O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 12, 2016 1:39 pm

As coisas não são assim tão fáceis.
Há casos de o espírito sentir-se perturbado pelas insistências de encarnados que lhe assediam com pedidos de comunicações, de mensagens.
Mas, quando ganham confiança e fé, esses entes queridos deixam de solicitar mensagens, compreendendo que aquele que partiu precisa de evolução, de paz, e não o incomodam mais.
Sentando-se atrás da mesa, esfregando o rosto com ambas as mãos, Rodolfo confessou:
- Eu não gosto disso.
Sentem-se que vou lhes contar minha história.
Kássia, o irmão e Regina acomodaram-se em cadeiras à frente da mesa, ficando todos na expectativa.
- Eu estudava.
Fazia o científico e foi nessa época que comecei a ter problemas.
Sentia-me estranho, dores de cabeça frequentes e muito irritado.
- A vovó era viva nessa época? - interessou-se Kássia.
- Sim, era.
Foi ela quem me levou a um centro, e após me consultar com um homem que se dizia "pai-de-santo", que nos atendeu atenciosa e educadamente, e estava incorporado, ele disse que eu era médium e tinha que desenvolver.
Comecei a frequentar o tal centro - contava Rodolfo, com o olhar perdido, parecendo repugnar as lembranças que lhe vinham à mente.
Logo continuou:
- Eu incorporava espíritos vis, reles, ordinários, que comiam, bebiam, fumavam e faziam exigências por caprichos pessoais, como se estivessem encarnados.
Na vida comum, no meu dia-a-dia, comecei a me sentir mais perturbado ainda, nervoso e verdadeiramente doente.
Minha mãe foi falar com o homem que se dizia "pai-de-santo", e ele disse que eu tinha de "fazer o santo", que isso era uma exigência dos meus guias.
Disse que eu tinha de fazer um trabalho para me equilibrar e ir melhor nos estudos.
O homem acabou falando que eu era fraco, e todo o "olho-gordo", todos os "trabalhos espirituais" ou "coisas feitas" que faziam para o meu pai, avô de vocês - completou, olhando para os filhos -, caíam sobre mim.
Esses "trabalhos", segundo ele, eram por inveja, ciúme.
Após suspirar profundamente, continuou:
- Pois bem, "fiz o santo", uma experiência que hoje tenho como repugnante, abominável.
Na minha opinião, isso é só para criaturas extremamente ignorantes.
Fiz e desfiz os tais "trabalhos" e tudo o mais que esse homem pediu.
Ele disse que, se eu deixasse de frequentar o centro e de dar passagem, ficaria louco, verdadeiramente um debilitado mental.
Lá, eles só sabiam pedir coisas, dinheiro e mais dinheiro.
- Por que você acha que era uma prática repugnante? - perguntou Kássia, curiosa.
- Porque havia matança de animais, bebíamos o sangue desses bichos ainda quente, banhávamo-nos nele.
Logo, comíamos as vísceras assim que acabavam de arrancá-las dos bichos.
- Credo!!! - repugnou Kássia.
- Vocês não imaginam o que era.
Havia também os que frequentavam os cemitérios e comiam vísceras de mortos recém-enterrados.
- Você fazia isso, pai?! - assustou-se Fernando.
- No cemitério, não. Eu só assisti.
Bem, deixe-me continuar.
Além de ir lá no centro comigo e de acompanhar tudo, minha mãe era católica e não perdia uma missa, além de assumir outras tarefas na comunidade que frequentava.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 12, 2016 1:39 pm

Só que, lá na igreja, ninguém imaginava que ela pudesse ir a um lugar como aquele que frequentávamos assiduamente.
Nessa época não morávamos aqui.
Era uma casa tão grande quanto essa, porém com menos luxo.
Rodolfo parou por breves instantes, tomando coragem, depois prosseguiu:
- Um dia, encontrei minha mãe dentro da banheira e com os Pulsos cortados.
Ela mal olhou para mim e deu o último suspiro.
Em suas mãos havia um terço.
Talvez pedisse perdão.
- Deve ter sido uma cena horripilante - considerou Regina.
- E como foi, ninguém pode imaginar.
Todos ficamos abalados.
Minha irmã sofreu crises de nervos, agarrou-se à nossa mãe e...
A respiração de Rodolfo estava alterada.
Tudo aquilo ainda feria seus sentimentos.
Mesmo parecendo abalado, continuou, após recompor-se:
- Bem, lembro-me de que fui procurar o padre da paróquia que minha mãe frequentava e pedi a ele que a abençoasse, que fizesse uma missa de corpo presente ou algo assim.
Porém, qual não foi minha surpresa quando ele me disse que suicida não tinha o perdão de Deus.
Ele não ia rezar a missa, pois disse que ela tinha-se condenado a uma pena perpétua.
Fiquei louco. Desesperado.
Além de perder minha mãe em condições tão difíceis de aceitar, saber que ela ficaria no inferno eternamente era tenebroso.
Na minha opinião, naquela época, Deus deveria ser um monstro para deixar isso acontecer.
Rodolfo calou-se por alguns segundos.
Seu olhar estava perdido, não queria recordar tudo aquilo.
Porém, prosseguiu:
- Dias depois, a empregada encontrou atrás de uma cómoda uma carta de minha mãe.
Até então ignorávamos o motivo do suicídio e nessa carta lemos que ela soube, por meio de consulta naquele centro, que meu pai tinha outra mulher, que tinha filhos dele, e que ele a amava muito, e precisariam fazer muitos trabalhos para separá-los.
O homem também falou que meu pai só estava com ela por obrigações do casamento assumido; afinal, ele já era alguém de nome e respeito e não poderia assumir uma separação.
Ainda afirmou que era essa outra mulher quem fazia os "trabalhos" que pegavam em mim.
Somente quando chegou em casa desconsolado meu pai soube dessa carta, que eu e meus irmãos a havíamos lido.
Ele queria saber onde era o tal centro, quem era o homem, e nos disse que tudo aquilo era mentira.
Jurou que nunca havia traído nossa mãe.
Desde então meu pai ficou diferente, calado.
Com os dias, um pouco mais calmo e com os conselhos e a ajuda de colegas, meu pai processou o tal homem.
Ele ficou preso por algum tempo, mas nada disso trouxe nossa mãe de volta ou amainou nossos sentimentos.
Olhando firme para Regina e para os filhos, ele afirmou:
- É por isso que não aceito nenhuma religião.
É por esse motivo que só acredito no esforço pessoal.
O bom planeamento da vida é que nos traz a paz.
Eu não gosto de espírito ou coisas assim.
Como vocês podem ver, larguei tudo o que fazia naquele centro, e de uma só vez, e nada aconteceu comigo.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 12, 2016 1:39 pm

Não fiquei louco nem desequilibrado, como disseram que eu ficaria.
Fico feliz e satisfeito, Regina, por você ter tirado minha esposa do quarto, fazendo-a, por enquanto, sair do desespero e da depressão, mas me preocupo com as consequências disso.
Com um jeito parecendo revoltado, Rodolfo desabafou:
- Acredito que deva haver algum Criador, mas sempre me questiono:
Que Deus é esse apresentado pelas religiões que nos deixa sofrer?
É um Deus partidário?
É um Deus preferencialista, que tem os seus eleitos, os seus predilectos?
Só pessoas ignorantes e de seitas ignóbeis podem crer em um Deus que exige sacrifícios, que não compreende a pequenez ou a falta de conhecimento do ser humano, condenando-nos a sofrimentos eternos.
Eu sempre me pergunto:
Por que o pedinte de rua, um ser humano que tem as mesmas necessidades emocionais, fisiológicas e afectivas que eu, está carente e na penúria?
Será que sou um eleito de Deus?
Será que Deus é um sádico por exigir que a grande maioria sofra, deixando que muitos vivam pressionados nos morros, embutidos nas favelas repletas de violências, drogas e crimes?
Cansei-me de ouvir:
"Essa é a vontade de Deus".
Que Deus é esse?
Por isso, dei um basta a todo tipo de explicações pobres de crenças sem fundamento.
O raciocínio lógico nos deixa enxergar mentiras, embustes.
Passei então a acreditar que somos ricos ou pobres pelo nosso próprio esforço, pelo nosso empenho e perseverança.
Acredito que o homem sempre teve sua necessidade natural, psicológica talvez, de acreditar no sobre-humano, no sobrenatural, no Todo-Poderoso.
Temos que distinguir o que é natural do que é cultural.
É natural acreditar em um Criador.
Eu diria que é até científico crer em um Criador.
Mas as religiões foram criadas pelos homens, e cada cultura, cada povo, quis e quer ser superior; todos querem ser o "povo eleito" por Deus devido à religião que seguem, acreditando que só a eles é oferecida a salvação.
Por isso me preocupo.
Prometi a mim mesmo não mais aceitar doutrinas vis nem deixar que meus filhos as sigam.
O silêncio reinou após a longa palestra.
Regina suspirou fundo, trocou olhares com o namorado e falou:
- Eu sou espírita, senhor Rodolfo.
A Doutrina Espírita é algo completamente diferente do que o senhor relatou como experiência.
Os contraditores do Espiritismo fazem objecções, são hostis, porque não têm conhecimento completo sobre ele e fazem julgamentos com precipitações baseadas em outras doutrinas, que, para esses contraditores, são semelhantes ao Espiritismo.
Posso afirmar, com muito conhecimento, que o senhor e sua mãe não foram a um centro espírita.
- Provavelmente era um centro de Umbanda - acreditou Fernando.
- Não, Nando.
Nem centro de Umbanda era, porque a Umbanda não sacrifica animais, não alimenta os médiuns incorporados com vísceras ou faz esses banhos com sangue, muito menos faz com que seus seguidores comam vísceras humanas.
Ela não realiza os chamados "trabalhos espirituais" voltados para a maldade, para o prejuízo de outrem, ou as chamadas "magias negras".
Porém, o Espiritismo é bem diferente de tudo isso.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 12, 2016 1:39 pm

