O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 20, 2016 10:19 am

Ela odiava a sogra.
Lídia agora não seria mais uma ameaça para o seu casamento.
Sem perceber, enquanto pensava, Lorena esboçava no semblante alvo uma fisionomia de agradável realização.
Poucos metros de todos, o pai de Rodolfo, senhor Horácio aquietava-se em sua confortável poltrona sem se manifesta porém, silencioso, ele observava atentamente as expressões de Lorena, que denunciavam, no mínimo, um comportamento bem estranho àquela situação.
Repentinamente, ela se deu conta do olhar vigilante do senhor Horácio e remexeu-se um pouco, procurando se recompor.
Nesse instante a porta principal bateu forte, enquanto o passos rápidos de Kássia avisavam que a jovem subira a larga escada da residência.
Rodolfo imediatamente se levantou e sem pedir licença foi atrás da filha.
Já em frente ao quarto, o pai anunciou sua presença co, poucas batidas na porta, mas não esperou permissão para entra Kássia atirou-se sobre a cama e pouco se importou com presença de Rodolfo.
Austero, o pai pediu sem rodeios:
- Kássia, sente-se direito; preciso falar com você.
Virando-se lentamente, a filha fez um gesto desdenhoso ao envergar os lábios e ergueu as sobrancelhas, exibindo-se insatisfeita.
Os olhos da moça estavam injectados, bem vermelhos.
Olheiras fundas e bem marcantes no rosto pálido anunciavam noites insones, má alimentação e possível uso de drogas.
Rodolfo percebeu pelo odor que a filha havia dias não tomava um bom banho.
Seus cabelos, antes sedosos, perfumados e macios, agora se acobreavam manchados, com aparência ressequida e aspecto grudento.
As unha sujas traziam restos de esmaltes escuros, tortos e feios.
Sem encarar o pai, Kássia perguntou:
- O que foi agora?
A princípio Rodolfo pensou em brigar.
Estava disposto a fazer com que a filha se enxergasse, nem que para isso usasse de força física.
Mas naquele momento teve pena daquela jovem, sua filha.
Ele se sentiu envolvido por algo muito brando.
Sua voz perdeu a força, e seu semblante ficou mais sereno; tranquilo, avisou:
- Gostaria que soubesse que sua mãe foi para o CTI.
Seu estado de saúde piorou, e os médicos não descobrem o que ela tem.
Por um instante Kássia pareceu preocupar-se:
- Então é sério mesmo?
- Sim, filha - disse o pai, procurando com palavras generosas sensibilizá-la.
Acomodando-se ao lado da filha, Rodolfo prosseguiu:
- Hoje eu estive com ela.
Sua voz quase não pode ser ouvida.
Lídia está extremamente fraca, abatida.
Ela sempre teve problemas gástricos, mas nunca assim.
Emagreceu ainda mais.
Ela se preocupa com você, filha.
- Ela não tem de se preocupar comigo.
- Claro que tem. Sua mãe a ama, Kássia.
Nós n preocupamos com quem amamos.
Sei que já falamos sob isso, mas... filha, por que você gosta de viver assim?
O que está faltando a você? - perguntou o pai de maneira dócil.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 20, 2016 10:19 am

- Eu gosto de ser assim, ta!
Isso para mim é liberdade, independência.
- Independência, para mim, é uma pessoa trabalhar para seu auto-sustento.
E poder viver uma vida saudável e normal.
Agora, filha, eu só a vejo agredir a si mesma.
- Lá vem você de novo!
Rodolfo se lembrou de que, da última vez que tentara falar com a filha, esta ficara cerca de dez dias longe de casa e sem dar notícias.
Ele a amava e sabia que, se Deus lhe havia confiado aquele espírito tão necessitado, era porque tinha forças e capacidade para lidar com aquela situação.
Num assomo para suas forças, pela rogativa de bênçãos, a espiritualidade sábia e benevolente agregou-se a Rodolfo e à filha, naquele momento, a fim de ajudá-los.
O pai amoroso não queria que a filha se afastasse de sua guarda, de sua orientação.
Ele procurava, em pequenas doses, passar-lhe orientação e amor, mostrando-se à disposição para apoiá-la no instante em que ela quisesse mudar.
Afinal, como fazem muitos pais, seria fácil mandá-la embora de casa, para que cuidasse da própria vida, bem longe, para não ter com o que se preocupar.
No entanto, Rodolfo sabia que, se assim fizesse, estaria só adiando uma tarefa abraçada.
Quase agressiva, Kássia virou-se, exclamando:
- Daqui a pouco você vai dizer que sou eu quem a deixo assim!
- Não, filha, eu não disse isso.
Sua mãe sempre teve sensibilidades gastrointestinais.
Mas acho que, se você se arrumasse e fosse lá visitá-la, sua mãe ganharia novas forças para se recuperar.
O que você acha de irmos lá amanhã?
Entidades superiores envolviam a jovem com inenarrável amor, a fim de fazê-la ceder ao convite oportuno.
Inquieta, agora andando de um lado para outro, enquanto esfregava as mãos, Kássia respondeu:
- Posso pensar, né?
- Claro. Mas pense que você fará um bem enorme à sua mãe já, então.
A gente vê isso amanhã.
Rodolfo se levantou, olhou com carinho para a filha e disse num impulso:
- Eu a amo, filha. Amo muito.
Virando-se rápido, ele saiu.
Kássia ficou intrigada.
Sempre acreditou que seus pais não a compreendessem, que queriam que ela fosse diferente do que é.
Entretanto, eles não a mandavam embora de casa, como acontecera com todos os seus amigos.
Ela tinha sempre para onde voltar.
Ao caminhar pelo corredor, Rodolfo encontrou com seu pai que já ia se recolher, mas parecia o estar esperando.
- Quero falar com você.
- O que foi, pai?
- Aquela sua nora está doente.
- Como assim, pai?
- Ela esconde alguma coisa.
Precisamos tomar cuidado com pessoas assim.
Rodolfo ficou surpreso e não sabia o que dizer.
Pensou que o pai poderia estar começando a ficar decrépito, talvez pela vida improdutiva que escolhera; alguma debilitação mental poderia estar acontecendo.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 20, 2016 10:19 am

Tranquilo, tentou argumentar:
- Ora, pai, a Lorena está quieta daquele jeito porque a Lídia está internada.
O senhor sabe disso, não é?
- Olha aqui, Rodolfo - interrompeu veemente -, não pense que estou ficando caduco!
Conheço, e muito bem, Psicopatas e paranóicos!
Não se faça de cego e lembre-se de que Lídia já o alertou.
- Espere, aí, pai. Acho que estou confuso.
Não sei do que senhor está falando.
- Venha cá para o meu quarto - intimou o ancião.
Após entrarem e a porta ser fechada, o senhor Horácio contou sem rodeios:
- Um dia eu ouvi você e a Lídia conversando.
Foi sem propósito, mas não pude deixar de prestar atenção quando sua mulher falou que estava achando a Lorena muito estranha.
Lídia achava que havia algo errado com sua nora.
A memória de Rodolfo reavivou-se.
- De facto, lembro-me bem disso.
- Não é a primeira vez que vejo um sorriso brilhar nos olhos dessa moça quando Lídia tem sua saúde abalada.
- Não podemos culpar alguém que não tem compaixão.
Isso não é doloroso.
- Não é isso.
- O que é, então?
- Sou experiente e só acuso quando tenho certeza.
Essa moça tem algo a ver com a doença de minha nora.
- Ora, pai...
- Como sempre você tem as evidências e não acredita nelas.
Lorena é sombria, fria e calculista.
Age sempre com muita normalidade.
Ninguém é sempre tão normal assim.
- Não temos nada contra ela.
- Por enquanto. Mas eu vou lhe provar.
- Olha, pai, amanhã ou depois o Ian chega; ele já está vindo.
Vou conversar com ele e quem sabe...
- Não tente dissimular!
Rodolfo não sabia o que dizer.
Ficou extremamente preocupado.
Era difícil acreditar nas suspeitas que seu pai levantara; no entanto, vendo-o como um homem lúcido, de poucas palavras e muito experiente, decidiu ficar atento.
Rodolfo não sabia por onde começar.
Porém, ficaria atento.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 20, 2016 10:19 am

23 - O QUE A VIDA NOS RESERVA?

