Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 26, 2016 8:33 pm

Conservava, ainda no porte alto e másculo, a graça juvenil da adolescência; grossas madeixas de cabelos castanho-claro enquadravam um rosto de perfil antigo, branco e fresco como o de uma menina, ao qual acrescentavam um encanto totalmente próprio, os grandes olhos negros e sobrancelhas da mesma cor.
Cumprimentou as damas, respeitosamente; quando avistou, contudo, Valéria, acendeu-se em seus olhos um tal fogo de apaixonada admiração, que a moça se desviou, enrubescendo.
Após saudar, com cordiais abraços, aos dois Condes e ao Barão, Raul conduziu os seus hóspedes para as carruagens e todos se puseram a caminho.
Surgiu a Lua já, quando se aproximaram do Castelo, enorme fortaleza da época feudal, erguida num planalto, cercada de montanhas cobertas de árvores, em tal posição pitoresca, que Valéria não se cansava de admirar.
Tão expansiva e franca foi a maneira como a Princesa de O"" recebeu os convidados que todo o rigorismo da etiqueta logo se eclipsou; agradeceu ao Conde e ao Barão de modo caloroso por haverem concordado com o seu desejo de realizar as bodas em seu palácio, e disse a Rodolfo, dando-lhe ósculo maternal na fronte:
— Vivei para fazer Antonieta feliz, meu filho , e sede mil vezes bem-vindo!
Abraçou Valéria repetidas vezes, e percebendo o ardor que se denunciava nos olhos de Raul, e as multiplicadas atenções de que ele cercava a moça, pôs-se a observá-la, por sua vez, com atenção.
Após o chá, antecedido por uma ceia, longamente elogiada pelos viajantes, durante a qual fez-se presente a mais cordial alegria.
Dirigiram-se todos para o salão e dividiram-se em grupos.
Conversando com o Conde de M""" sobre pormenores do casamento, interrompeu-se a Princesa para dizer, com indisfarçável admiração:
— Olhai para Valéria:
realmente formosa é a filha que tendes, Conde!
Não creio ter visto jamais um rosto tão divino.
Esses olhos de safira podem enfeitiçar um santo!
Para espanto da Princesa, o olhar do Conde, que fitava a filha, fez-se de súbito triste, e longo suspiro lhe fugiu dos lábios.
Ia alta a noite, quando as duas noivas penetraram no quarto que deviam habitar até o dia das bodas; contudo, a alegria das horas passadas lhes arrebatara o sono, e continuavam a conversar, apesar
de deitadas.
— Que juízo formaste da tia e de Raul? — perguntou Antonieta, afastando a cortina do leito, para ver melhor a amiga reclinada nos travesseiros.
— A Princesa é realmente amável e me desperta sincera admiração — retrucou Valéria.
Nela misturam-se tanto a bondade quanto a tristeza na expressão do rosto!
A dificuldade com que se locomove confrange-me o coração.
No tocante a Raul, não lhe digo que me agrade.
Não obstante sua indubitável formosura e as maneiras perfeitas, há no seu olhar algo desagradável, sonhador em demasia, mas sem muita energia!
A boca, em certos momentos, adquire um vinco de orgulho e maldade mesmo.
— Meu Deus! Dizeis tais blasfémias!
É certo que Raul não teve, até o presente, oportunidade de mostrar-se enérgico:
mimado e adorado desde a meninice, ainda não houve desejo seu que não se realizasse.
Percebe-se nele o rapaz bom, simples e confiante; não está, ainda, usado, o que, naturalmente, é uma grande virtude, se contarmos que é um príncipe de 21 anos, belo como Adónis, rico como um Creso.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 26, 2016 8:33 pm

Sabes que ele recebeu, em herança, de uma velha parenta, a baronesa de Raven, mais de um milhão?
Muito lógico, pois, se lhe percebeste alguma fantasia de orgulho.
Valéria escutara em silêncio; quando, porém, a companheira deu por findo o seu discurso laudatório, ergueu o dedo e disse, com fingida gravidade:
— Ouve, acredito ser obrigação minha avisar a Rodolfo, amanhã, que estás totalmente magnetizada por teu primo; que não acabas mais de elogiar as virtudes e graças dele, e seria bem possível que preferisses esposar o Príncipe de O""" em lugar de te tornares a Condessa de M""".
Antonieta rolou nos travesseiros, rindo perdidamente.
— Não tenhas cuidado — exclamou, por fim.
Para mim, nada existe mais encantador no mundo do que Rodolfo, com a sua imponência arrojada e militar, sua pele sedosa e aqueles olhos azuis; o suave Raul, com seu olhar de sonho e o buço, jamais o vencerá.
Tu, porém, precisas precaver-te desta presença.
Raul demonstra estar fascinado por ti, e bem poderia vir a ser um pretendente mais adequado do que Maier, que, não obstante as boas qualidades que reconheço nele, jamais será outra coisa que um judeu baptizado.
Valéria fez-se pálida e seus olhos brilharam, febris.
— Antonieta! Se me queres bem, nunca mais me fales deste modo; não pilheries com este assunto; é tarde, porém, boa-sorte!
Deitou-se e cerrou os olhos, permitindo à amiga buscar, com sossego, a correlação existente entre essa súbita raiva e o beijo de adeus que surpreendera pela manhã.
Para o quinto dia após a chegada estava fixado o enlace de Antonieta e, unanimemente, acordara-se que, fora algumas visitas que não se podiam dispensar, esse período seria dedicado à comunhão íntima da família.
As festas principiaram com um grande baile, que a Princesa ofereceria no dia do casamento, e ao qual se seguiriam várias reuniões, de cavalgadas e passeios preparados, ora pelo Príncipe Raul, ora pelos vizinhos.
Esgotou-se animadamente o tempo em suave serenidade.
A Princesa mostrava por Valéria uma preferência sempre mais ardente; acariciava-a tanto e buscava, de forma tão patente oportunidades de a aproximar de Raul, que dificilmente poderia alguém enganar-se no referente a suas intenções futuras.
Tal facto acordava ligeira apreensão no íntimo de Antonieta e deixava no do Conde de M""" pesar, misturado a ira.
No dia precedente às bodas, reuniam-se todos no terra, quando a Princesa, após examinar por um instante o rosto radiante do filho, sentado junto a Valéria e auxiliando-a a formar um ramalhete, disse com ameno sorriso:
— Já se escoaram quinze anos, caros amigos, depois que me encerrei neste castelo, sem sair; contudo, estou resolvida a passar mais próxima de meu adorado filho, que torna ao Regimento e, então, quem sabe? pode ser que também Raul encontre uma noiva, e possa eu gozar a ventura de celebrar ainda um casamento.
— Tia, não fazes, porém, projectos antecipados? — exclamou Antonieta.
Somente dentro de três meses Raul atingirá a maioridade, e parece-me novo demais para contrair matrimónio.
Raul voltou-se, corado como cereja; cintilavam-lhe os olhos e os lábios estavam trémulos.
— Quem ousa dizer que sou muito jovem para me casar?
Caríssima Antonieta, apenas quatro anos mais velho do que eu é Rodolfo e, contudo, vós o julgais digno de vos esposar; permiti que vos declare em erro.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 26, 2016 8:34 pm

Minha opinião é que mamãe, como sempre, tem razão e é indispensável que eu me case.
A apaixonada indignação do jovem provocou o riso geral.
— Aquietai-vos, primo; não disse nada demais — exclamou Antonieta.
— Já que vos mostrais assim, como um leão raivoso, retiro minhas palavras e declaro-vos apto para o casamento.
Quem haveria de julgar, tia Odila, que este santinho ande com os ouvidos em toda parte?
Cheguei a pensar que ele nada enxergasse nem ouvisse...
— Coisa alguma, menos Valéria — concluiu a Princesa, fitando com olhar de silente adoração o rosto agitado do filho.
O magno dia despontou por fim e, já pela manhã alegre animação reinou no Castelo.
Por toda parte agitavam-se serviçais, dependurando guirlandas, bandeiras e lampiões; ultimavam-se no jardim a iluminação e fogos de artifício e um vasto laranjal, junto aos salões de recepção, transformava-se em maravilhoso jardim de inverno com aleias cobertas de areia e retiros ocultos entre bosquezinhos de laranjeiras.
Enquanto se processavam estes preparativos, no aposento ocupado pela noiva e sua amiga, tudo era calma, ainda.
Era desejo de Antonieta passar aquelas horas no silêncio e na solidão, enquanto aguardava a chegada das jovens que desejavam vestir a noiva.
Atendendo a seu pedido, Valéria teve dispensadas as camareiras, com a intenção de auxiliar, ela mesma a amiga na sua primeira toalete; calçara-lhe os pequenos pés, penteara-lhe os negros cabelos, e dera-lhe, por fim, o roupão, que seria substituído pelo magnífico vestido de cetim recoberto de rendas, que se achava estendido numa das poltronas.
Ambas estavam quietas.
Preocupara-se Antonieta com o grave instante que se aproximava; desencontrados sentimentos agitavam Valéria.
No dia anterior, Rodolfo fizera entrega à sua irmã de um medalhão com o retrato de Samuel e uma carta em que este descrevia à jovem tudo quanto praticara e pensara, desde a sua partida.
Ajuntava que o padre Rothey fora chamado a Roma, e partira, às carreiras, para demorar-se três ou quatro semanas, deixara-lhe, contudo, muitas ocupações; além do mais, garantira-lhe que essa ausência não influiria na data do baptismo.
— Ouve, Antonieta, desejava pedir-te alguns conselhos — disse Valéria, tomando de sobre a mesa um pequeno escrínio com incrustações e assentando-se junto da amiga.
Antes do mais, olha para isto!
Abrindo o cofrezinho, surgiram, sobre o fundo de veludo negro, inúmeros cordões de pérolas magníficas, concluindo por admirável fecho de safira.
— Pediu-me a Princesa, esta manhã, que fosse ao seu quarto, onde, após abraçar-me inúmeras vezes e repetir-me que me ama como sua parenta próxima, como sua filha mesmo, presenteou-me com esta jóia verdadeiramente principesca.
Antonieta curvou-se e, com assombro, disse, após um momento de contemplação:
— É estupendo!
Hoje deverás usar este colar, — pois o exige a delicadeza.
Estás, porém, apreensiva, Valéria; por este presente, julgais que a Princesa aprova o amor de Raul, que ele te faz sentir tão vivamente?
— Pois também observaste que este rapaz sem juízo dá provas de um interesse por mim muito superior ao que se poderia desejar?
Procuro evitá-lo, no limite do possível, mas não posso ser rude com o filho da Princesa, que se mostra tão boa para comigo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 26, 2016 8:34 pm

