agora que estava viúva e livre, temia muito tornar a vê-lo.
Além do mais, estava vivendo tão próxima de Rudenhof...
Foi pois com alegria que soube que o banqueiro partira, com as crianças, para sua propriedade em Válden, a fim de passar o verão. Valéria sentiu-se aliviada.
Para Rodolfo, porém, Hughes era um excelente amigo.
Depois da reconciliação e da partida de Raul e Valéria para Nice, o banqueiro passou a visitar frequentemente Rodolfo.
Trazia sempre as crianças, as quais ficaram íntimas das do Conde.
Antonieta favorecia essas relações, desejando uma aproximação cada vez mais afectiva entre os pequenos, tão ligados pela origem.
Quando porém Hughes soube do regresso da Princesa a Pesth, pôs-se a esquivar-se; Rodolfo porém compreendia essa atitude do banqueiro e muito o apreciava por isso.
Certa tarde, no campo, Rodolfo e o banqueiro se encontraram.
Após rápidos cumprimentos Hughes já se dispunha a despedir-se, quando o Conde lhe perguntou à queima-roupa:
— Por que capricho deixaste de ir a Rudenhof este ano?
Minhas crianças estão tristes por não verem seus pequenos amigos.
E tu, porque não vens visitar-nos?
Hughes sentia as faces se avermelharem.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 8:38 pm

— Pensei que devia agir assim para evitar aborrecimentos para a Princesa, — disse, evitando o olhar firme de Rodolfo.
— Não quero que ela tenha recordações desagradáveis.
Mas enviarei Egon e Violeta, de amanhã em diante, se assim quiseres.
À noite desse mesmo dia, achando-se a sós, Rodolfo puxou Antonieta para um divã e disse:
— Ouve, Antonieta.
Não julgas, como eu, que Valéria tornará a casar-se?
Ela é jovem, é bela, não ficará eternamente a chorar pelo Raul!
— É possível, - respondeu Antonieta.
É até provável, mas não agora!
Ela não pensa nisso.
— Qual! — respondeu Rodolfo torcendo o bigode.
Ela há-de tranquilizar-se, e a vida tomará novos rumos...
Fala, francamente, Antonieta: que acontecerá?
Bem sei que tu tens, às vezes, um golpe de vista profético!
Antonieta deu uma larga risada.
— Sim! Estás jogando verde para colher maduro...
Queres saber se, acalmada a dor, Valéria se casará com Maier, hein?
Mas penso que não:
em primeiro lugar, porque Valéria acharia essa união uma ofensa à memória de Raul!
Depois, porque Maier está muito prevenido contra ela.
Ele jamais reatará ligações com o passado...
— Ele é ciumento como dez diabos! — clamou Rodolfo, pensativo.
— um homem muito estranho...
— Não podemos desejar que eles voltem ao ponto em que estavam há nove anos atrás! — replicou Antonieta.
— Certamente que não!
Mas, às vezes pergunto a mim mesmo, temos o direito de novamente jogar os preconceitos na balança dos destinos desses dois entes ou, ao contrário, devemos adiar que é a manifestação da vontade divina a união de ambos, união que devolveria à infeliz criança roubada sua verdadeira mãe?
Antonieta não se conteve e enlaçou o pescoço do marido, dizendo:
— Se eu pudesse, ainda te amaria mais e mais neste instante!
Tuas palavras são justas e generosas.
Sim, Rodolfo, façamos a promessa de não por nenhum obstáculo à vontade do destino, e de aceitar, sem repugnância, o que o alto decidir.
Contudo, o inverno passou sem nenhuma novidade...
E veio a primavera, festiva e brilhante.
E Rodolfo instalou no campo a esposa e a irmã, passando com elas todos os momentos disponíveis.
Era nos meados de junho.
Muito calor, quase sufocante. Em uma dessas tardes, Valéria, que gostava de passeios solitários, se dispôs a sair um pouco, prometendo porém a cunhada voltar para o chá.
— Santo Deus!
Como podes, Valéria, passear com esse calor?
A atmosfera está pesadíssima, o céu rubro, talvez desabe uma tempestade.
— Fazem quinze dias que o tempo é o mesmo, e não há-de chover exactamente no dia em que pretendo sair.
Em todo o caso, aviso-te de que vou para os lados do pavilhão de um lugar delicioso, muito fresco, onde gosto de ler à sombra das árvores.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 8:38 pm

