O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 24, 2016 10:23 am

- O Júnior e o Toni estavam lá fora; eu perguntei, e eles disseram que não o viram.
- Será que ele não está com a dona Glória? - lembrou Ian.
- Não. Minha mãe saiu e levou só a Amanda com ela.
Naquele momento dona Glória chegou e o neto não estava com ela.
Todos passaram a procurar Denis por toda parte com a ajuda dos vizinhos e de seus coleguinhas.
Conforme as horas comam, Regina entrava em desespero.
Ian, sempre solícito, foi até a delegacia do bairro com a amiga no início da noite para prestar queixa, mas só poderiam fazê-lo após vinte e quatro horas.
Um desespero passou a tomar conta de Regina, que se abraçou a Viviane e começou a chorar muito.
Não podia ser diferente.
Os filhos eram as únicas coisas boas que lhe restaram diante de tantas perdas.
Alguém, no meio de tudo, lembrou-se de Jorge.
Ele poderia ter passado e levado o filho consigo.
Afinal Denis era muito esperto; não iria se aproximar de estranhos não aceitaria propostas ou convites de quem não conhecesse.
A essa altura, Fernando, que já soubera do facto e havia ido até a casa de dona Glória, propôs-se, junto com Viviane, a ir até onde Jorge morava para saber se o pai havia pegado o garoto.
Ao chegarem na pensão em que Jorge se instalara, informaram que ele não estava no momento.
Viviane, muito apreensiva, decidiu esperar, e Fernando concordou.
Bem tarde, Jorge chegou e ignorava completamente qualquer notícia sobre o filho.
- E a Amanda?! - interessou-se o pai.
- Ela está bem. Está em casa.
- Procuraram na casa dos coleguinhas?
- Procuramos em todos os lugares, só faltava ver com você.
O pai ficou transtornado.
Esfregando as mãos nos cabelos e no rosto, exibindo-se muito nervoso enquanto tentava pensar em algo, Jorge ergueu o olhar como se um súbito relampejo passasse por seus pensamentos.
Olhou para Fernando e Viviane e murmurou:
- Eu a mato...
Mato aquela desgraçada.
Dizendo isso, Jorge saiu praticamente correndo, exasperado.
A surpresa dessa atitude deixou Viviane e Fernando sem acção.
Sem mais o que fazer ali, voltaram para casa.
Regina havia parado de chorar, mas parecia estar em choque.
Em sua mente formavam-se os piores presságios, e, sem ter outra alternativa, teria de aguardar, mesmo estando aflita.
Um fio de suor invadia-lhe as mãos trémulas, e em seus olhos brilhantes notava-se um grande sofrimento pelas lágrimas teimosas que às vezes rolavam.
Dona Glória, que não experimentava dor menor, abraçava Amanda, que estava dormindo profundamente.
Se Ian passou a noite ao lado da família consolando-os, ora com uma palavra, ora com um carinho.
Não havia o que fazer.
As horas foram as piores inimigas de Regina.
Custavam a passar e sem notícia alguma.
Na manhã seguinte, Fernando teve de ir trabalhar, pois não adiantaria ficar ali e não teria como se desculpar no serviço; afinal, o menino não era seu parente, apesar da grande afinidade que tinham.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 24, 2016 10:23 am

Ian cancelou seus compromissos e decidiu ficar.
Os corações de todos se entrelaçavam, agora, em uma angústia indizível.
Os vizinhos voltaram a aparecer e continuaram com as pequenas buscas.
Regina sentia-se fraca, entorpecida.
A chegada de uma viatura da polícia na frente da casa de dona Glória assustou muito, e, Viviane, antes que Regina visse, prontificou-se a atender.
Um policial perguntou se ali alguém conhecia Jorge, e ela afirmou que sim.
- Fomos até o endereço de uma pensão e lá tivemos informação desse endereço.
Há algum parente dele aqui?
- Sim. A ex-mulher dele mora aqui.
- Posso falar com ela?
- O senhor pode, sim, mas antes, por favor - pediu Viviane com extrema educação -, daria para me adiantar o que é?
É que Regina mal terminou um tratamento de quimioterapia e ontem à tarde o filhinho dela desapareceu.
Nós o procuramos por toda parte e estamos muito apreensivos.
O homem pensou, olhou para o companheiro e decidiu:
- Um veículo saiu da estrada, capotou e caiu no mar.
Dentro havia dois corpos.
O de uma mulher, muito bem trajada, que ainda não foi reconhecida, mas trazia consigo documentos em nome de Selma Dias, e o de um homem com documentos em nome de Jorge Vasconcelos.
No momento precisamos de alguém para fazer o reconhecimento dos corpos.
Viviane sentiu-se gelar ao se lembrar do que Jorge havia dito.
Provavelmente Jorge pensara que Selma havia sequestrado seu filho, uma vez que, inescrupulosa, ela não devolveu o que lhe pertencia.
Murmurando, Viviane falou:
- Meu Deus!
Nesse instante Ian e Regina apareceram na porta.
Ela trazia uma palidez que irradiava sua dor.
Seus olhos inchados denunciavam muito choro.
Aproximando-se, Viviane contou o ocorrido, finalizando:
- Deve ter sido um acidente.
Regina não disse nada e retornou para dentro de casa sem se importar com os demais.
Estava em choque.
Ian, junto com dona Glória, acompanhou os policiais para o reconhecimento necessário.
Sem que a amiga percebesse, Viviane telefonou para Fernando, contou o ocorrido e pediu:
- Fernando, não conte nada sobre o que ouvimos do Jorge antes de ele sair correndo.
Isso tem de parecer um acidente.
- Por quê? - perguntou o amigo.
- A Selma tem um irmão, e se ele souber disso...
Tenho medo de que o Dalton seja uma pessoa vingativa.
Nunca sabemos. Quem poderia imaginar que o Jorge iria reagir.
Afinal, também pode ter sido realmente um acidente.
- Bem lembrado, Viviane.
Podemos trazer mais desgraça com uma verdade inútil.
- Obrigada, Fernando.
Num pacto de confiança e muito respeito, eles não revelaram as últimas palavras de Jorge.
Realmente não adiantaria; tudo já estava consumado.
Quando retornaram, dona Glória e Ian confirmaram tudo.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 24, 2016 10:23 am

Eram Jorge e Selma.
O amigo da família providenciou o velório e o enterro, onde somente alguns poucos vizinhos e funcionários da loja compareceram.
Regina, esperançosa pela volta do filho, não quis sair de casa.
Deitada no sofá da sala, abraçava-se à pequena filha e não queria que a menina não naquele mesmo fim de tarde, ela e Ian voltaram à delegacia.
Educado, porém sincero, o delegado avisou:
- Vocês não podem imaginar como é grande o número de crianças desaparecidas.
Com essa idade, somente uma percentagem bem pequena pode ser encontrada ou voltam para casa.
Dificilmente alguém poderia traduzir em palavras o que aquela mãe sentia.
Apoiada pelo amigo, chorou ainda mais.
O caminho de volta era todo silêncio.
Angustiada, Regina perdia o olhar no firmamento engastado de belas estrelas brilhantes e tinha os nervos fustigados de muita insegurança e dor.
Ian ficou quieto.
Não havia o que dizer.
Com a noite alta, já em casa, Regina sofreu uma crise de nervos.
Sem se alimentar, fraca, desmaiou e foi levada ao hospital, onde ficou internada.
Na manhã seguinte, não houve nenhum parente no enterro de Jorge, pois dona Glória ficou com sua filha e sua neta.
À noite, quando estava em casa, Rodolfo encontrava-se na biblioteca quando Fernando o procurou:
- Ah! que bom você ter vindo aqui, Fernando.
Quero mesmo falar com você.
- Vim avisar que liguei para a casa de dona Glória e soube que Regina vai ficar internada até amanhã.
O Ian vai passar a noite no hospital, e dona Glória ficará com a neta e com Viviane.
- Estou tão chocado com o desaparecimento desse menino.
Os olhos de Rodolfo ficaram marejados, e, mesmo com a voz embargada, ele perguntou:
- Quem teria coragem de fazer isso?
- Alguém muito cruel.
O pior é que, quanto mais tempo passa, menos chance há de ele aparecer.
Ambos silenciaram, reflectindo e lamentando, mas logo Rodolfo avisou:
- Fernando, pretendo vender esta casa.
O filho surpreendeu-se, mas aguardou que o pai prosseguisse.
- Pretendo comprar um apartamento não muito grande.
Algo para mim e para sua irmã.
Sei que o Ian deve se mudar em breve.
Mas me preocupo com você.
Já falei com seus tios e tive a impressão de que eles não viam a hora de isso acontecer.
- Fico admirado de eles nunca virem aqui.
- Nem para o enterro do pai deles vieram!
Por que viriam para nos ver?
- Pai, veja, a Lorena e eu voltamos a nos desentender.
- É, eu percebi.
- Ela começou a ficar agressiva, estranha...
Às vezes penso que está mentalmente desequilibrada.
Já a peguei gargalhando sozinha, falando como se murmurasse com alguém, entre outras coisas.
Além disso, ela quer voltar para a Europa, e isso eu não vou fazer mesmo.
- E o que pretende?
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 24, 2016 10:24 am

