O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 10:20 am

O DIREITO DE SER FELIZ
PSICOGRAFADO POR ELIANA MACHADO COELHO

PELO ESPÍRITO SCHELLIDA

Fernando e Regina apaixonam-se.
Ele, de família rica, bem posicionada.
Ela, de classe média, jovem sensível e espírita.
Mas o destino começa a pregar suas peças.
Movido pela ambição material, Fernando decide ir trabalhar na França, caindo na rede sedutora de Lorena, uma prima que mora em Paris.
Regina fica só.
O tempo passa, e eles se separam definitivamente.
Fernando fica com Lorena, Regina se casa com Jorge.
Novos factos vêm abalar a vida de todos os personagens desta envolvente história...
Por quais caminhos devemos seguir para não cair nas armadilhas da própria invigilância, da imprudência, da traição e das amarras dos vícios que levam à autodestruição?
Como encarar a solidão, sobretudo quando perdemos aqueles a quem mais amamos, e tendo ainda de enfrentar a dura realidade do câncer?
Em O Direito de Ser Feliz, o espírito Schellida mais uma vez nos traz, com sabedoria, valiosos ensinamentos sobre temas sempre presentes em nosso quotidiano.
Pela psicografia de Eliana Machado Coelho, Schellida nos mostra que ser feliz depende somente de nós, sejam quais forem os obstáculos e as dores enfrentadas na vida.

ÍNDICE

1 - PREMONIÇÕES
2 - RELUTANDO EM CRER
3 - CIRCUNSTÂNCIAS TRÁGICAS
4 - UM LAR PARA "BOLINHA"
5 - ONDE ESTÁ MEU FILHO?
6 - TRANSTORNOS ESPIRITUAIS
7 - PENSAMENTOS DESTRUTIVOS OU DEPRESSÃO?
8 - OS ELEITOS DE DEUS
9 - RENOVANDO OS CONCEITOS
10 - ACONTECIMENTOS INESPERADOS
11 - NOVOS PRESSENTIMENTOS
12 - UMA NOVA VIDA
13 - SÚBITA MUDANÇA
14 - A PROCURA DE SOLUÇÕES
15 - O REENCONTRO
16 - PENSAMENTOS CONVULSIONADOS
17 - A VERDADEIRA PERSONALIDADE
18 - NO MUNDO REAL
19 - IDEIAS DE PERSEGUIÇÃO
20 - AS EXIGÊNCIAS DA VIDA
21 - EXPERIÊNCIAS AMARGAS
22 - A DURA REALIDADE
23 - O QUE A VIDA NOS RESERVA?
24 - MENSAGEM DE AMOR
25 - IMPORTÂNCIA DO PERDÃO
26 - AJUDA PROVIDENCIAL
27 - A DOENÇA DA ALMA
28 - DIAS CONTURBADOS
29 - ORAR É IMPORTANTE, MAS NÃO É TUDO
30 - DEPRESSÃO - O CÂNCER DA ALMA
31 - DURANTE O SONO
32 - A VIDA É SURPREENDENTE!
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Ave sem Ninho

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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 10:21 am

1 - PREMONIÇÕES

Era o fim de uma tarde fria, algo um tanto incomum na cidade maravilhosa, onde as chuvas fortes e ocasionais prendiam a muitos em seus lares.
Poucos se atreviam a sair de casa, e Fernando era um deles.
Animado, como todo jovem de sua idade, ele não se incomodava com o tempo e se arrumou para ir à casa de um amigo, onde outros colegas também estariam.
Descendo às pressas a larga escada que se estendia curva na bela e bem ornamentada sala principal de sua casa, dominado pela euforia, sem rodeios, Fernando avisou sua mãe:
- Estou indo à casa do Renato - afirmou o rapaz rapidamente com modos simples e virando-se para sair.
Em tempo, a mãe o deteve, questionando:
- Onde é a casa do Renato, filho?
- Ah, mãe! Agora não dá para explicar; estou com pressa, mas não se preocupe, o pai sabe onde é. Tchau!
E, antes que Lídia tentasse dizer algo mais, o filho, resoluto, saiu ligeiro.
Lídia, que tinha em suas mãos um livro de grosso volume, ficou parada quase no centro do ambiente, sem reacção alguma.
Algo estranho lhe acontecia.
Um leve torpor deixou seus pensamentos vazios, e um vago pressentimento de que algo errado aconteceria fez-lhe gelar.
De súbito, o livro que segurava pareceu ter pulado de suas mãos para o chão, fazendo-a voltar à realidade.
Um rápido suspiro, com suave gemido, expressou seu susto, e a bela mulher correu em direcção à porta para alcançar Fernando.
Saindo da exuberante casa, correu pela larga varanda esbarrando nas plantas e cadeiras, a fim de poder alcançar o filho.
Descendo os poucos degraus da varanda e chegando na garagem que ficava na lateral da luxuosa mansão, Lídia decepcionou-se ao verificar que Fernando já havia saído com seu carro.
Um gelo correu-lhe pelo corpo, e como última tentativa ela ainda direccionou-se apressada até os portões para tentar vê-lo, mas não teve êxito.
Sem compreender o que se passava consigo, a mulher se viu abalada.
Lídia não entendia aqueles sentimentos.
Frustrada, caminhou lentamente de volta à casa, seguindo pela ruazinha no interior do quintal ladeada por um belo jardim.
Foi quando ouviu:
- Algum problema, dona Lídia?
Após novo susto, ao olhar na direcção da voz que a surpreendeu, Lídia respondeu brandamente, tentando expressar-se com calma:
- Tentei alcançar meu filho, o Fernando.
Ele passou agora mesmo por aqui, não foi, Américo?
- Na hora em que a senhora foi para o portão, já fazia uns dez minutos que ele havia saído.
Lídia forçou meio-sorriso, que logo se desfez, e, entoando a voz com bondade, corrigiu o jardineiro:
- Creio que não, Américo.
Mal conversei com ele na sala e...
Bem, ele fechou a porta e eu saí atrás logo em seguida.
Lídia lembrou-se da estranha experiência que tivera momentos antes, de como seus pensamentos ficaram vazios por alguns segundos até que o livro caíra de suas mãos.
Reflectindo rápido, ela se questionou em pensamento:
"Será que fiquei em minha sala parada só alguns segundos?
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 10:21 am

Será que não passou mais tempo do que eu imagino?
O Américo disse que o Fernando já havia saído há dez minutos.
Não fiquei parada na sala tanto tempo assim!"
Enquanto relembrava o que ocorrera, Lídia não se dava conta de que estava parada, em silêncio, e com o olhar perdido no modesto e gentil senhor que trazia o rosto enrugado e queimado pelo sol.
Com olhar generoso, Américo aguardava educadamente sua patroa expressar-se.
Quando o homem esboçou um sorriso simpático e com as mãos trémulas ofereceu uma rosa a Lídia, ela pareceu despertar.
Mecanicamente, a jovem senhora estendeu a mão e segurou a linda flor, agradecendo, como se estivesse sussurrando:
- Obrigada.
- Dona Lídia - disse o jardineiro esperando que a mulher erguesse o olhar e, ao vê-la encarando-o, prosseguiu -, a senhora parece assustada.
Tome um chá para se acalmar e faça uma prece.
Ela sorriu com generosidade e respondeu:
- Estou trabalhando muito, Américo.
Deve ser cansaço.
Novamente começou a chover, e Lídia viu-se obrigada a recolher-se rapidamente, despedindo-se do senhor com leve aceno de cabeça e bondoso sorriso.
Já sob o abrigo da confortável residência, ela se sentia insegura e insatisfeita.
Não havia a quem pudesse confidenciar seus sentimentos e a experiência que vivera.
Vários empregados estavam na casa, mas a estes nunca compartilhara sua intimidade, seus medos e inseguranças.
Seu sogro, Horácio, já se encontrava em sua suíte e com esta Lídia não tinha tanta liberdade; aliás, nenhuma.
Horácio era um homem austero, quase arrogante, que não se envergava a assuntos pequenos e corriqueiros; só os negócios lhe importavam.
Os dois filhos mais novos, Kássia e Cristiano, haviam viajado com sua irmã.
Seu marido, um advogado de prestígio e muito influente, assim como o pai, por razões profissionais não estava em casa.
Cedendo aos fortes impulsos que lhe dominavam a alma, Lídia foi para o quarto e, sentindo seu corpo tremer, atirou-se sobre a cama, puxando as cobertas para agasalhar-se, como se nesse envolvimento pudesse afugentar seu medo e sua insegurança.
"Algo está errado!
Sinto vontade de chorar!
O que será isso?", pensava em aflição.
Lídia não conciliava seus pensamentos atormentados por um medo, por uma sensação que não compreendia e não podia explicar.
As lágrimas fizeram-se presentes, e soluços involuntários demonstravam seus mais dolorosos conflitos de sentimentos.
Um choro compulsivo se fez.
Algum tempo havia-se passado, e, bem distante do bairro onde morava, Fernando procurava pela casa de seu amigo.
Devido ao transbordamento de um córrego, o rapaz precisou desviar-se do caminho que conhecia.
Por não estar familiarizado com a região e também por causa da chuva que prejudicava a visibilidade, ele se sentia perdido.
Procurando por uma rua que mal lembrava o nome, o rapaz começou a entrar em vielas e esquinas sem saber onde estava.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 10:21 am

