O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 11:25 am

- Não me peça para ficar. É meu futuro.
- Não! É um plano ambicioso, invejoso e egoísta de Lorena para conquistá-lo.
Só você não enxerga isso.
- Que absurdo, Regina!
Ela se calou, enquanto ele dava inúmeras explicações que não a convenciam.
Magoada, vendo-se ferida, Regina decidiu pôr à prova os sentimentos do noivo.
Interrompendo-o, ela resolveu muito firme:
- Se você me disser que vai para a França, terminamos nosso noivado agora.
- Já disse.
Não me peça isso. Por favor.
Ambos se olharam longamente sem dizer nada.
Regina empalideceu diante do silêncio e, num acto corajoso, tirou da mão direita a aliança que simbolizava o noivado.
Baixando o olhar, procurou a mão de Fernando e a pego colocando a aliança ao dizer com voz sumida:
- Tome. Sinta-se livre.
Mas, caso mude de ideia, sabe onde me encontrar.
Posso amá-lo, mas dividi-lo, nunca!
Rápida, ela se virou e correu em direcção aos largos portões da luxuosa mansão.
Estático, o rapaz ficou confuso e sem saber o que fazer.
Ele acreditava que Regina não entendia o que estava acontecendo, mas mudaria de ideia.
Ao entrar, não mencionou uma palavra, mas seus olhos expressivos diziam o que havia acontecido, e Lídia logo perguntou:
- Onde está Regina?!
Fernando não respondeu, e a mãe saiu correndo, tentando alcançá-la.
Em vão. A moça já havia ido embora.
Imediatamente, Lídia entrou.
Um suor frio começou a aparecer em suas têmporas enquanto sentia a garganta ressequida e a vontade de mudar aquela situação de imediato.
Com voz ponderada e firme, ela encarou o filho e sem importar com a presença de Lorena pediu:
- Fernando, venha até o escritório.
Enquanto caminhava a passos lentos e firmes na direcção do recinto, ainda argumentou:
- Precisamos conversar. É importante.
Meio contrariado, pois sabia do que se tratava, Fernando obedeceu.
Ao entrar na grande sala, fechou a porta e, ao olhar para a mãe, disse:
- O que é, mãe?
Sem rodeio, Lídia indagou com autoridade de mãe:
- Onde você está com a cabeça, Fernando?
- Mãe, a senhora não entende.
Estou pensando no meu futuro profissional.
É com esse progresso que vou poder garantir uma vida confortável para Regina, para minha família.
- Eu até concordaria, com o maior prazer, se a ideia disso tudo não tivesse vindo de Lorena.
- Ora, mãe...!
- Escuta, Fernando! - interrompeu Lídia, alterando o tom de voz.
Ele se calou, surpreso.
Nunca vira a mãe falar assim.
Enérgica, ela prosseguiu:
- Eu já havia dito a você que não gostava da forma como sua prima o tratava, e vice-versa, principalmente perto da sua noiva.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 11:25 am

Qualquer moça respeitável teria mais dignidade e educação, não se fazendo de dengosa, cheia de mimos e caprichos, chamando tanto a atenção para si, querendo todos os cuidados que você corre para ofertar.
- Mãe...
- Ainda não terminei.
Agora você vai me ouvir.
Enquanto dava poucos passos atrás de uma mesa, Lídia prosseguia menos nervosa:
- Ela não é nossa parente, se em que isso não faz diferença, mas vejo que as intenções de Lorena são as de satisfazer caprichos pessoais.
Ela quer conquistá-lo.
- Ora, mãe!
- Que "ora, mãe", que nada!
Lorena é ardilosa.
Essa ideia não passa de um de seus planos.
Sempre vi nessa moça, desde menina, uma criatura arrogante e egoísta.
Sua prima quer levá-lo do Brasil para deixá-lo longe de Regina.
Depois, sabe-se lá o que vai acontecer.
Aproximando-se, afirmou:
- Filho, se você não abrir os olhos, sua vida vai virar um inferno nas mãos de Lorena.
Pense bem, Fernando.
A Regina é uma moça simples, honesta, tem educação e princípios morais valorosos.
Essas são qualidades muito visadas por homens que querem uma esposa, não um "cartão de visita" como mulher, que serve só para ser apresentada elegantemente.
Para tentar persuadi-lo, ainda tentou:
- Não sei se a Regina vai ficar à sua espera por muito tempo. Pense bem.
- O que a senhora quer dizer?
- Você é inteligente, meu filho.
Sabe que todo homem sábio procura uma mulher com as qualidades da sua noiva.
No mínimo, fiel.
E fidelidade tenho certeza de que você não vai encontrar em Lorena.
Porque fiel é a esposa que compreende, que não inquire, que sabe esperar, que o tem como amigo.
Lorena será sua amiga?
- Lorena sempre será só uma amiga, mãe.
- Tenho minhas dúvidas quanto ao facto de você ser tão esperto a ponto de deixar que o relacionamento de você e de sua prima fique só na amizade.
Fernando, em pé, apoiava as mãos nas costas de uma cadeira, com o semblante pensativo.
Caminhando para perto dele, Lídia sugeriu:
- Procure a Regina.
O filho ergueu a cabeça, e ela completou:
- Procure-a e conversem.
- Mãe, estou decidido.
Quero ir para a França.
Ela não vai aceitar.
- Filho, pense bem.
- Não é uma oportunidade como outra qualquer.
Preciso ir, quero aprender.
Adoro a Regina, mas... Puxa!
Ela também precisa ceder um pouco, não acha?
- Eu tenho certeza de que Regina não iria se importar com essa viagem, mas a presença de Lorena, com as intenções que ela deixa emanar...
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 11:26 am

- Que intenções?
Pensando bem antes de falar, a mulher confessou:
- Acho que Regina, assim como eu, sentiu algo muito ruim na Lorena.
É como um pressentimento...
Acho que ela é uma ameaça para nossas vidas, para nossa paz.
De repente, filho seu noivado com a Regina pode nem dar certo, vocês podem ter caminhos bem diferentes pela frente, mas eu ficaria muito infeliz se vocês terminassem desse jeito, com a Lorena envolvida.
Sua prima é uma moça cheia de extravagância, que esconde suas intenções verdadeiras.
Sinto que Lorena é capaz de coisas terríveis.
- Mãe, penso que a senhora está exagerando.
Confie em mim, mãe.
Dê-me esse voto de confiança; não vai acontecer nada entre mim e Lorena, nada além da amizade que temos.
A senhora vai ver.
Com o coração opresso, Lídia silenciou.
Não havia como negar ao filho tal pedido.
Porém, como última alternativa, solicitou:
- Procure a Regina. Conversem.
Com leve sorriso, ele concordou:
- Pode deixar. Vou atrás dela, sim.
Atendendo ao pedido da mãe, ele procurou a noiva, que não aceitou sua viagem e pediu, com o coração partido, que o compromisso entre ambos deixasse de existir enquanto durasse sua estada na França.
Ele se sentia triste, porém sua felicidade interior com a oportunidade que surgira era maior do que a dor pela separação.
Em pensamento, Fernando acreditava que Regina iria esperá-lo, que aquele não passaria de um momento difícil entre ambos e que, em cerca de dois anos, tudo entre eles estaria melhor.
Quem sabe ela não iria para a França também?
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 11:26 am

12 - UMA NOVA VIDA

Mesmo com o rompimento do noivado por parte de Regina, Fernando continuou frequentando a casa de dona Glória.
Quando estava lá, passava todo o tempo conversando com a gentil senhora, que o ouvia e comentava algumas coisas sem interferir no compromisso dele com sua filha.
Regina mal conversava.
Sentia-se esgotada, abatida com tudo o que acontecia e recusava-se, terminantemente, a sair com Fernando para passear ou ir à sua casa.
O tempo correu célere, e logo após as festas de fim de ano Fernando foi para a França trabalhar no estaleiro de seu tio.
A incerteza do destino e o medo do futuro deixavam a moça desanimada; seu coração partido estava entregue à decepção.
Lídia foi visitá-la várias vezes, mas não tinha muito o que fazer por Regina.
- Ela vive calada - dizia dona Glória para a mãe de Fernando.
Frequenta o Centro Espírita, participa de tudo como antes, só que sem aquele ânimo, sem aquele vigor de antes.
- Lamento tanto, dona Glória.
A senhora não sabe como considero e estimo sua filha.
Sinto tanto o Fernando não ter desistido dessa ideia.
Sabiamente dona Glória, com sorriso meigo, argumentou:
- Quando não se tem remédio, o jeito é mantermo-nos em prece, pedindo luz e entendimento para as consciências de nossos filhos.
- Tem razão. E é o que tenho feito.
Mas, após alguns segundos, perguntou:
- Será que Regina vai demorar?
- Acho que não.
Daqui a pouquinho ela estará aí.
Ficará feliz em vê-la.
Minha filha gosta muito da senhora.
- E eu dela.
- Mas não lamente, dona Lídia.
Se for para eles ficarem juntos, ficarão.
- Sim, entendo isso, mas é que não estou gostando da maneira como tudo aconteceu.
Não vejo com bons olhos as intenções de minha sobrinha.
Comecei a sentir uma coisa...
Enquanto conversavam, Regina estava sozinha, imersa em profundos e tristes pensamentos que lhe abatiam o coração.
Sentada em uma pedra de frente para o mar, a moça perdia o espectáculo que o sol oferecia ao se pôr.
Um barco singrava ao longe, na linha do horizonte, onde ela perdia o olhar sem nada ver.
"Lorena foi a vitoriosa!", pensava.
Apesar de Fernando dizer o contrário, tinha certeza de que perderia o noivo.
Ele se deixaria levar pelos caprichos da prima, que o envolvera ardilosamente sem que percebesse.
Uma onda de tristeza arrebatava os sentimentos da moça que, ao olhar na linha entre o mar e o céu, ficava imaginando que do outro lado daquele imenso oceano estava Fernando.
Até então a jovem não se preocupava com nada à sua volta, mas uma sombra atraiu sua atenção.
Circunvagando o olhar na direcção do vulto, ela sorriu mecanicamente ao reconhecer a imagem de Jorge.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 11:26 am

