O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 17, 2016 7:50 pm

Ao entrar, percebeu que Doroteia não estava lá e encontrou as crianças ainda sem banho.
Jorge falava ao telefone tranquilamente, sorrindo vez ou outra, sem lhe dar muita atenção, apesar de tê-la visto.
As crianças faziam muito barulho, e ao disputarem um brinquedo gritaram até que, sentindo-se derrotada, Amanda começou a chorar.
Regina a tomou nos braços, momento em que Jorge terminou a conversa que mantinha, e, virando-se com modos inquiridores, ele perguntou à esposa:
- Onde é que você estava até essa hora?!
Não escondendo em seu semblante um travo de esgotamento, ela tentou explicar:
- Logo cedo a Doroteia me procurou a pedido de minha mãe.
Ela não conseguiu ligar, pois acho que uma das crianças deixou o fone fora do gancho, e quando cheguei em sua casa ela me disse que o Renato havia passado mal.
Sem esperar por maiores esclarecimentos, Jorge contrariou-se, dizendo:
- Já estou farto dos problemas do seu irmão!
Ele é um irresponsável, um desequilibrado que compromete a própria vida e a dos outros também!
Menos contundente, ele reclamou:
- E você, Regina, por causa dos probleminhas dele não pára mais em casa.
Aliás, diga-se de passagem, você não cuida só dos problemas do seu irmão.
Passa a semana trabalhando e, quando chega sábado e domingo, se não está na casa da sua mãe, está na de Lídia.
Mais enérgico, ele perguntou:
- Você não acha que está na hora de cada um ficar com os seus problemas e você cuidar mais da sua vida?!
- Jorge... - tentou argumentar, mas foi interrompida.
- Nossos filhos estão directo nas mãos da empregada.
Acho que você nem sabe o que se passou com eles!
Amanhã, por exemplo, tenho certeza de que à tarde você terá de ir pajear a tal da Kássia, que está bem crescidinha.
A Lídia que se vire!
Está na hora de você cuidar dos seus filhos primeiro.
Sem trégua, a esposa avisou:
- Meu irmão está em coma.
Foi internado essa manhã.
Jorge sentiu sua raiva aumentar, mas procurou manter o controle, e ela prosseguiu:
Minha mãe me chamou porque ele desmaiou.
Fui até lá, liguei para você, que havia saído, a ambulância demorou, e minha mãe telefonou para a Lídia.
Ela e o filho vieram, e socorremos meu irmão, que agora está internado.
Amanda quis descer do colo da mãe, que a colocou no chão e não disse mais nada.
Jorge passou a mão pelos cabelos num gesto impaciente e murmurou:
- Mais um problema que não é nosso.
- Meu irmão corre risco de morte e...
- Se o Renato está assim, desculpe-me a franqueza, a culpa é totalmente dele.
- Não fale assim, por favor.
- O que é? Você não quer ouvir a verdade?
Seu irmão é um homem feito.
Se ele encheu a cara e perdeu o controle, foi porque quis.
Se diminuiu a própria capacidade intelectual e está se enterrando, é problema dele, não meu!
- Bem que quando você ficou desempregado foi ele quem nos ajudou emprestando dinheiro para pagarmos as últimas prestações da casa.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 17, 2016 7:50 pm

O Renato nunca nos cobrou, e até hoje não pagamos a ele o que devemos - reagiu a esposa, nervosa.
Depois concluiu:
- O alcoolismo é uma doença em forma de vício, Jorge.
O Renato não é assim porque quer! - quase gritou.
- Ah! Não? - criticou, irónico.
Então o pobrezinho bebe porque sou eu quem ponho bebida na boca dele?
Beber demais é safadeza, é sem-vergonhice!
Regina sentia-se sem forças para reagir, e ele continuou:
- Sabe por que ele é assim?
É por causa do proteccionismo que recebe de você e da sua mãe.
Mais brando, falou:
- Regina, todo fim de semana você deixa seus filhos e sua casa para cuidar da vida dos outros.
Será que não vê que está se prejudicando?
Não aguento mais chegar em casa e encontrar a empregada aqui sozinha com eles.
Além do que não tem cabimento eu ficar aqui sozinho com a mulher; aí eu a mando embora, e a casa fica esse inferno todo.
É bom que isso mude, Regina.
Dizendo isso, Jorge virou-se e foi para outro cómodo.
Após o diálogo tempestuoso, Regina começou a chorar em silêncio.
Lágrimas compridas corriam em sua face, enquanto ela, sem reflectir, recolhia mecanicamente os brinquedos das crianças.
O pequeno duelo de frases amargas a deixou ainda mais triste e deprimida.
Jorge agora, como uma espécie de punição, não a ajudou naquele momento, como sempre fazia, e voltou a dar alguns telefonemas sem se importar com o que acontecia.
Ele devia estar farto, demonstrando carácter grave, linguagem fria, isenta de sentimentos de tolerância diante de factos que ela considerava importantes.
Uma sensação de desapontamento dominou Regina.
No momento em que mais precisava do marido ele não estava sendo compreensivo, não oferecia sua amizade e não preenchia, nem com sua presença, aquele instante aflitivo em que ela não tinha com que dividir sua dor.
Estava certo que ela deixara as crianças com ele em alguns finais de semana para ir à casa de Lídia, mas ele não havia se importado no momento e até a incentivou que fosse.
E agora, de repente, "jogava-lhe tudo na cara", com palavras duras e sem se importar com seus sentimentos.
Jorge estava mudado ou então mostrava, somente agora, sua verdadeira personalidade, porque ninguém muda assim tão de repente e sem motivo aparente.
Afinal, seja como fosse, Renato era seu irmão, ela o amava, e aquela não era uma situação corriqueira; precisava ajudá-lo.
Tinha de apoiar sua mãe.
Os pensamentos de Regina fervilhavam tristes com tudo o que acontecia.
Ela se conservara calada, mas em seu interior havia muito o que dizer.
Longe dali, Lídia e Rodolfo conversavam.
- Nossa! O Renato? - lamentou o marido.
- Nem preciso dizer como a Glória e a Regina estão.
- Imagino. Amanhã vou visitá-lo.
Você vai?
Mostrando-se desanimada, Lídia admitiu:
- Não sei. Vamos ver.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 17, 2016 7:50 pm

- Se bem que precisamos ver se há condições para visitas.
Não podemos tirar a vez da família.
Passados poucos segundos, perguntou:
- E a Lorena?
Ela não reclamou quando soube onde vocês foram?
- Estranhamente, não.
É curioso, desde quando voltou da França não fez mais nenhum escândalo.
Talvez esteja tomando jeito de gente.
- Eu duvido, Rodolfo.
- Ora, Lídia!
Não podemos julgar assim.
Talvez o Fernando tenha agido certo quando a trouxe para cá, longe do pai, e lhe disse toda a verdade.
Creio que ela se sentiu ameaçada.
- Desde quando o Nando falou em divórcio, ela vem se segurando.
Lorena não admite a ideia da separação.
Ligeira, Lídia observou:
- Sabe, há uma coisa no meio disso tudo que eu não gosto.
- O quê?
- A Lorena mantém um jeito calmo, mas lá no fundo percebo que há uma máscara, uma falsidade muito grande, pior do que antes.
- Líiiidia... - advertiu o marido ao alongar seu nome.
- Posso estar caluniando minha nora, mas, perdoe-me a franqueza, acho que há algo muito errado que não consigo definir.
- Quem sabe ela não está tentando melhorar?
Lídia olhou torto para o marido enquanto curvava as sobrancelhas ao dizer:
- Nessa vida essa moça não vai tentar mudar mesmo!
Ela é muito má em seu íntimo.
Lorena não tem amor por ninguém, nem pelo próprio filho. Eu sinto.
- E o Fernando, como está?
Não falou mais em divórcio?
- Não. Ele está levando o casamento, vejo isso.
Tenho certeza de que meu filho se casou com a pessoa errada.
- Lídia, isso não existe.
- Quando forçamos o destino a se desviar, pode acontecer, sim.
- Já sei que você vai dizer que ele deveria ter-se casado com a Regina.
- Ela seria uma excelente esposa. Mas não sei.
Só acredito que com a Lorena é que não era.
O Fernando é simples, gosta de conversar, de passear.
Ela é completamente o oposto.
- Isso até pode acontecer.
Existem programas reencarnatórios, mas somos criaturas com livre-arbítrio.
Essa livre decisão para escolher pode nos levar a cometer enganos desnecessários na experiência vivida. -
Explicou Rodolfo, prosseguindo:
- Por exemplo, a ambição fez com que Fernando se afastasse de Regina e se casasse com Lorena.
Creio que se ele não tivesse sido tão ambicioso não teria se casado com Lorena.
Poderia até não estar com a Regina, mas não teria a encrenca que arrumou.
E os prováveis ajustes que ele deve ter com Lorena?
Sim, porque se estão juntos é por terem algo a harmonizar.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 17, 2016 7:50 pm