- Deixá-la ir.
- E ela vai sem você?
- Não sei, pai.
Pretendo dizer que...
- Fernando...
-Já sei o que o senhor vai dizer.
Já ouvi tudo isso, lembra?
Só que não estou feliz ao lado dela, às vezes sinto-me ameaçado.
- Como ameaçado?!
- Estou inseguro com a Lorena.
Nem consigo dormir direito.
Várias vezes fingi que estava dormindo e a reparei.
Lorena fica insone, falando baixinho, rindo ou brigando.
Quando faço que acordo, ela se recompõe e age como se nada estivesse acontecendo.
- E você vai abandoná-la agora?
Lorena não tem mais ninguém, todos sabemos que ela se dá melhor com a tia Rebeca do que com o próprio Ian.
Nunca vi duas pessoas serem tão parecidas.
- Eu não sei o que dizer.
Estou chocado com o sumiço do Denis, preocupado com sua irmã.
Quero sair dessa casa e tenho de pensar em você, nos empregados e em tantas outras coisas.
- Vamos tentar dormir e ver se ideias melhores chegam.
Estou exausto.
Fernando, insatisfeito, calou-se, e Rodolfo retirou-se para dormir.
O pai não percebeu, mas o filho tinha a intenção de passar a noite no escritório.
Fernando não queria estar ao lado da mulher.
Insone, ele resolveu telefonar para Viviane e saber como estavam as coisas.
Já em seu quarto, deitado, Rodolfo também se inquietava.
A lembrança viva do falecido pai, o austero senhor Horácio, não lhe saía da mente.
Seus pensamentos pareciam ecoar a voz do pai, que lhe advertia quanto ao envenenamento de Lídia.
"Será?", pensava Rodolfo.
"Não! Devo estar louco."
Todavia, a nora realmente agia de modo estranho.
Ele a viu rir sozinha de forma descontrolada quando todos estavam preocupados com o sumiço de Denis, o amiguinho de seu filho.
Além disso, quando souberam da morte de Jorge, Lorena pareceu ter um sorriso no olhar, e ele mesmo a viu murmurar algo.
Rodolfo estava acostumado a pessoas dissimuladas que tramam e atraiçoam, mas assim!
Vivendo em sua casa!
Rapidamente ele concluiu:
- Meu pai estava desconfiado de que Lídia poderia ter sido envenenada.
Será que Lorena... e se o senhor Horácio conseguiu de algum modo, reunir provas disso, deve ter ido falar com ela e...
Lorena mesmo disse que estava perto dele na escada quando caiu.
- E o filho de Regina?
Lorena ficou furiosa com o que o garoto fez com o cabelo do Hélder, mas...
Não! Isso é muito hediondo!
Agora o Fernando vem dizendo que não confia na esposa.
Rodolfo fervilhava seus pensamentos com inúmeras comparações e suspeitas.
O cansaço, misto a tantas preocupações, não o deixou conciliar o sono.
Aquela noite parecia interminável.
Rodolfo pensava que não podia confiar a Fernando aquelas informações; o filho estava confuso, além do que Lorena era sua mulher.
- Lídia - murmurou -, que falta você me faz.
Não tenho ninguém para me ouvir.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 24, 2016 10:24 am

29 - ORAR É IMPORTANTE, MAS NÃO É TUDO

A manhã seguinte ainda era bem triste.
Sentado de frente ao filho para fazer o desjejum, Rodolfo nada comentou.
Mas Fernando percebeu-o diferente, imerso em profundos pensamentos, pois seu rosto denunciava suave perturbação.
Ao encarar a nora, Rodolfo sem perceber franziu o sobrecenho e fitou-a por longo tempo, enquanto refazia inúmeras questões íntimas quanto à capacidade da moça.
Se estivesse certo, tanta sordidez e crueldade o enojavam.
Um silêncio fúnebre pairou no ar.
Envolta em pensamentos sombrios, Lorena pareceu sentir que algo estava errado.
Mas tudo se dissipou quando Ian adentrou a sala com seu sorriso bom, que trazia um bálsamo sereno àquele clima pesaroso.
- Bom dia!
- Bom dia, Ian! - retribuiu o tio, após os demais.
E lá no hospital, Regina está bem?
- Ela dormiu a noite toda sob o efeito de sedativos.
Agora cedo a Viviane chegou lá, e vim para me recompor um pouco.
- A situação não é fácil.
Se fosse meu filho, estaria completamente louco - reconheceu Fernando.
- Não está sendo fácil mesmo - concordou Ian.
Não há que dizer e muito pouco o que fazer.
Hoje à tarde ela recebe alta.
- Quem vai levá-la para casa? Você?
- Sim. Vou resolver algumas coisas agora pela manhã e após o almoço estarei lá.
Só que nos outros dias tenho de me reunir com o administrador contratado e com outro pessoal.
Ficarei com o dia cheio.
Acho que poderei vê-la só à noite.
- Eu precisava conversar com você, Ian - revelou Rodolfo.
- A noite estarei em casa, tio.
- Certo. Até à noite - decidiu Rodolfo, despedindo-se de todos.
Lorena permaneceu calada, mas pressentindo algo no ar.
Seus olhos ávidos denunciavam inquietude.
Bem mais tarde, quando retornou para sua casa, Regina sentou-se na sala e apertou seu único tesouro de encontro ao coração.
Amanda parecia entender a necessidade daquele longo abraço e acariciava sua mãezinha com suas mãozinhas delicadas ao dizer:
- Não chora, mamãe. Eu tô aqui.
Regina nunca se sentiu tão amargurada e infeliz.
Chegava a ficar com a mente vazia, extenuada.
O ambiente era triste e opressivo, algo de muita dor.
Inúmeros amigos e vizinhos iam e vinham prestando apoio e solidariedade.
Regina e sua mãe eram pessoas muito queridas por todos.
Elas não ficaram sós.
Foram em momentos de visita que dona Glória, longe da presença da filha e da neta, desabafava sua dor.
Algumas vezes, Regina acreditava ouvir a voz de Denis, o seu riso gostoso e o seu barulho ao brincar no quintal.
Mas era sua imaginação desejando intensamente sentir tudo aquilo novamente.
Ian, explicando que tinha negócios a tratar, ia se despedindo de todos quando percebeu a chegada de Renato.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 24, 2016 10:24 am

O filho de dona Glória entrou na sala, olhou para todos, cumprimentando-os com jeito tímido, e dirigiu-se à irmã, que estava sentada em um sofá, dizendo-lhe:
- Eu soube o que aconteceu.
Você não acha que é hora de buscar Deus?
Não acha que é o chamado do Espírito Santo que tem uma obra em sua vida?
Erguendo o olhar melancólico e exausto, Regina, com voz fraca, pediu quase implorando:
- Renato, por favor, me poupe nesse momento.
Calmamente, Ian aproximou-se do rapaz e, com seu jeito bondoso e um tanto alegre, pediu educado:
- Oh, Renato, vamos ali na cozinha conversar um pouquinho.
Depois você volta para falar com sua irmã.
Vamos lá.
- Eu preciso dizer a verdade.
Vim aqui para um último chamado.
- Eu sei - tornou o amigo da família.
Mas vamos ali um pouquinho só para tomarmos um cafezinho que acabaram de preparar.
Conduzindo Renato, Ian fez com que ele o acompanhasse.
Viviane serviu os dois, que se sentavam um em frente ao outro, e logo Ian fez-lhe um discreto sinal para que a moça os deixasse.
- Sabe o que é? - argumento Ian.
A Regina acabou de chegar do hospital.
Está exausta, e você sabe que sua irmã acabou de sair de um difícil tratamento de quimio, né?
- Eu sei disso, mas acho que esse é o momento certo para convertê-la.
- Convertê-la para...?
- Para Deus! - exclamou o moço.
Para os milagres que o Espírito Santo pode operar em sua vida.
Chega de engano!
Renato estapeou a mesa quase gritando:
- Chega de tormentos!
É o choro da minha irmã que a fará voltar para a Glória do Senhor!
Para a Sua salvação!
- Fico contente em vê-lo interessado na melhora de sua irmã - tornou Ian.
Sim, porque salvação, para mim, significa melhorar, recuperar, isenção de tormentos, e é muito bom desejarmos o bem para alguém.
Mas fico preocupado com uma coisa.
- Com o quê?
- Com a forma como você vai dizer a Regina que deseja que ela se erga.
Veja, sua irmã está sensível, fraca.
- Mas a verdade do Senhor tem de ser dita!
Com brandura e educação em todo momento, Ian afirmou:
- Concordo com você.
Não dizer a verdade é hipocrisia.
- É bom ver que você concorda comigo.
Há tempos atrás tive outros pensamentos a seu respeito, quando esteve aqui no dia em que minha mãe me pediu para deixar essa casa.
Quando percebeu que Renato ia se levantar, Ian deteve sua atenção, fazendo-o voltar ao assunto.
- Percebi que você não está falando com sua mãe.
- Minha mãe me colocou para fora dessa casa.
Eu não tenho mais nada para dizer a ela.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 24, 2016 10:24 am