Passou as mãos pelos cabelos num gesto simples e natural, prendendo a maior parte, enquanto alguns fios teimosos esvoaçavam livres.
Não disse nada, e Jorge, respeitando seu silêncio, indicou a seu lado, perguntando:
- Posso?
Um balançar de cabeça serviu como consentimento, e amigo acomodou-se ao seu lado sem dizer mais nada.
O barulho das ondas que arrebentavam nos rochedos não incomodava a reflexão de Regina, e os borrifos de água, em tons cintilantes e coloridos, faziam espectaculosas exibições sem serem notados pela moça.
Ambos ficaram ali, calados, até sem se olharem, por longo tempo.
Havia qualquer coisa no ar que simbolizava o respeito de Jorge pelos sentimentos da moça.
Ele entendia sua alma melancólica e saberia esperar.
Bem depois, quando do sol só se podia ver a assembleia de luzes que se misturava no céu em meio a algumas nuvens, Regina, quebrando o silêncio, perguntou:
- Como sabia que eu estava aqui?
- Passei na sua casa.
Seu irmão estava lavando o carro, perguntei por você, e ele me disse que havia saído há horas e já estava preocupado.
Como estava atarefado, não podia vir atrás de você.
Então falei que viria procurá-la, que, se não a encontrasse, voltaria para avisá-lo.
Daí o Renato recomendou que a procurasse perto das pedras.
Ela somente o encarou e sorriu.
Talvez lhe faltasse coragem para comentários.
Regina não queria falar.
Jorge era dono de uma personalidade cativante, era educado.
Logo que no céu começaram a aparecer os primeiros vestígios de escuridão, Jorge aconselhou:
- Já é bem tarde.
Não é um bom horário para ficarmos aqui.
Regina suspirou, concordando:
- É verdade.
Ele se levantou, estendeu-lhe a mão para que se apoiasse, e, ao se erguer, Regina o encarou agradecendo, mas logo ele viu em seus olhos as lágrimas teimosas que rolaram.
Puxando-a para junto de si, querendo confortar seu coração oprimido, Jorge a abraçou, recostando-a em seu ombro.
Regina deixou-se envolver e chorou muito.
Nenhuma palavra foi dita, e, depois de algum tempo, um tanto sem graça, ela pediu:
- Desculpe-me, por favor. Eu...
- Ora, Regina, amigos são para isso.
Agora vamos.
Cuidadoso para não exibir suas intenções, Jorge passou-lhe o braço sobre os ombros e a conduziu pela areia fofa até chegarem na calçada.
Regina sentou-se na mureta para tirar a areia dos pés, e ele a convidou:
- Vamos tomar um sorvete?
- Agora?
- Claro! Vamos!
Ela aceitou e foi aí que ambos passaram a conversar e conhecerem-se melhor.
Com o passar dos dias, Regina não se furtava ao sentimento de decepção que assolava sua alma.
Fernando telefonava algumas vezes, mas parecia ser por obrigação, talvez por ela tratá-lo com modos frios.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 11:26 am

Quando escrevia ou enviava-lhe postais, só falava do novo emprego, exibindo nas fotos a vista exuberante de onde vivia.
Aos poucos Regina percebia que, apesar das promessas de que não a esqueceria, as palavras de carinho e as expressões de saudade escasseavam-se nas correspondências.
Cauteloso, Jorge, o novo amigo, aproximava-se da moça, tentando conquistar sua confiança e seu amor.
Ele se dizia amigo de Renato e usava essa desculpa a fim de estar sempre presente, principalmente nos finais de semana.
Jorge conversava muito com Regina e com o tempo tirou-a do silêncio melancólico, fazendo-a falar de seu assunto preferido.
Não se deixando prender somente na casa da moça, Jorge sempre surgia com convites de passeios, festas ou almoços.
Tendo Renato como seu aliado, pois o irmão da moça sempre incentivava a sair com o amigo, Jorge sentia-se satisfeito.
Com o tempo, ela passou a ceder à atenção e ao carinho que recebia dele, que, por sua vez, estava ciente de que Regina trazia ainda o ex-noivo na lembrança, mas não se importava isso iria passar.
Muito seguro de si, Jorge acreditava que conquistaria seu amor.
Regina o respeitava, era amiga sincera e gostava muito dele.
Com o passar dos meses, começaram a namorar, e Jorge sentia-se o homem mais feliz do mundo.
Durante alguns meses tudo estava tranquilo.
Um ano havia-se passado desde que Fernando fora para a Europa e há tempos Regina não tinha notícias dele, pois deixara de escrever.
Somente dona Glória, quando conversava com Lídia perguntava como o rapaz estava, mas, muito consciente, mulher não ousava tecer qualquer comentário com a filha.
Regina agora estava bem.
Leccionando em duas escolas, só lhe sobrava tempo à noite, horário que reservava para a elaboração de aulas correcção de provas.
Jorge pensava em um compromisso mais sério, o que não demorou a acontecer.
Mas se existia alguém completamente contrária a isso era Lídia, que haveria de se resignar.
Ela ainda tinha esperança de ver seu filho reatar o compromisso com Regina, mas, quando soube do noivado da moça, sentiu que nada mais poderia feito.
Por outro lado, não a culpava.
Sabia tudo o que Fernando estava fazendo.
Para dificultar ainda mais, Fernando, que prometera voltar a passeio no meio daquele ano, não viera e, por telefone muito sem jeito, anunciou seu namoro com Lorena, avisando que em breve ficariam noivos.
Lídia perdeu horas com o filho ao telefone tentando alertá-lo sobre a personalidade da prima, para não se deixar levar por sua fala pausada e mansa, pois ela, com meticulosidade, calculava as palavras, mascarando suas verdadeiras intenções com sorrisos ensaiados e um tranquilo tom na voz.
Lorena era geniosa, e Lídia sabia que quando ela exibisse sua autêntica personalidade Fernando seria muito infeliz.
Mesmo contra a vontade dos pais, Fernando acabou se casando com Lorena.
Sem saber do ocorrido, no mesmo mês, Regina e Jorge também se casaram.
O tempo, incansável, não pára, mesmo quando acreditamos que os anos custam a passar.
E é no final de seis anos, após os últimos acontecimentos, que vamos encontrar Lorena e Fernando de volta ao Brasil e àquela confortável e bela mansão, lar de Lídia e Rodolfo.
Em conversa particular com o pai, Fernando estava admirado com as novidades.
- O senhor me falou, mas não acreditei que levaria isso a sério!
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 11:27 am

