Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 28, 2016 8:05 pm

Sem dúvida alguma, isso é o que de melhor podia acontecer para o bem de nosso jovem Príncipe:
morto o animal, com ele vai-se o veneno.
Belo homem, isso o era, posso jurar.
De qualquer modo é preciso que me apresse a encaminhar esta nova ao castelo, e, se me der pressa, poderei embarcar na última condução.
Algumas horas mais tarde, Herbert assentava-se em seu lugar no carro que o conduziria ao castelo da Princesa.
Soara já o último sinal da sineta; precipitavam-se para seus lugares os passageiros em atraso.
O carro que Herbert escolhera encontrava-se, como os demais, repleto, e de pronto se estabeleceu viva palestra entre os viajantes.
— Ouviste que corre que Samuel Maier, o banqueiro milionário, pôs termo à vida? — perguntou um homem gordo, carregado de embrulhos e sacos.
— Como não?
Não se fala de outra coisa em toda a cidade — replicou uma senhora de idade, que se achava junto de Herbert.
Ninguém pode entender um tal proceder.
Julgou-se, de início, que ele falira, e meu genro deu-se pressa em ir ao seu escritório reclamar uma importância bem grande; foi totalmente pago, e um dos serviçais lhe disse que Samuel Maier respirava ainda, quando foi encontrado, e que os médicos não se apartavam dele um só instante.
Tem um ferimento mortal ao lado.
— Dê licença que vos diga, senhora, — cortou um dos passageiros — que, de limpa fonte, estou informado que os negócios da Casa Maier, jamais gozaram de tanta prosperidade como no presente; contudo, não é menos seguro que ele morre dado que uma bala se lhe alojou no cérebro, e isso por causa de uma discussão, mantida em sigilo, que teve com seus irmãos de religião.
Fizeram-lhe tremenda cena o Grande Rabino, de Pesth, acompanhado de muitos outros judeus, porque ele pretendia tornar-se cristão, conforme se propala, e recebia de um sacerdote instrução religiosa.
Após o escândalo que em sua casa fizeram, dirigiu-se ele para seu escritório, onde se matou.
Herbert a tudo escutava, sem tomar parte na conversa, mantendo-se silente.
Gozando, há muito tempo, da honra da confiança ilimitada da família de O"", estava perfeitamente informado da verdade, em todas as suas minúcias, da história do noivado do jovem Príncipe, e um suspiro de piedade lhe escapou, recordando-se do belo rapaz, morto tão prematuramente.
Na manhã que sucedeu a esse dia agitado, Rodolfo e Antonieta encontravam-se a sós, num terraço próximo aos aposentos da Princesa.
O almoço se findara; o velho Conde fora gozar sua sesta; Valéria, que toda a manhã estivera junto ao noivo, recolhera-se ao seu aposento, e a Princesa voltara para junto do filho, cuja convalescença se processava a grandes passos.
O jovem casal trocava ideias alegremente sobre uma viagem a Nápoles, que pensavam realizar assim que Raul se restabelecesse, quando seus projectos foram interrompidos pela chegada repentina de Herbert.
— Então, já estais regressando, Sr. Herbert? — exclamou Rodolfo ao lhe estender a mão.
— É verdade, Sr. Conde; apressei-me, e tendo sido informado de que vosso pai repousava, vim dar-vos, sem desnecessárias testemunhas, a notícia que trago.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 28, 2016 8:06 pm

— O que se passa?
Esse soturno aspecto nada me diz de bom.
Dar-se-á o caso que esse maluco Maier pretendeu dar algum ridículo escândalo? — perguntou Rodolfo, com irritação misturada à impaciência.
— Qual foi a resposta dele?
Herbert respondeu, num encolher de ombros:
— Maier nada objectou; acredito que ficasse impossibilitado de o fazer, nem pode tentar coisa alguma, visto que morreu, cinco minutos depois que me retirei de seu escritório: o banqueiro estourou os miolos!
Rodolfo ergueu-se vivamente nos pés, ao mesmo tempo que Antonieta emitia surda exclamação, e cobria o rosto com as mãos.
— Morto... Samuel? — repetiu o Conde, correndo a mão pela fronte húmida e pálida.
Estais seguro disto? não se trata de rebate falso?
— Nada mais seguro; ouvi, eu mesmo, o tiro fatal.
Por toda a cidade corre a nova desse suicídio e nem falava de outro facto no trem.
— Eis aí um tremendo final! Infeliz Samuel! — disse Rodolfo, baixo.
Suplico-vos senhor Herbert, guardeis absoluto sigilo desse contristante evento.
Valéria deve ignorá-lo, e, quando tiver notícia da morte de Samuel, não deve conhecer que ele mesmo pôs termo à própria vida.
Com um grito Antonieta interrompeu Rodolfo que, voltando-se, fez pálido:
Valéria mantinha-se de pé, na base da escada que conduzia ao jardim, as mãos comprimindo o peito, branca como o seu vestido de musselina e o rosto petrificado, numa indescritível expressão de horror e desespero.
Viera em busca de um livro que esquecera, e pudera ouvir as últimas palavras de Herbert.
— Samuel é morto... e fui eu, eu, quem lhe desferiu o golpe mortal! — sussurraram seus lábios descorados.
Adiantou-se alguns passos, vacilando, e rolaria fatalmente pelos degraus, não corresse Rodolfo a recebê-la nos braços.
Transportaram-na ao leito, onde Antonieta e a camareira envidaram todos os esforços por reanimá-la, sem resultados.
Correndo ao aposento do pai, Rodolfo o informou de tudo quanto se passara, assim como à Princesa.
Resolveu-se, de comum acordo, nada dizer do que sucedera a Raul mas incluir o velho médico na confidência.
Regressando, uma hora depois, após dois dias de ausência, passados na sua Quinta, o Dr. Walter foi levado, em primeiro lugar, para junto de Valéria.
Aparentemente morta, a jovem permanecia estirada, ainda, e de joelhos, Antonieta, a fronte banhada de suor gelado, esfregava com essências as têmporas e as inertes mãos da amiga.
O doutor moveu a cabeça, e pôs-se a cuidar da enferma, sem perda de tempo.
Coroaram-se de êxito os seus esforços:
Valéria reabriu os olhos; contudo, nova sombra de desgraça fez estremecer a todos, ante o seu olhar desvairado e o tremor nervoso que a sacudia.
— Acreditais possa sobrevir alguma enfermidade mais grave, devido a essa emoção? — indagaram, ansiosamente, o Conde e a Princesa.
— Não. Quero crer que a crise de nervos se vá sem deixar vestígios graves — foi a resposta do médico.
Por enquanto, prepararei um calmante, a que adicionarei suave narcótico, depois será de grande valia que ela durma algumas horas.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 28, 2016 8:06 pm

Depois, é necessário deixar à Condessa a ocasião de dar-se ao seu desespero, livrá-la de qualquer constrangimento, e permitir-lhe absoluto repouso.
Pessoa alguma, .salvante sua cunhada e a camareira, deverá aproximar-se dela nesses dolorosos instantes.
Quando as lágrimas forem todas vertidas, ela retornará à razão e à calma.
Contudo, para que a minha prescrição seja posta em prática, com eficiência, forçoso é afastar o Príncipe.
Sugiro, portanto, que ele passe duas semanas em minha casa: estais certa de que será tratado como se estivesse aqui mesmo.
— Oh! meu velho amigo, só posso manifestar-me agradecida pela vossa oferta — exclamou a Princesa, tomando a mão do Doutor.
— Raul contudo não quererá prescindir da presença de sua noiva...
— É meu dever imaginar um pretexto e fazer com que ele parta.
Fazei que aprontem, Senhora, o que for mais urgente.
Prepararei, neste comenos, a poção para Valéria, e, depois, irei para junto de Raul.
Encontrou o Doutor sentado em uma poltrona, recostado em almofadas, que lhe davam apoio, os pés envoltos em cobertores.
'Examinando-a, e após consultar-lhes o pulso, o médico afirmou, descontente:
— Ainda a febre!
Devo usar de franqueza e dizer-vos, Príncipe, que, graças aos excessos de vossa mãe em cuidar de vós (atentai para este enfaixamento) e à agitação que a proximidade de vossa (noiva vos causa, tão pronto não estareis restabelecido.
Consenti, portanto, se é vosso desejo readquirir força e saúde, em passar dez dias em minha casa; poderei tratar-vos racionalmente, e estarei mais à vontade para cuidar de vós, além do que muito me fatiga, pela minha idade, vir aqui.
Desejo submeter-vos, ademais, a certo tratamento para o qual tudo quanto é necessário tenho em casa e que já usei em um filho meu.
Se consentirdes, podereis acompanhar-me no máximo dentro de uma ou duas horas.
— Santo Deus! Doutor, sei bem que tendes razão, mas como é possível estar longe de Valéria?
— Ora! Não é excessiva uma separação de oito dias, além de que se tornará bem útil a ambos.
Valéria encontra-se, também, nervosa e cansadíssima:
credes que não agiram maleficamente sobre está débil e sensível natureza, os oito dias de insónias e temores que lhe provocastes?
Bem necessitada está de absoluto repouso, e, além disso, acreditais que vos apresentareis vantajosamente, desta forma, pálido como espectro e com enormes olheiras?
Meu jovem amigo, escutai-me, com essa separação curta, igualmente sairão ganhando o amor e a saúde.
As faces de Raul cobriram-se de forte rubor.
— Doutor, estais com a razão.
Estou feio, e como posso assim agradar minha noiva?
Devo ausentar-me. Desejo, ao menos, despedir-me dela.
— Arroubos de namorados!
Faz muito que a deixastes?
Não desejo, porém, contrariar-vos.
Entretanto, como Valéria se sentia mal da cabeça, dei-lhe um soporífero para que dormisse.
Por este motivo, proíbo que a despertem, mas dou-vos permissão para que beijes a mão da adormecida. '
Raul deixou-se vestir, teimando, contudo, em ver Valéria antes da partida.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 28, 2016 8:06 pm