Creio que esse ajuste poderia ocorrer de outro jeito.
Poderiam, em outra oportunidade, renascerem como irmãos, como pai ou filho um do outro.
Ei, Lídia, vamos parar com esse assunto, vamos.
Isso não é coisa para conversar.
Diga-me, e a Kássia?
- Está no quarto.
- Kássia e Lorena estão em casa e temos todo esse silêncio?
Não ouço som e nenhum grito estridente! - ironizou Rodolfo.
- Há uns três dias Kássia está muito quieta.
Conversamos um pouco e a notei um tanto deprimida.
- Tomara que comece a se arrepender.
Ela precisa sair dessa experiência macabra.
Não há outro termo para denominar esse tipo de vida.
- Tenho certeza de que nossa filha vai melhorar.
Creio em Deus.
Olhando melhor para a esposa, ele reparou:
- Lídia, estou achando você meio abatida.
- Não sei o que tenho.
Acho que comi algo que não me fez bem.
Venho me sentindo estranha.
Não sei como isso aconteceu; vigio tanto minha alimentação.
Não é qualquer coisa que coloco para dentro, como alguém que conheço.
- Lá vem você! - riu o marido, reclamando.
Isso não é efeito daqueles remédios que você toma?
- Não são remédios.
São complementos, produtos fitoterápicos que tomo com orientação médica e que me ajudam muito.
Brincando, ela falou:
- Você tem orgulho de ter uma mulher como eu, não tem?
Ele a abraçou, beijou-a e aconselhou:
- É bom você ir ao médico novamente para ver isso, hein!
Quero que cuide bem de você para mim.
Lídia sorriu e o beijou com amor, mostrando que, independentemente dos anos, eles se amavam e se queriam muito.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 17, 2016 7:51 pm

18 - NO MUNDO REAL

Naquela noite Lídia se deitou cedo, enquanto o marido, sentado em uma confortável poltrona no quarto do casal, estudava alguns processos.
Rodolfo nada podia ver, mas na espiritualidade amigos queridos os visitavam , entre eles o filho Cristiano.
Enquanto o corpo largava-se adormecido sobre a cama, Lídia, em desdobramento, despertava para o plano que normalmente os encarnados não podem perceber.
Ao reconhecer o filho, Lídia entregou-se a um abraço carinhoso, trocando com ele energias de amor sincero, capazes de, naquele mundo real, expandir claridade que se espalhavam pelo quarto como raios de luzes cintilantes, exibindo a verdadeira vibração de amor.
Na espiritualidade não há como enganar, os sentimentos e pensamentos elevados provocam expressivos brilhos, enquanto as intenções que não estão de acordo com o bem ou a boa moral envolvem seus criadores em densas sombras, as quais exibem seu grau de ignorância ou inferioridade.
Cristiano sorriu, sentindo-se feliz.
Lídia experimentou um conforto indizível.
As emoções também brotaram quando ela observou o espírito Amélia.
- Mãe!
Abraçadas, naquele momento geraram ainda mais vibrações agradáveis e generosas.
- Filha querida, é sempre bom vê-la.
Tomando consciência do estado de sono, Lídia comentou:
- Lamento não lembrar de tudo quando estou acordada.
Isso não deveria acontecer.
António, espírito amigo e instrutor que os acompanhava, reconheceu sorrindo:
- Essa sempre é a reclamação dos encarnados.
Nunca se lembram do que acontece durante o sono, e muitas vezes a mente lhes prega peças, trazendo para a consciência do estado de vigília situações não muito nítidas, o que chamam de sonho.
Cristiano, que se acomodou ao lado da mãe, alargou o sorriso e a abraçou novamente.
- Você está bem, filho?
- Estou óptimo, mãe.
- Por que não vem mais vezes?
- Estou em curso.
Aproveitamos, por estarmos perto dos entes queridos encarnados, para fazer uma breve visita.
A vovó quer muito fazer uma recomendação.
Lídia virou-se para sua mãe e ficou aguardando.
Amélia, sempre generosa, acomodou-se, tomou as mãos da filha e perguntou:
- Lidinha, lembra-se de quando, um dia, recomendei para que você e Rodolfo procurassem uma outra casa para viverem suas vidas a dois e com os filhos que Deus lhes confiou?
- Sim, mãe. Eu me lembro.
Só que meu marido não quis deixar o pai morando sozinho, uma vez que seus irmãos iam sair do Brasil.
- Mas bem que vocês poderiam ter cuidado disso antes de eles irem.
Além do que seu sogro não era uma pessoa doente e que dependia de cuidados.
De repente, a solidão poderia até tê-lo feito procurar alguém.
E, se ficasse doente, poderia ir morar com um dos filhos.
- É, mãe, eu me lembro de que a senhora me falou isso, mas...
- Mas você não insistiu com o Rodolfo.
Com jeito delicado, Amélia advertiu:
- Talvez, filha, você se tenha encantado por essa mansão palaciana.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 17, 2016 7:51 pm

Lídia baixou o olhar e ficou sem argumentos.
Gentil, Amélia continuou:
- Seria bom, agora, você dar a Fernando uma orientação muito importante.
- Qual, mãe?
- Procurar um lugar para viver sua vida junto com a esposa e o filho.
Quase melancólica, Lídia admitiu:
- Não vou conseguir ficar longe do meu filho.
Como posso fazer isso?
Já bastam os anos em que ele viveu longe de mim.
- Há-de reconhecer, Lidinha, que o amor verdadeiro não amarra, não enclausura, mas sim liberta e ensina.
Você precisa afastar a mulher de seu filho dessa casa.
Ele precisa assumir maiores responsabilidades sem interferência.
Ela, por sua vez, deve procurar outras coisas para dar atenção e, ficando aqui, continuará presa a pensamentos e ideias inúteis e perigosas.
É muito importante que essa moça se afaste dessa casa.
Algumas coisas você não precisaria enfrentar tão cedo.
- O que vou dizer?
- Você saberá o que dizer e o que fazer.
Mas faça logo e insista.
- Por que Lorena deve se afastar dessa casa?
- O coração dessa moça sempre foi repleto de arrogância; criaturas amargas assim acreditam serem donas de tudo e sempre querem forçar o futuro a se desviar, querem mudar os desígnios de Deus e pensam que podem controlar a vida de todos.
Além disso, os pensamentos que dão origem a desejos malignos atraem companheiros espirituais que as estimulam para a prática do mal.
E você sabe, Lidinha, que aquele que não crê em Deus não respeita ninguém.
Julgam que tudo podem fazer.
Em uma outra experiência, quando encarnada, Lorena combateu a existência do Criador e foi julgada pelos Tribunais do Santo Ofício, a Inquisição.
Sob suplícios terríveis, um bispo comissário da Inquisição arrancou-lhe abjuração, e mesmo assim esse homem da Igreja confinou todos os seus bens, perseguiu seus parentes e a enviou a um calabouço sob torturas e humilhações das mais terríveis, onde ela acabou sucumbindo pelos tenebrosos meios de corrigenda utilizados.
Tornando-se um espírito revoltado, Lorena nada aprendeu e sempre buscou vingança para o que sofreu naquela época.
Desencarnada, perseguiu aquela que a acusou, que a delatou e a enviou para tão terríveis penas.
Hoje, o bispo inquisidor reencarnou como o pai que lhe ofereceu o "céu e a Terra", devolvendo-lhe tudo de bens materiais que lhe tirou no passado.
Mas a mulher que a entregou aos Tribunais da Inquisição não teve tempo de se harmonizar com ela nessa vida, tendo em vista que Lorena, como espírito perverso e rancoroso, antes de renascer para essa presente experiência de vida, de tanto persegui-la e obsedai-la levou-a à loucura e à prática do suicídio.
Se assim não fosse, elas estariam juntas hoje.
Pois a mulher que ela perturbou a esse ponto era a mãe de Rodolfo.
Só que essa moça, Lorena, não aprendeu e ainda não crê no Pai da Vida.
Alguém assim, que só exige com arrogância, orgulho e se diz dona da verdade e de todas as situações, que não se volta para Deus, não agradece e não se contenta com o que tem, se alia à deterioração mental, adoece psiquicamente e não se impõe limites.
- Por quê?
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 17, 2016 7:51 pm