- O que é o Espiritismo? - perguntou Kássia, interessada.
- O Espiritismo é Jesus.
O que Jesus fez e praticou o Espiritismo, a Doutrina Espírita ensina a praticar.
Para saber o que é essa doutrina, basta observar que Jesus agia com bondade, benevolência e, principalmente, sabedoria.
Não havia em Seus ensinamentos qualquer prática mística, supersticiosa ou de idolatria a imagens, apetrechos...
Então a Doutrina Espírita é exactamente assim, simples.
A fé, as boas práticas morais são seus ensinamentos.
O Mestre Jesus estendia a mão e cedia energia.
Assim, aceitamos os passes magnéticos que nada mais são do que a doação de energia.
Os espíritas têm como principal característica o estudo, a aquisição de conhecimento.
Jesus disse para conhecermos a verdade e ela nos libertará.
A verdade nos liberta dos misticismos, nos livra de crendices populares, como muitas superstições.
Os livros da Codificação Espírita nos ensinam sobre tudo isso, nos dão muita noção e entendimento do que realmente precisamos para nos elevarmos e termos paz.
É o esforço pessoal para o bem, para o pensamento positivo que nos faz evoluir, não o que usamos.
Pois, quando partirmos dessa vida, não levaremos nenhum apetrecho.
Tenho certeza de que qualquer pessoa inteligente, que saiba reflectir com ponderação e lógica, vai se curvar e dar razão aos ensinamentos da Doutrina Espírita quando ler O Livro dos Espíritos.
Não há nada nesse livro que possa ser contestado ou que tenha algo contrário à moral, às leis físicas, químicas ou a qualquer outra ciência.
A quem quiser conhecer o Espiritismo realmente convido a ler O Livro dos Espíritos e O Evangelho Segundo o Espiritismo, e não se basear no que vê ou ouve por aí.
A pessoa deve tirar suas próprias conclusões pelo conteúdo desses livros.
O Espiritismo não possui uma pessoa como representante encarnado passível de erros humanos; o que representa essa doutrina são os cinco livros de sua Codificação.
Esse é o consolador prometido por Jesus que ficaria eternamente connosco, falando sobre o que Ele nos falou e muito mais.
Que consolador poderia ficar eternamente connosco senão os livros?
- Você soube defender muito bem sua tese, Regina - disse Rodolfo.
Eu precisaria de algum tempo e estudo sobre o que argumentou para replicar suas objecções.
No entanto, o que mais me preocupa foi o que você prometeu a Lídia em troca de sua animação.
- Eu não prometi nada.
Eu disse, simplesmente, que seu filho poderá receber ou sentir suas vibrações, seus pensamentos confiantes, tranquilos e amorosos ou sentir suas vibrações tristonhas, seu estado depressivo, choroso.
Eu disse que ela deve considerar que ele viajou e que receberá o que ela lhe endereçar em pensamento.
Sorrindo e sentindo-se segura, Regina ainda afirmou:
- Fique tranquilo, senhor Rodolfo, não prometi nada duvidoso para dona Lídia.
- Perdoe-me questioná-la tanto, Regina.
Como você vê não conheço o Espiritismo; apesar de já ter ouvido falar sobre ele, não me interessei por só ter-me decepcionado com outras crenças.
Mas, só por curiosidade e até interesse pessoal, o que acontece com os suicidas segundo o Espiritismo?
- O suicida passa por um período de perturbação muito triste, extremamente doloroso, mas Deus não o condena eternamente; isso nunca!
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 12, 2016 1:40 pm

Quando um suicida clama por misericórdia, ele a tem desde que seu coração esteja livre de sentimentos inferiores, como o orgulho, a vaidade, a arrogância, e verdadeiramente arrependido do acto que praticou.
Não dá para precisar o tempo de socorro, pois cada caso é um caso, uma vez que o suicida sempre se acha cheio de razão; isso significa muito orgulho, arrogância, além da falta de fé no Criador.
Isso varia de pessoa para pessoa.
Porém, as vibrações, os pensamentos dos encarnados quando lhe endereçam bom ânimo, humildade, fé e esperança são muito importantes.
Acredito que seja como um conselho.
- Regina - perguntou Kássia -, você acredita que nascemos com uma deficiência por problemas em outra vida?
- Quando perguntaram a Jesus por que um homem era cego, se era por culpa de seus pais, Ele respondeu que ninguém pode sofrer por culpa de seus pais.
Com isso Jesus quis dizer que esse homem sofreu por culpa própria; então, se era um cego de nascença, também não poderia ter cometido um pecado no ventre de sua mãe.
Desse modo, só explicamos seu problema visual com a existência de vidas anteriores.
Não existem "os eleitos de Deus".
Eleitos somos todos nós pela oportunidade de vida e pela presente reencarnação.
- Você tem muito conhecimento, Regina.
Deveria ser uma advogada de defesa - acreditou Rodolfo, sorrindo.
- Nem tanto - disse a moça sorrindo, meio constrangida.
- Eu gostaria de conhecer melhor o Espiritismo.
Gosto de ler. Onde encontro esses livros?
- A princípio, nas melhores livrarias, mas hoje mesmo eu mando o Fernando lhe trazer O Livro dos Espíritos.
- Sou muito crítico.
Você sabe minha opinião sobre religiões.
- É bom lembrar que às vezes não gostamos de uma religião por causa da apresentação feita por alguma pessoa despreparada para falar sobre ela.
Todas as religiões e filosofias têm os seus ensinamentos bons; são alguns homens que desvirtuam tudo.
- Você soube o que um pastor disse à minha esposa.
Para que serve uma doutrina se não para consolar alguém diante da perda de um ente querido?
- Veja, ele é um homem comum, passível de erros.
Acredito que não esteja preparado para ofertar uma consolação diante da perda de um ente querido.
Até porque, se for oferecer uma explicação cabível e lógica, vai acabar se inclinando para doutrinas que ele mesmo combate.
Não pense que no Espiritismo só existem pessoas corretas.
Crer nisso é um grande engano.
Assim como em muitas outras religiões e filosofias de vida, no Espiritismo existem os que abrem falência por subornar, por trair, por não se importar com os filhos, por caluniar, roubar etc., mas terão de harmonizar tudo isso, pode acreditar; e mesmo sendo espírita ninguém pode representar o Espiritismo.
Por esse motivo recomendo que conheça a Codificação Espírita antes de opinar sobre essa doutrina.
- Está bem - disse Rodolfo sorrindo -, você convenceu.
Quero conhecer essa filosofia para tirar minhas próprias conclusões.
Eles conversaram mais um pouco, mas logo Regina disse que estava tarde e precisava ir embora.
Rodolfo, sem exibição, ficou ansioso.
No fundo, sabe que deveria haver algo que explicasse as diferenças sociais raciais e tantas outras.
Não via a hora de conhecer mais sob o que Regina oferecera.
No íntimo, sentia-se inquieto.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 12, 2016 1:40 pm