Só voltei aqui porque ainda não havia falado com Regina a respeito de sua conversão, do seu arrependimento.
- E se ela não aceitar se converter?
- Se assim for, não tenho mais nada para fazer aqui.
- Você segue o que Jesus ensinou, Renato?
- Claro!
Com jeito tranquilo, como se declamasse, Ian falou:
- "Porém vos digo:
Amai os vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei o bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e perseguem...
Pois, se amardes só os que vos amam, que recompensa tereis?
Não fazem os publicanos também o mesmo?
E, se saudares unicamente os vossos irmãos, que fazei demais?
Não fazem os publicanos também assim?"
- Isso é diferente - tentou defender-se Renato.
- Por que é diferente?
Jesus, nesses ensinamentos, nos diz para sermos perfeitos como o Pai que está no Céu, "porque faz que o sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos".
Jesus ensinou-nos também a amar ao próximo como a nós mesmos.
Então, Renato, você precisa reflectir.
Será que dizer tudo o que pensa, da forma como acredita, é amor?
Você vai estar amando sua irmã como nos ensinou o Divino Mestre?
O que para uns é correto, dentro dos acontecimentos imediatos na vida de sua irmã, pode ser agressivo e cruel.
Você pode estar faltando com esse "amor ao próximo" que Jesus ensinou.
- Mas eu não posso perder esse momento.
- Ela está fragilizada.
Aliás, creio que todos nós estamos.
- Minha mãe e Regina sempre viveram em pecado.
Sempre se serviram do demónio, dessa maldita religião em que se envolveram.
Foi só isso, foi por esses espíritos demoníacos que eu me vi amarrado no álcool por todos esses anos.
Hoje eu me libertei!
O sangue de Jesus tem
ais poder do que elas pensam! - explicou o moço com ênfase, quase gritando.
Brando, Ian comentou como se reflectisse:
"Não julgueis, para não serdes julgado".
E bem interessante essa colocação de Jesus, pois costumamos dizer coisas das outras pessoas que podem não ser verdade e fazemos isso por falta de conhecimento.
Jesus ainda nos diz:
"Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e então cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão".
- Não estou julgando!
É facto que as duas sempre estiveram ligadas a esses espíritos satânicos.
- Sabe, Renato, quando Jesus diz para tirarmos primeiro a trave dos nossos olhos, quer dizer para adquirirmos conhecimento.
Sem conhecimento vivemos enganados, ignorantes e cheios de mitos, de medo.
Aliás, Jesus diz para adquirirmos conhecimento quando nos fala:
"Conheça a verdade, e a verdade vos libertará".
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 24, 2016 10:25 am

Eu creio que, apesar de viver ao lado de sua mãe e de sua irmã todos esses anos, você nunca as conheceu, nunca conheceu o que elas buscam.
- Esse Espiritismo está levando as duas para o inferno.
- Alguns anos atrás eu fazia uma confusão danada com algumas religiões; sabe o que foi que me esclareceu?
Uma frase de sua irmã quando disse mais ou menos assim:
"Espiritismo é Jesus".
Jesus não usou flores, velas, fitas, cantos roupas dessa ou daquela cor em determinado dia da semana Jesus não mistificou nada para nos voltarmos para Deus.
Tudo é muito simples, Renato.
Somos nós que acreditamos que as coisas têm de ser complicadas e mistificamos tudo.
Jesus não fundou uma única religião sobre a Terra.
Ele só deixou ensinamentos aos homens.
E um dos maiores deles é:
"Bem-aventurados os pacificadores, porque eles são chamados filhos de Deus".
Pense bem, Renato:
Será que estou sendo pacificador se falar o que penso?
Da maneira como penso?
Se conhecer o Espiritismo, verá que ele é mais uma filosofia do que uma religião.
Muitos criam ideias absurdas de que o Espiritismo é algo sobrenatural, mágico, inatingível pela razão, quando, na verdade, a Doutrina Espírita nos ensina à fé raciocinada, nos mostra que tudo tem uma causa e uma origem cientificamente explicada.
Inclusive, lendo O Livro dos Médiuns, vamos nos alertar para os espectáculos que alguns criam ou inventam só para aparecer e usando o nome do Espiritismo, ou dos espíritos, acabam por fazer com que muitos fiquem descrentes da Doutrina Espírita, que na verdade nada tem a ver com essas pessoas.
O Espiritismo não tem representante encarnado.
Essa Doutrina nos faz pensar e repensar nossas atitudes, a fim de analisarmos se estamos agindo como nos ensinou Jesus.
Com isso nos reformamos intimamente.
- Eu...
Educado e generoso, Ian pediu com jeitinho:
- Por favor, deixe-me terminar essa linha de raciocínio.
Muito me admira você ter uma mãe como dona Glória e possuir ideias como as suas.
Eu, há algum tempo, venho estudando sobre diversas religiões e vi no Espiritismo uma proposta para eu reflectir, pensar e repensar; isso é filosofar.
Para isso, precisamos conhecer, comparar as coisas com razão, sem emoção, só por meio do raciocínio lógico.
Sabe, às vezes creio que os protestantes não gostam do Espiritismo por causa da crença na reencarnação e da lei de causa e efeito, porque normalmente as pessoas não querem acreditar que serão responsáveis pelas consequências de seus actos.
- Não! - reagiu Renato.
Não gostamos do Espiritismo, porque lida com o diabo.
- Onde foi que você viu o diabo aqui na casa de sua mãe ou no Centro em que ela frequenta?
- Mas e toda essa desgraça que está acontecendo na vida dela?
Isso é obra do maligno.
- São provas ou expiações que todos temos de passar.
Veja, Renato, você acha que Deus é tão cruel, injusto ou sádico a ponto de fazer um ou vários de seus filhos ficarem mutilados ou doentes só por acaso?
Se assistirmos aos noticiários, veremos muita gente passando fome, vivendo na miséria, na verdadeira desgraça.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 24, 2016 10:25 am

Enquanto outros, muito poucos, vivem no luxo, são arrogantes, vaidosos e miseráveis.
Participam de leilões pagando quantias absurdas por peças e materiais vis que ficarão aqui na Terra quando eles se forem.
Pense comigo, Renato.
Que Deus é esse que permite a riqueza e a miséria tão extremas e desequilibradas?
Agora, se pensarmos no processo da reencarnação, pensaremos num Deus bom e justo, como nos ensinou Jesus.
Pois hoje estamos passando, sofrendo ou pagando o que em outra vida fizemos outras pessoas sofrerem. Não!
Para aquele que sofre hoje, Deus está reservando algo muito especial.
- Mas espera aí!
Então esse Deus que você fala é injusto, porque está fazendo sofrer uma pessoa que não fez nada de errado.
Tomando fôlego, Ian continuou:
- Renato, você é um cara inteligente, tem nível superior, penso que deveria ser mais racional.
Jesus nunca falou sobre reencarnação e nunca conversou com espíritos como fazem os espíritas.
Ian, num relampejo de pensamento, recordou-se rápido:
- Ontem mesmo, antes de me deitar, li em Mateus, Cap. 11, v.v. 11 e 12, onde Jesus diz:
"Que entre os nascidos de mulher não apareceu alguém maior do que João
Todos os profetas e a lei profetizaram até João...
E, se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir.
Quem tem ouvidos para ouvir, ouça".
E em Mateus mesmo, no Cap. 17 que fala sobre a transfiguração de Jesus, diz que Elias e Moisés apareceram para Jesus e falaram com Ele.
Não estava Jesus, nesse momento, falando com os espíritos?
E nesse mesmo capítulo Jesus torna a falar que Elias já veio e não o reconheceram, "então entenderam os discípulos que lhes falara de João Baptista".
- Mas Jesus conversava com espíritos bons! - alegou Renato.
- Mas Jesus disse que poderíamos fazer o que Ele fazia.
Disse claramente que João Baptista era Elias; Ele só não usou o termo reencarnação.
Além disso, se formos observar, a lei de causa e efeito foi aplicada a João Baptista quando lhe cortaram a cabeça, pois, quando viveu como Elias, o último dos profetas de Israel, defrontou-se com os profetas do deus Baal e após a "prova do fogo" não permitiu que nenhum escapasse com vida, cortando-lhes as cabeças.
Veja, não sou eu quem conta isso, não foi o Espiritismo que inventou essa história, é a própria Bíblia que a conta.
Se Elias pode reencarnar, porque nós não?
Jesus ainda disse que nem tudo poderia falar, mas no prometeu enviar um Consolador para dizer o que ele dizia e muito mais, e ainda que esse Consolador ficaria eternamente connosco.
Pense:
Que Consolador humano ficaria eternamente?
Como e disse, o Espiritismo não tem um representante encarnado; Espiritismo está nos cinco livros da Codificação Espírita, e os livros podem ficar eternamente aqui, geração após geração.
Veja, Renato, somente a reencarnação explica desigualdade social, a diferença de personalidade, de aparência e tudo o mais.
Crendo na reencarnação, cremos em um Deus bom e justo; diferente disso, é impossível.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 24, 2016 10:25 am