Na manhã seguinte, com pequenos gestos agitados e inquietos, como se estivesse nervosa, Kássia procurou pelo pai, dizendo:
- Acho que vou lá ver a mãe.
Com largo sorriso no rosto, Rodolfo se aproximou, encarou-a e respondeu:
- Que bom, Kássia!
Tenho certeza de que dará grande alegria à sua mãe.
- Então, vamos? - decidiu a moça.
- A visita é só depois do almoço.
Façamos o seguinte: vamos almoçar juntos hoje?
- Só nós dois? E o povo daqui dessa casa? Onde ficam?
- Almoçaremos fora.
Kássia, que havia tempos não demonstrava satisfação, esboçou um leve sorriso no rosto pálido, como se estivesse se dobrando àquela forma de carinho.
Porém, demonstrando repentina rebeldia, como desejando agredir o pai, informou:
Só que vou vestida assim! Sem demonstrar a mínima contrariedade, Rodolfo, rápido, argumentou:
- Sem problemas.
Deixe-me só guardar essas pastas e já podemos ir - respondeu ao pensar ligeiro para não perder aquela oportunidade, pois a filha poderia mudar de ideia.
- Não é cedo?
O pai sorriu e avisou:
- Não. Podemos dar uma volta antes de escolhermos o restaurante.
Kássia trajava-se de modo a agredir o convencional.
Esperava que o pai a repudiasse por seus trejeitos devido à opção de vida escolhida.
As tatuagens que Kássia possuía atacavam os olhos das pessoas comuns, inclusive os de jovens da sua idade, de modo a insultar, como uma afronta aos bons costumes ou ao tradicional.
Todavia, a moça reparou que seu pai a aceitava como era, sem recriminações.
Rodolfo era inspirado a fazer com que a filha se aproximasse mais dele.
Com isso seria "aceite em seu mundo", onde, futuramente, poderia ligar-se mais a ela de forma a fazê-la se aproximar mais dele sentimentalmente.
A partir de então a filha provavelmente iria começar a aceitar suas opiniões sobre a vida e sobre a responsabilidade que temos para com o corpo que nos foi confiado.
Pouco depois, num restaurante bem familiar, as pessoas ao redor ficavam inconformadas ao ver aquele alinhado senhor em companhia de uma moça vestida de maneira tão ofensiva.
Kássia fazia gestos e até caretas para aqueles que a olhavam ostensivamente, mostrando inclusive os piercing colocados na língua.
Rodolfo agia naturalmente.
Na verdade ele se sentia feliz.
Havia alguns anos não tinha a filha perto de si por tanto tempo.
De alguma forma, sentia-se amparado, acreditando estar fazendo o que era correto para ajudá-la.
Firme em seus objectivos, o pai, preocupado, decidiu que faria de tudo, de forma amorosa e consciente, para recuperar sua filha.
Isso o ligava a espíritos amigos e elevados que estavam dispostos a ajudar.
Saindo do restaurante, ambos foram para o hospital visitar Lídia.
Kássia tinha momentos de inquietude, mexia-se de um lado para outro, enquanto ela e o pai aguardavam no saguão o horário de visitas.
Nesse instante uma situação inesperada chamou a atenção de todos.
Uma mulher de meia-idade entrou desesperada pelas largas portas de vidro que se abriram automaticamente.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 20, 2016 10:20 am

Chorava aflita enquanto pedia nervosamente que ajudassem seu filho.
Rapidamente surgiu uma maca acompanhada de enfermeiros, os quais foram até o carro parado no estacionamento do hospital.
Em pouco tempo a mesma maca retornou com o enfermo, que se retorcia e gritava.
O rapaz tinha os olhos esbugalhados como se fossem saltar das órbitas.
Com a respiração ofegante, esfregava o peito com as mãos como se o ar não lhe entrasse nos pulmões.
Em um segundo o rapaz estremeceu-se violentamente, depois parou, e foi nesse momento que alguém gritou:
- Parada cardíaca!
Todos pararam, e sem demora, no mesmo local, um médico que chegou começou rapidamente a fazer a massagem cardíaca.
A situação era bem desesperadora.
Sem obter sucesso, o médico solicitou com veemência para que o levassem para a emergência.
A senhora que o acompanhava foi detida, gentilmente, por uma enfermeira.
Havia muitas pessoas no saguão à espera de liberação para o horário de visita, e todos, sem excepção, ficaram atónitos com a cena.
Enquanto o pai do rapaz socorrido preenchia a ficha, a mãe, chorando muito, foi em direcção ao sofá reservado para a espera e acomodou-se num canto, próximo a uma planta e ao lado de Rodolfo e Kássia, que ali aguardavam.
Repentinamente a mulher, com aparência muito sofrida e voz lamuriosa, olhou para Rodolfo e desabafou:
- Meu filho só tem vinte anos!
- O que ele teve? - perguntou o homem.
- Péssimas companhias.
Meu filho sempre foi um bom moço.
Estudioso...
Acabou se envolvendo com uma turma que o tirou do bom caminho.
Rodolfo sabia do que se tratava e, apesar de respeitar os sentimentos dolorosos daquela senhora, acreditou que a situação fosse providencial para que sua filha ouvisse; por isso, perguntou:
- Ele se envolveu em briga?
- Não, moço - esclareceu a mulher.
Os colegas do meu filho mostraram para ele os prazeres da vida, da liberdade, por meio das drogas.
Ele se sentia o máximo e achava que poderia largar dessa "coisa" na hora em que quisesse, mas não.
Mesmo com lágrimas a correr pelo rosto, ela prosseguiu:
- Para resumir, meu filho largou os estudos porque começou a ficar sem inteligência para guardar na memória o que aprendia na faculdade e também porque começou a precisar de dinheiro e mais dinheiro para comprar drogas.
E não pense que isso foi em longo tempo, não.
Ontem, quando estava chorando e arrependido de ter começado a usar essa "coisa", meu filho me disse que estava "cheirando" há uns seis meses, só!
E em tão pouco tempo virou um escravo, um dependente do terror.
Sei que tem gente que demora até menos tempo para fica "ligado" nessa "coisa".
Isso é tão fácil.
- Eu lamento.
- Em pensar que tudo começou com uns coleguinhas chamando-o para ir a alguma festa Rave lá em São Gonçalo.
Ele passou quatro dias fora de casa dançando e pulando.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 10:31 am

Achou que isso havia tirado o stresse que ele sofria na faculdade.
Eu aconselhei, falei e falei, mas o senhor sabe, né...
Os filhos nunca nos ouvem.
Após breves segundos, completou:
- Tudo foi tão rápido...
Ele começou a usar o dinheiro que era para pagar a faculdade, e quando nós não demos mais nada a ele roubou e fez um monte de coisa errada.
Quando virou um farrapo humano, os amigos sumiram.
Ele voltou para casa e pediu ajuda, queria parar, mas não conseguia.
Ontem nossa televisão sumiu e hoje eu o encontrei tendo esse ataque.
Nesse instante, o marido da senhora se aproximou na companhia de uma atendente, que explicou algumas coisas e pediu para que eles a acompanhassem.
A mulher, sem se despedir de Rodolfo, levantou-se e se foi.
Rodolfo não disse absolutamente nada.
Não era preciso.
Ele percebeu que a filha estava atenta àquela conversa.
Kássia ficou inquieta, levantou-se, andou de um lado para outro e reclamou da demora.
O pai explicou que tinham de respeitar o horário de visitas do CTI, pois Lídia não estava mais no quarto particular.
Minutos depois, quando acreditaram que poderiam ir ao CTI, o médico responsável pelos cuidados com Lídia chamou Rodolfo e a filha para conversar.
A notícia não poderia ter sido pior.
Lídia acabava de falecer.
Kássia, com jeito estranho, saiu às pressas do hospital sem que o pai pudesse fazer ou falar alguma coisa.
Atordoado, ele não esperava por esse golpe doloroso que a vida lhe reservara.
Confuso, ligou para o filho, chamando-o ao hospital.
Ao receber o telefonema sobre o falecimento de Lídia, dona Glória decidiu, junto com Viviane, poupar Regina da lastimosa notícia.
Por ter realizado a quimioterapia, Regina não estava muito bem.
Havia dois dias permanecera na cama.
Não conseguia comer, pois as náuseas eram terríveis e constantes; ela mal bebia poucos goles de água ou de soro caseiro.
Sem que a filha soubesse, dona Glória foi ao enterro da amiga de tantos anos.
Durante o velório, a tranquila mãe de Regina teceu silenciosamente suas preces e vibrações de amor.
A pedido de Rodolfo, foi lido um trecho do Evangelho e quando o Espiritismo por uma amiga do casal que, com doces e sábias palavras, trouxe uma dose de conforto aos corações dos presentes.
Lorena recolheu-se a um canto.
Silenciosa, sustentava um brilho estranho no olhar, como se em seu íntimo sorrisse.
Dona Glória reparou no comportamento da moça, estranhou.
Logo, porém, sua atenção se voltou para Ian, sobrinho que acabava de chegar da Europa.
Após cumprimentar a irmã, o primo e o tio, Ian observou o corpo que fora de Lídia, fez em silêncio um oração e acomodou-se ao lado de dona Glória.
Em poucos minutos o rapaz puxou conversa com a educada senhora e não precisou muito para descobrir que se tratava da mãe de Regina.
Após o enterro, a conversa entre ambos se estendeu:
- Minha filha me falou muito de você.
Acho que ficará feliz em vê-lo, só que...
Sabe, meu filho - explicou -, Regina está passando por um tratamento muito delicado.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 10:32 am