- Porque não teme a Deus.
Não crê que Sua principal lei é a de causa e efeito.
Lorena não acredita que vai experimentar o efeito exacto do mal que causou aos outros.
- Então meu filho corre perigo? - preocupou-se Lídia.
- Não. Fernando não corre perigo.
Lorena o tem como um troféu.
No entanto, ele tem muito a ensinar a ela.
Não precisava ser assim, mas já que tem a oportunidade do matrimónio que aproveite a ocasião que sua ambição proporcionou.
Interferindo, Cristiano lembrou:
- Mãe, cuidado com os seus pertences pessoais, com os seus medicamentos.
Fique atenta.
E Amélia completou:
- Lidinha, ficaria aterrorizada se pudesse ter conhecimento dos pensamentos que as pessoas criam junto com suas más tendências.
Muitas vezes, dissimuladas com um bom comportamento, essas criações mentais tornam-se vivas e são colocadas em acção, prejudicando a muitos.
- Agora temos de ir, mãe - avisou Cristiano.
- Venham me ver sempre - pediu Lídia com uma expressão generosa em seu semblante, parecendo já sentir saudade.
- Claro que sim.
Sempre que pudermos.
Eles se despediram.
E, não perdendo a oportunidade, Cristiano aproximou-se de Rodolfo, que nem imaginava o que se passava na espiritualidade à sua volta, envolveu-o com um abraço, beijou-lhe o rosto e afirmou:
- Eu o amo muito, pai.
Sem entender o motivo, Rodolfo sentiu algo agradável.
Parou o que estava fazendo, deu um suspiro profundo e sorriu.
Logo que os desencarnados se foram, ele decidiu se deitar, aproveitando aquela inexplicável sensação de paz que o envolvia.
Na tarde chuvosa e cinzenta do dia seguinte, Rodolfo e Fernando encontraram-se com Regina e dona Glória no hospital em que Renato estava internado.
Após rápida visita ao enfermo, eles se reuniram no grande saguão do hospital para conversar um pouco.
Dona Glória, visivelmente abatida e sensibilizada com o ocorrido, quase não dizia nada, mas lembrou-se de perguntar por Lídia.
- E a Lídia, como está?
- Ela não se sente muito bem hoje - avisou Rodolfo de pronto.
Acho que ingeriu algo que não lhe fez muito bem.
Mas pediu desculpas por não ter vindo e disse que mais tarde ligará para a senhora.
- Nem há pelo que se desculpar, por favor, senhor Rodolfo - interrompeu Regina, completando:
- Nós é que temos de pedir desculpas pelo incómodo.
Não haverá como retribuir o apoio e a ajuda que vocês estão nos dando.
- Enquanto estiver em nosso alcance, conte connosco - avisou Fernando, demonstrando-se prestativo.
- Tenho certeza de que meu irmão vai se recuperar rápido, e isso vai se dar pela boa qualidade do atendimento que está tendo.
Se não fosse por vocês...
Olhando para a mãe, Regina reconheceu:
- Minha mãe está cansada, precisamos ir.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 17, 2016 7:51 pm

- Nós as levaremos em casa - prontificou-se Rodolfo.
- Não se dê a esse trabalho, senhor Rodolfo.
O senhor já fez muito.
- Faço questão! Vamos.
Ao chegarem na casa de dona Glória, a mulher insistiu para que entrassem e sem demora foi preparar um café.
Doroteia havia ficado com as crianças na casa de dona Glória, e assim que Regina chegou educadamente a dispensou e apresentou os pequeninos.
- Como são lindos os seus filhos! - elogiou Rodolfo.
Lindos e cativantes!
- O senhor se esqueceu de mencionar: muito levados! - lembrou Regina, sorrindo amável.
Sem pensar no que dizia, Fernando comentou:
- Pensei que seu marido tivesse ficado com eles.
Gaguejando um pouco, Regina explicou, sem jeito:
- É que... sabe, ele ficou em casa para resolver algumas coisas sobre a loja, por isso não deu para ficar com as crianças nem ir ao hospital.
Ele e a sócia tinham projectos de expansão para estudar.
A Viviane ia ficar com eles para nós, mas está com dengue há uns três dias.
Ela nem levanta da cama.
- O crescimento dos negócios é importante.
Ele deve aproveitar.
Em poucos minutos Fernando já estava no quintal da casa jogando bola com Denis, que o conquistou com seu jeito espontâneo e desinibido.
Muito alegre, o garotinho se divertia com a brincadeira.
Após algum tempo, Rodolfo decidiu que já estava tarde e que não queria que Lídia ficasse sozinha por muito tempo, uma vez que a esposa não estava muito bem.
Chamado pelo pai, Fernando precisou interromper a brincadeira, mas prometeu:
- Gostei muito de você, Denis.
Qualquer dia vou trazer meu filho aqui para vocês brincarem, ou então, se sua mãe deixar, posso levá-lo lá para minha casa para passarem o dia juntos.
- Quantos anos ele tem? - interessou-se o garoto.
- Três.
- Ah, bom. Pensei que ele fosse bebé.
Promete que vai trazê-lo, mesmo?
- Prometo, claro.
- Então quando? - perguntou o menino. Fernando titubeou e fez um gesto singular ao responder:
- Quando sua mãe deixar.
Combine com ela direitinho, me liga e eu venho.
- Vou combinar, sim!
Mas, tio, vê se não vai fazer como o meu pai que só promete, promete, promete e não me leva para passear nem quer jogar comigo, viu?
Regina sentiu seu rosto aquecer; para que a situação não ficasse pior, sorriu sem graça e se calou, para que o filho não dissesse mais nada.
Fernando haveria de compreender que as necessidades do dia-a-dia são muito importantes e que as crianças dizem o que sentem sem pensar se está certo ou não.
Assim que pai e filho se foram, Regina verificou se sua mãe não precisava de mais nada e foi para sua casa.
Ao chegar com as crianças, percebeu logo que o marido havia saído.
Ela estava exausta.
Aquele fora um final de semana conturbado e desgastante.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 17, 2016 7:51 pm

Mesmo assim, encontrou forças para organizar algumas coisas na casa e preparar um bom jantar.
Decidiu que daria banho nos filhos e os faria jantar e dormir cedo, a fim de que ela e o esposo tivessem mais tranquilidade.
Regina reconhecia que nos últimos tempos realmente estava um pouco ausente, mas iria reparar isso.
"Se Jorge estava zangado, deveria ter suas razões", pensava.
Bem mais tarde, quando ela colocava os filhos para dormir, o marido chegou.
Indo ao encontro de Jorge, Regina o beijou com carinho, recebendo-o com alegria, esforçando-se para não demonstrar cansaço e não fazer qualquer reclamação.
- Pensei que estivesse na casa de sua mãe - acreditou o marido.
- Há tempos estou aqui.
E você, foi dar uma volta? - perguntou a esposa com simplicidade e um leve sorriso.
- Fui - respondeu secamente, sem oferecer muitos detalhes.
Abraçando-o pelas costas, mimando-o com seu jeito meigo de falar, ela sugeriu:
- Então tome um banho bem gostoso.
Preparei um jantar especial só para nós dois.
As crianças já estão dormindo e, bem, estamos a sós.
- Estou sem fome, Regina.
Não quero jantar - avisou Jorge, livrando-se do envolvimento, a fim de ir para outro cómodo da casa.
Seguindo-o, Regina perguntou com simplicidade:
- Aconteceu alguma coisa?
Você está diferente.
Com semblante desanimado, ele afirmou:
- Estou cansado.
Amanhã tenho de levantar cedo; precisamos preparar algumas entregas e, mais tarde, teremos uma reunião com um possível distribuidor.
- Ainda está zangado comigo? - Rindo, ele se admirou:
- Zangado?! Eu?!
Ora, o que é isso?
- Pensei que ainda estivesse magoado por eu ir à casa da minha mãe e...
- Esquece isso, Regina.
Após breves segundos, ele decidiu:
- Vou tomar um banho e dormir, pois preciso levantar cedo e estou cansado.
A esposa nada argumentou, mas uma amarga decepção alojou-se em seu peito.
Seus olhos expressivos aqueceram-se, provocando um ardor infeliz pelas lágrimas que brotaram, mas temeram rolar pela face cansada.
Regina experimentou um nó na garganta ressequida e em meio a pensamentos fervilhantes que se estendiam a confusas questões reparou que Jorge não perguntara de seu irmão nem como estava dona Glória, a quem parecia respeitar.
Aliás, o marido desprezara o jantar especial que ela anunciara de jeito romântico e provocativo.
Ele não elogiou suas vestes nem os cabelos anelados e compridos que estavam soltos, ajeitados, exactamente como ele gostava.
"Se não estivesse com fome", pensava, "poderia ao menos ter-me feito companhia, dispensado um carinho e um pouco de atenção."
No entanto, sua frase fria quando disse "Estou sem fome. Não quero jantar", parecia dissimular algum outro sentimento.
Regina estava decepcionada, mas decidiu que não procuraria esclarecer nada para não provocar discussões.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 17, 2016 7:52 pm