Não havia alguém a quem pudesse pedir informações, pois já era noite, e a chuva e o frio inibiam as pessoas de ficarem nas ruas.
Entrando em uma esquina em que não havia pavimentação, o jovem reclamou em voz alta:
- Droga! Rua de terra, ou melhor, de barro!
Outra vez!
Há pouco tempo Fernando havia ganhado de seus pais aquele carro que fora tirado novo da loja.
Era um veículo de destaque, e poucos rapazes de sua idade possuíam um automóvel daquele.
A visibilidade era pouca, e as condições da rua, muito ruins.
Mesmo assim, Fernando resolveu tentar.
Bem mais tarde, depois de uma viagem que, apesar de curta, fora cansativa, Rodolfo chegou em casa e estranhou ao ver que Lídia não estava à sua espera.
Sua esposa era atenciosa e gentil e sempre fez questão de esperá-lo, mesmo quando chegava de madrugada.
Antes de subir para seu quarto, por ser organizado, o marido de Lídia fez questão de ir primeiro ao escritório para deixar os documentos que trouxera consigo.
Perante uma grande mesa, ao tirar de sua valise alguns papéis, o homem pôs-se a examiná-los.
Observando algumas curiosidades que seriam importantes para a defesa de uma nova causa, Rodolfo distraiu-se e não avisou a esposa sobre sua chegada.
Após mais de três quartos de hora terem-se passado, ele escutou um grito de horror.
- Lídia!!! - exclamou ele ao reconhecer a voz da esposa, momento em que, apressado, subiu para sua suíte a fim de ver o que se passava.
- Lídia! O que foi?! - perguntou aflito.
Muito pálida, a mulher já estava sentada na cama, com a respiração ofegante e lágrimas a correr pelo rosto.
Acomodando-se ao lado da esposa, Rodolfo afagou-lhe os cabelos, puxando-a com ternura para um abraço.
Leves batidas na porta do quarto, entreaberta, anunciaram a chegada do senhor Horácio, que também ouvira o grito da nora e queria saber o que se passava.
- O que aconteceu? - interessou-se o pai de Rodolfo.
Está tudo bem?
No abraço com seu marido, Lídia procurava esconder o rosto, enquanto Rodolfo explicava com modos simples o que acreditava ter ocorrido.
- Lídia teve um sonho ruim.
Foi isso, pai.
O homem, sério, quase sisudo, ficou olhando-os por alguns segundos; não disse mais nada, retirando-se logo em seguida.
Diante do choro aflito que começou a se fazer, Rodolfo pediu com jeito amoroso:
- Calma. Procure se acalmar.
Ameaçando se levantar, ele avisou:
- Vou buscar água com açúcar para...
- Não!... Fi-ca co-mi-go. - pediu Lídia, entrecortando a fala com soluços.
- Você só teve um sonho, Lídia.
- Não, não foi só isso...
Mesmo com a voz quase embargando, ela contou ao marido tudo o que ocorrera na tarde daquele dia.
Ele a ouviu com paciência, mas não sabia o que dizer.
- Foi algo muito forte, Rodolfo - contou a esposa.
Senti um gelo, um arrepio esquisito.
Foi como se a morte tivesse passado por mim.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 10:21 am

Lídia estava nitidamente abalada.
O esposo a olhava incrédulo.
Ele nunca a vira perder o controlo das emoções.
Sua mulher não era pessoa de mistificar situações ou sentimentos.
Deveria ter sido algo muito forte mesmo para impressioná-la tanto.
Lídia amava os filhos, era carinhosa, sempre presente, mas sua atenção e cuidados para com eles nunca fora obsessivo.
Sempre fora uma pessoa racional, científica.
Procurando falar com bondade, demonstrando-se compreensivo, ao afagar-lhe o rosto com carinho, Rodolfo argumentou:
- Lídia, fique tranquila.
Não vamos pensar em tragédia.
Você está cansada.
Trabalhamos muito ultimamente.
As investigações para ganharmos a causa das "Empresas Mattoso" custaram-lhe muita dedicação, desgaste físico e emocional.
Eu sei o que é isso, vi o quanto se empenhou.
- E o sonho que tive há pouco, como se explica?
Meu filho me pedia socorro!
- Você adormeceu preocupada com ele.
Provavelmente foi esse o motivo do sonho.
O olhar de Lídia era piedoso, transmitindo uma expressão indefinidamente angustiosa.
Ele disse que você sabe onde fica a casa do Renato tomou ela.
- Sim, eu o levei lá uma ou duas vezes para um trabalho da faculdade.
Com os olhos nublados pelas lágrimas teimosas que se faziam, Lídia pediu, quase implorando:
- Vamos até lá?
Rodolfo reflectiu um pouco, aproximou-se mais da mulher, acarinhou-lhe o rosto e os cabelos, perguntando com modos meigos:
- Será que é preciso?
Não vamos constranger nosso filho?
A mulher silenciou.
Uma dolorosa angústia apertava-lhe o peito.
Ela procurou no abraço com Rodolfo um acalento, um conforto para aliviar aqueles sentimentos que a castigavam tanto.
As horas foram passando, e cada minuto sem notícias do filho deixava aquela mãe mais aflita.
Ela esperou que o marido se deitasse e dormisse para que pudesse levantar e andar pela casa.
Era quase uma hora da manhã quando Rodolfo acordou e sentiu a falta da esposa.
Decidido, foi procurá-la.
Ao descer as escadarias, pôde vê-la sentada em uma poltrona olhando pela larga vidraça, onde se podia ver parte da varanda, do jardim e da entrada da garagem.
- Ora, Lídia! Isso já é demais!
- Rodolfo, aconteceu alguma coisa. Eu sinto.
Aproximando-se da mulher, ele respirou profundamente enquanto reflectia o que iria dizer.
Antes que falasse algo, o telefone tocou.
Ele se virou, atendeu e identificou-se, enquanto Lídia o encarava com olhos arregalados e gestos aflitivos no esfregar das delicadas mãos.
Logo ela ouviu o marido dizer:
- Sim, eu sei onde fica.
Estamos indo. Obrigado.
Sem rodeio, Rodolfo a olhou sério e avisou:
- O Fernando está no hospital.
Houve um acidente.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 10:21 am

2 - RELUTANDO EM CRER

Já no hospital, ao lado do filho, Lídia e Rodolfo conversaram com o médico que atendera o jovem.
- Ele não tem nenhuma fractura - explicava o médico -, excepto um "belo" hematoma e um corte na testa.
Por ter levado uma pancada muito forte na cabeça ele desfaleceu, e recomendo que fique em observação até amanhã.
Olhando para o moço, completou com sorriso irónico:
- Mesmo que ele diga que pode andar e que se sente bem, será melhor ficar aqui.
Verificando as condições do hospital público, Rodolfo decidiu educado:
- Doutor, prefiro levar meu filho para casa.
Tenho condições e posso chamar o médico da família, o senhor me entende, não é?
Sem relutar, o médico aceitou:
- Entendo, sim.
Porém, preciso que alguém se responsabilize pela alta hospitalar.
Não posso, num caso desses, simplesmente liberar o paciente.
- Claro, eu concordo.
Faremos tudo como se deve - afirmou o pai.
Ao chegarem em casa, o senhor Horácio, que não sabia o que ocorrera, estranhou a movimentação, uma vez que o médico da família acompanhava o casal, juntamente com seu neto, que estava muito sujo e machucado.
O jovem foi levado para o quarto a fim de tomar um banho e ser examinado novamente pelo médico, enquanto Rodolfo explicava ao pai o que havia acontecido.
Logo, todos rodeavam Fernando, que ainda se sentia tonto e dolorido.
- Mas como foi que aconteceu isso com você? - perguntou o avô, quase inquirindo.
- Precisei desviar do caminho que conhecia porque um córrego havia transbordado.
Explicava o moço com a fala mansa e a voz baixa, parecendo não querer contar, mais uma vez, aquela história.
Mesmo assim, prosseguiu.
- Entrei numa e noutra rua; senti que estava perdido.
Acabei entrando em uma que não era asfaltada e lá na frente havia uma descida, quase uma ribanceira - exagerou Fernando -, que parecia puxar o carro!
Eu não consegui parar.
O carro deslizou sozinho até bater no muro.
Fiquei muito tonto, pois bati com a cabeça no vidro.
Quando tentei sair do carro, caí no chão e desmaiei.
- Quem o socorreu? - questionou com modo austero o senhor Horácio.
- A rua quase não tinha casas.
O muro era de uma empresa.
Os vigias incomodaram-se com os latidos impertinentes dos cães e foram ver o que estava acontecendo, apesar de chover muito.
Eles disseram aos policiais que havia um cachorro do lado de fora da empresa que me rodeava no chão e corria até os portões, parecendo querer chamar alguém, e isso fez com que os outros cães, lá dentro, ficassem loucos.
Logo eles me viram e chamaram a polícia. Foi isso.
O avô de Fernando franziu o semblante demonstrando-se insatisfeito com o ocorrido e alertou:
- Você precisa tomar mais cuidado.
Tem de ser mais precavido e olhar por onde anda.
O jovem estava descontente, não queria ser advertido.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 10:22 am