- Eu soube que ela precisou fazer uma cirurgia - contou Ian.
Conversei com minha tia várias vezes, por telefone, antes que ela fosse internada; sempre tive notícias de Regina.
- Minha filha está muito frágil e por conta disso não contei a ela que Lídia morreu.
Elas eram muito amigas.
Estou esperando uma oportunidade melhor.
- A senhora fez bem.
Quando estiver melhor, receberá a notícia com menos choque.
Eu queria vê-la, mas acho que seu estado não é bom para receber visitas.
Vou esperar que ela melhore.
Tenho conhecimento de que os primeiro dias após a quimio são terríveis.
- Agradeço sua compreensão.
Mas não deixe de ir, Regina ficará feliz com sua visita.
Anote nosso telefone...
Assim que fez a anotação, Ian despediu-se da senhora e foi para casa junto com os demais parentes.
Ao chegarem na luxuosa mansão, Lorena logo deu algumas ordens às empregadas e à babá de Hélder.
Rodolfo sentia-se perdido, confuso e pouco falava.
Havia orado muito pela saudade que sabia iria sentir da esposa que tanto amava.
Lídia sempre o apoiou, era sua conselheira, amiga e fiel parceira.
Pelo conhecimento que adquiriu na Doutrina Espírita, tinha consciência de que a morte do corpo físico não era o fim; entretanto, sabia, ou melhor, sentia, que agora, sem a esposa querida ao lado, tudo ficaria mais difícil para ele.
Desde que soube da morte da mãe, Kássia havia sumido e nem para o enterro apareceu.
Rodolfo a procurou por todos os lugares que pudesse imaginar, e nada.
Agora, sentado em um sofá, em seu quarto, Rodolfo pensava que teria de desenvolver mais força para lidar com a filha.
Seu tempo era curto devido ao trabalho, às tarefas abraçadas no Centro Espírita.
Pensando em tudo isso, sussurrou com voz rouca:
- Deus! Que falta a Lídia vai me fazer.
Mas sei que, se o Senhor acreditou ser melhor assim...
Agora tenho de continuar e sei que sem ela será bem difícil.
Mesmo com a voz embargada, prosseguiu:
- Dai-me forças, Pai.
Se não for pedir muito, fazei com que Kássia, minha filha querida, curve-se à realidade.
Fazei com que ela enxergue o mal que está fazendo a si mesma.
Peço que minha filha ouça meus conselhos, minhas orientações para o caminho do bem.
Gostaria que, de alguma forma, espíritos de esfera superior envolvam seu coração, fazendo com que me veja como amigo, como apoio.
Vou me dedicar à minha filha.
Suaves batidas na porta chamaram sua atenção.
Recompondo-se, Rodolfo esfregou os olhos com as mãos e pediu:
- Entre.
Era Eunice, a empregada, que ainda trazia os olhos vermelhos e inchados.
A moça, mesmo abalada com os acontecimentos, não deixava de se preocupar com a família sob seus cuidados.
Procurando controlar a voz, perguntou:
- Senhor Rodolfo, acreditei que seria melhor preparar uma refeição bem leve.
Apesar de dona Lorena ter pedido outra coisa, fiz uma sopa e gostaria de saber se o senhor quer ser servido aqui ou...
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 10:32 am

Educado, ele a interrompeu:
- Agradeço muito, Eunice.
Mas estou completamente sem fome.
- O senhor não se alimenta desde ontem.
- Acho que preciso de um bom banho e descansar pouco.
- Sei que era a dona Lídia quem preparava o seu banho, suas roupas... - a voz da empregada estremeceu, e ela perdeu as palavras.
- Não precisa se preocupar, Eunice.
Acho que é melhor eu me acostumar a ficar só desde já.
Mesmo assim, obrigado.
- Sim, senhor.
Ao dizer isso a moça saiu do quarto, desceu as escadas, e enquanto se dirigia para a copa Lorena apareceu à sua frente com pose arrogante, ordenando:
- Quero o jantar servido em vinte minutos.
Humilde e com modos quase acanhados, Eunice avisou:
- O doutor Horácio disse que vai tomar uma sopa em seu quarto, o senhor Rodolfo não quer nada, e o senhor Fernando acabou de dizer que não quer jantar; disse que mais tarde vai tomar um chá.
E o senhor Ian disse que também não quer nada.
Devo servir só a senhora?
- É lógico!
Para que você está aqui? - respondeu Lorena com modos agressivos, virando-se em seguida.
Naquele mesmo instante Fernando e Ian conversavam no quarto.
Muito abatido pela morte da mãe, Fernando desabafava.
- Minha mãe sustentava a todos nessa casa.
Ela sempre, com sua sabedoria, encontrava uma maneira de nos clarear o entendimento.
Não faço ideia de como será agora sem ela!
- É hora de colocar em prática o que ela ensinou.
Sabe, Fernando, sempre gostei de ter longas conversas com a tia Lídia.
De alguma forma ela era superior a todos.
Aprendi muito com ela e lamento não ter tido mais oportunidade.
- Você sabe que meu casamento só durou por causa dela.
- Sim, eu sei.
- Há momentos em que Lorena é insuportável.
Ian sorriu ao admitir:
- Confesso que não sei como foi se casar com minha irmã.
Minha mãe sempre me alertou sobre o facto de eu ser responsável pelo que faço.
Tenho de me harmonizar com minha mulher, começar a passar alguns conhecimentos que ela precisa adquirir.
Se bem que Lorena melhorou muito desde a morte de seu pai.
Às vezes, quando conversamos, eu a tolero e vejo o quanto precisa crescer.
- Isso é importante.
Não adianta você somente ficar casado com ela e manter-se omisso a tudo à sua volta.
- É exactamente isso o que acabei enxergando.
Passei a conversar mais com ela, falo que é na simplicidade da vida que encontramos a felicidade.
Comecei a ensinar que, quando partirmos desse mundo, levamos exactamente o que trouxemos de material, isto é, nada.
Que somente criaturas que cultivam valores morais, pessoas humildes e bondosas são amparadas.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 10:32 am

- Vejo que aprendeu muito com Lídia.
Você não está só mantendo seu casamento, está procurando elevar sua esposa, e essa era sua tarefa com ela...
- Mas, você sabe, a Lorena, apesar de estar mais receptiva, às vezes parece uma parede.
Ela ouve e não muda, continua arrogante, exigente e caprichosa.
- Isso já é problema dela.
Não perca sua oportunidade de oferecer o que há de melhor a ela, ou seja, de "pagar" algo que deva a ela.
Nesse instante, Ian sorriu junto com o primo, que confessou:
- Minha mãe me fortalecia muito com essas orientações.
Foi por ela que não me divorciei.
Aproximando-se, Ian comentou:
- Você tem capacidade, Fernando.
Vai conseguir cumprir sua
Se Lorena não cumpre a dela, isso não é problema seu.
Ao saírem do quarto, eles depararam com Lorena, que chamou para jantar.
Fernando logo avisou que estava sem apetite e queria tomar um banho, retirando-se para sua suíte.
Com os olhos faiscantes, exibindo contrariedade, Lorena o seguiu com o olhar até que entrasse no quarto.
Seu irmão, ao se ver a sós com ela, chamou-lhe a atenção:
- Assim que chegamos do enterro vi você dando ordens, pedindo isso e aquilo...
Lorena, não acha que está sendo insensível?
Todos nessa casa estão sofrendo com o ocorrido.
Não é o momento de pensar em jantar, em mesa ou pratos.
Lorena quase sorriu e o encarou de modo estranho convidando-o ao entrelaçar seu braço:
- Vamos jantar nós dois.
Já que eles não querem no acompanhar...
Experimentando um choque em seus sentimentos, Ian questionou ao afastar-se dela.
- O que deu em você, Lorena?
Que atitudes são essas?
Não se contendo, Lorena riu e falou:
- Se você não quer, jantarei sozinha.
Virando-se, a esposa de Fernando caminhou como se deslizasse até as escadas e descendo suavemente degrau por degrau esboçava um largo sorriso de satisfação.
Ian, a certa distância, ficou incrédulo, observando a atitude e o comportamento da irmã, percebendo que algo estava errado com ela.
Ostentando ar vitorioso, Lorena acomodou-se na cabeceira da mesa da sala de jantar e foi servida pela empregada.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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24 - MENSAGEM DE AMOR