9 - RENOVANDO OS CONCEITOS

Passado um ano...
Dos bancos delicados e alvos, de onde se divisava uma vista maravilhosa do belo e formoso jardim, Lídia sentava-se ao lado da sobrinha Lorena, recém-chegada da Europa.
Tratava-se de uma jovem fina, com estudo, educação e muito perspicaz.
Ela e o irmão, de nome Ian, tinham vindo passar alguns dias de férias no Brasil.
- Ian, meu irmão, gosta muito do Brasil, tia, mas eu não.
Na verdade, não gosto do verão daqui; é muito quente e há muito brilho.
Essa luz chega a incomodar.
Comentava a jovem Lorena com leve sotaque, procurando, em gestos e feições, ser delicada, mas parecia bem snobe.
Lídia não disse nada e somente sorriu.
- Ano passado dei graças quando não viemos aqui.
Minha mãe disse que todos estavam deprimidos pelo ocorrido com o Cris e achou melhor que não viéssemos.
Venho aqui mesmo para treinar o idioma e para vê-los; afinal, vocês nunca aparecem por lá.
Creio que não saberia viver fora desse país.
- Adoro o Brasil, terra abençoada... - afirmou Lídia, por sua vez.
Naquele momento, Fernando se aproximou e, pelas costas, colocando-se entre ambas, curvou-se, cumprimentando-as com beijos.
- Fernando! - saudou a prima, levantando-se rápida, estendendo largo sorriso.
Após circundar o banco, frente à moça, ele se entregou ao abraço, amainando a saudade com alegria.
- Como você está linda!
Um sorriso suave nos lábios finos, levemente pintados, fez brilhar o rosto de Lorena, que rodopiou vagarosamente ao largar das mãos do primo e, logo parada à sua frente, agradeceu:
- Merci, mon chéri.
A conversa prosseguiu, e enquanto actualizavam as novidades, na bela sala da mansão, os últimos raios do sol inundavam, com luzes douradas, todo o ambiente alvo, deixando-o com um tom todo especial.
Sentada confortavelmente em um sofá, Regina largara-se tranquila e de olhos fechados à espera do noivo.
Do outro lado da grande sala, eis que surge um rapaz alto e magro que parecia passear descompromissadamente pela grande residência.
Sorrindo em silêncio ao ver a bela morena quase estendida no sofá, Ian aproximou-se vagaroso e sorrateiro.
Seu rosto, de traços finos regulares e de pele pálida, não exibia muita beleza, mas o sorriso maroto o iluminava.
Deduzindo tratar-se da noiva de seu primo, de quem já ouvira falar, ele decidiu brincar e, indo por trás do sofá, sussurrou com voz amável ao abaixar-se:
- Le bon après-midi, mademoiselle. Comment est vous?
Abrindo os olhos, Regina não viu ninguém e recompôs-se rapidamente.
Ian não aguentou e acabou rindo, enquanto Regina, mais séria, forçou um meio-sorriso por não ter achado graça alguma.
Ao dar a volta colocando-se perante a moça, ele se apresentou, estendendo-lhe a mão.
- Eu sou Ian, sobrinho do Rodolfo.
E você deve ser a Regina. - falou com forte sotaque.
Levantando-se, ela o cumprimentou e, ao retribuir o aperto de mão, afirmou:
- Sim, sou Regina.
Prazer em conhecê-lo.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 12, 2016 1:40 pm

Ian a olhou de alto a baixo e sem soltar-lhe a mão ficou admirando a moça esbelta, cor de bronze, traços marcantes, com leve sorriso simpático na boca bem delineada de lábios levemente grossos e sensuais.
Os olhos de Regina eram negros, expressivos e chamativos, algo de especial com seus longos cílios bem fechados nos cantos levemente puxados.
- Obrigada, meu querido.
- Boa tarde, senhorita.
Como vai você?
- O prazer, realmente, é todo meu - afirmou o rapaz com ênfase.
Sorridente, propôs:
- Vamos nos sentar.
Não quis incomodá-la.
- Não me incomodou.
Eu estava esperando o Fernando, que está demorando, e acabei ficando um pouco à vontade.
Estou cansada, passamos o dia todo na praia.
- Bem se vê pela sua linda cor.
Mas, pela demora do meu primo, creio que encontrou Lorena.
- Mas eles devem entrar logo.
- Admiro o bom gosto do meu primo.
Mas, conte-me, como estava a praia hoje?
- Óptima! Adoro ver o mar.
- Eu também. Infelizmente na Europa não podemos contar com tão lindas praias como no Brasil; aliás, nem o clima é propício.
A luz excessiva desse país, essa claridade especial que faz todo europeu espremer os olhos me fascina!
Regina sorriu e propôs brincando:
- É só se mudar.
O Brasil recebe a todos como o Cristo Redentor, sempre de braços abertos!
- Não brinque!
Já pensei muito em vir morar aqui.
Mas em que poderia trabalhar, uma vez que trabalho junto com meu Pai?
Se eu sair da França, haveria de ter que me dedicar a outros negócios e, sinceramente, não gostaria de ser empregado.
Porém, quem sabe um dia eu tenha o privilégio de ser feliz aqui.
Mas, me diga, você trabalha em quê?
- Formei-me em Pedagogia.
Dou aula em duas escolas particulares e sonho em abrir a minha própria escola.
É lógico que seria algo pequeno, uma escola do maternal ao pré.
Mas acho que isso ainda vai demorar.
- Por que o Fernando não a ajuda?
Meio sem jeito, sorrindo, ela confessou:
- Não é o momento ainda.
Prefiro tentar por mim mesma e...
Nesse instante, os olhares surpresos e curiosos de ambos voltaram-se na direcção da porta principal, que dava para varanda, por causa da conversação e dos risos que se fizera ouvir.
Logo entraram de braços dados Fernando e a prima seguidos por Lídia.
Lorena, ricamente vestida, parecia muito feliz e à vontade com sua companhia.
Em Lídia notava-se novamente a exuberância de antes, não parecendo mais aquela mulher deprimida de meses atrás.
Regina sentiu algo estranho que não conseguia explicar.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 12, 2016 1:40 pm

Levantando-se, precisou forçar o sorriso.
Algo a estremeceu, incomodando-a profundamente.
A presença de Lorena ao lado de seu noivo a perturbou.
Animado, Fernando aproximou-se, apresentando:
- Está é Lorena, minha prima.
Espremendo o olhar que direccionou de cima a baixo à noiva de Fernando, Lorena estendeu suavemente a mão, mantendo certa distância, além de um sorriso mecânico e treinado, com um leve pender de cabeça.
Regina retribuiu, sentindo-se mal com o ocorrido.
- Vejo que já se conhecem - afirmou Lídia, apontando para Ian e Regina.
Muito à vontade, o sobrinho riu gostosamente e, ao sobrepor o braço nos ombros de Regina, afirmou:
- Sim! Adorei Regina.
E, olhando-a, completou:
- Linda! Como toda brasileira.
Regina sentiu-se encabulada e buscou em Fernando um socorro para que a tirasse daquela situação, mas o noivo estava muito entretido com a prima, que enlaçou novamente seu braço e convidou-o com classe e charme na voz:
- Bem que poderia me servir um refresco gelado, não é, meu primo?
Está um calor incrível!
De braços dados, Fernando a conduziu para outro recinto, e Ian sempre extrovertido, tomou o braço de Regina, enlaçou-o no seu e os seguiu.
Lídia, que parecia não estar satisfeita com algo, solicitou à empregada que os servisse.
Lorena mostrava-se muito feliz enquanto conversavam, e logo a chegada de Rodolfo os surpreendeu.
- Ora! Ora! Que bom tê-los aqui!
- Como vai, tio?!
Alegrou-se a sobrinha, indo ao seu encontro.
Logo foi a vez do rapaz que havia tempos não via o tio.
Rodolfo cumprimentou a esposa com um beijo, deu leves tapinhas nas costas do filho e foi ao encontro de Regina, a quem beijou sob o olhar esgueiro de Lorena, que observou o carinho do tratamento.
Após livrar-se do paletó, Rodolfo acomodou-se próximo de Regina, bem à vontade.
Eles apreciaram um lanche, e o rumo da conversa era variado, até que Lorena se admirou:
- Vejo-a bem melhor, tia!
Minha mãe nos disse que quando a viu há mais de um ano estava péssima, abatida e deprimida.
- Foi por isso que ela aconselhou que não viéssemos para cá - confirmou Ian.
- Não foi por menos, gente.
Separar-se bruscamente de um filho e ignorar as razões da vida é algo bem difícil - comentou Lídia.
- Imagino - argumentou a sobrinha, somente a fim de complementar.
Deve ter sido horrível e desolador o clima aqui nessa casa.
- E foi mesmo - concordou Rodolfo.
Se não fosse por Regina, que nos trouxe muito entendimento... - completou, olhando para a futura nora.
Regina, por sua vez, sentiu-se aquecer, constrangida.
- Claro! - exclamou Ian. - Uma pessoa nova em sempre traz outras atenções aos nossos pensamentos.
- Mas não me refiro somente à presença dela, e sim aos conhecimentos que nos trouxe.
- Posso dizer que Lídia se refez por consequência dos esclarecimentos e esperanças que Regina nos apontou em um momento tão difícil.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 12, 2016 1:40 pm

- Ora, senhor Rodolfo - interferiu a moça, que não queria elogios.
Não tenho tanto mérito assim.
- Mas é verdade! - afirmou o anfitrião.
- Perdoem-me, por favor - pediu Ian, completando:
- Não estou entendendo.
O que Regina fez de tão importante assim?
Como se propositadamente quisesse se embrenhar por esse assunto, Rodolfo perguntou:
- Você, um francês, já ouviu falar em Allan Kardec?
- O nome não me é estranho... mas... acho que não me lembro muito bem.
- Ele foi o codificador da Doutrina Espírita.
- Uma religião? - insistiu Ian.
- É mais uma ciência e filosofia de vida.
Seu nome verdadeiro é Hippolyte Leon Denizard Rivail.
Ele trouxe fundamentos que servem como ideais de adiantamento moral e intelectual, seguros e sãos.
Lorena pareceu não apreciar o assunto, mas seu irmão insistiu:
- Em que época se deu isso, tio?
- Ele nasceu em 3 de outubro de 1804, na cidade de Lião, na França.
- Conheço Lião - afirmou Lorena.
- Para codificar uma filosofia, ele deve ter-se dedicado a esse trabalho a vida toda, não foi?
- Não, Ian.
Na verdade, Kardec foi um catedrático. Era de família ilustre.
Primeiro estudou na França, depois, na Suíça, com o honrado professor Pestalozzi, do qual foi o mais glorioso discípulo, pois quando Pestalozzi era convocado pelos governos fundar um instituto, como o de Yverdun, passava os encargos de substituí-lo a Hippolyte Leon.
- O aluno tornava-se mestre! - exclamou Ian, sem pretensões.
- Muitos ouvem falar de Allan Kardec como codificador da Doutrina Espírita e até imaginam que foi um homem qualquer que se dispôs a criar uma nova doutrina.
- E não foi isso o que aconteceu? - indagou Lorena, só para participar da conversa.
- Ih! Vocês foram tocar num assunto...
Quando meu pai começa a falar nisso... - reclamou Fernando, levantando-se e caminhando pela sala.
Rodolfo pouco se importou e explicou:
- Allan Kardec não era um homem qualquer que criou uma religião.
Ele apresentou o Espiritismo após estudá-lo e comprová-lo científica e filosoficamente.
Allan Kardec, ou Hippolyte Leon, nunca aceitou a fé cega, como algumas pessoas que dizem:
"isso existe porque alguém quer".
Sim, tudo existe porque Deus quer, mas tem de haver um motivo para aquela existência, para aquela ocorrência.
Ele estudou e comprovou minuciosamente tudo o que expôs nos cinco livros da Codificação Espírita.
Teve cabedal e condições para isso.
A essa altura, Rodolfo via-se empolgado e até capacitado para aquelas explicações e, sem demora, continuou:
- Como eu disse, muitos ignoram as condições intelectuais que Allan Kardec possuía.
Ele era bacharel em letras e ciências e doutor em medicina, tendo realizado todos os estudos médicos e defendido, de maneira brilhante, suas teses.
Escrevia e falava fluentemente italiano, espanhol, inglês, alemão e conhecia o holandês, além do francês, sua língua natal, é claro.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 12, 2016 1:41 pm