Tomou um livro, despediu-se de Antonieta e desceu ao jardim.
Valéria conquistara a calma.
Mas a suave melancolia dos olhos azuis se espalhava em seu rosto de uma beleza delicada.
Vestia um leve vestido de granadina, um chapéu de abas largas, feito de palha, a protegia contra o sol.
Com seu passo vivaz, atravessou o parque e ganhou a floresta.
Respirou profundamente, sentindo o agradável odor aromático.
Sem perceber, desviou-se do caminho e seguiu por um atalho, que não conheci.
E assim foi sair numa pequena clareira, onde havia um banco de musgo, feito pela natureza.
— Como é que nunca vi este sítio tão maravilhoso? — pensou Valéria sentando-se, já fatigada.
Abriu o livro e absorveu-se na leitura.
Longo tempo assim ficou, quando um súbito escurecimento a fez levantar a cabeça:
o céu estava todo coberto por grossas nuvens escuras, ameaçava uma tempestade.
Levantou-se rapidamente para regressar à casa.
Mas não dera alguns passos e os primeiros pingos começaram a cair.
Valéria, inquieta, suspendeu o vestido e saiu a correr, esperando encontrar o pavilhão de caça antes que a tempestade desabasse, de uma vez.
Mas a Princesa não encontrava o caminho.
Seus pés enterravam-se nos musgos, as vestes prendiam-se nas arvores e nos espinhos.
De súbito, pensou haver adiado o caminho.
Correndo, olhando o chão, eis que de repente esbarrou violentamente em alguém, quase caindo ao solo se dois braços não a amparassem.
Muito assustada ergueu os olhos e recuou, soltando instintivamente esta exclamação:
— Samuel! Tu?!
Depois, procurando acalmar-se, acrescentou sentindo que uma onda de sangue lhe afluía ao rosto:
—Perdão, Sr. Barão, eu esbarrei violentamente!
O banqueiro, surpreso, inclinou-se, dizendo respeitoso:
— Eu é quem peço perdão, Senhora Princesa, pelo susto que provoquei, pondo-me tão desastradamente em vosso caminho e assim provocando esse choque.
Apesar da delicadeza dessas palavras, havia nelas qualquer coisa que feriu Valéria; a Princesa procurou passar bruscamente mas Hughes lhe tolheu o passo, dizendo:
— Permita-me advertir que estais muito distante da vossa casa.
A chuva está aumentando e ficareis encharcada de água, mormente se atravessardes o campo.
Permita que eu vos conduza a alguns passos daqui, onde se encontra uma casinha de madeira capaz de nos oferecer abrigo até que a tempestade passe.
— Obrigada, mas ... eu não receio molhar-me e desejo mesmo voltar — respondeu Valéria sentindo no coração uma surda irritação.
— Podereis ficar doente por causa de um simples capricho, Senhora.
Quem é mãe deve ter mais prudência.
Ou antes... (uma amarga expressão de ironia vibrava na voz de Hughes) a minha presença vos é tão desagradável até esse ponto?
Francamente, não tenho consciência de haver provocado ou merecido tal lição.
Valéria levantou altivamente a linda cabeça e então um fulgor de despeito lhe saltou dos olhos muito azuis.
— Vossa maneira de persuadir é irresistível, Sr. Barão.
Aceito o oferecimento.
Quanto à ideia de que vossa presença representa um papel nas minhas decisões é completamente errada:
eu apenas tenho receio de que meus parentes fiquem inquietos com minha ausência...
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 10, 2016 8:56 pm

O banqueiro nada respondeu.
E, com gesto delicado, fê-la acompanhá-lo através de moitas, arbustos e árvores, naquele lugar muito espessas.
Após boa caminhada foram sair numa vasta clareira que descia para um pequeno vale, ao fundo do qual corria um regato borbulhante.
Ao meio da clareira elevava-se um pequeno pavilhão de madeira, todo ele envidraçado em uma das faces.
Um balanço estava suspenso entre duas árvores, próximas.
Maier tirou do bolso uma chave, abriu a porta do pavilhão, convidou a Princesa a entrar, ficando ele do lado de fora, exposto à chuva agora violenta.
Valéria com um simples olhar correu o aposento:
mesas, cadeiras, uma roca de fiar. Por certo o casebre servia de "atelier":
junto à parede envidraçada havia um cavalete sobre o qual estava um quadro coberto por um pano verde.
Ao lado, havia caixas de tintas, um tamborete, uma palheta, pincéis.
Do outro lado, sobre a mesa, rolos de papel, arcos, um jogo de bolinhas e outros brinquedos.
Valéria sentou-se numa das cadeiras, em frente ao cavalete:
e percebeu então que Maier não havia entrado.
— Que fazeis, Sr. Maier? — perguntou ela após um instante de hesitação.
Por minha vez, devo dizer-vos que arriscais a vida, e que um pai necessita ser mais cuidadoso consigo mesmo, notadamente quando os filhos não tem outra parentela.
Não desejo assumir a responsabilidade da vossa morte e, se não entrardes, desisto da hospitalidade e deixarei este abrigo.
— Acredito-me bem mais robusto do que vós, cara Senhora — disse o banqueiro com um leve sorriso a iluminar-lhe o rosto.
Além disso, tantas vezes tenho escapado da morte, que já me julgo invulnerável.
Mas, tranquilizai-vos, Princesa:
não tereis remorso de me fazerdes morrer antes do tempo:
obedeço e me coloco ao abrigo da tempestade.
E Hughes entrou e encostou-se à porta.
Houve um silêncio.
Involuntariamente, o olhar de Hughes resvalou em Valéria e nela se deteve.
Uma admiração apaixonada, inúmeras recordações lhe faziam acelerar o coração.
Por um momento Hughes esqueceu o passado trágico que os havia separado.
As recordações envolviam o cérebro de Hughes.
Não podia esquecer jamais Valéria.
Lembrou-se dos primeiros tempos de noivado e um grande suspiro lhe brotou do peito oprimido. Rodolfo
não se enganara; o banqueiro era ciumento, e esse sentimento o torturava às vezes quase até à loucura.
O velho amor, quase extinto, voltava agora com uma força nova, impulsiva, irrefreável.
Maier já não era o moço que desejava escalar o céu.
Para si mesmo, nada aspirava, embora tivesse certeza de que Valéria, tão bela, tão jovem, tão irresistível, acabaria um dia por fazer nova escolha...
Mas o pensamento de que Valéria poderia ser de um outro deixava Hughes alucinado:
e então lhe vinha aquele ciúme furioso, o desejo de ofender Valéria, fazê-la ver que nada mais ela representava em sua vida...
Sentindo o olhar inquiridor do banqueiro, Valéria sentiu-se incomodada.
O silêncio que reinava entre ambos tornou-se então insuportável.
— Por que ninguém mais vos vê, Sr. Barão? — disse ela, voltando-se.
(Um rubor súbito tomou-lhe as faces)
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 10, 2016 8:56 pm