Jorge deveria estar com algum problema.
Ela saberia esperar.
Na manhã seguinte, bem cedo, um telefonema ofereceu bom ânimo a Regina, que estava imersa em insatisfações e tristezas.
Ela não havia dormido aquela noite reflectindo sobre tudo o que estava acontecendo.
Mas a notícia de que seu irmão havia saído do estado de coma a deixou radiante.
Jorge ainda estava em casa quando a notícia chegou, mas manifestou-se com indiferença diante do entusiasmo da esposa.
Não se mostrando participativo, foi para o trabalho como se nada houvesse acontecido.
Ela reparou em seu jeito, mas não deu importância.
Ligaria para o serviço avisando que teria de ir ao hospital ver seu irmão.
Decidiu que passaria na casa de sua mãe para avisá-la e levá-la consigo.
Por parte da família de Rodolfo, dona Glória e o filho receberam todo o apoio possível.
Com o passar dos dias, Renato teve alta e encontrava-se em casa recebendo atenção e carinho da mãe e da irmã.
Sem que esperassem, Rodolfo e Fernando chegaram para uma visita, trazendo consigo o doutor Manoel, médico da família havia algum tempo.
Recebido sempre com estima e visível consideração, Rodolfo avisou:
- Sabemos que o Renato tem retorno agendado no hospital, mas pedi ao doutor Manoel, nosso médico de confiança, para que desse uma olhadinha nele; afinal, não podemos descuidar.
Fernando, que havia levado Hélder consigo, foi para o quintal a pedido de Denis, que ficou muito animado com o novo colega.
Já no interior da casa, após examinar Renato e observar alguns exames clínicos que estavam em poder da família, doutor Manoel ressaltou:
- O parecer do médico que o atendeu é bem específico.
Você sofreu um coma metabólico pelo consumo excessivo de álcool, mais conhecido como coma alcoólico.
Renato baixou o olhar parecendo constrangido, e o médico continuou:
- Bem, o coma é um estado que lembra o sono profundo, mas é patológico, ou seja, é um estado doentio.
A princípio, o coma é a perda total da actividade motora, da percepção, da consciência e da capacidade psíquica.
Existe também o chamado coma profundo, uma fase mais avançada, o que não foi o seu caso - ressaltou o médico.
No coma profundo a pessoa perde todas as actividades e necessita ser mantida por meio de aparelhos para a actividade pulmonar, além do controle da circulação, batimentos cardíacos etc.
Chamamos isso de estado vegetativo.
De qualquer forma, o sistema nervoso central é afectado com maior ou menor gravidade, mas é afectado sempre.
O que o Renato teve em seu favor foi o socorro imediato e as providências mais adequadas por parte daqueles que o atenderam no hospital.
Não há sequelas aparentes; porém, Renato, não deixe de fazer os exames pedidos pelo outro médico e cuide muito bem da alimentação; faça exercícios físicos e procure ter uma vida mais saudável.
Sentada na cama ao lado do irmão, Regina lembrou:
- O Renato teve uma recaída.
Ele está fazendo um tratamento para não beber mais.
Frequenta uma associação.
Sorrindo, sentado em uma cadeira em frente ao rapaz, doutor Manoel falou satisfeito:
- É muito bom saber disso, Renato.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 11:04 am

Acredito que o homem mais corajoso e psicologicamente mais forte é aquele que admite o vício e quer livrar-se dele.
Porém, o mais importante do que assumir o vício é desejar combatê-lo, procurar ajuda quando achar que o desejo é muito forte e que pode haver uma recaída.
Antes de tomar o primeiro gole, procure socorrer-se com aqueles que o querem bem.
- Doutor - perguntou o paciente -, por que alguém é alcoólatra?
- Veja, inúmeros factores influem na dependência alcoólica, como predisposição pela hereditariedade, hábitos alimentares, estado físico e psíquico, e muitas outras coisas.
- Hábitos alimentares influenciam na dependência alcoólica? - questionou Regina, curiosa.
- As pessoas que seleccionam o que comem, as que comem vagarosamente, mastigando bem os alimentos, e pensam muito na qualidade, nas proteínas e nas vitaminas que colocam para dentro de si, normalmente não ingerem álcool e, se o fazem, é em pouca quantidade.
Quem consome vegetais normalmente se abstém de bebidas alcoólicas.
Por outro lado, aqueles que apreciam pratos considerados "pesados", como a feijoada, por exemplo, dificilmente dispensam a famosa "caipirinha" como acompanhamento.
Daí essas pessoas correm o risco de começar a apreciar em demasia a bebida.
- Então o alcoolismo pode ser hereditário? - perguntou Renato.
- Sim. E quando temos a disposição caracterológica congénita, o que chamamos de alcoolismo de causa psicopática, se começarmos a beber, vamos adquirir o vício e a dependência mais rapidamente do que possamos imaginar.
Existem pessoas com predisposição ao alcoolismo e que nunca beberam, passando a vida toda sem o vício.
Muito simples, dona Glória perguntou:
- O que é essa disposição caracte...
- Disposição caracterológica congénita para o alcoolismo - disse o médico, socorrendo-a da difícil palavra - quer dizer que algum parente, que pode ser a mãe, o pai, o avô, a tia, a avó, o bisavô, era alcoólatra.
Vamos lembrar que a hereditariedade é a transmissão das qualidades físicas ou morais que recebemos dos nossos antecessores.
- Seja como for - interrompeu Renato um tanto desalentado -, o mais difícil é enfrentarmos a insistência dos amigos e até da própria sociedade que nos oferece bebidas alcoólicas exibindo, com glamour, seus rótulos, designando que beber isso ou aquilo é sinal de status, nobreza e elegância.
Eu disse outro dia para a minha irmã que o factor mais importante para a destruição da perseverança daquele que quer deixar de beber é a atitude de outros em oferecer bebidas alcoólicas.
- É verdade - concordou o médico que, com o pender de cabeça, demonstrava aprovar o que o rapaz dizia.
A sociedade em que a pessoa vive ocasiona e facilita o acesso ao álcool.
Muitos ignoram que é aí que alguém começa a apreciar o sabor da bebida, a gostar do efeito eufórico, alegre, relaxante e anestésico que, em princípio, ela oferece.
É a apreciação desses efeitos que leva alguém a experimentar novamente.
Então o que acontece?
A quantidade que a pessoa consome não mais proporciona esse conjunto de sintomas, de reacções que entusiasmam, que inebriam.
Desse modo, ela precisa aumentar a dose.
E a cada dia quer mais e mais para sentir o efeito.
- O senhor está falando de pessoas que têm predisposição ao alcoolismo? - indagou Regina, interessada.
- Não. Estou falando de pessoas comuns que não têm essa predisposição hereditária.
Quanto aqueles que a tem, a oportunidade de consumir álcool vai fazê-los rapidamente, muito rapidamente - reforçou o médico -, transformarem-se em viciados, em dependentes alcoólatras.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 11:04 am

Aí a situação se complica ainda mais.
- Então, mesmo que alguém não tenha hereditariedade alcoólatra, pode se tornar um? - insistiu Renato, por sua vez.
- Sem dúvida alguma!
Como eu disse, a pessoa toma gosto pela bebida, a princípio pelo sabor, pelos efeitos inebriantes, e depois tem de aumentar a dose, sem perceber, para experimentar essas sensações.
Daí, por consequência de qualquer transtorno, conflitos íntimos, decepções emocionais ou divergências em qualquer lugar e de qualquer nível, ela busca refúgio na bebida, condicionando-se no hábito de beber até que fique totalmente dependente.
Quando menos se espera o alcoolismo está instalado.
Os efeitos físicos e psíquicos provocados pela ingestão de bebidas alcoólicas não permitem a ninguém levar uma vida normal, seja no campo profissional, familiar ou no círculo de amigos. Ninguém confia no alcoólatra, mesmo quando está sóbrio.
- Por quê? - questionou Renato, imediatamente.
- Devido às condições que o álcool impõe a qualquer pessoa, e nem preciso dizer porquê.
Ninguém, sob o efeito do álcool, é confiável, independentemente da quantidade que tenha ingerido.
E, quando sóbrio, percebemos que o alcoólatra tem suas funções intelectuais comprometidas.
Com o tempo sua memória sua percepção e seu senso crítico são afectados e pouco confiáveis.
O efeito do álcool na saúde mental e muito grave.
A criatura bebe, mesmo quando está sem os efeitos do álcool, vive num constante estado de tensão e reage aos poucos, mostrando falta de domínio emocional diante de diversas situações.
Não controla o medo, a agressividade ou o desleixo.
- Espera aí, não entendi.
O alcoólatra vive tenso, mas pode ser desleixado?
- Sim. Ele fica excessivamente preocupado, porém não faz nada, não toma uma atitude e deixa tudo largado.
Com o tempo, o alcoólatra sofre danos psicoorgânicos irreversíveis das funções mentais, como memória e intelecto.
Não consegue entender o que lê, pois seu cérebro não mais organiza, tampouco sintetiza e compreende qualquer assunto.
Ele não mais registra imagens ou acontecimentos, pois se confunde com facilidade.
Interferindo pela primeira vez, Rodolfo lembrou:
- É por isso que, quando temos uma testemunha importante, precisamos saber de seus hábitos para que, diante de um tribunal, seja considerada idónea e capacitada.
Já vi muitas causas serem perdidas quando foi descoberto que a testemunha havia ingerido álcool ao presenciar um caso.
Ela não sabe dizer a cor da roupa que alguém usava; diz, por exemplo, que num momento a porta estava aberta, no outro, fechada.
Confunde-se em muitas coisas.
Em dado instante, doutor Manoel sorriu e mencionou:
- Já que estou vendo ali na cómoda O Livro dos Espíritos, sinto-me à vontade para falar sobre a embriaguez patológica, forma muito especial de intoxicação alcoólica aguda, onde a pessoa entra em um estado de excitação psicomotora, tem alucinações e fabulações.
Regina sorriu, não disse nada, e o doutor continuou:
- Há inúmeros espíritos inferiores, de maior ou menor grau, acompanhando o encarnado que ingere álcool em qualquer quantidade, sem excepção.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 11:04 am