Como Hippolyte Leon Denizard Rivail, escreveu livros e gramática e aritmética, livros de estudos pedagógicos superiores, traduziu obras inglesas e alemãs, entre outras inúmeras coisas.
Vê-se que ele não foi qualquer um na área académica! admirou o sobrinho.
- Longe disso - tornou o tio.
Foi membro de várias sociedades sábias e, mais especificamente, da Academia Re d'Arras, onde foi premiado.
Consagrou-se como professor filosofia, astronomia, química e física só no "Liceu Polimático" e seus livros foram adoptados pela Universidade da França.
Era um homem muito bem preparado para não servir de reles embustes.
Hippolyte era um homem de destaque não precisava de mais nada para se fazer notar.
- E como ele entrou nessa Doutrina Espírita? interessou-se Ian.
- Em 1854 ele estudava sobre magnetismo e em contacto com o senhor Fortier ouviu falar das "mesas girantes", que só giravam através do magnetismo, mas também, quando interrogadas, respondiam por meio de pancadas.
Ian riu junto com o tio, que continuou:
- Então, Hyppolyte disse que só acreditaria quando visse lhe tivessem provado que uma mesa tem cérebro para pensar nervos para sentir, e que pode se tornar sonâmbula; até então não.
E nesse assunto senão uma fábula para provocar sono.
Como podemos verificar, ele não se negava a coisa alguma, mas, com bom senso, exigia provas, querendo ver observar para crer e sempre dizia:
"A ideia de uma mesa fale não me entrava ainda no cérebro".
Mas só no ano seguinte, em 1855, ele começou a da atenção ao caso das "mesas girantes", pois entrou em contacto com pessoas as quais considerava respeitáveis e com exaltação falavam-lhe sobre a intervenção dos espíritos.
Como acreditava no que via, acabou aceitando participar de uma reunião e testemunhou o fenómeno das mesas, de modo que não era possível duvidar.
Muitos, na época, utilizavam-se dessas "mesas" cor diversão, mas ele viu nessa ocorrência algo científico, que necessitava de estudo, e por ter uma metodologia científica para todos os trabalhos decidiu pelo encadeamento lógico de aplicá-la ao caso das "mesas girantes", que lhe pareceu uma nova ciência.
Após inúmeras anotações, como todo homem de ciência, em seus manuscritos observou que as mesas batiam por consequência da acção dos espíritos, e que estes eram as almas dos homens após a morte.
Nesse momento, Ian estava com os olhos que traduziam, por seu brilho, uma voracidade de conhecimento.
Por isso perguntou:
- Vê-se que ele era um observador científico.
Porém, como conseguiu montar a tal Codificação Espírita?
- Verificando que o facto da comunicação dos espíritos revelava a existência de um mundo invisível, ele queria conhecer o estado desse mundo. Logo seus amigos lhe puseram nas mãos cerca de cinquenta cadernos com anotações de comunicações, resultado de cinco anos de estudo, e pediram a ele que os colocasse em ordem.
A princípio ele não aceitou, devido à falta de clareza, pois tais anotações deveriam ser novamente comprovadas.
Além disso, possuía outro trabalho, pois tinha de viver sua vida.
Em uma noite, após a comunicação de seu espírito protector que se apresentou como Z., Hippolyte animou-se quando soube que aquela era a sua mais importante tarefa e para a qual fora chamado.
Esse espírito protector também disse tê-lo conhecido em uma existência passada, nos tempos dos Druidas, onde ele, Hippolyte, se chamava Allan Kardec.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:17 am

Após as revelações, Kardec passou a comparecer pontualmente a cada sessão com questões lógicas e preparadas.
Eram perguntas metódicas e de filosofia profunda.
Desde então, as reuniões tiveram novo carácter, mais sério e sem perguntas fúteis.
Foi aí que ele percebeu que tudo tomava proporções de uma nova doutrina para a instrução de todos.
Essas questões deram base ao O Livro dos Espíritos, lançado em abril de 1857.
Muitos médiuns foram utilizados para a acção dos espíritos que desenvolveram esse fabuloso livro, que há cerca de um ano ganhei de Regina.
E foi isso o que ela nos trouxe.
- Por que ele usou o nome Allan Kardec?
- Hippolyte Rivail, naquela época, já tinha um nome muito conceituado na carreira catedrática, possuía livros, era discípulo de Pestalozzi e não queria que seu nome, já famoso, viesse interferir no trabalho da Codificação; por isso, adoptou o nome que seu espírito protector informou de uma reencarnação passada.
- Aqui em casa - argumentou Fernando -, depois que conheceram o Espiritismo, a vida dos meus pais mudou completamente.
- Como o senhor decorou tudo isso, tio?
O senhor sempre se disse ateu - perguntou Lorena.
- É que renovei meus conceitos depois que descobri algo novo e sadio; adoro falar sobre a vida de Allan Kardec, procurei saber tudo sobre ele e pretendo fazer exposições, palestras.
Mas ainda estou só estudando.
- Certa vez, quando vim ao Brasil, vi uma festa dos espíritas.
Era daqueles... como se chama...?
Lorena reflectiu um pouco antes de dizer:
- Acho que de Cosme e Damião.
Imediatamente Regina ressaltou:
- A comemoração de Cosme e Damião é feita pela Umbanda, uma religião espiritualista, não espírita.
O Espiritismo não realiza nenhum tipo de festa comemorativa para os espíritos.
A noiva de Fernando parecia estar tensa, sempre na defensiva com Lorena, e esta, exibindo certo desdém, pouco deu atenção às suas palavras.
Sustentando carácter grave e olhar frio, Lorena a encarava, sem que os outros vissem, com certo desprezo.
A conversa mudou para outros assuntos, e bem mais tarde, quando a hora já havia corrido, o jantar era servido.
Exibindo simpatia e exuberância, Lorena, na primeira oportunidade e com modos delicados, entrelaçou seu braço ao de Fernando, que, sem maldade, a conduziu até a sala de jantar, sorrindo.
Verdadeira irritação clamou lugar nos sentimentos de Regina, que não mais disfarçava sua indignação para com os modos arrogantes de Lorena.
A antipatia fora imediata desde o instante em que se conheceram. Observadora, Lídia reparou no semblante de Regina a insatisfação por tudo e decidiu que, assim que possível, falaria com o filho a respeito.
Naquele momento, sua preocupação era com Kássia, que sempre arrumava motivos e situações para não estar em casa.
Mas ela saberia como resolver.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:17 am