Rodolfo tem-se queixado de que muitas vezes o evitais sem motivo.
E não atendeis aos convites dele.
— Ando bastante ocupado e pouco frequento a sociedade.
Além do mais... (e a voz de Hughes tornou-se velada) sei, por experiência
própria, que não posso abusar da benevolência do conde, uma, vez que ele precisa dedicar-se com exclusivismo à Senhora Princesa.
— Ah! se procurais evitar minha presença, não será por muito tempo, pois pretendo seguir brevemente para a Estíria — disse Valéria, puxando nervosamente o manto rendado.
— Não foi esse sentido que dei às minhas palavras, Senhora.
Quis apenas lembrar que, com a minha presença, despertarei a lembrança de um passado cruel.
Houve novo silêncio.
Cada vez mais nervosa, a Princesa o interrompeu fazendo uma nova pergunta, desta vez banal:
— É possível saber o que andais a pintar?
— Sim; mas meu trabalho pouco interessará:
é assunto bíblico e assim que terminar o quadro eu o enviarei a um bazar de beneficência, onde será exposto.
E Hughes afastou a cortina que ocultava o quadro.
Ao olhar o quadro, Valéria recuou, petrificada.
Era um quadro enorme, quase pronto, e representava o fruto dos pensamentos e sentimentos do artista:
representava Dalila cor tando os cabelos de Sansão adormecido.
O herói israelita estava repousando num leito; seu rosto exprimia calma.
Os lábios, entreabertos, mostravam um sorriso de felicidade.
Dalila inclinava-se sobre o adormecido.
Estava vestida com túnica branca, e seus cabelos castanhos ondulavam sobre as espáduas e sobre o peito.
Numa das mãos tinha uma tesoura e na outra uma mecha de cabelos.
Nos seus olhos azuis desenhava a mais cruel satisfação.
A cólera e a indignação pintaram de um vermelho purpúreo o rosto de Valéria.
— E ousareis expor esta pintura odiosa?
— Mas, bom Deus! por que não, Princesa? — respondeu o banqueiro tornando a cobrir o quadro.
O assunto não é novo, mas a sua actualidade é eterna:
mais de um Sansão moderno deveria lembrar-se da lição, e assim não se entregar a uma Dalila, que o trairá na ocasião oportuna por um preconceito de raça, tal como a bela filha dos filisteus, que acreditava fazer acto meritório vendendo o imprudente judeu!...
Valéria deu um passo para o banqueiro.
Seu rosto parecia ardente.
— O que quereis dizer com essas indirectas, Sr. Maier?
Por que pareceis raivoso contra mim, agora?
Que fiz eu para que tenhais a vontade de punir-me pelo passado?
— Eu, raivoso? — repeliu Hughes olhando os olhos brilhantes de Valéria.
Eu, querer punir-vos pelo passado?
Mas que direito tenho eu?
Como vos iludis estranhamente, Princesa!
Sei que nós ambos esquecemos as loucuras da juventude.
A cada um de nós deu o destino uma tarefa:
a mim, a de pagar certas dívidas, amando e educando os filhos do Príncipe; e a vós, a de velar por vosso filho e chorar fielmente o homem bondoso que tanto vos amou!
Nesse instante ouviram-se gritos e chamados.
Hughes interrompeu-se.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 10, 2016 8:56 pm

— Estão procurando-vos, Senhora.
Por aqui! — exclamou o banqueiro, após haver prestado atenção.
Logo depois apareceu um empregado, carregado de mantas.
Vinha esbaforido.
— Seja Deus louvado, Alteza!
Estais sã e salva.
Há uma hora que vos procuramos, eu e o Baptista.
— Trouxeste o carro, Pedro? — interrogou Valéria aceitando friamente a manta que Hughes recebera do empregado.
— Trouxe, sim, Alteza.
O carro está a cem passos daqui.
É impossível aproximar-se mais.
Valéria chegou em casa visivelmente agitada.
Não respondeu nem mesmo às perguntas de Antonieta.
Disse apenas que estava com uma violenta dor de cabeça e correu a encerrar-se no quarto.
As lágrimas eram abundantes.
— Insolente! Infame!
Comparar-me a uma Dalila! — dizia ela lançando-se sobre o divã.
Neste momento, Valéria detestava o banqueiro.
Se pudesse, pisá-lo-ia.
Aflita e mesmo espantada, Antonieta consultou os empregados.
Sabendo que a amiga havia sido recolhida pelo banqueiro, logo suspeitou das causas da dor de cabeça de Valéria.
Curiosa pelos detalhes, Antonieta veio bater na porta do quarto.
Valéria veio à porta e atirou-se nos braços da amiga.
— Bom Deus! Fada, que aconteceu?
Eu soube que encontraste o Maier. Ele ofendeu-te?
— Disse-me uma porção de maldades e ousou zombar de mim — disse Valéria com o rosto afogueado.
E, com a voz entrecortada, relatou tudo.
— Esse Sansão e essa Dalila são o seu retrato e o meu.
E é esse quadro abominável que ele quer expor!
— Tranquiliza-te, Valéria.
Esse quadro, garanto-te que Maier não exporá em lugar algum.
Rodolfo, amanhã, irá à casa dele e há-de repreendê-lo!
Mas não vejo ofensas no que disse o Maier.
É bem verdade que ambos têm deveres a cumprir.
Mas tu és muito nervosa!
A solidão te é nociva.
Neste inverno aparecerás novamente na sociedade.
— Nunca, Antonieta.
A sociedade me é odiosa!
Partirei para a Estíria.
Não me impeças, Antonieta.
Sei que esta mudança me fará bem!
— Sim, tens razão, Valéria.
Eu mesma passarei contigo uns quinze dias.
E em setembro o Rodolfo nos buscará.
Combinado isto, Valéria aceitou uma gotas de calmante e deitou-se.
A Condessa então retirou-se dos aposentos da amiga.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 10, 2016 8:56 pm