Levado ao braço por Rodolfo e pelo velho Conde, arrastou-se, vacilantemente, até junto da espreguiçadeira, onde a noiva, estava entregue a um sono pesado e febril.
A semi-obscuridade do quarto e o rubor que queimava as faces de Valéria concluíram-se) para fazer nada suspeitar ao jovem Príncipe; levou aos lábios, de leve, a pequena mão da adormecida; permitia, depois, tranquilizado, que o conduzissem para o veículo, onde o instalaram.
— A pequena terá tempo de acalmar-se com esta ausência de catorze dias — sussurrou o médico, ao despedir-se da Princesa.
Ao despertar Valéria, despertou com ela a recordação, e terrível desespero dela se apoderou.
Exigiu, chorando abundantemente, que, a levassem a Pesth, pois desejava dizer seu derradeiro adeus ao corpo de Samuel.
Inculcava-se de assassina; desejava, às vezes, tendo morrido com ele; às vezes pedia pormenores do que acontecera.
Noite após noite o nome do banqueiro agitava-se em seus lábios; recusava alimentos, e não bebia, e, no íntimo, Antonieta alimentava temores pela razão e pela saúde da amiga.
Tal como previra, porém, o Dr. Válter, ela viu-se esgotada pelo excesso de sofrimento. A essa superexcitação seguiu-se grande fraqueza, após o que se estabeleceu relativa calma em seu cérebro.
Atendendo aos rogos de Antonieta, ingeriu algum alimento; cercada de silêncio e de tranquilidade, isso concorreu para acalmar seus nervos exauridos.
Ao cabo de uma semana, o doloroso desespero de Valéria cedera lugar a uma funda, mas amena melancolia.
Aproveitando-se desta boa disposição, Antonieta, em certa manhã, tomou assento junto da amiga, que, de comprido numa rede no terraço, refugiada no seu silêncio, meditava deixando que lhe rolassem pelas faces descoradas algumas lágrimas.
— Fada, querida, poderás ouvir-me? Desejo expor-te um projecto, — exclamou a cunhada, apertando-lhe as mãos.
Ontem, à tarde, voltando de sua visita a Raul, a Princesa trouxe boas novas.
Ele está muito bem, e para que se restabeleça de todo, o Doutor o envia a Biarritz, aos banhos de mar.
Com este facto de dispensa, por seis semanas, das tuas obrigações de noiva, venho convidar-te a nos acompanhar a Nápoles.
Papai e titia vão a Vichy, ficando, pois, tu, com Rodolfo e comigo, apenas, e, no calmo seio desta bela Natureza, livre de qualquer importunação, livremente reunirás, também, novas forças para que possas honestamente preencheres tuas obrigações para com o vivo, que, desconhecedor de tuas aflições, da mesma forma merece teu amor.
Valéria aderiu, com febril ardorosidade, a tal projecto.
A perspectiva de passar completamente livre, algumas semanas, de entregar-se as suas recordações sobre Samuel, sem ter que dissimular diante de Raul os seus dolorosos sentimentos, foi como se lhe restituísse as forças.
Seu interesse pela vida renasceu; buscou apressar, quanto pôde, o instante da partida, e mostrou-se decidida a ir à casa do Doutor, a fim de surpreender o noivo e apresentar-lhe as despedidas.
Foi com alegria tão funda e terna que Raul reviu a noiva, que esta não se sentiu com coragem, nem vontade, de mostrar-se fria.
Afectuosa, como irmã, respondeu ao seu beijo de boas-vindas e alegrou-se, com sinceridade, dos progressos visíveis que alcançara em sua convalescença.
Por outro lado, Raul mostrou-se inquieto com a palidez e a expansão abatida da jovem.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 28, 2016 8:06 pm

Tranquilizou-o o velho Doutor, deu-lhe a conhecer que ela empreenderia uma viagem a Nápoles, enquanto ele permanecia em Biarritz, e garantiu-lhe que, após seis semanas, ela retornaria fragrante como uma rosa.
Resolveu-se, depois disso, que todos estariam reunidos em Paris, nos derradeiros dias de agosto, e a união do jovem par se celebraria a 16 de setembro.
Acertados tais pormenores, segundo a vontade do Príncipe, ele ofereceu o braço à noiva, propondo-lhe um curto passeio.
Valéria não se fez de rogada, sorrindo, e afastaram-se, conversando.
Era a primeira vez, desde a inesquecível noite do baile, que os jovens ficavam a sós.
Parecendo preocupado, Raul caminhava a passos lentos, e, por momentos, deixava que a conversação se interrompesse; Valéria, levando em conta de fadiga tais silêncios, aventou a ideia de entrarem num pequeno bosque e descansarem um pouco.
Assentaram-se, portanto, numa banco rodeado de moitas de rosas.
Então, ela, colhendo algumas flores, trançou dois pequenos ramalhetes, ofertando um a Raul.
O jovem segurou-lhe a mão e, comprimindo-a contra os lábios, disse:
— Minha querida, antes que nos separemos, gostaria de fazer-te uma pergunta:
Quando te expus, pela vez primeira, os meus sentimentos, recusaste-me, porque já estavas comprometida.
Soube depois, por intermédio de minha mãe que eras noiva de um homem de condição bastante inferior, obedecendo a imperiosa necessidade, e isso é que tornou possível tal laço.
Contudo, é meu desejo saber, de tua boca mesma, se, todavia, não amas a esse homem.
São coisas que acontecem, já que o coração não conta, para sua escolha, nem a hierarquia, nem riquezas.
Se se der o caso, confessa-mo, Valéria, com sinceridade, e, não obstante a paixão que me inspiras, devolver-te-ei a liberdade, sem rancores, pois mais fácil é renunciar aquela que se ama, do que desposá-la, quando o seu coração está voltado a outro.
Desejo e espero, Valéria, possuir com o tempo toda a tua alma, mas não o posso se ela não estiver livre.
A jovem tudo escutara com o coração opresso; com indefinível sentimento, levantou os olhos e defrontou o olhar claro e leal de Raul, que a fitava com ansiosa ternura.
Que responderia?
Dizer-lhe que amava a um morto, de maneira tão profunda, e fazer renascer, com isto, naquela alma jovem, pura e tão sensível, paixões furiosas, jogá-lo em um inferno moral semelhante ao que ela própria padecera?...
Não! Conscientemente podia dizer que a lembrança, que lhe era cara, indelevelmente guardada em sua memória, não era perigosa ao noivo.
Estendeu, então, ambas as mãos para ele e, em voz baixa, mas firme, respondeu:
— Não te preocupes, Raul.
Não tens rival; o homem a quem a minha mão estava prometida, não foi em minha existência senão como pesado e tormentoso sonho.
Tudo agora esta terminado, e tu és o único a quem desejo pertencer.
Exprimindo grande alegria no semblante, Raul atraiu-a para si; ela descansou a cabeça, em seu peito e cerrou os olhos.
— Assim é melhor — pensou, enquanto Raul roçava os lábios em seus cabelos.
Como poderia viver, se fosse a causa de um novo suicídio?
Raul nada tem a ver com a minha vileza para com Samuel; hei-de fazer tudo para não ser indigna dele.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 28, 2016 8:06 pm

Rodolfo seguira para Pesth, na antevéspera dessa visita, e lá deveria passar dois dias; saindo, porém, da casa do Doutor, Antonieta já o encontrou de regresso.
Tomada de alegria, a jovem esposa nem sequer notou o ar preocupado do marido, que se declarou enormemente fatigado, e pretextando inadiável necessidade de repouso, levou-a para seus aposentos, logo após o chá.
— Santo Deus!
Rodolfo, é a primeira vez que te vejo com tanta vontade de dormir! — exclamou Antonieta, rindo.
São dez e meia, tão-somente, e já falas em deitar-te!
No que me respeita, irei ler ainda.
— Não, minha cara, jamais estive tão sem sono! — murmurou o jovem Conde.
Desejei estar a sós contigo.
Queres saber? Trago de Pesth uma notícia que nos trará muitas atribulações!
Maier não morreu.
— Que estás a dizer?
Herbert dar-se-ia ao desplante de semelhante mentira?
— Não; Samuel buscou o suicídio; a bala, contudo, desviou-se, chocando-se com o relógio, e a ferida não é mortal, ainda que apresente algum perigo.
Os médicos garantem a sua vida.
Que pensas, agora?
Deveremos comunicá-lo a Valéria?
— Livre-nos Deus de tal!
Seria despertar novas lutas, relevando-se a conversação que ela teve hoje com Raul, e isso faz com que se torne necessário que ela creia Samuel morto, pelo menos até casar-se e habituar-se com a nova situação.
Seguiremos depois de amanhã e, assim que voltarmos, o mais tardar, terá crescido hera sobre esta história.
Em Pesth, ninguém comentará sobre tal acontecimento.
Logo após o casamento, os nubentes partirão; somente quando retornarem Valéria saberá, por mim, de toda a verdade.
— Certamente — concordou Rodolfo, acalmado.
Assim é melhor e Raul, belo e sedutor marido, há-de conquistar-lhe completamente o coração, fazendo com que ela esqueça esse judeu.
*•* *•* *•*
Quase dois meses decorreram depois do diálogo que vimos de narrar, e o sol ofuscava em belo dia de setembro.
O tempo magnífico, ardente como se fora julho, chamava ao grande passeio da cidade de Pesth, densa multidão de passeantes:
a pé, a cavalo e nas carruagens, todos se comprimiam ali.
Em distinta carruagem, na qual se iam chocar os olhares, curiosos dos passantes, dois jovens estavam assentados: um deles, de baixa estatura, médio, acentuadamente moreno, apresentava o tipo bastante distinto do semita; seus olhos, espertos e penetrantes, examinavam, interessados, a multidão, e, por ligeiros instantes, fixavam-se sorrateiros no rosto abatido e descorado do amigo que, apático e silencioso, se recuperava, com certeza, de alguma séria enfermidade.
Samuel Maier — era ele — triunfara em verdade do terrível ferimento oriundo do seu gesto desesperado; jovem e forte, sua natureza pôde resistir à morte; contudo, sangrava-lhe na alma a ferida, como no primeiro dia; o orgulho do jovem, apenas, é que se erguera bem alto, e cobria com espesso véu a sua fraqueza, da qual estava envergonhado.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 28, 2016 8:07 pm