O certo é que Raul nada faz ou diz de claro; o seu olhar, porém, que ardentemente me acompanha a toda parte, incomoda-me; uma espécie de opressão assalta-me quando em sua presença, e estou ansiosa por partir daqui hoje de preferência a amanhã.
Suspeito da grande amizade que liga papai à Sra. de O' , assim como do tom paternal que papai usa quando trata com o príncipe.
Senhor Deus! que resultará de tudo isso?
Se Raul me pedisse em casamento?...
Antonieta, que hei-de fazer?
Aconselha-me! Como proceder?
— Mantém-te neste mesmo estado, e sossega — exclamou a jovem de Eberstein, enlaçando-a.
É verdade que agradas a Raul, e que motivo poderia impedi-lo de mostrar-te os seus sentimentos, já que desconhece as nossas relações com Samuel Maier e o teu noivado?
Não acredito, contudo, que te peça tão cedo em casamento; se sua intenção é esta, manter-se-á em reserva até o inverno, e, no momento oportuno, a nova de teu matrimónio virá arrasar as suas ilusões.
Na pior das hipóteses, podemos contar tudo a tia Odila, que mantém autoridade suficiente sobre o filho , para fazer-lhe olvidar um arrebatamento próprio da mocidade.
Enfim, estou segura de que teu pai e Rodolfo não permitirão que a situação se prolongue demasiado; sabem que estás comprometida com Samuel, e que a dignidade de nosso nome depende desse consórcio.
— Sim, ao menos a da nossa palavra empenhada — murmurou Valéria.
— Toca, pois, a campainha e chama a tua camareira, querida — prosseguiu Antonieta.
Pouco falta para as cinco horas, a cerimónia está fixada para as sete, e nossas amiguinhas vão chegar.
Quando mal Valéria concluía sua toalete, ouviram-se risos álacres e grande número de jovens irrompeu no quarto, e, de súbito, rodeou a noiva.
Foi dada, com a pompa requerida, a bênção nupcial na capela do Castelo.
Depois tinham recebido a jovem Condessa de M' e esposo as felicitações dos convidados, e, em meio aos sons da orquestra e aos vivas, o novel casal dera início ao baile.
As danças prosseguiram, então, sem intervalos, e o entusiasmo da sociedade, contente e brilhante que estava nos salões, crescia à proporção que o champanha esquentava as cabeças.
Terminava uma valsa, quando Valéria, conduzida pelo braço de Raul, penetrou no jardim de inverno maravilhosamente iluminado por lanternas ocultas na verdura; estavam os dois excitados pela dança, e o Príncipe levou Valéria até um pequeno bosque solitário, fazendo-a sentar-se num banco de veludo verde que imitava o musgo, e assentando-se ao lado dela.
Enquanto Valéria abanava o rosto afogueado, o Príncipe olhava-a, sem dissimular a sua adoração.
De súbito, postou-se de joelhos e, segurando-lhe a mão, exclamou, apaixonadamente:
— Valéria, meu anjo querido, amo-vos ainda mais que a própria vida:
consenti em unir-vos a mim, ou permite-me morrer aos vossos pés!
— Por Deus, Príncipe, erguei-vos!
Se alguém vos visse!... Pedis o impossível...
— Impossível? — repetiu, não acreditando no que ou vira.
Não me erguerei, Valéria, sem que tenha ouvido minha condenação.
Não me aceitais porque não vos sou simpático, ou duvidas de meus sentimentos?
— Erguei-vos, Raul; assentai-vos a meu lado — rogou ela, com lágrimas nos olhos.
O rapaz obedeceu, com gestos mecânicos e voltou ao seu lugar no banco, fitando-a com expressão tal de ânsia e tristeza, que o coração de Valéria se apertou.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 26, 2016 8:34 pm

— Minha resposta, não a ditou nenhum dos motivos que possais imaginar:
quem poderá ser, mais do que vós, Raul, digno de amor e simpatia?
Como duvidar de vossa afeição?
Incapaz de sentimento falso ou palavra leviana é o vosso coração sincero; se me tivésseis há três meses, expressado os vossos sentimentos, venturosa e honrosamente, eu vos teria dado minha palavra; devo, agora, recusá-la!
Impossível consorciar-nos, já não sou livre.
As faces de Raul fizeram-se lívidas.
— É tarde, pois, para mim?
A quem amais, então?
Onde se encontra esse felizardo?
Por que nada disseram vosso pai e vosso irmão sobre tal compromisso?
Inclinou-se para a moça, buscando, com ávida inquietação, a resposta em seus olhos.
A jovem, porém, mantinha-se lívida e muda. Era verdade.
Silenciara-se sobre Samuel e o escandaloso acordo que obrigava a filha do Conde de M""" a contrair matrimónio com um judeu baptizado.
Doía-Ihe, de início, confessar ao Príncipe de O""" que, com a entrega de sua mão, ela pagava as dívidas do pai e do irmão, mas não sabia como dizer:
"Eu prefiro, a ti, um homem sem linhagem, filho de uma raça desprezada".
Como a olharia esse nobre altivo, que podia sem dúvida reconhecer, mesmo deplorando, a necessidade que a forçava, porém jamais desculpar e aprovar um amor tão absurdo?
Travou-se na alma de Valéria, fraca e cheia de vacilações, uma luta terrível; como gigantes, ergueram-se em seu íntimo todos os preconceitos de sua educação e da sociedade em que se criara; envergonhou-se de si mesma e de seu amor e não diria a Raul, por preço nenhum, o que ocultara à sua grande amiga, receosa ao só pensar que os olhos de Antonieta, descrentes e surpreendidos, se fixassem sobre ela.
Fora do alcance do olhar ardente de Samuel, e do fascínio que este exercia sobre ela, dominador orgulho e falsa vergonha avassalaram-lhe qualquer outro sentimento.
Habituada estava Valéria a ser encarada como vítima, por saber a sua gentileza para com o noivo vista como sacrifício à necessidade.
Sua língua recusou-se, então, a proferir:
"Nós nos entendemos bem, amo esse homem, bondoso e leal, apesar de tudo".
Tal luta íntima, que longo seria narrar, durara tão-somente alguns momentos, e o orgulho acabara vencendo.
Com voz sumida e débil disse:
— O nome não importa; o homem que vou desposar vós não conheceis, não pertence a vossa sociedade; sabei, apenas, que a necessidade me obriga a essa escolha, a honra dos meus e minha palavra unem-me a ele, irremissivelmente; se, portanto, me amais, Raul, não me atormenteis, olvidai esse sonho fugaz.
Não posso remediar o que não tem remédio.
Ergueu-se e saiu, quase a correr, do jardim de inverno, onde Raul permaneceu mergulhado em inominável desespero.
O jovem Príncipe de O""" era filho mimado: tudo lhe sorria durante a vida, vendo realizados os menores desejos e mesmo seus caprichos, e essa primeira, porém, grande esperança refutada pareceu vencer o limite de suas forças.
Cobrindo o rosto com ambas as mãos, jogou-se contra o encosto do banco, e grossas lágrimas deslizaram-lhe por entre os dedos, como pérolas.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 26, 2016 8:34 pm

Em seu desespero, nem percebeu o murmúrio de uma conversação e os passos de duas pessoas que andavam sem pressa, rumo ao pequeno bosque.
Felizmente, para ele, era a Princesa de O""" que, cansada da animação da festa, chegava, pelo braço do Conde de M""", a fim de gozar alguns momentos de descanso.
Frente à atitude angustiada do moço, e de seu pranto, o Conde parou, surpreso; a Princesa, porém, lívida de susto, dirigiu-se para o filho, a quem perguntou, aflita, tomando-lhe as mãos:
— Filho adorado, que te sucede?
Estás enfermo?
Raul ergueu-se impetuosamente; fez cessar, pela força de sua vontade, as lágrimas que o sufocavam, deu um passo em direcção ao Conde de M""" e indagou, com voz tornada diferente pela angústia e paixão:
— Com quem forçais Valéria a esposar-se para limpar a honra de vosso nome?
Que cruel obrigação a prende, irremissivelmente, a um homem que ela se negou a nomear?
— Raul, estás delirando! — exclamou a Princesa, cheia de espanto.
Um olhar, contudo, à fisionomia pálida e agitada do Conde de M""" deu-lhe a convicção de que o filho vinha tocar em uma ferida viva.
— Meu jovem amigo, seria natural que tomasse em má conta a vossa maneira de pedir satisfações de meus actos — respondeu o Conde de M""", readquirindo a calma.
O vosso estado de alma, contudo, é um atenuante, e, ainda que desgostoso, devo confirmar que Valéria está comprometida com o banqueiro Maier, há dois meses.
Por razões extremas, não se pode romper tal compromisso, ainda que me cause repugnância.
Raul emitiu um grito surdo e, desprendendo-se dos braços de sua mãe, que procurava detê-lo, saiu do jardim.
— E calastes-vos até agora sobre assunto tão sério, Conde! — exclamou a Princesa, abandonando-se sobre o banco.
Urge busquemos uma solução!
— Ah! Senhora, eu o teria usado, com toda a certeza, se esse remédio existisse, em lugar de casar uma Condessa de M""" com um judeu baptizado; devo-vos, na verdade, uma explicação, mas parece-me impróprio o momento para tratarmos assunto tão complicado.
— Está certo, meu amigo.
Conversaremos, amanhã, sobre tal assunto.
Por enquanto, vejamos como procede o infeliz Raul:
no seu estado de ânimo, bem capaz será de qualquer loucura.
Apesar da atonia nervosa que lhe punha tremores nas pernas enfermas, a Sra. de O""" apoiou-se ao braço do Conde, e assim deram entrada nos salões.
Percorreram-nos em todas as direcções, sem resultado, assim como a galeria e os terraços; em parte alguma se encontrava Raul!
Percebendo que a Princesa se sustinha com grande dificuldade e estava em vias de perder os sentidos, o Conde conduziu-a a uma poltrona.
— Conservai-vos calma, minha cara Princesa, e nada receeis.
Quando se é jovem, um amor assim tem a violência, mas também a falaz duração da tempestade de verão.
Colocarei Rodolfo a par da situação e ele encontrará, num instante, o nosso infortunado amigo que medita e chora em algum bosquezinho e o trará de volta aos nossos hóspedes.
Rodolfo foi prontamente encontrado e posto ao corrente do que sucedia.
— Meu filho, vai, busca esse desditoso rapaz e chama-o à razão — concluiu o Conde.
Convença-o a que retorne ao meio dos convidados.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 26, 2016 8:35 pm