Rodolfo já havia chegado em casa.
Estava em seu gabinete arrumando papéis, quando Antonieta entrou, um pouco nervosa.
— Que tens? Soube, pelo Batista, que Valéria ficou indisposta.
Será grave?
— Não, sua saúde está perfeita.
Mas imagina que ela encontrou nesse passeio o Maier!
— Cruzes! Espero que não hajam se reconciliado, hein? — disse o Conde, com um trejeito.
— Muito ao contrário, Rodolfo, ele a ofendeu sistematicamente!
E Antonieta contou o sucedido.
Ao contrário do que ela esperava, Rodolfo deu uma gargalhada.
— Diabo de homem!
Sabe fingir para conquistar a mulher e sacudir sua indiferença!
Pobre Valéria! ah! ah! ah! uma Dalila!
E Sansão arrebenta de ciúmes, desde que ela tornou-se viúva!
É por isso que ele é tão mordaz, e joga sua raiva na tela.
Mas dize à Valéria que amanhã falarei com ele, pois irei a Rudenhof.
No dia seguinte, o cabriole do Conde estacou frente à grade do parque de Rudenhof.
Rodolfo desceu e, pelas alamedas, dirigiu-se até a casa.
Perto da relva, avistou duas crianças que brincavam vigiadas por empregados.
Ambas correram ao encontro de Rodolfo.
— Não trouxeste Jorge? — perguntou Egon, desapontado.
— Não, meu bom rapaz, mas trago-te um convite para visitá-lo amanhã á tarde.
Teu pai está em casa?
— Sim. Ainda há pouco ele jogou bolinhas connosco.
Mas agora ele está no gabinete turco, perto do "atelier".
— Bem, vou procurá-lo.
Até à vista crianças!
Deitado do divã, Hughes tinha um livro na mão.
Ao invés porém de lê-lo, o banqueiro sonhava, com os olhos fixos no tecto, com Valéria.
Depois da partida da jovem, Hughes deixara-se cair numa poltrona e uma tempestade de sentimentos lhe bramira na alma.
Quanto Valéria era linda!
Hughes sentia-se seu escravo; seu coração, seus sentidos, estavam subjugados... e ela estava livre!
Infernal pensamento que o perseguia implacavelmente!
Quando pôde reconquistar a calma, levantou-se, fatigado, exausto, e rumou para Rudenhof, levando o quadro que tanto perturbara Valéria.
— Estúpido Sansão!
Quando deixarás de palpitar debaixo da tesoura da tua Dalila? — murmurou o banqueiro.
A noite lhe havia restituído a calma e a energia.
De manhã tinha trabalhado e brincado com as crianças.
Mas, agora, novamente só a doce e suave quimera lhe tinha tomado mais uma vez o espírito.
A chegada de Rodolfo, porém, o trouxe à realidade.
Cumprimentaram-se os dois homens, cordialmente.
Rodolfo sentou-se, acendeu um charuto e disse:
— Venho repreender-vos, Barão.
Dizei-me por que ontem tratastes minha irmã com refinada maldade?
— Não vos entendo, Conde.
Não tenho consciência de haver faltado ao respeito à Princesa.
— Hum! Mas, passemos adiante.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 10, 2016 8:57 pm

Pintastes um quadro que desejais expor.
O tema ofendeu minha irmã, e muito.
Podeis mostrar-me esse quadro?
— De bom grado, Conde.
O Conde examinou demoradamente a obra.
— Eis aí um gracejo de mau gosto — disse Rodolfo, entre zangado e risonho.
A comparação é injusta.
Valéria não vos traiu voluntariamente.
Meu pai a obrigou, deixando-lhe à escolha:
ou renunciar-vos ou fazê-lo estourar os miolos.
Não podeis naturalmente expor esse quadro.
Se o quadro é destinado à beneficência, vendei-o a mim.
O banqueiro sacudiu a cabeça.
— Se o intuito ao pintá-lo era vingar-vos de Valéria, já o conseguistes.
O pensamento de ela ser uma Dalila, custou-lhe uma torrente de lágrimas!
Contentai-vos com isso, Válden, e terminemos tudo amigavelmente.
Um rubor quase febril passou pelas feições do banqueiro.
— A Princesa não deve derramar lágrimas por mim.
Isto não e agradável a Deus!
Afirmai à Princesa que nenhum olhar indiscreto jamais pousará nesta tela, que é um péssimo gracejo meu que espero ela possa perdoar.
E Hughes estendeu a mão ao Conde, que a reteve.
— Por que sois vingativo, Hughes, ao invés de reparardes o passado?
Este quadro é traidor, não é verdadeiro.
Pois bem:
ainda estais jovem, o destino vos oferece um êxito invulgar e, quanto a mim, já não sou o estouvado rapaz de outrora, cego por preconceitos.
Desta vez, caro Hughes, eu não poria obstáculos à vossa felicidade e à de Valéria!
Hughes recuou e estremeceu.
Em seu rosto havia lividez e rubor.
— Isso é impossível.
Obrigado, Conde, obrigado, do fundo de minha alma.
Não poderíeis dar-me melhor prova de amizade.
(Hughes apertou com ambas as mãos a mão de Rodolfo).
Bem sei que o passado é irreparável.
Algo invencível se interpôs entre nós: não será o túmulo do Príncipe Raul?
Será a minha má acção?
Também creio que Valéria não acharia mais felicidade junto de mim.
Tenho sofrido atrozmente para tentar um voo tão alto...
Entre mim e a Princesa de O"" existe um abismo muito profundo.
— Rapaz estranho! — murmurou o Conde apertando-lhe as mãos.
Então, até à vista, Válden.
E que tudo seja conforme a vontade do Alto, de Deus...
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 10, 2016 8:57 pm