- Tudo aconteceu da seguinte forma - contava Rodolfo sorridente e animado:
- quando conheci o Espiritismo, percebi que haveria de acertar contas de tudo o que não fiz correctamente.
Analise, Fernando:
para conseguir todo esse património que temos e sustentá-lo, eu e seu avô não fomos tão correctos assim.
Então compreendi que deveria fazer algo e pensei: O quê?
Veja, eu sempre critiquei aqueles que não estudam, que não se esforçam, mas comecei a ver que nem sempre lhes são dadas oportunidades, orientações.
Sabe, dar esmolas é fácil; sempre haverá os que estão prontos para receber.
Contudo, tenho capacidade e até condições de fazer algo melhor.
Lá no Centro que eu e sua mãe frequentamos, havia cerca de quarenta famílias dependentes de cestas básicas.
Nós éramos os que mais colaborávamos para a manutenção dessas cestas.
Daí pensei:
não posso só "dar o peixe"; tenho de "ensinar pescar".
Na grande maioria dos casos, os assistidos estavam desempregados e por isso recorriam ao Centro Espírita.
Como ouvimos dizer:
"A Doutrina Espírita não surgiu para fazer caridade mas ai dos pobres se não fossem os espíritas".
Conversei com um e com outro e surgiu a ideia de abrir uma fonte de trabalho, gerando emprego e trazendo dignidade àqueles assistidos pela área social.
Então, tudo aconteceu.
Não foi preciso empregar muito dinheiro.
Hoje temos uma lavandaria, pois descobrimos que ninguém gosta de passar roupa, e ela tem um preço acessível às classes média e média baixa.
Algo muito prático e útil àqueles que trabalham fora.
Só nesse lugar geramos quinze empregos.
Estamos até com uma carpintaria que também realiza trabalhos como consertos de alvenaria, como, por exemplo, em calçada quebradas, muros.
Sabe que até móvel planeado eles já começaram a fazer!
Só temos um probleminha.
Estamos com falta de profissionais devido ao aumento de serviço, pois o preço realmente é acessível.
Resumindo:
Por termos gerado empregos, só temos duas famílias recebendo cestas básicas, pois nelas há deficientes graves que necessitam realmente de atendimento e acompanhamento integral.
Os mantimentos que antes eram dos assistidos das cestas agora são direccionados a orfanatos e a asilos de pessoas desamparadas.
Ah! Também temos uma creche que funciona para os filhos dos empregados.
Rodolfo, sorridente, calou-se, observando a reacção do filho, que parecia perplexo.
Ele não acreditava que seu pai pudesse se transformar tanto assim.
- Que incrível, pai!
Estou admirado!
- Veja, Fernando, eu poderia me desfazer dessa fortuna fazendo doações, mas elas também iriam acabar nas mãos dos necessitados sem que houvesse um lucro, um retorno a eles mesmos.
Achei melhor dar oportunidade de trabalho, ocupação e dignidade.
As pessoas sentem-se produtivas, melhores.
- Vejo que não pretende parar aí pelo seu entusiasmo...
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 11:27 am

- Temos muitos empenhados; não pararemos tão breve.
Deus queira que não.
Mas, me conta, quais são as novidades.
Tanto tempo longe, deve ter muitas.
Fernando sorriu meio sem jeito e, mediante a oportunidade, revelou:
- Quero voltar para o Brasil definitivamente.
Estranhamente o pai não reagiu surpreso; parecia já esperar por aquela decisão.
Sem demora, o filho perguntou:
- O que o senhor acha?
- Maravilhoso! - respondeu o pai que, sem demora, concluiu:
- Quando você foi para a Europa, senti como se tivesse perdido outro filho.
Indo em sua direcção, Rodolfo o abraçou com carinho, emocionado por sua decisão.
Afastando-se, o pai colocou as mãos em seus ombros e o chacoalhou sem dizer nada e sorrindo, pois as palavras prenderam-se na garganta de ambos.
Porém, a troca de olhar dizia tudo.
Fernando baixou a cabeça quase não resistindo às emoções.
Respirando profundamente, caminhando até a mesa do escritório, Rodolfo avisou:
- Tenho grandes contactos, você sabe.
Profissionalmente você está amparado, mas...
- Mas...? - interessou-se o filho.
Olhando-o firme, o pai pediu:
- Venha morar aqui.
Essa casa é imensa e está muito vazia.
Agora, principalmente, ficou pior.
- E o vô, ainda vive trancado no quarto?
- Vive sim.
Como sempre, quase não conversa e...
Ah! não contei! Ele não vai mais ao escritório.
Tudo ficou por minha conta; seu avô simplesmente se aposentou e abandonou tudo.
Nem orientações ou conselhos recebo dele.
- E fica em casa?! - admirou-se o rapaz.
- Só em casa. Quando muito, caminha um pouco pelo jardim.
Nada mais. Se ainda fosse até o Iate Clube...
Sei, lá.
Algumas pancadas fortes e descompassadas na porta do recinto chamaram a atenção de ambos.
Fernando sorriu ao adivinhar que seria Hélder, o filho de quase dois anos.
- Espere! - avisou Fernando, indo e direcção à porta.
O papai já vai abrir.
Sorridente ao abrir a porta, Fernando o pegou no colo e beijou-lhe a face com carinho.
O rosto rosado e as bochechinhas salientes exibiam a saúde da criança muito activa.
O menino, bem esperto, apontava para os livros que queria alcançar, balbuciando algo ao mesmo tempo.
Ainda desejoso de informações, pois estava curioso, Rodolfo perguntou:
- E a Lorena, concorda com a mudança para o Brasil?
Respirando profundamente e exibindo certa insatisfação ao espremer os lábios, Fernando respondeu:
- Terá de concordar. Estou decidido.
- Ela ainda não sabe?
- Deixei para dizer aqui.
- Vocês estão bem? - perguntou o pai, exibindo-se receoso.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 11:27 am

- Infelizmente, tenho de admitir que vocês tinham razão.
- Como assim?
Fernando, preocupado com quem pudesse ouvi-lo, olhava para fora enquanto falava e balançava o pequeno Hélder dando alguns passos.
- Lorena é geniosa, para não dizer diabólica.
- Espere, Fernando.
Também não é assim - disse o pai caminhando até a porta, fechando-a para que ficassem mais à vontade.
- Eu pensei que, depois do nascimento do Hélder, ela mudaria.
Mas não. O senhor não imagina do que ela é capaz, e para não pedir o divórcio de imediato vou voltar para cá.
Quem sabe, longe do pai e da tia Rebeca, pois os dois fazem todos os seus gostos e caprichos, ela se sinta mais inibida de fazer o que faz.
O garoto não queria ficar no colo do pai, que o pôs no chão, mas seguia-o de perto, pois as gavetas foram o seu primeiro lugar de ataque.
Rodolfo, querendo saber mais, perguntou:
- Mas o que está acontecendo de tão grave?
- Tudo, pai. Está acontecendo tudo.
Eu tenho de satisfazer todos os seus caprichos, seus luxos, como se fosse seu empregado.
Ainda escuto gritos e desaforos sempre exigindo algo.
- E você não reage?
- O senhor não imagina o escândalo quando lhe chamo a atenção.
Imediatamente ele reagiu com o filho:
- Não, Hélder. Deixe isso!
Isso corta, é perigoso - avisou ao tirar-lhe das mãos o abridor de cartas.
Voltando-se ao seu pai, disse:
- Sabe, pai - prosseguiu: -, eu gostaria de começar de novo, de tentar novamente, só que aqui.
Perto da família dela sei que não tenho condições.
- Vocês tentaram algum tipo de terapia de casal?
- Não. Lorena não admite.
Vendo que o filho não controlava o garoto que mexia em tudo, Rodolfo apanhou uma lista telefónica antiga, pegou o neto, colocou-o sentado no centro do escritório e disse ao menino enquanto colocava a lista à sua frente com uma caneta junto.
- Olhe, Hélder, brinque, mas não rasgue nem risque, viu?
Eles riram, e Fernando perguntou:
- Pai, e a Kássia?
O homem franziu o semblante, fez um gesto singular e respondeu:
- E... - começou desolado -, este assunto está se tornando um problema.
- Ela ainda anda com aquelas companhias?
- Infelizmente, sim.
Quando ela chegar, você verá por si mesmo.
- Nunca pensei que a Kássia pudesse se transformar tanto.
Logo, pai e filho voltaram a conversar sobre o retorno de Fernando ao Brasil; afinal, isso era prioridade para o rapaz, que estava decidido e precisava estabilizar-se o quanto antes.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 11:27 am