Terminando de falar, Ian percebeu que Renato, a essa altura, sentia-se nervoso, quase irritado, e Ian completou:
- Religião é religar-se a Deus, e nós nos voltamos e nós a Ele por meio de atitudes, palavras e pensamentos bons, não pelo grupo religioso que frequentamos, pois "a boca sempre fala o que temos no coração".
- Nós, evangélicos, oramos e cantamos para saudar o Senhor e para sermos ouvidos.
- "Quando orares, não sejas como os hipócritas, que se comprazem em orar em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas para serem vistos pelos homens.
Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão.
Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está oculto, e teu Pai, que vê secretamente, te recompensará.
E orando não useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que por muito falarem serão ouvidos".
Olhando bem nos olhos de Renato, Ian falou:
- Meu amigo, se você acredita em um Deus Omnipotente, Omnisciente e Omnipresente, deve acreditar que Ele sabe tudo o que se passa nos seus pensamentos e no seu coração.
Não são gritos desvairados ou gemidos de lamentações que dizem a Deus o quanto O amamos, o quanto precisamos Dele ou do que precisamos.
Orar é importante, sim, mas não é tudo.
O mais importante não é a religião ou a filosofia de vida; o mais importante são as acções compatíveis com o amor do Pai da Vida.
Quando entendemos que o semelhante precisa da nossa compreensão, que essa compreensão com palavras, actos e pensamentos benevolentes e pacíficos é o verdadeiro amor, então somos realmente filhos de Deus, como Jesus ensinou, independentemente da religião.
Não acredito que, se uma pessoa for prudente e bondosa, ela não será acolhida por Deus por não ter determinada religião.
Por isso, Renato, pense bem:
Se Jesus fosse dizer algo para sua irmã nesse momento, o que será que ele diria?
Certamente não diria para que ela se salve porque sua mãe vai para o inferno.
Qual filho, amando seu pai e sua mãe, viveria feliz, cominado no paraíso, se soubesse que um deles sofre no fogo do inferno?
Dentro da sua filosofia de vida, qual mãe viveria em paz no eterno paraíso se soubesse que seu filho querido, por quem sofreu amou e cuidou, está padecendo em condições horripilantes no doloroso inferno?
Nenhuma mãe deixaria um filho sofrer.
Nenhum pai daria pedra ao filho no lugar de pão.
Nenhum pai daria a um filho uma serpente se esse lhe pedisse um peixe.
Como nos disse Jesus, se nós, que somos maus, não somos capazes de fazer isso, quanto mais o Pai que está no céu.
Deus não confina ninguém eternamente ao inferno.
Se eu tivesse um filho e soubesse que ele sofre, jamais descansaria no paraíso.
Mergulharia nas profundezas do inferno para tirá-lo de lá.
E olha que a minha compreensão de amor é bem pequena se comparada ao amor de Deus.
Ele não nos deixa sofrer eternamente, mas por amor permite que a nossa consciência nos cobre.
Permite que harmonizemos o que fizemos de errado.
Renato se calou diante das reflexões de Ian, que encerrou com uma explicação bem simples:
- Meu amigo, tudo é muito simples.
A filosofia da Doutrina Espírita ensina que, se você pisar propositadamente no pé do outro, futuramente o dedo que vai doer será o seu.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 24, 2016 10:25 am

Essa é a lei de causa e efeito.
Mas, quando reconhecemos que erramos e procuramos corrigir esse erro, poderemos não sentir tanta dor quando chutarmos uma pedra.
Renato se levantou, e Ian pediu:
- Pense bem no que vai dizer a Regina.
Tenha compaixão.
E, se possível, lembre-se de que sua mãe iria ao inferno por você, não importa onde ele seja nem qual a distância.
Confuso, Renato foi até a sala, sentou-se alguns minutos ao lado de Regina e afagou-lhe os cabelos com carinho, sem dizer nada.
A irmã abraçou-o e chorou muito.
Ao decidir ir embora, o rapaz procurou pela mãe, beijou-lhe o rosto como antes e depois se foi.
Ian, logo se despediu novamente e, ao ajoelhar-se perto de Regina, avisou:
- Preciso ir.
Mas, por favor, me ligue.
- Obrigada, Ian.
Não há como agradecê-lo.
Após se retirar, o amigo foi embora para cuidar de seus negócios e, ao chegar em casa, pelo acúmulo de cansaço dos últimos dias, não resistiu ao sono que o dominou, esquecendo-se até de que seu tio queria falar com ele.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 24, 2016 10:25 am

30 - DEPRESSÃO - O CÂNCER DA ALMA
Os dias se arrastavam lentos, enquanto Regina sentia distanciar-se da esperança de encontrar Denis.
Muitos amigos, conhecidos e vizinhos empenharam-se em ajudar a família divulgando o desaparecimento do menino com cartazes e tudo o mais.
Porém, agora, com o passar dos dias, o ânimo dessas pessoas diminuíra, e algumas, devido às tarefas cobradas pela vida cotidiana, precisaram afastar-se.
Regina tentava suportar firme o rude golpe.
Precisava ser forte, tinha Amanda para cuidar e preocupava-se também com seu futuro, com a vida de todos ao seu redor, pois dona Glória praticamente só tinha a ela e a pequena neta, além de Viviane, que lhe era como filha.
Viviane havia-se mudado para a casa de dona Glória.
Seus irmãos não se importaram, e suas cunhadas, muito menos.
Sentada na pequena área da frente da casa, Regina olhava o quintal e o jardim, ansiando ainda ouvir a batida do portão ao abrir-se rápido e os passos apressados do filho querido que sempre chegava afoito para contar mais uma novidade.
Regina, em suas lembranças, era capaz de escutar seu riso gostoso e sua voz ligeira atropelando as palavras.
Lágrimas compridas corriam-lhe pela face, e uma imensa saudade dolorosa palpitava em seu peito.
Foi quando se lembrou de Lídia, a amiga a quem tentou confortar quando a conheceu num momento tão difícil como aquele.
- Que dor inenarrável!
Quanta angústia!
Naquele mesmo instante, sem que Regina pudesse perceber na espiritualidade, Lídia e Cristiano, junto com alguns outros amigos espirituais, acercavam-se dela com carinho.
Abraçando-a com ternura, Lídia a inspirou como se a amiga pudesse ouvi-la:
- Minha doce Regina, realmente não há palavras que nos confortem num momento como esse.
Principalmente no seu caso, onde a incerteza toma conta do seu coração.
Não sabe onde está o filho querido.
Oh, Regina, como sinto por sua dor...
Mas socorra-se em Deus.
Lembra-se de quando me disse que meu filho estaria onde os meus pensamentos o colocassem?
Que ele receberia todos os sentimentos que eu o enviasse?
Então, Regina, vibre amor, que, onde quer que esteja, Denis vai recebê-lo.
Regina ignorava o que acontecia na espiritualidade, mas ouvia em seu íntimo as inspirações da amiga.
Aproximando-se, Cristiano curvou-se e também aconselhou:
- O pensamento é energia, é vida.
Por mais que lhe doa, por mais que esteja triste, pense no filho querido com amor, como se ele estivesse viajando e você desejasse que aproveitasse bem essa viagem, com alegria e felicidade.
Cristiano, aproximando-se, beijou-lhe a face pálida e voltou-se para Lídia, argumentando:
- É uma separação difícil por ela não ter certeza da condição do menino.
Um amigo que os acompanhava admitiu:
- Estão aguardando que ela se acalme um pouco mais.
- Em breve, Regina vai estar com seu filho.
- Isso será muito bom para eles - acreditou Cristiano.
- Regina precisa agora ocupar-se com coisas mais construtivas.
Não pode se entregar à tristeza ou deixará de viver - concluiu outro amigo do grupo.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 24, 2016 10:26 am

- Mas, António, é muita dor! - acreditou Lídia.
- Eu sei. Não estou exigindo que ela ignore o sofrimento mas Regina tem Amanda, tem sua vida, e isso ela não pode abandonar - considerou António com bondade.
- Ela tem fé - afirmou Cristiano -, por isso tem certeza de que Deus olha por seu garotinho e o protege.
Sem entender, Regina sentiu como se um bálsamo tranquilizante a envolvesse.
Suspirando fundo, após consultar o relógio, ergueu-se e, apesar da dor, caminhou poucos passos, entrou na sala e avisou a mãe que iria buscar Amanda na escola.
- Não, Regina.
Deixe que eu vou - disse Viviane.
- Pode deixar, Vi.
Vou andando devagarzinho, não se preocupe.
Preciso sair um pouco.
Dali, Lídia, Cristiano e os amigos que os acompanhavam foram até a casa de Rodolfo.
Naquele dia Rodolfo não havia ido ao escritório, pois precisava resolver alguns assuntos relacionados à venda da casa.
Lídia e Cristiano o encontraram na varanda, em pé, olhando para o belo e bem cuidado jardim.
Aproximando-se, Lídia e Cristiano o abraçaram com carinho.
- Que saudade, meu amor - disse a mulher.
Imediatamente ele se lembrou da esposa, e uma doce saudade envolveu seu coração.
"Se Lídia estivesse aqui...", pensava.
"Acho que tudo isso seria bem diferente."
Mesmo sabendo que ele não podia ouvir, ela respondeu:
- Devemos aceitar os desígnios de Deus.
- "Sinto-me tão só", tornou ele.
"Com Lídia ao lado, eu me sentiria mais seguro, mais confiante."
- Se estamos separados hoje, isso significa aprendizado para ambos.
Nada é por acaso.
Mas o Pai é misericordioso, e vamos nos encontrar novamente.
Estaremos juntos, acredite.
Nesse momento, Lorena surgiu por uma das ruazinhas do jardim, andando distraidamente.
Quando a viu, Rodolfo mostrou um rosto contraído e sisudo.
Ele acreditava que precisava fazer alguma coisa e imaginava por onde deveria começar.
A chegada de Eunice tirou-o daquelas reflexões.
- O senhor aceita um café?
- Oh, Eunice, agora não.
Depois que os correctores chegarem, aí você nos serve, está bem?
- Como o senhor quiser.
Quando a empregada ia se retirar, o patrão a chamou:
- Eunice, por favor.
Após aguardar sua aproximação, completou:
- Sei que você e os outros empregados estavam descontentes com o tratamento que vinham recebendo da minha nora.
Gostaria de saber se essa situação está melhor.
Constrangida e algo surpresa, ela respondeu:
- A dona Lorena mudou muito.
- Sei que você observa tudo o que acontece aqui em casa, nós a consideramos muito e, por isso, gostaria que fosse bem sincera.
Você tem percebido algo diferente com a Lorena, além daquilo que me contou outro dia?
- Sabe, seu Rodolfo, a gente trabalha aqui e não é bom julgar ninguém.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 24, 2016 10:26 am