A Princesa morre de desespero e seria, além do mais, um escândalo se ele não comparecesse à ceia!
Incontinenti, o jovem Conde foi á procura do primo, vasculhando todos os recantos, sem dar com ele; precipitou-se, depois, rumo aos jardins iluminados, porém quase desertos aquela hora. Em lugar algum encontrou Raul.
Assaltado por ligeira inquietação, Rodolfo correu ao lago, no fundo do parque.
Aí, no meio de pequena ilha artificial, erguia-se pequeno pavilhão feericamente iluminado; uma das gôndolas, amarradas à margem do lago, havia sido solta e podia-se vê-la junto á escada que levava ao pavilhão.
Para lá se transportara alguém e esse alguém outro não seria senão Raul.
Saltando para outra barca, o Conde achou-se, após algumas remadas, na extremidade oposta.
Com ligeiro olhar, constatou estar vazia a outra barcazinha; não obstante, deu ainda volta ao pequeno jardim que rodeava o pavilhão:
nele se cavara uma gruta, e no fundo da mesma uma ninfa esculpida em mármore erguia na mão uma lâmpada acesa, projectando sua luz nas águas de uma fonte artificial, que brotava entre conchas e despejava-se, cascateando, no lago.
Um fio de luz, que se escapava da gruta e clareava toscamente as árvores e em redor, deu azo a que Rodolfo percebesse um vulto esguio e preto estendido na grama, a alguns passos da água.
Curvando-se, viu tratar-se do Príncipe Raul, o qual parecia nada ver nem ouvir, a cabeça metida entre os braços.
— Raul, volta a ti, e sê homem! — proferiu Rodolfo, pondo-o em pé, à força de sacudi-lo.
Achas razoável ficares estirado na grama húmida, a ponto de contraíres uma moléstia, além de te mostrares assim aos convidados, sem saber o que pensem de teu afastamento?
Infortunado rapaz, sossega — disse o Conde, bondosamente, observando a fisionomia transtornada do Príncipe.
É preciso que aprendas, e todos os homens, a aceitar o que não se pode evitar; não desanimes; pensa em tua infeliz mãe.
Confia em que o acaso — responsável por tantos factos extraordinários — ainda te trará a ventura.
Estas palavras surtiram, ao que parecia, efeito em Raul, que se recompôs, correu a mão pelos cabelos revoltos, alisando-os, e murmurou, com forçada segurança:
— É certo:
é inútil que todos estejam a par do segredo de minha derrota. Vamos!
Sem palavras, os dois moços empreenderam a volta ao Castelo.
Ao passar pela sala onde serviam refrescos, Raul deteve-se junto a um buffet, pediu uma taça de champanha gelado e sorveu-a de um gole.
— Que fazes? — exclamou Rodolfo, arrebatando-lhe das mãos a taça que ele pretendia que enchessem outra vez.
Banhado em suor como te encontras, bebes esse vinho gelado?
Dando-lhe as costas, sem responder, o Príncipe foi para a sala do baile, e sua presença deu à Princesa um pouco de calma.
Agitação febricitante apossou-se de Raul.
Jamais, como então, se mostrava mais animado e brilhante; entregava-se às danças, com inigualável ardor; em seguida, para serenar a chama íntima que o consumia, devorava pedaços de gelo, incontáveis, de mistura com champanha gelado.
Não procurara aproximar-se de Valéria mais, e tomou assento na extremidade oposta da mesa, à ceia.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 26, 2016 8:35 pm

— É fascinantemente belo — conjecturou Valéria, estabelecendo correlação com o noivo.
Falta-lhe, não obstante, aquele fogo que seduz e arrasta, o ar de máscula energia e de carácter, que constitui a verdadeira beleza do homem.
Não, nunca, Samuel; eu ainda te sou fiel!
Desprezem-me, embora, esses arrogantes fidalgos; tu me farás feliz!
Ao entrar, quando o dia raiava, no seu quarto de vestir, Rodolfo encontrou, para sua grande surpresa, o velho criado de Raul, o qual parecia aguardá-lo, impacientemente, pálido e emocionado.
— Ah! escusai-me, Senhor Conde, a importunação que vos trago nesta hora imprópria — disse, cerimoniosamente o fiel criado.
Acredito, porém, que Sua Alteza, o Príncipe Raul, está bastante enfermo.
Quando se recolheu, ontem, mostrava-se exageradamente excitado; mandou abrir todas as janelas e sorveu, em coisa de quinze minutos, uma garrafa de água gelada.
Receando algum mal-estar, postei-me ao pé do leito e notei que o Príncipe não se acomodava ao mesmo.
Raiando o dia, queixou-se de frio e fortes tremores sacudiam-no, precisando eu envolvê-lo em cobertores; agora, está outra vez febril, e penso que nem me reconheceu.
Posso, porém, estar equivocado e vim, assim, implorar ao senhor Conde que julgue de modo pessoal do estado em que se encontra Sua Alteza, e conclua se há urgência em avisar a senhora Princesa.
Preocupado enormemente, Rodolfo vestiu-se à pressa, e correu ao quarto de Raul.
Encontrou-o estendido sobre os travesseiros em desalinho, o rosto vermelho, olhos semicerrados, mas sem nada enxergar; agitava-lhe o peito uma respiração irregular e opressa.
Rodolfo deitou-lhe a mão à fronte, auscultou-lhe o pulso e, erguendo-se com presteza, ordenou:
— Rápido, José, despacha alguns homens a cavalo e ordena que procurem médicos, sem ter piedade dos animais; o perigo, segundo entendo, é imediato.
Vou à procura de minha esposa, a fim de que ela previna a Princesa e aqui estarei de volta.
— Senhor Deus!
Que grande desgraça nos aguarda! — exclamou o velho servo fiel que já servira ao pai de Raul.
E correu com a presteza que lhe permitiam as pernas, a tomar as necessárias providências.
Antonieta vestia-se, e ergueu-se ruborizada, à entrada do esposo; percebendo-lhe, porém, o ar apreensivo, indagou ansiosa:
— Que se passa contigo, Rodolfo, que aconteceu?
— Tudo quanto podia acontecer de pior; Raul está bastante enfermo.
Resfriou-se ontem, com toda certeza.
Esse resfriado e o abalo moral que sofreu, provocaram nele uma inflamação ou febre maligna; queima como fogo e não reconhece pessoa alguma.
Mandei já que buscassem médicos; quanto a ti, minha querida, avisa tua tia, incute-Ihe calma e coragem.
Rapidamente, a nova da enfermidade do Príncipe circulou pelo Castelo, pelo que os hóspedes, tendo o médico vindo e declarado gravíssimo o estado do doente, apressaram-se em despedir-se.
O estado da Princesa causava pena aos que a viam. Ensandecia quase, ao pensar que poderia perder o filho único; pálida, o olhar estatelado no rosto congestionado de Raul, ela se quedava consumida numa poltrona, perto do leito, indiferente a tudo quanto a cercava.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 26, 2016 8:35 pm

Abriu apenas uma vez a boca e foi para mandar buscar o Dr. Walter, venerando ancião que já não exercia a medicina, mas em cujo saber a Princesa depositava absoluta confiança, sendo ele, desde muito tempo, amigo da família.
Dedicadamente, Rodolfo e Antonieta velaram junto ao enfermo, cujo estado se agravava a olhos vistos e que, em seu delírio apenas falava de Valéria, e no rival que, a todo empenho, desejava afastar.
Chegando, o Dr. Walter instalou-se no Castelo, a rogo da Princesa.
Sem dúvida, o conhecimento aprofundado que tinha da conformação psíquica de Raul pareceu auxiliar o velho médico; a febre diminuiu progressivamente sob o efeito de sua medicação, cedendo por completo na manhã do sexto dia, dando lugar a uma prostração, a uma total fraqueza.
Alegraram-se todos, confiantes na melhora; dois dias depois desse novo estado, o Doutor disse, com expressão inquieta:
— Acredito que seja de minha obrigação avisar-vos, Senhora, que o estado presente do Príncipe é, talvez, mais de se temer do que a febre e o delírio; esta fraqueza, esta progressiva extinção das forças vitais provirá, segundo creio, de qualquer comoção moral, e, caso não possamos alcançar uma reacção salutar, muito provável será um acontecimento fatal.
Tomada de desespero e fora de si, a Princesa narrou ao doutor, em seus pormenores, o amor desesperançado de Raul, que ela mesma alentara, por não saber que pudesse haver qualquer impedimento a essa união.
— Julgais, porém, Doutor — concluiu — que se Valéria surgisse à cabeceira de Raul, num instante em que ele estivesse lúcido, e lhe afirmasse que consentia em vir a ser sua esposa isso poderia provocar uma reacção tal que o salvasse?
Nada posso garantir quanto ao resultado dessa experiência.
Entretanto, dado o amor do jovem, tal arranjo é o que tem mais garantias de bons resultados, penso eu.
— Pois ainda hoje Valéria deve colocar, no dedo de meu filho, o anel dos esponsais; não há obstáculo que eu não remova para salvar o meu Raul!
Inteiramente resoluta, a Princesa se ergueu e, penetrando na sua câmara, mandou um criado pedir ao velho Conde que fosse ter com ela urgentemente.
Assim que ele chegou, puxou-o para perto de si, no divã, e após narrar-lhe a conversação mantida com o médico, ajuntou:
— Agora, meu amigo, já não somos estranhos um para o outro e convém que me exponhais, com inteira franqueza, os motivos que vos obrigam ao casamento tão desigual de Valéria, e juntos busquemos os caminhos para libertá-la.
— Efectivamente, não teria desejado uma união mais digna e brilhante para minha filha que com Raul, e me é tão penoso o que vos vou confessar, Princesa, que em vez de o fazer, teria preferido uma bala no coração; procuro encarar isto, contudo, como expiação que me inflige Deus pelas diversas insânias, além do sacrifício, mais cruel e pesado, ainda, de casar tão desgraçadamente minha pobre filha.
— E dar-se-á que sacrifiquemos, por um pouco de ouro vós, o futuro de Valéria, e eu a vida de meu filho? — exclamou a Princesa de O""", ante o silêncio do Conde.
Não, Conde, olvidemos, nesta hora suprema, toda a sordidez mundana; um pai e uma mãe aflitos não devem olhar mais que a seus filhos.
Ainda hoje, mandarei que venha meu procurador, e ajustareis com ele a questão dessa dívida.
Deve ser reembolsado o insolente usurário, o quanto antes, e que não se ouça mais falar dele!
No tocante a nós, tudo se arranjará de modo a não vos impor qualquer obrigação para um acordo tão simples entre pessoas de nossa hierarquia.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 26, 2016 8:36 pm