Mesmo, no íntimo, abatido, não desejava dar, àqueles que tão cruelmente o insultaram, o prazer de constatarem o seu infortúnio e, por esse motivo, recobrara, pelo menos na aparência, inteira calma.
Entre os israelitas, acompanhantes do Grande Rabino, e que, antes de todos, encontraram Samuel estendido sobre o tapete, após o seu gesto desesperado, encontrava-se um velho amigo de seu pai, corrector, chamado Leib Silberstein, que, sob a capa dessa velha amizade, cercou de todas as atenções o ferido, tratando-o com extrema dedicação.
Sabedor de toda a verdade, de medíocre fortuna e numerosa família, Silberstein assentara nessa aventura assaz vantajoso plano:
fazer com que o milionário repelido pela Condessa de M""" desposasse sua filha mais idosa.
Com obstinada paciência, analisara o temperamento de Samuel, e, com mestria, excitara as paixões que lhe ardiam no coração ferido; insinuara, a pouco e pouco, que à afronta que lhe fizera Valéria, tornando-se noiva do Príncipe de 0"", não havia melhor e mais digna atitude senão casar-se ele também.
Depois, sugeriu-lhe a filha, e o banqueiro, na cegueira em que o lançara o desespero secreto, desejoso, amargamente, de fazer crer a Valéria que não mais existia para ele, aceitou o conselho, nem sequer reparando naquela que recebia como esposa!
Em cinco dias era noivo de Ruth Silberstein, e o jovem, que ora sentava-se ao seu lado era o futuro cunhado, Aarão, esperto e astucioso rapaz, sabedor do que se passava, mas que não descortinava na paixão de Samuel nada que obstaculasse o casamento do mesmo com a irmã, união da qual esperava obter extraordinários lucros.
Em determinado ponto, onde várias ruas se inter-cruzavam, o congestionamento do transito era tal que as carruagens por largo tempo estiveram paradas, aguardando vez, em filas.
Como as demais, a carruagem de Samuel estacou, e este reparou em outra, ao lado, tirada por magníficos cavalos cinzentos, onde uma senhora de provecta idade estava sentada junto a um jovem oficial de grande beleza, que mesmo Samuel o notou, com olhos de artista, fitando essa magnífica criatura que dava a impressão de vivo modelo de alguma estátua antiga.
Raul (era, pois, ele) modificara-se sensivelmente no decorrer de sua enfermidade e na convalescença; suas maneiras, que o faziam parecer adolescente, porque um tanto infantis, haviam dado lugar a uma expressão de dignidade viril; a calmaria de uma garantida felicidade emprestava-lhe aos olhos aveludados expressão de radiosa serenidade, ainda que algo arrogante.
— Quem poderá ser esse moço tão extraordinariamente belo?
Jamais o encontrei - comentou Samuel, dirigindo-se ao futuro cunhado.
Aarão baixou os olhos.
— Sei quem é — respondeu.
Apesar de meu receio de que o seu nome possa produzir-te desagradável impressão, penso ser preferível que o saibais por mim.
Trata-se do Príncipe de O"".
Há pouco veio do estrangeiro, e sua noiva, Valéria de M""", chegou há oito dias, sendo que amanhã se celebra o seu casamento.
Samuel permaneceu mudo.
Chama de amargor, devoradora, parecia queimar-lhe o coração e o peito todo, e o ciúme cravara-lhe suas garras sanguissedentas na alma, provocando-lhe dor quase física.
Buscara iludir-se até aquele momento, a todo instante buscando desculpas para a traição da mulher que adorava; persuadira-se de que, obrigada pelos parentes, movida pelo orgulho e pelos preconceitos, ela dera sua mão a Raul.
Agora, porém, conhecendo o rival pelo qual ela o deixara, pensou estar de posse da verdade.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 28, 2016 8:07 pm

Bem capaz mostrava-se esse Adónis de excitar a paixão de uma mulher e fazer com que ela tudo sacrificasse por ele.
Não duvidou mais de que fora esquecido, de que o coração de Valéria, não a interferência da vontade dos seus, decidira da escolha.
Ela pertenceria, no dia seguinte, a esse Príncipe, em cujo altivo e sereno olhar bem se lia insolente ventura.
Vinha de irromper um inferno na alma de Samuel; contudo, nessas longas semanas, muitos pontos progredira na arte de dissimular, de modo que apenas traia a sua emoção uma palidez mais acentuada.
— Creio que é hora de regressarmos.
Sinto-me cansado, e gostaria de repousar — disse.
— Que dizes, Samuel?
Esperam-te em nossa casa — exclamou vivamente Aarão.
Precisas distrair-te, e a solidão não creio que te possa valer nessas circunstâncias — prosseguiu em voz baixa.
Deparaste, agora, a estátua carola, desprezível, e incapaz de amizade, pela qual foste traído de modo infame.
Ouve-me: expulsa de teu coração essa pérfida criatura, que te sacrificou a um prejuízo indigno; despreza, tu mesmo, qualquer ligação com nossos inimigos, e serás venturoso.
Samuel permaneceu calado.
Dez minutos escoados, quando a carruagem fazia alto frente a uma casa de soberba aparência, pálido sorriso entreabriu-lhe os lábios.
— Teimas em que eu adentre a casa dos teus, seja!
Aviso-te, porém, de que ali estarei apenas por alguns minutos!
— Bem, certamente; demorarás quanto quiseres — retrucou Aarão, saltando com vivacidade e auxiliando-o a descer.
Quando ambos penetraram o salão, uma jovem, cuja silhueta se recortava contra o vão de ampla janela, frente à qual se achava sentada, recanto cheio de flores, ergueu-se e correu ao encontro deles.
Dezassete anos tinha Ruth, a noiva de Samuel.
Na sua classe, era tão expressivamente bela como Valéria, ainda que com ela contrastasse totalmente.
Alta, de corpo formoso, tez morena, bastos cabelos de cor negra, olhos húmidos e brilhantes, era o tipo acabado da beleza oriental, ardente e apaixonada.
Desconhecia o romance de Samuel (explicaram-lhe a tentativa de suicídio de Samuel como nascida de ataque de febre delirante); não lhe passou despercebido o belo rapaz de finas maneiras, nas raras visitas que ele fazia a seus parentes, passando a interessar-se vivamente por ele, sem ilusões, contudo.
O pedido de casamento do rico banqueiro fora uma surpresa que a alegrara ao extremo; abandonara-se, com toda a sofreguidão de seu carácter, ao sentimento que nela despertara o banqueiro, enchendo-se de impaciência ante a barreira de gelo com a qual topava.
Nesta oportunidade, encontrava-se exactamente pronta para receber o noivo; seu talhe elegante desenhava-se num vestido de seda vermelho escuro e, presa aos cabelos de ébano, uma flor de granada tornava mais evidente sua natural beleza.
Tomada de febril agitação, deu alguns passos até Samuel, e ofereceu-lhe a pequena mão morena, que ele beijou, com frígida polidez, sem mostrar ter percebido o olhar caloroso e apaixonado que ela punha em seu rosto pálido, impassível.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 28, 2016 8:07 pm

Quando Aarão se afastou, pretextando prevenir os pais, ele falou de coisas diversas, e passou os olhos por um álbum posto sobre a mesa.
Mesclavam-se nas faces de Ruth, palidez e rubor; escoar-se-ia esse instante de conversão a sós, sem que ele lhe dirigisse, por fim, algumas palavras de amor, sem dar a conhecer, por um sinal qualquer, a afeição que o decidira a escolhê-la para esposa?
Contudo, nada parecido sucedia e, minutos mais tarde, a presença de sua mãe fez terminar a conversação íntima.
Mais vivo era o rubor nas faces da jovem judia e sua mão tremia, como febril, quando Samuel, pela segunda vez, lhe tocou, com o bigode preto, a ponta dos dedos, e se despediu, friamente.
Sem compreender coisa alguma da indiferença do futuro marido, contrariada intimamente no seu amor, Ruth trancou-se no seu aposento, e chorou de cólera, sentindo que lhe nascia fundo ciúme, a cuja causa não atinava.
Com um suspiro de alívio, Samuel afastou-se de casa da prometida, ordenando ao cocheiro que o levasse para sua casa de campo, onde mais isolado estaria do que na cidade.
Sentia urgente necessidade de estar só: fervia-lhe no coração um inferno e exprobrava-se, pela primeira vez, com amargura, de haver cedido às persuasões insidiosas de Silberstein, tornando-se noivo de Ruth.
Com isso privara-se de moto próprio do pouco repouso que lhe restava:
em breve, em sua própria casa seria observado, e obrigado a dissimular, pois a natureza dos sentimentos de Ruth não lhe passara despercebida, despertando-lhe tão-só ira e repulsa.
O fogo absorvente de seus negros olhos fazia-o indiferente, pois não tinham o poder de vassalar-lhe a alma, como outro olhar de olhos de safira, reflectindo, parecia, a pureza do céu, e que, apesar disso o traíram.
A tal lembrança, esvaiu-se a imagem de Ruth, e a figura sedutora de Raul, vivamente iluminada, e os eventos do dia seguinte, ergueram-se frente à sua visão espiritual; ciúme selvagem apertou-Ihe o coração, enchendo-o de surda revolta e amargor contra o destino, que a esse favorito dera formosura, riquezas, nobreza, a mulher amada, ao passo que a ele tudo arrebatara.
Moído pelos pensamentos e imagens nascidos de sua superexcitada imaginação, Samuel caminhava, sem sossego, nem descanso, nos jardins e salas desertas, e o sol, o mesmo sol que devia brilhar no casamento de Valéria, erguera-se já na linha do horizonte, quando, por fim, o cansaço cerrou-lhe as pálpebras para algumas horas de sono agitado e pesado.
*•* *•* *•*
No quarto ocupado por Valéria, no palácio do Conde de M""", imperava desusada desordem; no centro do aposento, grande estojo de pau-rosa, esculpido e incrustado de forma admirável com aros de prata, e a parte interna estofada em cetim branco.
Tratava-se da corbelha de núpcias, que lhe enviara o noivo, e o conteúdo que fora examinado, pelo que se via, pela noiva e pela cunhada, atravancava todos os móveis.
Estendiam-se aí estofos soberbos, rendas coleccionadas por gerações de senhoras nobres, escrínios, e mil diferentes coisas requintadas e galantes, encanto das mulheres, e que o Príncipe reunira em profusão para enfeitar seu ídolo.
Ausente deste aposento estava aquela a quem tais tesouros eram enviados; estava diante do toucador, sentada, a fazer a toalete.
Penteava-se para a cerimónia a sua criada de quarto, Marta.
Valéria recuperara suas delicadas cores, assim como todo o frescor de sua cútis; a palidez, a fraqueza, o desalento desesperado, desapareceram; em seus olhos azuis apenas um atento observador poderia perceber quietude melancólica, pouco comum numa noiva do dia em que ia unir-se a um homem belo e apaixonado.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 28, 2016 8:07 pm