Lídia, prestativa e amorosa, cobriu o filho para agasalhá-lo e recomendou carinhosa:
- Agora descanse.
Vou preparar algo para você comer e pegar o medicamento que o motorista já deve ter trazido.
O médico, que já estava de saída, fez algumas recomendações e logo se foi.
Bem mais tarde, ao se ver a sós com a esposa, Rodolfo perguntou:
- Foi um pressentimento aquele conjunto de sensações que a deixou angustiada?
Lídia ofereceu-lhe meio-sorriso, baixou o olhar repleto de dúvidas e não disse nada.
Intrigado, Rodolfo aproximou-se, segurou-a delicadamente pelo ombro e perguntou:
- O que foi, Lídia?
O que está me escondendo?
A esposa calou-se.
Seu coração estava envolto em maus presságios, dúvidas e insegurança.
- O que você tem? - insistiu ele.
- Não sei. Sinto um aperto no peito; é como se não tivesse terminado.
- ... não tivesse terminado, o quê?
- Sabe aquela angústia, aquele mau presságio.
Não deixei de senti-los.
Mesmo agora, vendo nosso filho em segurança, sei que algo está errado.
Soltando-a, parecendo agora estar insatisfeito com a crença de sua esposa, menos amoroso, Rodolfo suspirou fundo e argumentou firme:
- Lídia, você nunca foi pessoa de se deixar influenciar por espiritualidade, por sobrenatural ou coisa assim.
Você sabe que eu não gosto disso.
A esposa não queria magoá-lo, mas decidiu revelar questões mais íntimas que a incomodavam nos últimos tempos e, com ternura na voz, perguntou:
- Meu bem, você já pensou por que temos essa condição social?
Por que vivemos bem?
Por que temos três filhos lindos, perfeitos?
Já pensou no que devemos ensinar para eles, não só sobre a vida material, mas, sobretudo, sobre a moral?
Calmo, como sempre, porém insatisfeito e céptico, Rodolfo concluiu rápido:
- Lídia, temos essa condição social porque eu estudei muito e ainda estudo para me manter actualizado.
Você sabe o quanto me desgasto e luto no trabalho.
Vivemos bem porque não somos vagabundos, não vivemos nos divertindo como alguns que não têm responsabilidade, não se esforçam, não pensam no futuro, enchem a casa de filhos e depois colocam a culpa no governo.
Temos três filhos porque somos conscientes, planeamos nossas vidas.
Sabemos que, onde comem três, se chegar mais um ou dois a comida tem de ser dividida.
Somente os pobres de raciocínio dizem:
"onde come um, comem dois".
Isso é burrice!
Comida dentro de casa só se multiplica quando se tem dinheiro; se não o tiver, a fome, as brigas e as desgraças começam a acontecer.
Nossos filhos têm estudo.
Ensinamos a eles que sem estudo não somos nada na vida.
Mostramos que temos de ter perseverança, objectivos sólidos, estáveis, e planear a vida.
Ensinamos que as alegrias temporárias não nos dão lucros no futuro.
Eu explico a eles que fumar, beber e jogar são prejuízos certos para a saúde e para o bolso.
Isso é moral.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 10:22 am

Andando vagarosamente de um lado para outro no escritório, logo ele continuou:
- Meu pai conseguiu essa casa com muito esforço e economia.
Se não fosse sua luta e trabalho, viveríamos em um bairro pobre e com muita miséria.
Olhando-a nos olhos, Rodolfo concluiu:
- Eu me preocupo em ensinar para os meus filhos a realidade da vida.
Quero que eles vivam bem.
Naquele instante, Rodolfo mostrou-se um homem que Lídia não conhecia.
- Mas, meu bem... - tentou dizer a esposa.
Interrompendo-a, mesmo educado, o marido reforçou:
- Lídia, eu a amo muito.
Sei que você me conhece muito bem.
Não gosto do que não posso ver ou tocar de alguma forma.
Sempre lhe ofereci tudo aqui em casa.
Dou-lhe o mundo se eu puder, mas não me force à religiosidade.
- Você não crê em Deus?
- Creio, mas da seguinte forma:
Alguém nos criou, e a Esse todos dão o nome de Deus.
Acredito também que Deus é tão inteligente que não dá palpite em minha vida, e por isso eu não emito opiniões para o que acontece no mundo em termos de desastres naturais.
Cumpro com minhas obrigações, não vivo pedindo nada a ele e sobrevivo muito bem.
Para mim, isso é o bastante; não me dou a essas ocupações.
Aproximando-se mais da esposa, ele lhe tocou o ombro e puxou-a para um abraço, ao qual ela cedeu mecanicamente.
Logo Rodolfo pediu em tom mais educado, quase arrependido por estar usando palavras tão duras:
- Eu não gostaria mais de ouvir falar sobre pressentimentos ou espiritualidade.
- Eu não disse nada sobre espiritualidade.
- Por enquanto.
Eu sei que é assim que começa.
Você conhece a minha história.
Lídia calou-se.
De certa forma, ela se sentia subjugada por viver em condições tão dependentes.
Magoara-se com as colocações do marido, mas não expressava seus sentimentos nem suas ideias; isso era como um castigo, um tributo, uma paga pelas condições luxuosas em que vivia.
Era terrível refrear, reprimir as necessidades íntimas de expor suas crenças, suas opiniões religiosas.
Lídia amava Rodolfo e por seu amor suportava tudo.
Horas depois, quando se encontrava a sós com o filho, Lídia o avisou:
- Nando, seus amigos telefonaram.
Queriam falar com você, mas avisei que estava dormindo e contei sobre o acidente.
- Quem era? O Renato?
- Sim, ele mesmo.
Queria saber por que você não foi à casa dele ontem.
Ele me pareceu muito surpreso e preocupado.
Disse que, se puder, virá aqui mais tarde.
- Que bom! - disse o jovem Fernando, sorrindo satisfeito.
Logo, porém, olhou para sua mãe e pediu:
- Mãe, vem cá, sente-se aqui.
Lídia aproximou-se do filho e, ao sentar-se, tomou sua mão entre as suas enquanto o olhava com ternura, aguardando que falasse.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 10:22 am

Diante do silêncio prolongado, ela sorriu com generosidade e perguntou:
- O que foi, Nando?
Algum problema?
Após sorrir, ele afirmou:
- É bom estar em casa, mãe.
Fiquei tão assustado ontem.
Sabe, após bater com a cabeça, senti-me muito tonto - contava o jovem, com o olhar perdido, como se visse novamente o que aconteceu.
Tive forte impulso de sair do cano, mas foi pior.
Não consegui me manter em pé e logo caí no chão, enlameado.
Depois de alguns minutos recobrei os sentidos, mas não conseguia reagir, me levantar.
Após breve pausa, prosseguiu:
- Comecei a lembrar de Deus, perguntando a mim mesmo se ele me ouvia naquele instante.
Pedi Sua ajuda e... - Fernando sorriu e completou:
Quando vi aquele cachorrinho perto de mim, lambendo o meu rosto, perguntei:
Será que é essa a ajuda que mereço de Deus?
Lídia não o interrompeu, e, após alguns segundos, o filho continuou:
- Eu não sabia o que estava falando e jamais acreditei que aquele cão pudesse atrair a atenção de alguém para me socorrer.
Será que isso foi ajuda de Deus?
A mulher ficou pensativa, mas logo respondeu:
- Deus age de diferentes modos em nossas vidas, meu filho.
Talvez o animalzinho seja mais sensível e obedeça a... - Lídia perdeu as palavras, mas por fim completou sua ideia:
- Vamos dizer que para o cachorro seja mais fácil obedecer a uma espécie de inspiração, pois, por ser irracional, ele não pergunta "porquê?" e acaba seguindo seus instintos.
- A senhora acredita nisso?
- Acho que sim.
Não tenho outra explicação.
Não tenho conhecimento, mas acho que é o mais lógico.
- Após eu ter despertado do desmaio, ainda estava no chão, só que não conseguia reagir.
Senti um choque na coluna, algo que adormecia minhas pernas.
Sentia-me muito mal e...
- E... - perguntou a mãe diante do silêncio que se fez.
Fernando a fitou sério, depois revelou com algo de emoção na voz.
- Eu me lembrei muito da vovó.
- Minha mãe? - perguntou Lídia, demonstrando-se surpresa.
- É, lembrei-me da vovó Amélia.
- Você era pequeno quando ela faleceu, tinha oito anos!
Admirou-se a mãe, que logo perguntou:
- Faz treze anos.
Você ainda se lembra?
- Tenho fortes lembranças.
Recordo-me de quando ela me ensinava a rezar, só que o pai não poderia saber.
Lembro-me de quando ela fazia aqueles doces, contava histórias, lia para nós...
Fernando exibiu uma feição serena, deixando o olhar perdido e os lábios expressando suave sorriso, como se aquelas recordações lhe provessem de sentimentos e sensações agradáveis.
Surpresa e sem perceber que tirava o filho daquele êxtase, a mãe confessou:
- Nos últimos dias tenho me lembrado muito de minha mãe.
Com os olhos trazendo lágrimas que quase rolaram, Lídia, emocionada, revelou:
- Ontem eu queria tê-la comigo.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 10:22 am