Emocionado profundamente, o Conde levou aos lábios a mão da Princesa de O'
— Insensato e ingrato eu seria para com a Providência e para convosco, se recusasse, com reconhecimento, o que me propondes.
Agora, necessário se faz inteirar Rodolfo e Antonieta.
Antes do mais, conversaremos com eles, e, depois, chamarei Valéria.
Pode velar junto ao doente, durante este período, a irmã de caridade.
Algo surpreso por este inesperado chamado, o jovem casal compareceu de pronto ao gabinete, onde o Conde e a Princesa puseram-nos a par, animadamente, do que se havia resolvido.
De início, um clarão de alegria brilhou nos olhos de Rodolfo.
Pretendeu falar; lançando, porém, um olhar a Antonieta, pôs-se a mordiscar o bigode, e calou-se.
— Querida tia, caro pai — exclamou a jovem, cujo rosto juvenil se cobriu de rubor — acredito ser irrealizável o que vindes de decidir; empenhamos a nossa palavra a Samuel; ele é, desde dois meses, o noivo de Valéria, e está se preparando para ingressar no rol dos cristãos.
Proceder dessa maneira com ele, como o desejais, seria ignominiosa traição.
— Traição! - bramiu o Conde Egon, pulando da poltrona, vermelho de cólera e indignação.
Ousas taxar de traição à defesa mais justa contra o salteador que, faca apontada à nossa garganta, não vos diz:
A bolsa ou a vida!, o que se perdoaria, porém:
A honra ou a vida?
Lembras-te das condições que nos foram ditadas, e o maldito dia em que, cheio de insolência, esse imundo cão apresentou-se em nossa casa, no papel de noivo?
Olvidaste o abatimento moral de Valéria, o seu mudo desespero?
Com certeza, a nova da ditosa mudança de nossa posição será para ela, também, uma libertação.
Lamento, querida Antonieta, ainda não estejas bastante imbuída da honra do nome que ostentas, pondo-se a inventar obstáculos.
Peço-te, agora, que previnas Valéria de que a futura mãe dela a espera e que juntos decidiremos qual possa ser a oportunidade mais propícia em que sua presença e palavra actue favoravelmente sobre o estado de nosso caríssimo doente.
Antonieta permaneceu sentada, e ripostou, comovida:
— Cometeis um erro, pai, crendo que Valéria seja feliz com tal rompimento, e o considere uma alforria; tenho motivos para crer que Valéria ame Samuel Maier:
que, antes de nossa viagem, tiveram entre si um entendimento decisivo; que ela se oporá energicamente a violar a palavra empenhada ao noivo.
Para que não me suspeitem de tê-la influenciado, recuso-me a prevenir Valéria.
Mandai chamá-la por outra pessoa, e creio, esse não é o melhor meio para devolver a saúde a Raul, cuja vida está nas mãos do Senhor.
— Que estais falando, Antonieta? — exclamou a Princesa de O""", agitada de surpresa.
Acreditais seriamente que Valéria possa preferir um judeu usurário a Raul?
— Tende calma, cara Princesa — interrompeu o Conde.
— Ainda que minha nora pudesse ter razão, do que descreio muito, tudo não passará de uma dessas fantasias naturais ao cérebro desocupado de uma moça.
Crendo-se ligada indissoluvelmente a Maier, que em verdade, é belo e tem espírito, a generosidade exaltada de Valéria fê-la buscar todos os pontos favoráveis de seu sacrifício; além do mais, acrescente-se que a mulher é sempre frágil quando se sabe amada, e a paixão ardente e constante desse homem pode muito bem tê-la cegado e conquistado.
Será suficiente dar-lhe a conhecer que o seu sacrifício é desnecessário, e que um homem da linhagem de Raul, ideal de corpo e alma, se torna seu marido para fazê-la tornar à razão.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 27, 2016 8:43 pm

E, agora, Rodolfo, faz soar a campainha para que chamem Valéria.
Com a resposta dela, nossos debates estarão encerrados.
A jovem se mantinha em seu quarto, ensimesmada em agras preocupações.
A partir do momento em que Raul enfermara, isolara-se completamente; oprimia-a pensar que fora a causa involuntária do infortúnio que magoara a Princesa; sentia-se posta de lado, era a única que não fora chamada à cabeceira do enfermo; e qual seria a sua posição se o Príncipe viesse a morrer?
Não lhe passou pela mente, porém, que pudesse, tornando-se noiva de Raul, fazer com que recuperasse a saúde; tinha o coração e os pensamentos em Samuel.
Tirou-a das cismas em que se imergia o chamado do Conde.
Notando que estavam todos reunidos no gabinete como que em conselho de família, a donzela fez-se pálida e apertou entre os dedos a medalha guardada no seio, como se o retrato que ela encerrava pudesse encorajá-la contra o acre pressentimento que lhe confrangia o coração.
— Valéria! — exclamou a Princesa, fazendo com que se sentasse junto de si e apertando-a opressivamente contra o peito.
— Em vossas mãos está a vida de Raul.
— Eu? Que dizeis, Senhora? — sussurrou a jovem, de olhos molhados.
Sou, involuntariamente, o motivo de sua doença, e isto me torna bastante infeliz; não disponho, porém, de poder algum para auxiliar de qualquer modo a esse pobre Raul, a quem devoto a estima que se tem por um irmão.
— Laboras em erro, minha cara, e podes ajudá-lo em muito — afirmou o Conde.
Podemos ficar livres, por meio de honrosa transacção, que salvaguarda nossa honra e interesses, das onerosas obrigações que tínhamos sobre os ombros.
O banqueiro Maier, em breves dias, será totalmente pago, tornando-se, pois, inócuo o sacrifício que te impunhas, por amor de nós.
És livre e poderás ser a noiva do formoso e bom Raul, a quem esta boa nova deverá devolver a saúde e a vida.
Valéria ergueu-se de pronto; tremor nervoso percorria-lhe todo o corpo.
— Não pode ser, pai, o que me propões é irrealizável: nenhum outro será meu esposo, senão Samuel; jurei-lhe ser fiel e cumprirei o meu juramento, não obstante a origem dele e os prejuízos do mundo.
Antonieta, que se mantivera calada, endereçou ao sogro significativo olhar, que exprimia melhor do que palavras:
"Pronto! Com quem estava a razão?"
Esse olhar e a súbita resolução da filha, que parecia pronta, apesar de pálida e de ter cruzado os braços, a defender-se contra todos, exasperaram a mais não poder a natureza violenta do Conde.
— Enlouqueceste! — esbracejou, segurando de modo áspero o braço da Valéria.
- Vem.
A Princesa afastou-o, dizendo com sua autoridade:
— Não a tortureis!
A ninguém se persuade com violência.
Quanto a vós, Valéria, tornai ao que sois, pobre menina.
O que acabais de dizer é contra-senso; rendo preito ao vosso amor filial, embora não entendêsseis jamais o valor do vosso sacrifício; agora, porém, que ele se faz desnecessário (pois é definitivo o acordo com vosso pai, esposeis ou não a Maier), obstinai-vos em mantê-lo?
Já meditastes quão grande será o escândalo na sociedade, ante semelhante escolha, que nem a dedicação filial tornará nobre?
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 27, 2016 8:43 pm

Fechar-se-ão muitas portas à mulher do banqueiro judeu, aluda que, por si, possa ele ser honrado, mas cujo pai se fez famoso por amontoar, através de mil infâmias, sua imensa fortuna.
Acalmai-vos, infeliz criança, afastai esse sonho malévolo, que teve seu nascimento em um instante de tristeza e arrebatamento, explorado de maneira habilidosa pelo homem que pretende, sabido e forte, e de qualquer maneira, abrir um caminho para a aristocracia, que lhe cerra as portas.
Deseja fazer-se baptizar, dizeis vós; apenas a vossa pouca experiência da vida, porém, pode induzir-vos a crer na sua conversão sincera.
Inúmeros e lastimáveis exemplos provam que um judeu não abandona, jamais, e definitivamente, a religião dos seus ancestrais; Samuel Maier permanecerá sempre, no imo do coração, fiel a seus irmãos hebreus, que vós vos vereis obrigada a recepcionar e cuja presença, modos e práticas vos causarão espécie, a cada dia.
Que dizer de vossa vida comum? Imaginastes o que ela vos dará se, desnecessariamente, vos unirdes a essa gente, da qual nos separa a força de um preconceito, que ela mesma não se mostra desejosa de destruir?
E quando o sonho de amor, que construís tão lindo, tiver fenecido, o que se dará em curto prazo, e a realidade da vida reclamar seus direitos, que vos sobrará?
Desligada, isolada desta sociedade em que nascestes e para a qual recebestes educação, sacrificareis tudo a um marido que, na vida em comum, fatalmente perderá o verniz que o faz vosso igual, aparentemente.
Não vos olvideis de que ele é um homem vindo da plebe, da asquerosa e vil família dos judeus, e a quem o pai educou em todas as velhacarias, com a ideia do ganho a qualquer preço.
Essas fortunas dos judeus, filha minha, são produtos dos esforços, desgraça e ruína, e quantas vezes! da morte do cristão.
A esse banqueiro que, não obstante a sua mocidade, dirige com tanta firmeza os seus negócios, não lhe sobrará tempo para representar o papel de esposo amoroso; cheio de si por ter esposado uma Condessa de M""", desiludido na esperança de se tornar personagem da alta sociedade, bem depressa será um indiferente.
Sucessor digno do pai, provocará hábeis ciladas, em que tombarão as vítimas da sua rapacidade.
Não o negueis com a cabeça, Valéria; sois, vós mesma, patente prova do que vos digo:
tal adorador perdido de paixão não monopolizou, calculisticamente, todas as obrigações dos vossos (disse-mo vosso pai) e não levantou o punho com insolência, passando a ter-vos como penhor, assim que se julgou dono da situação?
"Conscientemente, podereis dizer que, no instante em que se vos disse pela primeira vez, que ele vos pretendia por esposa, destes sim com alegria?
Não ficastes em luta, em desespero?
Não se rebelou o vosso orgulho?
Vossa alma, ao pensamento de pertencer, de corpo e alma, a esse judeu não se estremeceu de pesar?"
Com emoção que ia num crescendo, Rodolfo tudo ouvira; readquiriam vida em seu íntimo todos os vexames sofridos; a dura carta de Samuel, e então o humilhante encontro em que ele, orgulhoso gentil-homem, tendo atravessado o escritório debaixo de olhares curiosos de empregados, tivera de ouvir do cruel banqueiro a arrogante pretensão de que a irmã pagaria, pelo casamento, a honorabilidade da família.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 27, 2016 8:43 pm