13 - SÚBITA MUDANÇA

A chuva que caíra no fim da tarde trouxe um frescor muito agradável ao início da noite, e da sacada do seu quarto Fernando olhava o belo jardim, apreciando a vista, enquanto matava a saudade.
Seus pensamentos perdiam-se embaraçados, sem concentração, sem objectivos.
Lembrou-se da infância feliz que tivera, e uma saudade calou em seu peito quando se recordou do irmão falecido.
Um suspiro fundo, sem ser forçado, emocionou-o, fazendo com que de seus olhos lágrimas brotassem imediatamente.
Sussurrando e com tranquilidade, Fernando perguntou:
- Cristiano, onde você está?
Fernando não pôde ver, muito menos ouvir, mas naquele exacto momento o espírito Cristiano, sorridente, o abraçou, dizendo:
- Estou aqui.
Forte sentimento tomou conta de Fernando, sem que ele pudesse entender o que acontecia. Cristiano o abraçou, afagou-o e disse:
- Nando, você deveria ter sido menos ambicioso. O egoísmo o levou para longe e com isso você cedeu aos caprichos e as seduções perigosas, das quais não precisava. Agora, Fernando, terá de arrancar, de s! mesmo, forças para suportar as dificuldades que arranjou.
Em pensamento, Fernando dizia:
- É, Cris, se você estivesse aqui hoje, poderíamos estar conversando como dois homens.
Talvez pudesse me ouvir, me aconselhar, me apoiar, não sei.
Acho que errei muito quando fui embora do Brasil.
Foi egoísmo querer uma indicação de empresa estrangeira no currículo; foi egoísmo e ilusão.
Aqui há coisas óptimas.
E com os contactos que o pai tem...
Depois, ainda, quando estava lá na França, acreditei que se eu não me envolvesse com Lorena estaria fora, perderia o emprego...
Que droga!
Sem que Fernando ouvisse, Cristiano concluiu por ter sentido seus pensamentos:
- Meu irmão, aprendi que se temos a infeliz capacidade de nos envolver em um erro, ou em um problema sério, é porque temos, em nosso interior, forças para encontrarmos uma solução e harmonizarmos a situação.
Você tem consciência do que fez.
Isso é muito bom.
Seja paciente, procure compreender sua mulher.
Oriente-a para o bem, pois Lorena precisará muito.
Ela é uma alma doente que recusa o amor incondicional, que repele a humildade.
Já que decidiu ficar junto dela, conduza-a a uma visão real da vida.
Mas, para isso, precisará adquirir conhecimento.
Nesse instante, nos pensamentos de Fernando, surgiu a imagem de quando ele entregou a seu pai O Livro dos Espíritos que Regina havia-lhe pedido.
- Nossa! Não pensei que meu pai tinha condições de mudar tanto.
Talvez nesse livro eu também encontre algo que me dê ânimo.
Dona Glória ou Regina certamente saberiam o que me dizer.
E Regina, como estará?
Uma saudade o calou, e ele deteve os pensamentos.
- Isso mesmo, Fernando - insistia Cristiano.
Procure orientação.
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Ave sem Ninho

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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 11:27 am

A mãe é sábia, pode ajudá-lo a experimentar tudo sem dívidas.
Não fuja das situações.
Amigos espirituais de elevado entendimento haverão de envolvê-lo; assim, se sentirá fortalecido a fim de procurar equilíbrio.
Somos o que cultivamos como práticas e pensamentos.
Pense em tudo o que vai fazer e falar.
Jesus já disse que não é importante o que entra pela boca, mas sim o que sai dela.
Por isso, aja com tranquilidade.
Percebendo a aproximação de Lorena, Cristiano envolveu seu irmão mais uma vez e beijou-lhe a face, afastando-se em seguida.
Nesse instante, a porta do quarto abriu-se, e, ao entrar, Lorena exigiu amarga:
- Quero sair esta noite.
Onde podemos ir?
Fernando virou-se e após dois passos saiu da sacada, entrando novamente no quarto.
Suspirando, argumentou em tom manso:
- Se quiser sair, sinta-se à vontade.
Pode chamar o Ian como companhia.
Prefiro ficar em casa.
Caminhando alguns passos enérgicos, Lorena colocou as mãos na cintura e ficou encarando-o.
Altiva, com os olhos fixos no marido, querendo inibir sua decisão, ela falou de forma estridente, ordenando ao intimar:
- Você vai comigo!
Não sei onde, mas quero me distrair.
Não suporto o marasmo dessa casa.
Sereno, Fernando informou:
- Acho bom que se acostume a essa casa, pois é aqui que vamos morar.
Não voltarei para a França.
Os olhos de Lorena cresceram; ela se viu ameaçada de alguma forma, pois quando voltou para o Rio de Janeiro acreditou que fosse só a passeio.
Indignada e perplexa, percebia certa firmeza na decisão do marido.
Antes que se manifestasse, Fernando prosseguiu:
- Será melhor para nós dois e para o Hélder.
Acho os costumes daquele país um tanto gélidos, sem amabilidade.
Quero que meu filho tenha uma educação mais generosa.
É absurdo e abusivo lugares onde não podemos entrar com crianças só por capricho daqueles que não querem ser incomodados por risos ou choros, enquanto nesses mesmos locais e até em muitos restaurantes finos cães são imensamente bem-vindos e permanecem às mesas.
Quero ir acompanhado por meu filho a todos os lugares.
Impulsiva, Lorena o interrompeu quase num grito:
- Jamais morarei aqui nesse país de Tupiniquins, como diz Rebeca.
Se você está pensando...
- Eu já decidi.
Não volto mais para a Europa.
Naquele instante a discussão nervosa elevou o tom de voz do casal e de qualquer lugar da casa eles podiam ser ouvidos.
Agora, valendo-se de estar sob o tecto de seus pais, Fernando reagia, impondo à esposa o que acreditava ser mais correto.
A única maneira que encontrou para terminar com os gritos de Lorena foi deixando-a sozinha no quarto.
Ao descer as escadas que davam para a sala principal, Fernando deparou-se com os olhares de todos, que pareciam desejosos por explicações.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 11:28 am

A voz de Lorena ainda podia ser ouvida, e Ian, parecendo um tanto constrangido pela atitude da irmã, decidiu ir falar com ela.
Com a retirada do sobrinho, Lídia aproximou-se do filho e perguntou:
- O que está acontecendo, Fernando?
Sem rodeios, ele avisou:
- Acabei de dizer a ela que não volto mais para a Europa.
Firme, Rodolfo argumentou:
- Estou escandalizado ao ver em que pé chegou seu relacionamento com sua esposa.
- Ora, pai, ela...
- Ela só, não!
Quando a falta de respeito chega a esse ponto, a culpa não é só dela, é sua também.
Irritado, Fernando defendeu-se:
- O que quer que eu faça?
Que eu tape a boca de Lorena?
- Você deveria tê-la impedido de gritar desde a primeira vez - disse Rodolfo, enquanto caminhava pela sala exibindo nervosismo.
Onde já se viu isso?
- Vocês não sabem o que eu venho suportando - informou o filho.
Houve ocasiões em que não quis acompanhá-la em algum lugar e, sem que esperasse, Lorena aparecia, no meio do expediente, sem se importar se eu estava ou não recebendo algum cliente, e, na frente de todos, armava o maior escândalo.
Ninguém de sua família abria a boca; parecia até que todos eram submissos a ela.
Seus caprichos tinham de ser satisfeitos imediatamente.
- Detesto dizer isso, Fernando, mas nós o avisamos - lembrou Lídia muito enérgica.
Quando você foi para a França, falei muito.
Como se não bastasse, quando nos informou que iria ficar noivo, falei mais ainda.
- Pensei que ela fosse mudar depois do nascimento do Hélder, mas não.
Lorena pouco se importa com nosso filho.
Ela acredita que duas babás e uma enfermeira suprem as necessidades do menino.
- Por que não disse a ela que pensava em ficar definitivamente no Brasil?
- Ela não viria para cá e criaria o maior problema.
Certamente não deixaria que o Hélder viesse comigo.
Se arrependimento matasse...
Seus pais entreolharam-se sem nada dizer.
Sabiam que o filho tinha consciência do que havia feito e agora teria de procurar soluções, o que lhe seria muito difícil.
Distante dali, Regina e Jorge acabavam de chegar em casa.
Ele trazia nos braços Denis, o filho mais velho que estava com três anos, enquanto ela levava a pequena Amanda, de um ano e meio.
- Tenho certeza de que, quando entrarmos, eles vão acordar e ficarão "ligados" pelo resto da noite - acreditava Regina.
Jorge sorriu e, ao entrarem em casa, a previsão de Regina realizou-se.
- Vamos logo dar um banho neles, porque assim vão ficar relaxados e dormirão logo - opinou o marido.
Hoje eles tiveram um dia cheio.
Estão cansados.
Brincaram o dia todo com a cachorrinha.
Coitada da "Bolinha"; bem se vê que está ficando velha.
Coitadinha, para suportar esses dois...
Animados, o casal trocava algumas palavras, enquanto juntos banhavam as crianças e as preparavam para dormir.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 11:28 am