10 - ACONTECIMENTOS INESPERADOS

No dia imediato, Regina não levantou cedo como de costume e dona Glória, preocupada com a filha, foi até seu quarto.
Vendo-a de bruços, a mulher abriu as cortinas do quarto deixando os raios do sol repousarem sobre as costas da filha.
Regina virou-se preguiçosa e ergueu os lindos olho aveludados em direcção à mãe.
Serena, a mulher aproximou-se.
Quando a moça se afastou um pouco da beirada da cama, dona Glória sentou-se e ao vê-bem de perto perguntou:
- Você chorou, filha?
Os olhos da jovem ficaram empossados de lágrimas, enquanto afagava-lhe os longos cabelos cacheados, a mãe perguntou:
- O Fernando não quis entrar ontem à noite, porquê.
Sem se incomodar com as lágrimas que não conseguia deter, Regina confessou:
- Ai, que raiva, mãe!
- O que foi?
- Os primos do Fernando que moram lá na França chegaram para passar alguns dias e...
- E...?
Com voz chorosa, contou:
- A Lorena, prima dele, é uma metida a besta!
Antipática e nojenta!
Após alguns segundos de pausa, onde procura secar as lágrimas que caíam, ela continuou:
- Senti uma coisa quando a conheci.
Sabe, mãe, ela ficou o tempo todo agarrada nele, cheia de mimo e nhê-nhê-nhê....
Ai, que ódio!!! - reclamava a moça enquanto chorava.
- Calma, filha! - surpreendeu-se a mãe.
Regina, não estou reconhecendo você.
- É que a senhora não viu!
Ele parecia um tonto mostrando os dentes e sendo todo cortês com ela.
- Regina, o que é isso, filha?
A moça secava o rosto no lençol sem a mínima compostura.
Estava com o coração fechado a quaisquer argumentos que a mãe pudesse dizer.
Irreconhecível, agora, Regina transformara-se em uma pessoa indignada.
Elas mal se conheciam, mas Lorena, caprichosamente, fez tudo para irritar a noiva de seu primo.
A antipatia parecia recíproca.
Acariciando-lhe, a mãe, muito compreensiva, falou:
- Calma, minha filha.
O seu noivo está empolgado por causa das novidades da Europa.
Daqui a pouco isso passa.
O Fernando gosta muito de você.
- Não sei não, viu, mãe.
Acabei me sentindo esquecida pelo Fernando.
Ele só dava atenção para ela.
Eu senti uma coisa!
- Regina, estou surpresa com você, filha, que sempre foi uma moça segura, nunca teve ciúme.
- Não é ciúme, mãe.
- Então o que é?
- Ora, mãe...!
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:18 am

Procurando trazer animação, a mulher levantou-se, dizendo:
- Já são quase dez horas.
Levante-se ou vai perder o domingo.
A Bolinha - disse, referindo-se à cachorrinha - está pedindo comida.
E eu tenho o que fazer.
Regina sentou-se na cama, e assim que sua mãe se foi a cachorrinha entrou no quarto "fazendo festa" para a jovem, que cariciou com tristeza, sem dar atenção àquela alegria.
Bolinha esfregava-se em seus pés, mas Regina pouco importava.
Não conseguia tirar as sensações angustiantes seus sentimentos nem compreendê-las.
Tentava lembrar Lorena e queria poder notar-lhe algo bom, algo que super os sentimentos de aversão contra a moça, mas não consegui.
Irritada consigo mesma, levantou-se rápido e olhou no espelho, notando que suas pálpebras estavam bem inchada.
Uma sensação enervante e esquisita a fazia repudiar a prima de seu noivo; era algo muito forte.
Ian, irmão da moça, era mais simpático.
Porém, não gostou de seus modos confiados, abraçando-a daquele jeito logo no primeiro dia que a conheceu.
Se bem que dele ela não podia reclamar; ele a havia tratado bem.
Renato atalhou-lhe os pensamentos quando pediu:
- Posso entrar?
- Você já entrou!
- Também, a porta estava aberta, né!
E, olhando melhor, o irmão perguntou:
- Ei! O que foi?
- Nada que seja da sua conta - respondeu Regina escondendo o rosto.
- Deixa de ser malcriada!
Só estou perguntando.
Ah! primos do Fernando já chegaram?
Ele me disse que eles viria nesse fim de semana.
- Já! - respondeu com modos secos.
Agitado, pois se preparava para sair, ele pediu:
- Empresta aquele creme de cabelo? - Procurando sob a cómoda, perguntou:
- Onde está...?
- Toma. Está aqui.
Enquanto abria o pote, Renato, curioso, perguntava:
- Eles devem ser bem bacanas.
O Fernando vive falando neles.
Ele disse que a prima dele é muito legal.
- Vai, Renato!
Sai logo daqui; tenho de me trocar!
- Ei, Rê, que bicho a mordeu hoje?
Dormiu ajoelhada.
- Vai! Vai logo! - disse a irmã, empurrando-o por afora.
- Vem, Bolinha, vem. Isso pega!
Daqui a pouco você sair mordendo também - disse ele, enquanto ia pelo corredor brincando com a cachorra.
A mente de Regina fervilhava só de pensar em ter de encarar Lorena novamente, e por conta disso seu dia foi horrível, mas ela imaginava que poderia pedir ao noivo que a levasse para sair; poderiam ir ao cinema ou a uma discoteca.
À noite, porém, Fernando insistiu para que fossem até sua casa, e Regina, mesmo contrariada, aceitou.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:18 am

Era difícil para a noiva de Fernando olhar Lorena, menos ainda suportar sua voz.
Seu riso a incomodava; entretanto, Regina não queria admitir ao noivo sua intolerância; afinal, não havia razões lógicas que justificassem sua implicância.
Ela pensou em tudo o que aprendera sobre tolerância e decidiu suportar a situação sem queixas.
"Seria por ciúme de Fernando?", pensava. "Não!"
Afinal, Lorena não tinha nenhuma beleza extraordinária, e, na sua opinião, a personalidade da moça era maquiada.
Lorena expunha-se com cautela, pensando muito antes de agir, porém via-se uma certa extravagância, um snobismo embutido.
Ela parecia gostar de mandar e adorava ser obedecida, diferentemente de seus outros parentes tão simples.
No entanto, sua classe e educação, com gestos delicados, a fazia ser notada, e quase sempre a atenção de Fernando se voltava para a prima.
Mas havia algo errado com ela.
Os pensamentos de Regina eram fustigados pelas impressões recebidas.
Certamente a prima de seu noivo logo partiria, e ela não teria com o que se preocupar, mas enquanto isso durasse...
Na varanda da bela residência, o vento quente e gostoso que soprava do mar, que não era muito longe, acariciava a todos, encantando os visitantes com a fragrância de flores que trazia consigo.
Interrompendo a conversa que se seguia, Lorena virou-se para Fernando e pediu com modos mimosos:
- Eu gostaria de dar uma volta.
Você me faz companhia? - Dizendo isso, estendeu-lhe a delicada mão, ficando à espera.
Rápido, o primo aceitou, e, quase de imediato interrompendo a perplexidade de Regina, que se senti esquentar, Ian prontificou-se, pedindo:
- Também quero dar uma volta.
Você me faz companhia?
A moça sorriu mecanicamente e, ao ver o braço curvo que o rapaz ofereceu para que ela enlaçasse, não teve jeito de negar.
Lídia, que a certa distância só observava, não fez comentários e também não os acompanhou.
Pouco tempo depois, os quatro caminhavam bem à vontade pela praia quase deserta.
O vento quente que soprava do oceano dava um toque especial aos cabelos bem cacheados e longos de Regina, que procurava afastar alguns fios teimosos que lhe embaraçavam no rosto.
Lorena fez questão de conversar sobre algum assunto particular com Fernando, não dando espaço ou oportunidade para que os demais acompanhassem a conversa.
Eles caminhavam lado a lado e à frente de Ian e Regina.
A noiva de Fernando tinha os olhos faiscando de contrariedade, e seus pensamentos ferviam, revoltando-se com o que ela via.
Regina nem percebia os passos negligentes na areia fofa, menos ainda as palavras de Ian, que caminhava a seu lado; na verdade, nem o ouvia.
- E então?
O que você acha? - perguntou o acompanhante sem perceber que os pensamentos dela estavam voltados para Fernando e Lorena.
Surpreendida com a questão, Regina sentiu-se constrangida quando precisou indagar com jeitinho para não ofendê-lo:
- Desculpe-me.
O que foi que perguntou mesmo?
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:18 am

Ian parou à sua frente, sorriu e argumentou:
- Tem razão.
Estou sendo inconveniente.
- Não, Ian. Sou eu que...
Antes que ela concluísse a frase, ele, educado, a interrompeu, dizendo meigamente:
- Entendo por que seus pensamentos estavam longe.
Logo após observar que sua irmã e seu primo estavam a uma distância segura, concluiu:
- Está preocupada com Fernando por causa de Lorena, não é?
Regina sentiu a garganta ressequida pela inesperada questão e não sabia o que responder.
Vendo-a embaraçada, ele argumentou:
- Também estranho as atitudes de minha irmã.
Sei que ela é caprichosa e sempre quer tudo a seu gosto, mas...
- Sabe, Ian, acho que mesmo sendo primos essa troca recíproca de gentilezas e cuidados está indo longe demais.
Não estou gostando do que vejo e...
Regina silenciou, e ambos voltaram a caminhar lado a lado, sem palavras.
Agora, um pouco distante, Fernando e Lorena sentaram-se em uma pedra, esperando-os.
Lorena ria e até gargalhava, exibindo-se satisfeita.
Dos belos lábios de Regina nem um sorriso poderia ser admirado.
No caminho de volta, quando houve oportunidade, Ian falou-lhe baixinho:
- Não se preocupe, Lorena não gosta do Brasil.
Não para morar.
Regina ofereceu meio-sorriso, como quem ficasse grata pelo consolo.
Bem mais tarde, quando Fernando deixou a noiva em casa, ela reclamou bem firme, quase irritada:
- Nando, você não acha que está dando atenção demais para a sua prima?
- O que é isso, Rê?! - retrucou o moço, admirado.
Ela é minha prima!
Além do que nos vemos muito pouco.
- Mas por que não inclui o Ian em suas conversas tão agradáveis?
- Ora, Regina, você está querendo me dominar agora?
Quer escolher com quem devo conversar?
Está reclamando só porque dou atenção para a minha prima?
Isso é ridículo!
Estou estranhando o seu comportamento.
- Você é meu noivo e nem me deu atenção só por causa da sua prima e...
Uma discussão, um tanto acalorada, onde o tom de voz de ambos se alterou, acabou sendo ouvida por dona Glória, que foi até a área saber o que estava acontecendo.
Interrompendo-os, com cautela e com seu jeito manso de falar, a mulher cumprimentou:
- Boa noite, Fernando - disse mansamente.
O silêncio reinou imediatamente, mas logo ele respondeu, quase sussurrando, enquanto baixava o olhar:
- Boa noite, dona Glória.
- Vamos entrar, filho.
- Não, obrigado.
É que já está tarde. Tenho de ir.
Virando-se para Regina, que se mantinha calada, ele pediu:
- Amanhã você me telefona, ta?
- Você não vem aqui?
- Não sei. Talvez.
Encarando dona Glória, ele se despediu, estendendo a mão para um cumprimento.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:18 am