A lembrança da palestra mantida com a esposa, na noite anterior, na qual a estouvada
Antonieta dissera ao marido da visita nocturna de Valéria, veio encher-lhe as medidas da indignação.
— Não te envergonhas, Valéria? — exclamou ele, de punhos cerrados.
A que coisa te prendes, em tua insânia?
Olvidas-te da noite em que lhe foste implorar, e como, um novo prazo?
E o... miserável te despachou, impondo escolher entre a honra e a pessoa dele.
— De que noite estás a dizer? — inquiriu o velho Conde, espantado.
— Ah, papai, isso nada tem a ver com o caso — cortou Antonieta, dirigindo ao marido um olhar de fundo descontentamento.
Rodolfo delira e se engana.
Valéria permaneceu muda.
Como se lhe faltassem as forças, apoiou-se a um móvel e, com ambas as mãos, cobriu a face transtornada.
A Princesa estendera entre ela e Samuel, com suas palavras, um véu escuro cuja sombra a recobriu.
Penosamente emocionada, lembrou o tremendo desgosto que a fizera preferir a morte a essa união, assim como o instante em que ela, a nobre condessa, implorara, de joelhos, a sua liberdade, quando então o duro coração de Samuel se mantivera insensível.
"É que ele te ama", soprou-lhe uma voz interior.
"Por obstinação de usura", sussurrou outra.
E se o porvir, que a Princesa desenrolara ante seus olhos, fosse verdadeiro; se não fora senão um sonho o seu amor por esse homem belo e cheio de espírito, sonho do qual despertaria tarde demais, quando se visse desprezada, banida da sociedade, apontada por ela a dedo devido a sua totalmente desigual aliança, ironizando-a pela sua louca e absurda escolha?
Não havia como fingir que seu casamento deixava de ser um sacrifício, já que a Princesa facilitava a regularização dos assuntos pecuniários, não passando senão de um seu desejo voluntário.
Estremeceu, uma vez mais; contudo, a figura de Samuel surgiu triunfante diante de seus olhos da alma; Samuel!
Ele confiava absolutamente; dera-lhe os documentos, e ela jurara-lhe fidelidade sob os raios quentes do sol.
— Não, mil vezes não — disse, com voz agitada.
Samuel não é imundo, nem ladrão, igual aos seus patrícios.
Não pretendeu existir entre nós laço algum senão o amor e a minha palavra, pois devolveu-me todas as letras de câmbio, para que eu as destruísse.
Exigi-me, portanto, qualquer outro sacrifício e eu não me oporei; não pedi, contudo, de mim, tão desleal traição, uma falsidade, que me faria a mais vil das mulheres.
— Entregou-te as obrigações! — disseram todos a um tempo.
Sem lhes dar atenção, Valéria voltou-se e saiu.
— Esse velhaco é, na verdade, mais manhoso do que eu pensava!
Procedeu com absoluto conhecimento do génio generoso e ardente de Valéria — afirmou o Conde.
Entretanto, o vosso discurso, caríssima Princesa, agiu de modo eficiente e tenho certeza de lhe vencer os escrúpulos infantis; falar-lhe-ei e tomarei os documentos, para os enviar ao vosso procurador.
Espero, depois, poder conduzir a noiva para junto de Raul.
— Deus vos guie e vos dê boas inspirações, meu amigo — respondeu, com um suspiro, a Sra. de O""" — e igualmente a Valéria.
Retorno para junto de meu doente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 27, 2016 8:43 pm

— Oh! Deus! Pai, que pretendes fazer? não podes constrangê-la deste modo — disse Antonieta, inquieta, assim que a Princesa se afastou.
Antes que o velho Conde respondesse, Rodolfo exclamou, vivamente:
— Mas, que supões?
Não se trata de violência.
Tem muita razão nosso pai se quer empregar todos os meios de persuasão para que ela renuncie à sua teimosia; é uma insensatez, enfim, repelir um partido qual o é Raul, a fim de desposar esse asqueroso judeu.
Confesso, agora, que a ideia do escândalo inelutavelmente, caso esse casamento se realize, tem-me custado mais de uma noite insone.
A surpresa, os gracejos, as bisbilhotices curiosas em torno dos motivos de semelhante disparate me põem nervoso; a ruína das nossas finanças não poderá ficar escondida, e a vergonha de ter vendido Valéria a um homem obscuro, que jamais frequentou a nossa sociedade, cairá sobre o nosso nome.
Quando penso que podem ser evitados todos esses aborrecimentos com a união de Fada com um homem que, enfim, toda mulher invejará e que suplantará prontamente esse Romeu judaico, compartilho absolutamente da opinião de que Valéria deve, a qualquer preço, ser desiludida.
Suplico-te, pois, Antonieta, que nos auxilies com toda a influência que exerces sobre ela.
— De modo algum, meu amigo, não posso fazer isso — redarguiu a jovem esposa, movendo a cabeça, gravemente.
Antes do mais repugna-me tratar tão rudemente e com desprezo a um homem que recebemos em nossa intimidade no nível de futuro parente e que, entregando as obrigações antes das bodas e fiando-se apenas em nossa palavra, em parte resgatou as suas faltas.
Depois, é convicção minha que tal acordo, se se verificar, não nos trará felicidade, como acontece com tudo que é desonesto, e quiçá nos prepare para o futuro grandes amarguras.
Valéria ama a esse homem, e ela não o esquecerá por muito miserável que procureis fazê-lo a seus olhos, pois Samuel possui essa calma enérgica, essa paixão ardente e arrebatadora que subjuga a mulher.
É uma natureza poderosa, não um judeu comum, mas um espírito profundo, que soube sensivelmente cativar.
Valéria ama-o, e não poderá Raul fazê-la esquecê-lo.
Não obstante sua indiscutível beleza, meu primo é bem jovem, muito mimado pela adulação da mãe e dos que o rodeiam, habituado em demasia a ser querido, para julgar conscientemente a situação, e ter a paciência de conquistar, com tempo, o coração de Valéria.
Por agora, ficará de todo satisfeito; com o tempo, porém, compreenderá que em sua esposa não encontra tudo quanto esperava, e sua união será desgraçada.
E ainda que tal desgraça não dê a conhecer a Raul que a sua imagem não vive no coração de sua mulher, mas a do noivo que lhe tiraram, que aconteceria?
Entretanto, procedei como entenderdes; apenas, eu não aquiesço em imiscuir-me em tal arranjo, nem influenciarei sobre Valéria.
— És completamente livre, minha cara — disse o Conde Egon, que tinha acompanhado, recostado numa poltrona e com enfado crescente, as palavras da nora.
De acordo, pois, com o panegírico brilhante que vens de fazer, devo convencer-me de que a irresistível natureza do Sr. Maier te dominou, tanto quanto a Valéria, e que estás a pedir um papel a desempenhar na crónica escandalosa de Pesth.
Não esqueças, porém, que é também o nome e a honra de teu marido que as más línguas arruinarão; considerei-te sempre mais prudente do que Valéria.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 27, 2016 8:44 pm

Agora que estás casada, deverias melhor entender tudo, e para meu grande espanto, alimentas doidices de menina, ideias romanescas de interna de colégio, achando-se assim tão bem no papel de heroína ao qual deseja, de modo total, acrescentar, para maior efeito, um amor infeliz.
— É sem justificativa, papai, que me imputais tão culposa leviandade — respondeu Antonieta, calma e gravemente.
Julgo que dás muito apreço às tagarelices mundanas, e compreendo quanto é cruel arrancar do nosso coração, porque também eu amo, a figura do homem amado.
Por mais desarrazoado que esse sentimento pareça aos homens ajuizados, é tão tenaz que, se arrancado pela raiz, com violência, pode deixar na alma um vácuo que nada no mundo conseguirá preencher.
Sei que, se tivessem buscado separar-me de Rodolfo, lutaria pelo meu amor até a morte, e não me julgaria louca por semelhante proceder!
Com expressão de felicidade e gratidão infinitas, Rodolfo segurou a mão da esposa e a beijou; o velho Conde olhou-os, rindo.
— Admitamos que eu tenha sido muito severo.
Contudo, minha cara filha, observarei, de minha parte, que o teu amor é dos tais que o mundo e os parentes podem bendizer e apoiar; com Valéria a situação é diferente; estou certo de que os seus sentimentos são uma ilusão doentia, e de que só a igualdade do nascimento e da posição dá a felicidade durável, e também que é meu dever buscar salvá-la de uma insensatez irremediável.
Preocupada e fora de si, Valéria recolhera-se ao seu aposento; a cabeça girava-lhe, o coração apertado como por um torniquete; abandonou-se sem forças num divã, e rompeu em pranto.
Decorrido esse primeiro paroxismo de aflição, pensou na sua situação; tudo ao seu redor lhe parecia sombra e nuvem.
Devia lutar, conforme jurara a Samuel, dar-lhe provas de que não se envergonharia dele e que o amor imenso que os unia seria para ele compensação dos falsos juízos e do desprezo da sociedade!
Essa luta, porém, contra os seus parentes todos era difícil!
Retirou, com fundo suspiro, o medalhão preso ao pescoço e imergiu-se na contemplação do retrato de Samuel:
pareciam olhá-la com censura os grandes olhos sombrios do jovem, lembrando-lhe o juramento.
Sem o perceber, pôs-se a comparar os dois homens entre os quais devia escolher, e o suave e caprichoso rosto de Raul, seu olhar aveludado e sonhador, fizeram-se pálidos e sem brilho, ante essa fronte enérgica, esses olhos cheios de vida, e essa boca severa, que parecia dizer:
— "Luta alguma me fará recuar!"
— Oh, não, Samuel! permanecerei fiel a ti — murmurou Valéria, tomando a miniatura e levando-a aos lábios.
Chama falaz é o amor de Raul, primeira afeição que se extinguirá como o núcleo de um fogo de artifício; há de me esquecer prontamente, enquanto a ti, Samuel, a minha perda iria fazer sangrar, mortalmente, o teu coração.
Ligeira pancada na porta a fez tremer.
— Entrai! — ordenou, escondendo o medalhão.
Vendo o pai, levantou-se, aflita.
— Senta-te, minha filha — disse o Conde, pondo-se junto dela — e mantém-te calma; Deus pode testemunhar quanto são dolorosas para mim as tuas lágrimas; o dever de pai, porém, obriga-me a te falar outra vez seriamente, antes que rejeites, definitivamente, tua real felicidade, em troca da ventura falaz que a tua alma juvenil sonha.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 27, 2016 8:44 pm

Entendamo-nos, pois, minha querida filha:
nada te desejo impor, mas apenas esclarecer, dada a experiência que tenho, o que não nota a tua vista iludida, e isso antes que seja tarde demais.
"Não és já criança; a mulher de juízo, que tu és, compreender-me-á.
Fomos nascidos para viver uma vida real e activa, e não em mundo de ilusões, e essa realidade da vida obriga-nos a nortear os nossos sentimentos pela razão.
A classe e a sociedade em que vive mos, por direito de nascimento, nos impõem deveres, que não pode mos relegar sem pena; a tradição de honra, brasão sem mancha que nossos antepassados nos deixaram, é nosso dever transmiti-la, isenta de qualquer nódoa, aos nossos herdeiros; uma moça da tua estirpe não pode dispor do coração como qualquer reles burguesa o faz; uma tua escolha fora de nossa órbita provocará a atenção, e se o descalabro de nossas finanças se tornar público, apontarão o dedo a teu pai e a teu irmão.
Não me interrompas, Valéria; queres dizer-me, eu o sei, que foi para nos livrar da desonra que, de início, te sacrificaste; tens razão.
"Perante minha consciência, estou julgado: pai culpado, jogador sem juízo, dissipei o futuro de meus filhos, e não seria por certo para salvar a minha vida que aceitaria a aviltante imposição do judeu, e consentiria que fosses, um momento apenas, sua noiva.
Tratava-se, também, de Rodolfo.
A decidir entre os dois, foste a sacrificada, pobre filha.
Apaixonado, jovem, Rodolfo não viu nisso senão a salvação.
Vê os meus cabelos embranquecidos, e pergunta-lhes quanto custou a teu pai estes dois meses.
A presença de tal homem, cada sorriso e cada palavra familiar que trocava contigo, eram uma punhalada no meu peito; minha consciência indignava-se:
"Faliste; vendeste tua filha!"
Tenho buscado, em segredo, em todo este tempo, uma solução, pois não poderia ainda existir após o dia de teu casamento.
Valéria soltou abafado grito:
— Que ouço de ti, pai?
— A verdade, filha.
Acreditaste, seriamente, que eu poderia suportar este escândalo, a maldizente curiosidade, a chocarreira alegria dos meus iguais, que me invejam?
Oh nunca, jamais! Antes a morte!
E podes aquilatar agora de como me sinto, quando a sorte nos oferece uma honrosa solução e tu a rejeitas, para te ligares a um indivíduo que não te pode dar a felicidade e cuja união é uma desonra?
Pensa bem, querida filha, dá abrigo aos apelos de teu pai e poupa-Ihe um infortúnio que encherá de veneno os seus últimos dias.
Calou-se o Conde, porém duas lágrimas escorreram-lhe dos olhos, e tanta ternura infeliz havia em sua voz, que se esboroou toda a resistência da jovem.
Desde criança, adorava o pai; com ansioso olhar fitou os cabelos encanecidos do Conde, as fundas rugas que lhe cortavam a fronte, lisa alguns meses atrás, e oprimiu-lhe o peito profunda angústia.
Se em verdade a morte das novas esperanças do Conde o levasse ao suicídio, se ela sacrificasse o próprio pai, tal como Samuel ao dele, que ventura haveria de florir sobre a campa de dois anciões?
Com um grito abafado, Valéria atirou-se ao pescoço do pai.
— Não! Oh! não, papai; vive para mim, sê feliz.
Deus levará em conta esta hora, eu o acredito, e perdoará a minha traição.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 27, 2016 8:44 pm