Absorta em vago sonhar, Valéria, indiferente, abandonara à camareira os seus cabelos, e apenas despertou de seus íntimos devaneios com a chegada de Antonieta.
— Ah! já te fazes pentear?
Mas, são ainda quatro horas — disse.
— Sim, sei bem que as solenidades estão fixadas para as oito; a minha toalete, contudo, levará tempo e o que dele sobrar, quero gastá-lo em sonhar e orar em recolhimento — retrucou Valéria.
Como somente a ti desejo para ajudar-me a vestir, minhas damas de honra só virão buscar-me no instante de passar ao salão; assim, quando eu estiver em ordem, poderás enfeitar-me à tua vontade.
Acedendo com um movimento de cabeça, a Condessa sentou-se junto ao toucador, pondo-se a conversar alegremente sobre a beleza da corbelha e a gentileza do noivo.
Quando o penteado ficou pronto, Antonieta passou a vestir a amiga, contando apenas com o auxílio de duas camareiras: Marta e Elisa.
— Este tecido, bordado de prata, é mais magnífico — comentou ela, em italiano, compondo as dobras e a cauda.
Contudo prefiro o outro que te enviaram primeiro, por causa das soberbas rendas que foram de tua mãe, e com as quais está enfeitado.
— A cada qual o seu fim — contestou Valéria, suspirando.
O primeiro, vaporoso e leve, como os alegres sentimentos de ventura; este, actual, pesado e soberbo, como minha nova posição.
Acabando de prender o véu de seda e a coroa de flores de laranjeira Antonieta apertou contra o peito a amiga, abraçando-a inúmeras vezes, e exclamou com os olhos rasos de água:
— Deixo-te, agora, minha cara; implora a Deus o favor de olvidar totalmente o passado e que te faça tão feliz quanto formosa e amorável te fez.
Quando Antonieta se afastou, Valéria dirigiu seus passos até um pequeno oratório e pôs-se de joelhos frente a um grande crucifixo de marfim.
Soberba guirlanda de rosas brancas e flores de laranjeira estava suspensa dele; ela própria a trançara de manhã, e seu perfume ameno enchia o oratório.
Por alguns minutos, a moça imergiu-se em prece ardente.
Depois, levantou-se, e suspendendo o reposteiro de cetim que separava o oratório, percorreu com um golpe de vista o dormitório: ainda lá se achava Marta, dispondo, sem ruído, alguns objectos esparsos.
Com voz um tanto indecisa, chamou a criada de quarto, que prontamente atendeu.
Formosa moça de vinte e cinco anos, alegre e encantadora, ainda que um tanto ingénua, assim era Marta.
Servia a Condessa desde que esta deixara o internato e mostrava-se-lhe bastante dedicada.
Ademais, não se abstinha da curiosidade natural aos criados, e muito mais do que o próprio noivo, estava a par dos assuntos íntimos de sua senhora.
— Ouve, Marta, posso confiar em ti?
Poderás dar conta, com toda discrição, de um assunto de que te quero encarregar, e que não posso fazer por ninguém mais? — indagou Valéria, com voz agitada.
— Oh! minha excelente menina!
Seríeis capaz de duvidar de mim? — exclamou a criada.
Tudo, do que determinares, eu o cumprirei e saberei ser tão muda quanto uma tumba.
— Trata-se do seguinte:
estás lembrada do jovem banqueiro Maier, que frequentou algum tempo nossa casa, antes que partíssemos para assistir ao enlace de meu irmão?
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 28, 2016 8:08 pm

Ligaram-me sentimentos de amizade a esse infeliz rapaz, que se suicidou.
Pois bem:
quero que, enquanto eu estiver na Igreja, vás ao cemitério dos israelitas e coloques sobre o túmulo do banqueiro esta coroa de flores. Fá-lo-ás?
Com os olhos cheios de lágrimas, Valéria fez-lhe entrega da grinalda que retirou do crucifixo; viu, porém, com indescritível espanto, o rosto da criada contrair-se, demonstrando a confusão dos mais desencontrados sentimentos.
— Oh! — exclamou — a minha própria vida eu daria por vós, de boa vontade, para mostrar minha dedicação; mas... isso, se soubésseis!
Se eu tivesse a ousadia de...
Virgem Maria e Jesus Cristo, inspirai-me!...
— Que se passa contigo, Marta!
Estás doente? — indagou Valéria, julgando que a infeliz moça tivesse perdido o juízo.
— Oh! não, não me sinto enferma; não posso, contudo, calar por mais tempo.
E lançou-se-lhe aos pés, prosseguindo, trémula:
— É meu dever afiançar-vos algo que vos confortará e restituirá a vossa felicidade:
o Sr. Maier não morreu.
— É vivo? — indagou Valéria, firmando-se no reposteiro, para não tombar de costas.
Estais louca, ou é verdadeiro o que dizeis?
— Não desvairo: é a verdade.
O ferimento que o Sr. Samuel teve ao lado era gravíssimo, não mortal, porém; está totalmente restabelecido e mesmo... (fez alto; ia dizer: é noivo, mas temerosa de perturbar a sua senhora e despertar o seu ciúme, afastou a ideia).
Minha boa senhora, desculpai-me — prosseguiu.
Sei bem que o Sr. Maier devia esposar-vos e tinha por vós mais amor do que a própria vida.
O criado grave deste senhor, Estevão, é meu noivo; foi por intermédio dele, que tratou o ferido durante o seu delírio, que me inteirei de tudo... e... desejei apenas pôr-vos tranquila com a certeza de que ele não está morto.
Grandemente emocionada, respirando com dificuldade, Valéria inclinou-se para a camareira:
— Não te disse também, Estevão, como tem podido ele suportar todos os posteriores acontecimentos?
Sem prever as consequências de suas revelações, Marta respondeu, animadamente:
— Oh! menina!
Meu noivo disse-me que é de causar pena ver um homem tão desalentado; jamais poderá olvidar, o infeliz moço, que perdeu o seu ídolo; tal qual um réu de morte, anda durante todo o dia, lambisca apenas os alimentos que lhe apresentam e parece, às vezes, tão desesperado e sombrio, que se chega a temer nova tentativa de suicídio.
Estevão e o segundo criado grave vigiam-no, por este motivo, sempre às ocultas.
Não vos atemorizeis, contudo: nem um minuto ele passa sem vigia; Estevão, que é rapaz de valor, está sempre junto dele, como seu próprio olhar.
Hoje, mesmo, aqui esteve ele um instante, depois do almoço.
Confiou-me que, na tarde de ontem, o Sr. Maier não regressara de seu passeio para casa, mas dirigira-se à de campo, onde existe um grande tanque no jardim.
Apressava-se, pois, Estevão, em correr para lá, para ter os olhos postos nele, já que o Sr. Maier novamente se encontra num paroxismo de angústia e mais se assemelha a um fantasma, eis quanto me contou o servo dedicado.
— Obrigada, Marta, agora deixa-me — murmurou Valéria, lançando-se sobre uma poltrona, num estado de alma indescritível.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 28, 2016 8:08 pm

Não percebeu a saída da camareira.
A ideia de que Samuel vivia enchia todo o seu ser e, tudo quanto era sombra, adquiria forma e colorido...
O infortunado moço vagava, como alma penada, sangrando na sua paixão, julgando-a perversa egoísta, talvez desejando terminar com melhor êxito desta vez, uma vida por ela envenenada e destruída.
Saberia, quiçá, que ela se casava neste dia e, no mesmo instante em que, na Igreja, jurava a Raul amor e fidelidade, ele, roído pelo desespero...
Ergueu-se, com ambas as mãos à cabeça; tinha o rosto em fogo, o coração a partir-se, sacudida por tremores.
Poderia consentir que se consumasse novo suicídio, sem nada fazer para impedi-lo, sem fazer compreender a Samuel que não era tão culpada como ele supunha, sem lhe suplicar e obter dele a promessa de não mais atentar contra a vida?
Tomou conta dela, num crescendo, a superexcitação cega, inerente ao seu carácter, que lhe roubava, nos instantes de violenta emoção, a faculdade do raciocínio, e a conduzia às mais loucas empresas.
Raul, o enlace que devia realizar-se em duas horas, os riscos a que se sujeitava, tudo baniu de seu cérebro.
Uma única direcção havia, dominava-a um só pensamento: voltar a ver Samuel, pedir-lhe escusas e obter dele a promessa de que continuaria vivendo.
Febril, mas decidida, levantou-se e encaminhou-se para o guarda-vestidos, circunvagando um olhar ansioso; muniu-se de um capuz e um véu grosso, ocultou o rosto, enrolou-se no manto que lhe caia até os pés, apanhou uma bolsa e desceu ao jardim, sustendo com o braço a longa cauda do vestido.
Ninguém a notou; os criados, ocupados com os preparativos da festa, encontravam-se na salas ou em misteres diversos, e, deste modo, sem importunações, chegou à portinhola que abria para a travessa.
Chamou uma carruagem e, dando ao cocheiro o endereço da quinta de Samuel, ajuntou:
— Duas moedas de ouro, para a ida e para o regresso, se em dez minutos me conduzires e aguardares por mais alguns minutos.
A quinta era dela conhecida, tantas vezes a descrevera Samuel.
Deu ordens ao cocheiro para que não se detivesse diante da estrada principal, e sim um pouco mais adiante, junto de uma porta de gradil de bronze, que levava ao jardim.
Tremente, desceu, empurrou a porta, que estava apenas encostada, e correu para o jardim.
Seus pequeninos pés, calçados com cetim, mal pisavam a areia.
Chegada ao fim da primeira alameda, avistou a superfície calma do tanque, que emitia cintilações por entre as árvores, e, mais além da folhagem, pouco mais distante, o telhado e a torrinha da casa de campo.
Dirigiu-se para aquele local, apressadamente, escrutando com angustioso olhar os bosques silentes.
Como proceder, se aquele a quem buscava estivesse no interior da casa?
Não ousaria penetrar lá.
Contudo, chegando-se para perto do tanque, estacou, tremendo, e ocultando-se na sombra de algumas moitas:
vinha de descobrir, à distancia de alguns passos, numa rua lateral, um homem que ia e vinha, braços cruzados, inteiramente absorto em suas cismas.
Ao primeiro olhar, reconhecera Samuel, abatido, magro, demudado.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 28, 2016 8:08 pm