11 — A CARTA DE RAUL

Dois meses se passaram.
De acordo com seu desejo, Valéria viajou para Estíria (Província húngara; na região alpina) se bem que as desculpas de Hughes transmitida por Rodolfo lhe houvessem abrandado a ira.
Valéria voltara a Pesth e a família do Conde de M... deixara também o campo, apesar do maravilhoso outono.
No dia de aniversário da morte do Príncipe, Valéria, ao voltar do cemitério, encerrou-se em seus aposentos.
Podia, enfim, abrir a célebre carta que Raul lhe deixara para ser lida 24 meses depois de sua morte!
Agitada, com o coração aos pulos, Valéria abriu o envelope.
Antes de lê-la, abriu a janela e respirou fundo.
Em seguida sentou-se na escrivaninha.
Que iria saber?
Trémula, retirou do envelope as páginas escritas.
Ao ver as linhas, escritas por aquele que já não existia, Valéria não pôde sufocar os soluços e nem estancar as lágrimas.
Durante longo tempo chorou, com os olhos fixos no grande retrato de Raul que, da moldura, lhe parecia sorrir como se vivo estivesse.
Valéria então beijou a carta, desdobrou-a e, emocionada, leu o que segue:
"Minha adorada Valéria:
é uma voz do além-túmulo que ouvirás ao leres esta carta.
A voz de um amigo que te amará tanto quanto agora, porém não mais com esse afecto material deturpado pelo ciúme e pelo egoísmo.
Quando se aproxima o momento solene em que a alma vai reentrar na sua pátria eterna, julga-se a vida bem de outra maneira; e o meu amor por ti, minha doce amada, se concentra num só pensamento de assegurar a tua felicidade, pois materialmente eu não estarei aqui para velar por ti e pelo nosso filho.
"Espero esteja amenizada a dor da minha perda ao leres esta carta; que o tempo, esse grande consolador, tenha derramado o seu bálsamo na chaga do teu coração.
Nessa esperança foi que exigi um prazo de vinte e quatro meses, antes de te dizer estas coisas que, ditas antes, teriam parecido odiosas.
Agora porém terás reconquistado a calma e a vida recomeçará a reclamar certos direitos e compreenderás o meu pensamento e o amor profundo que me inspira.
Eu te deixo, minha Valéria, na plenitude da mocidade e da beleza, e na longa vida que ainda te espera, só te deixo, como consolação, nosso pequeno Raul, tesouro frágil, exposto a mil acasos.
Se viesses a perdê-lo, que te restaria?
Oprime-se meu peito ao pensar que terias uma existência oca e vazia, tão acostumada a cuidados e ao amor de um homem de que és ídolo.
"Eu não quero que te condenes eternamente à solidão, a um sentimento exagerado de ternura e de fidelidade à minha memória.
E sem jamais te impelir a uma nova escolha, creio ser do meu dever avisar-te de que existe um homem para o qual tens erros a reparar e que julgo ser muito digno e capaz de te dar felicidade.
"Sim, compreendes de que falo de Hughes Maier.
Tenho plena convicção de que ele te ama sempre, e tal paixão merece estima pois embora ela o haja impelido ao crime, ela também o tem enobrecido e lhe inspirou a força de ganhar as maiores vitórias nas lutas tremendas que um coração pode travar.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 10, 2016 8:57 pm

A sorte o tem cruelmente humilhado; um preconceito de raça lhe tirou a felicidade; seu crime o colocou às mãos do rival; sua esposa o traiu e, por incrível zombaria, o destino só lhe deixou os filhos daquele a quem tudo lhe mandava odiar.
A esses dois pequenos entes, ele porém deve dar tudo:
afeição de um verdadeiro pai, fortuna, nome, etc., e, entretanto, essa pesada e difícil carga ele a tem sustentado de maneira que merece elogios.
"Por fim Maier fez o mais duro sacrifício que um coração ultrajado e violento pode fazer, quando verdadeiramente arrependido: quis salvar-me, à custa da própria vida, a fim de conservar a minha e a tua felicidade!
Se porém não obteve resultado, a culpa não foi dele.
Este último acontecimento me fez compreender que, por ti, minha Valéria, eu e ele travamos um duelo celeste...
E vejo que, do perigo mortal que ambos corremos, ele, o mais exposto, salvou-se, enquanto que eu morro.
Assim, compreendi que o Céu se manifestara contra mim, e nada mais justo e cordial que aquele que desaparece ceder o prémio ao sobrevivente, e isto sem qualquer rancor e sem qualquer ciúme mesquinho.
Então seria eu menos generoso do que o foi o meu rival, principalmente quando eu tenho a íntima convicção de que o seu amor é uma garantia para o teu futuro?
"Assim, querida Valéria, se vieres a encontrar este homem e se vires que os seus sentimentos continuam os mesmos, eu te peço:
não o repilas!
Ele é assaz infeliz vivendo só, e o nosso Egon tem necessidade de mãe.
Se achares que podes ser novamente feliz aí na Terra, eu do Espaço te abençoarei:
e orarei por ambos.
Não creias que meu Espírito sentirá ciúmes.
Eu sei que meu amor continuará sempre em teu coração, que não morrerei em tua lembrança.
Quanto ao facto de ser Maier judeu, isso não deve impedir em nada, porque a verdadeira nobreza é a do coração, e não a do nascimento".
Muitas outras palavras de amor seguiam-se ainda a Valéria e a Egon, assim como últimas lembranças a Antonieta e Rodolfo.
Depois, a assinatura de Raul.
Uma violenta emoção havia dominado Valéria durante a leitura.
Uma confusão de sentimentos revolucionava seu cérebro.
A generosidade de Raul lhe inspirava uma adoração assaz apaixonada.
E ao pensamento de Hughes, Valéria estremecia...
Nesse instante, inúmeras batidas na porta tiraram Valéria de seus últimos pensamentos.
Guardou imediatamente a carta, que já havia lido umas dez vezes, e foi atender.
Era Antonieta quem chegava.
— Abre, Valéria.
Sou eu! Depressa!
Ao primeiro olhar, Valéria percebeu que Antonieta trazia alguma notícia desagradável.
— Que tens? Houve alguma desgraça a Rodolfo ou às crianças?
— perguntou a Princesa, sobressaltada.
— Minha pobre Valéria, tu não te enganas; trago a notícia de uma desgraça! — respondeu a Condessa, procurando acalmar a voz.
— Não se trata de teus filhos, mas de Egon e Violeta.
— Estão doentes?
— Deus os chamou a si!
Valéria não se conteve e gritou, desesperada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 10, 2016 8:57 pm