Depois senti como se ela estivesse me abraçando, eu...
A voz da jovem senhora embargou e a fez calar-se.
Fernando estava surpreso; nunca vira a mãe falar de sua avó daquele jeito.
Acariciando-lhe a mão e o braço, o jovem pediu:
- Calma, mãe.
Não fique assim.
Tomando fôlego, procurando recompor-se ao secar as lágrimas que teimavam em rolar, Lídia advertiu:
- Não comente isso com seu pai.
Ele é um homem muito bom, mas...
Você sabe.
Suaves batidas na porta do quarto fizeram Fernando responder:
- Entre!
Era Eunice, a empregada, avisando sobre a chegada de dois colegas do rapaz.
Lídia foi recebê-los e, do patamar da escada, pediu para que os dois jovens subissem, enquanto os aguardava com um sorriso.
Era Renato, acompanhado de sua irmã Regina.
Os irmãos formavam um par alegre e descontraído, porém educado.
Bem vestida, a moça possuía um encanto no olhar, algo profundo, inexplicável.
Após as apresentações, foram até o quarto do amigo.
Os rapazes prenderam-se em um assunto, e, após servir um lanche a todos, Lídia sentou-se para conversar com Regina.
- Desde ontem ficamos preocupados com Fernando, íamos telefonar, mas minha mãe achou que era tarde, que iríamos incomodar.
- Enquanto eu - comentou Lídia - queria ir até a casa de vocês para saber do meu filho.
Não sei o que aconteceu comigo, senti uma angústia, um medo.
Não havia motivo, mas eu sentia que algo errado poderia acontecer ou estar acontecendo.
- As mães costumam sentir o que envolve os filhos.
É como uma transmissão de pensamento, de sentimentos para os quais não encontramos palavras para explicar o que experimentamos.
- Exactamente! - concordou Lídia.
Ontem eu não conseguia dizer o que estava errado, mas sabia que alguma coisa acontecia.
Mas sabe, Regina, mesmo vendo-o aqui, agora, sinto algo indefinido.
Um medo, como se nem tudo estivesse bem.
- Perdoe a minha pergunta, mas a senhora tem religião?
- Sim. Quer dizer, não.
Ambas riram, e logo Lídia explicou:
- Fui educada aos moldes da Igreja Católica Apostólica Romana.
Segui essa doutrina até me casar.
Hoje não vou mais à igreja, porém tenho minha fé e faço minhas orações.
- É importante ter fé.
Acreditar em Deus e fazer preces nesses momentos de insegurança.
Reze e peça a Deus para aliviar seu coração oprimido.
Peça que Ele a envolva, que lhe dê forças.
Depois, volte-se a trabalhos alegres, produtivos.
Acredito que a senhora não deveria se prender a sentimentos de angústia e medo.
Isso nos impede de sermos fortes.
- Mas é tão difícil livrar os pensamentos de perturbações como essas.
- Se não tentar, se não fizer preces a Deus, será pior.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 10:22 am

Lídia sorriu ao afirmar:
- Tenho muito a agradecer a Deus por meu filho estar bem.
- É importante agradecermos pelo que de bom nos acontece; isso nos liga mais a Deus.
Geralmente lembramos Dele só nos momentos de dificuldades.
- É mesmo.
A conversa seguiu um pouco mais, até que Regina chamou seu irmão para que fossem embora.
Todavia, Lídia, observando que o filho estava muito animado, parecendo até mais disposto e recuperado com a presença dos amigos, chamou a moça para que a acompanhasse, dizendo que deveriam deixá-los conversar mais.
Para agradar a anfitriã, Regina aceitou e, quando estavam na sala, admirou:
- Que casa linda vocês têm!
Que bom gosto!
- Obrigada. Na verdade ela pertence ao meu sogro.
Quando me casei com Rodolfo, ele preferiu morar aqui, uma vez que divide o escritório de advocacia também com o pai.
- Seu marido tem mais irmãos?
- Sim. Dois irmãos, só que não moram no Brasil.
Um é químico e mora na Suíça.
A outra é casada com um italiano, dono de um estaleiro.
Eles moram na França.
Nenhum deles pensa em voltar para cá.
Sem que Lídia percebesse, a jovem ergueu as sobrancelhas por admiração, mas logo se recompôs.
Sem pretensões, a mãe de Fernando revelou:
- Sou de família humilde.
Conheci o Rodolfo quando comecei a trabalhar no escritório de seu pai como dactilografa.
Após sorrir, ela contou:
- Nós nos apaixonamos e nos casamos.
Foi tão rápido que nem acreditei.
Quando acordei me vi aqui, nessa casa.
- Viver aqui deve ser um conto de fadas! - exclamou a moça, passando os olhos por toda a sala.
Lídia sorriu e discretamente avisou:
- Nem tanto, filha. Nem tanto.
Para viver bem no meio da riqueza, o que estranhei muito, precisamos de...
A aproximação de Renato e Fernando no alto da escada interrompeu o assunto entre ambas.
- Filho, não é melhor que se deite?
- Fiquei deitado o dia inteiro, mãe - respondeu o moço enquanto descia vagarosamente os degraus.
Tenho de andar um pouco.
Ao chegar próximo da mãe, perguntou:
- A propósito, a tia já não deveria ter chegado de Angra?
- Já, sim.
Falei com ela pela manhã, assim que chegamos do hospital, e seus planos eram de voltar no início da noite.
Já está na hora.
Virando-se para seu irmão, Regina pediu:
- Vamos!
- Sim, vamos - concordou Renato.
- É cedo! - disse Lídia, que havia gostado da companhia dos jovens.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 10:23 am

- Não, dona Lídia - respondeu Regina -, preciso estudar.
Tenho prova na semana que vem, e o Renato vai acabar apanhando da namorada - brincou a moça, sorridente.
Virando-se para o amigo, Renato afirmou:
- Então amanhã, sem falta, vou lá com você.
Fernando sorriu e revelou diante do olhar curioso de Regina e de sua mãe:
- Pedi ao Renato para ir comigo até o local do acidente para tentarmos encontrar o cachorro que me ajudou.
Animada, Regina sorriu ao pedir:
- Posso ir?!
- Claro! - concordou o amigo.
Vamos todos.
Lídia sorriu com o entusiasmo dos jovens.
Logo eles se despediram e se foram.
Lídia havia simpatizado com os amigos de seu filho, entendendo por que Fernando falava sobre eles com frequência.
Agora, sentia-se feliz por saber que o filho estava em boa companhia, pois nos últimos tempos, com a desculpa de estudar junto com Renato, Fernando não se afastava, por muitos dias, da casa do amigo e conversava muito com a mãe dele.
Lídia sorriu intimamente, pois começou a acreditar que, na verdade, seu filho poderia estar interessado em Regina, uma bela morena, muito simpática e educada.
Mas decidiu não perguntar nada.
Saberia aguardar.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 10:23 am

3 - CIRCUNSTÂNCIAS TRÁGICAS

Era início de noite daquele domingo tão agitado, e Rodolfo, em seu escritório, trabalhava com perseverança e muitos telefonemas.
Sentindo-se só, Lídia foi procurá-lo e, ao vê-lo terminar um assunto que tratava ao telefone, resolveu aguardar.
- Pronto! - disse o marido satisfeito, parecendo ter solucionado algo importante.
Olhando para alguns documentos, afirmou:
- É só fazer a minuta.
- Os amigos do Nando já se foram.
- Puxa! Nem os vi chegar.
- São excelentes pessoas.
Muito educados...
- E o Nando, como está?
- Principalmente depois das visitas, pareceu-me bem melhor, mais animado.
Nesse instante o telefone tocou, e Rodolfo fez um leve gesto para que a esposa o atendesse.
- Pronto! - disse Lídia.
Aos poucos, a mulher empalidecia enquanto olhava estatelada para o marido.
- Como não conseguiu ligar?! - retrucou Lídia, quase gritando.
Rodolfo passara a tarde fazendo várias ligações, e por essa razão sua cunhada não conseguia entrar em contacto.
- Meu Deus!!!
- O que está acontecendo, Lídia?! - exigiu o marido.
- Nós vamos agora! - respondeu a mulher e, voltando-se a Rodolfo, explicou:
- O tempo melhorou lá em Angra, na parte da tarde, e o Cristiano foi para a praia com alguns colegas.
Até agora eles não voltaram.
Rodolfo não disse nada, saindo imediatamente do escritório para sua suíte a fim de se trocar.
Lídia, adivinhando-lhe os pensamentos, gritou para a empregada:
- Eunice! - Assim que a moça apareceu, ela pediu ligeira:
- Diga ao José para preparar o carro.
Eu e o Rodolfo vamos para Angra dos Reis, agora.
- Sim, senhora - prontificou-se a moça.
Quando o casal chegou na casa de Angra, Janete, irmã de Lídia, encontrava-se em desespero.
Rodolfo, inconformado, parecia acusar a cunhada pela irresponsabilidade.
- Mas o tempo não estava bom! - alegava Rodolfo, quase gritando.
Por que o deixou ir?
- Depois do almoço o tempo melhorou, Rodolfo.
Os dois coleguinhas vieram chamar o Cristiano e... você sabe como é!
Janete sentou-se e começou a chorar.
Poucos minutos se passaram, e os pais dos outros dois jovens, vizinhos da casa de praia, chegaram.
- E então? - perguntou Rodolfo com grande expectativa.
- Até agora, nada - respondeu um dos senhores, que se chamava Luiz.
Na delegacia, queixa só após vinte e quatro horas.
O posto de salvamento foi avisado.
Eles estão procurando.
O outro pai, para ser optimista, lembrou:
- Nossos filhos nadam bem.
Eles sabem se cuidar.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 10:23 am