Depois de breve pausa, ele considerou:
- Estou usando, agora, meus conhecimentos de homem espírita, não somente como médico de corpos humanos.
Como sabemos, o espírito desencarnado não é diferente, moralmente falando, do que foi quando encarnado.
A diferença agora é que, sem o corpo de carne, ele não pode mais experimentar a metabolização do álcool que ocorre no fígado, onde é oxidado pela acção de enzimas alcooldesidrogenases e que, quando sua ingestão ultrapassa certos níveis de miligramas consumidos, libera energias e reacções físicas sentidas, como já mencionado, como euforia, alegria, efeito relaxante ou anestésico, coragem ou agressividade etc.
Todo espírito que aprecia o álcool é sem elevação, pois, além de prender-se a coisas materiais, se prende também a efeitos que proporciona, ou proporcionava, qualquer estímulo na matéria física, alterando o comportamento mental.
Agora, como espírito ignorante, ele, para experimentar os efeitos do álcool, começa a se aproximar e a se ligar a um encarnado que goste de apreciar, de saborear qualquer bebida alcoólica.
Vale lembrar que não somente um espírito pode se aproximar de alguém que bebe; o encarnado passa a ter a companhia de muitos espíritos inferiores que vão se ligando a ele, influenciando-o mentalmente, dizendo: "beba mais".
Porque, quanto mais o encarnado bebe, mais exala, na espiritualidade, energias, que são sugadas por esses espíritos.
Juntos, encarnado e desencarnados passam a experimentar as sensações que o álcool proporciona.
Há então uma simpatia, ou melhor, uma sinergia tão forte entre eles que o encarnado começa a alterar sua afectividade por aqueles que o querem bem, pois quem o ama não quer vê-lo embriagado; então, ele passa a ser egocêntrico, além de ter uma alteração nas funções psíquicas superiores.
Isso é chamado de alcoolismo crónico e representa um dos quadros mais comuns entre os alcoólatras.
E fácil ser identificado, pois, quando o alcoólatra crónico fica sem beber, sofre o chamado delirium tremens; isso, esclarecendo em sintomas, é ansiedade pela bebida, inquietude, sentimento de desorientação, falta de equilíbrio emocional, como choro, raiva expressada por agressões, alucinações visuais de animais ou insectos monstruosos e repugnantes etc.
Também podem ocorrer tremores, sudorese excessiva, onde exala um cheiro semelhante a podre de bebida alcoólica, falta de retenção urinária e muito mais.
O alcoolismo leva à morte, ao suicídio, à psicose e à concretização de vários crimes.
- E quando ele bebe os tremores passam? - perguntou Regina.
- Sim. A princípio, sim.
Ah! é preciso lembrar que, para ser alcoólatra crónico, não é necessário ter todos esses sintomas juntos.
Um ou outro já caracteriza o quadro, clinicamente falando.
Regina deu um sorriso maroto ao perguntar:
- E espiritualmente falando?
- Espiritualmente falando a pessoa está intrinsecamente ligada a espíritos viciosos e inferiores, ou seja, é essencial para eles viverem acoplados no encarnado alcoólatra, exigindo-lhe o consumo de álcool por meio da sintomatologia do delirium tremens, tanto que o alcoólatra só experimenta tais sintomas quando fica sem beber.
É bom lembrar que as alucinações e as zoopsias, que são visões de animais e insectos monstruosos, nada mais são do que a apreciação, a visão que o alcoólatra tem do que existe na espiritualidade à sua volta plasmado pelos companheiros espirituais que se ligam a ele.
- Eu não sabia que o senhor era espírita, doutor Manoel - avisou Rodolfo.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 11:04 am

O médico sorriu ao pender positivamente com a cabeça.
- O mais difícil é nos encontrarmos diante de um convite insistente e o recusarmos - reclamava Renato, como se a culpa fosse somente de quem oferece bebida alcoólica, não analisando que a maior força de vontade deveria vir dele.
- O tratamento contra o alcoolismo, Renato - disse o médico, orientando-o -, requer a desintoxicação, o acompanhamento clínico para investigar factores e causas, ou seja, se as causas são biológicas, psicológicas ou sociais.
Mas, acima de tudo, a cura vai estar ligada somente à vontade, à perseverança em querer superar o vício.
É lógico que recaídas podem ocorrer, mas antes de se entregar a um gole, o alcoólatra deve procurar aqueles que o amam e lhe dão apoio.
Deve contar o problema a eles, falar com eles, procurar ajuda.
- E quando os colegas nos oferecem um aperitivo?
- Primeiro, se você realmente quer deixar o vício, afaste-se do ambiente que o aproxima do álcool.
Pense: que tipo de pessoa frequenta bares, botecos e tudo o mais que oferece bebidas alcoólicas?
Certamente não são essas pessoas que querem seu progresso espiritual, moral, intelectual e profissional.
Troque as companhias. Fuja disso tudo.
E se mesmo assim você se deparar com um convite insistente não pense que poderá se controlar com um só gole.
Não! Isso não vai acontecer.
Se beber o primeiro copo, já fracassou.
Seja forte e corajoso, diga com convicção:
"Sou alcoólatra, não posso e não quero beber. Obrigado".
Se houver insistência, vire as costas e vá embora.
Foi assim que eu consegui!
Somos mais capacitados e mais fortes do que um convite, do que uma vontade.
E mais uma coisa: ore.
Peça a Deus para que espíritos superiores, sábios e benevolentes o fortaleçam e o acompanhem.
A luz desses irmãos elevados há de dissipar os laços que possam haver entre você e os irmãos viciosos.
Assim, será mais fácil vencer.
Todos se calaram praticamente incrédulos diante da confissão do médico.
Somente alguém com conhecimento tão profundo das causas e efeitos poderia aconselhar com tamanha superioridade.
Para encerrar, doutor Manoel lembrou:
- Não preciso dizer que, além dos prejuízos mentais irreversíveis, o álcool provoca graves enfermidades, como cirrose hepática, gastrite, úlcera estomacal, problemas cardíacos como a degeneração adiposa do coração, insuficiência circulatória.
No aparelho reprodutor masculino ocorre a atrofia dos testículos e consequentemente a diminuição e até a perda da potência sexual; nas mulheres pode ocorrer um sério distúrbio hormonal e a amenorreia, entre outros problemas.
- O incrível é que, quando olhamos para um simples copo de bebida alcoólica, não imaginamos o número de prejuízos que teremos se a ingerirmos - opinou Regina.
- Não só prejuízo físico e mental como também moral - completou Renato.
- Quando bebemos, acreditamos que somos o máximo, fazemos de tudo, ficamos alegres, topamos todas as brincadeiras, falamos alto, rimos sem razão, e a cada momento vamos nos excedendo, acreditando que os outros não estão percebendo que estamos alcoolizados.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 11:05 am

Quando bebemos, pensamos que os outros estão nos admirando, porque somos corajosos e dizemos tudo o que pensamos.
Acreditamos que os colegas nos têm simpatia porque somos ousados, nada nos detém e fazemos tudo extrapolando todos os limites do bom senso.
Só que, depois que o efeito passa, ficamos deprimidos, envergonhados pelo vexame, pela apresentação ridícula que fizemos de nossa pessoa, revelando-nos como criaturas verdadeiramente sem senso crítico, sem auto-controle, sem respeito ou amor-próprio.
Enxergamo-nos como uma criatura pobre, medíocre e sem moral.
Como médico, minha opinião é que as leis brasileiras são muito complacentes quanto ao uso de bebidas alcoólicas.
Principalmente no trânsito.
Quando ingerisse bebida alcoólica o cidadão deveria ser terminantemente proibido de dirigir.
O condutor, quando está sob o efeito do álcool, torna-se imprudente e negligente.
Todo aquele que bebe perde o reflexo, sofre alterações psicológicas, emocionais, e suas funções ficam comprometidas, ou seja, o que aprendeu sobre segurança no trânsito é simplesmente esquecido.
Quando conduz um veículo, o motorista que ingere álcool acha-se repleto de razão, geralmente se toma agressivo, valente, e coloca sua vida e a dos outros em perigo.
- Infelizmente - comentou Rodolfo -, ainda ouvimos:
Coitadinho, ele havia bebido e não sabia o que estava fazendo.
- Por isso bateu o carro, atropelou e matou".
Perdoem-me, mas nesse caso não creio que um motorista seja um coitado.
Se alguém quer beber, que o faça e prejudique a sua saúde, mas antes deve assegurar-se de que não terá de conduzir um carro e colocar em risco a vida dos outros.
Se alguém quer acabar com a própria vida, não tem o direito de colocar a saúde ou a vida de outros em perigo.
Quanto a isso minha opinião é muito rigorosa.
A pessoa que ingere bebidas alcoólicas e vai dirigir não é um coitado, é um criminoso em potencial, pois os efeitos do álcool são bem conhecidos.
Renato baixou a cabeça, lembrando-se de quantas vezes chegara em casa embriagado e dirigindo e como poderia ter ferido ou matado alguém.
Ele bem poderia se encaixar na pessoa a qual Rodolfo lembrava e relatava de modo tão contundente e quase agressivo.
Nesse instante, o barulho das crianças chamou a atenção de todos.
Junto com os dois pequenos que haviam se dado muito bem, Fernando entrou dizendo:
- Vai cair um dilúvio!
Preocupada, Regina decidiu:
- Deixe-me ir embora antes que ele comece.
Antes que se despedisse a chuva começou a cair ser trégua, e, observando as dificuldades de Regina, Fernando ofereceu:
- Vamos fazer o seguinte, eu a levo em casa com as crianças, depois volto para pegar meu pai e o doutor Manoel.
Não houve outro jeito, e Regina teve de aceitar a proposta, pois a escuridão do céu juntamente com relâmpagos e trovões que pareciam rugidos anunciaram que a tempestade demoraria a passar.
Assim foi feito.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 11:05 am