Mais tarde, porém, viram-se a sós e bem mais tranquilos pois os pequenos já haviam sido arrebatados pelo sono.
No quarto, abraçado à esposa, Jorge dizia:
- Amanhã haverá uma reunião importante.
Estou com receio.
Enquanto lhe acariciava os cabelos, Regina o incentivava:
- Não tema. Você tem muito valor lá na empresa.
É capacitado, Jorge.
- Acontece que novos donos, nova presidência, gostam de ser assessorados por aqueles que conhecem.
Eles certamente trarão pessoas de sua inteira confiança para alguns cargos.
Ocorria que a Companhia em que Jorge trabalhava, havia alguns anos, fora vendida, e o medo do desemprego o assombrava.
O casal era unido e vivia harmoniosamente.
Regina era uma esposa compreensiva e amorosa, sempre presente de forma activa e positiva na vida do marido e dos filhos.
Apesar do coração apertado, ela lhe falava de modo sereno e optimista, elevando seu ânimo:
- Não se preocupe.
Mesmo que não continue lá, você é capacitado e vai arrumar algo em outro lugar rapidinho.
Talvez com uma colocação melhor.
Jorge sorriu e a abraçou com carinho, beijando-lhe os lábios com amor.
Ele encontrava na esposa um porto seguro, recebendo a compreensão que todo homem deseja ter.
Jorge a valorizava, além de amá-la muito.
Regina dificilmente se exaltava e conseguia ter agilidade em qualquer situação complicada.
Era difícil vê-la nervosa.
Agora, mais madura, era dona de grande controlo emocional.
Nos dias que se sucederam, Jorge chegou em casa abatido e sem demora deu a desagradável notícia:
- Fui demitido.
A esposa, surpresa, fez-se de forte para suportar com firmeza o rude golpe.
Com o coração opresso, não sabia o que dizer, precisando arrancar, do fundo da alma, palavras que pudessem trazer mais ânimo ao marido.
Indo imediatamente ao encontro do marido, ela o envolveu em um abraço caloroso enquanto dizia:
- Isso não será problema para você.
Encontrará coisa bem melhor.
Jorge correspondeu ao carinho, beijou-a rápido e logo se afastou.
Não havia como esconder sua preocupação com o futuro.
Ele não tinha muito o que receber como indemnização, uma vez que usara o Fundo de Garantia para a compra daquela casa, que ainda não estava totalmente paga.
Sua preocupação maior era também com os dois filhos pequenos que exigiam cuidados e qualidade de vida.
A esposa, por outro lado, não trabalhava fora e não sabia como iria suprir a manutenção da casa.
A situação era difícil.
Vendo-o calado e oprimido, Regina acercou-se mais do marido, passou-lhe a mão nas costas com um gesto de carinho e lembrou com voz terna:
- Posso voltar a dar aulas; afinal, nunca quis parar de leccionar.
Sincero e ponderado, o esposo a encarou e, com fala mansa, lembrou:
- Você saiu do emprego para cuidar das crianças.
Não é justo...
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 11:28 am

- Claro que é! - interrompeu Regina.
É um momento de necessidade.
Tenho profissão e vou exercê-la para ajudá-lo a manter nossa casa e nossos filhos.
- Regina, deixe que eu cuido disso.
Olha, ainda estou arrasado com tudo o que aconteceu e não consigo pensar direito.
Com o semblante sisudo, ele avisou:
- Vou tomar um remédio contra dor de cabeça e depois um banho; estou me sentindo péssimo.
O chorinho de Amanda chamou a atenção de Regina, que precisou atender a filha querida.
Enquanto cuidava da menina, começou a planear por onde começaria a procurar por um emprego.
Primeiro, tentaria entrar em contacto com amigas professoras, com as quais já havia trabalhado.
Poderia também falar com seu irmão; afinal, Renato conhecia muita gente e poderia ajudá-la.
Mesmo que não fosse um emprego para leccionar, ela aceitaria diante da actual situação; não poderia se dar ao luxo de escolher, até porque emprego não é algo fácil de conseguir.
Sua segunda preocupação era com as crianças.
Não poderia pagar alguém para ficar com elas; teria de pedir para sua mãe.
Isso não a deixava satisfeita, pois sabia que a mãe já tinha certa idade e alguns problemas de saúde, e seus filhos eram bem activos.
Porém, não haveria outro jeito, não tinha a quem mais recorrer.
No dia imediato, bem cedinho, Regina foi até a casa de sua mãe, não muito longe da sua, e contou tudo o que estava acontecendo.
- Confie em Deus, filha.
Se o Jorge não fez nada de errado para ser demitido, é porque tem de ser assim.
Aproximando-se da filha, que, sentada em uma cadeira, apoiava os cotovelos sobre a mesa segurando o rosto com as mãos, dona Glória afagou-lhe os cabelos e puxou-a, para que se recostasse nela.
Acarinhando-lhe a face, falou:
- Vai dar tudo certo, Regina.
É só uma temporada ruim, filha.
- Mãe, estamos ainda pagando a casa.
Só faltam três meses para terminar.
Mesmo eu trabalhando, não sei se ganharei o suficiente; temos dois filhos pequenos.
- Mesmo que não ganhe para pagar tudo sozinha, o Jorge vai arrumar outro emprego logo, você vai ver.
Quanto às crianças, não se preocupe, elas vão ficar bem comigo.
O que recebo da aposentadoria de seu pai é pouco, mas dá. Sempre deu.
- Fico preocupada com o Denis.
A senhora sabe que ele não obedece e é muito levado.
Sorrindo, a avó garantiu:
- Deixe comigo.
A mim ele atende direitinho.
Tudo o que peço com jeitinho ele faz.
- É, talvez a Viviane possa dar uma mãozinha.
- Você sabe, ela vem aqui todo dia e sempre nos ajuda.
Pena o Renato não valorizar essa moça como deveria.
Seu irmão ainda vai acabar perdendo a vida.
Regina levantou-se, andou até o fogão e serviu-se de café.
Virando-se para a mãe, perguntou:
- E o Renato, como está?
- Como falei, hoje ele levantou bem cedo.
Disse que tinha muito trabalho.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 11:28 am

- Ontem ele bebeu?
- Ontem não.
Com o semblante preocupado e triste, dona Glória afirmou:
- Sábado a Viviane veio trazê-lo.
Seu irmão apareceu na casa dela e estava que nem se aguentava em pé.
- Como se não bastasse, ainda temos mais isso - lamentou a filha, insatisfeita, andando até a mesa.
Não dá para entender.
Um rapaz bonito, inteligente, que tem um emprego excelente e gosta de trabalhar, mas é só chegar nos finais de semana bebe até cair.
- Não sei como a Viviane ainda o atura.
- O Renato precisa de um tratamento.
Alcoolismo é doença.
- Eu sei, filha.
Mas vai falar isso para ele.
Seu irmão é um excelente filho, educado, e faz tudo para me agradar, mas não aceita o que a gente fala para ele.
Depois de um Profundo suspiro, a mãe desabafou:
- Você não imagina o Que sinto quando o vejo "de fogo".
Como é duro para uma mãe encarar esse pesadelo.
É uma angústia tão grande.
- Já falei tanto, mãe. Mas não adianta.
Ele jura que não vai beber mais, porém...
- Acho que são as companhias.
Tem colega que insiste para que ele o acompanhe na hora de beber, e seu irmão não tem opinião.
- Ele tem vergonha de se negar a beber.
Os colegas ridicularizam, e para não ficar por baixo o Renato acaba aceitando.
Vamos falar com ele quantas vezes forem necessárias.
Não vou desistir do meu filho.
Se Deus o confiou a nós com esse vício, é porque temos condições de ajudá-lo.
- A senhora também já passou por tantas, hein, mãe!
- Minha maior dificuldade foi quando perdi seu pai.
Vocês eram pequenos. Nossa! Como foi difícil!
Seu pai deixou de pagar os últimos meses da previdência, e eu não sabia o que fazer com a alfaiataria.
Nosso vizinho, o finado senhor Mané, foi quem cuidou de um monte de documento e vendeu a alfaiataria.
Passei a receber a pensão e a fazer faxina.
- Demorou tanto para a senhora conseguir se aposentar, né?
- Foi sim. Mas deu para a gente viver.
Principalmente quando o Renato começou a trabalhar; tudo melhorou.
- É, mas quando ele resolveu fazer faculdade e eu também novamente ficamos sem dinheiro.
- Mas tudo foi passageiro.
Seu irmão arrumou um emprego melhor, e você começou a dar aulas.
Acabou tudo dando certo.
Hoje, filha, o que você está experimentando também vai passar. Nada é eterno.
Regina sorriu, mesmo sentindo seu coração aos pedaços.
Olhando no relógio, surpreendeu-se:
- Nossa! Preciso ir.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 15, 2016 10:32 am