- Preocupo-me se por acaso eles não foram à praia.
- Tenho medo de algum tipo de vingança, sequestro ou outras maldades - falou Rodolfo.
As mulheres retiraram-se para outra sala e lá conversavam.
A noite foi longa, e as horas pareciam não passar.
As três famílias permaneceram reunidas, e mesmo procurando manter as aparências era explícita a angústia pela espera.
Os primeiros clarões da manhã chegavam vagarosamente, e foi sob essas luzes que os pais decidiram sair à procura dos meninos.
Próximo da hora do almoço os corpos de Cristiano e de seus colegas foram encontrados num lugar conhecido como "ponta da praia".
Lídia chorava e gritava em desespero, querendo não acreditar no que acontecia.
Passou mal e teve de ser socorrida.
Rodolfo, apesar da dor, teve de se dispor às devidas providências e chamou o pai para ajudá-lo.
Após voltarem para o Rio, Lídia precisou novamente de atendimento médico.
Teve de ser medicada com sedativos a fim de evitar tantas crises.
A mãe, sempre carinhosa e presente, não acompanhou o enterro do filho.
Um dia depois...
Rodolfo estava incrédulo, mas não manifestava as dores de seus sentimentos.
Refugiando-se no escritório da magnífica mansão, recusava toda a alimentação oferecida pelas empregadas, que não se viam com liberdade para insistir.
Seu coração fora partido, despedaçado.
O pai que sempre fizera tudo pelos filhos agora se sentia impotente; nada poderia fazer.
Cristiano, aos dezassete anos, estava morto, e os sonhos de Rodolfo, os belos planos para o filho, transformaram-se em decepção em meio àquele pesadelo.
Lídia, por sua vez, não saía do quarto.
Poucos eram os minutos em que seu choro oferecia trégua.
Fernando e Kássia passavam todo o tempo aninhados junto à mãe.
A pobre mulher sentia que faltava um pedaço do seu coração, e o restante era envolto por uma névoa de dor infinita, de tristeza e desespero.
Não era fácil aquela mãe se conter.
O senhor Horácio, apesar de muito sentido, não procurava o filho ou a nora.
Ele acreditava que, se estavam todos em casa, estavam todos bem.
Quando o começo da noite chegou, Rodolfo foi para o quarto em que estava a esposa e os filhos.
Kássia decidiu ir tomar um banho e saiu.
Fernando, com os olhos congestionados, abraçava-se à mãe, inconformado com tudo.
Sentando-se ao lado da mulher, Rodolfo ajeitou-lhe os cabelos e com a voz branda afirmou:
- Você precisa se alimentar, Lídia.
Ela não respondeu e procurou esconder seu olhar choroso.
- Vamos, mãe, vamos sair um pouco desse quarto.
- Não... - sussurrou ela com a voz rouca.
Quero ficar aqui.
Fernando a beijou e se levantou ao ver que os pais precisavam ficar a sós.
Ao ver a porta do quarto fechada, Rodolfo abraçou-se à esposa, e ambos, sem nenhum comentário a respeito da tragédia que invadira suas vidas, choraram juntos por muito tempo.
Sem saber que o casal Rodolfo e Lídia não queria receber visitas e havia recomendado aos empregados para informar que ninguém estava em casa, na tarde do dia seguinte Regina foi fazer uma visita de condolências à família.
Ao saber da presença da amiga, Fernando acreditou que ela seria uma boa companhia para sua mãe.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 09, 2016 10:23 am

- Deixe-a entrar, Eunice.
Por favor - pediu o jovem.
Regina, com modos tímidos, depois de ser recebida por Fernando, adentrou na luxuosa suíte de Lídia após ligeiras batidas na porta.
Ao vê-la, Lídia começou a chorar.
Apesar de tê-la visto somente uma vez, a mulher sentia uma afeição especial, uma afinidade e muita confiança pela moça, sem que houvesse qualquer explicação.
Abraçando-se à amiga de seu filho, que logo se sentou na cama, a mulher chegou ao desespero quando disse:
- Meu filho! Deus tirou meu filho! Por quê?
- Calma, dona Lídia - pediu a moça com voz generosa.
- Oh! Deus! Por quê?! - continuava perguntando aquela mãe aflita, enquanto sua voz era entrecortada por soluços compulsivos.
- Eu sei que é um momento difícil.
Como posso dizer para a senhora não chorar?
Mas procure controlar-se um pouco, para o seu bem.
- Regina! - exclamou a mulher com olhos espantados e vermelhos.
Eu senti! Eu senti que uma tragédia iria acontecer.
Ninguém acreditou em mim.
O Rodolfo não acreditou.
Se eu pudesse ter conversado com ele...
Deus! Por que matou meu filho?
- Dona Lídia, Deus não matou seu filho.
Não pense assim - aconselhou a moça com voz branda.
Olhando-a nos olhos, com lágrimas correndo pela face, a mãe em desespero perguntou:
- E pensar o quê?
Meu filho não está mais aqui.
Lídia a encarou, aguardando uma resposta.
- Ele está em seu coração, dona Lídia.
É uma separação dolorosa, mas seu filho não morreu.
Pense que ele está com Deus, e vocês dois não estão separados.
Fugindo-lhe o olhar, a mulher parecia nem ouvir.
Que palavras podem consolar uma mãe diante de tão triste e brusca separação?
Abraçada à jovem senhora, Regina a embalou num leve balanço enquanto tecia uma prece silenciosa a Deus, rogando Suas bênçãos e um envolvimento que pudesse acalmar aquela mulher.
Minutos se fizeram, e Lídia estava um pouco mais serena.
Uma empregada serviu chá para ambas, e Regina tentou convencê-la a alimentar-se:
- Precisa ficar forte, dona Lídia.
A senhora tem mais dois filhos que precisam da sua força, da sua atenção.
Coma um pouco para que não enfraqueça. Pense neles.
Convencida pela moça, Lídia aceitou a proposta e perguntou:
- Como penso nesse filho que se foi?
- Pense nele como se estivesse viajando.
Acredite que ele está bem, que está feliz com essa viagem.
- Eu nunca mais vou vê-lo.
- Vai sim.
Eu já ouvi dizer que Deus não separa os que se amam.
Talvez em sonho ele a visite, mesmo que a senhora não se lembre.
Um dia qualquer vai acordar e sentir-se melhor, algo como um alívio.
Aí vai saber que ele está bem.
Saiba que todos nós nos encontramos após essa vida.
Agora é o momento da senhora ter fé.
Ore a Deus pedindo o Seu amparo.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 10, 2016 1:04 pm

Num desabafo, Lídia revelou:
- Não posso falar de religião ou fé com meu marido.
Ele não aceita.
- Por quê?
- Casei-me com ele sabendo que esse seria um assunto proibido.
Rodolfo é um excelente marido, um óptimo pai.
Tenho tudo, menos o direito de tentar convencê-lo a crença alguma.
Nunca pensei que isso faria tanta diferença.
- Não tem importância.
Ore quando estiver sozinha.
Peça a Deus que lhe dê forças, que a envolva em bênçãos de paz, amor e confiança.
- Filha, acho que meu mundo acabou.
- Não! Não diga isso.
Desistindo não terá o que oferecer de valores morais e espirituais para os seus filhos.
A chegada de Kássia inibiu a continuação da conversa, bem como o desabafo de Lídia.
A jovem cumprimentou Regina e logo se abraçou à mãe, permanecendo agarrada a ela.
Após poucos minutos, Regina reconheceu que já estava além do tempo e que deveria ir embora.
A filha de Lídia a acompanhou até o patamar da escada, pois Fernando, que aguardava na sala, prontificou-se:
- Já está indo?
- Sim. É tarde - respondeu a amiga ao descer para a sala.
- Você viu como está minha mãe?
Nossa, nunca ela se entregou assim!
- Não é por menos, Fernando.
A perda de um filho, principalmente em circunstâncias tão bruscas, só pode levar uma mãe ao desespero.
- Ela só chora.
- Como dizer para ela não chorar?
- Você conversou com ela?
- Um pouco.
Ainda é cedo para que aceite alguma coisa.
No momento ela não tem condições de compreender.
Ela tem de viver esse período de luto e, quando estiver serena, será mais fácil para conversarmos.
Fernando, por sua vez, afirmou:
- Gosto da sua filosofia; por isso, se não for pedir muito, gostaria que conversasse outras vezes com minha mãe.
- Claro, assim que puder.
Bem, agora preciso ir.
O amigo, sem demora, prontificou-se:
- Meu carro está na oficina, e eu não tenho condições emocionais para dirigir, mas faço questão de acompanhá-la até sua casa.
Vou pedir ao José que nos leve.
- Não. Não precisa.
- Faço questão!
Além do que eu gostaria de dar uma passada lá no local do acidente para ver se acho aquele cachorrinho.
Fernando deixou Regina sozinha na sala enquanto foi providenciar o carro.
Em poucos segundos, Rodolfo saiu de seu escritório e surpreendeu-se ao ver aquela bonita moça no centro de sua sala.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 10, 2016 1:04 pm