- Não é questão de julgamento, Eunice.
Estou preocupado com a saúde mental da minha nora.
Num desabafo, ele confessou:
- Na verdade, estou preocupado com o que ela pode ter feito ou ainda com o que pode fazer.
A moça baixou a cabeça, depois olhou para Lorena, que estava bem distante deles, e voltando-se para Rodolfo admitiu:
- Sabe, nunca achei dona Lorena normal.
Mas depois que ela voltou para morar aqui definitivamente penso que ficou pior.
- Por quê, Eunice?
- Tem uma coisa muito ruim que não consigo explicar; É o que sinto.
A dona Lorena é vingativa, e isso é muito perigoso.
Perspicaz, Rodolfo perguntou com simplicidade:
- Você acha que ela se vingaria de alguém?
A empregada dissimulou com gestos, mas depois respondeu:
- Sabe, seu Rodolfo, muitas vezes, quando a dona Lídia ficou doente e tinha aquelas crises, vi a dona Lorena rir satisfeita feliz mesmo, só porque a sogra passava mal.
Quando dona Lídia morreu, ela teve a coragem de jantar sozinha, e antes disso, não sei se o senhor sabe, ela abriu até champanhe.
- Você acha que ela teria coragem de fazer algo contra Lídia?
- Ah, teria! - afirmou convicta e mais à vontade.
- E você acha que ela teve oportunidade para isso?
Após pensar bem, Eunice se lembrou:
- Uma vez surpreendi dona Lorena lá no quarto da dona Lídia.
Ela ficou brava quando me viu e disse que estava com enxaqueca e procurava um remédio.
Vi que na sua mão tinham vários comprimidos.
Ela fechou o vidro e saiu depressa do quarto.
Avisei dona Lídia, mas ela não se importou e até riu, dizendo que Lorena havia mexido nas vitaminas.
- Mas, se Lorena retirou os comprimidos, não houve como ela ter feito algo.
Foi então que Eunice, demonstrando-se bem esperta, pensou e supôs:
- É, mas e se ela encheu esses comprimidos com um pozinho de veneno?
- Espera aí! - interferiu Rodolfo, surpreso.
Então não eram comprimidos, mas cápsulas de gelatina que continham medicamentos.
Essas cápsulas podem ser abertas e montadas novamente sem que alguém perceba.
É isso o que você quer dizer?
- Isso mesmo!
Ai, seu Rodolfo, olha eu acusando alguém de um crime sem saber.
Rodolfo procurou manter o semblante tranquilo a fim de não assustá-la.
- Você acha que isso é possível, Eunice?
- Ah! O doutor Horácio vasculhava todo o quarto de dona Lorena cada vez que ela saía.
- E você sabe dizer se ele achou alguma coisa?
- Olha, seu Rodolfo, acho que já estou falando demais, eu ouvi os dois discutindo na escada antes de o pai do senhor.
Ele disse que queria falar com ela no escritório.
Aí falou o nome de um negócio que tinha encontrado nas coisas dela.
Não deu para ouvir direito, pois eu estava na porta da copa.
- Você acha que ela teve chance de empurrá-lo?
- Eu não vi nada, mas quando, naquela noite, levei o Hélder para a cozinha, depois de algum tempo a dona Lorena apareceu e pediu para eu sair.
Eu me afastei; não pensei que fosse sério.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 24, 2016 10:26 am

Então ela falou:
"Filho, presta atenção, a mamãe tentou segurar o seu bisavô, viu?"
Depois o Hélder disse que estava com medo, e ela tornou a repetir:
"Você está com medo porque viu que a mamãe quase caiu para segurar o seu bisavô, tá bom?
Se você disser isso para os outros, vai ficar sem mamãe".
Ela disse outras coisas bem baixinho, as quais não ouvi.
Pensei em falar para o senhor, mas tive medo.
- E por que está tendo coragem de me contar isso agora?
- Porque o senhor vai vender essa casa, vou ter de arrumar outro emprego e não verei mais dona Lorena.
Tenho medo dela.
Às vezes, eu a vejo dançando, rindo ou falando sozinha e de jeito estranho.
- Meu Deus! - murmurou Rodolfo.
Nem sei por onde começo.
- Mude-se daqui, seu Rodolfo, afaste-se dessa casa; tudo aqui está muito ruim.
O senhor vai ver como a Kássia e tudo na sua vida vão melhorar.
- Vou fazer isso.
Já estou com um apartamento em vista.
Mas não posso me esquecer do Fernando e do Hélder.
E... a propósito, Eunice, não procure outro emprego, pois gostaria que continuasse trabalhando para mim.
- Eu já estava preocupada, pois soube que o seu Ian chamou o Américo e a Lúcia para trabalharem para ele.
- Não se preocupe, eu e Kássia vamos precisar de você.
A moça estendeu um largo sorriso de satisfação e, emocionada, agradeceu muito, depois se foi.
Na espiritualidade, todos acompanhavam a conversa, e Lídia argumentou:
- Pobre Lorena. Teve tantas oportunidades.
- Mãe, não sente nada contra ela?
- Cristiano, de alguma forma os ensinamentos de Jesus iluminaram minha consciência.
Para dizer a verdade, o que sinto por Lorena é imensa piedade.
Tenho muita dó dessa moça.
Ela será vítima dela mesma.
- Que bom vê-la pensando assim, mãe.
Não é fácil nos elevarmos a esse ponto, eu bem sei.
- Depois que compreendemos e acreditamos que a vida não acaba após a morte e que vamos nos reencontrar, tudo fica mais fácil.
Lembro-me de que quando você se foi, Cristiano fiquei num desespero só.
- É, eu sei.
- Não vou dizer que deixei de sentir aquela dor ou de experimentar a separação sem saudade, mas com os ensinamentos que Regina me propôs consegui reerguer-me na esperança de encontrá-lo algum dia.
Consegui enxergar um Deus bondoso e justo.
E, sendo Ele o Pai amoroso que Jesus ensinou, Ele não nos separaria eternamente.
O mesmo aconteceu quando desencarnei e comecei a sentir falta dos que ficaram.
Só que aí, mais preparada, experimentei uma saudade com misto de amor, não uma egoísta ou melancólica.
- Não é fácil aprender isso.
- É que, quando encarnados, esquecemo-nos de cuidar de nós mesmos como espíritos eternos que sofrerão e provarão tudo o que fizeram outros sofrerem.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 25, 2016 10:08 am

Encarnados, cuidamos normalmente só do que é material, somos egoístas, vaidosos...
Quando na verdade saímos da encarnação exactamente como entramos, levamos somente nossas práticas morais.
- Veja a pobre Lorena - interferiu António.
Deixo que se aproximassem dela espíritos compatíveis com seus pensamentos nervosos, egoístas e vingativos.
Agora tem o coração envolto por uma névoa sombria e pagará tributo a própria consciência desequilibrada, que lhe cobrará cada centelha de tudo o que praticou.
Lorena já está sendo embalada pelos pesadelos que seu íntimo criará e com a ajuda desses companheiros espirituais se comprazem em fazer o mal e dos inimigos adquiridos no passado que não vão perdoá-la em breve padecerá sérios tormentos.
Veja - mostrou António, apontando para Lorena -, olhem bem os vultos remontados ao seu redor.
São espíritos inferiores, impiedosos e sórdidos que já estão bem afinados com ela.
- Foram eles que a induziram a cometer os crimes? - questionou Cristiano.
- Posso dizer a você:
"Pegue uma faca e vá ferir alguém que o magoou".
Se você não for uma criatura vingativa, irá imediatamente reverter essa ideia.
Se for imprudente, ainda poderá pensar:
"Puxa! Eu queria que o fulano morresse".
Agora, se você for tão sórdido, tão vil quanto minha ideia, começará a planear como poderá ferir, matar ou prejudicar quem o magoou.
Assim sendo, meu amigo, os outros podem induzi-lo, mas seu nível moral, espiritual, sempre ecoará mais alto em sua razão, na sua consciência.
Todos reflectiam naquele exemplo, e logo Lídia perguntou:
- Esses espíritos sem evolução podem nos ver?
- Não - afirmou António.
Estão em um nível mental e moral bem inferior.
Aproveitando a pausa, António solicitou:
- Bem, pessoal, acho que está na hora de irmos.
- Eu só queria ver minha filha - pediu Lídia com jeitinho.
- Então vamos! - animou o instrutor.
A essa altura, Rodolfo estava inquieto no escritório aguardando os correctores que não haviam chegado.
Kássia, que estava à sua procura, ficou satisfeita ao vê-lo e anunciou:
- Acabei de me matricular no cursinho.
- Que bom, filha! Isso é maravilhoso!
A propósito, conversei com o doutor Manoel, e ele nos indicou um colega de muita confiança, que pode remover essas tatuagens.
O rosto de Kássia pareceu iluminar.
- Jura, pai?!
- Marquei uma consulta para a próxima semana.
- Ainda...!
- Não teve jeito, mas está garantido.
Enquanto Kássia, com leve sorriso no rosto, parecia imaginar como seria ficar livre daquelas marcas, o pai observou:
- Você me parece tão bem.
Acho que a análise está fazendo efeito.
- Está sim. Sinto-me bem melhor.
- O que pretende fazer na faculdade? - perguntou Rodolfo bem animado.
- Hotelaria.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 25, 2016 10:09 am