Muito trémula, deixou-se cair numa poltrona.
— Não é possível!
Deve ser boato. Quem te disse isso?
— Rodolfo. E veio da casa de Válden.
Está perturbadíssimo!
Segurando a cadeira com as duas mãos, Valéria procurou firmar-se.
— Egon, Ego! Meu pobre filho está morto!
Não posso acreditar!
Ele estava no domingo passado cheio de saúde e vida, antes de voltar a Rudenhof!...
E Violeta também?
Mas que aconteceu, meu Deus?
— Calma, Valéria. Vou contar-te tudo.
Rodolfo caminhava esta manhã rumo ao quartel e admirou quando viu à porta da casa do banqueiro um ajuntamento.
Desceu do carro e foi espiar.
O porteiro então lhe narrou o acontecido.
Na véspera, a aia e as duas crianças foram passear de barco no lago.
Ao voltarem, fez-se uma violenta ventania.
E o chapéu de Egon voou.
Travesso, o menino tentou pegá-lo perto da margem.
Perdendo o equilíbrio, caiu.
Quanto à canoa, na qual iam todos, perdeu também o equilíbrio e virou-se.
Apenas Trenberg pode salvar-se.
Logo depois alguns pescadores retiravam os corpos do lago.
Uma tragédia!
O infeliz Trenberg passou um telegrama ao banqueiro e fez transportar os cadáveres à estrada de ferro.
Estão agora em Pesth.
— E Hughes, que faz? — perguntou Valéria, petrificada.
— Seu estado é horrível.
Rodolfo está junto dele.
Hughes está louco de desespero!
"Deus não quer o meu arrependimento!
Arrancou-me a provação da minha vida, o alvo da minha existência!" — disse o banqueiro a Rodolfo, que procurava consolá-lo.
— Irás ver os mortos? — perguntou a Princesa, cada vez mais pálida.
— Venho de lá — disse a Condessa, com um solução.
Eu tinha de avisar-te de tudo, minha Valéria.
Ainda não pude porém ver o Hughes.
Fechou-se em seu aposento, está extenuado.
Depois a velha mãe da aia, ao ver a filha morta, fez uma cena deplorável.
Estava inconsolável, a infeliz.
Hughes tentou acalmá-la, prometeu-lhe uma pensão vitalícia.
Não resisti à cena para mim demais emocionante e voltei para ver-te, depois de vestir os dois anjinhos, que pareciam dormir!...
E Antonieta, numa crise de choro, interrompeu-se.
Muito pálida, como morta, Valéria levantou-se.
Seus olhos estavam secos.
A perda do filho e da criança de Raul, mais o pensamento da desgraça que feria Maier, tudo havia desabado sobre ela como um raio.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 10, 2016 8:58 pm

O peito parecia oprimido.
Mas nem uma lágrima viera aliviá-la.
— Obrigada por teres vindo.
Eu não gostaria de saber a notícia através de gente estranha.
Agora, volta para junto de Odila.
Tua presença lá é indispensável.
Não receies deixar-me só.
Minha cabeça tonteia, preciso de solidão.
Não querendo contrariar a Princesa, Antonieta saiu do aposento, dizendo:
— Então, até à vista, querida, e que Deus te proteja, dando-te calma e resignação.
Amanhã voltarei, cedo.
Ficando sozinha, Valéria sentiu-se febril.
Desejava ardentemente ver ainda uma vez Egon, beijá-lo, chorar e rezar junto dele, sem testemunhas.
Mas, como poderia fazê-lo?
Seus pensamentos foram interrompidos com a chegada barulhenta do pequeno Raul que, alegre, vinha chamar a mãe para o .jantar.
Valéria puxou-o para junto de si e, apaixonada, beijou-o.
Era seu único tesouro, agora.
Voltava a calma.
Valéria abraçou mais uma vez o menino e tocou a campainha.
A camareira veio e a Princesa ordenou-lhe levasse o menino, quase adormecido, para seus aposentos e não servisse o jantar.
Em seguida estendeu-se no divã e pôs-se a meditar.
Eram quase nove horas.
Com a volta da camareira, Valéria pareceu despertar.
Levantou-se, então, calma e resoluta.
— Elisa, vem cá.
Posso contar com tua fidelidade e discrição?
— Oh! senhora Princesa!
Mas se há onze anos que vos sirvo!
Podeis duvidar de mim?
— Pois bem, Elisa.
Escuta:
os dois filhos do banqueiro morreram afogados.
Quero orar junto dessas duas pequeninas vítimas e lhes dizer adeus.
Mas sozinha, e sem ostentação, compreendes?
Pois bem, Elisa:
quero que me acompanhes até perto da casa do Sr. Válden e que me esperes próxima da porta do jardim.
Se os dois corpos estiverem expostos no grande salão, conforme minha cunhada pensa, poderei entrar e sair sem ser notada.
— Oh! Alteza!
Bem sei quanto vosso coração sofre e pena! — exclamou a camareira beijando a mão de Valéria.
Eu me lembro bem de muitas coisas porque a Marta me confessou seu crime.
Serei muda tanto quanto um túmulo!
Vinte minutos depois e Valéria empurrava, um tanto trémula, a pequena porta do jardim da casa do banqueiro.
Ofegante e emocionada, a Princesa caminhou pela alameda escura que, um decénio antes, havia atravessado.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 10, 2016 8:58 pm