- Boa tarde! - cumprimentou o dono da casa.
Surpresa, Regina retribuiu o cumprimento estendendo-lhe a mão.
- Boa tarde - disse, ao sorrir com moderação.
E logo se apresentou:
- Meu nome é Regina, sou colega de faculdade do Fernando.
Retribuindo com meio-sorriso, Rodolfo apresentou-se:
- Prazer. Já ouvi falar de você e de seu irmão.
Sou Rodolfo, pai do Fernando.
Com humilde expressão, a moça o cumprimentou:
- Meus sentimentos, senhor.
Fugindo-lhe ao olhar, o homem agradeceu.
- Obrigado.
Para não se prender no assunto, perguntou:
- Meu filho sabe que está aqui?
Alguém o avisou?
- Sim, senhor.
Na verdade eu já fiz uma visita para dona Lídia e estou de saída.
Estou só aguardando o Fernando.
- Então sente-se, por favor!
- Agradeço, mas pretendo ir logo.
Regina apresentava-se educada, com simpatia gentil e agradável.
Ela não tirava seus lindos olhos negros do senhor que se mostrava tristonho, apesar de não ter muito assunto no momento.
Os minutos se passavam, e Fernando começou a demorar, na opinião da moça, que começava a ficar preocupada.
Para seu alívio, o moço surgiu, convidando:
- Vamos?
Ao ver o pai, informou:
- Vou levar a Regina em casa, tudo bem?
- Claro.
A moça despediu-se do pai de seu amigo, e ambos se foram.
Rodolfo subiu para ver como estava Lídia, e, ao entrar no quarto, após se sentar na cama e beijar a mulher e a filha, a jovem perguntou, como um desafio:
- Papai, vamos mandar rezar uma missa para o Cris?
Lídia ficou surpresa e temeu pela reacção do marido.
Com olhos ávidos, expressando grande expectativa no aguardo de um parecer, Kássia prendia sua visão na figura do pai.
Diante da demora, a menina insistiu:
- O que o senhor acha, papai?
Após suspirar, levantando-se imediatamente, o homem respondeu:
- Vocês sabem da minha opinião.
Gostaria que a respeitassem.
Como uma afronta, a moça replicou:
- Mas, papai, o senhor já pensou na nossa opinião, nos nossos desejos ou no que queremos crer?
- Filha... - murmurou Lídia, quase sussurrando, ao pôr a mão no braço de Kássia, tentando inibi-la.
Olhando firme para a esposa, Rodolfo perguntou:
- Está havendo alguma cobrança por parte dos nossos amigos ou parentes?
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 10, 2016 1:05 pm

Com a voz expressando profundos sentimentos, Lídia forçou-se a dizer:
- Hoje, pedi que não me passassem ligações e também não quis receber visitas.
Não sei da opinião de ninguém.
Porém, Rodolfo, acredito que essa seja uma decisão que só nós devemos tomar.
Após breve pausa, ela considerou firme:
- Sempre fui católica e acreditei na vida após a morte.
Sempre rezei e acreditei que as preces são como alimentos para as nossas almas.
As lágrimas rolaram, mas ela prosseguiu:
- Penso que meu filho precisa de preces, e essa é a única coisa que posso dar a ele e vou dar, quer você queira ou não.
Em poucos segundos, concluiu:
- Um pai como você, que nunca negou nada aos filhos, não vai negar uma missa agora, vai?
Rodolfo sentiu-se atordoado.
A vida lhe dera um rude golpe, fazendo-o rever seus conceitos e opiniões.
Com o semblante sério, ele se virou e respondeu ponderado:
- Por favor, não cobrem a minha participação.
Imediatamente, Kássia questionou:
- Porquê, papai?
Procurando ternura na voz, o homem respondeu:
- Filha, agora não é um bom momento para conversarmos sobre isso.
Posso contar o motivo dessa minha opinião, mas em uma outra ocasião, está certo?
Kássia se viu contrariada, porém concordou com um aceno de cabeça.
Enquanto os encarnados tentavam superar o trágico acontecimento, na espiritualidade, longe dali, o espírito Cristiano era envolvido por entidades amorosas e superiores, capacitadas a ampará-lo e mantê-lo em um estado semelhante ao sono, para que não sentisse a brusca mudança de plano, sofrendo com um estado de perturbação muito abalado.
Ele estava tranquilo, sereno e, até então, não recebia as vibrações lastimosas de seus entes queridos.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 10, 2016 1:05 pm

4 - UM LAR PARA "BOLINHA"

Na casa de Regina, dona Glória, sua mãe, fez questão de que Fernando entrasse para conversarem um pouco.
Abraçando com carinho o rapaz, a amorosa senhora dizia, após fazê-lo se sentar:
- Oh, meu filho, fiquei sabendo.
Sinto tanto...
Ao ver os olhos do moço encherem-se de lágrimas, com humilde simplicidade ela o puxou novamente, recostando sua cabeça em seu ombro.
- Venha aqui, filho.
Ao ver seu choro, percebendo que ele se sentia envergonhado, a mulher fez um sinal para Regina, pedindo para ficar a sós com o rapaz.
- Está tudo bem, dona Glória - afirmou Fernando ao secar o rosto com as mãos.
É que tudo está muito recente.
- Eu sei, meu filho.
Diga, e sua mãe, como está?
Ela parece que envelheceu vinte anos em dois dias.
- Não é por menos.
Nunca perdi um filho, mas acho que ficaria louca.
Mesmo sabendo que a vida não termina quando morremos.
Encarando a senhora, Fernando perguntou:
- Será, dona Glória?
Não temos religião, meu pai não gosta.
Não sei nada sobre a vida após a morte.
- Você é um moço tão estudado, deve acreditar em Deus, não é?
- Sim, eu creio em Deus.
Hoje, os próprios cientistas acreditam no princípio de tudo, no Big-Bang, no princípio da Criação e que "Algo" deu origem à vida.
Isso em termos simples é Deus, a acção de Deus.
- Não entendo de ciência nem sei dizer nomes difíceis - disse dona Glória, sorrindo com brandura.
Sou uma mulher ignorante, entendo que fomos criados, e esse criador é Deus.
Assim, creio que um Criador tão poderoso tem de estar presente em tudo, ter sabedoria e justiça, amor e bondade.
Não podemos acreditar que Deus é cruel, vingativo e injusto.
Interrompendo-a com educação, Fernando perguntou:
- Mas por que Deus permite que um jovem tão perfeito, tão saudável, morra assim, tão de repente?
Por que esse desperdício?
Há no mundo tanta gente sofrendo e até pedindo a morte.
Ela sorriu, respirou fundo e explicou:
- Fernando, não podemos acreditar que essa é a nossa única existência na Terra.
Se vivêssemos uma única vida aqui, não conseguiríamos evoluir.
- Como assim?
- Deixe-me ver como posso explicar.
Ah! Veja: se nós nascêssemos, vivêssemos só essa vida e durante essa existência fôssemos maus, perversos, e na velhice morrêssemos, é justo nosso Criador acabar connosco e nos destruir?
Ou seria justo Ele nos deixar queimando no fogo do inferno?
Ou, ainda, nos mandar para um paraíso, para um lugar muito bom?
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 10, 2016 1:05 pm