Renuncio a Samuel; casar-me-ei com Raul!
Assaltado por real e funda emoção, o Conde cingiu-a ao peito.
— Deus te guarde! — sussurrou.
Após um longo silêncio, disse, correndo a mão pelos cabelos louros da filha, carinhoso:
— É preciso que te deixe, filha; não queres, porém, entregar-me os títulos que tens contigo?
Valéria ergueu-se, silenciosa como em sonho, e, abrindo uma caixinha, retirou da carteira vermelha os papéis selados que lhe dera Samuel, dando-os ao pai.
Após ter o Conde saído, abandonou-se numa poltrona e apertou a cabeça entre as mãos, pois nem podia chorar; no seu cérebro ultra-excitado, apenas uma ideia dava voltas:
"Tudo é findo!"
Depois, fundiram-se todas as coisas em uma dor acre, num esfacelamento do coração, que não deixava lugar a qualquer pensamento.
Nem se apercebeu que a porta se abria, levemente, e dava entrada a Antonieta.
Diante da donzela, mergulhada em absoluta prostração, e do fatal desespero que lhe contraía o rosto, lágrimas de raiva subiram aos olhos de Antonieta.
— Impiedoso e cego egoísmo, que consequências ainda trarás — murmurou, com amargura.
Ajoelhando, depois, junto da poltrona, puxou Valéria para junto de si:
— Infeliz irmã, chora em meus braços, compreendo-te e julgo que, acima de tudo o que se passa, paira a nossa amizade.
Valéria estremeceu e, quando seus olhos buscaram os da amiga fiel, lendo neles sincera afeição, sentiu-se menos só e, deitando a cabeça no ombro de Antonieta, deixou que lhe corresse livremente o pranto que lhe trazia alívio ao coração cansado.
A jovem de Eberstein deixou que ela chorasse plenamente.
Salutares eram estas lágrimas, sabia-o; quando a jovem pode serenar de certo modo o seu sofrer, foi só então que lhe disse, com suave imposição:
— Deita-te. Estás muito cansada, e é deveras necessário um pouco de repouso.
Sem resistir, Valéria deixou-se levar, estendeu-se no divã, ingeriu algumas gotas de calmante, deixou desnodar os cabelos e estender sobre os pés uma colcha.
Cerrou, depois, os olhos e completamente exaurida de forças, como estava, adormeceu de pronto, num sono agitado.
Antonieta foi postar-se à cabeceira da amiga, depois de ter abaixado as cortinas e pedido silêncio completo, e absorveu-se em dolorosos pensamentos.
Compungia-lhe o coração a dor de Valéria; sua ingénua honradez rebelava-se contra o novo sacrifício que arrancavam da infeliz jovem, depois de a terem obrigado, por assim dizer, a esse amor.
Pensou em Samuel com igual ansiedade, ao qual, de forma inesperada, se arrancava um bem já adquirido.
De que modo poderia suportar a perda da mulher que tão apaixonadamente amava, a destruição do venturoso e calmo porvir que sonhara?
Passaram-se assim mais de duas horas; observando, contudo, que o sono da jovem se fazia cada vez mais calmo e profundo; que o rosto, agitado a princípio, tomava expressão suave e risonha,, que lhe era normal, Antonieta acalmou-se, saiu, nas pontas dos pés, e reencontrou Rodolfo na saleta junto ao dormitório de Raul.
— Então, como está minha irmã? — indagou, cheio de cuidados, o jovem Conde.
Meu pai me afirmou que ela cedera ao seu apelo.
— É exacto, mas que consequências resultarão disso? Sabe-o Deus.
Prevejo para o futuro muitas lágrimas.
E Antonieta narrou em que estado encontrara a cunhada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 27, 2016 8:44 pm

- Dorme, agora; estará, porém, capacitada a novo sacrifício?
Depois, seja lá o que digas, é meu entender que agimos mal com Samuel, e o lastimo.
O jovem Conde repuxou, num gesto nervoso, o bigodinho louro.
— Leve o diabo esta história toda — exclamou.
Estou quase a pensar que melhor teríamos feito em realizar o nosso casamento em qualquer outra parte.
Lamento, também, Maier, sinceramente; no fundo, é bom rapaz; entretanto, não se pode, em verdade, sacrificar por ele a vida de Raul, e jamais eu creria minha irmã apaixonada por Samuel.
O médico, entrando, interrompeu a conversa dos jovens esposos.
— Então, Sr. Doutor, como deixais o enfermo? — indagou Antonieta.
— Nenhuma melhora observei em seu estado, Sra. Condessa:
a fraqueza cresceu e a inacção é a mesma; a Princesa, contudo, vem de me comunicar que a Condessa Valéria acedeu em ser a noiva do Príncipe, e confesso que nisto deposito minha derradeira esperança.
Pode dar-se que a presença daquela a quem ama produza nele uma reacção saudável, e desenvolva a circulação do sangue; santo remédio é a alegria, e a mocidade tem fabulosos recursos.
Não temos, contudo, tempo a perder para tentar esse último e valioso remédio.
O Príncipe dorme, neste instante; esse sono, entretanto, não se prolongará; providenciareis, portanto, Senhora, para que se previna a jovem Condessa, de que lhe peço que venha para junto de seu noivo.
É preciso que ele a veja, assim que abra os olhos.
— Transmitirei vossa ordem a Valéria; contudo, não julgais, como eu, Doutor, que minha infortunada tia melhor faria não assistindo a esse encontro?
— Sem dúvida! Seu desespero, as lágrimas que não controlaria, actuariam de maneira desfavorável — redarguiu o médico, endereçando um olhar para o relógio.
Preveni-a já de que a Condessa Valéria, vosso esposo, vós e eu seremos as únicas pessoas presentes a esse acto.
Não percamos tempo, por favor, senhora. Receio que ele acorde.
Adentrando o aposento de Valéria, Antonieta achou-a já desperta.
Aparentava calma e alongou a mão à cunhada com um sorriso melancólico.
— Querida amiga, contarás com forças para ir o mais breve possível para junto do leito de Raul? — indagou Antonieta, abraçando-a.
— O infeliz rapaz não conheceu as tuas penas, e passa tão mal, que em ti está posta a derradeira esperança do médico.
Concede-lhe, portanto, essa dita, a última quiçá, de ver-te, e de ouvir de tua boca que aceitas desposá-lo!
Ele te ama tão perdidamente, que pode restituir-lhe a vida essa alegria.
Valéria abaixou a cabeça.
— Por que me negaria? Tal visita é consequência da resolução que tomei para salvar, de modo novo, a honra de minha família.
Se tive o despudor de trair deslealmente a Samuel, por que não terei coragem de mentir a Raul, afirmando-lhe que, de livre vontade, me torno sua mulher, ainda mais se com essa mentira lhe salvo a vida?
Levantou, suspirando, e, com indiferença cheia de cansaço, entregou-se a Antonieta que lhe trançou os longos cabelos, arrumou-Ihe as vestes; no momento, porém, de abandonar o aposento, Valéria deteve-se, estremecendo:
— Espera um momento; devo deixar o anel com que Samuel me presenteou.
Tirou-o do dedo, osculou-o, fechando-o depois no medalhão que levava ao pescoço.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 27, 2016 8:45 pm

— Agora, disse, amargamente — está o meu dedo preparado para receber o anel do Príncipe.
Reinava no quarto do doente meia obscuridade; cortinas e reposteiros de damasco, cor-de-rosa, estavam levantados; uma lâmpada, apenas, coberta por pequeno abajur de seda, iluminava fracamente o grande aposento e o leito acortinado em que Raul jazia, imóvel, de olhos cerrados.
À cabeceira, numa poltrona, sentava-se uma irmã de caridade que, de cabeça baixa, fazia deslizar entre os dedos as contas do rosário; perto de pequena mesa, conversavam em voz baixa Rodolfo e o médico.
Ao ver chegar as duas jovens, o Conde adiantou-se até sua irmã, apertando-lhe a mão, com força, e, sem dizer palavra, levou-a até junto do leito.
Atendendo a um sinal de Rodolfo, a religiosa levantou-se e abandonou o recinto.
À vista da grande mudança que ocorrera durante os poucos dias em que não vira Raul, Valéria deteve-se, interdita:
de facto, o Príncipe parecia uma bela estátua de alabastro; seus louros cabelos, dispersos sobre o travesseiro, rodeavam como auréola o rosto definhado; crispava-lhe a boca uma expressão de sofrimento; a mão, fina e branca, descansava sobre a coberta, húmida, gelada.
Sincero pesar, ardente e afectuosa piedade brotaram no coração juvenil e bom de Valéria. Olvidando-se de sua própria dor, sentou-se à borda do leito inclinando-se cheia de ansiedade para aquele que seria o seu marido se fugisse à morte. Rodolfo permaneceu de pé, perto do leito, aguardando que o enfermo despertasse.
Antonieta e o médico afastaram-se para o fundo do aposento.
Decorreram mais de dez minutos, sem se notar qualquer alteração.
Raul conservava-se imóvel e, não fosse a respiração que, quase imperceptível, lhe escapava do peito, de tempos a tempos, poder-se-ia acreditar que a chama da vida abandonara aquele corpo exaurido.
Uma angústia, sempre mais opressiva, apossou-se de Valéria.
Seu coração batia, com violência; o extinguir-se dessa vida, por não poder suportar a perda de seu primeiro amor, inspirava-lhe profundo pesar; não era Raul culpado por suas mágoas, já que ignorava que a forçavam a sacrificar-se para tentar salvá-lo.
Nesse instante, ele moveu-se e abriu os olhos.
Seu olhar fixo e indiferente passeou, cansado, pelos que o cercavam; quando encontrou, contudo, o rosto de Valéria pendido para ele com ansiedade, um lampejo fugaz lhe escapou dos olhos e sincero sorriso lhe pairou nos lábios:
— Vós... aqui, Valéria!
Pela primeira vez vindes ver-me... — sussurrou.
Não prosseguiu, porque o impossibilitava a atonia.
Observando que, tomada de emoção, não podia a irmã responder, Rodolfo inclinou-se para o doente e disse-lhe, com afecto:
— Valéria veio dar-te uma notícia que, esperamos, te devolverá prontamente a saúde:
todos os entraves que vos separavam foram afastados; é tua noiva quem vem por sua mão na tua.
Nervoso tremor sacudiu o corpo do enfermo e, dilatados pela enfermidade, seus olhos ergueram-se para a jovem, com inenarrável expressão de amor, de medo de descrença.
— É verdade que me amais? — indagou, inquieto.
— É certo, Raul; desejo ser vossa esposa; dizei-me se vos traz alegria esta promessa — respondeu Valéria, em voz apenas audível.
Um relâmpago de felicidade apaixonada fulgurou nos olhos do Príncipe.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 27, 2016 8:45 pm