O Jorge, após o almoço, precisa ir lá na empresa para ver uma documentação para a homologação.
Aproximando-se da amável senhora, a filha a beijou e disse:
- Tchau, mãe. A noite venho para falar com o Renato.
Agora preciso ir.
Regina se foi, e mesmo sem soluções para os seus problemas sentia-se um pouco melhor.
A conversa com sua mãe a deixara mais segura.
Jorge tinha dificuldades para encontrar uma colocação de acordo com seu nível.
Entretanto, com o passar dos dias, Regina conseguiu um emprego em uma empresa de cosméticos, devido à ajuda do irmão.
Jorge não estava muito satisfeito; todavia, não podia se opor por causa das necessidades da casa e dos filhos.
Ao chegar em casa, Regina procurava falar pouco sobre seu trabalho para não gerar nenhum sentimento indesejável no marido, que, a cada dia, parecia mais preocupado com sua situação.
Ele estava nervoso pelas tentativas frustradas e, mal-humorado, quase não conversava, transformando-se em um homem sem carinho a oferecer e com modo áspero no falar.
Sem gentileza e atenção para com os de casa, Jorge acabava afastando de si aqueles que mais amava, principalmente os filhos.
Regina acreditava que isso seria temporário e que era por conta do desemprego; por isso não dizia nada.
Quando recebeu seu primeiro salário no novo serviço, Regina sentiu-se imensamente satisfeita.
Mas, a caminho de casa, a bela jovem preparava-se psicologicamente para lidar com o mau humor do marido; entretanto, para sua surpresa, foi diferente.
Ao encarar Jorge, ela percebeu um brilho diferente em seu olhar.
Ele tentava ficar sério, mas seus lábios eram puxados pelo sorriso.
Sem demora, Regina perguntou:
- Tudo bem? Alguma novidade?
Sem demora, Jorge anunciou:
- Recebi uma proposta!
A esposa ficou na expectativa e, sem conseguir deter a curiosidade, perguntou rapidamente:
- Você foi chamado?
- Não. Não é bem isso.
Lembra-se da Selma?
- Aquela gerente que trabalhou com você?
- Ela mesma! - afirmou o marido, parecendo entusiasmado.
Logo continuou:
- Hoje ela veio aqui.
- Como?
- Ela me telefonou, disse que tinha algumas ideias e que precisávamos conversar.
À tarde veio aqui me propor um negócio.
Nesse momento Regina fechou o sorriso, pois sentiu algo que não gostava naquela história.
Porém, sem comentários, aguardou o desfecho.
- A Selma também foi demitida e pretende abrir uma loja de agasalhos e roupas desportivas.
Mas seus planos não param só aí; se eu entrar de sócio, poderemos, também, fazer as confecções.
Não pararemos só nos agasalhos desportivos; podemos entrar num acordo com alguns colégios e fazer uniformes escolares.
Interrompendo-o, a esposa perguntou:
- E para essa sociedade com a Selma você faria uso do que temos guardado no banco, o que restou do que recebeu do Fundo de Garantia?
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 15, 2016 10:33 am

- É claro! Não posso entrar de mãos vazias numa sociedade.
É lógico que serei um sócio minoritário, por entrar com menos investimento.
Tentando convencê-la, ele a rodeou e, animado, avisou:
- Olha, no começo pode não ser muito lucrativo, mas como você está trabalhando temos como "segurar as pontas".
Além do que seu irmão pode dar uma ajudazinha.
Regina, andando alguns passos em torno da mesa, não dizia nada, mas sentia-se insegura.
Algo estranho a deixava temerosa.
Seus pensamentos estavam confusos e havia algo suspeito.
Em meio a tudo, a única coisa que falou foi:
- Você confia na Selma?
- Não há com o que se preocupar.
Vai dar certo, Regina! - exclamou Jorge, animado, indo abraçá-la.
Beijando-a, admitiu:
- Sempre quis ter meu próprio negócio, ser empresário.
Só não sabia como poderia começar. Agora é o momento.
Conforme a colocação dos factos, a esposa percebeu que o marido não pedia sua opinião ou o seu consentimento.
Jorge estava decidido a entrar para aquela sociedade.
Regina sorriu e tentava afugentar os pensamentos que ameaçavam as novas ideias do marido.
A chegada das crianças os separou do abraço, e a presença de dona Glória, que entrou vagarosamente na cozinha, os fez mudar de assunto.
- Oi, filha! Como foi hoje?
- Oi, mãe. Tudo bem - respondeu Regina enquanto abraçava e beijava seus filhos.
- Tenho novidades, dona Glória! - anunciou o genro, animado.
Depois de contar tudo à sogra, ele ouviu:
- Vai dar certo, sim, meu filho. Claro que vai.
- Eu tenho certeza disso!
É a chance de que eu precisava.
Foi nesse momento que Denis, o filho mais velho, chamava pelo pai querendo sua atenção, e Jorge foi até a sala para atendê-lo.
A sós com a filha, dona Glória percebeu algo diferente no olhar da moça.
- O que foi, Regina?
Ela ficou sentada e imóvel por algum tempo; depois, ainda com o olhar perdido em algum lugar do chão, respondeu sem encarar a mãe:
- Não gostei dessa ideia.
- Por quê, filha?
- Não sei, mãe.
Senti uma coisa que não sei explicar.
Mas se eu falar alguma coisa ele vai dizer que estou implicando com a única chance que ele teve nesse tempo todo em que ficou desempregado.
Vai dizer que estou com ciúme da Selma ou coisa assim.
Dona Glória não sabia o que responder.
Ela também não havia gostado do plano do genro.
Entretanto, decidiu não dizer nada a fim de não deixar a filha ainda mais preocupada.
Decidida, a mulher avisou:
- Eu vou indo.
- Não, mãe, espera.
- Não posso.
Preciso ir, pois seu irmão já vai chegar esqueceu as chaves hoje.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 15, 2016 10:33 am

- E o Renato? Como está em casa?
Conversei com ele ontem, por telefone, mas não toquei no assunto da bebida.
- É aquilo que falei:
ele não bebe faz quase um mês, mas até quando vai aguentar?
Seu irmão teria de procurar a ajuda de um médico ou de um grupo de apoio.
- Ele não aceita isso.
- Esse é o problema, Regina.
Toda pessoa alcoólatra não admite que o é e acha que pode parar de beber quando quiser.
Ou então, acreditando que pode se controlar, só experimenta um gole e depois não pára até cair.
Após pequena pausa, dona Glória desfechou ao dar um beijo na filha:
- - Bem, deixe-me ir.
Amanhã a gente se vê.
Quando a mãe se foi, Regina observou os risos que vinham da sala.
Era Jorge e as crianças que brincavam e rolavam no chão.
- Eu estava certa! - pensava, enquanto esboçava um leve sorriso.
O jeito estranho dele era por causa do desemprego.
Tudo vai ficar bem agora. Tudo vai mudar.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 15, 2016 10:33 am

14 - À PROCURA DE SOLUÇÕES

Com os meses, enquanto a vida oferecia harmonia e novas perspectivas para Regina e Jorge, as insipiências ocorriam com mais frequência e calor entre Fernando e Lorena.
As brigas constantes provocadas pela geniosa Lorena deixavam todos daquela casa angustiados com a situação.
Como se não bastasse, Kássia, a filha mais nova de Rodolfo e Lídia, estava com atitudes e costumes bem estranhos.
Em conversa com a filha, Lídia perguntava:
- Kássia, porque tudo isso?
- Porque é o "maior legal", mãe!
Você não entende!
A moça já vinha se enturmando com companhias muito estranhas havia algum tempo, e os pais pouco podiam fazer.
Consultas a psicólogos não adiantaram, principalmente quando com agressividade, inclusive física, Kássia se recusava a ir.
As roupas escuras e diferentes do comum não eram suficientes para chocar as pessoas.
Kássia decidiu fazer tatuagens e colocar piercings chamativos no nariz, na língua, e algo bem grande na orelha, que parecia estar deformada.
No começo, foram pequenas tatuagens, até interessantes, em lugares discretos.
Porém, agora, com o passar do tempo desenhos de pinturas grosseiras e até macabras, se olhadas com atenção, figuravam-se no colo, nas costas e nos braços da moça chamando muita atenção.
Os pais não sabiam mais o que fazer.
- Kássia, sente-se aqui.
Vamos conversar.
- Olha aqui - dizia a moça com jeito estranho -, se é para você me dar sermão, vamos cortando.
- Filha, vamos conversar.
Você sempre foi amorosa, sempre se dedicou aos estudos...
Interrompendo Lídia ao pronunciar algumas palavras de baixo calão, a jovem Kássia ameaçou, impondo-se grosseira e com rebeldia na voz:
- Que coisa!!!
Se você não der um tempo, vou-me embora de vez e ninguém vai mais me ver!
Lídia ficou assombrada.
Como sua doce menina, agora bem crescida, havia-se transformado naquela criatura?
Seu coração amoroso de mãe dedicada não poderia suportar tudo aquilo.
O vocabulário pobre e a aparência desagradável ofendiam, agrediam àqueles que amavam Kássia.
Ela, por sua vez, parecia agir daquela forma amarga e desdenhosa propositadamente.
Ignorando os princípios de amor que recebera dos pais dedicados, negando-se à excelente oportunidade de vida que tinha, Kássia entregava-se às aflitivas experiências desequilibradoras quando agredia o corpo perfeito que lhe fora emprestado para aquele reencarne com tatuagens e brincos exagerados, atraindo para si débitos comprometedores em futuras experiências de vida.
Negando-se ao estudo oportuno, a uma vida decente, de boa moral, e às responsabilidades a experimentar, a jovem moça ignorava que vivenciaria uma vida plena de tristezas, amarguras, infelicidades e decepções.
São almas especiais, como Lídia e Rodolfo, que recebem a difícil tarefa de procurar instruir espíritos encarnados como Kássia, que só buscam a negatividade.
Espíritos assim, com tanta dificuldade de encontrar o equilíbrio, a integração social, são dotados de muita fraqueza e vícios, que terão de superar e harmonizar; mas, para isso, encontrarão grande sofrimento.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 15, 2016 10:33 am