- Bem, acho que, se fôssemos muito perversos, creio que Deus iria nos decretar um sofrimento, talvez no inferno.
- Mas devemos concordar que Deus é repleto de bondade e justiça, não é?
- Sim - concordou o rapaz.
- Então, como é que Ele poderia admitir um filho sofrendo eternamente no inferno?
- Mas Deus não pode deixar essa criatura perversa sem punição.
Isso seria injusto com aqueles que agiram de forma correta, pacífica.
- Mas e se aquela pessoa que foi má não teve a oportunidade de saber o que era bom, não pôde conhecer Deus, nem aprendeu a respeitar seus semelhantes e cometeu muitos crimes por ignorância; essa pessoa merece sofrer no fogo do inferno eternamente?
Isso é justo?
- Não há como essa pessoa resgatar, ou melhor, corrigir o que fez de errado.
O que já foi feito não podemos mudar.
- Podemos corrigir, sim, meu filho.
Fernando a encarou sério e, diante da demora, perguntou:
- Como podemos corrigir o que fizemos de errado?
- Nascendo novamente. Reencarnando.
- Será que isso é possível mesmo, dona Glória?
- Foi a única forma que Deus encontrou para ser justo e mostrar Sua misericórdia, não nos deixando sofrer eternamente.
- Conheço pouco sobre religiões.
Li algo em enciclopédias só para ter uma base.
Minha avó, já falecida, lia trechos do Novo Testamento, palavras de Jesus, o qual nos ensinava cultivar a bondade e fazer a caridade.
Na minha opinião, Jesus foi uma das mais nobres criaturas que já passou pela Terra e não me lembro de Ele ter falado sobre nascer novamente.
Eu acredito em Jesus.
Pacientemente, dona Glória levantou-se com dificuldade, caminhou passos lentos até a estante de livros e apanhou uma Bíblia.
Após pegar seus óculos, que estavam no bolso do avental, a generosa senhora sentou-se novamente ao lado do rapaz, dizendo:
- Vamos ver... - murmurou, enquanto folheava algumas páginas.
Ao procurar, explicou:
- Sabe, filho, não sou contra nenhuma religião, mas entendo que algumas não têm explicações para trechos do Evangelho de Jesus, por isso quase nunca falam neles, ou, quando falam, as explicações não são tão científicas.
Vamos ver...
Aqui está:
João, Capítulo 3, versículo 1.
A história é assim:
Um homem chamado Nicodemos foi falar com Jesus e disse que ninguém poderia fazer o que ele fazia se Deus não permitisse, e Jesus respondeu:
"Aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus".
Então esse homem, Nicodemos, perguntou:
"Como pode um homem nascer, sendo ele um velho?
Porventura, pode ele entrar no ventre de sua mãe e nascer?"
Então Jesus disse:
"Aquele que não nascer da água e do espírito não pode entrar no reino de Deus.
O que é nascido da carne é carne, o que é nascido do espírito é espírito.
Não admire de ter dito que é necessário nascer de novo".
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Ave sem Ninho

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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 10, 2016 1:05 pm

- Será que Jesus não se referiu ao baptismo?
Se a pessoa for baptizada, ela renascerá?
Lentamente, tirando os óculos e observando Fernando com bondade, dona Glória explicou:
- Filho, e se pegarmos um homem bem velho, que tenha feito muita maldade, e o baptizarmos, e depois disso ele morrer.
Esse homem não teve tempo de fazer nenhuma maldade nem coisas boas, muito menos de corrigir o que fez de errado.
Será que Deus o perdoará só por causa do baptismo?
Será que Deus o mandará para o Seu reino, para um lugar bom, só porque ele se baptizou, mesmo não tendo corrigido o que fez de maldade?
Não seria injusto com um outro homem, que também tenha sido mal, mas não conheceu nenhuma religião que o baptizasse por falta de oportunidade, se ele fosse para o inferno?
O jovem Fernando sorriu e respondeu:
- Agora a senhora me pegou.
O que Jesus quis dizer com "Aquele que não nascer da água e do espírito não pode entrar no reino de Deus"?
- Lembre-se de que a água é o que alimenta toda a matéria viva.
- Sim, não existe vida sem água.
A vida começa na água.
O embrião, o feto, necessita de água até estar formado - completou ele.
- Então, Jesus quis dizer que para ver o reino de Deus é necessário que o homem renasça com seu corpo, ou seja, ele tem de voltar à vida material com um novo corpo e seu espírito.
Isso é reencarnação.
Por isso Ele disse:
"O que é nascido da carne é carne, o que é nascido do espírito é espírito".
Temos um corpo de carne, o qual devemos cuidar muito bem de acordo com o que comemos, bebemos e fazemos com ele, e um espírito, que cuidamos com nossos actos, palavras e pensamentos, com nossa boa moral.
O espírito vive sem o corpo quando estamos desencarnados, mas o corpo de carne não tem vida sem o espírito ligado a ele.
- E o que quer dizer "o reino de Deus"?
- Você já ouviu Jesus dizer que "há muitas moradas na casa do Pai"?
- Sim, já.
- Sendo assim, existem mundos melhores, sem guerras, sem problemas; porém, só quem já é elevado, isto é, só quem já corrigiu todas as falhas cometidas e é uma criatura que pratica o bem, é justo, não é egoísta nem reclama do que ocorre pode ir para esses mundos mais felizes.
Na época de Jesus, era difícil as pessoas entenderem que existe no Universo mundos melhores, onde o bem sempre triunfa.
Vamos dizer que era mais fácil entenderem que Deus mora ou reina num lugar bom, por isso o termo "reino de Deus".
- Sim, entendo isso, mas gostaria que me explicasse as palavras de Jesus quando diz:
"Aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus".
Porque só "quando nascer de novo"?
- É que só podemos ir para mundos melhores se evoluirmos, ou seja, se não praticarmos o mal e fizermos só o bem, e numa vida só não conseguimos fazer isso; é preciso nascermos de novo, quantas vezes forem necessárias, para podermos corrigir o que fizemos de errado e aprendermos a ser bons com os outros.
E isso só conseguimos por meio da reencarnação.
Fernando ficou pensativo; nunca ouvira conceitos tão simples e lógicos.
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Ave sem Ninho

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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 10, 2016 1:06 pm

Porém, tornou a insistir:
- Então não vamos para o inferno se não tivermos religião alguma?
A simpática senhora riu moderada e gostosamente, respondendo:
- Não, filho.
Podemos, depois de desencarnados, ficar em um estado de perturbação, em que nossa consciência fica confusa pela mudança brusca.
Quanto mais informações tivermos sobre o mundo espiritual e, principalmente, quanto mais fé tivermos em Deus, em Seu amparo, quanto mais bondosos tivermos sido, mais rapidamente saímos desse estado de perturbação.
- Porque meu irmão morreu?
Por acaso ele, em outra vida, afogou alguém e por isso agora teve de morrer afogado? - indagou Fernando com olhar piedoso, como se implorasse uma explicação.
A bondosa senhora pegou-lhe a mão, colocou-a entre as suas e, batendo-lhe vagarosamente, explicou:
- Não podemos acreditar na história de "olho por olho, dente por dente".
E se seu irmão se afogou por um acto caridoso?
Nós o estaríamos julgando mal, não acha?
De repente, ele pode ter tentado ajudar algum amigo que estava em perigo e colocou a própria vida em risco e, por forças das circunstâncias, não conseguiu porque, talvez, o amigo devesse passar por aquilo.
Pense comigo:
Jesus, elevado como era, precisava passar pela humilhação e pelos maus-tratos por que passou?
É lógico que não!
Creio que, para nos trazer todas aquelas mensagens de elevação, Ele, Jesus, colocou Sua vida em risco, e, infelizmente, muitos não conseguiram compreendê-Lo e o colocaram na cruz.
Jesus disse:
"O vento sopra onde quer e ouve sua voz, mas não sabe de onde vem nem para onde vai; assim é todo aquele nascido do espírito".
- O que isso quer dizer, dona Glória?
- Significa que ninguém sabe o que foi nem o que será futuramente; assim é o espírito.
Se nosso espírito fosse criado junto com nosso corpo, seria injusto um nascer defeituoso, outro, deformado, debilitado mentalmente, não é?
Esse vento seria o espírito, e sua voz é a consciência.
O vento sopra onde quer significa que ele, espírito, faz o que quer, mas ouve sua voz, ou seja, sua consciência, que nos faz corrigir o que fazemos de errado.
Entretanto, não sabemos, quando encarnados, de onde viemos ou por que sofremos, nem para onde vamos, ou seja, no que vão nos resultar nossas atitudes.
Quando nascemos com um problema, normalmente estamos passando por experiências de ajuste, sentindo o que fizemos outros sofrerem.
Quando nosso corpo falece em tenra idade, podemos estar sendo resgatados por algo de errado que estamos fazendo; nesse caso, o desencarne é para nos poupar de erros muito graves ou de situações dificílimas.
Ainda podemos estar experimentando o que fizemos outros sofrerem.
Porém, não podemos nos esquecer de que muitos cometem actos de bravura ou de misericórdia.
Jesus disse:
"... não sabe de onde vem nem para onde vai"; assim é o espírito.
Não sei dizer porque seu irmão faleceu, mas tenho certeza de uma coisa:
esse acontecimento, mesmo que pareça trágico, ou até monstruoso, foi para auxiliar a evolução dele, a fim de que chegue, mais rápido, em mundos melhores e mais felizes, pois "aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus".
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 10, 2016 1:06 pm