Com o passar dos dias, depois de reflectir muito sobre tudo o que acontecera, Regina, que agora se sentia um pouco melhor, procurou pelo marido a fim de conversarem sobre a situação pendente entre eles.
Afinal, Jorge quis conversar, e ela não se sentia preparada para o assunto; estava muito chocada com seu estado e a surpresa da traição.
Entretanto, agora, sentia-se um pouco mais segura e sabia que não poderia fugir daquele assunto a vida toda.
Aproveitando que as crianças haviam ido com Viviane até a casa de sua mãe, Regina acomodou-se ao lado do marido, que assistia um programa na televisão.
Esperou dele um afago, um olhar atento, mas não houve.
Porém, falou:
- Jorge, vamos conversar?
Imediatamente percebeu um ar contrariado no semblante do marido.
Ele pegou o controle remoto, apontou para o aparelho ligado e o apertou, dizendo:
- Pronto. Vamos conversar.
O marido mostrava-se novamente insensível, e Regina, apesar de tudo, queria decidir aquela situação.
Temerosa e insegura, vacilante com as palavras, perguntou:
- Outro dia você disse que queria ficar comigo, que havia-se arrependido do que tinha feito.
- Olha, Regina, estou confuso.
- Confuso com o quê?
- Com o nosso casamento... comigo mesmo.
- Há outra mulher?
Olhando-a firme, ele avisou:
- Houve. Porém sinto que agora não quero ter ninguém.
Mas sei que você está doente e precisa de mim.
- Meus problemas não podem obrigá-lo a ficar comigo.
Dói muito mais vê-lo assim, frio, apático, do que...
- Eu sei que dias atrás pedi que me perdoasse e que queria reparar o que fiz de errado, mas acho que me vi impelido pela situação, pelo seu sofrimento, entende?
Sei que você é uma mulher forte...
Com lágrimas a correr pelo rosto, Regina desabafou, interrompendo-o:
- Você nunca perguntou o que eu sentia.
Nunca quis saber como eu estava, nem pediu para ver minha cirurgia.
Esperei que viesse me confortar, que me desse carinho... quis seu abraço e não o encontrei.
- Regina, desculpe-me, mas sou fraco para essa situação.
- E fugir é o remédio para você?
- Talvez...
- E se fosse com você mesmo?
Como fugiria de você mesmo?
Jorge não sabia o que responder.
Levantando-se, ele caminhou um pouco, exibindo nervosismo, depois perguntou:
- O que você quer que eu faça?
- É você que tem de descobrir o que é capaz de fazer, não por mim, mas por você mesmo.
- Acho que não estou sendo uma boa companhia nesse momento.
- Ao contrário, sou eu quem não sou uma boa companhia nesse momento - respondeu ela, sem conseguir deter as rimas.
Creio que o que queria de mim você já teve.
Não tenho mais nada para lhe oferecer.
Sinta-se livre para fazer o que quiser.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 10:32 am

- Você está me mandando embora?
- Não. Você já se retirou da minha vida há tempos.
Regina foi para o quarto, onde se trancou e chorou muito.
A princípio, deparou-se com pensamentos revoltantes e cruéis.
A experiência nessa doença tão cruel ao corpo leva a um alto grau de sensibilidade, insegurança, e infelizmente aqueles que não se vigiam revoltam-se.
O carinho, a compreensão e a atenção dos entes queridos são verdadeiros bálsamos para o alívio das dores físicas e sentimentais.
O amor é o remédio que cura o espírito abalado por qualquer doença do corpo físico.
E é no espírito que verdadeiramente toda cura se inicia.
Regina sentia-se carente do remédio do amor e do bálsamo do carinho e da atenção por parte do marido que não lhe fora fiel ao compromisso assumido.
Nunca estamos ao lado de um necessitado por mero acaso.
Se isso ocorre, sempre temos o que oferecer e pelo que nos dispor.
Negando-nos, acumulamos em nós o negativismo cruel da emoção, perdendo a oportunidade de servir e de harmonizar o que precisamos.
Temerosa, Regina não sabia o que pensar.
Estava triste, sentia-se insegura com o tratamento que iniciava, pensando sempre:
"Será que vai dar certo?"
Havia momentos em que se fortalecia devido às palavras optimistas que recebia, inclusive de estranhos, os quais encontrou na Primeira sessão de quimioterapia.
Mas sua esperança perdia força ao se deparar com a indiferença do marido, que deveria apoiá-la e amá-la.
Regina se lembrou de que, desde quando se olhou no espelho do hospital, depois da cirurgia de mastectomia radical, pensou que nunca mais seria a mesma.
E realmente isso estava se confirmando.
"Não mais terei uma vida normal", pensava.
Dias e noites experimentava silenciosamente no íntimo de seu ser o pânico de não ser mais a mesma, de não ser amada, de ser rejeitada.
Chorava escondida, durante o banho, ao observar cada milímetro da cicatriz marcante em seu peito e em sua alma.
Não contava para ninguém sobre suas aflições.
Achava que a amiga fiel e sua mãe já tinham trabalho demais com aquela situação toda.
Regina amava a Deus e respeitava os Seus desígnios.
Seus momentos de tortura, de insegurança, que se exibiam em choro doloroso, não significavam falta de fé em Deus.
Um espírito, quando elevado, sensibiliza-se, emociona-se e chora diante de certas ocorrências.
Até Jesus chorou.
Regina, mesmo confusa, buscava, em sua fé no Pai Criador, forças para vencer e superar aquele momento tão difícil.
Atirando-se sobre a cama, chorou e orou:
- Deus, me ajude!
Não aguento mais.
Acabou adormecendo.
Poucos segundos se fizeram, e Regina, atordoada pelos pensamentos conflituantes, pensou ter ouvido uma voz suave.
Detendo o choro, parou, esperando para ouvir novamente.
Foi quando percebeu que havia alguém ao seu lado.
Ela tirou o rosto do meio dos braços, secou-o rapidamente e olhou onde acreditou ter percebido alguém.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 10:33 am

Surpresa, Regina deparou com um rapaz bonito, de aparência nova, que se trajava normalmente, como a maioria dos moços de sua idade.
Ele ofereceu um generoso sorriso e, sentado na cama, exactamente a seu lado, estendeu-lhe a mão para que se apoiasse ao sentar.
Pegando-lhe na mão, Regina se sentou e afastou os cabelos desalinhados do rosto.
Ela mantinha os olhos arregalados, sem piscar, e exibindo espanto perguntou com voz rouca, sussurrando, sem deixar de encará-lo:
- Quem é você?
Como entrou aqui?
O jovem sorriu ao dizer:
- Sei que o momento é de tristeza, mas acredito que só sorrimos de verdade depois que choramos tudo o que temos de chorar.
O Pai da Vida sempre nos ampara, mesmo quando pensamos que estamos sós e abandonados.
- Eu sei - respondeu temerosa.
Mas é errado querer ter ao lado alguém que nos conforte?
- Não. Nunca é errado querermos algo.
No entanto, Regina, é bom pensar que temos força para enfrentarmos qualquer situação, e quando realmente não somos capazes Deus nos socorre.
- Meu marido não consegue conviver comigo assim, doente como estou.
- Será mesmo que ele age dessa forma porque você está nessa condição?
Ela baixou o olhar ao responder:
- Acho que o Jorge me deixaria de qualquer maneira, não é?
Compreenda que nenhuma união se realiza para terminar em divórcio, em separação.
Mas devemos aceitar a pequenez do companheiro que não é equilibrado, que não sabe aceitar, amar, harmonizar...
Se ele está perdendo essa oportunidade, não é necessário que você a perca também.
- Como assim?
- Não se escravize na total dependência dele.
Infelizmente Jorge não aproveitou o que você ensinou a ele.
- Eu me sinto abandonada.
Queria ter ao lado meu marido, meu parceiro, meu amigo.
É tão doloroso não ter com quem dividir dúvidas, medos.
Queria ter um abraço solidário, carinhoso. Isso é errado?
- Não. Como já disse, não é errado querer isso.
Mas Pense, Regina:
não é correto você cair porque ele declinou.
Não é certo você se entregar ao desânimo se ele se entregou.
Vamos dizer que, se era a obrigação de Jorge apoiá-la e não o fez, você não tem de necessariamente se desesperar e desistir.
Sabemos que, quando precisamos e quando realmente merecemos, vai aparecer, no momento certo, o amparo, o abraço amigo e carinhoso do qual somos dignos.
Se esse abraço, se esse carinho não surgir, é sinal de que tem condições de se sustentar sozinha.
Depois de pequena pausa, comentou:
- Lembre-se de que nunca estamos sozinhos.
E as companhias que temos são sempre a imagem dos nossos pensamentos.
Ele ofereceu singelo sorriso, e ela lembrou:
- Estou sempre me vigiando para não cair em lamentações e com isso não atrair para junto de mim espíritos sofredores ou zombadores.
Mas às vezes é tanta dor, é tanta dúvida que me sinto insegura.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 10:33 am