Ele riu ao dizer:
- Ah! Vejo que quer garantir um emprego junto com seu primo.
- Não posso negar essa ideia.
Estou gostando dos planos de Ian. E...
Exactamente nesse instante, ouviram-se os gritos de Lorena.
Rodolfo e Kássia correram até a sala em que a esposa de Fernando gritava ao olhar para Hélder.
- Saia! Saia daqui!!!
Lorena colocava as mãos na cabeça e puxava os cabelos enquanto gritava desvairadamente.
- Você morreu!
Eu sei que você morreu!
Não venha me assombrar.
Saia daquiiiiii!
Firme, o sogro falou com veemência ao se aproximar:
- Pare com isso, Lorena!
Está assustando o menino!
O pequeno Hélder estava chorando e estendendo os bracinhos para a mãe como se quisesse seu colo.
- Não... Não... - gritou ela se apossando de um adorno que estava sobre a mesa.
Quando ia atirá-lo no menino, Kássia a impediu:
- Você também! Saia daqui!
Você está morta, entendeu?
Você morreu no hospital!!!
Na espiritualidade, António, amigo e instrutor, explicou:
- Ela está sofrendo verdadeiras alucinações provocadas pelos companheiros com os quais se afinou.
Eles simplesmente usam as acusações de sua própria consciência.
- Por que eles fazem isso? - perguntou Cristiano.
- Porque são ignorantes, propensos a maldades, sem responsabilidade, sem amor, egoístas e orgulhosos como Lorena.
Vamos nos lembrar de que "todo pensamento que nos for mal sugerido provém de espírito dessa ordem".
Ou seja, os espíritos inferiores, impuros e da décima classe6 normalmente nos sugerem ideias de ciúme, inveja, desconfiança, estimulando-nos a ter sugestões de que somos ofendidos e de que devemos mostrar nossa superioridade aos ofensores; isso é orgulho, vaidade e vingança.
Observando mais o desespero de Lorena, Lídia perguntou comovida:
- Por que a atacam?
- Por prazer.
Eles simplesmente têm prazer em vícios e paixões vis, na crueldade, na avareza, na sordidez.
Para eles isso não passa de uma brincadeira.
Estão fazendo com que Lorena veja Denis no próprio filho, o filho de Regina, e em Kássia ela enxerga você, Lídia.
Vendo que Lídia começava a ficar preocupada com a situação, António decidiu que seria bom que se retirassem; afinal, havia ali na espiritualidade companheiros preparados para ajudar e proteger os encarnados envolvidos naquele drama.
Lorena repentinamente começou a gargalhar e dizer:
- Ah! Vocês estão brincando comigo, não é?
Estão querendo me assustar.
Rodolfo tomou Hélder em seus braços, enquanto Lorena, proferindo desatinos, descontrolada, correu pelas escadas e foi para o seu quarto.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 25, 2016 10:09 am

- "Creio em Deus Pai!", seu Rodolfo! - desabafou Eunice, apavorada.
Parece que a mulher está possuída!
Ela estava vendo dona Lídia quando olhava para Kássia ou foi impressão minha?
Confortando o neto em seu ombro, ele preferiu não opinar.
- Não sei dizer, Eunice.
Kássia e seu pai entreolharam-se sem dizer nada.
Bem mais tarde, aguardando que o filho e o sobrinho chegassem, Rodolfo os reuniu e contou tudo o que houve, mas não falou sobre suas suspeitas de Lorena ter cometido qualquer crime.
- Aconteceu pouco antes de os correctores chegarem. Foi terrível.
- Estou assombrado - confessou Ian.
Não sei o que dizer.
- Há dias acho que minha mulher precisa de um médico, mas se eu fosse dizer isso vocês iriam pensar que eu estava querendo me livrar dela.
- O que vocês acham de irmos conversar com Lorena sugerirmos um especialista? - propôs Rodolfo.
- Duvido que minha irmã aceite, tio.
Mas é nosso deve tentar.
Naquela mesma noite foram conversar com Lorena, que se apresentava totalmente normal, e para a surpresa de todos ela aceitou ir a um psiquiatra.
Dias se passaram, e em certa noite Regina encolhia-se no sofá, enquanto Amanda brincava sob seu olhar melancólico.
Ian chegou para uma visita, mas antes foi conversar com dona Glória.
- Às vezes, meu filho, acho que não vou aguentar desabafou a senhora.
Depois que tudo começa a cair na rotina e as pessoas se afastam naturalmente de nós sentimos um vazio, uma falta...
Sem contar com a imaginação, que nos leva a um desespero...
Será que ele está sendo judiado?
Será que está vivo? Será que...?
Sua voz embargou, e poucas lágrimas rolaram tímidas em seu rosto sofrido, mas foram aparadas ligeiras pelas mãos trémulas.
- Acho que meu coração não vai aguentar. Ian.
Um neto é a continuação da nossa vida, além de um filho.
Penso que estou ainda tendo forças por causa de Amandinha e de Regina.
Elas precisam de mim.
- Nem sei o que dizer, dona Glória.
Sei que é muita dor - respondeu o moço.
- Agora, fico vendo Regina sempre triste, sem se cuidar, só atirada num canto, e sei que não posso fazer nada, não tenho o que falar.
Ela está desinteressada pela vida.
Nem as bijuterias vem fazendo; diz que não consegue mais se concentrar e larga tudo.
Há momentos em que chora e se sente culpada; acha que, por estar cuidando de si, não cuidou do filho.
- Mas ela passou por uma doença séria.
A recuperação da quimio é terrível.
- Mas ela se culpa, diz-se inútil.
Estou preocupada porque não quis ir ao psicólogo essa semana.
Na semana passada não foi ao encontro daquele grupo de apoio a mulheres mastectomizadas e amanhã falou que também não vai.
Após breve pausa, admitiu:
- Não tenho mais forças.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 25, 2016 10:09 am

- Eu vou falar com ela, quem sabe...
Após se levantar, afagar levemente as costas da senhora, Ian foi até onde sua amiga deveria estar.
Os brinquedos espalhados mostravam que Amanda estava bem activa.
A garotinha brincava num canto da sala, enquanto Regina encolhia-se no sofá.
Ao ver Ian, ela corrigiu a postura, sentando-se.
Após beijar a menina, o rapaz foi para perto de Regina e a cumprimentou, acomodando-se ao seu lado.
- Você está bem?
- É... estou - respondeu com certo desalento.
Já ciente de seu estado depressivo, Ian observou:
- Sei que não é fácil, Regina.
Mas não se deixe vencer pelo desânimo.
- Como posso estar bem se as coisas não estão?
- Creio que sua transformação, a transformação de um rosto sisudo para um com um sorriso já trará um bem pessoal para você mesma; criará uma vibração melhor àqueles que estão à sua volta.
Ian falou com bondade, porém firme, ao dizer a verdade.
Quase indiferente, Regina desabafou amarga:
- Não dá para descrever o que sinto.
Só tenho vontade de chorar.
Acredito que eu seja culpada pelo que ocorreu ao meu filho...
Um soluço a deteve, enquanto lágrimas banhavam seu rosto.
- Certa vez - disse o amigo -, conversando com minha tia, ela me falou que você a fez mudar de ideia quanto à morte de Cristiano, quando lhe disse:
"Seu filho está onde seu pensamento o colocar.
Ele vai receber o que seu pensamento enviar".
- Mas a Lídia tinha certeza de o filho estar morto. E eu?
- Você acredita em Deus, Regina, e sabe que Ele não desampara ninguém.
Sabe também que seu filho recebe suas vibrações, seus desejos, o carinho de suas preces onde quer que esteja, encarnado ou desencarnado.
Você sabe, Regina, que seu filho é capaz de receber suas vibrações tristes e os sentimentos amargos.
Essa sua indiferença pelas coisas boas à sua volta...
Ela o atalhou, perguntando rápido:
- Que coisas boas?
- Regina, você venceu o câncer, apesar de todo sofrimento.
Pode ter perdido a casa onde morava, mas não está sem tecto, pois sua mãe está com você e do seu lado.
Veja a sua filha.
A Amanda tem saúde, está bem e é uma criança alegre e normal.
Essas não são coisas boas?
Coisas boas das quais você não está participando, não está vivendo, porque se larga triste, chorosa e deprimida.
Perdoe-me a sinceridade, mas esses sentimentos não vão trazer seu filho de volta.
A depressão é o câncer da alma, tão terrível e até mais do que o câncer no corpo, pois o corpo tem muitas chances de ser curado pela ciência, pela medicina, mas a alma só pode ser tratada por sua própria consciência, pelos seus pensamentos.
Olhando sobre a mesinha central da sala, ele observou a caixa de medicamentos e falou:
- Não adiantam nada os antidepressivos da vida!
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 25, 2016 10:09 am