No seu rosto, livre agora da máscara de forçada impassibilidade, percebeu a exactidão das palavras de Marta:
um báratro de paixões desordenadas, todos os sofrimentos que fazem despertar no coração humano o amor e o ciúme.
A um dos lados do tanque, na obscuridade de enorme castanheiro, estava posto um banco.
Cansado, Samuel tombou sobre ele e jogou a cabeça para trás, como ansiando por respirar mais desafogadamente.
Depois, com ar de grande sofrimento, escondeu entre as mãos o rosto e permaneceu imóvel.
Sem aguardar mais, Valéria caminhou para ele; contudo, somente quando lhe premiu delicadamente o braço e sussurrando com voz opressa:
— Samuel! — foi que o rapaz se pôs de pé, e, com olhar ardente e sobressaltado, fitou a mulher velada, de pé, diante dele.
Quem seria?
Bem supusera ter-lhe ferido o ouvido um timbre amado e conhecido de voz; sem dúvida, porem, era isto uma ilusão de seu coração amargurado; ela ocupava-se, naquele mesmo instante, com a festa nupcial.
Talvez fosse Ruth; a brancura de nácar da mão, contudo, de dedos rosados e finos que segurava o manto, não podia confundir-se com a mão morena e gorda da jovem judia.
— Quem sois? Que quereis? — indagou, brusco, afastando as insensatas suposições que lhe vinham ao cérebro.
Não houve resposta. Samuel, porem, não estava para ter paciência, nem para colóquios; ansiava por saber e, sem cuidar das consequências de seu gesto indiscreto, estendeu a mão para o colchete do manto e arrancou-o, de um só golpe, dos ombros da desconhecida.
Emitindo abafado grito, saltou nos pés, recuando: reconhecera Valéria, linda como nunca a vira igual, na sua maravilhosa toalete de noiva, cercada como que por uma auréola pelo longo véu de renda.
Os olhos rasos de lágrimas, a moça estendeu as mãos juntas na direcção dele.
Voltara-lhe o dom da voz.
— Samuel, oh! quanto tenho sofrido, se soubesses, por te haver julgado morto.
Hoje somente soube que estavas vivo. Perdoa-me!
Ofegante, cabeça ardendo em lebre, Samuel devorava com os olhos a inesperada aparição.
Ao pensamento de que tal formosa criatura lhe fora roubada, e que, com esses mesmos ornamentos, ia unir-se a outro, o peito se lhe convulsionou, dolorosamente, e a vista fez-se obscurecida como por uma nuvem.
— Com que, então, me falais de perdão, Condessa? — interrompeu com voz comovida.
Podem ser esquecidos a mais treda traição, o perjúrio que me arrasou o coração?
Tudo está roto entre nós, vós o desejastes, para poderdes ser a Princesa de O""".
Tudo é agradável para vós nesse formoso aristocrata, tudo satisfaz o vosso orgulho.
Seja! Sede feliz com vosso escolhido.
Que buscais pois aqui?
Dar vazão a vossa desapiedada curiosidade, cientificando-vos de quanto sofro eu, pretensioso que ousou erguer a mão para uma estrela, e escarnecer de sua pretensão?
— Ou, quem sabe?, magoar ainda mais seu coração enfermo com a visão de vossa beleza enganadora, mentiroso invólucro de uma alma vil e lodosa.
Não foi suficiente saberdes que quase me tirei a vida?
E, agora, que me vistes, tornai ao vosso festim, aos braços do vosso escolhido, e contai-lhe de quanto é desgraçada a vossa vítima.
— Samuel! Samuel! — cortou Valéria.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 28, 2016 8:08 pm

Cega-te o desespero; és impiedoso e injusto, atirando-me palavras tão duras.
Não podes supor que eu seja tão frívola e má, a ponto de vir gozar os teus desgostos, dos quais sou a causa.
Ouve, antes de me julgar.
Pudesses imaginar quanto tenho sofrido, não me afastarias; foi para implorar que me perdoasses que fugi de casa.
A voz da mulher amada, cheia de súplicas, e suas lágrimas, e a dor que se podia ler nos olhos de safira, cujo poder era ainda tão grande sobre ele, actuou fortemente sobre o banqueiro, que se fez mais calmo.
— Explica-te! — disse, afastando com a mão os cabelos esparsos que se colavam em sua fronte húmida.
Dá-me a justificativa da legítima suspeita de que aqui não vieste para regozijar-te.
Com esmorecida voz, Valéria fez desfilar, diante dele, de maneira sucinta, todos os factos passados desde a separação:
a doença do Raul; os pedidos que lhe fizera o pai; a nova de sua morte, a qual lhe fizera verter copiosos prantos.
— Sou vil traidora para com o homem com quem me caso... — concluiu a moça.
Rolaram-lhe pelas faces, então, quentes lágrimas, quando acrescentou:
— A ti, Samuel, é que eu amo, ainda que não te possa mais pertencer.
Aqui estou para implorar que me perdoes, e para obter de ti a promessa de que não atentarás mais contra tua vida.
Oh! não permitas que sobre mim pese essa responsabilidade que me tem quase posto louca!
À proporção que ia falando, a angústia de Samuel derretia-se e se apagava, cedendo lugar a uma euforia sem motivo.
Comovidamente, inclinado, aspirava toda palavra que dos lábios da jovem fluía.
Ela o amava, a ele não a esse Príncipe tão belo como um semideus.
Frente a tal certeza, dissipou-se qualquer sentimento.
Voltara a felicidade; era preciso agora escudá-la contra outro golpe.
— Valéria, vida de minha vida, anjo querido! — exclamou, apertando-a ao peito arquejante.
E, cobrindo com beijos ardentes o rosto formoso, parecia desejar matar-se nesse amplexo afectuoso, que destruía todos os sofrimentos suportados.
Valéria, por sua vez, estava vencida.
Olvidando passado e porvir, esquecendo que estava até engalanada para jurar a outro absoluta fidelidade, deu-se toda ao sentimento de plena felicidade!
Amava-a; perdoava-a; nada, além disso, a interessava naquele momento.
O que não sabia, porém, é que dez minutos depois de ter saído do palacete, com o intuito de lhe transmitir um recado do velho Conde, de que antes se esquecera, Antonieta retornou aos seus aposentos.
Não a achando, quer na sua alcova, quer no oratório, nem nos aposentos contíguos, Antonieta pôs-se preocupada.
Fez vir Marta e indagou-lhe de onde se encontrava Valéria.
A camareira fez-se pálida, perturbada, sinais evidentes que indicaram à Condessa consciência perturbada e despertaram no seu espírito cruel pressentimento.
Com inusitada severidade, obrigou a serva a confessar, sem nada omitir, por que se perturbava com pergunta tão corriqueira.
Mal contendo o pranto, e tremendo, Marta historiou sua conversação com Valéria, e declarou ignorar os motivos de sua ausência.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 28, 2016 8:08 pm

Sem lhe dar resposta sequer, Antonieta dirigiu-se ao guarda-vestidos, seguida pela aia, e pôde certificar-se, de pronto, do desaparecimento do capuz e do véu preto.
— Insensata e bruta criatura, percebes agora as consequências de tua loquacidade? — disse Antonieta, descorada pela emoção.
Entretanto, onde poderá ela ter ido?
— Foi à casa de campo.
Disse-lhe eu que lá se achava o banqueiro — explicou Marta, toda perturbada.
— Está certo; permanece aqui, vigilante, para que ninguém entre neste quarto, até que eu regresse.
Completamente desorientada, Antonieta encaminhou-se para o aposento do marido, que muito se admirou ao ver a esposa, semi-vestida para as cerimónias, invadir qual um ciclone o seu quarto de vestir; sabedor, porém, do que ocorrera, e ao pensar no terrível escândalo, no imerecido ultraje que se fazia a Raul e a sua mãe, Rodolfo fez-se pálido e não pode reprimir enérgica blasfémia.
— É necessário que eu volte a ver essa insensatez, essa raivosa — exclamou, vestindo às pressas o capote.
Vou imediatamente a esse lugar, e de lá a arrastarei, morta ou viva!
— Permita-me ir contigo, Rodolfo; eu a convencerei — pediu Antonieta.
— Dou-te permissão, contanto me prometas não desmaiar e vestir-te em minutos.
Resta-nos uma hora até que venham as damas de honra; é exactamente o tempo necessário; anda, portanto, a vestir uma capa, e une-te a mim na ruela.
Vou correndo a alugar uma caleche.
Quinze minutos passados, desembarcavam ambos frente à porta do jardim da casa de campo, onde viram outro carro.
— A quem trouxeste? — indagou ao cocheiro, Rodolfo, dando-lhe uma moeda.
— Uma senhora encapuzada, vestida de cetim branco.
Pediu-me que a aguardasse — respondeu o cocheiro.
Dos lábios de Rodolfo escapou-se um suspiro de alívio e, determinando aos cocheiros de ambos os carros que aguardassem, penetrou no jardim seguido de Antonieta, encabulado por não atinar, para que lado devia encaminhar-se.
Deram alguns passos errantes, quando um homem, surgindo das moitas saudou-os, aproximando-se:
— Procurais pela Condessa Valéria, senhor Conde?
— Sim, onde está?
— Próximo ao tanque, ali, conversando com o patrão.
Posso informar, porque o senhor Maier, desde que tentou suicidar-se, encontra-se num deprimente estado de espírito, motivo pelo qual nós o vigiamos constantemente, sem que ele o saiba; sou Estevão, seu criado, e outro servo está colocado mais adiante.
— Leva-nos, pois, até lá, quanto antes — disse Rodolfo.
E acrescentou, virando-se para Antonieta, em voz sussurrada e cheia de ira:
— À, mercê dos lacaios, ela!...
Oh! não, tal insulto ultrapassa todos os limites!
Enquanto essas coisas se passavam, Samuel já se refizera da embriaguez inicial, que lhe permitira somente sentir que o tesouro lhe voltara às mãos, agora que ele o julgara perdido para sempre; despertara-se também sua energia:
desejava portanto viver e resguardar até o máximo limite o bem que reconquistara.
Erguendo o rosto de Valéria, que se apoiava ainda em seu peito, encheu com seu fascinador olhar os olhos molhados da moça.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 29, 2016 8:02 pm

— Minha adorada, é certo que me amas e ficarás comigo, não? — sussurrou em voz doce e acariciante, de que tinha experimentado já seu poder.
Estás livre ainda, pertence-nos a ventura, Valéria.
Abandonemos esta cidade, vamos viver onde quiseres.
Raul deve apenas ser indiferente ao teu coração e não constituiria nenhum sacrifício deixá-lo.
Além do mais, depois de te reconquistar, finalmente, deves saber que não toleraria jamais que sejas esposa de outro.
Buscam-te lá em baixo!
Tais palavras atiraram Valéria de volta a realidade.
Como se tornasse a razão, entendeu a maledicência que atraía sobre a sua família, a ofensa que fazia a Raul, o qual, honesto, lhe perguntara a verdade.
— Queres que te prometa o impossível, Samuel — disse, escapando-se de seus braços.
Entende: estão já reunidos em nossa casa e na Igreja todos os convidados, e não há motivo, nem tenho o direito de deixar Raul uma hora antes das bodas!
Óh! Samuel, olvida-me depois deste instante de reconciliação, quando me justifiquei e obtive teu perdão.
Sinto-me feliz; sombra nenhuma obscurece nossas almas; amas-me e prometeste com juras continuar vivendo.
— Sim, jurei, mas viver por ti — retorquiu, com um clarão nos olhos.
Julgas, de facto, que eu renunciaria a ti, depois desta hora de felicidade, atendendo tão-só ao diz-que-diz de estulta multidão, que de nada entende e não conhece a razão de nossas atitudes?
Outra vez, Valéria, és pusilânime e fraca:
pretendes trair o Príncipe que em ti confia, e perjurar frente ao altar, o coração cheio de amor por mim.
De que modo isso se harmonizará com tua religião?
Tíbia e louca criança, terás coragem de entregar teus lábios quentes de meus beijos a este homem?
Não; tudo é findo: tu pertences-me!
Prendeu-a pela cintura, apertou-a contra o peito.
— Solta-me, não devo! — exclamou Valéria, afastando-o e torcendo as mãos.
Devo partir, não posso macular a honra de Raul; não o merece.
A ira que escaldava no coração de Samuel eclodiu de súbito:
— O verdadeiro amor não polemiza, não busca ligações com a maledicência — sublinhou Samuel, a voz cavernosa e olhos brilhantes.
Não trazes em teus lábios senão uma palavra:
Raul, sempre Raul! Tu o amas?
Que vieste procurar portanto aqui? a não ser quem me desejes por amante, envergonhada que estás de que seja teu marido?
Valéria afastou-se, abrasada até a fronte.
— Que te atreves a dizer?
Que direito tens de me atacar assim?
Adeus ! Samuel! recupera teu bom senso... Retiro-me!
Afastou-se, apenas deu, porém, alguns passos e a mão férrea do banqueiro alcançou-lhe o braço, prendendo-a ao solo.
— Não, tu não irás; tu me amas e eu te reterei.
És minha prisioneira até amanhã — exclamou com voz alterada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 29, 2016 8:02 pm