— Se sou feliz!...
Não ouso, apenas, acreditar nesta inesperada felicidade.
Recebera Rodolfo do doutor a instrução de dilatar o mais possível a suave emoção do enfermo, e, com tal propósito, a Princesa enviara ao sobrinho dois anéis iguais (que serviram, em tempos idos, aos seus próprios esponsais).
Às últimas palavras do Príncipe, o Conde depôs estes anéis na mão da irmã e disse, sorrindo:
— Aí está o que te convencerá de que tua felicidade não é ilusão!
Valéria curvou-se mais ainda para o noivo; corriam-lhe algumas lágrimas pelas faces quando colocou um dos anéis no dedo de Raul e o outro no dedo que, não há muito, tinha desguarnecido o de Samuel.
— Vive para os que te querem! — ajuntou, com voz trémula.
Vivo rubor coloriu o descorado rosto de Raul que premiu a pequena mão de Valéria contra os lábios, procurando erguer-se.
— Não te canses! — disse Rodolfo, vivamente, arrumando os travesseiros, para sustê-lo.
— Cansa-nos, acaso, a alegria?...
Valéria, se não me negas o ósculo de noivado, quero então viver ou morrer tranquilamente, conforme a vontade de Deus; serei totalmente feliz.
Sem vacilar, a jovem curvou-se e colou os seus lábios nos do noivo.
Mas.... quanto era diverso, esse calmo e fraterno beijo, do que trocara com Samuel, na tarde da tempestade!
Raul nada notou... obumbrado pelo excesso de ventura e pela fraqueza, tombou sobre os travesseiros quase exangue.
Valéria emitiu um grito de susto; o Príncipe reabriu os olhos, e seus lábios entreabriram-se num venturoso sorriso.
— Não é nada, um pouco de fraqueza; não me abandones, porém — sussurrou ele.
A jovem ficou, pois, sentada, com a mão de Raul entre as suas.
Em breve, porém, os olhos do jovem se fecharam, e a respiração regular e calma mostrou que ressonava.
Avisado pelo Conde, o Dr. Válter acercou-se de leve e examinou o doente.
A palidez cadavérica de Raul cedera lugar a uma leve coloração rosada; copioso suor humedecia-lhe a fronte e as mãos; animava-se o pulso; profundo o esculápio ergueu-se, com um suspiro de alívio.
— Está salvo, Condessa; viverá. São-lhe necessários, agora, apenas o sono e o repouso.
Tomando de uma coberta, recobriu o enfermo.
Valéria retirara, cuidadosamente, a mão de entre as de Raul, que dormia; ergueu-se e, a passos indecisos, encaminhou-se para a sala vizinha, onde a Princesa, com o rosto banhado por lágrimas de felicidade, lhe estendeu os braços.
Muitas emoções tinham avassalado, porém, a donzela e, ante essa felicidade que se levantava sobre os destroços de sua ventura, inenarrável angústia lhe inundou o coração.
Tonteou-lhe a cabeça, e caiu desmaiada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 27, 2016 8:45 pm

6 — O FIM DO SONHO DE SAMUEL

No decorrer destes eventos, no Castelo da Princesa de O""", desconhecendo a borrasca que se formava sobre a sua cabeça, Samuel continuava vivendo no seu mundo de ilusões e fagueiras esperanças.
Para preencher o tempo que o separava do regresso de Valéria, entretinha-se de modo activo na arrumação dos aposentos destinados à futura esposa ele mesmo escolhendo cada estofo, cada vaso, cada móvel, e nada lhe parecia bastante rico e belo, para o ídolo que iria habitar aquele ninho de sedas e de rendas.
Negligenciava um tanto suas ocupações no escritório, já que, no período da manhã, o jovem banqueiro abismava-se na consecução do retrato de Valéria.
O suave e fascinante rosto da jovem Condessa sorria já na tela, e os olhos azuis, claríssimos, contrastavam com as centáureas trançadas em forma de coroa, que enfeitavam a loura cabeça, em grande parte, tudo estava ainda em esboço; o amor porém, dirigia e inspirava o pincel do artista.
A cabeça de Valéria sobressaía como se tivesse vida, e parecia sorrir ao futuro esposo.
Quando estivesse pronto, tal retrato seria posto acima da secretária do banqueiro, a fim de que, quando erguesse os olhos de suas ocupações, pudesse sempre fitar as feições adoradas.
Quinze ou dezasseis dias após a partida do Conde de M""", em certa manhã, Samuel se encontrava em sua oficina de pintura.
Lera, pela sétima vez consecutiva, antes de imergir em seu trabalho, a carta de Valéria, que era resposta à sua, na qual, agradecendo o envio do retrato, reafirmava o seu amor e mostrava impaciência por revê-lo.
Imerso nas esperanças do futuro, o banqueiro manejava o pincel ardorosamente, quando a voz de um serviçal o desviou de seus sonhos para comunicar-lhe que várias pessoas desejavam falar-lhe.
— Quem são? — indagou, atirando para o lado, aborrecido, a palheta e o pincel.
Não te proibi incomodar-me?
O servo declinou vários nomes.
— Insistiram com tal veemência, que não me animei a despedi-los — terminou como a desculpar-se.
— Está bem; introduz esses senhores na saleta azul — ordenou Samuel, em tom pausado.
Quando, pouco depois, penetrou na sala, uma nuvem toldou-lhe as ideias e franziu as sobrancelhas: encontravam-se aí, reunidos, além do Grande Rabino de Pesth, e dois de seus confrades, velhos amigos de seu pai, notáveis pelo rigor com que encaravam a religião, e dois homens seus parentes afastados, que davam o perfeito ar do judeu típico, com seus longos casacões pretos e gorros de pele, do judeu como é encontrado nas cidades de província da Rússia ou da Áustria.
— Manifestastes desejo de ver-me, senhores.
Dizei-me em que posso servir-vos? — disse Samuel, após responder com indiferença a saudação dos compatriotas e mostrando-lhes assentos.
— Parece-me que não somos hóspedes bem-vindos — clamou o Grande Rabino, com alguma ironia — contudo, tanto faz!
O que aqui nos traz é um motivo muito grave, para que nos deixemos enxotar.
Vimos indagar de vós, Samuel Maier, se é verdadeiro o que se diz por aí; se, sob a influência dessa insensata paixão por uma mulher cristã, desejas de fato encher de lama a memória de seu pai, renegar a fé em Israel, e fazeres-te cristão a fim de esposar essa Dalila.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 27, 2016 8:45 pm

Responde: é tudo isso verdade?
Brilhou nos olhos de Samuel vivo clarão.
Dirigindo-se a um móvel de Boule, abriu-o, dele retirando um Evangelho, crucifixo e livros de Teologia.
Pondo sobre a mesa tais objectos, exclamou, com voz vibrante:
— Tudo quanto acabais de proferir é verdadeiro.
Quero, sim, fazer-me baptizar; aqui, ao pé desta janela, neste mesmo salão, recebo o padre que me orienta nos dogmas da fé cristã; provam o que vos digo, este Evangelho e este crucifixo.
Mas que tendes vós a ver com isto? Sou homem independente, livre-pensador, que há longo tempo deixou de transpor a soleira da Sinagoga.
Apegava-se a vós meu pai, sujeitando-se de olhos fechados a práticas falidas, que, na mor parte, não têm significação no século em que vivemos; eu, tendo recebido educação diferente, imbuído de outras ideias, não posso acompanhar-vos.
Sempre estou disposto a ajudar e assistir a meus irmãos de Israel; na minha vida particular, contudo, desejo ser autónomo, não admito que ninguém se imiscua!
Sussurro de reprovação ergueu-se do meio dos judeus; com um gesto, porém, o Grande Rabino lhes impôs silêncio, e, adiantando-se um passo para Samuel, com energia exclamou:
— Enganas-te, jovem louco!
É nosso direito e dever chamar-te a razão, e abrir teus olhos cegos, prevenindo de que a ira de Jeová te fira como aos revoltosos de Korá, no deserto.
Atreves-te a chamar de caducas e não dignas de nosso tempo as leis dadas pelo profeta de nosso povo, olvidando-se de que debaixo dessas mesmas leis que devemos subsistir, apesar de tudo, entre as gentes inimigas que nos cercam desde tantos séculos?
Ah! bem horrivelmente justiçado foi teu pai por desprezar os nossos conselhos, por permitir a ti negligenciar todas prescrições da lei de Moisés, e por rodear-te de servos cristãos, que te votam desprezo e cospem nas costas de seu patrão.
Esta culposa fraqueza é origem de dignos frutos.
Ensandecido por sacrílega paixão, pretendes esposar uma filha de nossos inimigos, sacrificar-lhe a fé dos teus ancestrais!
O velho israelita estava de pé, com o rosto afogueado; lia-se em suas angulosas feições um fanatismo sombrio e exaltado.
— Olvidas, infeliz — prosseguiu o Rabino — que és filho de Israel, do povo desgraçado, e perseguido, que é pior, às vistas desses goys, do que os seres primitivos.
Eles, que lançaram nas fogueiras, ou perseguiram nossos pais; que os trancafiaram em suas cidades como se fossem animais peçonhentos; que nos toleram, hoje, o coração cheio de ódio, aguardando o instante azado para nos arrasar de novo; eles não hão de te expulsar onde e quando lhes surgir a oportunidade.
Acreditas, pois, que esta orgulhosa família possa receber-te por igual, apenas devido ao baptismo?
Desilude-te: rebaixam-se e tomam teu ouro, porque com isso salvam-se de um escândalo público; desprezam-te, porém, e odeiam-te em seus corações:
para eles, serás estrangeiro, de cuja origem sentirão invencível desgosto, até mesmo essa mulher, por quem pretendes renegar teu Deus e teus irmãos.
Desperta, Maier, abandona a um desígnio que te trará infelicidade!
Se é que temes que esse infeliz negócio te traga enorme prejuízo financeiro (estou informado de que despendeste elevada soma em tudo isto, pois, obedecendo a minha ordem, Levi me disse a cifra total) saiba que teus irmãos reuniram a quantia necessária para cobrir as dívidas do Conde de M""".
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 27, 2016 8:45 pm