19 - IDEIAS DE PERSEGUIÇÃO

O céu claro, de um azul muito limpo, na manhã seguinte nem de longe fazia lembrar a chuva que caíra na noite anterior e durante a madrugada.
Inquieto, Jorge parecia insatisfeito quando chegou na empresa.
O homem ficou ainda mais irritado quando, de longe, viu Selma abraçando pela cintura um rapaz alto, de boa aparência, vestindo roupa desporto-fino, bem elegante.
Intrigado, aproximou-se sem qualquer sorriso ou gesto amistoso.
Selma, que ria descontraidamente, ao vê-lo apresentou:
- Esse é meu irmão, Dalton, que mora em Nova York.
Ele chegou ontem no Rio.
Selma era uma mulher bonita, exuberante e dona de muito bom gosto.
Sua vaidade poderia ser notada em pequenos detalhes e caprichos.
Alta, com um corpo extremamente alinhado, o que a deixava cheia de vigor, tendo em vista seu jeito alegre e animado de ser, trazia os cabelos clareados, sempre arrumados, fazendo pose e olhar cativantes por entre os fios levemente puxados que lhe ofereciam um charme quase excessivo.
A maquiagem, sempre suave, onde só o tom forte do batom vermelho ressaltava, dando-lhe um toque especial na boca bonita pelos lábios carnudos e bem delineados, fazia ressaltar seus dentes alvos e a pele clara.
Após aguardar a troca de cumprimentos, ela riu gostoso ao dizer:
- O Dalton veio ver de perto o que estamos fazendo com o dinheiro dele.
- Você disse a ele que o seu investimento está bem empregado? - perguntou Jorge, tentando ficar à vontade.
- É bom saber disso! - disse o rapaz ao sorrir.
Ficamos motivados quando sabemos que os nossos investimentos estão prosperando.
Voltando-se para a irmã, Dalton decidiu:
- Bem, agora preciso ir.
Mais tarde conversamos.
- Vê se não se perde, hein! - brincou Selma ao beijá-lo.
Após despedir-se de Dalton e aguardar que partisse, Jorge avisou:
- Lembre-se de que Regina não sabe que Dalton está connosco nos negócios.
Por isso não gosto que ela venha aqui na loja.
- E de onde ela pensa que está vindo o dinheiro para ampliarmos, crescermos e investirmos nossos negócios?
Num país onde os impostos sufocam e massacram as pequenas e médias empresas...
- Não gosto de falar sobre isso com ela - comentou o sócio, sem muito argumentar, virando-se para uma mesa.
Selma percebeu qualquer coisa no tom de voz de Jorge.
Aproximando-se dele, ela o envolveu em um abraço, encostando o rosto em suas costas ao dizer mansamente:
- Está nervoso com alguma coisa?
Virando-se e segurando em suas mãos, ele alertou:
- Cuidado com seu batom na minha roupa.
Agora, de frente para ele, Selma não se afastou do abraço, avisando:
- Sempre tomei cuidado, não foi?
Inquieto, Jorge recomendou, tirando-lhe as mãos de sua cintura:
- Olha os empregados.
- O que deu em você, Jorge?
Parece nervoso hoje.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 11:05 am

Ele se calou, caminhou até a porta e, após fechá-la, argumentou:
- Você nunca se preocupa, não é, Selma?
Há funcionários para lá e para cá.
Com leve sorriso malicioso nos lábios, ela avisou:
- Por mim essa situação já estaria resolvida.
Tudo depende de você.
- Tenho dois filhos.
Sabe que não posso.
- E daí? - perguntou mansamente.
Seus filhos têm uma boa mãe.
Além do que você não vai se separar deles.
Envolvendo-o novamente, ela prosseguiu com voz calma e amável:
- Meu bem, pense em você, pense na sua felicidade.
Seus filhos terão as oportunidades deles, e você não vai poder se intrometer.
Após breve pausa, perguntou:
- Com quantos anos você vai decidir aproveitar sua vida, hein?
Encarando-a bem de perto, Jorge admitiu:
- Não tenho coragem de fazer isso com Regina.
- Você ainda a ama?
- Na verdade, tenho muita consideração e respeito por ela.
- Se você a considerasse não teria declarado seu amor por mim, não é? - dizia sussurrando, sempre com meiguice e afagando-lhe com carinho.
Você se acostumou com Regina.
Sabe, penso que ela se casou com você por ter ficado sem o Fernando, como você mesmo me contou.
Se deixá-la, sem perder tempo eles vão ficar juntos.
Foi o que sempre sonharam e é o que desejam.
- Ontem ela foi visitar o Renato; na volta, o Fernando acabou levando-a até em casa, junto com as crianças, por causa da chuva.
Fiquei irritado com isso.
Principalmente quando o Denis só ficou falando no pai do Hélder, que ele é bacana, que jogou bola, que isso e aquilo.
- Você deveria é dar graças a Deus!
A Regina, quando estiver separada, vai se dar muito bem na vida.
Talvez seja você quem a iniba de ser feliz.
Pense, Jorge, pense!
Jorge respirou profundamente e recostou seu rosto no de Selma.
- Somos felizes juntos.
Nascemos um para o outro.
Fale com ela, mas não diga nada sobre nós.
Comente que há tempos o casamento não está bem e que você quer ter mais liberdade Peça um tempo.
- Já estive para fazer isso várias vezes nos últimos tempos.
Mas me faltou coragem.
- Tenho uma ideia.
Por que não faz uma viagem de negócios?
Diga que tem de fechar com novos clientes.
Ela vai aceitar, você fica uns dias fora e, quando voltar...
Um brilho de malícia se fez nos olhos de Jorge, quando perguntou:
- Eu vou sozinho mesmo nessa viagem?
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 11:05 am

Confiando no jeito como ele a abraçava, Selma se jogou para trás, rindo ao dizer:
- Oh! Nem depois de morta você se livra de mim!
Erguendo-se, completou:
- Nunca vou deixá-lo, nunca!
- Eu a amo, Selma.
Amo como nunca amei ninguém.
Eles se beijaram apaixonados sem se importar com o respeito ou a sinceridade que deviam a alguém.
Afastando-se, com subtileza, procurando uma entonação ainda mais suave para a voz, lembrou:
- Antes de viajarmos será bom deixar tudo bem certinho no contador.
- No contador? - estranhou Jorge.
- Meu bem - explicou com generosidade intencional, a fim de não agredir -, Regina é uma mulher nova, bonita, e certamente será considerada capacitada pelo juiz no momento do divórcio.
No entanto, além das crianças, é lógico que você deve ajudá-la com as despesas da casa dando-lhe uma pensão.
Porém, Jorge, nunca sabemos como tudo vai acontecer exactamente, e como empresário, cuja empresa tem um rendimento considerável, levando em conta que você tem trinta por cento das cotas, pode ser que essa pensão que vai pagar se eleve muito.
Não que seus filhos não mereçam!
Muito pelo contrário.
No entanto, não é justo que você sustente a Regina caso ela arrume um namorado ou um companheiro.
Pense comigo:
vai dar o maior trabalho ficar solicitando ao uma revisão de pensão ou coisa assim.
Ela vai alegar que não tem ninguém, que não tem luxo algum e poderá esconder, com muita facilidade, que sustenta outro homem.
- Selma, a Regina não faria isso.
- Será?
- Não creio.
- E a mãe com o irmão?
Você acha que ela não vai sustentá-los com o dinheiro dos seus filhos se essa pensão for generosa?
Claro que vai!
Regina vai ficar com raiva de você e tentará se vingar, fazendo-o sustentar o irmãozinho vagabundo que ela tem.
Acredite em mim.
Jorge ficou pensativo, e Selma propôs:
- Preste atenção.
O contador faz um adendo, e você passa, só no papel, a ficar com pequena percentagem das suas cotas.
Perante o juiz, por não ter um salário fixo e pouco elevado, você pagará uma pensão bem baixa, até porque a Regina trabalha.
No entanto, fora o que for estipulado, você oferece uma quantia maior para que seus filhos fiquem bem.
Mas, se perceber que ela não emprega bem o dinheiro, sem ter de ir na justiça, você simplesmente corta parte da ajuda para que ela aprenda.
Depois, com o tempo, pega as cotas de volta sem que ninguém saiba.
- Se eu não soubesse que ela vai ajudar o safado do irmão, diria que isso não é necessário.
Mas tenho certeza de que vai custear a mãe e o Renato, que está desempregado.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 11:05 am