- Deus é capaz de compreender nossos limites humanos.
Você sabe disso. Ele não castiga ninguém pela insegurança.
- Eu sei. Mas e se o Jorge se for?
E os meus filhos?
O que vou explicar para essas crianças?
Se eu não estiver bem fisicamente, como vou cuidar deles?
Mal consigo ficar com eles.
A casa está triste, não saímos mais para passear...
Não sei o que faço.
- Viva bem o momento presente.
Não importa a quantidade, mas sim a qualidade da sua presença na vida de seus filhos.
Lembre-se, Regina:
seus filhos são espíritos queridos que Deus lhe confiou aos cuidados.
Eles podem estar hoje com você, mas são filhos de Deus.
Compreenda que o que lhes acontecer é ou será necessário para a evolução de cada um.
- Eles são apegados ao pai.
Vão sofrer muito.
- Talvez isso os faça crescer, não acha?
- Sempre me senti forte, confiante.
Agora estou sensível, deprimida e fraca.
- Você, Regina, tem uma grande capacidade dentro de si.
Por um instante pode enfraquecer e se abalar, mas em seu âmago existe a fé raciocinada que acredita na reforma, na transformação.
Como muito poucos, você consegue enxergar bem nos supostos males da vida terrena.
Haverá momentos difíceis e dolorosos, mas creio que pela sua fé, pelo seu amor, vai conseguir superar e, apesar das lágrimas, sorrirá e se elevará pela esperança, pelo amor, erguendo consigo muitos outros.
- Do jeito em que me encontro hoje é difícil pensar em ajudar alguém.
Quando estava bem de saúde, nunca fiz nada por ninguém.
- Você já me ajudou tanto!
- Eu?!
- Sim. Você mesma.
- De onde nos conhecemos?
- Não nos conhecemos. Não que eu saiba.
Podemos nos ter encontrado, mas ainda não me foi revelado algo sobre isso.
Porém, certa vez eu me sentia confuso, tudo era novo e muito diferente em certo estágio.
Sem entender, comecei a receber vibrações que em mim eram algo que se transformava em sentimento de tristeza.
Fiquei deprimido.
Foi então que você surgiu na vida de minha mãe com a luz do entendimento, confortando o seu coração oprimido.
Suas palavras mostraram a ela um caminho seguro, repleto de instrução, elevação e fé.
Minha mãe passou a se sentir segura, e sua segurança me trouxe alívio, equilíbrio e paz, pois seus pensamentos edificantes me serviram como bálsamo.
Apesar da tristeza e da dor, minha mãezinha se ergueu, renovou-se em atitudes e pensamentos mais salutares.
Você não imagina como sua dedicação com suas explicações me foram úteis.
Se hoje eu e minha mãe estamos bem, devemos a você.
Agora ela já está comigo e descansa para se acostumar à nova vida.
Orei a Deus, pedindo que a amparasse, para que nunca precisasse, mas caso fosse necessário, gostaria de estar à altura de poder confortá-la.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 10:33 am

Hoje me foi concedido esse abraço que espero lhe sirva como um carinho, como uma mensagem dizendo que os verdadeiros amigos nunca se afastam.
Tudo é questão de tempo e de ajuste.
Ao terminar, o rapaz estendeu-lhe as mãos, e Regina entregou-se ao confortável e carinhoso abraço.
Algumas lágrimas de emoção rolaram na face abatida da moça, que por fim falou:
- Você é uma mensagem de amor.
Ainda abraçada, escondendo o rosto em seu ombro, ela disse baixinho:
- Às vezes me pergunto por que passo pela difícil prova do câncer.
Desculpe-me, mas essa questão é inevitável.
Bondosamente o rapaz afagou-lhe os cabelos, argumentando:
- Já basta o sofrimento físico.
Não torture sua consciência.
No dia em que estiver preparada para não sofrer, saberá.
Quando não estamos preparados, a memória é o pior de todos os carrascos.
- Fui eu quem solicitou essa prova tão difícil?
- Você acha que foi?
- Acho.
O jovem respondeu com doce sorriso sábio e silencioso.
Regina aquietou-se no abraço revigorante e não mais se desesperava aflita como antes.
Sentia-se agora extremamente confiante e calma.
E foi naquele silêncio oportuno que ela se renovou com bênçãos salutares.
Ela não marcou o tempo, não sabia há quanto estava ali, mas assustou-se ao se ver deitada sobre sua cama com a cabeça onde deveria estar os pés.
Assustada, Regina procurou pelo rapaz com quem conversou e... nada!
Levantando ligeiramente, foi até a porta do quarto, certificando-se de que estava trancada pelo lado de dentro.
Inconformada, foi até a janela, que também continuava fechada.
Sentando-se novamente na cama, Regina passou as mãos nervosas pelos cabelos, esfregou o rosto e murmurou:
- Meu Deus! Será que sonhei?
Com os doces olhos negros ainda arregalados, não conseguia se tranquilizar depois do que experimentara.
Um barulho na sala indicou que as crianças haviam chegado.
Regina precisava falar com alguém.
Apressada, recompôs-se e foi à procura dos seus.
Dona Glória, que estava com o semblante triste, arrumava nas gavetas do quarto das crianças algumas roupas dos pequenos.
Regina, quase afoita, foi ao seu encontro, chamando-a:
- Mãe! A senhora não sabe o que me aconteceu!
Tomando as mãos cansadas da generosa senhora, Regina a fez sentar e, com a voz trémula, contou-lhe detalhadamente tudo sobre o ocorrido, enquanto algumas lágrimas lhe comam no rosto.
- O curioso, mãe, é que eu não insisti em saber quem era nem como entrou ali.
Tranquila diante do relato afoito da filha, dona Glória perguntou:
- Você acha que não foi sonho?
- Tenho certeza de que não foi sonho.
Eu estava consciente, peguei em sua mão, abracei-o...
Toquei nele!
- E quem você acha que é? - perguntou a mulher com simplicidade generosa.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 10:33 am

Detendo-se por alguns segundos, Regina ergueu o olhar e respondeu:
- Mãe, eu não conheci o irmão do Fernando; não sei por que, mas acho que é ele.
Regina experimentou uma forte emoção ao dizer isso, mas prosseguiu:
- O estranho foi ele dizer que a mãe estava com ele e descansando para se acostumar à nova vida.
Os olhos de dona Glória ficaram rasos de lágrimas, e ela revelou:
- Sabe, filha, você realizou a primeira sessão de quimio, teve de tomar remédio para enjoo, estava fraca e mal bebia.
Foi pensando em protegê-la que pedi para que ninguém a avisasse.
Imediatamente Regina entendeu a mensagem e perguntou:
- Então a dona Lídia...
- Sonho ou não, filha, você recebeu uma mensagem, um aviso de que Deus e os amigos verdadeiros olham por você.
Regina estava sensível.
Logo, abraçou-se à mãe e chorou em silêncio.
Assim que se recompôs, Regina se afastou do abraço e falou:
- Mãe, o Jorge...
Sua voz não saiu, e a mãe completou:
- Eu sei. Ele foi lá em casa e conversamos um pouco no portão.
O Jorge nem entrou.
- Então ele já foi?!
- Ele disse que iria para um hotel.
Amanhã vem pegar algumas coisas.
Um sentimento de frustração e decepção dominou Regina.
Ela estava indignada.
- Algumas coisas, não!
Ele vai levar tudo o que é dele.
Por favor, mãe, ajude-me a fazer as malas dele agora.
Amanhã vou deixar tudo na garagem, o Jorge nem precisa se dar ao trabalho de entrar.
E quando ele vier...
- Regina, calma, filha. Você está fraca.
Não pode fazer isso.
Sem dar ouvidos ao que sua mãe dizia, Regina reuniu suas últimas forças recolhendo tudo o que era do marido.
Ao terminar, caiu num choro compulsivo e comovente.
A situação era difícil; dona Glória e Viviane não sabiam como agir.
O máximo que podiam fazer era ficar presentes, oferecendo carinho, compreensão e palavras confortantes, além de cuidar das crianças, para que não vissem a mãe naquele estado.
No dia seguinte, antes de ir ver Regina, Jorge procurou pela sogra.
Acreditando estar poupando a saúde da filha, a mulher foi até sua casa e, sem que Regina percebesse, sinalizou para Viviane que iria pegar as malas na garagem.
- Regina, vamos ligar o rádio?
Você se incomoda? - animou-se Viviane.
Muito abatida e desanimada, Regina sorriu ao dizer:
- Como quiser.
- Vamos dançar, mamãe? - pediu Amanda.
- Oh, filhinha, a mamãe está tão cansada.
Dance você para eu ver.
Com o som um pouco mais alto, Viviane começou a dançar com Amanda, e com a chegada de Denis, que sempre estava agitado, todos ficaram animados.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 10:34 am

Minutos depois, quando percebeu que estava passando na televisão o seu desenho animado preferido, saiu correndo e gritando:
- Desliga!
Desliga essa música que eu vou ver meu desenho!
Amanda o seguiu, e Viviane sorriu, desligou o som e sentou-se ao lado de Regina.
- Puxa! O Denis "põe fogo mesmo"!
Que energia!
- Viviane, olhe.
Ao dizer isso, Regina puxou vagarosamente farta mecha de seu cabelo e avisou:
- Está caindo tudo.
A amiga se surpreendeu.
Apesar de já esperarem por isso, houve certo choque, uma dor mista a uma sensação de perda.
Viviane não sabia o que dizer, e Regina ainda mostrou:
- Não é só o cabelo, veja as minhas unhas como estão escuras, quebradiças...
Tomada de forte energia, Viviane decidiu:
- Não vá ficar se deprimindo por causa do cabelo.
Vamos raspá-lo todo.
Regina, pela surpresa, riu e perguntou:
- Raspá-los?!
- Claro! Aliás, isso está virando moda.
Depois daquela actriz famosa que raspou a cabeça para representar um papel na novela, estou vendo um monte de mulher careca na praia.
E não vamos parar por aí!
Vamos cortar essas unhas bem curtinhas, pintá-las bem bonitas...
Vamos fazer uma maquilhagem leve para tirar essa palidez e colocar um par de brincos bem bonitos.
Regina gargalhou, não resistindo aos modos de Viviane.
- Ah! As crianças vão me ajudar!
- Viviane, você enlouqueceu??? - perguntou rindo.
- Não! Péraí que eu já volto.
O que era para ser triste e deprimente acabou sendo tranquilo e engraçado.
Viviane chamou Denis, que adorou a ideia de ter uma tesoura modelo infantil, ou seja, sem ponta, para cortar os cabelos da mãe como quisesse.
Viviane cobriu Regina com um lençol, e o garoto sentiu-se realizado.
Amanda, a princípio, achou estranho, mas depois também gostou da ideia.
Enquanto isso, Viviane preparava as unhas, que receberiam generosa camada de esmalte para cobrir algumas manchas escuras e ter aspecto melhor.
Depois que as crianças fizeram o que queriam com os cabelos da mãe, Viviane tomou a frente e de posse de uma máquina apropriada fez os retoques finais.
A amiga fez uma suave maquilhagem e colocou um belo par de brincos, o que deu um ar todo especial em Regina, que verdadeiramente não conseguia ficar sem beleza.
Regina só ria e aceitava o tratamento como brincadeira.
Viviane pintou suas unhas das mãos e dos pés com muito capricho.
Quando Doroteia e dona Glória chegaram, surpreenderam-se, mas gostaram do novo visual.
Regina era dona de uma alma bonita, por isso nada a deixava feia.
- Mamãe, agora vamos passear! - pediu Denis.
- É sim, mamãe, vamos! - insistiu Amanda.
Ninguém acreditou quando Regina pediu:
- Só me tragam outro chinelo, ou melhor, aquele tamanquinho branco "de dedo", senão vou estragar as unhas.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 10:34 am