Voltando-se para a noiva, deu-lhe um beijo rápido e disse:
- Tchau. Amanhã conversamos.
Regina, com os olhos rasos de lágrimas, virou-se rápida e entrou.
Nem deu atenção para a cachorrinha, que parecia feliz ao vê-la, abanando o rabo e pulando-lhe como querendo um carinho.
Abrindo a porta do quarto sem muitos cuidados, provocou forte barulho que chamou a atenção de seu irmão, que foi ver o que era.
- O que aconteceu, Rê?
Jogada sobre a cama, ela escondia o rosto choroso e respondeu com a voz abafada.
- Nada.
Foi nesse momento que a cachorrinha entrou no quarto, e Regina reclamou:
- Vai, passa daqui. Mãe!
Chama a Bolinha!
Dona Glória recolheu o animalzinho e não disse nada.
Calmo, o belo rapaz moreno sentou-se ao lado da irmã e falou:
- Acho que o lado afectivo não está muito bom para nós, não pelo jeito você brigou com o Fernando também, não foi?
Ainda com o rosto escondido, ela argumentou:
- Estávamos tão bem.
Agora, só por causa daquela cretina...
- Devo reconhecer que o Fernando melhorou muito depois que vocês começaram a namorar.
Ele era tão mulherengo quando começamos a fazer faculdade...
Virando-se rápida, Regina reclamou:
- E só agora você me diz isso!
Com voz embargada, continuou:
- Desmancho esse noivado amanhã mesmo.
Não tolero traição.
Ainda mais uma debaixo do meu nariz.
- Nossa, Rê! O que deu em você?
- Eu tive uma antipatia imediata por essa Lorena.
Não consigo explicar.
É algo que foge ao meu controle.
Até o irmão dela notou tanta cortesia, tanta coisinha e...
- Quer que eu fale com o Fernando?
- Não! Nem tem cabimento.
- Claro que tem.
Sou seu irmão mais velho, lembra?
- Não diga nada.
Vou resolver isso sozinha.
Regina, de certa forma, sentia-se mais aliviada por ter desabafado com seu irmão; porém, uma angústia ainda lhe fazia o peito doer.
Ela não iria tolerar que seu noivo ficasse tão entusiasmado, tão cheio de gentilezas com a própria prima; isso a agredia, castigava-a intimamente.
A voz de Renato tirou-a da reflexão amarga quando disse:
- Estou sem companhia para ir à festa de fim de ano lá da empresa.
Você quer ir comigo?
- Que dia será?
- Sexta-feira.
Suas férias começam na quarta, não é?
- O certo seria amanhã, mas tenho de ir à escola até quarta, para ver o dia da reunião.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:19 am

- Lá terá um churrasco e deve começar por volta das onze horas da manhã, mais ou menos.
Só que não tem hora para terminar.
- Tá bem, eu vou sim.
Combinado! - disse o irmão animado ao se levantar.
- Não fique sofrendo à toa.
Amanhã, isso passa.
- Escuta. Por que você e a Viviane brigaram?
Ela não vem aqui faz uns dois dias.
Até a mãe já reclamou.
- Olha, Rê, vocês têm a mania de ficar pegando no meu pé porque eu não tenho religião alguma.
Ah, eu acho que ainda não chegou a hora.
É melhor vocês me deixarem viver assim.
Não se preocupem comigo e rezem por mim.
Isso já está bom.
Renato se foi, e a irmã sentia que algo muito forte incomodava com relação à prima de seu noivo.
Mas não há nada que pudesse fazer naquele momento.
Enquanto isso, na casa de Rodolfo, Lorena arrumava-se para dormir, mas estava atenta a qualquer barulho que denunciasse a chegada de seu primo; afinal, ela pressentia que algo entre Fernando e Regina pudesse não estar bem, e aquele seria um bom momento.
Lorena agora tinha certeza de que seus sentimentos com relação a Fernando iam além da amizade familiar, pensava ela.
Afinal de contas, consanguineamente, Fernando não era seu parente, uma vez que ela era filha do primeiro casamento de seu pai, onde a mãe morrera no parto.
Quando ela estava com apenas sete meses, ele resolveu se casar com a secretária, Rebeca, irmã de Rodolfo, consequentemente tia de Fernando.
Ela se acostumou a tratar Rebeca como mãe, e ninguém dizia o contrário.
Na realidade, o grau de parentesco entre ela e a família de Rodolfo era só afectivo e cordial.
Lorena, em sua imaginação, pensava que deveria causar boas impressões a Fernando.
Desde pequenos, nunca brigaram, e ela sempre nutriu um predilectíssimo especial por ele.
Lamentava não estarem sempre perto um do outro, vendo-se somente duas ou três vezes ao ano, mas de repente isso deveria ser providencial.
Ficara enfurecida quando soube de seu namoro firme com Regina e mais ainda por ocasião do noivado.
Entretanto, conhecendo agora a noiva de seu primo, verificou que poderia mudar os planos de Fernando, sim.
Afinal, um noivado nada significa quando outros interesses podem ser maiores.
Lorena já planeava uma proposta irresistível.
Iria oferecê-la a Fernando, que, em conversa, se demonstrava muito preocupado com seu futuro profissional.
Lorena, acreditando-se apaixonada, estava agora disposta a entrar definitivamente na vida amorosa de seu primo.
Sempre fora esse o seu sonho oculto, do qual não abriria mão, e ninguém a faria desistir.
O barulho de um carro no interior do jardim a fez perceber que o primo havia chegado.
Inteligente, ela foi rápida.
Vestiu um lindo e longo robe branco, de um acetinado delicado e chamativo.
Calculou o tempo que ele demoraria para entrar e, ao ouvir o barulho da porta, deslizou sorrateira pelo corredor, descendo as escadarias da sala principal como se flutuasse, fazendo com que o tecido fino de suas vestes levitasse ao segui-la.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:19 am

Fernando, como ela queria, percebeu-a de imediato e, no mesmo instante, tirou o semblante sisudo do rosto, iluminando-o com um sorriso ao contemplá-la.
- Ainda está acordada?
- Estou insone.
Ouvi um barulho e vim ver se alguém estava tão acordado quanto eu.
- Adoraria fazer-lhe companhia, mas amanhã preciso levantar cedo.
Ao consultar o relógio, ele se corrigiu, dizendo:
- Amanhã, não, daqui a pouco.
- Sabe, Fernando, estive pensando se não seria bom para o seu currículo se você fosse um gerente ou um ministrador em uma grande empresa internacional.
Sem pensar muito, ele afirmou:
- Isso seria bom para qualquer currículo.
Encarando-o com sorriso suave e olhar expressivo, ela desfechou:
- Você tem essa chance!
- Eu?
- Claro! Você acha que meu pai negaria essa oportunidade ao seu sobrinho predilecto?
Além do que - falava ao circulá-lo, andando delicadamente, enquanto dizia de maneira mansa - isso não será um favor.
Você é capacitado, muito esforçado.
Parando à sua frente, ela completou:
- Quando voltar ao Brasil, após um ou dois anos, "lugarzinho" onde sabemos que um bom emprego é tão difícil, não haverá páreo para você.
Ou então, se gostar, continuará lá sem o menor problema.
- Ora, Lorena... não sei - titubeou Fernando, pensativo.
- Não sabe o quê?
- Preciso falar com o tio Pepe e ver se ele precisa mesmo.
Imediatamente ela o atalhou, afirmando:
- Eu o vi reclamando de que precisava de um gerente melhor para um dos departamentos.
Disse que queria "sangue novo"!
E, até eu vir para o Brasil, ele não havia encontrado ninguém para essa vaga.
Os olhos de Fernando brilharam.
Essa seria uma oportunidade ímpar em sua carreira.
O facto de ter em seu currículo a experiência em uma empresa internacional impressionaria qualquer um e lhe abriria portas, com certeza.
Seus pensamentos velozes o fizeram ter imagens imediatas de como seria seu futuro.
Nesse instante, não conseguiu disfarçar sua satisfação íntima.
- Será que consigo?!
Incapaz de conter o largo sorriso que se fez, ela afirmou:
- Tenho certeza de que o cargo já é seu!
Mas, caso duvide, ligarei para meu pai.
Agora na França são...
Rápido, Fernando respondeu:
- Nove horas da manhã.
Ele está acordado.
- Venha, vamos!
Ela se animou correndo até o telefone, quando o primo avisou:
- Vamos ao escritório!
Se precisar falar alto, fecharemos a porta e ficaremos mais à vontade e sem acordar ninguém.
Fernando ficou inquieto enquanto a prima falava com o pai.
Andando de um lado para o outro, ele não disfarçava sua ansiedade e não pensava nas consequências do que seria essa oportunidade para seu noivado com Regina.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:19 am