Nessa época, viera reclamar sua liberdade, porém agora vinha despedir-se do filho que lhe tinham roubado e ao qual nunca dera o nome de mãe.
Logo depois Valéria atingia o vasto terraço, silencioso.
Hesitante, subiu os degraus e atravessou um aposento meio escuro e, a entrada do vasto salão, parou, vacilante.
Estava na câmara-ardente.
Dois corpinhos vestidos de branco pareciam adormecidos sobre esquifes.
A câmara parecia um bosque:
grande quantidade de flores das mais variadas espécies adornavam o ambiente.
Valéria teve ímpetos de chorar.
Seu olhar não podia desprender-se do catafalco, onde um homem estava ajoelhado, com a cabeça pendida na almofada em que repousavam as crianças.
Nesse homem, que era Hughes, tudo era desespero.
Valéria reconheceu o banqueiro e caminhou para o catafalco.
Hughes estava tão embebido em seus pensamentos, que nem percebeu a chegada da Princesa.
Só quando esta o tocou nos ombros, foi que murmurou, espantado:
— Vós aqui, Valéria? (Seu rosto estava pálido e agitado).
Oh! cobri-me de culpas, pois guardei muito mal vosso filho.
Deus porém é testemunha de que o adorei qual se fosse o meu!
— Não vim censurar ninguém.
Não tendes culpa nenhuma.
Vim para chorar convosco e para orar — murmurou Valéria ajoelhando-se e inclinando a fronte nas mãozinhas frias de Egon.
Por alguns minutos Valéria tudo esqueceu.
Estava absorvida numa prece ardente pela alma do pobre menino.
Com os olhos velados pelas lágrimas de fogo, Valéria inclinou-se para Egon e beijou-lhe a boquinha já sem cor.
Nesse momento um tremor nervoso de angústia a sacudiu:
e Valéria chorou longamente.
Por um instante acreditou que seu Egon estava apenas inerte, adormecido.
Com um gemido virou-se e percebeu que Hughes a havia deixado só.
Estranho sentimento de inquietude e de isolamento confrangeu a alma de Valéria:
mesmo em tal momento angustiante, Hughes não esquecia seu ressentimento.
Ela teve então pressa de abandonar aquela casa.
Uma vez mais elevou seu pensamento a Deus e fez uma prece fervorosa.
Depois beijou as duas vítimas e as cobriu com o véu.
Já ia sair do salão, quando percebeu no aposento contíguo, entreaberto, o banqueiro sentado frente a uma mesa sobre a qual estava a fotografia em ponto grande das duas crianças.
Valéria sentiu compaixão e se aproximou, dizendo:
— Não posso assistir indiferente ao amargo desespero que vos domina.
Tende coragem; a tudo haveis suportado valorosamente.
Fostes um pai verdadeiro para as duas crianças.
Deus há-de compensar-vos por tudo, tenho certeza!
— Obrigado pelas boas palavras — respondeu Hughes, erguendo-se, lentamente.
Mas que me resta na vida depois desta tragédia?
Só o passado, do qual devo envergonhar-me.
Em vosso filho amei uma parte de vós; na filha da infeliz Ruth, estava a minha consciência encarnada; dedicar-me a eles era minha finalidade.
O objectivo da minha vida.
E agora, como viverei, sozinho, nesta casa enorme e deserta, sem o riso franco dos únicos seres que me amavam?
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 10, 2016 8:58 pm

A voz do banqueiro tornou-se sem brilho.
Baixou a cabeça.
— O tempo há-de acalmar-vos e, na vossa idade, não é bom fugir do convívio social.
Sois moço, tendes muitas prendas e virtudes, haveis de encontrar uma afeição que vos fará olvidar todo o passado.
E essa afeição vos permitirá amar filhos vossos, e não de estranhos.
Hughes, ao ouvir essas palavras, ergueu-se vivamente como que impulsionado por uma mola.
Seu olhar cintilou e, como um raio, mergulhou nos olhos de Valéria.
— Compreendo, Senhora!
Quereis dizer o seguinte:
"Apagai da memória e do coração toda lembrança que tiverdes de mim, procurai outra mulher porque eu vos esqueci; nenhum sopro do passado aquece meu coração!"
Mas tranquilizai-vos, Valéria, porque eu nada espero e nada peço; mas deixai-me dizer-vos que não deixei jamais de amar-vos:
nem a vossa traição, nem o doloroso momento em que, tirada dos meus braços, fostes levada ao altar, nem mesmo o tempo, nada pode destruir este meu amor louco! Não, mulher alguma poderá fazer-me olvidar o passado.
Sei que o túmulo do Príncipe e o vosso esquecimento nos separaram para sempre.
Mas também sei que houve uma certa época em que me amastes mais que a Raul...
Mas pelo amor de Deus dizei-me que ainda pensais, às vezes, nos rápidos momentos em que passamos juntos durante a tempestade, e eu então me curvarei e continuarei a arrastar esta existência vazia e miserável!...
Valéria sentiu-se pálida e um rubor súbito encheu-lhe as feições.
— Não, não posso esquecer tais momentos.
Mas, Hughes, podes ainda amar-me depois de tanto mal que vos causei?
Depois que fui esposa de um outro?
O banqueiro passou as mãos pelos cabelos.
— Oh! Sabe Deus o quanto tenho procurado fugir deste sentimento.
Quis esquecer-vos, até mesmo odiar-vos!
Mas uma força maior que a minha prende-me a vós.
Estou enfeitiçado, Valéria!
Desviai-vos de mim, eu vos peço.
Sei que não tenho direito de vos falar assim, mas neste momento de luto e isolamento, junto dos destroços do meu futuro, toda a verdade fugiu de meus lábios.
Agora sabeis de tudo.
— Não menosprezeis a vossa confissão.
Ela representa para nós um novo futuro — disse Valéria, com vivacidade, aproximando-se do banqueiro.
Nunca, Hughes, ficareis abandonado.
O túmulo de Raul não é um obstáculo, antes é ele um altar no qual nossos corações, separados durante muito tempo, se reunirão finalmente!
E Valéria, com o olhar cintilante, tirou do seio a carta do Príncipe.
— Raul, antes de morrer, entregou-me esta carta pedindo-me que não a abrisse antes de 24 meses.
Podeis lê-la.
Hughes sentiu a vista turva.
Que conteúdo teria aquela carta?
Inclinando-se para a luz, devorou as linhas, enquanto um rubor violento lhe corava o rosto.
— Ah! coração generoso! — disse ele enquanto a carta se lhe desprendia das mãos.
E seu olhar ardente fixou-se no da jovem, que chorava.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 10, 2016 8:58 pm