Imediatamente os filhos obedeceram, e Regina avisou:
- Só não vamos muito longe porque a mamãe não está bem do intestino.
- Filha...
Antes que dona Glória argumentasse, Regina avisou:
- Estou bem, mãe.
Estou viva. Estou vivendo.
Depois disso, Regina tomou as mãos dos pequenos, um de cada lado, e saiu para um breve passeio ao sol.
A energia, a força motriz de cada um vem da motivação daqueles que o acompanham, mas também, e acima de tudo, do seu coração e da sua vontade íntima de melhorar e vencer.
- Todos podemos!
E Regina, apesar do físico debilitado, apesar da solidão que enfrentaria com a ausência do marido, sabia que somente sua vontade a faria vencer aquela situação.
A curiosidade dos conhecidos era inevitável.
Até os estranhos a olhavam com indiscrição.
Ela teve de enfrentar pessoas maldosas que, com curiosidade aguçada, não diziam nada positivo e sem pensar no que falavam só relatavam as tragédias que viram ou ouviram de outros, como se quisessem determinar que a desgraça ocorrida com outra pessoa, Regina deveria se preparar para experimentar.
Esses irmãos em crescimento moral na escala evolutiva da criação não cultivavam o bom senso e o amor ao próximo e acreditavam que possuíam, em sua pequena sabedoria, recursos para determinar o padecimento infeliz dos outros, sem oferecer votos saudáveis de bom ânimo e esperança.
Mas Regina, apesar do coração machucado, não se importava com esses irmãos menores, procurando realmente Usar sua aparência, seu estado, como um alerta para inúmeras mulheres que, ao vê-la e saber de sua situação, procurariam se Prevenir e defender-se com antecedência da terrível chaga do câncer.
Regina, literalmente, com seu coração bondoso, usava-se caridosamente como um grande alerta, não se envergonhando da situação que enfrentava.
Normalmente, quando temos vaidade e orgulho, o pior dos males ao crescimento evolutivo, costumamos dizer que "temos vergonha de nos expor", quando, na verdade, deveria ser um acto caridoso de nossa parte alertar os irmãos do caminho.
Regina nunca soube, mas todas - todas! - as mulheres com as quais conversou por breves minutos explicando o motivo de sua perda de cabelos fizeram o auto-exame de mama e procuraram cuidar, digo, vigiar melhor o corpo que lhes fora emprestado por Deus.
Muitos de nós, infelizmente, ainda desejamos por orgulho omitir a verdadeira realidade, quando deveríamos servir de exemplo aos outros, para impedir que muitos enfrentem a mesma situação dolorosa.
O sociólogo Betinho nunca escondeu ser portador do vírus da AIDS.
"Estrelas" famosas de teatro, cinema e televisão divulgam que experimentam o câncer, fazendo com isso que muitas mulheres se voltem a determinados cuidados tão importantes e esquecidos.
Todavia, infelizmente, o machismo ainda impede homens de divulgar seus problemas com o câncer de mama - apesar de ser menor entre homens, existe! -, o de próstata etc., oferecendo resistência à divulgação de cuidados necessários.
É algo para reflectir.
Quem sabe não será essa a missão de um enfermo em estado grave?
Vencer o orgulho e usar-se como mensagem de amor e talvez, quem sabe, por acréscimo de misericórdia Divina, experimentar e não necessariamente sofrer a doença?
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 10:35 am

25 - A IMPORTÂNCIA DO PERDÃO

Naquela noite chuvosa, em que os trovões esbracejavam no céu, a insónia dominou Rodolfo, que se revirava de um lado para outro na cama.
Seus pensamentos corriam céleres; desde a morte da esposa não tivera notícias da filha.
Ele havia contratado, inclusive, um investigador particular para localizar Kássia, mas isso havia-se dado há poucos dias, e o profissional ainda não tinha novidades.
Inquieto, levantou-se e saiu do quarto sem saber o que faria e sem planos de onde ir.
Quando acabou de descer as escadas, deparou com Eunice, que entrava na sala de estar.
A empregada estava com roupas de dormir e exibia seu constrangimento ao prender com as mãos rente ao corpo um robe muito simples.
Surpreso com a presença da moça, Rodolfo franziu o semblante preocupado ao perguntar:
- O que foi, Eunice?
- Desculpe-me, senhor Rodolfo, é que o Américo bateu na minha janela e me acordou para... é que...
Ela estava sem jeito para explicar o ocorrido e gaguejava enquanto tentava pensar.
- O que aconteceu, Eunice? - insistiu o patrão.
- Não se assuste, senhor Rodolfo, mas é que eu achei melhor que o senhor soubesse.
- Soubesse o quê? - perguntou, procurando não s demonstrar irritado, a fim de não inibir ainda mais empregada.
- Sabe, ela pediu, implorou para eu não chamar o senhor mas acho que é preciso.
Eunice torcia as mãos mostrando-se muito nervosa preocupada.
- Calma, Eunice.
Vamos por partes.
De quem você está falando?
- Da Kássia, seu Rodolfo.
- Onde ela está? - perguntou ele em baixo tom de voz.
- O Américo abriu o portão para ela, que não quis entrar na casa.
Sabe, está muito nervosa.
Então o Américo me chamou.
Eu e a Lúcia estamos tentando acalmá-la.
Bem, daí achou que seria bom chamar pelo senhor.
Mas não quero que a Kássia fique com raiva de mim.
- Onde ela está?
- Lá no meu quarto.
Olhe, eu saí para fazer um chá.
Deixe-me voltar primeiro, depois o senhor vai lá como se não soubesse de nada.
Rodolfo estava surpreso, preocupado demais e mal conseguia raciocinar.
Pendendo com a cabeça positivamente, ele concordou com Eunice e avisou:
- Pode ir. Logo estarei lá.
Passados alguns minutos angustiosos, Rodolfo chegou vagarosamente no quartinho da empregada e, como se não soubesse da nada, chamou:
- Eunice. Poderia preparar algo para mim?
Nesse instante ouviu o choro da filha.
Eunice apareceu à porta com os olhos estatelados e com a voz trémula perguntou:
- O que o senhor quer, seu Rodolfo?
- Quem está aí com você, Eunice?
Ouvi choro.
- É...
A moça gaguejou, e ele, propositadamente, empurrou a porta devagar para olhar.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 10:35 am