Existem mais de sessenta versões desses remédios só no mercado brasileiro, e as pessoas começaram a acreditar que essa é a pílula mágica capaz de fazê-las mudar de tristes para felizes.
Isso não existe.
Esses medicamentos atuam nos neurotransmissores responsáveis pela conexão entre as células cerebrais, a fim de corrigir uma falha química que impede a sensação de bem-estar, só que os médicos acreditam que sua acção, junto à psicoterapia, é a melhor combinação para resultados satisfatórios.
Mas eu lhe digo ainda mais: somente um médico psiquiatra deve receitar um antidepressivo, e sei que não foi esse especialista que lhe receitou esse remédio - disse, indicando para a caixa do medicamento.
Além do mais, existem estudos sobre os antidepressivos confirmando que eles funcionam apenas como um anestésico para os sentimentos depressivos, sem tratar as causas do problema.
A sensação de calma ou de alegria aparente quando se toma esse medicamento é falsa, e toda a angústia, todo o desespero, todo o estado depressivo voltarão imediatamente quando você interromper a ingestão do medicamento.
Nervosa, Regina o interrompeu, dizendo:
- Então sou culpada também pela minha depressão, pela minha tristeza?
Talvez ela esperasse ouvir outra coisa, mas o amigo foi fiel ao responder:
- Sim, você é culpada pela sua depressão, sim.
Você está se tratando como sendo seu maior inimigo.
Só você pode ser a causa da sua felicidade.
Apesar dos pesares, a vida é linda!
Está lhe faltando a capacidade de ver-se como alguém que merece de você mesma o maior amor e o maior carinho.
O apego excessivo cultivado pelos entes queridos deixa ser amor quando o sentimento surgido é de desespero, tristeza excessiva, revolta contra tudo e contra Deus.
Contrariada, Regina chorou.
- E o que fazer?! - perguntou ela.
- Não olhar a vida com tanta dureza, com tanta tristeza.
Desenvolver o hábito do pensamento positivo, do optimismo.
Sabemos que o mundo não é tão perfeito, mas é o que merecemos, e se o olharmos com brandura, separando as coisas boas, sorrindo, a vida será mais agradável e até mais prazerosa.
Faça uma pausa e se avalie. Avalie sua vida.
Toda essa tristeza, todas essas lágrimas valem a pena?
Resolverão seus problemas ou criarão mais um?
Para mudar, para melhorar, é preciso também melhorar os pensamentos.
Quando vier uma ideia triste, depressiva, mude-a imediatamente para outra alegre, optimista, construtiva e cheia de esperança.
Na minha opinião, a depressão, na maioria dos casos, começa com o vício de não sorrir e de ficar triste.
Reclamação e ansiedade são o início dessa doença tão corrosiva, é a metástase depressiva instalando-se na alma.
A "pílula mágica" contra a depressão pode não estar nos remédios, mas sim na semente dos pensamentos positivos que germinam conforme sua vontade.
- Talvez eu nunca saiba onde está meu filho.
- Mas, se você acredita em Deus, sabe que vai se encontrar com ele.
Deus não nos separa daqueles que amamos.
Porém, Regina, hoje, se você está deprimida, inquieta, triste e preocupada, certamente está deixando de viver e de fazer feliz aqueles que estão ao seu lado e precisando de você, da sua alegria.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 25, 2016 10:09 am

Em palavras mais amargas, porém sinceras, eu diria que você envia sentimentos tristes ao Denis e se nega a Amanda quando se afasta da experiência de contacto tão necessária e salutar para sua filha, agora.
Com essa atitude, você não está longe só do seu filho, mas da sua filha e da sua mãe também.
Mude a ideia, mude os pensamentos, mude seus hábitos.
Seus pensamentos tristes, seu mau humor, seu estado depressivo não vão trazer soluções.
Se a experiência passada foi amarga, ficando assim você só estará repetindo o que passou.
Valorize com amor e carinho o que restou e vai reconhecer há vida há muita vida à sua volta, e onde existe vida existe oportunidade de ser feliz.
- Minha vida ruiu com a tempestade que passou.
- A tempestade nunca é eterna e quando passa sempre há a chance de reconstruir, de reformar e fazer tudo de novo, mais belo, com mais capricho.
Ore. Peça a Deus a serenidade para aceitar as situações que você não pode mudar.
Peça forças para reconstruir, o quanto antes o que precisa ser modificado.
Creia que você tem capacidade de fazê-lo.
Após breve pausa, ele acrescentou:
- Não quero dizer que os antidepressivos sejam ineficazes ou desnecessários.
Quero lembrar, primeiro, que é preciso ter muito critério para administrá-los.
Os problemas circunstanciais da existência, como a perda de emprego, o falecimento de uma pessoa querida, o divórcio e outras coisas, são frustrações, sustos que provocam excessiva tristeza e certamente passageira, apesar de tudo.
Tristeza não é caso para medicamento antidepressivo.
Tristeza e infelicidade fazem parte da vida, da evolução moral, e temos de lidar com isso.
A depressão mesmo afecta intensamente a vida de uma pessoa, comprometendo toda sua rotina diária.
Se você não estiver com essa doença, o medicamento só irá anestesiar seus sentimentos, entorpecendo-os, mas eles virão à tona, com certeza, quando você parar com os remédios.
Além disso, minha amiga, nenhum medicamento surte efeito se você não desejar, não se tratar com amor, respeito e carinho.
Regina estava parada e pensativa.
Sabia que Ian estava repleto de razão.
Não havia o que contestar.
Ela estava triste, sofrida e frágil; no fundo, pensava que necessitava de abrigo, de carinho, mas o amigo fiel oferecia-lhe verdade, conscientização e oportunidade.
Ela sabia que, se existe a vontade de mudar e crescer, tudo pode ser recomeçado.
Sabia que, se continuasse com aqueles sentimentos, nada produziria de bom e haveria de se encontrar naquela situação até conseguir superar os obstáculos da vida.
Ian trazia o coração apertado.
Sentia imensa vontade de agasalhar nos braços a amiga querida; entretanto, sabia que essa atitude poria a perder a conscientização de Regina.
Ela teria de criar forças a partir de então ou seria no futuro bem mais difícil fazê-lo.
- Regina, não é fácil, mas sei que você tem capacidade.
Deus não coloca fardos pesados em ombros frágeis.
Ela esboçou um sorriso forçado, mas sorriu.
Ian, por sua vez, sabia que era o momento de deixá-la meditar e decidir sobre como agir.
Despedindo-se, o amigo se foi, enquanto Regina ficou reflectindo.
Teria muito no que pensar.

6 - Podemos encontrar a classificação dos espíritos em O Livro dos Espíritos - Pergunta 102.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 25, 2016 10:10 am

31 - DURANTE O SONO

Com a saída de Ian, Regina se levantou, tomou um banho demorado e alimentou-se melhor do que das últimas vezes.
Antes de dormir, ainda teve tempo de brincar um pouco com a filha, que se animou tanto com a companhia da mãe que nem queria ir se deitar.
A custo, Regina a fez dormir.
Reflectiu muito enquanto via a filha adormecendo e decidiu mudar.
Tudo o que Ian falara era sua última alternativa, e ele estava repleto de razão.
Regina orou como há muito não fazia.
Sabia que seu filho estava com Deus onde quer que estivesse.
Sabia também que, quando dormimos, com a emancipação, nos são permitidas visitas a entes queridos, encarnados ou desencarnados.
Durante o sono, a alma emancipada do corpo vai ligar-se a seus afins em zonas inferiores ou superiores, de acordo com o nível moral do encarnado.
Ela sabia que seu filho estava amparado por espíritos superiores, pois todas as crianças o são.
Decidiu então que haveria de se harmonizar se quisesse estar com Denis durante o sono.
Tinha certeza de que, se não estivesse equilibrada e em paz, não teria a oportunidade de estar com ele, pois poderia passar-lhe vibrações negativas.
Na maioria das vezes, o encarnado não se recorda exactamente do que ocorreu durante o sono, mas sente as vibrações do que experimentou.
"Nesta existência", pensava, "sei que vou sentir imensa falta do meu filho, mas onde quer que ele esteja receberá de mim os melhores pensamentos e os mais nobres sentimentos.
Vou me equilibrar, ter alegria, pois assim tenho certeza de que, por misericórdia de Deus, haverei de me encontrar com Denis e, mesmo que não me lembre, ficarei melhor e ele também.
Haverei de acordar tranquila e saberei que isso aconteceu."
Os dias se passaram, e Regina, a princípio, forçava-se às actividades normais.
Passou a fazer caminhadas, cuidar novamente da saúde e procurar ocupações.
Voltou aos encontros com o grupo, ao tratamento com o psicólogo e tudo o que era necessário para se sentir bem.
A filha Amanda, em poucos dias, sentiu a diferença e também passou a corresponder com alegria, vivendo mais feliz.
Numa noite, Regina estava deitada ao lado de seu tesouro, que dormia profundamente.
Agora, sem chorar, pensava no filho, enviando-lhe sentimentos de carinho e amor.
"Como será que Denis está?", pensava.
"Deus, cuida bem do meu filhinho.
É tão difícil aceitar Sua vontade, mas acredito no Seu amor e na Sua justiça.
O Senhor não vai nos separar eternamente."
Lentamente, Regina ficava mais tranquila.
Vendo-se de mãos dadas com a pequena Amanda, caminhando por um vasto campo onde flores delicadas salpicavam com alegria um lindo gramado, ela pôde reconhecer o mesmo rapaz com quem havia conversado naquele misto de sonho e realidade.
Estampando um largo sorriso, o jovem trazia pela mão o pequeno Denis.
Sem soltar a mãozinha da filha, Regina acelerou seus passos ao encontro de ambos, caindo de joelhos perante eles.
Sem aguardar, apertou Denis de encontro ao peito, beijou-o várias vezes, enquanto dizia rindo e chorando:
- Filho! filho, onde você estava?
- Ah! Eu estava passeando!
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 25, 2016 10:10 am