Esses nossos irmãos precisam desenvolver intensa força interior para dominar seus impulsos, seus instintos inferiores, e desenvolver a auto-estima.
Piercing é uma espécie de brinco de material metálico, de diversos modelos e amanhos, como argolas, bolinhas etc., usada pendurada no nariz, na orelha, na língua, no umbigo e em muitas outras partes do corpo.
O objectivo de todo reencarne é o crescimento, a elevação de cada um como espírito, por isso Deus permite, em muitos casos, que criaturas mais equilibradas tenham a árdua tarefa de instruir e orientar, como entes queridos, aqueles que necessitam sair dos labirintos das tendências íntimas, auxiliando-os, estendendo-lhes misericórdia, amor, orientando-os para o bem.
Porém, é lamentável quando muitos desistem da tarefa.
Todavia, há aqueles que buscam as bênçãos do Pai Criador.
Era em momentos de preces que Lídia reunia forças interiores para agir naquela situação.
A chegada de Rodolfo interrompeu a discussão e fez com que Kássia se retirasse da sala com modos arredios.
Após cumprimentar a esposa, com o semblante aborrecido, pois já sabia do que se tratava o desentendimento entre mãe e filha, ele falou:
- Não sei mais o que faço.
- Dessa vez ela passou uma semana fora de casa - contou a mãe - e voltou desse jeito aí que você viu.
- Já tentamos de tudo.
Desde os melhores médicos até as mais diversas terapias.
Tratamentos de assistência espiritual, conversas e mais conversas.
- Se ela fosse às terapias...
Rodolfo não respondeu.
Ele calou as palavras, mas, em Pensamento, lamentou que conseguia falar e convencer a muitos, inclusive juízes e promotores, mas sua própria filha não o ouvia, não lhe dava atenção.
Aproximando-se do marido, Lídia revelou:
- Estive pensando muito na Regina.
- Porque a Regina? - estranhou o marido.
- Elas conversavam muito, tinham amizade.
Sei que a Regina tem um jeito todo especial de falar.
Após pequena pausa, considerou:
- Quem sabe?
- Há tanto tempo não ouço falar dela... - disse Rodolfo, esboçando um leve sorriso, enquanto o brilho de seus olhos anunciava uma doce saudade.
Se o Fernando tivesse pensado melhor...
- Acho que vou procurá-la - anunciou Lídia.
- Mas e o marido dela?
Creio que ele não vai gostar que Regina venha aqui.
Não, Lídia. É melhor pensar bem antes que arrumemos problemas para ela e para nós.
- É a nossa única alternativa, Rodolfo.
Não sei mais o que fazer.
Não posso abandonar a ideia de recuperar nossa filha.
- Pense bem, Lídia.
- Vou com cautela.
Procurarei por dona Glória.
Há tempos não conversamos e... bem, vou ver como posso falar.
Primeiro explicarei o meu problema.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 15, 2016 10:33 am

Apreensiva com a situação da filha, Lídia não tinha mais a quem recorrer; procuraria por Regina.
Essas eram suas últimas esperanças.
Com os dias, depois de ter telefonado para dona Glória, Lídia foi fazer uma visita à senhora.
Recebida com muito carinho, pois há tempos não se viam, Lídia conheceu os encantadores filhos de Regina.
Com cautela, a mãe de Fernando explicou a situação e o que a levou até ali querendo falar com a filha de dona Glória.
- Então é isso, Glória.
Eu e meu marido já tentamos de tudo.
Sem saber mais o que fazer, estou procurando por Regina.
Porém, se houver qualquer problema que possa interferir na sua vida de casada, não tem importância, entenderei totalmente.
Sentada à sua frente, paciente e compreensiva, dona Glória argumentou:
- Jorge é um bom marido para minha filha.
Eles vivem bem; não creio que haja algum problema.
Vou falar com Regina, sim.
Sei o que é procurar ajuda para um filho.
Ignorando o que se passava, Lídia falou:
- O Renato é um bom filho, a Regina então...! Nem se fala.
Você não tem com o que se preocupar.
Dona Glória ergueu lentamente o olhar, deu meio-sorriso e respondeu:
- O Renato é um bom filho, mas o vício que ele tem, não.
- O Renato?!
- Sim, Lídia. De uns tempos para cá...
A mulher desabafou contando tudo o que estava acontecendo e que Lídia ignorava.
- Mas quando isso começou? - interrogou Lídia.
- Não sei dizer.
A bebida alcoólica é algo feito um fantasma.
Entra em sua vida antes que você se dê conta.
Ela mata em vida nossos entes queridos.
Quando bebem, perdem o bom senso, a razão, o amor, a vergonha e entregam-se ao ridículo, à agressividade, à incapacidade e a tudo o que for vil, degenerativo e pobre.
- Já tentou algum grupo de apoio?
- Renato não admite ser alcoólatra.
Diz sempre que é a última vez e que vai parar, mas agora está bebendo mais e até durante a semana, o que não fazia.
Esses que dizem que podem parar a qualquer momento são os piores doentes do alcoolismo, não desconfiam de que estão indo ao fundo do poço, não procuram ajuda.
Porém, minha amiga - disse ao elevar um pouco o tom da voz como quem ganhasse novas forças -, não desistirei do meu filho, não!
Assim como você, creio que Deus tenha me dado essa tarefa porque confia em mim.
Só me afasto do meu filho no caso de ele se tornar agressivo.
Do contrário, mesmo que passe ridículo e tudo mais, vou procurar insistir para que procure ajuda e falar quantas vezes precisar.
- Isso mesmo, Glória.
Deus não coloca fardos pesados em ombros frágeis.
- Tenho fé. Acredito que uma hora meu filho vai se reconhecer como doente alcoólatra, procurar ajuda e recuperar-se.
- Glória! E se eu pedir ao Fernando que venha ver o Renato?
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Ave sem Ninho

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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 15, 2016 10:34 am

De repente, os dois conversando...
Eles sempre foram muito amigos!
Os olhos de dona Glória brilharam quando respondeu:
- Você não veio só pedir ajuda.
Creio que a trouxe também.
- Diga-me uma coisa, Glória, onde está aquela cachorrinha, a "Bolinha"?
- Ah, menina, nem me fala.
Ficamos chorando aqui por mais de uma semana quando ela amanheceu morta.
A coitadinha estava bem velha.
A "Bolinha" fazia parte da família.
A Regina chorou tanto!
As duas mulheres, bem esperançosas, conversaram muito a respeito do assunto, tecendo planos para um futuro melhor.
À noite, quando Regina foi pegar os filhos na casa da mãe, esta lhe contou a respeito de Lídia.
A moça ficou pensativa por alguns momentos, depois respondeu:
- Jamais pensei que a Kássia se desse a isso.
Estou admirada.
- Você vai falar com ela?
- Sim, vou.
Mas antes tenho de conversar com o Jorge.
Não quero encrencas com meu marido.
- Claro, filha. Fale com ele.
Mas e quanto ao Renato? O que você acha?
- E uma alternativa, né, mãe?
- Que Deus ajude o Fernando a convencê-lo.
Não sei mais o que fazer.
Mais tarde, já em sua casa, Regina prestava aos filhos os últimos cuidados do dia.
- Muito bem!
Agora que já escovaram os dentinhos, vamos ver quem chega primeiro na cama!
As crianças se prepararam, e ela falou:
- Já!
A pequena Amanda, agora com quase dois anos, sempre era a última.
- Eu ganhei! Eu ganhei! - gritava Denis, pulando.
- Viva! O Denis em primeiro e a Amanda em segundo lugar! - animava Regina.
Meus filhos são os melhores!
A pequenina sorria e batia palmas, enquanto o garoto pedia:
- Mamãe, conta uma historinha.
Ela os cobria e dizia:
- Vamos fazer o seguinte:
agora a mamãe não consegue se lembrar de nenhuma historinha bonita.
Mas sabe, quando estou tomando banho, sempre me recordo de muita coisa.
Então a mamãe vai lá para baixo do chuveiro lembrar de uma história, depois venho aqui contar para vocês dois.
Está certo?
Um tanto insatisfeitos, eles concordaram.
Regina os beijou com carinho, deixou a luz na intensidade que queriam e saiu do quarto.
Verificando a hora, observou que era tarde e reclamou em pensamento:
- Nossa! Já é essa hora, e o Jorge não chegou!
Cada dia é uma coisa diferente.
Não sei se isso vai dar certo.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 15, 2016 10:34 am