- Como não temos nada agendado para hoje à tarde, vamos dar uma passadinha no contador para saber o que precisa ser feito, certo?
Selma alegrou-se e aproximando-se novamente de Jorge envolveu-o e o beijou rapidamente, acrescentando antes de sair:
- Agora tenho de dar alguns telefonemas.
Depois conversamos.
Distante dali, outra situação se revelava ainda uma ameaça.
Em meio a odiosos sentimentos que mascaravam um comportamento educado, Lorena agia cautelosamente representando legítima generosidade.
Todos acreditaram em sua mudança de carácter.
Até o marido atribuiu tamanha alteração de personalidade à morte do pai, que sempre a mimava.
Havia meses, desde que Fernando dissera que queria a separação, pois seu pedido de divórcio se deu juntamente com o falecimento de seu sogro, Lorena, desde então, não mais exibiu suas exigências, tolerando com elegância toda proposta e situação.
Devido ao seu comportamento mais tranquilo e à orientação dos pais, Fernando não tocou mais no assunto do divórcio, talvez querendo realmente salvar seu casamento.
No entanto, Lorena tinha ideias e concepções falsas quanto à sogra, acreditando que esta quisesse ver seu casamento desfeito.
Sem alucinações, Lorena pensava de forma delirante, achando que Lídia a perseguia e incentivava o filho ao divórcio.
Nas mais simples atitudes de Lídia, Lorena identificava algum prejuízo contra sua pessoa e organizava conceitos e pensamentos de forma tão bem estruturada e lógica que ignorava qualquer ideia que pudesse apontar o contrário do que acreditava.
Diante de sua saudável aparência exterior, raciocínios expressos com normalidade, memória plena e inteligência normal, os que a rodeava não percebiam o quadro doentio de paranóia já instalado.
Lorena fazia de seu ciúme uma psicose e estava silenciosamente disposta a tirar de seu caminho qualquer um que acreditasse poder prejudicá-la com o marido.
Com jeitinho, havia alguns dias, Lídia vinha sugerindo ao filho que a vida do casal seria bem melhor se pudessem contar com mais privacidade.
Fernando ora se fazia de desentendido, ora dissimulava, mas não se encorajava a conversar directamente com a mãe e esclarecer a ideia de separação não estava abolida.
Ele estava inseguro.
Ora queria equilibrar-se com a esposa, ora desejava estar longe dela, mesmo com toda a mudança apresentada.
Quando percebia a opinião da sogra, Lorena passava a ter um véu de ferocidade intrincado em seus pensamentos doentes, esconjurando as sugestões de Lídia sem externar contrariedade.
"Quem ela pensa que é para dizer o que devemos ou não fazer?" - questionava a nora em pensamento.
"Lídia me paga.
A desgraçada me quer longe daqui para que o Fernando, depois que mudarmos, me abandone com o nosso filho e venha para cá.
Estou cansada dessa Regina!
Ele vive na casa dela e chega a cometer o abuso de levar meu filho até lá com a desculpa de brincar com o moleque que ela tem".
Criando monstruosas ideias frenéticas de vingança, Lorena envolvia-se em densas sombras que auxiliavam sua hostilidade a tudo o que via à sua volta.
Sem conversar amigavelmente com alguém, sem lembrar-se de Deus, a pobre mulher enveredava-se em criações mentais as quais a prejudicariam imensamente.
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Ave sem Ninho

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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 11:06 am

Suas ideias mais tormentosas surgiram quando, com o passar dos dias, Fernando começou a levar, nos finais de semana, Denis para brincar com Hélder por um dia inteiro.
As crianças se divertiam e gargalhavam, trazendo alegria aquela casa que parecia começar a encobrir-se de melancolia pela falta de animação.
Já estão querendo acostumar o moleque nojento nessa casa!", pensava Lorena.
"Acreditam que vão me destruir?
Ah! Não vão mesmo!
Eu acabo com ele antes."
Sem deixar que sua face alva expressasse qualquer contrariedade, Lorena agia normalmente, sem representar ameaça.
No início da noite, quando Fernando decidiu que levaria Denis para casa, Hélder resolveu que iria junto, e quando chegaram na casa de Jorge e Regina o garoto insistiu:
- Tia Regina, deixa ele ir brincar amanhã também?
Sem esperar por uma resposta da mãe, Denis implorou:
- Ah! mãe, deixa!
Deixa! Deixa! Deixa!
- Filho, hoje já foi o bastante.
Amanhã... Interferindo, Fernando pediu:
- Amanhã é domingo, não tenho nada para fazer.
Posso vir pegá-lo e...
- Desculpe-me, Fernando.
Mas será bom que Denis tenha consciência de limites ou então ele vai achar que podemos e devemos lhe dar tudo na vida.
Além do que a Amanda já começou a reclamar da ausência do irmão.
- Não tem problema.
A Amanda pode vir junto!
Sorrindo meio sem jeito, Regina agradeceu:
- Obrigada, mas será melhor que eles fiquem um pouquinho em casa.
Aliás, eu estava mesmo planeando dar um passeio no Jardim Botânico.
Denis, que ouvia a conversa, muito esperto interferiu ligeiro:
- Então o Hélder pode vir com a gente, não é, mamãe?
E o pai dele também.
Isso para pagar a minha diversão na casa deles.
Regina se viu em uma situação embaraçosa, mas procurou se sair bem, dissimulando ao dizer:
- Claro que o Hélder pode vir connosco!
Se o Fernando não se importar...
- Mas tomar conta dos três não será muito trabalho?
- A Viviane prometeu que irá comigo.
Estamos querendo que o Renato vá também.
Estamos procurando programas e diversões mais saudáveis.
- Então... - disse Fernando com um gesto singular ao contrair os ombros e sorrir.
Se não for incómodo, eu o trago amanhã cedo e venho buscá-lo no fim do dia.
As crianças gritaram satisfeitas e alegres, saindo correndo para dentro da casa.
Logo, Fernando falou:
- Estou feliz em ver o Renato reagindo.
Conversamos quase sempre por telefone e estou achando que ele está bem.
- Mas não está sendo fácil - reconheceu a irmã.
- Ele me contou que teve crises, mas resistiu.
- É verdade. Houve momentos em que o desejo de beber foi tão intenso que ele chegou a perder o controle emocional.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 11:06 am

Chorou, contorceu-se, gritou, abraçou-se à minha mãe...
Tudo isso pela exigência física e psicológica do álcool.
É terrível ver um irmão se debatendo e esperneando por um gole de bebida alcoólica.
Você não pode imaginar como é isso.
Graças a Deus a Viviane está nos dando muita força nesse momento.
- Eles voltaram a namorar?
- Não. Mas são muito amigos.
Ela o acompanha nas reuniões da associação, lhe faz companhia.
Seu pai também está nos ajudando muito.
- Ora, Regina.
- Nunca vamos nos cansar de agradecer.
- Agradeça a Deus. O trabalho principal nesse tipo de recuperação não é meu ou seu: é dele, que está resistindo.
Desde o início da conversa Regina se exibia um tanto apreensiva, quase nervosa.
Percebendo, Fernando perguntou:
- Está tudo bem?
- Sim, está - respondeu, surpresa.
- É que a notei algo apreensiva.
Sorrindo para disfarçar, respondeu:
- É... talvez um pouco.
- Aconteceu alguma coisa?
- Nada sério.
E que o Jorge foi fazer uma viagem de negócios, e senti algo estranho.
- Como assim?
- Não sei explicar.
Só não gostei da ideia.
Mas ele já telefonou e disse que estava bem.
- Talvez seja porque vai ficar sozinha.
- Sim, talvez seja isso.
Mas já pedi para a Viviane vir dormir aqui comigo.
Vamos ficar bem.
Após o diálogo, Fernando se despediu, pegou Hélder e se foi.
Conforme planeado, o passeio do dia que se seguiu fora óptimo.
Junto com as crianças, ao ar livre e com companhia salutares, Renato sentiu-se bem, mais confiante, pois a cada dia percebia que conseguia ficar mais tempo sem bebida alcoólica.
Os afazeres que lhe ocupavam a mente faziam esquecer do desejo de beber.
Hélder, não acostumado a coisas simples nem a tanta liberdade, ficou fascinado com o passeio e à tardinha, ao chega em casa, não parou de falar detalhadamente sobre tudo o que vira.
Lídia e Rodolfo ficavam encantados com a desenvoltura do neto.
A avó o admirava lembrando que o garoto recordava o filho Cristiano com seu modo de falar e de gesticular.
Somente Lorena não se impressionou nem deu atenção ao que o garotinho relatava.
Sua mente, isolada e sombria entrelaçava-se a sugestões de companheiros espirituais afins.
Freneticamente, Lorena dava espaço a criações mentais convulsionadas de intenções, para ela, lógicas, mas realmente monstruosas e cruéis.
Não afastando de si tais pensamentos, adquiria força coragem desses companheiros espirituais que a envolviam e vibrações densas, incentivando-a a acções sinistras, de consequências hediondas.
Lorena estava mental e espiritualmente enferma, mas ninguém percebia isso, tendo em vista sua aparência normal.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 11:06 am