Puxando-a resolutamente, Hughes apertou-a contra o peito.
— Enfim, estás junto de mim, mulher adorada!
Mas... a que preço? — disse, apaixonado.
Num momento, essas duas almas reconciliadas se confundiram num abraço.
— Devo ir-me, Hughes. É tarde!
Depois algum empregado poderá entrar e que pensariam?
— Tens razão, minha adorada.
Receio sempre que minha felicidade seja apenas um sonho.
Poderia eu esperar um tal desenlace neste dia de luto?
— Eu não desejaria deixar-te, pois tens um aspecto tão extenuado!
— disse ansiosamente a Princesa.
Vem comigo. Longe deste aposento tão lúgubre, repousarás uma hora, e assim conversaremos mais livremente.
— Certamente, querida Valéria — disse o banqueiro, com ternura.
— Mas, por minha vez, receio que os empregados se admirem da minha visita, numa hora tão imprópria.
— Ninguém nos verá, a não ser Elisa, minha fiel camareira.
Além do mais, amanhã mesmo todos saberão que somos noivos.
Hughes pegou o chapéu, dobrou a carta de Raul e ofereceu o braço à Princesa.
Silenciosamente deixaram o salão.
No terraço Hughes estacou e, indicando a Valéria a fonte e os caramanchões, disse:
— Recordas-te, Valéria, da tua primeira vinda aqui?
— Malvado! — disse a jovem.
Eu era então cega...
Sem serem observados, ambos chegaram aos aposentos de Valéria, onde a boa Elisa lhes serviu uma refeição, deixando-os em seguida a sós.
Sentados no pequeno divã, com as mãos entrelaçadas, uma conversa íntima lhes devolveu a tranquilidade.
— Porque será que a felicidade aqui na Terra nunca nos é dada completa? — disse Hughes, com um suspiro.
Porquê, meu Deus, temos de pagar o nosso amor com a morte de duas criancinhas?
Eu gostaria muito de cumprir a palavra que dei ao Príncipe, fazendo deles dois seres exemplares! Mas...
E Hughes baixou a cabeça, tristemente.
Valéria comprimiu-lhe a mão, e depois deixou o aposento.
Sozinho, o banqueiro ergueu-se e contemplou o grande retrato de Raul, na escrivaninha.
Com um impulso fervoroso, Hughes fez então uma prece, agradecendo ao Espírito de Raul por permitir-lhe um pouco de felicidade.
Um leve rumor de passos fez Hughes virar a cabeça, e avistou Valéria que trazia nos braços o seu pequeno Raul adormecido, a imagem viva de Egon.
— Vê! — disse ela com emoção.
Eu te trago um novo Egon.
Ama-o tanto quanto ao outro.
Ele não tem pai e precisa de alguém que o faça honesto e útil a sociedade.
Hughes, com emoção, beijou a encantadora criatura, afagou-lhe os cabelos louros e, depois, seus olhos procuravam o retrato de Raul, prometendo-lhe, do fundo de sua alma, ser para seu filho um verdadeiro pai, generoso e dedicado, qual se fora ele seu próprio filho.
Quando se passaram seis semanas depois dos acontecimentos que acabamos de narrar, um pequeno grupo reuniu-se no salão do Conde de M...
Festejava-se, na intimidade, o casamento de Hughes com Valéria.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 10, 2016 8:58 pm

O Conde tinha proposto ficar por algumas semanas com o menino para que os dois esposos pudessem fazer a viagem de núpcias, sossegados.
Mas o banqueiro recusou, declarando que, tanto Valéria como ele queriam o repouso íntimo mas juntos do filho de Raul.
Não se separariam da criança, jamais.
Enquanto Antonieta abraçava a cunhada, e despedia-se dela, Rodolfo aproximou-se de Hughes dizendo-lhe, rindo:
— Estava escrito que tu te tornarias meu cunhado.
Se houvéssemos compreendido a vontade dos astros teríamos evitado muita embrulhada...
— Eu me consolo sabendo que tu me recebes hoje com menos repugnância do que há tempos — respondeu o banqueiro, também rindo.
— Acredito-o, sinceramente!
É que eu agora te conheço bem melhor e te estimo muito! Tenho a convicção de que nasceste para a felicidade de Valéria!
E Rodolfo, acompanhado de Antonieta, se despediu, alegre.
Valéria havia desejado que o marido não mudasse nada nos aposentos que outrora lhe preparara.
Hughes, portanto, não havia tocado na disposição dos objectos.
Apenas mandara substituir o que o tempo havia desbotado.
Emocionado, o banqueiro levou a jovem esposa para os aposentos nos quais ele tinha vivido momentos tristes e onde chorava uma felicidade aparentemente perdida para sempre.
— Minha rainha, — disse Hughes, com emoção — por longo tempo foste aqui esperada!
Possas tu nesta casa viver feliz! — acrescentou com ternura.
Com um olhar Valéria abrangeu o maravilhoso apartamento adornado com tapeçarias azuladas, bordadas a prata.
Parecia tudo um retiro de fada. Nesse momento Valéria também percebeu dois grandes quadros dourados, fixos em cavaletes.
Aproximando-se, levantou a cortina e descobriu o seu próprio retrato de donzela e o quadro representando Sansão e Dalila...
— Ainda conservas esta pintura odiosa? — disse, fazendo um muchocho.
— Naturalmente, minha querida — disse Hughes rindo.
E eu te ofereço o quadro, como primeiro presente, pois bem sabes que me desarmaste muito mais completamente do que Dalila desarmou Sansão:
e que meu coração ficou teu escravo!
Valéria sorriu e voltou-se para a janela:
levantou a cortina rendada, fitando o céu naquela hora repleto de estrelas radiantes...
— Olha, Hughes, que noite maravilhosa!
Olhando todas essas estrelas, a nossa alma enche-se de adoração pelo Criador!
Hughes aproximou-se e, abraçando Valéria, disse, com emoção:
— Sim, querida, principalmente quando se pensa que sobre esses astros inumeráveis vivem seres inteligentes, palpitam almas revoltadas ou cheias de amor.
Graças sejam dadas a Deus por me fazer entender que apenas sou um átomo.
Um átomo que, apesar das culpas e das suas negações, pôde ser conduzido para um porto de felicidade e de paz!

FIM

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