A inesperada resistência, o temor de a perder, além de tudo, tirava-lhe a sã razão e todo domínio sobre si próprio.
— Vem — repetiu, procurando arrastá-la.
A jovem, contudo, afastou-se, amedrontada.
Começava a temer esse homem, tonto de ódio e paixão, cuja fisionomia transtornada, e os olhos fuzilando chispas ardentes, faziam-na recordar bem pouco o Samuel recatado e apaixonado que ela conhecera.
Vinha de compreender, tarde demais, indesculpável insensatez que cometera.
— Larga-me — tornou ela, debatendo-se.
Preso à corrente do relógio do banqueiro, o véu despedaçou-se nessa contenda; não obstante, porém, toda resistência, Samuel tomou-a nos braços para conduzi-la à casa.
Nesse instante, seguido da esposa, Rodolfo surgiu no princípio da alameda.
Vendo a irmã a lutar entre os braços do banqueiro, que a arrastava, naturalmente, contra a vontade dela, Rodolfo emitiu um rugido de cólera, e sacou do bolso uma pistola.
Aos ouvidos de Samuel chegou o grito do Conde, e ele, voltando, enquanto o Conde se aproximava, cortando-lhe o caminho para casa, estacou, tomado de imensa fúria.
Concluiu que tudo estava findo.
Tirando proveito do momento de parada, Valéria chegou a escorregar para o chão; contudo, num golpe rápido, o banqueiro tornou a segurá-la.
E recuou, recuou mais ainda, exclamando com voz roufenha:
— Se não podes, pois, viver, morre comigo!
E atirou-se com ela no tanque.
— Ah! infame, assassino! — bramiu Rodolfo, desvestindo o sobretudo, e jogando-se à água atrás deles.
Os dois criados saiam também da obscuridade das árvores.
Atiraram-se à água, no instante mesmo em que Samuel e Valéria tornavam à superfície.
O pesado vestido de brocado da moça, grosso demais para embeber-se logo de água, estava pando como balão.
Sobrenadou, por alguns momentos, e mergulhou outra vez.
Exímio nadador, o Conde já a tinha segurado e sustido à flor das águas.
Correram em seu auxílio os criados e Samuel, a quem o banho frio privara dos sentidos, depois da forte sobre-excitação sofrida, levou Valéria para terra, e a colocou sobre um banco, onde Antonieta, tremendo como folha agitada pelo vento, enxugou-lhe o rosto e prestou-lhe os primeiros cuidados.
— Infame! — remordeu o Conde, vestindo de novo o sobretudo sobre a camisa encharcada, e dirigindo um olhar de desprezo e ira na direcção de Samuel, a quem os criados, estendendo-o na relva, procuravam fazer tornar à vida.
Depois, tomou Valéria entre os braços, envolvendo-a no manto preto e caminhou para a saída.
— Já não és mais necessário, amigo! — disse ele a um dos cocheiros, depois que aconchegou a irmã na outra carruagem.
Eis aqui a moeda de ouro que te prometi.
Quanto a ti, meu velho, arrebenta os teus animais, que eu te reembolsarei, porém leva-nos para casa em dez minutos.
Atendei ambos a um bom conselho:
olvidai que aqui estivestes!
Quando, por fim, Rodolfo deitou Valéria no seu leito e as portas foram fechadas a qualquer indiscreto, o jovem par pôde respirar desafogadamente.
Ninguém os mostra, quer no jardim, quer na escada, e para completa ventura, a donzela acabava de abrir os olhos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 29, 2016 8:02 pm

— Puxa! — aliviou-se o Conde.
O mais grosso da tarefa está concluído; como vestir, porém, esta insensata?
Inutilizado está o vestido, e daqui a vinte minutos ou pouco mais vai iniciar-se o cortejo.
— Não seja isto que te preocupe; mandarei vestir-lhe o vestido que nos chegou de Paris para as bodas com Maier, — contestou Antonieta, que recuperara todo sangue-frio.
Vai, entretanto, mudar de traje, meu amado; temo que possas resfriar-te.
Faz, depois, as honras aos convidados.
No prazo de uma hora, a noiva estará pronta e surgirá no salão.
Assim que Rodolfo deixou o aposento, Antonieta distribuiu as ordens.
Marta e Elisa, as duas aias, foram as únicas que admitiu a ajudá-la.
Despiram Valéria, e friccionaram, com pedaços de flanela, seu corpo gélido; fizeram vir da copa um cálice de vinho velho.
E Antonieta, enquanto as mulheres abriam as caixas que traziam o outro vestido de noiva, chegou-se para a amiga, que se mantinha inerte, silenciosa e de olhar fixo, e apresentou-lhe o vinho.
— Bebe! e procura recuperar tua presença de espírito, Valéria — disse, com tom grave e severidade no olhar.
Incrível imprudência foi a tua, pondo em jogo a tua honra e a de Raul.
Conclama todas as tuas energias, para nos auxiliares a ocultar esse indecoroso caso, e poderes surgir frente a teu noivo e convidados sem despertares sua curiosidade.
Valéria aprumou-se, tomou do cálice e sorveu todo o líquido.
— Estou disposta e pronta para me vestir — exclamou, enquanto lhe vinha às faces um carmim de febre.
Pôs-se de pé e auxiliou as aias a comporem sua toalete.
Os cabelos molhados passaram-nos a ferro quente, entre dois panos, e trançaram-nos depois, já que o tempo escasseava para se compor um penteado.
Deu-se rapidamente um resto de toalete, e a hora determinada por Antonieta não se tinha ainda passado, quando, pelo braço de seu progenitor, a noiva penetrou no salão.
Mais linda do que jamais, o fogo que lhe ardia nas faces foi atribuído à emoção.
Ao ver a noiva instalada na sua carruagem, e assentado ele próprio em outra, Rodolfo, ao lado de sua esposa, deu um suspiro de alívio:
— Este dia de hoje, jamais o esquecerei.
Rendo graças a Deus, por que tudo passou de modo a terminar assim.
— Certo, horas terríveis passamos, e eu não estava errada, como fica provado, quando previ que a desonestidade de que usamos traria maus frutos.
Infeliz Samuel! estava ensandecido pelo desespero.
— Canalha raivoso! - sussurrou o Conde, torcendo os fios do bigode.
Peste! Que paixão!
Quem o suporia em coração judeu?
No instante em que Raul ofereceu a mão a Valéria para levá-la ao altar, a sua rubidez cedeu posto a cadavérica palidez.
A realidade das asserções de Samuel apresentava-se ao seu espírito com luz aterradora:
cheio o seu coração de amor por ele, arrancada há pouco de seus braços ia perjurar, prometendo amor e fidelidade a outro!
— Que se passa contigo, querida?
Por que essa súbita palidez? — indagou Raul, inquieto e cheio de espanto, inclinando-se para ela.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 29, 2016 8:02 pm

A voz carinhosa do jovem Príncipe, o ansioso e terno olhar que lhe dirigia, chamaram Valéria a si.
— Nada, nada; dor de cabeça nervosa traz-me doente desde manhã — repostou Valéria, com leve sorriso.
Não te preocupes, Raul, que isto não demora a passar.
Congregando todas as suas forças, pôs-se de joelhos frente ao altar, e de seu coração doente evolou-se fervorosa prece ao Criador!
Pedia-lhe energia suficiente para bem desempenhar seus deveres, e não ser perjura em hora tão solene.
Finda a cerimónia nupcial, regressaram todos ao castelo do Conde de M""".
Os recém-casados deveriam partir, antes da ceia transferindo-se à própria residência, e trocar os trajes; deveriam dirigir-se, pelo trem das seis da manhã, à Espanha onde planeavam passar sua lua-de-mel.
Firmando-se ao braço do marido, a novel princesa de O""" recebeu os parabéns dos convidados.
Mostrava-se alegre, afável e seu gracioso sorriso respondia aos olhares carinhosos de Raul.
Apenas Antonieta percebeu o brilho febril, doentio, dos olhos de Valéria, e os tremores que a sacudiram, por instantes.
— Minha cara — disse ela, chamando-a à parte — tens as mãos quentes, como se ardessem, e estás trémula.
Temo que o horrível banho de hoje possa causar-te uma doença.
Como hás-de suportar a viagem?
— Esteja tranquila, trata tão-só de uma agitação dos nervos, que cessará logo — respondeu Valéria, controlando, à força de vontade, o mal-estar que dela se apoderava sempre mais forte.
A excitação causada pelo adeus, a sós, do pai e de Rodolfo, garantiu ainda a vontade da jovem desposada; quando, porém, por fim, viu-se no coche ao lado do marido, faltaram-lhe as forças.
Andava-lhe a cabeça à roda; sacudiam-na gélidos arrepios.
Raul, absolutamente feliz por se ter já desembaraçado dos importunos, abraçou-a, aconchegando-a ao peito; sentindo-a tremer, porem, indagou, cheio de susto:
— Deus do céu!
Estás de facto doente?
— Não, não; transtorna-me apenas alguma fraqueza — sussurrou Valéria, com dificuldade, apoiando a cabeça no ombro do marido.
Não era longo o caminho a percorrer entre o castelo do Conde M""" e o do Príncipe de O""".
Pouco mais tarde, o carro parou, e o lacaio abriu a portinhola.
Raul desceu, com um salto, e quis, ele próprio ajudar a jovem esposa a descer; mal colocou ao pés no estribo, porém, os olhos de Valéria foram se fechando, perdendo as forças, e por certo abater-se-ia nas lajes da calçada, não a tivesse Raul amparado em seus braços.
Assustado, o Príncipe a ergueu, e ordenando que buscassem um médico a toda pressa, transportou-a ao dormitório e a depôs sobre o leito.
Ajudado por Marta e Elisa, que já se haviam instalado na nova residência, prestou à jovem princesa, sempre desmaiada, os cuidados mais urgentes.
As mãos trementes, encheu-a de perfumes, massageou-lhe os pés gelados, e, no seu desespero, mandou um lacaio ao palacete de M""", com o fim de fazer Antonieta sabedora do ocorrido.
Abatidos e preocupados, Antonieta e o marido acorreram à cabeceira da enferma, quase ao mesmo tempo que o médico, que declarou tratar-se de um resfriado, agravado por abalo nervoso, nada podia afirmar, contudo, ainda, de modo claro, sobre as consequências.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 29, 2016 8:03 pm