Kássia estava jogada sobre a cama.
Lúcia, a cozinheira, acariciava-lhe, procurando consolá-la.
Meigo, em baixo tom de voz, Rodolfo se aproximou e agachou-se ao lado da cama, dizendo:
- Filha, o que aconteceu?
Kássia estava molhada; ao erguer o rosto, via-se que a bela menina havia-se transformado em uma moça feia, maltratada e sofrida.
Por um instante Rodolfo sentiu vontade de agitá-la, talvez de estapeá-la para que tomasse consciência do que estava fazendo consigo mesma e com sua família.
Mas não. Respirou fundo e pensou:
"Essa ideia de agressão não é minha.
Amo minha filha, e isso só a afastaria de mim.
Vou demonstrar-lhe o meu amor".
Falando com bondade, pediu:
- Venha, filha.
Vamos para o seu quarto.
A moça precisa dormir.
Kássia agarrou em seu pescoço e chorou muito.
Logo depois, ao levá-la para o interior da luxuosa residência, Rodolfo pediu delicadamente:
- Tome um banho quente.
Troque essas roupas por outras mais confortáveis.
Isso vai fazer você se sentir melhor.
Kássia ficou parada por alguns instantes como se estivesse em choque.
Logo, circunvagou o olhar por todo o seu quarto e não disse uma única palavra.
Eunice chegou à porta trazendo uma bandeja com uma xícara de chá, dizendo:
- É de cidreira.
É bom para ela se acalmar.
- Eunice, parece que a Kássia está um pouco nervosa.
Você poderia ajudá-la com algumas roupas e com um banho?
- Claro, seu Rodolfo!
- Não. Não precisa.
Sei tomar banho sozinha - respondeu a moça em tom brando e sem agressividade nos modos.
- A Eunice vai preparar sua cama e pegar algumas roupas confortáveis, só isso - reforçou o pai, sinalizando a Eunice que não queria que a filha ficasse sozinha.
Feito isso, saiu e fechou a porta do quarto.
Indo até a sua suíte, Rodolfo sentou-se na cama, aguçando os ouvidos para identificar qualquer barulho vindo do quarto de Kássia.
Ele não queria que a filha fosse embora novamente.
Em silêncio, o pai amoroso orou muito.
Após alguns minutos, Eunice, que saía do quarto da moça, encontrou-se com Rodolfo, que ia na sua direcção.
- Ela está deitada, seu Rodolfo.
Só não quis beber o chá.
- Obrigado, Eunice.
Muito obrigado e... desculpe-nos por tudo.
- Ora, o que é isso, seu Rodolfo.
A empregada se foi, enquanto ele entrou no quarto da filha para observá-la.
Kássia, deitada na cama, estava encolhida.
Agora ele podia perceber melhor que seu rosto estava inchado, havia um corte em sua boca e em seu nariz.
Certamente Kássia havia brigado e apanhado muito.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 10:35 am

Ajeitando as cobertas sobre seus ombros, como quem agasalha um filho pequeno, Rodolfo curvou-se e a beijou no rosto com imenso carinho.
Erguendo-se, perguntou:
- Não quer mesmo tomar um pouco de chá?
Ela mexeu com a cabeça dizendo que não, e ele não insistiu.
- Você está bem?
- Estou - sussurrou.
- Quer conversar?
- Não - respondeu sem demora.
- Então vou me deitar. Tudo bem?
A filha não respondeu, e ele ia saindo quando Kássia pediu:
- Pai...
Imediatamente Rodolfo voltou, e ela pediu:
- Pode ficar aqui?
- Claro. Eu fico.
Procurando pela confortável poltrona que havia no quarto da filha, ele, antes de se ajeitar, apagou a luz.
Logo, ela pediu:
- Pai? Incomoda-se de acender o abajur?
- Não.
Levantando-se, ele acendeu a lâmpada de fraca iluminação e perguntou:
- Está bom assim?
- Está.
Apesar de ver a filha querida naquelas condições deploráveis e sofrida, Rodolfo, em seu íntimo, experimentava uma estranha satisfação.
Sabia que alguns espíritos endurecidos precisavam colher o mal para valorizar o bem, e Kássia infelizmente preferiu viver as mazelas da existência humana e não atender às recomendações morais que recebia com amor e agora, para enxergar o que era bom, sofria.
Naquele mesmo dia, enquanto o céu cor de chumbo estava longe de exibir o sorriso do sol, Ian determinou-se a visitar sua amiga.
Procurando por dona Glória na casa simples da senhora, ele queria saber mais sobre Regina antes de vê-la.
- Oh, meu filho! - sorriu a bondosa mulher ao vê-lo em seu portão.
Entre um pouquinho para gente conversar antes de irmos lá ver a Regina.
Sorridente, Ian aceitou o convite e depois de oferecer um carinhoso abraço entrou na casa.
- E aí, dona Glória? - perguntou o jovem sempre com o forte sotaque.
Como a Regina está?
- Ela é forte, ainda está sentida, mas vai ficar bem.
- Quero pedir desculpas por não ter vindo antes.
É que estou querendo mudar para o Brasil definitivamente.
Estou pensando em abrir um negócio aqui.
- Mas você é francês, e isso dá trabalho, não é?
- Minha mãe é brasileira, por isso não terei dificuldades.
É que, com a morte do meu pai, precisamos estabelecer muitas coisas.
Como sócios de um estaleiro, precisamos nos desfazer das cotas dele, dividir a herança e tudo o mais.
Ele deixou um testamento e... não me sobrou muito; por isso quero pensar bem antes de me entregar a um investimento.
- Mas o Rodolfo vai ajudá-lo.
- Sim! Já está me ajudando.
Mas, me diga, como estão as coisas?
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 22, 2016 11:11 am

- Estão indo, meu filho.
Estamos nos esforçando ao máximo para não desanimar.
- Imagino que não seja fácil.
Mas a senhora contou para Regina sobre minha tia?
- Ela já sabe. Ficou muito triste.
Ela e Lídia eram bem amigas.
- A senhora me parece triste.
Está acontecendo algo.
Sem rodeios, dona Glória avisou:
- O Renato, meu filho, é alcoólatra.
Passou por uma série de problemas, quase morreu por excesso de álcool e depois de muito insistirmos começou a fazer tratamento.
Melhorou bastante e...
A Regina nem sabe, eu não contei para preservá-la.
Diante da pausa, ele perguntou com certo receio:
- Seu filho teve uma recaída?
- Uma não...
Sabe, Ian - prosseguiu com certa tristeza -, não quero que minha filha saiba disso porque não há nada que ela possa fazer.
Regina já tem problemas suficientes e...
- Se não podemos dizer coisas boas e que eleve o ânimo de um enfermo, devemos nos calar completamente.
- Isso mesmo, filho.
Não quero que minha filha se torture.
Mas, enfim, o meu filho Renato teve umas recaídas; depois, por causa de uns conhecidos que o aconselharam, ele decidiu virar evangélico.
- Dona Glória, nos últimos anos venho estudando um pouco sobre religiões e entre isso estudei sobre a filosófica Doutrina Espírita.
A mulher, depois de servir um café, sentou-se à frente do rapaz, ficando muito atenta, e ele prosseguiu:
- Sei que a senhora é espírita e tem muita sabedoria.
Então há de concordar comigo que algumas linhas religiosas são necessárias para algumas pessoas, tendo em vista o grau de evolução que elas têm.
A Doutrina Espírita não proíbe alguém de fazer qualquer coisa, mas sobretudo alerta a respeito do que teremos de refazer, consertar ou harmonizar.
De repente, a religião protestante pode ajudar seu filho.
Após pequena pausa, explicou:
- Veja, o protestantismo surgiu na Idade Média com Martinho Lutero, um padre católico que fez protestos contra a Igreja Católica Apostólica Romana, por isso recebe esse nome.
Esses protestantes começaram a chamar a si próprios de evangélicos porque seguem o Evangelho de Jesus.
Eu, particularmente, não concordo com isso, porque os católicos, os espíritas e outros também seguem o Evangelho de Jesus, mas isso não importa.
O interessante é que os dogmas que eles, protestantes, têm podem auxiliar uma criatura em evolução que precisa desse tipo de imposição em sua vida.
A senhora não acha?
- Sim. Claro que concordo com você.
Tem gente que só faz o que é certo quando está sob pressão, sob ordens ou sob medo.
Mas o problema não é esse.
É que de um mês para cá o Renato começou a ficar como... um fanático.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 22, 2016 11:11 am

Diz que eu e minha filha seguimos a religião do demónio, que a Regina experimenta a prova do câncer porque Deus a está castigando.
Depois de fazer orações alucinantes, ele expulsa os demónios daqui de casa.
Estou sendo paciente, mas até meus livros ele queimou, e isso já está indo longe demais.
Peço forças a Deus, mas sinto que devo reagir, pois creio que devemos nos respeitar antes de mais nada e meu filho não está me respeitando.
Ian respirou profundamente e reflectiu alguns segundos, depois perguntou:
- Já tentou conversar com ele?
- Muitas vezes.
Para meu filho equilibrar-se e deixar de ser, eu frequentaria com ele a igreja em que vai.
Mas não deixaria de ter os meus princípios morais, religiosos.
Sei que de alguma forma sou eu que vim nessa existência para amá-lo, compreendê-lo, ampará-lo no que é bom, mostrar-lhe o caminho certo e tudo o mais; porém, não posso doar minha vida para satisfazer os seus caprichos, sejam quais forem, e os meus princípios, as minhas crenças são a minha vida.
Estou muito nervosa, Ian.
Tenho de ser firme, e esse “firme" vai exigir uma atitude muito enérgica, muito radical.
Você não imagina que há dois dias, depois de fazer as orações dele aqui dentro de casa junto com alguns companheiros e até um pastor, esses irmãos de doutrina recomendaram que ele fechasse a porta e não me deixasse entrar depois que eu viesse do Centro Espírita.
- E ele?! - perguntou Ian, assustado.
- Fechou a porta mesmo, depois de ter queimado até a minha Bíblia, que disseram ser manuseada para o mal.
- E a senhora?
- Dormi aí na área.
Não quis ir lá para a casa da minha filha.
Ela iria ficar mais nervosa ainda.
- O que a senhora fez?
- Ainda não fiz.
Mas, estou vendo que o Renato não precisa mais de mim.
Sempre me dediquei, o apoiei, o amei e o respeitei.
Mas agora não posso apoiá-lo.
Meu filho está me tratando como um inimigo.
Falta a ele a capacidade de ver, com olhos de amor, que sou o próximo mais próximo que Jesus ensinou.
Isso ele não aprende lá na igreja em que vai, né?
- A senhora falou com ele?
- Não gosto de resolver as coisas de cabeça quente.
Além do que ele está meio violento.
Quando bebia nunca agiu assim.
- Violento com a senhora?
- Trancar-me fora de casa não é violência?
Olha a minha idade!
Queimar os meus livros não é violência?
O que mais vou esperar?
Que ele me bata para expulsar o demónio de mim?
- A Regina não está sabendo, não é?
- O irmão não vai mais visitá-la.
Ela está sentindo algo errado nisso.
A Viviane não conta nada.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 22, 2016 11:11 am