O Rabino retirou, então, do bolso uma carteira repleta de papel-moeda, depondo-a sobre a mesa.
— Aqui está, recebe, filho meu; põe em ordem esse negócio com toda tranquilidade, e relega ao olvido o triste episódio da tua vida, que um dia fará com que cores diante de ti mesmo.
Pálido, mas com todo ânimo, Samuel encostara-se a uma peça e, de braços cruzados à altura do peito, ouvira a vibrante objurgação do Rabino.
Quanto se lhe apresentou a carteira às vistas, assomou-Ihe às faces vivo rubor.
— Baldadas são todas as vossas palavras — replicou ele, após um momento de difícil silêncio.
Minha decisão é irrevogável; guardai essa carteira.
Sou reconhecido a meus irmãos pelas suas boas intenções, mas não posso aceitá-la.
Pago, eu próprio, todas as obrigações que me dizem respeito.
Uma verdade ressalta no que vindes de me afirmar:
os israelitas são odiados e aborrecidos em qualquer parte onde se fixem.
Porquê? Porque o merecem:
dá-se que a cobiça, a astúcia, a mentira os governam, fazendo-os odiosos; dá-se que a usura e a ruína seguem-nos em sua estira, como rastro profundo.
Em qualquer parte, onde se descubra qualquer negócio tenebroso, operações desleais, tráfico degradante, em todos estes actos os israelitas assumem papel relevante.
Podem eles, diante de tais factos, lamentar-se de inspirar ódio e asco?...
Em grande parte, não são os culpados de o nosso povo, a massa, continuar desconhecido, ambicioso, ganancioso e falso, considerado como lepra social em todos os países onde se fixa?
A maior culpa, porém, compete a vós, Rabinos, que governam essa multidão.
Cobri-vos com o nome de Moisés; não foi ele, contudo, quem fundou a Cabala, essa sociedade de fortes contra os fracos; não é ele quem, desculpando-se com a felicidade geral, mas em verdade para atender a intrigas dos superiores, exaure a última gota essa gente humilde, acumulando sobre ela impostos secretos, em benefício do tesouro do CahaP não é ele quem prevenindo o próprio domínio, conserva na massa esse desprezo a tudo o que não seja hebreu e cava um despenhadeiro entre nós e os demais povos!
Protestais contra a intolerância da Igreja cristã; não obrigais, porém, àqueles que participam de vossas crenças a uma escravidão mais penosa?
Não os perseguis mesmo no recesso dos lares? não os obrigais, com todas as armas, ainda as menos permitidas, a continuarem fiéis a vós?
Tão-só a mim não me obrigareis a coisa alguma; não renunciarei à mulher que eu amo, e tomarei a religião de Jesus, o mais digno, e mais sublime filho que nosso povo abrigou em seu seio, e ao qual, os que vos precederam, os Rabinos e os sumo-sacerdotes do Templo, condenaram, por ele ter tido a coragem de dizer à face do mundo:
o espírito vivifica, a letra mata!
Aos poucos, Samuel se encorajava:
seus olhos faiscavam, e sua pessoa mostrava, toda inteira, inquebrantável energia e forte convicção.
Como um bloco só, os israelitas se haviam erguido, tornados de ira e de espanto.
— Vergonha sobre ti, perjuro, que insultas um homem digno de veneração — vociferavam, agrupando-se em torno do Rabino, que a tudo ouvira, e a quem o assombro e a indignação emudecera.
Súbito, o Rabino empertigou-se, e seus olhos expediam venenosos raios sobre o banqueiro insólito:
— Ouve isto, Samuel Maier!
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 27, 2016 8:46 pm

Não provoques a vingança dos confrades a quem injurias.
Consideras-te rico e invulnerável; outros, mais notáveis do que tu, contudo, caíram, no instante em que o braço vingador de Jeová abateu-se sobre eles.
E agora (retirou do bolso um papel dobrado) filho rebelde, toma este recado que teu progenitor, às portas da morte, junto do qual velei, me incumbiu de entregar-te em um instante decisivo de tua existência.
Ele mesmo, vergado ao peso de justo castigo, com a mão parcialmente inteiriçada pela morte, traçou as linhas que vais ler; julgo sobremaneira grave o momento em que te dou a conhecer este derradeiro chamamento à tua consciência.
Trémulas as mãos, Samuel desdobrou a página e correu os olhos pelas linhas, grafadas em hebreu, de letras vacilantes, todavia reconhecíveis que seu pai assinava.
"Meu filho — escrevia Abrão Maier — tudo fiz no sentido de te fazer feliz.
Pelo amor que te dediquei, pelas minhas atenções, pelos milhões de que te faço herdeiro, renuncia à Condessa de M""", e sê, então, abençoado.
Contudo, se fizeres pouco do pedido que te dirijo já de Além-túmulo, se adoptares a religião dos que nos perseguem, eu te amaldiçoo, e peço a Jeová que reduza a cinzas tudo quanto tocares com tuas mãos."
Samuel fez lívido, e em suas faces expressivas reflectiu-se a luta ingente que se travava em seu íntimo; porém... a recordação de Valéria fez soçobrar qualquer outro sentimento.
Abdicar a ela, não, antes à vida.
Com rápido movimento, rasgou o papel, lançando sobre a mesa os pedaços.
— Far-me-ei cristão, e que recaiam sobre os meus ombros as vossas maldições e a de meu pai.
Aí tendes a minha resposta!
Estrondaram gritos de horror e de ira; contudo, três leves pancadas na porta, fez baixar sobre a sala um repentino silêncio.
— Passai! — ordenou Samuel, em tom irritado.
Logo surgiu um criado que, com expressão de timidez e embaraço, apresentou, em pequena salva de prata, um cartão de visitas.
— Escusai-me, senhor, por permitir-me aborrecer-vos.
Um enviado do Conde de M""" apresentou-se, e seu desejo é falar-vos urgentemente sobre um negócio da mais alta relevância:
passam-se quinze minutos já, que ele vos espera no gabinete.
Samuel tomou o cartão e leu:
Carlos Herbert.
— Bem andaste em prevenir-me — disse ao criado.
E sem um olhar a seus patrícios, talvez já os tendo olvidado, encaminhou-se para o gabinete.
De aspecto agradável, apresentando meia-idade, o homem levantou-se, de pasta em baixo do braço, quando da entrada de Samuel.
— Permanecei sentado, Sr. Herbert — exclamou Samuel, enquanto tomava assento diante de sua secretária.
Podeis dizer-me com que mensagem me honra o Conde de M"""?
Não trazei, por acaso, uma carta para mim?
Por um momento, com olhar perscrutador, o enviado fitou o rosto animado do banqueiro.
— Não, senhor. S. Ex cia. fez-me portador de um recado oral, e da liquidação de um assunto financeiro.
Abrindo a pasta, Herbert dela retirou um pacote de notas de banco e outro de letras de câmbio, resgatadas ao meio, as quais Samuel conhecia de sobejo.
— Que vem a ser isto? — indagou, de olhos flamejantes.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 27, 2016 8:46 pm

— Suplico-vos, senhor, que vos digneis verificar a exactidão da importância destes títulos; concluirei que o Conde de M""" está quites com a vossa casa - replicou Herbert, calmamente.
Enviam-me, além disso, a comunicar-vos que deve ser tido como definitivamente rompido o acordo de carácter particular estabelecido entre vós e S. Ex cia.
A Condessa de M""" tem marcado seu casamento com o Príncipe de O""".
Samuel emudecia.
Era como se sobre ele se abatesse uma nuvem de chumbo; um único pensamento girava em seu cérebro; não notou o olhar de comiseração e espanto que Herbert endereçara ao seu rosto pálido; não ouviu a sua despedida, nem que deixava a sala; naquele instante toda vida exterior se dissipara para ele; em sua alma, porém, apagava-se o primeiro torpor, substituído por atrozes pensamentos; tudo terminara: futuro, sonhos de ventura!
A mulher que era o seu ídolo, traía-o, para se fazer princesa; os mesmos papéis que dera como presente a Valéria, no instante em que para todo o sempre suas almas pareciam ligadas, eram devolvidos pelas mãos de um estranho, sem uma explicação!
Reembolsavam-no, e estava dito tudo.
Que podia esperar, ou exigir, o judeu, senão o ouro?...
Tremeu-Ihe nos lábios um rouco acesso de riso...
Nas palavras daqueles israelitas estava a verdade, daqueles que ainda se achavam reunidos em sua sala:
"Hão-de expulsar-te como a um réptil, assim que não necessitem mais de ti".
A traidora, ela, quem sabe? nessa hora trocasse um ósculo com o seu príncipe, sorrindo às frases apaixonadas que ele lhe murmurava aos ouvidos.
Infernal sentimento constrangiu o coração de Samuel; profunda dor quase lhe cortou a respiração; seu olhar inquieto, desvairado, sem brilho, deteve-se sobre uma pistola que se achava sobre a secretária.
Tremeu. À vida inóspita e plena de angústias que à sua frente se abria, não era preferível a morte?
Num átimo levantou-se, e agarrou a arma, sem perceber mesmo que sobre o soalho espalhava as cédulas que lhe trouxera Herbert.
Um instante depois, a Casa sobressaltava-se com o fragor de uma detonação e, quando, antes de todos, e com seus apaniguados, o Grande Rabino penetrou no gabinete, depararam com Samuel sobre o tapete, numa poça de sangue, tendo ainda na mão crispada a pistola.
— Eis que Jeová o julgou! — sentenciou o velho, com fanática satisfação.
Tendo deixado a sala do banqueiro, dirigiu-se o emissário do Conde de M""" lentamente para a saída; descia, com os seus pensamentos, os derradeiros degraus da escadaria, quando lhe atroou os ouvidos o estampido rouco de um tiro.
Herbert deteve-se, trémulo; não saberia dar o motivo por que nenhuma impressão lhe causou esse ruído.
Passados alguns minutos, um serviçal desceu a escada, aos saltos.
— Que houve, João?
Por que corres deste jeito? — indagou o porteiro, segurando-o pelo braço.
Sucedeu algo?
Creio ter ouvido uma detonação lá dentro.
— Larga-me! Estou indo á procura de um médico.
O patrão arrebentou os miolos — gritou o criado, atirando-se para a rua.
— Infeliz mancebo — comentou para si Herbert, tomando assento no carro que o aguardava.
Suponho que não lhe foi possível digerir a pílula que lhe trouxe.
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Ave sem Ninho

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