Lorena, por outro lado, acreditava que não poderia ter ideia melhor e sabia que seu pai, que tanto a mimava e satisfazia seus caprichos, não iria desapontá-la.
- Sério?!!! - exclamou a moça, parecendo bem feliz.
- O quê? O que foi? - sussurrava o primo, enquanto ela lhe fazia um sinal para que esperasse.
- Oh! Ficarei ansiosa, papai.
Vamos aguardá-lo.
Após se despedir do pai, Lorena trazia os olhos brilhantes feito pérolas.
Fernando aguardava com grande expectativa, quase sem se conter.
Olhando-o firme, ela revelou:
- Ele disse que não poderia ter recebido notícia melhor.
Adorou a ideia de tê-lo a seu lado no Estaleiro.
Só para provar isso, virá passar o Natal aqui e, quem sabe, já o levará consigo quando voltar para a Europa.
Alegres, eles se abraçaram, e Lorena, aproveitando a oportunidade, encostando sua face ternamente na dele, disse:
- Estou tão feliz!
Você nem imagina!
Imediatamente Fernando sentiu-se estranho; algo indefinível tomava conta dos seus sentimentos.
Afastando-se um pouco do abraço, ele fechou o sorriso e perguntou em voz alta:
- E meu noivado com Regina?
Lorena sentiu-se gelar.
Um tremor percorreu-lhe o corpo, mas ela não poderia deixar que o primo percebesse seus sentimentos ou desconfiasse de seus planos.
Fria, ela dissimulou, mostrando-se favorável ao compromisso.
- Um noivado sério merece dedicação e empenho de sua parte, Fernando.
Essa é a oportunidade que você tem de garantir um futuro tranquilo, bem alicerçado ao lado dela.
Se você fosse um homem irresponsável, não iria se empenhar em progredir profissionalmente, a fim de oferecer uma vida melhor para ela.
- Mas ficar longe de Regina...
Ela não vai gostar nada.
- Se ela o amar e pensar em uma vida próspera para futuro, certamente vai compreender e apoiá-lo.
Não é? - argumentou Lorena, de forma gentil e delicada.
Foi então que, mais tranquilo, ele acreditou:
- É verdade, estou fazendo isso para o nosso futuro.
Fernando nem desconfiava de que por trás de toda aquela amabilidade havia um plano para findar seu noivado com Regina.
Em seu íntimo, Lorena alegrava-se febrilmente, pois sabia que agora tudo estava sob seu controle.
Certamente Fernando partiria com ela para a França e, segundo suas ideias, se dependesse dela, jamais voltariam ao Brasil para morar.
No dia seguinte, durante o desjejum, Lídia ficou estarrecida com a notícia e diante da alegria do filho, que contava seus planos com euforia, quase não tinha o que dizer.
Porém, surpresa, argumentou:
- Mas você está trabalhando.
Tem certeza de que precisa mesmo disso?
- Claro, mãe! Quando eu voltar, meu currículo vai impressionar muito.
Não haverá páreo para mim.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:19 am

- Mas e a Regina?
Vocês vão conseguir ficar um ou dois anos distantes?
- Essa é minha única preocupação.
Ela ainda não sabe e creio que não ficará feliz com a ideia.
Ian rapidamente opinou:
- Por que não se casam e vão juntos para a França?
Por um momento Lorena sentiu-se ameaçada.
Seus olhos se arregalaram ao olhar contrariada para o irmão.
Mas com classe, e procurando manter a voz ponderada, ela opinou referindo-se ao primo:
- Será bom para você ter Regina a seu lado.
No entanto, é importante lembrar que terá uma preocupação a mais.
Será que ela se acostumará?
É outra vida, outro mundo, outro idioma...
- Seria bem interessante que você não tivesse outras preocupações, pois ela só terá a você para reclamar sobre não ter-se adaptado.
Tenho certeza de que Regina é compreensiva e, se amá-lo de verdade, não vai se incomodar tanto.
Surpresa, Lídia repudiou o tom de voz, juntamente com a opinião da sobrinha, mas aquele não era um bom momento para se manifestar.
Seria cautelosa e falaria com seu filho depois, em particular.
Afinal, Lídia gostava muito de Regina e sabia que seu filho seria feliz se estivesse ao lado dela.
Regina tinha princípios, um bom coração e respeitava Fernando.
Por outro lado, ela percebia que Lorena queria conquistá-lo só por caprichos pessoais, por seus interesses intimamente egoístas.
Seus sentimentos fervilhavam, e ela não via a hora de poder falar com o filho.
Ian também não gostou de ver Lorena praticamente se atirando para o primo e propositadamente provocando Regina.
Mas decidiu não falar nada, por enquanto.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:20 am

11 - NOVOS PRESSENTIMENTOS

Na sexta feira, Regina meio a contragosto acompanhou o irmão ao churrasco que ocorria como festa de despedida da empresa em que Renato trabalhava.
Ela estava pouco animada, pois dias antes soubera dos novos planos de seu noivo de ir para a França.
Tão imersa em seus pensamentos, aquietou-se num canto sem se importar com os demais.
Afinal, não conhecia ninguém ali.
"Bem que Renato poderia ter trazido a Viviane".
Mudando o pensamento, lembrou-se do noivo:
"Como Fernando é capaz de não enxergar os planos de sua prima?
Meu noivado pode estar acabado.
Certamente ele não voltará da Europa".
Antes da chegada de Lorena eles nunca haviam brigado, e, no dia anterior, devido à discussão acalorada pela notícia de sua viagem, ele se foi sem se despedir.
Ela bem poderia devolver a aliança de noivado, julgava.
Mas haveria outra oportunidade.
Não aceitaria que ele fosse para a França, e, se não mudasse de ideia, tudo estaria terminado.
As lágrimas começaram a brotar nos doces olhos de Regina, que queria fugir daqueles pensamentos tormentosos.
A aproximação de um rapaz a deixou sem jeito, quando ele, bem à sua frente, cumprimentou:
- Olá! Tudo bem?
Sem encará-lo directamente, respondeu quase sussurrando:
- Tudo bem.
Estendendo-lhe a mão firme, ele se apresentou:
- Meu nome é Jorge, e o seu?
- Regina.
- Você trabalha na Companhia?
- Não. Meu irmão, sim.
Ele é encarregado do sector de Recursos Humanos.
- Ah! Seu irmão é o Renato?!
Agora, um pouco à vontade, ela sorriu e afirmou:
- Sim. Você o conhece?
- Quem não o conhece?
Logo perguntou:
- Está gostando da festa?
- Sim. Está bem animada.
A conversa estendeu-se.
A simpatia de Jorge fazia as ideias de Regina seguirem outros rumos.
Ele era agradável, com uma compostura impecável, sem perder a alegria.
Era de estatura média, musculoso e esbelto ao mesmo tempo, deveria ter uns trinta e dois anos.
Moreno claro, tinha aspecto jovial em meio aos traços finos.
Educado e gentil, Jorge a convidou para que se sentassem próximo a uma mesa e, após acomodá-la, saiu rápido, voltando com refrigerantes e saladas.
- Essa maionese está óptima.
E, sussurrando após se inclinar ligeiramente, confessou:
- Sou vegetariano, por isso não encontro nada melhor.
- Sério?
- Seriíssimo!
Acho de imenso mau gosto convidar alguém que seja vegetariano para um churrasco de carne.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:20 am

- Por quê? Existe churrasco de outra coisa?
Desculpe-me, mas ignoro.
- Existe churrasco de queijo, de tomate e de outros legumes.
E posso garantir que são uma delícia.
Eles riram, e a aproximação de Renato chamou a atenção.
- Oi, Jorge! Como vai?
- Óptimo.
- Vejo que já conhece a minha irmã.
- Com muito prazer.
Batendo-lhe nas costas com um gesto amistoso, Renato aconselhou ao se curvar:
- Seja uma boa companhia.
Ela quase desistiu de vir na última hora, e eu disse que valeria a pena.
- Pode deixar.
Renato pediu licença e foi conversar com um grupo de amigos, deixando sua irmã na companhia de Jorge.
E foi durante a conversa que se seguia que ele perguntou:
- Você não queria vir por quê?
Em meio a um sorriso forçado, ela explicou:
- Sou noiva, e eu e ele acabamos nos desentendendo.
- Isso acontece.
São essas pequenas discussões que farão vocês se conhecerem e corrigirem-se. Entende?
- O facto não é tão simples.
Ele quer ir para a França, alegando que, se trabalhar em uma empresa internacional, terá um currículo mais valoroso.
- Não posso tirar a razão de seu noivo.
- É! Mas acontece que a empresa é do tio dele, e tenho certeza de que sua prima é quem está por trás disso tudo, só para nos separar.
- Como assim?
- Lorena vive "dando em cima" dele.
Só ele não enxerga isso.
Agora, por ideia dela, o Fernando irá trabalhar na França por uns dois anos.
Isso significa que o nosso noivado está com aviso prévio.
- Se ele realmente gostar de você, a distância não vai significar nada.
Dois anos passam rápido.
Veja que, por outro lado, ele está pensando em garantir para vocês dois um futuro melhor.
- Se a prima dele não estivesse envolvida, eu teria certeza disso e não iria me importar. No entanto...
- Conversem.
Diga a ele o que você pensa.
- Foi o que fiz, e acabamos brigando.
Jorge sorriu, pois não sabia mais o que aconselhar.
Entretanto, em seu íntimo, sentia que não queria que Regina se entendesse com o noivo.
Apesar de vê-la pela primeira vez, percebeu algo estranho envolvendo seus sentimentos.
Regina era encantadora, apesar de estar triste naquele momento.
Ele gostaria de conhecê-la melhor, precisava de uma oportunidade que certamente não teria se ela estivesse atada a um noivado.
Além de bonita, ela possuía um jeito meigo, alguém de coração sincero, difícil de encontrar.
Ao final da confraternização, cansado pelo facto de ter andado de um lado para outro, Renato aproximou-se, convidando:
- O que você acha, Rê, vamos embora?
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:20 am