- A senhora vai falar para Regina?
- Não sei como, mas tenho de contar.
- O que a senhora pretende fazer?
- Vou ter de achar um jeito de dizer ao meu filho que ele é independente e não precisa mais ficar aqui nessa casa se sacrificando ao meu lado ou se torturando por me ver em outro tipo de filosofia de vida.
- Se eu puder ajudar em alguma coisa, dona Glória, por favor...
- Sabe, Ian, apesar de nos conhecermos tão pouco, acho que vou precisar de você, sim, meu filho.
É difícil eu pedir a ajuda de alguém; não gosto de incomodar os outros.
- Se estiver ao meu alcance, vou ajudá-la, sim.
- Além de uma imensa dor pelo que vou fazer, tenho lá no fundo um certo medo.
Por isso, pediria que você e Viviane estivessem presentes quando eu for falar com meu filho.
Não precisam interferir.
Não quero que se compliquem.
É o suficiente que estejam por perto.
- Conte comigo.
Ian sentiu-se inquieto com o pedido, pois pouco conhecia dona Glória e Renato.
Como se envolver num problema daquele?
Mas, por outro lado, entendeu o medo que ela sentia e viu que ninguém mais poderia ajudar.
Logo, ambos decidiram ir até a casa de Regina, e por ser perto Ian deixou seu carro em frente à casa da bondosa senhora, e foram caminhando vagarosamente.
Quando já estavam quase em frente à casa de Regina, Viviane surgiu preocupada.
Após apresentar-se ao rapaz, explicou:
- Dona Glória, eu ia mesmo até a casa da senhora.
Liguei, mas acho que já tinha saído.
- O que foi, filha?
- Minha cunhada não está bem e meu irmão não está em casa.
A Doroteia teve algumas coisas para resolver e não veio trabalhar à tarde.
Eu ia pedir para a senhora pegar as crianças na escola e depois dar uma olhadinha na Regina, porque acho que vou até o hospital levar Dalva.
Interferindo, Ian ofereceu-se:
- Eu levo você até sua cunhada para socorrê-la.
Pensando rápido, Viviane opinou:
- Não. Seria melhor você ficar com Regina.
Ela está muito deprimida.
Uma visita lhe cairia bem.
Não me agrada deixá-la sozinha.
- É verdade. Regina está muito deprimida ultimamente - concordou a senhora.
- Eu vou dar uma corridinha lá na minha cunhada.
Não deve ser grave.
Quando a vizinha me ligou, disse que ela estava com muita tontura, ânsia.
A Dalva está no segundo mês de gestação e creio que isso seja normal.
Decidida a situação, dona Glória foi para a escola, Viviane seguiu para ver sua cunhada, e Ian foi até a casa de Regina.
Perante o portão, após tocar a campainha, ficou aguardando.
Regina surgiu no fim do corredor, aguçando o olhar para reconhecê-lo.
- Ian!!! - alegrou-se. - Que bom vê-lo!
Após trocarem beijos e um forte abraço, os olhos dela ficaram rasos de lágrimas de emoção.
Brincando, o amigo passou a mão sobre sua cabeça e disse:
- O novo corte lhe caiu bem!
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 22, 2016 11:12 am

Regina riu e convidou:
- Vamos entrar. Estou tão feliz por estar aqui!
Mas como sabe onde moro?
O rapaz explicou, e logo ambos estavam acomodados na sala, um em frente ao outro.
- Como você está, minha amiga?
Enquanto ela tomava fôlego para responder, ele exigiu com ironia e seu sotaque firme:
- Não aceito dissimulações.
Quero a verdade, hein!
A anfitriã sorriu sem jeito e disse:
- Ainda estou me recompondo.
A verdade é que nunca pensei em ver meus "cacos" espalhados assim.
- Seus "cacos"?
Perdoe-me, não entendi.
Regina riu novamente, mas havia certa tristeza escondida, e explicou:
A doença me fragmentou e outros acontecimentos espalharam os meus pedaços. Entende?
Erguendo as sobrancelhas, envergando a boca para baixo enquanto pendia positivamente com a cabeça, exibindo admiração, Ian reconheceu:
- O câncer não é fácil para ninguém.
Mas acho você uma pessoa muito forte, Regina.
Tenho certeza de que vai superar tudo isso.
- Sei que é uma fase ruim, mas está demorando tanto a passar.
Ian a contemplou por alguns segundos.
Doía-lhe vê-la tão fragilizada.
Logo perguntou:
- A cirurgia foi bem?
O que os médicos disseram?
- Meu médico tem grandes perspectivas.
Apesar de ter enfrentado problemas tristes com o dreno, tirei os últimos pontos com vinte dias.
Já fiz uma sessão de quimio, que me fez perder praticamente todos os cabelos.
Ela riu e contou:
- Alguns dias após a primeira sessão de quimioterapia, quando os cabelos começaram a cair, fiquei chocada, mas meus filhos se realizaram.
- Por quê?
- Para eles não ficarem deprimidos por ter uma mãe careca, a Viviane os chamou, deu-lhes uma tesoura e disse que podiam cortar meu cabelo como quisessem.
- E eles?! - questionou Ian, rindo.
Eles se divertiram.
Depois que a Viviane passou a maquininha, quiseram ir passear comigo na rua.
Você tinha de ver.
Ele riu gostosamente e lembrou:
- Ainda bem que você tem seus filhos e quem a apoie sem transformar esses momentos em algo trágico.
Friamente, Regina avisou:
- Meu marido foi embora de casa.
- O quê?!
- É isso mesmo. O Jorge me deixou.
Ian ficou incrédulo e não resistiu:
- Por causa da doença?
- Creio que não. Eu...
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 22, 2016 11:12 am

Regina não resistiu e começou a chorar.
Deixando o lugar que ocupava, Ian levantou-se e sentou-se ao lado dela, amparando-a.
- Calma, Regina.
- É difícil não ficar assim.
Sinto-me sem forças, sem vontade de me erguer.
Sempre me julguei tão forte, mas agora...
- Regina, toda adaptação sempre é difícil.
- Sinto-me sozinha.
Não posso, não consigo conversar com minha mãe; sei que ela está com problemas e penso que é com meu irmão.
Sabe, o Renato não vem mais me visitar, isso já faz alguns dias.
A Viviane também está preocupada com algo.
Elas não me dizem, mas sei que é com meu irmão.
- Por que não pergunta?
- Porque tenho medo.
Quero fugir dos problemas; acho que não suporto mais.
Por outro lado, não posso ficar me queixando, ainda mais para elas que estão me sustentando em tudo.
Agora, no momento em que mais preciso do meu marido...
Eu julgava ter no Jorge um amigo, um parceiro, mas...
- Será que algum dia o teve como parceiro?
- Sim. O Jorge sempre me apoiou, me ajudou.
Ele mudou muito.
- O que os parentes dele dizem dessa mudança?
- Ele não tem parentes.
- Como não?
- Ele conta que os pais morreram há alguns anos.
Ele tem um irmão, com o qual não se dava muito bem, e depois que ele veio para o Rio de Janeiro disse que nunca mais o viu.
- Que estranho!
- Sempre pedi para que procurasse o irmão, mas esse era o único assunto que Jorge não admitia.
Ele sempre foi muito bom para mim e para as crianças. Nunca pensei...
- Regina, é comum quem experimenta um problema sério ficar triste, sentir-se perturbado e deprimido.
Ela o encarou, fixando seus olhos nos dele, e Ian continuou:
- Não estou dizendo para você não sofrer.
É impossível passar por um sofrimento sem sofrer.
Mas a postura mental nos faz adquirir resistência e imunidade psíquicas, ou nos faz minguar e sucumbir.
Então, lembre-se:
é você quem escolhe sua postura mental.
Sofra, mas com fé e esperança.
Nós, muitas vezes, não escolhemos o sofrimento, mas sim nossa postura diante dele.
Como podemos resolver nossos problemas fugindo deles?
Se você está doente, fique triste por isso, sim.
Mas procure os melhores tratamentos ao seu alcance para se recuperar, para se restabelecer.
Se você está doente, deita e chora, será difícil se curar.
Se tem tristeza e se sente sozinha, ficar deitada e chorando não vai lhe trazer companhia nenhuma.
Levante-se, mesmo triste, e saia em busca de níveis elevados de amizade.
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