Fernando, atento, a olhava, quase sem piscar.
A bondosa senhora, com indescritível generosidade na voz, transmitia-lhe uma calma, uma vibração suave e elevada a qual ele não podia descrever com palavras; só sabia que era muito bom se deixar envolver.
Isso acalmava seu coração oprimido pela morte do irmão.
Logo ela prosseguiu:
- Filho, sei que a dor de vocês nesse momento é enorme e que não são minhas pobres palavras e explicações que vão aliviá-los de tanto pesar.
Sei que todos acreditam que seu irmão estaria bem melhor se estivesse agora ao lado de vocês; porém, Aquele que criou tudo e todos tem a bondade, a justiça e a sabedoria.
Ele sabe o que é melhor para todos, mesmo que nossa pequena inteligência e sabedoria ainda não possam compreender.
Deus sabe o que é preciso para harmonizarmos nossa consciência, porque é ela quem nos cobra.
- Como assim, "harmonizarmos nossa consciência"?
- Quando cometemos um acto errado no passado, em outra oportunidade de vida, não é Deus quem vai nos castigar e nos punir pelo que fizemos.
À medida que vamos passando por novas experiências de vida, nossa consciência vai reconhecendo que fez algo incorrecto e que precisa corrigir aquilo.
Desencarnados, podemos ter uma consciência muito ampla do que fizemos, e é aí que solicitamos experimentar situações em que possamos nos harmonizar, corrigindo nossas acções do passado.
E, muitas vezes, passamos por uma expiação, quando nos recusamos a fazer o que é correto.
- Expiação? - interrompeu Fernando, educadamente.
- Penitência. Podemos solicitar experimentar uma penitência, sofrendo as consequências do que fizemos a outros, ou, se formos bem perseverantes e um pouco evoluídos, podemos pedir condições para nos harmonizarmos, corrigindo erros do passado sem sofrimento.
Diante da breve pausa, o rapaz pensou e depois revelou:
- Meu pai diz que sofremos na vida por falta de bom ânimo e perseverança.
- Não vou tirar a razão dele - afirmou a mulher.
Quando nascemos para uma experiência de vida, temos situações praticamente decretadas para enfrentarmos; no entanto, nosso livre-arbítrio, que é o nosso livre poder de escolha, nos direcciona a provas mais amargas ou mais suaves, o que só depende de nós.
- Meu pai diz que vivemos bem, que somos ricos porque meu avô pensou, planeou e lutou para concretizar seus objectivos, e ele também, porque fez o mesmo.
O que a senhora me diz de famílias que tenham oito, dez, doze filhos e vivem na miséria?
Deus quis que eles fossem assim?
Ou eles escolheram passar por aquilo?
Sem pensar muito, a mulher explicou, como sempre, gentil:
- Deus nunca quer nosso prejuízo.
Ele não nos quer ver na miséria, senão não seria Pai bondoso e justo.
Seu pai é um homem rico, teve oportunidade de estudar, pensa em tudo, raciocina com cuidado, observando os prejuízos e os lucros.
Mas me diga:
se ele tivesse nascido em uma favela, sem condições para estudar, vivesse só acompanhando os crimes, rodeado pela violência, insipiências familiares, se não tivesse ajuda de ninguém, será que teria a posição que tem hoje?
Será que viveria como vive ou no estilo e nas condições em que foi criado?
Se ele tem uma vida boa, deve agradecer aos estudos que seu avô pôde oferecer e reconhecer que também aproveitou a oportunidade.
Mas também deve agradecer a Deus por ter tido o pai que teve.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 10, 2016 1:06 pm

Sem dúvida seu pai é um homem muito esforçado, perseverante em seus ideais, mas a vida que conheceu desde a infância facilitou sua visão do mundo, dando-lhe condições para observar e planear o que queria.
Mas não é sempre que podemos planear as coisas.
- E meu avô?
Meu avô conta que veio de uma família de classe média baixa.
Ele teve de se esforçar muito para ter o património que é seu hoje.
- Nascemos com o destino mais ou menos traçado.
Seu avô aproveitou todas as oportunidades que lhe surgiram na vida.
É por isso que ele tem o que tem hoje.
Se seu avô houvesse "cruzado os braços", não seria o que é nem teria o que tem.
Porém, Fernando, existem pessoas que não tiveram oportunidades boas na vida, mas isso não se dá por culpa de Deus.
Hoje, colhemos o que plantamos em uma experiência passada, como sempre ouvimos:
"nós somos herdeiros de nós mesmos".
Não podemos criticar aqueles que, na nossa opinião, se descuidam e têm famílias grandes.
Essa é a forma, é a oportunidade deles se harmonizarem e se corrigirem.
- Que prova ou expiação tem uma família numerosa que vive na pobreza e com inúmeras dificuldades?
A mulher sorriu, como se já esperasse aquela pergunta, e respondeu:
- Cada caso é um caso.
Acreditando que Deus é bom e justo, Ele nos oferta oportunidades de aprender o que é certo, nos dá outras para harmonizarmos as insipiências e garantirmos que não vamos mais errar, aprendendo, quantas vezes forem necessárias, por meio das reencarnações.
Imagine um grupo de pessoas que viveram próximas, tiveram o poder, cometeram actos indignos para enriquecer ou conservar a riqueza e, para isso, provocaram fome, alastrando a miséria, oprimindo a muitos com agressão e até a morte.
Deus ama a todos os Seus filhos e não vai perder "uma única ovelha desse imenso rebanho".
Por isso, não vai condená-los ao inferno ou a qualquer pena perpétua.
Ele vai dar a essas pessoas a oportunidade de aprender a não mais fazer os outros sofrerem, possibilitando-os reencarnar juntos e sem muitas prosperidades.
Imediatamente Fernando se lembrou:
- É mesmo!
Durante toda a história da humanidade vemos a opressão por parte dos poderosos.
A cobrança de impostos, principalmente na Idade Média, trazia torturas, mortes, misérias e pestes.
Sabe, nesse período, vemos os reis extorquindo dinheiro nas cobranças de impostos, e, não tão diferente, o clero também tinha suas exigências, trazendo dor e penúria à plebe.
- Filho, não julgue mal somente os reis e o clero.
Pense que, se eles foram os mandantes, houve quem cumprisse as ordens com maior rigor, excedendo nos meios, barbarizando os semelhantes.
Muitos desses podem ter sido nós.
Para a cobrança de impostos, tanto do rei como da Igreja, havia os grupos de soldados.
Eram eles quem maltratavam e oprimiam.
Pense comigo:
se o "capitão-da-guarda", ou centurião, não permitisse que seus soldados torturassem e molestassem muitos, deixando-os na total miséria, esses não fariam tanta crueldade.
Existem aqueles que tiram o que é dos outros por prazer.
Talvez esse tenha sido o caso.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 10, 2016 1:06 pm

Por exemplo:
aquele que foi "capitão-da-guarda" e permitiu ou exigiu de seus comandados imediatos a opressão dos pobres, tirando-lhes o pouco que tinham e ainda com muita humilhação, hoje voltam juntos.
Provavelmente o "capitão-da-guarda" como pai, tendo como filhos alguns de seus subalternos que, no passado, foram mais próximos "fiéis".
Agora, todos juntos, sem condições e oportunidade, com pobreza extrema, experimentam o que fizeram outros sofrer, com isso aprendendo.
- É uma filosofia interessante.
Pensando assim, podemos deixar de cometer muitas falhas, errando menos.
- Ah! - lembrou-se dona Glória.
Não pense que os que passam por dificuldades de forma colectiva são só aqueles que cometeram crimes bárbaros como esse que citamos.
Não fazer o mal é importante, porém deixar de fazer o bem, praticando o desperdício, também nos traz muitos reparos para o futuro.
- Como assim?
- Outro dia eu assistia televisão e vi um grupo de pessoas se empenhando, organizando-se e gastando muito dinheiro para conseguir colocar um carro dentro de um avião.
Depois, elas saltaram de pára-quedas junto com o carro, afastaram-se e deixaram o automóvel se espatifar no chão.
Isso tudo só por prazer.
Todo aquele gasto de tempo e dinheiro foi somente por satisfação, não trouxe benefício a ninguém.
Então pensei:
se esse dinheiro fosse endereçado à caridade, para obras assistenciais...
Se o tempo daquelas pessoas fosse ocupado para ajudar os outros, teríamos menos gente sofrendo.
Muitas pessoas pobres e doentes poderiam ser mais felizes e ter esperança se alguns fossem menos egoístas com seus prazeres.
- E a senhora acha que o grupo que desperdiçou tempo e dinheiro, como nesse caso, vai reencarnar junto e com dificuldades.
A mulher sorriu ao responder:
- Eu não disse isso.
Só acredito que eles vão aprender, mas a forma como suas consciências vão lhes cobrar o desperdício praticado eu não sei.
- Porque devemos fazer a caridade, já que algumas pessoas têm de passar por dificuldades?
- Para que os irmãos que passam por essas dificuldades tenham esperança, fé e aprendam, com nosso acto, o que uma criatura deve fazer.
Além disso, temos nossas cotas de acertos, temos de corrigir actos do passado.
Não sabemos de onde viemos nem o que fizemos.
Se não tivéssemos contas para acertar, não estaríamos aqui em condições de praticar algo de bom.
A conversa ia-se estender, mas Regina entrou na sala trazendo um suco.
Fernando surpreendeu-se, pois só então se dera conta da hora.
- Puxa! Esqueci-me do José, o motorista!
- Mas eu não! - respondeu a moça, sorridente.
Vocês estavam tão envolvidos na conversa que eu não quis interromper e o chamei para entrar.
Batemos o maior papo lá na cozinha.
Já demos comida para a Bolinha...
- Que Bolinha?! - estranhou dona Glória.
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