Após tomar um banho relaxante, foi para a cozinha e decidiu jantar.
Arrumou também a refeição do marido e foi lavar a louça, quando um barulho denunciou a chegada de Jorge.
Ele entrou sorridente e animado.
Mal a cumprimentou e foi logo contando:
- Fechamos negócio com duas escolas hoje!
Com exclusividade, vamos confeccionar os uniformes dos alunos.
- Que bom! - alegrou-se a esposa.
- A Selma é óptima!
Fez uma oferta irresistível aos colégios.
Tudo está indo de "vento em popa".
Depois de terem falado sobre os vários acontecimentos do dia, Regina decidiu falar sobre Lídia, que estava à sua procura por causa da filha.
Ela comentou também sobre o retorno de Fernando e da esposa para o Brasil.
Não queria esconder nada do marido.
Jorge ouviu atentamente e argumentou:
- Não é uma tarefa fácil.
Mas se você quiser tentar...
- Você não se importa?
- Não. Qual o problema?
Se bem que eu não gostaria que essa Kássia viesse se "enfiar" aqui em casa.
Sabe, para as crianças não seria um bom exemplo.
- Não a trarei aqui. Lógico que não.
Mudando de assunto, ela lembrou:
- Minha mãe está animada para que o Fernando converse com o Renato.
- Seu irmão não ouve a ninguém.
Só ele é quem tem razão em tudo. Sempre foi assim.
- Ah, não fale assim - aborreceu-se a mulher.
- É verdade. Quantas vezes já falei com ele, e o Renato não tomou jeito.
- Mas quem sabe...
- Quem sabe nada!
Enquanto ele não admitir que precisa de ajuda, tomar vergonha na cara e ir procurar uma associação, o Renato não vai parar de passar pelos ridículos por que passa; isso é safadeza!
Olha o que a sua mãe passa por causa dele.
Não é vergonhoso ir procurar ajuda e dizer "eu sou alcoólatra".
Vergonha é fazer o que ele faz.
Com jeito irónico e desdém no falar, argumentou:
- Mas seu irmãozinho é orgulhoso, egoísta.
Com jeito triste, Regina avisou:
- Oh, Jorge. Não fale assim, não.
O alcoólatra não é um sem-vergonha nem um safado que enche a cara.
É um dependente, sim. É um viciado, sim.
Só que a falta de conhecimento e o constrangimento o inibem.
- O Renato tem muito conhecimento, sim.
Não venha me dizer o contrário.
Se um colega lhe oferecer um aperitivo, ou o chamar para irem a um bar, ele não se recusa, mesmo sabendo qual vai ser o resultado.
Seu irmão sempre se acha dono da situação.
Nega o que é: um alcoólatra.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 15, 2016 10:34 am

Naquele momento, Regina pensava:
"Bem, se não fosse o safado do meu irmão para me arrumar um emprego, para nos emprestar dinheiro para pagar a casa e outras despesas, Jorge não estaria tão folgado assim, gabando-se de que os negócios estão dando certo."
Querendo mudar de assunto, ela pediu:
- Vamos deixar isso para lá, vamos?
- Ah! Fechamos negócio com aquela empresa de tecidos.
Teremos uma mercadoria de melhor qualidade a um preço menor.
Empolgado, Jorge passou um longo tempo contando à esposa o restante das novidades.
A conversa durou muito, até que o sono os arrebatou.
Alguns dias se passaram, e num final de semana Regina foi à casa de sua mãe.
As crianças brincavam no quintal, enquanto ambas conversavam.
- O Jorge foi logo cedo lá para a loja.
Alguém ia decorar a vitrine nesse final de semana.
Não pensei que tudo isso fosse dar tão certo.
O sector de confecções já está funcionando com seis costureiras.
E, observando o semblante triste de dona Glória, perguntou:
- O que foi, mãe?
Sem rodeios, a mulher revelou:
- Ontem o Renato chegou "de fogo".
Não sei como conseguiu dirigir até aqui em casa.
Ele passou mal e vomitou a noite inteira.
Nessa semana, não o vi chegar sóbrio em casa nenhum dia.
- Ele está no quarto? - perguntou a irmã ao se levantar imediatamente.
- Está, mas...
- Não se preocupe, não.
Vou conversar com ele agora mesmo.
Acho que isso já está indo longe demais.
Indo até o quarto do irmão, após leves batidas na porta, Regina entrou sem esperar que ele dissesse algo.
O moço estava de bruços e praticamente largado sobre a cama.
Ela abriu a janela e deixou que o ar fresco invadisse o recinto.
Renato se mexeu um pouco, sentindo-se incomodado com a luz, mas não disse nada.
Sentando-se a seu lado, a irmã passou a mão em sua cabeça, procurando despertá-lo.
Vendo-o mexer-se um pouco mais, Regina perguntou:
- Onde você foi ontem?
Com a voz rouca, falando quase balbuciando as palavras, ele respondeu:
- Saí com uns colegas.
- Quer tomar um café?
- Não.
- Quer água?
- Não.
- Você está bem, Renato?
- Preciso dormir.
- Não! Você não precisa dormir coisa nenhuma.
Aproveite esse momento em que não está se sentindo bem pela ressaca e veja como a bebida lhe faz mal!
- Ora, Rê...
- Renato! Se tivesse controle sobre o que bebe ou sobre o que deixa de beber, você não estaria assim!
Não teria passado mal tantas vezes.
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Re: O DIREITO DE SER FELIZ - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 15, 2016 10:34 am

Enérgica, ela prosseguiu depois de certa pausa:
- A pessoa que tem controle sobre o álcool sempre diz:
"Chega! Não quero mais! E não mesmo!"
Aquelas que sempre ficam embriagadas e não sabem nunca dizer "chega" são alcoólatras.
É o pior alcoólatra é aquele que não admite ser.
Renato remexeu-se e sentou-se na cama.
Esfregando o rosto com as mãos, ficou com o olhar perdido em qualquer direcção.
Firme, a irmã continuou:
- Essa não é a primeira vez nem a segunda.
Podemos dizer que perdemos as contas de quantas vezes você encheu a cara e só Deus sabe como chegou em casa.
É hora de admitir que você não se controla quando bebe!
- Ora, Rê...
- Agora você vai me escutar.
A mãe não está mais na idade de aguentar bêbado.
E eu acho que você é muito capacitado para ficar assim.
- Quer que eu saia daqui de casa?
Quer que eu vá embora e deixe a mãe sozinha?
- Não foi isso o que eu disse.
Você é um bom filho, trabalhador, óptimo profissional na sua área, porém é imaturo e orgulhoso quando não admite que precisa de ajuda, que precisa de um tratamento.
Nunca Regina havia sido tão severa com o irmão.
Veemente, dizia tudo o que precisava.
Enquanto isso, naquele mesmo momento, na espiritualidade, espíritos inferiores tentavam influenciar Renato, a fim de que ele reagisse contra as colocações da irmã.
Esses mesmos espíritos inferiores, quando encarnados, eram viciados no álcool e praticavam, sob seu efeito, as atitudes mais deprimentes para si e para outrem.
Agora, sem o corpo de carne, ainda estavam desejosos, verdadeiramente loucos, para experimentar as antigas sensações que viviam, quando encarnados, sob o efeito de bebidas alcoólicas.
Não podendo mais ingerir tais substâncias, ligavam-se a irmãos encarnados que, como Renato, não se dominavam e entregavam-se ao consumo de álcool.
Aquele que ingere bebidas alcoólicas sempre traz consigo, constantemente, companheiros espirituais infelizes, de baixo valor moral, sem evolução.
Por esse constante contacto entre encarnado e desencarnado, o nível de pensamento e as vibrações eram de uma só sintonia tanto no caso de Renato como de incontáveis alcoólatras.
E assim os desejos ardentes dos desencarnados que ansiavam vorazmente por bebidas alcoólicas eram direccionados em forma de pensamentos ininterruptos, de maneira frenética, ao encarnado, que aceitava as ideias como se fossem somente suas, sem perceber, sem nem sequer sentir que, naquele seu desejo incontrolável de beber, havia, também, a vontade do desencarnado ignorante, sofredor e talvez até cruel.
Infelizmente, com o passar do tempo, se o encarnado não se limitar e abster-se do vício, terá grande chance de se deixar levar por outros tipos de pensamentos e atitudes de espíritos violentos, praticando actos indignos, imorais, cruéis, irresponsáveis, ou então de acabar se entregando ao total desleixo, chegando à indigência.
É por isso que na grande maioria dos actos violentos e bárbaros o indivíduo está sob o efeito de álcool ou de drogas.
Não que a culpa por um crime hediondo ou violento seja totalmente pelo assédio de espíritos inferiores.
O que acontece é que a afinidade do alcoólatra ou do usuário de droga com espíritos cruéis e inferiores é muito grande, e estes certamente tiveram um passado criminoso, em que praticaram barbaridades, e, por estarem desencarnados, têm imagens tenebrosas e constantes do que realizaram.
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