- Mas onde, Denis?
Estou feito louca atrás de você.
O que aconteceu?
- Primeiro a tia me chamou e disse que meu amigo queria me ver.
Ela falou que já havia telefonado para você.
Então entrei no carro e, não sei, dormi e acordei num lugar muito legal.
- Denis, filho, você quase me matou de susto, de saudade...
- Eu também senti sua falta, mas os tios prometeram que você ia vir me ver.
Sabe, eu brinco tanto!
Tanto! que caio cansado e durmo logo.
- Meu amor, não vejo a hora de levá-lo para casa.
- Mamãe, os tios falaram que aqui eu vou crescer, estudar...
Disseram que você vai vir aqui me ver todos os dias ou... quase todos os dias.
Erguendo-se, Regina encarou o jovem e reclamou:
- Não podem ficar com ele!
Vou levá-lo comigo!
É meu filho.
Ao olhar para o lado, sem saber de onde surgiu, Regina viu a amiga, que lhe estendia os braços para envolvê-la com ternura.
- Lídia! Que saudade!
- Oi, Regina.
Como estou feliz em vê-la aqui!
- Lídia, estão querendo ficar com o meu filho aqui!
Quero levá-lo comigo.
Já orientada, a amiga não fez rodeios.
- Regina, o lugar de Denis é aqui connosco.
Cuidarei dele como meu filho, pode ter certeza.
Quando em desdobramento, durante o sono, o encarnado tem consciência da realidade, mas Regina, pela dolorosa e brusca situação, tinha o desejo de negar a verdade que conhecia.
- Você não entende, Lídia.
Eu vou morrer se ficar sem o meu filho.
- Se você morrer, aí sim ficará longe de Denis por mais tempo.
Procure viver, Regina, viver mesmo!
Viver com amor, com brandura, com tudo de bom que tem na alma.
Assim terá condições de vê-lo sempre e de receber nossa visita.
Regina parou, parecendo reflectir.
Ao olhar para o lado, reparou que Amanda e Denis brincavam inocentes, como se nada de diferente houvesse, e Lídia aproveitou para apresentar:
- Esse é Cristiano, meu filho.
Regina sorriu e aceitou com carinho o abraço que o rapaz ofereceu.
- Já nos falamos - lembrou ela.
- Sim, Regina.
Tive e tenho muito a agradecê-la pelo que fez por mim e pela minha família.
Com olhar melancólico, ela argumentou:
- Não quero deixar meu filho aqui.
- Esse é o lugar ideal para ele, minha amiga.
Se passar a sofrer excessivamente por Denis, se implorar por sua presença, sabe que vai atraí-lo para junto de você, e esse não é o lugar adequado para o seu estado.
Ame-o, deseje felicidade e alegria.
Há criaturas bem especiais cuidando dele.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 25, 2016 10:10 am

- Quem?
Imediatamente uma luz delicada como uma claridade celeste se fez e dela surgiu uma figura familiar na feição de uma senhora bem morena, de baixa estatura, usando simples vestido e com os cabelos grisalhos bem presos num coque.
Seu sorriso era doce, e dela própria espargia uma vibração elevada de amor verdadeiro, algo sublime.
- Vovó?! É a senhora? - exclamou Regina.
Abraçando-se, trocaram sentimentos inenarráveis.
Docemente, a linda senhorinha argumentou:
- Minha querida, hoje o Denis está muito bem.
Aceitou com coragem a mudança, apesar de sentir sua falta.
Ele agora precisa se instruir e crescer.
O seu proteccionismo poderá amargurá-lo.
Confie em mim e em seus amigos queridos.
Esteja bem com sua consciência para poder vê-lo sempre.
- Vovó, a dor é muito grande.
- E eu lhe digo que sempre vai senti-la, até que estejam no mesmo plano.
Porém, minha querida, converta-se ao trabalho, à tarefa de instruir outras pessoas e de alertá-las para tudo.
Sirva de exemplo por amor, despojando-se definitivamente da vaidade e do orgulho, pois, quando temos esses terríveis vícios queremos esconder ou mascarar nossas mazelas, os acontecimentos verdadeiros de nossas vidas.
Parecendo sentir aquela elevada vibração, Regina aceitou com bondade os conselhos daquela criatura benevolente e sábia que fora mãe de dona Glória.
- Vovó, e o Jorge?
- Não é hora de saber dele.
Não pense, a fim de não atraí-lo para junto de você.
Agora, aproveite o momento; vá e abrace seu filho.
Regina tornou a se abaixar, e assim ela, Amanda e Denis permaneceram por mais algum tempo, até que aquela elevada criatura, por bondade e amor, aproximou-se da neta e, sem que percebessem, cedeu energias calmantes e sedativas.
Cristiano e outro companheiro encarregaram-se de levar Regina e Amanda de volta a seu lar com segurança, até entregá-las suavemente aos seus respectivos leitos.
Enquanto isso, Lídia cuidava com todo amor do pequeno Denis.
A claridade que invadia o quarto fez com que Regina tivesse um despertar suave.
Amanda levantou-se esperta e activa.
Ao saltar da cama, virou-se para a mãe e falou:
- Mamãe, eu sonhei com meu irmão.
Atordoada, a mãe também tentava se lembrar de um sonho, mas as imagens e ideias se confundiam.
Regina sabia que havia sonhado, mas não sabia dizer o quê.
Quando estavam sentadas à mesa fazendo o desjejum, Amanda tornou a lembrar.
- Eu sonhei com o Denis.
Dona Glória e Viviane olharam para Regina, que acabou afirmando:
"- É engraçado, eu também tive um sonho com ele, mas ainda está confuso.
Lembro-me de que vi a vovó, depois não era mais ela, era a dona Lídia.
Não consigo me lembrar direito".
Nesse instante a voz de Regina embargou, e ela se calou.
Tranquila, dona Glória levantou-se e não disse nada.
Sofria com tudo aquilo.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 25, 2016 10:10 am

Virando-se para Amanda, a avó amorosa avisou:
- A vovó já fez seu lanche.
Vamos logo para não se atrasar.
- Deixe que eu a levo, dona Glória - pediu Viviane.
- Pode deixar, preciso passar na farmácia; vou medir a pressão e também quero andar um pouco.
Amanda obedeceu, e a avó a seguiu para que acabasse de se arrumar.
Depois de ficar pronta, a menina despediu-se da mãe e de Viviane, a quem chamava de tia, e se foi.
Recompondo-se um pouco da forte emoção, Regina falou:
- Como me dói...
Sabe, às vezes fico na expectativa, como se ele fosse entrar por aquela porta a qualquer momento.
Na rua, ou na frente da escola, quando vou levar ou buscar Amanda, quando vejo um grupo de meninos da sua idade, tenho a impressão de ver o Denis entre eles.
Chego a escutar sua voz.
- Regina, não se entregue à tristeza.
- É difícil, Viviane.
Há momentos em que minhas lembranças me cobram...
- Você foi uma boa mãe e...
- Mas me arrependo do que neguei a ele, de quando fiquei brava...
- Lembre-se de que, se você foi enérgica, não era para maltratá-lo, mas sim para ensiná-lo, orientá-lo para a vida.
- Eu sei disso. Mas...
Ante a tristeza manifesta, Regina fechou os olhos sem conseguir deter algumas lágrimas de saudade.
A angústia maior era não ter a certeza de onde estava seu amado filho, o que, encarnada, jamais saberia.
Pouco tempo depois, algumas palmas se fizeram no portão, parecendo-se aproximar.
- Ora! Quem será? - intrigou-se Viviane.
Indo atender, deparou-se com Renato.
- Olá Viviane.
Minha mãe está? - perguntou o moço com jeito humilde.
- Ela foi levar a Amanda na escola.
Mas não deve demorar.
- E a Regina?
- Entre. Ela está na cozinha.
Ao deparar com a irmã, Renato a cumprimentou com um beijo, sentou-se à mesa e perguntou:
- Como você está?
- Muito abalada ainda.
Para dizer a verdade, tenho de me forçar a tudo, mas encontro forças na fé e vivo um dia de cada vez.
- Você tem a Amanda para cuidar.
- Sim. É verdade.
O rapaz falava de modo simples, como quem reconhecesse ter perdido a razão em outros tempos.
- Sabe, Rê, mudei de emprego.
- Toda mudança é boa.
- Precisei mudar.
Comecei a não gostar de algumas coisas, e por isso me demitiram.
Mas eu já tinha uns bons contactos e no dia seguinte estava empregado.
O bom é que o salário é bem maior.
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