Raul mostrava-se desesperado; o Conde despendeu esforços para fazê-lo tornar à razão e o afastou do quarto, sob desculpa de deixar à Antonieta a liberdade necessária para pôr em prática as prescrições do médico; a verdade, contudo, era que Valéria, abrindo os olhos, fazia temer, pelo olhar alucinado e febril, um delírio com palavras inoportunas, capazes de tornar clara ao Príncipe a causa da repentina doença.
Entretanto, tudo decorreu mais tranquilamente do que supunham.
Devido ao benéfico efeito do remédio receitado, profundo sono dominou Valéria, e abundante suor se produziu; quando despertou, a manhã já ia alta, e ela se achava em pleno uso de suas ideias, não obstante esgotada pelo cansaço.
Vendo Raul inclinado e expectante sobre ela, pois velara junto com Antonieta, vivo rubor espalhou-se em suas faces.
Tinha vergonha e sentia-se culpada em relação com o honesto coração e a confiança do ser que a queria profundamente, amor puro e sublimado; ao impulso desse remorso, enlaçou o pescoço do marido, chamando a si, murmurando:
— Meu querido e bondoso Raul, escusa-me do susto que te preguei.
Sinto-me quase inteiramente boa.
O esculápio declarou-se satisfeito com o estado da enferma, e livre de perigo, acrescentando que uma quinzena mais de repouso e tranquilidade restabeleceriam por completo a jovem Princesa, proibindo contudo qualquer viagem.
Sentiu-se Valéria venturosa com essa receita; não alimentava nenhum desejo de viajar.
Tanto sua alma, como seu corpo, ansiavam por repouso; procurava de modo honesto, reparar o agravo feito a Raul, e repelia, com todas as energias de que era capaz, a imagem de Samuel, afastava de si qualquer recordação dele, e fazia-se terna e apaixonada para com o Príncipe, que a tratava com extremo devotamente, procurando ler-lhe nos olhos o menor dos desejos...
Valéria recuperava rapidamente a saúde, e somente a palidez fazia lembrar 0 terrível acontecimento.
Antonieta e seu marido puseram-se alegres porque tudo terminou de modo auspicioso.
Faziam frequentes visitas à enferma, e puseram o velho Conde a par dos eventos que antecederam as bodas.
Ilimitados foram a ira e o espanto do velho Conde; a insensatez de Samuel, que fora a ponto de tentar afogar Valéria, enchia de ódio cego contra o banqueiro o coração do velho aristocrata. Nem mesmo lhe passou pela ideia repreender a louca imprudência de Valéria.
Maier, canalha judeu, na sua opinião era capaz de tudo, e quando o barão Maurício ousara dizer que Valéria é quem tinha culpa, quase se zangou com ele, ainda mais por ter acrescentado que todo homem, arrebatado peia paixão e mocidade, na mesma situação, procederia como Samuel.
Duas semanas após o casamento de Valéria, Antonieta e Rodolfo decidiram passar algumas horas, após o jantar, em casa de um amigo, que morava nos arredores da cidade.
Era ocasião para um passeio agradável, porque o tempo mostrava-se magnífico.
Para chegarem ao seu destino, necessário lhes era percorrer um bairro um tanto distante, e algumas ruas desertas, comumente, e afastadas.
Notaram surpreendidos, que qualquer fato fora da órbita comum, chamara para fora de casa, naquele dia, toda a população do arrabalde.
Observavam-se, na grande maioria, as características fisionómicas e roupas ensebadas da população judia; apertava-se, essa massa barulhenta e curiosa, num só bloco, em volta de um edifício enorme, de ladrilhos e de janelas com grades, frente ao qual uma fila de aristocráticas carruagens estava parada.
Tão lotada estava a rua, que a carruagem do Conde teve de deter-se.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 29, 2016 8:03 pm

Vivamente admirados, quiseram os dois saber de que se tratava e, tendo divisado um agente policial, Rodolfo fê-lo aproximar-se.
— Por que este amontoado de povo judeu?
Por quanto tempo estaremos aqui retidos?
— É um casamento de gala que se celebra na Sinagoga, senhor Conde — respondeu o agente, respeitoso (bastante conhecido era o jovem Conde, em Pesth).
O milionário Maier contrai matrimónio com a Srta. Silberstein, filha do corrector de câmbio.
Nessas oportunidades, é de hábito distribuir-se esmolas, e eis a multidão à porta.
Mandarei abrir uma passagem para a vossa carruagem, Erlauchtn, mesmo porque já está encerrado o cerimonial. Vão sair.
Estupefactos, mudos, Antonieta e Rodolfo firmaram seus olhos nos degraus da Sinagoga, onde aparecia, agora, um jovem de casaca e gravata branca.
Caminhava, ao seu lado, uma moça vestida de cetim branco, a face escondida num enorme véu de renda.
Ambos assentaram-se numa carruagem puxada por magníficos cavalos brancos.
Abriu-se entre o povo uma estreita passagem e imediatamente depois, ambas as carruagens, rodando sem pressa, puseram-se lado a lado.
Era, de facto, Samuel.
Seu rosto, sombria e dura expressão, estava abatido, cor de cera.
Deparando com Rodolfo, brilhou-lhe nos olhos um raio de ódio mortal.
Foi, entretanto, o único sinal de reconhecimento trocado.
Os veículos tomaram, cada qual, rumos opostos.
— É ele! E casado! Impossível de crer-se! — murmurou Antonieta, atarantada.
Sufocado por um acesso de riso, Rodolfo tombou sobre as almofadas.
— Magnífico! Eis um final que, penso, desiludirá a nossa novel princesa.
Esqueceu-a bem depressa e, como judeu prático, escolheu encantadora consolação, tão morena quanto nossa louca jovem é loura!
Ah! Ah! Ah! positivamente, esse desfecho é impagável!
Antonieta meneou a cabeça.
— Atentas apenas a superfície.
Julgo que o casamento de Maier, precipitado, foi um procedimento inspirado pelo desespero, e vem provar, mais do que outra coisa, quanto ele ainda pensa em Valéria; em seus olhos lê-se um pélago de sofrimento moral, além de que ele não teve um olhar para aquela que desposou.
— No que me toca, apenas vi ódio no seu olhar; vós, porém, mulheres, gostais de cercar de uma aura de poesia até mesmo um usurário judeu, que pretende imiscuir-se, com a insolência característica da raça, em toda parte.
— Samuel não é avarento, e não posso compartilhar o teu desprezo para com ele, nem o de teu pai — interpôs Antonieta, desaprovadoramente.
— Não se pode dizer generoso o meio empregado por ele para conseguir a mão de Valéria; contudo, ele se redimiu quando lhe entregou todas as letras das dívidas, assim que se viu amado.
Não olvides que a vossa palavra, tua e a da Fada, estavam-lhe, como hipotecadas e que foi uma grave falta, cometida por orgulho de casta, a nossa para com esse homem, ao qual impusemos, sem nenhum motivo, sofrimentos morais de extensão inconcebível.
De qualquer modo; é preciso que previna logo Valéria deste acontecimento; poderia vir a sabê-lo, por acaso, quando em presença de Raul e uma emoção repentina levantaria suspeitas.
— Sim, isto mesmo, conta-lho amanhã.
Raul estará em serviço e ela terá bastante tempo para se tranquilizar.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 29, 2016 8:03 pm

A nova de que Otelo, depois de ter tentado afogar Desdémona, se casou, será suficiente para lhe fazer recuperar a razão.
Entretanto; não entendo como se possa ter por marido um homem dos mais belos que se possa imaginar, aristocrata até a ponta das unhas, e penalizar-se por esse judeu apenas desengordurado!
Muita razão teve quem disse que o coração da mulher é um abismo de inconsequências.
— Não te corriges, Rodolfo.
Um judeu do quilate de Samuel transforma-se em homem formoso e espiritual, digno de ser amado.
Além do mais, o coração não olha procedência, nem o que é exterior, para se apaixonar...
Do ponto de vista clássico, és menos belo que Raul; por coisa alguma do mundo, contudo, haveria de trocar-te; prefiro-te assim como és, e acreditas que te quereria menos se fosses judeu?
— Apre! Rendo graças a Deus por não precisar experimentar teu amor por este lado; teus argumentos forçam-me à rendição.
Declaro-me vencido.
A jovem Condessa mudou de tom, vivamente:
— E fazes bem; ri-se dos preconceitos, do orgulho, essa força da alma que se denomina amor; quase estou a lamentar não ter nascido judia, apenas para te castigar.
A conversa finou-se com a parada da carruagem.
*•* *•* *•*
Ao dia seguinte, pela manhã, ao chegar ao palacete do Príncipe, encontrou-o Antonieta, descendo as escadas, em vestes militares.
— Fizeste muito bem em vir tão cedo! — exclamou ele, saudando afectuosamente a cunhada.
Distrairás minha pobre Fada, já que o serviço me obriga a deixá-la hoje.
— E como passa Valéria?
— Muito bem; dormiu um sono só esta noite — explicou o Príncipe, satisfeito.
E julga-se tão disposta, que acedeu em ir, segunda-feira, à Ópera, a ouvir a Patti, que faz sua estreia com Lúcia de Lammemoor.
Gostaria que nos fizésseis companhia, tu e Rodolfo.
— Naturalmente, com prazer.
Agora, vai, senão chegas tarde e teu chefe te fará prender — concluiu Antonieta, rindo.
E separaram-se, depois de ter trocado um derradeiro aperto de mão.
Valéria achava-se no delicioso retiro, que era o seu gabinete, forrado todo de cetim branco, com bordados à prata e repleto das mais raras flores.
Recostada no divã, passava as folhas de grande álbum, presente de seu marido nessa mesma manhã, trazendo os retratos de todas as celebridades no sector artístico da época.
No seu rosto ainda abatido, brilhou alegre sorriso quando avistou Antonieta, e, tomando-lhe as mãos, puxou-a para o divã a seu lado.
— Muito obrigada por teres vindo compartilhar o meu retiro.
Veja quão curioso é este álbum que Raul me deu.
Vens folheá-lo comigo, ou preferes conversar?
Penso ler em teus olhos que alguma coisa muito importante tens a contar-me.
Antonieta pôs-se de pé e, tendo lançado um golpe de olhos no aposento contíguo, tornou a sentar-se junto da amiga.
E murmurou, tomando-lhe as mãos:
— Não te equivocas; tenho algo a dizer-te e aproveitei-me da ausência de teu marido, porque é notícia mais desagradável do que interessante.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 29, 2016 8:03 pm