Logo na manhã seguinte, em seu serviço, assim q organizou suas tarefas, Regina prendeu-se ao telefone até que sua colega Irene aproximou-se, aguardou que terminasse o assunto e, ao vê-la um tanto irritada, perguntou:
- Posso ajudar?
- Preciso marcar um médico com urgência e só consigo uma consulta para quinze ou vinte dias.
- Esse nosso convénio médico é uma porcaria - reclamo a amiga.
Por que não tenta particular?
- É que não conheço nenhum médico e fico preocupada com o preço da consulta particular.
- Não creio que seja tão caro.
Além do mais, vou contar um segredinho:
Você liga para o médico que atende pelo convénio e pergunta qual o valor da consulta.
A secretária vai pensar que é consulta particular, e assim que ela falar o valor você pergunta para quando há uma vaga.
Vai ver como conseguirá uma consulta para amanhã mesmo.
Sabe por quê?
Porque o convénio paga uma mixaria ao médico pelas nossas consultas.
Daí eles sempre deixam uma ou duas vaguinhas reservadas para pacientes particulares.
- Será?
- É sim. Bem - considerou a moça -, não são todos que fazem isso, mais a maioria, sim.
Não posso tirar a razão deles.
A responsabilidade que um médico tem...
Sorrindo com malícia no olhar, Irene sugeriu:
- Liga. Se não conseguir no primeiro, o segundo vai atendê-la.
Regina telefonou e conseguiu a consulta tão desejada.
Sem comentários, trocou olhares com Irene, que somente sorriu.
Bem mais tarde, ambas almoçavam juntas quando Regina comentou:
- Estou até com medo de não ser atendida como mereço depois do que fiz para marcar essa consulta.
- Não se preocupe.
O médico nem vai saber.
Já fui secretária em consultórios médicos.
Veja, nem todos fazem isso e também não podemos culpá-los.
Primeiro que o paciente particular, por pagar à vista, acha que tem de ser atendido imediatamente, e por isso a secretária sempre deixa uma consulta para emergências assim, depois que os planos de saúde abusam demais desses Profissionais tão importantes, além de custar uma fortuna para nós.
Regina parecia distante, e a colega percebeu:
- O que foi?
- Estou com minha cabeça fervendo.
Descobri um negócio.
- Que negócio?
- Mensalmente, dez dias após a menstruação, faço o auto exame de mama.
No sábado à noite, quando o fiz no chuveiro com o auxílio do deslize pelo sabonete e em frente ao espelho não percebi nada, mas quando realizei os mesmos movimentos deitada notei algo diferente.
Acho que é um nódulo, mas é difícil dizer, não tenho certeza.
- Menina! Faz um século que não faço o auto-exame de mama, sempre esqueço.
- Eu, não. Sempre me lembro.
E agora, depois de sentir essa alteração, nossa!
Quase não penso em outra coisa.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 11:06 am

Estou super preocupada, apesar do conhecimento que tenho.
Alguns anos atrás, senti uma vontade imensa e insisti muito para o médico pedir uma mamografia.
0 homem me achou meio maluca por não haver necessidade, relutou, mas pediu.
Fiz e não deu nada.
- Vem cá, você faz o exame embaixo do chuveiro também?
- Claro que faço.
Primeiro porque é bem mais fácil de lembrar quando estamos no banho, e depois, com a água e a espuma do sabonete, a pele desliza, e é bem simples de você se massagear.
Logo depois, quando vou me secar, na frente do espelho faço a mesma coisa; coloco um braço atrás da cabeça e com a outra mão me examino, dedilhando um e depois o outro lado.
Quando chego no meu quarto, deito e repito tudo.
- Nossa, menina, preciso me lembrar de fazer isso.
- Ainda bem que consegui consulta para amanhã.
Essas coisas não podem esperar.
- E o Jorge, já chegou de viagem?
- Não. Ele ligou ontem à noite e disse que vai ficar até o fim da semana.
- Ah! Deixe-me contar uma fofoca!
E olhando para os lados meio desconfiada, Irene a encarou novamente e falou baixinho:
- Sabe a Matilde?
- Sei.
- Ela e o nosso gerente estão tendo um caso.
Tomada de súbita surpresa, Regina arregalou os olhos negros e sobressaltou-se ao dizer:
- O Fernando?!
- Psiiiiiüu...! - reclamou a colega, pedindo silêncio.
Vê se fala baixo - sussurrou.
- Será que isso é verdade?
- Foi a própria Matilde quem disse.
Regina sentiu-se algo enojada com a notícia.
Certamente Matilde queria ser favorecida.
Ela sempre usava roupas chamativas e quase asfixiava, com suas colocações sedutoras, a todos os homens no seu sector de trabalho desde que ocupassem uma posição acima da sua.
"Aquilo era repugnante", pensava Regina com integridade.
Não suportava pessoas falsas e traiçoeiras que mentem e fazem qualquer coisa em troca do que desejam.
Admirava-se em ver Fernando envolvido nisso tudo.
Tomada de sensação enervante, procurando disfarçar sua real opinião, Regina considerou:
- Não vamos ficar falando nisso.
Nem temos certeza de que é verdade.
Sabe, a Matilde pode estar mentindo.
- Não sei, não.
Já vi os dois almoçarem juntos.
- É melhor não nos envolvermos, Irene.
Se o João Carlos e o Alberto chegarem e pedirem para se sentarem aqui connosco, não podemos dizer não.
Eles vão almoçar com a gente e nem por isso estamos tendo um caso com eles.
- Só estou contando a você, viu.
Esse assunto deve morrer aqui.
- Que assunto? - perguntou Regina, sorridente.
A conversa sobre Fernando pouco a incomodou.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 11:06 am

Regina não conseguia parar de pensar em seu problema.
Naquele dia cheio, somente quando chegou em casa na companhia dos lindos filhos conseguiu relaxar e esquecer as preocupações.
Deitada no tapete da sala, Regina ficou à vontade, enquanto os filhos amorosos a beijavam e subiam sobre seu corpo, disputando brincadeiras e carinhos.
Ela os ouvia com atenção e se divertia com eles.
Os risos cristalinos dos três envolviam-nos em alegria salutar e abençoada, fazendo-os aproveitar, realmente, momentos tão importantes na vida de cada um.
Momentos que, infelizmente, a maioria dos pais se negam, tendo em vista a atenção voltada para outros assuntos.
Esses contactos, esse envolvimento com os filhos queridos que Deus nos confiou, além de serem sagrados, são elevados, e somente criaturas superiores são capazes de entender.
Nesses momentos de contacto tão importantes com os filhos amados, Assembleias de Espíritos Sábios e Benevolentes voltam sua atenção a esse facto, que parece simples, tão singular aos encarnados.
E com olhares generosos em admiração de infinita bondade, repletos de vibrações edificantes, ligam-se então aos encarnados queridos, inspirando-os, valorizando-os e os fortalecendo na experiência do dia-a-dia. Regina era uma criatura abençoada, uma alma querida, com caridade e entendimento, pois a caridade começa em casa, com o próximo mais próximo, e a alegria salutar, o bom ânimo, o ouvir, o carinho e o sorriso amigo são as maiores caridades que podemos fazer em nossos lares.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 11:07 am

20 - AS EXIGÊNCIAS DA VIDA

Antes do próximo fim de semana, Jorge retornou de viagem.
Regina ignorava totalmente as intenções do marido e jamais desconfiou de Selma, que, além de sócia e pessoa que ela acreditava generosa e educada, era amiga íntima da família, frequentava sua casa e até fez visitas a seu irmão Renato dias depois de seu retorno do hospital.
Entretanto, havia qualquer coisa que avultava um sentimento estranho que Regina não sabia descrever em palavras, mas sofria por um pressentimento que parecia avisá-la de algo.
Porém, naquela semana, dormira um sono cheio de sobressaltos, inquieto.
Acreditou que isso se dava pela ausência do marido ou por sua visita ao médico, mas em seu íntimo sabia que era o prelúdio de uma situação difícil.
Deixando que Jorge se acomodasse refazendo-se da vagem, ela o cercou e, mesmo notando-o com atitudes sérias, sem carinho e parecendo ter os pensamentos envoltos em sombras, perguntou:
- Como foi a viagem?
Deu tudo certo?
Após um suspiro, ele pareceu indiferente e não entrou em pormenores, falando somente:
- Foi tudo bem.
A esposa aproximou-se, e percebendo que seria envolvido por um abraço ele se distanciou.
Regina não compreendeu o significado daquela atitude, mas já que o marido não tinha nada a dizer ela contou sem rodeios:
- Jorge, essa semana fui ao médico.
No auto-exame de mama senti algo que poderia ser um nódulo.
Assustado, ele parou e ficou olhando-a, expressando preocupação no semblante sisudo. Rapidamente, perguntou:
- O que ele disse?
- Pediu uma mamografia.
Eu já a fiz e só estou aguardando ficar pronta.
Volto lá na semana que vem.
- Mas o médico não disse nada?
Não deu uma opinião mais precisa?
- Não há como ele saber.
Somente a mamografia vai dizer o que é.
Esfregando o rosto e passando as mãos pelos cabelos, Jorge pareceu nervoso, quase irritado.
Procurando ajeitar-se em sua poltrona favorita, ligou a televisão e não disse mais nada.
Sério, parecia enfadado e não queria conversar.
Regina sentiu-se muito mal.
Algo estava errado, ela sentia.
Dando uma olhada nos filhos que brincavam animados no quarto com um brinquedo novo que Viviane lhes dera, e certificando-se de que ficariam ali por algum tempo, ela foi para o banheiro e, durante o banho, que demorou tempo considerável, chorou muito, sem que alguém percebesse.
Os planos de Jorge e de Selma precisavam esperar.
Ele se justificava para a amante dizendo que aquele não era um bom momento para dizer que iria embora.
Disfarçando o sentimento de raiva para não levantar suspeitas com sua insatisfação, Selma argumentou, tentando animar:
- Esse exame não vai dar em nada.
Sabe, acho que Regina está desconfiada de alguma coisa e querendo ganhar tempo.
- A Regina é muito direita.
Ela não faria isso.
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