- É cedo! - opinou Jorge.
- Estou no limite - afirmou o amigo.
- Por mim, tudo bem.
Podemos ir - disse Regina que, ao se levantar, estendeu a mão para Jorge, agradecendo:
- Obrigada pela companhia.
Você foi muito gentil.
- Sou eu que agradeço.
Espero poder encontrá-la novamente.
Renato também se despediu e acabou convidando Jorge para ir à sua casa qualquer hora.
O amigo sentiu-se satisfeito.
Realmente ele gostaria de encontrar Regina novamente e precisava de um motivo.
Havia algo que o encantara.
Uma onda de sensações agradáveis o envolvera enquanto conversaram.
Carregando em si uma esperança animadora, Jorge perdia seus pensamentos com planos e ideias agradáveis a ele ao sonhar com Regina.
Já em casa, ao conversar com o irmão, Regina reclamava:
- Quer apostar que o Nando não virá aqui amanhã?
- Vocês brigaram tanto assim?
- Nem tanto. Parece que o Fernando está cego, enfeitiçado.
Ele só pensa em ir trabalhar no estrangeiro - falou caricaturando a voz com desdém sobre a ideia.
Porém, um sentimento de perda e de decepção invadia o pensamentos da jovem.
Seu peito apertava como sinal de mau presságio.
- O Jorge é gerente lá na Companhia.
É um dos indicados para ficar no lugar daquele director que saiu.
- Tão novo e já pode ser director de uma empresa tão grande?
- Ele é competente.
Renato riu e após alguns segundo decidiu:
- Acho que vou chamá-lo para vir aqui amanhã.
É bom fazer "uma média", jogar conversa fora, assistir um jogo...
Estou querendo mudar de departamento; ali no RH - falou referindo-se ao sector de Recursos Humanos. - estou "travado", não tenho como crescer.
Sem se importar com o que Renato falava, Regina tornou indignada:
- Eu quero matar a Lorena.
Subitamente, o irmão avisou:
- Você sabia que eles não são primos?
- O quê?!! Como assim?
Quando Renato deu por conta, percebeu que a irmã ignorava o facto e achou até injusto o noivo não tê-la avisado.
- Você não sabia que eles não são primos de sangue?
- Claro que não!
Conte-me essa história direitinho.
Renato contou tudo sem demora.
Regina sentiu-se aquecer.
Era absurdo Fernando tê-la enganado.
- Eu não sabia disso.
O Fernando não me contou.
- Creio que ele não lhe tenha contado para você não ficar assim.
Além disso, talvez ficasse chato, pois sei que Lorena chama Rebeca de mãe e a considera como se fosse.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:20 am

- Aquela lá não considera ninguém.
Arrogante, orgulhosa e cheia de caprichos...
- Ora, se soubesse que eles não são primos de verdade, mudaria alguma coisa?
- Vou falar agora é com dona Lídia.
Ela sim vai me dar razão.
- Não creio que você deva.
Lembre-se do que a mãe falou:
quem somos nós para forçarmos o destino?
E, às vezes, quando o forçamos, damo-nos muito mal.
- Sabe, Renato, tudo aconteceu tão rápido.
Primeiro, a prima não vinha para o Brasil havia quase dois anos.
De repente, aparece feito uma assombração na minha vida.
O Fernando mudou completamente.
Nossa vida, nosso noivado, pode, simplesmente, acabar-se por causa dela.
- Vai ver que é para você passar por isso.
Talvez algo melhor a aguarde no futuro, longe do Fernando.
- Deixa de ser idiota!
- Ah! Quando repito o que ouço de você e da mãe, o provérbio não serve, não é!
O que vocês dizem só é aplicado aos outros!
- Ah! não enche!
Insatisfeita, Regina atirou-se sobre a cama.
Imersa em seus próprios pensamentos e sem dar mais atenção ao irmão, ela começou a chorar.
O domingo chegou, e um sol radiante alegrava todos, menos Regina, que, na casa de Rodolfo, ficou sabendo que seu noivo e a prima haviam ido à praia pela manhã.
Após a surpresa, Regina, muito angustiada, sentia-se insegura quanto à sua vida.
Nervosa, procurava disfarçar a insatisfação.
Atirando-se sobre as almofadas macias que adornavam o sofá, Lorena dizia com certa petulância, sabendo que estava enraivecendo sua rival:
- O mar estava óptimo!
Gelado, mas delicioso.
É pena não ter vindo cedo para cá.
Poderíamos ter ido juntos.
Um ódio indomável despertou em Regina, que retrucou:
- Então foi você quem não deixou meu noivo ir me buscar mais cedo?
- Eu, não! A culpa foi da praia maravilhosa.
Lídia chegou e logo perguntou:
- Onde está Fernando?
- Subiu - afirmou a sobrinha.
Precisou ir passar um creme no rosto.
Ele se queimou no sol.
Bem que eu o avisei para usar um filtro solar, mas ele disse que estava acostumado
Virando-se novamente para Regina, Lorena propositadamente, procurou irritá-la.
- Soube que não ficou feliz com a oportunidade que surgiu para o seu noivo.
Desconfiando tratar-se de uma provocação, Lídia atalhou antes que Regina respondesse:
- Quem não gostou disso fui eu.
- Ora, tia!
E para o sucesso profissional de seu filho.
- Será, Lorena?! - respondeu a mulher, encarando, com olhar firme, a moça audaciosa.
- Como assim, tia? - perguntou a sobrinha mantendo uma sordidez embutida e disfarçando a voz com maciez.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:20 am

- As pessoas capacitadas não precisam ir buscar sucesso longe.
Para essas pessoas o sucesso simplesmente acontece.
As oportunidades nos chegam quando Deus quer, desde que estejamos preparados para elas.
Por mim, meu filho não ia.
Não sei de quem foi essa ideia infeliz - encerrou firme.
Muda, Lorena franziu os lábios, enquanto suspira insatisfeita.
Sem demora, Lídia opinou contrariada:
- Não sinto que meu filho será feliz em sua vida íntima fora do Brasil.
E quem o desviar do caminho será mais infeliz do que ele.
Outro povo, outro lugar...
Gostaria muito que Regina fosse com ele, mas...
- Não há lugar para ela! - praticamente atacou Lorena.
- Porquê, Lorena? - inquietou-se a noiva de Fernando.
Dissimulada, a moça sorriu cinicamente, respondendo:
- Nem o idioma você domina.
Seria bem difícil, você não acha?
- Mas meu filho vai voltar.
Se ele for! - retrucou Lídia com firmeza.
Vai voltar e ver que nunca deveria ter saído daqui.
Tenho certeza disso.
Alegre, enquanto descia dois degraus por vez, Fernando chamou a atenção de todos.
- Bem! Do que estão falando?
Rápida, a prima avisou, disfarçando a voz com alegria e maquiando o assunto:
- Falávamos da sua felicidade com a mudança.
Lídia e Regina entreolharam-se, e Fernando falou:
- Já estou decidido.
Vou ao encontro do sucesso!
Calada, a noiva remoía seus pensamentos.
Não aguentava tanta provocação por parte de Lorena, principalmente sabendo de suas tramas.
Algo irrequieto tomou conta de Regina, que decidiu:
- Vamos, Fernando. Vamos logo.
- Aonde vocês dois vão? - interessou-se Lorena.
Imediatamente, sem desconfiança, o primo respondeu:
- Vamos ao cinema. Quer ir?
Aquilo era demais.
Sem suportar mais as inconveniências de Lorena, Regina, muito amarga, reagiu:
- Pois bem, Fernando.
Se você quer sua prima como companhia, pode ir ao cinema com ela.
Dizendo isso, a moça saiu da sala como se marchasse.
Lídia não sabia o que fazer e quando viu o filho correndo atrás de Regina aquietou-se, mas olhou com censura para Lorena, repreendendo-a ao pender com a cabeça negativamente.
Na varanda, quando alcançou Regina, Fernando a segurou pelo braço, fazendo-a parar.
- Não faça isso.
- Não aguento mais! - disse chorando.
- Regina, deixe de ser boba.
- Chega! Fique com sua prima.
- Você está com ciúme.
Não é nada disso que você está Pensando.
Eu a amo, Rê.
- Se me amasse não iria para a França.
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