Terás tempo para te tranquilizares.
Valéria foi agitada por um tremor dos nervos:
— Não te entendo; que me vens dizer? - exclamou, levantando para a companheira um olhar cheio de interrogações.
Será referente ainda outra vez a... a... Samuel?
Por piedade, Antonieta, não me ponhas aflita.
Não saberia dizer-te quanto tenho sofrido, pensando nele...
Aconteceu-lhe por acaso algo? Doente, talvez?
— Não, nada disso; acalma-te, pobre Valéria.
Ele esta bem, e o seu acto te liberta, bem ao contrário, de qualquer remorso:
Samuel casou-se! — respondeu Antonieta, acentuando a palavra.
Valéria ergueu-se com ímpeto e vivacidade de que não a suportariam capaz um instante antes.
— Casado! Casou-se!
Samuel ousou fazer isso! — exclamou, de olhos coruscantes e faces abrasadas.
Quase no mesmo instante, porém tombou outra vez, sentada, erguendo bem alto a cabeça nas almofadas.
Sufocavam-na a ira e o ciúme.
Sem mostrar que ligasse ao caso, Antonieta contou com pormenores quanto assistira na véspera, sabendo perfeitamente que cravava e voltava a cravar um punhal no coração ferido de Valéria; era necessário, contudo, curá-la e ela esperava apressar esse restabelecimento, forçando-a a tomar, gota a gota, o cálice da amargura.
— É preciso que te faça conhecedora de um pormenor, que nós não conhecíamos, e que poderia, se dele fossemos sabedoras, poupar a tua humilhante conduta, e tua indisposição — continuou a Condessa.
Ontem à tarde, quando regressei, deparei com Marta que me trazia teu bilhete.
Inteiramente preocupada ainda com esse casamento, fiz perguntas à moça (que tem por noivo o criado grave de Maier), procurando saber quem o banqueiro tinha desposado.
Ela me fez sabedora de que o agente de câmbio Silberstein e seu filho, durante o período da enfermidade de Samuel, trataram do ferido, e que este, apenas entrou em convalescença, fez-se noivo de Ruth, que é como se chama a filha de Silberstein; estava já marcado o casamento, oito dias antes de Marta te contar que Maier vivia.
Na sua estupefacção, ele esqueceu-se de te dizer.
Valéria emitiu um grito:
— E eu, louca, eu que me enchi de repreensões, e no entanto já estava esquecida por esse traidor, que pretendeu, além de tudo o mais, erigir-se em juiz, exigir justificação, macular-me com seus beijos, sabendo-se unido a outra!
Pôs-se de pé e percorreu o quarto, em febril agitação.
Depois, detendo-se de improviso diante da Condessa, indagou com voz insegura:
— Essa judia, por quem ele me passou para trás é formosa?
— Sim, é bela, de causar admiração — respondeu Antonieta, tão franca, que era quase cruel — Samuel, certamente, compreendeu sua insânia, e escolheu para esposa uma formosa filha de sua raça; é possível mesmo que essa união bem forjada termine por lhe trazer a felicidade.
Quanto a ti, Valéria, deves riscar do coração essa página do passado; esse homem, cheio de paixão, sombrio, surgiu em tua vida como um pesadelo; tantas lágrimas, tantos males custou-te, que Deus apiedou-se de ti.
Agora que Maier recuperou seu juízo e casou-se, deves, sem remorso, olvidá-lo e oferecer inteiramente teu coração a Raul!
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 29, 2016 8:04 pm

Veja! (Antonieta ergueu-se e próximo à secretária, indicou com a mão um grande retrato do Príncipe, preso à parede).
Tão belo, tão nobre, este é o homem que te pertence; ele te adora apaixonadamente, e milhares de mulheres devem invejar a ventura que tens.
Recupera teu bom senso; recorda o orgulho inerente à antiga e nobre raça de que provéns:
Princesa de O""", toma o posto que te cabe e, por mais sedutor que seja Samuel, não se pode preferi-lo a Raul.
Valéria tudo escutara com as faces em fogo; rolavam-lhe dos olhos lágrimas de ciúme e ira; enxugando-as, porém, num gesto rápido, atirou-se nos braços de Antonieta.
— Estás certa, é meu desejo e meu dever olvidar esse filho insolente da fortuna, que se intrometeu no meu caminho para envenenar minha vida.
Hei-de resgatar a minha afronta moral para com Raul, ofertando-lhe toda a minha alma.
Não será tarefa difícil para mim, porque ele é tão bom, tão generoso.
— Eis que dizes bem e pensas melhor ainda — comentou Antonieta, beijando-a.
Descansa, por enquanto; contou-me Raul que irás, na segunda-feira, à Ópera, e convidou-nos a fazer-vos companhia.
O teatro há-de estar superlotado com a estreia da Patti, muitos olhares estarão postos sobre ti, cheios de curiosidade, e eu gostaria que reaparecesses em público no auge de tua formosura.
Estamos, graças a Deus, na terça-feira; tens cinco dias ainda para te restabeleceres totalmente.
Que vestido ostentarás?
— Fazes-me pensar com isso, que devo embelezar-me e demonstrar a todos que sou feliz.
Que achas do vestido de veludo cor de safira, orlado de rendas prateadas, que me enviaram para o enxoval?
Recordas? Tão entusiasmada te mostraste na ocasião, que mandaste buscar um igual, cor de rubi:
usa-o também, será maravilhoso!
— Óptima ideia; são encantadores esses vestidos, e o azul escuro fará aparecer melhor tua cor nacarada e teus louros cabelos.
Que adereços usarás?
— As pérolas, que são presente de minha sogra, e os broches de safira. Grande Deus! — acrescentou a Princesa, pondo-se nervosa — estás informada se devolveram os adornos que foram presentes de Maier, no dia de nossa partida para o teu casamento?
A Condessa mordeu os lábios.
— Nada sei, nem sequer onde se acha o meu adorno; tranquei o no teu escrínio e, depois, dadas todas as atrapalhações, esqueci-me dessas jóias.
— Se as puseste nesse escrínio, estão lá com certeza; podermos porém, certificar-nos imediatamente — disse Valéria, dirigindo-se ao dormitório.
Na alcova, grande móvel de cor negra, como baú, esculpido e incrustado com riqueza, estava suspenso em quatro pés curtos e maciços, presos ao assoalho.
O móvel parecia de uma só peça, sem abertura nenhuma, mas Valéria fez funcionar complicado mecanismo que o abria.
Nos encaixes invisíveis correu uma espécie de porta, descobrindo inúmeras prateleiras, cheias de cofres e de jóias.
A parte inferior desse baú era tomada por imenso cofre, que trazia no tampo o emblema dos Condes de M""", gravado em relevo.
Com alguma dificuldade, ambas levantaram o cofre e colocaram-no sobre a mesa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 29, 2016 8:04 pm

Assim como o armário, estava também cheio de jóias e, após um momento de buscas, Antonieta retirou dois escrínios, abrindo-os, enquanto Valéria fechava o cofre.
— Indubitavelmente, são magníficos adereços — murmurou Antonieta , fazendo brilhar à luz os diamantes da guirlanda.
— Estarão muito melhor, porém, nos cabelos negros e no pescoço moreno da Sra. Maier, do que em nossas nobres pessoas.
— Evidentemente, estarão mais bem empregados, e é de admirar que o banqueiro não nos pedisse a devolução de objectos de tão altos preços — ripostou Valéria, os lábios tremendo, nervosamente.
Não obstante sua grande resolução, o recordar essa esposa de Samuel extravasava seu coração uma dor profunda.
— Nem tão judeu é ele!...
Voltemos, porém, ao teu quarto; escreverei algumas palavras a Maier.
Sentando-se frente à secretária, Antonieta escreveu as seguintes linhas:
"Senhor. As inúmeras emoções destes tempos são a causa de ter-me esquecido, por completo, de devolver-vos os dois enfeites aqui juntos, sendo que um me foi enviado para esse fim pela Princesa de 0""", antes de seu enlace matrimonial. Apresso-me agora a cumprir esse dever, pedindo-vos que me escuseis a demora e minha negligência.
A. de M""".
— Isto é que está bem — comentou a Condessa, relendo em alta voz o bilhete.
Vamos, pois, fazer um pacote destes estojos e, quando me for, enviarei o embrulhinho ao seu destino.
Nessa tarde mesmo, tendo se retirado para o seu gabinete, a pretexto de trabalho urgente, mas apenas para estar só, pois nem sequer dirigia um olhar aos papéis que se acumulavam na secretária, o banqueiro estava sozinho.
A chegada de um fâmulo, apresentando-lhe numa salva uma carta e um pacote, tirou-o de suas cismas.
Indiferentemente, tomou o bilhete perfumado e abriu-o; lendo-o, porém, forte rubor cobriu-lhe as faces.
Com um gesto violento, despediu o criado, que deixara o pacote na extremidade da mesa.
— Que milagre fez com que essas orgulhosas moças tardassem tanto em devolver isto ao judeu? — murmurou, amargamente.
Ah! com certeza, Valéria soube de meu casamento, e isto é uma resposta; sem dúvida vai odiar-me e procurar querer bem a seu Príncipe; é até provável que isso se passe assim; o monopólio da traição, julga nas mulheres que o dirigem, e não perdoam a qualquer que lhes pague na mesma moeda!!
Com um sorriso de feroz ironia, sem mesmo abri-lo, tomou o pacote e fechou-o numa gaveta da secretária.

*Erlaucht — Palavra alemã, hoje em desuso, que significa augusto, ilustríssimo, eleito. (N. do T).
2 Em hebraico, esta palavra, significa - povo.
Aqui, porém, emprega-se num sentido especial, para designar o povo-crente.
(N. do T.)
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A VINGANÇA DO JUDEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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